40- A Pessoa que retorna
Tudo ficou em silêncio. A-Nueng ainda estava com os braços em volta do meu pescoço porque não
sabia como reagir para parecer o menos suspeita possível.
Se ela imediatamente tirasse os braços de cima de mim, pareceria suspeita.
Mas não tirar os braços de mim era ainda mais suspeita.
O que eu podia fazer para nos tornar menos suspeitas além de olhar para Chet com uma cara séria, para
dizer que o que eu e
A-Nueng estávamos fazendo era normal?
- Você é tão descuidado. A que distância você estava... E você, por que está agarrada em mim como um
macaquinho? -Eu lentamente tirei os braços de A-Nueng de mim e coloquei as mãos nos bolsos da
calça, agindo como se tudo estivesse normal. - Vá ajudar seu pai a procurar a carteira dele.
- Sim.
A-Nueng saiu com a cabeça baixa para fazer o papel de alguém que tinha acabado de ser repreendido.
Chet observou A-Neung se afastar e depois caminhou em minha direção. Ele permaneceu em silêncio.
Isso me deixou nervosa.
Ela estava suspeita?
Achei que tinha lidado bem com isso...
- A-Nueng vai passar a noite aqui?
- É tarde. Não quero que ela dirija sozinha para casa. Ela ainda não é uma boa motorista.
- Tudo bem. - Chet ficou parado. Ele não entrou para pegar a carteira como pretendia. Mas sua filha
finalmente apareceu com a carteira que ela voltou para procurar.
- Onde estava?
- Na mesa da sala de jantar.
- Você quer ir pra casa? Eu te levo.
- Não.
A-Nueng respondeu quase imediatamente, sem sequer pensar nisso. Chet assentiu e sorriu para nós.
- Eu voltarei então. Não durma muito tarde.
O homem da minha idade sorriu e foi embora silenciosamente. Era como se estivéssemos apostando em
um jogo de pôquer. Eu não tinha ideia se o silêncio dele significava suspeita ou não. No entanto, Chet
continuou a conversar com A-Nueng da mesma forma que antes.
- Você acha que meu pai nos viu?
- Estou tentando descobrir isso. O que você acha?
- Provavelmente não. Ele falou comigo da mesma maneira de sempre.
- Temos que parar de ser tão descuidadas.
- O que é isso? Essa é nossa casa. Por que tenho que me preocupar com as pessoas sabendo sobre
nós? Se eu não ficar com você, onde está a diversão? Minha qualidade vem das minhas habilidades de
sedução.
Olhei para a garota, que estava preocupada, mas ainda brincando, e ri alto.
- Você ainda consegue ser safada em um momento como esse?
- Estávamos tendo nosso momento. Devemos continuar? Quase te impressionei a ponto de te levar pra
cama.
Empurrei seu rosto com força e balancei a cabeça quando ouvi isso.
- Como você pode ser tão safada?
- Mas eu também sou linda... Meu pai se foi. Vamos continuar flertando.
A-Nueng agarrou meu ombro por trás e pulou como um coelho. Acenei minha mão de brincadeira,
irritada por ela não estar nem um pouco incomodada. Eu só queria que ela mantivesse a compostura de
vez em quando. Mas mesmo que eu ainda conseguisse rir, não conseguia parar de pensar em quando
Chet olhava pra nós.
Eu estava pensando demais.
A vida continuou normalmente. Chet não demonstrou suspeitas. Mas A-Nueng e eu tomamos mais
cuidado desde aquele dia. Proibi a garota de me beijar em público, mesmo no meu palácio.
Sim... O quarto não contava.
Ah... O banheiro também não.
Mas em todos os outros lugares era proibido. A-Nueng obedeceu de boa vontade. Como eu disse, tudo
correu normalmente. Até que um dia, enquanto
A-Nueng e eu discutíamos sobre política porque queria testar a filha da minha amiga para ver se os
jovens de hoje em dia estavam prestando atenção ao que estava acontecendo em nosso país, ouvi de
longe uma voz familiar.
-Do que vocês duas estão conversando? Parecem muito estressadas.
Era uma voz alta e fina, semelhante à de
A-Nueng. Eu soube imediatamente quem era, sem ter que me virar para olhar.
A aparição repentina de Piengfah surpreendeu A-Nueng e a mim, em vez de nos deixar felizes.
- Como você chegou aqui?
- O que é isso? Surpresa! Você não pode parecer feliz? - A mãe da garota sorriu para A-Nueng e abriu
os braços com expectativa. - Por que você está sentado aí? Corra para meus braços.
A-Nueng não conhecia sua mãe. Ela olhou para mim um pouco antes de se aproximar, cumprindo a
ordem de Piengah, e a abraçou sem jeito. Já minha amiga, que queria muito fazer o papel de mãe,
abraçou a filha com força e a beijou melancolicamente nas duas bochechas.
- Você parece uma mulher adulta sem óculos. Fiquei fora apenas três meses. Como você pôde ter
mudado tanto?
- Piengfah virou A-Nueng para examiná-la. - Você é linda, assim como eu.
- Como você chegou aqui, mãe?
- Peguei um avião
- Eu sei... - A-Nueng coçou a cabeça.
- Quero dizer, você acabou de ir embora. Por que você voltou tão cedo?
- Senti a sua falta. Não posso ver você? Deixa eu te abraçar de novo - Piengfah atraiu a garota enquanto
ela me olhava.
- Também senti sua falta Khun Nueng. Mas deixe-me cumprimentar minha filha primeiro.
- Sem pressa. Passe todo o tempo que quiser com sua filha.
- Ah... Não acredito. A-Nueng parece muito mais bonita agora que é uma estudante universitária. Aposto
que muita gente flerta com ela. - Piengfah se virou para olhar pra mim. - Você tem cuidado bem da minha
filha?
- Eu faço o que eu posso. Você mesma pode perguntar a ela. - Coloquei as mãos no bolso da calça e
olhei para Piengfah com desconfiança. Minha velha amiga se afastou de A-Nueng, acariciou seu rosto e
beijou sua testa.
- Você já tem um namorado, filha?
- Não.
- Isso é incomum. Alguém tão bonita quanto você deveria namorar. No mínimo, deve haver alguém
flertando com você.
- Existe - A-Nueng tentou não sorrir, enquanto Piengfah deu-lhe um sorriso doce.
- Muitos?
- Bastante
- E você não gosta de nenhum deles... Mas eu entendo bem - Piengfah se virou para mim. - Quando
você tem alguém como a tia Nueng com você, ninguém parece bom o suficiente. Ela coloca o patamar
muito alto. Todo mundo é indigno comparado a ela.
- Claro. Eu sou uma edição limitada.
- Mas vou te contar uma coisa. Você tem que estar com alguém do mesmo status. O mais importante...
- Deve ser um homem.
Piengfah olhou para mim ao dizer isso, mas depois se virou e sorriu para a filha.
- Vou dormir com você esta noite. Vamos voltar para a casa da sua avó.
- Mas...
- Vá dormir com sua mãe - A-Nueng, que estava prestes a protestar, fechou a boca quando eu a
interrompi. Piengfah sorriu de rosto colado.
- Obrigado, Khun Nueng. Ela tem que parar de se apegar à tia Nueng. Ele já é mais velha.
E Piengfah continuou conversando com a filha, e eu apenas como uma observadora silenciosa.
Eu estava cozinhando na cozinha. Eu estava experimentando um novo cardápio: macarrão de farinha de
arroz fermentado com caranguejo. A retirada da carne do caranguejo da casca demorou muito, assim
como o preparo do molho. No entanto, eu não conseguia me concentrar em cozinhar. Eu senti que
Piengfah era uma bomba relógio e estava esperando para ver quando ela explodiria.
- Khun Nueng.
Aí estava...
Eu ainda estava de costas para ela. Tentei me concentrar em cozinhar. Não tive vontade de falar com
ela. Ela se aproximou silenciosamente. Eu respondi com indiferença.
- Você já vai para casa?
- Sim.
- Você não vai ficar para jantar?
- Pretendo ir almoçar com minha mãe. Mas eu queria falar com você antes de ir.
- O que está acontecendo? - Me virei para olhar pra ela e levantei uma sobrancelha. Embora meu
coração estivesse batendo forte, mantive meu rosto sério.
- Eu ouvi algumas histórias estranhas de Chet.
- Sobre?
- Algum tipo de relacionamento entre você e A-Nueng... - Piengfah cruzou os braços sobre o peito e
olhou pra mim. A frase
- Algum tipo de relacionamento - Foi deixada para que eu preenchesse a lacuna.
Se eu me sentisse culpada, o que era verdade, ela imediatamente saberia a que se referia. Mas tive que
fingir que não sabia...
- Como assim?
- Você e A-Nueng estão em uma relação?
- Não me diga que você veio até aqui pra isso.
Tudo ficou em silêncio. Eu tive que fazer o que ela tinha dito parecer o mais ridículo possível.
- Na verdade, também sinto falta da Tailândia e da minha filha. Então, quando isso surgiu, fiquei
motivada a voltar.
Tirei o avental e me apoiei no balcão enquanto entrava em uma disputa de olhares com Piengfah.
- O que você quer que eu te diga?
- Qualquer coisa. Eu só quero saber.
- Ah... - fiquei em silêncio por um momento antes de responder. - Eu queria ver sua reação quando te
contasse. Tudo bem.
- Eu estou em um relacionamento com
A-Nueng.