0% acharam este documento útil (0 voto)
92 visualizações111 páginas

Combate na Praia: Major Wala vs. Marines

O Major Wala, dos Soldados do Futuro, enfrenta uma companhia de fuzileiros navais desarmados em uma praia, demonstrando seu poder ao derrotar os soldados sem usar armas. Após a morte de vários marines, Wala revela que sua vitória é uma demonstração do poder dos Soldados do Futuro, deixando os oficiais da Marinha sem reação. O capítulo termina com a introdução de Charles Pitzer, da CIA, que chega a um apartamento onde uma dança exótica ocorre, sugerindo um ambiente de espionagem e intrigas.

Enviado por

adegue73
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
92 visualizações111 páginas

Combate na Praia: Major Wala vs. Marines

O Major Wala, dos Soldados do Futuro, enfrenta uma companhia de fuzileiros navais desarmados em uma praia, demonstrando seu poder ao derrotar os soldados sem usar armas. Após a morte de vários marines, Wala revela que sua vitória é uma demonstração do poder dos Soldados do Futuro, deixando os oficiais da Marinha sem reação. O capítulo termina com a introdução de Charles Pitzer, da CIA, que chega a um apartamento onde uma dança exótica ocorre, sugerindo um ambiente de espionagem e intrigas.

Enviado por

adegue73
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

© 1972 – LOU CARRIGAN

Los Soldados del Futuro


Ilustração de Benicio
® 411207 – 420118
COMBATE NUMA
PRAIA SOLITARIA

Adversários:
Major Wala, no. AM-0023 dos Soldados do futuro e uma
Companhia de Infantes da Marinha de Tio Sam

Entre as palmeiras, perto da praia, estavam três jipes


ocupados por oficiais de alta patente da Marinha americana.
Um pouco mais além, à espera do adversário, postavam-se
os homens que formavam a companhia de marines. De
acordo com o combinado, ninguém portava armas. Ouvia-se
apenas o rumor do mar, enquanto, sem dúvida, os fuzileiros
deviam perguntar-se que espécie de adversário era aquele
tal Major Wala, que se atrevia, sozinho, a enfrentar uma
companhia inteira, desarmado...
O zumbido de um helicóptero fez com que se
levantassem todas as cabeças. Proveniente do mar, apareceu
o aparelho, que, segundos depois, pousava na areia, a
escassa distância das palmeiras, mas bem longe de onde se
encontravam os marines e seus oficiais.
Se esperavam contemplar um ser extraordinário, ficaram
completamente frustrados, O homem que saltou do
helicóptero era normal em tudo; exceto, sem dúvida, no
tamanho de sua cabeça. Tamanho que não era devido a um
capacete ou qualquer outro artefato de proteção... Aquele
homem era cabeçudo, simplesmente.
Caminhou com perfeita tranqüilidade até colocar-se de
costas para o mar, quase metendo os pés neste, de modo que
a distância entre ele e a companhia de fuzileiros navais era a
máxima possível na solitária praia do litoral atlântico dos
Estados Unidos.
Quando falou, sua voz foi também normal, nítida,
claríssima; e suas palavras foram bem compreendidas:
— Sou o Major Wala, número AM-0023, dos Soldados
do Futuro, sob as ordens do Generalíssimo Napoleão.
Considero-me obrigado a prevenir-lhes que o combate está
antecipadamente perdido e que fariam muito bem se
empunhassem uma bandeira branca. Assim, eu não teria
necessidade de demonstrar meu poder matando vários, ou
todos.
Houve uns segundos de silêncio. Por fim, um oficial
adiantou-se para o cabeçudo e ameaçador Major Wala.
— Se o deseja — disse em voz alta —, pode examinar
todos os homens da companhia: nenhum porta armas de
nenhuma espécie, de acordo com o combinado. Agora,
queremos ter a certeza de que tampouco o senhor trouxe
armas, Major Wala. Posso revistá-lo?
— Faça-o.
O oficial americano aproximou-se de Wala, sob o olhar
expectante de todos os homens reunidos na praia. Durante
três minutos, esteve revistando conscienciosamente o
cabeçudo. Por fim, deu-se por satisfeito.
— Obrigado, Major — murmurou. — Tudo conforme o
combinado.
— Permito-me insistir em que empunhem a bandeira
branca — disse Wala, secamente.
O oficial olhou-o, viu o brilho intensivo daqueles olhos
escuros, insondáveis, e sentiu que estremecia. Moveu
negativamente a cabeça e afastou-se, tornando a reunir-se
com os outros oficiais.
— Não porta arma alguma, tenho absoluta certeza —
murmurou. — É impossível que esse homem sozinho possa
vencer uma companhia de marines
— Não esqueçamos o ocorrido com os dois senadores —
murmurou outro oficial. — O fato de que não porte armas
não significa que não possa matar. Não com as mãos. Mas
todas sabemos que os Soldados do Futuro dispõem de um
sistema de matar desconhecido ate agora. Talvez tosse
conveniente cancelar este combate...
— Viemos aqui justamente para que o combate se
realize — protestou outro. — E justamente para ver e, se
possível, obter essa arma nova e invisível que os Saldados
do Futuro utilizam. Voto pela realização do combate. Aliás,
nenhum voto é necessário. Todos estamos dispostos a
enfrentar o que quer que seja para descobrirmos essa nova
arma.
— De acordo. Adiante, pois. Que comece o combate.
Capitão Samuels: faça a sua companhia avançar contra esse
Major Wala, para aprisioná-lo.
O atlético capitão dos marines saudou energicamente e
foi colocar-se à frente da sua companhia, sentindo-se um
pouco ridículo por ter que dirigir um ataque em regra contra
um homem sozinho, que nem sequer dispunha de armas. A
sensação de ridículo aumentou de tal modo, que, por fim,
após breve hesitação, ele chamou:
— Sargento Rogers!
— Às ordens, Capitão! — perfilou-se o sargente, diante
dele.
— Leve quatro homens e capture nosso inimigo, o
Major Wala.
— Sim, senhor!
O Sargento Rogers fez continência, virou-se para a
companhia e indicou quatro homens, que deram um passo
em frente. Encabeçando-os, dirigiu-se em passo decidido
para o imóvel adversário, O pequeno grupo ainda estava a
uns vinte metros do Major Wala, quando o Sargento Rogers
lançou um grito, levou ambas as mãos à cabeça e caiu como
fulminado, de bruços. Houve um movimento de hesitação
entre os quatro marines, mas prosseguiram avançando pela
areia.,
O primeiro da direita caiu, sem sequer lançar um grito,
mas levando também as mãos à cabeça. Imediatamente,
caiu o segundo, o terceiro... O quarto estava a menos de
cinco metros do Major Wala, quando de súbito fez meia-
volta, disposto a afastar-se a toda a pressa, dando rédea
solta a seu assombro... Não pôde afastar-se nem dois passas:
também levou as mãos à cabeça e caiu de bruços.
O mar continuava lambendo a areia e os pés do Major
Wala afundavam nesta.
Durante uns segundos, primeiro a perplexidade e depois
o pânico de tal modo se apoderaram dos americanos, que
ninguém foi capaz de mover-se. Por fim, o Capitão Samuels
aproximou-se de seus homens caídos e examinou-os um por
um. Quando terminou, foi postar-se ante seus superiores.
— Os cinco estão mortos — informou, num fio de voz.
A ordem que recebeu fê-lo estremecer da cabeça aos
pés:
— Prossiga o ataque com o restante de seus homens,
Capitão Samuels.
Engoliu em seco.
— Prosseguir o ataque? Mas creio que, como
demonstração dessa nova arma que os Soldados do Futuro...
— Recebeu uma ordem, Capitão: cumpra-a.
— Sim, senhor!
Tornou a saudar, colocou-se à frente de sua companhia e
ergueu a mão.
— Soldados, ao ataque! — gritou, com voz aguda.
Mal acabava de dar a ordem, levou as mãos à cabeça e
caiu fulminado diante dos primeiros marines, que se
dispunham a passar ao ataque contra um homem sozinho. A
queda de seu capitão deixou-os paralisados, até que o mais
próximo a ele inclinou-se e virou-o.
— Está... está morto...
O Sargento Quimby, do segundo pelotão, adiantou-se,
disposta a encarregar-se do comando.
— Avante! — gritou. — Temos que aprisionar nosso
inimigo!
Era algo entre patético e ridículo. Ainda com o grita nos
lábios, virou-se para o imóvel e imperturbável Major Wala
dos Soldados do Futuro e iniciou a aproximação a passo de
carga... Percorreu seis ou sete metros sem que lhe
acontecesse nada e os marines optaram por lançar-se atrás
dele. Tão logo este movimento de ataque se tornou geral, o
Sargento Quimby levou as mãos à cabeça e caiu de bruços
sobre a areia. Um dos marines soltou um grito de espanto,
um segundo antes de cair também fulminado. No instante
seguinte, outro marine caiu e seus companheiros fizeram
meia-volta, pondo-se a correr para as palmeiras, enquanto
num dos jipes era erguida a bandeira branca. Embora,
talvez, não tão branca como os rostos dos homens que
haviam a seu redor.
Os marines ainda estavam correndo por entre as
palmeiras, quando, para espanto dos altos oficiais da
Marinha americana, o Major Wala, começou a caminhar
para eles. Ninguém soube reagir. Ou ninguém pôde.
Por fim, Wala deteve-se a curta distância dos jipes.
— Deviam ter-se rendido antes de obrigar-me a matar
esses homens. Entretanto, a morte deles não me preocupa:
ao contrário, me agrada. Espero que os senhores se tenham
convencido de que ninguém poderá vencer os Soldados do
Futuro e que, portanto, quando nosso chefe Napoleão, o
Generalíssimo, enviar a agente “Baby” da CIA para
entender-se com o Presidente dos Estados Unidos, este será
tão razoável quanto minha demonstração o obriga a ser. A
agente “Baby” tem instruções concretas que levará ao
Presidente e nós estaremos esperando a resposta. Agora
regressarei à minha base, com o helicóptero. Se algum dos
senhores tem Intenção de reter-me para descobrir qual é a
arma dos Soldados do Futuro, sugiro-lhes que abandonem
essa idéia, pois o único modo de reter-me seria matando-
me, o que não lhes aconselho, para seu próprio bem.
Alguma dúvida, senhores?
Não houve resposta.
Wala esperou cortesmente uns segundos. Depois, sem se
alterar, sem revelar a menor preocupaçao, dirigiu-se para o
helicóptero.
Segundos depois, o aparelho desaparecia na distância,
sobre o mar, levando o vencedor indiscutível daquele
combate numa praia solitária da costa atlântica norte-
americana; o Major Wala, número AM-0023 dos Soldados
do Futuro, sob as ordens do Generalíssimo Napoleão.

CAPITULO PRIMEIRO
Sem pressa, para não perder tempo

Quando se abriu a porta do luxuoso apartamento,


Charles Pitzer ouviu a música que chegava do interior,
provavelmente do living. Por pouca imaginação que alguém
tivesse, aquela música o transportaria imediatamente aos
Mares do Sul.
— Oh, mister Pitzer... — saudou Peggy. — Boa-tarde.
Veio sem chapéu?
— Está muito calor — resmungou o chefe do Setor
Nova Iorque da CIA. — Que música é essa?
— É um cassette Se miss Montfort me trouxe do Taiti.
— Ah...
— É uma música simpática, não?
— Sim, sim. Ela está?
— Sim, senhor — Peggy riu.
Pitzer lançou um olhar torvo à linda e fiel empregadinha
da agente “Baby”. Às vezes, pensava que Peggy, como sua
patroa, tinha aprendido a zombar dele, coisa que não o
deixava de muito bom humor.
De cara feia, foi atrás dela em direção ao living daquele
estupendo apartamento da Quinta Avenida nova-iorquina. A
medida que avançava, logicamente, ia ouvindo a música
com inale força, o que contribuiu para que melhorasse sua
carranca. Era uma música simpática, realmente. Sugestiva,
cadenciada, como... Sim, como cheia de alegria de viver.
Quando entrou no living, ficou assombrado.
E não era para menos.
Ao som da música taitiana, ataviada com uma saia de
ráfia e um corpinho colorido, com algumas. flores na cabeça
e uma presa entre os dentes, dançava a mais bela nativa do
mundo, cabelos soltos, braços fazendo movimentos
ondulantes, quadris ondulando mais ainda, com tão
acentuado e candente ritmo, que o pobre velhote sentiu-se
sufocar. Teve muita sorte, pois o mais natural seria que o
acometesse uru enfarte.
Ficou plantado na entrada do living, boca aberta e olhos
arregalados ante a beleza daquela formosíssima vahiné de
pele dourada como os raios da mais luminosa primavera.
Até que finalmente, ao contemplou uma de suas voltas, a
vahiné o viu e deteve-se. Depois, obsequiou-o com um
delicioso sorriso de boas-vindas.
— Olá, tio Charlie! — saudou-o alegremente. Frank
Minello, o mais íntimo amigo da espia mais fabulosa de
todos os tempos e seu colega de trabalhos jornalísticos no
Morning News, teve um sobressalto ao ouvir a saudação.
Estivera sentado no tapete, pernas cruzadas, batendo palmas
ao ritmo da música. Pareceu que um iceberg acabava de lhe
cair em cima.
Virou-se lentamente e ficou como quem vê confirmados
seus temores. Afinal, protestou:
— Meu Deus, Não...! Agora, não! — fez umas cruzes no
ar, como se rompendo um feitiço. — Vade retro, satanas!
Pira! Desaparece!
Brigitte Montfort pôs-se a rir, divertidíssima, enquanto
Pitzer dirigia um olhar cheio de ódio ao comentarista
esportivo.
— Qualquer dia, Minello — ameaçou —, mandarei um
de meus homens assassiná-lo. Não estou brincando... — e
não parecia mesmo.
Frank Minello não fez o menor caso da ameaça.
Continuou com seus passes mágicos, em pleno exorcismo.
— Vá-se embora, espião... Ninguém o chamou aqui,
decrépito desmancha-prazeres...
— Entre, tio Charlie — tornou a sorrir Brigitte. — Não
fique ai, parado, homem. Quer tomar suco de abacaxi na
própria casca da fruta? Com gelo, um pouquinho de vodca
e...
— Vejo — resmungou Pitzer — que vocês agora deram
para se entregar à orgia. Sabem viver, não há nenhuma
dúvida quanto a isso.
— O velho vampiro chama qualquer coisa de orgia —
comentou belicosamente Minello. — O dia em que eu
resolver achar ruim...
— Quietos, quietos... Que haja a paz entre meus amigos.
E saiba que não se trata de nenhuma orgia, tio Charlie:
estava apenas mostrando ao Frankie como dançam as
nativas de Taiti e como trouxe esta saia e...
— Trago eu um filme que você deve ver sem demora —
cortou um tanto secamente Pitzer.
— Se é de Tom & Jerry, eu fico — exclamou Minello.
— Não é de Tom & Jerry e, claro, você não fica —
desencantou-o Pitzer. — Este assunto não lhe interessa,
Minello.
— Puxa vida! Se não é de Tom & Jerry, deve ser de
espionagem! — declarou o jornalista. — Fico! Ora se fico!
Não é mesmo, Brigitte?
— Claro que sim, querido.
— Ai! Ela me chamou de “querido”! — Minello fez cara
de êxtase, antes de derrubar-se sobre o tapete. — Me
chamou de “querido”! Agora já posso morrer!
— Se fosse verdade... — murmurou azedamente Pitzer.
— Ouça! — Minello sentou-se rapidamente. — Fica
avisado de uma vez por todas, velhote...!
— Peggy — cortou Brigitte —, sirva um pouco disso ao
tio Charlie e fecha as cortinas. Enquanto você toma o seu
refresco e prepara o projetor, termino meu bailado, tio
Charlie. Va bene?
E continuou dançando. Sã que, naturalmente, Charles
Pitzer nem sequer pôde beber o que lhe serviu Peggy, nem
muito menos se dedicar a preparar o projetor, pois todos os
seus sentidos estavam pendentes da belíssima criatura que
dançava como se a acompanhassem os anjos, como se toda
a música do mundo estivesse vibrando em seu corpo, como
se...
— Tio Charlie! — Brigitte estalou os dedos. — Que é
que há?
— Hem...? Que...?
— Eu já terminei. Vemos esse filme ou não?
— O quê?
— O filme de espionagem, velho baboso — riu Minello.
— O filme de...? Oh, sim! Agora mesmo!
— Não deixa de ser engraçado... — murmurou Minello.
— O velho abutre também aprecia a beleza, ao que parece.
Peggy, meu amor, traga-me outra destas cascas de abacaxi
cheia de qualquer coisa, sim?
— Seria melhor que os dois saíssem daqui, Brigitte —
sugeriu Pitzer.
A maravilhosa espiã olhou-o fixamente.
— Tio Charlie, durante minha vida profissional,
fizeram-me de tudo, padeci atrozmente, fui traída,
enganada, vendida... Mas está bem, já passou. Entretanto, o
dia em que Peggy e Frankie deixarem de ser pessoas de
minha confiança, é bem possível que me suicide.
Compreende, tio Charlie?
— Enguia essa! — riu Minello. E sem açúcar, vampiro!
Minutos depois, o living convenientemente às escuras, a
primeira imagem do filme aparecia na pequena tela portátil
que Peggy armara numa parede. Havia um estrado e, sobre
ele, vários homens, um dos quais ocupava o centro. À sua
frente, uma dezena de microfones. Diante do estrado, que
parecia uma ampla tribuna, um numeroso público, em nível
mais baixo, evidentemente à espera de um discurso, ou algo
parecido.
— Estamos azarados! — protestou Minello. — Depois
dos Mares do Sul, um sórdido discurso! Estava escrito que
esse velho careca...
— Silêncio, Frankie, por favor — pediu suavemente
Brigitte.
O filme já estava em movimento, O homem que tinha à
frente os microfones sorria. A câmara moveu-se, mostrando
os arredores. Por toda a parte, viam-se grandes cartazes com
o nome do Estado de Iowa e, sem dúvida, o do homem que
ia falar: Norman Sutter. Havia policiais e, além destes,
muito bem distribuídos, uns vinte homens de olhar
vigilante, como se temessem alguma coisa. Homens cuja
profissão Brigitte logo compreendeu: agentes do serviço
secreto americano. Quer dizer, seus queridos Johnnies.
— O filme é mudo? — perguntou ela.
— É; o discurso não vem ao caso. Mas, se quiser, depois
lhe entregarei uma gravação dele — disse Pitzer. — Esse
homem, como terá concluído, chama-se Norman Sutter,
senador pelo Estado de Iowa. Está preparando sua
reeleição...
— Não se pode dizer que. durma no ponto — comentou
Minello.
— O filme foi feito há três dias, quando você ainda
estava no Taiti — continuou Pitzer, imperturbável, como se
ali só estivesse Brigitte Montfort. — Dois dias antes, fora
recebida na [Link] uma mensagem, por meio da qual
um individuo exigia do Presidente Nixon que colocasse à
sua disposição todo o Exército dos Estados Unidos...
— Quê, quê, quê...? — saltou Minello.
— Cale-se, Frankie.
— Ou seja, para sermos exatos — prosseguiu Pitzer —,
esse sujeito exigia o comando de todas as nossas forças: de
terra, mar e ar. Em sua mensagem, indicava claramente que
era o único capaz de dirigir todo o poderio militar não só
dos Estados Unidos, mas também, em futuro próximo, de
todo o mundo. Exigia do Presidente uma resposta afirmativa
duas horas mais tarde, difundida por várias cadeias de rádio
de todo o país. Naturalmente, Mr. Nixon não fez o menor
caso dessa mensagem chegada pelo correio comum e com a
Indicação “Pessoal — Para o Presidente dos Estados
Unidos”. Dois dias após, nova mensagem chegou à Casa
Branca. Nela dizia-se que, como o Presidente não dera
resposta afirmativa à lógica solicitação de quarenta e oito
horas antes, ia-lhe ser demonstrado o poder dos soldados do
futuro...
— De quê? — perguntou agora Brigitte.
— Dos soldados do futuro — viu-se Pitzer sorrir
friamente ao reflexo do projetor. — Na mensagem,
informava-se o Presidente de que um só dos soldados do
futuro ia fazer uma demonstração dentro de uma hora,
assassinando Norman Sutter, que se dispunha a pronunciar
um discurso pré-eleitoral. Ao que parece, Mr. Nixon esteve
tentado a ignorar também esta mensagem, mas, pensando
poder tratar-se de ameaças e atividades de um louco,
resolveu, num ato de bom senso, não pôr em risco a vida de
Norman Sutter. Assim, mandou lá mais policiais e uma
vintena de agentes do serviço secreto, para protegerem
Sutter de um possível atentado. Agora, não perca nenhum
detalhe do filme, Brigitte.
O filme continuara sendo projetado, mostrando Norman
Sutter com seus gestos enérgicos, seus sorrisos, suas pausas
em que ornava para todos os lados, como esperando
aplausos e a aprovação de suas palavras. Vez por outra, o
público aplaudia e os cartazes eram agitados com
entusiasmo.
O olhar azul de Brigitte Montfort, atento, ia de um lado a
outro da pequena tela, escrutando todos os detalhes. Pitzer
sabia muito bem que nem um só escaparia àqueles olhos tão
amáveis em certas ocasiões, tão gélidos em outras.
— Quem fez este filme? — perguntou ela, de súbito.
— Há outro, tomado de outro ângulo; também o tenho
aqui, pois talvez você queira estudá-lo depois... Ambos
foram feitos por agentes do serviço secreto, pois mais tarde
poderia convir dispor de informações sobre os movimentos
de cada uma das pessoas que compunham o público...
Agora, vai chegar o momento! Preste bem atenção...
Na tela, Norman Sutter continuava a gesticular,
sublinhando com energia suas palavras. Súbito, ficou
imóvel, com a boca aberta, e seus olhos se arregalaram
numa expressão de dor infInita, tão visível, tão evidente,
que Brigitte sentiu-se estremecer. Durante um momento, o
homem esteve assim. Depois, levou as mãos à cabeça... e
caiu fulminado.
— Acaba de morrer — disse Pitzer, em tom impessoal.
— Ninguém fez nenhum disparo. Não há a menor prova de
agressão contra ele. Este filme e o outro foram examinados
numerosas vezes. Também os agentes do serviço secreto e
os policiais foram interpelados a respeito; nenhum viu nada.
Ninguém, absolutamente ninguém, fez o menor gesto de
agressão. Tudo estava sob controle... E, decerto, Norman
Sutter não foi agredido de um modo... direto. Não tinha em
todo o corpo o mínimo sinal de ferimento. Foi examinado
tão minuciosamente como uma amostra de pó lunar. Mão
havia nada nele que tivesse podido ocasionar-lhe a morte.
Naturalmente, a água que estivera bebendo foi analisada,
com resultado negativo: água pura, sem o menor traço de
veneno. Sua pele, em todos os lugares, estava intacta, pelo
que não me dispararam nenhuma agulha envenenada, ou
algo assim. Em suma, para não cansá-la, direi qual foi o
pronunciamento final de todos os médicos que intervieram
no exame do cadáver:
Norman Sutter morreu porque havia chegado a sua hora,
simplesmente. Não encontram nenhuma outra explicação.
— Um colapso, talvez? — perguntou Brigitte.
— Não, não, não... Nada. Morte natural... e fulminante.
Se não o tivessem ameaçado de morte para fazer uma
demonstração, o caso já estaria em vias de esquecimento.
Morte natural e nada mais que isto.
— Entretanto, já que houve uma ameaça, temos que
pensar que foi assassinato, de um ou de outro modo.
— Sim — assentiu Pitzer. — Mas... como?
— Pode ser pura casualidade... — começou Minello.
— Que me diz desse soldado do futuro? — interessou-se
Brigitte, sem fazer caso do colega jornalista.
— Bem... seja quem for, não foi visto por lá. Pelo
menos, não usava um uniforme...
— Compreendo. Mas devemos pensar que esse soldado
do futuro lá estava e que assassinou Norman Sutter. Ou
não?
— Sim — murmurou Pitzer. — No dia seguinte, o
Presidente recebeu outra mensagem, que o fez refletir sobre
o ocorrido e a solicitação de que todo o poderio militar
fosse colocado sob as ordens de Napoleão...
— Como diz? — saltou novamente Minello.
— De quem? — perguntou Brigitte.
— De Napoleão — viu-se Pitzer sorrir outra vez,
duramente. — Assim assina suas mensagens o homem que
pede o comando supremo de todas as forças americanas.
— Oh-oh...! Um maluco! — exclamou Minello.
— Napoleão Bonaparte? — insistiu Brigitte.
— Não, nada de Bonaparte — grunhiu Pitzer —: ele
assina Napoleão, simplesmente. Claro, tem que se tratar de
um maluco; por esta vez, estarei de acordo com Minello.
Sim, deveria tratar-se de um maluco, mas... um senador já
morreu e esta noite toca a vez a outro...
— Ele ameaçou matar outro homem? — indagou
Brigitte.
— Esta mesma noite, no Central Park de Atlantic City.
A nova vítima, também um senador, chama-se Wallace
Mortensen. E também se dispõe a pronunciar um discurso.
— Quer dizer — murmurou Brigitte — que as
circunstâncias vão ser aproximadamente as mesmas.
— Assim é.
— Bom... Suponho que deverei ir pensando em
deslocar-me o mais velozmente possível a Atlantic City.
Pitzer sorriu astutamente.
— Johnny virá buscá-la com o helicóptero no terraço
deste edifício, tão logo você esteja pronta.
— Já tinha tudo previsto, bem? — grunhiu Minello. —
Pois esta vez eu vou com Brigitte... E não esperem deixar-
me com um nariz de dois palmos, como no outro dia!1
— Acho que ele não deve acompanhá-la, Brigitte —
disse Pitzer. — Mas, se querem mesmo arranjar
complicações... Esse indivíduo só lhe trará aborrecimentos.
— Ouça, morcego sem asas...!
— Calma — recomendou Brigitte. — Por esta vez,
permitirei que me acompanhe, Frankie. Mas você será
obediente como um menino bem educado.
— Juro! — prometeu ele, alegremente.
— Bom... — resignou-se Pitzer. Vocês que se arranjem.
Quer que eu mesmo chame Johnny para que venha buscá-la,
Brigitte?
— Não. Ainda temos tempo, tio Charles. Devem ser seis
horas e de helicóptero levaremos apenas uma hora para

1
Ver NO LIMIAR DO ESPAÇO
chegar a Atlantic City. Deixe-me ver este filme... e o outro.
Quero estudá-los detidamente antes de ir lá.
— De acordo — Pitzer tirou uma pequena caixa
redonda, metálica, de sua pasta. — Este é o outro filme.
Oxalá você consiga alguma coisa com qualquer deles.
— Claro que é uma jogada dos russos — adiantou
Minello.
— Ora vamos, Frankie... — protestou Brigitte. —
Sempre a culpa de tudo é dos russos e isso não me parece
justo. Afinal de contas, eles sãO tão bons rapazes como os
nossos Johnnies e têm o direito de espionar em beneficio da
Rússia. Por isso, quando se portam como é devido,
inclusive os ajudo. No Taiti, justamente, salvei a vida de um
deles e estive cuidando-o até vê-lo fora de perigo.
— Isso você não disse em seu relatório gravado para a
Central — resmungou Pitzer.
— Tampouco disse que tomo banho, e faço-o todos os
dias.
— Mulher! — saltou Minello. — Eu podia ser seu
toalheiro.
— Meu quê?
— Seu toalheiro. Ficaria esperando junto da banheira
que você terminasse seu banho, para lhe dar a toalha e
ajudá-la a se enxugar. Poderia também lhe aplicar talco e...
Pitzer soltou um bufo de indignação.
— A que horas mando-lhe Johnny com o helicóptero,
Brigitte? — perguntou.
— Às oito. Assim, disporei de duas horas para estudar
os filmes — riu ela, ainda divertida com o oferecimento de
Frank Minello. — E às nove estarei em Atlantic City.
Suponho que, além de incumbir-me do estudo destes
estranhos acontecimentos, tenham sido tomadas as medidas
oportunas, tio Charlie.
— Claro. Este senador estará vigiado e protegido ainda
mais que o outro: ninguém lhe poderá fazer nada.
Impossível!
— Os russos são muito espertos — repisou Minello.
— Vá para o inferno!
— Não devemos tampouco descartar as suspeitas de
Frankie, tio Charlie — murmurou Brigitte. —
Naturalmente, tudo isto deve se~ obra de um louco, de um
tarado. Mas não se pode negar que os russos pagariam
qualquer preço para poder controlar todas as forças
militares dos Estados Unidos.
— Só lhe direi que é preciso estar realmente maluco e
chamar-se de verdade Napoleão para pretender que o
Presidente dos Estados Unidos ponha todo o nosso poderio
bélico nas mãos de... quem quer que seja. E me parece que
o louco sou eu, só por falar disto! Nunca em minha vida
ouvi barbaridade semelhante!
— Nem eu tampouco — sorriu Brigitte. — Que
sabemos, de concreto, sobre esses... soldados do futuro?
— Nada de nada. Apenas que, se devemos acreditar
nesse Napoleão, um foi por ele enviado e, apesar de toda a
vigilância, sem se pôr em evidência e sem deixar sinal
algum no corpo de Norman Sutter, pôde matá-lo e escapar
tranqüilamente.
— Então, quem sabe se esse atual Napoleão não é
mesmo um verdadeiro gênio? — brincou Brigitte.
— E quem sabe se ele não descobriu o meio de tornar
invisíveis seus soldados? — exagerou Minello.
Pitzer soltou outro de seus bufos e dirigiu-se para a porta
do living.
— Como nada mais lhe posso dizer sobre os filmes e o
ocorrido, vou embora... — resmungou. — Tenho assuntos a
atender na floricultura. As oito em ponto, Johnny pousará
no terraço.
— Adeus, tio Charlie... Ah, um momento, quase me
esquecia...! Peggy: quer entregar ao tio Charlie o envelope
que pretendia enviar-lhe amanhã cedo?
Segundos depois, Pitzer tinha nas mãos um envelope
cor-de-rosa.
— Que é?
— Uma mensagem que quero que a Central da CIA
envie ao MVD soviético.
— Uma mensagem... de que espécie?
— Estritamente pessoal. Mas, como de qualquer modo
você a terá que ler para transmiti-la pelo rádio, pode fazer
isto aqui mesmo, se desejar.
Pitzer assentiu com a cabeça, aproximou-se da janela,
afastou um pouco a cortina e tirou do envelope uma folha
de papel também cor-de-rosa. Leu:
Ao MVD:
Sinceramente penalizada pelo falecimento dos três
heróicos astronautas soviéticos, peço-lhes aceitar minhas
condolências e transmiti-las a seus familiares, juntamente
com meus sentimentos de pesar pelo acidente a todo o
pessoal científico russo.
Atenciosamente,
“Baby”
— Espero — murmurou Pitzer — que isso não seja
considerado uma zombaria.
— Uma zombaria de minha parte? — Brigitte moveu
negativamente a cabeça. — Pode estar certo de que não, tio
Charlie.
— Bem... Transmitirei sua mensagem à Central. Adeus.
Quando ficaram sozinhos, Brigitte pôs novamente em
marcha o projetor, repassando o filme.
— Acho bem mais interessante os de Tom & Jerry —
afirmou Minello.
— Eu também — sorriu friamente a mais astuta espiã do
mundo. — Mas este é o que temos que ver agora, Frankie.
Aí, entre essas pessoas, há um assassino, um... soldado do
futuro. E precisamos identificá-lo. Sem pressa, para não
perder tempo: às oito em ponto, virá o helicóptero.
***
As dez em ponto da noite, no Central Park de Atlantic
City, o senador Wallace Mortensen iniciou seu discurso pré-
eleitoral, como dias antes fizera seu colega Norman Sutter.
Diante dele, aglomerava-se um público atento a suas
palavras. Por toda a parte, policiais e agentes da CIA,
vigiando rigorosamente o lugar e seus arredores. A rede era
perfeita: ninguém poderia levar a termo qualquer atividade
estranha sem ser imediatamente detectado por dezenas de
olhos.
Dos quais, sem dúvida alguma, os mais formosos eram
os de certa garota que havia conseguido um dos melhores
postos de observação. Aqueles olhos esplendidamente
azuis, belíssimos, deslocavam-se metodicamente de um
lado para outro, enfocando todos os rostos que estavam à
sua frente, a um nível bastante mais baixo.
Situado muito perto dela, Frank Minello estava
demonstrando não ser absolutamente um tolo: não só
escrutava também aqueles rostos, como, vez por outra,
dirigia um olhar a Brigitte, como se estivesse convencido de
maneira total de que qualquer pista só chegaria a ele
refletindo-se no formoso semblante de sua admirada e
adorada amiga.
E, com efeito, quando o senador Mortensen estava
falando havia apenas cinco minutos, Frank Minello viu um
daqueles reflexos no rosto mais bonito do mundo. Primeiro,
as sobrancelhas de Brigitte pareceram juntar-se, depois suas
pálpebras semicerraram-se e, durante três ou quatro
segundos, seu olhar manteve-se fixo num ponto, opor entre
as numerosas cabeças do público.
Sem perder um instante, Minello aproximou-se dela, por
trás.
— Viu algum soldado do futuro? — sussurrou.
— Frank, não diga tolices: como vou identificar uma
pessoa que não conheço? Por outro lado, esse soldado do
futuro talvez não seja uma pessoa.
— Ah, não? — pasmou Minello. — Que outra coisa
pode ser?
— Uma máquina, por exemplo.
O comentarista esportivo ficou completamente
estupefato.
— Uma máquina? — pôde murmurar por fim.
— Por que se surpreende? Os homens já inventaram
milhares de máquinas para matar, desde a simples pistola
até o Raio Laser... Por que não uma outra máquina, muito
mais perfeita inclusive que as anteriores?
— Puxa vida... Você tem razão: por que não seria uma
nova máquina, capaz até de matar de muito longe... ou algo
assim?
— Poderia ser, realmente. Entretanto... estranho...
— O que é estranho?
Outra vez o olhar de Brigitte fixou um ponto
determinado entre o mar de cabeças que se estendia diante
deles. Suas sobrancelhas perfeitas novamente contraíram-se,
enquanto suas pálpebras se entrecerravam...
— Com todos os diabos... — resmungou Minello. —
Que é que você está olhando?
— Reparou no cabeçudo, Frankie?
— Que cabeçudo?
— O dos dois filmes que o tio Charlie me levou... Não
se deu conta de que havia um homem com a cabeça
excessivamente volumosa?
— Não... Não me dei conta.
— Então, enquanto olhava aqueles filmes, você estava
pensando em Tom & Jerry — sorriu Brigitte. — Não se
mova daqui, Frankie... E não me perca de vista.
— Disso você pode estar segura. Trouxe minha pistola
e...
— Pois, se der algum tiro, eu serei a primeira a depor
contra você, em juízo — cortou Brigitte.
— Esta gente que veio ao parque não tem culpa de nada.
Está claro?
Ela desceu de sua posição e Minello viu-a dirigir-se para
a massa de público. Imediatamente, os olhos de todos os
agentes da CIA moveram-se em sua direção, atentos, mais
vigilantes que nunca. Uns poucos daqueles homens sabiam
que aquela jovem era a sua querida “Baby, mas a grande
maioria nunca a vira. Assim, ela foi acompanhada por não
poucos olhares cheios de desconfiança inicial, até que uma
espécie de telepatia lhes foi fazendo compreender que
daquele lado não havia perigo algum. Talvez o que os
acalmou tenha sido a tranqüilidade de seus companheiros
que conheciam a agente “Baby”...
Esta, suavemente, ia abrindo passagem para o centro da
massa do público, olhar sempre fixo num ponto
determinado. Com os olhos doendo à força de olhar
intensamente, Minello seguia-lhe a marcha e, ao mesmo
tempo, lançava olhadelas velozes a seu redor...
Até que, súbito, viu o cabeçudo.
Estava dando as costas a Brigitte, que cada vez mais se
aproximava dele. E ao vê-lo, Frank Minello lembrou-se do
outro cabeçudo, o dos filmes. Embora não soubesse dizer
por que o lembrou, já que não era o mesmo... Não.
Certamente já não era o mesmo... Entretanto, ao ver o que lá
estava, diante dele, tinha recordado o outro, o dos filmes.
Não era o mesmo, mas impossível ver um sem recordar
o outro. Pelo tamanho desproporcionado da cabeça? era
tudo o que se via dele: sua descomunal cabeça. Quanto à
sua própria cabeça, Minello reconheceu que não valia
grande coisa comparada à de Brigitte. Esta era de
primeiríssima classe...
E súbito, ele ficou quase aterrado: de que categoria era o
cérebro contido naquela cabeçorra da qual Brigitte se
aproximava cada vez mais?
Um murmúrio de sobressalto brotou da multidão e
Minello também se sobressaltou. Olhou para o estrado e viu
o senador Mortensen justamente no momento em que, com
ambas as mãos na testa, tombava como fulminado. Olhou
para Brigitte e viu-a abrindo caminho agora com mais
rudeza para o cabeçudo. Olhou para este e viu-o imóvel,
com as pálpebras entrecerradas... Todo o mundo gritava,
gesticulava, perguntava o que ocorria... mas o cabeçudo
continuava imóvel, imperturbável, olhos quase fechados...
Os policiais precipitavam-se para o senador e os agentes
da CIA, perplexos, olhavam para todos os lados. A massa
de curiosos pareceu, de repente, uma bolha que estoura,
quando todos quiseram afastar-se, acotovelando-se... A
polícia que formava o cordão de isolamento tentou reter o
público, mas alguém gritara que o senador acabava de ser
assassinado, como o outro o fora dias antes, e o pânico
estabeleceu-se. Somente a balaços os policiais e os agentes
da CIA poderiam dominar aquelas centenas de pessoas e,
claro, não podiam fazer isso, de modo que o cerco foi
rudemente rompido por todos os lados, os policiais foram
levados de roldão...
Por uns segundos, o aterrado Minello perdeu Brigitte de
vista entre aquele mar de cabeças. Quando novamente a
avistou, ela se empenhava em ir atrás do cabeçudo, que
também se dispunha a afastar-se da esplanada do Central
Park. E sem hesitar, Frank Minello lançou-se em direção
aos dois, afastando brutalmente a quantos lhe barravam o
caminho. Por toda a parte, se ouviam gritos, apitos dos
policiais, vozes transtornadas pelo pavor...
Enquanto isso, Brigitte ia-se aproximando mais e mais
do cabeçudo; sua magnífica formação atlética transformava-
a, comparada com aquele homem, numa gazela em
perseguição a um torpe pingüim. Uma comparação
adequada, pois o cabeçudo parecia ter dificuldade em
conservar o equilíbrio e balançava-se grotescamente,
ridiculamente, de um lado para outro... Como um pingüim.
De qualquer modo, conseguiu sair do parque antes que
ela o alcançasse. Mas a distância entre ambos já era tão
curta, que a espiã internacional estava praticamente sobre as
costas do cabeçudo, que se virou e lançou-lhe um olhar
estarrecedor, fulminante.
Tão fulminante, que, súbito, ela sentiu uma terrível dor
de cabeça, uma perda brusca de todas as suas faculdades.
Lançou um grito e caiu primeiro de joelhos, depois de
bruços, quase batendo com o rosto nos calcanhares do
cabeçudo. A espantosa dor de cabeça cedeu tão rapidamente
como se iniciara e ela mais que depressa se pôs de joelhos.
O carro detivera-se um instante e o cabeçudo tinha
aberta a parta traseira. Dispunha-se a entrar, quando Brigitte
agarrou-o por um pé e deu um formidável puxão,
derrubando-o de bruços diante dela.
— Ai vou, Brigitte! — ouviu a voz de Minello, à sua
retaguarda.
O cabeçudo debatia-se ferozmente e, para evitar suas
patadas, Brigitte levantou-se, afastando-se e gritando:
— O do carro, Frankie!
— Já é meu! — vociferou Minello.
Mas o carro partiu como um projétil, deixando na retina
de Brigitte a visão de outro cabeçudo ao volante. Por um
momento, tornou a sentir aquela terrível dor de cabeça e
cambaleou, enquanto o cabeçudo que tinha derrubado se
levantava, gritando de raiva. Parecia que sua intenção era
correr atrás do carro, tão inutilmente quanto Minello, mas
Brigitte, apesar daquela fulminante perda de faculdades,
adiantou a mão esquerda e segurou-o pela gola do paletó,
enquanto com a direita descarregava-lhe um seco atemi de
judô na parte posterior da cabeçorra.
O homem relaxou-se imediatamente, perdeu os sentidos
e ela ajudou-o a chegar ao chão sem maior dano. Frank
Minello, rosto crispado pela raiva, voltava para junto dela,
arquejante.
— Pílulas! — exclamou. — O do carro me escapou...!
— Não importa, Frankie... Temos este aqui.
— Vi você cair de um modo esquisito... Sente-se bem?
— perguntou anelante o atlético jornalista.
— Sinto-me perfeitamente — disse Brigitte.
E desmoronou nos braços do amigo, que deu um grito e
amparou, aterrado.
— Brigitte! — exclamou ele. — Brigitte, meu amor...
— Afaste-se... — ouviu uma voz vigorosa atrás dele. —
Vejam se podem alcançar o carro, rapazes.
Alguém lhe arrebatou Brigitte dos braços, para depositá-
la imediatamente no chão. Três homens corriam para a
outra calçada, onde havia diversos carros estacionados. E
quatro ou cinco tinham-se ajoelhado ao redor da formidável
espiã, rostos crispados. Um deles encostou o ouvido ao seu
seio esquerdo e esteve escutando uns segundos, enquanto
Frank Minello, muito pálido, de pé, parecia ter pedido
qualquer capacidade de reação.
— Está viva — disse o agente da CIA.
Brigitte logo abriu os olhos.
— Claro que estou viva... — disse. — Que aconteceu?
— Você é quem pode saber, “Baby”. Não vimos que
tivesse recebido golpe ou ferimento de nenhuma espécie.
Os magníficos olhos azuis moveram-se velozmente de
um lado para outro. Ergueu a mão e o agente da CIA
ajudou-a a levantar-se. Brigitte olhou para o inanimado
cabeçudo e franziu a testa.
— Que venha imediatamente um helicóptero —
ordenou. — E formem um cordão de isolamento para que
ninguém se aproxime deste homem... Absolutamente
ninguém, que não seja da CIA, Okay, Johnny?
— Okay — assentiu este.
Começou a dar instruções a seus companheiros,
enquanto Brigitte se dirigia a Minello:
— Frankie, você quer ir ao carro buscar minha
maletinha?
— Sim, sim, sim...
Quando ele voltou com a mundialmente famosa maleta
vermelha, o cordão de agentes da CIA já estava formado,
enquanto a policia se encarregava de controlar o público,
acalmando os ânimos. Parecia que a situação ia-se
normalizando, enquanto no estrado onde o senador
Mortensen estivera falando já o examinava um médico.
Uma forte mão apoiou-se no peito de Minello, quando
este tentou atravessar o cerco de homens da CIA.
— Não se pode passar.
— Olhe! — protestou o jornalista. — Trago, a maletinha
de... de você sabe quem!
— Não se pode passar — a maletinha, foi-me rudemente
arrebatada. — Mike! Leve-lhe isto!
O chamado Mike aproximou-se, pegou a maleta e
dispôs-se a regressar ao centro do grupo de espiões. Minello
reconheceu-o como o homem que auscultara Brigitte e
bradou:
— Você me conhece! Sabe que ela e eu...!
— E você sabe que quando ela diz absolutamente
ninguém, isto significa absolutamente ninguém.
— Mas... Com um milhão de diabos...!
Mike afastou-se sem me fazer caso. Mas voltou
segundos depois, sorrindo ironicamente, divertido com a
explosão de cólera de Minello.
— Passe. Você é um privilegiado, amigo.
Resmungando, Minello introduziu-se no cerco e logo
chegou junto de Brigitte, que lhe dirigiu o que parecia um
sorriso de desculpa.
— Você é uma mandona... — grunhiu ele. Uma mulher
despótica.
— Afastem-se todos — disse Brigitte, sem lhe dar
resposta. — Façam um círculo mais amplo.
O circulo ampliou-se e todos os homens da CIA ali
congregados e Frank Minello dedicaram-se a observar as
manipulações da sensacional espiã. Ela se ajoelhou junto ao
ainda desacordado cabeçudo, abriu sua maletinha, tirou uma
pequena máscara de gaze e colocou-a sobre a boca e o
nariz. Depois, do fundo de um pote que parecia conter
creme facial, tirou uma diminuta ampola de vidro. Colocou-
a exatamente diante das narinas do cabeçudo e rompeu-a
entre os dedos. Levantou-se imediatamente, afastou-se uns
passos e esperou dez ou doze segundos. Tirou a máscara,
aproximou-se do homem e examinou-o.
— Pronto — disse, levantando a cabeça. — Dormirá
profundamente por duas horas. E quando acordar, não lhe
agradará nada a situação... Que sabemos do carro?
Um dos agentes se aproximou, com um radinho de bolso
na mão.
— Perderam-no de vista, mas estão tentando localizá-lo.
— Não importa. Que voltem, Johnny. Quero-os todos
aqui e sobre as armas, até que chegue o helicóptero.
***
O cabeçudo foi colocado no helicóptero, a qual subiram
três agentes da CIA e “Baby”, que se acomodou, olhou para
fora e viu Frank Minello contemplando-a torvamente.
— Você também, Frankie.
O rosto do jornalista se transformou imediatamente em
máscara sorridente. Encarrapitou-se no helicóptero, ao lado
de Brigitte, e murmurou:
— Não pense que tudo isto me importa muito ouviu?
Aliás, não tenho nenhuma necessidade de preocupar-me por
você.
Brigitte sorriu docemente e pôs a mãozinha sobre uma
das dele.
— Diga-me, Frankie: eu sonhei... ou quando estava
desmaiando ouvi alguém dizer “Brigitte meu amor...”?
Minello resmungou alguma coisa. E sua expressão
tornou-se ainda mais enfarruscada quando viu cravados
nele, ironicamente, os olhares dos agentes da CIA.
O helicóptero decolou.
CAPITULO SEGUNDO
“Baby”, a insubordinada...

O cabeçudo acordou afinal, passadas folgada-mente as


duas horas desde que Brigitte o adormecera com uma de
suas ampolas de gás. Através do vidro que pelo outro lado
era espelho, pelo que ele pão podia ver ninguém mas no
entanto era contemplado com atenção por doze pessoas:
dois membros do Diretório da CIA, um dos quais era chefe
do Grupo de Ação, Mr. Cavanagh; o diretor adjunto; sete
agentes do mencionado grupo; o convidado especialíssimo
Frank Minello, que cada vez mais se convencia de que sua
amiga Brigitte tinha uma influência, um poder incrível... E,
naturalmente, a própria “Baby”.
— Está acordado — comentou desnecessariamente
alguém.
O cabeçudo sentou-se no catre de uma das mais
recônditas celas especiais da Central da CIA e olhou a seu
redor, sombriamente. Por fim, seu olhar cravou-se, duro,
frio, impressionante, quase aterrador, no espelho atrás do
qual aquelas doze pessoas o contemplavam sem que ele as
pudesse ver. E um sorriso sarcástico apareceu em seus finos
lábios.
— Deu-se conta — murmurou Brigitte.
— Não importa — disse Cavanagh. — Comece com ele,
“Baby”.
Esta cravou o olhar azul no prisioneiro. Era um homem
em tudo, menos quanto ao tamanho da cabeça... Claro, não
se tratava de um monstro, mas, sem dúvida, suas dimensões
cranianas não eram absolutamente comuns. Tampouco era
comum sua expressão dura, fria, seu modo de olhar, que
dava a impressão de que seus olhos eram poços
profundíssimos... Melhor ainda: poços sem fundo.
— Sabemos que você assassinou há duas horas e meia o
senador Wallace Mortensen, no Central Park de Atlantic
City — falou Brigitte, abrindo o microfone que segurava
com..a mão esquerda. — Como o fez?
O olhar do cabeçudo foi direto para onde soava a voz, no
meio do teto. Depois, desviou-se para e que, para ele, era
um espelho. E na outra sala houve um movimento geral de
inquietação, quase de temor, ante aquele olhar.
— Major Olofernes — disse o cabeçudo —, número
AM-0024, dos Soldados do Futuro, sob as ordens do
Generalíssimo Napoleão.
— Está atuando como se realmente fosse um militar de
qualquer país — observou um agente da CIA.
— Você se encontra prisioneiro na Central da CIA —
disse Brigitte. — Sua atitude é infantil, tendo em conta que
está sob acusação de assassinato, sabotagem e ameaças à
nação e às forças armadas dos Estados Unidos. Jamais
poderá sair daqui vivo. Agora, repetirei a pergunta: como
matou o senador Mortensen?
— Major Olofernes, número AM-0624, dos Soldados do
Futuro, sob as ordens do Generalíssimo Napoleão.
— Muito bem... — aceitou Brigitte, serenamente. —
Onde podemos encontrar o Generalíssimo Napoleão?
— Major Olofernes, número AM-0024, dos Soldados do
Futuro...
— Se tornar a repetir isso, parto-lhe a cabeça! —
resmungou um dos agentes da CIA.
— Nada disso — opôs Brigitte. — Teremos toda a
paciência que se fizer necessária. Continuarei lhe fazendo
perguntas... Major Olofernes, quantos soldados do futuro
tem sob suas ordens o Generalíssimo Napoleão.
— Major Olofernes, número AM-0024, dos Soldados do
Futuro...
— É um bocado cabeçudo o cabeçudo! — exclamou
Minello.
— Parece-lhe possível que esteja... controlado a
distância? — deslizou timidamente outro Johnny.
— Talvez tenha algum aparelho dentro da cabeça... —
sugeriu um terceiro. — Lugar, há de sobra.
Houve alguns risos nervosos, enquanto Brigitte
estremecia, recordando a espantosa experiência daquele
estilo que vivera tempos atrás em Lisboa2.
— Major Olofernes — perguntou —: estamos
comentando aqui que, possivelmente, você é uma espécie
de robô... Certo?
— Major Olofernes, número AM-0024... — começou a
repetir o cabeçudo.
— Quebro-lhe essa cabeçorra, não há dúvida! —
ameaçou mais uma vez o agente da CIA.
— Parece mesmo que é disso que está necessitando —
disse o diretor adjunto. — Uma boa sova. Quatro de vocês
encarreguem-se de aplicar-lhe o corretivo, rapazes... Mas
cuidado para não matá-lo.
— Oponho-me — disse Brigitte. — Por enquanto,
parece que o major Olofernes está aceitando seu cativeiro:
não o provoquemos.

2
Ver MINICÉREBROS
— Tem alguma idéia melhor? — perguntou o diretor
adjunto.
— A única coisa que podemos fazer com ele éter
paciência e continuar interrogando-o.
— Não estou disposto a perder tempo com esse homem.
Quero saber o quanto antes tudo o que possa dizer-nos.
— Em minha opinião, senhor — sorriu amavelinente
Brigitte —, sua tática está completamente errada. Devemos
prosseguir interrogando-o até... romper-lhe o equilíbrio
nervoso, ou sua resistência. Ou, então, até que o obriguemos
a atuar, de modo que nos revele que espécie de arma
mortífera estão utilizando.
— Isso pode levar dias.
— Não importa.
— Como não importa? Tenho muitos assuntos que
atender e este é apenas um, deles...
— Perdoe-me que insista, senhor — interrompeu
Brigitte. — Este não é um assunto a mais. Temos diante de
nós um dos soldados do homem que, nem mais nem menos,
exige o comando de todas as forças militares dos Estados
Unidos. Evidentemente, esse Napoleão não está propenso
a... atacar formalmente nossos exércitos, mas dispõe de uma
arma que, segundo parece, permite-lhe fazer exigências
assombrosas. Em minha opinião...
— Escute, “Baby”, não vejo motivo para que, na CIA,
sua opinião deva prevalecer sobre a minha — cortou
secamente o diretor adjunto. — Está claro?
Brigitte assentiu com frieza
— Claríssimo, senhor.
— De acordo. Agora — virou-se para os agentes —
dirijam-se quatro de vocês à cela ao lado para abrandar um
pouco esse Major Olofernes. Com cuidado, mas que ele não
tenha dúvidas de que estamos dispostos a fazê-lo passar
muito mal. Batam-lhe até que eu lhes mande parar. Quatro
de vocês.
Indicou os agentes e tornou a olhar através do vidro-
espelho. Dois segundos depois, virava-se novamente para os
agentes, nenhum dos quais se movera.
— Que há? — perguntou. — Não me entenderam?
Mandei quatro de vocês à cela desse homem.
Ninguém se moveu.
O rosto do diretor adjunto da CIA começou a adquirir
um tom escarlate e seu olhar, iracundo, desviou-se para o
chefe do Grupo de Ação.
— Parece que seus homens estão surdos, Cavanagh.
— Eles pertencem à minha equipe — disse este, não
pouco constrangido. — Tal como “Baby”.
— E isso que significa?
— Bem... Todos os agentes de ação da CIA estão
plenamente convencidos de que “Baby” sempre toma a
decisão melhor. Até hoje, ela nunca cometeu um erro que
tenha prejudicado de modo definitivo a marcha de assunto
nenhum.
O tom escarlate passou ao rubro intenso no rosto do
diretor adjunto.
— Significa isso que seus homens não querem obedecer-
me, Cavanagh?
Este colocou todo o seu peso sobre o quadril ferido...
Um ferimento que recebera anos atrás em Buenos Aires e
que o deixara inerme sob a perseguição de vários espiões
inimigos, quando ele era apenas um agente do Grupo de
Ação. E naquele momento uma garota de olhos azuis, então
pouco mais que uma menina, tinha aparecido com tanta
oportunidade, que ele jamais poderia esquecer tal fato.
Agora, era um homem manco. Mas, se não fosse ela, há
muito que seria um homem morto.
— Eu diria, antes, que eles estão esperando que o senhor
reconsidere sua decisão — murmurou.
— Não há nada a reconsiderar. Temos um homem que
pode nos fazer revelações importantes... e ele mesmo
escolheu o método. Não somos brutais por norma. Porém,
esse precisa de tratamento rigoroso, pelo que mantenho
minha ordem.
Cravou seu olhar iracundo nos agentes da CIA, enquanto
estes olhavam para “Baby”. Mas “Baby” estava olhando
através do vidro para o Major Olofernes. Sua atitude não
podia ser mais clara: renunciava a toda a responsabilidade.
Por fim, com evidente relutância, quatro agentes
dirigiram-se para a porta. Saíram daquela sala e, segundos
depois, apareciam na cela ocupada pelo prisioneiro. Este
olhou-os com indiferença... Com terrível indiferença.
Permaneceu sentado, enquanto os quatro homens da CIA
aproximavam-se dele, cenho carregado, expressão hostil.
O que ia à frente adiantou a mão, agarrou-o pela lapela e
obrigou-o a levantar-se, enquanto sua outra mão recuava...
A bofetada foi tremenda e a enorme cabeça pareceu a ponto
de ser arrancada dos magros ombros de Olofernes, que foi
retido pela forte mão que o segurava. O agente girou,
empurrou-o e dois de seus companheiros agarraram-no
pelos braços. O quarto agente colocou-se diante do
cabeçudo, fechou a mão direita, baixou-a horizontalmente e
dispôs-se a golpeá-lo no estômago...
Súbito, lançou um grito, levou ambas as mãos à cabeça e
caiu como fulminado. O que esbofeteara Olofernes
estremeceu, ficou lívido como um morto, mas pareceu que
ia prosseguir golpeando-o. Olofernes olhou-o e o agente da
CIA ficou um instante como paralisado. Depois, levou
também ambas as mãos à cabeça e tombou.
Urna sensação de terror fez estremecer todas as pessoas
que estavam presenciando a Incrível, espantosa cena. Houve
como que urna paralisia geral, uma repentina e absoluta
incapacidade de reação... exceto com respeito à agente
“Baby”, que sacou sua pistolinha, adiantou-se um passo e
golpeou o vidro, arrebentando-o.
E ainda os fragmentos do espelho estavam caindo do
outro lado, quando ela apertou o gatilho, com fria decisão.
A bala atingiu exatamente o centro da descomunal testa de
Olofernes e, imediatamente, este pendeu, morto, dos braços
dos dois agentes que, imobilizados pelo espanto,
continuavam segurando-o.
Imediatamente, Brigitte, saiu daquela sala e apareceu na
cela contígua antes que tivessem tempo de reagir. Olofernes
continuava suspenso pelos dois Johnnies. Cavanagh,
Minello e os outros se conservavam imóveis, assombrados.
“Baby” ajoelhou-se junto a um dos agentes caídos e
examinou-o brevemente. Em seguida, fez o mesmo com o
outro. Durante uns segundos, não se moveu, contemplando
o rosto crispado daquele Johnny. Logo, ergueu a cabeça e
seu olhar fixou-se no diretor adjunto da CIA, visível agora
do outro lado por entre os restos do espelho. E o diretor
adjunto não viu naqueles olhos uma expressão de triunfo,
nem de rancor... Tudo o que viu foram duas brilhantes
lágrimas, que brotaram de súbito e deslizaram pelas faces
da melhor espiã do mundo.
Depois, “Baby” levantou-se e saiu da cela.
Todos a esperavam do outro lado, mas não a viram
aparecer. Por fim, Minello como que despertou,
compreendendo que Brigitte ia retirar-se da Central sem
querer saber mais nada. Correu para a porta, mas virou-se
antes de sair e olhou o deprimido diretor adjunto da CIA.
— Ouça, amigo — grunhiu — meus parabéns! Você é o
que se chama um sabidão, está ouvindo? Esse Olofernes
podia ter dado cabo de todos nós!
E saiu à disparada em busca de sua querida amiga.
***
— Compreendo que foi terrível — murmurou Cavanagh
— mas temos que nos sobrepor “Baby”. Quanto a você, não
é nenhuma principiante: já viu morrer muitos companheiros
antes do ocorrido ontem à noite.
— Vi morrer muitos... — admitiu Brigitte, num
sussurro. — Mas não tão inutilmente.
Cavanagh apoiou todo o peso do corpo sobre o quadril
ferido, mas, como sempre, apressou-se a mudar de posição.
Estava preocupado e sentia-se pouco à vontade, era
evidente. Deixara a Central àquela tarde, no helicóptero,
que agora o esperava sobre o terraço do Crystal Building, só
para cumprir pessoalmente a tarefa ingrata de apresentar
desculpas a “Baby”... além de solicitar-lhe alguma coisa.
— Bem... O diretor adjunto está consternado.
Compreenda que sua intenção...
— O que compreendo perfeitamente, Mr. Cavanagh, é
que vi morrer dois Johnnies do modo mais estúpido e
injustificado que se possa imaginar. Não preciso das
desculpas do diretor adjunto para nada. Ele sabe que nunca
deveria interferir de tal forma no trabalho de nosso Grupo.
E não estou falando por orgulho pessoal.
— Eu sei, eu sei... Diabo, Brigitte, você está tornando
muito difícil a minha parte... e eu não tenho culpa de nada.
Ou tenho?
Brigitte pestanejou.
— Não... Quer um uísque?
Cavanagh moveu negativamente a cabeça.
— Obrigado, mas devo regressar imediatamente à
Central. Vim lhe apresentar as desculpas do diretor adjunto
e... pedir-lhe que prossiga com este assunto.
— Não é uma ordem? — sorriu ela.
Cavanagh encolheu os ombros.
— Pelo que me diz respeito, você bem sabe que já deixei
de lhe dar ordens no sentido estrito da palavra. E a direção
também sabe perfeitamente que você não é uma pessoa fácil
de manejar. Tendo em conta as características dos serviços
de espionagem, tudo isto pode parecer um pouco absurdo...
para quem não conheça “Baby” a fundo.
— O senhor me conhece a fundo?
— Mais que ninguém — afirmou Cavanagh, convicto.
— Tem certeza? Então, que opina? Prosseguirei com
este assunto, ou não?
— Morto Olofernes, ficamos sem nenhuma pista, não
sabemos nada... Somente que já morreram quatro homens,
assassinados por esses soldados do futuro. Dois desses
homens eram agentes nossos. Você teria que partir da estaca
zero.
— Isso não responde a minha pergunta.
— Claro que responde. Eu disse que dois desses homens
que morreram eram agentes da CIA: dois Johnnies. Isso
significa que, apesar da minha viagem expressa para
conversar com você, sei perfeitamente que ninguém a
impedirá de seguir com este assunto. Mas sei disso por
simples convicção pessoal e o que esperam em Langley é
sua resposta concreta e de viva voz... Qual é?
“Baby” olhou fixamente para seu chefe e este viu, nos
belos olhos azuis, aquela fria centelha de determinação que
tão bem conhecia.
— Diga aos senhores da Central — murmurou — que
esse Napoleão acaba de iniciar sua batalha de Waterloo...
Contra um só inimigo: “Baby”.
Cavanagh pôs-se de pé, sorrindo levemente.
— Avise-me quando deverei encerrar o dossiê dos
Soldados do Futuro com a palavra “solucionado”. Boa-
tarde, Brigitte. Não, não... Não precisa acompanhar-me.
Segundos depois, Brigitte ouvia fechar-se a porta de seu
apartamento. Ficou pensativa, sombria... contemplada
atentamente pelo diminuto chihuahua “Cicero”, instalado
em outra poltrona, O cãozinho parecia participar do
melancólico estado de ânimo de sua dona e compreender
perfeitamente que não era o momento de receber carícias,
nem brincar. Peggy havia saído, de modo que a espiã
internacional estava sozinha em casa. A tarde de julho era
esplêndida e pelas Portas-janela abertas que davam para o
terraço com piscina, muito amortecidos, chegavam os
rumares de Manhattam, subindo até aquele vigésimo sétimo
andar.
A campainha do telefone não a sobressaltou em
absoluto, apesar de seu estado de abstração. Foi atender.
— Alô.
Silêncio.
— Alô.
Silêncio absoluto.
Desligou, voltou à poltrona e acendeu um cigarro,
contemplando pensativamente o telefone, Os redondos
olhos de “Cicero” não se desviavam dela, expectantes,
tímidos... Brigitte olhou-o de súbito e sorriu, estalando os
dedos. Sem a menor hesitação, o cãozinho correu para ela e
saltou ao seu colo, entregando-se ao maravilhoso prazer de
deixar-se coçar nas orelhas.
— Pobre querido... — murmurou Brigitte,
carinhosamente. — Está assustado, não é? Dá-se conta de
que algo não vai bem, claro. Você não passa de um
bichinho algo ridículo, mas tem mais discernimento que
certo diretor adjunto da...
O telefone tornou a tocar. Olhou-o com expressão séria e
não se moveu em absoluto. O aparelho tocou ainda por
algum tempo antes de silenciar. Mas “Baby” continuava
olhando-o, fixamente. Súbito, para desencanto de “Cicero”,
deixou-o sobre o tapete, levantou-se e foi a seu quarto.
Abriu o armário, tirou a maletinha vermelha adornada de
flores azuis e, desta, a pistolinha de coronha de
madrepérola, que enfiou no decote... enquanto o telefone
tornava a tocar, agora no quarto. Resolveu atender.
— Alô.
— Brigitte! — trovejou a voz de Frank Minello. —
Você está bem?
— Estou perfeitamente, Frankie.
— Puxa vida! Como não respondia, pensei que...
— Você telefonou antes?
— Claro! E como você não atendeu...
— Quantas vezes telefonou para mim, Frankie?
— Hã...? Quantas vezes telefonei? Duas...
— Duas vezes e agora?
— Não, não... Uma vez e esta. Duas ao todo. Seguidas.
— Não foram três vezes? Tem certeza?
— Absoluta? Você está bem mesmo?
— Estou.
— É... Que o diabo me carregue! Não sei por que devo
preocupar-me tanto com você... Ouça: apanho você ai para
irmos à redação? Como sabe, esta noite Miky Grogan quer
que...
— Não estou ligando nada para o que Miky possa
querer, Frankie. Diga-lhe, por favor, que não o irei ajudar
hoje.
— Hum... Está tramando alguma coisa, hem? Pois eu
tampouco me apresentarei ao Furibundo! Ouça: vou
desligar e precipitar-me para junto de você. Até!
— Frankie, não...
Clique. Telefone desligado. Brigitte encolheu os ombros,
desligou também e, apanhando a maletinha, voltou ao living
e à mesma poltrona.
Sabia que algo estava acontecendo a seu redor, ou ia
acontecer...
Quem telefonara a primeira vez, para não dizer nada
quando ela atendera? A resposta, a seu juízo, só podia ser
uma: alguém que queria certificar-se de que ela estava em
casa. E não seria para nada bom, claro.
“Cícero”, novamente triste e abandonado, tornava a
contemplá-la expectante... Súbito, O animalzinho levantou
as pontudas orelhas e emitiu um gemido. Brigitte olhou-o
vivamente.
— Que é, filhinho? — perguntou. — Você ouviu alguma
coisa? O que não vai bem?
O chihuahua tornou a gemer e correu para fora do living.
Brigitte levantou-se, lembrando-se bruscamente de que a
parta do apartamento não estava protegida pelo sistema
especial de defesa e alarma, já que, ao sair, Mr. Cavanagh
só a podia ter fechado normalmente. De qualquer modo, já
que Frankie ia chegar, não valia a pena colocar os...
De repente, todo o living pareceu descrever um milhão
de voltas em menos de um segundo... Quando Brigitte se
deu conta, estava estendida de bruços no tapete, sem ter a
menor noção do ocorrido. Como caíra? Que se passara com
ela?
Colocou-se de joelhos e tirou a pistolinha do decote,
olhando para a porta... Por ali, podia aparecer alguém a
qualquer momento, portanto, o melhor era ir colocar os
fechos de segurança antes que...
Mas lançou um grito, soltou a pistolinha, levou as mãos
à cabeça e levantou-se de salto, por puro reflexo muscular
de autodefesa. Mas de pé, a cabeça doeu-lhe ainda mais
terrivelmente. Era como se fosse explodir de um momento
para outro em milhares de pedaços. A dor era tão espantosa,
que começou a gritar com todas as forças... Quer dizer, quis
gritar, mas nenhum som saiu de sua boca. Enquanto isso,
parecia que dentro de sua cabeça milhões de diminutas
cargas de dor estivessem explodindo em cadeia, produzindo
fisgadas, latejos, estremecimentos...
Subitamente, teve a sensação de que, em sua cabeça,
uma grande bola se fundia, com o que experimentou um
alivio maravilhoso, total... enquanto, desmaiada, tornava a
cair de bruços no tapete.
Poucos segundos depois, ouviu-se a porta do
apartamento bater ao fechar-se. Passos aproximando-se... E,
finalmente, dois cabeçudos apareceram na porta do living.
Ficaram um instante contemplando a formosa jovem
desmaiada. Depois, um deles indicou-a.
— Veja se está morta, General Lacroix.
O cabeçudo General Lacroix ajoelhou-se junto de
Brigitte e virou-a, pondo a mão sobre seu seio esquerdo.
— Está viva.
— Assombroso... Napoleão esta certo a respeito desta
mulher. Portanto, nós a levaremos.
— É um caso digno de estudo, sem dúvida, General
Murchison. E deve ser muito inteligente. Veja a pistola:
compreendeu que ia receber visitas e estava preparada para
defender-se... Que é isso?
O General Murchison estava contemplando com
curiosidade a maletinha vermelha adornada de minúsculas
flores azuis. Abriu-a e sorriu, ao ver o conteúdo.
— Deve também ser muito vaidosa, o que aliás está em
perfeito acordo com sua beleza. Eu diria que é um estojo de
viagem, cheio de cosméticos e coisas assim.
— Nesse caso, também o levaremos, já que ele vai
empreender uma viagem. Ponha aí dentro esta pistolinha.
O General Lacroix atirou a pistolinha às mãos do
General Murchison, que a guardou na maleta, fechando-a e
olhando para todos os lados, apreciativamente.
— Tem muito bom gosto... e muito dinheiro, é claro.
Para morar aqui e deste modo, não há mais remédio que ser
milionário. Devemos procurar algo de interesse neste
apartamento?
— Não creio que valha a pena, O que Napoleão quer é
ela, desde que o Sargento Nirko lhe disse que nem ele, nem
o Major Olofernes puderam matá-la... Parece que só lhe
interessa examinar esta mulher.
— Vamos, então... antes que chegue alguém.
***
Frank Minello empurrou a porta do apartamento e sentiu
como uma pontada no coração, ao verificar que cedia.
Engoliu em seco, fechou a porta atrás dele e sacou sua
imponente pistola.
— Brigitte? — chamou em voz baixa.
Silêncio.
O chefe da Seção Esportiva do Morning News foi
caminhando lentamente, tenso, atento, para o interior da
luxuosa morada. Várias vezes chamou Brigitte, sem obter
resposta. E dois minutos mais tarde, convencia-se de que,
efetivamente, ela não se encontrava ali. Tudo estava em
ordem, como sempre. Cada coisa em seu lugar. Brigitte era
muito estrita a este respeito..
Assaltado por uma idéia súbita, Minello correu ao quarto
da espiã, abriu o armário e procurou a maletinha vermelha
com flores azuis... que não estava em seu lugar, nem em
nenhum outro do armário.
— Fui tapeado outra vez! — exclamou. Ela me deixou
em terra como um boboca e está... sabe Deus onde!
CAPITULO TERCEIRO
A estratégia napoleônica

Estava numa granja.


Positivamente, tinha que ser uma granja, pois se
encontrava rodeada de galinhas. Ouvira seu cacarejar antes
de abrir os olhos e julgara estar sonhando... Mas não.
Quando os abriu, viu-se no meio de galinhas, que ciscavam
por ali, deslocando-se com seus estranhos, ridículos,
sincopados passos.
Cá-co-co-co...
Quando se sentou sobre a palha, as galinhas assustaram-
se, afastando-se torpemente, numa espécie de esvoaçar
rasteiro. Olhou a seu redor e sorriu, quase divertida. Não
havia a menor dúvida: estava num galinheiro. Por sobre ela,
viu paus cheios de excrementos; ali, as galinhas deviam
passar a noite.
Mas agora era dia. Um dia bonito, ensolarado,
silencioso, Um silêncio denso, uma paz extraordinária,
sublinhada pelo cacarejar das pacificas aves.
Levantou-se, evitando bater com a cabeça nos sujos
poleiros, olhando a seu redor. Havia pequenos montes de
palha, sacos vazios, caixotes, algumas ferramentas
agrícolas. Possivelmente, despertar num galinheiro era a
única coisa que faltava à excepcional agente “Baby” para
completar uma interessante lista de lugares exóticos.
Aproximou-se de uma janela de sujíssima vidraça, que
limpou um pouco com um saco vazio. Quando pôde lançar
uma olhadela ao exterior, tornou a sorrir. Diante do
galinheiro, havia um enorme carvalho e, em seus galhos,
centenas de passarinhos pipilavam aloucadamente, numa
algazarra súbita, como se algo os tivesse assustado. Mais
além, viam-se algumas árvores frutíferas, terras, que
pareciam recém-lavradas e, ao fundo, um pequeno bosque.
Devia ser muito cedo.
Ergueu o pulso esquerdo, mas não tinha seu relógio de
platina e diamantes. Entretanto, pela altura do sol, calculou
que deviam ser sete horas da manhã. De maneira que
dormira aproximadamente doze horas seguidas. Como isto
não era natural nela, olhou com mais interesse o pontinho
vermelho que tinha visto em seu braço quando quisera saber
as horas. Evidentemente, tinham-na obrigado a dormir
injetando-lhe uma droga inofensiva, já que não sentia o
menor incômodo.
— A primeira pergunta é: onde estou? — falou em voz
alta.
Ninguém respondeu, naturalmente. E menos que
ninguém, as galinhas, que continuavam assustadas diante da
intrusa. A qual, de súbito, lembrou-se daquela horrível dor
de cabeça e uma expressão de espanto apareceu em seus
formosos olhos. Apalpou rapidamente a cabeça e suspirou
aliviada por não sentir o contato de bandagem alguma, nem
sinais de qualquer intervenção nela. Já tinha sofrido tal
experiência uma vez, quando do caso dos minicérebros, e
fora mais que suficiente para toda sua vida.
Dirigiu-se para a porta do galinheiro, que era de sólida
madeira e de tamanho adequado para a passagem de
pessoas. Na verdade, aquilo era um telheiro que fora
preparado para talvez mais de cem galinhas. Girou a
tramela de madeira e puxou... A porta se abriu para dentro,
sem a menor dificuldade.
E diante dela, no exterior, viu um homem vestido como
um granjeiro... e armado de uma automática com
silenciador, que apontou imediatamente para seu peito.
— Bom-dia — saudou Brigitte, amável.
O homem não respondeu. Limitou-se a olhá-la
fixamente, enquanto ela fazia o mesmo com ele. Era um
tipo de pequena estatura, pele tisnada, aspecto vulgar. Tinha
uma cabeça normal. Tudo nele era normal. Inclusive,
parecia um pouco assustado.
— Onde estamos, amigo granjeiro? — perguntou
sonsamente Brigitte.
— Não me obrigue a disparar — murmurou o homem.
— Claro que não cometerei semelhante tolice... Onde
estamos?
— Numa granja.
— Realmente? Pensei que tinha caído num palácio de
mármore e cristal... Onde se toma o café da manhã?
— Volte para dentro e espere — ordenou o homem. —
Virão buscá-la quando chegar o momento.
Brigitte assentiu com a cabeça. Na verdade, não fazia o
menor caso daquele homem. Por dois motivos: primeiro,
sabia que ele tinha ordem de não atirar contra ela; segundo,
podia desembaraçar-se dele quando lhe desse na telha. Na
verdade, falava para permanecer ali fora, espiando a casa
que se avistava à esquerda do galinheiro.
Uma casa perfeitamente de acordo com aquele, com
todo o ambiente geral: uma granja, apenas isso. Uma granja
branca, ampla, simpática, tipicamente americana. Assim,
pelo menos, sabia que não tinha sido levada para fora dos
Estados Unidos. Ou, ao menos, tudo parecia indicar isto.
— Mas estou com apetite — insistiu.
— Terá que esperar.
Não se via ninguém na casa, nem perto dela. Não se via
ninguém nos campos, nem perto do. pequeno bosque, ou
perto das árvores frutíferas. Havia castanheiros, enormes,
formosos.
— Não me dá pelo menos um cigarro?
— Não.
Brigitte deixou de examinar tudo quanto sua vista
alcançava e novamente olhou, amável, para o quase
assustado homenzinho que parecia um granjeiro.
— Farei queixa a Napoleão — disse.
O homem sobressaltou-se e ela, rindo, voltou ao interior
do galinheiro, fechando a porta...
Pelas dez da manhã, segundo seus cálculos, apareceu
outro homem carregado com uma cesta vazia. Entrou
tranqüilamente e dirigiu-se aos caixotes cheios de palha
onde as galinhas botavam, começando a colocar os ovos na
cesta. Sentada sobre um caixote vazio, que tinha virado,
Brigitte olhava-o sorridente. Tampouco aquele homem era
cabeçudo, coisa que bastava para que se sentisse tranqüila.
— Faltam dois ovos — disse ela. — Como não me
serviram o café da manhã, tive que tomá-los.
O homem olhou-a.
— Está bem — disse. — Há muitos ovos.
— Teria preferido que fossem porcos. Gosto mais do
presunto que dos ovos... Pelo menos, que de ovos crus.
Sempre achei que comer um ovo é como comer um feto de
galinha, não está de acordo?
O homem pareceu surpreendido, depois sorriu.
— Tem razão.
— Naturalmente. Mas, quando não há outro remédio,
como ovos, raízes, bolotas e, se necessário, até peixe cru...
Não há porcos na granja?
— Há porcos, sim. E vacas. Mas estão em outro lugar,
mais longe.
— Ah. E cenouras? Temos cenouras?
— Também.
— Você me trará alguma logo mais? Adoro cenoura.
Além disso, dizem que são muitos boas para conservar e até
melhorar a vista. Deve ser verdade, pois tenho uma vista
excelente. Como sempre cenouras. E tomates... Muito
tomate. Fazem bem à saúde. Temos tomates?
— Claro.
— Gostaria que me trouxesse alguns, também.
— Está certo.
— Você é muito amável... Não me daria um cigarro?
— Isso está proibido.
— Por quê?
— Porque talvez você provoque um incêndio para
escapar, ou qualquer coisa assim.
— Não, não, não... Palavra de honra, meu amigo.
Garanto-lhe que não tenciono sair daqui sem conhecer
Napoleão... Ou não estou no palácio do Generalíssimo
Napoleão?
— Está num de seus quartéis estratégicos. O mais
importante.
— Ah. Quer dizer que nada de cigarro?
— Sinto muito — disse o homem, colocando o último
ovo na cesta. — Mas farei o possível para lhe trazer tomates
e cenouras.
— Obrigada. Você conhecia o Major Olofernes?
O homem olhou-a vivamente.
— Conhecia — murmurou.
Brigitte sorriu encantadoramente, deliciosamente.
— Eu o matei... — disse. — Meti-lhe uma bala na
enorme cabeça cheia de maldade. Por que você não é
cabeçudo, amigo?
— Serei — disse o homem.
E saiu rapidamente do galinheiro. Dez minutos mais
tarde, a porta tornou a abrir-se, mas não se apresentou o
granjeiro amável. Apareceram dois cabeçudos. Não muito
cabeçudos, mas o bastante para que “Baby” se pusesse
alerta. Cada um deles trazia nas mãos um fuzil reduzido de
fabricação americana, um dos vários modelos utilizados
pelas tropas de Infantaria da Marinha.
— Saia — ordenou secamente um dos cabeçudos.
Brigitte levantou-se do caixote, sorrindo com frieza.
— Por que as armas? — perguntou. — Refiro-me a estas
armas convencionais. Para mim, não basta sua arma
secreta?
Os dois homens pareceram alarmar-se, mas sã um
instante, Colocaram-se de ambos os lados da porta e os dois
insistiram ao mesmo tempo, com um gesto de suas armas,
indicando a saída.
Brigitte saiu, eles o fizeram atrás dela e indicaram a
casa. Caminhou para lá, seguida pelos dois. Quando chegou
ao pórtico,.havia mais dois cabeçudos ali. Um deles
adiantou-se, olhando para os que tinham ido buscar “Baby”
no galinheiro.
— Prisioneira recebida — disse. — Patrulhem ao redor
da casa.
— As ordens, sargento.
Brigitte contemplou o que chamavam “sargento”. Era
um pouco mais cabeçudo que os outros dois. E ainda mais
cabeçudo era o outro, o que esperava a parte do sargento,
que se virou para ele e disse:
— A prisioneira, Tenente.
— Encarrego-me dela — aceitou o mais cabeçudo. —
Prossigam com a missão no exterior, Sargento.
— As ordens.
O “sargento” afastou-se e o “tenente” abriu a porta da
casa, indicando o interior. Quando olhou para Brigitte, esta
captou algo atemorizante em seu olhar... Algo odiosamente
atemorizante. Uma expressão que jamais tinha visto em
homem algum, exceto talvez no Major Olofernes, cuja
cabeça, por certo, era mais volumosa que a daquele tenente.
— Entre — ordenou o tenente.
Pareceu que Brigitte não lhe fazia o menor caso. Estava
olhando agora para os campos e para as árvores frutíferas...
Lá havia homens trabalhando, sossegadamente. A esquerda
de casa, viu outro grande telheiro, talvez a trezentos metros.
Imaginou que ali estariam as vacas e os porcos. Na verdade,
se algum lugar no mundo parecia uma granja, era aquele.
Tornou a olhar o homem, que aparentemente esperava
com paciência, mas olhando-a com aquela expressão de
ódio feroz, penetrante, perfurante. Era como se, nos olhos, o
tenente tivesse a faculdade de reter uma porção de ódio
inusitada, incrível.
Ela entrou na casa e depois, sempre orientada pelo
tenente cabeçudo, num aposento que, para todos os efeitos,
era o living-room da granja. Ali, sentados ao redor de uma
mesa, estavam quatro homens. Quatro homens dos mais
cabeçudos que Brigitte tinha visto em sua vida, todos a
contemplando seriamente, entre curiosos, perplexos e
hostis. Eram realmente quatro notabilíssimos cabeçudos.
Mas ainda o era muito mais o quinto cabeçudo. Era,
definitivamente, o mais cabeçudo de todos e tinha uma
estatura gigantesca. Estava do outro lado da mesa, de pé
junto a um grande mapa-múndi colorido, no qual se viam
diversos sinais feitos com lápis preto: triângulos, círculos,
flechas, retângulos... Quanto ao resto, a sala não podia ser
mais convencional, mais convincente.
Na verdade, porém, o mais interessante ali era o homem
enorme da gigantesca cabeça. Salvo suas descomunais
proporções, não tinha nada de anormal. Parecia um homem
de quarenta anos, forte, de ombros largos, figura maciça,
bonito, inteligente... Seus olhos eram negros... Dois
negríssimos, insondáveis poços de ódio terrível,
impressionante, quase paralisante. Usava calças escuras e
uma túnica sem insígnias nem distintivo algum, fechada sob
o queixo por um colarinho que parecia de clérigo, embora
não se visse nenhuma orla branca.
De pé, imóvel, dominando tudo, com sua colossal
estatura, como cravado no chão, o cabeçudo-mor era
simplesmente estarrecedor. Tinha na mão direita uma curta
vara, que apontou para o tenente e depois para a porta. O
tenente saiu e de novo aqueles olhos negríssimos cravaram-
se em Brigitte.
— Apresento-lhe — disse o gigante cabeçudo com voz
profunda, indicando alternativamente os quatro homens
sentados ao redor da mesa — os generais Lacroix,
González, Leuchaffen e Murchison. Eu sou o Generalíssimo
Napoleão.
— Muito prazer, cavalheiros — sorriu ela, secamente.
— Eu sou a Imperatriz Josefina.
Seu sarcasmo foi acolhido com um silêncio
impressionante, verdadeiramente sepulcral. Cinco terríveis
pares de olhos estavam fixos nela, que começou a sentir um
certo mal-estar. Muito leve, a dor brotou em sua cabeça, que
inclusive parecia descrever algumas voltas, como se
estivesse enjoando. Empalideceu e optou por apoiar-se ao
espaldar de uma cadeira, convencida de que, se não o
fizesse, cairia no chão. Também sentiu náuseas e temeu que
fosse vomitar ali mesmo.
— Não lhe convém ser sarcástica em sua situação, miss
Montfort. Dou-lhe o saudável conselho de se abster de tão
grosseiras zombarias. O assunto de que vamos tratar é
muito sério.
— Lamento... — murmurou Brigitte. — Entretanto,
deve entender que eu não o posso considerar Napoleão,
senhor... senhor...
— Napoleão. Evidentemente, esse não é meu verdadeiro
nome, mas pareceu-me o mais adequado para empreender
minha grande conquista do mundo. Por outro lado, não a
vejo como a pessoa mais indicada para zombar daqueles
que utilizam pseudônimos.
— Não compreendo...
— O Sargento Nirko viu-a anteontem à noite, quando se
dispunha a recolher o Major Olofernes. Para assombro do
Sargento Nirko, resistiu praticamente incólume ao seu
ataque e ao do Major Olofernes...
— Nenhum dos dois me atacou.
— Ambos a atacaram. Logicamente, deveria estar morta
desde então. Entretanto, resistiu a ambos os ataques e isso
assustou muito o Sargento Nirko, que optou pela fuga,
abandonando seu superior... Atitude que, naturalmente,
colocou-o em perigosa situação: terá que enfrentar um
conselho de guerra. Mas, ao regressar, o Sargento Nirko
falou-me a seu respeito e disse que a identificara como
Brigitte Montfort, uma jornalista famosa na América e no
mundo, residente em Nova Iorque. Não foi difícil localizar
seu domicílio, pelo simples processo de recorrer à lista
telefônica. Depois — indicou um dos cabeçudos com
patente de general — os generais Lacroix e Murchison
foram buscá-la para trazê-la à minha presença... se resistisse
ao ataque conjunto de ambos.
— Não me lembro de seus generais — negou Brigitte.
— Nunca as tinha visto até agora.
— Quando eles entraram em seu apartamento, estava
desmaiada. É assombrosa... e alarmante sua resistência a
nossos ataques, miss Montfort. Tal nunca nos aconteceu até
agora. Mas, obviamente, temos que aceitar os fatos: não é
uma mulher normal.
— Acho que o júri de um concurso de beleza discutiria
isso, Generalíssimo — sorriu Brigitte.
— Estamos falando de sua cabeça... Do que há dentro de
sua formosa cabeça. E se continua fazendo brincadeira,
receio que não a consideremos Josefina, mas, como lhe
agradam os personagens franceses da História, poderíamos
transformá-la em... Maria Antonieta. Compreende, miss
Montfort?
— Seriam capazes de guilhotinar-me? — tornou a sorrir
“Baby”.
— Completamente. Asseguro-lhe que não desdenhamos
as armas rudimentares e convencionais. Por desgraça,
somos inclusive obrigados a proporcioná-las aos nossos
recrutas mais atrasados na instrução de morte. Mas
falaremos disso mais adiante. Voltemos à sua pessoa. Sendo
uma famosa jornalista, estava anteontem à noite no Central
Park de Atlantic City misturada com agentes da CIA. A
princípio, isso me surpreendeu um pouco, mas não tardei a
compreender a verdade, somando diversos fatores. Por
exemplo, sua decidida perseguição, sem ajuda de ninguém,
ao Major Olofernes; sua percepção assombrosa ao suspeitar
dele, pois de outro modo não estaria bastante perto para
alcançá-lo antes que tomassem o carro; sua incrível
resistência ao ataque, primeiro, do próprio Olofernes e,
depois, ao do Sargento Nirko, se bem que já não nos
surpreenda que, tendo resistido ao ataque do major,
resistisse com mais facilidade ao do sargento... Somando
tudo isto e sua evidente vinculação com a CIA, cheguei a
um resultado, que lhe agradecerei se me disser que é
correto: temos o prazer de estar conversando com a agente
“Baby”?
— Têm.
Houve uns segundos de silêncio. Depois, o
Generalíssimo Napoleão assentiu com a grande cabeça.
— Sinceramente, consideramos isto uma honra. E agora
compreendemos que, durante tantos anos, ninguém tenha
podido vencê-la. Mas tudo isto nos leva a uma conclusão
final: por que lhe parece... engraçado que eu me faça
chamar Napoleão e não lhe parece engraçado que a chamem
de “Baby”?
— Mas, Generalíssimo — sorriu ela —, eu acho
engraçado que me chamem de “Baby”. E, além disso, este
pseudônimo não foi criado por mim, mas por meus
companheiros, que me consideram uma... garota
encantadora, uma bonequinha, uma criança inocente, sabe
Deus por quê. E a propósito de meus companheiros,
Generalíssimo: sabe quantos agentes de ação a CIA pode
reunir em vinte e quatro horas?
— Quantos?
— Aproximadamente, cinco mil. Cinco mil homens
consideravelmente perigosos que ficariam muito, muito
irritados, se alguém me causasse o menor dano.
— Esta nos ameaçando... ou pretende assustar-nos?
— Ambas as coisas.
— Não seja ridícula. Esses cinco mil homens, na muito
remota suposição de que pudessem chegar até aqui, só
viveriam uns poucos segundos. Conforme pude mentalizar,
o Major Olofernes fez-lhe uma pequena demonstração,
antes que a sua bala o matasse.
Brigitte passou a língua pelos lábios. Seu olhar, sempre
fixo em Napoleão, desviou-se para os quatro generais.
Depois, regressou ao colossal Generalíssimo.
— Diga-me o que pretende — interrogou-o. — E se o
assunto me parecer razoável ou factível...
— É mesmo extraordinária... — quase riu Napoleão. —
Não pode compreender? O que possa achar de meus
projetos não me preocupa em absoluto. Ninguém poderá
impedir que, dentro de muito pouco tempo, todo o poderio
militar do mundo esteja à minha disposição.
— Suponhamos que assim fosse — admitiu Brigitte,
com certa benevolência. — Diga-me, Napoleão: para que
quer tantos soldados?
— Para selecionar entre eles meu futuro exército e
eliminar os restantes.
— Eliminar? — ela arqueou as sobrancelhas.
— Defina um pouco melhor, por favor.
— Matá-los. Está bem definido assim?
“Baby” empalideceu.
— Perfeitamente definido — murmurou. — Você quer
matar todos os militares do mundo, salvo os que tenha
selecionado para sua... estratégia, que o transformaria em...
senhor absoluto do planeta. Dá-se conta do que está
dizendo?
— Perfeitamente.
— Eu creio que não: há milhões de soldados em todo o
mundo. Pretende matar milhões de homens? Por quê?
— Porque os odeio.
— Por quê?
O Generalíssimo Napoleão olhou-a fixamente, em
silêncio. Decorridos uns segundos, sem responder a
pergunta, girou o torso para o mapa-múndi pendente da
parede. Seus pés não se moveram, como se efetivamente
estivessem cravados no chão. Com a vara, indicou no mapa
os Estados Unidos.
— Razões de ordem estratégica — disse lentamente —
fizeram-me escolher nosso país para iniciar minhas
operações. A América é o maior continente isolado. A
Europa, a Ásia e a África estão praticamente unidas e isso
as transforma, para efeitos, estratégicos, num só continente.
Seria muito árduo, portanto, começar por qualquer dessas
três partes do mundo, que logicamente uniriam suas forças
contra meus soldados do futuro. A América apresenta uma
considerável vantagem, que já terá compreendido... Ou não,
agente “Baby”?
— Creio que sim. É um continente duplo de norte a sul,
no qual está localizado o maior exército do mundo. Você
espera dirigir esse exército, dominar desde o Alasca à Terra
do Fogo e, uma vez conseguido isto, empreender a
conquista do mundo inteiro, contando com enormes efetivos
militares de toda a espécie.
— Ah... — os olhos de Napoleão brilharam. — Na
verdade, você é inteligente, “Baby”. Muito inteligente.
— Disso não há dúvida — sorriu Brigitte. — Mas não é
para tanto, Napoleão: sua tática me parece a mais
elementar... Quase ingênua. Creio que não levou em conta
diversos fatores contrários a esse seu projeto.
— Que está dizendo? Que não levei em conta diversos
fatores? Pretende fazer-me rir, “Baby”?
— Você é quem me faz rir, Generalíssimo. Escolheu a
América: muito bem. Mas levou em conta que justamente o
fato de se tratar de um continente isolado dificultará a
invasão dos outros, separados pelo Atlântico e o Pacifico? E
não me diga que pensa penetrar na massa Europa-África
cruzando o Pólo Norte!
Napoleão pestanejou.
— A invasão desses três continentes se efetuará uma vez
que estejam dominados pelo temor dos projéteis atômicos
dirigidos, com que contam os Estados Unidos.
— Também a Rússia tem projéteis dirigidos. Milhares
de projéteis dirigidos. Inclusive plataformas espaciais
carregadas com centenas de bombas atômicas. Não faz
muito tempo, no Taiti, trabalhei em certo assunto
relacionado com isto. Também havia lá uns quantos
amalucados, que tive que colocar em sua... órbita adequada.
A China, a Inglaterra, a França, a Alemanha, o Japão e
vários outros países poderiam também lançar rapidamente
suas plataformas atômicas, contando com o especial apoio
da Rússia. Esta é considerada atualmente como possuidora
do maior poder ofensivo do mundo. Mas ainda que isto não
seja exato, some você o poderio russo ao da Inglaterra, da
França, da China etc, e diga-me: como poderiam seus
soldados abandonar o continente americano? Talvez
chegassem a dominá-lo, mas, insisto: como poderia passar à
Europa, à Ásia, à África e à Oceania? Pelo ar? Duvido
muito. Por mar, ainda duvido mais. Como faria isso,
Generalíssimo?
Napoleão, preso de pasmo, tardou uns segundos a reagir.
— Tem-se dedicado a estudos de estratégia,
“Baby”?
— Não... — riu esta. — Mas à poesia mundial.
— E isso que tem a ver...? — assombrou-se Napoleão.
— Vou lhe fazer uma proposta — atalhou Brigitte
amavelmente. — Eu lhe darei uma flor e uns quantos livros
de poesia. Cheire a flor, leia os livros... e esqueça-se de
tudo. Essas são minhas condições para que eu também me
esqueça de você.
— E se você não se esquecer de mim?
— Eu o destruirei.
Cinco pares de olhos fixaram-se na espiã internacional.
Cinco pares de olhos terríveis. Durante dez ou doze
segundos, o silêncio foi absoluto. Por fim, Napoleão
suspirou, como fatigado.
— Senhores — murmurou —, parece que somente a
execução poderá convencer nossa convidada. Vou
conceder-lhes a honra de compor o pelotão de morte.
Dito isto, o Generalíssimo Napoleão tornou a girar o
torso para o outro lado e, com a vara, apertou uma
campainha. Imediatamente, a porta se abriu.
— Tenente, faça vir o acusado à nossa presença.
— As ordens, Generalíssimo!
Um minuto mais tarde, o tenente regressava,
acompanhado de dois soldados precedidos de um homem
que Brigitte já conhecia: era o que conduzira o carro que
devia ter recolhido o Major Olofernes.
Os dois soldados ficaram diante da porta fechada,
enquanto o tenente trazia o acusado por um braço ao centro
da sala e depois se afastava alguns passos. O acusado não
podia estar mais pálido.
— Sargento Nirko — disse Napoleão —, como já sabe,
está acusado de fuga ante o inimigo, abandonando um
superior que se encontrava em situação de inferioridade
devido à perda de conhecimento, segundo você mesmo
informou. A pena para este delito militar é a morte. Tem
algo a dizer em seu favor que possamos considerar
razoável?
O Sargento Nirko passou a língua pelos lábios.
— Fiquei assustado, Generalíssimo — murmurou.
— Assustado? Eu e todo o meu exército temos um poder
invencível. Como podia você assustar-se?
Nirko desviou o olhar para Brigitte, que o contemplava
inexpressivamente.
— Essa mulher, Generalíssimo. Vi como o major falhou
em seu ataque contra ela. Ataquei-a eu... e ela tampouco
morreu então. Pensei que tivéssemos perdido nossas
faculdades de ataque. Nessa situação mental e estando
desprovido de armas convencionais, segundo suas ordens,
Generalíssimo, vi aproximar-se um homem e atrás dele
vários mais, todos da CIA, portando armas e muito mais
capacitados que eu para a luta comum... O Major Olofernes
estava no chão e era impossível que eu tivesse tempo de
recolhê-lo e escapar, pelo que me pareceu mais conveniente
a fuga. Em parte, para informá-lo do ocorrido,
Generalíssimo.
Napoleão refletiu brevemente, antes de dizer:
— Sua alegação não me parece convincente, Sargento
Nirko. Mas vejamos o que opinam os membros do tribunal
— olhou para os generais.
— Senhores?
Um a um, os quatro generais foram colocando o punho
sobre a mesa, com o polegar apontando para baixo.
— Não... — balbuciou Nirko. — Não, não, não! Sempre
fui fiel, cumpri todas as ordens que...!
— Sargento Nirko: este tribunal, presidido pelo futuro
Generalíssimo de todos os exércitos do mundo, acaba de
condená-lo à morte. Atendendo sua graduação e para
convencimento da agente “Baby”, não será executado
publicamente, mas aqui mesmo e agora.
— Não, não podem fazer isto comigo! Sou um Soldado
do Futuro, não podem fazer...!
Lançando gritos, Nirko virou-se de súbito para a porta e
correu para lã, afastando com um repelão um dos soldados.
Quis abrir a porta, mas o outro o golpeou nos rins com o
fuzil, derrubando-o de joelho. O tenente correu em auxílio
dos dois soldados e, em poucos segundos, o sargento ficou
seguro por ambos os braços, defrontando Napoleão, que
continuava no mesmo lugar, imperturbável.
— Um comportamento muito pouco digno o seu,
Sargento Nirko — disse — friamente. — Senhores:
procedam à execução.
Os quatro generais puseram-se de pé. Brigitte
contemplava-os com a máxima atenção e pôde notar que um
deles coxeava, mantendo uma perna rígida. Outro ficou com
o braço esquerdo pendente, inerte, e só agora reparou ela
que a mão era artificial; possivelmente, o braço era
ortopédico, como a perna do outro. O terceiro general ficou
consideravelmente curvado e, ao que parecia, era incapaz de
colocar-se em postura natural. O quarto, pelo contrário,
mantinha-se completamente teso e não movia a cabeça para
os lados, mas tinha que ir girando todo ele, como se seu
pescoço e seus ombros não possuíssem articulações.
Nirko continuava gritando, mas ninguém lhe fazia o
menor caso. E menos que ninguém, “Baby”, que olhava
com obsessionada atenção os quatro homens. Súbito, de um
modo absurdo, teve um sentimento de piedade que a deixou
perplexa. Que estava vendo? Tornou a olhar os quatro
generais, um a um. Todos tinham mais de cinqüenta anos e
todos produziam a impressão de estar... meio mortos. Era
uma sensação estranha, terrível, apavorante. Aqueles
homens pareciam tristes restos humanos...
Entretanto, em seus olhos havia uma grande vitalidade.
Em seus olhos reluziam a força, a decisão e, acima de tudo,
um ódio intensíssimo, atroz, que de imediato extinguiu todo
sentimento de piedade para. com aqueles quatro
extraordinários personagens.
Os quais, repentinamente e ao mesmo tempo, cravaram
seu olhar em Nirko, que deu um grito terrível e tentou outra
vez desprender-se dos braços dos soldados, aos quais
ajudava o tenente.
— É inútil qualquer tentativa de escapar, Sargento —
disse Napoleão. — Sabe muito bem que não poderia viver.
Para nossos ataques, não há paredes, nem portas, nem
defesas blindadas... Você já está morto.
Nirko abriu a boca, disposto a lançar outro grito, mas de
súbito seu rosto se crispou num esgar horrível, seus olhos
giraram até mostrar somente a brancura da córnea... e todo
ele relaxou-se, ficando pendente dos braços dos soldados.
O tenente ornou-o um momento e virou-se para
Napoleão.
Sentença cumprida, Generalíssimo.
— Muito bem, Tenente. Levem o cadáver para o
cemitério dos inaptos. É só.
Em poucos segundos, Brigitte, Napoleão e os quatro
generais tornaram a ficar sozinhos na sala. Os últimos
pareciam ainda como ausentes, com aqueles estranhos olhos
irradiando ódio e dos quais Brigitte não conseguia desviar
os seus...
— Sem dúvida, está perguntando a si mesma como foi
executado o Sargento Nirko — disse Napoleão.
Por fim, ela pode virar-se para ele. E moveu
negativamente a cabeça.
— Não me pergunto nada, pois já sei.
— Sabe?
— Sim.
Os cinco pares de olhos estavam hostilmente cravados
nela, mas isto não a impressionou. Já sabia que não
poderiam matá-la pelo processo utilizado com o Sargento
Nirko, ou com os dois Johnnies na Central, ou com os
senadores Mortensen e Sutter. Por semelhante processo,
com eleito, aqueles homens podiam matar milhões de
pessoas. Mas não a ela e a outros poucos como ela, que sem
dúvida existiam no mundo.
— Bem... Pode dizer-nos como foi executado o
sargento, “Baby”?
— Por meio do ódio.
Fez-se novamente um silêncio sepulcral. Por fiz,
Napoleão assentiu com a cabeça.
— Tenho um oferecimento a fazer-lhe, “Baby” —
murmurou ele. — Como sabe, há cinco continentes,
digamos... clássicos, que são: América, Oceania, Ásia,
Europa e África. Observe que só disponho de quatro
generais... Gostaria de ser meu quinto general, com o
comando de um continente?
— Oferecimento recusado — sorriu Brigitte. — E
continua de pé minha oferta de uma flor e uns quantos
livros de poesia.
— Oferta recusada — quase sorriu Napoleão.
— Bem, já que, segundo entendo, você não pensa
integrar nosso seletíssimo grupo, tornam-se necessárias
decisões a respeito de seu... futuro. Mas, não, não... Não
creia que estou pensando em matá-la. Isso é terrivelmente
fácil e posso fazê-lo a qualquer momento, seja a meu modo,
ou recorrendo a qualquer outro processo. Estou pensando
em como sua permanência aqui possa ser vantajosa para
todos.
— Especialmente para você.
— Sim, claro. Mas também você sairá beneficiada.
Como estão suas relações com Mr. Nixon? Refiro-me a suas
relações pessoais, está claro.
— Parece-me que Mr. Nixon tem mais do que se ocupar
que de suas relações comigo. Aonde quer chegar,
Napoleão?
— A pergunta é esta: Mr. Nixon daria crédito a tudo o
que você lhe contasse? Refiro-me a que, como a melhor
agente com que conta a CIA e sendo pessoa de inteligência
fora do comum, caberia esperar que o Presidente dos
Estados Unidos a considerasse pessoa digna de crédito, não
é verdade?
— Nem sequer sei se Mr. Nixon já ouviu falar de mim
— mentiu Brigitte.
— Quer dizer que nunca se avistou com ele?
— Nunca — tornou ela a mentir. — Entretanto, se o que
deseja é introduzir-me numa esfera onde me ouviriam e
atenderiam, a CIA é o ideal. Não quero pecar por vaidosa,
mas, em circunstâncias especiais, minha palavra é ouvida
com grande interesse.
— Compreendo. Mas eu preciso de um emissário que
chegue diretamente a Mr. Nixon, sem intermediários de
nenhuma espécie. Você poderia chegar até ele?
— Naturalmente. A CIA tem meios de promover essa
entrevista.
— Ótimo. Nesse caso, trataremos imediatamente de
preparar a última demonstração. E se depois dela eu ainda
não receber o comando de todas as forças militares deste
país, receio que me veja obrigado a deixá-lo sem Presidente.
— Que demonstração pensa fazer? — indagou Brigitte,
intimamente apreensiva.
— Vai ser um... desafio, que espero seja aceito pela
Infantaria da Marinha, Os marines são muito orgulhosos,
não lhe parece? Consideram-se as melhores do mundo,
capazes de tudo... Veremos se têm a coragem necessária
para aceitar meu desafio.
— Que desafio?
Uma centelha brilhou nos olhos de Napoleão.
— Um só de meus soldados do futuro contra toda uma
companhia de marines. Naturalmente, sob certas condições.
Não seria justo enviar um só homem contra várias dezenas
de fuzileiros que suponho serão escolhidos entre os mais
aptos e, além disso, equipados com... todo esse arcaico
montão de apetrechos.
— Gostaria de saber a que chama “arcaico montão de
apetrechos” — interessou-se Brigitte.
— Refiro-me, evidentemente, a esse “fabuloso”
armamento com que as tropas americanas estão lutando no
Vietnam, como, por exemplo, os Starlights ou a L.L.T.V.,
quer dizer, a Low Light Televiston. Você sabe, sem dúvida,
que com esses aparelhos se consegue aumentar 40.000
vezes a luz das estrelas, de tal modo que, praticamente,
soldados que avancem respaldados pelo Starlight podem ver
tão bem como de dia. Outrossim, alguns receptores
equipados com raios infravermelhos produzem imagens que
são captadas pela L.L.T.V., embora somente absorvam o
calor de corpos e motores. Também dispõem de lâmpadas
especiais, de luz invisível, que delatam a presença do
inimigo aos soldados munidos de óculos também especiais.
E receptores que são lançados de pára-quedas para
“informar” sobre a passagem de tropas ou veículos... Estou
ao corrente?
— Muitíssimo ao corrente, sim — concordou Brigitte.
— Mas a tudo isso você chama “arcaico montão de
apetrechos”?
— Você compreenderá que, em comparação com o meu
sistema de matar, tudo isso se torna obsoleto e, claro, com
um terrível inconveniente: os homens sempre dependem das
máquinas. Máquinas não só dispendiosíssimas, como
também nem sempre situadas onde os soldados as
necessitem. Esses soldados, portanto, pertencem ao
passado. Os meus, com um simples treinamento de alguns
meses, são os autênticos soldados do futuro, os que me
permitirão dominar o mundo. Não precisam de nenhuma
espécie de apetrechos: apenas sua cabeça, sua mente.
— E seu ódio.
— Ah, sim, claro: seu ódio, seu feroz e autêntico desejo
de matar. Nem todos os homens estão capacitados para isso,
garanto-lhe. Nem sequer o Death Brain pode conseguir a
transformação de muitos deles em soldados do futuro.
— O “Cérebro da Morte”? — perguntou Brigitte. —
Que vem a ser isso?
— Resolvi mostrá-lo a você e explicar-lhe seu
funcionamento. Quero que, quando levar minha mensagem
ao Presidente, esteja preparada para convencê-lo de que
toda a resistência é um inútil sacrifício de vidas...
começando pela dele. Se eu decidir matá-lo, nem toda a
Guarda Nacional rodeando a Casa Branca poderia impedi-
lo, pois não creio que ele possua as mesmas faculdades
mentais que você. Quando os generais Lacroix e Murchison
foram para matá-la ou trazê-la aqui, enviaram-lhe, a
‘distância, suas ondas de ódio, seu desejo de exterminar:
você apenas desmaiou, possivelmente com intensa dor de
cabeça. Mas isso talvez só possa acontecer com uma pessoa
entre dez milhões. Acha que o Presidente dos Estados
Unidos é outra dessas pessoas raríssimas?
— Não sei.
— Eu tampouco. Mas, como compreenderá, todo o
cálculo de probabilidades está a meu favor. De onde se
depreende que ninguém, de forma alguma, poderia impedir
que o Presidente fosse... executado. O melhor sistema,
naturalmente, é o do enfrentamento pessoal, ou seja, estar
contemplando a vítima, como no caso dos senadores, os
agentes da CIA, o Sargento Nirko... Mas também se pode
operar com fotografias da vítima ou, melhor ainda, com
filmes em que ela esteja em movimento. De você,
conseguimos umas quantas fotos. Dispomos de numerosos
filmes do Presidente. Creia-me: tudo é fácil e simples para
os soldados do futuro. Ninguém poderá vencer-nos, nunca.
— Nem sequer eu?
— Ora, vamos... Você resiste a nossos ataques mentais,
nossas ondas de ódio, com uma simples dor de cabeça que,
se chega a ser muito intensa devida à força de quem lhe
envia as ondas, produz-lhe no máximo um desmaio. Mas
não é imune às armas convencionais, “Baby”. Quero dizer
que uma simples bala destruiria sua cabeça, por muito
extraordinária que ela seja.
— Receio que sim. Mas isso também pode acontecer
com você, Napoleão.
— Claro. Mas sou inacessível. Não é fácil chegar a mim.
No seu caso, é diferente: quis conhecer a pessoa que não
caia fulminada ao receber as ondas de ódio. Mais ainda,
disponho-me a examiná-la devidamente no Death Brain.
Interessa-me particularmente esse estudo, pois posso
precisar de um meio que anule o extraordinário poder
mental que demonstrou. Assim, iremos ver o Death Brain,
para que você fique sabendo como funciona. E depois a
examinarei; quer dizer, examinarei seu cérebro. Agora, saia
daqui, volte a seu alojamento e espere até que alguém vá
buscá-la para conhecer o Death Brain. É só.
— Quanto ao desafio e a...?
— Em nossa próxima entrevista, tudo ficará esclarecido.
— De acordo. Mas tenho uma queixa: não gosto de meu
alojamento, Napoleão. Eu não sou uma galinha.
— Lamento não poder oferecer-lhe outra coisa no
momento.
— Bem... Resignarei-me. Mas por que não posso fumar?
— Espero de sua inteligência que não tente nenhuma
tolice. E assim sendo, permito-lhe fumar.
— Muitíssimo obrigada. Se me devolverem minha
maletinha, tenho lá cigarros, isqueiro...
— E outras coisas que não me agradaram nada — cortou
Napoleão. — Mandarei devolver-lhe o isqueiro e os
cigarros... mas sem o radinho que havia dentro do maço.
Também lhe devolveremos o precioso relógio de pulso.
Pode retirar-se.
Apertou a campainha, virando-se para esta, sempre com
os pés como cravados no chão. A porta se abriu e apareceu
o tenente, que acompanhou Brigitte de volta ao galinheiro.
Pouco depois, o tenente reapareceu para entregar-lhe o
relógio, o isqueiro e um maço de cigarros. Brigitte
contemplava-o especulativamente, pensando na
possibilidade de sondá-lo, mas logo compreendeu que seria
perder tempo e procurar complicações. Assim, deixou partir
o silencioso tenente, sem que ambos tivessem pronunciada
uma só palavra. Diante da porta, ficou um dos granjeiros de
cabeça normal, armado de pistola com silenciador.
E pouco depois, quando ainda estava fumando o
primeiro cigarro, chegou o outro, que tinha conhecido
àquela manhã.
— Olá — saudou-a quase cordialmente —: trago-lhe
cenouras, tomates e laranjas.
Deixou a cesta sobre um caixote vazio e ficou olhando-
a.
— Você é muito gentil — sorriu-lhe docemente Brigitte.
— Posso lhe agradecer de algum modo?
— No momento, não.
— Pois aqui me tem, para quando chegar a ocasião... —
ela entrecerrou as pálpebras. — Você sabe onde é o
cemitério dos inaptos?
— Escute — resmungou o homem —, estou tratando de
ser amável, mas não me faça mais perguntas. Não posso lhe
dizer nada... Sei o que está pensando: viu o desejo em meus
olhos e pensa que, se for carinhosa comigo, poderá
conseguir de mim o que quiser. Se dependesse de mim, eu
cairia com muito gosto nessa armadilha, mas... Não,
obrigado. Minha vida vale mais que um momento de prazer.
— Eis um raciocínio sensato — sorriu zombeteiramente
Brigitte. — Nem sequer pode me dizer onde estamos?
O homem soltou um grunhido, fez meia-volta e saiu do
galinheiro, fechando a porta atrás dele. Brigitte encolheu os
ombros.
— Lamentável... — deplorou. — Ao que parece, acabo
de perder um amigo.
Terminou o cigarro, apagou-o cuidadosamente e
aproximou-se da janela, diante do vidro que antes limpara
com o saco. Colocando-se a um lado, viu a sentinela, que
contemplava fixa-mente a porta, obcecada. Mais além,
outros aparentes granjeiros dedicavam-se a seu trabalho,
com toda a normalidade.
Convencida de que a sentinela não a podia ver, Brigitte
dedicou-se a tirar fotografias do exterior com seu isqueiro
de platina e diamantes. Através do vidro, esteve
fotografando à direita e esquerda, de tal modo que,
juntando-se todas as fotos, poder-se-ia obter uma só,
superpanorâmica, mostrando tudo o que ela via dali.
Depois comeu duas cenouras, dois tomates e acendeu
outro cigarro.
Quando estava terminando, o tenente silencioso tornou a
aparecer, acompanhado de quatro soldados ligeiramente
cabeçudos.
— Venha — disse ele. — O Generalíssimo está à sua
espera.
CAPITULO QUARTO
O Cérebro da Morte

Surpreendeu-se um pouco quando tornaram a entrar na


casa, mas já não se espantou quando, depois de ser colocada
em determinado ponto do vestíbulo, rodeada pelos quatro
soldados, o tenente foi até um canto e acionou uma mola
que ela não pôde ver dali.
Ouviu-se um estalido, depois um zumbido... e o
retângulo do assoalho onde estavam colocados os quatros
soldados, com ela no centro, começou a descer, lentamente,
tal como o faria um elevador.
A galeria vertical estava recoberta por simples tábuas,
que continham a terra. Não havia nem uma só luz ao longo
do percurso, de modo que só dispunham da que se
enquadrava no alto, ao nível do piso da casa. De qualquer
modo, a distância a percorrer foi curta, uns cinco metros, até
que apareceu a boca do corredor subterrâneo, justamente na
direção para a qual estavam virados, O que, segundo os
cálculos de Brigitte, queria dizer que o corredor se dirigia
para as terras de cultura na frente da casa.
Okay.
Não havia nenhuma luz ali embaixo, de modo que
caminharam praticamente às escuras, pois a que penetrava
pelo vão do elevador era mínima. E em poucos minutos
chegaram ao fim do corredor. Rocha por toda a parte. Mas,
claro, a espiã mais astuta do mundo não se surpreendeu. Se
estavam ali, era porque iam a algum lugar, naturalmente. E
com efeito, um dos soldados apertou em determinado ponto
da parede, à esquerda do corredor. Ouviu-se outro estalido e
o elevador começou a subir, enquanto diante deles afundava
uma porção da rocha.
Agora, sim, a iluminação tornou-se abundante. Por toda
a parte, havia pequenas lâmpadas clareando aquele
passadiço natural, que depois se ramificava em vários e em
amplas grutas. Ao chegar a uma destas, Brigitte se deteve,
aterrada, sentindo um frio súbito no rosto: à esquerda,
colocados verticalmente, viu uma fileira de não menos de
trinta ataúdes de vidro, cada um deles ocupado por um
homem, rígido, lívido, com a máscara da morte
espantosamente gravada no rosto, O último ataúde de vidro,
na extrema direita, continha o cadáver do Sargento Nirko...
Então compreendeu que estava contemplando o cemitério
dos inaptos.
Virou-se para olhar os quatro soldados do futuro que a
escoltavam tão silenciosamente, mas não pôde ver em suas
feições expressão alguma que delatasse seus pensamentos
ou sentimentos. Um deles apontou para frente e Brigitte
obedeceu.
Pouco depois, passavam por outra ampla gruta, na qual
viam-se nada menos de trinta homens, que fumavam e
conversavam amigavelmente, ao que parecia. Alguns deles
eram consideravelmente cabeçudos, outros cuja
anormalidade era apenas perceptível. Olharam-na em
silêncio, deixando imediatamente de conversar entre si.
Sempre escoltada pelos quatros soldados, chegou afinal
diante de uma porta de ferro, na qual um dos soldados bateu
com a coronha do fuzil. Ouviu-se outro estalido, a porta
abriu-se a um sinal de outro soldado e Brigitte cruzou o
limiar. A porta fechou-se às suas costas e então brilhou a
luz, iluminando mais uma gruta.
— Novamente reunidos — ouviu a voz de Napoleão. —
Apresento-lhe o Death Brain.
Localizou Napoleão, de pé, imponente, como cravado ao
solo por suas sólidas pernas. A sua esquerda, os quatro
generais, sentados, contemplavam-na fixamente.
Mas o que agora chamou poderosamente sua atenção foi
a máquina, junto à qual, diante de um painel de controle,
plantava-se o gigantesco Generalíssimo. A máquina
constava de uma tela de TV, com uma cadeira metálica à
frente, seis mostradores circulares protegidos por vidros e
nada menos de cinqüenta cabos, cada um dos quais tinha na
extremidade o que só podia ser um elétrodo.
— Suponho que tenha ouvido falar de certos poderes
naturais da mente humana — disse Napoleão —, com o, por
exemplo, a hipnose, a catalepsia, a telepatia, a introversão...
Todos eles, embora discutidos por muitas pessoas, existem
realmente. Se têm alguma dúvida a respeito, tentarei
dissipá-la.
— Não — declarou Brigitte. — Não tenho dúvidas sobre
isso. Não sei como se produzem, tais fenômenos, mas já
experimentei alguns deles. E diria até que você esqueceu
alguns desses estranhos poderes, como a premonição, por
exemplo.
— Oh, sim, a premonição... Essa faculdade que têm
algumas pessoas de antecipar o que vai acontecer. Também
existe, com efeito. O cérebro humano é sumamente
complexo. mas, ao mesmo tempo, tão incrivelmente
perfeito que se torna vergonhoso o que fizemos dele: um
simples computador que reage segundo normas
estabelecidas. Nós o acomodamos a uma série de situações
determinadas, que são as que regem nossa maneira de viver
e, quando saímos desse campo pré-fabricado, ele já não .nos
serve para nada. A um mesmo acontecimento, cem milhões
de cérebros reagem do mesmo modo. E o exemplo: vemos
na TV cenas atrozes de guerra, ou de cólera no Paquistão,
ou de crianças subnutridas em Biafra e, então, esses cem
milhões de cérebros se comportam como computadores, de
forma idêntica, todos experimentando piedade. Nem um só
deles fica indiferente, ou deriva suas sensações para outro
sentimento ou pensamento... E assim, através de milhares e
milhares de anos, o cérebro do homem, dotado
originariamente de faculdades assombrosas, foi-se
reduzindo a... um simples transistor, útil apenas para
situações estabelecidas por nosso modo de viver... Está me
acompanhando, “Baby”?
— Perfeitamente.
— Ótimo. Bem, agora este cérebro esquematizado... —
apertou um botão e apareceu na tela o desenho de um
cérebro dividido em várias zonas. — É o cérebro de uma
pessoa digamos... normal. Observe suas diversas zonas:
zona do amor, da inteligência, de determinadas aptidões... A
um maior desenvolvimento de uma zona, maior capacidade
cerebral nesse sentido. A propósito, estou certo de que
quando virmos seu cérebro, encontraremos uma zona de
inteligência assombrosamente desenvolvida. Mas
prossigamos. Veja... — a vara de Napoleão pousou num
ponto da tela. — Esta diminuta zona lobular contém a
capacidade humana para o ódio. Se a observar detidamente,
verá que está comprimida por outras zonas, especialmente a
da inteligência e a do amor, motivo pelo qual as mencionei
antes. Estas zonas da inteligência e do amor oprimem,
praticamente anulam a zona do ódio, de maneira que esta é
sempre menos desenvolvida. Observe agora esta outra
imagem... — ele apertou outro botão e a imagem mudou,
mostrando outro cérebro visivelmente maior. —
Corresponde ao esquema de um de meus sargentos. Observe
que a zona do amor e a da inteligência foram notavelmente
deslocadas, ao desenvolver-se a zona do ódio.
— Estou observando.
— Vou lhe mostrar agora o cérebro do Major Olofernes.
Veja: a zona do ódio é maior ainda que a do cérebro do
sargento. E observe agora os esquemas de meus quatro
generais, sem especificar a qual corresponde cada cérebro.
Veja o primeiro: sua zona de ódio afastou todos os outros
lóbulos, encurralou-os...
— Inclusive o da inteligência — murmurou Brigitte.
— Oh, sim, certamente. Você é muito observadora. É
inevitável que isso aconteça. Dizem que a função cria o
órgão e é verdade. Se você tivesse que viver na água para
sempre, sua conformação física iria mudando. Ou a de seus
filhos, ou netos, ou bisnetos... Dentro de cem, duzentos ou
mil anos, seus descendentes teriam mãos com membranas
para nadar melhor, possivelmente teriam desenvolvido uma
barbatana dorsal e com muita probabilidade suas pernas se
teriam transformado numa simples cauda coma a das
hipotéticas sereias. Se o órgão de que precisamos é o que
produz ódio, os demais perdem importância... e terreno,
naturalmente. Entretanto, sempre resta alguma inteligência.
Além disso, como você não ignora, o ódio é, por si mesmo,
uma das mais altas formas de inteligência. Um homem que
sabe odiar intensamente não precisa ter nenhuma outra
espécie de inteligência. Por isso, meus generais, embora
suas zonas de inteligência tenham sido comprimidas, estão
perfeitamente aptos para o exercício de suas funções. E não
pense que é fácil atingir este limite para receber a patente de
general em ódio. Três outros homens faleceram sem o
conseguir. E você se assombraria com o número dos que
morreram antes mesmo de alcançar sequer o posto de cabo
dos Soldados do Futuro.
— Ao que parece, algumas pessoas não estão
capacitadas para odiar tão intensamente — comentou
Brigitte.
— Exato. Essas pessoas morrem. Ou, se me dou conta
de que não convêm ao meu exército, elimino-as... Suponho
que sua curiosidade a respeito do cemitério dos inaptos
tenha sido satisfeita.
— Foi. Foi horrível.
— Bem posso imaginar que ter algumas dezenas de
mortos à vista não seja nada agradável. Mas aqui não
enganamos a ninguém... E um exemplo do que lhes ocorrerá
à menor falha. Naquele cemitério, estão homens que se
assustaram ao saber tudo; ou então, os que não puderam
resistir ao desenvolvimento de sua zona de ódio; ou os que,
como o Sargento Nirko, não cumpriram com seu dever —
um meio sorriso gelado apareceu nos lábios de Napoleão.
— Estou convencido de que minha coleção se enriqueceria,
se pudesse contar com um... exemplo como o que
significaria seu cadáver, “Baby”.
— Você não tenciona matar-me.
— Não. Por ora, não. Acho que você será a mensageira
mais adequada para entrevistar-se em meu nome com o
Presidente Nixon, a fim de colocá-lo ao corrente de tudo e
convencê-lo de que nada pode fazer contra mim e meus
desígnios. Bem... Já como pura rotina, veja os cérebros de
meus outros três generais aqui presentes. Todos com a zona
de ódio pasmosamente desenvolvida. Em todo este
processo, a única coisa... imperfeita, para chamá-la assim, é
o avultamento que se produz na cabeça, devido à grande
expansão da tão mencionada zona de ódio. Eu não falo da
deformação em si, em seu aspecto estético, mas porque nos
denuncia... Não foi assim que você suspeitou do Major
Olofenes?
— Foi. No filme feito durante o assassinato do primeiro
senador, vi um homem que me chamou a atenção pelas
proporções de sua cabeça. Ao ver outro em Atlantic City,
comecei a intuir algo sobre o sistema de matar empregado.
— Intuiu admiravelmente. Permitiria agora que
examinássemos seu cérebro?
Os cinco homens olhavam-na atentos, enquanto Brigitte,
um tanto apreensiva, contemplava aquele aparelho elétrico.
— Se está pensando que vamos enganá-la, e que o que
na realidade pretendemos é fazer de você um Soldado do
Futuro, equivoca-se, “Baby”. Por diversos motivos, isso não
me convém de modo algum. Por exemplo, para desenvolver
sua zona de ódio, é preciso que se submeta voluntariamente,
de modo que o processo de recepção elétrica por meio dos
elétrodos se produza sem resistência de nenhuma espécie.
Em segundo lugar, tenho a impressão de que sua zona de
ódio normal é tão diminuta, que custaria muito tempo
desenvolvê-la o suficiente para que pudesse matar por
simples volição a vítima escolhida. De qualquer modo,
como dispomos de muito tempo, se está disposta a
reconsiderar minha oferta para transformar-se em meu
quinto general...
— Não...
— Bem. E em terceiro lugar, pensando melhor, creio
que não me convém dotá-la de semelhante poder, pois
suspeito que poderia utilizá-lo contra nós. Tenho a certeza
de que sua integridade moral é tão sólida, tão completa, que
nunca aceitaria fazer parte de meu Estado-Maior, sabendo
que em breve, possivelmente antes de um ano, milhões de
soldados de todo o mundo morrerão para abrir caminho ao
meu reduzido mas seleto exército mundial, que me
permitirá governar com um poder que o verdadeiro
Napoleão Bonaparte jamais sonhou sequer.
— Já lhe preveni que, se tiver a menor oportunidade, eu
o destruirei — disse calmamente Brigitte.
— Está vendo? Isso é integridade moral — não se
abalou o Generalíssimo. — Podemos iniciar o exame de seu
cérebro, quando lhe aprouver. Não quer sentar-se?
Brigitte hesitou um instante, mas afinal sentou-se diante
da tela, na cadeira metálica, O General Leuchaffen
aproximou-se e começou a aplicar-lhe elétrodos na cabeça,
O encurvado General González munira-se de um bloco e
uma caneta, e agora estava olhando obsessivamente a tela.
A um lado desta, tão logo Leuchaffen terminou a
aplicação dos elétrodos, o Generalíssimo comprimiu o
primeiro botão, lentamente... Brigitte estremeceu com a
força e esteve a ponto de levantar-se, mas a outra pesada
manopla de Napoleão pousou num de seus ombros.
— Quieta... — disse ele. — São pequenas descargas
inevitáveis, mas não vai lhe acontecer nada.
Continuou apertando botões, enquanto na tela apareciam
gráficos que a sagaz espiã não entendia em absoluto. O
general González tomava notas em seu bloco. Ninguém
pronunciava uma palavra... Ao ser apertado o sexto botão,
“Baby” já não estremeceu, o que provocou uma confusa
troca de olhares entre os cabeçudos ali reunidos.
— Algo vai mal — murmurou Leuchaffen.
— Não... — negou o Generalíssimo. — Todos os
controles estão funcionando perfeitamente. Vou prosseguir.
Apertou o sétimo botão e tampouco esta vez Brigitte
estremeceu. Na tela, apareceram uns gráficos de linhas
quebradas que fizeram o General González lançar uma
exclamação. E à medida que o Generalíssimo ia acionando
os controles dos diversos elétrodos aplicados à cabeça de
Brigitte Montfort, González, sempre lançando exclamações,
tomava notas precipitadamente... Por fim, quase soltou um
grito.
— Pare a máquina, Generalíssimo! Pare-a
imediatamente!
Napoleão desligou o Death Brain e olhou severamente
para o general.
— Que há?
— Ela está lutando contra a máquina... — arquejou
González. — Está queimando-a. Não admite sua
interferência, repele-a... Com todos os demônios, esta
mulher tem uma zona de inteligência que é impenetrável!
Quase não existe zona de ódio e, em compensação, a zona
do amor é incrivelmente desenvolvida... Mas o
verdadeiramente assombroso é sua zona vital de
inteligência: esta mulher é mais inteligente que nós cinco
juntos e provocou uma introversão, um isolamento mental
que poderia ter inutilizado a máquina em poucos segundos
mais...
— Bobagem — disse secamente Napoleão.
Leuchaffen, com um gesto enérgico, duro, apontou para
a parte posterior da máquina, de onde começava a brotar
uma tênue coluna de fumaça branca. Passou para. trás, deu
um puxão e mostrou a pequena peça, ainda fumegante.
— Um transistor... — disse. — Ficou inutilizado.
Novamente todos olharam para Brigitte, que permanecia
imóvel na cadeira de metal, tranqüila, rosto inescrutável.
— Não importa — murmurou Napoleão. — Temos
transistores em quantidade. Quanto a você, agente “Baby”,
provocou-nos de um modo insensato.
— Não queriam conhecer o grau da minha inteligência?
— replicou ela, indiferente. — Pois já têm uma idéia
bastante aproximada, não?
— Generalíssimo — exclamou Murchison — é preciso
executar esta mulher imediatamente! É perigosíssima! Nem
mesmo nós, que somos os mais treinados para matar por
meio das ondas de ódio, pudemos vencê-la... E esteve a
ponto de destruir o Death Brain... É preciso executá-la!
— Não. Eu necessito dela viva, pois, como já disse
antes, é a mensageira ideal para o Presidente dos Estados
Unidos — disse Napoleão. — Entretanto, a agente “Baby”
tornou-se credora de uma pequena demonstração por parte
do Cérebro da Morte...
Baixou uma alavanca e, súbito, Brigitte soltou um grito,
saltando de pé e levando as mãos à cabeça para arrancar os
elétrodos. Destes brotaram faíscas e ela retirou as mãos, que
tinham ficado completamente enegrecidas, enquanto
tombava de bruços contra a tela, para finalmente cair no
chão, arrastando cabos e elétrodos.
— Chamaremos os soldados para que a levem a seu
alojamento — disse o Generalíssimo. —Espero que tenha
aprendido a lição. Quando despertar, terei uma grande
surpresa para ela.
***
Quando despertou, permaneceu uns segundos olhando o
teto sujo e cheio de teias de aranha.
Cá-cá-cá-cá-co-co...
Sentou-se velozmente e olhou as galinhas que ciscavam
pelo chão. Bem... De novo em casa: de volta ao galinheiro...
O conhecidíssimo zumbido no exterior fez com que se
levantasse, aproximando-se da janela. Com efeito, chegava
um helicóptero, que sem dúvida fora o que a. despertara.
Mas talvez antes do que lhe convinha, pois sentiu um súbito
enjôo e teve que se apoiar à parede para não cair. Por
intuição, olhou seu braço e viu nele o segundo pontinho
vermelho. O sol estava mais baixo, a leste, que quando
entrara no quartel subterrâneo de Napoleão, sinal de que era
mais cedo. E como isto não podia acontecer num dia,
compreendeu que estava em outro dia. Quer dizer, estivera
novamente dormindo quase todo um dia, vencida pela droga
que lhe haviam injetado e cujos efeitos sentia ainda, embora
muito debilmente.
Quando o helicóptero pousou entre umas árvores
frutíferas, diante da casa, estava bastante recuperada para
prestar atenção a todos os detalhes. Embora houvesse pouco
o que olhar: simplesmente, dois homens com grandes
cabeças, um dos quais não lhe era desconhecido, desceram
do aparelho e entraram na casa. Lembrou-se de imediato:
aquele cabeçudo era o que tinha visto nos filmes que o tio
Charlie lhe levara. Ou seja, o soldado do futuro que
assassinara o senador Norman Sutter enviando-lhe ondas de
ódio superdesenvolvido.
Por um instante, disse para si mesma que aquilo não
podia ser verdade, que era um pesadelo: homens que
desenvolviam seu ódio de tal modo, que se tornavam
capazes de matar, lançando-o contra outra pessoa. Tal como
existia a hipnose, tal como se podia anular ou pelo menos
controlar em parte uma mente humana, podia-se matar
substituindo a hipnose pelo ódio, pelo desejo de matar
concentrado, terrivelmente concentrado e desenvolvido por
aquela infernal máquina, que ampliava a zona de ódio no
cérebro de uma pessoa, assim como... como uns halteres ou
uns extensores podiam desenvolver os músculos de um
atleta. Em vez de provocar a hipnose, ou a catalepsia,
provocavam a morte definitiva, pelo ódio. Soldados do
Futuro... tornados capazes de um ódio tão intenso, que
podiam matar com ele.
Era esse o futuro do mundo?
Estava sonhando, ou era verdade que um homem que se
fazia chamar Napoleão tinha projetado assassinar milhões
de soldados de todo o mundo para dominá-lo, só com uma
centena de homens cujo potencial de ódio era mortífero?
Levou as mãos ao rosto e, então, viu-as ainda
enegrecidas. Mas não lhe doíam. Esfregou-as e a leve
camada de fuligem foi desaparecendo. Lembrou-se da
máquina, dos elétrodos, daqueles cinco homens estranhos,
compostos de ódio espantoso. O único que parecia não ter
nenhum defeito físico era Napoleão. Os outros,
visivelmente, eram defeituosos: faltavam-lhes um braço, ou
uma perna, ou eram corcundas como se tivessem alguma
anormalidade na coluna vertebral, ou rígidos como se
atacados de paralisia... Eram quatros seres horríveis,
dirigidos por um louco.
Sentou-se sobre um caixote, apalpou o corpo e suspirou,
ao encontrar o isqueiro e os cigarros. Acendeu um e ficou
absorta. Tinha decorrido quase um dia desde que a haviam
deixado fora de combate... Que acontecera desde então,
durante aquelas vinte e duas ou vinte e quatro horas?
Quinze minutos mais tarde, quatro soldados do futuro,
armados de fuzis reduzidos, vieram buscá-la, Ordenaram-
me por sinais que saísse do galinheiro e levaram-na para a
casa. Dentro desta, no living, Napoleão e os quatro generais
a esperavam, exatamente como na primeira vez. De pé,
junto à mesa dos generais, estavam os dois cabeçudos que
tinham chegado no helicóptero, para o qual Brigitte olhara
ao passar diante dele, mas sem se fazer ilusões: quatro
homens armados de fuzis não eram uma brincadeira.
— Tenho uma agradável surpresa para você, “Baby” —
disse Napoleão, sem preâmbulo algum, segundo seu
costume. — O desafio será realizado,
— Refere-se à luta entre um de seus soldados e uma
companhia de marines?
— Com efeito.
— Está mentindo: não haverá tal luta. É impossível que
o Pentágono tenha aceitado; nem o Departamento de...
— Pouparemos as discussões, agente “Baby”: aceitaram.
A luta terá lugar numa praia solitária, às dozes em ponto
desta noite. Oh, apresente-lhe o Capitão Osinov e o Major
Wala. Eles foram os encarregados de agenciar o desafio,
que, como lhe disse, foi aceito. Pressinto que assistiremos a
uma luta emocionante.
— Assistiremos? Acaso estaremos presentes? —
perguntou Brigitte.
— Claro que não. Mas um de meus homens estará no
lugar adequado para rodar um filme utilizando luz negra.
Nós, comodamente instalados aqui, teremos ocasião de ver
esse filme poucas horas depois da... contenda. E espero que
a lição seja convincente. Depois, você irá levar minha
mensagem a Mr. Nixon. É simples, é fácil: ou me outorga o
comando de todas as forças militares americanas ou, antes
de quarenta e oito horas de sua negativa, será assassinado
do modo que você sabe, a distância. Disponho de pessoal
capacitado para esse trabalho — indicou seus quatro
generais. — Dada a importância da provável vitima, creio
que bem merece quatro generais. Compreendeu tudo, agente
“Baby”?
— Compreendi.
— Então, volte ao seu alojamento. Depois que todos
tenhamos visto o filme, você será transportada em
helicóptero a um ponto adequado para que possa chegar à
Central da CIA e conseguir que lhe preparem a entrevista e
o Presidente. Alguma dúvida?
— Nenhuma, nesse aspecto da questão.
— Em que outro aspecto tem dúvidas?
— Nesse combate de um homem contra a companhia de
marines. Quem irá?
Napoleão indicou um homem que tinha assinado o
Senador Norman Sutter.
— O major Wala terá esse privilégio.
— Privilégio? — sorriu friamente Brigitte. — Ele será
crivado de balaços...
— Não, não, não... Bom, você ignora certos detalhes e
condições desse confronto, “Baby”. Os marines não
deverão levar arma alguma. Seria injusto, não acha? Já que
o Major também comparecerá completamente desarmado.
— Desarmado? — exclamou Brigitte, empalidecendo.
— Nenhum de vocês está realmente desarmado! Sabe muito
bem que...!
— Calma. Não me agradam os histerismos.
Não sou nenhuma histérica — replicou Brigitte. Mas
você bem sabe que o Comandante Wala não comparecerá,
na verdade, desarmado. Tem todas as chances de ganhar.
— Isso é o que deve ficar demonstrado, justamente. Para
o caso, tanto faz ir desarmado ao encontro do inimigo,
como não ver esse inimigo. Quero convencê-los de que um
só dos meus soldados do futuro, bem emboscado, poderia
liquidar, não uma simples companhia, mas uma divisão
inteira de marines. Entretanto, não quero que esta
demonstração os deixe demasiado aterrados e, assim,
combinou-se que, quando os marines se renderem, meu
enviado interromperá o ataque.
— É impossível que o Pentágono tenha aceitado
semelhante barbaridade. Só mesmo no caso de não haver
acreditado...
— Não compreende? — cortou desdenhosamente
Napoleão. — O Pentágono quer justamente que se produza
esse confronto, pois tem esperança de conseguir averiguar
que espécie de arma utilizam os soldados do futuro.
Esperança vã, certamente. Não obstante, seus dirigentes
estão dispostos a arriscar toda uma companhia de marines
para descobrir esse importantíssimo segredo, que, afinal de
contas, colocaria o poder militar mundial em mãos dos
Estados Unidos. Por isso, foi aceito o desafio, não para
brincar de soldado... E como compreenderá, a vida de umas
quantas dezenas de homens não preocupa em absoluto o
Pentágono... Agora não me diga que considera isto incrível
ou impossível.
Brigitte estava lívida. Acendeu um cigarro com mão
trêmula, observada atentamente pelos sete cabeçudos.
Suspirou, expelindo com força a fumaça, e moveu
negativamente a cabeça.
— Não... — murmurou. — Não acho que isso seja
incrível, nem impossível. Sei, já faz muito tempo, que
inclusive nós americanos somos capazes de tudo. Até
mesmo de uma torpeza como a que está tramando.
— Não seja infantil. Que são umas poucas dezenas de
homens para os maiorais do Pentágono, comparados com a
possibilidade de apoderar-se de um sistema de ataque
mortal como o que os mantém tão perplexos e assustados?
— Suponho que nada... Posso retirar-me?
— Mandaremos buscá-la para ver o filme.
Brigitte assentiu com a cabeça, esmagou a ponta do
cigarro num cinzeiro e virou-se para a porta, que se abria
naquele momento, pois Napoleão tinha tocado a campainha
para chamar os soldados que esperavam fora... e por trás
dos quais, a uns oitenta metros de distância, a espiã
internacional tornou a divisar o helicóptero.
Baixou as pálpebras para esconder a flama de decisão
em seus magníficos olhos e saiu ao pórtico... virando-se já
contra os dois soldados à sua esquerda, subitamente
transformada numa fera, numa pantera disposta a tudo.
Seu primeiro golpe, em plena garganta, deixou o
primeiro atacado fora de combate de um modo fulminante.
Seu segundo ataque partiu da perna esquerda, que se dobrou
para frente e logo foi projetada para trás, de modo que o pe
atingiu com violência o ventre do segundo soldado,
atirando-o fora do pórtico por cima da balaustrada lateral.
Os outros dois soldados já estavam reagindo, enquanto na
casa se ouvia a voz de Napoleão, ordenando que não a
matassem, que a queria viva... Um dos soldados havia
saltado para suas costas, erguendo o fuzil para golpeá-la na
cabeça... Lançou o tremendo golpe, mas a grande lutadora
se encolheu, esquivando-se, carregou o soldado do futuro
sobre os ombros, num impecável kata-guruma de judô, e
atirou-o contra o quarto homem, que então já se lançava
sobre ela. Os dois rolaram para fora do pórtico.
E, bem como uma pantera, “Baby” saltou por cima
deles, começando a correr para o helicóptero a toda a
velocidade, enquanto, de diversos pontos da granja,
apareciam vários homens, que também se punham a correr
em direção ao aparelho.
Com rapidez espantosa, ela se desembaraçara de quatro
inimigos, mas, enquanto corria para o helicóptero, foram
aparecendo de toda a parte mais e mais “granjeiros”... Dois
destes chegaram antes e interpuseram-se entre ela e o
aparelho, dispostos a detê-la, fosse como fosse. Viram-na
baixar a cabeça, enrijecer os ombros e preparar-se para
investir contra eles, aceitando o choque violentíssimo, que
fatalmente se produziria.
Os dois homens ficaram entre atônitos e aterrados; ante a
insensatez daquela jovem, que, inevitavelmente, levaria a
pior no esbarrão.... que não aconteceu: quando estava a
pouco mais de um metro deles, Brigitte, endireitou-se, fez
uma finta para a esquerda e passou pela direita dos dois
como uma exalação, deixando-os cravados no solo,
definitivamente estupefatos.
Sem mais obstáculos, chegou ao helicóptero, subiu
velozmente a ele e, enquanto entrava por uma porta, um
“granjeiro” entrava pela outra, lançando-se contra ela de
cabeça.
Desta vez, “Baby” não pôde se esquivar e recebeu a
cabeçada em pleno peito. Soltou um grito de dor e foi
atirada de costas para fora do aparelho, levando uma queda
que, somada ao golpe no peito, deixou-a semi-aturdida.
Ainda assim, tentou levantar-se, mas um enxame de
recrutas dos Soldados do Futuro caiu sobre ela, sepultando-
a.
Quando foi levada sem sentidos, pendente dos braços de
dois recrutas, à presença de Napoleão, este a contemplou
em silêncio durante uns segundos, apreciativamente, apesar
de irritado com seu procedimento.
— Que lhe apliquem uma dose suficiente para que
durma até que chegue o filme do combate — disse. — Não
gostaria de tornar a assistir ao lamentável espetáculo de
vários homens vencidos em poucos segundos por uma
mulher. E que dobrem a vigilância. Major Wala, será
melhor que se submeta a uma longa sessão do Death Brain,
pois esta noite vai ter muito trabalho. O Capitão Osinov o
acompanhará para encarregar-se da filmagem e apoiá-lo em
caso de necessidade. Nada mais, senhores... Espero que
pelas três ou quatro da madrugada possamos ver esse filme.
E teremos uma convidada que, espero também, ficará
definitivamente convencida.
***
Teve a sensação de que estava voando, mas em seguida
compreendeu que simplesmente a levavam suspensa pelos
braços para algum lugar. Sentiu no rosto o ar fresco da noite
e, ao erguer a cabeça, viu milhares de estrelas no negro céu.
Quando chegaram à casa, estava suficientemente recuperada
para caminhar por si só.
E novamente entrou na sala, onde o Generalíssimo
Napoleão, sempre de pé no mesmo lugar, acolheu-a com
uma expressão tão clara de triunfo, que imediatamente
compreendeu: tudo se passara de acordo com seus projetos
e desejos. Os quatro generais estavam também em seu lugar
habitual. A um lado, viu o Capitão Osinov e o Major Wala,
ambos atendendo ao projetor, diante do qual, pendente da
parede, havia uma pequena tela.
— Sente-se, agente “Baby” — convidou amavelmente
Napoleão. — Será melhor para você, pois muito me apraz
comunicar-lhe que o Major Wala obteve absoluto êxito em
sua missão, derrotando uma companhia de Infantaria da
Marinha. Entretanto, não se inquiete: não houve tantas
mortes como eu teria desejado. Somente dez ou doze,
parece. Mas... para que lhe explicar tudo, se você mesma
poderá ver tudo perfeitamente no filme feito pelo Capitão
Osinov? Ou não quer vê-lo?
Brigitte assentiu com a cabeça.
— Você tem boa têmpera. Bem, Capitão Osinov, quer
projetar-nos esse filme do combate numa praia solitária
entre o Major Wala, dos Soldados do Futuro, e uma
companhia de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos?
***
Quando o filme terminou, todos os rostos se viraram
para a agente “Baby”, que estava pálida, mas cuja expressão
era dura, hostil.
— Compreendemos seus sentimentos... — murmurou
Napoleão. — Não obstante, espero que admita que o Major
Wala foi excessivamente piedoso com esse grupo de
estúpidos soldados...
— Os marines não são estúpidos — atalhou Brigitte. —
Nem covardes. Você sabe perfeitamente disso. Mas em
circunstâncias como as que lhes foram apresentadas esta
noite...
— Deixemos isso. A única coisa que resta por fazer é
enviar ao Presidente meu ultimato, por intermédio de você,
que o saberá explicar à perfeição. Quanto à possível
incredulidade de Mr. Nixon, vamos preveni-la,
obsequiando-o com o filme que acabamos de ver. Espero
que o compreenda em todo o seu significado e que aceda ao
meu desejo de dirigir, desde amanhã mesmo ao anoitecer,
todo o poderio militar do país. Boa viagem, agente “Baby”.
Brigitte levantou-se.
— Posso levar minha maletinha?
— Não.
— Está bem... A CIA me mandará fabricar uma outra
imediatamente: não é a primeira que perco. Estou pronta
para partir... Vão me adormecer de novo?
— Não será necessário. Irá com os olhos vendados e
será deixada perto de Langley.
Apertou a campainha, a porta se abriu e apareceram dez
recrutas, sob o comando de quem a julgar pelo tamanho da
cabeça, devia ser capitão, como Osinov. Estavam tomando
muitas precauções com ela... para deixá-la em liberdade.
Efetivamente, Napoleão pareceu captar seu pensamento.
— Vamos deixá-la em liberdade, mas quero que saiba o
seguinte, ficará condenada à morte pelos Soldados do
Futuro, quando tiver entregado minha mensagem ao
Presidente. Terá que se esconder durante toda sua vida para
que não a encontremos, para que não se coloque ao alcance
de nossas ondas de ódio. Na verdade, é uma morte refinada
que escolhi especialmente para você... Acho que a merece.
Não sei quanto tempo poderá se esquivar de nós, mas, seja
como for, não tenho a menor dúvida de que o medo, a
angústia de ser encontrada, não lhe permitirão em absoluto
gozar a vida, Seria muito fácil matá-la... Uma vulgaridade,
imprópria dos Soldados dó Futuro. Não, não... Vá à Casa
Branca, cumpra sua missão e depois, por muito que se
esconda...
— Você está falando demais — cortou friamente a espiã
mais implacável de todos os tempos. — Não tenciono
esconder-me,
— Não? — sorriu cruelmente o Generalíssimo.
— Não. Pelo contrário: espero ter o prazer de tomar a
encontrá-lo muito em breve.
— Insiste em nos ameaçar?
— Sim. E eu nunca ameaço em vão. Vocês... todos
vocês estão condenados — fechou a mão direita, com o
polegar apontando para baixo.
— Kaput, compreendem?
— Levem essa insensata daqui — ordenou friamente o
Generalíssimo Napoleão.
CAPITULO QUINTO
Uma expressão quase comiserativa...

Mr. Cavanagh deu um tremendo salto em sua cadeira


quando a viu aparecer na porta da sala, seguida por três
agentes do Grupo de Ação, cujos olhos brilhavam
alegremente.
— Graças a Deus! — exclamou. — “Baby”! De onde
saiu você? Todos estávamos receosos de que...!
— Pois estou saindo do quartel-general de Napoleão, de
onde me trouxeram com os olhos vendados num helicóptero
que esteve descrevendo curvas para me fazer crer que a
distância entre aquele lugar e Langley era muito superior.
Tenho um filme para Mr. Nixon e uma proposta, um
ultimato de Napoleão concernente à outorga do comando de
todas as forças militares americanas. Assim sendo, chefe,
terá que me conseguir uma entrevista pessoal e privada com
o nosso Presidente. Enquanto isso, quero que me revelem
umas fotos que tirei, inclusive do próprio Napoleão, e que
vejam se por qualquer motivo este consta de nossos
arquivos, dos da Polícia ou do FBI. Ao mesmo tempo,
quero que nosso serviço de Geologia localize a região dos
Estados Unidos onde, sendo produzidos excelentes tomates
e cenouras, possa também haver laranjas, e que haja
também a possibilidade de grutas naturais sob essas terras
tão produtivas... Que é?
Os três agentes e Mr. Cavanagh estavam tão estupefatos,
escutando-a, que tardaram alguns segundos a reagir.
— Esta é boa! — exclamou um dos Johnnies.
— Desaparece sem deixar nenhum rastro, estávamos já
organizando a mobilização de toda a CIA e, quando
aparece, começa a dar ordens sem mais explicações... e
ainda nos pergunta o que há!
— Mocinho — um de seus companheiros deu-lhe uma
cotovelada —, eu já lhe preveni que trabalhar com “Baby” é
coisa que deixa qualquer um atordoado...
Os três puseram-se a rir e Cavanagh sorriu. Brigitte
olhou-os um por um, como encantada com a vida. Súbito,
sacudiu a cabeça.
— Vamos! Mãos à obra! — disse.
***
Pelas quatro horas da tarde, Mr. Cavanagh entrou num
dos pequenos salões de conferências da Central da CIA,
onde “Baby” tinha instalado seu posto de comando,
encontrando-a rodeada de agentes de ação e especialistas
em assuntos diversos, que tinham estado assessorando-a.
Aproximou-se dela e, sem mais, disse:
— O presidente a receberá dentro de uma hora.
— É uma grande amabilidade de sua parte — sorriu
Brigitte, com expressão de fadiga. — E uma honra,
naturalmente, como as duas vezes anteriores. Entretanto,
chefe, poderia desculpar-me perante o Presidente?
— Como? — espantou-se Cavanagh.
— Já não é necessária essa entrevista, portanto
deixaremos que nosso Presidente continue ocupando-se de
coisas mais importantes que atender a pedidos de maníacos.
— Mas você disse que se antes de quarenta e oito horas
esse Napoleão... Não, não... O que você disse...
— Localizamos o lugar — cortou Brigitte.
— Já? — exclamou Cavanagh.
— Por que se surpreende? — ela tornou a sorrir. —
Somos a CIA, não é verdade? Não há em todo o mundo
tantos meios para qualquer tipo de trabalho. Quer ver as
fotografias aéreas? Foram feitas por três U-2 que
esquadrinharam a zona assinalada pelos geólogos como
possível local dessa granja. A zona está cheia de granjas,
mas a minha é esta.
Estendeu umas quantas fotos a Cavanagh, que examinou
ainda estupefato as pequenas edificações que apareciam em
perspectiva aérea.
— Como pode ter certeza? Não é tão fácil, parece-me...
— Veja estas outras — Brigitte empurrou-as para ele. —
Formam toda uma coleção, que bati através da janela de
meu galinheiro. Comparando a tomada horizontal desse
lugar, em vista panorâmica, com a forma deste pequeno
bosque defronte desta casa — separou duas das fotos feitas
pelos U-2 —, fotografado do ar, há coincidências. Mas não
é só isso: a disposição da casa, do galinheiro e do estábulo é
idêntica. Tomei cuidadosamente minhas medidas visuais e a
única granja que coincide em todos os pontos com minhas
medidas é esta.
— Bem, se você está segura...
— Seguríssima.
— De acordo. Lá iremos para capturar todos esses
cabeçudos...
— Está brincando? — Brigitte olhou-o vivamente.
— Brincando? Não. Suponho que devemos...
— O que não devemos fazer de modo algum é
aproximar-nos deles. Eu sim, poderia fazê-lo, com o único
risco de cair desmaiada ao receber as ondas de ódio, mas
todos os que viessem comigo cairiam mortos. Ou, pelo
menos, a maioria. Acha que vou arriscar as vidas de
quarenta ou cinqüenta Johnnies só por consideração a esses
cabeçudos maquiavélicos?
— Então...?
— Só há um jeito... e sou a primeira a lamentar,
asseguro-lhe — ergueu outras fotografias e estendeu-as a
Cavanagh; as fotos mostravam os rostos de Napoleão e do
General Murchison, mas tinham sido feitas antes que suas
cabeças fossem desenvolvidas por efeito do Death Brain,
ampliando-lhes a zona de ódio. — Tem notícias destes dois
personagens, chefe?
— Foram encontrados! — celebrou Cavanagh, pegando
as fotos.
— Quase ao mesmo tempo em que o FBI o fazia... Mas
ganhamos deles por quatro minutos, nove segundos e sete
décimos.
Houve risos no salão de conferências cheio de homens,
papéis e fotografias espalhadas por toda a parte, assim como
vários mapas gigantescos de diversas regiões dos Estados
Unidos. A tensão tinha sido muita. Agora, uma brincadeira
a tempo produziu o benéfico efeito de uma sesta em pleno
verão.
Um dos Johnnies prolongou a brincadeira da bonequinha
amada da CIA:
— Eu contei quatro minutos, onze segundos e dois
décimos.
— Puxa vida! — ela empregou a expressão favorita de
Frank Minello. — Esses malandros do FBI quiseram nos
passar para trás!
A gargalhada foi geral. Até o sisudo Mr. Cavanagh riu
francamente. Mas, quando examinou as fotos de Napoleão e
do General Murchison, e leu o que estava anotado no dorso
de cada uma, ficou pálido e olhou sobressaltado para
Brigitte. Ela o olhava, como se justamente estivesse
esperando essa reação.
— Lamentável, não é verdade, chefe? — perguntou.
— Mas... estes dois homens... Aqui diz...
— Por isso eu disse que é lamentável.
— Deus... Isso foi verificado com toda a exatidão,
suponho...
— Claro.
— Então, trata-se de uns malditos traidores que...
— Bem... — interrompeu Brigitte, num sussurro. — Isso
é algo que teria que ser discutido longamente, chefe. E não
temos tempo agora.
— De acordo, não teríamos tempo para discutir
longamente este assunto, mas eu me digo que quando dois
homens foram oficiais do Exército dos Estados Unidos e
estão pretendendo... Com todos os diabos, eles há quinze
anos são pensionistas do governo...
— É verdade, mas nesse resumo não se dizem os
motivos. Enquanto eu preparo a invasão de uma granja com
galinheiro, pode ler seus dossiês completos, chefe: ai os
tem... Ou prefere assumir o comando o senhor mesmo?
— Naturalmente que prefiro — Cavanagh deu-se conta
de que todos os agentes da CIA que estavam ali lhe dirigiam
olhares torvos e deu um giro completo à sua resposta — que
seja você quem assuma o comando.
— Obrigada, chefe... — riu Brigitte. — Quando tiver
terminado de ler esses dossiês, venha reunir-se a nós na
esplanada.
— De acordo.
Meia hora mais tarde, todas as ordens estratégicas
tinham sido dadas pela agente “Baby” e esta, fumando um
cigarro, esperava Cavanagh num helicóptero, em
companhia de três Johnnies. Um pouco afastados,
esperavam mais três helicópteros, repletos de agentes de
ação... que ainda estavam maldizendo sua sorte ao perder a
oportunidade de acompanhar “Baby” em seu aparelho. Mas
uma moeda lançada ao ar nunca se sabe de que lado vai
cair...
Cavanagh chegou, subiu ao aparelho e assentiu com a
cabeça. Brigitte indicou o céu com o polegar.
— Upa! — o helicóptero decolou. — Leu tudo, chefe?
— Li. E parece que Muchison e Napoleão nada tinham
em comum... Bom, não sei por que o chamo Napoleão,
agora que conheço seu verdadeiro nome: Walter L. Spencer.
— Que diferença faz? — Brigitte encolheu os ombros.
— Quanto a isso de que não tinham nada em comum, eu
creio que sim. Em primeiro lugar, seus terríveis ferimentos,
que deram causa à pensão depois de terminada a guerra da
Coréia. Depois, justamente devido a esses ferimentos,
encontraram-se em terrível inferioridade física, mas, como
dispunham do dinheiro da pensão, tiveram tempo para
dedicar-se a pensar em coisas muito más. Especialmente
Napoleão, que completara com brilho um curso de
Eletrônica... Combinados o desafogo econômico, pelo
menos para suas necessidades vitais, e o muito tempo de
que dispunha para ler livros de toda a espécie, foi
certamente penetrando nesse estranho mundo das
faculdades da mente humana, que o homem veio cada vez
mais esquecendo, desvirtuando... Ele fez todo o contrário:
reavivou-as, aperfeiçoou-as... e completou tudo isso com a
construção do Death Brain. Teve que consagrar muitos anos
a esse trabalho. E enquanto isso, possivelmente procurando
apoio moral e financeiro, foi localizando homens que
tinham padecido o mesmo que ele. E, assim, encontrou de
início Murchison, Leuchaffen, González... Depois foram
recrutados outros, como Wala, Osinov, Olofernes, Nirko...
E pouco a pouco, foi-se formando em sua mente a Idéia de
um exército do qual ele seria o chefe absoluto, o
Generalíssimo inconteste... destinado, finalmente, a
governar o mundo das armas, que odeia, sem dúvida por
causa dos ferimentos que esse mundo militar lhe infligiu.
Somente seu exército de cabeçudos permaneceria de pé. Os
outros exércitos de todo o planeta seriam exterminados...
Dá-se conta do ódio que é preciso para pretender isso,
chefe?
— Sim... Mas há muitos como ele, como Murchison...
— Esse é o mal. Com esses como ele e como Murchison
contava Napoleão, como uma reserva praticamente
inesgotável de soldados do futuro...
— É preciso destruir esse artefato diabólico, esse
Cérebro da Morte, seja como for!
— Tudo está previsto — murmurou Brigitte consultando
seu relógio. — Dentro de duas horas, aproximadamente,
estaremos lá.
— E então...?
Uma expressão quase comiserativa apareceu no belo
rosto de “Baby”. Porém, uma vez mais, lembrou-se dos
Johnnies mortos devido ao ataque de ondas de ódio
recebidas do Major Olofernes, na própria Central da CIA...
e suas feições se crisparam bruscamente.
— Então, acontecerá o que eu disse ao Generalíssimo...
Eu o adverti — seu polegar apontou para baixo. — Kaput!
***
— Atenção todos os helicópteros da CIA — avisou
Brigitte, abrindo o rádio de bordo —: chegamos à zona.
Formem o circulo à distância combinada e que o avião dê
inicio às operações... Atenção, tripulantes do avião:
comuniquem se me ouvem e se estão preparados. Câmbio.
— Mensagem recebida no avião — ouvia-se uma voz
pelo rádio. — Descarregaremos dentro de três minutos.
Tempo suficiente? Câmbio.
— Tempo suficiente. É tudo. Fora.
Fechou o rádio, tocou no ombro do agente que pilotava o
helicóptero e apontou para o norte, de modo que teriam que
sair de cima da granja, a qual estavam sobrevoando então, a
pouca altura. Tão pouca, que não teve a menor dificuldade
em identificá-la sem erro possível, e inclusive pôde ver
vários “granjeiros” correndo para a casa, naturalmente
dispostos a refugiar-se nas grutas subterrâneas e a fazer-se
fortes lá.
— Pior para vocês — murmurou.
Três minutos depois, o avião passava por cima da granja
e lançava a primeira bomba, à qual se seguiram
imediatamente outras mais, cortando o ar com um silvo
agudo, estarrecedor. A distância conveniente, os
helicópteros da CIA permaneciam em suspensão, seus
ocupantes observando, impressionados, as colunas de pó e
chamas que brotavam impetuosamente e transformavam-se
em nuvens de fumaça, que obscureciam a luminosa tarde de
verão. Rosto inexpressivo, “Baby” contemplava também os
resultados daquelas explosões, que muito em breve teriam
que ser explicados pelo Pentágono, para tranqüilizar os
habitantes da região... Mas isto não era com ela. Sua missão
estava ali, assegurando-se de que nenhum daqueles
espantosos cabeçudos poderia sair vivo para continuar
exercendo seu mortífero poder mental. E, sobretudo,
convencer-se de que a máquina, o Cérebro da Morte, fora
completamente destruída.
— Já devem estar reduzidos a pedaços — murmurou
Cavanagh.
Brigitte pareceu sobressaltar-se. Abriu de novo o rádio.
— Atenção, avião: cessem o bombardeio. Façam uma
volta de uma hora e retornem: se forem necessárias mais
bombas, serão notificados então. Entendido? Câmbio.
— Entendido. Até logo. Câmbio.
— É tudo. Fora.
Fechou o rádio e olhou para o que restava da granja...
Grandes nuvens de pó e fogueiras se alastrando. Apenas
isso. As grutas tinham-se transformado numa grande tumba,
não menos horrível que o cemitério dos inaptos...
Houve uma chamada pelo rádio, que tornou a abrir.
— “Baby” à escuta. Câmbio.
— “Baby”, aqui o helicóptero 3. Estamos vendo um
carro preto, grande, que se dirige para o sul. Parece que saiu
das... das entranhas da terra! Que fazemos? Câmbio.
— Não façam nada. Vou até lá. É tudo. Fora. Fechou o
rádio e indicou ao piloto o rumo sul. Depois, olhou para
Cavanagh.
— Devia ter imaginado que os grandes chefes adotariam
providências para prevenir um contratempo como este.
Deixaram que fossem destruídos seus soldados do futuro e
agora estão escapando para o sul, de carro.
— Vai dar ordem para que sejam bombardeados?
— Não preciso de ajuda para um só veículo — disse
friamente a espiã.
Abriu a nova maletinha que lhe haviam proporcionado
na CIA, em tudo idêntica à anterior e como mesmo
conteúdo de armas, gases, venenos e recursos sem fim.
Sempre havia uma de tais maletas preparada para ser
entregue imediatamente à agente “Baby”: cortesia da casa.
Da maletinha tirou o tripé, de tubos de alumínio e
enroscou-os rapidamente, formando um tubo só. Depois,
adaptou a culatra, isto é, o que para qualquer pessoa que
examinasse a maleta era um pequeno secador de cabelo, a
pilhas. Por fim, desenroscou o fundo de um dos potes de
creme facial, tirou uma das pequenas granadas e introduziu-
a pela boca do improvisado mas sempre eficiente fuzil...
— O carro — disse o piloto.
— Ultrapasse-o, depois vire para ele de cara.
— Okay.
Segundos depois, o helicóptero ultrapassava o grande
carro preto que seguia para o sul por um caminho de terra,
evitando as boas estradas onde havia trânsito. E pouco após,
voando convenientemente mais baixo, o aparelho
regressava, direto para o carro preto.
“Baby” virou-se de modo a ficar debruçada por sobre a
porta. Levou o fuzil ao ombro, apontou um segundo e
disparou.
Sempre infalível.
O carro saltou, envolto numa labareda súbita, deu duas
voltas no ar e todos viram perfeitamente três corpos serem
lançadas fora na primeira delas... livrando-se assim do
tremendo choque contra uma grande árvore, onde o carro
pareceu enroscar-se, rodeado de chamas.
— Baixe... — disse Brigitte ao piloto. — E apaguem
esse fogo com os extintores do helicóptero: não há razão
para que se provoque um incêndio florestal.
O helicóptero pousou perto do sinistro e os agentes da
CIA, dois deles levando extintores, correram para lã,
enquanto Brigitte, pistolinha na mão, encaminhava-se para
onde haviam saltado fora do veículo os três corpos... Virou
a cabeça e viu Cavanagh caminhando atrás dela, com sua
claudicação característica... e pistola em punho.
— Aonde vai? — gritou-lhe Brigitte.
— É possível que algum esteja vivo e, neste caso...
— Neste caso, seria assassinado, chefe. Fique onde está
e, por favor, Jahnny, não discuta comigo.
— Bem... Tome cuidado, “Baby”.
O primeiro que viu foi Lacroix, transformado num
molambo que ela deixou de olhar imediatamente,
impressionada. Um pouco mais além, viu Leuchaffen, caído
de ventre, mas, coisa estranha e arrepiante, com a cabeça
virada para cima, quer dizer, no momento de sua morte,
havia perdido aquela rigidez que o obrigava a mover todo o
corpo, quando queria olhar para trás e para os lados. Depois,
viu Napoleão, compreendendo que no carro tinham ficado
Murchison e González, transformando-se em cinzas...
Aproximou-se do Generalíssimo e estremeceu, ao vê-lo
sem pernas. Era somente um corpo, das virilhas para cima...
Brigitte olhou a seu redor e viu as duas pernas ortopédicas
que o mutilado da guerra da Coréia estivera utilizando,
conseguindo com elas sua colossal, imponente estatura.
Contemplava-as sombriamente, quando de súbito
experimentou uma ligeira náusea e apareceu, de leve,
aquela dor de cabeça... Ao mesmo tempo em que se apoiava
a uma árvore, ela se virou para Napoleão... e viu-o com os
olhos abertas, fixando-a. Aqueles olhos negríssimos,
insondáveis, terríveis, dos quais pareciam brotar ondas de
ódio, ataques do ódio mais profundo que já conhecera a
mais audaciosa espiã de todos os tempos.
Uma nova fisgada de dor, embora diminuta, fez Brigitte
fechar os olhos, engolir em seco e agarrar-se com mais
força à árvore. E uma nova onda de ódio partiu do
agonizante Napoleão, mas “Baby” já estava reagindo contra
ela, com toda a sua força mental. Soltou-se da árvore, deu
um passo e então tudo pareceu descrever milhares de voltas
num instante. Quando se deu conta, estava de joelhos.
Levantou a cabeça e viu o mutilado firmando-se no chão
com ambas as mãos, arrastando-se desesperada-mente para
ela... Queria estar mais perto, para, com todo o seu ódio,
tentar mais uma vez matá-la.
— Napoleão — ela apontou-lhe a pistolinha de coronha
de madrepérola —, não se mova mais. Não me ataque mais.
Esqueça seu ódio... Não é justo: sempre houve mutilados de
guerra e não é justo odiar por isso todos os soldados do
mundo que não sofreram mutilações. Compreendo o que
você deve ter sentido ao ficar sem pernas há dezoito anos.
Sei tudo o que esteve tentando, mas basta... Ouça: ainda
posso influir para que seja tomada em conta sua loucura
temporária, seu ódio para com a pátria que lhe custou as
pernas, para com todo o mundo que...
Sentiu nova fisgada na cabeça, mais intensa.
Evidentemente, Napoleão não ia conseguir matá-la, embora
fosse, sem dúvida, o mais treinado de todos os Soldados do
Futuro, mas tentava-o com todas as suas forças agônicas.
Uma fisgada agora bem forte na cabeça, fazendo-a
compreender que estava a ponto de perder os sentidos,
decidiu “Baby”.
— Eu lhe preveni, lembra-se?... — arquejou. — E o
estive prevenindo agora... Kaput!
Plop.
E a pequena bala cravou-se naquela cabeça, paralisando
para sempre seu funcionamento... Inclusive o da zona de
ódio.

A ÚNICA SOLUÇÃO
— Bem... — Cavanagh fechou a pasta de cartolina e
olhou com expressão de triunfo a espiã mais bela do mundo.
— Assim terminado. Não restou nem uma só peça dessa
máquina diabólica, desse Cérebro da Morte e, quanto aos
Soldados do Futuro, tampouco sobrou nenhum que possa...
— Tem certeza, chefe? — interrompeu Brigitte.
— Como? Mas claro que tenho certeza... A que vem
essa pergunta? Você estava lá quando tudo aconteceu,
quando foram desenterrados todos aqueles cadáveres...
Inclusive você mesma colocou uma carga explosiva no
Death Brain para estar segura de que o Pentágono não
resolveria se apoderar dele e utilizá-lo futuramente... Tudo
terminou e está bem terminado — Cavanagh franziu a testa
—, ou vai me dizer que não?
— Eu diria, chefe, que o mundo continua cheio de
soldados do futuro.
— É urna brincadeira? Se não restou nenhum...!
— Não compreende, chefe? — insistiu Brigitte. — Há
milhares de homens como Napoleão e seus generais,
mutilados de guerra que depois recebem em troca uma
pensão... e o esquecimento. E enchem-se primeiro de
mágoa, depois de rancor, finalmente de ódio... Disse que
terminamos com os Soldados do Futuro? Não senhor. Pelo
contrário, nós mesmos continuamos criando-os: no
Vietnam, no Laos, no Oriente Médio, na África... A cada
revolução, cada combate, cada guerra, vão sendo criadas
centenas, milhares de soldados do futuro, milhares de
homens que têm motivos para odiar, para estar ressentidos,
para perguntar a si mesmos por que eu?, por que perdi
minhas pernas, ou meus braços, ou meus olhos...?, por que
eu? Felizmente, são em menor número, mas sempre restarão
soldados do futuro, a menos que se recorra à única solução
possível.
— Que solução? — perguntou Cavanagh.
— Que não haja mais guerras. Mas enquanto as houver,
creio que a Humanidade merece que haja Soldados do
Futuro. Por que nos queixar, se nós mesmos os criamos?
Posso voltar para casa, Johnny?
Cavanagh assentiu com a cabeça, após contemplar
fixamente Brigitte Montfort durante uns segundos,
pensando que ninguém no mundo poderia pôr suas palavras
em dúvida: enquanto existirem guerras, existirão Soldados
do Futuro. Soldados mancos, cegos, sem braços... que, salvo
os que forem dotados de uma força espiritual absolutamente
admirável, derivarão para o ressentimento e, talvez, para o
ódio.
— Procurarei não a incomodar durante uma temporada
— murmurou o chefe direto da mais perigosa espiã do
mundo. — Pedirei agora mesmo um helicóptero, para que a
leve...
— Não, obrigada. Sabe o que vou fazer? Pois escute: irei
até Washington recorrendo ao autostop a lá tomarei um
ônibus até Nova Iorque, como uma garota qualquer... Tenho
direito, não?
— Claro — sorriu Cavanagh. — Espero que você se
divirta. Sobretudo, pondo em ação o polegar para pedir
carona... Entre!
Tinham batido na porta de sua sala e, após a autorização,
entrou um homem que olhou para Brigitte e piscou-me o
olho, ao que ela correspondeu, atirando-lhe um beijo. Com
isto, o agente perdeu o passo e quase subiu na mesa de
Cavanagh, que o olhou torvamente e tirou-lhe o envelope
das mãos.
— Isto... acaba de ser recebido, sir — quase
tartamudeou o Johnny.
— Está bem. Pode ir.
— Sim, senhor.
Cavanagh abriu o envelope, começou a ler, mas em
seguida estendeu o papel a Brigitte, que arqueou as
sobrancelhas, adiantou a mão e recebeu-o. Depois de ler o
que nele estava escrito, deixou o papel sobre a mesa e
levantou-se.
— Ainda estamos em tempo... — murmurou.
— Enquanto continuarem chegando mensagens como
esta, ainda estamos em tempo. Mas um dia já não será
possível e, então, creio que não haverá soldados do futuro...
porque nem sequer teremos futuro. Até a vista, chefe.
Quando ficou sozinho na sala, Cavanagh leu a
mensagem que acabava de chegar à Central.
Dizia:

A “BABY”, DA CIA
Agradecemos suas expressões de pesar, cuja sinceridade
não pomos em dúvida. Lamentamos não poder transmiti-las
aos familiares dos astronautas e aos cientistas, mas
considere-as recebidas por toda a Rússia.
Atenciosamente,
MVD
Diretório

PRÓXIMA
EDIÇÃO:

Certos países,
como certas
pessoas, esperam
sempre por uma
chuva bem verde,
caída do céu...

Você também pode gostar