0% acharam este documento útil (0 voto)
5 visualizações127 páginas

Grupos de Simetria em Álgebra 2

O documento aborda conceitos fundamentais de simetria em álgebra, incluindo definições, tipos de simetria (como simetria de espelho, rotacional e translacional) e grupos de simetria. Exemplos práticos são fornecidos para ilustrar como diferentes operações de simetria se aplicam a conjuntos específicos. Além disso, o texto explora a estrutura algébrica dos grupos de simetria e suas operações.

Enviado por

Kalil Soares
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
5 visualizações127 páginas

Grupos de Simetria em Álgebra 2

O documento aborda conceitos fundamentais de simetria em álgebra, incluindo definições, tipos de simetria (como simetria de espelho, rotacional e translacional) e grupos de simetria. Exemplos práticos são fornecidos para ilustrar como diferentes operações de simetria se aplicam a conjuntos específicos. Além disso, o texto explora a estrutura algébrica dos grupos de simetria e suas operações.

Enviado por

Kalil Soares
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Notas de Álgebra 2

Sheila Campos Chagas


Departamento de Matemática
Universidade de Brasília - UNB

Copyright © 2023 by Sheila Campos Chagas


Todos os direitos reservados.

3 de julho de 2025
2
Sumário

Simetria 1
O que é simetria? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
Grupos de Simétria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
O Grupo de Simetria de um Quadrado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Grupos Cíclicos e diedrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Grupos de Permutações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
Objetos geométrico com simetrias diedrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
Subgrupos normais e grupos quocientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Homomorfismos de Grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
O grupo de Automorfismos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
Teoremas do Isomorfismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
Produto direto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64

Grupos Abelianos 67
Produto direto de grupos abelianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
A Estrutura de Grupos Abelianos Finitamente Gerados . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Grupo Abeliano livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Decomposiçãao em fatores elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81

Anéis 85
Propriedades principais e exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
Domínio de integridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
Homomorfismo e Anéis Quocientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
Ideais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Domínio de ideais principais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
Ideais maximais e ideais primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
Corpo de Frações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118

3
4 SUMÁRIO

Anéis de Polinômios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121

Referências Bibliográficas 123


1
Simetria

1.1 O que é simetria?


Quando dizemos que algo é simétrico, geralmente pensamos em simetria com respeito à es-
querda em relação à direita. Por exemplo, um desenho é simétrico dessa forma se a metade
à direita for espelho da imagem esquerda. O eixo de simetria separa as duas metades e, se
colocarmos um espelho ao longo dessa linha, o desenho parece completo. O reflexo da metade
esquerda compensa a metade direita oculta. O rosto humano é geralmente pode ser considerado
possuindo este tipo de simetria, à menos de diferenças sutis entre os dois lados.

Mas esse é apenas um tipo de simetria geométrica. Um floco de neve tem mais do que
apenas a simetria de espelho. Podemos girar o floco em um ângulo de 600 em torno de seu
centro e ele se encaixa exatamente em sua forma original, parecendo que nenhum movimento
foi realizado. Isso é chamado de simetria rotacional. O número de vezes que isso precisa ser
executado para que todos os pontos retornem às suas posições originais é chamado de ordem
ou grau de rotação. Uma rotação de 60 precisaria ser realizada 6 vezes para produzir uma
rotação completa de 360o e, portanto, tem grau 6. Dizemos que um floco de neve tem simetria
6 dobras. Claro que uma rotação de 120o gira um floco de neve exatamente para a mesma

1
2 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

posição, mesmo que pontos individuais estejam ocupando diferentes posições. Então, por que
não dizemos que ele tem simetria de 3 dobras também? A razão é que consideramos o maior
grau de simetria que, para um floco de neve, é 6. Um quadrado tem simetria 4 dobras, pois é
fixado por uma rotação de 90°, mas não menor ângulo positivo.
A Ilha de Man tem mais de 10.000 anos de história com forte passado celta e viking.O
símbolo nacional da Ilha de Man são as três pernas e seu lema: não importa como você a
jogue, ela permanecerá, pode ser vista como um símbolo da independência e resiliência. É uma
insígnia apropriada com simetria tripla, mas sem simetria de espelho. Uma fileira de árvores dá

a aparência de simetria translacional. Se todas as árvores forem absolutamente idênticas, e se


a fileira se estender para sempre em qualquer direção, então mover cada árvore para a direita
uma certa distância não tem efeito no padrão geral. Reflexões, rotações e translações são as

três operações básicas envolvidas na simetria, mas existem mais. No entanto, vamos digerir
essas três antes de considerar deslizamentos, rotações de parafuso, etc.

1.2 Grupos de Simétria


Uma operação simetrica, para um subconjunto X do plano, é uma isométria f que envia X
sobre sim mesmo, com o significado que f (X) = X. Os pontos de X não são necessariamente
fixados, mas o conjunto como um todo é fixado. O conjunto de todas as operações simetricas
sobre X é denotado por Sim(X), e é chamado de grupo de simetrias de X.
1.2. GRUPOS DE SIMÉTRIA 3

Exemplo 1.2.1 Se X for a seguinte imagem de uma casa, então Sym(X) = {I, µ} onde µ é o
reflexo no eixo de simetria.

Se você tiver um olhar cuidadoso, você detectará que a simetria do espelho não é tão perfeita,
já que a chaminé e a maçaneta da porta não aparecemno correspondente lado de simetria do
eixo. A simetria, como empregada na arte ocidental, geralmente tem uma pequena assimetria,
para tornar a imagem mais interessante. Na arte do leste, as imperfeições na simetria são
deliberadamente incluídas porque “só Deus pode criar a perfeição”.

Exemplo 1.2.2 Se X é a insígnia da Ilha de Man, então Sym(X) = {I, ρ, ρ2 }, onde ρ é a


rotação em torno do centro através de 120o e ρ2 é a rotação através de um ângulo de 240o . A
rotação de 240o ? é escrita como ρ2 porque é equivalente a executar ρ duas vezes seguidas.

Exemplo 1.2.3 Se X é o seguinte padrão infinito de carros igualmente espaçados dispostos em


uma linha então Sym(X) = {· · · , τ −2 , τ −1 , I, τ, τ 2 , · · · }, onde τ é a translação para a direita
através da distância entre carros sucessivos. Então τ leva cada carro para o próximo à direita,
e assim todo o padrão infinito é mapeado para si mesmo, ou é fixo. A translação τ 2 move cada
carro duas posições para a direita, a tanslação τ −5 leva cada carro 5 posições para a esquerda,
e assim por diante.

Exemplo 1.2.4 Se X for o seguinte padrão infinito, então Sym(X) contém translações, mas
nenhuma reflexão ou rotação.
4 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

No entanto, ele contém “deslizamentos”. Um deslizamento é uma reflexão em um eixo


seguido por uma translação paralela a esse eixo. No Exemplo 1.2.4, o grupo Simetria contém
o deslizamento que consiste em uma reflexão no eixo horizontal seguido por uma translação
adequada. Cada carro é enviado para o carro mais próximo à direita, no lado oposto do eixo.
O quadrado deste deslizamento, γ 2 é a translação que envia cada carro para o próximo, no
mesmo lado do eixo. Não há simetria de espelho. O grupo de simetria é então gerado por γ.
Ou seja, Sym(X) = {· · · , γ −2 , γ −1 , I, γ, γ 2 , · · · }.
A palavra “grupo” que foi usada na frase “grupo de simetria” porque esses grupos de simetria
são mais do que apenas conjuntos de isometrias. Eles têm uma estrutura algébrica. Podemos
multiplicar quaisquer duas operações de simetria e, se cada uma delas fixa um certo subconjunto
do plano, então o mesmo acontece com seu produto.
Dizemos que o conjunto de operações de simetria para um conjunto planar dado é fechado
sob multiplicação.
Um grupo é um tipo de sistema algébrico. É um conjunto no qual uma operação binária
é definida que satisfaz certas propriedades, chamadas de axiomas de grupo. A operação é
chamada de “multiplicação”, mas não precisa ter nada a ver com multiplicação de números.
Na verdade, os elementos do conjunto não precisam ser números. Eles podem ser matrizes ou
funções ou pontos. Para o tipo de grupos que consideraremos, os elementos do conjunto são
operações de simetria, como rotações, reflexões e translações. A operação binária relevante
consiste em executar uma operação de simetria uma após a outra (na ordem dada). Então o
produto de uma rotação de 30o e uma rotação de 60o (sobre o mesmo eixo) é o efeito de fazer
a rotação de 30o e então seguir ests por uma rotação de 60o . O efeito final é uma rotação de
90o (sobre o mesmo eixo).
Antes que um sistema algébrico com uma operação binária possa ser chamado de grupo ele
precisa satisfazer os quatro “axiomas de grupo” ’.
Fechamento: O produto de quaisquer dois elementos no conjunto deve estar novamente no
conjunto.
Lei Associativa: A(BC) = (AB)C. Isso vale para operações de simetria porque em ambos
os casos o efeito é executar as operações A, B, C uma após a outra, nessa ordem.
Identidade: A operação de identidade é a operação de não fazer nada. Claramente é uma
operação de simetria para cada conjunto, porque se os pontos individuais são fixos, o padrão
1.3. O GRUPO DE SIMETRIA DE UM QUADRADO 5

geral também deve ser. Denotamos essa identidade por I. Observe que IA = AI para todas as
operações de simetria, A.
Poderíamos considerar I como uma rotação de 0o , embora tenhamos dificuldade em descobrir
o centro. Ou poderíamos considerar I como uma translação por uma distância de 0, embora
tenhamos dificuldade em decidir em qual direção nos movemos. Em vez disso, tratamos isso
como algo especial. Então, quando nos referimos a uma “rotação”, excluímos uma rotação de 0o
- esta seria a identidade. E sempre que nos referimos a uma translação, nunca nos referiremos
a uma que mova pontos por uma distância zero.
Agora podemos escrever equações como R4 = I para indicar o fato de que se uma rotação
de 90o , se R for realizada 4 vezes em sequência, o efeito em todos os pontos (na medida em
que eles terminam, não em que tipo de jornada eles fizeram) é consertá-los (ou seja, mapeá-los
para si mesmos). Inverso: Em um grupo, cada elemento tem que ter um inverso relativo à
operação. Então, para todo A deve existir um B no conjunto tal que AB = I = BA. Isso é
verdade para simetrias, porque todas elas podem ser “desfeitas” por uma operação de simetria.
O inverso de uma rotação através de um ângulo θ é uma rotação através de um ângulo −theta
(sobre o mesmo eixo). O inverso de uma translação através de uma distância h para a direita
é a translação através de uma distância h para a esquerda. E, claro, o inverso de uma reflexão
é simplesmente a própria reflexão

1.3 O Grupo de Simetria de um Quadrado


Um quadrado tem quatro eixos de simetria de espelho (reflexões). Todos eles passam pelo
centro. Dois desses eixos passam pelos cantos e os outros dois passam pelos pontos médios de
lados opostos.

Figura 1.1: simetrias do quadrado.

Vamos chamar as reflexões sobre esses eixos de A, B, C e D como no diagrama. Então há a


rotação de 90o no sentido anti-horário. (Como de costume, para rotações no plano, tomamos o
sentido anti-horário como a direção positiva.) Vamos chamar isso de R. Uma rotação de 180o
6 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

pode então ser expressa como R2 e uma rotação de 270o (ou seja, 90o no sentido horário) é R3 .
Finalmente temos a identidade, I.
Essas oito operações constituem todo o grupo de simetria de um quadrado. Se X é um
quadrado Sim(X) = {I, R, R2 , R3 , A, B, C, D}. Como em qualquer grupo finito, podemos
exibir a tabela de grupos que define todos os produtos possíveis. Esta é a tabela de grupos
para o grupo de simetria de um quadrado.

Figura 1.2: Tabela do Grupo D8 .

Você deve verificar alguns deles com um pequeno quadrado recortado de papel. Numere os
cantos de um lado do papel 1, 2, 3, 4 e numere os cantos no verso do papel de forma que cada
canto tenha o mesmo número, frente ou verso. Posicione o quadrado de forma que os cantos
fiquem como segue: Agora execute um par de operações. Por exemplo, pegue AB. Faça A

Figura 1.3: Simétrias do quadrado.

primeiro e depois B. É importante lembrar que os eixos são fixos no espaço. Não os escreva
no seu papel. Então, por exemplo, B é sempre o eixo vertical. Depois de fazer AB, observe
os números nos cantos. Você deve obter: Agora pergunte a si mesmo qual operação única, do
conjunto de oito, teria obtido o mesmo efeito. Claramente, neste caso, é R3 , então você terá
demonstrado que AB = R3 .
Examine a tabela cuidadosamente. Observe, por exemplo, que AB = BA. As operações
de simetria frequentemente falham em comutar. Em outras palavras, geralmente obtemos
uma resposta diferente se multiplicarmos na ordem oposta. Você verá que a tabela tem um
1.4. GRUPOS CÍCLICOS E DIEDRAIS 7

Figura 1.4: Simétrias do quadrado.

padrão muito definido, com A, B, C avançando em ordem, para frente ou para trás conforme
você atravessa as linhas ou desce as colunas. Em particular, note que RA = B, R2 A = B e
R3 A = D. Então todas as oito operações podem ser geradas apenas por R e A. Agora R4 = I
e A2 = I. Note também que AR = R3 A. Geralmente escrevemos isso como AR = R?−1A.
(Como R4 = I, segue-se que R3 = R−1 ). Essas relações são suficientes para calcular todos os
produtos no grupo.
Se tivermos qualquer produto de R’s e A’s e suas potências, a última relação nos permite
trazer todos os R’s para a frente e todos os A’s para trás e então podemos escrevê-lo como
Ri Aj . As duas primeiras relações significam que podemos nos restringir a i = 0, 1, 2, 3 e
j = 0, 1. Assim podemos identificar o produto como uma das oito combinações: I, R, R2 , R3 ,
A, RA, R2 A, R3 A. Esses são os oito elementos do grupo. Por essa razão, escrevemos esse grupo
na forma hR, A | R4 = A2 = I, AR = R−1 Ai. Isso significa que é o grupo gerado por R e A
sujeito às relações especificadas. Este é um grupo bem conhecido, pertencente a uma família
de grupos, chamados de “grupos diedral”.

1.4 Grupos Cíclicos e diedrais


A família mais simples de grupos é a família de grupos cíclicos. Esses são grupos com apenas
um gerador. Se nos limitarmos às rotações no grupo de simetria de um quadrado, obteríamos
o grupo {I, R, R2 , R3 } = hR | R4 = Ii. Um grupo cíclico de ordem n é um grupo da forma
hA | An = Ii, onde A é um gerador. (Dizemos “de ordem n” é simplesmente dizer que ele tem
tamanho n.) Os elementos são: I, R, R2 , · · · , Rn = 1. O grupo cíclico infinito é gerado por um
único gerador sem relações e pode ser expresso como hA | i. Aqui os elementos não são apenas
I, A, A2 , A3 , · · · , mas também incluem as potências negativas A−1 , A−2 , · · · .
Notação: O grupo cíclico de ordem n é denotado por Cn e o grupo cíclico infinito é denotado
por C∞ .
Os grupos de simetria de cada um dos conjuntos nos exemplos 1 e 2 são cíclicos. Aqueles
8 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

que envolvem os padrões infinitos de carros são grupos cíclicos infinitos. Como quaisquer duas
potências do mesmo gerador comutam, podemos dizer que um grupo cíclico é “comutativo”.
Usamos um outro adjetivo para expressar isso, dizemos que o grupo é “abeliano”, em homenagem
ao matemático norueguês Abel (1802 - 1829), então todos os grupos cíclicos são abelianos.
A próxima família mais simples de grupos, e o lugar onde encontramos grupos não abelianos
pela primeira vez, é a família de grupos diedrais.
Um grupo diedro de ordem 2n é um grupo da forma hA, B | An = B 2 = 1, BA = A−1 1Bi.
O grupo diedral infinito é hA, B | B 2 = 1, BA = A−1 Bi.
Notação: O grupo diedral de ordem 2n é denotado por D2n e o grupo diedral infinito é
denotado por D∞ .

Teorema 1.4.1 Os elementos do grupo hA, B | An = B 2 = 1, BA = A−1 1Bi são:

{ A, A2 , · · · , An−1 , B, AB, A2 B, · · · , An−1 B}.

Demonstração. Devido à relação BA = A−1 B qualquer produto envolvendo potências de A


e B pode ser escrito como Ai B j , para algum i, j. Como An = 1, podemos limitar i ao intervalo
0 ≤ i < n e como B 2 = 1, precisamos ter apenas j = 0, 1. Claramente, esses 2n elementos são
distintos. 

Teorema 1.4.2 O grupo diedrqal D2n é abeliano se, e somente se, n = 1 ou 2.

Demonstração. Na maioria das vezes, grupos diedros são não abelianos porque BA =
An−1 B. Mas em D4 , A2 = 1 em caso em que A = A−1 e então BA = AB. Além disso,
D2 é idêntico a C2 e, portanto, também é abeliano. 

Exemplo 1.4.1 Simplifique A5 BA3 BA−5 BA2 no grupo diedral D12 = hA, B | A6 = B 2 =
1, BA = A−1 Bi.
Usando as relação diedral, podemos escrever a sequências de igualdades a seguir:
A5 BA3 BA−5 BA2 = A5 BA3 BA−5 A−2 B
= A5 BA3 BA−7 B
= A5 BA3 A7 B 2
= A5 BA10 B 2
= A−5 B 3
= AB,
Uma análise semelhante à que fizemos para o quadrado, podemos aplicar as ideias a qualquer
polígono regular. Assim, o grupo de simetria de um polígono de n lados é D2n , onde o gerador
1.4. GRUPOS CÍCLICOS E DIEDRAIS 9

A é uma rotação através de 360o /n e B é qualquer reflexão em um dos eixos.


Por exemplo, se X é um triângulo equilátero, Sym(X) = D6 . Como não existe umpolígono
de 2 lados, então o grupo D4 não pode surgir dessa forma. Mas o grupo de simetrias de
um retângulo próprio (isto é, um que não é um quadrado) é D4 . Este grupo tem a forma
hA, B | A2 = B 2 = 1, BA = ABi = {I, A, B, AB}, onde A é uma reflexão vertical (no eixo
horizontal), B é uma reflexão horizontal (no eixo vertical) e R = AB é a rotação de 180o entre
torno do centro.

Figura 1.5: Simétrias do retângulo próprio.

Um grupo H é um subgrupo de G se for um subconjunto de G que forma um grupo com a


operação restrição da operação aos seus elementos. Por exemplo, as rotações em um grupo de
simetria de um conjunto X formam um subgrupo, que podemos denotar por Rot(X).
Se H e K são subgrupos de algum grupo maior G e se: (1) hk = kh, para todo h ∈ G, k ∈ K
e
(2) somente o elemento identidade pertence a H e K (em outras palavras, H ∪ K = 1), então
definimos H × K como {hk | h ∈ H, k ∈ K} e o chamamos de produto direto de H e K.

Exemplo 1.4.2 O grupo dado por hA, B, C | A4 = B 2 = C 3 = 1, BA = A−1 B, CA = AC, CB =


BCi é o produto direto de hA, B | A4 = B 2 = 1, BA = A−1 Bi e hC | C 3 = 1i e então pode ser
escrito como D8 × C3 .

Exemplo 1.4.3 Mostre que D4 é o mesmo grupo que C2 × C2 . Solução: D4 = hA, B | A2 =


B 2 = 1, BA = A−1 Bi. Como A2 = 1 neste grupo, segue-se que A1 = A, então

D4 = hA, B | A2 = B 2 = 1, BA = ABi
= hA | A2 = 1i × hB | B 2 = 1i
= C2 × C2 .

Exemplo 1.4.4 Encontre o grupo de simetria de:

• um losango;

• um paralelogramo próprio (um que não é um losango ou um retângulo);

• um triângulo equilátero;

• um triângulo retângulo isósceles.


10 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Solução: (i) Um losango tem dois eixos de reflexão, bem como uma rotação de 180o em torno
do centro. Portanto, seu grupo de simetria é D4 = C2 × C2 , exatamente como na caso do
retângulo próprio.
(ii) Com um paralelogramo próprio, essas reflexões não fixam mais a figura. Tudo o que temos
é uma rotação de 180o e, claro, a identidade. O grupo de simetria é, portanto, C2 .
(iii) O grupo de simetria de um triângulo equilátero é D6 = hA, B | A3 = B 2 = I, BA = A−1 Bi,
onde A é uma rotação de 120o em torno do centro e B é uma rotação de 180o em torno de
qualquer um dos três eixos de simetria.
(iv) Um triângulo retângulo isósceles não é equilátero, então temos C2 como o grupo de simetria.
Mas neste caso, o elemento de ordem 2 é uma reflexão em vez de uma rotação de 180o .

Enquanto os grupos diedrais ocorrem como grupos de simetria de muitos padrões (por
exemplo, o logotipo da Mercedes Benz tem grupo de simetria D6 ) alguns padrões têm grupo de
símétrica sendo grupos cíclicos. Esses padrões têm simetria rotacional, mas nenhuma simetria
de espelho. Um exemplo deste tipo é a suástica. Todos esses padrões vêm em duas variedades,
cada um sendo a imagem espelhada do outro. É uma pena que este símbolo antigo tenha
sido manchado pelos nazistas, porque é um símbolo com uma longa história, mas agora não se
pode deixar de se sentir desconfortável ao vê-lo. A primeira suástica foi encontrada em vasos
da Pérsia que datam de cerca do um quarto milênio a.C. Também foi encontrada na Grécia,
Índia, China e Japão, geralmente como um amuleto de boa sorte. (A palavra “suástica” vem
do sânscrito e significa “tudo ficará bem”.) Felizmente, há uma versão para canhotos e uma
para destros. A Figura 1.6 mostrada não é o símbolo nazista, mas é sua imagem espelhada. O
grupo de simetria de qualquer suástica é C4 .

Figura 1.6: Suástica espelhada.

A insígnia da Ilha de Man (Figura 1.7)(uma pequena ilha entre a Inglaterra e a Irlanda ?
parte do Reino Unido, mas com seu próprio parlamento) tem C3 como seu grupo de simetria.

1.5 Grupos de Permutações


Seja n ≥ 3 e considere um polígono regular de n lados, Pn . Lembre-se de que por regular
queremos dizer que todos as arestas do polígono são do mesmo comprimento e todos os ângulos
1.5. GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 11

Figura 1.7: Logótipo da Ilha de Man.

internos das arestas que se encontram em um vértice são igual.


O conjunto de vértices V = {v1 , v2 , . . . , vn } do polígono regular Pn é um subconjunto do
espaço euclidiano R2 . Para simplificar, suponha que o centro de Pn esteja sobre a origem e que
um de seus vértices esteja no eixo x.
A simetria de um polígono regular de n- lados é uma bijeção σ : V → V que é a restrição
de uma bijeção F : R2 → R2 , que deixa a estrutura geral de Pn intacta, ou seja no lugar, e
assim se o par (vi , vj ) é uma aresta do polígono regular de n-lados, então o par (σ(vi), σ(vj ))
também é uma aresta do polígono de n- lados.
Considere, por exemplo, um hexágono regular P6 e a bijeção σ : V → V tal que σ(v1 ) =
v2 , σ(v2 ) = v1 , e σ fixa os demais vértices, isto é σ(vi ) = vi , para i 6= 1, 2. Então, σ não é
uma simetria de p6 . A Figura (1.25) mostra que σ não preserva a estrutura da aresta e do
vértice do hexágono porque, por exemplo, o segmento que une σ(v2 ) e σ(v3 ) não é uma aresta
do hexágono original.

Figura 1.8: σ não é uma isometria do hexagono

Em contraste, considere a bijeção τ definida nos vértices do hexágono regular tal que τ (v1 ) =
v2 , τ (v2 ) = v1 , τ (v3 ) = v6 , τ (v4 ) = v5 , τ (v5 ) = v4 e τ (v6 ) = v3 . Essa bijeção nos vértices é
uma simetria do hexágono, porque preserva a estrutura do bordo do hexágono. A Figura (1.9)
mostra que τ pode ser realizada como a reflexão através da linha L desenhada.
12 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Figura 1.9: τ é uma isometria do hexagono

Definição 1.5.1Denotamos por Dn o conjunto de simetrias de um polígono regular de n-


lados e chamamos este conjunto de simétrias diédricas.

Para contar o número de bijeções sobre o conjunto V = {v1 , v2 , . . . , vn }, note que uma
função bijetora f : V → V pode enviar

f (v1 ) envia para algum elemento de V


f (v2 ) envia para algum elemento de V \ {f (v1 )}
f (v3 ) envia para algum elemento de V \ {f (v1 ), f (v2 )}
..
.
f (vn ) envia para algum elemento de V \ {f (v1 ), f (v2 ), . . . , f (vn−1 )}
Portanto existem n × (n − 1) × (n − 2) × · · · × 2 × 1 = n! bijeções distintas em V . No
entanto, uma simétria σ ∈ Dn pode enviar v1 para qualquer elemento em V (temos n opções
para fazer isto), mas então σ deve enviar v2 para um vértice adjacente a σ(v1 ) (temos 2 opções
para esta escolha). Uma vez que σ(v1 ) e σ(v2 ) são escolhidos, todos os σ(vi ) para 3 ≤ i ≤ n são
determinados. Por exemplo, σ(v3 ) deve ser o vértice adjacente a σ(v2 ) que não é σ(v1 ); σ(v4 )
deve ser o vértice adjacente a σ(v3 ) que não é σ(v2 ); e assim por diante. Esse raciocínio leva à
seguinte proposição.

Proposição 1.5.1 A cardinalidade de Dn é |Dn | = 2n.

Não é difícil identificar essas simetrias por seu significado geométrico. Metade das simetrias
em Dn são rotações que deslocam os vértices k pontos no sentido anti-horário, para k variando
de 0 a n − 1. Denotamos por Rα a simetria dada pela rotação de um ângulo α. A rotação
R2πk/n de um ângulo 2πk/n no conjunto de vértices, envia vi para R2πk/n (vi) = v(i−1+k) modn )+1
para todos 1 ≤ i ≤ n.
Observe que R0 é a função de identidade em V .
Como observado acima, n-lados do polígono regulare possuem simetrias que correspondem
a reflexões através de retas que passam pelo centro do polígono. Assumindo que o polígono
1.5. GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 13

regular de n lados está centrado na origem e com um vértice no eixo x, então existem n simetrias
de reflexão distintas, cada uma correspondendo a uma linha através da origem e formando um
ângulo de πk/n com o eixo x , para 0 ≤ k ≤ n − 1. A simetria de reflexão na Figura (1.9) é
uma reflexão através de uma reta que faz um ângulo de π/6 em relação ao eixo x. Denotamos
por Fβ a simetria de uma reflexão através da reta que forma um ângulo β com o eixo x.
Como |Dn | = 2n, as rotações e reflexões são responsáveis por todas as simetrias diédricas.
Se duas bijeções em V preservam a estrutura do polígono, sua composição também preserva.
Conseqüentemente, a composição de duas simetrias diedrais é novamente outra simetria diedral
e, portanto, ◦ é uma operação binária em Dn . No entanto, tendo listado as simetrias diédricas
como rotações ou reflexos, é interessante determinar o resultado da composição de duas simetrias
como outra simetria. Em primeiro lugar, é fácil ver que as rotações são compostas da seguinte
forma:
Rα ◦ Rβ = Rα+β ,

onde subtraímos 2π de α + β, se α + β ≥ 2π. No entanto, a composição de uma rotação e uma


reflexão ou a composição de duas reflexões não é tão óbvia. Existem várias maneiras de calcular
as composições. A primeira é determinar como a composição da função atua nos vértices. Por
exemplo, seja n = 6 e considere as composições de R2π/3 e Fπ/6 .

A partir desta tabela e pela inspeção de como as composições atuam nos vértices, determi-
namos que Fπ/6 ◦ R2π/3 = F5π/6 e R2π/3 ◦ Fπ/6 = Fπ/2 .
Notamos com este exemplo que a operação de composição não é comutativa. Outra abor-
dagem para determinar a composição dos elementos vem da álgebra linear. Rotações sobre a
origem por um ângulo α e reflexões através de uma reta através da origem formando um ângulo
β com o eixo x são transformações lineares. Com relação à base canônica, esses dois tipos de
transformações lineares, respectivamente, correspondem às seguintes matrizes 2 × 2

   
cos α −senα cos 2β −sen2β
Rα : e Fβ :
sen α cos α sen 2β cos 2β
14 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Por exemplo, seja n = 6 e considere a composição de Fπ/6 e Fπ/3 . A simetria composição


corresponde ao produto das matrizes

cos π3 −sen π3 cos 2π −sen 2π


  
Fπ/6 ◦ Fπ/3 : π π
3

3 =
sen 3
cos 3
sen 3
cos 2π3
cos π3 cos 2π π 2π
cos π3 sen 2π π 2π
 
3
+ sen 3
sen 3 3
− sen 3
cos 3
= π 2π π 2π =
sen 3
cos 3
− cos 3
sen 3
sen π3 sen 2π
3
+ cos π3 cos 2π
3
cos π3 sen π3
 
=
−sen π3 cos π3
Esta matriz corresponde a uma rotação e mostra que Fπ/6 ◦ Fπ/3 = R−π/3 = R5π/3 .
Quer usemos um método ou outro, a tabela a seguir fornece a composição a ◦ b para as
simetrias do hexágono

Figura 1.10: Tabela de D6

A partir desta tabela, podemos responder a muitas perguntas sobre a operação de compo-
sição sobre D6 . Por exemplo, se questionados sobre que f ∈ Dn satisfaz R2π/3 ◦ f = F5π/6 ,
simplesmente procuramos na linha correspondente à a = R2π/3 para qual b a composição é
F5π/6 . A priori, sem qualquer teoria adicional, não tem que existir tal f , mas neste caso existe
e é f = Fπ/2 .
Algumas outras propriedades da operação de composição em Dn não tão fáceis de identificar
diretamente na Tabela (1.10). Por exemplo, pela Proposição ◦ é associativo em Dn . Verificar
a associatividade da Tabela (1.10) exigiria verificar 123 = 1.728 igualdades. Além disso, a
composição ◦ tem uma identidade em Dn , a saber R0 . Na verdade, R0 é a função de identidade
em V . Finalmente, cada elemento em Dn tem um inverso: o inverso de R2πk/n é R2π(n−k)/n e o
inverso de Fπk/n é ele mesmo. Deixamos a prova da seguinte proposição como um exercício.

Proposição 1.5.2 Seja n um inteiro fixado n ≥ 3. Então as simetrias diedrais Rα e Fβ


1.5. GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 15

satisfazem as seguintes relações:

Rα ◦ Fβ = Fα/2+β , Fβ ◦ Rα = Fα−β/2 , e , Fα ◦ Fβ = R2(α−β) .

Introduzimos uma notação que é mais breve e que é a notação abstrata que usaremos
regularmente na teoria dos grupos.
Dado qualquer inteiro n ≥ 3, denote por r a rotação do ângulo 2π/n e por s a reflexão
através do eixo x. Em outras palavras, r = R2π/n e s = F0 .
Em notação abstrata, semelhante notação para multiplicação variáveis reais, simplesmente
escrevemos abpara significar a◦b para quaisquer dois elementos a, b ∈ Dn . Como ◦ é associativo,
pela Proposição (1.5.2), uma expressão como rrsr é bem definida, independentemente da ordem
em que colocamos os termos para realizar a composição. Considerando o caso n = 6,

rrsr = Rπ?/3 ◦ Rπ/3 ◦ F0 ◦ Rπ/3 = R2π/3 ◦ F0 ◦ Rπ/3 = Fπ/3 ◦ Rpi/3 = Fπ/6 .


Para simplificar ainda mais a notação, se a ∈ Dn e k é um inteiro positivo, então escrevemos
ak para representar

k vezes
k z }| {
a = aaa . . . a.
Portanto, poderíamos escrever r2 sr para rrsr. É importante notar que, como a composição ◦
não é comutativa, r3 s não é necessariamente igual a r2 sr. Finalmente, observe que R0 é a função
de identidade, então R0 ◦ f = f ◦ R0 = f , para todo f ∈ Dn . Conseqüentemente, denotaremos
R0 por 1 para representar a função de identidade. Embora usemos a notação multiplicativa,
devemos continuar a pensar nos símbolos como funções e não como representando variáveis
reais.
Não é difícil ver que
k vezes
z }| {
r = R2π/n ◦ R2π/n ◦ · · · ◦ R2π/n = R2πk/n .

Além disso, olhando na coluna de F0 na Tabela (1.10), suspeitamos que em geral tenhamos

rk s = Fπk/n ,

onde k satisfaz 0 ≤ k ≤ n − 1 (Prove isto.) Consequentemente, como um conjunto

Dn = {1, r, r2 , . . . , rn−1 , s, , rs, r2 s, . . . , rn−1 s}.


Os símbolos r e s têm algumas propriedades interessantes.
Primeiro, rn = 1 e s2 = 1. Isso é óbvio, desde que não esqueçamos o significado geométrico
das funções r e s. Menos óbvia é a igualdade na seguinte proposição.
16 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Proposição 1.5.3 Seja n um inteiro n ≥ 3. Então, Dn munido com a composição de funções


satisfaz: sr = rn−1 s.

Demonstração. Primeiro provamos que rsr = s. A composição de uma rotação com um


reflexão é um reflexão (Faça este exercício). Portanto, (rs)r é um reflexão. Para qualquer n, r
envia v1 a v2 , então s envia v2 a vn , e então r envia vn a v1 . Portanto, rsr é uma reflexão que
mantém v1 fixo. Existe apenas uma reflexão em Dn que mantém v1 fixa, a saber, s.
Como rsr = s, multiplicamos ambos os lados por rn−1 obtemos

rn sr = rn−1 s ⇒ 1sr = sr = rn−1 s.

Corolário [Link] Considere o conjunto das simetrias Dn do polígono regular de n lados com
n ≥ 3. Então, srk = rn−k s.

Demonstração. Basta fazer sucessivas repetições da Proposição (1.5.3). 

Os grupos diedrais surgem freqüentemente na arte e na natureza. Muitos dos designs de-
corativos usados em revestimentos de piso, cerâmica e edifícios têm um dos grupos diedrais
como um grupo de simetria. Logotipos de corporações são fontes ricas de simetria diedrais. O
logotipo da Chrysler tem D5 como um grupo de simetria, e o da Mercedes Benz tem D3 . A
onipresente estrela de cinco pontas tem grupo de simetria D5 . O filo Echinodermata contém
muitos animais marinhos (como estrelas do mar, pepinos do mar, estrelas de penas e dólares
de areia) que exibem padrões com simetria D5 .

1.6 Objetos geométrico com simetrias diedrais


Polígonos regulares não são os únicos objetos geométricos que possuem simetria diedrais. Diz-se
que um padrão geométrico tem simetria diedral Dn se o padrão permanece o mesmo, quando o
plano é transformado por todas as rotações e reflexões em Dn em referência a um determinado
centro C e um eixo L.
Por exemplo, se ignorarmos a cor, ambas as formas de seis folhas na Figura (1.11) possuem
D6 como grupo de simetrias.
Na Figura (1.12), a forma à esquerda exibe a simetria D7 , enquanto a forma à direita exibe
simetria D5 .
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 17

Figura 1.11: Forma com simetrias D6

Figura 1.12: Forma com simetrias D7 e D5

Por outro lado, considere a forma dada na Figura (1.13). Não existe um eixo através do
qual a forma seja preservada sob uma reflexão. Consequentemente, a forma não possui simetria
D3 . Possui apenas simetria rotacional com o menor ângulo de rotação de 2π/3.

Figura 1.13: Só tem simetrias rotacional

Se sabemos que um padrão geométrico tem uma certa simetria diedral, só precisamos dese-
nhe uma certa parte da forma antes que seja possível determinar o resto do objeto. Seja F um
conjunto de bijeções do plano e seja S um subconjunto do plano que é preservado por todas
as funções em F, ou seja, f (S) = S, ∀f ∈ F. Dizemos que um conjunto S 0 gera S por F se
S = ∪ f (S 0 ).
f ∈F
18 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Além disso, um subconjunto S0 ⊆ S é um subconjunto mínimo de geradores de S se S0 gera


S através de F, e S0 é mínimo com respeito à inclusão entre todos os subconjuntos de S que
geram S através de F.
Um subconjunto mínimo de geradores é mais comumente chamado de rdomínio funda-
mental de S sob o conjunto de transformações F.

Figura 1.14: Simetrias D5 com subconjunto gerador

Por exemplo, considere a forma mostrada na Figura (1.14) à esquerda, o subconjunto cinza
escuro S0 é um subconjunto gerador para o conjunto S todo, mas não é um subconjunto gerador
mínimo. Por outro lado, na figura à direita, o subconjunto cinza escuro S0 é um subconjunto
gerador mínimo.
Com frequência, quando r ∈ N, escrevemos g −r para denotar o elemento (g −1 )r . Assim,
com esta notação
hgi = {g t | t ∈ Z}.

Exercício 1.6.1 Seja, G um grupo e S um subconjunto de G. Mostre que hSi é o menor


subgrupo de G contendo S e que hSi é a interseção de todos os subgrupos de G que contém
S. 

 Exemplo 1.6.1 Considere o grupo diedral G = D6 . O subgrupo gerado pela rotação R, hRi,
consiste de todas as potências do elemento R. Portanto, hRi = {1, R, R2 , R3 , R4 , r5 }. Note que
hRi é o o subgrupo das rotações. Podemos visualizar este grupo como na Figura (1.15).

Figura 1.15: Subgrupo de D6 gerado por R

O subgrupo gerado por hSi = {1, s} consiste de dois elementos somente, a reflexão sobre
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 19

o eixo de simetria e a transformação identidade. Temos a segjuinte visualização para este


subgrupo veja a Figura (1.16).

Figura 1.16: Subgrupo de D6 gerado por S

O subgrupo hS, R2 i, contém os elementos 1, S, R2 e R4 simplesmente tomando as potências


dos elementos em {S, R2 }. Entretanto, o subgrupo hS, R2 i também contem SR2 e SR4 . A
relação definidora sobre S e R fornece a igualdade Rn S = SR6−n . Portanto,

hS, R2 i = {1, R2 , R4 , S, SR2 , SR4 }.

Assim, a visualização geometrica deste subgrupo é dado na Figura (1.17).

Figura 1.17: D6 é gerado por S e SR2

O subgrupo hS, SR2 i obviamente contém S, mas também contém R = S(SR). Portanto,
hS, SR2 i = D6 , pois ele contém todas as rotações e todas as reflexões. 

Obviamente, para qualquer elemento em um grupo G, o subgrupo hgi gerado por g ∈ G


é um subgrupo cíclico de G, cuja ordem é precisamente a ordem |g|. É importante notar que
conjunto distintos de geradores pode fornecer o mesmo subgrupo de G. Por exemplo, em D6
temos que hR2 i = hR4 i. No Exemplo (1.6.1) note que hR, SRi = hR, Si. Isto ocorre mesmo
com subgrupos cíclicos. Por exemplo, em D6 , o subgrupo de rotação é hRi = hR5 i. Em D6 ,
também temos hR2 i = hR4 i.
Os grupos simétricos desempenham um papel fundamental na teoria dos grupos e nas apli-
cações da teoria dos grupos. Esta seção apresenta a terminologia e as propriedades elementares
dos grupos simétricos.
20 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Definição 1.6.1 Seja X um conjunto não vazio. Defina SX como o conjunto de todas as
bijeções de X em X.

Proposição 1.6.1 O par (SX , ◦) é um grupo com respeito a composição de funções.

Demonstração. A composição de duas bijeções é uma bijeção, então a composição é uma


operação binária sobre SA . É facil ver que a operação ◦ é associativa sobre SX .
A função identidade id : X → X tal que id(x) = x, para todo x ∈ X é o elemento identidade.
Como f ∈ SX é uma bijeção, existe uma função inversa, que denotamos por f −1 : X → X.
Pela definição de função inversa temos que

f ◦ f −1 = f −1 ◦ f = id.

Portanto, (SX , ◦) satisfaz todos os axiomas da definição de um grupo. 

Chamamos SX de grupo simétrico em X. No caso de X = {1, 2, . . . , n}, escrevemos Sn em


vez SX . Chamamos os seus elementos de SX permutações de X.
Embora tenhamos descrevido as simetrias (reflexões e rotações) com termos pertencentes a
todo plano, também descrevemos as tranformações com simetrias sobre o conjunto de vértices
que preservam a estrutura de incidência do polígono. O grupo simétrico em um determinado
conjunto é simplesmente o grupo de todas as bijeções naquele conjunto sem impor quaisquer
condições. Em contraste com o polígono regular de n lados que não é preservado por todos
os elementos de Sn , o grafo abaixo completo em n vértices (veja Figura (1.18) com n = 6) é
preservado como um gráfico sob qualquer permutação de Sn

Figura 1.18: Grafo completo em 6 vértices


1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 21

Proposição 1.6.2 O grupo Sn tem ordem n!.

Demonstração. Uma função de {1, 2, . . . , n} para um outro conjunto é injetivo se, e somente
se, a imagem tiver n elementos. Portanto, uma função de {1, 2, . . . , n} para si mesmo é uma
bijeção se, e somente se, for uma função injetora.
A ordem de Sn é o número de bijeções distintas sobre {1, 2, . . . , n}. Para enumerar as
bijeções, contamos as funções injetoras de {1, 2, . . . , n} para ele mesmo. Observe que existem
n opções para f (1). Como f (2) 6= f (1), para cada escolha de f (1), existem n − 1 escolhas
para f (2). Dados os valores de f (1) e f (2), existem n − 2 escolhas possíveis para f (3) e assim
por diante. Visto que uma enumeração de funções injetoras requer uma decisão de n valores,
usamos a regra do produto. Conseqüentemente,

|Sn | = n(n − 1)(n − 2) . . . 3.2.1 = n!.

Os grupos simétricos surgem em uma variedade de contextos naturais. Em uma corrida


olímpica de 100 metros, oito corredores recebem números de pista. A função do número da
pista do corredor para a classificação que eles colocam na corrida é uma permutação de S8 . Um
criptograma é um jogo de palavras em que alguém escreve uma mensagem, mas substituindo
cada letra do alfabeto por outra letra, e uma segunda pessoa tenta recuperar a mensagem origi-
nal. A escolha da primeira pessoa de como embaralhar as letras do alfabeto é uma permutação
em Sn , onde n é o número de letras do alfabeto usado. Quando alguém embaralha um baralho
de 52 cartas, a reordenação resultante das cartas representa uma permutação em S52 .
Precisamos de algumas maneiras convenientes de visualizar e representar uma permutação
sobre {1, 2, · · · , n}.
Grafo direcionado. é um método visual de representar uma permutação σ ∈ Sn envolve o
uso de um grafo direcionado. Cada elemento de {1, 2, · · · , n} é escrito como um ponto no plano
e desenhamos uma seta de a para b se f (a) = b. Desta forma, uma permutação criará um grafo
direcionado no qual uma flecha sai de cada ponto e chega a cada ponto. Veja a Figura (1.19)
para um exemplo.
Notação matricial. Outra maneira de escrever uma permutação é registrar em uma matriz
na primeira linha os elementos do domínio e na segunda linha as suas respectivas imagens.
 
1 2 ... n
σ(1) σ(2) . . . σ(n)
Utilizando a notação matricial, a permutação da Figura (1.19) é escrita como
22 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Figura 1.19: Permiutação como grafo dirigido.

 
1 2 3 4 5 6 7 8
3 8 7 4 6 2 1 5
uma n-upla. Se o valor n for claro no contexto, a linha superior da notação do gráfico é
redundante. Portanto, podemos representar a permutação σ pela n-upla (σ(1), σ(2), . . . , σ(n)).
Usando a notação de n-upla, a permutação na Figura (1.19) é escrita como σ = (3, 8, 7, 4, 6, 2, 1, 5).

Notação cíclica Uma notação diferente acaba sendo mais útil para os propósitos da teoria dos
grupos. Na notação de ciclo, a expressão

σ = (a1 a2 · · · am1 ).(am1 +1 am1 +2 · · · am2 ) · · · (amk−1 +1 amk−1 +2 · · · amk ),

onde al são elementos distintos em {1, 2, · · · , n}, significando que para qualquer índice i, temos
(
ai+1 se i 6= mj para todo j
σ(ai ) =
amj−1 +1 se i = mj para algum j,
onde m0 = 0. Qualquere uma das expressões (amj−1 +1 amj−1 +2 · · · amj ) é chamado de um ciclo
porque σ circula através desses elementos na ordem como σ é iterado.
Usando a notação cíclica para a permutação na Figura (1.19) notamos que

primeiro σ(1) = 3, σ(3) = 7, e σ(7) = 1


σ(2) = 8, σ(8) = 5, σ(5) = 6 σ(6) = 2
e então, σ(4) = 4.
Portanto, na notação de ciclo (cíclica), a permutação na Figura (1.19) é escrita como σ =
(137)(2856)(4). Existem muitas maneiras diferentes de expressar uma permutação usando a
notação de ciclo. Por exemplo, como ciclos, (1 3 7) = (3 7 1) = (7 1 3). A notação de ciclo
padrão impõe quatro costumes adicionais:
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 23

(1) Se σ é a função de identidade, escrevemos apenas σ = id. (Textos avançados comumente


referem-se à permutação de identidade como 1, mas, por enquanto, usaremos id.)
(2) Escrevemos cada ciclo de σ começando com o menor inteiro do ciclo.
(3) A ordem em que listamos os ciclos de σ é tal que os elementos iniciais de cada ciclo estão
em ordem crescente.
(4) Finalmente, omitimos qualquer ciclo de comprimento 1.
Dizemos que uma permutação em Sn é escrita em notação de cíclica padrão se satisfizer esses
requisitos. A notação cíclica padrão para a permutação da Figura (1.19) é σ = (1 3 7)(2 8 5 6).
Um k-ciclo é uma permutação que na notação de ciclo padrão consiste em apenas um ciclo
de comprimento k. Dois ciclos são chamados de disjuntos se não envolverem inteiros comuns.
Pela construção da notação de ciclo padrão para uma permutação, notamos que os ciclos de
σ devem ser disjuntos. Um 2-ciclo também é chamado de transposição porque simplesmente
troca (transpõe) dois elementos e deixa o resto fixo.

 Exemplo 1.6.2 Para ilustrar a notação do ciclo, listamos todas as permutações em S4 no


padrão da notação de ciclo:

(1 2 3 4), (1 2 4 3), (1 3 2 4), (1 3 4 2), (1 4 2 3), (1 4 3 2),


(1 2 3), (1 3 2), (1 2 4), (1 4 2), (1 3 4), (1 4 3), (2 3 4), (2 4 3),
(1 2), (1 3), (1 4), (2 3), (2 4), (3 4),
(1 2)(3 4), (1 3)(2 4), (1 4)(2 3),
Id.
Podemos verificar que temos todos os 3 -ciclos calculando quantos deveríamoster.  Cada
4
ciclo consiste em 3 inteiros. O número de maneiras de escolher 3 de 4 inteiros é . Para
3
cada escolha de 3 inteiros, listamos pelo menos um primeiro no ciclo. Então,
  existem 2 opções
4
para ordenar os dois inteiros restantes no 3-ciclo. Portanto, existem 2. = 8 três ciclos em
3
S4 

O tipo de ciclo de uma permutação descreve quantos ciclos disjuntos de um determinado


comprimento constituem a notação de ciclo padrão dessa permutação. Portanto, dizemos que
(1 3)(2 4) é do tipo de ciclo (a b)(c d).

 Exemplo 1.6.3 Como outro exemplo, considere o grupo simétrico S6 . Existem 6! = 720
elementos em S6 . Contamos quantas permutações existem em S6 de um determinado tipo de
ciclo. Para contar os 6 ciclos, observe que todo inteiro de 1 a 6 aparece na notação de ciclo
de um 6-ciclo. Na notação de ciclo padrão, escrevemos 1 primeiro e depois todos os 5! = 120
ordenações de {2, 3, 4, 5, 6} fornecendo 6-ciclos distintos. Portanto, existem 120 ciclos de 6 em
S6 . Agora contamos as permutações em S6 da forma σ = (a1 a2 a3 )(a4 a5 a6 ). A notação de
24 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

ciclo padrão de uma permutação tem a1 = 1. Para escolher os valores em a2 e a3 , existem


5 opções para a2 e, em seguida, 4 posições restantes para a3 . Com a1 , a2 e a3 escolhidos,
sabemos que {a4 , a5 , a6 } = {1, 2, 3, 4, 5, 6} \ {a1 , a2 , a3 }. O valor de a4 deve ser o valor mínimo
de {a4 , a5 , a6 }. Então, existem duas maneiras de ordenar os dois elementos restantes no segundo
3- ciclos. Portanto, existem 5 · 4 · 2 = 40 permutações que consistem no produto de dois 3-
ciclos disjuntos.
tipo de ciclo número de elementos
id  1
6
(a b) = 15
2 
6
(a b c) 2. = 40
3
6
(a b c d) 3! = 90
 4
6
(a b c d e) 4! = 144
5
(a b c d e f ) 5!
 =120
6
(a b c d)(e f ) 3! = 90
4
(a b c)(d e f )   40
6
(a b c)(d e) 2. = 120
 3  
1 6 4
(a b)(c d) 2
. = 45
 2 2
6 4
(a b)(c d)(e f ) /3! = 15
2 2
Total 720

A Tabela conta os tipo difrentes de permutações de S6 , organizando os elementos pelo


tamanho do ciclos na notação cíclica padrão. 

Ao calcular operações no grupo simétrico, devemos lembrar que as permutações são funções
bijetivas e que a composição da função é lida da direita para a esquerda. Por causa disso, se
σ, τ ∈ SX , então a composição de στ (é a notação padrão para a composição σ ◦ τ ) significa a
bijeção onde aplicamos primeiro τ e depois σ.
Considere o exemplo a seguir, no qual determinamos a notação do ciclo de um produto.
Suponha que estejamos em S6 e σ = (1 4 2 6)(3 5) e τ = (2 6 3). Escrevemos

στ = (1 2 6)(3 5)(2 6 3)

e leia da direita para a esquerda como στ envia os inteiros como uma composição de ciclos,
não necessariamente disjuntos agora. (Nos diagramas abaixo, as setas abaixo da permutação
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 25

indicam a direção da leitura e as setas acima indicam a ação de um ciclo em um elemento ao


longo do caminho.)

Observe que como στ (2) = 1, fechamos o primeiro ciclo e iniciamos um novo ciclo com o
menor inteiro ainda não aparecendo em nenhum ciclo anterior de στ .

E terminamos. Fechamos o ciclo no final de 5 porque todos os inteiros de 1 a 6 já aparecem


na notação de ciclo padrão de στ , portanto, o ciclo deve ser fechado. No entanto, é uma boa
prática verificar pelo mesmo método que στ (5) = 3. Deve ser óbvio que a notação de ciclo
expressa uma permutação como a composição de ciclos disjuntos.

Proposição 1.6.3 Ciclos disjuntos em Sn comutam.

Demonstração. Sejam σ, τ ∈ Sn ciclos disjuntos. Seja i ∈ {1, 2, · · · , n}. Se i é um dos


inteiros no ciclo de τ , então τ (i) é outro inteiro no ciclo de τ . Como os ciclos são disjuntos,
σ(τ (i)) = τ (i). Por outro lado, como i não está no ciclo σ, τ (σ(i)) = τ (i). Se i é um dos inteiros
no ciclo de σ, então σ(i) é outro inteiro no ciclo de σ. Novamente, como os ciclos são disjun-
tos, τ (σ(i)) = σ(i). Por outro lado, como i não está no ciclo τ , σ(τ (i)) = σ(i). Se i não for
nehum dos inteiros no ciclo de σ e nenhum dos inteiros no ciclo de τ , então σ(τ (i)) = σ(i) = i
e τ (σ(i)) = τ (i) = i. Portanto, σ(τ (i)) = τ (σ(i)), para todo i ∈ {1, 2, · · · , n} então στ = τ σ. 

O fato de que os ciclos disjuntos comutam implica que para entender potências e inversos de
permutações, é suficiente entender como potências e inversos funcionam em ciclos. De fato, se
τ1 , τ2 , · · · , τk 1 são ciclos disjuntos e σ = τ1 τ2 · · · τk , então σ m = τ1m τ2m · · · τkm , para todo m ∈ Z,
e em particular σ −1 = τ1−1 τ2−1 · · · τk−1 .
26 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Consequentemente, algumas propriedades sobre uma permutação σ e suas potências depen-


dem apenas do tipo de ciclo de σ.

Proposição 1.6.4 Para todo σ ∈ Sn a ordem |σ| é o mínimo múltiplo comum dos compri-
mentos dos ciclos disjuntos na notação de ciclo padrão de σ.

Demonstração. Faça esta demonstração como exercício. 

 Exemplo 1.6.4 Seja σ = (1 3 7)(2 5 4)(6 10) em S10 . Propomos calcular σ −1 e então determinar
a ordem de σ calculando todas as potências de σ. Para calcular σ −1 lemos os ciclos ao contrário

σ −1 = (7 3 1)(4 5 2)(10 6) = (1 7 3)(2 4 5)(6 10).

A segunda igualdade é obtida reescrevendo cada ciclo com o menor inteiro primeiro. I sso
é equivalente a iniciar no número inteiro mais baixo do ciclo e ler o ciclo de trás para frente.
Para as potências de σ, temos
σ = (1 3 7)(2 5 4)(6 10),
σ2 = (1 3 7)(2 5 4)(6 10)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (1 7 3)(2 4 5),
σ3 = σ 2 σ = (1 7 3)(2 4 5)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (6 10),
σ4 = σ 3 σ = (6 10)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (1 3 7)(2 5 4),
σ5 = σ 4 σ = (1 3 7)(2 5 4)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (1 7 3)(2 45 )(6 10),
σ6 = σ 5 σ = (1 7 3)(2 4 5)(6 10)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = id.
Segue que |σ| = 6 e isso ilustra a Proposição (1.6.4). 

Consideramos brevemente o produto de ciclos que não são disjuntos. Alguns dos produtos
mais simples envolvem duas transposições, (12)(13) = (132) e (13)(12) = (123). O fato de esses
produtos serem diferentes estabelece a seguinte proposição.

Proposição 1.6.5 O grupo Sn não é abeliano para todo n ≥ 3.

Permutações e o grupo simétrico surgem em muitas áreas da matemática, especialmente na


combinatória, um campo que estuda técnicas de contagem de arranjos possíveis em qualquer
tipo de estrutura discreta.
Como exemplo, suponha que consideremos 5 eventos na história e tentemos nos lembrar da
ordem em que ocorreram. São 5! = 120 possíveis ordenações desta linha do tempo. Suponha
que numeremos os eventos em ordem histórica como E1 , E2 , E3 , E4 , E5 e suponha que alguém
adivinhe a ordem histórica como G1 , G2 , G3 , G4 , G5 . Qualquer suposição sobre sua ordem his-
tórica corresponde a uma permutação σ ∈ S5 via

Gσ(i) = Ei , i ∈ {1, 2, 3, 4, 5}.


1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 27

Isso significa que a pessoa adivinhou o real i-ésimo evento histórico como sendo o σ(i)-ésimo
evento em ordem cronológica.
Suponha que alguém adivinhe a ordem cronológica de nascimento de cinco matemáticos e
os coloque na seguinte ordem.

Ordem Correta Ordem advinhada

A permutação correspondente é σ = (132)(45). Qual é uma maneira natural de avaliar o


quão incorreta está a suposição? Se um palpite estivesse correto, exceto por trocando os dois
primeiros, ou seja, σ = (12), que não deve ser considerado grave. A pior hipótese inverteria a
ordem cronológica, ou seja, σ = (15)(24). Uma medida de incorreção para a ordem suposta é
contar o número de inversões.
Definição 1.6.2 Seja n um inteiro com n ≥ 2. Defina Tn como conjunto

(i, j) ∈ {{1, 2, · · · , n}2 | i < j}.

O número de inversões de σ ∈ Sn é

inv(σ) = |{(i, j) ∈ Tn | σ(i) > σ(j)}|.

Em outras palavras, Tn consiste em todos os pares possíveis (i, j) de índices, onde o primeiro
índice é menor que o segundo e inv(σ) é o número de vezes que σ inverte a ordem do par. O
conjunto Tn tem cardinalidade

n−1 n−1
X X (n − 1)n (n − 1)n
|Tn | = (n − i) = n(n − 1) − i = (n)(n − 1) − = .
i=1 i=1
2 2
Portanto, 0 ≤ inv(σ) ≤ 1
2
n(n − 1).
No exemplo acima sobre a ordem da data do nascimento dos cinco matemáticos, σ sobre os
pares de T5 como segue:
28 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Portanto, obtemos que inv(σ) = 3.


Definição 1.6.3 Uma permutação σ ∈ Sn é chamada par (respectivamente ímpar) se (in(σ))
é um inteiro par (respectivamente ímpar).

A seguir temos algumas proposições sobre a paridade de permutações.

Proposição 1.6.6 O número de inversões de uma transposição é ímpar. Mais precisamente,


inv((a b)) = 2(b − a) − 1.

Demonstração. Faça esta demonstração como exercício. 

Proposição 1.6.7 Sejam σ, τ ∈ Sn . Então, inv((στ )) = inv(σ) + inv(τ ) (mod 2).

Demonstração. Defina os seguintes números que dependem de σ e τ :

k11 = |{(i, j) ∈ Tn | τ inverte (i, j) e σ inverte (τ (i), τ (j))}|,


k12 = |{(i, j) ∈ Tn | τ inverte (i, j) e σ não inverte (τ (i), τ (j))}|;
k21 = |{(i, j) ∈ Tn | τ não inverte (i, j) e σ inverte (τ (i), τ (j))}|
k22 = |{(i, j) ∈ Tn | τ não inverte (i, j) e σnão inverte (τ (i), τ (j))}|.

Observe que invστ ) = k12 + k21 , inv(σ) = k11 + k21 e inv(τ ) = k11 + k12 .
Portanto, inv(σ) + inv(τ ) = k12 + k21 + 2k11 ∼
= k12 + k21 ∼
= inv(στ ) (mod 2). 

O seguinte teorema sobre como a paridade de permutações se relaciona com a composição


é um corolário imediato da Proposição (1.6.7).
Teorema 1.6.1 A composição de duas permutações pares ou de duas permutações ímpares
é uma permutação par. A composição de uma permutação ímpar e par é uma permutação
ímpar.

 Exemplo 1.6.5 (polinômios de Vandermonde). O polinômio de Vandermonde de n variáveis


x1 , x2 , . . . , xn é o polinômio multivariável
Y
(xj − xi ).
1≤i≤j≤n

   
n n
Este produto possui termos (e, portanto, possui grau ). Observe que cada termo no
2 2
produto corresponde exclusivamente a um par em Tn .
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 29

para um dado σ ∈ Sn , e dado um par (i j) ∈ Tn , o termo (xσ(j) − xσ(i) ) é igual a ±(xj 0 − xi0 )
para algum outro par (i0 , j 0 ) ∈ Tn e com o sinal sendo negativo se, e somente se, σ inverte o par
(i j). Como o sinal(σ) = (−1)inv(σ) , o sinal de uma permutação satisfaz

Y Y
(xσ(j) − xσ(i) ) = sinal(σ) (xj − xi ).
1≤i≤j≤n 1≤i≤j≤n

Alguns autores atribuem esta propriedade do polinômio de Vandermonde como a definição


do sinal(σ), sem referência a inversões. 

Finalmente apresentamos uma caracterização de permutações pares e ímpares que justificam


ainda mais a terminologia.

Teorema 1.6.2 Uma permutação é par (resp. Ímpar) se, e somente se, pode ser escrita como
um produto de um número par (resp. Ímpar) de transposições.

Demonstração. Como toda permutação σ ∈ Sn pode ser expressa como um produto das
transposições (Veja Exercício ), então σ = τ1 τ2 · · · τk .
Pela Proposição (1.6.7)

inv(σ) = inv(τ1 ) + inv(τ2 ) + · · · inv(τk ) (mod 2).

Pela Proposição (1.6.6) temos que inv(τi ) é ímpar para todo i e portanto, inv(σ) é par se,
e somente se, k for par. 

Exercícios
1. Escreva a notação de ciclo padrão para as seguintes permutações expressas em notação
de matriz.    
1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7
(a) (a)
6 3 2 4 7 1 5 3 5 7 2 1 6 4

2. Suponha que a permutação σ ∈ S8 dada na notação n-tupla seja (3, 2, 6, 4, 5, 8, 7, 1).


Descreva σ com um grafo dirigido e e escreva ele na notação cíclica padrão.

3. Liste todos os tipos de ciclo em S7 .

4. Seja σ = (a0 a1 a2 · · · am−1 ) um m-ciclo em Sn . Prove que σ k (ai ) = a(i+k)modm . Conclua


que a ordem de σ é m.

5. Seja σ um m-ciclo em Sn . Prove que ?k é um m-ciclo se, e somente se, mdc(k, m) = 1.


30 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

6. Suponha que ai sejam inteiros positivos distintos, onde i = 1, 2, · · · , m. Prove que


(a1 a2 a3 · · · am ) = (a1 am ) · · · (a1 a4 )(a1 a3 )(a1 a2 ). Use isso para mostrar que um m-ciclo
é par se e somente se m for ímpar.

7. Suponha que ai sejam inteiros positivos distintos, com i = 1, 2, · · · , m. Prove que


(a1 a2 a3 · · · am ) = (a1 a2 ) · · · (am−2 am−1 )(am−1 am ). Use isso para mostrar que um m-ciclo
é par, se e somente se, m for ímpar.

8. Use o Exercício (6) ou o Exercício (7) para mostrar que toda permutação pode ser escrita
como um produto de transposições.

9. Quantas permutações de ordem 4, o grupo S7 possui?

10. Em S5 , conte o número de inversões das seguintes permutações:


(a) σ = (1425); (b) τ = (143)(25); (c) ρ = (15)(23).

11. Em S6 , conte o número de inversões das seguintes permutações: (a) σ = (13562); (b)
τ = (16)(234); (c) ρ = (135)(246).

1.7 Subgrupos normais e grupos quocientes


Sabemos que uma classe lateral à esquerda e uma classe lateral à direita de um subgrupo H
em G não são necessariamente iguais. Se H = hri é o subgrupo gerado pela rotação em D4 , é
fácil ver que a classe lateral à esquerda de H em D4 é uma classe lateral à direita H em D4 .
Essa propriedade, chamada normal, que os subgrupos podem ter, tem um papel vital para a
construção dos grupos quocientes.
Estudaremos os subgrupos normais. Algumas das construções ou critérios desenvolvidos
nesta seção podem, à primeira vista, parecer desnecessariamente complicados se estivermos
simplesmente tentando generalizar a construção usada para criar a aritmética modular. A
diferença importante entre grupos gerais e (Z, +) é que o último é abeliano, enquanto grupos
em geral não são. Toda a dificuldade para construir grupos quocientes decorre da possível não
comutatividade de um grupo. Como veremos adiante, a normalidade de um subgrupo é uma
propriedade necessária para generalizar a construção aritmética modular.
Seja G um grupo e seja H ≤ G um subgrupo. Se uma classe lateral à esquerda gH é igual
à uma classe lateral à direita Hg 0 , então como 1 ∈ H, temos que g ∈ Hg 0 . Se g ∈ Hg 0 , então
Hg 0 = Hg como classe lateral à direita. Portanto, o critério de que um subgrupo é tal que toda
classe lateral à direita é igual a uma classe lateral à esquerda pode ser resumido na seguinte
definição.
1.7. SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 31

Definição 1.7.1 Seja G um grupo. Um subgrupo N ≤ G é chamado de normal se gN = N g


para todo g ∈ G. Se N for um subgrupo normal de G, escrevemos N E G.

 Exemplo 1.7.1 O subgrupo hri ≤ D4 , é um subgrupo normal, e o subgrupo em hsi não é um


subgrupo normal de D4 . Em notação, escrevemos hri E D4 e hsi 5 D4 

O critério para um subgrupo normal é equivalente a uma variedade de outras condições sobre
o subgrupo. Antes de listarmos essas condições, mencionamos alguns resultados imediatos da
definição. A primeira observação é que todo grupo G tem pelo menos dois subgrupos normais:
o grupo trivial {1} e o próprio G. A próxima proposição fornece outra condição suficiente para
que um subgrupo seja normal.

Proposição 1.7.1 Seja G um grupo (não necessariamente finito). Se H é um subgrupo tal


que |G : H| = 2, então H E G.

Demonstração. Por definição, se |G : H| = 2, então H tem duas classes lateais à esquerda,


assim como tem duas classes lateria à direita. Agora, H = 1H é uma classe lateral à esquerda.
Como a coleção de classes lateriais à esquerda forma uma partição de G, então G \ H é o
outro classe lateral à esquerda. Da mesma forma, H = H1 é uma classe lateral à direita e,
pela mesma razão de antes, G \ H é a outra classe lateral à direita. Portanto, toda classe late-
ral à esquerda é igual a uma classe ateral à direita e, portanto, H é um subgrupo normal de G. 

 Exemplo 1.7.2 Da Proposição (1.7.1), vemos imediatamente que hri, hr2 , si e hr2 , rsi são
subgrupos normais de D4 , simplesmente porque cada um desses subgrupos tem ordem 4 e
|D4 | = 8. 

Teorema 1.7.1 Seja N um subgrupo de G. Os seguintes são equivalentes:

1. N E G.

2. gN g −1 = N , para todo g ∈ G.

3. NG (N ) = G, onde NG (N ) é o normalizador de N em G, isto é, NG (N ) = {g ∈


G | gN g −1 = N }.

4. Para todos g ∈ G e para todos nm ∈ N , gng −1 ∈ N .

5. As relações ∼1 e ∼2 , definidas por a ∼1 b ⇔ a−1 b ∈ H e a ∼2 b ⇔ ba−1 ∈ H


respectivamente são relações iguais.

Demonstração. (1) ⇔ (2): Se gN = N g para todo g ∈ G, então pela multiplicação à direita


por g −1 , obtemos gN g −1 = N . Inversamente, dada a condição gN g −1 = N para todo g ∈ G,
32 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

multiplicando à direita por g, recuperamos gN = N g para todo g ∈ G.


(2) ⇔ (3): Isso é automático a partir da definição de normalizador.
(3) ⇔ (4):: Se gN g −1 = N para todo g ∈ G, então para todo n ∈ N , sabemos que gng −1 ∈ N .
Reciprocamente, assumindo (4), podemos concluir imediatamente que gN g −1 ⊆ N , para todo
g ∈ G. Observe que dado g ∈ G, já que g −1 também deve satisfazer a condição (3), também
sabemos que g −1 N g ⊆ N . Multiplicando à esquerda por g e à direita por g −1 , deduzimos que
N ⊆ gN g −1 . Como já tínhamos gN g −1 ⊆ N , concluímos que gN g −1 = N .
(1) ⇔ (5): A condição de que N é normal em G significa que toda classe lateral à esquerda é
uma classe lateral à direita. E isto equivale a dizer que toda classe de equivalência pela relação
∼1 é igual a uma classe de equivalência pela relação ∼2 . Assim, as relações de equivalência ∼1
e ∼2 são iguais. 

Ressaltamos que a condição gN g −1 = N não implica gng −1 = n para todo g ∈ G e todo


n ∈ N . Simplesmente implica que o processo de operação à esquerda por g e à direita por g −1
produz um bijeção em N .

Proposição 1.7.2 Se G é abeliano, então todo subgrupo H ≤ G é normal.

Demonstração. Para todo g ∈ G e h ∈ H, temos hdh−1 = gg −1 h = h ∈ H. Pelo Teorema


(1.7.1) item (4), concluímo que H E G. 

Essa proposição sugere por que generalizar a construção da aritmética modular para to-
dos os grupos apresenta algumas sutilezas que não eram aparentes na aritmética modular:
(Z, +) é abeliano. Por uma razão semelhante, também podemos concluir a proposição mais
geral.

Proposição 1.7.3 Seja G um grupo. Qualquer subgrupo H no centro Z(G) é um subgrupo


normal H E G.

Demonstração. Exercício para o leitor. 

Proposição 1.7.4 Seja G um grupo finito gerado por um subconjunto T . Seja N = hSi o
subgrupo gerado pelo subconjunto S. Então, N E G se, e somente se, para todo t ∈ T e
s ∈ S, tst−1 ∈ N .

Demonstração. Que a condição é necessária é uma consequência do Teorema (1.7.1) item


(4). Reciprocamente, todo elemento em N pode ser escrito como um produto finito s11 s22 · · · skk ,
1.7. SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 33

onde si ∈ S e i = ±1. Então:

g(s11 s22 · · · skk )g −1 = (gs11 g −1 )(gs22 g −1 ) · · · (gskk g −1 )



= (gs1 g −1 ) 1 (gs2 g −1 )2 · · · (gsk g −1 )k .

Vemos que se gSg −1 ⊆ N , então o produto acima à direita ocorre como um produto em N
e portanto g ∈ NG (N ). Suponha agora que sabemos apenas que para todo t?T e todo s ∈ S,
tst−1 ∈ N . Todo elemento g ∈ G pode ser escrito como um produto g = t1 t2 · · · tl , para ti ∈ T ,
possivelmente com repetições. Note que como G é finito, o inverso de qualquer t?T é tn−1 , onde
|t| = n. Provamos que N é normal por indução em l. Pelo que foi dito acima, se todo t ∈ T
satisfaz tSt−1 ⊆ N , então todo T ⊆ NG (N ). Agora suponha que todo produto de comprimento
l − 1 de elementos em T está em NG (N ). Considere um produto de comprimento l, ou seja,
t1 t2 · · · tl e n ∈ N .

(t1 t2 · · · tl )n(t1 t2 · · · tl )−1 = t1 (t2 t3 · · · tl )n(t2 t3 · · · tl )−1 t−1 0 −1


1 = t1 n t1

para algum elemento n0 ∈ N, já que t2 t3 · · · tl ∈ NG (N ).


Entretanto, t1 ∈ NG (N ), então t1 n0 t−1
1 ∈ N e portanto t1 t2 · · · tl ∈ N . Por indução, concluí-

mos que todo produto finito t1 t2 · · · tl ∈ NG (N ). Logo, G ⊆ NG (N ) e assim G = NG (N ) e N é


normal em G. 

 Exemplo 1.7.3 Considere o grupo D8 e considere o subgrupo H = hr4 , si, veremos se H é ou


nãp subgrupo normal de D8 . Note que H = {1, r4 , s, sr4 }. Precisamos fazer quatro cálculos:

r(r4 )r−1 , sr4 s−1 = r4 , rsr−1 = r8 , sss−1 = s.

Pelo Teorema (1.7.1), o terceiro cálculo rsr−1 = r6 ∈


/ H, mostra que H não é um subgrupo
normal de D8 . 

É importante observar que, ao contrário da relação de subgrupo ≤ no conjunto de subgrupos


de G, a relação de subgrupo normal E não é transitiva. A ilustração mais fácil vem do grupo
diedral D4 . Pela Proposição (1.7.1), vemos que hr2 , si E D4 e hsi E hr2 , si. No entanto, hsi não
é um subgrupo normal de D4 . Portanto,

K E H E G < K E G.

Uma razão intuitiva para esta propriedade da relação de subgrupo normal é que mesmo se
hKh−1 ⊆ K para todo h ∈ H, a condição gKg −1 ⊆ K para todo g ∈ G é uma condição mais
forte e pode não se manter.
34 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Podemos agora contextualizar a terminologia de “normalizador” de um subgrupo. Lembre-se


que
NG (H) = {g ∈ G |gHg −1 ⊆ H}.

Conseqüentemente, NG (H) é o maior subgrupo K de G tal que H E K. O normalizador fornece


alguma forma de medir o quanto um subgrupo H está longe de ser normal. Para todo H ≤ G,
temos
H ≤ NG (H) ≤ G,

com NG (H) = G se e somente se H E G. Falando intuitivamente, podemos dizer que H está


mais longe de ser normal quando NG (H) = H.
Exercício 1.7.1 Prove que se H, K ≤ G são dois subgrupos, então HK é um subgrupo de G
se e somente se HK = KH como conjuntos. 

Corolário [Link] SefH ≤ NG (K), então HK é um subgrupo de G. Em particular, se K E G,


então HK é um subgrupo de G para todo H ≤ G.

Demonstração. Exercício para o leitor. 

Definição 1.7.2 Seja G um grupo e seja g ∈ G.

• Se x ∈ G, então o elemento gxg −1 é chamado de conjugado de x por g.

• Se S ⊆ G é umsubconjunto qualquer, então o subconjunto gSg −1 também é chamado


de conjugado de S por g.

Proposição 1.7.5 Seja G um grupo e defina a relação ∼c em G por x ∼C y se, y = gyg −1


para algum g ∈ G. Então , ∼c é uma relação de equivalência. A relação ∼c é chamada de
relação de conjugação.

Demonstração. Exercício para o leitor. 

A classe de conjugação de um elemento x ∈ G é o conjunto [x] = {gxg −1 | g ∈ G}. Pela Pro-


posição (1.7.5) e propriedades das relações de equivalência, temops que as classes de conjugação
em G particionam o grupo G.

 Exemplo 1.7.4 [Classes de conjugação em Sn ]. Para determinar todas as classes de conjugação


em Sn , primeiro provamos a seguinte afirmação. Para todos os m-ciclos (a1 a2 · · · am ) e para
todas as permutações σ ∈ Sn ,

σ(a1 a2 · · · am )σ −1 = (σ(a1 )σ(a2 ) · · · σ(am )). (1.1)


1.7. SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 35

Escreva τ = σ(a1 a2 · · · am )σ −1 e seja i = 1, 2, · · · , m − 1. A permutação τ aplicada a σ(ai )



σ(a1 a2 · · · am )σ −1 σ(ai ) = (σ(a1 a2 ) · · · am ) · ai = σ(ai+1 ).

Se i = m, então similarmente vemos facilmente que τ aplicado a τ (σ(am )) = σ(a1 ). Vi-


mos que τ permuta o conjunto {σ(a1 ), σ(a2 ), · · · , σ(am )}. Se b ∈ {1, 2, · · · , n}, mas b ∈
/
{σ(a1 ), σ(a2 ), · · · , σ(am )}, então existe c ∈ {1, 2, · · · , n} \ {a1 , a2 , · · · , am } tal que b = σ(c).
Então
τ (b) = σ(a1 a2 · · · , am )σ −1 σ(c) = σ(a1 a2 · · · am ) · c = σ(c) = b.

Calculamos para onde τ envia todos os elementos e descobrimos que τ é dado pela equação
(1.1).
Agora todo elemento w ∈ Sn é um produto de ciclos disjuntos, w = τ1 τ2 · · · τm . Além disso,
podemos escrever
σwσ −1 = (στ1 σ −1 )(στ2 σ −1 ) · · · (στm σ −1 ), (1.2)

onde cada στi σ −1 é calculado da equação (1.1). Como exemplo numérico, usando apenas as
equações (1.1) e (1.2) determinamos que

(1354)(142)(35)(1354)−1 = (312)(54) = (123)(45).

Conseqüentemente, podemos ver que se uma permutação w tem um determinado tipo de


ciclo, então para todo σ ∈ Sn , σwσ −1 terá o mesmo tipo de ciclo.
Reciprocamente, se duas permutações w1 , w2 ∈ Sn têm o mesmo tipo de ciclo, então usando
(1.1) e (1.2), podemos encontrar um σ ∈ Sn tal que w2 = σw1σ −1 . Assim, as classes de
conjugação em Sn são precisamente os conjuntos de permutações que possuem o mesmo tipo
de ciclo. Portanto, a tabela no Exemplo (??) fornece as classes de conjugação em S6 e fornece
a quantidade de cada uma. 

Classes de conjugação e subgrupos normais estão intimamente relacionados da seguinte


maneira. Se N é um subgrupo normal de um grupo G e x ∈ N , então pelo Teorema (1.7.1)
gxg −1 ∈ N para todo g ∈ G. Conseqüentemente, a classe de conjugação de x está em N . Isso
leva à seguinte proposição .

Proposição 1.7.6 Um subgrupo H ≤ G é normal se, e somente se, é a união de algumas


classes de conjugação.

É fácil ver que se H é um subgrupo de um grupo G, e g ∈ G, então gHg −1 também


é um subgrupo de G que é isomorfo a H. Além disso, defina a relação ∼c no conjunto de
subgrupos Sub(G), conjunto de todos os subgrupos de G, definidos por H ∼c K se, e somente
36 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

se, K = gHg −1 para algum g ∈ G. É fácil mostrar que ∼c é uma relação de equivalência em
Sub(G). Se H é um subgrupo normal, então gHg −1 = H para todo g ∈ G. Na linguagem de
classes de equivalência, H E G se, e somente s,e a classe de equivalência de H é o conjunto
unitário {H}.
Iniciamos a seção propondo generalizar a todos os grupos a construção que leva de (Z, +)
à adição em aritmética modular, (Z/nZ, +). Agora estamos em condições de generalizar a
construção aritmética modular para grupos gerais.
Um dos pontos-chave para nos permitir construir Z/nZ foi o resultado inócuo de que se
a ≡ c e b ≡ d, então a + b ≡ c + d. Podemos reformular isso como adição de conjuntos dizendo
(a+nZ)+(b+nZ) = (a+b)+nZ. Para generalizar a construção aritmética modular, precisamos
de um resultado semelhante para grupos em geral.
Seja G um grupo e seja ∼ uma relação de equivalência em G. Diremos informalmente que a
relação de equivalência se comporta bem com relação à operação se para todo g1 , g2 , h1 , h2 ∈ G,

g1 ∼ g2 e h1 ∼ h2 ⇒ g1 h1 ∼ g2 h2 . (1.3)

Seja ∼ uma relação de equivalência em um grupo G que se comporta bem com relação à
operação. Então no conjunto quociente G/ ∼, ou seja, o conjunto das classes de equivalência,
podemos definir a operação · por

x̄ · ȳ = xy.
¯ (1.4)

Em virtude da condição (1.3), esta operação está bem definida. Deixamos isso como exercício
para o leitor provar que (G/ ∼, ·) é um grupo.

Proposição 1.7.7 Suponha que ∼ é uma relação de equivalência sobre G que se comporta
bem com respeito a operação. Então a classe de equivalência de 1 é N . Além disse, as classes
de equivalências de ∼ são da forma gN .

Demonstração. Seja N = [1] é a classe de equivalência do 1. Obviamente, N é um subcon-


junto não vazio de G. Seja x, y ∈ N . Então x ∼ 1 e y ∼ 1. Pela equação (1.3), xy ∼ 1, então
N é fechado sob a operação. Como x−1 ∼ x−1 , pela equação (1.3) temos xx−1 ∼ 1x−1 , o que
implica que 1 ∼ x−1 . Conseqüentemente, N é fechado tomadando-se inversos. Isso estabelece
que N ≤ G. Agora, seja n ∈ N e seja g qualquer elemento do grupo. Por definição, n ∼ 1.
Usando a equação (1.3) duas vezes, primeiro vemos que gn ∼ g e depois gng −1 ∼ gg −1 . Pelo
Teorema (1.7.1) item (4), temos que N ≤ G.
Finalmente, considere a classe de equivalência [g] de um elemento arbitrário g ∈ G. Seja
1.7. SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 37

h ∈ [g]. Então, h ∼ g e como g −1 ∼ g −1 , pela equação (1.3) obtemos que g −1 g ∼ 1, então


g −1 ∈ N e portanto h ∈ gN . O raciocínio inverso também é válido, de modo que h ∈ gN
implica que h ∼ g. Assim, [g] = gN . 

Esta proposição estabelece que uma relação de equivalência que se comporta bem com
respeito à operação de grupo define um subgrupo normal. No entanto, o inverso é verdadeiro.

Proposição 1.7.8 Seja N um subgrupo normal de um grupo G. O conjunto de todas as


classes laterais à esquerda de N formam uma partição de G, que corresponde a uma relação
de equivalência ∼ que se comporta bem com relação à operação de grupo.

Demonstração. Sabemos que as classes de conjugação à esquerda de N (que também são


classes laterais à direita pois N é normal) formam uma partição G e que uma partição define
uma única relação de equivalência em G. (Faça este exercício). Sejam g1 , g2 na mesma classe
lateral à esquerda de N e seja h1 , h2 ena mesma classe lateral à esquerda de N . Então, g2−1 g1 ∈ N
e h−1
2 h1 ∈ N . Então,

h−1 −1
1 g2 g1 h1 ∈ N, pois g2−1 g1 ∈ N e N E G
1 )(h1 g2 g1 h1 ) ∈ N, pois h2 h1 ∈ N
⇒ (h2 h−1 −1 −1 −1

⇒ h−1 g −1 gh ∈ N
⇒ (g 2 h2 )1 (g1 h1 ) ∈ N
e concluímos que g2 h2 e g1 h1 estão na mesma classe lateral à esquerda de N .
Consequentemente, a relação de equivalência definida pela partição das classes laterais à
esquerda de N se comporta bem com relação à operação de grupo. 

A proposição (1.7.7) pode ser reformulada da seguinte maneira.

Corolário [Link] Seja G um grupo e N um subgrupo normal. O conjunto de todas as classes


laterais à esquerda de N com a operação

(xN )(yN ) = (xy)N (1.5)

tem a estrutura de um grupo com identidade N e inversa dada por (xN )−1 = x−1 N .

Demonstração. A expressão (1.4) é justamente a propriedade (1.5) de uma relação de equi-


valência que se comporta bem com relação à operação de grupo. A associatividade segue imedia-
tamente da associatividade em G e da equação (1.4). É óbvio que (gN )(N ) = (gN )(1N ) = gN ,
o que mostra que N é a identidade. Finalmente, para todo g ∈ G, a equação (1.4) dá
(gN )(g −1 N ) = (gg −1 )N = N de forma que gN tem um inverso (gN )−1 = g −1 N . 
38 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Definição 1.7.3 Seja G um grupo e N um subgrupo normal. O grupo definido como o


conjunto de todas as classes laterais à esquerda de N (que são iguais aos classes lateais à
direita, já que N E G) com a operação definida no Corolário ([Link]), é chamado de grupo
quociente de G por N , e é denotado por G/N .

A importância da Proposição (1.7.8) é que um grupo de quociente G/N , onde N E G, é a única


maneira pela qual qualquer conjunto de quocientes G/ ∼ de G pode ser transformado em um
grupo com uma operação herdada de G via (1.4).

 Exemplo 1.7.5 Como primeiro exemplo, observe que (Z/nZ, +) é o grupo quociente de Z por
nZ. Como Z é abeliano, todo subgrupo é normal. De fato, a notação para aritmética modular
inspirou a notação para grupos de quocientes em geral. 

 Exemplo 1.7.6 Considere o grupo diedral sobre o quadrado, D4 , e considere R = hri, o


subconjunto das rotações. Uma vez que R tem índice 2, R E D4 . O grupo quociente consiste
em dois elementos D4 /R = {R, sR}. Seguindo o hábito da notação com aritmética modular, é
comum escrever 1̄ para R e s̄ para sR.
Considere as tabelas de Cayley de D4 e do grupo quociente D4 /R. Quando a tabela de
Cayley de um grupo G é organizada de modo que os elementos na mesma classe N sejam
contíguos, então blocos de tamanho |N | × |N | na tabela de Cayley original corresponderá a
uma única entrada na tabela de Cayley do grupo de quociente G/N . (Veja a Figura (1.20).)

Figura 1.20: Tabela de Cayley D4 e de D4 /hri

Nesta situação particular, a tabela Cayley de D4 /R carrega uma interpretação geométrica


1.7. SUBGRUPOS NORMAIS E GRUPOS QUOCIENTES 39

interessante. Como as classes laterais de R corresponde a todas as rotações em D4 e como sR


corresponde a todas as reflexões através da reta de simetria, podemos interpretar a tabela de
Cayley acima para D4 /hri como:

Figura 1.21: Tabela de CayleyD4 e de D4 /hri

Portanto, toda rotação composta por uma rotação é uma rotação; toda rotação composta
por um reflexão é uma reflexão, e assim por diante. 

Conforme ilustrado nos dois exemplos anteriores, é comum imitar a notação usada na arit-
mética modular e denotar um classe de conjugação gN no grupo quociente G/N por g. Na
aritmética modular, o módulo é entendido pelo contexto. Da mesma forma, quando usamos
essa notação g, o subgrupo normal é entendido pelo contexto.

 Exemplo 1.7.7 . Como outro exemplo, considere o subgrupo N = h1i em Q8 . Pela Proposição
(1.7.3), como N é o centro de Q8 , é um subgrupo normal. Os elementos no grupo quociente
Q8 /N são {?1, i, j, k}. É fácil ver que i2 = −1 = 1 e similarmente para j e k. Assim, todos
os elementos diferentes da identidade tem ordem 2. Conseqüentemente, podemos concluir que
Q8 /N ∼= Z2 ⊕ Z2 . 

Exercícios
1. Prove que An é um subgrupo normal de Sn .

2. Determine se hr2 i é normal em D8 .

3. Determine se h(12)(34), (13)(24)i é normal em A4 .

4. Encontre todos os subgrupos normais de D6 .

5. Prove que H E G para todos os subgrupos H ≤ Z(G).

6. Prove que todo subgrupo de Q8 é um subgrupo normal. [Isso mostra que a recíproca da
Proposição (1.7.2) é falsa.]

7. Seja F = Q, R, C ou Fp onde p é primo.

8. Prove que para todos os inteiros positivos n, SLn (F ) E GLn (F ).


40 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

9. Seja G um grupo. Prove que, se H ≤ G é o único subgrupo de uma dada ordem n, então
H E G.

10. Seja G um grupo. E sejma H ≤ G e N E G. Prove que H ∩ H ∩ N E H.

11. Prove que a interseção de dois subgrupos normais N1 , N2 de um grupo G é um subgrupo


normal N1 ∩ N2 E G.

12. Seja N1 e N2 subgrupos normais de G. Prove que o produto N1 N2 é um subgrupo normal


em G.

13. Seja {Ni }i∈I uma coleção de subconjuntos normais de G. Prove que a interseção ∩i∈I Ni
é um subgrupo normal. Não assuma que I é finito.

14. Suponha que um subgrupo H ≤ G seja tal que se h ∈ H com |h| = n, então H contém
todos os elementos em G de ordem n. Prove que H é um subgrupo normal.

15. Seja A qualquer subconjunto de um grupo G. Prove que CG (A) E NG (A).

16. Prove que se g ∈ Z(G), então a classe de conjugação de g é o conjunto sunitário {g}.

1.8 Homomorfismos de Grupos


Um problema importante é determinar se dois grupos dados G e H são de alguma forma
iguais. Por exemplo, investigamos S3 , o grupo de todas as permutações de X = {1, 2, 3}.
O grupo SY de todas as permutações de Y = {a, b, c} é um grupo diferente de S3 porque as
permutações de {1, 2, 3} são diferentes das permutações de {a, b, c}. Mas, embora S3 e SY sejam
diferentes, eles certamente têm uma forte semelhança entre si (faça este exemplo). Um exemplo
mais interessante é a forte semelhança entre S3 e D6 , as simetrias de um triângulo equilátero.
As noções de homomorfismo e isomorfismo nos permitem comparar diferentes grupos, como
veremos.
Na definição a seguir utilizaremos ∗ e ◦ para representar as operações binárias dos grupos
considerados e facilitar o entendimento da definição.
Definição 1.8.1 Sejam (G, ∗) e (H, ◦) grupos. A função f : G → H é um homomorfismo se,
para todo a, b ∈ G,
f (a ∗ b) = f (a) ◦ f (b)

Se f é uma aplicação injetora, dizemos que f é um monomorfismo, se f é sobrejetora dizemos


que f é um epimorfismo. Agora se f é injetora e sobrejetora (isto é uma bijeção) dizemos que
f é um isomorfismo. Dizemos que G é isomorfo a H, denotamos por G ∼ = H, se existe um
1.8. HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 41

isomorfismo f : G → H. Um homomorfismo de G em G é chamado um endomorfismo de G, e


um isomorfismo de G em G é chamado um automorfismo. Denotaremos por Aut(G) o conjunto
de todos os automorfismos de G.

 Exemplo 1.8.1 Fixe um número real positivo b e considere a função f (x) = bx . As regras de
potências afirmam que para todo x, y ∈ R,

bx+y = bx by .

Na linguagem da teoria de grupos, essa identidade pode ser reafirmada dizendo que a função
exponencial f (x) = bx é um homomorfismo de (R, +) para (R, ×). 

 Exemplo 1.8.2 A função de inclusão f : (Z, +) → (R, +) dada por f (x) = x é um homomor-
fismo. 

 Exemplo 1.8.3 A função f : Zn → (Zn dada por f (x) = x2 é um homomorfismo. Seja z um


gerador de Zn . Então para todo z a , z b ∈ (Zn ,

f (z a z b ) = (z a z b )2 = (z a+b )2 = z 2(a+b) = z 2a+2b = z 2a z 2b = f (z a )f (z b ).

 Exemplo 1.8.4 Seja n um inteiro maior que 1. A função φ(a) = ā que associa um inteiro para
¯ b = ā+ b̄
sua classe de congruência emZn é um homomorfismo. Onde a adição é definida por a +
Verifique isso. 

 Exemplo 1.8.5 (Determinante). Seja F um dos seguintes corpos Q, R ou C. A função deter-


minante det : GLn (F ) 7→ F ∗ (com a operação de multiplicação em F ) é um homomorfismo. Este
é precisamente o conteúdo do teorema em álgebra linear que afirma det(AB) = det(A)det(B).
Este resultado também se aplica à base aritmética modular com módulo p, quando p é um
número primo. A função determinante det : GLn (Fp ) → U (p) é um homomorfismo por causa
da mesma identidade. 

 Exemplo 1.8.6 (Função Sign). Definimos a função de sinal em Sn como

sign(σ) = (−1)inv(σ).

Em outras palavras, sign(σ) = 1 se σ for par e sign(σ) = −1 se σ for ímpar. Agora para todo
σ, τ ∈ Sn ,

sinal(στ ) = (−1)inv(στ ) = (−1)inv(σ)+inv(τ ) = (−1)inv(σ) (−1)inv(τ ) = sinal(σ)sinal(τ ),

onde a segunda igualdade vale por causa da Proposição (1.6.7). Assim, a função sinal é um de
homomorfismo sinal : Sn → ({1, −1}, ×). Essa função sinal desempenha um papel crucial em
muitas aplicações do grupo simétrico e a revisaremos com frequência. 
42 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Um homomorfismos cumpre as seguintes propriedades elementares listadas a seguir

Proposição 1.8.1 Seja f : G → H um homomorfismo. Então valem:

(i) f (eG ) = eH , onde eH é a identidade em H;

(ii) Se a ∈ G, então f (a−1 ) = f (a)−1 ;

(iii) Se a ∈ G e n ∈ Z, então f (an ) = f (a)n ;

Demonstração. A verificação desses fatos é um bom exercício para o leitor. 

Na álgebra linear, os conceitos de núcleo e imagem de uma transformação linear desempe-


nham um papel central em muitas aplicações, incluindo encontrar soluções para sistemas de
equações, estabelece propriedades de soluções para equações diferenciais e outras. Os conceitos
de núcleo e imagem desempenham um papel diferente, mas igualmente importante, na teoria
de grupos.
Definição 1.8.2 Seja φ : G → H um homomorfismo entre grupos.

• O kernel de φ é Ker φ = {g ∈ G | φ(g) = eH }, onde eH é a identidade em H.

• A imagem de φ é Im φ = {h ∈ H | ∃g ∈ G, φ(g) = h}.

Proposição 1.8.2 Seja φ : G → H um homomorfismo de grupos. O núcleo Ker φ é um


subgrupo de G.

Demonstração. O núcleo Ker φ é não vazio, pois eG ∈ Ker φ. Consideremos agora x, y ∈


Ker φ. Então,
φ(xy −1 ) = φ(x)φ(y −1 ) já que ϕ é um homomorfismo
= φ(x)φ(y)−1 pela Proposição (1.8.1) item (ii)
H = eH já que x, y ∈ Ker φ.
= eH e−1
Portanto, xy −1 ∈ Ker φ. Assim, Ker φ ≤ G. 

Proposição 1.8.3 Seja φ : G → H um homomorfismo de grupos. A imagem Im φ é um


subgrupo de H.

Demonstração. Exercício para o leitor. 

 Exemplo 1.8.7 Considere o homomorfismo det : GLn (R) → R∗ . (Ver Exemplo (1.8.5)). O
núcleo do homomorfismo determinante é o conjunto de matrizes cujo determinante é 1, ou seja,
SLn (R), o grupo especial linear. 
1.8. HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 43

 Exemplo 1.8.8 Considere a função sinal : Sn → ({1, −1}, ×) conforme definido no Exemplo
(1.8.6). O kernel Ker(sinal) é precisamente o grupo alternante An como um subgrupo de Sn .
A função φ é sobrejetiva, então a imagem é todo conjunto {1, 1}. 

O núcleo e a imagem de um homomorfismo estão intimamente ligados se o homomorfismo é


injetivo ou sobrejetivo. De fato, dado o resultado do teorema a seguir, começando com o kernel
e a imagem de um homomorfismo o teorema descreve o quão longe o homomorfismo está de ser
uminjetivo ou de ser sobrejetivo.

Proposição 1.8.4 Seja φ : G → H um homomorfismo de grupos. Então

1. φ é injetivo se, e somente se, Ker φ = {eG }.

2. φ é sobrejetivo se, e somente se, H = Im φ.

Demonstração. A verificação deste fato é deixado para o leitor. 

Vimos alguns exemplos em que os grupos, embora apresentados de forma diferente, podem
na verdade parecer surpreendentemente iguais. Por exemplo (Zn , ·) e (Z/nZ, +) se comportam
de forma idêntica e da mesma forma para (Z, +) e (2Z, +), onde 2Z significa todos os números
pares. Isso levanta as questões:
(1) quando devemos chamar dois grupos de iguais e;
(2) o que exatamente significa chamar dois grupos de iguais.
Definição 1.8.3 Sejam G e H dois grupos. Uma função φ : G → H é chamada de isomorfismo
se:

(i) φ é um homomorfismo;

• ([ii]) φ é uma bijeção.

Se existe um isomorfismo entre dois grupos G e H, então dizemos que G e H são isomorfos
e escrevemos G ∼= H.

Quando dois grupos são isomorfos, eles são considerados como iguais para os efeitos da teoria
de grupos. Poderíamos ter definido um isomorfismo como uma bijeção φ tal que tanto φ quanto
φ−1 são ambos homomorfismos. No entanto, isso acaba sendo mais pesado do que o necessário,
como mostra a proposição a seguinte.

Proposição 1.8.5 Se φ é um isomorfismo, então φ−1 : H → G é um homomorfismo.

Demonstração. A verificação deste fato é deixado para o leitor. 


44 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

 Exemplo 1.8.9 Seja b um número real positivo. Sabemos que f (x) = bx é uma bijeção entre
R e R>0 com função inversa f −1 (x) = logb x = (ln x)/(ln b). O Exemplo (1.8.1) mostrou que f é
um homomorfismo e portanto é um isomorfismo entre (R, +) e (R> 0, ×). A proposição (1.8.5)
implica que f −1 (x) = logb x é um homomorfismo de (R> 0, ×) com (R, +). 

 Exemplo 1.8.10 Neste exemplo, fornecemos um isomorfismo entre GL2 (F2 ) e S3 . Considere
a seguinte função:
  φ
1 0
→ Id
0 1
1 1
→ (1 2)
0 1
1 0
→ (1 3)
1 1
0 1
→ (2 3)
1 0
1 1
→ (1 2 3)
1 0
0 1
→ (1 3 2)
1 1
Se compararmos a tabela de grupo em GL2 (F2 ) e a tabela de grupo em S3 , descobrimos que
esta função particular φ preserva o jeito como os elementos de grupo operam, estabelecendo
que φ é um isomorfismo. 

Proposição 1.8.6 Seja φ : G → H seja um isomorfismo de grupos. Então:

1. |G| = |H|.

2. G é abeliano se, e somente se, H é abeliano.

3. φ preserva as ordens dos elementos, ou seja, |x| = |φ(x)| para todo x ∈ G.

Demonstração. A parte (1) decorre imediatamente da exigência de que φ é uma bijeção.


Para a parte (2), suponha que G seja abeliano. Sejam h1 , h2 ∈ H. Como φ é sobrejetivo, existe
g1 , g2 ∈ G tal que φ(g1 ) = h1 e φ(g2 ) = h2 . Então

h1 h2 = φ(g1 )φ(g2 ) = φ(g1 g2 ) = φ(g2 g1 ) = φ(g2 )φ(g1 ) = h2 h1 .

Portanto, mostramos que se G é abeliano, então H é abeliano. Repetindo o argumento com


φ−1 estabelece o inverso, ou seja, se H é abeliano, então G é abeliano.
Considere primeiro o caso em que a ordem |x| = n é finito. Para (3), já vimos que φ(xn ) =
φ(x)n pela Proposição (1.8.1) item (iii). Então, 1H = φ(1G ) = φ(xn ) = φ(x)n . Daí, a ordem de
1.8. HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 45

|φ(x)| é finita e divide |x|. Aplicando o mesmo argumento a φ−1 e ao elemento φ(x), deduzimos
que |x| divide a ordem de |φ(x)|.
Portanto, já que |x| e |φ(x)| são ambos positivos e se dividem |x| = |φ(x)|.
Considere agora o caso em que a ordem de x é infinita. Suponha que φ(x)m = 1H para
algum m > 0. Então φ(xm ) = 1H e como φ é injetivo, deduzimos novamente que xm = 1G .
Portanto, a ordem de x é finita. Mas isso é uma contradição, então se |x| é infinito então |φ(x)|
é infinito. Reciprocamente, aplicando o mesmo argumento a φ−1 , temos que se |φ(x)| é infinito
então |x| é infinito. 

A Proposição (1.8.6) é particularmente útil para provar que dois grupos não são isomorfos.
Se a condição (1) ou (2) falhar, os grupos não podem ser isomorfos. Além disso, se dois grupos
tiverem um número diferente de elementos de uma determinada ordem, então a Proposição
(1.8.6) item (iii) não pode ser válida para nenhum isomorfismo e, portanto, os dois grupos não
são isomorfos.
No entanto, ressaltamos que as três condições da Proposição (1.8.6) são condições necessá-
rias, mas não suficientes: pois se todas as três condições são válidas, não podemos deduzir que
φ é um isomorfismo. O Exemplo (1.8.12) ilustra isso.
Observação. Se dois grupos são isomorfos, eles têm reticulados de subgrupos isomorfos (como
posets). No entanto, a recíproca não é verdadeira. Existem muitos pares de grupos não
isomórficos com redes de subgrupos que são isomorfas como posets. Consulte a Figura (1.22)
para saber um exemplo deste fato.

Figura 1.22: Grupos não isomorfos com mesmo reticulado

 Exemplo 1.8.11 Provamos que D4 e Q8 não são isomorfos. Ambos são de ordem 8 e são não
abelianos. No entanto, em D4 apenas os elementos r e r3 têm ordem 4, enquanto em Q8 , os
elementos i, −i, j, −j, k, −k são todos de ordem 4. Consequentemente, não pode existir uma
bijeção entre D4 e Q8 que satisfaz a Proposição (1.8.6). Portanto, D4  Q8 . 
46 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

 Exemplo 1.8.12 A ordem parcial do Exemplo estabelece uma bijeção entre Q>0 e N∗ . A
partir desta bijeção é fácil provar que existe bijeção entre Q e Z. Porém, não existe isomorfismo
entre (Z, +) e (Q, +). Este resultado não segue da Proposição (1.8.6). Com efeito, |Z| = |Z|,
Z e Q são ambos abelianos, e todos os elementos diferentes de zero de ambos os grupos têm
ordem infinita. Suponha que exista um isomorfismo f : Q → Z. Se r é um número racional e
n ∈ Z, então pela Proposição (1.8.1) item (iii) com adição, f (n · r) = n · f (r). Suponha que
definimos f (1) = a, para algum a diferente de zero. Então

2a 1
a = f (1) = f ( ) = 2a · f ( ).
2a 2a

Isso implica que 1 = 2f ( 2a


1
). Mas isso é uma contradição, pois f (1/2a) ∈ Z e contradiz a
hipótese de que existe um isomorfismo entre Z e Q. 

O exemplo motivador de que Zn ∼


= Z/nZ dado no anteriormente pode ser generalizado para
um resultado mais amplo para quaisquer grupos cíclicos.

Proposição 1.8.7 Dois grupos cíclicos de mesma cardinalidade são isomorfos.

Demonstração. Lembre-se que os grupos cíclicos são abelianos. Primeiro suponha que G e
H são grupos cíclicos finitos, ambos de ordem n. Suponha que G seja gerado por x e que H
seja gerado por y. Defina a função φ : G → H por φ(xa ) = y a . Como H é abeliano, φ é um
homomorfismo; precisamos provar que é uma bijeção.
A imagem de φ é {φ(xk ) | 0 ≤ k ≤ n − 1} = {y k | 0 ≤ k ≤ n − 1} = H, portanto, φ
é uma sobrejeção. Uma sobrejeção entre conjuntos finitos é uma bijeção. Portanto, φ é um
isomorfismo.
A prova é similar se G e H são grupos cíclicos infinitos. (Deixamos a prova para o leitor.
Veja Exercício) 

Por causa da Proposição (1.8.7), podemos falar do grupo cíclico de ordem n.


A noção de grupo não isomorfo é o termo teórico de grupo para "diferente". A questão
“Qual é o tipo de isomorfismo de G?” significa encontrar um grupo conhecido que é isomorfo
a G. Por exemplo, a partir do resultado do Exemplo (1.8.10), podemos dizer que o tipo de
isomorfismo de GL2 (F2 ) é S3 . O tipo de isomorfismo da expressão é impreciso porque não existe
uma lista padrão de grupos não isomorfos com os quais pudessemos comparar cada grupo.
Para entender a estrutura interna de um grupo, é comum determinar o tipo de isomorfismo
de vários subgrupos. Por exemplo, em D6 todos os subgrupos de ordem 2 são isomorfos a Z2 ;
o único subgrupo de ordem 3, ou seja, hr2 i, é isomorfo a Z3 ; os subgrupos de ordem 4, ou seja,
1.9. O GRUPO DE AUTOMORFISMOS 47

hs, r3 i, hsr, r3 i e hsr2 , r3 i, são todos isomorfos a Z2 ⊕ Z2 ; e para os subgrupos de ordem 6 temos:

hri ∼
= Z6 mas hs, r2 i ∼
= hsr, r2 i ∼
= D3 .

Se um homomorfismo φ : G → H é injetivo, então ao restringir o contradomínio, a função


φ : G → Im φ é um isomorfismo. Uma vez que φ estabelece um isomorfismo entre G e um
subgrupo de H, então um homomorfismo injetivo de G para H é freqüentemente chamado
de iimersão de G em H. Este termo é usado de maneira semelhante no contexto de outras
estruturas algébricas (por exemplo, monóides, anéis, corpos e assim por diante).

1.9 O grupo de Automorfismos


Considere o grupo Z7 gerado pelo elemento z e a função f : Z7 → Z7 definida por f (g) = g 2 .
Observe primeiro que f (z) = z 2 e como mdc(2, 7) = 1, então z 2 gera Z7 . Portanto, como
z 2 ∈ Im f , então Imf = Z7 e f é sobrejetivo. Como f é uma função sobrejetiva entre
conjuntos de mesma cardinalidade, ela é bijetiva. O Exemplo (1.8.3) mostrou que f também
é um homomorfismo e, portanto, é um isomorfismo. Os isomorfismos de um grupo para si
desempenham um papel importante e, portanto, carregam uma terminologia particular.
Definição 1.9.1 Um homomorfismo φ : G → G de um grupo em si mesmo é chamado de
endomorfismo. Um isomorfismo ψ : G → G é chamado de automorfismo de G. O conjunto
de todos os automorfismos em um grupo G é denotado por Aut(G).

Proposição 1.9.1 O conjunto de automorfismos de um grupo G é um grupo com operação


de composição. De fato, Aut(G) ≤ SG .

Demonstração. Chamamos de SG o grupo de bijeções em G. O conjunto Aut(G) é um


subconjunto não vazio, pois a função identidade idG é um automorfismo. Agora suponha que
φ, ψ ∈ Aut(G) e sejam x, y ∈ G. Então

(φ ◦ ψ −1 )(xy) = φ(ψ −1 (xy)) = φ(ψ −1 (x)ψ −1 (y))


= φ(ψ −1 (x))φ(ψ −1 (y)) = (φ ◦ ψ −1 )(x)(ψ ◦ ψ −1 )(y).

Assim, φ ◦ ψ −1 ∈ Aut(G) para φ arbitrário, ψ ∈ Aut(G) e, pelo critério de subgrupo de uma


etapa, Aut(G) é um subgrupo de SG . 

O grupo de automorfismo de um grupo G fornece alguma descrição grupo téorica das si-
metria dentro do grupo G. Nem sempre é fácil determinar Aut(G), mas a Proposição (1.8.6)
restringe consideravelmente as possibilidades. Vários exercícios orientam o leitor a determinar
48 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

o grupo de automorfismo de alguns grupos básicos. Como primeiro exemplo, mencionamos a


seguinte proposição para Aut(Zn ).

Proposição 1.9.2 Seja n um inteiro maior que 2. Então Aut(Zn ) = U (n).

Demonstração. A prova é deixada como um exercício guiado para o leitor. 

Proposição 1.9.3 Seja H um subgrupo qualquer de um grupo G. Então, para todo g ∈


NG (H), a função ψg : H → H definida por ψg (h) = ghg −1 é um automorfismo de H. Além
disso, a associação ψ : NG (H) → Aut(H) definido por ψ(g) = ψg é um homomorfismo

Demonstração. Seja h1 , h2 ∈ H. Então

ψg (h1 h2 ) = gh1 h2 g −1 = gh1 g −1 gh2 g −1 = ψg (h1 )ψg (h2 ).

Isso prova que ψ é um homomorfismo. É fácil verificar que ψg−1 = ψg−1 , então para todo
g ∈ NG (H), a função ψg é uma bijeção e, portanto, um automorfismo de H. Agora seja
a, b ∈ NG (H) arbitrário. Então para todo h ∈ H,

ψab (h) = (ab)h(ab)−1 = abhb−1 a−1 = a(bhb−1 )a−1 = ψa (ψb (h)).

Assim, ψ(ab) = ψ(a)◦ψ(b), o que estabelece que ψ : NG (H) → Aut(H) é um homomorfismo. 

A proposição acima se aplica em particular quandoN E G, caso em que NG (N ) = G.


Todo grupo sempre tem pelo menos dois subgrupos normais, ou seja, o grupo trivial {1} e o
próprio G. É possível que o grupo não contenha nenhum outro subgrupo normal. Por exemplo,
se p for primo, então Zp tem apenas os dois subgrupos {1} e Zp , então esses são os dois únicos
subgrupos normais.
Definição 1.9.2 Um grupo G é chamado simples se não contém subgrupos normais além de
{1} e dele próprio.

Os grupos simples serão vistos com mais detalhes mais adiante. Vale observar que, Zp é
um grupo simples sempre que p for um número primo. Determinar se um grupo é simples nem
sempre é uma tarefa “simples”. ’Destacamos uma outra família de grupos que é simples, ogrupo
alternado An com n ≤ 5.
Discutimos como, para entender a estrutura interna de um determinado grupo, muitas vezes
comparamos subgrupos de um grupo com algum grupo que já é bem conhecido. Poderíamos
considerar o processo inverso: Dado um grupo G, podemos obter G como (isomorfo a) um
1.9. O GRUPO DE AUTOMORFISMOS 49

subgrupo de alguma família natural de grupos? O Teorema de Cayley responde a essa per-
gunta e mostra que a complexidade de qualquer grupo finito reside na complexidade de grupos
simétricos.
Teorema 1.9.1 (Teorema de Cayley) Todo grupo finito G é isomorfo a um subgrupo de Sn
para algum n.

Demonstração. Escreva os elementos de G como G = {g1 , g2 , · · · , gn }. Defina a função


ψ : G → Sn por ψ(g) = σ onde

ggi = gσ(i) para todo ∈ {1, 2, · · · , n}.

Então ψ(g) é a permutação em G de como a multiplicação à esquerda por g permuta os


elementos de G. Precisamos mostrar que ψ é um homomorfismo. Seja g, h ∈ G com ψ(g) = σ
e ψ(h) = τ . Então para todo 1 ≤ i ≤ n, temos ggi = gσ(i) e hgi = gτ (i) . Então

(hg)gi = h(ggi ) = hgσ(i) = gτ (σ(i)) = gτ σ(i) para todo i ∈ {1, 2, · · · , n}.

Assim, ψ(hg) = τ σ = ψ(h)ψ(g) e assim ψ é um homomorfismo. A seguir mostramos que φ é


injetora. Suponha que g, h ∈ G com ψ(g) = ψ(h). Então em particular gg1 = hg1 . Operando
à direita porg1−1 , deduzimos que g = h. Se restringirmos o contradomínio de ψ ao subgrupo
Im ψ em Sn , veremos que ψ torna-se um isomorfismo entre G e Im ψ. 

A prova do Teorema de Cayley mostra que G é isomorfo a um subgrupo de Sn onde |G| = n.


É importante perceber que a ordem |G| não é necessariamente o menor inteiro m tal que G
é isomorfo a um subgrupo de Sm . Veja o Exemplo (1.9.1) A prova do Teorema de Cayley
não é particularmente profunda. No entanto, tem consequências importantes, especialmente no
que diz respeito ao uso de um sistema de álgebra computacional (CAS) para realizar cálculos
grupo teóricos. A implementação da composição de funções de bijeções em conjuntos finitos
é simples de programar. Conseqüentemente, definir um grupo G como algum subgrupo de Sn
torna possível (se não fácil) realizar as operações de grupo em G em um CAS.

 Exemplo 1.9.1 Seja G = D4 , o grupo diedral sobre o quadrado. A prova do Teorema de Cayley
estabelece um isomorfismo entre D4 e um subgrupo de S8 . Para encontrar um tal isomorfismo φ,
rotule os elementos de D4 com g1 = 1, g2 = r, g3 = r2 , g4 = r3 , g 5 = s, g6 = sr, g7 = sr2 , g8 = sr3 .
Calculamos facilmente que

rg1 = r = g2 , rg2 = r2 = g3 , rg3 = r3 = g4 , rg4 = 1 = g1 ,

rg5 = rs = g8 , rg6 = rsr = g5 , rg7 = rsr2 = g6 , rg8 = rsr3 = g7 .


50 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Portanto, φ(r) = (1234)(5876). Além disso,

sg1 = s = g5 , sg2 = sr = g6 , sg3 = sr2 = g7 , sg4 = sr3 = g8 ,

sg5 = 1 = g1 , sg6 = r = g2 , rg7 = r = g2 , rg7 = rsr2 = g2 , sg8 = r3 = g4 .

Portanto, φ(s) = (15)(26)(37)(48). Consequentemente, deduzimos que

D4 ∼
= h(1234)(5876), (15)(26)(37)(48)i.

Este não é o único isomorfismo natural entre D4 e um subgrupo de um grupo simétrico.


Considere Dn como introduzido no Exemplo (1.5.1), onde r e s operam sobre os vértices como
elementos em S4
A maneira apropriada de entender esta ideia é definir um homomorfismo φ : D4 → S4
por φ(r) = (1234) e φ(s) = (24). Para todos os elementos ra sb ∈ D4 , a função φ é φ(ra sb ) =
(1234)a (24)b . Verificando exaustivamente todas as operações, podemos verificar que esta função
é um homomorfismo. No entanto, sabemos que r e s foram originalmente definidos como as
funções (1234) e (24), portanto esse homomorfismo é natural. O homomorfismo φ é injetivo e,
portanto, estabelece um isomorfismo entre D4 e o subgrupo h(1234), (24)i em S4 . 

 Exemplo 1.9.2 Sejam G = S3 o grupo de todas as permutações do conjunto X = {1, 2, 3} e


H o grupo cíclico de ordem 6. Os grupos G e H não são isomorfos pois o grupo H é abeliano
e o grupo G não é abeliano. 

 Exemplo 1.9.3 Seja G = Iso(T ) = D3 o grupo das isometrias do triângulo equilatero T , e


considere H = S3 o grupo simétrico. Com as notações dos exemplos ??? e ???, numere os
vértices do triângulo T com 1, 2, 3 respectivamente no sentido anti-horário, defina a aplicação
ψ que associa a os elementos de G e H da seguinte forma: se α, β representam a rotação de
um ângulo de 120
 e 240 respectivamente através
0 0
 da origem do plano, então associamos a α
1 2 3 1 2 3
a permutação e β a permutação e se r, s e t representam as retas
2 3 1 3 1 2
passando pelos vérices
 1, 2 e 3de T respectivamente
  e a origem, então  associamos
 as seguintes
1 2 3 1 2 3 1 2 3
permutações: r 7→ , s 7→ e finalmente t 7→ . A aplicação
1 3 2 3 2 1 2 1 3
definida desta maneira é um homomorfismo, para ver isso basta compara ambas tabelas de
multiplicação. Sendo ela uma bijeção, temos um isomorfismo. 

Exercícios
1. Seja φ : G → H um homomorfismo entre grupos. Prove que Imφ ≤ H.

2. Encontre todos os homomorfismos de Z/15Z a Z/20Z.


1.9. O GRUPO DE AUTOMORFISMOS 51

3. Prove que a função φ : G → G definida por φ(g) = g −1 é um homomorfismo se, e somente


se, G é abeliano.

4. Seja Z/33Z gerado por um elemento y e Z/12Z por um elemento z. Suponha que φ :
Z/33Z → Z/12Z é um homomorfismo satisfazendo φ(y 7 ) = z 8 . Encontre φ(x); determine
Ker φ; e determine Im φ.

5. Que falácia comum na álgebra elementar é abordada pela afirmação de que “a função
f : (R, +) → (R, +) com f (x) = x2 não é um homomorfismo?

6. Encontre todos os homomorfismos Z5 → S5 . Encontre também todos os homomorfismos


S5 → Z5 .

7. Seja φ : G → H um homomorfismo. Prove que para todo g ∈ G, a ordem |φ(g)| divide a


ordem |g|.

8. Sejam φ e ψ homomorfismos entre dois grupos G e H. Prove ou refute que {g ∈ G | φ(g) =


ψ(g)} é um subgrupo de G.

9. Considere a função f : U (33) → U (33) definida por f (x) = x2 . Mostre que f é um


homomorfismo e encontre o kernel e a imagem de f .

10. Prove que a função f : GL2 (R) → GL3 (R) com


 2 
  a 2ab b2
a b
f = ac ad + bc bd
c d
c2 2cd d2

é um homomorfismo e encontre o núcleo de f .

11. Encontre todos os homomorfismos de Z → Z. Determine quais são isomorfismos.

12. Prove que se um homomorfismo φ : G → H é injetivo, então G ∼


= φ(G).

13. Prove que D6 e A4 não são isomorfos.

14. Prove que D12 e S4 não são isomorfos.

15. Prove que (R∗ , ×) e (C∗ , ×) não são isomorfos.

16. Prove ou refute que U (7) e U (9) são isomorfos.

17. Seja G um grupo, seja H um subgrupo e seja g ∈ G.


52 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

(a) Prove que gHg −1 = {ghg −1 |h ∈ H} é um subgrupo de G.

(b) Prove que a função φg : H → gHg −1 por φg (h) = ghg −1 é um isomorfismo entre H
e gHg −1 . [Dizemos que o subgrupo gHg −1 é um conjugado de H.]

18. Seja G um grupo e seja g ∈ G. Defina a função ψg : G → G por ψg (x) = gxg −1 .

(a) Prove que ψg é um automorfismo de G com inversa (ψg )−1 = ψg−1 .

(b) Prove que a função ψG → Aut(G) definida por ψ(g) = ψg é um homomorfismo. [Um
automorfismo da forma ψg é chamado de automorfismo interno. A imagem de ψ em
Aut(G) é chamada de grupo de automorfismos internos e é denotada por Inn(G).]

19. Este exercício determina o grupo de automorfismo Aut(Zn ). Suponha que o Zn seja
gerado pelo elemento z.

(a) Prove que todo homomorfismo ψ : Zn → Zn é completamente determinado pela


imagem do gerador z.

(b) Prove que todo homomorfismo ψ : Zn → Zn é da forma ψ(g) = g a para algum inteiro
a com 0 ≤ a ≤ n − 1. Para o escopo deste exercício, denote por ψa o homomorfismo
tal que ψa (g) = g a .

(c) Prove que ψa ∈ Aut(Zn ) se, e somente se, mdc(a, n) = 1.

(d) Mostre que a função ψ : U (n) → Aut(Zn ) com ψ(a) = ψa é um isomorfismo para
concluir que U (n) ∼
= Aut(Zn ).

1.10 Teoremas do Isomorfismo


Vimos nas seções anteriores que as propriedades de grupos quocientes de um grupo G podem
implicar em relações entre certos subgrupos de G. Podemos dizer muito mais, Discutiremos
agora os quatro Teoremas do Isomorfismo, que descrevem a estrutura adicional dentro de um
grupo.
Quando introduzimos o conceito de homomorfismo, demos a explicação intuitiva de que um
homomorfismo preserva a estrutura do grupo. O primeiro dos Teoremas do Isomorfismo mostra
mais precisamente em que sentido um homomorfismo carrega a estrutura de um grupo para
um outro grupo.
Teorema 1.10.1 — Primeiro Teorema do Isomorfismo. Seja φ : G → H um homomorfismo
entre grupos. Então Kerφ E G e G/Ker φ ∼
= Im φ.
1.10. TEOREMAS DO ISOMORFISMO 53

Demonstração. Da Proposição (1.8.2) temo que Ker φ E G. Assim, G/Ker φ é um grupo


e seus elementos são as classes laterais à esquerda da de Ker φ em G, isto é, tem a forma
g(Ker φ). Definimos a função

φ : G/Ker φ → Imφ = φ(G)


g(Ker φ) 7→ φ(g).
Para qualquer g ∈ G, o elemento g é apenas um dos muitos possíveis representantes da
classe gKer φ. Assim, para verificar se esta é uma função esta bem definida, primeiro pre-
cisamos verificar se dados g(Kerφ), h(Kerφ) são elementos quaisquer em G/Ker φ tais que
φ(g(Kerφ)) = φ(g(Kerφ)) , então h−1 g ∈ Ker φ. Assim, φ(h−1 g) = 1 e logo φ(g) = φ(h).
No entanto, é fácil verificar que φ é um homomorfismo. Além disso, φ é sobrejetivo já que
todo elemento φ(g) em φ(G) é obtido como a imagem da classe gKer φ, pela definição de φ.
Resta ver a injetividade, sejam g1 , g2 ∈ G. Então

φ|(g1 Ker φ) = φ(g2 Ker φ) ⇔ φ(g1 ) = φ(g2 )


⇔ φ(g2 )−1 φ(g1 ) = 1 ⇔ φ(g2−1 g1 ) = 1
⇔ g2−1 g1 ∈ Ker φ ⇔ g1 Ker φ = g2 Ker φ.
Isso prova a injetividade de φ. Conseqüentemente, φ é bijetiva e, portanto, um isomorfismo.


O Primeiro Teorema do Isomorfismo mostra que a imagem de um isomorfismo, como um


subgrupo do contradomínio, deve existir dentro da estrutura do grupo do domínio, não como
um subgrupo, mas como um grupo quociente. Este teorema também mostra como qualquer
homomorfismo φ : G → H pode ser fatorado via o epimorfismo natural (projeção canônica)
π : G → G/Ker φ e um homomorfismo injetor φ : G/Ker φ → H de modo que φ = φ ◦ π.
Frequentemente, representamos essa relação pelo seguinte diagrama comutativo.

G
π / G/Ker φ
φ
φ
( 
H
O Primeiro Teorema do Isomorfismo leva a muitas consequências sobre grupos, algumas
elementares e outras mais profundas. Uma implicação é que se φ : G → H é um homomorfismo
injetivo, então Ker φ = {1} e então G/Ker φ = G ∼= φ(G). E desta forma dizemos que G está
imerso em H, ou que φ é uma imersão de G em H isto devido ao fato que φ envia G em uma
cópia exata de si mesmo como um subgrupo de H.
Como outro exemplo, suponha que G seja um grupo simples. Por definição, ele não contém
subgrupos normais além do subgrupo trivial e dele mesmo. Portanto, pelo Primeiro Teorema do
54 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Isomorfismo, qualquer homomorfismo φ de G é injetivo (Ker φ = {1}) ou trivial (φ(G) = {1}).


Assim, sob qualquer homomorfismo, um grupo simples é uma imersão em qualquer outro grupo
ou sua imagem é trivial. Combinando o primeiro teorema do isomorfismo com o teorema de
Lagrange, podemos deduzir o seguinte corolário.

Corolário 1.10.1.1Sejam G e H grupos finitos com mdc (|G|, |H|) = 1. Então o único
homomorfismo φ : G → H é o homomorfismo trivial, isto é φ(g) = 1H

Demonstração. Como φ(G) ≤ H, então pelo Teorema de Lagrange |φ(G)| divide |H|. Pelo
Primeiro Teorema do Isomorfismo, |φ(G)| = |G|/|Ker φ|. Conseqüentemente |φ(G)| divide |G|.
Portanto, |φ(G)| divide mdc(|G|, |H|) = 1, então |φ(G)| = 1. O único subgrupo de H que
possui apenas 1 elemento é {1H}. 

O Primeiro Teorema do Isomorfismo leva a muitos outros resultados mais sutis na teoria dos
grupos. O Teorema do Normalizador-Centralizador a seguir é uma consequência imediata, mas
é importante por si só. Veremos como esse teorema implica restrições mais sutis na estrutura
interna de um grupo, levando a consequências para a classificação dos grupos (que vermos em
álgebra 3).

Teorema 1.10.2 Seja H um subgrupo de um grupo G. Então NG (H)/CG (H) é isomorfo a


um subgrupo de Aut(H).

Demonstração. Pela Proposição (1.9.3), a função ψ : NG (H) → Aut(H), definida por


ψ(g) = ψg , onde ψg : H → H com φg (n) = gng −1 é um homomorfismo. O subgrupo de
imagens ψ(NG (H)) ≤ Aut(H) poderia estar estritamente contido em Aut(H). Agora o kernel
de ψ é precisamente

Ker ψ = {g ∈ NG (H) | ghg −1 = h, para todo h ∈ H} = CG (H).

Pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo, deduzimos que NG (H)/CG (H) é isomorfo ψ(NG (H)),
que é um subgrupo de Aut(H). 

Teorema 1.10.3 Seja G um grupo e sejam A e B sejam subgrupos tais que A ≤ NG (B).
Então AB é um subgrupo de G, B E AB, A ∩ B E A e

AB/B ∼
= A/A ∩ B.
1.10. TEOREMAS DO ISOMORFISMO 55

Demonstração. Como A ≤ NG (B), então A normaliza B e AB, que também é um subgrupo


de G. Assim, B E AB.
Defina a função φ : A → AB/B por ψ(a) = aB. Este aplicação é um homomorfismo, pois
a operação de grupo em AB/B está bem definida:

φ(a1 a2 ) = (a1 a2 )B = (a1 B)(a2 B) = φ(a1 )φ(a2 ).

Claramente φ é sobrejetora, então φ(A) = AB/B, determinaremos agora o núcleo de φ.


Agora φ(a) = 1B se, e somente se, aB = 1B se, e somente se, a ∈ B. Isso significa que
Kerφ = A ∩ B. Assim, A ∩ B = AB/B e pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo temos que

A/A ∩ B = AB/B.

O Segundo Teorema do Isomorfismopode ser visualizado pelo seguinte esquema.

Figura 1.23: Visualização do Segundo Teorema do Isomorfismo

No diagrama acima, assumindo A ≤ NG (B), então os lados opostos marcados com um


traço não apenas têm o mesmo índice, |AB : B| = |A : A ∩ B|, mas correspondem a subgrupos
normais e satisfazem AB/B ∼
= A/A ∩ B. Por outro lado, se B ≤ NG (A), então os ados opostos
marcados com dois traços satisfazem a mesmo propriedade. Finalmente, no caso especial em
que A e B são ambos subgrupos normais de G, o Segundo Teorema do Isomorfismo se aplica a
ambos os pares de lados opostos do reticulado acima.
Teorema 1.10.4 [Terceiro Teorema do Isomorfismo] Seja G um grupo e sejam H e K subgrupos
normais de G com H ≤ K. Em seguida, K/H E G/H e (G/H)/(K/H) ∼
= G/K.
56 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Demonstração. Considere o mapeamento φ : G/H → G/K com φ(gH) = gK. Primeiro


mostraremos que φ é uma função bem definida. Suponha que g1 H = g2 H. Então g1−1 g2 ∈ H.
Mas como H ≤ K, então g1−1 g2 ∈ H implica que g1−1 g2 ∈ K. Assim, g1 K = g2 K. Logo, φ
está bem definido. Por propriedades das classes laterias, φ é um homomorfismo sobrejetivo. O
núcleo de φ é
Ker φ = {gH ∈ G/H | g ∈ K} = K/H.

Agora, pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo, deduzimos que K/HEG/H e que (G/H)/(K/H) ∼
=
G/K. 

 Exemplo 1.10.1 Um exemplo simples do Terceiro Teorema do Isomorfismo diz respeito a


subgrupos de G = Z. Seja H = 48Z e K = 8Z. Temos H ≤ K e, como G é abeliano,
tanto H quanto K são subgrupos normais. Nós temos G/H = Z/48Z, K/H = 8Z/48Z = h8i, e
G/K = Z/8Z, onde em K/H, o elemento 8 está em Z/48Z. O Terceiro Teorema do Isomorfismo
dá (Z/48Z)/(8Z/48Z) ∼
= Z/8Z. 

 Exemplo 1.10.2 Seja G o grupo de simetrias em R3 nos vértices do cubo que preservam a
estrutura do cubo. Este grupo é semelhante ao grupo diedral sobre o quadrado, porém mais
complicado porque as rotações no plano correspondem a movimentos rígidos do cubo. Além
disso, este grupo é estritamente maior que o grupo de movimentos rígidos de um cubo, pois
também inclui reflexões através de planos.
Podemos ver que |G| = 48 raciocinando da seguinte maneira. Sob uma simetria σ do cubo,
o vértice 1 pode ser enviado para qualquer um dos outros oito vértices. Então, sob uma simetria
do cubo, as três arestas incidentes no vértice 1 podem ser enviadas de qualquer maneira para
as três arestas incidentes com σ(1). Existem 3! = 6 possibilidades para este envio de arestas
incidentes. Apartir, do momento que sabemos onde 1 é aolicado, e onde vão suas arestas
incidentes, o resto da definição da aplicação depende do cubo é completamente determinado.
Portanto, |G| = 8 × 6 = 48.
Verifique que o grupo de movimentos rígidos R, que não inclui reflexões através de planos, é
isomórfico a S4 como o grupo de permutação nas 4 diagonais maiores. O grupo R de movimentos
rígidos de um cubo é apenas um subgrupo de G. Como |G : R| = 2, então R E G. A Figura
(??)ilustra três simetrias de um cubo, duas reflexões através de um plano e uma rotação em
torno de uma diagonal longa. As reflexões através de planos não são movimentos rígidos. A
reflexão através de uma diagonal longa é um movimento rígido, mas existem muitos outros
movimentos rígidos.
Considere também o subgrupo H de G gerado pelas rotações por múltiplos de 1200 sobre
1.10. TEOREMAS DO ISOMORFISMO 57

Figura 1.24: Simetrias do Cubo

as diagonais longas. Não é difícil ver que todas as simetrias do cubo são geradas por reflexões
através de planos. Se f é uma reflexão através de um plano e r é uma rotação de 2π/3 através
de uma diagonal longa L, então f rf −1 é a rotação através da diagonal longa L0 = f (L), ou
seja, obtida refletindo L via f . A partir do Teorema, concluímos que H E G. Observe que,
se visualizarmos R como S4 por meio de como ele permuta as diagonais longas do cubo, H é
gerado por 3 ciclos e, portanto, H corresponde ao subgrupo A4 em R.
Este exemplo dá uma situação em que H ≤ R ≤ G e ambos H e R são subgrupos normais de
G. Podemos interpretar o grupo quociente G/R ∼
= Z2 como carregando a informação de se uma
simetria é um movimento rígido (preservando orientação) ou um movimento rígido refletido
(invertendo a orientação). O grupo quociente R/H ∼ = Z2 carrega informações sobre se um
movimento rígido é ímpar ou par na identificação de R com S4 . Finalmente, G/H ∼
= Z2 ⊕ Z2
contém informações sobre par versus ímpar e preservação da orientação versus reversão da
orientação. Intuitivamente falando, o Terceiro Teorema do Isomorfismo, que afirma que

(G/H)/(R/H) ∼
= G/R,

diz que esta informação sobre orientação está contida sem perda de estrutura em G/H. 

Teorema 1.10.5 [Teorema da Correspondência] Seja G um grupo com um subgrupo normal


N . Então existe uma bijeção entre os subgrupos A de G que contém N e o conjunto de
subgrupos de G/N . A bijeção é dada por A ↔ A = A/N . Além disso, esta bijeção é tal que
para todos os subgrupos A, B com N ≤ A, B ≤ G temos:

1. A ≤ B se, e somente se, A/N ≤ B/N .

2. Se A ≤ B, então |B/N : A/N | = |B : A|.

3. hA/N, B/N h= hA, Bi/N .

4. A/N ∩ B/N = (A ∩ B)N .

5. A E G se, e somente se, A/N E G/N

Demonstração. (As partes (2) a (5) são deixadas como exercícios para o leitor. Para a parte
58 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

(1), suponha primeiro que A ≤ B. Então, para todo gN ∈ A/N , temos que g ∈ A ⊆ B e,
portanto gN ∈ B/N . Reciprocamente, suponha que A/N ≤ B/N . Seja a ∈ A. Então pela
hipótese, aN ∈ B/N . Se aN = bN para algum b ∈ B,então b−1 a ∈ N . Mas, N ≤ B. Então,
b−1 a = b0 e portanto a = bb0 . Assim, a ∈ B. Logo, A ≤ B. 

O Teorema da correspondência também é chamado de quarto Teorema do Isomorfismo.


Ele afirma que o retículado de um grupo quociente G/N pode ser encontrada a partir de um
reticulado de G ignorando todos os vértices e arestas que não estão acima de N no reticulado
de G. Além disso, a parte 2 indica que se cada aresta é marcada no retículado com o índice
entre os grupos, então este índice é preservado quando passamos para o quociente.

 Exemplo 1.10.3 Considere o grupo quatérnio Q8 . Observe que Z(Q8 ) = h−1i e, portanto,
este é um subgrupo normal. O seguinte diagrama representa o retículado de Q8 . Colocamos
arestas duplas em todas as partes do diagrama acima do subgrupo h−1i. Assim, de acordo
com o quarto Teorema do Isomorfismo, o reticulado de Q8 /h−1i é a subdiagrama envolvendo
somente as arestas duplas. 

Figura 1.25: Reticulado de Q8 e de Q8 /h−1i.

O Quarto Teorema do Isomorfismo é um paralelo de como os retículados interagem com os


subgrupos. O reticulado de um subgrupo H de um grupo G pode ser encontrada a partir do
reticulado de G, ignorando todos os vértices e arestas que não estão abaixo de H na reticulado
de G. Salientamos que um grupo não pode ser completamente determinado a partir de G/N e
N . Note que, se G = D3 com N = hri em comparação com Z6 com N = hz 2 i para um exemplo.
Em ambos os casos G/N ∼ = Z2 e N ∼
= Z3 .
1.11. PRODUTO DIRETO 59

1.11 Produto direto


Vamos definir o produto direto externo de grupos, uma maneira de obter novos grupos a partir
de grupos já conhecidos.
Definição 1.11.1 — Produto direto. Seja {G1 , G2 , . . . , Gn } uma coleção finita de grupos. O
produto direto externo de G1 , G2 , . . . , Gn , denotado por G1 ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gn , é o conjunto
de todas as n-tuplas para as quais o i-ésimo componente é um elemento de Gi e a operação
é efetuada componente a componente.

Em símbolos, podemos escrever

G1 ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gn = {(g1 , g2 , · · · , gn ) | gi ∈ Gi },

onde a operação entre dois elementos (g1 , g2 , · · · , gn ) e (g10 , g20 , · · · , gn0 ) é definido por

(g1 , g2 , · · · , gn ) · (g10 , g20 , · · · , gn0 ) = (g1 + g10 , g2 + g20 , · · · , gn0 + gn0 ).

Fica subentendido que cada produto gi gi0 é realizado com a operação considerada no grupo Gi .
Se os grupos Gi são finitos, então das propriedades de conjuntos temos que

|G1 ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gn | = |G1 | |G2 | · · · |Gn |.

Ao longo do texto, optamos por utilizar a notação G ⊕ H para denotar o produto direto de
G e H. Entretanto, é mais comum encontrar a notação G × H.
n
M
Teorema 1.11.1 Seja H = Gi , com Gi grupos. Então, H é também um grupo.
i=1

Demonstração. Sejam ai , bi ∈ Gi . Da Definição 1.11.1, sabemos que:

(a1 , a2 , . . . , an )(b1 , b2 , . . . , bn ) = (a1 b1 , a2 b2 , . . . , an bn ) ∈ H pois cada um dos Gi é grupo.

Portanto H é fechado. Além disso, temos que:

(a1 , a2 , . . . , an )[(b1 , b2 , . . . , bn )(c1 , c2 , . . . , cn )] = (a1 , a2 , . . . , an )(b1 c1 , b2 c2 , . . . , bn cn )


= ((a1 b1 )c1 , (a2 b2 )c2 , . . . , (an bn )cn )
= (a1 b1 , a2 b2 , . . . , an bn )(c1 , c2 , . . . , cn )
= [(a1 , a2 , . . . , an )(b1 , b2 , . . . , bn )](c1 , c2 , . . . , cn ),

logo a associatividade se mantém em H.

Podemos ver que a identidade de H é (e1 , e2 , . . . , en ), sendo ei a identidade de Gi .


60 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Por fim, basta notar que o inverso de todo elemento (a1 , a2 , . . . , an ) em H é dado por
(a−1 −1 −1
1 , a2 , . . . , an ). 

Observação. Segue da Definição 1.11.1 que (g1 , g2 , . . . , gn )k = (g1k , g2k , . . . , gnk ), ou seja, a
potência “se distribui” nas entradas.

 Exemplo 1.11.1 Sabemos da Álgebra Linear que R2 = R ⊕ R e R3 = R ⊕ R ⊕ R, isto é,


que o espaço euclidiano bidimensional e tridimensional é soma direta de R com a operação
coordenada a coordenada sendo a adição. 

 Exemplo 1.11.2 Sejam U (8) e U (10) os elementos invertíveis de Z8 e Z10 com respeito a
multiplicação. Então temos que

U (8) ⊕ U (10) = (1, 1), (1, 3), (1, 7), (1, 9), (1, 9), (3, 1), (3, 3),
(3, 7), (3, 9), (5, 1), (5, 3), (5, 7), (5, 9)
(7, 1), (7, 3), (7, 7), (7, 9) .

O produto (3, 7)(7, 9) = (21, 63) = (5, 3), pois a primeira componente fazemos a multiplcação
módulo 8 e na segunda componente a multiplicação módulo 10. 

 Exemplo 1.11.3 O produto direto Z2 ⊕ Z3 é formado pelos elementos

{(0, 0), (0, 1), (0, 2), (1, 0), (1, 1), (1, 2)}.

Este grupo é claramente um grupo abeliano de ordem 6. Este grupo na verdade a menos de iso-
morfismo o mesmo que Z6 . De fato, o elemento (1, 1) gera todos os elementos em Z2 ⊕Z3 . Como
a operaç!ão é componente a componente temos que 1.(1, 1) = (1, 1), 2(1, 1) = (0, 2), 3(1, 1) =
(1, 0), 4(1, 1) = (0, 1), 5(1, 1) = (1, 2) e 6(1, 1) = (0, 0). Portanto, temos que Z2 ⊕ Z3 é cíclico, e
assim Z2 ⊕ Z3 ∼ = Z6 . 

Agora que definimos Z2 ⊕ Z2 , fica mais fácil classificarmos os grupos de ordem 4.


Teorema 1.11.2 — Classificação dos grupos de ordem 4. Todo grupo de ordem 4 é isomorfo a
Z4 ou Z2 ⊕ Z2 .

Demonstração. Se G não é um grupo cíclico, então existe um único modo de criar uma
tabela de multiplicação para G. Pelo Teorema de Lagrange a ordem dos elementos de G são
obrigatoriamente 1 ou 2. Sejam a e b dois elementos distintos de G diferentes da identidade.
Então pela lei do cancelamento temos que ab 6= a e ab 6= b. Além disso, ab 6= 1, pois do
contrário a = b−1 = b. Assim, G = {1, a, b, ab} e que a tabela é unicamente determinada segue
da observação que (ab)−1 = b−1 a−1 = ba. 
1.11. PRODUTO DIRETO 61

Vimos nos Exemplo (1.11.3) e no Teorema (1.11.2) um caso em que s Zn ⊕ Zm é isomorfo


à Zmn e o no que não. Veremos a seguir uma caracterização que garante quando temos o
isomorfismo.
Teorema 1.11.3 Seja M
Gi = {(g1 , g2 , . . . , gn ) | gi ∈ Gi } .
i≤n

Então, |(g1 , g2 , . . . , gn )| = mmc(|g1 |, |g2 |, . . . , |gn |).

Demonstração. Sejam s = mmc(|g1 |, |g2 |, . . . , |gn |) e t = |(g1 , g2 , . . . , gn )|.

Por um lado, temos que:

(g1 , g2 , . . . , gn )s = (g1s , g2s , . . . , gns ) = (e1 , e2 , . . . , en )

pois s é múltiplo de cada |gi |. Logo, t ≤ s.

Por outro lado, temos que:

(g1t , g2t , . . . , gnt ) = (g1 , g2 , . . . , gn )t = (e1 , e2 , . . . , en )

logo t é um múltiplo comum de |g1 |, |g2 |, . . . , |gn |. Portanto, s ≤ t e concluímos que s = t, pelo
Princípio da Tricotomia. 

 Exemplo 1.11.4 Exemplos de grupos de ordem 100 incluem Z100 ; Z25 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ; Z5 ⊕ Z5 ⊕ Z4 ;


Z5 ⊕ Z5 Z2 ⊕ Z2 ; D50 ; D10 ⊕ Z5 ; D5 ⊕ Z10 e D5 ⊕ D5 . O Fato que todos estes grupo são não
isomorfos segue do Teorema (1.11.3). 

 Exemplo 1.11.5 Determinamos o número de elementos de ordem 5 em Z25 ⊕Z5 . Pelo Teorema
(1.11.3), podemos contar o número de elementos (a, b) em Z25 ⊕ Z5 , com a propriedade que
5 = |(a, b)| = mmc(|a|, |b|). Claramente, isso requer que |a| = 5 e |b| = 1 ou 5, ou |b| = 5 e
|a| = 1 ou 5. Consideramos dois casos mutuamente exclusivos.
Caso 1 Se |a| = 5 e |b| = 1 ou 5. Neste caso temos quatro opções para a (ou seja, 5, 10, 15 e
20) e cinco opções para b. Isso fornece 20 elementos de ordem 5.
Caso 2 Se |a| = 1 e |b| = 5. Desta vez temos uma escolha para a e quatro escolhas para b,
então obtemos mais quatro elementos de ordem 5. Assim, Z25 ⊕ Z5 possui 24 elementos de
ordem 5. 

Teorema 1.11.4 Sejam G e H grupos cíclicos finitos. Então, G ⊕ H é cíclico se, e só se,
mdc(|G|, |H|) = 1, isto é, |G| e |H| são primos entre si.
62 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Demonstração. Sejam |G| = m e |H| = n. Daí, |G ⊕ H| = mn (pelo Princípio Fundamental


da Contagem). Suponha que G⊕H é cíclico e que h(g, h)i = G⊕H. Suponha que mdc(m, n) =
d. Como (g, h)mn/d = ((g m )n/d , (hn )m/d ) = (e, e), temos que mn = |(g, h)| ≤ mn/d e, portanto,
d = 1.

Agora, suponha que mdc(m, n) = 1 e G = hgi e H = hhi. Então, |(g, h)| = mmc(|g|, |h|) =
?
mmc(m, n) = mn = |G ⊕ H|, em que em ? usamos o fato de que mmc(a, b) mdc(a, b) = ab para
quaisquer a, b ∈ Z. Logo, G ⊕ H = h(g, h)i. 

Corolário [Link] Um produto externo direto G1 ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gn de um número finito de


grupos cíclicos finitos é cíclico se, e só se, |Gi | e |Gj | são relativamente primos quando i 6= j.

Demonstração. Para n = 2 temos o Teorema 1.11.4. Suponha que o corolário vale para
n = k > 2. Então, para n = k + 1, temos

G ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gk ⊕ Gk+1 .
|1 {z } | {z }
G H

k
M k
Y
Sejam |Gi | = ni para i = 1, 2, . . . , k + 1, G = Gi de modo que |G| = ni e H = Gk+1 .
i=1 i=1
k+1
Y
Daí, |G ⊕ H| = ni .
i=1

k
!
Y
Suponha que G ⊕ H = h(g1 , g2 , . . . , gk , h)i e que mdc(|G|, |H|) = mdc ni , nk+1 = d.
i=1
Daí, temos:
k+1 k+1 k
1Y 1Y 1Y !
ni ni ni
d i=1 d i=2 d i=1
(g1 , g2 , . . . , gk , h) = (g1n1 ) , . . . , (hnk+1 ) = (e, e, . . . , e).

k+1 k+1
Y 1Y
Logo, ni = |(g1 , g2 , . . . , gk , h)| ≤ ni , ou seja, d = 1.
i=1
d i=1

Como nenhum dos ni compartilha fator primo para i = 1, 2, 3, . . . , k e d = 1 implica que


nk+1 não compartilha fator primo com nenhum dos ni , concluímos que todos os ni são primos
entre si para i = 1, 2, 3, . . . , k, k + 1.
k
!
Y
Agora, suponha que mdc ni , nk+1 = 1. Daí, pela hipótese de indução, sabemos que
i=1
todos os ni são relativamente primos para 1 ≤ i ≤ k. Pela nossa hipótese, nk+1 é relativamente
1.11. PRODUTO DIRETO 63

primo ao produto dos ni , que são primos entre si, logo nk+1 é relativamente primo a todos os
ni , isto é, mdc(ni , nj ) = 1 para i 6= j.

Tome G = h(g1 , g2 , . . . , gk )i e H = hhi. Então, temos:


k+1
?
Y
|(g1 , g2 , . . . , gk , h)| = mmc(|g1 |, |g2 |, . . . , |gk |, |h|) = mmc(n1 , n2 , . . . , nk , nk+1 ) = ni = |G ⊕ H|
i=1

em que ? ressalta o fato de que como nenhum dos ni compartilha fator primo (já que o mdc
de cada par distinto é 1), então o mmc será dado pelo produto dos ni .

Portanto, G ⊕ H = h(g1 , g2 , . . . , gk , h)i. 

k
Y
Corolário [Link] Seja m = ni . Então Zm é isomorfo a Zn1 ⊕ Zn2 ⊕ · · · ⊕ Znk se, e só se,
i=1
ni e nj são relativamente primos quando i 6= j.

nk
M
Demonstração. Do Corolário [Link], sabemos que Zni é cíclico se, e só se, |Zni | e |Znj |
i=n1
são primos entre si para ni 6= nj , ou seja, se, e só se, ni e nj são primos entre si para i 6= j.
nk
M k
Y
Além disso, Zni = ni = m = |Zm |.
i=n1 i=1

nk
Zni ∼
M
Logo, como todo grupo cíclico finito de ordem n é isomorfo a Zn , então = Zn1 n2 ···nk =
i=n1
Zm se, e só se, mdc(ni , nj ) = 1 para i 6= j. 

Observação. Em [1], o Teorema 1.11.4 e o Corolário [Link] são enunciados (de certo modo)
como o seguinte teorema: o grupo Zm ⊕Zn é cíclico e isomorfo a Zmn se, e só se, mdc(m, n) = 1.

Usando os resultados acima de forma iterativa, pode-se expressar o mesmo grupo (até o
isomorfismo) de muitas formas diferentes. Por exemplo, temos

Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z6 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z30 .

De modo similar,

Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z6 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z2 ⊕ Z5 ∼
= Z6 ⊕ Z10 .

Assim, Z2 ⊕ Z30 ∼
= Z6 ⊕ Z10 . Note que, Z2 ⊕ Z30  Z60 .
64 CAPÍTULO 1. SIMETRIA

Exercícios
1. Encontre todos os homomorfismos de Z/4Z a Z/2Z ⊕ Z/2Z.

2. Seja G um grupo. Determine se a função φ : G ⊕ G → G definida por φ(x, y) = x−1 yé


um homomorfismo.

3. Prove que φ : Z ⊕ Z → Z definido por φ(x, y) = 2x + 3y é um homomorfismo. Determine


Ker φ. Descreva a fibra φ−1 (6).

4. Prove que Zm ⊕ Zn ∼
= Zmn se, me n são relativamente primos.

5. Prove que Z9 ⊕ Z3  Z27 .

6. Prove que Zm ⊕ Zn ∼
= Zlcm(m,n) ⊕ Zmdc(m,n) .

7. Sejam G1 e G2 dois grupos arbitrários. Prove que G1 ⊕ G2 ∼


= G2 ⊕ G1 .

8. Sejam G1 e G2 dois grupos arbitrários. Prove que as aplicações de “projeção” p1 : G1 ⊕


G2 → G1 e p2 : G1 ⊕G2 → G2 definidas por p1 (x, y) = x e p2 (x, y) = y são homomorfismos.
Encontre os núcleos e as imagens de p1 e p2 .

9. Prove que se dois grupos G e H são infinitos e cíclicos, então G ∼


= H. [Sugestão: Veja a
prova da Proposição (1.8.7). Como G e H são infinitos, você deve provar separadamente
que f é sobrejetiva e injetiva.]

10. Prove que Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 e Q8 não são isomorfos.

11. Prove que U (21) ∼


= Z2 × Z6 .

12. Mostre que o único homomorfismo de D7 a Z3 é trivial.

13. Mostre que o único homomorfismo de S4 a Z3 é trivial.

14. Seja φ : G → H. Prove que |φ(G)| divide |G|.

15. Seja F = Q, R, C ou Fp , onde p é primo. Prove que GLn (F )/SLn (F ) ∼


= F ∗.

16. Seja p um primo ímpar e seja H qualquer grupo de ordem ímpar. Prove que o único
homomorfismo de Dp para H é trivial.

17. Seja G um grupo e considere os homomorfismos φ : G → Z2 .


1.11. PRODUTO DIRETO 65

(a) Prove que se, φ é sobrejetivo, então exatamente metade dos elementos de G enviados
para a identidade em Z2 .

(b) Mostre que não existe homomorfismo sobrejetivo de A5 a Z2 .

18. Sejam G1 e G2 grupos e N1 e N2 subgrupos normais, respectivamente, em G1 e G2 . Prove


que N1 ⊕ N2 E G1 ⊕ G2 e que (G1 ⊕ G2 )/(N1 ⊕ N2 ) ∼
= (G1 /N1 ) ⊕ (G2 /N2 ).

19. Sejam N1 e N2 subgrupos normais de G. Prove que N1 N2 /(N1 ∩ N2 ) ∼


= (N1 N2 /N1 ) ∩
(N1 N2 /N2 ).

20. Seja F = Q, R, C ou Fp , onde p é primo. Seja T2 (F ) o conjunto de matrizes triangulares


superiores 2×2 com determinante diferente de zero. Consideramos T2 (F ) como um grupo
com a operação de multiplicação.
 
0 b
(a) Prove que U2 (F ) = { | b ∈ F } é um subgrupo normal que é isomorfo a (F, +).
0 1
(b) Prove que o grupo quociente correspondente é T2 (F )/U2 (F ) ∼
= U (F ) ⊕ U (F ), onde
U (F ) é o grupo de elementos com inversos multiplicativos em F munido com a
multiplicação.

21. Seja G um grupo e seja N E G tal que |G| e |Aut(N )| são relativamente primos. Então
N ≤ Z(G).

22. Suponha que H e K sejam subgrupos distintos de G, cada um de índice 2. Prove que
H ∩ K é um subgrupo normal de G e que G/(H ∩ K) ∼= Z2 ⊕ Z2 .
66 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
2
Grupos Abelianos

Os grupos abelianos ocupam um lugar especial na álgebra: por um lado, podem ser vistos como
generalizações de módulos e de anéis, pois são definidos por um subconjunto dos axiomas que
definem essas estruturas; por outro lado, eles também são um caso particular de R-módulos,
ou seja, o caso de módulos sobre o anel R = Z.
Neste capítulo apresentaremos o Teorema Fundamental dos Grupos Abelianos Finitamente
Gerados, que caracteriza os grupos abelianos finitamente gerados como soma direta de grupos
cíclicos finitos e infinitos, e esta soma é unicamente determinada a menos da ordem dos fatores
cíclicos. Assim a estrutura de um grupo abeliano finitamente gerado é naturalmente simples. A
primeira demonstração deste Teorema foi obtida por Leopold Kronecker em 1858, ele demons-
trou este resultado para grupos abelianos finitos, mais precisamente ele provou que um grupo
abeliano finito é soma direta de grupos cíclicos de ordem igual a uma potência de um primo, e
que a fatorização é única à menos da ordem dos fatores nesta decomposição.

2.1 Produto direto de grupos abelianos


Um dos objetivos desta seção é mostrar uma maneira de usar grupos conhecidos como blocos
de construção para formar mais grupos. O grupo Klein 4 pode ser obtido desta como produto
direto de grupos cíclicos. Aplicar este procedimento com os grupos cíclicos nos dá uma grande
classe de grupos abelianos que podem incluir todos os tipos de estrutura possíveis para um
grupo abeliano finito.
Lembremos a definição de produto direto.
Sejam G1 , G2 , · · · , Gn grupos, usemos a notação multiplicativa para todas as operações deste

67
68 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

grupos. Em relação aos Gi como conjuntos, podemos formar o produto direto ni=1 Gi . Mos-
Q

tramos que G = ni=1 Gi é um grupo, considerando a operação binária dada pela multiolicação
Q

coordenada a coordenada. (Veja Teorema (1.11.1))

 Exemplo 2.1.1 Considere o grupo Z2 × Z3 , que tem 2 · 3 = 6 elementos, a saber

{(0, 0), (0, 1), (0, 2), (1, 0), (1, 1), (1, 2)}.

Afirmamos que Z2 × Z3 é cíclico. Só é necessário encontrar um gerador. Vamos tentar (1, 1).
Aqui as operações em Z2 e Z3 são escritas aditivamente, então fazemos o mesmo no produto
direto Z2 × Z3 .
(1, 1) = (1, 1)
2(1, 1) = (1, 1) + (1, 1) = (0, 2)
3(1, 1) = (1, 1) + (1, 1) + (1, 1) = (1, 0)
4(1, 1) = 3(1, 1) + (1, 1) = (1, 0) + (1, 1) = (0, 1)
5(1, 1) = 4(1, 1) + (1, 1) = (0, 1) + (1, 1) = (1, 2)
6(1, 1) = 5(1, 1) + (1, 1) = (1, 2) + (1, 1) = (0, 0)
Assim (1, 1) gera todo Z2 × Z3 ,. Como existe, a menos de isomorfismo, apenas uma grupo
cíclico de determinada ordem, vemos que Z2 × Z3 , é isomórfico a Z6 . 

 Exemplo 2.1.2 Considere Z3 × Z3 . Este é um grupo de nove elementos. Afirmamos que


Z3 × Z3 não é cíclico. Como a adição é dada em cada componente, e como em Z3 todo elemento
somado a si mesmo três vezes dá a identidade, o mesmo vale para Z3 × Z3 . Assim nenhum
elemento pode gerar o grupo, pois um gerador somado a si mesmo sucessivamente só poderia
dar a identidade após nove somas. Encontramos outra grupo de ordem 9. Um argumento
semelhante mostra que Z2 × Z2 não é cíclico. Assim, Z2 × Z2 deve ser isomorfo ao grupo 4 de
Klein. Os exemplos anteriores ilustram o seguinte teorema: 

Teorema 2.1.1 O grupo Zm × Zn é cíclico e é isomórfico a Zmn se, e somente se, m e n são
relativamente primo, ou seja, o mdc de m e n é 1.

Demonstração. Considere o subgrupo cíclico de Zm × Zn gerado por (1, 1), isto o subgrupo
dado por h(1, 1)i = {1 · (1, 1), 2 · (1, 1), · · · }. Como nosso nos exemplos acima, a ordem desse
subgrupo cíclico é a menor potência de (1, 1) que dá a identidade (0, 0). Aqui, tomar uma
potência de (1, 1) em nossa notação aditiva significará adicionar (1, 1) a si mesmo repetidamente.
Sob adição componente a componente, a primeira componente 1 ∈ Zm resulta em 0 somente
após m somas, 2m somas, e assim por diante, e a segunda componente1 ∈ Zn produz 0 somente
após n somas, 2n somas, e assim por diante. Para que produzam 0 simultaneamente, o número
de summands deve ser um múltiplo de m e n. O menor número que é múltiplo de m e n será
mn se, e somente se, o mdc de m e n for 1; neste caso, (1, 1) gera um subgrupo cíclico de
2.1. PRODUTO DIRETO DE GRUPOS ABELIANOS 69

ordem mn, que é a ordem de todo o grupo. Isso mostra que Zm × Zn é cíclico de ordem mn
e, portanto, isomorfo a Zmn se m e n são relativamente primos. Do contrário, suponha que o
mdc de m e n seja d > 1. Então mn/d é divisível por m e n. Conseqüentemente, para qualquer
(r, s) em Zm × Zn , temos
(r, s) + (r, s) + · · · (r, s) = (0, 0)
| {z }
mn
d
− somandos

Portanto, nenhum elemento (r, s) em Zm × Zn pode gerar o grupo inteiro, então Zm × Zn não
é cíclico e portanto não é isomorfo ao grupo Zmn . 

Este teorema pode ser estendido para um produto de mais de dois fatores com demonstração
similar.
O grupo ni=1 Zmi é cíclico e isomorfo à Zm1 m2 ···mn se, e somente se, os
Q
Corolário [Link]
números mi são dois a dois coprimos.

 Exemplo 2.1.3 O corolário ([Link]) mostra que se n é escrito como um produto de potências
de números primos distintos, como em

n = (p1 )n1 (p2 )n2 · · · (pr )nr ,

então Zn é isomorfo a Z(p1 )n1 × Z(p2 )n2 × · · · × Z(pr )nr . Em particular, Z72 é isomorfo a Z8 × Z9 .


Observamos que alterar a ordem dos fatores em um produto direto produz um grupo iso-
morfo ao original. Os nomes dos elementos foram simplesmente alterados por meio de uma
permutação dos componentes nas n-tuplas.
É fácil provar que o subconjunto de Z consistindo de todos os inteiros que são múltiplos de
r e s é um subgrupo de Z e, portanto, é um grupo cíclico. Da mesma forma, o conjunto de
todos os múltiplos comuns de n inteiros positivos r1 , r2 , · · · , rn é um subgrupo de Z e, portanto,
é cíclico.
Definição 2.1.1 Sejam r1 , r2 , · · · , rn inteiros positivos. Seu mínimo múltiplo comum (abre-
viadamente mmc) é o gerador positivo do grupo cíclico de todos os múltiplos comuns os ri ’s
, ou seja, o grupo cíclico de todos os inteiros divisíveis por cada ri parai = 1, 2, ·, n.

Da Definição (2.1.1) e de nosso do que sabemos sobre grupos cíclicos, vemos que mmc de
r1 , r2 , · · · , rn é o menor inteiro positivo que é um múltiplo de cada ri para i = 1, 2, · · · , n, daí
a razão do nome mínimo múltiplo comum.

Teorema 2.1.2 Seja (a1 , a2 , · · · , an ) ∈ i=1 Gi . Se ai é de ordem finita ri em Gi , então a


Qn
ordem de (a1 , a2 , · · · , an ) em i=1 Gi é igual ao mínimo múltiplo comum de todos os ri .
Qn
70 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

Demonstração. Segue-se uma repetição do argumento usado na prova do Teorema (2.1.1).


Para uma potência de (a1 , a2 , · · · , an ) dar (1, 1, 1, · · · , 1), a potência deve ser simultaneamente
um múltiplo de r1 de modo que esta potência da primeira componente a1 se torne 1, um múl-
tiplo de r2 , de modo que esta potência da segunda componente a2 resultará em 1, e assim por
diante. 

 Exemplo 2.1.4 Encontraremos a ordem de (8, 4, 10) no grupo Z12 × Z60 × Z24 . Uma vez que
o mdc de 8 e 12 é 4, vemos que 8 é um elemento de ordem 12/4 = 3 em Z12 .
Da mesma forma, descobrimos que 4 é de ordem 15 em Z60 e 10 é de ordem 12 em Z24 . O
mmc de 3, 15 e 12 é 3 · 5 · 4 = 60, então (8, 4, 10) é a ordem 60 no grupo Z12 × Z60 × Z24 . 

 Exemplo 2.1.5 O grupo Z × Z2 é gerado pelos elementos (1, 0) e (0, 1). Mais geralmente, o
produto direto de n grupos cíclicos, cada um dos quais é Z ou Zm , para algum inteiro positivo
m, é gerado pelas n n-uplas

(1, 0, 0, · · · , 0), (0, 1, 0, · · · , 0), (0, 0, 1, · · · , 0), · · · , (0, 0, 0, · · · , 1).

Esse produto direto também pode ser gerado por menos elementos. Por exemplo, Z3 × Z4 ×
Z35 é gerado pelo único elemento (1, 1, 1). 

Note que se ni=1 Gi é o produto direto dos grupos Gi , então o subconjunto


Q

Gi = {(1, 1, · · · , 1, ai , 1, · · · , 1) | ai ∈ Gi },

isto é, o conjunto de todas as n-uplas com os elementos de identidade em todos os lugares,


exceto na i-ésimo, é um subgrupo de ni=1 Gi . Também está claro que esse subgrupo Gi é
Q

naturalmente isomórfico a Gi ; apenas renomeando (1, 1, · · · , 1, ai , 1, · · · , 1) por ai .


O grupo Gi é espelhado na i-ésima componente dos elementos de Gi . Consideramos
Qn
i=1 Gi
como o produto direto interno desses subgrupos Gi . O produto direto dado pelo Teorema
(1.11.1) é chamado de produto direto externo dos grupos Gi . Os termos interno e externo,
aplicados a um produto direto de grupos, apenas refletem se estamos ou não (respectivamente)
considerando os grupos de componentes como subgrupos do grupo de produtos. Normalmente
omitiremos as palavras externo e interno e apenas diremos produto direto.

2.2 A Estrutura de Grupos Abelianos Finitamente Gera-


dos
Alguns teoremas da álgebra abstrata são fáceis de entender e usar, embora suas provas possam
ser bastante técnicas e demoradas para serem apresentadas. Explicaremos o significado e a
2.2. A ESTRUTURA DE GRUPOS ABELIANOS FINITAMENTE GERADOS 71

importância de um teorema, mas omitimos sua prova. O teorema que agora enunciamos nos
dá informação estrutural completa sobre todos os grupos abelianos suficientemente pequenos,
em particular, sobre todos os grupos abelianos finitos.
Teorema 2.2.1 [Teorema Fundamental de Grupos Abelianos finitamente gerados] Todo grupo
abeliano finitamente gerado G é isomórfico a um produto direto de grupos cíclicos na forma
Z(p1 )n1 ×Z(p2 )n2 · · ·×Z(pr )nr ×Z×Z · · ·×Z, onde os pi são primos, não necessariamente distintos,
e os ri são inteiros positivos. O produto direto é único, exceto pelo possível rearranjo dos
fatores; ou seja, o número (número de Betti de G) de fatores Z é único e as potências primas
(pi )ri são únicas.

Demonstração. A demostração será omitida aqui, consulte por exemplo Galian para de-
mosntração do caso grupo abeliano finito. 

 Exemplo 2.2.1 Encontraremos todos os grupos abelianos, a menos de isomorfismo, de ordem


360. A frase a menos de isomorfismo significa que qualquer grupo abeliano de ordem 360 deve
ser estruturalmente idêntico (isomorfo) a um dos grupos de ordem 360 exibidos nesta lista.
Usamos o Teorema (2.3.3). Como nossos grupos devem ser da ordem finita de 360, nenhum
fator Z aparecerá no produto direto que observamos no enumciado do teorema. Primeiro
expressamos 360 como um produto de potências de primos 23 32 5. Em seguida, usando o
Teorema (2.3.3), obtemos como possibilidades

1. Z2 × Z2 × Z2 × Z3 × Z3 × Z5

2. Z2 × Z4 × Z3 × Z3 × Z5

3. Z2 × Z2 × Z2 × Z9 × Z5

4. Z2 × Z4 × Z9 × Z5

5. Z8 × Z3 × Z3 × Z5

6. Z8 × Z9 × Z5

Assim, existem seis grupos abelianos diferentes (a menos de isomorfismo) de ordem 360. 

Definição 2.2.1 Um grupo G é decomponível se for isomorfo a um produto direto de dois


subgrupos não triviais próprios. Caso contrário, G é indecomponível

Teorema 2.2.2 Os grupos abelianos indecomponíveis finitos são exatamente os grupos cíclicos
com ordem uma potência de primo.
72 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

Demonstração. Seja G um grupo abeliano finito indecomponível. Então pelo Teorema


(2.3.3), temos que G é isomorfo a um produto direto de grupos cíclicos de ordem de potência de
um primo. Como G é indecomponível, esse produto direto deve consistir em apenas um grupo
cíclico cuja ordem é uma potência de um número primo. Reciprocamente, seja p um primo.
Então Zpr é indecomponível, pois se Zpr fosse isomorfo a Zpri i × Zprj , onde i + j = r, então todo
j

elemento teria ordem no máximo p max (i,j)


<p .r


Teorema 2.2.3 Se m divide a ordem de um grupo abeliano finito G, então G tem um subgrupo
de ordem m.

Demonstração. Pelo Teorema (2.3.3) podemos pensar em G como sendo

Zpr11 × Zpr22 × · · · × Zprnn ,

onde nem todos os primos pi são distintos. Como (p1 )r1 (p2 )r2 · · · (pn )rn é a ordem de G, então
m deve ter a forma (p1 )s1 (p2 )s2 · · · (pn )sn , onde 0 ≤ si ≤ ri . Assim, temos que (pi )ri −si gera um
subgrupo cíclico de Z(pi )ri , de ordem igual ao quociente de (pi )ri pelo mdc de (pi )ri e (pi )ri −si .
Mas, o mdc de (pi )ri e (pi )ri −si é (pi )ri −si .Assim, (pi )ri −si gera um subgrupo cíclico de Z(pi )ri
de ordem

[(pi )ri ]/[(pi )ri −si ] = (pi )si .

Lembrando que hai denota o subgrupo cíclico gerado por a, obtemos que

h(p1 )r1 −s1 i × h(p2 )r2 −s2 i × · · · × h(pn )rn −sn i

é o subgrupo requerido de ordem m. 

Teorema 2.2.4 Se m é um inteiro quadrado livre, isto é, m não é divisível pelo quadrado de
nenhum primo, então todo grupo abeliano de ordem m é cíclico.

Demonstração. Seja G um grupo abeliano de ordem livre quadrada m. Então, pelo Teorema
(2.3.3), G é isomorfo a Zrp11 × Zrp22 × · · · × Zrpnn , onde m = (p1 )r1 (p2 )r2 · · · (pn )rn . Uma vez que não
há quadrados, devemos ter todos os ri = 1 e todos os pi primos distintos. O Corolário ([Link])
mostra então que G é isomorfo a Zp1 p2 ···pn , então G é cíclico. 
2.3. GRUPO ABELIANO LIVRE 73

2.3 Grupo Abeliano livre

O conceito de grupo abeliano livre é modelado a partir de certos aspectos da álgebra linear em
Rn . Escreveremos grupos abelianos aditivamente de modo que nx corresponda à adição de x
n-vezes. Para qualquer conjunto finito {x1 , x2 · · · , xr } em um grupo abeliano (G, +) chamamos
qualquer expressão da forma c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr , com ci ∈ Z, uma combinação linear de
{x1 , x2 , · · · , xr }.
Definição 2.3.1 Um subconjunto X ⊆ G de um grupo abeliano é dito linearmente inde-
pendente se para todo subconjunto finito {x1 , x2 , · · · , xr } ⊆ X, as combinações lineares
satisfazem
c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr = 0 ⇒ c1 = c2 = · · · = cr = 0.
Uma base de um grupo abeliano G é um subconjunto linearmente independente X que gera
G

O grupo cíclico Z tem {1} como base. A soma direta Z ⊕ Z tem {(1, 0), (0, 1)} como base
já que todo elemento (m, n) pode ser escrito como m(1, 0) + n(0, 1). No entanto, {(3, 1), (1, 0)}
também é uma base porque (3, 1) − 3(1, 0) = (0, 1), então novamente h(3, 1), (1, 0)i = Z ⊕ Z e
o conjunto também é linearmente independente. Em contraste, Z/10Z não tem base pois para
todo x ∈ Z/10Z, temos 10x = 0 e 10 6= 0 em Z. Observe que uma base não pode conter a
identidade 0 desde então 1 · 0 = 0 é combinação linear não trivial do elemento de base que dá
0.
Definição 2.3.2 Um grupo abeliano (G, +) é chamado de grupo abeliano livre se tiver uma
base.

Em particular, Z , Z ⊕ Z, e mais geralmente Zn para um inteiro positivo n são grupos


abelianos livres. Um grupo abeliano livre poderia ter uma base infinita. Por exemplo, Z[x] é um
grupo abeliano livre com base {1, x, x2 , · · · } porque todo polinômio em Z[x] é uma combinação
linear (finita) das potências da variável x. Se um grupo abeliano livre tem uma base infinita,
todo elemento ainda deve ser uma combinação linear finita de elementos de base.

Proposição 2.3.1 Seja (G, +) um grupo abeliano livre com uma base X. Todo elemento
g ∈ G pode ser expresso de modo único como uma combinação linear de elementos em X.

Demonstração. Por definição, todo elemento g ∈ G é uma combinação linear de elementos


em X. Suponha que g = c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr e g = c01 x01 + c02 x02 + · · · + c0s x0s duas expressões de
combinação lineares do elemento g. Ao permitir que alguns ci e alguns c0j sejam 0, e tomando
a união {x1 , x2 , · · · , xr , x01 , x02 , · · · , x0s }, podemos assumir que r = s e que xi = x0i para i =
74 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

1, 2, · · · , r. Então, subtraindo essas duas expressões, dá

0 = (c1 − c01 )x1 + (c2 − c02 )x2 + · · · + (cr − c0r )xr .

Como o conjunto dos elementos {x1 , x2 , · · · , xr } é linearmente independente, ci − c0i = 0 então


ci = c0i para todo i. Portanto, existe uma expressão única para g como uma combinação linear
de elementos em X 

 Exemplo 2.3.1 O grupo (Q, +) não é um grupo abeliano livre. Assuma que (Q tem uma base
X. Assuma que X contém pelo menos dois elementos diferentes de zero a
b
e d. Então,
a c
(−bc) + ((da) = −ac + ac = 0.
b d
Isso contradiz a condição de independência linear. Agora assuma que X contém apenas
um elemento a
b
6= 0. Então, X não gera Q porque o elemento a
2b
6= hXi. Concluímos por
contradição que (Q não tem base. 

Teorema 2.3.1 Seja G um grupo abeliano livre diferente de zero com uma base possuindo r
elementos. Então G é isomorfo a Z ⊕ Z ⊕ · · · ⊕ Z = Zr .

Demonstração. Seja X = {x1 , x2 , · · · , xr } uma base finita de G. Considere a função φ :


Zr → G dada por φ(c1 , c2 , · · · , cr ) = c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr . Esta função satisfaz

φ((c1 , c2 , · · · , cr ) + (d1 , d2 , · · · , dr )) = φ(c1 + d1 , c2 + d2 , · · · , cr + dr )


= (c1 + d1 )x1 + (c2 + d2 )x2 + · · · + (cr + dr )xr
= c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr + d1 x1 + d2 x2 + · · · + dr xr
= φ(c1 , c2 , · · · , cr ) + φ(d1 , d2 , · · · , dr )

então φ é um homomorfismo. Como a base gera G, então φ é sobrejetivo. Além disso, como
Ker φ = {(c1 , c2 , · · · ., cr ) ∈ Zr | c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr = 0}
= {(0, 0, ..., 0)},
o homomorfismo também é injetivo. Assim, φ é um isomorfismo. 

O Teorema (2.3.1) leva imediatamente a este importante corolário.

Proposição 2.3.2 Seja G um grupo abeliano livre finitamente gerado. Então toda base de
G tem o mesmo número de elementos.

Demonstração. Suponha que G tenha uma base com n elementos. Então G é isomorfo a Zr .
O subgrupo 2G = {g + g | g ∈ G} é isomorfo a (2Z)r então, G/2G = (Z ⊕ Z ⊕ · · · ⊕ Z)/(2Z ⊕
2Z · · · ⊕ 2Z) ∼
= Zr . 2
2.3. GRUPO ABELIANO LIVRE 75

Assim, |G/2G| = 2r . Suponha que G também tenha uma base finita com s 6= r elementos.
Então |G/2G| = 2s 6= 2r uma contradição.
Devemos também provar que G também não pode ter uma base infinita. Assuma que G
tem uma base infinita X. Sejam x1 , x2 ∈ X. Assuma x1 = x2 em G/2G, então x1 − x2 ∈ 2G,
então x1 − x2 é uma combinação linear finita de elementos em X (com coeficientes pares ). Em
particular, X não é um conjunto linearmente independente, o que contradiz que X é uma base.
Assim, no grupo quociente G/2G, os elementos {x | x ∈ X} são todos distintos e, portanto,
G/2G é um grupo infinito. Isso contradiz o fato de que |G/2G| = 2r . Conseqüentemente, se G
tem uma base de r elementos, então todas as outras bases são finitas e têm r elementos. 

O número de geradores de um grupo abeliano livre G, com base {x1 , x2 , . . . , xn } será cha-
mado de posto de G, e é denotado por rank(G) = n. E a Proposição (2.3.2) diz que este
número é bem definido e não depende da escolha da base. O posto de um grupo abeliano livre
desempenha o mesmo papel que a dimensão de um espaço vetorial.
Definição 2.3.3 Se G é um grupo abeliano livre finitamente gerado, então o número comum
r de elementos em uma base é chamado de posto, e ;e denotado por rank (G) = r. O posto
também é chamado de número de Betti de G e é denotado por β(G).

Lema 2.3.1 Seja X = {x1 , x2 , · · · , xr } uma base de um grupo abeliano livre G. Seja i um
índice com 1 ≤ i ≤ r, com i 6= j e seja t ∈ Z. Então

X 0 = {x1 , · · · , xj−1 , xj + txi , xj+1 , · · · , xr },

também é uma base de G.

Demonstração. Como xj = (−t)xi + xj + txi , então xj ∈ hX 0 i e então X ⊆ hx0 i. Como


hXi = G ≤ X 0 , então G = hX 0 i então X 0 gera G. Além disso, suponha que

c1 x1 + · · · + cj − 1xj − 1 + cj (xj + txi ) + cj+1 xj+1 + · · · + cr xr = 0,

para aalgum c1 , c2 , · · · , cr ∈ Z. Então, como X é uma base, os coeficientes de xk devem ser


zero, então (
ck = 0, se k 6= i.
ck = −tnj , se k = 1
Entretanto, como i 6= j, temos que cj = 0, então ci = −t · 0 = 0. Assim, X 0 é linearmente
independente. Portanto, X 0 é uma outra base de G. 

Notemos a semelhança entre a nova base descrita no Lema (2.3.1) e a operação de substi-
tuição de linhas usada no algoritmo de eliminação de Gauss-Jordan da álgebra linear.
76 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

Teorema 2.3.2 Seja G um grupo abeliano livre diferente de zero de posto finito s e seja H ≤ G
um subgrupo não trivial. Então H é um grupo abeliano livre de posto t ≤ s. Existe uma
base {x1 , x2 , · · · , xs } para G e inteiros positivos n1 , n2 , · · · , nt , onde ni divide ni+1 para todo
1 ≤ i ≤ t − 1 tal que {n1 x1 , n2 x2 , · · · , nt xt } é uma base de H.

Demonstração. Provamos o teorema partindo de uma base de G e ajustando-a repetida-


mente usando o Lema (2.3.1).
Pela boa ordenação dos inteiros, existe um valor mínimo n1 no conjunto

{c1 ∈ N∗ | c1 y1 + c2 y2 + · · · + cs ys ∈ H para qualquer base{y1 , y2 , · · · , ys de G}.

Ressaltamos que, no conjunto acima, consideramos todas as bases possíveis {y1 , y2 , · · · , ys }


de G. Escrevemos o elemento que dá este valor mínimo como z1 = n1 y1 + c2 y2 + · · · + cs ys .
Pela divisão inteira, para todos i ≥ 2, podemos escrever ci = n1 qi + ri com 0 ≤ i < n1 . Seja
x1 = y1 + q2 y2 + · · · + qs ys . Pelo Lema (2.3.1), temos que {x1 , y2 , · · · , ys } é uma base de G.
Além disso, z1 = n1 x1 + r2 y2 + · · · + rs ys .
No entanto, como n1 é o coeficiente positivo menor possível que ocorre em qualquer combi-
nação linear sobre qualquer base de G e, como 0 ≤ ri < n1 , temos r2 = · · · = rs = 0. Portanto,
de fato, z1 = n1 x1 .
Se {n1 x1 } gera H, então terminamos e {n1 x1 } é uma base de H. Se não, então existe um
valor positivo menor que c2 para as combinações lineares z2 = a1 x1 + c2 y2 + · · · + cs ys ∈ H, onde
y2 , · · · , ys ∈ G tal que {x1 , y2 , · · · , ys } é uma base de G. Chame esse menor inteiro positivo
de n2 . Observe que devemos ter n1 | a1 , pois caso contrário, como n1 x1 ∈ H subtraindo um
múltiplo adequado de n1 x1 de a1 x1 + c2 y2 + · · · + cs ys obteríamos uma combinação linear de
{x1 , y2 , · · · , ys } que está em H e tem um coeficiente positivo menor para x1 , o que contradiria
a minimalidade de n1 . Novamente, se tomarmos a divisão inteira de ci por n2 , ci = n2 qi + ri
com 0 ≤ ri < n2 para todo i ≥ 3, então

z2 = a1 x1 + n2 (y2 + q3 y3 + · · · + qs ys ) + r3 y3 + · · · + rs ys .

Denotamos x2 = y2 + q3 y3 + · · · + qs ys . Além disso, todos os ri = 0 porque se algum


ri > 0, isso contradiria a minimalidade de n2 . Assim, z2 = a1 x1 + n2 x2 ∈ H e também n2 x2 =
z2 − (a1 /n1 )n1 x1 ∈ H. Pelo Lema (2.3.1), {x1 , x2 , y3 , · · · , ys } é uma base de G. Além disso, se
considerarmos a divisão inteira de n2 por n1 ,escrito como n2 = n1 q + r com 0 ≤ r < n1 ,então

n1 x1 + n2 x2 = n1 (x1 + qx2 ) + rx2 ∈ H.

Mas então, como r < n1 , pela minimalidasde positiva de n1 , devemos ter r = 0. Portanto,
n1 | n2 . Se {n1 x2 , n2 x2 } gera H, então terminamos porque o conjunto é linearmente indepen-
dente, pois por construção {x1 , x2 , y3 , · · · , ys } é uma base de G então {x1 , x2 } é linearmente
2.3. GRUPO ABELIANO LIVRE 77

independente e {n1 x1 , n2 x2 } é então uma base de H. Continuando desta forma obtemos uma
base {x1 , · · · , xt , yt+1 , · · · , ys } de G tal que {n1 x1 , n2 x2 , · · · , nt xt } é uma base de H para alguns
inteiros positivos ni tais que ni | ni+1 para 1 ≤ i ≤ t. 

Esta prova não é construtiva, pois não fornece um procedimento para encontrar o ni , que
é necessário para construir x1 , x2 e assim por diante. Nós apenas sabemos que o ni existe pela
boa ordenação dos números inteiros. Em alguns casos é fácil encontrar uma base do subgrupo
como no exemplo a seguir.

 Exemplo 2.3.2 Considere o grupo abeliano livre G = Z3 e o subgrupo H = {(x, y, z) ∈ Z3 | x+


2y+3z = 0}. Se considerarmos a equação x+2y+3z = 0 em Q3 , então o algoritmo de eliminação
de Gauss-Jordan fornece H como o subespaço gerado h(−2, 1, 0), (−3, 0, 1)i. Tomando somente
os múltiplos inteiros desses dois vetores fornece todos os pontos (x, y, z) com y e z tomados
sobre cada par de inteiros. Portanto, h(−2, 1, 0), (−3, 0, 1)i é uma base de H e vemos claramente
que H é um grupo abeliano livre de posto 2. 

O Teorema (2.3.2) leva ao Teorema Fundamental para Grupos Abelianos Finitamente Ge-
rados.
Teorema 2.3.3 — Teorema Fundamental dos grupos abelianos finitamente gerados. Seja G um
grupo abeliano finitamente gerado. Então, G pode ser escrito unicamente como

G∼
= Zr ⊕ Zd1 ⊕ Zd2 ⊕ · · · ⊕ Zdk

para alguns inteiros não negativos r, d1 , d2 , · · · , dk satisfazendo di ≥ 2 para todo i e di+1 | di ,


para 1 ≤ i ≤ k − 1

Demonstração. Como G é gerado finitamente, existe um subconjunto finito {g1 , g2 , · · · , gs }


que gera G. Defina a função, φ : Zs → G por

φ(n1 , n2 , · · · , ns ) = n1 g1 + n2 g2 + · · · + ns gs .

Pelo mesmo raciocínio da prova do Teorema (2.3.2), φ é um homomorfismo sobrejetivo.


Então, Ker φ é um subgrupo de Zs e pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo, Zs /(Ker φ) ∼
= G.
Pelo Teorema (2.3.2) existe uma base {x1 , x2 , · · · , xs } para Zs e inteiros positivos n1 , n2 , · · · , nt ,
onde ni divide ni + 1 para todo 1 ≤ i ≤ t − 1 tal que {n1 x1 , n2 x2 , · · · , nt xt } é uma base de
Kerφ. Então
G ∼
= (Z ⊕ Z ⊕ · · · Z)/(n1 Z ⊕ n2 Z ⊕ · · · nt Z ⊕ {0} ⊕ · · · ⊕ {0})]

= Zn1 ⊕ Zn2 ⊕ · · · Znt ⊕ Z ⊕ · · · ⊕ Z.

Agora se ni = 1, então Zni ∼


= {0}, o grupo trivial. Seja k o número de índices tais que ni > 1.
78 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

O teorema segue após estabelecer di = nt+1−i para 1 ≤ i ≤ k. 

Definição 2.3.4 Assim como nos grupos livres, o inteiro r é chamado de posto ou número de
Betti de G. Às vezes é denotado por β(G). Os inteiros d1 , d2 , · · · , dk são chamados de fatores
invariantes de G e a expressão (2.3.3) é chamada de decomposição em fatores invariantes de
G.

É interessante notar que a prova do Teorema (2.3.1) não é construtiva no sentido de que
não fornece um método para encontrar elementos específicos em G cujas ordens são os fatores
invariantes de G. Os fatores invariantes existem em virtude do princípio da boa ordenação dos
inteiros. O Teorema (2.3.3) se aplica a qualquer grupo abeliano finitamente gerado. No entanto,
aplicado a grupos finitos, que obviamente são gerados finitamente, nos dá uma maneira eficaz
de descrever todos os grupos abelianos de uma dada ordem n. Se G é finito, o posto de G é 0.
Então devemos encontrar todas as sequências finitas de inteiros d1 , d2 , · · · , dk tais que

• di ≥ 2, para 1 ≤ i ≤ k;

• di+1 | di , para 1 ≤ i ≤ k − 1;

• n = d1 d2 · · · dk .

As duas primeiras condições são explícitas no teorema acima. A última condição decorre
do fato de que di = |xi| onde {x1 , x2 , · · · , xk } é uma lista de geradores correspondentes de G.
Então cada elemento em G pode ser escrito exclusivamente como

g = α1 x1 + α2 x2 + · · · + αk xk

para 0 ≤ αi < di . Assim, a ordem do grupo é n = d1 d2 · · · dk ..


Listamos alguns exemplos de grupos abelianos de uma determinada ordem onde encontra-
mos os fatores invariantes decomposição. (Observe que na notação para o grupo cíclico Zd ,
assumimos que a operação é multiplicação, mas isso é irrelevante para o teorema.)

 Exemplo 2.3.3 Todos os grupos de ordem 16 são:

Z16 Z8 ⊕ Z2 Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 .

Todos os grupos de ordem 24 são:

Z24 Z12 ⊕ Z2 Z6 ⊕ Z4 ⊕ Z2

Todos os grupos de ordem 360 são:

Z360 Z180 ⊕ Z2 Z120 ⊕ Z3 Z60 ⊕ Z6 , Z90 ⊕ Z2 Z2 , Z30 ⊕ Z6 ⊕ Z2 .


2.4. DECOMPOSIÇÃAO EM FATORES ELEMENTARES 79

2.4 Decomposiçãao em fatores elementares


Embora o Teorema (2.3.3) forneça uma classificação completa de grupos abelianos finitos, nem
sempre é fácil encontrar todas as sequências possíveis de fatores invariantes que se multiplicam
em uma determinada ordem, especialmente se a ordem for alta. Existe uma caracterização
alternativa que costuma ser mais fácil de encontrar, envolvendo os chamados divisores elemen-
tares. O benefício adicional dessa decomposição alternativa é que ela leva a uma fórmula para
o número de grupos abelianos de uma determinada ordem. Para obter a decomposição dos
divisores elementares, primeiro relembramos que se mdc(m, n) = 1, então Zm ⊕ Zn ∼
= Zmn .
Precisamos de mais um lema.
Lema 2.4.1 Seja p um número primo e seja G um grupo abeliano de ordem pm . Então G é
isomorfo de modo único a um grupo da forma

Zpα1 ⊕ Zpα2 ⊕ · · · Zpαk ,

. tal que α1 ≥ α2 ≥ · · · αk ≥ 1 e α1 + α2 + · · · + αk = m.

Demonstração. (Isto segue como um corolário do Teorema (2.3.3), então deixamos a prova
como um exercício ). 

Definição 2.4.1 Seja m um inteiro positivo. Qualquer sequência decrescente da forma α1 ≥


α2 ≥ · · · αk ≥ 1 tal que α1 + α2 + · · · + αk = m é chamada de partição de m. A função de
partição, às vezes denotada por p(m), é o número de partições de m. A função de partição
geralmente é estendida para inteiros não negativos atribuindo p(0) = 1.

De acordo com o Lema (2.4.1), se G é um grupo abeliano de ordem pm para algum primo
p, então existe p(m) possibilidades para G, cada uma correspondendo a uma partição de m.

Teorema 2.4.1 Seja G um grupo abeliano finito de ordem n > 1 e seja n = pβ1 p2 2 · · · pbeta a

r
fatoração de n. Então G pode ser escrito de uma maneira única como

G∼
= A1 ⊕ A2 ⊕ · · · ⊕ Ar ,

onde |Ai | = pβi e cada A ∈ {A1 , A2 · · · , At }, com |A| = pm , A ∼


= Zpα1 ⊕ Zpα2 ⊕ · · · ⊕ Zpαs
com α1 ≥ α2 ≥ · · · αs ≥ 1 e α1 + α2 + · · · + αs = m.

Demonstração. De acordo com o Teorema (2.3.3) temos que G ∼


= Zd1 ⊕ Zd2 ⊕ · · · ⊕ Zdk onde
di+1 |di i para i = 1, 2, · · · , k − 1 e n = d1 d2 · · · dk . Considere a matriz k × t de inteiros diferentes
α α α αi
de zero (αij ) definida tal que di = p1 i1 p2 i2 · · · p1 ir = rj=1 pj j é a fatoração primária de di ,
Q

onde ?ij = 0 significa que pj não é um fator primo de di .


80 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

A condição di+1 |di implica que para cada j, os expoentes em pj j satisfazem αi+1,j ≤ αij .
A condição que n = d1 d2 · · · ds implica que para cada j, βj = α1j + α2j + · · · + αsj . Ob-
serve que mdc (paj , pbj0 ) = 1 para quaisquer inteiros não negativos a e b se j = 6 j 0 . Portanto,
Zdi ∼
= Zpα1 i1 ⊕ Zp2αi2 ⊕ · · · ⊕ Zpαr ir . O teorema decorre do fato de que G1 ⊕ G2 ∼
= G2 ⊕ G1 para
quaisquer dois grupos G1 e G2 . 

Definição 2.4.2 Os inteiros pαi que surgem na expressão de G descrita no Teorema (2.4.1) são
chamados de os divisores elementares de G. A expressão do Teorema (2.4.1) é a decomposição
dos divisores elementares.

Usamos a terminologia “divisores elementares” porque todo grupo cíclico Zpα , onde p é um
número primo não é isomorfo a uma soma direta de quaisquer grupos cíclicos menores. Como
primeiro exemplo, observe que, como 16 é uma potência de primos, devido ao Lema (2.4.1), a
lista de grupos fornecida no Exemplo (2.3.3) fornece as decomposições de divisor elementar e
de fator invariante de todos os 5 grupos abelianos de ordem 16.

 Exemplo 2.4.1 . Seja n = 2160 = 24 33 5. Encontramos todos os grupos abelianos de ordem


2160. Observamos que 3 tem três partições, a saber:
3
2+1
1+1+1
Enquanto 4 tem as seguntes partições:
4
3+1
2+2
2+1+1
!+1+1+1
Então, A1 que corresponde ao fator primo p1 = 2, tem as seguintes possibilidades:

Z16 , Z8 ⊕ Z2 , Z4 ⊕ Z4 , Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 , ou Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 .

A componente A2 que corresponde ao fator primo p2 = 3, tem as seguintes possibilidades:

Z27 , Z9 ⊕ Z3 , ou Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 .

A componente A3 que corresponde ao fator primo p3 = 5, tem uma posibilidade A3 ∼


= Z5 .
Agora, podemos listar todos os 15 grupos abelianos de ordem 2160. A seguinte lista mostra a
decomposição em fatores elementares do lado esquerdo e na diretita a decomposição em fatores
invariantes.
Z16 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z2160
Z16 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z720 ⊕ Z3
Z16 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z240 ⊕ Z3 ⊕ Z3
2.4. DECOMPOSIÇÃAO EM FATORES ELEMENTARES 81

Z8 ⊕ Z2 ⊕ Z27 ∼
= Z1080 ⊕ Z2
Z8 ⊕ Z2 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z360 ⊕ Z6
Z8 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z120 ⊕ Z6 ⊕ Z3

Z4 ⊕ Z4 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z540 ⊕ Z4
Z4 ⊕ Z4 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z180 ⊕ Z12
Z4 ⊕ Z4 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z60 ⊕ Z12 ⊕ Z3

Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z540 ⊕ Z2 ⊕ Z2
Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z90 ⊕ Z6 Z2 ⊕ Z2
Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z60 ⊕ Z6 ⊕ Z6

Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z270 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z90 ⊕ Z6 Z2 ⊕ Z2
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z30 ⊕ Z6 ⊕ Z6 ⊕ Z2


Ao listar cada tipo de isomorfismo possível para um grupo de determinada ordem, cada
grupo listado de acordo com a decomposição dos fatores invariantes corresponde a um único
grupo na lista de acordo com os divisores elementares. A prova do Teorema (2.4.1) descreve
como ir da decomposição dos fatores invariantes para a decomposição dos divisores elementares
correspondentes. Para ir na direção oposta, colete as potências primos mais altas correspon-
dentes a cada primo para obter Zd1 ; colete as segundas potências primos mais altas corres-
pondentes a cada primo para obter Zd2 ; e assim por diante. Frequentemente nos referimos aos
Teoremas (2.3.3) e (2.4.1) juntos como o Teorema Fundamental dos Grupos Abelianos Finita-
mente Gerados. Os dois teoremas simplesmente fornecem maneiras alternativas de descrever
exclusivamente a parte de torção do grupo. O poder do Teorema Fundamental dos Grupos
Abelianos Finitamente Gerados (TFGAFG), e dos teoremas de classificação em geral, é que
em muitas aplicações da teoria dos grupos, encontramos grupos abelianos para os quais na-
turalmente conhecemos a ordem. Então o TFGAFG nos dá uma lista de possíveis tipos de
isomorfismo.

Exercícios
1. Liste os elementos de Z2 × Z4 . Encontre a ordem de cada um dos elementos. Este grupo
é cíclico? 2. Repita o Exercício 1 para o grupo Z3 × Z4 .

2. Encontre a ordem do elemento dado do produto direto. (a) (2, 6) em Z4 × Z12 .


(b) (2, 3) em Z6 × Z15 .
82 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS

3. Qual é a maior ordem entre as ordens de todos os subgrupos cíclicos de Z6 × Z8 ? e de


Z12 × Z15 .
?

4. Encontre todos os subgrupos não triviais apropriados de Z2 × Z1 .


.

5. Encontre todos os subgrupos não triviais apropriados de Z2 × Z2 × Z2 .

6. Encontre todos os subgrupos de Z2 × Z4 de ordem 4.

7. Encontre todos os subgrupos de Z2 × Z2 × Z4 que são isomorfos ao grupo 4 de Klein.

8. Seja G um grupo e H um subgrupo de G. Prove que G/H é abeliano se, e somente se,
H 0 ⊆ G0 .

9. Liste todos os fatores invariantes possíveis para os seguintes inteiros: (a) 45; (b) 480; (e)
900.

10. Liste todos os possíveis divisores elementares para os seguintes inteiros: (a) 45; (b) 480;
(e) 900.

11. Liste todos os grupos abelianos não isomorfos de ordem 945 tanto na forma de fato-
res invariantes quanto na forma de divisores elementares. Mostre quais decomposições
correspondem a quais nas diferentes formas.

12. Liste todos os grupos abelianos não isomorfos de ordem 864 na forma de fatores invariantes
e na forma de divisores elementares. Mostre quais decomposições correspondem a quais
nas diferentes formas.

13. Qual é o menor valor de n tal que existem 5 grupos abelianos de ordem n? Liste os grupos
específicos.

14. Qual é o menor valor de n tal que existem 4 grupos abelianos de ordem n? Liste os grupos
específicos.

15. Qual é o menor valor de n tal que existam pelo menos 13 grupos abelianos de ordem n?
Liste os grupos específicos.

16. Suponha que um grupo abeliano tenha ordem 100 e tenha pelo menos 2 elementos de
ordem 2. Quais são os possíveis grupos que satisfazem essas condições?
2.4. DECOMPOSIÇÃAO EM FATORES ELEMENTARES 83

17. Encontre o tipo de isomorfismo (por decomposição de fatores invariantes) de U (21).

18. Suponha que G seja um grupo abeliano de ordem 176 tal que o subgrupo H = {g 2 |g ∈ G}
tem ordem 22. Quais são os possíveis grupos G com esta propriedade?

19. Seja p um número primo. Para todos os grupos abelianos de ordem p3 , liste quantos
elementos existem de cada ordem.

20. Sejam p e q números primos distintos. Para todos os grupos abelianos de ordem p2 q 2 ,
liste quantos elementos existem de cada ordem.

21. Encontre todos os inteiros n tais que exista um único grupo abeliano de ordem n.

22. Seja G = hx, y | x12 = y 18 = 1, xy = yxi. Considere o subgrupo H = hx4 y −6 i. Encontre o


isomorfismo tipo de G/H.

23. Seja G = (Z/12Z)2 e seja H = {(a, b) | 2a + 3b = 0}. Determine o tipo de isomorfismo de


G/H.

24. Seja G = (Z/12Z)2 e seja H = {(a, b) | a + 5b = 0}. Determine o tipo de isomorfismo de


G/H.

25. Prove o Teorema de Cauchy para grupos abelianos. Em outras palavras, seja G um grupo
abeliano e prove que se p é um número primo que divide |G| então G contém um elemento
de ordem p.

26. Seja p um número primo. Prove que Aut(Z/pZ ⊕ Z/pZ) ∼


= GL2 (Fp ).

27. Seja G um grupo abeliano. Prove que Aut(G) é abeliano se, e somente se, G é cíclico.

28. . Prove que o conjunto de funções de N a Z, denotado por F un(N, Z), equipado com
adição de funções + não é um grupo abeliano livre.

29. Considere o subgrupo H = {(x1 , x2 , x3 ) ∈ Z3 | 6 divide 2x1 + 3x2 + 4x3 } do grupo abeliano
livre Z3 . Encontre uma base de H.
84 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS
3
Anéis

Vimos que a teoria dos grupos estuda propriedades gerais de estruturas determinadas por ape-
nas uma operação binária. O estudo dos anéis refere-se a estruturas que possuem duas operações
binárias, relacionadas através das leis de distributividade. Introduziremos neste capítulo o con-
ceito de anel, a teoria dos anéis fornece uma grande classe de estruturas algébricas interessantes.
Intuitivamente falando, um anel é uma estrutura algébrica com duas operações: uma adição e
uma multiplicação e que se comportam como de maneira bastante simples. Faremos um estudo
análogo ao que foi desenvolvido na teoria da estrutura do grupo.

3.1 Propriedades principais e exemplos


A aritmética dos inteiros carrega mais do que apenas a estrutura de um grupo. A aritmética
de números inteiros envolve adição e multiplicação. (A subtração e a divisão envolvem sim-
plesmente os inversos da adição e da multiplicação, portanto não precisamos distingui-los.) Os
anéis têm duas operações que satisfazem um certo conjunto de axiomas inspirados por algu-
mas propriedades dos números inteiros. No entanto, os axiomas do anel são vagos o suficiente
para incluir muitos outros contextos algébricos que possuem tanto uma adição quanto uma
multiplicação e que diferem consideravelmente dos números inteiros.
Definição 3.1.1 Um anel A é um conjunto com duas operações + e · tal que

(1) (A, +) é um grupo abeliano,

(2) (ab)c = a(bc),

(3) (a + b)c = ac + bc,

85
86 CAPÍTULO 3. ANÉIS

(4) a(b + c) = ab + ac.


Se · é comutativa, dizemos que A é um anel comutativo (O termo “anel comutativo” foi
provavelmente devido à D. Hilbert, em 1897, quando ele escreveu Zahlring, e um dos significados
da palavra anel, tanto em alemão como em Inglês, é coleção). Se · admite elemento neutro, isto
é,

a · 1 = 1 · a = a, ∀a ∈ A

dizemos que A é um anel com unidade. Se |A| < ∞, dizemos que A é um anel finito. Segue
da lei de distributividade que para cada a ∈ A, a aplicação que envia x ∈ A para ax ∈ A é um
homomorfismo de grupos (A, +) com a adição.
Como na teoria de grupos, frequentemente nos referiremos ao anel por A, se não houver
confusão sobre quais seriam as operações. Em um anel abstrato, denotamos a identidade aditiva
por 0 e nos referimos a ela como o “zero”do anel. O inverso aditivo de a é denotado por −a.
Assim como na álgebra típica sobre os reais, muitas vezes escreveremos a multiplicação como
ab em vez de a · b. Além disso, se n ∈ N e a ∈ A, então n · a representa a adicionado a si mesmo
n vezes,
n·a=a {z· · · + a}
|+a+
n−vezes

Estendemos esta notação para todos os inteiros definindo 0 · · · a = 0 e, se n > 0, então (−n)·a =
−(n · a).

 Exemplo 3.1.1 Seja B = 2Z o conjunto do elementos pares do anel A = Z, temos que S


é um subanel de A, mas B não éum anel
 com 1. O Anel A = M2×2 (H) tem um subanel B
x 0
consistindo de todas as matrizes , onde x ∈ R. Neste exemplo vemos que A e de B
0 0
tem unidades, mas 1A 6= 1B . 

Proposição 3.1.1 Seja A um anel comutativo. Então seguem as seguintes propriedades:

1. 0a = a0 = 0, para todo a ∈ A;

2. Se 1 = 0, então A = {0}, e neste caso, A é chamado de anel nulo;

3. (−a)b = a(−b) = −(ab), para todo a, b ∈ A;

4. (−a)(−b) = ab, para todo a, b ∈ A;

5. Se A é um anel com identidade, então a identidade é única e satisfaz −a = (−l)a;

6. Se n ∈ N e n1 = 0, então na = 0, para todo a ∈ A;


3.1. PROPRIEDADES PRINCIPAIS E EXEMPLOS 87

7. Verifica-se o Teorema Binomial em A. Se a, b ∈ A, então:


n  
n
X n
(a + b) = ak bn−k .
k
k=0

É possível que a identidade multiplicativa 1 de um anel seja igual à identidade aditiva 0.


No entanto, de acordo com o item (2) da Proposição (3.1.1), o anel consistiria então em apenas
um elemento, a saber, 0. Este caso serve como uma exceção a muitos teoremas que gostaríamos
de afirmar sobre anéis com identidade. Consequentemente, uma vez que este não é um caso
particularmente interessante, frequentemente nos referiremos a “um anel com identidade 1 6= 0”
para denotar um anel com identidade, mas excluindo o caso em que 1 = 0. As propriendades
elencadas no Proposição acima (3.1.1) é válida para todos os anéis. Muitas dessas propriedades,
aplicadas a inteiros e números reais, são regras que as crianças do ensino fundamental aprendem
desde cedo. Agora demonstre como exercícios as propriedades acima.
Definição 3.1.2 Um anel (A, +, ·) é dito ter uma unidade, denotada por 1, se existe um
elemento 1 ∈ A tal que 1 · a = a · 1 = a, para todo a ∈ A. Um Anel é dito comutativo se a
operação de multiplicação é comutativa.

Como um anel possui sempre uma identidade aditiva, quando se diz simplesmente “um anel
com unidade”, refere-se à identidade multiplicativa, cuja existência não é exigida pelos axiomas.

 Exemplo 3.1.2 Z, Q, R e C são anéis comutativos com unidade, com a adição e multiplicação
usual). Os axiomas de definição de anel para estes 3 últimos exemplos segue dos axiomas para
para o anel Z. Mostraremos como contruir Q e R apartir de Z. Seja M(R) o conjunto das
matrizes n × n, munido das operações de adição e multiplicação usuais, M(R) é um anel não-
comutativo com unidade. O grupo quociente Z/nZ é um anel finito comutativo com identidade,
sobre as operações de adição e multiplicação das classes de resíduos módulo n, denominada
aritmética modular. 

Definição 3.1.3 A característica de um anel comutativo é o menor n ∈ N tal que na = 0,


∀a ∈ A. Denotaremos a caraterística do anel A por Car(A). Se tal n não existe, dizemos
que a característica do anel A Car(A) = 0 é zero.

 Exemplo 3.1.3 Z, Q, R e C tem característica 0. De fato, note que para n ∈ Z e a ∈ A,


na = n(1A .a) = (n.1A )a, se n.1A = 0, então n.a = 0 para todo a ∈ A. Assim, se a identidade
tiver ordem aditiva infinita, então a característica de A é zero. De outro modo, a característica
de A é igual a ordem aditiva da identidade.

Qualquer anel finito tem característica positiva. Fp [x] tem característica p. 


88 CAPÍTULO 3. ANÉIS

Definição 3.1.4 Um subanel de A é um subconjunto B de A que é fechado pelas operações


de A, ou seja, se b1 , b2 ∈ B, então b1 + b2 ∈ B e b1 b2 ∈ B, e B com as restrições das operações
de adição e multiplicação de A é um anel.

É fácil verificar que uma condição suficiente para um subconjunto B não vazio de um
anel A ser um subanel se B é fechado sobre a subtração e a multiplicação como vemos na
seguinte

Proposição 3.1.2 Seja A um anel e B um subconjunto não vazio de A, então B é um subanel


de A se, e somente se, x − y ∈ B e xy ∈ B, para todos x, y ∈ B.

Demonstração. Se o conjunto B é um subanel, então dos axiomas segue que x − y ∈ B e


xy ∈ B, para todos x, x ∈ B.
Reciprocamente, sendo B não vazio temos que B possui algum elemento, digamos b0 , daí
pela hipótese tomando x = y = b0 temos que b0 − b0 ∈ B, isto é, 0 ∈ B. Vejamos que o
simétrico com respeito a adição de cada elemento está em B. De fato, seja b ∈ B qualquer.
Tome x = 0 e y = b, então da hipótese, temos que x − y = 0 − b = −b ∈ B. Os demais axiomas
da definição de anel são clamente satisfeitos visto B é uma parte de A. 

 Exemplo 3.1.4 nZ é um subanel de Z, para qualquer n. O anel Z/nZ não é um subanel de


Z, para n > 2. 

 Exemplo 3.1.5 Seja S = Z + Zi + Zj + Zk, o anel dos quatérnios inteiros, S é um subanel de


quatérnios racionais e dos quatérnios reais, este anel não é um anel de divisão. 

 Exemplo 3.1.6 A propriedade é um subanel de é uma relação transitiva. Z é um subanel de


Q, e Q é um subanel de R. 

Nossos primeiros exemplos foram de anéis comutativos. Um dos primeiros exemplos de


anéis não comutativos, foi o anel dos Quaténios, foi descoberto em 1843 por William Rowan
Hamilton (1805 - 1865). A descoberta deste anel foi muito importante no desenvolvimento da
matemática, e ainda desenpenha um papel importante em muitas áreas da matemática e da
física.

 Exemplo 3.1.7 (Anel dos Quatérnios H) Após a descoberta do complexo de números e o


desenvolvimento da teoria da análise complexa, os matemáticos procuraram outras estruturas
algébricas que estendessem os números complexos. Nesse sentido, eles buscaram espaços ve-
toriais sobre R que possuíssem uma multiplicação com boas propriedades, assim como C tem.
3.1. PROPRIEDADES PRINCIPAIS E EXEMPLOS 89

Em 1843, Hamilton definiu o conjunto de quatérnions como

H = {a + bi + cj + dk|a, b, c, d ∈ R},

onde os elementos adicionados como vetores {1, i, j, k} formando uma base. Ele definiu a multi-
plicação sobre H, onde elementos arbitrários devem satisfazer a distributividade e os elementos
i, j, k satisfazem i2 = j 2 = k 2 = −1, ij = k, jk = i, ki = j, ij = −ji, ik = −ki e jk = −kj.
Lembremos que os elementos ±1, ±i, ±j, ±k é o grupo dos quaternios Q8 .
O terno (H, +, ·) é um anel pode ser verificado diretamente ( a cargo do leitor). O anel dos
quartérnios H não é comutativo pois ij = k e ji = −k e com identidade 1. 

 Exemplo 3.1.8 (Anel de funções). Seja I um intervalo de números reais e seja F(I, R) o
conjunto de todas as funções de I em R. Equipado com a adição e multiplicação usuais de
funções, F(I, R) é um anel comutativo. As propriedades de um anel são herdadas de R. Em
contraste, F(I, R) não é um anel quando equipado com adição e composição porque o axioma
da distributividade falha. Por exemplo, considere as três funções f (x) = x + 1, g(x) = x2 e
h(x) = x3 . Então
(f ◦ (g + h))(x) = f (x2 + x3 ) + 1 = x3 + x2 + 1

(f ◦ g)(x) + (f ◦ h)(x) = x2 + 1 + x3 + 1 = x3 + x2 + 2.

Exercício 3.1.1 Mostre que o produto direto de dois anéis é um anel. 

Definição 3.1.5 Sejam (A1 , +1 , ·1 ) e (A2 , +2 , ·2 ) dois anéis. A soma direta dos dois anéis é o
triplo (A1 · A2 , +, ·), onde + e · são definidos como

(a, b) + (c, d) = (a +1 c, b +2 d),

(a, b) · (c, d) = (a ·1 c, b ·2 d).


A soma direta dos anéis é denotada por A1 A2 .
L

 Exemplo 3.1.9 — Anel das Matrizes Mn (A). Sejam A um anel e n um número inteiro positivo.
Seja Mn (A) o conjunto de todas as matrizes n × n com coeficientes em A. O conjunto Mn (A)
da matrizes é um anel sobre a adição e a multiplicação definidas de modo natural:

(aij ) + (bij ) = (aij + bij )


(aij )(bij ) = (cij )

A adição e definida somando elementos das posições ij’s correspondentes. O coeficiente ij


da matriz produto é dado por cij = nk=1 aik bkj , é um cálculo bastante simples verificar que que
P
90 CAPÍTULO 3. ANÉIS

com estas operações Mn (A) é um anel. Observe que mesmo que A seja um anel comutativo,
Mn (A) não é um anel comutativo para n ≥ 2. 

A aritmética modular apresenta exemplos de aritmética com algumas propriedades que não
aparecem na aritmética em Z ou em Q. Em particular, considere os exemplos de Z/5Z e
Z/6Z. Existem diferenças qualitativas entre algumas das propriedades aritméticas em Z/5Z e
em Z/6Z. Essas diferenças e outras são comuns na teoria dos anéis. Apresentamos algumas
terminologias principais.
Definição 3.1.6 Seja A um anel.

(i) Um elemento diferente de zero a ∈ A é chamado de divisor zero se existe b ∈ A \ {0}


tal que ab = 0 ou ba = 0.

(ii) Suponha que A tem identidade 1 6= 0. Um elemento u ∈ A é chamado unidade se


tem um inverso multiplicativo, isto é , ∃ v ∈ A tal que uv = vu = 1. O elemnto v é
denotado por u−1 . O conjunto da unidades de A é denotado por U (A).

Observe que a identidade 1 é ela mesma uma unidade, mas o elemento 0 não é um divisor
zero. Essa falta de simetria nas definições pode parecer pouco atraente, mas essa distinção
acaba sendo útil em todos os teoremas que discutem unidades e divisores zero. A definição
acima pode ser considerada para divisor de zero a direita e a esquerda. O anel Z não possui
divisores de zero, e os anéis Zn não possuem divisores de zero se,  e somente se,
 p é primo.
 Seja

1 −2 6 2
A = M2×2 (Z) o anel das matrizes 2×2 com entradas em Z, se x = ey=
  −2 4 3 1
0 0
em A, então xy = , então x é divisor de zero à esquerda e y é divisor de zero à direita.
0 0
A notação U (A) é uma notação herdada de U (n) como o conjunto de unidades em Z/6Z.
No anel (Z/nZ, +, ·), cada elemento diferente de zero é uma unidade ou um divisor zero.
Sabemos que as unidades em Z/nZ são elementos a tais que mdc(a, n) = 1. Agora, se mdc
(a, n) = d 6= 1, então existem inteiros k, l ∈ Z tal que ak = nl. Então, em Z/nZ ak = 0.
Em um anel arbitrário, em geral não é verdade que todo elemento diferente de zero seja uma
unidade ou um divisor zero. Não precisamos ir além dos inteiros para ver isso. As unidades
nos inteiros são U (Z) = {−1, 1}, e todos os elementos maiores que 1 em valor absoluto não
são unidades nem divisores zero. Por outro lado, como mostra a seguinte proposição, nenhum
elemento pode ser ambos.

Proposição 3.1.3 Seja A um anel com identidade 1 6= 0. O conjunto de unidades e o conjunto


de divisores zero em um anel são mutuamente exclusivos.

Demonstração. Suponha que a seja uma unidade e um divisor zero do anel A. Então existe
b ∈ A \ {0} tal que ba = 0 ou ab = 0. Suponha sem perda de generalidade que ba = 0. Também
3.1. PROPRIEDADES PRINCIPAIS E EXEMPLOS 91

existe c ∈ A tal que


ac = 1. Então

b = b(ac) = (ba)c = 0c = 0.

No entanto, isso é uma contradição, pois b 6= 0. 

Conforme mencionado acima, o conjunto de unidades contém a identidade multiplicativa.


Além disso, por definição, cada elemento em U (R) tem um inverso multiplicativo. Isso leva à
observação simples que formulamos como uma proposição.

Proposição 3.1.4 Seja A um anel com unidade 1 6= 0. Então, o conjunto U (A) é um grupo.
Chamado grupo das unidades de A.

Sejam A1 e A2 anéis com identidade 1 6= 0. Então, A1 A2 é um anel


L
Proposição 3.1.5
com unidade (1, 1).

Como um exemplo abstrato de subanéis, discutimos o centro de um anel.


Definição 3.1.7 Seja A um anel. O centro de A, denotado Z(A), consiste em todos os ele-
mentos que comutam com todos os outros elementos sob multiplicação. Em outras palavras,

Z(A) = {x ∈ A | xa = ax, ∀ a ∈ A}.

Proposição 3.1.6 Seja A um anel. O centro Z(A) de A é um subanel de A.

Demonstração. Sejam x1 , x2 ∈ Z(A) e seja a ∈ A. Então

a(x1 +(−x2 2)) = ax1 +a(−x2 ) = ax1 +(−(ax2 )) = x1 a+(−(x2 a)) = x1 a+(−(x2 )a) = (x1 +(−x2 ))a.

Portanto, x1 + (−x2 ) ∈ Z(A) e, portanto, (Z(A), +) é um subgrupo de (A, +). Além disso,
a(x1 x2 ) = (ax1 )x2 = (x1 a)x2 = x1 (ax2 ) = x1 (ax2 a) = (x1 x2 )a, então x1 x2 ∈ Z(A). Isso prova
que Z(A) é um subanel. 

As definições a seguir referem-se a elementos com propriedades específicas relacionadas à


suas potências. As propriedades de tais elementos do anel aparecem em alguns exercícios.
Definição 3.1.8 Seja A um anel. Um elemento a ∈ A é chamado nilpotente se existe um
inteiro positivo k tal que ak = 0. O subconjunto de elementos nilpotentes em A é denotado
por N (A).

Definição 3.1.9 Seja A um anel. Um elemento a ∈ R é denominado idempotente se a2 = a.


92 CAPÍTULO 3. ANÉIS

3.2 Domínio de integridade


É comum na teoria dos anéis definir classes de anéis em que os elementos possuem certas pro-
priedades. Então é conveniente estabelecer teoremas para uma classe particular de anéis. Na
verdade, já definimos a classe dos anéis comutativos. No entanto, muitas classes possuem termi-
nologia particular que evoca suas propriedades. Ilustramos esse hábito comum já introduzindo
três classes importantes de anéis definidas pela existência existência de unidades e divisores
zero.
Definição 3.2.1 Um anel R é chamado de domínio integridade se for comutativo, contém
uma identidade 1 6= 0 e não contém nenhum divisor.

A terminologia de domínio integridade evoca o fato de que os domínios integridade se


assemelham à álgebra dos inteiros. No entanto, encontraremos muitos outros domínios integrais
além dos inteiros.

Exemplo 3.2.1 O anel Z Z não é um domínio integral porque, em particular, (1, 0)·(0, 1) =
L


(0, 0), então (1, 0) e (0, 1) são divisores zero. 

Proposição 3.2.1 (Lei do Cancelamento) Seja A um domínio integridade. Então A satisfaz


a lei de cancelamento, ou seja, para todos a, b, c ∈ A,

ab = ac ⇒ b = c.

Demonstração. Adicionando −(ac) a ambos os lados, temos

ab = ac ⇒ ab − ac = 0 ⇒ a(b − c) = 0.

Como a não é um divisor de zero, temos b − c = 0. Portanto, b = c. 

Uma consequência dessa proposição é que a não precisa ser uma unidade. Na verdade, a lei
do cancelamento se aplica a qualquer anel sempre que a não for um divisor zero.
Definição 3.2.2 Um anel A com identidade 1 6= 0 é chamado de anel de divisão se cada
elemento diferente de zero em A for uma unidade.

 Exemplo 3.2.2 O anel dos quatérnios H é um anel de divisão. Um cálculo simples fornece o
produto

(a + bi + cj + dk)(a − bi − cj − dk) = a2 − abi − acj − adk + abi − b2 (−1)


−bck − bd(−j) + acj − bc(−k) − c2 (−1)
−cdi + adk − bdj − cd(−i) − d2 (−1)
= a2 + b 2 + c 2 + d 2 .
3.2. DOMÍNIO DE INTEGRIDADE 93

Alterando os sinais em b, c e d, obtemos o mesmo resultado com o produto na ordem inversa.


Para todos os elementos α = a + bi + cj + dk 6= 0, se a soma dos quadrados a2 + b2 + c2 + d2 6= 0
então o inverso de α é
α−1 = 1
a2 +b2 +c2 +d2
(a − bi − cj − dk).

Os quatérnions H são um exemplo de anel de divisão não comutativo. Devido à importância


do cálculo acima, se α = a + bi + cj + dk ∈ H definimos a notação α = a − bi − cj − dk e
chamamos a norma de α. 

Definição 3.2.3 Um anel de divisão comutarivo é chamado um corpo.

Um corpo é um conjunto F que possui uma adição + e uma multiplicação ·, em que (F, +)
é um grupo abeliano, (F \ {0}, ·) é um grupo abeliano, e no qual · é distributivo sobre + .
Essa estrutura já é conhecida por todos os alunos de longa data, por exemplo Q, R e C. No
entanto, no contexto da aritmética modular, encontramos corpos finitos., à saber, quando p é
primo Z/pZ é um corpo que contém p elementos e geralmente denotamo este corpo por Fp .

 Exemplo 3.2.3 Os anéis Z, Q, R, C são domínios de integridade. Se A é um domínio de


integridade, então A[x] também o é. 

Apresentamos duas famílias importantes de anéis que constroem novos anéis a partir de
anéis conhecidos.
Seja A um anel comutativo. Seja B um subanel de A e seja S um subconjunto de A. A
notação B[S] denota o menor (por inclusão) subanel de A que contém B e S. Obviamente, se
S ⊆ B, o anel B[S] = B então a notação é desinteressante. No entanto, se os elementos de S
não estiverem em B, então B é um subanel próprio de B[S].

 Exemplo 3.2.4 Considere o anel Z[ 21 ] como um subanel de Q. Como Z[ 21 ] é fechado sob


multiplicação, 1
4
= 1
2
× 1
2
∈ Z[ 12 ] e mais geralmente 21n ∈ Z[ 21 ], para todos os inteiros não
negativos n. Também porque o subanel é fechado na multiplicação, para todos os inteiros k e
n, a fração k
2n
é um elemento em Z[ 21 ]. Não é difícil mostrar que o conjunto

k
{ | k, n ∈ Z}
2n

é um subanel de Z. Portanto, este conjunto é precisamente o anel Z[ 12 ]. 

Não é incomum que o anel A seja obtido pelos elementos do conjunto S. Os dois exemplos
a seguir ilustram esse hábito de notação.

 Exemplo 3.2.5 [Inteiros Gaussianos] Considere o anel Z[i]. É entendido que este número
imaginário i satisfazendo que i2 = −1. Esta notação assume que o anel A é C. O anel Z[i]
94 CAPÍTULO 3. ANÉIS

conten todos os inteiros e, como ele é fechado sob a multiplicação, ele contém todos os multiplos
inteiros de i. Como Z[i] é fechado sob a adição, ele deve conter o subconjunto

{a + bi | a, b ∈ Z}.

Entretanto, este subconjunto é fechado sobre a subtração e sob a multiplicação com vemos
abaixo
(a + bi)(c + di) = (ac − bd) + (ad − bc)i.

Portanto, este conjunto é o menos subanel de C que contém Z e i, e assim é precisamente


o subanel Z[i]. É usual pensar em um número complexo a + bi como sendo um ponto do plano
R2 (veja figura abaixo). 

O anel Z[i] é chamado de anel dos inteiros gaussianos e é importante na teoria dos números
elementares. Em C, o inverso multiplicativo de um elemento é

a − bi
(a + bi)−1 = .
a2 + b 2
O grupo das unidades U (Z[i]) consiste de elementos a + bi ∈ Z[i] tal que

a b
, 2 ∈ Z.
a2 + b a + b2
2

Se |a| ≥ 2, então a2 > |a|, no qual a2 + b2 > |a| e portanto a2 + b2 pode não dividir a. De
modo análogo pra b. Consequentemente, se a + bi ∈ U (Z[i]), então |a| ≤ 1 e |b| ≤ 1, então
a2 + b2 = 2, enquanto a = ±1 e então a
a2 +b2
/ Z. Assim, vemos que as únicas unidades de Z[i]

satisfaz |a| = 1 e b = 0 ou a = 0 e |b| = 1. Portanto,

U (Z[i]) = { 1, −1, i, −i}.

Este grupo de unidades é isomorfo à Z4 .


3.2. DOMÍNIO DE INTEGRIDADE 95

 Exemplo 3.2.6 Considere como outro exemplo o anel Z[ 2]. Obviamente, Z é um subanel
√ √ √
de R e 2 ∈ R, então Z[ 2] é o menor subanel de R contendo o subanel de inteiros e 2.
Seguindo um processo semelhante ao do Exemplo (3.2.5), é fácil descobrir que
√ √
Z[ 2] = {a + b 2 ∈ R | a, b ∈ Z}.
√ √
Comentamos que todas as potências de 2 pertencem à Z[ 2], mas todas as potências

pares de 2 são potências de 2. Mas, para todos os inteiros ímpares 2k + 1, as potências
√ 2k+1 √
2 = 2k 2.

O grupo de unidades U (Z[ 2]) é mais complicado do que U (Z[i]) e deixamos esta investi-
gação como um exercício.
√ √
Uma maneira de representar os elementos de Z[ 2] é representar o número a+b 2 no plano
como o o ponto

→ →
a i + b u,
→ → √
onde i = (1, 0) e u = 2(cos( π4 ), sen( π4 )) O número real a + b 2 é obtido projetando o vetor
sobre a reta real, como podemos ver na figura abaixo.

Exercícios
1. Seja A = Z × Z e defina (a, b) + (c, d) = (a + c, b + d) e defina também (a, b) × (c, d) =
(ad − bc, bd). Verifique se (A, +, ×) é um anel.

2. Seja A um anel, seja r, s ∈ A, e seja m, n ∈ Z. Prove as seguintes fórmulas.

(a) m · (r + s) = (m · r) + (m · s)
96 CAPÍTULO 3. ANÉIS

(b) (m + n) · r = (m · r) + (n · r)

3. Seja A um anel, seja r, s ∈ A, e sejam m, n ∈ Z. Prove as seguintes fórmulas.

(a) m · (rs) = r(m · s) = (m · r)s

(b) (mn) · r = m · (n · r)

4. Prove que em C 0 ([a, b], R) a operação de composição · é distributiva à direita sobre a


adição +.

5. Seja I um intervalo de números reais. Prove que os divisores de zero em F un(I, R) são
funções diferentes de zero f (x) tais que existe x0 ∈ I tal que f (x0 ) = 0. Prove que todos
os elementos em F un(I, R) são ou 0, um divisor zero ou uma unidade.

6. Prove (cuidadosamente) que os elementos diferentes de zero em (C0 ([a, b], R), +, ×) que
não são divisores de zero nem unidades são funções para as quais existe um x0 ∈ [a, b] e
um  > 0 tal que f (x0 ) = 0 e para o qual f (x) 6= 0 para todo x tal que 0 < |x − x0 | < .

7. Seja α = 1 + 2i + 3j + 4k e β = 2 − 3i + k ∈ H, onde H é anel dos quaternios. Calcule as


seguintes operações:

(a) α + β;

(b) αβ; (c) βα; (d) αβ −1 ; (e) β 2 .

8. Seja A = {a + bi + cj + dk ∈ H | a, b, c, d ∈ Z}. Prove que A é um subanel de H e prove


que U (A) = Q∀ , o grupo quatérnio.

9. Fixe um inteiro n ≥ 2. Seja A(n) o conjunto de símbolos ā + ib̄ onde a, b ∈ Z/nZ. Defina
as operações + adioção e × multiplicação em A como em C.

(a) Prove que A(n) é um anel.

(b) Defina n = 6. Identifique todos os divisores de zero em A(6).

10. Defina Hom(V, W ) como o conjunto de transformações lineares de um espaço vetorial


real V para outro espaço vetorial real W . Prove que Hom(V, V ), equipado com + e ◦
(composição) é um anel.

11. Sejam A1 e A2 anéis com elementos identidade diferentes de zero. Prove que U (A1 ) ⊕
A2 ) ∼
= U (A1 ) ⊕ U (A2 ). Prove o resultado equivalente para um número finito de anéis
A1 , A2 , · · · , An .
3.3. HOMOMORFISMO E ANÉIS QUOCIENTES 97

12. Prove que a característica Car(R) de um domínio integral A é 0 ou um número primo.


[Dica: Por contradição.]

13. . Considere o anel Z ⊕ Z e considere o subconjunto A = {(x, y) | x − y = 0}. Prove que


A é um subanel. Decida se A é um domínio de integridade.

14. Prove que um domínio integral finito é um corpo.

15. Sejam A1 e A2 anéis. Prove que A1 ⊕ A2 é um domínio integridade se, e somente se, A1
é um domínio integridade e A2 = {0} ou vice-versa.

3.3 Homomorfismo e Anéis Quocientes


Definição 3.3.1 Seja A e B anéis. Uma aplicação f : A → B é um homomorfismo de anéis
se

(i) f (a + b) = f (a) + f (b);

(ii) f (ab) = f (a)f (b).

O núcleo de um homomorfismo de anéis f , é denotado por, Ker f , é o conjunto de todos os


elementos de A que são enviados para 0 ∈ B. Mais precisamente, Ker f = {x ∈ A | f (x) = 0}.
O núcleo definido anteriormente, e o mesmo núcleo quando pensamos A e B simplesmente
como grupos com a adição, então segue que f (0) = 0 e f (−x) = −f (x) e além disso, f é
um homomorfismo injetor se, e somente se, Ker f = {0}. A imagem de f , Im f = f (A) =
{f (x) | x ∈ A} é claramente um subgrupo aditivo de B, e como vale que f (xy) = f (x)f (y)
segue que Im f é um subanel de B.
Um homomorfismo injetor f é chamado um monomorfismo, se f é sobrejetor é chamado
um epimorfismo. Se f é bijetor é chamado um isomorfismo. Neste último caso, f −1 é um
isomorfismo de B em A; diremos que A e B são isomorfos e denotaremos por A ∼
= B. Igualmente
como estudado em grupos, isomorfismo é uma relação de equivalência sobre o conjunto de todos
os anéis. Um automorfismo de um anel A é um isomorfismo de A sobre A.
Se A e B são anéis com 1, então aplicação f : Z → A, que leva n para n1A é um homomor-
fismo de anéis.
Exercício 3.3.1 Seja f : A → B um homomorfismo de anéis. Mostre que f (A) é um subanel
de B. 

 Exemplo 3.3.1 Sejam A e B anéis. Então aplicação nula θ : A → B que envia cada x ∈ A
para 0 é um homomorfismo. 
98 CAPÍTULO 3. ANÉIS

 Exemplo 3.3.2 Seja C o corpo dos números complexos. Então aplicação φ : C → C dada por
φ(a + ib) = a − ib é um automorfismo de C. 

 Exemplo 3.3.3 Seja F um corpo qualquer e seja a ∈ F. A aplicação ϕ : F[x] → F definida


por ϕ(f ) = f (a) é um epimorfismo. O núcleo Ker ϕ = {f ∈ F[x] | f (a) = 0}, isto é, o Ker ϕ é
o conjunto de todos os polinômios que tem a como raíz. 

 Exemplo 3.3.4 Seja A × A o produto direto do anel Aele mesmo. A aplicação ϕ : A × A → A,


definida por ϕ(x, y) = x é um epimorfismo. E a aplicação φ : A → A × A, definida por
φ(x) = (x, 0) é um monomorfismo. 

 Exemplo 3.3.5 Seja M2×2 (A) o anel das matrizes2 × 2 com


 entradas no anel A. A aplicação
a 0
ϕ : A → M2×2 (A) que envia a ∈ A para a matriz é um monomorfismo. E aplicação
 0 a
a 0
φ : A → M2×2 que envia a ∈ A para a matriz é também um monomorfismo. 
0 0

3.3.1 Ideais

Os ideais são uma classe importante de subanéis em um anel. Primeiro, veremos sua impor-
tância em referência à construção de anéis quocientes, onde os ideais desempenham o papel na
teoria dos anéis que os subgrupos normais desempenham na teoria dos grupos. No entanto, os
ideais possuem muitas propriedades importantes independentemente de seu papel na criação
de anéis quocientes. O conceito de ideal surgiu pela primeira vez na teoria dos números no
contexto do estudo de propriedades de extensões inteiras, ou seja, certos subanéis de C que

contêm Z. Os inteiros gaussianos e anéis como ZZ[ 3 23 são alguns exemplos. Em extensões
inteiras, os números nem sempre têm certas propriedades de divisibilidade desejadas, mas os
ideais têm. (Este é um resultado do Teorema de Dedekind da teoria algébrica dos números,
que não tratamos aqui, mas facilmente acessível com o conteúdo que desenvolvemos nesteas
notas.) Isso motivou o termo “ideal”. Também se verifica que os ideais desempenham um papel
fundamental na geometria algébrica, um ramo da matemática em que as ferramentas da álgebra
abstrata são aplicadas ao estudo da geometria.
Definição 3.3.2 Seja A um anel. Um subanel I de A chama-se ideal à esquerda de A se é
fechado pela multiplicação à esquerda por elementos de A, isto é, para todo a ∈ A, i ∈ I,
temos que ai ∈ I. De modo análogo define-se ideal à direita. Um subanel que é ideal à
esquerda e à direita é chamado um ideal (ou, um ideal bilateral) de A. Denotaremos o ideal
I de A, escrevendo I C A.

Se o anel é comutativo as noções de ideal à direita e à esquerda coincidem. Para que um


subconjunto de um anel A seja um ideal de A é necessário provar que I é não vazio, e fechado
3.3. HOMOMORFISMO E ANÉIS QUOCIENTES 99

sobre a subtração e fechado sobre a multiplicação por elementos de A. Se A tem identidade,


então (−1)a = −a e neste caso I é um ideal se é não vazio, e fechado pela adição e pela
multiplicação pelos elementos de A.
Os subanéis A e {0} são ideais. Um ideal I é chamado próprio se I 6= A.

 Exemplo 3.3.6 — Ideais em Z. . Afirmamos que todos os ideais em Z são da forma nZ, onde
n é um inteiro não negativo. O subconjunto {0} = 0Z é um ideal. Por outro lado, seja I um
ideal em Z e seja n o menor inteiro positivo em I, que existe em virtude do do Princípio da
Boa Ordenação de Z. Agora, seja m qualquer inteiro em I. Pelo Algoritmo da divisão aplicado
a m e n temos que m = nq + r, para algum inteiro q e algum resto 0 ≥ r < n. No entanto,
como I é fechado sob multiplicação por qualquer elemento no anel, então nq ∈ I e como I é
fechado sob subtração, r = m − nq ∈ I. Como n é o menor elemento positivo em I e como r é
não negativo com r < n, então r = 0. Concluímos que m = qn e, portanto, todo elemento em
I é um múltiplo de n. Consequentemente, I = nZ. 

O estilo de demonstração no exemplo acima (ou seja, referindo-se a um elemento que é


mínimo de alguma forma) não é incomum na teoria dos anéis. No entanto, não se aplica a
todos os anéis. De fato, a noção de minimalidade deriva da ordem parcial ≤ em Z. Em
contraste, muitos anéis não possuem essa ordem parcial.
Exercício 3.3.2 Seja f : A → B um homomorfismo de anéis. Mostre que Ker f é um ideal
de A. 

 Exemplo 3.3.7 Seja n ∈ Z, o conjunto I = nZ = {nz | z ∈ Z} é um ideal de Z. 

 Exemplo  Seja A = M2×2 (Z) o anel da matrizes 2×2 com entradas no anel Z. Considere
 3.3.8
x 0
I ={ | x, y ∈ Z}, temos que I é um ideal à esquerda de A, mas não é um ideal à
y 0
direita de A. 

Existe uma maneira conveniente de descrever ideais em um anel usando subconjuntos gera-
dores.
Definição 3.3.3 Seja S um subconjunto de um anel A.
(1) Denotamos por (S), o menor ideal (por inclusão) em A que contém o conjunto S. Dizemos
que o ideal (S) é gerado por S.
(2) Um ideal que pode ser gerado por um único conjunto de elementos é chamado de ideal
principal. (3) Um ideal gerado por um conjunto finito S é chamado de ideal finitamente
gerado.

Observe que, quando nos referimos ao subconjunto (S) de A, ele é, por definição, um ideal
e, portanto, não há necessidade de provar isso. A notação acima, no entanto, não é explícita,
pois não oferece diretamente um meio de determinar todos os elementos em (S). Existe uma
100 CAPÍTULO 3. ANÉIS

maneira explícita de criar um ideal a partir de um subconjunto S ⊆ A. Para descrevê-lo,


definimos os seguintes conjuntos.
Definição 3.3.4 Dado um anel A e um subconjunto S, podemos criar alguns ideais a partir
de S.
(1) AS denota o subconjunto de combinações A-lineares finitas à esquerda de elementos em
S, ou seja, AS = {a1 s1 + a2 s2 + · · · + an sn | ai ∈ A, si ∈ S}. (2) SA denota o subconjunto de
combinações A-lineares finitas à direita de elementos em S, ou seja, SA = {s1 a1 +s2 a2 +· · ·+
sn an | si ∈ S, ai ∈ A}. (3) ASA denota o subconjunto de combinações A-lineares bilaterias
finitas de elementos em S, ou seja, ASA = {a1 s1 b1 + a2 s2 b2 + · · · + an sn bn | ai , bi ∈ A, si ∈ S}.

Proposição 3.3.1 Seja A um anel e seja S um subconjunto qualquer.

1. AS é um ideal à esquerda, SA é um ideal à direita e ASA é um ideal bilateral.

2. Se A é um anel com identidade 1 6= 0, então (S) = ASA.

3. Se A é comutativo com identidade 1 6= 0, então SA = AS = ASA = (S).

Demonstração. Para a parte (1), sejam a1 s1 + a2 s2 + · · · + am rm e a01 s01 + a02 s02 + · · · + a0m s0m
dois elementos de AS. Então, sua diferença

a1 s1 + a2 s2 + · · · + am rm − a01 s01 + a02 s02 + · · · + a0m s0m

é outra combinação linear finita de elementos em AS. Além disso, dado qualquer a ∈ A,

a(a1 s1 + a2 s2 + · · · + am rm ) = (aa1 )s1 + (aa2 )s2 + · · · + (aam )sm

também é uma combinação linear em AS. Portanto, SA é um ideal à esquerda.


A prova de que SA é um ideal à direita é semelhante. Sejam a1 s1 b1 + a2 s2 b2 + · · · + am sm bm
e a01 s01 b01 + a02 s02 b02 + · · · + a0m s0m b0m dois elementos em ASA. Então a diferença entre eles é
a1 s1 b1 + a2 s2 b2 + · · · + am sm bm + (−a01 )s01 b01 + (−a02 )s02 b02 + · · · + (−a0m )s0m b0m que é novamente
um elemento em ASA. Se c for um elemento qualquer em A, então

c(a1 s1 b1 + a2 s2 b2 + · · · + am sm bm ) = (ca1 )s1 b1 + (ca2 )s2 b2 + · · · + (cam )sm bm


(a1 s1 b1 + a2 s2 b2 + · · · + am sm bm )c = a1 s1 (b1 c) + ca2 s2 (b2 c) + · · · + am sm (bm c)

que são ambos elementos de ASA. Portanto, ASA é um ideal (bilateral).


Para a parte (2), suponha que A tenha uma identidade 1 6= 0. Tomando (ai , bi ) como 1 ou
0, conforme apropriado, deduzimos que S ⊆ ASA. Portanto, ASA é um ideal que contém S.
Por definição, (S) ⊆ ASA. Entretanto, pela definição de ideais, a1 s1 b1 + a2 s2 b2 + · · · + am sm bm
é um elemento de qualquer ideal que também contenha S. Assim, ASA ⊆ (S). Portanto,
(S) = ASA.
3.3. HOMOMORFISMO E ANÉIS QUOCIENTES 101

Finalmente, para a parte (3), suponha que A seja comutativo com uma identidade 1 6= 0.
Pela parte (2), já temos ASA = (S). A comutatividade resulta em SA = AS. Também por
comutatividade segue,

a1 s 1 b 1 + a2 s 2 b 2 + · · · + am s m b m = a1 b 1 s 1 + a2 b 2 s 2 + · · · + am b m s m ,

Logo, ASA ⊆ AS. Entretanto, como A tem uma identidade, definindo bi = 1 para
i = 1, 2, · · · , m, obtemos todos os elementos em AS como elementos em ASA. Portanto,
AS ⊆ ASA e, portanto, temos AS = SA = ASA. 

 Exemplo 3.3.9 Considere o ideal I = (m, n) em Z. Como Z é comutativo, I = {sm+tn | s, t ∈


Z}. Sabemos que, I = (d) onde d = mdc (m, n). Usando este resultado, e um argumento de
indução conseguimos provar que todo ideal finitamente gerado em Z pode ser gerado por um
único elemento. Entretanto, em anéis arbitrários existem ideais que não são finitamente gerados.
O argumento de indução acima não seria suficiente para concluir que todos os ideais em Z são
gerados por um único elemento. Por outro lado, O Exemplo 3.3.6 apresentou um argumento
diferente que provou que todos os ideais em Z são principais. 

 Exemplo 3.3.10 Considere o ideal I = (5, x2 − x − 2) em Z[x]. Este ideal consiste de todas
as combinações lineares polinomiais

5p(x) + (x2 − x − 2)q(x), (3.1)

com p(x), q(x) ∈ Z[x]. Como no Exemplo 3.3.9, mesmo que o ideal é expresso usando dois
geradores não significa que dois geradores sejam realemente necessários. Suponha que I =
(a(x)), para algum polinômio a(x). Então, como 5 ∈ I, temos a(x)r(x) = 5 para algum r(x) ∈
Z[x]. Portanto, por considerações sobre o grau, temos que gr a(x) = 0 e, portanto, a(x) deve ser
1 ou 5. Agora, x2 −x−2 tem coeficientes que não são múltiplos de 5, então, como x2 −x−2 ∈ I,
não podemos ter I = (5). Portanto, se I é um ideal principal, então I = (1) = Z[x]. No entanto,
notamos que todo polinômio r(x) na forma de 3.1 tem a propriedade de que r(2) é um múltiplo
de 5. Este não é o caso para todos os polinômios em Z[x] Portanto, I = Z[x]. A suposição de
que I é principal leva a uma contradição, então I requer dois geradores. 

Os exemplos a seguir ilustram como as condições da Proposição 3.3.1 são necessárias para
que o resultado seja válido.

 Exemplo 3.3.11 Seja A o anel 2Z e considere o subconjunto S = {4}. O ideal (4) = 4Z,
enquanto AS = SA = 8Z e SAS = 16Z. 
102 CAPÍTULO 3. ANÉIS

 Exemplo 3.3.12 Considere o anel A = M  que é um anel com identidade 1 6= 0, mas é


2×2 (Z),
0 1
um anel não comutativo. Seja a a matriz .
0 0
A notação Aa significa A{a} e consiste em múltiplos à esquerda ba de a. (As combinações
lineares colapsam para apenas um múltiplo de a). Além disso, aA consiste em múltiplos à
direita de a. No entanto, pelas propriedades de postos de matrizes, como o posto a é 1, o posto
de qualquer múltiplo de a (à esquerda ou à direita) pode ser no máximo 1. Portanto, Aa e aA
são subconjuntos estritos de A. Do item (2) da Proposição 3.3.1, sabemos que AaA = (a). No
entanto, pode-se mostrar (ver Exercício 3.3.3) que (a) = M2×2 (Z) de modo que Aa = aA 6=
(a) = AaA. 

 
 0 1
Exercício 3.3.3 Seja A = M2×2 (Z) e seja S = .
0 0
(a) Determine todas as matrizes AS e todas as matrizes em SA;
(b)Obtenha matrizes        
a 0 0 b 0 0 0 0
, , , ,
0 0 0 0 c 0 0 d
, como elementos em ASA.
(c) Deduza que ASA = (a) = M2×2 (Z). 

3.4 Domínio de ideais principais


O Exemplo estabeleceu uma importante propriedade dos inteiros, ou seja, todo ideal é principal.
Anéis com esta propriedade se beneficiam de muitas propriedades interessantes associadas. Por
esta razão, damos um nome a esta classe particular de anéis.
Definição 3.4.1 Um domínio de ideais principais (PID) é um domínio integral A no qual
todo ideal é principal.

Operações sobre Ideais


Definição 3.4.2 Sejam I, J ideais em um anel A. Definimos as seguintes operações sobre
ideais: (1) A soma, I + J = {a + b | a ∈ I e b ∈ J}.
(2) O produto, IJ consiste em somas finitas dos elementos ai bi com ai ∈ I e bi ∈ J. Assim,

IJ = {a1 b1 + a2 b2 + · · · + an bn | ai ∈ I, bi ∈ J}.

(3) A potência I k é a operação de produto iterada em I. Também definimos I 0 = A

Proposição 3.4.1 Sejam I, J ideais em um anel A. Então, I + J, I ∩ J são ideais de A. Além


3.4. DOMÍNIO DE IDEAIS PRINCIPAIS 103

disso, temos as seguintes realções.

IJ ⊆ I ∩ J ⊆ I, J ⊆ I + J

A demosntração desta proposição é deixada como exercício.

 Exemplo 3.4.1 Seja A = Z e seja I = 12Z e J = 45Z. As operações ideais listadas na


Definição (3.4.2) são IJ = 540Z, I ∩ J = 180Z e I + J = 3Z.
Observamos que IJ = (12 × 45), I ∩ J = mmc(12, 45) e I + J = mdc(12, 45) . Conse-
 

quentemente, as operações sobre ideais generalizam diretamente as noções de produto, mínimo


múltiplo comum e máximo divisor comum. 

Como os ideais generalizam a noção de mínimo múltiplo comum e máximo divisor comum,
devemos ter um conceito equivalente para relativamente primo. Lembre-se de que a, b ∈ Z são
chamados relativamente primos se mdc(a, b) = 1. Na teoria dos anéis, a noção que generaliza
é semelhante.
Definição 3.4.3 Seja A um anel com identidade 1 6= 0. Dois ideais I e J de A são chamados
comaximais se I + J = A.

Observe que esta definição só se aplica quando um anel tem uma identidade. Por exemplo,
os ideais (2) e (3) são comaximais em Z. Consideremos agora outro exemplo, tomemos os ideais
(x2 ) e (x + 1). Temos que (x2 ) + (x + 1) = (x2 , x + 1). Mas (1 − x)(x + 1) + 1 · x2 = 1 está no
ideal (x2 , x + 1) e, portanto, (x2 , x + 1) = Z[x]. Assim, (x2 ) e (x + 1) são ideais comaximais.
É fácil obter conjuntos geradores de I + J e IJ a partir de conjuntos geradores de I e
J. Suponha que I e J sejam gerados por certos conjuntos finitos de elementos, digamos I =
(a1 , a2 , · · · , am ) e J = (b1 , b2 , · · · , bn ). Então I + J = (a1 , a2 , · · · , am , b1 , b2 , · · · , bn ) e o conjunto
IJ é gerado pelo conjunto {ai bj | i = 1, 2, · · · , m, j = 1, 2, · · · , n} (Verifique!).
Seja A um anel e I um ideal de A. Como A é um grupo abeliano com a adição e I é um
subgrupo de A com respeito à esta operação, então podemos definir o grupo quociente A/I.
Observe que os elementos de A/I são as classes laterais a + I, onde a ∈ A. E a adição sobre o
grupo quociente A/I é dada por

(a + I) + (b + I) = (a + b) + I.

Para tornar A/I um anel precisamos definir uma multiplicação sobre A/I de modo natural.
Como este intuito definamos
(a + I)(b + I) = ab + I.

Mas não é claro se isto define uma operação binária sobre A/I. Para mostrar isso considere
outros representantes para as classes laterais, isto é, a + I = a1 + I e b + I = b1 + I, onde
104 CAPÍTULO 3. ANÉIS

a, a1 , b, b1 ∈ A. Desta igualdade segue que a = a1 = i e b = b1 + j, onde i, j ∈ I. Logo,


(a + I)(b + I) = ab + I = (a1 + i)(b1 + j) + I
= a1 b1 + a1 j + ib1 + ij + I,
Sendo I um ideal, temos que a1 j, ib1 e ij são elementos de I. Assim

ab + I = (a1 + i)(b1 + j) + I = a1 b1 + I,

e então a operação de multiplicação sobre A/I está bem definida. Resta agora provar que vale
as leis de distributividade sobre A/I. E assim R/I torná-se um anel. Se A é um anel com 1,
então 1 + I é a identidade de A/I. Se tivermos que A é uma anel comutativo, então A/I é um
anel comutativo. A aplicação natural π : A → A/I, definida por π(x) = x+I é um epimorfismo
e o Ker π é o ideal I. Como vimos anteriormente, o núcleo de um homomorfismo é um ideal,
mas agora podemos dizer que de fato dado um ideal qualquer I de uma anel A, então I é um
núcleo de um homomorfismo de A em um outro anel, a saber I = ker π.
Definição 3.4.4 O anel A/I definido acima é chamado Anel quociente de A com respeito ao
ideal I, (ou simplesmente A mod I). O homomorfismo π : A → A/I que envia a ∈ A para
a + I é chamado de homomorfismo natural.

Descrevemos agora todos os ideais de um anel quociente A/I em termos dos ideais de A
que contém I.
Teorema 3.4.1 Seja I um ideal de um anel A. (1) Se J é um ideal de A com I ⊆ J, então
I/J = {b + I I b ∈ J} é um ideal de A/I.
(2) Se J éum ideal qualquer de A/I, então J = J/I para algum (único) ideal J de A com
I ⊆ J. Mais precisamente, J = {b ∈ A I b + I ∈ J}.
(3) Se J e J1 são ideais de A que contêm I, então

J ⊆ J1 se, e somente se J/I ⊆ J1 /I.

Demonstração. .(1) Esta é uma verificação de rotina que deixamos para o leitor.
(2) Dado um ideal J ⊆ A/I, seja J = {b ∈ A | b + I ∈ J}. Então, J é um ideal de A (verifique!),
e temos J ⊆ I, pois a + I = 0 + I ∈ J, para totos a ∈ I. Portanto, resta mostrar que J = J/I.
Temos J ⊆ J/I, pois x + I ∈ J, implica que x ∈ J, portanto x + I ∈ J/I. Reciprocamente, se
x + I ∈ J/I, então x + I = b + I, para algum b ∈ I. Mas, b + I ∈ J, pois b ∈ J, isto é x + I ∈ J,
e mostramos que J/I ⊆ J. Portanto, J/I = J.

(3) Se J ⊆ J1 , é claro que J/I ⊆ J1 /I. Para a inclusão oposta, suponha que J/I ⊆ J1 /I,
e seja b ∈ J. Então b + I ∈ J1 /I, digamos b + I = b1 + I, para algum b1 ∈ J1 . Portanto,
b ∈ b1 + I ⊆ J1 , pois I ⊆ J1 , então J ⊆ J1 como queríamos. 
3.4. DOMÍNIO DE IDEAIS PRINCIPAIS 105

Proposição 3.4.2 [Primeiro Teorema do Isomorfismo para Anéis] Sejam A e B anéis e seja
f : A → B um homomorfismo. Então A/Ker f ∼
= Im f .

Demonstração. Considere a aplicação ϕ : A/Ker f → B que envia a + ker f para f (a). É


fácil ver que ϕ é um homomoprfismo e que Ker ϕ = {0}. E como a Im ϕ = Im f o resultado
segue. 

 Exemplo 3.4.2 Para qualquer anel A, o subconjunto {0} é um ideal de A e A/{0} é isomorfo
a A. Para ver isso usamos o Primeiro Teorema do Isomorfismo, considere o homomorfismo de
identidade i : A → A. É obviamente sobrejetivo e o núcleo é Keri = {0}. Portanto, {0} é um
ideal com A/{0} ∼= A. 

 Exemplo 3.4.3 . Seja A um anel comutativo e seja G um grupo finito com G = {g1 , g2 , · · · , gn }.
Seja
n
nX o
ai gi ∈ A[G] | a1 + a2 + · · · + an = 0
i=1

Este conjunto é um ideal em virtude de ser o núcleo da aplicação θ : A[G] → A que associa
a cada elemento ni=1 ai gi ∈ A[G] oelemento a1 + a2 + · · · + an . Esta aplicação é sobrejetiva,
P

pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo, A[G]/I ∼ = R. 

Uma importante aplicação do Primeiro Teorema do Isomorfismo envolve o chamado homo-


morfismo de redução em anéis polinomiais. Seja A um anel comutativo e seja I um ideal em
A. O homomorfismo de redução φ : A[x] → (A/I)[x] é definido por

φ(am xm + · · · + a1 x + a0 ) = ām xm + · · · + ā1 x + ā0 ,

onde ā é o classe lateral de a em A/I. Como a inclusão de classes laterias em A/I se comporta
bem em relação a + e ×, é fácil mostrar que φ é de fato um homomorfismo conforme afirmado.
O núcleo de φ é Kerφ = I[x]. O Primeiro Teorema do Isomorfismo leva ao seguinte resultado.

Proposição 3.4.3 Seja A um anel e seja I um ideal. Então o subanel I[x] de A[x] é um ideal
e
A[x]/I[x] ∼
= (A/I)[x].

Listados abaixo estão os segundo, terceiro e quarto teoremas de isomorfismo para anéis. As
provas foram omitidas e deixadas para verificação do leitor.
Teorema 3.4.2 (Segundo Teorema do Isomorfismo) Sejam A um anel qualquer, I um subanel
106 CAPÍTULO 3. ANÉIS

e seja J um ideal de A. Então I + J é um subanel de A, I ∩ J é um ideal de A e

(I + J)/J ∼
= I/I ∩ J.

Teorema 3.4.3 ( Terceiro Teorema do Isomorfismo) Seja A um anel qualquer e I ⊂ J ideais


de A. Então J/I é um ideal de A/I e

(A/I)/(J/I) ∼
= R/J.

Teorema 3.4.4 (Quarto Teorema do Isomorfismo) Seja A um anel e seja I um ideal. A


correspondência I ↔ A/I é uma bijeção que preserva a inclusão entre o conjunto de subanéis
de A/I e o conjunto de subanéis de A que contém I. Além disso, um subanel I de A é um
ideal se, e somente se, A/I é um ideal de A/I.

 Exemplo 3.4.4 Uma aplicação simples do Terceiro Teorema do Isomorfismo para anéis surge
na aritmética modular. Seja A = Z e I = (12) = 12Z. Agora, J = (4) = 4Z é também um
ideal de Z. O terceiro teorema do isomorfismo fornece:

(Z/12Z)/(4Z/12Z) ∼
= Z/4Z

O Teorema Chinês do Resto é um resultado da aritmética modular que se generaliza para


anéis quocientes. Diferente de muitos ouros teoremas este é conhecido pela naturalidade do
matemático que o provou do que pelo nome do mesmo (à saber, Sun Tzu). Apresentamos
agora primeiro o Teorema Chinês do Resto em sua forma aplicada à aritmética modular.
Teorema 3.4.5 Sejam n1 , n2 , · · · , nk inteiros maiores que 1 que são relativamente primos dois
a dois, ou seja, mdc(ni , nj ) = 1, para i =
6 j. Para quaisquer inteiros a1 , a2 , . · · · , ak ∈ Z, o
sistema de congruências
x ≡ a1 , mod (n1 )
x ≡ a1 , mod (n2 )
..
.
x ≡ a1 , mod (nk )
tem uma única solução x módulo n = n1 n2 · · · nk .

Demonstração. Para cada i, defina n0i = n/ni . Agora ni e n0i são relativamente primos, então
existem inteiros si e ti tais que si ni + ti n0i = 1. Então para todo i, temos ti n0i ≡ 1 (mod ni ),
então ai ti n0i ≡ ai (mod ni ). Considere o inteiro dado por x = a1 t1 n01 + a2 t2 n02 + · · · + ak tk n0k .
Então, como j ≡ 0(mod ni ) se i 6= j, temos que x ≡ ai (mod ni ) para todo i. Assim, x
satisfaz todas as relações de congruência no sistema.
Se outro inteiro y satisfizer todas as condições de congruência, então x − y é congruente a
3.4. DOMÍNIO DE IDEAIS PRINCIPAIS 107

0 para todo ni e, portanto, n | (x − y), estabelecendo a unicidade da solução. 

 Exemplo 3.4.5 Encontre um x tal que x ≡ 3 (mod 8), x ≡ 2 (mod 5) e x ≡ 7 (mod 13).
O teorema confirma que existe uma solução única para x módulo 520. A prova fornece um
método para encontrar essa solução. Temos que n1 = 8, n2 = 5n3 = 13; e n01 = 65, n02 = 104,
n03 = 40.
Precisamos agora calcular ti como o inverso de n0i módulo ni . Assim, ni são pequenos o
suficiente para obtermos por tentativa. Logo, encontramos t1 = 1, t2 = 4, t3 = 1. Assim,
de acordo com a prova acima, a solução para o sistema de equações de congruência é x =
a1 t1 n01 + a2 t2 n02 + a3 t3 n03 = 3 × 1 × 65 + 2 × 4 × 104 + 7 × 1 × 40 = 1307. Portanto, a solução
do sistema é x ≡ 267(mod 520). 

Para generalizar o teorema acima para anéis, uma congruência é equivalente a igualdade em
um anel quociente e a noção de relativamente primo corresponde a comaximalidade de ideais.
Teorema 3.4.6 Seja A um anel comutativo com 1 6= 0 e sejam I1 , I2 , · · · Ik ideais de A. A
aplicação
A → A/I1 ⊕ A/I2 ⊕ · · · ⊕ A/Ik
a 7→ (a + I1 , a + I2 , · · · , a + Ik )
é uma homomorfismo de anéis com núcleo I1 ∩ I2 ∩ · · · Ik . Se os ideais são dois a dois
comaximais, então a aplicação é sobrejetora, I1 I2 · · · Ik = I1 ∩ I2 ∩ · · · ∩ Ik , e

A/(I1 I2 · · · Ik ) ∼
= (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) ⊕ · · · ⊕ (A/Ik )

Demonstração. Provamos o resultado primeiro para k = 2 e depois estendemos por indução.


Sejam I1 e I2 dois ideais comaximais e considere φ : A → (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) definido por

φ(a) = (a + I1 , a + I2 ).

Como I1 e I2 são comaximais, existem a1 ∈ I1 e a2 ∈ I2 tais que a1 + a2 = 1. Seja r, s ∈ A


arbitrários e seja x = ra2 + sa1 . Então

φ(x) = (x + I1 , x + I2 ) = (ra2 + I1 , sa1 + I2 )


= (r − ra1 + I1 , s − sa2 + I2 ) = (r + I1 , s + I2 ).
Portanto, φ é sobrejetiva. O núcleo de φ é o conjunto {r ∈ A | r ∈ I1 e r ∈ I2 } = I1 ∩ I2 .
Como I1 e I2 são comaximais, podemos obter que I1 ∩ I2 = I1 I2 . Pelo primeiro teorema do
isomorfismo temos,

A/(Ker φ) = A/(I1 I2 ) ∼
= (A/I1 1) ⊕ (A/I2 ).
108 CAPÍTULO 3. ANÉIS

Provamos assim o teorema para qualquer par de ideais comaximais.


Agora suponha que o teorema seja válido para algum inteiro k. Suponha que temos
I1 , I2 , · · · , Ik+1 são dois a dois comaximais. Como Ik+1 é comaximal com Ii para 1 ≤ i ≤ k,
então para todo i com 1 ≤ i ≤ k, existem ai ∈ Ai e bi ∈ Ik+1 tal que ai + bi = 1. Então
1 = 1k = (a1 + b1 )(a2 + b2 ) · · · (ak + bk ) = a1 a2 · · · ak + b, onde b ∈ Ik+1 .
Assim, os ideais I1 I2 · · · Ik e Ik+1 são comaximais. Assim, e como provamos o teorema vale
para k = 2, temos que

 
A/(I1 I2 · · · Ik+1 ) ∼
= (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) ⊕ · · · ⊕ (A/Ik ) ⊕ A/Ik+1

Pela hipótese de indução, deduzimos que

A/(I1 I2 · · · Ik+1 ) ∼
= (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) ⊕ · · · ⊕ (A/Ik ) ⊕ (A/Ik+1 )

Por indução, o teorema é válido para todos os inteiros k ≥ 2 

Este teorema leva à decomposição para o grupo de unidades na aritmética modular.

Corolário [Link] Seja n um inteiro positivo e seja n = pα1 1 pα2 2 · · · pk k . Então,


α

Z/nZ ∼ α
= Z/pα1 1 Z ⊕ Z/pα2 2 Z ⊕ · · · ⊕ Z/pk k Z

e como sabemos que U (A1 ⊕ A2 ) ∼


= U (A1 ) ⊕ U (A2 ). Segue que

U Z/nZ ∼ α
= U Z/pα1 1 Z ⊕ U Z/pα2 2 Z ⊕ · · · ⊕ U Z/pk k Z .
   

Exercícios
1. Prove que se a é nilpotente, então é um divisor de zero.

2. Encontre um exemplo de um elemento nilpotente diferente de zero, em um dos anéis


Z/nZ.

3. Prove que se a é nilpotente, então 1 + a é invertível.

4. Prove que o anel quociente Z[x]/ (5x − 1) é isomorfo ao subanel Z[5] = { 5nk | n ∈ Z, k ∈
N} de Q.

5. Considere o ideal I = (x + 1, x2 + 1) no anel R[x]. Prove que 2 ∈ (x + 1, x2 + 1). Deduza


que I = R[x] de modo que R[x]/I ∼ = {0}, o anel trivial.
3.4. DOMÍNIO DE IDEAIS PRINCIPAIS 109

6. Considere o ideal I = (x + 1, x2 + 1) no anel Z[x]. Prove que 2 ∈ (x + 1, x2 + 1). Prove


que I = (x + 1, 2). Prove que Z[x]/I ∼
= Z/2Z.

7. Considere o anel quociente R[x]/(x3 + x − 2).


(a) Neste anel quociente, calcule e simplifique quanto possível a soma e o produto de
x2 + 7x − 1 e 2x2 − x + 5.
(b) Prove que este anel quociente não é um domínio de integridade.

8. Considere o anel quociente Z[x]/(2x3 + 5x − 1).


(a)Neste anel quociente, calcule e simplifique o máximo que possível a soma e o produto
de 4x2 − 5x + 2 e 2x + 7.
(b) Mostre que x é uma unidade.

9. Seja f (x) = x2 + 2 ∈ F5 [x].


(a) Prove que o anel quociente F5 [x]/(f (x)) tem 25 elementos.
(b) Prove que F5 [x]/(f (x)) não contém divisor de zero.
(c) Deduza que F5 [x]/(f (x)) é um corpo.

10. Seja A um domínio inteiro e seja a(x) ∈ R[x] com gr(a(x)) = n > 0 e an ∈ U (R).
(a) Prove que, no anel quociente A[x]/(a(x)), o elemento x satisfaz xn = −a−1
n (an−1 x
n−1
+
· · · + a1 x + a0 ).
(b) Prove que para todo polinômio p(x), existe um polinômio q(x) que é 0 ou tem
gr(q(x)) < n tal que p(x) = q(x) em A[x]/(a(x)). [Dica: Use indução sobre grau de
p(x).] (c) Prove que o polinômio q(x) descrito acima é único.

11. Seja A um anel e seja I um ideal de A. Prove que Mn (I) é um ideal de Mn (A) e mostre
que Mn (A)/Mn (I) ∼
= Mn (A/I). [Dica: PrimeiroTeorema do Isomorfismo.]

12. Seja Un (A) o conjunto das matrizes triangulares superiores n × n com coeficientes em A.
Prove que o subconjunto I = {A ∈ Un (A) | aii = 0 para todo i = 1, 2 · · · , n} é um ideal
em Un (A) e determine Un (A)/I

13. Prove que Z[i] e um domínio de integridade.


√ √ √
14. Prove que Z[ 2, 5] consiste dos subanéis de de R consistindo dos elementos, {a + b 2 +
√ √ √ √ √
c 5 + d 10 ∈ R | a, b, c, d ∈ Z}. Escreva a entre os elementos a + b 2 + c 5 + d 10 e
√ √ √
a0 + b0 2 + c0 5 + d0 10 .

15. Seja r1 , r2 , · · · , rn ∈ Q. Prove que Z[r1 , r2 , · · · , rn ] = Z[ m1 ], para algum inteiro m


110 CAPÍTULO 3. ANÉIS

16. Seja p um número primo. Considere o subconjunto R de Q de frações, que, quando escrito
na forma reduzida, tem denominador não divisível por p. Prove que R é um subanel de
Q. Prove que R não pode ser escrito como Z[S] para qualquer conjunto finito S ⊆ Q.

17. Prove que para todos os primos p, o anel Q[ p] é um corpo.

18. Considerando Q[ 3 2] como um subanel de R.
√ √ √
(a) Prove que Q[ 3 2] consiste em elementos da forma a + b 3 2 + c( 3 2)2 com a, b, c ∈ Q.

(b) Prove que todo elemento da forma a + b 3 2 com (a, b) 6= (0, 0) é uma unidade.

19. Considere o anel (Z/2Z)[x]. Seja α(x) = x3 + x + 1 e β(x) = x2 + 1. Calcule:


(a) α(x) + β(x); (b) α(x)β(x); (c) (α(x))2

20. Para todo n, calcule (2x + 3)n em Z/6Z[x]. Repita a mesma pergunta, mas em Z/12Z[x]

21. Suponha que A seja um anel com identidade 1 6= 0 de característica n. Prove que A[x]
também é de característica n.

22. Seja p um número primo. Prove que para todo a ∈ Z/pZ, a seguinte identidade vale no
anel (Z/pZ)[x],
(x + a)p = xp + a.

Prove que se n é primo se, e somente se, (x + a)n = xn + a em Z/nZ[x].


 
p
23. Mostre que se p é um primo então p divide para cadak = 1, 2, · · · , p − 1. Em seguida
k
considere A um anel comutativo com 1 6= 0 de característica p. Mostre que a aplicação
φ : A → A dada por φ(a) = ap é um homomorfismo de anéis. (Este homomorfismo é
chamado de endomomorfismo de Frobenius, e se A é finito, φ é um isomorfismo).

24. Considere o anel Z[i] e o ideal I = (2 + i). Estudamos o anel quociente Z[i]/(2 + i).
(a) Prove que −1 + 2i, −2 − i e 1 − 2i estão no ideal (2 + i).
(b) Prove que todo elemento a + bi ∈ Z[i] é congruente módulo I a pelo menos um
elemento dentro ou na borda do quadrado com vértices 0, 2 + i, 1 + 3i e −1 + 2i. Prove
também que os vértices do quadrado são congruentes entre si módulo I.
(c) Usando a divisão em C, mostre que nenhum dos cinco elementos em 0, i, 2i, 1 + i, 1 + 2i
são congruentes entre si e conclua que Z[i]/(2 + i) = {0, i, 2i, 1 + i, 1 + 2i}.
(d) Escreva a tabuada de multiplicação em Z[i]/(2 + i) e deduza que esse anel quociente
é um corpo.
(e) Encontre um isomorfismo explícito entre Z[i]/(2 + i) e F5 .
3.5. IDEAIS MAXIMAIS E IDEAIS PRIMOS 111

3.5 Ideais maximais e ideais primos


Descreveremos agora os ideais do anel Z dos inteiros. Seja I um ideal de Z. Temos que I é
em particular um subgrupo de Z, e então I é um subgrupo cíclico, isto é, I = nZ, para algum
n ∈ Z. Agora, para qualquer n ∈ Z é fácil ver que o conjunto nZ dos múltiplos de n é um ideal
de Z. Logo, os ideais de Z são da forma nZ, para n ∈ Z.
Considere agora o anel quociente Z/nZ, isto é, o anel do inteiros módulo n. Se tivermos
mZ = nZ, então n e m são múltiplos um do outro, logo devemos ter m = ±n. Mas como
nZ = (−n)Z, temos que para cada n inteiro positivo exite um único ideal I = nZ. Portanto,
os ideias de Z estão em correspondência biunívoca com o conjunto dos números inteiros não-
negativos.
Vejamos agora o podemos dizer de nZ ⊂ mZ? Se tivermos nZ ⊂ mZ, então n ∈ mZ, daí
n = mz, para algum z ∈ Z, e então m|n. Por outro lado, se m|n, então n = kz, para algum
z ∈ Z, e assi claramente nZ ⊂ mZ.
Portanto, nZ ⊂ mZ se, e somente se, m|n. Em particular, para um número primo p, o
único ideal que contém propriamente pZ é o ideal 1.Z. Em outras palavras, se p é um primo,
então os únicos ideais de Z/pZ são o ideal nulo {0} e o próprio anel Z/pZ.
Sabemos que os únicos ideais de um corpo F são os triviais. Assim, se Z/nZ é um corpo,
temos que n deve ser primo. Agora, se n é um número primo, mostraremos que Z/pZé um
corpo, então basta ver que todo elemento não nulo de Z/pZ tem inverso multiplicativo, já que
Z/pZ é um anel comutativo com 1. Seja a + pZ 6= 0, assim temos que a e p são relativamente
primos, então existem x, y ∈ Z tais que ax + py = 1, e então

ax + pZ = 1 − py + pZ = 1 + pZ,

e então x + pZ é o inverso de a + pZ. Portanto, Z/pZ é um corpo. Assim Z/nZ é um corpo se,
e somente se, n é primo.
Agora nos voltamos para duas classes diferentes de ideais em anéis. Embora não seja óbvio
a princípio, ambos tentam generalizar a noção e as propriedades dos números primos em Z.
Lembre-se de que na teoria elementar dos números existem duas definições equivalentes de
números primos.
(1) Um inteiro p > 1 é um número primo se, e somente se, p só é divisível por 1 e por ele
mesmo. (definição de primo.)
(2) Um inteiro p > 1 é um número primo se, e somente se, sempre que p | ab, então p | a ou p | b.
(Lema de Euclides)
Na teoria dos anéis em geral, essas duas noções não são mais equivalentes. A conexão entre
112 CAPÍTULO 3. ANÉIS

propriedades de ideais e aritmética inteira vem do fato de que a | b se, e somente se b ∈ (a), se
e somente se (b) ⊆ (a).
Na linguagem da teoria dos anéis, o segundo critério para o número ser primo nos inteiros
(Critério 2) pode ser reformulado dizendo que p ≥ 2 é um número primo se, e somente se, se o
ideal (ab) ⊆ (p) implica que (a) ⊆ (p) ou (b) ⊆ (p). Isso motiva a seguinte definição.
Definição 3.5.1 Seja A um anel. Um ideal P 6= A é chamado um ideal primo se sempre que
dois ideais J e J satisfaz IJ ⊆ P , então I ⊆ P ou J ⊆ P .

Em anéis comutativos, a Definição (3.5.1) tem uma afirmação equivalente.

Proposição 3.5.1 Seja A de um anel comutativo com identidade 1 6= 0. Um ideal P 6= A é


chamado de ideal primo, se e somente se P tem a seguinte propriedade:
Se ab ∈ P , então a ∈ P ou b ∈ P .

Demonstração. Suponha que um ideal P seja primo. Seja a, b ∈ A. Como A é comutativo,


então
(ab) = {rab | r ∈ A} e (a)(b) = {r1 r2 ab | r1 ∈ A, r2 ∈ A}.

Obviamente (a)(b) ⊆ (ab), mas como A tem uma identidade 1 6= 0, definindo r1 = 1 ou r2 = 1


conforme necessário, vemos que (ab) ⊆ (a)(b). Portanto, (ab) = (a)(b). Agora suponha que
ab ∈ P . Então, (ab) = (a)(b) ⊆ P e como P é um ideal primo (a) ⊆ P ou (b) ⊆ P . Portanto,
a ∈ P ou b ∈ P .
Reciprocamente, suponha que P satisfaça a propriedade de que sempre que ab ∈ P então
a ∈ P ou b ∈ P . Sejam I e J dois ideais arbitrários tais que IJ ⊆ P . Para todos os pares
(a, b) ∈ I × J, temos ab ∈ P e, portanto por hipótese, a ∈ P ou b ∈ P . Suponha que I * P e
J * P . Então existem a0 ∈ I \ P e b0 ∈ J \ P tal que a0 b0 ∈ P . Isso leva a uma contradição,
então devemos concluir que I ⊆ P ou B ⊆ P . Portanto, P é um ideal primo 

Lembremos que um anel comutativo A é um domínio integral se e somente se, ab = 0 implica


a = 0 ou b = 0, isto é, se, e somente se 0 é um ideal primo em A. A seguinte caracterização de
ideais primos é um fato básico na teoria dos anéis comutativos.
Teorema 3.5.1 Se A é um anel comutativo, um ideal P 6= A de A é um ideal primo se, e
somente se, A/I é um domínio de integridade.

Demonstração. Se A/I é um domínio integridade, então ab ∈ P , então (a + P )(b + P ) =


ab + P = P é o zero de AlP , então a + P = P ou b + P = P . Assim, a ∈ P ou b ∈ P , então P
é um ideal primo.
3.5. IDEAIS MAXIMAIS E IDEAIS PRIMOS 113

Recíprocamente, suponha que P seja um ideal primo. Por definição, se a, b ∈ A \ P então


ab ∈ A \ P . Passando ao anel quociente A/P , vemos que a e b não são 0 em A/P e isto implica
que ab 6= 0 em A/P . Assim, A/P não tem divisores de zero. O anel quociente A/P contém
uma identidade 1 e herda a comutatividade de A. Assim, A/P é um domínio de integridade.


 Exemplo 3.5.1 Se n ≥ 2 em Z, vimos que nZ é um ideal primo se, e somente s, n for primo.


A noção de número primo nos inteiros, garante que entre pZ e Z não existem mais ideais,
quando p é primo. Vejamos a definição de ideal maximal em um anel que generaliza esta noção.
Definição 3.5.2 Um ideal M em um anel A é chamado de ideal maximal de A, se M 6= A e
os únicos ideais I de A tais que M ⊆ I ⊆ A são I = M e I = A.

Um anel arbitrário não precisa ter ideais maximais. Em muitos anéis específicos é óbvio
ou pelo menos muito simples provar a existência de ideais maximais. Entretanto, a seguinte
proposição geral prova a existência de ideais maximais em anéis com pouquíssimas condições.
A prova se baseia no Lema de Zorn, que é equivalente ao Axioma da Escolha.
Teorema 3.5.2 Em um anel A com identidade, todo ideal próprio I está contido em um ideal
maximal M .

Demonstração. Seja A um anel com uma identidade e seja I ideal próprio qualquer. Seja S
o conjunto de todos os ideais próprios que contêm I. Então S é um conjunto não vazio (já que
contém I), que é parcialmente ordenado pela inclusão. Seja C qualquer cadeia de ideais em S
. Mostramos que C tem uma cota superior. Defina o conjunto

J = ∪ X.
X∈C

Provamos que J é um ideal de A. Sejam a, b ∈ J. Então, a ∈ X1 e b ∈ I2 , onde X1 , X2 ∈ C.


Mas como C é uma cadeia, ou I1 ⊆ I2 ou I2 ⊆ I1 .
Sem perda de generalidade podemos assimir a primeira afirmação. Então, a1 , a2 ∈ I2 .
Assim, b − a ∈ I2 ⊆ J, então J é um subgrupo aditivo de A pelo teste de subgrupo. Agora,
seja r ∈ A e a ∈ J. Então, a é algum elemento de algum X, para algum XinC. Como Xk é
um ideal temos que ra ∈ X ⊆ J e ar ∈ X ⊆ J. Assim, mostramos que J é um ideal.
Além disso, como todos os ideais X ∈ C são próprios, nenhum deles contém a identidade.
Assim, J não contém a identidade e, portanto, J é um ideal próprio. Em particular, J ∈ S.
Assim, toda cadeia de elementos em S tem um limite superior. Pelo Lema de Zorn, concluímos
114 CAPÍTULO 3. ANÉIS

que S tem um elemento maximal. Um elemento maximal de S é um ideal maximal que contém
I 

Nos inteiros, suponha que (n) é um ideal maximal em Z. Então qualquer ideal I = (m)
satisfazendo (n) ⊆ (m) ⊆ Z é (n) = (m) ou (m) = Z. Expressando isso em termos de
divisibilidade, deduzimos que m | n implica m = ±1 ou m = ±n. Supondo que m seja positivo,
então m = 1 ou m = n. Esse corresponde à definição de número primo, listada acima no
(Critério 1) acima. Portanto, os ideais maximais em Z correspondem aos ideais (p), onde p é
um número primo.

 Exemplo 3.5.2 Seja A o anel de funções reais contínuas em [0, 1]. Seja M = {f |f (1/2) = 0} o
conjunto das funções de A que se anulam em 1/2. Observe que g(1/2)f (1/2) = 0, se g ∈ I, mas
g 6∈ M . Defina h = g(x) − α, onde α = g(1/2) 6= 0. Assim h(1/2) = g(1/2) − α = α − α = 0,
então h ∈ M ⊆ I o que implica que α = g − h ∈ I e α−1 α = 1 ∈ I. Logo I = A. Portanto, M
é ideal maximal de A. 

A próxima proposição oferece um critério para quando um ideal é maximal.

Proposição 3.5.2 Seja A um anel comutativo. Então um ideal M é maximal se, e somente
se A/M é um corpo.

Demonstração. Pelo quarto teorema do isomorfismo para anéis, existe uma correspondência
bijetiva entre os ideais de A/M e os ideais de A que contêm M . Mas, M é um ideal maximal
se, e somente se, os únicos ideais de A que contêm M são M e próprio A. Assim, A/M contém
precisamente dois ideais, (1) e (0). Logo, A/M é um corpo (Prove que A é um corpo se, e
somente se,os únicos ideias próprios são os ideais triviais). 

A proposição (3.5.2) oferece a estratégia para provar que um ideal M é maximal: Determine
o anel quociente A/I, prove que A/I é um corpo e então invoque a proposição. Com os inteiros,
vimos anteriormente que todos os ideais são da forma (n) com n não negativo e que Z/nZ é
um corpo se, e somente se, n for um número primo. A Proposição (3.5.2) mostra que (n) é
maximal se, e somente se, n é um número primo, o que retorna aos números primos como a
motivação para a noção de um ideal maximal.

 Exemplo 3.5.3 Como um exemplo não óbvio da Proposição (3.5.2), considere o anel de inteiros
gaussianos Z[i] e o ideal principal (2 + i). Mostre o seguinte Z[i]/(2 + i)(Exercício) é isomorfo
a F5 , que é um corpo, logo (2 + i) é um ideal maximal. 
3.5. IDEAIS MAXIMAIS E IDEAIS PRIMOS 115

Anéis simples
Por analogia com grupos, temos a seguinte definição.
Definição 3.5.3 Um anel A é chamado de anel simples se, A 6= 0 e os único ideais de A são
0 e A.

Existem anéis simples que não são anéis de divisão, como vereremos a seguir), mas tais os
anéis devem ser não comutativos.
Teorema 3.5.3 Se A é comutativo, então A é simples se, e somente se, A for um corpo.

Demonstração. Todo corpo é simples. Reciprocamente, se A é simples e comutativo, seja


0 6= x ∈ A. Então, Ax = {xa I x ∈ A} é um ideal de A. Como Ax 6= 0, pois x ∈ Ax, como
A é um anel simples temos que Ax = A. Assim, 1 =∈ Ax, então 1 = ax, para algum a ∈ A.
Portanto, a é uma unidade de A, então A é um corpo. 

Os anéis simples estão intimamente relacionados com a classe de ideais maximais.


Teorema 3.5.4 Seja M um ideal de um anel A. Então M é maximal em A se, e somente se,
A/M é um anel simples.

Demonstração. Assuma que M é um ideal maximal e seja I/M um ideal diferente de zero
de A/M , ondeI é um ideal de A com M ⊆ I (veja Teorema (3.4.1)). Visto que I/M 6= 0, seja
0 6= x + M ∈ I/M , onde x ∈ I. Então, x ∈ I, mas x ∈
/ M netão M 6= I. Assim, I = A, pela
maximalidade de M , portanto, I/M = A/M . Logo, A/M é anel simples. Reciprocamente, se
A/M é simples, seja M ⊆ I ⊆ A, com I 6= M , um ideal de A. Então, I/M é um ideal de A/M
pelo Teorema (3.4.1), e A/M 6= 0, pois I 6= M . Portanto, I/M = A/M , pela simplicidade do
anel A/M , e assim I = A pelo item (3) do Teorema (3.4.1). Isso mostra que M é um ideal
maximal de A. 

Corolário [Link] Seja A um anel comuativo com 1, Um ideal M de A é um ideal maximal


de A se, e somente se, A/M é um corpo.

Demonstração. A demosntração segue do Teoremas (3.5.3) e (3.5.4). Ou podemos fazer


diretamente como segue. Suponha que A/M é um corpo, então A/M tem pelo menos dois
elementos, e assim M 6= A. Se I é um ideal estritamente contido entre M e A/M , então
M $ I $ A, então I/M está contido estritamente entre {0} e A/M , isto é, {0} $ I/M $ A/M
. Mas, A/M é um corpo e então a última inclusão não pode ser estrita, e então I/M = {0} ou
116 CAPÍTULO 3. ANÉIS

I/M = A/M , e isto significa que I = M ou I = A. Reciprocamente, se M é um ideal maximal


de A, como A é um anel comutativo com 1, temos que A/M é um anelcomutativo com 1, para
mostrar que A/M é um corpo basta verificar que todo elemento diferente de zero tem inverso
multiplicativo. Seja x + M ∈ A/M , e x + M 6= 0. Considere o conjunto

X = {xa + m | a ∈ Aem ∈ M },

é fácil ver que X é um ideal de A. Agora, note que se m ∈ M , então m = 0.a + m ∈ X, logo
M ⊂ M , e como a = 1.a + 0 ∈ X e a ∈
/ M , temos que M $ X ⊂ A, e sendo M ideal maximal,
temos que X = A. Assim, 1 ∈ X, e então 1 = xa + m, para algum a ∈ A e para algum m ∈ M .
Logo,
(x + M )(a + M ) = xa + M = (1 − m) + M = 1 + M.

Portanto, A/M é um corpo. 

O fato de que todo corpo é um domínio integridade, junto com o Teorema (3.5.1), fornece
o seguinte

Corolário [Link] Todo ideal maximal de um anel comutativo é um ideal primo.

Demonstração. Escreva uma explicação para este fato. 


Observe que a recíproca do Corolário ([Link]) é falsa: no anel Z de inteiros, o deal nulo é
primo pelo Teorema (3.5.1) , mas não é maximal pelo Corolário ([Link]), pois Z é um domínio
integridade que não é um corpo.
Agora construíremos alguns anéis simples diferentes dos anéis de divisão. De fato, veri-
ficamos que Mn (A) é um anel simples se A é um anel de divisão. A prova requer algumas
observações preliminares sobre certas matrizes especiais. Seja A um anel e seja n ≥ 1 um
inteiro fixo. Seja 1 ≤ i, j ≤ n, seja Eij a matriz n × n com a (i, j)-entrada 1 e todas as outras
entradas 0. As matrizes Eij , onde 1 1 ≤ i, j ≤ n, são chamadas matriz unidades em Mn (A).
Assim, as unidades da matriz em M2 (R) são
       
1 0 0 1 0 0 0 0
E11 = , E12 = , E21 = , E22 =
0 0 0 0 1 0 0 1
Em geral, existem n2 unidades de matriz em Mn (A).
Se I é um ideal de um anel A, é fácil mostrar que Mn (I) é um ideal de Mn (A). A recíproca
também vale. Para provar isso, defina o produto escalar rI, r ∈ A, por: Se I = (aij ) é matriz
qualquer e r ∈ A, defina
rI = (raij ).
3.5. IDEAIS MAXIMAIS E IDEAIS PRIMOS 117

Assim, rEij é a matriz com a (i, j)-entrada r e todas as outras entradas 0. Portanto, uma
matriz qualquer é uma combinação linear das unidades de matriz Eij , onde 1 ≤ i, j ≤ n:

X
(aij ) = aij Eij . (3.2)
i,j

Além disso, multiplicando as matrizes obtemos a seguintes fórmula útil para r, s ∈ A;


(
rsEil , se j = k,
(rEij )(sEkl ) = (3.3)
0, se j 6= k.

Lema 3.5.1 Todo ideal de Mn (A) tem a forma Mn (I) para algum ideal I de A.

Demonstração. Se I é um ideal de Mn (A), seja I = {a ∈ A|aE11 ∈ I}. Então, I é um


ideal de A (verifique!), mostramos que I = Mn (I). Para ver que Mn (I) ⊆ I, seja X ∈ Mn (I),
digamos X = (apq ), onde apq ∈ A, para 1 ≤ p, q ≤ n. Então, da equação (3.3) temos que
apq Epq = Epl (apq E11 )E1q ∈ I, pois apq E11 ∈ I. Então, usando a condição (3.2), temos X =
(apq ) = p,q apq Epq ∈ I, provando que Mn (I) ⊆ I.
P

Reciprocamente, seja B = (bij ) ∈ I. Devemos mostrar que bpq ∈ I, para todo p e q, ou seja,
bpq E11 ∈ I. Como B = ij jbij Eij pela equação (3.2), podemos calcular
P

X X
E1p BEq1 = E1p ( bij Eij )Eql = Elp (bij Eij )Eql = bpq E11
i,j i,j

pela equação (3.3). Portanto, bpq E11 = E1p BEq1 ∈ I, pois B ∈ I e I é um ideal. 

Teorema 3.5.5 Se A é um anel então Mn (A) é um anel simples se, e somente se, A é simples.

Demonstração. Suponha que A seja simples. Se I é um ideal de Mn (A), então pelo Lema
(3.5.1) temos que I = Mn (I), para algum ideal I de A. Portanto, I é 0 ou A, pois A é uma anel
simples, então calI = Mn (0) = 0 ou I = Mn (A). Isso mostra que Mn (A) é um anel simples. A
recíproca é provada de forma similar, e deixamos para o leitor. 

Corolário [Link] Se A é um anel de divisão, então Mn (A) é um anel simples.

Assim, por exemplo, M2 (Z2 ) é um anel não comutativo simples que não é um anel de divisão.
Na verdade, pode ser demonstrado que é o menor anel desse tipo. Parte da importância
do Teorema (3.5.5) é que ele fornece metade de outro teorema de Wedderburn: um anel B
118 CAPÍTULO 3. ANÉIS

“suficientemente pequeno” é simples s‘e, e somente se, B ∼


= Mn (D), para algum anel de divisão
D e algum n ≥ 1.

Exercícios
1. Sejam I e J ideais dos anéis A e B respectivamente. Mostre que I × J é um ideal de
A × B, e A × B/I × J ∼ = A/I × B/J. Mostre também que todo ideal de A × B é da
forma I × J, onde I é um ideal de A e J é um ideal de B. Conclua, descrevendo todas as
imagens homomorficas de A × B.

2. Se I é um ideal de um anel A. Mostre que Mn (I), é um ideal de Mn (A) e que Mn (A)/Mn (I) ∼
=
Mn (A/I).

3. Se m | n, encontre um ideal de Zn tal que Zn /A ∼


= Zm .

4. Seja θ : A → Bum homomorfismo de anéis e seja a ∈ A. Mostre as propriedades:


(a) θ(0) = 0 (b)θ(−a) = −θ(a). (c) θ(ka) = kθ(a), para todo k ∈ Z.
(d) θ(ar n) = θ(a)m , para todo n ≥ 0 em Z. (e) Se u ∈ A∗ , θ(uk ) = θ(u)k , para todo Z.

5. Se a é nilpotente em A, mostre que 1 − a e 1 + a são unidades.

6. Se R é um anel tal que x2 = x, ∀x ∈ R, então R é comutativo.

7. Mostre que, em um domínio de integridade, se ab = ac, então b = c, a 6= 0.

8. Seja A um anel comutativo. Mostre que aR = {ar|a ∈ R} é um ideal.

9. Mostre que um domínio de integridade finito é um corpo.

10. Dê um exemplo de um anel com unidade e um ideal maximal I tal que R/I não é um
anel de divisão.

11. Se {Iλ }λ∈Λ uma coleção quaquer de ideais em um anel A, então mostre que I = ∩{Iλ | λ ∈
Λ} é um ideal de A.

12. Mostre que M2×2 (R) é um anel simples.


Sugestão: Trabalhe com as matrizes e1 , e2 , e3 , e4 e generalize.

3.6 Corpo de Frações


3.6. CORPO DE FRAÇÕES 119

Proposição 3.6.1 Seja D um domínio de integridade com car(D) > 0. Então char(D) é
primo.

Demonstração. Se D é um domínio de integridade não trivial, 1 ∈ D. Seja X o subanel


gerado por 1
X = {k · 1 | k < char(D)}. (3.4)

Então, X é um domínio de integridade finito, logo um corpo. Observe que X ∼


= Zn onde
n = char(D). Logo n é primo. 

O anel do inteiros Z é um domínio de integridade, e o anel Q dos números racionais é um


a
corpo e Z é um subanel de Q. E cada r ∈ Q pode ser escrito na forma r = , com a, b ∈ Z, e
b
Q é o menor corpo com esta propridade. Observe que poderíamos fazer o mesmo procedimento
com o anel 2Z como subanel de Q.
Agora consideraremos que A é um domínio de integridade e veremos como imergir A em
um corpo F , tal que F é o menor com a propriedade de conter A como subanel. É claro que A
deve ser um domínio de integridade, uma vez que será um subcorpo de F .
Definição 3.6.1 Um corpo de frações de um domínio de integridade A não nulo é um corpo
FA e um monomorfismo ϕ : A → FA tal que se K é um corpo qualquer e θ : A → FA é
um monomorfismo, então exite um único homomorfismo f : FA → K (não necessariamente
monomorfismo) tal que θ = f ◦ ϕ.

FO A
∃!f
φ

A / K
θ

Proposição 3.6.2 Seja A um domínio de integridade, A 6= {0}. Se A possui um corpo de


frações FA , então FA é único a menos de isomorfismo.

Se A é um corpo, então A é o seu próprio corpo de frações.


Exercício 3.6.1 Mostre que Q é o corpo de frações de Z e de 2Z. 

Teorema 3.6.1 Se A 6= {0} é um domínio de integridade, então A tem um corpo de frações


FA .

Demonstração. Seja X = A × A∗ = {(a, b) | a ∈ A e b ∈ A∗ }. Defina a relação ∼ sobre o


conjunto X da seguinte forma
(a, b) ∼ (c, d) ⇔ ad = bc.
120 CAPÍTULO 3. ANÉIS

É fácil ver que ∼ é simétrica e reflexiva, mostraremos que ∼ é uma relação transitiva. Sejam
(a, b) ∼ (c, d) e (c, d) ∼ (e, f ), então ad = bc e cf = de. Assim, adf = bcf = bde, ou af d = bed
e portanto (af − be)d = 0. Mas d 6= 0 e R é um domínio de integridade, então af == be, e isto
significa que (a, b) ∼ (e, f ). Logo, ∼ é uma relação de equivalência. Denotaremos a classe de
a
equivalência do elemento (a, b) por . Chamaremos FA = X/ ∼ o conjunto de todas as classes
na b o
de equivalências, isto é, FA = | a ∈ A e b ∈ A∗ . Definiremos de modo natural uma adição
b
e uma multiplicação sobre o conjunto FA da seguinte forma
a c ad + bc
+ =
b d bd
a  c  ac
. =
b d bd
É rotina verficar que estas operações estão bem definidas e que são associativas. Agora FA é de
0
fato um anel comutativo com 1, onde o zero é 0 = , para qualquer b ∈ A∗ ; o simétrico aditivo
 a  −a b
a a
de é − = ; e o elemento neutro da multiplicação é 1 = , para qualquer a ∈ A∗ .
b b b a a  b 
a b
Se 6= 0 em FA , então necessariamente a 6= 0, e então ∈ FA , e logo . = 1.
b a b a
Portanto, FA é um corpo.
 ra 
Defina φ : A → FA , que envia r para , para todo a ∈ A∗ , a aplicação φ é um
a
ra 0
homomorfismo de anéis. Seja agora r ∈ Kerφ, então φ(r) = = , logo (ra)a = a.0 = 0 e
a a
segue que r = 0. Portanto, φ é um monomorfismo.
Suponha agora que K é um outro corpo qualquer e que θ : A → K é um monomorfismo.
a
Defina f : FA → K por f = θ(a)θ(b)−1 , é fácil checar que f é bem definida. E é claro que
b
f é um monomorfismo uma vez que θ o é, e tem-se que f ◦ φ = θ.
Mostraremos agora que f é única. De fato, seja g : FA → K um outro monomorfismo tal
r
que g ◦ φ = θ. Então, se ∈ FA é um elemento qualquer, então
s
 
r ra  sa −1
g = g . = g (φ(r)) g (φ(s))−1
s a a r ,
−1
= θ(r)θ(s) = f
s
e portanto g = f e FA é um corpo de frações para A. 

ra
Sendo a aplicação que envia r 7→ é um monomorfismo de A em FA , então identificar
a
ra r
r com e pensar que A é um subanel de FA . Cada elemento de FA é uma fração , onde
a s
r, s ∈ A e s 6= 0. É claro que FA é o menor corpo que contém A como subanel a menos de
isomorfismo.
3.7. ANÉIS DE POLINÔMIOS 121

A construção feita para FA pode ser generalizada em muitos caminhos. Por exemplo, seja
A um anel comutativo com 1 qualquer e seja S um subconjunto de A∗ que é um semigrupo
multiplicativo e sem divisores de zero.
Seja X = A × S e defina a relação (a, b) ∼ (c, d) se, somente se, ad = bc. A relação ∼ é
de fato uma relação de equivalência sobre X. Como foi feito no outro caso denotemos a classe
a
de equivalência do elemento (a, b) por e o conjunto quociente por AS = X/ ∼. AS é um
b n ra o
anel com 1. Se a ∈ S, mostre que o conjunto | r ∈ A é um subanel de AS e a aplicação
a
ar
r 7→ é um monomorfismo, então A pode ser identificado como um subane de AS . É possivel
a
provar uma propriedade universal para AS analoga a que foi feita para FA . Outros fatos que
podem ser provados são: (i)Todo elemento de S é uma unidade de AS ; (ii) AS é único à menos
de isomorfismo.
O anel AS é chamado a localização de A em S. Este conceito é importante na Teoria
Algebrica dos Números e na Geometria Algébrica.

3.7 Anéis de Polinômios


Seja A um anel, então ituitivamente um polinômio na variável x com coeficientes em A é uma
expressão da forma
f (x) = a0 + a1 x + a2 x2 + · · · + an xn ,

onde ai ∈ A e x é uma variável que pode assumir valores em A ou de algum anel que contém
A com subanel. A seguinte construção tornará estas noções precisas.
Seja A um anel, dentotemos por P (A) o conjunto de todas as sequências a = (a0 , a1 , a2 , . . . ),
onde cada ai ∈ A e a6 = 0 apenas para um número finito de valores de i, 0 ≤ i ∈ Z. Se
a, b ∈ P (A), definiamos:

a + b = (ai + bi )
a.b = ( ij=0 aj bi−j )
P

= (a0 b0 , a0 b1 + a1 b0 , a0 b2 + a1 b1 + a2 b0 , . . . )

Teorema 3.7.1 Se A é um anem, então P (A) é também um anel. P (A) é comutativo se, e
somente se, A é comutativo. P (A) tem identidade se, e somente se, A tem identidade, e neste
caso indicaremos a identidade por 1P (A) = (1, 0, 0, . . . ).

Os detalhes da demonstração são deixados para o leitor.


Suponha agora que A é um anel com 1 e representaremos x a sequência (0, 1, 0, . . . ). Observe
que x2 = (0, 0, 1, . . . ), x3 = (0, 0, 0, 1, . . . ) e de modo geral xn = (0, 0, . . . , 1, 0, . . . ) é uma
sequência que possui 1 na (n + 1)-ésima posição, e zero nas demais posições. Indicaremos
122 CAPÍTULO 3. ANÉIS

x0 = 1P (A) . A aplicação que envia a ∈ A 7→ (a, 0, . . . ) ∈ P (A) é um monomorfismo de anéis,


assim podemos identificar A com um subanel de P (A), e 1A = 1P (A) . Deste ponto de vista
escreveremos

a = (a0 , a1 , a2 , . . . ) = a0 + a1 x + a2 x2 + . . . ,

para cada a ∈ P (A). Chamaremos x de indeterminada, e escreveremos A[x] para respresentar o


anel P (A). Indicaremos os elementos de A[x] por f (x), g(x), etc. Se an 6= 0, mas am = 0, para
todo m > n, então diremos que f (x) tem grau n e denotaremos por gr(f (x)) = n; neste caso
an é dito o coeficiente líder de f (x) e se f (x) tem coeficiente líder 1, diremos que f (x) é um
polinômio mônico. O polinômio nulo (0, 0, . . . ) é denotado por 0 e diremos que gr(0) = −∞.
Polinômios de grau 0 ou −∞ são chamados constantes, e são claramente elementos de A, onde
A é visto como subanel de A[x].

Proposição 3.7.1 Suponha que A é um anel com 1, esejam f (x), g(x) ∈ A[x]. Então: (a)
gr(f (x) + g(x)) ≤ max{gr(f (x)), gr(g(x))};
(b) gr(f (x).g(x)) ≤ gr(f (x)) + gr(g(x));
A igualdade no item (b) é valida se A não possui divisores de zero à esquerda ou à direita.

As demostrações destes fatos são consequências das definições de adição e multiplicação em


A[x].

Corolário [Link] Se A é um anel que não tem divisores de zero à direita ou à esquerda,
então f (x) ∈ A[x] é uma unidade se, e somente se, f (x) = r, uma constante, com r ∈ U (A).

A demosntração é deixada para o leitor.


Exercício 3.7.1 Encontre U (A), onde A = Z4 [x]. 

Corolário [Link] A[x] é um domínio de integridade se, e somente se, A é um domínio de


integridade.

A demosntração é deixada para o leitor.


Teorema 3.7.2 [Algoritmo da Divisão]Suponha que A é um anel comutativo com 1 e f (x), g(x) ∈
A[x]. Se g(x) tem coeficiente líder b, então existe um inteiro k e não negativo e polinômios
q(x), r(x) ∈ A[x] tal que
bk f (x) = q(x)g(x) + r(x),
com gr(r(x)) < gr(f (x)). Se b não é um divisor de zero em A, então q(x) e r(x) são únicos.
Se b ∈ U (A) podemos tomar k = 0.
4
Referências Bibliográficas

[1] Fraleigh, J. B., A First Course in Abstract Algebra, 2nd ed., Reading: Addison-Wesley,
1976.

[2] David S. Dummit and Richard M. Footte, Abstract Algebra, John Wiley and Sons, Inc.,
3ed, 2004.

[3] G. Birkhoff and S. MacLane, A Survey of Modern Algebra, A. K. Peters Ltd., 1997.

[4] G. D. Birkhoff and T. C. Bartee, Modern Applied Algebra, McGraw-Hill Book Company,
1970.

[5] Gallian, J. A., Contempory Abstract Algebra, Lexington: D. C. Heath, 1986.

[6] Herstein, I. N., Abstract Algebra, New York: Macmillan, 1986.

[7] Herstein, I. N., Topics in Algebra, 2nd ed., New York: Wiley, 1975.

[8] B. L. Van der Waerden, Modern Algebra, (Seventh Edition, 2 vols), Fredrick Ungar Pu-
blishing Co., 1970.

[9] Hungerford, T. W., Algebra, New York: Holt, Rinehart, and Winston, 1974.

[10] Jacobson, N., Basic Algebra I, San Francisco: Freeman, 1974.

[11] Lang, S., Algebra, 2nd ed., Menlo Park: Addison-Wesley, 1984.

[12] Rotman, J.J., it An Introduction to the Theory of Groups, Springer Verlag, 1991.

123

Você também pode gostar