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Merlim na Literatura Britânica Medieval

Esta tese analisa a figura de Merlim nas narrativas arturianas britânicas entre os séculos XII e XV, explorando sua importância e evolução na literatura da época. O trabalho investiga a influência dos druidas, a magia, e a profecia na percepção de Merlim, além de analisar obras-chave que moldaram sua imagem, como 'Historia Regum Britanniae' e 'Le Morte Darthur'. O objetivo é compreender a identidade multifacetada de Merlim e seu papel social, cultural e político na Idade Média.

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Merlim na Literatura Britânica Medieval

Esta tese analisa a figura de Merlim nas narrativas arturianas britânicas entre os séculos XII e XV, explorando sua importância e evolução na literatura da época. O trabalho investiga a influência dos druidas, a magia, e a profecia na percepção de Merlim, além de analisar obras-chave que moldaram sua imagem, como 'Historia Regum Britanniae' e 'Le Morte Darthur'. O objetivo é compreender a identidade multifacetada de Merlim e seu papel social, cultural e político na Idade Média.

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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE LETRAS

As faces de Merlim na cultura e literatura britânica.


(séculos XII a XV)

Ana Patrícia Dinis Estácio

Tese orientada pelo Prof. Doutor José Manuel Henriques Varandas e co-orientada pela
Prof.ª Doutora Maria Angélica Oliveira Varandas Azevedo Cansado e, especialmente
elaborada para a obtenção do grau de Mestre em História, na especialidade de História
Medieval

2021
Agradecimentos
A elaboração desta tese apenas foi possível através de um conjunto de pessoas e
instituições a quem dou os meus mais sinceros agradecimentos.

As primeiras palavras de agradecimento vão para a Professora Doutora Angélica


Varandas, por todo o apoio e força que me deu ainda antes de iniciar este projecto, pela
orientação, pela motivação e toda disponibilidade e ajuda, fosse com bibliografia ou com
pequenos esclarecimentos. Ao professor José Varandas, pela orientação, entusiasmo e todo
o apoio que me concedeu ao longo da elaboração deste projecto.

De seguida os meus agradecimentos vão para a minha família. Em especial,


agradeço aos meus pais e avós, e ao Luci, pelo amor e apoio incondicional.

Á Tsuki, a quem dedico esta tese, por todo o carinho e companheirismo desde a
minha entrada na licenciatura até ao mestrado, e pela força, que me permitiu ultrapassar
todos os obstáculos que surgiram no caminho.

Ao Flávio, pelo amor, carinho, apoio e paciência ao longo desta jornada, e por me
acompanhar nos momentos mais difíceis, dando força sempre que precisei.

Aos meus amigos, que me acompanharam e apoiaram sempre. À Juliana Semanas,


por todo o carinho, apoio e pela paciência durante esta longa amizade. Ao Daniel Carvalho,
Catarina Gomes, Maria Júlia, Carolina Tavares, Ana Catarina, Gil Tomás, Bárbara Canelas
e à Beatriz Fontes pela amizade e apoio incansável. À Carina Silva, Angie Machado, Bruna
Moraes, Pedro Almeida, Daniel Domingues, João Batista pela força, amizade e constante
animação. Ao Mestre João Maia, ao Ricardo Lebre e todos os meus amigos e colegas da
Espada Lusitana, pela irmandade e apoio.

Aos repositórios do Internet Archive, The British Library e Project Gutenberg, que
permitiram a consulta de bibliografia e iconografia indispensável para este trabalho.

Á Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a todos os professores com


quem tive a oportunidade de trabalhar ao longo da licenciatura e mestrado, por
contribuírem para o meu enriquecimento enquanto pessoa e investigadora.

2
Resumo

O presente trabalho elabora uma análise aprofundada da figura de Merlim nas


narrativas arturianas britânicas, incidindo num período específico: os séculos XII a XV.
Tomando como ponto de partida o século XII, data que marca o aparecimento de Merlim na
literatura, pretende-se asseverar quem é esta figura e qual a sua importância na referida
época.

Para o efeito, principiamos com uma reflexão acerca da matéria da Bretanha, e do


imaginário maravilhoso no contexto inglês, dos antigos druidas e da sua influência nesta
personagem e da religião e crenças britânicas nos períodos cronológicos explorados. Esta
tese pretende lançar um olhar sobre a magia e os seus praticantes no decorrer do tempo, e
sobre a profecia enquanto dom divino numa sociedade cristianizada e a sua relação com a
figura de Merlim.

Procura-se acima de tudo determinar quem era Merlim e como era percepcionado
pelos historiadores e literatura da época, bem como pela população. Com esse propósito,
serão analisadas as principais obras medievais que colaboram na formação desta
personagem: Historia Regum Britanniae (c. 1136) e Vita Merlini (c. 1150) de Geoffrey of
Monmouth, Itinerarium Cambriae (1190) de Gerald of Wales e Le Morte Darthur (1485)
de Thomas Malory. Além disso, ter-se-á em consideração outras obras igualmente
importantes na formação da lenda arturiana, como De Excidio et Conquestu Britanniae (c.
510-530) e Historia Brittonum (c. 828), embora a data da sua produção seja anterior ao
século XII. Finalmente, este trabalho tem ainda como objectivo compreender como Merlim
evolui ao longo do tempo e determinar quais os locais que lhe são associados, bem como a
sua respectiva importância. Assim, pretende-se examinar a existência de vários “Merlins”
ao longo dos tempos e espaços históricos, pseudo-históricos e literários.

Palavras-chave: Merlim; Matéria da Bretanha; Imaginário Medieval; Idade Média; história


do pensamento

3
Abstract
This thesis elaborates an in-depth analysis of the figure of Merlin in the British
Arthurian narratives, focusing on a specific period: 12th century to 15th century. Starting in
the 12th century, that marks the appearance of Merlin in literature, it is our aim to assert
who this figure is and what is its importance in that period.

For that purpose, we begin with a reflection on the Matter of Britain and the
medieval imaginary in the English context. We will also focus our attention on the ancient
druids and their influence in this character, as well as on British religion and beliefs in the
explored chronological periods. We will offer a brief look at magic and its practitioners
over time, and at prophecy as a divine gift in a Christianized society and its relationship
with Merlin.

Above all, we intend to determine who Merlin was and how he was perceived by
the historians and literature of the period, as well as by the population. With this purpose in
mind, the main medieval works that collaborated to the formation of this character will be
analyzed: Historia Regum Britanniae (c. 1136) and Vita Merlini (c. 1150) by Geoffrey of
Monmouth, Itinerarium Cambriae (1190) by Gerald of Wales and Le Morte Darthur
(1485) by Thomas Malory. In addition, other works equally important to the formation of
the Arthurian legend will be considered, such as De Excidio et Conquestu Britanniae (c.
510-530) and Historia Brittonum (c. 828). Finally, it is our goal to understand how Merlin
evolves over time and determine which locations are associated with him, as well as their
importance. Thus, we will recognize the existence of several Merlins throughout different
historical and literary times and spaces.

Key words: Merlin; Matter of Britain; Medieval Imaginary; Middle Ages; History of
thought

4
Índice
Introdução ............................................................................................................................. 9
Capítulo 1 ............................................................................................................................ 15
1. A matéria da Bretanha no contexto inglês: séculos XII a XV ............................. 15
1.1. Merlim e os druidas ............................................................................................... 18
1.2. Religião e crenças britânicas .................................................................................. 21
Capítulo 2 ............................................................................................................................ 30
2. Magia, profecia e realidades .......................................................................................... 30
2.1 A magia nos séculos XII a XV ................................................................................... 30
2.2. A profecia na Idade Média ......................................................................................... 37
Capítulo 3 ............................................................................................................................ 42
3. A presença de Merlim na Britânia – séculos XII ao XV ............................................. 42
3.1. A ideia de Merlim na história .................................................................................... 43
3.2. Merlim na literatura ................................................................................................... 58
3.3 As facetas de Merlim .................................................................................................. 68
4. Influência e identidades de Merlim ............................................................................... 75
4.1. A importância social, cultural e política .................................................................... 75
4.1.1. Os locais (fictícios e históricos) ............................................................................ 84
4.2. As identidades de Merlim .......................................................................................... 87
Conclusão ............................................................................................................................ 95
Bibliografia ........................................................................................................................ 104
Fontes .............................................................................................................................. 104
Fontes online ................................................................................................................... 104
Estudos ............................................................................................................................ 105
Anexos ................................................................................................................................ 111

5
Lista de figuras

Figura 1 - Cronologia dos acontecimentos relatados na Historia Regum Britanniae segundo


Geoffrey of Monmouth ………………………….……………………………………… 109

Figura 2 – Merlim e Vortigern …………………………………………………………. 109

Figura 3 - Jovem Merlim e a sua mãe diante de Vortigern ………...…………………... 110

Figura 4 - Jovem Merlim a aconselhar Vortigern ……...………………………………. 110

Figura 5 - Jovem Merlim a confortar Uther Pendragon ……...………………………… 111

Figura 6 - A construção de Stonehenge por Merlim ………………………...…………. 111

Figura 7 - Os dragões vermelho e branco e Vortigern e a torre que não se mantinha de pé


…………………………………………………………………………………………… 112

Figura 8 - Miniatura de 'Uter roy' (Uther Pendragon) em conversação com Merlim ...... 112

Mapa 1 - A Britânia de Myrddin ……………………………………………………….. 113

Tabela 1 - Quadro explicativo dos diversos nomes mencionados ……………………... 114

6
Lista de abreviaturas

Historia Historia Regum Britanniae

Vita Vita Merlini

Prophetiae Prophetiae Merlini

7
Merlin . . . the very name conjures up
images of magic and mystery. And
what a mystery. Perhaps even more
than King Arthur, the real character
and person of Merlin remains obscure,
lost in fifteen centuries of tales retold.

Mike Ashley em The Mammoth Book of


Merlin, 2009.

8
Introdução

Merlim é uma das figuras mais conhecidas da Matéria da Bretanha, juntamente com
Artur e Morgana, e da literatura medieval inglesa e francesa, a partir da qual adquire
relevância. Não só o encontramos na literatura da época, como também em representações
posteriores, como livros, séries, filmes e jogos, sendo a inspiração para a criação de várias
personagens, desde bardos, feiticeiros, magos e bruxos. Desde há muitos anos que a época
medieval me fascina, o que culminou no ingresso na licenciatura em História e,
posteriormente, no mestrado em História Medieval. Dentro deste vasto mundo de temáticas
e possibilidades, o ciclo arturiano é o que atrai mais a atenção. Ao ponderar acerca do tema
desta dissertação o nome que surgiu logo em mente foi o de Merlim e, de seguida, a
questão: quem é Merlim?

Tal como sucede com outras personagens, muitos investigadores dedicaram-se ao


estudo de Merlim, focando-se nos aspectos principais desta figura e na literatura
envolvente. Um deles foi Gillian A. Sandeman, cuja dissertação – elaborada em 1968, The
figure of Merlin in English literature from the beginnings to 1740, incide no período
cronológico compreendido entre os séculos XII e XVII e na evolução de Merlim na
literatura, acompanhando o cenário político e o estilo literário das várias épocas em
questão. Apesar do capítulo de análise que se centra na presença de Merlim na literatura
produzida entre os séculos XII e XV e na sua ligação com Myrddin e Lailoken, não
aprofunda algumas temáticas propostas neste trabalho, nomeadamente as identidades de
Merlim e a sua importância social e cultural a nível histórico. Ainda no que respeita à
possível origem de Merlim, destaca-se a tese de Paloma Galán Redondo de 2004, El mago
Merlín desde la tradición románica hasta el Orlando Furioso, que compreende o estudo
das obras de Geoffrey of Monmouth e a sua importância e influência na Idade Média, e
épocas subsequentes, e o artigo de Ana Rita Martins de 2014, Merlim: Druida, Profeta e
Feiticeiro, que também realiza uma análise global da personagem, incorporando as diversas
características que ela possui.

Por outro lado, Anne Lawrence-Mathers na obra The True History of Merlin the
Magician, edição de 2020, explora a vertente histórica de Merlim na Idade Média na

9
Europa, utilizando como fontes uma vasta variedade de obras inglesas e francesas. A obra
recai sobretudo em questões sociais e políticas, na magia e nas profecias de Merlim. A par
disso, elabora também comparações com literatura posterior. Porém, carece de uma análise
mais completa que incorpore as restantes características atribuídas a esta figura, entre as
quais, a sua associação ao druidismo e se existiu apenas um Merlim (real ou fictício) ou
vários. Ainda assim, trata-se de uma análise interessante, que nos ajuda a compreender o
papel e importância que Merlim adquiriu na história. No que respeita a algumas questões
complexas que esta dissertação levanta, nomeadamente a associação de Merlim a nomes
como Ambrósio e Ambrósio Aureliano, destaca-se o artigo da professora doutora Angélica
Varandas de 2013, From Ambrosius Aurelianus to Arthur: the Creation of a National Hero
in Historia Brittonum e de Glòria Torres Asensio, de 2018, Ambrosi Aurelià. Història i
llegenda d’un líder brità, que permitem compreender quem era Ambrósio e Ambrósio
Aureliano, e qual a sua ligação a Merlim e Artur. No que concerne a cronologia dos
acontecimentos mencionados nas fontes, Mike Ashley faz uma análise pertinente da obra
de Geoffrey of Monmouth, nomeadamente a Historia, permitindo uma melhor
compreensão dos acontecimentos relatados. Sobretudo ao desemaranhar a linha temporal
criada pelo autor e tentar corresponder com datas e acontecimentos históricos factuais e
mencionados por outros autores, como Gildas e Nennius. Ao mesmo tempo, Mike Ashley
sustenta que a atribuição de eventos contemporâneos de Geoffrey of Monmouth a Artur
detinha o objectivo glorificar o rei do seu tempo – Henrique I: “[…] Geoffrey’s Historia
[…] soaks up individuals regardless of when and where they lived and works them into an
apparently cohesive story.”1

Por último, importa referir a existência de um conjunto diversificado de monografias


acerca da matéria da Bretanha, que contém capítulos ou breves passagens acerca de
personagens arturianas como Merlim. Contudo, existe um maior número de estudos
baseados em fontes francesas em comparação com as inglesas, assim como um maior foco
no maravilhoso medieval. A vertente literária e a relação com a questão política e
“nacionalista” adquire relevância nestes estudos, dos quais são exemplo The Arthur of the
English. The Arthurian Legend in Medieval English Life and Literature de William
Raymond Barron (ed.) de 2001, pertencente a uma colecção sobre os vários Artur de

1
ASHLEY 2005: 266.

10
diversos países, e Heroes and Anti-Heroes in Medieval Romance de Neil Cartlidge (ed.) de
2012. É ainda de realçar o surgimento de estudos acerca de adaptações da narrativa
arturiana, realizadas ao longo dos séculos XX e XXI, no âmbito dos fenómenos conhecidos
como medievalismo e neomedievalismo, particularmente em séries televisivas, filmes,
livros e jogos. Entre essas, salientamos as apropriações contemporâneas de Merlim, como,
por exemplo, a série Merlin (2008-2012) criada para a BBC por Julian Jones, Jake Michie,
Johnny Capps e Julian Murphy, e a mini-série Merlin (1998) da NBC por Steve Barron, que
podemos encontrar referidas na obra de 2005, Oxford Guide to Arthurian Literature and
Legend de Alan Lupack2.

Tendo em consideração estes estudos, é proposto observar Merlim com base em duas
perspectivas diferentes, mas que estão interligadas - a literária e a histórica. Os principais
objectivos deste trabalho prendem-se com o estudo desta figura, qual a sua identidade e
porque é incorporada numa obra do século XII que descreve eventos que ocorrem no século
V. Procurar-se-á ainda perceber como Merlim era percepcionado, a sua evolução ao longo
do tempo e qual a sua influência e importância entre os séculos XII e XV. Para o efeito, a
pesquisa incidiu quer em fontes medievais, como crónicas, poemas, romances de cavalaria,
enciclopédias e iconografia, quer em estudos críticos actuais, de natureza geral e específica,
de modo a contextualizar o tema de trabalho. Tendo em consideração o propósito desta
tese, optou-se por uma reflexão sobre alguns aspectos da sociedade medieval, de modo a
compreender a mentalidade e o pensamento da época, da cultura popular, no que diz
respeito ao imaginário medieval e à sua relação inerente com Merlim e cruzar a análise
histórica com a literária, com a finalidade de obter um estudo mais completo. De facto,
acreditamos que a literatura, embora constitua uma forma de expressão particular, pode
fornecer dados de natureza histórica sobre uma dada época, pelo que aqui recorremos a um
método comparativo da história com a literatura.

2
O medievalismo é um fenómeno devedor da estética romântica que, partir de finais do século XVIII,
procurou recriar o passado medieval para reflectir sobre questões contemporâneas. O neomedievalismo é mais
recente, encontrando-se desprovido de pretensões de fidelidade histórica ou de nostalgia por uma era perdida.
Ambos os termos, definidos enquanto novas áreas de investigação no âmbito dos Estudos Medievais a partir
dos anos 70 do século XX, encontram-se ligados a Umberto Eco e ao seu ensaio de 1973, “Dreaming of the
Middle Ages”.

11
No que concerne o espaço temporal, optou-se pelo período entre o século XII e o XV
na Britânia, dado que o primeiro corresponde ao surgimento de Merlim, sob esta mesma
designação, nas fontes escritas. Não obstante, em determinados momentos houve a
necessidade de recuar um pouco, de modo a compreender melhor os factos narrados nessas
mesmas fontes. Assim, recorremos às obras de Gildas, Beda e Nennius e à consulta das
obras The Life of Kentigern e The Black Book of Carmarthen. Ainda que a literatura
francesa seja igualmente importante na construção das lendas arturianas, não é alvo de
estudo por parte deste trabalho.

Para estes efeitos, o presente trabalho encontra-se dividido em quatro capítulos. O


primeiro incidirá sobre a contextualização histórica: a matéria da Bretanha e o imaginário
na zona da Britânia nos séculos XII a XV. Neste capítulo centrar-nos-emos na figura do
druida que, inserido no grupo sacerdotal da sociedade celta, detinha uma elevada
importância, tendo sido uma das bases de inspiração na criação de Merlim. Abordaremos
também a religião e crenças britânicas, a partir dos processos de mutação que se iniciaram
no século IV com a substituição gradual da religião politeísta pelo monoteísmo. A
permanência de crenças populares vem-nos mostrar que se tratou de um processo que
permitiu a adopção e adaptação de alguns elementos considerados pagãos. Neste contexto,
salienta-se uma zona especial – a Irlanda, onde ocorreu um processo distinto de mudança.
Dentro do imaginário medieval, destacamos ainda um conjunto de seres sobrenaturais que
grande parte da população acreditava existir – os demónios. Devido à ligação inevitável de
Merlim aos demónios, designadamente aos incubi, analisamos igualmente a evolução que
estes seres possuem na Idade Média – alvo de troça a temidos. Convém ainda mencionar
que este é um tópico bastante delicado devido à falta de documentação, uma vez que as
tradições pré-cristãs e de teor popular eram sobretudo transmitidas oralmente.

O segundo capítulo tem o seu foco na magia, profecia e nas realidades a elas inerentes.
Tendo em consideração as capacidades de Merlim, como o acesso a informações sobre o
futuro – na forma de profecia, da capacidade de transformar outras personagens através de
magia, e de deslocar grandes objectos, importa analisar a relação da sociedade medieval
com a magia, com as artes da adivinhação e com o maravilhoso. Questionamo-nos acerca
da aceitação destas práticas na sociedade medieval e notamos uma certa evolução

12
decorrente entre o século XII e o século XV. A excepção encontra-se na profecia. De
semelhanças com os dons de figuras da tradição cristã, mostra-se uma arte bastante útil no
período de estudo. É neste campo que as Prophetiae Merlini adquirem relevância, sendo
um dos textos mais lidos e interpretados no decorrer do período medieval inglês.

O terceiro capítulo incidirá na presença de Merlim na Britânia entre os séculos XII e


XV. Começará pelas concepções históricas de Merlim, ou seja, a ideia de Merlim na
história, como esta figura era percepcionada por historiadores e escolásticos. Neste
capítulo, o objectivo também será relacionar a sua figura com aspectos sociais e culturais.
Aqui, teremos como foco as obras de Geoffrey of Monmouth e de Gervase of Tilbury, que
nos fornecem informação acerca da presença de Merlim nos séculos XII e XIII. De seguida,
a abordagem direccionar-se-á para os romances de cavalaria – designadamente Thomas
Malory e Le Morte Darthur, de modo a analisar o papel de Merlim nos cenários e
acontecimentos narrados neste texto. Neste género, encontramos a presença do
maravilhoso, que constitui, de resto, um dos seus motivos principais, a par das demandas e
das batalhas travadas pelos cavaleiros. Assim, importa explorar a ligação de Merlim ao
maravilhoso tendo em consideração o contexto histórico do século XV. Notamos
igualmente que, nesta obra, a personagem adquire um papel ligeiramente distinto, bem
como funções inexistentes nas obras precedentes. Neste capítulo, pretende-se ainda analisar
o contacto entre Merlim e outras figuras do ciclo arturiano, como Vortigern, Ambrósio
Aureliano, Uther Pendragon, Artur, Taliesin e Nenive. É no último subcapítulo que serão
analisadas em conjunto as concepções históricas e literárias, de modo a compreender a
evolução desta figura no decorrer do período de estudo, visto que se trata de uma
personagem inconstante ao longo da literatura inglesa. Importa compreender o impacto e a
presença que teve nos textos e porque é aprisionado por Nenive na obra de Malory.

O último capítulo recai sobre a influência e identidades de Merlim, dividindo-se em


dois subcapítulos. No primeiro será analisada e determinada a importância de Merlim na
cronologia de estudo, no contexto inglês, a nível das várias esferas da sociedade. Tendo em
conta a análise realizada no capítulo precedente, poderemos observar as diferenças que
encontramos entre o Merlim das obras históricas e o do romance de cavalaria, denotando a
sua inconsistência ao longo do período medieval, algo que também é possível observar ao

13
nível da iconografia. Dentro das obras de carácter histórico, é imperativo ter em
consideração, igualmente, as diferenças presentes entre elas. Ainda dentro deste
subcapítulo, identificaremos quais os locais – fictícios ou históricos, associados a esta
figura, como Carmarthen (local onde Merlim foi descoberto pelos homens de Vortigern), de
modo a compreender qual a sua relevância no período em estudo. O segundo subcapítulo
terá como objectivo evidenciar quem é Merlim na Britânia medieval, seguindo o contexto
sociocultural e as fontes. Verificamos que esta é uma personagem com diversos atributos,
estando por isso associada à magia, à profecia, à figura do bardo e do druida e ao cenário
bélico. Além disso, são-lhe atribuídos igualmente nomes divergentes, o que se encontra
relacionado com as obras precedentes a Geoffrey of Monmouth, que também tiveram
impacto na criação da sua Historia e Vita. Neste seguimento, podemos concluir que esta
personagem parece tratar-se não só de um Merlim, único e exclusivo, mas de vários, que
acompanham o tempo e o espaço histórico, indo beber à tradição celta.

Ao longo desta dissertação iremos optar pelo uso do termo feiticeiro quando nos
referimos a Merlim e ao dom mágico que possui. Não utilizaremos o termo “mago” por
aludir aos magos de Vortigern, que se opõem a Merlim no que respeita aos ideais e
métodos que praticam para obter os fins pretendidos, pelo que possuem uma conotação
negativa associada. De modo a escolher a melhor designação a atribuir a Merlim,
analisámos as fontes e recorremos a dicionários, designadamente o Oxford English
Dictionary e A Latin Dictionary.

Relativamente à variedade de nomes que serão citados neste trabalho e que poderão
causar alguma confusão, nos anexos consta um quadro explicativo relativo aos mesmos.

14
Capítulo 1

1. A matéria da Bretanha no contexto inglês: séculos XII a XV


Durante a Idade Média ocidental, o imaginário encontrava-se presente na vida e no
quotidiano da população. Este entende-se por “[…] a visão do Mundo para lá do visível.” 3,
e continha situações inexplicáveis que, para o homem e a mulher medievais, seriam
consideradas reais. A maioria da população acreditava igualmente na existência de todos os
elementos que compunham o maravilhoso4. Mesmo com a introdução do cristianismo e
subsequente pressão por parte da Igreja para o abandono das práticas designadas «pagãs»,
sabemos que estas persistiram em algumas zonas, nomeadamente rurais5.

O ciclo arturiano é, sem dúvida, um dos elementos culturais da Idade Média que
mais se destaca, nomeadamente no que respeita ao imaginário literário, em particular com
os romances de cavalaria. Quando falamos na Matéria da Bretanha6, referimo-nos a uma
tradição literária medieval e a um conjunto de narrativas que se extrapolam além da Idade
Média, indo até à contemporaneidade7. Nela, o elemento do fantástico e do maravilhoso
une-se à história inglesa. Assim, as narrativas que envolviam a figura de Artur, considerado
um regente soberbo, propiciaram, aos reis anglo-normandos e seus descendentes, glória e
dignidade8.

No entanto, os autores das obras que compõem este ciclo literário, nomeadamente
os romances de cavalaria, não possuíam interesse pela autenticidade do que narravam. Na
verdade, na Idade Média, não se pode traçar uma distinção clara, como acontece hoje em
dia, entre elementos míticos e históricos. Era frequente as obras tratarem ambos da mesma
forma, isto é, como tendo realmente acontecido. Como o público a que estas narrativas se
destinavam seria maioritariamente constituído pelos grupos sociais altos, como a nobreza,
que também as patrocinava, os textos direccionavam-se para um mundo associado a essa

3
BARBOSA 2016: 341-343.
4
BARBOSA 2016: 348-351.
5
MARTINS 2014: 48.
6
A expressão “Matéria da Bretanha” foi cunhada por Jean Bodel, poeta francês, do século XII, que, no
prólogo da canção de gesta, La Chanson des Saisnes, refere as três matérias literárias do seu tempo: a de
França, a de Roma e a da Bretanha.
7
LUPACK 2007: 2-3.
8
LACY et al.2013: 2.

15
mesma nobreza: o mundo da cavalaria, da heráldica e do amor cortês ao qual se associavam
motivos do maravilhoso que muito agradavam aos nobres. De facto, o romance arturiano
caracteriza-se por apelar ao maravilhoso, evocando, muitas vezes, tempos passados ao
recriar histórias lendárias que pertencem a um determinado património cultural. Assim,
muitos textos romanescos assumem-se como idealizações de um passado remoto,
celebrando, de forma nostálgica, um mundo ideal que se opõe a um presente decadente. É o
que encontramos, por exemplo, nos versos iniciais de “The Wife of Bath’s Tale" de
Geoffrey Chaucer:

In th' olde dayes of the kyng arthour,


Of which that britons speken greet honour,
Al was this land fulfild of fayerye.
The elf-queene, with hir joly compaignye,
Daunced ful ofte in many a grene mede.
This was the olde opinion, as I rede;
I speke of manye hundred yeres ago.
But now kan no man se none elves mo, (…)9

Ao recorrer ao maravilhoso, o romance apela ainda ao sonho e à imaginação,


pressupondo um envolvimento afectivo com o leitor, transportando-o para um tempo
mágico, o que o aproxima da época da infância, como salienta Northrop Frye:

The romance is nearest to all literary forms to the wish-fulfilment dream, and for that
reason it has socially a curiously paradoxical role. In every age the ruling social class
tends to project its ideals and the villains the threats to their ascendancy. This is the
general character of chivalric romance in the Middle Ages (…). The perennial
childlike quality of romance is marked by its extraordinarily persistent nostalgia, its
search for some kind of imaginative golden age in time or space.10

Deste modo, é possível afirmar que, no romance, se cruzam duas realidades


distintas: os acontecimentos reais da época e elementos que poderiam ser inseridos na
época, sendo estes ou criações ou adaptações de tradições antigas 11. A matéria arturiana

9
CHAUCER 1988: 116.
10
FRYE 1957, 186.
11
LACY et al. 2013: p. 3.

16
também se encontrava ligada ao passado britânico, à política e à historiografia, ao demarcar
a relação entre os anglo-normandos, ingleses e galeses a nível de ambições territoriais,
sendo que para os aristocratas compunha um corpus novo de material histórico que os
entusiasmava. Estes textos possuíam, assim, preponderância para a Grã-Bretanha, através
dos quais imaginava a sua hegemonia, e ao propiciar uma compreensão entre o seu presente
o passado12. Após a sua origem nas terras britânicas, começaram a surgir obras e textos em
francês acerca da mesma temática – o ciclo arturiano13.

No centro destas narrativas está Artur, que tem sido objecto de análise ao longo dos
anos, havendo, por isso, um diversificado conjunto de estudos acerca desta personagem.
Entre as personagens masculinas que têm vindo a receber destaque por parte da
investigação académica destaca-se Merlim. Profeta, feiticeiro, druida, estas são algumas das
características associadas a esta personagem 14.

A primeira vez que Merlim surge na literatura é com Geoffrey of Monmouth, em


1136, na obra Historia Regum Britanniae15. Contudo, esta não nasceu sem alicerces, pois o
autor recorreu às obras de Pseudo-Nennius e de Gildas16. Posteriormente incorporou nela as
Prophetiae Merlini (Profecias de Merlim)17. Monmouth descreve que Merlim vivia numa
cidade chamada Kaermerdin (actualmente Carmarthen), bem como a sua mãe, uma freira
filha do rei de Demetia, Dyfed (mapa 1). Exceptuando o conhecimento acerca da sua mãe,
pouco se sabe acerca de Merlim nesta época. A sua introdução na obra decorre quando
Vortigern detecta um problema na torre que mandou edificar – não se mantém de pé.
Assim, Merlim é apresentado como a solução, sendo chamado à corte deste monarca. É
neste momento que nos é apresentada alguma informação sobre a sua origem,

12
FALETRA 2014: 9-11.
13
BARRON 2001: 59.
14
MARTINS 2014: 51.
15
Existem 215 manuscritos da Historia Regum Britanniae e diversas variantes. Foi considerada um best seller
na Idade Média, da qual foram elaboradas bastantes cópias. O manuscrito MS Ff.1.25.5, datado do século
XIV é um exemplo da Segunda Variante, podendo ser consultado em [Link]
00001-00025-00005/1 .
16
MONMOUTH 1973: 19.
17
LACY, et al. 2013: p. 36.

17
nomeadamente a figura paterna18. Encontramos esta narrativa numa obra do século XII,
contudo, os eventos que ela descreve passam-se no século V19.

1.1. Merlim e os druidas


Uma das inspirações para a figura de Merlim parece ter sido o druida, que fazia
parte da sociedade celta. Esta sociedade de base indo-europeia possuía uma organização
tripartida, sendo dividida em três grupos – o sacerdotal, o guerreiro e o produtor. Os druidas
estavam inseridos no grupo sacerdotal, em conjunto com os sacerdotes, adivinhos,
curandeiros, bardos e poetas20. Desde o período clássico que os druidas são descritos como
tendo diversas e distintas funções: filósofos, professores, juízes, reservatório de sabedoria
comunal e intermediários entre os humanos e os deuses21. Seriam também os indivíduos
encarregues de realizar os sacrifícios, pois estavam ligados ao sagrado22. De acordo com
textos de época, estariam presentes na Gália, Britânia e Irlanda23. Considerados protectores
da tradição e educadores, pois competia-lhes manter a tradição oral viva, poderiam ser até
mais poderosos que um rei. Isto porque seriam os representantes dos deuses 24. Seriam
figuras proeminentes na sociedade, pelo que existia por eles um elevado respeito25. No
segundo grupo estariam os guerreiros e no terceiro os produtores, artífices, criadores de
gado e comerciantes. A organização seria bastante hierarquizada, com diversos níveis de
especialização e/ou competências26. Segundo Françoise Le Roux, o deus-druida,
pertencente ao primeiro grupo, não possuía apenas funções relacionadas com a religião,
pois detinha também o direito de fazer guerra e a responsabilidade pela prosperidade das
colheitas27.

18
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulos 10-12.
19
LACY, et al. 2013: 45.
20
MARTINS 2014: 52-53.
21
CUNLIFFE 2010: 3.
22
LE ROUX et GUYONVARC’H 1991: 78.
23
CUNLIFFE 2010: 3.
24
MARTINS 2014: 53.
25
MEDEIROS 2005: 64.
26
LE ROUX et GUYONVARC’H 1991: 80-81.
27
LE ROUX et GUYONVARC’H 1991: 78-81.

18
Por preservarem o direito consuetudinário, os druidas seriam chamados a arbitrar
um conjunto diversificado de assuntos28. Também aconselhavam o rei que, por sua vez,
podia seguir ou não o parecer dado. Não forçavam o monarca a executar algo contra a sua
vontade, nem o contrariavam quando a coroa não se encontrava em perigo29. Algumas das
especializações do druida ecoam na figura de Merlim, nomeadamente na capacidade de
conhecer o futuro, na transmissão das mensagens divinas, aconselhamento do rei e a sua
participação no cenário bélico. Em Le Morte Darthur, Merlim apenas desaconselha o
casamento do rei Artur com Guenivere, pois sabe que ela o irá trair. No entanto, não
impede nem contraria o rei e inclusive auxilia-o, ao falar com o pai de Guenivere e
acompanhando a ida desta para junto da corte de Artur30. Neste seguimento, o druida tem
também uma ligação com a soberania, «completa-a», ao aconselhar o rei para que este a
coloque em prática31. Trata-se da união entre o poder espiritual – do qual os druidas são
responsáveis – e o poder temporal, assumido pelos reis, fundamental para a tribo. Artur e
Merlim demonstram bem esta dinâmica em duo, pois a sua junção inicia um período de paz
e prosperidade no reino. Isto porque Merlim tem o conhecimento antecipado de que Artur é
um rei predestinado e não falhará como outros o fizeram. Assim, a ligação entre estas duas
figuras evidencia as semelhanças com o que existia entre o druida e o rei na comunidade
celta32.

Com a crescente influência do cristianismo e as mudanças internas na estrutura da


sociedade, o druidismo começou a desaparecer. Os druidas que restaram, em zonas da
Britânia e Irlanda, seriam bardos itinerantes, cantores de baladas e contadores de histórias.
No período das migrações das tribos germânicas e seu estabelecimento nos territórios, e
com a ascensão do cristianismo, os sistemas de crenças antigas desapareceram quase
completamente, permanecendo apenas resquícios no folclore que ecoavam o que teria sido
o druidismo nos tempos antigos33. Na alta Idade Média, os druidas foram reduzidos a
magos e feiticeiros34. Com o clero, tornaram-se magos “baratos” e os bardos apenas

28
MEDEIROS 2005: 65.
29
LE ROUX et GUYONVARC’H 1991: 160.
30
COOPER, 2008: 50-51.
31
LE ROUX et GUYONVARC’H 1991: 162.
32
MARTINS 2014: 52-53.
33
CUNLIFFE 2010: 131-135.
34
CUNLIFFE 2010: 11.

19
continuaram a compor poemas e canções que serviam para divertir ou irritar os seus
mestres35.

Terá sido a herança literária de natureza oral preservada pelos sacerdotes que
inspirou os romances de cavalaria, dado que estes incorporaram muito da tradição
mitológica do mundo celta, nomeadamente certos aspectos do seu maravilhoso e algumas
das suas personagens. Inclusive, em algumas regiões, tanto os mitos como as antigas
tradições permaneceram objecto de culto, dada a profundidade das suas raízes. Como na
cultura celta o sagrado detinha uma elevada importância, o druida surgia nas narrativas
como personagem ou narrador36 e, na literatura vernacular, como místico e mago37. A
sabedoria tornava estes indivíduos intermediários entre o homem, o sobrenatural e o divino.
Merlim não só possui a capacidade de realizar magia, como se assemelha ao druida sábio,
conhecedor do futuro, que lhe permite agir como intermediário, uma espécie de mensageiro
entre o divino e o homem e a mulher medievais38. Por estas razões, conforme iremos
observar nos capítulos seguintes, a sua magia detém características distintas da dos magos.

Os druidas possuíam também uma ligação com a natureza, pelo que desenvolveram
um saber misturado com elementos naturais. A própria religiosidade celta continha
animismo – tudo na natureza devia ser respeitado, pois os Celtas consideravam que existia
vida em todos os elementos naturais, e que o divino estaria representado em todo o lado.
Nos romances de cavalaria também encontramos este respeito e devoção pelo meio natural,
sobretudo nos diversos momentos em que Merlim se retira para entrar em contacto com a
natureza39. Existia ainda uma ligação especial com o carvalho, uma árvore que, na cultura
celta, representa a divindade40. Assim, podemos entender a forte ligação de Merlim com a
floresta e com os diversos elementos naturais na obra Vita Merlini.

Com isto, pode-se concluir que o druida seria uma das figuras mais importantes na
sociedade celta, tendo um conjunto diversificado de funções, desde a religião à guerra –
ainda que não participassem nos conflitos bélicos, passando pela manutenção e

35
CUNLIFFE 2010: 135-136.
36
MEDEIROS 2005: 60-64.
37
CUNLIFFE 2010: 3.
38
MEDEIROS 2005: 64.
39
MEDEIROS 2005: 66.
40
MEDEIROS 2005: 64.

20
disseminação da cultura, tradição e educação. A sua relevância, aliada ao poder que
detinha, conferia-lhe um elevado respeito por parte da população, inclusive do rei, que
recebia e seguia, frequentemente, os seus conselhos.

Em Merlim encontramos várias características do druida, sendo as que mais se


destacam a sua sabedoria e conhecimento do futuro e a sua ligação com o rei. Vemos isso
com Vortigern, Uther Pendragon e, posteriormente, com Artur. Ao longo da Idade Média
existe a incorporação do druida na literatura, ainda que este se tenha convertido num mago,
feiticeiro ou bardo, cada com atributos que os distinguiam entre si. Ainda que no mundo
celta o druida pudesse conter um conjunto diverso de funções, na Idade Média estas foram
reduzidas a categorias distintas.

1.2. Religião e crenças britânicas


No século IV iniciou-se um processo de mudança da religião na Europa, com a
substituição gradual do politeísmo pelo monoteísmo41. Falamos das migrações de povos
que ocorreram entre os séculos IV e VIII e que causaram modificações culturais em
diversas regiões europeias42.

Contudo, o caso das Ilhas Britânicas é distinto, pois a Irlanda e a Inglaterra


contactam com o cristianismo em épocas distintas. A Irlanda, por não ter sido conquistada
pelo Império Romano, é cristianizada somente no século V, com S. Patrício, que obteve
sucesso na conversão dos filhos dos reis pagãos. Neste seguimento, em meados do século
VI começaram a surgir comunidades monásticas na Irlanda, após o encorajamento da
adopção da vida monástica. Com Columba, o cristianismo espalhou-se mais rapidamente na
Britânia no seio dos Pictos e dos Anglo-saxões, sobretudo ao fundar Iona em 563. Os
monges de Iona e respectivos discípulos desempenharam um elevado papel nos reinos
anglo-saxónicos, contribuindo largamente para a conversão dos ingleses. Esta iniciou-se
com Santo Agostinho de Cantuária que, a mando de Gregório o Grande, conseguiu
cristianizar Kent e, de forma temporária, os reinos dos Saxões e dos Anglos de Este. A

41
HUTTON 1993: 247.
42
MEDEIROS 2005: 58.

21
partir de meados do século VII, com o auxilio dos monges de Iona, em particular com a
acção evangelizadora de Aiden de Lindisfarne, o cristianismo expandiu-se por Mércia e
Nortúmbria43. Além disso, as fontes textuais e a arqueologia demonstraram a presença de
artefactos que denotam a influência do cristianismo no século VII e de sepulturas com
poucos ou nenhuns artefactos em finais do século VII e inícios do VIII44.

É possível que a população tenha aceitado o cristianismo, convertendo-se a esta


nova religião, no seguimento do que sucedeu com a nobreza e os reis, dos quais dependia 45.
Ainda assim, não se pode afirmar que se tratou de algo radical, com a permanência apenas
da nova religião, pois o cristianismo incorporou muitos elementos da religião pagã46.
Convém salientar que os povos celtas não deixaram nada escrito, pelo que o que se sabe
advém de fontes exteriores, em segunda mão. Além disso, a maioria dos documentos que se
referem a estes povos são muito posteriores à sua permanência nas Ilhas.

Sabemos que para os Celtas que habitavam a Irlanda, possuindo uma origem indo-
europeia, o universo apresenta-se de forma tríplice, visível em alguns deuses. Deste modo,
não lhes foi dificil entender os mistérios da Santíssima Trindade quando lhes foram
transmitidos por S. Patrício. Ainda assim, as mudanças foram notáveis, com a absorção da
cultura e história pelos Romanos, alterando as formas de transmissão de oral para escrita
(registadas pelos historiadores de César) e com o culto dos deuses e deusas em templos,
deixando de ter lugar nos bosques sagrados47. Entre as assimilações efectuadas pela Igreja
encontram-se as celebrações pagãs, utilizadas para a fixação das festividades cristãs, como
a transformação do Samhain no Dia de Todos os Santos – ainda hoje celebrado –, bem
como a conversão de algumas divindades pagãs em santos/as48. Segundo Ronald Hutton,
“It is better to say, not that the Christian Church took the older religions into itself, but that
it provided a parallel service to them.”49. A aceitação do cristianismo em determinadas

43
STAFFORD 2009: 146-149.
44
STAFFORD 2009: 151.
45
STAFFORD 2009: 152.
46
HUTTON 1993: 284.
47
MEDEIROS 2005: 58-59.
48
HUTTON 1993: 285.
49
HUTTON 1993: 288.

22
áreas da Britânia deveu-se sobretudo ao facto de oferecer algo que já se encontrava presente
da religião e cultos antigos, adicionando apenas a promessa cristã da felicidade eterna50.

Contudo, o cristianismo, nos primeiros mil anos, não conseguiu erradicar as


variadas crenças e práticas populares. Não se tratava de algo apenas do povo, como também
de eclesiásticos e das elites da época51. Neste sentido, existiram algumas formas de
paganismo que sobreviveram inclusive após a Idade Média, como lançar oferendas para a
água. Não se trata da sobrevivência da religião pagã em si, mas de elementos que foram
incorporados pelos cristãos52. As religiões pré-cristãs foram consideradas extintas pela
Igreja no século VIII, embora saibamos que permaneceram práticas pagãs até aos dias de
hoje e que o próprio cristianismo adaptou à sua mundividência um conjunto de superstições
e práticas populares. A religião cristã seria a única aceite e oficial, contudo, subsistiram
alguns resíduos de paganismo que a Igreja não conseguiu erradicar. A continuação da
elaboração de práticas pagãs em Inglaterra tornou-se algo preocupante, pelo que, no final
do século X, foram emitidas leis que proibiram o uso de nomes de antigas divindades em
juramentos. Mais tarde, surgiram mais interdições, neste caso relativas à prática de
necromancia, augúrios, encantamentos e qualquer outro tipo de magia, uso de canções e
jogos pagãos em dias de festa cristã, a adoração a divindades e a veneração de
determinados elementos, como a lua ou a água. Entre meados e finais do século XIII, a
veneração de nascentes, poços e árvores foi proibida. No País de Gales, Irlanda e Escócia,
houve uma preocupação menor, havendo apenas casos isolados de resquícios de
paganismo53. Assim, a conversão das ilhas Britânicas ao cristianismo não teria permitido a
sobrevivência de religiões antigas, incluindo em áreas remotas. Não obstante, resistiram
alguns elementos sob a forma superstições, imagens literárias e artísticas e rituais
populares54.

A Irlanda trata-se de um caso à parte, pois oficialmente aceita-se que o cristianismo


entrou no século V com S. Patrício. No entanto, não houve uma aceitação rápida por parte
da população, que manteve as suas crenças antigas – sobretudo os druidas. Mais, a chegada

50
HUTTON 1993: 288.
51
MUCHEMBLED 2000: 26.
52
HUTTON 1993: 292-295.
53
HUTTON 1993: 298-299.
54
HUTTON 1993: 324.

23
do cristianismo a esta região seguiu um caminho diferente em comparação com o resto da
Europa. Isto porque manteve um conjunto de conceitos e valores que noutros locais teriam
sido extintos. Ou seja, o cristianismo irlandês continha bastantes elementos pagãos – além
da língua gaélica ser uma língua do ramo céltico, a literatura foi fortemente influenciada
pelo imaginário celta, pelo que se pode observar uma certa continuidade da tradição
irlandesa na Irlanda actual55. Estes vestígios que permaneceram presentes apesar da
conversão à nova religião – sob a forma de crenças populares (algumas vindas do mundo
clássico) – não significam a sobrevivência total do paganismo. O que se mantém é a forma
e/ou estrutura de determinadas crenças, sendo o conteúdo – o significado, alterado para o
contexto cristão56. Ainda assim, não podemos afirmar que a religião, cultura e mentalidade
da população medieval é plenamente cristianizada. Trata-se de uma mistura com elementos
das religiões antigas.

A maior dificuldade que se encontra no estudo das crenças da época prende-se com
a falta de documentação. Isto porque a cultura seria predominantemente oral e não escrita,
sendo transmitida de geração em geração. Ao ser transformada em texto, perdem-se traços
de informação. Não obstante, o que temos disponível permite descrever as crenças e
práticas de uma determinada população ou região, ainda que não muito detalhadamente. A
este problema acresce o facto de os escritores da época serem predominantemente membros
eclesiásticos, que liam e redigiam obras acerca dos mais variados temas. No mundo rural,
os membros do clero contactavam mais facilmente com a população, tendo acesso às
crenças populares, – como o medo de espíritos malignos57. Assim, de acordo com Carl
Watkins, a religião medieval seria mais bem descrita como sendo composta por crenças
oficiais – do cristianismo – e não oficiais – populares58.

Além disso, ao contrário do que pode ter sucedido com os grupos de elite a grande
maioria da população poderia permanecer apenas cristianizada superficialmente. Deste
modo, continuava a efectuar práticas que evidenciam resquícios do mundo pagão. E, apesar
de serem grupos distintos, haveria contacto entre eles. Do mesmo modo que haveria

55
MEDEIROS 2005: 59-60.
56
WATKINS 2004: 144.
57
WATKINS 2004: 141-142.
58
WATKINS 2004: 147.

24
contacto entre as crenças da população e os restantes grupos sociais, também encontramos
um conjunto diferente de reacções às acções consideradas pagãs: condenação ou
absolvições e perdões. Assim, os textos da época não seriam apenas constituídos pelos
ensinamentos da Igreja, obedecendo às leis canónicas e teológicas, pois continham também
tradições culturais locais59. A Igreja pretendia espalhar as práticas e ideais cristãos pela
população, de modo a combater qualquer elemento que permanecesse do mundo pagão,
utilizando para isso as dioceses e paróquias. Porém, não existia uma distinção plena entre a
cultura oral e a escrita, pelo que os escritores incluíam ambas nas suas obras. Por esta
razão, e também por acreditarem em diversos elementos sobrenaturais, encontramos
crónicas redigidas por eclesiásticos que contêm narrativas de demónios, espíritos e outros
seres maravilhosos, juntamente com milagres. Ainda que a cultura escrita fosse sobretudo
circunscrita aos letrados, o povo também teria acesso à informação que esta continha, de
modo que o ensino cristão atingisse toda a população. Neste seguimento, as crenças não
oficiais coexistiam com a religião oficial, não sendo observadas, nos primeiros tempos,
como pagãs ou heréticas pela Igreja60.

Entre os seres sobrenaturais que o homem e a mulher medievais acreditavam existir


encontram-se os demónios. Até ao século XII os demónios não causariam grande temor à
população medieval, de modo que seriam inclusive ridicularizados (incluindo o próprio
Diabo). Neste período existia o tema do Diabo ludibriado61 – enganado pela própria
mulher, que o tornava alvo de escárnio por parte das pessoas. Assim, tratava-se de uma
figura mais ridicularizada do que temida. A partir deste século o cenário altera-se,
sobretudo devido a uma vaga escolástica que torna a figura do Diabo mais invasora62.

Nos finais da Idade Média a Igreja dominava todas as esferas da sociedade,


sobretudo tendo em consideração a cristianização do Ocidente. Acompanhando as
mudanças políticas, sociais, culturais e intelectuais que ocorreram no Ocidente, a imagem
do Diabo e dos seus demónios também se modificou. Nos séculos XI e XII, com a arte

59
WATKINS 2004: 141-143.
60
WATKINS 2004: 145-146.
61
Este tema é referido por Robert Muchembled na sua obra Uma Historia do Diabo. Séculos XII a XX, onde
refere que este tem origem nas histórias sobre a reconhecida estupidez dos trolls ou dos gigantes, e que se foi
progressivamente estendendo ao reino do demoníaco no seu conjunto, ajudando a criar no Homem um
sentimento de superioridade sobre o Maligno.
62
MUCHEMBLED 2000: 33-35.

25
românica, continua a ser um produto da imaginação monacal, podendo surgir com uma
variedade de formas animais e humanas. Os crentes encontravam-no nos capiteis e em
papeis grotescos em teatros e nas tradições populares, porém, não causava grande temor.
No século XIII, todavia, com a arte gótica, o Diabo passa para um segundo plano, sendo
“esmagado” por um estilo de arte majestoso63.

A partir do século XIV ocorre novamente uma mudança e o Diabo torna-se cada vez
mais maléfico e negativo. Isto estaria relacionado com o facto de a história religiosa
começar a extrapolar-se para fora dos mosteiros, passando a estar presente no mundo laico
também. Esta mudança está ainda relacionada com o surgimento das relações feudais e de
vassalagem e com a realização de encomendas de arte com temas que incluíam demónios e
o inferno. Há uma acentuação do aspecto monstruoso e da sua imponência, pelo que o
Inferno, o Diabo e os demónios se tornam em algo real. As imagens que contêm estes temas
serviam não só para fazer reconhecer o poder da Igreja nos crentes, como também para
demonstrar como funcionava a justiça de Deus64. O cristianismo necessitava de clarificar a
sua mensagem, pelo que colocou o Diabo num lugar mais definitivo. Insistiu também na
questão do pecado e da culpa, mantendo a subordinação à vontade divina, de modo a
afastar-se definitivamente dos resquícios dos deuses pagãos e a criar uma identidade
dinâmica. Aumentaram os poderes e as características medonhas do Diabo, para gerar um
maior medo na população e fazê-la recorrer a determinadas acções para obter a graça do
único Deus e evitar a ida para o Inferno. No século XV, esta figura surge como senhor dos
Infernos, o monarca de um mundo onde existe também uma hierarquia65.

Os demónios, considerados anjos maus, são encarados como seres incorpóreos,


podendo manifestar-se na presença dos humanos sob diversas aparências. À semelhança
dos anjos, não possuem sexo, mas podem ser sexualmente activos. Isto porque existe um
conjunto de crenças populares que consideram que os demónios possuem o poder de
procriar66. Estes demónios, chamados de íncubos e súcubos, assumiam uma forma humana

63
MUCHEMBLED 2000: 35-37. Para mais informações sobre as origens do Diabo consultar a tese Priscila
Batalha, As origens das figurações medievais do diabo, FLUL; 2015
[Link]
64
MUCHEMBLED 2000: 37-39.
65
MUCHEMBLED 2000: 40-42.
66
BASCHET 2006: 322.

26
atraente de modo a tentar sexualmente os fiéis, podendo ser capazes de se relacionar
sexualmente com seres humanos67. Merlim é um dos exemplos mais conhecidos, ao surgir
na literatura como filho de um íncubo que teve relações com uma freira. Sobre estes
demónios, no século XIII, Gervase of Tilbury afirma que existiam casos de pessoas que
tiveram contacto com estes seres ou que ouviram relatos de pessoas de confiança que com
eles contactaram, pelo que se trataria de uma crença popular bastante difundida68. Os
teólogos da época consideravam estes testemunhos verídicos69.

Desde Santo Agostinho que seria aceite que os demónios podiam prever o futuro e
anunciá-lo aos homens, porém, trata-se de algo distinto do dom da profecia dos anjos. As
tentativas de recorrer a este tipo de ciência seriam consideradas um pecado muito grave,
algo denunciado pelos teólogos e que causava uma elevada preocupação nos finais da Idade
Média70. Assim, trata-se de algo complexo, visto que Merlim não só é filho de um íncubo,
como possui o dom de conhecer o futuro. Não obstante, este dom é categorizado como
profecia, algo que Geoffrey of Monmouth sublinha ao intitular a sua obra de Prophetiae
Merlini (Profecias de Merlim), retirando o caracter diabólico a este dom e incluindo-o na
capacidade dos anjos, provenientes de Deus. O Diabo nas suas variadas formas opõe-se a
todas as figuras positivas e benéficas do cristianismo medieval, como os santos 71. O
aumento do perigo da «diabolização» acentuou-se com as heresias do ano 1000,
continuando a aumentar até, no século XV, serem desencadeadas vastas perseguições
contra os que seriam considerados inimigos – os apoiantes de Satanás72.

Inicialmente, a magia coexistia com a religião. Teoricamente, qualquer pessoa


poderia executar rituais religiosos e mágicos, contudo tratavam-se de práticas distintas que
actuavam igualmente em níveis distintos. Um cristão devoto poderia praticar magia,
utilizando amuletos e rituais para a resolução de assuntos triviais, como curativos para
humanos ou animais, ou para afastar a maldade. Esta seria uma magia neutra, utilizada para
não perturbar as divindades ou porque estas não respondiam aos pedidos feitos pelas

67
WATKINS 2007: 55.
68
TILBURY 2002: 728-729.
69
BASCHET 2006: 322.
70
BASCHET 2006: 322-323.
71
BASCHET 2006: 324-325.
72
BASCHET 2006: 329.

27
pessoas. Existiam outros motivos também para a realização desta forma de magia, como
maior segurança, orgulho, curiosidade, conveniência e despesas, mas ela poderia passar de
neutra a boa ou má. Ronald Hutton afirma que as fontes da época demonstram que a magia
não estava ligada à adoração de divindades e seria parte da arte ou da ciência. O ensino
cristão, todavia, afirmava que a magia apenas poderia ser realizada por demónios venerados
pelas religiões antigas – paganismo e magia estariam, assim, inseridos na mesma categoria
segundo a Igreja. Neste sentido, houve a tentativa de proibição de um conjunto de práticas
ocultas, que se verificou um fracasso, não sendo possível erradicar, inclusive dentro do
clero73.

Posteriormente, durante a Baixa Idade Média, a astrologia tornou-se numa arte


favorecida pela maioria das cortes régias, pelo que verificamos um aumento da produção de
textos mágicos. No mundo rural, a magia popular sobreviveu até ao desaparecimento da
vida tradicional das aldeias na maioria das zonas da Europa74. Contudo, a partir do século
XV, com uma maior presença do Diabo no imaginário cultural e com a enfatização do
perigo dos seus apoiantes inicia-se uma luta mais acentuada contra as heresias e uma caça a
feiticeiros e feiticeiras75.

Concluindo, a chegada do cristianismo à Britânia não causou a substituição imediata


da religião já presente. Demonstrou ser um processo gradual aliado às alterações
provocadas pelas migrações de povos. Um dos elementos que propiciou a aceitação do
cristianismo pela população prende-se com as semelhanças que possuía com alguns
elementos da religião antiga. A Igreja, por sua vez, ainda não assumia uma posição mais
radical como acontecerá nos séculos XIV e XV, incorporando e transformando alguns
elementos pagãos. Assim, foram mantidas algumas crenças e práticas, o que não significava
a sobrevivência da religião pagã. Convém referir o caso da Irlanda, que se destaca das
restantes regiões da Britânia, onde emergiu um cristianismo misturado com elementos
celtas, nomeadamente a nível artístico.

73
HUTTON 1993: 290-291.
74
HUTTON 1993: 292.
75
BASCHET 2006: 329.

28
Entre as crenças da população contava-se a existência de seres maravilhosos,
havendo inclusive testemunhos da sua aparição. O Diabo e os demónios destacam-se pela
sua ligação com Merlim, cuja figura paterna teria sido um demónio íncubo. Conforme a
conversão ao cristianismo evoluiu – e com ela a alteração da percepção face ao paganismo
por parte da Igreja – também esta figura sobrenatural mudou com o passar dos séculos.
Inicialmente pouco temida e até alvo de troça, tornou-se depressa o rei do Inferno,
causando um grande impacto a nível religioso e mental na população inglesa.

Aliada aos elementos sobrenaturais mencionados encontrava-se a magia.


Contrariamente ao que geralmente é assumido, a magia, como uma prática herética
realizada clandestinamente e condenada pelos membros do clero, circulava entre os
diversos grupos da sociedade medieval (inclusive na corte, como vimos). Existia um
conjunto diversificado de motivos benéficos associados à sua utilização, sendo que a sua
prática sobreviveu durante mais tempo nas zonas rurais. Porém, conforme sucedeu com o
Diabo, a partir do século XV, a magia torna-se algo perigoso e alvo de perseguição.

Resta mencionar que as dificuldades inerentes à falta de documentação não nos


permitem elaborar análises minuciosas e específicas acerca das crenças não oficiais da
época. Ainda assim, sabemos que estas seriam partilhadas pela população, desde leigos a
eclesiásticos. Como tal, podemos encontrar elementos da cultura popular e do maravilhoso
nas diversas obras da época, inclusive crónicas.

No final deste capítulo abordou-se, de forma generalizada, a temática da magia no


período medieval. O que permitiu igualmente revelar um pouco como a população a
percepcionava. Todavia, que tipos de magia existiam e qual o seu uso? Como se deu a
evolução que culminou na deterioração desta prática? Estas serão algumas das questões
respondidas no próximo capítulo.

29
Capítulo 2

2. Magia, profecia e realidades

2.1 A magia nos séculos XII a XV


Segundo Jacques Le Goff, muitas das crenças dos camponeses possuíam raízes no
período pré-cristão ou em domínios não-cristãos. Isto porque a Igreja assimilou muitos
ritos, práticas e formas de magia, como verificámos no capítulo anterior. Além dos
camponeses, os párocos também praticavam magia, o que seria interpretado pelos
paroquianos como uma manifestação inerente à função sagrada que os eclesiásticos
possuíam. Tratava-se de algo inofensivo, sendo que, para a mentalidade da população, estas
actividades estariam relacionadas com os ciclos de produtividade agrícola. Por sua vez, o
camponês também possuía uma relação de teor mágico com os santos através de oferendas,
que serviam para garantir prosperidade ao nível das colheitas ou da saúde para animais e
humanos76.

Com efeito, na época medieval encontramos um conjunto muito diversificado de


praticantes de magia na Europa, que incluía tanto leigos como eclesiásticos. Como tal, não
se encontrava limitada a um grupo particular de indivíduos77. Importa referir que, no início
do desenvolvimento da magia medieval, seria necessário possuir educação eclesiástica,
devido ao conhecimento e habilidades fundamentais para a sua prá[Link] forma geral, as
pessoas acreditavam na realidade e veracidade da magia. Tanto que os escritores da época
descreviam a magia utilizando uma terminologia racional, pois consideravam que ela
funcionava79. Um mago ou feiticeiro, para a mentalidade medieval, poderia realizar algo
impossível – de forma benéfica ou não80.

76
LE GOFF 1989: 94.
77
KIECKHEFER 1990: 56-57.
78
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 7.
79
RUNSTEDLER 2015: 46-47.
80
ALBRECHT 2017: 26.

30
Ainda que se trate de um tema complexo, podemos identificar as diferenças entre
magia e feitiçaria. A prática da primeira incluía curandeiros, adivinhos, ervas medicinais e
animais usados para curar, encantos como orações, bênçãos e adjurações, amuletos e
talismãs para protecção. Já a segunda possuía uma má conotação, considerada tão negativa
que era associada ao adultério, pois utilizava práticas idênticas às da magia, contudo para
causar doenças e/ou morte. Neste sentido, a magia possui como objectivo curar e proteger –
algo benéfico –, enquanto a feitiçaria seria realizada para causar o mal e o pecado.
Poderiam, contudo, ocorrer situações de dúvida, havendo a mistura das duas. Nestes casos,
um juiz ou teólogo poderia considerar que determinada magia medicinal seria, na verdade,
feitiçaria, devido aos materiais utilizados ou às consequências obtidas com o seu uso81.

Dentro do conceito de magia existia ainda uma distinção entre «magia» e «magia
natural». Curtis Runstedler afirma que na Idade Média, o termo «magia» seria utilizado
pelos clérigos para alertar para os perigos da influência demoníaca, enquanto o termo
«magia natural» seria interpretado como um meio de compreensão das maravilhas naturais
da criação de Deus. Entre o final do século XII e o início do século XIII, surgiu este último
conceito, através dos eclesiásticos, derivado de fontes clássicas e bíblicas82. O seu poder
resultaria da atracção de forças naturais, um tipo de magia que seria igualmente
considerado o fundamento das ciências83. Estes dois tipos de magia, bom e mau, diferem
assim, tendo por base os motivos de quem as pratica, bem como a sua extensão e uso.

A população não seria a única a utilizar e a ver as vantagens da magia. Isto porque
os governadores e reis consideravam fulcral a obtenção de informações antecipadas,
nomeadamente acerca das acções dos inimigos ou rivais. Para tal, a magia oferecia
bastantes benefícios – seja para quem a praticava, seja para o patrono. Por parte da Igreja, a
oferta seria limitada, com magia apenas relativa ao calendário e ao tempo. Quem de facto
teria um maior acesso a detalhes e a determinadas formas de magia, incluindo o contacto
com forças designadas sobrenaturais, seriam os magos. A sua magia auxiliava tanto nas
batalhas, como a derrubar inimigos distantes. Ainda que este tipo de magia se encontrasse
estritamente proibido, havia alguma influência e poder por parte dos magos nas cortes. Isto

81
KIECKHEFER 1990: 80-83.
82
RUNSTEDLER 2015: 42-45.
83
ALBRECHT 2017: 8.

31
porque nas cortes existia a prática de magia para obter auxílio e orientação no que concerne
o futuro. Ainda assim, existia um medo crescente de magos poderosos84.

Este interesse por praticantes de magia poderosos e de estatuto alto encontra-se


relacionado com a difusão de informações acerca de Merlim na Europa do século XII,
século este que coincide com o seu aparecimento na obra de Geoffrey of Monmouth, sendo
assim recém-descoberto pela população da época. Esta figura tornou-se rapidamente
famosa, juntamente com as suas profecias – Prophetiae Merlini – em diversas zonas
europeias85.

A par disto, existiam também indivíduos que consideravam perigoso o crescimento


da magia e dos magos, sobretudo alguns teólogos que afirmavam existir bastantes
praticantes de formas variadas de magia e divinação. Os astrólogos também poderiam obter
um nível de fama e reputação semelhante ao de Merlim, pois encontravam-se à frente das
novas descobertas científicas, cosmológicas e, inclusive, mágicas, nos séculos XII e XIII.
Todavia, apenas no século XIII seriam aceites em corte como capazes de realizar previsões
genuínas e detalhadas. Tratava-se de uma arte dificil e que levaria algum tempo a ser
assimilada pela cultura medieval ocidental86.

Dentro da magia podemos encontrar diversos tipos de prática, sendo um deles a


divinação – um meio de conhecer um destino preordenado, que também possuía vários
ramos, como a interpretação dos sonhos. Os primeiros escritores medievais consideravam
que estas técnicas divinatórias dependiam do demónio87, enquanto os autores de romances
de cavalaria projectavam nelas os costumes e o quotidiano da sua época. Estes últimos
diferenciavam-se das crónicas medievais sobretudo devido à imprevisibilidade, pois
retratavam um mundo com seres provenientes da tradição popular, figuras da tradição
cristã, como anjos e demónios, e da literatura celta. Isto juntamente com a presença de uma
vasta quantidade de objectos mágicos, artefactos que possuem propriedades mágicas, jóias,
poções, ervas e unguentos utilizados para curar. Em alguns romances, a magia encontra-se
no centro da narrativa, podendo ser curativa, de ressuscitação, de mudança de forma (a

84
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 4.
85
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 5.
86
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 7-9.
87
KIECKHEFER 1990: 85-86.

32
metamorfose), ou distorções de tempo mágicas, isto é, a entrada momentânea noutro
espaço, pertencente ao maravilhoso88. A magia também podia ser algo pré-estabelecido no
enredo da obra, como um castelo encantado ou uma espada enfeitiçada89.

Neste tipo de literatura, os magos geralmente surgem como figuras secundárias,


servindo para ajudar ou desafiar os heróis nas aventuras e na conquista das virtudes
cavalheirescas. Merlim herda os poderes mágicos e proféticos do seu pai, um demónio
íncubo, o que vai ao encontro de o supracitado – a divinação como estando ligada ao
demónio. Os seus poderes são demonstrados logo de início90, em Geoffrey of Monmouth,
quando ajuda Vortigern, mas também noutras obras, como em Thomas Malory, repetindo o
episódio da metamorfose que permitirá a união entre Uther e Igraine. Ainda assim,
Geoffrey of Monmouth esforçou-se para demonstrar que os poderes de Merlim não se
encontravam associados ao Diabo. Apenas na obra de Thomas Malory começamos a notar
algum negativismo associado à figura paterna.

Até à criação da Inquisição no século XIII, vemos surgir uma preocupação com a
heresia dentro da Igreja, algo que aumentou no decorrer dos anos. Assim, a magia começou
a ser incluída nas heresias, tornando-se alvo de apreensão. Com a introdução de mudanças
na Igreja, os casos de feitiçaria que fossem considerados heréticos poderiam ser julgados
pelos inquisidores91. Ainda assim, durante este período continuaram a circular textos de
magia ritual entre clérigos instruídos. Mais tarde, durante os séculos XIV e XV surgem
acusações de possíveis usos da magia contra determinadas pessoas, incluindo figuras
importantes, para lhes causar dano, como tentativas de homicídio ou envenenamento. A isto
juntavam-se também acusações de traição92. Nos finais do século XIV, tanto eclesiásticos
como inquisidores consideravam que existia uma nova seita – a magia herética, que incluía
adoradores do demónio e praticantes de feitiçaria, contra a qual lutavam. O maior foco,
contudo, direccionava-se às mulheres, pois a lei canónica passou a incluir instruções de
como os bispos deveriam proceder relativamente a adoradoras de deusas pagãs que

88
KIECKHEFER 1990: 106-108.
89
KIECKHEFER 1990: 111.
90
KIECKHEFER 1990: 111.
91
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 86.
92
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 11-12.

33
participavam em rituais considerados estranhos93. Mas é no século XV que verificamos
mudanças mais significativas, com o surgimento de fortes acusações de bruxaria,
novamente direccionadas sobretudo a mulheres. Depois de Tomás de Aquino, mesmo
determinadas acções aparentemente inocentes poderiam implicar a adoração e a oferta de
sacrifícios a demónios, como o uso de orações fora do padrão, a fumigação de ervas e/ou a
imitação de serviços religiosos. Quem praticasse alguma destas acções estaria a cometer um
crime religioso muito grave. A obra de Bernard Gui, Practica inquisitionis heretice
pravitatis (um manual para Inquisidores), datada de c. 1327, que incluía estas informações
podia ser utilizada por um inquisidor que ficaria sem dúvidas relativamente a práticas
estranhas e fora do comum – como as descritas, que representassem uma ameaça94.

De facto, num primeiro momento não encontramos um grupo restrito de praticantes


de magia, que a utilizassem beneficamente para diversos assuntos quotidianos. A crença na
sua existência manteve-se intacta até ao século XV, contudo, a sua percepção sofre
alterações com a passagem do tempo. De uso benigno passou a ser considerada uma heresia
preocupante. É de notar que até assumir este último aspecto, a circulação de textos mágicos
continuava, inclusive, entre membros da Igreja – também eles praticantes.

Para esta época de estudo, não podemos colocar a magia dentro de apenas uma
categoria: ou proveniente de demónios ou proveniente de Deus. Ainda que se distinga de
feitiçaria – associada à maldade e ao pecado, contém ramificações de conotação negativa ao
lado de outras ligadas às intervenções de Deus. A própria divinação, uma das subcategorias
da magia, assume formas distintas na literatura, tendo uma elevada presença nos romances
de cavalaria, não sendo particularmente negativa.

Entre as pessoas a quem mais interessava o poder propiciado pela magia, destacam-
se os monarcas, que empregavam magos nas suas cortes de modo a obter um maior controle
sobre o futuro do seu território e estatuto. Isto não significava, todavia, a inexistência de
desconfiança por parte de alguns indivíduos, que consideravam esta prática perigosa.

93
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 86-87.
94
LAWRENCE-MATHERS et ESCOBAR-VARGAS 2014: 84-86.

34
Quanto às obras da época, notamos que, no século XIII, Gervase of Tilbury é um dos
primeiros autores a afirmar que Merlim utilizou um encantamento para transformar Uther
Pendragon no Duque Gorlois: “Sane Vther in amorem Igerne uxoris Gorlois, ducis
Cornubie, uechementer exardens, occulta Merlini ocultatione et incantatione faciem Gurlais
induit.”95.

O termo incantatione deriva de incantātiō, que significa encantamento96. De acordo


com o Oxford English Dictionary, designa a acção ou processo de encantar ou aplicar
magia97. Também Malory utiliza o termo «enchantment» ao referir-se à magia que Merlim
poderia usar em Nenive98. Assim, Merlim trata-se de um incantātor, em inglês um
enchanter, um individuo dotado de poderes ou propriedades mágicas, de acordo com o
referido dicionário99. Recorremos à tradução inglesa do termo latino de modo a poder
discernir de melhor forma o tipo de magia ao qual alude. Isto porque sabemos que a língua
inglesa distingue, actualmente, para a época medieval a magia negativa da restante com o
termo sorcerer. Ao traduzirmos o termo latino para português, obtendo “feiticeiro”,
deparámo-nos com um problema: esta é uma designação generalizada que pode aludir
também à magia negativa. Ainda que a maioria das fontes não seja explicativa quanto ao
tipo de magia que Merlim utiliza, esta não é considerada de carácter maldoso. A única
excepção que iremos observar nas fontes encontra-se em Malory, com o surgimento de
alguma desconfiança no que concerne esta figura. Ainda assim, o termo que optámos por
utilizar é “feiticeiro”, dado ser aquele que obtemos ao traduzir o termo latino supracitado.
Isto demonstra a dificuldade inerente à escolha apropriada na caracterização desta figura.

Merlim também se distingue dos magi (magos) de Vortigern100, “Cumque id


Vortigernus comperisset, consuluit iterum magos ut rei causam indicarent […]”101, sendo
que em nenhum momento é qualificado como um mago102, alguém especializado em magia

95
TILBURY 2002: 420.
96
Charlton T. Lewis et Charles Short, “incantātiō”, A Latin Dictionary (New York: Harper & Brothers
Publishers, 1879), [Link]
97
SIMPSON et WEINER 1989 (vol. 5): 209.
98
COOPER 2008: 58.
99
SIMPSON et WEINER 1989 (vol. 5): 209.
100
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulo 12.
101
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulo 10.
102
Segundo o Oxford Latin Dictionay, este termo designa um mágico ou feiticeiro (p. 1065, col.1). Na Bíblia,
em Mateus 2:2 encontramos a seguinte citação acerca dos magos: "Magos (...) pode designar os astrólogos

35
oriental e astrologia, no fundo, um feiticeiro de conotação negativa103. Porém é denominado
vates, «Merlinus vates»104, um profeta, vidente105. De acordo com o Dictionary of Celtic
Mythology de MacKillop, a palavra vates tem provavelmente origem céltica e surge
mencionada por autores como Estrabão. Os Vates ocupariam um lugar de honra nas
comunidades celtas na medida em que possuíam dons de adivinhação e presidiam a
sacrifícios humanos. Neste sentido, assemelham-se aos druidas, embora fossem de estatuto
inferior a esses106. Orderic Vitalis também chama Merlim de vates107, que, em latim,
designa uma pessoa que afirma conseguir ver o que irá acontecer no futuro e é considerado
o porta-voz da divindade que o possui, ou seja, um profeta e/ou vidente108.

Além das diferenças ao nível conceptual, observamos também o confronto entre um


lado mais arcaico, e outro mais racional e benigno. Merlim não só se distancia da prática de
actividades proibidas como rituais que envolviam o derramamento de sangue, como surge
como vítima de tais praticantes109. A realização de sacrifícios remete-nos igualmente para
as práticas dos druidas no período pré-cristão110. Assim, Merlim aproxima-se do
cristianismo não só pela capacidade profética, mas também ao desconsiderar as práticas
sugeridas pelos magos e utilizar a razão. Ao mesmo tempo afasta-se de elementos pré-
cristãos, pagãos. O próprio nível de conhecimento dos magos é insuficiente comparado com
o de Merlim, que demonstra proporcionar profecias genuínas111.

Neste seguimento, a palavra magia (magic) apenas entra no léxico inglês no século
XIV, designando uma arte de influenciar ou prever eventos e de produzir maravilhas
através do uso de forças naturais ocultas112, embora a palavra feitiçaria (witchcraft) venha
do período anglo-saxónico. Esta última também pode referir-se a sorcery, um tipo de magia

babilónicos, conhecedores do messianismo hebraico. O título de reis, o número três e os seus nomes próprios
são devidos a uma tradição extra-evangélica. Com tal episódio, Mateus mostra como os pagãos, representados
pelos Magos, adoram aquele que as autoridades do povo rejeitam (Lc 2, 4-7)" (p. 1566).
103
SIMPSON et WEINER 1989 (vol. 9): 202.
104
MONMOUTH 1951: Livro VIII, Texto C, capítulo 6 e 13.
105
Charlton T. Lewis et Charles Short, “vātes”, A Latin Dictionary (New York: Harper & Brothers Publishers,
1879), [Link]
106
MACKILLOP 1998: 425.
107
LAWRENCE-MATHERS 2020: 75.
108
GLARE 1968: 2015.
109
LAWRENCE-MATHERS 2020: 142.
110
LE ROUX et GUYONVARC’H 1991: 78.
111
LAWRENCE-MATHERS 2020: 142.
112
“Magic”, Online Etymology Dictionary, [Link]

36
que no início do século XV passa a referir-se a um feiticeiro que conjura espíritos
malignos113. O termo feiticeiro (wizard) surge no início do século XV designando um
filósofo ou sábio, enquanto apenas passa a referir-se a um indivíduo com poderes mágicos
por volta de 1550114.

As artes divinatórias praticadas na Idade Média, a que se viria a dar o nome de


magia no século XIV, estavam relacionadas com as artes dos magos (os magi), sacerdotes
persas conhecidos dos Gregos. Assim, no mundo grego e romano, a magia estava associada
à adivinhação, bem como à astrologia e às artes de cura, pelo que a palavra magia era
utilizada de forma imprecisa. No período cristão, estas artes, advindas das religiões pagãs,
eram encaradas com temor e por isso, associadas à intervenção de seres demoníacos, que
controlavam todos os que as praticavam. Até ao século XII, a magia era, assim, de teor
demoníaco, e assumida como tal pela maioria dos teólogos. A partir do século XIII, estes
teólogos começam a admitir a prática da magia natural, por oposição à demoníaca, bem
como a utilizá-la para fins benéficos, como a cura. Ainda assim, a prática da magia natural
não era universalmente aceite115.

Ao lado da magia encontra-se a profecia. Como dom que permite aceder ao


conhecimento sobre o futuro, é frequentemente comparada – e até confundida – com a
astrologia. Ainda que com diferenças entre si, Merlim possui ambos – trata-se de um
feiticeiro reconhecido cujas profecias fornecem um olhar sobre o que irá acontecer à
Britânia e à sua população.

2.2. A profecia na Idade Média


No século XII, a profecia estava inserida na esfera política, teológica e histórica,
possuindo credibilidade116. Encontrava-se, igualmente, ligada ao cristianismo, pois seria
central na revelação de Cristo como o Messias e o Salvador prometido. Os teólogos
também acentuavam esta questão, ao afirmar que se tratava de um fenómeno dos tempos

113
“Sorcery” e “Sorcerer”, Online Etymology Dictionary, [Link]
114
“Wizard”, Online Etymology Dictionary, [Link]
115
KIECKHEFER 1990: 10-12.
116
LAWRENCE-MATHERS 2020: 30.

37
bíblicos e que Deus fazia revelações à humanidade ao longo da História através deste dom.
De acordo com Santo Agostinho, os pagãos também possuíam a capacidade de realizar
profecias verdadeiras, contudo, não compreendiam qual seria a fonte da sua inspiração –
Deus. Ainda que as profecias tivessem de ser comprovadas como autênticas, tudo isto
elevou a sua importância na Idade Média117. A profecia difere da astrologia – fonte suspeita
de conhecimento sobre o futuro – pois estava ligada ao conhecimento e às mensagens de
Deus118.

Quanto às profecias de teor político sabemos que a mensagem comunicada deveria


ser clara, de modo a ser perceptível pela maioria das pessoas. Trata-se de um discurso que
tem como assunto principal o rei, a população e a “nação”, e que se preocupa com eventos
recentes e contemporâneos. Neste sentido, reage criativamente às circunstâncias alteradas,
mostrando uma certa flexibilidade, segundo Lesley A. Coote. Esta maleabilidade permitiu
que textos com um discurso profético político sobrevivessem durante muitos anos, sendo
igualmente considerados adequados às circunstâncias vividas. Como tal, diversos escritores
utilizaram como referência profecias já existentes, como as Prophetiae Merlini. Seria o
público a quem se dirigia, bem como escritores e copistas de profecias políticas, quem
montava a realidade que se pretendia observar, alegando representar também a posição das
pessoas que possuíam uma visão semelhante. A profecia encontrava-se igualmente
relacionada com os assuntos públicos e com a política pública. Este discurso seria tanto
uma ferramenta como uma arma durante a baixa Idade Média inglesa, nomeadamente no
que concerne conflitos. Assim, o público-alvo e a sua interpretação dos textos
desempenhavam um papel fundamental, pois seria o que tornava a profecia política119. Com
a guerra civil durante o reinado do rei Estevão de Inglaterra, entre 1135 e 1144, houve o
desenvolvimento da profecia como linguagem política. Esta teria sido uma das respostas
dos escritores de textos proféticos aos acontecimentos, algo que o seu público acompanhou.
Existia a possibilidade de reinterpretarem os textos que se encontravam disponíveis,
contudo, o panorama da época pedia explicações e gerava diversas questões, o que deu
origem à criação de novos textos. Este surgimento de textos demonstrava o modo como

117
LAWRENCE-MATHERS 2020: 70.
118
LAWRENCE-MATHERS 2020: 100.
119
COOTE 2000: 13-15.

38
escritores, copistas e inclusive leitores lidaram com os novos acontecimentos, originando o
desenvolvimento posterior da profecia como discurso político, sobretudo, no que concerne
o herói profético120.

Uma das características da profecia medieval prende-se com a adaptabilidade, como


mencionado. É algo que observamos nas Prophetiae Merlini que foram interpretadas de
diversas maneiras, por um conjunto variado de pessoas121. Inicialmente teriam circulado de
forma separada, contudo, por volta de 1139, já constariam na obra Historia Regum
Britanniae122. Em adição à popularidade que adquiriram na época, tornaram-se igualmente
num meio flexível para comentários políticos, sociais e morais 123. Outra característica das
profecias políticas prende-se com a linguagem, que enfatiza o movimento e a acção, com o
uso de verbos indicados para tal. Isto é algo que está presente nas Prophetiae Merlini, com
a utilização frequente de “e” e “de seguida”124.

Tal como sucedia com a magia, as profecias de Merlim foram consideradas reais,
fontes confiáveis de informação que forneciam visões sobre o futuro e esclarecimentos
sobre o presente. Segundo Howard Dobin, a profecia afirmava verdades absolutas e
autoridade125. Mais, além da importância enquanto profecias políticas, algumas possuíam
igual valor como profecias escatológicas, tendo lugar na história das profecias
apocalípticas. A obra de Geoffrey of Monmouth e as profecias de Merlim poderiam ser
observadas neste contexto126.

Os acontecimentos políticos de um determinado período poderiam igualmente


suscitar novas interpretações de profecias que existiam antes do século XII. Conforme
sucede com as Prophetiae Merlini, nos finais do século XII surgem variados textos de cariz
profético cujas origens possivelmente remontam ao País de Gales, tendo igualmente
semelhanças entre si127. Em Gales, nasceu uma literatura de natureza profética, escatológica
e apocalíptica, que visava interesses de teor nacionalista, e que deu origem ao motivo

120
COOTE 2000: 59. O herói profético é aquele que cuja vinda foi profetizada.
121
MORANSKI 1998: 61.
122
COOTE 2000: 50.
123
MORANSKI 1998: 61.
124
COOTE 2000: 29.
125
RUNSTEDLER 2015: 52.
126
COOTE 2000: 54.
127
COOTE 2000: 59-61.

39
conhecido como Y Mab Darogan, “o filho da profecia”, uma figura messiânica que
retornaria um dia ao país para restaurar a paz e a soberania. Entre as várias figuras
posteriormente associadas a Mab Darogan, destacamos Artur, que se transforma na
esperança messiânica dos Ingleses com o Brut de Laȝamon (1204).128 Um dos mais antigos
poemas proféticos galeses que alude a este motivo é Armes Prydein (A Profecia da
Britânia), produzido cerca de 960. Está incluído no Livro de Taliesin, que, embora copiado
na primeira metade do século XIV, será constituído por vários poemas atribuídos ao bardo
Taliesin que terá vivido no século VI. No poema, reflecte-se sobre a situação política de
Gales, então governado na sua maior parte por Hywel Dda (c. 880 – 948) face ao reino
anglo-saxónico de Wessex.

Nos finais do século XII existiam dois conjuntos de ideias sobre o futuro da Britânia
disponíveis aos estudiosos ingleses. O primeiro de cariz apocalíptico, cósmico e universal,
cuja preocupação se centrava na chegada de um governante que seria o instrumento
especialmente escolhido por Deus para preencher a história humana. O segundo seria mais
secular, pois a preocupação principal prendia-se com a história de uma raça em particular,
bem como o seu território e respectivos governadores. O foco estaria nos feitos imediatos,
próximos, e não apocalípticos129.

No começo do século XIII, através das profecias políticas existentes e disponíveis,


começa a surgir a ideia de um herói profético que seria, juntamente com a sua população,
inglês. Ainda assim, as Prophetiae Merlini permaneceram como objecto de referência para
questões políticas durante o reinado de Henrique III de Inglaterra. Estas profecias de
Merlim não circulariam apenas através da Historia Regum Britanniae neste período, pois
elas estariam igualmente presentes noutros manuscritos130. De modo geral, os manuscritos
desta época evidenciam possuir a mesma associação de ideias que os de finais do século
XII. Tanto as Prophetiae Merlini como a Historia Regum Britanniae seriam acompanhadas
de material acerca de temas da antiguidade clássica, como a história de Tróia e de

128
William of Malmsbury, na Gesta regum anglorum, crónica escrita em 1120, o autor descreve a sepultura
de Gawain e diz que nunca ninguém encontrou a sepultura de Artur, o que poderá constituir a primeira
referência implícita à imortalidade do rei.
129
COOTE 2000: 65.
130
COOTE 2000: 65-66.

40
Alexandre o Grande, e de foro religioso/bíblico, bem como como apocalíptico e
devocional131.

Com efeito, a profecia e a astrologia são formas de obter conhecimento sobre o


futuro, mas que diferem entre si. Nomeadamente, a ligação da profecia a Cristo e a Deus
confere-lhe bastante proeminência, estando presente nas diversas áreas da sociedade
medieval.

Resta mencionar que as semelhanças com outros textos proféticos são evidentes,
contudo, não é possível discernir qual terá sido o texto original que motivou o fabrico
sucessivo de obras com profecias políticas relativas a eventos contemporâneos aos
autores132. Entre as profecias mais populares da época, destacam-se claramente as de
Merlim, que foram consideradas reais e verosímeis, e com uma dinâmica escatológica e
política. Estas tornaram-se num objecto de referência durante bastante tempo, tendo
circulado não só em separado, como junto de variadas obras.

Uma figura ligada à magia e à profecia, sendo o autor de um texto que adquiriu
bastante êxito no período medieval – as Prophetiae Merlini. Tendo isto em consideração, o
próximo capítulo centra-se na análise de Merlim, como seria percepcionado por
historiadores, literatura e população da época, e qual a sua evolução ao longo dos séculos
XII a XV – terá sempre a mesma presença e atributos?

131
COOTE 2000: 69.
132
COOTE 2000: 59-67.

41
Capítulo 3

3. A presença de Merlim na Britânia – séculos XII ao XV

Agora que já compreendemos em que consistia a magia e a profecia na Britânia


medieval, os seus usos e qual a posição que possuíam, já é possível explorar a figura do
feiticeiro Merlim ao nível da história e literatura.

Merlim surge pela primeira vez na obra Historia Regum Britanniae, de Geoffrey of
Monmouth, de cerca de 1136. A partir do momento em que aparece na literatura causa um
grande impacto na Europa medieval133.

Geoffrey of Monmouth escreveu a sua obra numa época em que havia a necessidade
de uma nova narrativa histórica. Com o advento de uma nova geração de estudantes,
emergiu igualmente a necessidade de livros históricos de autoridades, dada a importância
que a história possuía na educação da época. A obra, porém, não deixou de passar pelo
escrutínio de escolásticos, tendo o apoio de Henry of Huntingdon (n. 1080 – m. 1160) –
cronista e arcediago, e de Orderic Vitalis (n. 1075 – m. 1142), também cronista, que aceitou
as Prophetiae Merlini – inseridas na Historia, como genuínas. O testemunho deste cronista
teria sido bastante importante, pois demonstrava que historiadores altamente instruídos
aceitavam Merlim como um profeta genuíno do século V que possuía capacidades
sobrenaturais. Possivelmente, ao aceitarem esta figura como verdadeira, acabariam também
por influenciar o pensamento de outros grupos sociais. Orderic Vitalis provou que a obra de
Geoffrey of Monmouth sofreu uma rápida propagação na época, tendo sido também quem
identificou Merlim como sendo a criança-profeta denominada «Ambrosius» presente na
obra Historia Brittonum. As Prophetiae também mostraram ser um texto muito atractivo,
pois Orderic Vitalis não só possibilitou o acesso a algumas secções para os estudiosos,
como também elaborou as suas próprias interpretações das mesmas134.

Com a Historia houve o surgimento de um novo tipo de história, que serviu para
preencher lacunas e para fornecer uma nova história britânica. Por existir a necessidade de

133
LAWRENCE-MATHERS 2020: 17.
134
LAWRENCE-MATHERS 2020: 28-30.

42
novas autoridades escolásticas, a obra de Geoffrey of Monmouth veio substituir também
alguns autores antigos. Ainda assim, na época existiam alguns historiadores e autores,
como Alfred of Beverley (n. 1050 – m. 1143), que desconfiavam da credibilidade de
Geoffrey of Monmouth e da sua obra135.

3.1. A ideia de Merlim na história


Geoffrey of Monmouth diz-nos que Merlim é filho de um demónio íncubo e de uma
freira, filha do rei da Demetia e que é encontrado por Vortigern ainda jovem, em
Kaermirdin (Camarthen)136. Numa iluminura do século XIII, evidente na figura 2, podemos
observar Merlim na presença de Vortigern, de aspecto bastante jovem. Segundo Matthew
Paris, um monge que viveu no século XIII, o «rapaz-profeta» teria sido encontrado no ano
464137. Segundo a linha cronológica de Geoffrey of Monmouth, isto teria sucedido entre o
ano 449 e 455, que corresponde ao período da restauração de Vortigern no poder e antes da
sua morte, como podemos observar no quadro da figura 1. Já na figura 3 podemos observar
Merlim e a sua mãe na presença de Vortigern, elucidando o momento em que ela explica
não ter tido relações com nenhum homem, tendo sido visitada por um espírito que a deixou
grávida.

Na Historia Regum Britanniae, Merlim é um jovem que surge com dois papeis
principais – o de profeta e o de feiticeiro138. Trata-se de uma personagem que surge com
alguma confiança, nomeadamente na presença de Vortigern, pois tem bastante
conhecimento. Este monarca pretendia erguer uma torre, contudo, ela não se mantinha de
pé. Como solução, os seus magos aconselharam o uso do sangue de um rapaz sem pai nas
fundações da mesma. Quando Merlim chega à presença de Vortigern, explica as causas da
consequente queda da torre: a presença de dois dragões debaixo de um lago que se
encontrava por baixo da torre. Merlim considera os magos de Vortigern mentirosos,
nomeadamente por sugerirem uma solução brutal com base na escassez de conhecimento.
O seu conhecimento sobre acontecimentos aparentemente inexplicáveis causou espanto em

135
LAWRENCE-MATHERS 2020: 32-35.
136
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulos 10-11.
137
LAWRENCE-MATHERS 2020: 83.
138
REDONDO 2004: 25.

43
todos, incluindo os magos. Vortigern acredita nas afirmações de Merlim, pois estas
verificaram-se verdadeiras – debaixo da torre estava um lago que, sendo esvaziado,
mostrou a presença de dois dragões que impediam a torre de se manter erguida139. Merlim
seria depois inclusive considerado o profeta de Vortigern, «vates Vortigerni»140. Notamos
que os conselheiros de Vortigern aconselham-no a construir um elemento de defesa – uma
torre, devido aos acontecimentos da sua época, designadamente a perda de todas as
fortalezas para os Anglo-Saxões, “Dixerunt omnes pariter ut aedificaret sibi turrim
fortissimam quae foret sibi munimentum contra hostes nefandos, qui dolo regnum sibi
surripuerunt.”141 .

As profecias de Merlim (Prophetiae Merlini) surgem em diversos momentos na


obra. Estas incidem sobre futuro da Britânia, desde o momento em que foram proferidas até
ao fim dos tempos142. Recaem sobre a história da Britânia, alimentando o sentimento de
glória britânica e contribuindo para um maior prestígio da dinastia anglo-normanda143.
Retomando a história da torre de Vortigern, Merlim entra em transe, profetizando o
encontro de dois dragões debaixo da torre, que lutam entre si, um vermelho que representa
o povo da Britânia e um branco, que representa os Saxões. Estes últimos serão
temporariamente vitoriosos, até à chegada de Artur, o Javali da Cornualha, ao qual as ilhas
do oceano e as florestas da Gália se submeterão144. Procede uma narrativa sobre o que
sucederá à população da Britânia e os reis que a governam. Alguns personagens da história
da ilha são mencionados, sendo que outros são representados por animais, como dragões,
leões, cães, javalis, entre outros. Os heróis que nela estão representados são todos
britânicos. A profecia termina com uma descrição astrológica, de caos no céu, o que remete
para a temática do Fim do Mundo145. O motivo dos dois dragões pode ser encontrado em
textos de origem galesa, dos quais o primeiro é a Historia Brittonum, de Pseudo-Nennius.

139
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulos 10-12.
140
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 6.
141
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulo 10. Traduzido para português: “Disseram para edificar uma torre
fortíssima que seria uma fortificação contra as hostes nefastas, que por traição teriam roubado o reino para
eles.”
142
LAWRENCE-MATHERS 2020: 19.
143
REDONDO 2004: 26-27.
144
MONMOUTH 1951: Livro VII, capítulo 3.
145
COOTE 2000: 50-52.

44
Não obstante, não é possível discernir se se trataria de um motivo recorrente na época146.
Um estudioso, Michael Curley, considera que as Prophetiae podem ser divididas em três
períodos da história: a primeira relativa à invasão saxónica, a segunda até ao reinado de
Henrique I e a terceira com a profecia genuína acerca dos eventos futuros147. Juntamente
com Merlim, adquiriram algum relevo, pelo que circularam vastamente durante o século
XII.

Apesar da história de Vortigern e da torre surgir antes das Prophetiae, sabemos que
frequentemente estas circulavam de forma separada durante a Idade Média, sendo
igualmente objecto de muitas interpretações e comentários148. Na época, existia uma
necessidade de questionar e interpretar determinados sinais para que existisse alguma
precaução em relação ao futuro, pois este parecia constituir-se de perigos e armadilhas149.
Aliada à necessidade de interpretação, existia uma tentativa geral de identificar os
governadores e os reis mencionados nas profecias150. Segundo Paloma Galán Redondo,
através das profecias Merlim transmitia-se a mitologia nacional, baseada em
acontecimentos históricos151. Devido a uma grande e crescente incerteza política, Merlim e
as suas profecias adquirem importância. Esta questão será abordada com mais pormenor no
próximo capítulo. Talvez o conhecimento do futuro que esta figura proporcionava neste
período fosse particularmente atractivo152.

No final da Historia, surge uma voz que outorga instruções a Cadwallader, através
de uma mensagem directa de Deus: “At, cum a rege id impetravisset, intonuit ei vox
angelica, dum classem pararet, ut coeptis suis desisteret. Nolebat enim Deus Britones in
insula Britanniae diutius regnare, antequam tempus illud veniret, quod Merlinus Arturo
prophetaverat.”153.

146
COOTE 2000: 61-62.
147
MORANSKI 1998: 60-61.
148
NELSON-CAMPBELL et CHOLAKIAN (eds.) 2017: 180.
149
DELUMEAU 2009: 108.
150
LAWRENCE-MATHERS 2020: 81-82.
151
REDONDO 2004: 27.
152
LAWRENCE-MATHERS 2020: 32.
153
MONMOUTH 1951: Livro XI, texto ch, capítulo 16. Traduzido para português: “"Quando ele
(Cadwallader) a obteu do rei e estava a preparar a sua frota, uma voz angélica parou-o com um trovão, para
que este desistisse da jornada. Pois Deus não desejava que os bretões reinassem mais na Ilha da Britânia, até
que chegasse o momento em que Merlin tinha profetizado para Artur."

45
Esta voz confere aprovação divina à profecia de Merlim, demonstrando não só a
importância e veracidade das suas profecias, como também indica que estariam em
conformidade com a vontade de Deus154. Através das profecias, Merlim parece assumir
uma posição de intermediário de Deus. Não obstante, houve uma imediata verificação da
veracidade das profecias de Merlim por se tratar de algo que remonta ao século V. De facto,
os Anglo-Normandos não seriam um instrumento enviado por Deus para varrer os
Britânicos, como Beda teria sugerido. Ao tratar-se de um conjunto temporário de
fenómenos – com altos e baixos, tanto as profecias, como a obra de Geoffrey of Monmouth
tiveram um impacto positivo para a história do período155. Tanto Merlim como as suas
profecias foram aceites na época, sobretudo devido ao alto estatuto que a profecia detinha
no século XII e pela identificação de Merlim como sendo o rapaz-profeta Ambrosius de
156
Pseudo-Nennius . A Historia era uma obra já aceite no âmbito da história britânica e
contava igualmente com um grande prestígio, pelos seus leitores acreditarem ser da autoria
de Gildas – monge historiador do século VI, o que evidenciava que se tratava de uma
autoridade na época157.

Com a sua arte mágica, Merlim auxilia e permite a concepção de Artur,


possibilitando também mover um conjunto de pedras simbólicas158. Estas pedras referem-se
a um local denominado Giants Ring e trata-se de um episódio que decorre no tempo de
Aureliano Ambrósio, filho de Constantino II159, rei da Britânia160. Este monarca pretendia
erguer um monumento de homenagem aos mortos em combate e apenas Merlim teria a
capacidade para a tarefa, “Quippe non aestimo alterum esse in regno tuo, cui sit clarius
ingenium sive in futuris dicendis, sive in operationibus machinandis.”161. Assim, Merlim é
enviado para Giants Ring, uma construção de pedras na Irlanda que somente consegue ser
erguida por alguém que possua uma combinação de grande capacidade e arte162. Nesta

154
LAWRENCE-MATHERS 2020: 43.
155
LAWRENCE-MATHERS 2020: 71-72,
156
LAWRENCE-MATHERS 2020: 35-36.
157
LAWRENCE-MATHERS 2020: 36-39.
158
REDONDO 2004: 25.
159
MONMOUTH 1951: Livro V, capítulos 18-19.
160
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 2.
161
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 6.
162
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 6.

46
altura, Merlim seria já um adulto163 e podemos observá-lo junto do monumento na figura 6.
A importância destas pedras prende-se com as suas propriedades médicas, tendo sido
anteriormente (há muitos anos) transportadas por gigantes de acordo com a tradição
popular. A outrora presença de gigantes e a ligação com este conjunto de pedras invoca as
crenças populares existentes na Idade Média. Acerca das suas propriedades, L. Grinsell
afirma que se tratava de crenças da época do autor que prevaleceram durante alguns
séculos. Contudo, as suas origens poderão recuar a algum tempo antes de Geoffrey of
Monmouth, fazendo parte de um culto à pedra referente à santidade dos recursos naturais.
Também existe uma conexão do monumento ao sepultamento, dado que Geoffrey of
Monmouth afirma tratar-se de uma homenagem aos 460 britânicos mortos pelos Saxões164.
Esta narrativa volta a ser recuperada mais tarde no século XIII por Gervase of Tilbury.

Além da força sobre-humana que permitiu a deslocação do referido monumento, a


arte de Merlim possibilita igualmente a alteração da aparência das pessoas. Uther
Pendragon, devido à necessidade urgente do amor de Igraine de Cornwall, casada com o
Duque Gorlois, pede o auxílio de Merlim para concretizar o seu desejo. Na figura 8, datada
do século XIV, podemos observar Merlim a conversar com Uther Pendragon e, no cimo da
torre uma mulher, que poderia representar Igraine. Ao contrário das gravuras onde Merlim
está junto de Vortigern, de aspecto jovem, aqui aparenta possuir a mesma idade de Uther.
Merlim aceita ajudá-lo, declarando “Scio tibi cum medicaminibus meis dare figuram
Gorlois, ita ut per omnia ipse videaris.”165. Para que tivesse sucesso, o próprio Merlim
altera a sua aparência, bem como a de Ulfin, que os acompanhava, para se assemelharem
aos homens de Gorlois. Contudo, não é exactamente perceptível se a transformação terá
sido, de facto, física ou se apenas na mente dos que os rodeavam 166, pois o autor afirma que
“Quid enim aliud accidisset, cum ipse Gorlois reputaretur adesse? […]”167. Esta habilidade
de Merlim também é mencionada por Gervase of Tilbury, no século XIII e por Thomas
Malory no século XV. Ao contrário do que iremos ver nas obras subsequentes, Geoffrey of

163
LAWRENCE-MATHERS 2020: 21.
164
GRINSELL 1976: 7-9.
165
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 13. Traduzido para português: "Através do meu
medicamento, te darei a aparência exacta de Gorlois, na qual te irás parecer em todos os aspectos."
166
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 13.
167
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 13. Traduzido para português: "Quem poderia suspeitar
de alguma coisa, visto que se pensava que o próprio Gorlois tinha vindo?".

47
Monmouth afirma que Merlim teria utilizado um medicamento ou droga para efectuar as
metamorfoses. Isto porque no original em latim, o termo utilizado é «medicaminibus», que
deriva de «medicāmen» e que significa medicamento ou droga168. No período medieval a
magia e a medicina encontravam-se frequentemente interligadas, sobretudo quando incluía
o uso de remédios elaborados a partir da junção de ervas169. Nos romances, e até em
crónicas, existia pouca distinção entre as práticas que envolviam magia e aquelas que se
tratavam de curas medicinais simples. Além do uso banal de curativos, a população
também utilizava unguentos poderosos, poções e ervas. Contudo, os efeitos das poções
consideradas medicinais assemelham-se aos das de carácter mágico, pelo que se torna
dificil determinar qual a sua natureza – magia ou não170. O uso do termo «droga» é curioso,
pois indica a necessidade de uma substância, quase como uma poção, para realizar a
transformação.

Na literatura medieval encontramos diversos exemplos de metamorfoses, sendo que


a sua maioria é atribuída a magos171. Na Idade Média, a maioria dos indivíduos considerava
que a metamorfose advinha apenas de duas fontes: do divino, relacionado com a criação de
Deus e os milagres, e do Homem. Sem o auxílio de Deus, a metamorfose realizada pelo
Homem apenas poderia ser executada com o auxílio da magia. Presente na cultura
medieval, encontramo-la em hagiografias e em literatura secular oral. Algumas destas
narrativas, com bases na literatura clássica, tornaram-se parte da literatura de corte, sendo
disseminadas nas cidades por leigos que possuíam educação. A cultura clássica,
nomeadamente a nível da mitologia e da literatura, estaria bastante presente na época
medieval, sendo estudada e assimilada na cultura cristã172. Trata-se de algo evidente na
obra de Geoffrey of Monmouth, que obtém inspiração tanto de textos celtas, como de
clássicos. O mesmo poderá ter-se verificado com o uso da metamorfose. Também
encontramos muitas metamorfoses presentes nas antigas narrativas mitológicas celtas,
sendo que resultavam frequentemente da intervenção de um deus173. A magia seria um dos
meios de obtenção da metamorfose – que seria utilizada para diversos fins, estando presente

168
GLARE 1968: 1110.
169
CLASSEN 2017: 298.
170
BREUER 2009: 23.
171
LECOUTEUX 2003: 129.
172
CLASSEN 2017: 269-270.
173
LECOUTEUX 2003: 130.

48
na literatura com descrições detalhadas. Também a metamorfose seria considerada real e
aceite por parte da cultura secular medieval. Especialmente a magia e a divinação estavam
presentes na vida quotidiana, sendo utilizadas, através dos seus poderes ocultos, para tentar
alterar a condição humana na terra. Por sua vez, a Igreja opunha-se ao uso deste tipo de
magia, dado que considerava tratar-se de algo proveniente do Diabo174. Esta habilidade de
Merlim, ao contrário da capacidade de prever o futuro, parece surgir como algo novo e
desconhecido até então175. Pela primeira vez, com este excerto, Merlim surge associado ao
nascimento de Artur, um aspecto que irá ser utilizado posteriormente por autores franceses
e ingleses, em diversas formas de literatura176, como veremos.

Tanto na Historia, como nas Prophetiae Merlini, Merlim é um rapaz, jovem,


vivendo durante o reinado de Vortigern e de Uther. Contudo, na Vita Merlini, passada
durante o reinado de Conan, que usurpa o trono do sucessor de Artur – Constantino,
Merlim já se encontra de idade avançada e Artur já teria sido transportado para Avalon177.

É nesta última obra que o mesmo autor nos apresenta um Merlim diferente.
Provavelmente escrita antes de 1151, demonstra que Geoffrey of Monmouth seria um
especialista em Merlim178. Nela encontramos poucas ligações com a obra anterior, porém,
existem alguns elementos em comum. Merlim menciona que já tinha feito profecias para
Vortigern, “Hec uortigerno cecini prolixius olim exponendo duum sibi mistica bella
draconum […].”179 e refere de forma breve a luta dos dragões que se encontravam debaixo
do lago da torre180. Não se alonga no assunto, pelo que o autor parece pressupor que o leitor
já conheça a história. Todavia, não refere qual a relação entre o rei Rhydderch e os
monarcas mencionados na obra anterior, nem onde o texto se insere181. Este Merlim é
caracterizado como louco, tendo-se tornado igualmente num Homem Silvestre182 após
perder os companheiros durante uma batalha. Este conflito teria sido, muito provavelmente,

174
CLASSEN 2017: 270-271.
175
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 13.
176
NELSON-CAMPBELL et CHOLAKIAN 2017: 181-182.
177
BERARD 2019: 41.
178
LAWRENCE-MATHERS 2020: 50.
179
MONMOUTH 2011: 78. Traduzido para português: "Expliquei isto anteriormente para Vortigern, ao
explicar a mística guerra entre os dois dragões [...]".
180
MONMOUTH 2011: 78.
181
LAWRENCE-MATHERS 2020: 54.
182
MONMOUTH 2011: 60-64.

49
a batalha de Arfderydd, que ocorreu no ano 573 segundo os Annales Cambriae (crónica
histórica escrita nos finais do século X)183, da qual teriam participado alguns nobres, que
fugiram posteriormente para a floresta: “Seven score generous nobles became wild men, in
Celyddon Wood they ended[…]”. Porém, não existe uma indicação directa de que Merlim
teria sido um deles184.

Apesar de não surgir como conselheiro de Artur, experienciou cenários bélicos,


tendo combatido junto de outros indivíduos. Após o sucedido, foge para a Floresta da
Caledónia, onde se isola, alimentando-se daquilo que a natureza fornece185. Em diversos
textos celtas encontramos o mesmo tema – o impacto de um conflito bélico que causa
sofrimento e remorsos e leva à deslocação para a floresta186. Por exemplo, em Afallennau,
poema do século XIII que se encontra preservado no Black Book of Carmarthen (século
XIII, obra mais antiga a mencionar Myrddin), o próprio Myrddin narra em primeira pessoa
o seu lamento pela morte de Gwenddolau após a batalha de Arfderydd, louco num bosque
devido aos desastres do conflito187. Na Vita, a preferência pela vivência na floresta evoca
não só algumas obras celtas, como o passado pagão. Contudo, é evidente em algumas
passagens da obra que Merlim é cristão, como quando lhe é restaurada a sanidade e louva
Deus. O seu isolamento não se mantém durante muito tempo, pois a sua família consegue
trazê-lo de volta para o castelo. Merlim aí permanece durante algum tempo, porém,
preserva o desejo de regressar à floresta – que lhe é concedido. A loucura permanece
durante e após a sua estadia no castelo, e apenas desaparece quando se refresca numa fonte
de água, voltando aos seus sentidos – evidência dos poderes curativos da água188 .

Esta obra também nos dá a conhecer a família de Merlim. De estatuto social alto,
possui uma irmã chamada Ganieda, casada com o rei Rhydderch, e esposa, de nome
Guendolena, seria igualmente considerado rei dos demetae. Trata-se de uma associação
indirecta com Dyfed, evidenciando uma ligação com a Historia Regum Britanniae, onde

183
REDONDO 2004: 20.
184
LOYD-MORGAN et POPPE 2019: 36.
185
MONMOUTH 2011: 59-61.
186
LOYD-MORGAN et POPPE 2019: 39.
187
REDONDO 2004: 18.
188
MONMOUTH 2011: 92-93.

50
surge como neto do rei de Dyfed189. Com a fuga para a floresta e o desejo de não regressar
à corte, renúncia à vida matrimonial, permitindo que Guendolena volte a casar. Quando esta
o faz, visita-a montado num veado190, mostrando-se como um «mestre dos animais»191.
Quando a loucura é curada e retoma à normalidade, pedem-lhe para regressar à realeza e
governar e lidar com o povo, mas ele recusa por já não possuir idade para tal 192, “Ergo diu
uixi - mea me grauitate senectus detinuit dudum - rursus regnare recuso.”193. Demonstra
assim possuir uma idade já avançada, não sendo mais um rapaz-profeta como na Historia,
optando por estudar os milagres propiciados pelas águas, sobretudo lagos, rios e
nascentes194.

Segundo a Vita, Merlim também tem contacto com Taliesin, um poeta britano do
século VI, demonstrando que seriam contemporâneos, tal como este último com Gildas o
Sábio, de quem terá aprendido filosofia. Ambos conversam acerca da grandeza da Britânia:
a abundância de recursos animais e vegetais, considerados uma dádiva de Deus, e das
batalhas que sofreu, evidenciando o caracter “nacionalista” do discurso de ambos 195. Além
de profeta, Merlim pertencente à realeza e homem selvagem, optou por uma vida de
eremita, mostrando possuir bastante conhecimento. Durante o período medieval, o eremita
seria um individuo que vive isolado, numa paisagem inóspita – aqui a floresta ou bosque,
com duras condições de vida, incluindo alimentação escassa e o uso de vestimentas pobres.
O objectivo destes indivíduos seria a fuga da civilização para locais de dedicação e devoção
a Deus196. Com a fuga da sociedade para o meio florestal iniciou os estudos de astrologia e
de filosofia natural197. Devido a estes interesses e a pedido da sua irmã, Ganieda constrói-
uma casa com um observatório, que lhe permitiria observar Phoebus e Vénus, bem como as

189
LOOMIS 1974: 30.
190
MONMOUTH 2011: 69-71
191
NELSON-CAMPBELL et CHOLAKIAN 2017: 180.
192
MONMOUTH 2011: 96-97.
193
MONMOUTH 2011: 97. Traduzido para português: "Vivi uma vida longa e o peso da idade prende-me, e
recuso-me a reinar novamente."
194
LAWRENCE-MATHERS 2020: 53.
195
MONMOUTH 2011: 78-84.
196
LÓPEZ n.d.: 21-26.
197
LAWRENCE-MATHERS 2020: 50.

51
estrelas que lhe irão mostrar o que acontecerá com as pessoas do reino 198. O termo Phoebus
poderá referir-se a Apolo, como deus do sol, ou ser uma personificação do próprio Sol199.

Esta vertente astrológica parece mais presente na Vita, com o referido interesse pela
observação das estrelas, materializado na construção de um edifício. Inclusive, Taliesin
explicita que através da observação das estrelas os humanos poderiam comunicar com Deus
– dado que teria sido Ele a criar o céu e os seus elementos200, o que indicaria que seria algo
seguro e não maléfico. Na Historia Merlim apenas realiza uma profecia que inclui as
estrelas e a visão da queda e ruína do zodíaco, mencionando oito signos201, e interpreta o
aparecimento de uma bola de fogo em forma de dragão, «similitudinem draconis»202, três
vezes, enquanto Uther procurava pelo exército inimigo, ficando apavorado203. Na Idade
Média, a interpretação de uma estrela ou cometa seria algo de grande importância, pois para
a população estes fenómenos simbolizavam uma mudança histórica ou um desastre204. No
século XII o conhecimento astrológico era considerado muito perigoso, ainda que membros
da Igreja o utilizassem. Isto porque poderia levar ao contacto com demónios e subsequente
influência por parte destes. A dificuldade inerente à interpretação também traduz um pouco
do perigo que representava. Porém, o facto de Deus enviar sinais através de espíritos, como
o de Merlim – confirmado por Gildas e Taliesin na Vita, demonstra que a utilização de
astrologia não é prejudicial. Ainda assim, no período em que Merlim surgiu – entre 1120 e
1150, a astrologia e a astronomia encontravam-se em processo de renascimento, adquirindo
importância ao nível da esfera política. No século XIII estabelece-se como campo de estudo
formal, utilizado por médicos e filósofos naturais, havendo a possibilidade de adquirirem
posições de influência nas cortes205.

Relativamente à sua relação com Artur, na Vita não é mencionada a sua intervenção
para permitir que o futuro rei nasça. Contudo, refere-se à ferida que Artur recebeu na

198
MONMOUTH 2011: 74-75.
199
SIMPSON et WEINER 1989 (vol. 11): 695
200
MONMOUTH 2011: 80-81.
201
MONMOUTH 1951: Livro VII, capítulo 6.
202
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 10.
203
MONMOUTH 1951: Livro VIII, texto C, capítulo 10.
204
LAWRENCE-MATHERS 2020: 97-98.
205
LAWRENCE-MATHERS 2020: 101-106.

52
batalha de Camlann utilizando a expressão «o dilecte sodalis postmodo»206, o que indica
que ter-se-ia passado algum tempo desde o que é relatado na obra anterior. Mais, sabemos
que viveu muito tempo, assistindo a muitas batalhas, o que sublinha o seu conhecimento do
cenário bélico207. Existe ainda uma última passagem que parece referir-se à dama do lago
que será mencionada em Thomas Malory: “Una fuit mulier que me dilexerat ante et mecum
multis uenerem saciauerat annis.”208. Merlim, ao recusar viver com ela, deixou-a com um
desejo maligno de lhe causar mal, ficando sem o dom da profecia209. Geoffrey manteve
Merlim separado de Artur, tendo apenas contacto indirecto com o futuro rei ao colaborar
para a sua concepção, enquanto em Malory já surgem juntos. Na Vita também observamos
uma tentativa confusa de determinar qual o período em que as acções ocorrem, pois Merlim
comenta que passaram anos desde o reinado de Artur e Taliesin afirma que terá estado com
ele em Avalon210.

Geoffrey of Monmouth afirma que a Historia surgiu a partir de uma tradução de um


livro antigo escrito na língua britânica211. Imediatamente, a figura de Merlim adquire fama
e reputação como figura histórica, que aumentou com a ligação de Geoffrey of Monmouth
ao bispo de Lincoln, diocese importante e de grande conceito na época, que propiciou mais
apoio à sua história e profecias212. O autor fez igualmente uso da obra de Pseudo-Nennius,
Historia Brittonum, adicionando mitos clássicos e bíblicos ao seu texto213, acrescentando
assim informações acerca da vida de Merlim que podemos observar na Vita Merlini214.
Além disso, o contexto historiográfico e político da época permitiu a aceitação e integração
de Merlim na sociedade. Na década de 30 do século XII, a história começou a ser redigida
num estilo novo, académico, e com uma nova narrativa acerca dos Anglo-normandos, pelos
clérigos europeus. Tratava-se sobretudo de substituir Beda e o seu relato sobre os Anglo-
saxões. Foi igualmente um ano de tensão política em Inglaterra, e algumas zonas de França,

206
MONMOUTH 2011: 86.
207
MONMOUTH 2011: 86-88.
208
MONMOUTH 2011: 102. Traduzido para português: "Naquele tempo houve uma mulher que esteve
anteriormente apaixonada por mim, e que satisfez o seu amor por mim durante muitos anos."
209
MONMOUTH 2011: 102.
210
LAWRENCE-MATHERS 2020: 50-54.
211
MONMOUTH 1951: Livro I, capítulo 1.
212
LAWRENCE-MATHERS 2020: 20-22.
213
REDONDO 2004: 24.
214
LAWRENCE-MATHERS 2020: 54.

53
e de potencial queda ou ascensão de dinastias. Quanto à aristocracia anglo-normanda, esta
não se identificava com o passado anglo-saxão, pelo que existia todo um interesse na
escrita de histórias dinásticas de cariz “nacional”. Assim, ocorreu um desenvolvimento
político e intelectual que acentuou a necessidade de novos relatos de história britânica, bem
como novos modos de entender a realidade da época. Além desta necessidade de voltar a
elevar a história dos Ingleses, existiam algumas lacunas de informação que necessitavam de
ser preenchidas. Beda apenas forneceu elementos acerca do início da história da Britânia,
relativo aos povos que a formaram. E foi precisamente isso que Geoffrey of Monmouth fez
com as Prophetiae Merlini, nomeadamente acerca do futuro215. Também a possível
identificação de figuras presentes nas Prophetiae com algumas que constavam nas fontes
históricas conferia legitimidade ao texto216.

Merlim seria, então, considerado uma figura histórica genuína, sendo que as suas
capacidades de profetizar detinham uma grande importância217. Por ser tão conhecido já no
século XII, os escritores que redigiam narrativas sobre ele partiam do princípio de que a
figura, os seus poderes e as suas profecias já era conhecida pela generalidade da
população218. A sua habilidade mágica tornava-o também numa personificação de formas
de magia que continuaram a ser consideradas reais no período medieval. Deste modo, o
impacto que Merlim detinha neste período deve-se sobretudo ao facto de ser aceite como
real e de conseguir oferecer exemplos das principais formas de magia que foram praticadas
durante séculos219.

A partir do século XIII, Merlim começa a ser inserido em crónicas onde não
constava anteriormente220, sendo também frequentes as referências a esta personagem e às
suas profecias na literatura popular, o que evidencia um maior acesso aos textos por parte
da população221. No início deste século é elaborada a obra Otia Imperialia por Gervase of
Tilbury, que contém um conjunto de narrativas de cariz maravilhoso e sobrenatural. Entre
elas, encontramos informações acerca de Merlim, principiando pela natureza demoníaca da

215
LAWRENCE-MATHERS 2020: 22-25.
216
LAWRENCE-MATHERS 2020: 39.
217
LAWRENCE-MATHERS 2020: 17.
218
LAWRENCE-MATHERS 2020: 62.
219
LAWRENCE-MATHERS 2020: 17.
220
LAWRENCE-MATHERS 2020: 67
221
LAWRENCE-MATHERS 2020: 86

54
figura paterna. O autor discorre sobre anjos, demónios e espíritos, afirmando a existência de
espíritos “sujos” denominados incubi – relacionados com a opressão da mente.
Curiosamente, o autor afirma que será também através da união entre uma mulher virgem e
um pai inumano (demónio) que será gerado o Anticristo222. Apesar de não se encontrar
muito afastada da obra de Geoffrey of Monmouth, a nível temporal, a referência ao
Anticristo é bastante interessante, algo que não sucede na Historia nem na Vita.

Além da questão parental de Merlim, o autor inclui também dois acontecimentos


presentes na Historia: a profecia feita a Vortigern acerca dos dragões que se encontravam
debaixo da torre e a metamorfose de Uther, Ulfin e do próprio Merlim, de modo a entrarem
no castelo de Tintagel, onde se encontrava Ygerna. Quanto ao primeiro, apenas explica que
o dragão vermelho representa os Britânicos e o branco os Saxões. Relativamente ao
segundo episódio, Gervase of Tilbury não se alonga, narrando que Merlim auxilia Uther,
por este se encontrar consumido de amor. Assim, através de um encantamento secreto
alterou os semblantes de Uther para o de Gorlois, o de Ulfin para Jordan – que estava a
cargo do castelo, e o dele próprio. Após entrarem no impenetrável castelo, Uther uniu-se
com Ygerna, deixando-a grávida de uma criança. Entretanto o duque Gorlois morre no
castelo de Dimilioc e Uther casa com Ygerna, tendo duas crianças – Artur e Ana223.
Notamos que o termo utilizado para aludir à metamorfose difere da Historia. No texto
latino, Gervase of Tilbury utiliza a palavra «incantatione», derivada de «incantātiō» e que
significa encantamento224.

Refere ainda a concretização de uma profecia acerca Aureliano Ambrósio, que


desembarcou na Britânia, matando Vortigern, Hengist e o resto dos Saxões. Como
memorial do sucedido, foram erguidas pedras em forma de anel, o denominado Giants
Ring. Explicou também um presságio que surgiu aquando da morte de Aureliano Ambrósio
sob a forma de uma estrela bastante bela e grande, que derramou um único raio com uma
bola de fogo no fundo, estendida à semelhança de um dragão. Da boca do dragão saíram
dois raios, um que se estendeu até depois da Gália e outro em direcção à Irlanda. Merlim
esclareceu que a estrela e o dragão representavam Uther e o raio que se estendia além-Gália

222
TILBURY 2002: 96.
223
TILBURY 2002: 420.
224
LEWIS et SHORT 1879: 917.

55
Artur, que seria tão poderoso que traria os reinos da Gália para o seu governo. O raio
pequeno seria a filha de Uther, cujos filhos e netos iriam estabilizar o reino da Britânia e
Irlanda, divididos em sete governadores225. Verificamos que, no século XIII, continua a ser
um profeta importante, considerado inclusive «propheta Britonum»226, e com conhecimento
astrológico.

O episódio relativo a Giants Ring é referido duas vezes nesta obra. Gervase of
Tilbury descreve como Merlim traz “[…] condigna tantis uiris sepultura banorare fecit a
Merlino propheta Britonum afferri lapides misticos ad diuersa medicamenta salubres
[…]227” para o local de sepultamento que Aureliano Ambrósio quis erguer, que iria ter a
função de memorial, como referido. Segundo consta, estas pedras teriam sido trazidas de
longe há muito tempo por gigantes para o Monte Killaraus – Irlanda, e possuíam diversas
propriedades curativas. A sua deslocação serviria também para a existência de banhos para
o tratamento de enfermidades228. Tal como Geoffrey of Monmouth descreve, teria sido com
uma «habilidade maravilhosa» que Merlim ergue as pedras em Amesbury, perto de
Salisbury. Não se tratava, contudo, do uso de força sobre-humana, mas sim de um
encantamento, para que estas fossem uma fonte eterna de maravilhas “[…] et cum
incantationibus lapides ad perpetuam admirationem sub diuo suspendesse […]”229.
Segundo o autor, este feito evidencia a genialidade de Merlim, pois as pedras
permaneceram como lugar de admiração, sendo também o possível local de sepultamento
de Aureliano Ambrósio230.

O facto de Merlim ser filho de um demónio íncubo não pareceu causar impacto na
sociedade do século XII. Até então, os demónios não causariam grande temor à população
medieval, como referido anteriormente231. Even William, um teólogo e historiador inglês
do século XII, afirmava que os demónios não podiam partilhar o conhecimento divino,

225
TILBURY 2002: 418-420.
226
TILBURY 2002: 150.
227
TILBURY 2002: 150-152. Traduzido para português: "Para este fim, ele fez com que algumas pedras,
associadas a certos ritos secretos, fossem trazidas para o seu local de sepultamento por Merlim, o profeta da
Britânia. Estas pedras possuíam várias propriedades curativas [...]. "
228
TILBURY 2002: 150-152.
229
TILBURY 2002: 610. Traduzido para português: "[...] e com um encantamento fez com que estas pedras
fossem uma fonte eterna de admiração [...]."
230
TILBURY 2002: 152.
231
MUCHEMBLED 2000: 33-34.

56
ainda que o seu excedesse o dos humanos. Neste sentido, defendia que os poderes de
Merlim não poderiam derivar da figura paterna, ainda assim considera as profecias
«adivinhações mentirosas». Nos finais da Idade Média, a esfera religiosa atinge um lugar
preponderante tendo em consideração a cristianização do Ocidente. Acompanhando as
mudanças políticas, sociais, culturais e intelectuais que ocorreram, a imagem do Diabo e
dos seus demónios também se modificou. A partir do século XIV torna-se cada vez mais
maléfico e negativo, como mencionado232. Sabemos que os demónios poderiam ter relações
com humanos, como sucedeu com a mãe de Merlim, algo que Gervase of Tilbury
descreveu, como vimos no capítulo anterior.

Merlim tornou-se, então, numa figura de autoridade no que respeita à história


britânica, algo que se encontra aliado ao facto de nesta nova história os Britânicos
assumirem uma posição heróica na narrativa. Isto contrasta com as narrativas elaboradas
por outros historiadores, nomeadamente Gildas233. A partir do século XIV, as escolas de
gramática começaram a ficar disponíveis para os filhos das famílias dos grupos sociais
médios, sendo que nelas seria ensinado episódios da história onde constava Merlim234.

Concluindo, até 1150, Merlim terá sido creditado como sendo uma personagem
histórica, real. Assim, tanto a sua magia como as profecias foram igualmente incorporadas
no registo histórico, tornando-o numa figura bastante importante235. Os escritores medievais
também o consideravam uma personagem real, mesmo tendo habilidades singulares236.
Tudo isto estaria similarmente relacionado com o sucesso de um grande conjunto de
profecias que fizeram esta figura digna de confiança para muitos patronos e estudiosos.
Sobretudo, a profecia como uma revelação directa de Deus tinha bastante importância.
Assim, a disponibilidade das profecias de Merlim influenciou os leitores no século XII,
originando a rápida disseminação de cópias, acompanhadas de comentários e
interpretações. O conhecimento de Merlim acerca do futuro e as suas revelações induziam
igualmente um certo conforto no que respeitava as questões do mundo237, contribuindo para

232
MUCHEMBLED 2000: 35-38.
233
LAWRENCE-MATHERS 2020: 41.
234
LAWRENCE-MATHERS 2020: 86.
235
LAWRENCE-MATHERS 2020: 39.
236
REDONDO 2004: 20.
237
LAWRENCE-MATHERS 2020: 19-20.

57
a confiança e veracidade depositada nesta figura. Ainda assim, é uma personagem ambígua,
nomeadamente no que concerne a natureza moral, pois é filho de uma freira – filha do rei
da Demetia, e de um demónio íncubo238.

Verificamos como esta figura é percepcionada de forma distinta entre os séculos XII
e XIII, ainda que o conteúdo das obras não altere muito entre si. A maior distinção, todavia,
está presente na Vita, onde encontramos um Merlim com uma história bastante diferente
dos restantes. Ainda assim, revela ser uma figura imprescindível para a história britânica,
ao fornecer uma nova visão acerca do passado, bem como esperança no futuro. A sua
importância é tanta que lhe é atribuído o erguer de Stonehenge239 – nas obras denominado
Giants Ring.

Surge, assim, com uma pluralidade de atributos e funções num curto período de
tempo. Mais, a sua longevidade permitiu acompanhar Vortigern, Uther Pendragon e, ainda
que não seja explícito, o reinado de Artur. Isto porque na Vita é mencionada a ida de Artur
para a Ilha de Avalon após a batalha de Camlann. De facto, a sua importância extravasa os
textos, a política, a cultura e a mentalidade da época.

3.2. Merlim na literatura


Após adquirir fama e importância com a obra de Geoffrey of Monmouth, Merlim
começa a surgir num género literário distinto – o romance de cavalaria. Com início em
França, este veio influenciar as obras inglesas elaboradas posteriormente aos séculos XIII e
XIV. Com os romances de Chrétien de Troyes, Merlim deixa de ser apenas um profeta,
detentor de poderes sobrenaturais, e adquire papeis novos na literatura. Posteriormente,
com Robert de Boron, torna-se no maior conselheiro do rei Artur240, algo que podemos
observar na obra de Thomas Malory. É também no século XIII que se começa a
desenvolver a ideia de Merlim como integrante da corte do rei Artur241. No século XV, as
profecias de Merlim continuavam a ter importância, de tal modo que, durante a Guerra das

238
NELSON-CAMPBELL et CHOLAKIAN 2017: 181.
239
MEDEIROS 2005: 66.
240
LAWRENCE-MATHERS 2020: 192-199.
241
LAWRENCE-MATHERS 2020: 117.

58
Rosas, ambos os lados reivindicaram que os seus líderes se tratavam de grandes reis
profetizados por Merlim. Isto demonstra o poder que evocava, podendo fornecer
legitimidade a aspirantes ao trono e reunir exércitos em momentos fulcrais242. Inclusive,
Henrique IV alegava que a sua tomada de posse do trono inglês cumpria as profecias de
Merlim acerca do regresso da linha de Cadwalader243.

Le Morte Darthur244, de Thomas Malory, é terminada por volta de 1470, um


período bastante turbulento devido à guerra. Estudiosos consideravam que o texto
demonstrava nostalgia, outros que seria uma alegoria política, ou um aparelho de
legitimação, ligado às casas de York e Lencastre245, questão que será explicitada no
próximo capítulo. Não só estes eventos causariam impacto no autor, como acabaram por
influenciar esta obra. Apesar de semelhante ao Merlim dos séculos precedentes, o Merlim
de Malory possui algumas diferenças. Malory introduz esta figura na sua obra logo com o
conhecido episódio de união entre Uther e Igraine. Para auxiliar o rei, Ulfius parte à
procura de Merlim, encontrando-o com roupas de mendigo, “[…] in a beggar’s array
[…]”246. As roupas disfarçavam-no, de tal modo que não aparentava tratar-se do indivíduo
procurado. Quando Merlim aceita ajudar Uther, faz um pedido até então não mencionado:
que Uther lhe prometa que mal a criança que irá ser concebida nasça ela lhe seja entregue.
Merlim prossegue com a transformação de Uther no Duque, afirmando “[…] ye shall be
like the duke her husband […]”247, Ulfius em Sir Brastias, e ele próprio em Sir Jordanus –
cavaleiros do duque. Aconselha igualmente o rei a não fazer muitas perguntas a Igraine e
aos seus homens. Após o sucedido, Igraine recebe a notícia da morte do duque Gorlois e,
mais tarde, casa com Uther248. O pedido de Merlim e a aceitação por parte de Uther
evidenciam o poder quase absoluto que Merlim possui na obra, pois, as suas afirmações
revelam-se suficientes para que até o rei lhe obedeça – como se fosse uma indicação vinda

242
LAWRENCE-MATHERS 2020: 91-92.
243
FEHRENBACHER 1993: 3.
244
A maioria dos textos de Le Morte Darthur são baseados na edição de William Caxton (c. 1422–c. 1491),
contudo, em 1934 Walter Oakeshott descobriu o Winchester Manuscript, podendo ser consultado em
[Link] Por esta razão, consultámos duas
edições diferentes de Malory.
245
FEHRENBACHER 1993: 1-2.
246
MALORY, 2008: 4.
247
MALORY, 2008: 5.
248
MALORY 2008: 4-6.

59
de Deus e, como tal, inquestionável249. Malory não explica como Merlim executa a
metamorfose, ao contrário de Geoffrey of Monmouth e Gervase of Tilbury. Porém,
adiciona mais informações, nomeadamente a percepção de Igraine. Esta apercebe-se do
sucedido logo depois da anunciação da morte do Duque. Após estar casada com Uther e
este lhe perguntar de quem é a criança que ela carrega, ela explica que, no momento em que
o Duque morreu, houve um homem que foi ao castelo e que se assemelhava a ele na fala e
semblante, acompanhado de cavaleiros sob o mesmo efeito. Uther revela tratar-se do
homem referido, indicando também ter sido algo que fez de acordo com o conselho de
Merlim250. Richard Fehrenbacher considera que Malory omitiu os primeiros anos da vida
de Merlim, a saber, a origem do seu nascimento e o encontro com Vortigern e os dragões,
para evitar lidar com a problemática suscitada por essas questões. A primeira, devido ao
envolvimento de um demónio e a segunda por relembrar os problemas que caracterizavam
a história inglesa, o que poderia colocar em causa a tentativa de outorgar legitimidade à
história e linhagem inglesas251.

Em Malory, Merlim aconselha tanto Uther como Artur. Contudo, a sua presença
junto de Uther é diminuída, dado que, pouco tempo após o casamento com Igraine, o rei
adoece e morre. Ainda assim, cumpre a promessa realizada anteriormente, permitindo que
Artur, ao nascer, fosse entregue a Merlim sem ser baptizado – como solicitado.
Relativamente a outros conselhos, Uther também os seguiu, o que lhe conferiu a vitória
numa batalha antes de falecer. Após a morte de Uther, Merlim deslocou-se ao arcebispo de
Canterbury, aconselhando-o a chamar todos os senhores do reino e todos os cavaleiros de
armas para Londres no Natal, sob pena de maldição. No referido dia, após a missa, a
população juntou-se no cemitério, onde se encontrava uma pedra com uma bigorna – esta
última com uma espada, com a seguinte citação: “Whoso pulleth out this sword of this
stone and anvil, is rightwise king born of all England.”252. Muitos tentaram, porém, apenas
Artur conseguiu retirar a espada. A coroação, no entanto, foi adiada, pois existiam alguns
senhores contra Artur como rei. Todavia, pela providência de Merlim, o Arcebispo de
Canterbury permitiu que os melhores cavaleiros – que Uther amava e em quem confiava –

249
LAWRENCE-MATHERS 2020: 201.
250
MALORY 2008: 5-6.
251
FEHRENBACHER 1993: 8-10.
252
MALORY 2008: 8.

60
estivessem sempre com Artur até ao dia de coroação253. Merlim sabia que apenas Artur
teria a capacidade de retirar a espada da bigorna, pois era ele o herdeiro legítimo de Uther.
Como tal, facilita o desenrolar dos acontecimentos e explica a origem do nascimento de
Artur – como é herdeiro legítimo. Mais, profetiza que este será rei e vencerá todos os
inimigos, sendo, por muito tempo, o monarca de Inglaterra e tendo sob obediência muitos
reinos, como o País de Gales, a Irlanda e a Escócia254. Neste momento, observamos a
amplitude da sabedoria de Merlim, ao demonstrar possuir um conhecimento perfeito sobre
a linhagem de Artur – revela-se uma autoridade neste aspecto. Mais, assume um importante
papel ao defender e assegurar a linhagem e legitimidade de Artur255. No entanto, Merlim
falha, pois nem todos os presentes acreditam nele, como Lot, em conjunto com outros
reis256. Ou seja, ao contrário do que sucede nas obras anteriores, em que reis, cavaleiros e
outros indivíduos acreditam na palavra e no potencial de Merlim, algo visível através das
suas acções, em Malory começa a deixar de ser uma figura credível. Mais tarde,
verificamos que o seu conhecimento histórico é incontestável, ao mandar Bloise – mestre
de Merlim – a registar todas as batalhas realizadas durante a vida de Artur257, juntamente
com aquelas travadas pelos cavaleiros dignos na sua corte258. Ao fazê-lo, assume-se como a
fonte da história de Artur – não só da sua genealogia259.

Como nas obras dos séculos anteriores, Merlim mantém este dom profético. Assim,
fornecia profecias sobre batalhas, sobre o futuro e sobre quem irá destruir Artur – alguém
que nascerá num dia de Maio260. Entre as batalhas, profetiza «the greatest battle»261 entre
dois cavaleiros e os amantes mais verdadeiros, sendo que não se matarão um ao outro – os
cavaleiros seriam Lancelote do Lago e Tristão262. Vaticina também sobre a grande batalha
perto de Salisbury entre Artur e o seu próprio filho, Mordred. Esta habilidade de conhecer o
futuro permitia, nesta obra, ajudar Artur. Numa ocasião, enganou o rei Lot of Orkney com

253
MALORY 2008: 6-11.
254
MALORY 2008: 13.
255
FEHRENBACHER 1993: 7-8.
256
MALORY 2008: 12-13.
257
FEHRENBACHER 1993: 11
258
MALORY 2008: 19.
259
FEHRENBACHER 1993: 11.
260
MALORY 2008: 31.
261
MALORY 1996: 84.
262
MALORY 1996: 84.

61
uma narrativa profética até Nero e o seu povo serem destruídos263. Este dom permitia a
manipulação posterior dos eventos, algo que demonstrava ser uma arma poderosa, pelo que
os monarcas a utilizariam para prosperar. Assim, sempre que necessário, Merlim seria
chamado à presença do rei264. Através da participação activa nas batalhas em prol do reino
de Artur – aumentando as provisões, viajando como mensageiro e outorgando conselhos
aos cavaleiros, assume um papel de líder, uma posição que Artur respeita, ao seguir a
maioria dos conselhos que Merlim lhe fornece265.

Desde o início do seu reino que Merlim auxilia Artur, não só como conselheiro, mas
também com as suas artes – numa maior presença que com Uther. Como conselheiro do rei,
Merlim auxilia Artur em diversos cenários, sobretudo bélico, a derrotar o seu maior
inimigo, o Rei Roince of North Wales, com o auxílio dos cavaleiros Balin e Balan, a quem
Merlim surge disfarçado, não sendo por eles inicialmente reconhecido266. Quando conhece
Guenivere, Merlim alerta Artur, pois sabe que ela irá traí-lo por amar Lancelote. Malory
indica ainda que Artur teria sido maioritariamente governado pelo conselho de Merlim267.
Também ajudou o rei Artur a obter a espada Excalibur268 e a adquirir cavaleiros. Este foi
um pedido que o rei fez, de cinquenta cavaleiros, os mais bravos e adorados, porém Merlim
apenas conseguiu vinte e oito com as características solicitadas 269. Nesta situação, não é
perceptível se Merlim terá utilizado artes mágicas ou de profecia, denotando apenas o lado
do conselheiro do rei, que concretiza o que lhe é pedido. Quanto a Excalibur, Merlim
explica que a sua bainha tem mais valor, pois enquanto Artur a tiver não perderá sangue
nem terá feridas graves270. Isto demonstra o grande conhecimento que Merlim possui,
nomeadamente em questões de foro mágico.

Como referimos, a magia de Merlim auxilia Artur em diversos momentos. Para o


salvar de um cavaleiro, Merlim lança um feitiço que fez o ‘inimigo’ adormecer e, num

263
MALORY 2008: 40-41.
264
BANI-KHAIR 2017: 156.
265
GREENE 1987: 57-58.
266
MALORY 2008: 38-39.
267
MALORY 2008: 50.
268
MALORY 2008: 29-30.
269
MALORY 2008: 51.
270
MALORY 2008: 30.

62
outro momento, permite que Artur não seja visto pelo rei Pellinore com «such a craft»271,
evitando um conflito272. Aquando do enterramento de doze reis, Merlim elaborou doze
imagens de latão e cobre, cobertas com ouro, que representavam os referidos reis, sendo
que cada uma segurava uma vela de cera que queimaria dia e noite. Juntamente com o
túmulo do rei Lot, ricamente adornado, e com uma figura do rei Artur de espada
desembainhada na mão, posicionada acima das restantes, isto teria sido realizado através do
uso das habilidades de Merlim 273. A magia, então, continua a surgir como um poder que os
governadores da época utilizavam, servindo para obter o auxilio necessário tanto para
manter a superioridade, como a soberania sobre os seus reinos274.

Com efeito, Merlim encontra-se ligado ao reino arturiano e à decisão real ao


cimentar o caminho de Artur. Isto porque o seu conhecimento do futuro permite antecipar o
que vai acontecer, podendo intervir se considerar necessário e manipular determinadas
situações275. Donald Hoffman afirma que Merlim surge como protector do reino durante o
governo de Artur, intervindo não só na sua preparação – permissão da união entre Uther e
Igraine, como no estabelecimento e preservação da Távola Redonda. Isto é evidente não só
através dos diversos conselhos que Merlim concede, como também ao assegurar a chegada
de Lancelote à corte, ao salvar a vida de Artur e de outros cavaleiros e a intervenção em
conflitos bélicos com outros reis, permitindo a salvaguarda tanto do reino como de Artur.
Merlim não incentiva o casamento com Guenivere e adverte Artur contra o mesmo, por
saber o que irá suceder no futuro. Ainda assim, não contraria o desejo do rei e elabora os
preparos para o casamento. Ao tratar-se de um romance de cavalaria, o amor tem bastante
poder na narrativa, sendo que o desejo de um individuo se encontra relacionado com o
decorrer da história, colocando em diversas ocasiões as premonições e visões de Merlim em
segundo plano276.

A junção do dom da profecia com a magia permitem-lhe revelar a Artur os segredos


relativos ao seu nascimento (e dos seus pais) ao surgir disfarçado de criança de 14 anos, e à

271
MALORY 2008: 30.
272
MALORY 2008: 28-30.
273
MALORY 1996: 90.
274
BANI-KHAIR 2017: 156.
275
BANI-KHAIR 2017: 155-156.
276
HOFFMAN 1991: 16-17.

63
sua morte (destruição já mencionada), ao aparecer como um homem idoso de 80 anos. As
transformações de Merlim nestes dois estágios da vida, opostos, simbolizavam o
nascimento e a morte. Porém, Artur não o reconhece277. Apesar de se encontrar presente em
diversos momentos do reino, Merlim também se mostrava imprevisível, ao verificarmos
que, em muitas situações, o próprio rei Artur não sabe a sua localização, nem reconhece a
sua aparência, como vimos. Trata-se da habilidade aparente de conseguir estar em todo o
lado e em lado nenhum simultaneamente, o que evidencia a posse de uma certa liberdade
que outros personagens não têm278.

Num outro momento, revela subtilmente que a espada de Balin teria sido colocada
de pé numa pedra de mármore, pairando acima da água, onde permaneceu durante muitos
anos279. E também permitiu a construção de uma ponte de ferro e aço, afirmando que
apenas um bom homem ou cavaleiro, sem traição ou vilania, a poderia atravessar280. Isto
evidencia também o nível de conhecimento que Merlim possui, mais elevado que as
restantes pessoas. As suas habilidades sobrenaturais também lhe permitem perceber se
algum cavaleiro é bom ou mau e explicar, bem como adivinhar e anunciar aos cavaleiros da
Távola Redonda o iminente surgimento de uma aventura maravilhosa – “[…] a strange and
a marvellous adventure […]”281.

Mas a importância de Merlim não se limitava às profecias, conselhos e à sua arte


sobrenatural. Teria sido também o criador da Távola Redonda, para esta simbolizar a
esfericidade do mundo – através dela transmite-se a ideia que tanto cristãos como pagãos
fazem parte do mundo282. Todavia, em nenhum momento é referida na obra a construção de
Stonehenge ou de Giants Ring. Possivelmente por se passar predominantemente no tempo
de Artur, e por se tratar de um romance, este episódio é omitido.

Embora Merlim tenha uma maior importância nos eventos do mundo arturiano,
como conselheiro do rei Artur, há também um maior relevo na natureza do seu nascimento.
Contrariamente ao que sucede nas obras dos séculos XII e XIII, Malory não refere o

277
MALORY 2008: 22-23.
278
HOFFMAN 1991: 20.
279
MALORY 2008: 48.
280
MALORY 1996: 106.
281
MALORY 2008: 53-54.
282
MALORY 1996: 931.

64
episódio onde é descrita a natureza do pai de Merlim. Existe a possibilidade de esta
omissão se dever a uma secção incompleta. Helen Cooper explica que a primeira menção
referente ao pai de Merlim surge numa parte iniciada num novo fólio após uma falha de
página e meia, não havendo também título no manuscrito283. Não obstante, ainda que não
seja mencionado o nascimento de Merlim, encontramos três passagens na obra que
assinalam a sua descendência demoníaca. Um cavaleiro alerta para ter cuidado com
Merlim, afirmando que ele conhece tudo através da arte do Diabo 284 e, no momento em que
Merlim justifica que Artur não é um bastardo, alguns dos reis presentes chamam-lhe
bruxo285. Numa nota explicativa, Helen Cooper esclarece que as bruxas eram servas do
Diabo, podendo utilizar poderes igualmente diabólicos. O termo «witch» designaria tanto
homens como mulheres, sendo que havia uma maior probabilidade de as últimas serem
acusadas de bruxaria. No entanto, a caça às bruxas é sobretudo um fenómeno renascentista,
ainda que tenha iniciado o seu curso no século XV286. Esta associação ao demoníaco surge
também com Nenive, uma das damas do Lago, quando declara ter medo de Merlim, pois
ele é filho do Diabo, “[…] he was a devil’s son […]”287, e não o poderia mudar de forma
alguma288. Sir Uwain, mesmo após o encarceramento de Merlim por Nenive, afirma que os
homens dizem que Merlim foi gerado por um demónio289.

A partir do século XIV, há uma acentuação do aspecto monstruoso e da imponência


do Diabo, como referido. O cristianismo necessitava de clarificar a sua mensagem e tornar
alguns elementos mais explícitos. Deste modo, a Igreja associou definitivamente o Diabo
ao mal, insistindo na questão do pecado e na culpa, e manteve a subordinação à vontade
divina. No século XV, o Diabo surge como o senhor dos Infernos – é o monarca de um
mundo que agora contém uma hierarquia290, à semelhança do mundo terrestre humano.
Neste seguimento, no século XV foram desencadeadas vastas perseguições contra aqueles

283
MALORY 2008: 536.
284
MALORY 1996: 133.
285
MALORY 2008: 13.
286
MALORY 2008: 533.
287
MALORY 2008: 59.
288
MALORY 2008: 59.
289
MALORY 2008: 71.
290
MUCHEMBLED 2000: 38-42.

65
que seriam considerados apoiantes de Satanás – os inimigos da fé. Inicia-se assim uma luta
mais acentuada contra as heresias e uma caça a feiticeiros e feiticeiras291.

Malory apresenta também a relação entre Merlim e Nenive, uma das damas do
Lago. Merlim, tendo o conhecimento de que não iria perdurar por mais tempo, expôs ao rei
Artur alguns eventos que iriam suceder, nomeadamente o facto de a espada Excalibur e
respectiva bainha virem a ser roubadas por uma mulher em quem confiava bastante. De
seguida, partiu juntamente com Nenive, figura de alto estatuto, que com ele permaneceu
apenas tempo suficiente para aprender o que desejava, fazendo-o jurar primeiramente que
não lhe faria nenhum encantamento. Contudo, Nenive começou a cansar-se de Merlim,
declarando que se teria livrado dele de bom grado, pois receava-o. Este medo advém do
facto de ele ser filho do Diabo e, como tal, não o poder dominar. Ainda assim, a sua
oportunidade adveio quando Merlim lhe mostrou uma rocha que, por ser uma maravilha e
ser forjada por um encantamento, passava por baixo de uma grande pedra. Subtilmente,
Nenive convenceu Merlim a dirigir-se debaixo da pedra para lhe dar a conhecer as
maravilhas. Ao fazê-lo, a Dama do Lago aprisiona-o, de modo que ele não se conseguiria
libertar, mesmo com magia. Ao atingir o que pretendia, Nenive partiu e deixou Merlim. A
prisão de Merlim não implicou a sua morte, pois Sir Bagdemagus passou pela zona e
ouviu-o. Tentou auxiliar a sua saída ao levantar a pedra, mas Merlim pediu-lhe que
desistisse, pois seria em vão – nem cem homens o conseguiriam. Sir Bagdemagus assentiu
e partiu292. O dom de Merlim de conhecer o futuro não só lhe permite antecipar qual o
destino do reino e de Artur, como também o seu. Ainda assim, nada pôde fazer de modo a
evitar o desfecho. A tragédia do Merlim de Malory evidencia-se com a sua disposição em
arriscar o amor, tendo consciência de que a consequência disso seria a sua prisão pela
mulher que ama e a quem deu todo o seu conhecimento293. Richard Fehrenbacher considera
que o encerramento de Merlim debaixo de uma pedra demonstra a rejeição desta figura por
parte de Malory. Isto porque Merlim teria perdido legitimidade ao ser associado ao
demónio294.

291
BASCHET 2006: 329.
292
MALORY 2008: 58-60.
293
HOFFMAN 1991: 27-28.
294
FEHRENBACHER 1993: 13.

66
Apesar da possível tentativa de Malory em criar um mundo sem problemas – a
omissão de determinados episódios da vida de Merlim, há um descrédito nesta figura, até
ao seu “desaparecimento” de cena. Este descrédito surge logo na coroação de Artur, como
mencionámos, e maioritariamente por Lot of Orkney. Mais tarde, Lot chama-lhe «dream-
reader»295 e, noutro momento, despreza o seu poder, implicando que se trata de um
impostor296 ao afirmar “[…] this faitor with his prophecy hath mocked me.” 297. Além deste
descrédito, Merlim também falha, ao sugerir a Artur que devia enviar para fora da Britânia
todas as crianças nascidas num dia de Maio – devido à profecia da morte de Artur. Este
poderia tratar-se do 1º de Maio, o dia em que se comemora Beltane na tradição celta. O
navio onde se encontravam naufraga, sobrevivendo apenas uma criança – Mordred. Sobre
este incidente, é dito que as culpas recaíram sobretudo em Merlim298.

Em suma, Merlim surge como o grande conselheiro de Artur, participando


activamente na construção do reino de Camelot e na formação da Távola Redonda. Não só
ajudava o rei, como os seus fiéis cavaleiros, protegendo-os sempre que fosse necessário.
Ainda que o seu dom lhe permitisse antever e dar a conhecer o futuro, não impedia o rumo
dos acontecimentos, mesmo que o destino destes fosse trágico. A sua credibilidade, todavia,
vê-se questionada em diversos momentos da obra, contrastando com a posição que possuía
nas obras dos séculos XII e XIII.

Diferente do que sucede nas obras de carácter histórico, nesta obra Merlim parece
surgir como uma união de bom e mau. Um exemplo desta situação é quando salva Pellinor,
tornando este rei e seus filhos cavaleiros da Távola Redonda299. Mais, o facto de ser filho
de um demónio íncubo adquire maior relevo e evidencia alguns contrastes, pois existiam
pessoas que o admiravam e outras que o desprezavam. Tanto Lot como Pellinor destacam
um lado negativo de Merlim, chamando-lhe «witch» e alertando para a sabedoria
demoníaca. Também a Dama do Lago evidencia a sua natureza, ao referir ser o filho do
Diabo300. Aqui parece que Merlim perde um pouco a sua autenticidade como legitimador de

295
MALORY 2008: 14.
296
FEHRENBACHER 1993: 12.
297
MALORY 2008: 40.
298
MALORY 2008: 31-32.
299
HOFFMAN 1991: 25.
300
HOFFMAN 1991: 15-16.

67
Artur, do seu reino e da história inglesa. Isto porque há uma suspeita de que o seu
conhecimento advenha do Diabo, não sendo totalmente sancionado por Deus. Ainda assim,
é algo que provém de personagens contrárias – tanto à Távola Redonda, como à regência de
Artur301.

Merlim parece ser, nesta obra, tanto a fonte da criação do reino, como da sua
destruição. Isto porque permitiu – e auxiliou – a união entre Uther e Igraine, que originaria
o futuro rei Artur e respectivo reino. Posteriormente, não impede a união entre Artur e
Morgause – meia-irmã de Artur302, de onde nascerá a destruição do reino de Camelot –
Mordred303. Porém condena o sucedido indicando que Deus não concorda com a prática de
tais actos304. Esta segunda permissão surge com a influência das obras francesas, pois não a
encontramos nas obras dos séculos XII e XIII. Ao mesmo tempo que consente estes
acontecimentos, assume o papel de conselheiro que tenta retardar o fim do reino, ainda que
saiba que será inevitável. Através desta função, revela ser um excelente táctico, sobretudo
ao permitir a formação de alianças e a vitória de Artur nas batalhas 305. Trata-se de uma
figura que presencia o início e o fim do reino.

3.3 As facetas de Merlim


Ao contrário do que sucedeu com os romances medievais, que se enquadravam
numa determinada tendência da época, as profecias de Merlim tornaram-se intemporais
pelos finais de Idade Média. Isto porque não só estava ligado a qualquer período histórico,
como também já se encontrava estabelecida uma tradição de compor ou encontrar novas
profecias políticas da sua autoria. A criação de novas profecias atribuídas a Merlim fez com
que continuasse a ser uma figura viva e com conhecimento acerca dos eventos recentes306,
algo que ultrapassou a Idade Média. Sobretudo, as profecias acompanhavam o contexto
político da época, carregando também um grande sentimento “nacionalista” britânico.

301
FEHRENBACHER 1993: 13.
302
MALORY 2008: 6.
303
HOFFMAN 1991: 23-24.
304
GREENE 1987: 58.
305
HOFFMAN 1991: 24-25.
306
LAWRENCE-MATHERS 2020: 14.

68
Esta presença activa durante a Idade Média não reflecte apenas a intemporalidade
desta figura e das suas profecias, como demonstra também a sua inconsistência no decorrer
dos séculos. Em primeiro lugar, são visíveis as diferenças entre o Merlim das crónicas e o
dos romances. Em Le Morte Darthur Merlim é, de facto, o grande conselheiro do Rei
Artur, com uma presença significativa junto dos cavaleiros da Távola Redonda e das suas
aventuras. Possui também uma amante de nome Nenive, a quem ensina todo o seu
conhecimento, um relacionamento que vai ao encontro da tradição deste género literário,
não estando presente nas obras dos séculos XII e XIII. É também apenas em Malory que
Merlim é aprisionado debaixo de uma rocha, onde permaneceu indefinidamente, pois não
continha poder suficiente para se libertar, o que difere do que observamos nas obras dos
séculos precedentes. Porém, a grande inovação de Malory, salientada por Thomas Wright, é
apresentar Merlim como o porta-voz de Deus. Isto prende-se sobretudo com o tratamento
dado pelo autor a esta personagem, expondo-a como um ser cujas acções são sancionadas
por Deus. Através dele é possível diferenciar o certo do errado, o bom do mau e, entre
outros307. Contrariamente ao que observamos no século XV, na Historia e na Otia
Imperialia, Merlim não aconselha Artur, pois este ainda não tinha nascido. Com efeito,
emerge para auxiliar Vortigern, para construir um grandioso monumento de homenagem –
Giants Ring, e, posteriormente, para aconselhar e ajudar Uther Pendragon, possibilitando
assim o nascimento do futuro grande rei Artur. Não obstante, possui igual liberdade, pois
permanece o tempo necessário à execução da tarefa que lhe foi solicitada e seguidamente
desaparece. O Merlim que se distingue mais dos restantes é o da Vita Merlini tendo uma
história distinta.

Ao longo destes séculos também observamos uma certa evolução na maneira como
os escritores medievais percepcionavam a ligação de Merlim com os demónios. Na
primeira obra onde surge, no século XII, esta situação é atenuada pela aproximação de
Merlim aos profetas cristãos e por se opor aos magos de Vortigern e às suas práticas. Ainda
no mesmo período, na Vita, encontramos uma narrativa bastante distinta, pelo que a
natureza do pai de Merlim não é mencionada. A partir do século XIII ocorre um
desenvolvimento interessante, pois Gervase of Tilbury compara Merlim ao Anticristo e, no
século XV, com Thomas Malory, encontramos um conjunto de passagens que demonstram
307
FEHRENBACHER 1993: 11.

69
alguma suspeita e medo quanto a esta natureza demoníaca. Este desenvolvimento parece
acompanhar a mentalidade da época, com a alteração da percepção relativamente à prática
de magia e ao envolvimento com figuras malignas, designadamente o Diabo.

Em segundo lugar, é dentro das obras históricas que encontramos as maiores


diferenças, nomeadamente entre o Merlim da Historia e o da Vita. Tanto académicos como
alguns estudiosos de época consideram que a Vita consiste numa extensão da Historia,
fornecendo mais informações acerca da vida de Merlim. Vários autores, entre o século XII
e o século XIV, interpretavam as novas informações como um complemento, retratando
fases diferentes da vida de Merlim. Tratar-se-ia da mesma personagem, ainda que em
momentos díspares. Gerald of Wales, contudo, efectua uma análise distinta após pesquisar
por informação nova acerca desta figura308. Na sua obra, Itinerarium Cambriae (1191),
descreve que existiam dois “Merlins”, o primeiro chamado Merlim Ambrosius, filho de um
íncubo, descoberto em Carmarthen – que significa Cidade de Merlim –, que profetizou
quando Vortigern seria rei. O segundo veio da Escócia e chama-se Merlim Caledonius, pois
profetizou na Floresta da Caledónia. Este também é chamado de Silvester, porque quando
se encontrava a combater olhou para o céu e observou um «monstro terrível»309. Como
resultado deste avistamento, enlouqueceu e fugiu para a floresta, onde passou o resto da sua
vida como um homem selvagem. O autor adiciona ainda que o segundo Merlim viveu no
tempo de Artur e que terá realizado mais profecias que o outro Merlim – ainda que
mencione apenas duas de carácter político310. Não só estes Merlim apresentavam
características distintas, como também se encontravam em estados proféticos distintos –
Merlim Ambrosius em estado de inspiração e Merlim Silvester de loucura311. Enquanto as
profecias do primeiro já seriam bastante conhecidas em tradução latina, o mesmo não se
poderia afirmar das de Merlim Silvester, que se encontravam na língua dos britânicos. É
por esta razão que Henrique II pediu com urgência uma exposição das profecias desse
Merlim, motivando Gerald of Wales a iniciar a sua busca. As informações teriam sido
encontradas num local longínquo no País de Gales e as profecias utilizadas por este

308
LAWRENCE-MATHERS 2020: 63.
309
WALES 1978: 162.
310
WALES 1978: 162.
311
LAWRENCE-MATHERS 2020: 64-65.

70
eclesiástico para legitimar eventos que já aconteceram312. Também aqui os acontecimentos
profetizados se verificaram verdadeiros e Gerald of Wales mostra-se confiante nas
profecias de Merlim313. Merlim Silvester seria igualmente aceite na época. Por exemplo,
Ranulph Hidgen afirma que este Merlim teria profetizado de forma mais clara que o
Merlim de Monmouth e aceita a existência dos dois, rejeitando apenas o pai íncubo314.
Gerald of Wales parece conhecer a obra de Geoffrey of Monmouth ao afirmar que
“Carmarthen means the town of Merlin, because, according to the Historia Regum
Britanniae, Merlin was discovered there as the offspring of an incubus.”315. A Historia
parece uma amálgama de informação proveniente de diversas fontes e tradições literárias.
Contudo, Gerald of Wales afirma que existiam dois “Merlins” – não apenas um, e que seria
por isso que o registo histórico possuía tantas contradições. O conhecimento e influência da
obra de Geoffrey of Monmouth é também evidente nas semelhanças das profecias
atribuídas a Merlim Ambrosius com as da Prophetiae316.

Estes dois “Merlins” também surgem com idades diferentes nas obras de Geoffrey
of Monmouth: o da Historia e o da Vita. Contrariamente à imagem que existe hoje em dia
de Merlim, com idade avançada e cabelos brancos, influenciada pela literatura do século
XIX, este surge retratado inicialmente como um jovem rapaz317. Contudo, o mesmo autor
apresenta-nos um Merlim de idade avançada na sua obra subsequente. As obras dos séculos
posteriores não nos fornecem muitos dados acerca da sua idade, apenas se verificando que,
em Malory, poderá tratar-se de um adulto, pois existe um momento onde se transforma em
criança e, de seguida, num homem idoso. Se atentarmos à cronologia de Geoffrey of
Monmouth, Merlim teria sido descoberto entre 449 e 455, pelo que, quando se deu a
batalha de Arfderydd, a cerca de 573– a suposta batalha que enlouqueceu Merlim na Vita,
teria entre 119 e 124 anos. Se utilizarmos a data fornecida por Matthew Paris para a sua
descoberta, cerca de 464, em 573 teria 109 anos. Mike Ashley indica ainda que Merlim
teria cerca de 8 ou 9 anos quando os soldados de Vortigern o encontraram318. Mais, Ad

312
PUTTER 2009: 96-97.
313
PUTTER 2009: 100-101.
314
LAWRENCE-MATHERS 2020: 167.
315
WALES 1978: 118.
316
PUTTER 2009: 93-94.
317
RUNSTEDLER 2015: 41.
318
ASHLEY 2009: 26.

71
Putter assevera que se tratava de cerca do ano 600 quando Merlim fala da morte de
Constantine na Vita319. Se adicionarmos os vinte e sete anos que passaram entre a batalha
de Arfderydd e esta última data, obtemos uma idade bastante improvável de atingir na
época. Além disso, em nenhum momento é nos dada a indicação de que Merlim é imortal.
Sabemos da morte de Vortigern e Uther, bem como de outras personagens, e da ida de
Artur para Avalon. O que acontece a Merlim após desaparecer de cena permanece uma
incógnita nos séculos XII e XIII. Com Malory sabemos que fica preso, mas não nos é
indicado que será algo fatal. Tendo isto em consideração, podemos estar diante de vários
“Merlins”, que surgiram em décadas distintas. Márcia Maria de Medeiros afirma que este
se trata do poder outrora concedido aos druidas, permitindo Merlim aparecer como um
jovem ou idoso, como um homem dos bosques ou como animal. De facto, também a magia
permitia a transformação de alguém, como sucedeu com Uther Pendragon. Dentro da
cultura celta, o druida conseguia ver o invisível, o que lhe conferia a capacidade de se
metamorfosear – algo que Merlim faz320. Ainda assim, não existem passagens que
mencionem o uso da magia para obter longevidade.

Em último lugar, verificamos que Merlim revela ser confiável na maioria das obras,
sobretudo ao demonstrar a veracidade das suas profecias, bem como o seu talento
sobrenatural. É uma figura imprescindível na formação do que iria ser o reino de Artur.
Esta credibilidade, contudo, começa a fragmentar-se em Malory, com falhas nas acções de
Merlim, que geram um descrédito nesta personagem por parte de um conjunto de
indivíduos. Similarmente, em Le Morte Darthur sabemos que Merlim possui um “fim”
específico, sendo preso debaixo de uma rocha pela sua amante, o que contrasta com as
restantes obras.

Considerando ambas as vertentes analisadas nos subcapítulos anteriores, podemos


afirmar que Merlim não é uma figura estanque, sendo possível destacar um conjunto
variado de diferenças entre diversas obras. Logo dentro das obras de carácter histórico,
nomeadamente as de Geoffrey of Monmouth, observamos um contraste notório entre dois
Merlim, levando escolásticos da época a considerar a existência de ambos como indivíduos

319
PUTTER 2009: 92.
320
MEDEIROS 2005: 66-68.

72
distintos – Merlim Silvester e Merlim Ambrosius. Em Le Morte Darthur, tendo em
consideração o género literário da obra, também são evidentes alguns contrastes com as
restantes obras, nomeadamente a presença de Merlim como conselheiro de Artur, na
criação da Távola Redonda e a sua relação com Nenive. Mas também a sua importância
como intermediário de Deus e, pela primeira vez, o surgimento de alguma desconsideração
nesta figura.

Notamos que o tipo de magia que Merlim utiliza é considerada benigna, natural, vinculada
a Deus, algo evidente na sua ligação a elementos naturais, como as pedras de Giants Ring,
e no contraste com os magos de Vortigern. Ainda assim, a partir do século XIII com
Gervase of Tilbury começa a haver alguma suspeita quanto à influência que a figura
paterna de Merlim poderia exercer nele, algo que se encontra de forma mais evidente em
Malory. Esta suspeita vai ao encontro da evolução na maneira como a população medieval
percepcionava a figura do Diabo e respectivos demónios.
Resta mencionar que Merlim surge igualmente com idades distintas ao longo da
literatura, algo que se verifica um pouco complexo tendo em consideração as cronologias
fornecidas pelos escritores da época. Ainda assim, ao analisarmos as datas a que temos
acesso, podemos afirmar que seria pouco provável que Merlim possuísse uma idade
superior a 100 anos, sobretudo tendo em consideração a época em que se encontrava.
Além disso, também não existem indicações de seria imortal nem que o seu tipo de magia
ajudasse a aumentar a sua longevidade – mesmo podendo alterar a sua figura através da
metamorfose.
Ao longo deste capítulo, procurou-se determinar a presença de Merlim na história
e na literatura, analisando várias obras que permitiram discernir a evolução desta figura ao
longo dos séculos XII a XV. No entanto, existe uma questão crucial que ainda não foi
esclarecida: quem é Merlim? A resposta apenas parece possível através da análise da
importância social, cultural e política desta figura – visível nos locais que lhe são
associados, das características que possui nas obras previamente analisadas e da
mentalidade da população da época.

73
74
Capítulo 4

4. Influência e identidades de Merlim

4.1. A importância social, cultural e política


Merlim aparece pela primeira vez na Historia Regum Britanniae como um rapaz-
profeta com capacidades singulares. Em conjunto com o rei Artur, adquire bastante
importância e impacto na Idade Média, nomeadamente na Britânia.

Geoffrey of Monmouth escreve a referida obra com o intuito de promover a


legitimação dos anglo-normandos, em oposição aos Saxões. Estes seriam pagãos e
bárbaros, contrastando com a superioridade que os Normandos possuíam, cujos reis foram
inclusive considerados descendentes do mítico Artur. Assim, Monmouth sugere que estes
são os legítimos ocupantes do trono. Este rei heróico – Artur – conseguiu unir o povo
britânico, o que, no fundo, se assemelhava às ambições políticas que os Normandos
possuíam321.

A Historia é dedicada a Robert of Gloucester (filho de Henrique I) que, tal como


Artur, era um filho ilegítimo, ainda que de descendência real. Deste modo, trata-se de uma
época com uma certa agitação política devido ao problema da sucessão ao trono inglês após
a morte do rei Henrique em 1135. Dado que três dos seus filhos faleceram, a legitima
sucessora ao trono seria a filha Matilda, a única sobrevivente. Contudo, muitos barões
opõem-se, por ser mulher e porque tinha casado com um membro da Casa de Anjou,
considerada rival da Normandia. Isto resulta num conflito pelo poder entre Matilda e
Estevão de Blois (neto de Guilherme o Conquistador) em 1139. Após a usurpação do trono
por Estevão, Henrique II, filho de Matilda, assume o poder. Com o exemplo do governo
sólido e rodeado de figuras leais de Artur, Monmouth apela à necessidade de se instaurar
um período de governação firme, sem conflitos e crises322. Ao mesmo tempo, também
dedica a sua obra ao Conde Waleran e ao próprio Estevão, o que demonstra um desejo

321
GUY 2020: 107-110.
322
GUY 2020: 342-348.

75
pessoal de obter patronos provenientes da corte normanda. Não obstante, com a Historia
Artur tornou-se numa personagem importante no meio cortês, sendo considerada real desde
Henrique II a Henrique VIII, sendo inclusive utilizada para fins políticos323.

No século XII, data em que Monmouth escreve, a Inglaterra encontrava-se povoada


por Celtas, Anglo-Saxões, Normandos, Dinamarqueses e Bretões, todos procurando pela
sua própria identidade. Com a Historia, Artur tornou-se no herói dos Britânicos, sendo que
a época em que viveu passou a ser observada como uma Idade de Ouro, em conjunto com a
presença de um elevado sentimento “nacionalista”. Neste quadro, as profecias de Merlim,
ao ligarem o passado ao futuro, instauram a ideia de que existia um destino nacional para as
Ilhas Britâncias, projectando Artur como o modelo e símbolo do governante perfeito324.

Dentro da própria Historia, Merlim possui funções distintas, não tendo apenas
relevância ao nível da narrativa como personagem. Assim, assume também o papel do
leitor e as várias funções do historiador, tornando-se num modelador de história. Kimberly
Bell afirma que Merlim, como profeta, arquitecto e orientador, cumpre certas funções
artísticas que reflectem os papeis dos leitores de Geoffrey of Monmouth, revelando assim a
estrutura subjacente da narrativa da obra. Ao mesmo tempo, surge com o objectivo de
auxiliar o leitor a compreender as suas profecias e, inclusive, a obra em si325.

Quando Merlim profetiza sobre o futuro da Britânia, o narrador encontra-se em


silêncio, deixando em aberto a interpretação do texto. Também o tipo de linguagem que
Merlim utiliza na Historia difere da que é geralmente utilizada no relato histórico, sendo
mais complexa e dificil de interpretar. Trata-se de uma «forma profética» que envolve
autoridade, demonstrando a quem lê a narrativa que as profecias possuem uma certa
veracidade. Mais, Geoffrey of Monmouth disfarça a história de profecia, dando validade
aos vaticínios que se encontram dentro do seu texto. Merlim ocupa também o papel de
narrador que, devido à sua precisão, convence a audiência de que a obra de Monmouth é

323
HIGHAM 2002: 226.
324
BARRON 2001: xiii-xiv.
325
BELL 2000: 14-18.

76
uma representação autorizada da realidade histórica. Similarmente demonstra a participação
activa dos leitores326.

Já a sua função como historiador evidencia-se na passagem acerca da construção de


Stonehenge ou Giants Ring. Merlim constrói um monumento de homenagem aos que
morreram na guerra a partir de um já existente na Irlanda. Assim, assume um papel de
artista, provando a superioridade da arte e da habilidade em relação à força bruta dos que
tentaram mover as pedras. Aqui, Kimberly Bell compara Geoffrey of Monmouth a Merlim,
afirmando que ambos trabalham a arte de construir monumentos, um em tinta e pergaminho
e outro em pedra. Simultaneamente dá-se uma reinvenção de Stonehenge, pois as pedras
são movidas para um local novo, ainda que mantendo a disposição original. Assim, há
apenas a transformação do significado, tornando-o num símbolo da Britânia, de modo a
atender às necessidades do povo, o que denota tratar-se de uma questão política e de
‘nacionalidade’. Este uso de um elemento de outra cultura pode ser comparável com o autor
da Historia e seu uso “emprestado” de lendas e contos de civilizações antigas de modo a
obter as bases da sua obra. Além disso, realiza também comparações entre elementos da
cultura clássica e a Britânia – conecta e reforça a ligação com Roma. Deste modo, cria uma
espécie de ilusão de continuidade cultural entre a Britânia e as civilizações clássicas. Ou
seja, faz com que a Britânia possua uma história tão grandiosa e importante como a de
Roma e Tróia – considerada lendária327.

Com o auxílio na concepção de Artur, Merlim torna-se numa personagem que


manipula os eventos que prediz. Ao ajudar Uther Pendragon, Merlim participa activamente
na construção e formação da história arturiana e britânica. Isto evidencia a sua importância
no surgimento de uma lenda e na criação de algo que no futuro será objecto de foco e
análise por parte historiadores e poetas. Além disso, o conhecimento acerca do futuro
demonstra que a história é predeterminada e fornece também algum controle sobre o
processo histórico. Geoffrey of Monmouth criou uma história para explicar as origens do
povo britânico, dando glória aos Normandos, cujo destino teria sido profetizado por
Merlim. Como vimos, a sua obra vem substituir as antigas narrativas, indo ao encontro das
necessidades políticas da época, dando aos normandos algo que lhes conferia a sensação de
326
BELL 2000: 18-19.
327
BELL 2000: 20-22.

77
conquista política e territorial. A figura de Merlim permite-lhe, assim, trazer temas
relevantes para a narrativa328.

As profecias de Merlim são fundamentais neste aspecto, não só a nível da história


da Britânia, como da política. Tanto as profecias, como a sabedoria de Merlim são tidas
como verdadeiras. Isto é demonstrado primeiramente através da anunciação da causa do
colapso da torre de Vortigern. Por outro lado, os magos do rei aparentam não possuir um
conhecimento tão aprofundado quanto Merlim, pelo que são descritos como falsos e
supersticiosos. Nesta situação verificamos também o conhecimento oculto de Merlim, que
permite entender questões que ultrapassam a compreensão humana. Neste episódio, o autor
demonstra igualmente o contraste entre Merlim e os magos. Estes últimos parecem reger-se
por crenças e práticas pagãs que pediam o derrame sacrificial de sangue. Merlim distancia-
se destas crenças e aproxima-se de Deus, do comportamento cristão, ao mostrar não só um
vasto conhecimento, como uma solução menos desumana329.

Curiosamente, a narrativa sucede numa época – século V, onde ainda estão


presentes alguns elementos do mundo pagão. Inclusivamente, a inspiração para a criação de
Merlim advém de textos celtas. Ainda assim, as profecias possuem um elevado valor para o
público cristão. Em parte, isto pode ser explicado com o impacto que a cultura clássica teve
no mundo cristão primitivo, nomeadamente a figura da Sibila, cujas profecias poderiam ser
interpretadas segundo uma visão cristã. Além disso, Geoffrey of Monmouth incorpora uma
parte da história de Tróia e da Grécia quando se refere aos primeiros habitantes da Britânia.
Neste seguimento, ainda que de origem pagã, as profecias poderiam funcionar como
revelações divinas. Assim, os poderes que Merlim possui tornam-no num intermediário
entre Deus e as pessoas, sendo as profecias uma mensagem de Deus que devem ser
interpretadas330. Assim, mesmo que a sua génese seja pagã, os poderes e o conhecimento
sobrenatural de Merlim são considerados como um dom de Deus, permitindo que transmita
as mensagens à população. A importância de Merlim e das suas profecias aumenta com esta
ligação ao divino, nomeadamente dentro de uma sociedade cristianizada. A associação das
profecias de Merlim a Deus e à politica tornam-nas numa autoridade no mundo medieval.

328
BELL 2000: 23-24.
329
RUNSTEDLER 2015: 56-57.
330
RUNSTEDLER 2015: 56-59.

78
Em Malory, há uma acentuação maior desta característica de Merlim. Segundo a análise de
Thomas Wright, Malory projecta o reino de Artur como um destino ordenado por Deus e
estabelecido através de Merlim331. Neste sentido, apresenta-se como uma figura que ocupa
um espaço liminar, pois como profeta encontra-se entre o divino e a humanidade, o seu
poder mágico transformativo trata as fronteiras como algo maleável, e, mais que tudo, é
uma figura ambígua. Assim, Merlim aproxima-se das fronteiras da humanidade, porém, nas
crónicas nunca as ultrapassa332.

A edição de Le Morte Darthur de Caxton (1485) é publicada no ano da Batalha de


Bosworth Field que coloca fim à Guerra das Rosas e inaugura a dinastia Tudor. Com o
intuito de agradar aos monarcas, William Caxton insiste na vertente histórica da obra –
Artur e os seus cavaleiros existiram333. Malory terá acompanhado os conflitos graves da
Guerra dos Cem Anos, que cessa em 1453 com a perda dos territórios ocupados em França
por Inglaterra, e uma parte da Guerra das Rosas, que se inicia em 1455 e se prolonga até
depois da sua morte (1471). Le Morte Darthur é escrito na prisão, devido ao envolvimento
de Malory na Guerra das Rosas, pelo que a sua vida foi marcada pela guerra – destruição,
fome e desesperança334. Na sua obra ecoa o lamento por Inglaterra se ter afastado de uma
era de paz e prosperidade, tendo-se perdido para a guerra. Ao mesmo tempo, enfatiza a
morte do rei, ligando a situação política vivida no seu tempo ao colapso dos ideais da
Távola Redonda – a era da cavalaria, com valores que incluíam lealdade, bravura e honra,
estava a desaparecer e a ser substituídos pela traição e cobardia. Neste seguimento, o
lamento de Malory pela morte do rei Artur e do reino de Camelot é simultaneamente um
lamento pela morte de Inglaterra. Apesar disto, o seu texto contém uma nota de esperança,
ao apelar ao regresso do rei. Parece existir um foco maior nos elementos que podem
contribuir para a alteração do mundo, do que nas aventuras maravilhosas, diferenciando
bastante esta obra dos romances que lhe serviram de fonte. Simultaneamente, os episódios
narrados caminham para um fim anunciado – uma ameaça crescente de uma tragédia que se
intensifica no decorrer da obra335. A tragédia da Távola Redonda resulta da corrupção

331
FEHRENBACHER 1993: 11.
332
BREUER 2009: 47-49.
333
HIGHAM 2002: 234-235.
334
BARRON 2001: 226
335
BARRON 2001: 101-102.

79
interna e das falhas do sistema de cavalaria, do destino e da Roda da Fortuna. São as
profecias de Merlim que acentuam todos estes aspectos. Le Morte Darthur principia com o
nascimento de Artur e termina com a sua morte, demonstrando a origem, desenvolvimento
e queda de uma Idade de Ouro de uma corte ideal – o herói (Artur) passa a segundo plano,
sendo substituído por Lancelote e dando origem ao colapso de um reino perfeito336.

Também o facto de Merlim ser apresentado como filho de um demónio íncubo


sugere que se trata de uma figura sobrenatural ambivalente, actuando como mediador entre
a esfera divina e a esfera terrestre. Na visão de Victoria Flood, o encontro com um íncubo
pressagia uma mudança sobrenatural na sorte, uma narrativa de declínio ou ascensão. Isto
está relacionado com as Prophetiae, onde Merlim prediz a queda de Vortigern quando
menciona o futuro da Britânia e do seu povo, o que acentua a natureza maravilhosa das
profecias desta figura337. Por ser o resultado de uma relação entre um demónio e uma
virgem, Merlim representa o elo de ligação entre o bem e o mal. O facto de ser filho de um
íncubo confere-lhe os poderes da visão e conhecimento do futuro, contudo, é quem
aconselha e auxilia na ascensão de Artur a rei, tal como antevê a retaliação dos britânicos
contra os inimigos. É também o elo de união entre a vida e a morte, pois vivencia a morte
de imensas personagens – inclusive de companheiros, antevê a morte de Vortigern e, no
entanto, permanece vivo durante toda a literatura. A sua ambiguidade literária confere-lhe,
assim, duplicidade338.

Os dons de Merlim demonstram ser basilares para o sucesso de figuras importantes,


como reis. Ao anunciar o futuro e destino da Britânia e do seu povo, as profecias de Merlim
assumem um carácter político339. Dentro desta área, foram igualmente essenciais para a
reputação da Britânia, pois conferiram um rumo positivo à sua história, ao contrário do que
sucedeu com escritores anteriores. Além disso, criou reis, ao auxiliar a concepção de Artur
e ao tornar-se, posteriormente, seu conselheiro340. Mais que isso, através de Bloise,
verificamos que Merlim se evidencia como a fonte da verdadeira história de Artur – que

336
BARRON 2001: 240-245.
337
RUNSTEDLER 2015: 50.
338
MEDEIROS 2005: 67
339
RUNSTEDLER 2015: 59-60.
340
LAWRENCE-MATHERS 2020: 69.

80
inclui as suas batalhas, não apenas a sua genealogia341. As habilidades de Merlim seriam
conhecidas, pelo que é chamado a ajudar em diversas ocasiões importantes, desde
Vortigern a Artur. Noutros momentos cruciais, intervém por conta própria, agindo em
detrimento do reino de Camelot. Isto é observado maioritariamente em Le Morte Darthur,
onde é evidente uma espécie de omnipresença quando é necessário, porém, desaparecendo
de cena quase magicamente quando não é preciso. Como tal, nem sempre os monarcas
conhecem o paradeiro desta figura, enviando indivíduos à sua procura e não o
reconhecendo quando surge com uma aparência distinta, fruto do seu poder sobrenatural.
Isto demonstra a autonomia que possui, pois faz o que deseja em diversos momentos, nas
diversas obras entre o século XII e XV.

O poder e a singularidade de Merlim destacam-se sobretudo quando os autores não


explicitam como realiza determinado feito, como a transformação de Uther Pendragon e
restantes elementos em Le Morte Darthur, e a deslocação do Giants Ring. Isto porque é
colocada ênfase na natureza impossível ou extremamente dificil da tarefa, de modo a
demonstrar que apenas alguém muito poderoso poderia executar esse feito – esse alguém
seria Merlim. Na Historia, apesar de o autor explicar como Merlim realiza determinados
feitos, como a metamorfose – através de uma droga, ele permanece como uma figura chave,
de grande valor342.

A partir do século XIV, e tal como sucedeu em Inglaterra, Merlim começou a surgir
em pseudo-histórias escocesas. Estas obras misturavam o mito com a realidade histórica, de
modo a fornecer uma versão fantasiosa da história da Escócia. Nelas, Merlim surgia
descrito junto do rei Artur como profeta e feiticeiro na corte régia. As profecias presentes
na Historia, todavia, não se mostraram favoráveis à Escócia, pois anunciavam o regresso de
um rei que iria reganhar a sua autoridade sobre toda a Britânia. Para os Escoceses, esta
ideia de serem conquistados ou reconquistados não assentava bem, mesmo que se tratasse
de um rei lendário. Mais, a Historia retratava Mordred, traidor do rei Artur, como um rei
escocês, o que acentuava o negativismo envolto nestas personagens. O suposto domínio da
Britânia por parte do rei Artur também coincidia com as ambições territoriais inglesas nos
séculos XIV e XV, juntamente com Merlim como profeta da grandeza inglesa. Neste
341
FEHRENBACHER 1993: 11.
342
BREUER 2009: 45-47.

81
sentido, as profecias de Merlim acerca do regresso de Artur significavam não só a retoma
do reinado britânico, como também pareciam legitimar as reivindicações inglesas de
soberania. Neste seguimento, Merlim poderia ser considerado um profeta falso ou
charlatão, ou ser utilizado como um porta-voz para profecias políticas escocesas, como
sucede na obra Chronicles of the Scottish de John of Fordun (século XIV)343: “Scotia shall
mourn her famous kings of old […] For an unkingly king – so Merlin sings – Shall wield
the sceptre of victorious kings.”344.

No século XV, a maioria dos escritores escoceses hesitavam em fazer declarações


positivas acerca de Merlim, pois este estaria contaminado pela sua associação com Artur.
Este sentimento de algum descontentamento em relação a Artur e Merlim continuou
característico da escrita histórica escocesa inclusive após o século XVI. Tratava-se de uma
oposição ao lado inglês de Artur e, sobretudo, à regência de um único rei inglês sobre toda
a Britânia, o que incluiria a subjugação da Escócia345.

A nível de iconografia, é no manuscrito MS Egerton 3028 do século XIV que


encontramos a maior variedade de imagens relativas à história de Merlim: o seu
aparecimento com a mãe diante de Vortigern (fig. 3), a aconselhar Vortigern (fig. 4), a
confortar Uther (fig. 5) e a erguer Stonehenge (fig. 6). Neste manuscrito encontramos ainda
uma iluminura dedicada ao episódio da torre de Vortigern, onde podemos ver o próprio
monarca junto de uma torre aparentemente a cair, com os dragões – o branco e o vermelho
ao lado (fig. 7), presentes nas Prophetiae. Nele encontramos um jovem Merlim, o que se
encontra de acordo com a obra de Geoffrey of Monmouth. No MS Cotton Claudius b vii,
datado do século XIII, encontramos Merlim a ler as suas profecias a Vortigern, novamente,
de aspecto jovem (fig. 2). Já no manuscrito BL Royal 20 A II, datado de c. 1307-1327,
encontramos um Merlim mais adulto, junto em conversações com Uther Pendragon (fig. 8).
É possível encontrar mais iconografia relativa a Merlim, contudo, pertence a outros locais
que não estão inseridos na nossa temática de estudo.

343
CLARKSON 2016: 122-123.
344
CLARKSON 2016: 122-123.
345
CLARKSON 2016: 123-124.

82
Resta mencionar que Merlim teve igual impacto na geografia britânica,
nomeadamente em Carmarthen, Dinas Emrys, Stonehenge e na floresta da Caledónia,
contribuindo para a criação de lendas associadas aos mesmos.

Em suma, Merlim tem uma importância bastante grande no período de estudo, algo
que se revela com a sua presença nas diversas esferas da sociedade: 1) a nível régio – no
sucesso e formação de reis lendários, e político ao fornecer um passado glorioso à Britânia
e à sua história através das suas profecias. 2) a nível religioso, ao opor-se aos magos de
Vortigern, demonstrando o triunfo do cristianismo sobre a ideologia e práticas antigas, e a
assumir um papel de intermediário entre Deus e a população devido ao carácter bíblico das
suas profecias. 3) a nível cultural, ao participar activamente na formação da história
arturiana e britânica. 4) a nível geográfico, com os locais marcados pela sua presença que
veremos adiante.

De facto, a importância de Merlim estende-se além da sua função dentro das obras
como personagem, ao assumir o papel de leitor, narrador e historiador, auxiliando o leitor a
compreender tanto as suas profecias como a própria obra de Geoffrey, a demonstrar a
veracidade da mesma e a criar símbolos para a Britânia. Não só possui diversas faces ao
longo dos séculos XII a XV, como um conjunto de papeis significativos dentro do ciclo
arturiano e para a população medieval. A sua importância revela-se também na iconografia
medieval, estando presente em diversos manuscritos, sendo maioritariamente representado
de acordo com a narrativa da Historia e junto de figuras-chave do ciclo arturiano.

A grande difusão das obras que compreendiam tanto esta figura, como informações,
comentários e interpretações sobre ela, permitiu que Merlim fosse conhecido por toda a
Europa medieval346. Resta mencionar que na Escócia, não obteve a mesma recepção e
importância que em Inglaterra, tendo uma imagem maioritariamente negativa, devido ao
contexto sociopolítico da época.

346
LAWRENCE-MATHERS 2020: 68-69.

83
4.1.1. Os locais (fictícios e históricos)
Ao analisarmos as fontes, podemos observar a conexão entre Merlim e a geografia e
história galesa, ao ser colocado em Carmarthen por Geoffrey of Monmouth347. Localizado
no País de Gales, na Historia aparece denominado como «Kaermirdin»348 e seria o local do
códice mais antigo acerca de Myrddin349. Sobre este assunto, Gerald of Wales afirma que
Carmarthen significa «cidade de Merlim». Esta seria a antiga capital de Dyfed, no sudeste
do País de Gales, combinando «caer» (castelo) e o nome Myrddin350. Existe a possibilidade
de Geoffrey notar a semelhança entre Merlim e o sufixo «-merdin» de «Caermerdin». De
acordo com Nikolai Tolstoy, existe uma maior probabilidade de se tratar de uma piada
privada, referente a um escândalo contemporâneo a Geoffrey of Monmouth que ocorreu na
Igreja de S. Pedro em Carmarthen. Sobretudo porque é descrito que, na época, o
governador seria Bledri, filho de Cedifor, que também teria uma filha – Ellylw, a quem
Cadwagan ap Bleddyn teria dado um filho ilegítimo. Esta história possui paralelos com a
do nascimento de Merlim, um filho bastardo da princesa de Dyfed, o que explicaria a
associação a Carmarthen351.

Merlim está igualmente associado a Dinas Emrys, localizado no País de Gales, local
onde Vortigern tentou construir a torre que colapsava repetidamente, e cujo nome significa
“Forte de Ambrósio”. Na Historia, é Merlim que explica a Vortigern a causa da queda
constante da torre – a presença de dois dragões no subsolo a lutar entre si. De acordo com
um conto celta, intitulado Lludd and Llefelys, três pragas ocorrem na Britânia e Lludd
explica que uma delas apenas pode ser terminada ao escavar os dragões no centro exacto da
Britânia – Oxford, e enterrá-los em Dinas Emrys. Além do paralelo, existe a possibilidade
de os dragões da Historia serem estes352.

Como observámos no capítulo anterior, Stonehenge é associada a Merlim por dois


autores em séculos distintos. Ainda que não surja com esta denominação, mas sim Giants

347
REDONDO 2004: 19-20.
348
MONMOUTH 1951: Livro VI, capítulo 10.
349
REDONDO 2004: 19-20.
350
KNIGHT 2018: 13.
351
TOLSTOY 2008: 18-20.
352
LUPACK 2007: 441.

84
Ring, os historiadores acreditam que se trata do mesmo local. Numa das ilustrações mais
antigas de Stonehenge, presente no manuscrito B.M Egerton MS 3028, do século XIV,
podemos ver Merlim a trabalhar na estrutura353, como podemos observar na figura 6. A
população medieval, nomeadamente os grupos sociais mais baixos, acreditaria que teria
sido, de facto, Merlim a trazer as pedras da Irlanda. Quanto ao possível druidismo em
Stonehenge, parece um pouco improvável, pois os druidas utilizariam um ambiente natural
para realizar os seus ritos (e não templos já construídos)354. O que também não se encontra
relacionado com a ligação de Merlim ao monumento.

Com a Vita Merlini, há uma associação de Merlim à floresta, como profeta, homem
selvagem e eremita. Não se refugia num espaço verde qualquer, mas sim na Floresta da
Caledónia. O nome desta floresta possui origens na época romana, pois os Romanos
chamavam à Escócia “Caledonia”355. No período medieval, esta floresta cobria a maior
parte da zona Sul da Escócia356. Na literatura francesa, irá surgir associado a outra floresta
– Brocéliande, porém, não se encontra dentro do nosso campo de estudo.

O último local que resta mencionar é o túmulo de Merlim. A população de Upper


Tweedale acreditava que a sepultura de Merlim se encontrava em Drumelzier357. Na obra
Scotichronicon, de Walter Bower, datada do século XV, podemos encontrar várias
profecias atribuídas a Sir Thomas of Erceldoune ou Thomas the Rhyme, como seria
conhecido. Nela, a maioria das profecias referia-se a questões políticas, porém, uma delas
menciona a sepultura de Merlim em Drumelzier358: “When Tweed and Pausayl meet at
Merlin’s grave; Scotland and England shall one monarch have”359.

As profecias atribuídas a Thomas seriam igualmente citadas por historiadores


escoceses no século XV, algo que continuou nos séculos seguintes. Infelizmente, parece
que nem os textos antigos, nem o original sobreviveram. Por Tweed entende-se o Rio
Tweed e por Pausayl a Powsail ou Drumelzier Burn. O monarca a que se refere a passagem

353
GRINSELL 1976: 7.
354
GRINSELL 1976: 17-18.
355
Francis Lot. “Note 2”, The Matter of Britain, the Isle of Avalon, King Arthur and the works of Geoffrey
of Monmouth, 2013, [Link]
356
ARDREY 2008: 184.
357
CLARKSON 2016: 136.
358
CLARKSON 2016: 119.
359
CLARKSON 2016: 119.

85
provavelmente seria o Rei Artur, indo ao encontro do tema do eventual regresso do rei que
irá salvar o seu povo – Artur não estaria morto, mas esperando - ou, da ideia de que irá unir
as duas metades da Britânia360.

O mapa 1 mostra-nos a Britânia do tempo de Myrddin, segundo Stephen Knight,


onde podemos observar onde se localizam alguns destes locais, nomeadamente a Floresta
da Caledónia, Dinas Emrys e Dyfed – perto de Caerfyrddin (Carmarthen).

Em suma, Merlim está associado a vários locais situados na Britânia, algo sobretudo
proveniente da literatura. No País de Gales, temos Carmarthen (Kaermerdin) e Dinas
Emrys. O primeiro é mencionado inicialmente na Historia de Geoffrey of Monmotuh, um
topónimo ligado ao nome de Merlim, mas também derivado de um códice onde Myrddin se
encontra presente e, possivelmente, de algo que sucedeu na época do autor. O segundo
designa “o Forte de Emrys” e trata-se do local onde Vortigern pretendia erguer a torre, que
possui paralelos com um conto celta – Llud e Llevelys361. Na Escócia temos igualmente
dois locais – a floresta da Caledónia, que, no período medieval, cobriria grande parte da
zona sul da Escócia, sendo que possuímos pouca informação acerca da ligação deste local a
Merlim (salvo as obras analisadas), e o Túmulo de Merlim em Drumelzier, localizado nas
fronteiras escocesas. A população acreditava, de facto, que o túmulo deste profeta
feiticeiro se encontrava neste local, algo acentuado por Walter Bower, cuja obra menciona
o local da sepultura.

Por fim, na Inglaterra o famoso Stonehenge, cujos estudiosos acreditam tratar-se de


Giants Ring, o monumento erguido por Merlim a pedido de Ambrósio Aureliano. Existe
inclusive uma iluminura que retrata este acontecimento, sendo que a população medieval
acreditava que teria sido Merlim a transportar as pedras da Irlanda.

360
CLARKSON 2016: 119.
361
Produzido no século XI e preservado no Livro Vermelho de Hergest e no Livro Branco de Rhydderch, de
finais do século XIV.

86
4.2. As identidades de Merlim
Profeta, feiticeiro, bardo, homem selvagem, conselheiro, e amante são alguns dos
atributos que Merlim possui ao longo dos séculos XII a XV em contexto inglês. Porém a
questão fundamental é se falamos do mesmo individuo – se só existe um Merlim durante
todos estes séculos.

Com base nas fontes verificamos que se encontra associado à magia, à profecia, à
figura do bardo e do druida e ao cenário bélico. Merlim é, primeiramente, o feiticeiro que
acompanha Vortigern, Uther, Ambrosius Aurelianus e Artur, cuja magia o distancia dos
magos de Vortigern e das suas práticas antigas e controversas. Ao longo dos séculos XII a
XV, este seu dom é percepcionado de forma neutra ao ajudar os monarcas a alcançar os
seus objectivos e ao proteger Artur, os seus cavaleiros e o seu reino. Apenas no século XV
começa a haver alguma identificação da magia de Merlim com o Diabo, algo que parece
seguir o contexto da época. Merlim surge numa época de crescente interesse na magia
natural e nos poderes ocultos, antes do inicio da hostilidade por parte da Igreja. Com o
passar do tempo, começou a aumentar o medo do contacto com forças que ultrapassavam a
compreensão humana – como a magia, algo considerado perigoso. Ainda assim, a vertente
mágica de Merlim difere da de bruxas e de magos. Não só não utiliza rituais, talismãs ou
ofertas idólatras, como se distingue dos magos de Vortigern. Na Vita Merlini, o autor dá
enfase à vertente filosófica natural e profética de Merlim, não o ligando às artes mágicas.
Os poderes do mundo natural – os animais e a natureza – são considerados dádivas de
Deus, não estando conectados com os demónios362. A ligação de Merlim com elementos
naturais evidencia-se com as pedras de Giants Ring que serviam para a cura, um indicativo
de magia natural, bem como a água da fonte, que cura a loucura. Não só conhece as
qualidades de Giants Ring, como as propriedades curativas e medicinais mágicas das
nascentes naturais de água quente, o que levou à consideração da magia de Merlim como
natural e, assim, não negativa. Os banhos naturais quentes tinham grande importância como
fonte de cura, aos quais uma parte da população medieval recorria. Também explica que
determinados fenómenos da natureza que produzem elementos curativos – como as pedras,
se tratem de criações de Deus, indo ao encontro do pensamento teológico e filosófico da

362
LAWRENCE-MATHERS 2020: 118-120.

87
época. Assim, Merlim é um profeta e um feiticeiro que pratica magia natural. Esta, por sua
vez, respeita os limites impostos por Deus relativamente ao conhecimento humano, pelo
que não se identifica com a magia negativa363. Existe ainda uma vertente pouco explorada
nas obras que é a de astrólogo. Merlim interpreta alguns portentos, menciona a queda do
zodíaco e, na Vita, pede que lhe construam uma casa com um observatório de modo a poder
ver as estrelas. Anne Lawrence-Mathers afirma que Merlim é e não é um astrólogo, pois
possui o conhecimento, mas não pratica astrologia. Mais que isso, os autores medievais não
tornaram Merlim num astrólogo, permanecendo distante da complexidade (e algum
negativismo) que envolvia estas figuras364.

Além de feiticeiro, é também profeta de bastante importância, sendo apelidado de


«profeta de Vortigern» e, mais tarde, «profeta da Britânia». Este seu dom foi, desde início,
afastado da hipótese de provir de alguma influência demoníaca – isto porque teve como pai
um demónio íncubo. Através da profecia, Merlim aproxima-se de Deus, surgindo como
modelo dos profetas bíblicos365, e funcionando como intermediário entre o divino e os
humanos. Numa sociedade cristianizada, trata-se de algo fundamental, elevando a sua
importância, tanto na obra, como na sociedade medieval. Este seu dom revela ser essencial
nas questões políticas e de carácter “nacionalista”, ao vaticinar o glorioso futuro da
Britânia. Mais que isso, é chamado de «Fatidici uatis rabiem»366 (bardo profético) por
Geoffrey of Monmouth na Vita367,isto, muito provavelmente, devido às raízes desta
personagem, que remontam a Myrddin, um bardo profeta galês. Na referida obra, Merlim e
Taliesin, também um bardo, conversam acerca da grandeza da Britânia num tom poético,
mencionando acontecimentos do passado e elementos do presente, o que relembra a figura
do bardo – essencialmente os poetas na sociedade celta368, mas também a do druida,
considerados o repositório da sabedoria comunal e das tradições do povo. Os druidas
seriam igualmente os mediadores entre os humanos e os deuses e isto é algo evidente na
figura de Merlim, ainda que no sentido cristão – intermediário de Deus369. Além disso, a

363
LAWRENCE-MATHERS 2020: 122-130.
364
LAWRENCE-MATHERS 2020: 114-116.
365
GOODRICH 2003: 3.
366
MONMOUTH 2011: 58.
367
MONMOUTH 2011: 58.
368
CUNLIFFE 2010: 68.
369
CUNLIFFE 2010: 3.

88
sua ligação à natureza e aos animais, bastante presente na Vita, que também relembra o
druida e o passado pagão.

É na Vita que conhecemos primeiramente a faceta de guerreiro de Merlim, ao ter


combatido, ao que tudo indica, na batalha de Arfderydd, que o levou à loucura e
consequente refúgio na floresta da Caledónia. Mas também encontramos esta presença em
batalha em Le Morte Darthur, de modo a auxiliar Artur a vencer, e na manutenção do seu
reinado.

Trata-se de uma figura bastante complexa, pois para cada pessoa representa valores
e ideais diferentes, tendo a imagem modificada no decorrer do tempo370. Ainda que as
primeiras obras onde surge sejam do mesmo autor – Geoffrey of Monmouth, são evidentes
as diferenças entre o Merlim da Historia e o da Vita, como já mencionámos. Uma das
hipóteses para a existência destes dois “Merlins” prende-se com a possibilidade de o autor
apenas ter conhecimento de determinadas lendas celtas no ano em que redigiu cada obra, o
que daria origem às divergências entre personagens que supostamente seriam uma só em
diferentes fases da vida371.

Natalia Petrovskaia considera que Merlim pode ser categorizado de forma dualista,
como um sábio – uma figura orientadora –, e como um tolo – um marginal –que se opõe às
definições convencionais de sabedoria, ou um louco – um homem selvagem. Esta
interpretação vai ao encontro de divergências que verificamos nas obras de Geoffrey of
Monmouth. Em cada uma delas, Merlim surge com características distintas, tendo apenas
dois elos de ligação – capacidade de profecia e a menção do episódio de Vortigern e da
torre. Parece que o autor utilizou tradições literárias diferentes, dando origem a dois
Merlim, o Merlinus Ambrosius e Merlinus Celidonius ou Silvester. Ambas as tradições
foram transmitidas na Idade Média. Geoffrey of Monmouth apresenta-nos, então, duas
figuras que caem numa dicotomia entre o sábio e o tolo/louco372. Ao chamar Merlim
Ambrosius, Geoffrey dá a indicação de que esta personagem se trata de uma combinação
entre o Ambrósio de Pseudo-Nennius, ou Ambrósio Aureliano, e o bardo Myrddin, da

370
RUNSTEDLER 2015: 41.
371
LOYD-MORGAN et POPPE 2019: 43.
372
NELSON-CAMPBELL et CHOLAKIAN 2017: 176-181.

89
tradição celta373. Apesar desta possibilidade, o facto de Ambrósio Aureliano ser
contemporâneo de Merlim torna esta questão mais complexa.

Sabemos que, já no século XII, Gerard of Wales distingue dois Merlim – Merlim
Ambrosius e Merlim Silvester, a partir da análise da obra de Geoffrey of Monmouth e de
informação que afirma ter adquirido na época – a descoberta de obras do segundo Merlim.
A designação “Caledonius” ou “Silvester” não se encontra presente nas obras de Geoffrey
of Monmouth, sendo-lhe atribuída originalmente por Gerald of Wales. Trata-se de uma
forma de distinguir os Merlim. Assim, “Silvester” refere-se a “da floresta” e “Caledonius” a
“da Escócia”374. Mais, existe um catálogo de biblioteca de meados do século XII que
também distingue dois Merlim, indicando conter num manuscrito as profecias de Merlim
Ambrosius e não do outro – Silvester375.

Ainda que Geoffrey of Monmouth previsse que o Merlim da Historia fosse o


mesmo da Vita, verificamos que se tratam de figuras diferentes. Não só as características,
como os locais a que se encontram ligados. O Merlim da Historia, galês, não tem conexões
com a Escócia, ao contrário do da Vita. Este último, apesar de se ter deslocalizado para a
Escócia, pertenceu à realeza de Dyfed, no Sul de Gales, pelo que tem também conexões ao
País de Gales. Além de escocês, Merlim Caledonius possuía semelhanças com Lailoken,
pelo que na Escócia seriam identificados como sendo a mesma pessoa. Ainda que não fosse
uma certeza, isto encontra-se presente em textos da época sobre Lailoken376. Se atentarmos,
mais uma vez, na questão da idade, para o Merlim da Vita ser o mesmo da Historia, teria de
ter três longas vidas: de jovem a idoso na época de Vortigern e Artur, novamente jovem
quando se dá a batalha de Arfderydd e idoso quando se torna num eremita na floresta da
Caledónia. Tendo em mente esta longevidade absurda de Merlim, os leitores das obras de
Geoffrey rapidamente concluíram que deveria existir dois Merlim e não um apenas. É
provável que a existência de discrepâncias nas datas de Geoffrey tenha originado a longa
idade de Merlim, bem como o possível conhecimento de fontes galesas no intervalo de
redacção entre as Prophetiae e a Vita, originando as diferenças que encontramos. Não

373
RUNSTEDLER 2015: 53.
374
CLARKSON 2016: 118.
375
JENSEN 1989: 47.
376
CLARKSON 2016: 116-118.

90
obstante, na época existia quem acreditasse na existência dos dois Merlim, algo que foi
solidificado por Gerald of Wales377.

Tim Clarkson analisa as origens do Merlim que surgiu no século XII, concluindo
que este profeta terá existido no século VI sob o nome de Llallogan. Llallawg ou Llallogan,
filho de britânicos pertencentes à aristocracia da época, e que prestou serviço militar no
exército real. Dada a sua lealdade ao rei e presença em batalhas, recebeu vários presentes
de grande valor. Por volta de 570, tendo cerca de 30 anos, adquiriu uma posição na corte
régia do rei Gwenddolau, que se considerava cristão, como a maioria da população. Três
anos depois, em 573, o reino foi invadido por inimigos, culminando na conhecida batalha
de Arfderydd. Os inimigos venceram, o rei Gwenddolau foi morto e Llallogan, dos poucos
sobreviventes, ficou traumatizado com a carnificina e fugiu para a Floresta de Calidon.
Nela viveu como eremita, alimentando-se do que a natureza fornecia. Os viajantes que se
cruzavam com ele achavam-no louco, um homem selvagem da floresta. A maioria das
vezes não entendiam do que falava, contudo, quando se notava alguns sinais de inteligência
parecia que proferia previsões repletas de desgraça sobre o futuro. Com isto, as pessoas
começaram a questionar se a sua loucura não teria despertado um poder profético, o que
originou o rumor que Llallogan seria um verdadeiro profeta. Meldred, que residia numa
fortaleza perto do rio Tweed, por curiosidade acerca deste dom chamou Llallogan à sua
presença. Este foi posteriormente libertado e ao tentar regressar à floresta foi morto por
homens locais378.

Histórias da batalha de Arfderydd e de Llallogan continuaram durante os séculos


seguintes. As semelhanças entre esta figura e o eremita ascético da tradição cristã também
propiciou a sua divulgação. Surgiram igualmente novas versões desta lenda, sendo que em
alguns textos do século XII, o homem selvagem passa a denominar-se Lailoken ou
Laloecen. No País de Gales é fundido com Myrddin, tornando-se no profeta político de
Gales que referiu uma grande vitória galesa. No século XII, Geoffrey of Monmouth
transformou Myrddin em Merlim, incorporando alguns dos seus elementos, bem como de
Ambrosius, presente no folclore galês. Apesar das semelhanças, para os Escoceses, Merlim
não teria substituído Lailoken, sobretudo devido à ligação com Artur. Ainda assim, a
377
GOODRICH 2003: 5-6.
378
CLARKSON 2016: 131-132.

91
população de Upper Tweedale começou uma tradição de que Merlim teria passado pelas
suas terras, tendo conhecido São Kentigern379. Na Escócia, Merlim não tem um grande
reconhecimento, comparativamente ao que sucede noutras regiões britânicas, e é
confundido com Lailoken, sendo a mesma personagem nalguns textos. Este é mais
semelhante com o Merlim da Vita Merlini, contudo, teria 30 anos quando a batalha de
Arfderydd sucedeu e na Vita seria um ancião, pelo que não poderiam ser exactamente a
mesma figura.

Relativamente aos diversos nomes que são atribuídos a Merlim ao longo da


literatura, o que possui uma origem mais complexa é precisamente Ambrose e Ambrósio.
Geoffrey of Monmouth, como afirma no começo da Historia, terá recorrido à obra de
Gildas e Pseudo-Nennius. Gildas menciona a existência de um líder militar romano que
combateu a favor da Britânia no século V de nome Ambrósio Aureliano. Contudo, não
encontramos nenhuma fonte histórica precedente que mencione esta figura. Sabemos que
em Pseudo-Nennius, Ambrósio Aureliano é substituído por Artur, introduzindo assim este
autor, nas Ilhas Britânicas, um herói celta de qualidades sobre-humanas380. Mas,
simultaneamente, surge Ambrose, um rapaz que possuía um dom semelhante ao de Merlim
– conhecedor do futuro381. A passagem onde surge descreve o seu encontro com Vortigern,
assemelhando-se quase na perfeição ao que encontramos em Geoffrey of Monmouth.

A possibilidade de Ambrósio Aureliano ser uma figura histórica do século V,


conforme retratado por Gildas, desvanece-se em Pseudo-Nennius, tornando-se numa
personagem lendária com o passar do tempo. Glòria Torres Asensio considera que a parte
histórica da personagem não é completamente removida, coexistindo, assim, com a parte
lendária382. Contudo, em Pseudo-Nennius temos dois Ambrósios: um romano líder militar
da Britânia, filho do rei dos Damnonoii, e um rapaz-profeta filho de um cônsul romano383.
Este autor cria, assim, um problema que Geoffrey of Monmouth resolve ao não incluir esta
duplicação de nomes – introduz Merlim como aquele que também é chamado de

379
CLARKSON 2016: 133-136.
380
VARANDAS 2013: 178-182.
381
NENNIUS 2006: 19-20.
382
TORRES 2018: 863.
383
NENNIUS 2006: 15-20.

92
Ambrósio384. Porquê Merlim? Sabemos que Geoffrey of Monmouth se inspirou em
Myrddin, um profeta oriundo das lendas galesas. E, segundo Stephen Knight, na ortografia
do galês médio está escrito Merdin, que, ao ser latinizado daria Merdinus. Para
entendedores de francês, o nome remeteria para excremento. Neste sentido, Geoffrey of
Monmouth alterou o nome para Merlinus385, criando uma nova personagem que seria a
fusão do rapaz da Historia Brittonum e do profeta Myrddin. Aliada à influência da obra de
Pseudo-Nennius e Gildas, temos alguns poemas gaélicos, cuja semelhança com a Vita – a
nível das personagens e narrativa, leva a crer que Geoffrey of Monmouth possuía alguma
familiaridade com eles386. Ainda que tenhamos acesso aos fragmentos de poemas galeses
que sobreviveram à passagem do tempo, bem como às obras de Beda, Gildas e Pseudo-
Nennius, não é possível traçar com exactidão a passagem do nome Ambrose/Ambrósio para
Merlim. Na tabela 1 podemos observar os diversos nomes associados a Merlim, presente
nas diversas obras utilizadas neste estudo.

Concluindo, Merlim não pode ser colocado numa categoria apenas – a de feiticeiro
ou profeta. Tal como o druida, possui diversos atributos, não só ao longo do período
medieval inglês, como em cada obra onde está presente. Assim, é associado a um tipo de
magia natural, que se distancia dos poderes demoníacos, a um dom bíblico – a profecia, a
batalhas – com a sua presença e participação, mas também a figuras pagãs, nomeadamente
o bardo e o druida, com quem tem semelhanças.

Contribuindo para os vários atributos que possui, encontramos diferenças nos vários
“Merlins” dos textos da época. Sobretudo, entre o Merlim da Historia e o da Vita que
deram origem à crença de que se tratavam de duas personagens distintas, algo acentuado
por Gerald of Wales, através da sua obra onde indica ter encontrado informações sobre um
segundo Merlim.

Os seus antepassados, contudo, não se limitam a Myrddin – da tradição galesa, e ao


profeta Ambrósio e a Ambrósio Aureliano – de Pseudo-Nennius. Tem também semelhanças
com Llallogan ou Lailoken, levando Tim Clarkson a concluir que Merlim possivelmente

384
JENSEN 1989: 46-47.
385
KNIGHT 1983: 42.
386
GUY 2020: 63.

93
existiu no século VI, como figura histórica sob esta denominação. Como tal, é
frequentemente confundido com Lailoken na Escócia.

Resta mencionar que esta complexidade não se resume apenas aos seus atributos e
possíveis origens, mas também ao nome que lhe é atribuído nas obras estudadas. De
Ambrose ou Ambrósio passa a chamar-se Merlim, uma mudança que talvez esteja
relacionada com a latinização do nome Myrddin. Não obstante, trata-se de um tópico
bastante complicado, pelo que permanece uma questão em aberto. Vários estudiosos
tentaram até agora adquirir uma resposta, analisando a evolução do nome e criando várias
hipóteses, contudo, sem conseguirem obter uma resposta consensual.

Estudámos Merlim e o seu impacto histórico e literário na Britânia dos séculos XII a
XV. Existem ainda muitas questões que podem ser resolvidas sobre a temática da
metamorfose no século XII e XV, a saber, como esta teria sido realizada – com a ajuda de
uma poção ou mesinha ou somente através dos poderes mágicos, sobre determinados
espaços que são associados a Merlim e dos vários nomes a que esta figura se encontra
associada, nomeadamente Ambrósio. Assim, possuímos uma visão geral do que seria
Merlim nas mais variadas épocas, associado aos mais variados temas e às suas facetas.

94
Conclusão

Quando falamos no ciclo arturiano ou Matéria da Bretanha, referimo-nos a uma


tradição literária que se extrapola além da Idade Média, não se circunscrevendo à região da
actual Grã-Bretanha. Nesta Matéria, a história mistura-se com o maravilhoso. Artur tem
sido a personagem que tem recebido mais atenção, havendo um número elevado de obras
cujo olhar se centra nela. O nosso estudo, contudo, foca-se noutra personagem masculina,
igualmente famosa: Merlim. Uma figura ambígua e complexa, percepcionada de forma
distinta entre a população, historiadores e a literatura do período de estudo, que possui os
mais diversos atributos e cuja importância ultrapassa os textos, marcando presença na
iconografia e no espaço britânico. Ele é feiticeiro, profeta, bardo, druida, guerreiro,
intermediário de Deus, príncipe, eremita, homem selvagem, conselheiro e amante. De modo
a compreender a sua ambiguidade, diversidade e como era percepcionado na época,
voltamos à questão principal deste trabalho: quem é Merlim?

Merlim é alvo de estudo por parte de investigadores, escritores, tendo igualmente


conquistado a atenção das pessoas – seja na Idade Média, seja na contemporaneidade. Ao
longo do nosso período de estudo acompanha a passagem do tempo e o contexto vivido em
cada época onde é mencionado, assumindo assim características distintas. Esta é uma figura
que possui semelhanças com o druida do mundo celta – a sabedoria, o conhecimento do
futuro e a ligação aos reis. Merlim, como foi referido no capítulo anterior, encontra-se
igualmente ligado à figura do demónio – que sofreu uma evolução negativa na Idade
Média, tal como a prática da magia. Sem a análise e compreensão de como esta evolução
sucedeu – alterando consequentemente a mentalidade da época, não nos seria possível
entender como é que Merlim passa a tornar-se fonte de algum receio e perigo em Malory.

A profecia e a importância que esta possuía no período medieval, juntamente com


as funções atribuídas a Merlim, elevaram a relevância que esta figura adquiriu, colocando
em segundo plano a ligação com um íncubo. Com efeito, as Prophetiae Merlini tornaram-
se num best seller na Idade Média, permaneceram alvo de análise e reinterpretação nos
séculos seguintes. Assim, compreendemos como Merlim se tornou no grande profeta da

95
Britânia, uma figura que veio alterar a percepção da história inglesa, dando-lhe um brilho
que outrora não possuía.

Actualmente, quando pensamos em Merlim visualizamos um ancião de barbas


brancas, de poderes imensuráveis, que aparece em diversos lugares – desde a literatura ao
cinema, marcando igualmente presença em zonas turísticas inglesas relacionadas com o
ciclo arturiano. Contudo, como vimos, Geoffrey of Monmouth apresenta um jovem
Merlim. Contudo, no mesmo século é-nos apresentado um Merlim com traços distintos
deste. A história do Merlim do século XII circulou bastante durante a Idade Média,
originando o começo da publicação de obras sobre o ciclo arturiano e sobre esta figura
noutros países, como a actual França. Nos séculos posteriores, Merlim continua a marcar
presença em obras de indivíduos de alto estatuto e favorecidos pelos monarcas do seu
tempo, como Gervase of Tilbury. Com efeito, trata-se de uma personagem relevante nas
diversas esferas da sociedade da época, estando associada a um conjunto de temas
diversificado: magia, profecia, bardos e druidas e a batalhas.

Em todas as obras – salvo talvez na Otia Imperialia, verificamos que existe um


propósito por detrás das maravilhas de Merlim, que consiste em atribuir um passado
glorioso à Britânia, ao mesmo tempo que se ilumina o futuro que virá com a anunciação de
um rei que assume características lendárias. Assim, através das profecias, Merlim assume
primariamente funções de carácter político e “nacionalista”. Tal também é evidente na sua
relação com figuras régias – históricas ou não, e nos papeis que assume ao lado destas –
fundamental para o seu sucesso. Não obstante, a importância e influência de Merlim não se
revela apenas ao nível político, mas também socialmente, culturalmente e na esfera
religiosa. O homem e a mulher medievais acreditavam na existência de Merlim e na
veracidade das suas profecias e magia, tanto que encontramos esta figura presente em obras
de época de natureza histórica. Sobretudo, é uma personagem que se mostra activa na
criação da história britânica e nas lendas arturianas, o que lhe conferia um relevo maior no
período. A crença nos poderes de Merlim também estaria relacionada com a maneira como
a população da época percepcionava os vários elementos que compunham o denominado
imaginário. Para a mentalidade medieval, seres fantásticos como anjos e demónios387,

387
WATKINS 2007: 3.

96
gigantes, lobisomens e sereias388, poderiam existir, podendo ter contacto com eles no
quotidiano389.

A nível religioso, constatamos algo curioso. Merlim ainda possui ligações com o
passado pagão, não só através de figuras da literatura celta em quem Geoffrey of
Monmouth se terá inspirado, mas também das suas próprias características. Estas
assemelham-no ao druida, pela sabedoria que detém, pela capacidade de antever o futuro e
pela ligação ao rei, como mencionado, e ao bardo, no que respeita o Merlim da Vita – a
ligação à natureza, não só pelo refúgio na floresta, mas também a sua proximidade com os
animais e com os recursos naturais, e à poesia – o cantar dos feitos britânicos. Ainda assim,
não há uma acentuação destas particularidades que o redireccionam ao paganismo. Isto por
duas razões: a primeira, porque a transição para o cristianismo não anulou nem aniquilou a
plenitude de elementos que compunham aquela que seria a antiga religião das Ilhas
Britânicas – adoptando e transformando, e a segunda porque Geoffrey of Monmouth tornou
Merlim numa personagem cristã, evidente ao longo das narrativas. O maior contraste, no
entanto, é demonstrado no momento em que desafia os magos de Vortigern, demonstrando
que a escassez de conhecimento divino os levava a realizar práticas atrozes que apenas
pagãos praticariam.

Além disso, as próprias profecias adquirem um carácter bíblico, tornando Merlim


numa espécie de portador das mensagens de Deus para a população– neste caso, inglesa. O
dom da profecia que observamos na Historia teria sido inspirado nos profetas do Antigo
Testamento, permitindo-lhe transmitir a mensagem e as palavras de Deus. Apesar de o
Merlim da Vita também ser um profeta, ainda que este papel não seja tão evidente, possui
ainda conhecimento astrológico. A primeira contradição evidente é que, de facto, Merlim
não precisa de recorrer às estrelas para saber o que irá acontecer. Isto porque é referido na
Vita que teria realizado profecias para Vortigern. Ainda assim, pede uma casa com um
observatório. Em ambos os casos não nos é explicitada a origem destes dons. Na Historia,
poderiam advir da figura paterna, por se tratar de um ser sobrenatural. Ao mesmo tempo,
estes dons assemelham-se às qualidades dos profetas bíblicos, retirando de Merlim a
possível herança demoníaca. Na Vita, o seu talento de determinar o que irá acontecer no
388
LE GOFF 2017: 27-28.
389
LE GOFF 2017: 23.

97
futuro, como o casamento da sua esposa, estaria ligado à loucura que adquiriu após a
batalha. Em ambas as situações, os talentos não parecem relacionados com a magia390.
Merlim é, assim, a mistura de dois mundos distintos, mas que se encontram entrelaçados: o
pagão e o cristão.

A evolução da sua presença e características nas obras reflecte os períodos


históricos e a mentalidade da época, sobretudo no que concerne a magia e os demónios.
Como vimos, num primeiro momento, a magia seria praticada por um conjunto diverso de
pessoas, incluindo membros do clero, para os mais variados fins (benéficos). Porém, com o
avançar dos séculos, começou a surgir uma certa desconfiança em determinados tipos de
praticantes de magia, o que culminou na proibição do uso de magia e na perseguição dos
que a realizavam, sendo estes considerados hereges e seguidores de deuses pagãos e do
Diabo. Contudo, conforme existia magia má e perigosa, também havia uma magia natural,
que, na época, estaria próxima das dádivas e criações de Deus. Como Merlim fazia uso da
magia para resolver problemas e auxiliar pessoas nas narrativas – sobretudo monarcas
importantes, o tipo de magia que praticava foi caracterizado de natural. Tal como a
profecia, foi remetida para a esfera divina perdendo as possíveis propriedades negativas que
lhe poderiam ser atribuídas. Ainda assim, não deixou de ser uma personagem ambígua, algo
que se acentuou com os séculos. Como tal, apesar do esforço de Geoffrey of Monmouth e
Thomas Malory de criarem um Merlim que se afasta da esfera demoníaca, ele tende a ser
considerado uma figura próxima do Diabo – no século XIII é equiparado ao Anticristo e, no
século XV, começa a ser trazida à tona a natureza do seu pai, o que origina receio e
desconfiança relativamente à sua figura. É precisamente neste mesmo período que o Diabo
atinge o apogeu do seu poder, ocupando o lugar de Senhor dos Infernos, e que são
desencadeadas vastas perseguições àqueles que praticavam heresias, o que contrasta com os
séculos XI e XII, época em que tanto demónios, como o Diabo não causavam temor às
pessoas, sendo alvo de escárnio.

Apenas com base nas mutabilidades que Merlim sofre ao longo dos séculos XII a
XV, devido ao contexto político e religioso, e na maneira como o era percepcionado de
acordo com a mentalidade da época, sobretudo no que respeita à magia e aos demónios,

390
CLASSEN 2017: 378-379.

98
poderíamos afirmar que não existia apenas um Merlim. Existiram, assim, vários que
acompanhavam as necessidades de cada época e/ou pessoa. Contudo, o presente trabalho
não se focou somente na maneira como o meio envolvente tratou e modificou esta
personagem. O Merlim tradicional não é o Silvestre, proveniente das histórias galesas, um
imaginário que se perdeu e não faz parte da nossa tradição. Este ficou ofuscado pela
popularidade de Monmouth, que reiniciou outro costume que os franceses aderiram. O
mesmo sucedeu com Artur – o guerreiro à maneira celta foi ofuscado pelo Rei de Camelot e
seus cavaleiros da Távola Redonda, que partiam em aventuras maravilhosas. Isto remete
para o último aspecto a destacar: os vários Merlim e respectivas diferenças.

Atentando aos textos galeses, salientam-se dois profetas – o bardo Myrddin e


Lailoken. Ambos combateram numa batalha – muito possivelmente a de Arfderydd, cuja
chacina os levou à loucura e posterior refúgio na floresta. Segundo um conjunto variado de
académicos, Myrddin teria sido transformado em Merlim, através da latinização do nome,
porém, no País de Gales é fundido com Lailoken, sendo um só. Quanto a Lailoken,
acredita-se que terá existido no século VI, sendo que para os Escoceses não teria sido
substituído pela chegada de Merlim. Além destes, distinguimos mais dois Merlim – Merlim
Ambrosius e Merlim Silvester ou Caledonius. Este último possui semelhanças com as
narrativas de Myrddin e Lailoken – a fuga de uma batalha e subsequente refúgio na floresta
da Caledónia, onde viveu como louco e homem selvagem. É quem se distancia mais do
Merlim da Historia e de Le Morte Darthur, não só pela sua história, como pela idade e
família. Além de guerreiro, bardo, eremita e homem selvagem, é também um príncipe, pois
na Vita é considerado o rei dos demetae. Tem uma irmã chamada Ganieda – casada com o
rei Rhydderch, uma esposa chamada Guendolena e é contemporâneo de Taliesin. Além
disso, possui uma idade avançada e a narrativa ocorre após Artur ter sido levado para
Avalon. Quanto ao Merlim Ambrosius, o jovem-profeta de Vortigern, viveu no tempo de
Ambrósio Aureliano e de Uther Pendragon, sendo que, da sua família, apenas se sabe ser
filho de uma freira, filha de um rei, e de um demónio íncubo – forças opostas que se
anulam. Este é o grande arquitecto de Stonehenge (Giants Ring), que movimentou as
pedras da Irlanda para Salisbury, o grande sábio que desvendou o mistério da queda da
torre de Vortigern, o feiticeiro que possibilitou a união de Uther com Igraine, para que
nascesse o futuro famoso rei Artur – que iria corroborar as pretensões dos Normandos ao

99
território inglês – e o profeta que transmite as mensagens divinas. A supremacia normanda
encontra-se, assim, inscrita num plano de predestinação – e que Merlim já tinha
conhecimento –, uma legitimação feita por Monmouth. A mesma obra onde surge pela
primeira vez relata episódios da vida de Artur, como batalhas, porém Merlim não é
mencionado a seu lado. Com base nestas diferenças e na procura de novas informações,
Gerald of Wales assevera que, de facto, existiram dois “Merlins” distintos, aquele que
profetizou para Vortigern – Merlim Ambrosius, e o que profetizou na floresta da Caledónia
– Silvester. Além deste escolástico, também Ranulph Hidgen aceita a existência de ambos,
pelo que existe uma grande probabilidade que quem tivesse acesso a estas informações
também acreditasse nos dois Merlim. A nível geográfico também existem diferenças, pois o
Merlim da Historia não possui conexões com a Escócia, sendo galês, enquanto o Merlim
Silvester é considerado escocês (através da ligação com a floresta da Caledónia).

Quanto ao Merlim de Malory, este é o grande conselheiro do rei Artur, criador da


Távola Redonda, amante de Nenive, uma das damas do lago. Em Malory Merlim surge
junto de Artur, algo que não sucedeu nas obras precedentes. Verificamos que a sua posição
no enredo é ligeiramente alterada no século XV, obtendo novas funções, estando em
sintonia com o género literário do romance e com a influência que as obras francesas
tiveram em Malory. Em particular, conforme Artur sofre pelo amor de Guenevire, também
Merlim é a vítima consciente da sua paixão por Nenive, pois ele sabe o que lhe irá
acontecer e nada faz para alterar esse fim. Apesar de continuar um feiticeiro e profeta, é
alvo de desconfiança e descrédito por parte de algumas personagens – nomeadamente de
Lot. E, ainda que Malory não mencione qual a natureza do pai de Merlim, este tópico é
recuperado por algumas personagens, sublinhando a possível influência demoníaca no seu
conhecimento, tornando-o alvo de suspeita, medo e um tanto perigoso. Isto evidencia o
impacto da religião cristã e da Igreja nos séculos XIV-XV, que causou uma profunda
alteração na mentalidade e nos comportamentos, no que respeita à questão da magia e de
seres negativos, como o Diabo e os demónios. Este Merlim tem também um “fim”, um
aprisionamento que não significa a sua morte, mas que se trata de algo que não sucede com
os restantes.

100
Como supracitado, estes “Merlins” possuem idades distintas. Dado que não existem
indicativos de que Merlim seja imortal – uma possibilidade apenas em Malory com o seu
aprisionamento, pois não nos é dito que será o local da sua sepultura –, seria bastante
improvável que Merlim sobrevivesse durante cerca de 100 anos. Ao cruzarmos as datas a
que temos acesso, verificamos que Merlim como um só teria entre 109 a 124 anos quando
se deu a batalha de Arfderydd e cerca de 151 anos quando menciona a morte de
Constantine na Vita. Também nos é dito que Lailoken teria cerca de 30 anos quando se deu
a referida batalha, pelo que não poderia ser o Merlim da Vita, que já se encontraria numa
idade mais avançada. Na iconografia de origem inglesa, também observamos as diferentes
fases de vida. Tanto no MS Cotton Claudius b vii, como no MS Egerton 3028 encontramos
um Merlim jovem, conforme nos é descrito por Geoffrey of Monmouth na Historia,
estando representado junto de Vortigen – a ler as suas profecias e junto da sua mãe, de
Uther e a edificar Stonehenge. Já no BL Royal 20 A II – também do século XIV, temos um
Merlim mais adulto, parecendo surgir de idade semelhante à de Uther, com quem se
encontra a conversar.

Merlim não só está presente na iconografia da época, como também está associado à
geografia britânica, a saber, ao País de Gales, à Escócia e Inglaterra. Os locais que se
destacam são Carmarthen, Dinas Emrys, Stonehenge (Giants Ring), a floresta da Caledónia
e Drumelzier – onde consta que se encontra o seu túmulo. É devido aos textos que
compõem o ciclo arturiano, que colocam um conjunto de acontecimentos a decorrer nestes
locais, que ainda hoje eles permanecem como lugares importantes, como podemos observar
no site VisitBritain, sobretudo, porque remetem para eventos do mundo arturiano e, neste
caso, para a presença de Merlim. No período medieval, especificamente entre os séculos
XII a XV, tanto a população, como escolásticos e escritores acreditavam que Merlim teria
estado presente nestes locais, tendo realizado neles alguns feitos, como Stonehenge, as
profecias na Caledónia e a resolução do mistério da torre de Vortigern. Carmarthen marca o
início da sua existência, local onde foi descoberto pelos homens de Vortigern, enquanto
Drumelzier marca o seu fim, pois acreditam que se trata do local onde está sepultado.

Relativamente aos nomes atribuídos a Merlim, pudemos observar que estes diferem
entre si (tabela 1). Desde Ambrósio a Merlim, temos um entrelaçar de linhas que passam

101
pelos diversos autores que deram corpo ao ciclo arturiano – e não apenas à figura de
Merlim. Tendo em consideração as obras basilares na criação desta personagem, destacam-
se nomes como “Ambrose”, “Ambrósio”, Myrddin, Lailoken e Merlim – que se dividirá em
Merlim Ambrósio e Merlim Silvester. Tanto Myrddin como Lailoken são duas personagens
da literatura galesa, que poderão ter influenciado Geoffrey of Monmouth na génese do
Merlim da Vita. Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de terem existido numa época
anterior à de Merlim. A maior dificuldade está, então, nos “Ambrósios” de Pseudo-
Nennius, que nos dão conta da existência de um líder militar da Britânia, metade romano
denominado Ambrósio e de um rapaz-profeta com o mesmo nome. Muito provavelmente o
primeiro Ambrósio refere-se ao Ambrósio Aureliano de Gildas, Pseudo-Nennius e Beda,
tornando-se Aureliano Ambrósio na Historia de Geoffrey of Monmouth. Este permanece
com um alto estatuto, irmão de Uther Pendragon, contemporâneo de Merlim e
posteriormente rei da Britânia. O segundo, ter-se-ia tornado no Merlim da Historia pelos
atributos e semelhanças que possui, e que indica ser igualmente chamado de Ambrósio,
mais tarde distinguido como Merlim Ambrósio por Gerald of Wales. Não obstante, apesar
da diversidade de estudos existentes que colocam o foco nesta questão, este continua a ser
um tema bastante complexo e, de certa forma, obscuro. Sobretudo porque é particularmente
dificil traçar com exactidão o percurso que deu origem à ligação entre o nome “Ambrósio”
e o nome “Merlim”.

De facto, não existem evidências suficientes que nos permitam asseverar que
Merlim terá existido como uma figura histórica, como é afirmado para Ambrósio
Aureliano. Os estudos – nomeadamente o trabalho de Tim Clarkson, consideram que existe
uma maior probabilidade de figuras como Lailoken ou Myrddin terem existido, ainda que
podendo ter possuído nomes distintos (variantes do mesmo), tendo enlouquecido após a
participação na batalha de Arfderydd. Quanto aos restantes, como Merlim e Artur,
permanece a incerteza se teriam existido ou não, sobretudo tendo em conta a complexidade
que envolve esta questão. Além disso, existem bastantes manuscritos incompletos, outros
que não sobreviveram à passagem do tempo ou encontram-se perdidos, havendo ainda a
possibilidade de terem existido obras sobre o ciclo arturiano que nunca conhecemos até à
data. Esta questão torna-se ainda mais complexa se tivermos em consideração a transmissão
oral do conhecimento, usada antes da escrita das narrativas históricas, populares, entre

102
outras, por eclesiásticos. Se existiram ou não, a verdade é que nos séculos XII a XV as
pessoas poderiam acreditar que teriam sido figuras reais, com poderes igualmente genuínos,
algo que se encontra solidificado nas obras de escolásticos como Gerald of Wales.

103
Bibliografia
Fontes
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110
Anexos

Figura 1 - Cronologia dos acontecimentos relatados na Historia Regum Britanniae segundo Geoffrey of
Monmouth. Fonte: ASHLEY, Mike 2005. The Mammoth Book of King Arthur, New York: Carroll & Graf
Publishers, p. 279.

Figura 2 - Merlim e Vortigern, em Profecias de Merlin de Geoffrey of Monmouth, com


comentários, Inglaterra, c. 1250. Fonte: BL Cotton MS Claudius B VII, f.224r,
[Link]
html - consultado a 23 de Fevereiro de 2021.
111
Figura 1 – Jovem Merlim e a sua mãe diante de Vortigern. Inglaterra, século XIV. Fonte: MS
Egerton 3028 f. 24,
[Link]
– consultado a 3 de Agosto de 2021.

Figura 4 – Jovem Merlim a aconselhar Vortigern. Inglaterra, século XIV. Fonte: MS Egerton
3028 f. 29,
[Link] –
consultado a 3 de Agosto de 2021.

112
Figura 5 – Jovem Merlim a confortar Uther Pendragon. Inglaterra, século XIV. Fonte: MS Egerton
3028 f. 33,
[Link] –
consultado a 3 de Agosto de 2021.

Figura 6 – A construção de Stonehenge por Merlim. Inglaterra, século XIV. Fonte: MS Egerton 3028 f.
30, [Link] –
consultado a 17 de Fevereiro de 2021.

113
Figura 7 – Os dragões vermelho e branco e Vortigern e a torre que não se mantinha de pé. Inglaterra, século XIV.
Fonte: MS Egerton 3028 f. 25,
[Link] – consultado a 3 de
Agosto de 2021.

Figura 8 - Miniatura de 'Uter roy' (Uther Pendragon) em conversação com Merlim, Inglaterra, c.
1307 - c. 1327. Fonte: BL Royal 20 A II, f. 3v,
[Link] –
consultado a 6 de Novembro de 2020. 114
Mapa 1 - A Britânia de Myrddin. Fonte: KNIGHT, Stephen. 2018. Merlin:
Knowledge and Power through the Ages. Cornell: Cornell University Press.

115
Tabela 1 - Quadro explicativo dos diversos nomes mencionados

Nome Características Ano dos Autor e obra


(personagem) /Atributos acontecimentos
narrados
Líder militar romano, de origem nobre, Gildas, De Excidio et
Ambrósio
que combateu a favor da Britânia Conquestu Britanniae
Aureliano Século V
contra os invasores391
Beda, Historia ecclesiastica
gentis Anglorum
Geoffrey of Monmouth,
Aureliano Irmão de Uther Pendragon
Século V Historia Regum Britanniae
Ambrósio Filho de Constantino II
(c. 1136)
Líder militar da Britânia, filho do rei Nennius, Historia Brittonum
Ambrósio Século V
dos Damnonii e metade romano392 (c. 828)
Rapaz-profeta, filho de um cônsul
Século V Nennius, Historia Brittonum
Ambrose romano393
(c. 858)
Rei da Britânia
Rapaz-profeta
Feiticeiro – poder da metamorfose
Merlim ou Século V Geoffrey of Monmouth,
Moveu o Giants Ring
Ambrósio Historia Regum Britanniae
Conselheiro de Vortigern, Ambrósio
Aureliano e Uther Pendragon
c. 573
Merlin Homem Silvestre, «wild man»
(Annales Geoffrey of Monmouth, Vita
Caledonius394 Líder de Guerra
Cambriae) a c. Merlini (c. 1150)
(Merlim) Príncipe; Profeta; Poeta; Eremita
600395
Profeta do tempo do rei Vortigern
Merlim
Filho de um íncubo
Ambrosius
Descoberto em Carmarthen
Gerald of Wales, Itinerarium
Enlouqueceu e fugiu para a Floresta
Indeterminado Cambriae (1ª edição
Merlim após ver um monstro
1190396)
Caledonius Profetizou na Floresta da Caledónia
e/ou Silvester Homem selvagem
Viveu no tempo de Artur
Lailoken Jocelyn of Furness, The Life
Profeta, louco e homem selvagem Século VI
(Laleocen397) of Kentigern (século XII)

391
GILDAS 1999: 13.
392
NENNIUS 2006: 15.
393
NENNIUS 2006: 20.
394
Optou-se por esta designação devido à vivência e preferência deste Merlim pela Floresta da Caledónia e
pela designação atribuída por Gerald of Wales.
395
PUTTER, Ad, “Gerald of Wales and the Prophet Merlin” in C. Lewis (Ed.), Anglo-Norman Studies 31:
Proceedings of the Battle Conference 2008, Boydell & Brewer, 2009, p. 92
396
PUTTER, Ad, p. 90.

116
Filho de um íncubo; comparado ao
Anticristo
Profeta da Britânia Gervase of Tilbury, Otia
Merlim Ligação a Stonehenge, The Giants Ring Indeterminado Imperialia (início do século
Viveu no tempo de Vortigern XIII)
(profetizou para ele)
Poder da metamorfose
Profeta Black Book of Carmarthen
Myrddin Indeterminado
Poeta (meados do século XIII)
Auxiliar de Uther Pendragon
Conselheiro e assistente de Artur
Profeta e usuário de artes mágicas Thomas Malory, Le Morte
Merlim Indeterminado
Criador da Távola Redonda Darthur (1485?)
Amante de Nenive (uma das Damas do
Lago)

397
Jocelyn of Furness. “Chapter xlv – Concerning the prophecy of a certain man: and the burial of the Saints
in Glasgow”, The Life of Kentigern (Mungo), 1998, [Link]
[Link]

117

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