Grupos de Simetria em Álgebra 2
Grupos de Simetria em Álgebra 2
3 de julho de 2025
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Sumário
Simetria 1
O que é simetria? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
Grupos de Simétria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
O Grupo de Simetria de um Quadrado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
Grupos Cíclicos e diedrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Grupos de Permutações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
Objetos geométrico com simetrias diedrais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
Subgrupos normais e grupos quocientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39
Homomorfismos de Grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40
O grupo de Automorfismos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
Teoremas do Isomorfismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
Produto direto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Grupos Abelianos 67
Produto direto de grupos abelianos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
A Estrutura de Grupos Abelianos Finitamente Gerados . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Grupo Abeliano livre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
Decomposiçãao em fatores elementares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
Anéis 85
Propriedades principais e exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
Domínio de integridade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95
Homomorfismo e Anéis Quocientes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97
Ideais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Domínio de ideais principais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
Ideais maximais e ideais primos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111
Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
Corpo de Frações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
3
4 SUMÁRIO
Mas esse é apenas um tipo de simetria geométrica. Um floco de neve tem mais do que
apenas a simetria de espelho. Podemos girar o floco em um ângulo de 600 em torno de seu
centro e ele se encaixa exatamente em sua forma original, parecendo que nenhum movimento
foi realizado. Isso é chamado de simetria rotacional. O número de vezes que isso precisa ser
executado para que todos os pontos retornem às suas posições originais é chamado de ordem
ou grau de rotação. Uma rotação de 60 precisaria ser realizada 6 vezes para produzir uma
rotação completa de 360o e, portanto, tem grau 6. Dizemos que um floco de neve tem simetria
6 dobras. Claro que uma rotação de 120o gira um floco de neve exatamente para a mesma
1
2 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
posição, mesmo que pontos individuais estejam ocupando diferentes posições. Então, por que
não dizemos que ele tem simetria de 3 dobras também? A razão é que consideramos o maior
grau de simetria que, para um floco de neve, é 6. Um quadrado tem simetria 4 dobras, pois é
fixado por uma rotação de 90°, mas não menor ângulo positivo.
A Ilha de Man tem mais de 10.000 anos de história com forte passado celta e viking.O
símbolo nacional da Ilha de Man são as três pernas e seu lema: não importa como você a
jogue, ela permanecerá, pode ser vista como um símbolo da independência e resiliência. É uma
insígnia apropriada com simetria tripla, mas sem simetria de espelho. Uma fileira de árvores dá
três operações básicas envolvidas na simetria, mas existem mais. No entanto, vamos digerir
essas três antes de considerar deslizamentos, rotações de parafuso, etc.
Exemplo 1.2.1 Se X for a seguinte imagem de uma casa, então Sym(X) = {I, µ} onde µ é o
reflexo no eixo de simetria.
Se você tiver um olhar cuidadoso, você detectará que a simetria do espelho não é tão perfeita,
já que a chaminé e a maçaneta da porta não aparecemno correspondente lado de simetria do
eixo. A simetria, como empregada na arte ocidental, geralmente tem uma pequena assimetria,
para tornar a imagem mais interessante. Na arte do leste, as imperfeições na simetria são
deliberadamente incluídas porque “só Deus pode criar a perfeição”.
Exemplo 1.2.4 Se X for o seguinte padrão infinito, então Sym(X) contém translações, mas
nenhuma reflexão ou rotação.
4 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
geral também deve ser. Denotamos essa identidade por I. Observe que IA = AI para todas as
operações de simetria, A.
Poderíamos considerar I como uma rotação de 0o , embora tenhamos dificuldade em descobrir
o centro. Ou poderíamos considerar I como uma translação por uma distância de 0, embora
tenhamos dificuldade em decidir em qual direção nos movemos. Em vez disso, tratamos isso
como algo especial. Então, quando nos referimos a uma “rotação”, excluímos uma rotação de 0o
- esta seria a identidade. E sempre que nos referimos a uma translação, nunca nos referiremos
a uma que mova pontos por uma distância zero.
Agora podemos escrever equações como R4 = I para indicar o fato de que se uma rotação
de 90o , se R for realizada 4 vezes em sequência, o efeito em todos os pontos (na medida em
que eles terminam, não em que tipo de jornada eles fizeram) é consertá-los (ou seja, mapeá-los
para si mesmos). Inverso: Em um grupo, cada elemento tem que ter um inverso relativo à
operação. Então, para todo A deve existir um B no conjunto tal que AB = I = BA. Isso é
verdade para simetrias, porque todas elas podem ser “desfeitas” por uma operação de simetria.
O inverso de uma rotação através de um ângulo θ é uma rotação através de um ângulo −theta
(sobre o mesmo eixo). O inverso de uma translação através de uma distância h para a direita
é a translação através de uma distância h para a esquerda. E, claro, o inverso de uma reflexão
é simplesmente a própria reflexão
pode então ser expressa como R2 e uma rotação de 270o (ou seja, 90o no sentido horário) é R3 .
Finalmente temos a identidade, I.
Essas oito operações constituem todo o grupo de simetria de um quadrado. Se X é um
quadrado Sim(X) = {I, R, R2 , R3 , A, B, C, D}. Como em qualquer grupo finito, podemos
exibir a tabela de grupos que define todos os produtos possíveis. Esta é a tabela de grupos
para o grupo de simetria de um quadrado.
Você deve verificar alguns deles com um pequeno quadrado recortado de papel. Numere os
cantos de um lado do papel 1, 2, 3, 4 e numere os cantos no verso do papel de forma que cada
canto tenha o mesmo número, frente ou verso. Posicione o quadrado de forma que os cantos
fiquem como segue: Agora execute um par de operações. Por exemplo, pegue AB. Faça A
primeiro e depois B. É importante lembrar que os eixos são fixos no espaço. Não os escreva
no seu papel. Então, por exemplo, B é sempre o eixo vertical. Depois de fazer AB, observe
os números nos cantos. Você deve obter: Agora pergunte a si mesmo qual operação única, do
conjunto de oito, teria obtido o mesmo efeito. Claramente, neste caso, é R3 , então você terá
demonstrado que AB = R3 .
Examine a tabela cuidadosamente. Observe, por exemplo, que AB = BA. As operações
de simetria frequentemente falham em comutar. Em outras palavras, geralmente obtemos
uma resposta diferente se multiplicarmos na ordem oposta. Você verá que a tabela tem um
1.4. GRUPOS CÍCLICOS E DIEDRAIS 7
padrão muito definido, com A, B, C avançando em ordem, para frente ou para trás conforme
você atravessa as linhas ou desce as colunas. Em particular, note que RA = B, R2 A = B e
R3 A = D. Então todas as oito operações podem ser geradas apenas por R e A. Agora R4 = I
e A2 = I. Note também que AR = R3 A. Geralmente escrevemos isso como AR = R?−1A.
(Como R4 = I, segue-se que R3 = R−1 ). Essas relações são suficientes para calcular todos os
produtos no grupo.
Se tivermos qualquer produto de R’s e A’s e suas potências, a última relação nos permite
trazer todos os R’s para a frente e todos os A’s para trás e então podemos escrevê-lo como
Ri Aj . As duas primeiras relações significam que podemos nos restringir a i = 0, 1, 2, 3 e
j = 0, 1. Assim podemos identificar o produto como uma das oito combinações: I, R, R2 , R3 ,
A, RA, R2 A, R3 A. Esses são os oito elementos do grupo. Por essa razão, escrevemos esse grupo
na forma hR, A | R4 = A2 = I, AR = R−1 Ai. Isso significa que é o grupo gerado por R e A
sujeito às relações especificadas. Este é um grupo bem conhecido, pertencente a uma família
de grupos, chamados de “grupos diedral”.
que envolvem os padrões infinitos de carros são grupos cíclicos infinitos. Como quaisquer duas
potências do mesmo gerador comutam, podemos dizer que um grupo cíclico é “comutativo”.
Usamos um outro adjetivo para expressar isso, dizemos que o grupo é “abeliano”, em homenagem
ao matemático norueguês Abel (1802 - 1829), então todos os grupos cíclicos são abelianos.
A próxima família mais simples de grupos, e o lugar onde encontramos grupos não abelianos
pela primeira vez, é a família de grupos diedrais.
Um grupo diedro de ordem 2n é um grupo da forma hA, B | An = B 2 = 1, BA = A−1 1Bi.
O grupo diedral infinito é hA, B | B 2 = 1, BA = A−1 Bi.
Notação: O grupo diedral de ordem 2n é denotado por D2n e o grupo diedral infinito é
denotado por D∞ .
Demonstração. Na maioria das vezes, grupos diedros são não abelianos porque BA =
An−1 B. Mas em D4 , A2 = 1 em caso em que A = A−1 e então BA = AB. Além disso,
D2 é idêntico a C2 e, portanto, também é abeliano.
Exemplo 1.4.1 Simplifique A5 BA3 BA−5 BA2 no grupo diedral D12 = hA, B | A6 = B 2 =
1, BA = A−1 Bi.
Usando as relação diedral, podemos escrever a sequências de igualdades a seguir:
A5 BA3 BA−5 BA2 = A5 BA3 BA−5 A−2 B
= A5 BA3 BA−7 B
= A5 BA3 A7 B 2
= A5 BA10 B 2
= A−5 B 3
= AB,
Uma análise semelhante à que fizemos para o quadrado, podemos aplicar as ideias a qualquer
polígono regular. Assim, o grupo de simetria de um polígono de n lados é D2n , onde o gerador
1.4. GRUPOS CÍCLICOS E DIEDRAIS 9
D4 = hA, B | A2 = B 2 = 1, BA = ABi
= hA | A2 = 1i × hB | B 2 = 1i
= C2 × C2 .
• um losango;
• um triângulo equilátero;
Solução: (i) Um losango tem dois eixos de reflexão, bem como uma rotação de 180o em torno
do centro. Portanto, seu grupo de simetria é D4 = C2 × C2 , exatamente como na caso do
retângulo próprio.
(ii) Com um paralelogramo próprio, essas reflexões não fixam mais a figura. Tudo o que temos
é uma rotação de 180o e, claro, a identidade. O grupo de simetria é, portanto, C2 .
(iii) O grupo de simetria de um triângulo equilátero é D6 = hA, B | A3 = B 2 = I, BA = A−1 Bi,
onde A é uma rotação de 120o em torno do centro e B é uma rotação de 180o em torno de
qualquer um dos três eixos de simetria.
(iv) Um triângulo retângulo isósceles não é equilátero, então temos C2 como o grupo de simetria.
Mas neste caso, o elemento de ordem 2 é uma reflexão em vez de uma rotação de 180o .
Enquanto os grupos diedrais ocorrem como grupos de simetria de muitos padrões (por
exemplo, o logotipo da Mercedes Benz tem grupo de simetria D6 ) alguns padrões têm grupo de
símétrica sendo grupos cíclicos. Esses padrões têm simetria rotacional, mas nenhuma simetria
de espelho. Um exemplo deste tipo é a suástica. Todos esses padrões vêm em duas variedades,
cada um sendo a imagem espelhada do outro. É uma pena que este símbolo antigo tenha
sido manchado pelos nazistas, porque é um símbolo com uma longa história, mas agora não se
pode deixar de se sentir desconfortável ao vê-lo. A primeira suástica foi encontrada em vasos
da Pérsia que datam de cerca do um quarto milênio a.C. Também foi encontrada na Grécia,
Índia, China e Japão, geralmente como um amuleto de boa sorte. (A palavra “suástica” vem
do sânscrito e significa “tudo ficará bem”.) Felizmente, há uma versão para canhotos e uma
para destros. A Figura 1.6 mostrada não é o símbolo nazista, mas é sua imagem espelhada. O
grupo de simetria de qualquer suástica é C4 .
A insígnia da Ilha de Man (Figura 1.7)(uma pequena ilha entre a Inglaterra e a Irlanda ?
parte do Reino Unido, mas com seu próprio parlamento) tem C3 como seu grupo de simetria.
Em contraste, considere a bijeção τ definida nos vértices do hexágono regular tal que τ (v1 ) =
v2 , τ (v2 ) = v1 , τ (v3 ) = v6 , τ (v4 ) = v5 , τ (v5 ) = v4 e τ (v6 ) = v3 . Essa bijeção nos vértices é
uma simetria do hexágono, porque preserva a estrutura do bordo do hexágono. A Figura (1.9)
mostra que τ pode ser realizada como a reflexão através da linha L desenhada.
12 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Para contar o número de bijeções sobre o conjunto V = {v1 , v2 , . . . , vn }, note que uma
função bijetora f : V → V pode enviar
Não é difícil identificar essas simetrias por seu significado geométrico. Metade das simetrias
em Dn são rotações que deslocam os vértices k pontos no sentido anti-horário, para k variando
de 0 a n − 1. Denotamos por Rα a simetria dada pela rotação de um ângulo α. A rotação
R2πk/n de um ângulo 2πk/n no conjunto de vértices, envia vi para R2πk/n (vi) = v(i−1+k) modn )+1
para todos 1 ≤ i ≤ n.
Observe que R0 é a função de identidade em V .
Como observado acima, n-lados do polígono regulare possuem simetrias que correspondem
a reflexões através de retas que passam pelo centro do polígono. Assumindo que o polígono
1.5. GRUPOS DE PERMUTAÇÕES 13
regular de n lados está centrado na origem e com um vértice no eixo x, então existem n simetrias
de reflexão distintas, cada uma correspondendo a uma linha através da origem e formando um
ângulo de πk/n com o eixo x , para 0 ≤ k ≤ n − 1. A simetria de reflexão na Figura (1.9) é
uma reflexão através de uma reta que faz um ângulo de π/6 em relação ao eixo x. Denotamos
por Fβ a simetria de uma reflexão através da reta que forma um ângulo β com o eixo x.
Como |Dn | = 2n, as rotações e reflexões são responsáveis por todas as simetrias diédricas.
Se duas bijeções em V preservam a estrutura do polígono, sua composição também preserva.
Conseqüentemente, a composição de duas simetrias diedrais é novamente outra simetria diedral
e, portanto, ◦ é uma operação binária em Dn . No entanto, tendo listado as simetrias diédricas
como rotações ou reflexos, é interessante determinar o resultado da composição de duas simetrias
como outra simetria. Em primeiro lugar, é fácil ver que as rotações são compostas da seguinte
forma:
Rα ◦ Rβ = Rα+β ,
A partir desta tabela e pela inspeção de como as composições atuam nos vértices, determi-
namos que Fπ/6 ◦ R2π/3 = F5π/6 e R2π/3 ◦ Fπ/6 = Fπ/2 .
Notamos com este exemplo que a operação de composição não é comutativa. Outra abor-
dagem para determinar a composição dos elementos vem da álgebra linear. Rotações sobre a
origem por um ângulo α e reflexões através de uma reta através da origem formando um ângulo
β com o eixo x são transformações lineares. Com relação à base canônica, esses dois tipos de
transformações lineares, respectivamente, correspondem às seguintes matrizes 2 × 2
cos α −senα cos 2β −sen2β
Rα : e Fβ :
sen α cos α sen 2β cos 2β
14 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
A partir desta tabela, podemos responder a muitas perguntas sobre a operação de compo-
sição sobre D6 . Por exemplo, se questionados sobre que f ∈ Dn satisfaz R2π/3 ◦ f = F5π/6 ,
simplesmente procuramos na linha correspondente à a = R2π/3 para qual b a composição é
F5π/6 . A priori, sem qualquer teoria adicional, não tem que existir tal f , mas neste caso existe
e é f = Fπ/2 .
Algumas outras propriedades da operação de composição em Dn não tão fáceis de identificar
diretamente na Tabela (1.10). Por exemplo, pela Proposição ◦ é associativo em Dn . Verificar
a associatividade da Tabela (1.10) exigiria verificar 123 = 1.728 igualdades. Além disso, a
composição ◦ tem uma identidade em Dn , a saber R0 . Na verdade, R0 é a função de identidade
em V . Finalmente, cada elemento em Dn tem um inverso: o inverso de R2πk/n é R2π(n−k)/n e o
inverso de Fπk/n é ele mesmo. Deixamos a prova da seguinte proposição como um exercício.
Introduzimos uma notação que é mais breve e que é a notação abstrata que usaremos
regularmente na teoria dos grupos.
Dado qualquer inteiro n ≥ 3, denote por r a rotação do ângulo 2π/n e por s a reflexão
através do eixo x. Em outras palavras, r = R2π/n e s = F0 .
Em notação abstrata, semelhante notação para multiplicação variáveis reais, simplesmente
escrevemos abpara significar a◦b para quaisquer dois elementos a, b ∈ Dn . Como ◦ é associativo,
pela Proposição (1.5.2), uma expressão como rrsr é bem definida, independentemente da ordem
em que colocamos os termos para realizar a composição. Considerando o caso n = 6,
k vezes
k z }| {
a = aaa . . . a.
Portanto, poderíamos escrever r2 sr para rrsr. É importante notar que, como a composição ◦
não é comutativa, r3 s não é necessariamente igual a r2 sr. Finalmente, observe que R0 é a função
de identidade, então R0 ◦ f = f ◦ R0 = f , para todo f ∈ Dn . Conseqüentemente, denotaremos
R0 por 1 para representar a função de identidade. Embora usemos a notação multiplicativa,
devemos continuar a pensar nos símbolos como funções e não como representando variáveis
reais.
Não é difícil ver que
k vezes
z }| {
r = R2π/n ◦ R2π/n ◦ · · · ◦ R2π/n = R2πk/n .
Além disso, olhando na coluna de F0 na Tabela (1.10), suspeitamos que em geral tenhamos
rk s = Fπk/n ,
Corolário [Link] Considere o conjunto das simetrias Dn do polígono regular de n lados com
n ≥ 3. Então, srk = rn−k s.
Os grupos diedrais surgem freqüentemente na arte e na natureza. Muitos dos designs de-
corativos usados em revestimentos de piso, cerâmica e edifícios têm um dos grupos diedrais
como um grupo de simetria. Logotipos de corporações são fontes ricas de simetria diedrais. O
logotipo da Chrysler tem D5 como um grupo de simetria, e o da Mercedes Benz tem D3 . A
onipresente estrela de cinco pontas tem grupo de simetria D5 . O filo Echinodermata contém
muitos animais marinhos (como estrelas do mar, pepinos do mar, estrelas de penas e dólares
de areia) que exibem padrões com simetria D5 .
Por outro lado, considere a forma dada na Figura (1.13). Não existe um eixo através do
qual a forma seja preservada sob uma reflexão. Consequentemente, a forma não possui simetria
D3 . Possui apenas simetria rotacional com o menor ângulo de rotação de 2π/3.
Se sabemos que um padrão geométrico tem uma certa simetria diedral, só precisamos dese-
nhe uma certa parte da forma antes que seja possível determinar o resto do objeto. Seja F um
conjunto de bijeções do plano e seja S um subconjunto do plano que é preservado por todas
as funções em F, ou seja, f (S) = S, ∀f ∈ F. Dizemos que um conjunto S 0 gera S por F se
S = ∪ f (S 0 ).
f ∈F
18 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Por exemplo, considere a forma mostrada na Figura (1.14) à esquerda, o subconjunto cinza
escuro S0 é um subconjunto gerador para o conjunto S todo, mas não é um subconjunto gerador
mínimo. Por outro lado, na figura à direita, o subconjunto cinza escuro S0 é um subconjunto
gerador mínimo.
Com frequência, quando r ∈ N, escrevemos g −r para denotar o elemento (g −1 )r . Assim,
com esta notação
hgi = {g t | t ∈ Z}.
Exemplo 1.6.1 Considere o grupo diedral G = D6 . O subgrupo gerado pela rotação R, hRi,
consiste de todas as potências do elemento R. Portanto, hRi = {1, R, R2 , R3 , R4 , r5 }. Note que
hRi é o o subgrupo das rotações. Podemos visualizar este grupo como na Figura (1.15).
O subgrupo gerado por hSi = {1, s} consiste de dois elementos somente, a reflexão sobre
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 19
O subgrupo hS, SR2 i obviamente contém S, mas também contém R = S(SR). Portanto,
hS, SR2 i = D6 , pois ele contém todas as rotações e todas as reflexões.
Definição 1.6.1 Seja X um conjunto não vazio. Defina SX como o conjunto de todas as
bijeções de X em X.
f ◦ f −1 = f −1 ◦ f = id.
Demonstração. Uma função de {1, 2, . . . , n} para um outro conjunto é injetivo se, e somente
se, a imagem tiver n elementos. Portanto, uma função de {1, 2, . . . , n} para si mesmo é uma
bijeção se, e somente se, for uma função injetora.
A ordem de Sn é o número de bijeções distintas sobre {1, 2, . . . , n}. Para enumerar as
bijeções, contamos as funções injetoras de {1, 2, . . . , n} para ele mesmo. Observe que existem
n opções para f (1). Como f (2) 6= f (1), para cada escolha de f (1), existem n − 1 escolhas
para f (2). Dados os valores de f (1) e f (2), existem n − 2 escolhas possíveis para f (3) e assim
por diante. Visto que uma enumeração de funções injetoras requer uma decisão de n valores,
usamos a regra do produto. Conseqüentemente,
1 2 3 4 5 6 7 8
3 8 7 4 6 2 1 5
uma n-upla. Se o valor n for claro no contexto, a linha superior da notação do gráfico é
redundante. Portanto, podemos representar a permutação σ pela n-upla (σ(1), σ(2), . . . , σ(n)).
Usando a notação de n-upla, a permutação na Figura (1.19) é escrita como σ = (3, 8, 7, 4, 6, 2, 1, 5).
Notação cíclica Uma notação diferente acaba sendo mais útil para os propósitos da teoria dos
grupos. Na notação de ciclo, a expressão
onde al são elementos distintos em {1, 2, · · · , n}, significando que para qualquer índice i, temos
(
ai+1 se i 6= mj para todo j
σ(ai ) =
amj−1 +1 se i = mj para algum j,
onde m0 = 0. Qualquere uma das expressões (amj−1 +1 amj−1 +2 · · · amj ) é chamado de um ciclo
porque σ circula através desses elementos na ordem como σ é iterado.
Usando a notação cíclica para a permutação na Figura (1.19) notamos que
Exemplo 1.6.3 Como outro exemplo, considere o grupo simétrico S6 . Existem 6! = 720
elementos em S6 . Contamos quantas permutações existem em S6 de um determinado tipo de
ciclo. Para contar os 6 ciclos, observe que todo inteiro de 1 a 6 aparece na notação de ciclo
de um 6-ciclo. Na notação de ciclo padrão, escrevemos 1 primeiro e depois todos os 5! = 120
ordenações de {2, 3, 4, 5, 6} fornecendo 6-ciclos distintos. Portanto, existem 120 ciclos de 6 em
S6 . Agora contamos as permutações em S6 da forma σ = (a1 a2 a3 )(a4 a5 a6 ). A notação de
24 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Ao calcular operações no grupo simétrico, devemos lembrar que as permutações são funções
bijetivas e que a composição da função é lida da direita para a esquerda. Por causa disso, se
σ, τ ∈ SX , então a composição de στ (é a notação padrão para a composição σ ◦ τ ) significa a
bijeção onde aplicamos primeiro τ e depois σ.
Considere o exemplo a seguir, no qual determinamos a notação do ciclo de um produto.
Suponha que estejamos em S6 e σ = (1 4 2 6)(3 5) e τ = (2 6 3). Escrevemos
στ = (1 2 6)(3 5)(2 6 3)
e leia da direita para a esquerda como στ envia os inteiros como uma composição de ciclos,
não necessariamente disjuntos agora. (Nos diagramas abaixo, as setas abaixo da permutação
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 25
Observe que como στ (2) = 1, fechamos o primeiro ciclo e iniciamos um novo ciclo com o
menor inteiro ainda não aparecendo em nenhum ciclo anterior de στ .
O fato de que os ciclos disjuntos comutam implica que para entender potências e inversos de
permutações, é suficiente entender como potências e inversos funcionam em ciclos. De fato, se
τ1 , τ2 , · · · , τk 1 são ciclos disjuntos e σ = τ1 τ2 · · · τk , então σ m = τ1m τ2m · · · τkm , para todo m ∈ Z,
e em particular σ −1 = τ1−1 τ2−1 · · · τk−1 .
26 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Proposição 1.6.4 Para todo σ ∈ Sn a ordem |σ| é o mínimo múltiplo comum dos compri-
mentos dos ciclos disjuntos na notação de ciclo padrão de σ.
Exemplo 1.6.4 Seja σ = (1 3 7)(2 5 4)(6 10) em S10 . Propomos calcular σ −1 e então determinar
a ordem de σ calculando todas as potências de σ. Para calcular σ −1 lemos os ciclos ao contrário
A segunda igualdade é obtida reescrevendo cada ciclo com o menor inteiro primeiro. I sso
é equivalente a iniciar no número inteiro mais baixo do ciclo e ler o ciclo de trás para frente.
Para as potências de σ, temos
σ = (1 3 7)(2 5 4)(6 10),
σ2 = (1 3 7)(2 5 4)(6 10)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (1 7 3)(2 4 5),
σ3 = σ 2 σ = (1 7 3)(2 4 5)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (6 10),
σ4 = σ 3 σ = (6 10)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (1 3 7)(2 5 4),
σ5 = σ 4 σ = (1 3 7)(2 5 4)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = (1 7 3)(2 45 )(6 10),
σ6 = σ 5 σ = (1 7 3)(2 4 5)(6 10)(1 3 7)(2 5 4)(6 10) = id.
Segue que |σ| = 6 e isso ilustra a Proposição (1.6.4).
Consideramos brevemente o produto de ciclos que não são disjuntos. Alguns dos produtos
mais simples envolvem duas transposições, (12)(13) = (132) e (13)(12) = (123). O fato de esses
produtos serem diferentes estabelece a seguinte proposição.
Isso significa que a pessoa adivinhou o real i-ésimo evento histórico como sendo o σ(i)-ésimo
evento em ordem cronológica.
Suponha que alguém adivinhe a ordem cronológica de nascimento de cinco matemáticos e
os coloque na seguinte ordem.
O número de inversões de σ ∈ Sn é
Em outras palavras, Tn consiste em todos os pares possíveis (i, j) de índices, onde o primeiro
índice é menor que o segundo e inv(σ) é o número de vezes que σ inverte a ordem do par. O
conjunto Tn tem cardinalidade
n−1 n−1
X X (n − 1)n (n − 1)n
|Tn | = (n − i) = n(n − 1) − i = (n)(n − 1) − = .
i=1 i=1
2 2
Portanto, 0 ≤ inv(σ) ≤ 1
2
n(n − 1).
No exemplo acima sobre a ordem da data do nascimento dos cinco matemáticos, σ sobre os
pares de T5 como segue:
28 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Observe que invστ ) = k12 + k21 , inv(σ) = k11 + k21 e inv(τ ) = k11 + k12 .
Portanto, inv(σ) + inv(τ ) = k12 + k21 + 2k11 ∼
= k12 + k21 ∼
= inv(στ ) (mod 2).
n n
Este produto possui termos (e, portanto, possui grau ). Observe que cada termo no
2 2
produto corresponde exclusivamente a um par em Tn .
1.6. OBJETOS GEOMÉTRICO COM SIMETRIAS DIEDRAIS 29
para um dado σ ∈ Sn , e dado um par (i j) ∈ Tn , o termo (xσ(j) − xσ(i) ) é igual a ±(xj 0 − xi0 )
para algum outro par (i0 , j 0 ) ∈ Tn e com o sinal sendo negativo se, e somente se, σ inverte o par
(i j). Como o sinal(σ) = (−1)inv(σ) , o sinal de uma permutação satisfaz
Y Y
(xσ(j) − xσ(i) ) = sinal(σ) (xj − xi ).
1≤i≤j≤n 1≤i≤j≤n
Teorema 1.6.2 Uma permutação é par (resp. Ímpar) se, e somente se, pode ser escrita como
um produto de um número par (resp. Ímpar) de transposições.
Demonstração. Como toda permutação σ ∈ Sn pode ser expressa como um produto das
transposições (Veja Exercício ), então σ = τ1 τ2 · · · τk .
Pela Proposição (1.6.7)
Pela Proposição (1.6.6) temos que inv(τi ) é ímpar para todo i e portanto, inv(σ) é par se,
e somente se, k for par.
Exercícios
1. Escreva a notação de ciclo padrão para as seguintes permutações expressas em notação
de matriz.
1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7
(a) (a)
6 3 2 4 7 1 5 3 5 7 2 1 6 4
8. Use o Exercício (6) ou o Exercício (7) para mostrar que toda permutação pode ser escrita
como um produto de transposições.
11. Em S6 , conte o número de inversões das seguintes permutações: (a) σ = (13562); (b)
τ = (16)(234); (c) ρ = (135)(246).
O critério para um subgrupo normal é equivalente a uma variedade de outras condições sobre
o subgrupo. Antes de listarmos essas condições, mencionamos alguns resultados imediatos da
definição. A primeira observação é que todo grupo G tem pelo menos dois subgrupos normais:
o grupo trivial {1} e o próprio G. A próxima proposição fornece outra condição suficiente para
que um subgrupo seja normal.
Exemplo 1.7.2 Da Proposição (1.7.1), vemos imediatamente que hri, hr2 , si e hr2 , rsi são
subgrupos normais de D4 , simplesmente porque cada um desses subgrupos tem ordem 4 e
|D4 | = 8.
1. N E G.
2. gN g −1 = N , para todo g ∈ G.
Essa proposição sugere por que generalizar a construção da aritmética modular para to-
dos os grupos apresenta algumas sutilezas que não eram aparentes na aritmética modular:
(Z, +) é abeliano. Por uma razão semelhante, também podemos concluir a proposição mais
geral.
Proposição 1.7.4 Seja G um grupo finito gerado por um subconjunto T . Seja N = hSi o
subgrupo gerado pelo subconjunto S. Então, N E G se, e somente se, para todo t ∈ T e
s ∈ S, tst−1 ∈ N .
Vemos que se gSg −1 ⊆ N , então o produto acima à direita ocorre como um produto em N
e portanto g ∈ NG (N ). Suponha agora que sabemos apenas que para todo t?T e todo s ∈ S,
tst−1 ∈ N . Todo elemento g ∈ G pode ser escrito como um produto g = t1 t2 · · · tl , para ti ∈ T ,
possivelmente com repetições. Note que como G é finito, o inverso de qualquer t?T é tn−1 , onde
|t| = n. Provamos que N é normal por indução em l. Pelo que foi dito acima, se todo t ∈ T
satisfaz tSt−1 ⊆ N , então todo T ⊆ NG (N ). Agora suponha que todo produto de comprimento
l − 1 de elementos em T está em NG (N ). Considere um produto de comprimento l, ou seja,
t1 t2 · · · tl e n ∈ N .
K E H E G < K E G.
Uma razão intuitiva para esta propriedade da relação de subgrupo normal é que mesmo se
hKh−1 ⊆ K para todo h ∈ H, a condição gKg −1 ⊆ K para todo g ∈ G é uma condição mais
forte e pode não se manter.
34 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Calculamos para onde τ envia todos os elementos e descobrimos que τ é dado pela equação
(1.1).
Agora todo elemento w ∈ Sn é um produto de ciclos disjuntos, w = τ1 τ2 · · · τm . Além disso,
podemos escrever
σwσ −1 = (στ1 σ −1 )(στ2 σ −1 ) · · · (στm σ −1 ), (1.2)
onde cada στi σ −1 é calculado da equação (1.1). Como exemplo numérico, usando apenas as
equações (1.1) e (1.2) determinamos que
se, K = gHg −1 para algum g ∈ G. É fácil mostrar que ∼c é uma relação de equivalência em
Sub(G). Se H é um subgrupo normal, então gHg −1 = H para todo g ∈ G. Na linguagem de
classes de equivalência, H E G se, e somente s,e a classe de equivalência de H é o conjunto
unitário {H}.
Iniciamos a seção propondo generalizar a todos os grupos a construção que leva de (Z, +)
à adição em aritmética modular, (Z/nZ, +). Agora estamos em condições de generalizar a
construção aritmética modular para grupos gerais.
Um dos pontos-chave para nos permitir construir Z/nZ foi o resultado inócuo de que se
a ≡ c e b ≡ d, então a + b ≡ c + d. Podemos reformular isso como adição de conjuntos dizendo
(a+nZ)+(b+nZ) = (a+b)+nZ. Para generalizar a construção aritmética modular, precisamos
de um resultado semelhante para grupos em geral.
Seja G um grupo e seja ∼ uma relação de equivalência em G. Diremos informalmente que a
relação de equivalência se comporta bem com relação à operação se para todo g1 , g2 , h1 , h2 ∈ G,
g1 ∼ g2 e h1 ∼ h2 ⇒ g1 h1 ∼ g2 h2 . (1.3)
Seja ∼ uma relação de equivalência em um grupo G que se comporta bem com relação à
operação. Então no conjunto quociente G/ ∼, ou seja, o conjunto das classes de equivalência,
podemos definir a operação · por
x̄ · ȳ = xy.
¯ (1.4)
Em virtude da condição (1.3), esta operação está bem definida. Deixamos isso como exercício
para o leitor provar que (G/ ∼, ·) é um grupo.
Proposição 1.7.7 Suponha que ∼ é uma relação de equivalência sobre G que se comporta
bem com respeito a operação. Então a classe de equivalência de 1 é N . Além disse, as classes
de equivalências de ∼ são da forma gN .
Esta proposição estabelece que uma relação de equivalência que se comporta bem com
respeito à operação de grupo define um subgrupo normal. No entanto, o inverso é verdadeiro.
h−1 −1
1 g2 g1 h1 ∈ N, pois g2−1 g1 ∈ N e N E G
1 )(h1 g2 g1 h1 ) ∈ N, pois h2 h1 ∈ N
⇒ (h2 h−1 −1 −1 −1
⇒ h−1 g −1 gh ∈ N
⇒ (g 2 h2 )1 (g1 h1 ) ∈ N
e concluímos que g2 h2 e g1 h1 estão na mesma classe lateral à esquerda de N .
Consequentemente, a relação de equivalência definida pela partição das classes laterais à
esquerda de N se comporta bem com relação à operação de grupo.
tem a estrutura de um grupo com identidade N e inversa dada por (xN )−1 = x−1 N .
Exemplo 1.7.5 Como primeiro exemplo, observe que (Z/nZ, +) é o grupo quociente de Z por
nZ. Como Z é abeliano, todo subgrupo é normal. De fato, a notação para aritmética modular
inspirou a notação para grupos de quocientes em geral.
Portanto, toda rotação composta por uma rotação é uma rotação; toda rotação composta
por um reflexão é uma reflexão, e assim por diante.
Conforme ilustrado nos dois exemplos anteriores, é comum imitar a notação usada na arit-
mética modular e denotar um classe de conjugação gN no grupo quociente G/N por g. Na
aritmética modular, o módulo é entendido pelo contexto. Da mesma forma, quando usamos
essa notação g, o subgrupo normal é entendido pelo contexto.
Exemplo 1.7.7 . Como outro exemplo, considere o subgrupo N = h1i em Q8 . Pela Proposição
(1.7.3), como N é o centro de Q8 , é um subgrupo normal. Os elementos no grupo quociente
Q8 /N são {?1, i, j, k}. É fácil ver que i2 = −1 = 1 e similarmente para j e k. Assim, todos
os elementos diferentes da identidade tem ordem 2. Conseqüentemente, podemos concluir que
Q8 /N ∼= Z2 ⊕ Z2 .
Exercícios
1. Prove que An é um subgrupo normal de Sn .
6. Prove que todo subgrupo de Q8 é um subgrupo normal. [Isso mostra que a recíproca da
Proposição (1.7.2) é falsa.]
9. Seja G um grupo. Prove que, se H ≤ G é o único subgrupo de uma dada ordem n, então
H E G.
13. Seja {Ni }i∈I uma coleção de subconjuntos normais de G. Prove que a interseção ∩i∈I Ni
é um subgrupo normal. Não assuma que I é finito.
14. Suponha que um subgrupo H ≤ G seja tal que se h ∈ H com |h| = n, então H contém
todos os elementos em G de ordem n. Prove que H é um subgrupo normal.
16. Prove que se g ∈ Z(G), então a classe de conjugação de g é o conjunto sunitário {g}.
Exemplo 1.8.1 Fixe um número real positivo b e considere a função f (x) = bx . As regras de
potências afirmam que para todo x, y ∈ R,
bx+y = bx by .
Na linguagem da teoria de grupos, essa identidade pode ser reafirmada dizendo que a função
exponencial f (x) = bx é um homomorfismo de (R, +) para (R, ×).
Exemplo 1.8.2 A função de inclusão f : (Z, +) → (R, +) dada por f (x) = x é um homomor-
fismo.
Exemplo 1.8.4 Seja n um inteiro maior que 1. A função φ(a) = ā que associa um inteiro para
¯ b = ā+ b̄
sua classe de congruência emZn é um homomorfismo. Onde a adição é definida por a +
Verifique isso.
sign(σ) = (−1)inv(σ).
Em outras palavras, sign(σ) = 1 se σ for par e sign(σ) = −1 se σ for ímpar. Agora para todo
σ, τ ∈ Sn ,
onde a segunda igualdade vale por causa da Proposição (1.6.7). Assim, a função sinal é um de
homomorfismo sinal : Sn → ({1, −1}, ×). Essa função sinal desempenha um papel crucial em
muitas aplicações do grupo simétrico e a revisaremos com frequência.
42 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Exemplo 1.8.7 Considere o homomorfismo det : GLn (R) → R∗ . (Ver Exemplo (1.8.5)). O
núcleo do homomorfismo determinante é o conjunto de matrizes cujo determinante é 1, ou seja,
SLn (R), o grupo especial linear.
1.8. HOMOMORFISMOS DE GRUPOS 43
Exemplo 1.8.8 Considere a função sinal : Sn → ({1, −1}, ×) conforme definido no Exemplo
(1.8.6). O kernel Ker(sinal) é precisamente o grupo alternante An como um subgrupo de Sn .
A função φ é sobrejetiva, então a imagem é todo conjunto {1, 1}.
Vimos alguns exemplos em que os grupos, embora apresentados de forma diferente, podem
na verdade parecer surpreendentemente iguais. Por exemplo (Zn , ·) e (Z/nZ, +) se comportam
de forma idêntica e da mesma forma para (Z, +) e (2Z, +), onde 2Z significa todos os números
pares. Isso levanta as questões:
(1) quando devemos chamar dois grupos de iguais e;
(2) o que exatamente significa chamar dois grupos de iguais.
Definição 1.8.3 Sejam G e H dois grupos. Uma função φ : G → H é chamada de isomorfismo
se:
(i) φ é um homomorfismo;
Se existe um isomorfismo entre dois grupos G e H, então dizemos que G e H são isomorfos
e escrevemos G ∼= H.
Quando dois grupos são isomorfos, eles são considerados como iguais para os efeitos da teoria
de grupos. Poderíamos ter definido um isomorfismo como uma bijeção φ tal que tanto φ quanto
φ−1 são ambos homomorfismos. No entanto, isso acaba sendo mais pesado do que o necessário,
como mostra a proposição a seguinte.
Exemplo 1.8.9 Seja b um número real positivo. Sabemos que f (x) = bx é uma bijeção entre
R e R>0 com função inversa f −1 (x) = logb x = (ln x)/(ln b). O Exemplo (1.8.1) mostrou que f é
um homomorfismo e portanto é um isomorfismo entre (R, +) e (R> 0, ×). A proposição (1.8.5)
implica que f −1 (x) = logb x é um homomorfismo de (R> 0, ×) com (R, +).
Exemplo 1.8.10 Neste exemplo, fornecemos um isomorfismo entre GL2 (F2 ) e S3 . Considere
a seguinte função:
φ
1 0
→ Id
0 1
1 1
→ (1 2)
0 1
1 0
→ (1 3)
1 1
0 1
→ (2 3)
1 0
1 1
→ (1 2 3)
1 0
0 1
→ (1 3 2)
1 1
Se compararmos a tabela de grupo em GL2 (F2 ) e a tabela de grupo em S3 , descobrimos que
esta função particular φ preserva o jeito como os elementos de grupo operam, estabelecendo
que φ é um isomorfismo.
1. |G| = |H|.
|φ(x)| é finita e divide |x|. Aplicando o mesmo argumento a φ−1 e ao elemento φ(x), deduzimos
que |x| divide a ordem de |φ(x)|.
Portanto, já que |x| e |φ(x)| são ambos positivos e se dividem |x| = |φ(x)|.
Considere agora o caso em que a ordem de x é infinita. Suponha que φ(x)m = 1H para
algum m > 0. Então φ(xm ) = 1H e como φ é injetivo, deduzimos novamente que xm = 1G .
Portanto, a ordem de x é finita. Mas isso é uma contradição, então se |x| é infinito então |φ(x)|
é infinito. Reciprocamente, aplicando o mesmo argumento a φ−1 , temos que se |φ(x)| é infinito
então |x| é infinito.
A Proposição (1.8.6) é particularmente útil para provar que dois grupos não são isomorfos.
Se a condição (1) ou (2) falhar, os grupos não podem ser isomorfos. Além disso, se dois grupos
tiverem um número diferente de elementos de uma determinada ordem, então a Proposição
(1.8.6) item (iii) não pode ser válida para nenhum isomorfismo e, portanto, os dois grupos não
são isomorfos.
No entanto, ressaltamos que as três condições da Proposição (1.8.6) são condições necessá-
rias, mas não suficientes: pois se todas as três condições são válidas, não podemos deduzir que
φ é um isomorfismo. O Exemplo (1.8.12) ilustra isso.
Observação. Se dois grupos são isomorfos, eles têm reticulados de subgrupos isomorfos (como
posets). No entanto, a recíproca não é verdadeira. Existem muitos pares de grupos não
isomórficos com redes de subgrupos que são isomorfas como posets. Consulte a Figura (1.22)
para saber um exemplo deste fato.
Exemplo 1.8.11 Provamos que D4 e Q8 não são isomorfos. Ambos são de ordem 8 e são não
abelianos. No entanto, em D4 apenas os elementos r e r3 têm ordem 4, enquanto em Q8 , os
elementos i, −i, j, −j, k, −k são todos de ordem 4. Consequentemente, não pode existir uma
bijeção entre D4 e Q8 que satisfaz a Proposição (1.8.6). Portanto, D4 Q8 .
46 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Exemplo 1.8.12 A ordem parcial do Exemplo estabelece uma bijeção entre Q>0 e N∗ . A
partir desta bijeção é fácil provar que existe bijeção entre Q e Z. Porém, não existe isomorfismo
entre (Z, +) e (Q, +). Este resultado não segue da Proposição (1.8.6). Com efeito, |Z| = |Z|,
Z e Q são ambos abelianos, e todos os elementos diferentes de zero de ambos os grupos têm
ordem infinita. Suponha que exista um isomorfismo f : Q → Z. Se r é um número racional e
n ∈ Z, então pela Proposição (1.8.1) item (iii) com adição, f (n · r) = n · f (r). Suponha que
definimos f (1) = a, para algum a diferente de zero. Então
2a 1
a = f (1) = f ( ) = 2a · f ( ).
2a 2a
Demonstração. Lembre-se que os grupos cíclicos são abelianos. Primeiro suponha que G e
H são grupos cíclicos finitos, ambos de ordem n. Suponha que G seja gerado por x e que H
seja gerado por y. Defina a função φ : G → H por φ(xa ) = y a . Como H é abeliano, φ é um
homomorfismo; precisamos provar que é uma bijeção.
A imagem de φ é {φ(xk ) | 0 ≤ k ≤ n − 1} = {y k | 0 ≤ k ≤ n − 1} = H, portanto, φ
é uma sobrejeção. Uma sobrejeção entre conjuntos finitos é uma bijeção. Portanto, φ é um
isomorfismo.
A prova é similar se G e H são grupos cíclicos infinitos. (Deixamos a prova para o leitor.
Veja Exercício)
hs, r3 i, hsr, r3 i e hsr2 , r3 i, são todos isomorfos a Z2 ⊕ Z2 ; e para os subgrupos de ordem 6 temos:
hri ∼
= Z6 mas hs, r2 i ∼
= hsr, r2 i ∼
= D3 .
O grupo de automorfismo de um grupo G fornece alguma descrição grupo téorica das si-
metria dentro do grupo G. Nem sempre é fácil determinar Aut(G), mas a Proposição (1.8.6)
restringe consideravelmente as possibilidades. Vários exercícios orientam o leitor a determinar
48 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Isso prova que ψ é um homomorfismo. É fácil verificar que ψg−1 = ψg−1 , então para todo
g ∈ NG (H), a função ψg é uma bijeção e, portanto, um automorfismo de H. Agora seja
a, b ∈ NG (H) arbitrário. Então para todo h ∈ H,
Os grupos simples serão vistos com mais detalhes mais adiante. Vale observar que, Zp é
um grupo simples sempre que p for um número primo. Determinar se um grupo é simples nem
sempre é uma tarefa “simples”. ’Destacamos uma outra família de grupos que é simples, ogrupo
alternado An com n ≤ 5.
Discutimos como, para entender a estrutura interna de um determinado grupo, muitas vezes
comparamos subgrupos de um grupo com algum grupo que já é bem conhecido. Poderíamos
considerar o processo inverso: Dado um grupo G, podemos obter G como (isomorfo a) um
1.9. O GRUPO DE AUTOMORFISMOS 49
subgrupo de alguma família natural de grupos? O Teorema de Cayley responde a essa per-
gunta e mostra que a complexidade de qualquer grupo finito reside na complexidade de grupos
simétricos.
Teorema 1.9.1 (Teorema de Cayley) Todo grupo finito G é isomorfo a um subgrupo de Sn
para algum n.
Exemplo 1.9.1 Seja G = D4 , o grupo diedral sobre o quadrado. A prova do Teorema de Cayley
estabelece um isomorfismo entre D4 e um subgrupo de S8 . Para encontrar um tal isomorfismo φ,
rotule os elementos de D4 com g1 = 1, g2 = r, g3 = r2 , g4 = r3 , g 5 = s, g6 = sr, g7 = sr2 , g8 = sr3 .
Calculamos facilmente que
D4 ∼
= h(1234)(5876), (15)(26)(37)(48)i.
Exercícios
1. Seja φ : G → H um homomorfismo entre grupos. Prove que Imφ ≤ H.
4. Seja Z/33Z gerado por um elemento y e Z/12Z por um elemento z. Suponha que φ :
Z/33Z → Z/12Z é um homomorfismo satisfazendo φ(y 7 ) = z 8 . Encontre φ(x); determine
Ker φ; e determine Im φ.
5. Que falácia comum na álgebra elementar é abordada pela afirmação de que “a função
f : (R, +) → (R, +) com f (x) = x2 não é um homomorfismo?
(b) Prove que a função φg : H → gHg −1 por φg (h) = ghg −1 é um isomorfismo entre H
e gHg −1 . [Dizemos que o subgrupo gHg −1 é um conjugado de H.]
(b) Prove que a função ψG → Aut(G) definida por ψ(g) = ψg é um homomorfismo. [Um
automorfismo da forma ψg é chamado de automorfismo interno. A imagem de ψ em
Aut(G) é chamada de grupo de automorfismos internos e é denotada por Inn(G).]
19. Este exercício determina o grupo de automorfismo Aut(Zn ). Suponha que o Zn seja
gerado pelo elemento z.
(b) Prove que todo homomorfismo ψ : Zn → Zn é da forma ψ(g) = g a para algum inteiro
a com 0 ≤ a ≤ n − 1. Para o escopo deste exercício, denote por ψa o homomorfismo
tal que ψa (g) = g a .
(d) Mostre que a função ψ : U (n) → Aut(Zn ) com ψ(a) = ψa é um isomorfismo para
concluir que U (n) ∼
= Aut(Zn ).
G
π / G/Ker φ
φ
φ
(
H
O Primeiro Teorema do Isomorfismo leva a muitas consequências sobre grupos, algumas
elementares e outras mais profundas. Uma implicação é que se φ : G → H é um homomorfismo
injetivo, então Ker φ = {1} e então G/Ker φ = G ∼= φ(G). E desta forma dizemos que G está
imerso em H, ou que φ é uma imersão de G em H isto devido ao fato que φ envia G em uma
cópia exata de si mesmo como um subgrupo de H.
Como outro exemplo, suponha que G seja um grupo simples. Por definição, ele não contém
subgrupos normais além do subgrupo trivial e dele mesmo. Portanto, pelo Primeiro Teorema do
54 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Corolário 1.10.1.1Sejam G e H grupos finitos com mdc (|G|, |H|) = 1. Então o único
homomorfismo φ : G → H é o homomorfismo trivial, isto é φ(g) = 1H
Demonstração. Como φ(G) ≤ H, então pelo Teorema de Lagrange |φ(G)| divide |H|. Pelo
Primeiro Teorema do Isomorfismo, |φ(G)| = |G|/|Ker φ|. Conseqüentemente |φ(G)| divide |G|.
Portanto, |φ(G)| divide mdc(|G|, |H|) = 1, então |φ(G)| = 1. O único subgrupo de H que
possui apenas 1 elemento é {1H}.
O Primeiro Teorema do Isomorfismo leva a muitos outros resultados mais sutis na teoria dos
grupos. O Teorema do Normalizador-Centralizador a seguir é uma consequência imediata, mas
é importante por si só. Veremos como esse teorema implica restrições mais sutis na estrutura
interna de um grupo, levando a consequências para a classificação dos grupos (que vermos em
álgebra 3).
Pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo, deduzimos que NG (H)/CG (H) é isomorfo ψ(NG (H)),
que é um subgrupo de Aut(H).
Teorema 1.10.3 Seja G um grupo e sejam A e B sejam subgrupos tais que A ≤ NG (B).
Então AB é um subgrupo de G, B E AB, A ∩ B E A e
AB/B ∼
= A/A ∩ B.
1.10. TEOREMAS DO ISOMORFISMO 55
A/A ∩ B = AB/B.
Agora, pelo Primeiro Teorema do Isomorfismo, deduzimos que K/HEG/H e que (G/H)/(K/H) ∼
=
G/K.
Exemplo 1.10.2 Seja G o grupo de simetrias em R3 nos vértices do cubo que preservam a
estrutura do cubo. Este grupo é semelhante ao grupo diedral sobre o quadrado, porém mais
complicado porque as rotações no plano correspondem a movimentos rígidos do cubo. Além
disso, este grupo é estritamente maior que o grupo de movimentos rígidos de um cubo, pois
também inclui reflexões através de planos.
Podemos ver que |G| = 48 raciocinando da seguinte maneira. Sob uma simetria σ do cubo,
o vértice 1 pode ser enviado para qualquer um dos outros oito vértices. Então, sob uma simetria
do cubo, as três arestas incidentes no vértice 1 podem ser enviadas de qualquer maneira para
as três arestas incidentes com σ(1). Existem 3! = 6 possibilidades para este envio de arestas
incidentes. Apartir, do momento que sabemos onde 1 é aolicado, e onde vão suas arestas
incidentes, o resto da definição da aplicação depende do cubo é completamente determinado.
Portanto, |G| = 8 × 6 = 48.
Verifique que o grupo de movimentos rígidos R, que não inclui reflexões através de planos, é
isomórfico a S4 como o grupo de permutação nas 4 diagonais maiores. O grupo R de movimentos
rígidos de um cubo é apenas um subgrupo de G. Como |G : R| = 2, então R E G. A Figura
(??)ilustra três simetrias de um cubo, duas reflexões através de um plano e uma rotação em
torno de uma diagonal longa. As reflexões através de planos não são movimentos rígidos. A
reflexão através de uma diagonal longa é um movimento rígido, mas existem muitos outros
movimentos rígidos.
Considere também o subgrupo H de G gerado pelas rotações por múltiplos de 1200 sobre
1.10. TEOREMAS DO ISOMORFISMO 57
as diagonais longas. Não é difícil ver que todas as simetrias do cubo são geradas por reflexões
através de planos. Se f é uma reflexão através de um plano e r é uma rotação de 2π/3 através
de uma diagonal longa L, então f rf −1 é a rotação através da diagonal longa L0 = f (L), ou
seja, obtida refletindo L via f . A partir do Teorema, concluímos que H E G. Observe que,
se visualizarmos R como S4 por meio de como ele permuta as diagonais longas do cubo, H é
gerado por 3 ciclos e, portanto, H corresponde ao subgrupo A4 em R.
Este exemplo dá uma situação em que H ≤ R ≤ G e ambos H e R são subgrupos normais de
G. Podemos interpretar o grupo quociente G/R ∼
= Z2 como carregando a informação de se uma
simetria é um movimento rígido (preservando orientação) ou um movimento rígido refletido
(invertendo a orientação). O grupo quociente R/H ∼ = Z2 carrega informações sobre se um
movimento rígido é ímpar ou par na identificação de R com S4 . Finalmente, G/H ∼
= Z2 ⊕ Z2
contém informações sobre par versus ímpar e preservação da orientação versus reversão da
orientação. Intuitivamente falando, o Terceiro Teorema do Isomorfismo, que afirma que
(G/H)/(R/H) ∼
= G/R,
diz que esta informação sobre orientação está contida sem perda de estrutura em G/H.
Demonstração. (As partes (2) a (5) são deixadas como exercícios para o leitor. Para a parte
58 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
(1), suponha primeiro que A ≤ B. Então, para todo gN ∈ A/N , temos que g ∈ A ⊆ B e,
portanto gN ∈ B/N . Reciprocamente, suponha que A/N ≤ B/N . Seja a ∈ A. Então pela
hipótese, aN ∈ B/N . Se aN = bN para algum b ∈ B,então b−1 a ∈ N . Mas, N ≤ B. Então,
b−1 a = b0 e portanto a = bb0 . Assim, a ∈ B. Logo, A ≤ B.
Exemplo 1.10.3 Considere o grupo quatérnio Q8 . Observe que Z(Q8 ) = h−1i e, portanto,
este é um subgrupo normal. O seguinte diagrama representa o retículado de Q8 . Colocamos
arestas duplas em todas as partes do diagrama acima do subgrupo h−1i. Assim, de acordo
com o quarto Teorema do Isomorfismo, o reticulado de Q8 /h−1i é a subdiagrama envolvendo
somente as arestas duplas.
G1 ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gn = {(g1 , g2 , · · · , gn ) | gi ∈ Gi },
onde a operação entre dois elementos (g1 , g2 , · · · , gn ) e (g10 , g20 , · · · , gn0 ) é definido por
Fica subentendido que cada produto gi gi0 é realizado com a operação considerada no grupo Gi .
Se os grupos Gi são finitos, então das propriedades de conjuntos temos que
Ao longo do texto, optamos por utilizar a notação G ⊕ H para denotar o produto direto de
G e H. Entretanto, é mais comum encontrar a notação G × H.
n
M
Teorema 1.11.1 Seja H = Gi , com Gi grupos. Então, H é também um grupo.
i=1
Por fim, basta notar que o inverso de todo elemento (a1 , a2 , . . . , an ) em H é dado por
(a−1 −1 −1
1 , a2 , . . . , an ).
Observação. Segue da Definição 1.11.1 que (g1 , g2 , . . . , gn )k = (g1k , g2k , . . . , gnk ), ou seja, a
potência “se distribui” nas entradas.
Exemplo 1.11.2 Sejam U (8) e U (10) os elementos invertíveis de Z8 e Z10 com respeito a
multiplicação. Então temos que
U (8) ⊕ U (10) = (1, 1), (1, 3), (1, 7), (1, 9), (1, 9), (3, 1), (3, 3),
(3, 7), (3, 9), (5, 1), (5, 3), (5, 7), (5, 9)
(7, 1), (7, 3), (7, 7), (7, 9) .
O produto (3, 7)(7, 9) = (21, 63) = (5, 3), pois a primeira componente fazemos a multiplcação
módulo 8 e na segunda componente a multiplicação módulo 10.
{(0, 0), (0, 1), (0, 2), (1, 0), (1, 1), (1, 2)}.
Este grupo é claramente um grupo abeliano de ordem 6. Este grupo na verdade a menos de iso-
morfismo o mesmo que Z6 . De fato, o elemento (1, 1) gera todos os elementos em Z2 ⊕Z3 . Como
a operaç!ão é componente a componente temos que 1.(1, 1) = (1, 1), 2(1, 1) = (0, 2), 3(1, 1) =
(1, 0), 4(1, 1) = (0, 1), 5(1, 1) = (1, 2) e 6(1, 1) = (0, 0). Portanto, temos que Z2 ⊕ Z3 é cíclico, e
assim Z2 ⊕ Z3 ∼ = Z6 .
Demonstração. Se G não é um grupo cíclico, então existe um único modo de criar uma
tabela de multiplicação para G. Pelo Teorema de Lagrange a ordem dos elementos de G são
obrigatoriamente 1 ou 2. Sejam a e b dois elementos distintos de G diferentes da identidade.
Então pela lei do cancelamento temos que ab 6= a e ab 6= b. Além disso, ab 6= 1, pois do
contrário a = b−1 = b. Assim, G = {1, a, b, ab} e que a tabela é unicamente determinada segue
da observação que (ab)−1 = b−1 a−1 = ba.
1.11. PRODUTO DIRETO 61
logo t é um múltiplo comum de |g1 |, |g2 |, . . . , |gn |. Portanto, s ≤ t e concluímos que s = t, pelo
Princípio da Tricotomia.
Exemplo 1.11.5 Determinamos o número de elementos de ordem 5 em Z25 ⊕Z5 . Pelo Teorema
(1.11.3), podemos contar o número de elementos (a, b) em Z25 ⊕ Z5 , com a propriedade que
5 = |(a, b)| = mmc(|a|, |b|). Claramente, isso requer que |a| = 5 e |b| = 1 ou 5, ou |b| = 5 e
|a| = 1 ou 5. Consideramos dois casos mutuamente exclusivos.
Caso 1 Se |a| = 5 e |b| = 1 ou 5. Neste caso temos quatro opções para a (ou seja, 5, 10, 15 e
20) e cinco opções para b. Isso fornece 20 elementos de ordem 5.
Caso 2 Se |a| = 1 e |b| = 5. Desta vez temos uma escolha para a e quatro escolhas para b,
então obtemos mais quatro elementos de ordem 5. Assim, Z25 ⊕ Z5 possui 24 elementos de
ordem 5.
Teorema 1.11.4 Sejam G e H grupos cíclicos finitos. Então, G ⊕ H é cíclico se, e só se,
mdc(|G|, |H|) = 1, isto é, |G| e |H| são primos entre si.
62 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Agora, suponha que mdc(m, n) = 1 e G = hgi e H = hhi. Então, |(g, h)| = mmc(|g|, |h|) =
?
mmc(m, n) = mn = |G ⊕ H|, em que em ? usamos o fato de que mmc(a, b) mdc(a, b) = ab para
quaisquer a, b ∈ Z. Logo, G ⊕ H = h(g, h)i.
Demonstração. Para n = 2 temos o Teorema 1.11.4. Suponha que o corolário vale para
n = k > 2. Então, para n = k + 1, temos
G ⊕ G2 ⊕ · · · ⊕ Gk ⊕ Gk+1 .
|1 {z } | {z }
G H
k
M k
Y
Sejam |Gi | = ni para i = 1, 2, . . . , k + 1, G = Gi de modo que |G| = ni e H = Gk+1 .
i=1 i=1
k+1
Y
Daí, |G ⊕ H| = ni .
i=1
k
!
Y
Suponha que G ⊕ H = h(g1 , g2 , . . . , gk , h)i e que mdc(|G|, |H|) = mdc ni , nk+1 = d.
i=1
Daí, temos:
k+1 k+1 k
1Y 1Y 1Y !
ni ni ni
d i=1 d i=2 d i=1
(g1 , g2 , . . . , gk , h) = (g1n1 ) , . . . , (hnk+1 ) = (e, e, . . . , e).
k+1 k+1
Y 1Y
Logo, ni = |(g1 , g2 , . . . , gk , h)| ≤ ni , ou seja, d = 1.
i=1
d i=1
primo ao produto dos ni , que são primos entre si, logo nk+1 é relativamente primo a todos os
ni , isto é, mdc(ni , nj ) = 1 para i 6= j.
em que ? ressalta o fato de que como nenhum dos ni compartilha fator primo (já que o mdc
de cada par distinto é 1), então o mmc será dado pelo produto dos ni .
k
Y
Corolário [Link] Seja m = ni . Então Zm é isomorfo a Zn1 ⊕ Zn2 ⊕ · · · ⊕ Znk se, e só se,
i=1
ni e nj são relativamente primos quando i 6= j.
nk
M
Demonstração. Do Corolário [Link], sabemos que Zni é cíclico se, e só se, |Zni | e |Znj |
i=n1
são primos entre si para ni 6= nj , ou seja, se, e só se, ni e nj são primos entre si para i 6= j.
nk
M k
Y
Além disso, Zni = ni = m = |Zm |.
i=n1 i=1
nk
Zni ∼
M
Logo, como todo grupo cíclico finito de ordem n é isomorfo a Zn , então = Zn1 n2 ···nk =
i=n1
Zm se, e só se, mdc(ni , nj ) = 1 para i 6= j.
Observação. Em [1], o Teorema 1.11.4 e o Corolário [Link] são enunciados (de certo modo)
como o seguinte teorema: o grupo Zm ⊕Zn é cíclico e isomorfo a Zmn se, e só se, mdc(m, n) = 1.
Usando os resultados acima de forma iterativa, pode-se expressar o mesmo grupo (até o
isomorfismo) de muitas formas diferentes. Por exemplo, temos
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z6 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z30 .
De modo similar,
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z6 ⊕ Z5 ∼
= Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z2 ⊕ Z5 ∼
= Z6 ⊕ Z10 .
Assim, Z2 ⊕ Z30 ∼
= Z6 ⊕ Z10 . Note que, Z2 ⊕ Z30 Z60 .
64 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
Exercícios
1. Encontre todos os homomorfismos de Z/4Z a Z/2Z ⊕ Z/2Z.
4. Prove que Zm ⊕ Zn ∼
= Zmn se, me n são relativamente primos.
6. Prove que Zm ⊕ Zn ∼
= Zlcm(m,n) ⊕ Zmdc(m,n) .
16. Seja p um primo ímpar e seja H qualquer grupo de ordem ímpar. Prove que o único
homomorfismo de Dp para H é trivial.
(a) Prove que se, φ é sobrejetivo, então exatamente metade dos elementos de G enviados
para a identidade em Z2 .
21. Seja G um grupo e seja N E G tal que |G| e |Aut(N )| são relativamente primos. Então
N ≤ Z(G).
22. Suponha que H e K sejam subgrupos distintos de G, cada um de índice 2. Prove que
H ∩ K é um subgrupo normal de G e que G/(H ∩ K) ∼= Z2 ⊕ Z2 .
66 CAPÍTULO 1. SIMETRIA
2
Grupos Abelianos
Os grupos abelianos ocupam um lugar especial na álgebra: por um lado, podem ser vistos como
generalizações de módulos e de anéis, pois são definidos por um subconjunto dos axiomas que
definem essas estruturas; por outro lado, eles também são um caso particular de R-módulos,
ou seja, o caso de módulos sobre o anel R = Z.
Neste capítulo apresentaremos o Teorema Fundamental dos Grupos Abelianos Finitamente
Gerados, que caracteriza os grupos abelianos finitamente gerados como soma direta de grupos
cíclicos finitos e infinitos, e esta soma é unicamente determinada a menos da ordem dos fatores
cíclicos. Assim a estrutura de um grupo abeliano finitamente gerado é naturalmente simples. A
primeira demonstração deste Teorema foi obtida por Leopold Kronecker em 1858, ele demons-
trou este resultado para grupos abelianos finitos, mais precisamente ele provou que um grupo
abeliano finito é soma direta de grupos cíclicos de ordem igual a uma potência de um primo, e
que a fatorização é única à menos da ordem dos fatores nesta decomposição.
67
68 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS
grupos. Em relação aos Gi como conjuntos, podemos formar o produto direto ni=1 Gi . Mos-
Q
tramos que G = ni=1 Gi é um grupo, considerando a operação binária dada pela multiolicação
Q
{(0, 0), (0, 1), (0, 2), (1, 0), (1, 1), (1, 2)}.
Afirmamos que Z2 × Z3 é cíclico. Só é necessário encontrar um gerador. Vamos tentar (1, 1).
Aqui as operações em Z2 e Z3 são escritas aditivamente, então fazemos o mesmo no produto
direto Z2 × Z3 .
(1, 1) = (1, 1)
2(1, 1) = (1, 1) + (1, 1) = (0, 2)
3(1, 1) = (1, 1) + (1, 1) + (1, 1) = (1, 0)
4(1, 1) = 3(1, 1) + (1, 1) = (1, 0) + (1, 1) = (0, 1)
5(1, 1) = 4(1, 1) + (1, 1) = (0, 1) + (1, 1) = (1, 2)
6(1, 1) = 5(1, 1) + (1, 1) = (1, 2) + (1, 1) = (0, 0)
Assim (1, 1) gera todo Z2 × Z3 ,. Como existe, a menos de isomorfismo, apenas uma grupo
cíclico de determinada ordem, vemos que Z2 × Z3 , é isomórfico a Z6 .
Teorema 2.1.1 O grupo Zm × Zn é cíclico e é isomórfico a Zmn se, e somente se, m e n são
relativamente primo, ou seja, o mdc de m e n é 1.
Demonstração. Considere o subgrupo cíclico de Zm × Zn gerado por (1, 1), isto o subgrupo
dado por h(1, 1)i = {1 · (1, 1), 2 · (1, 1), · · · }. Como nosso nos exemplos acima, a ordem desse
subgrupo cíclico é a menor potência de (1, 1) que dá a identidade (0, 0). Aqui, tomar uma
potência de (1, 1) em nossa notação aditiva significará adicionar (1, 1) a si mesmo repetidamente.
Sob adição componente a componente, a primeira componente 1 ∈ Zm resulta em 0 somente
após m somas, 2m somas, e assim por diante, e a segunda componente1 ∈ Zn produz 0 somente
após n somas, 2n somas, e assim por diante. Para que produzam 0 simultaneamente, o número
de summands deve ser um múltiplo de m e n. O menor número que é múltiplo de m e n será
mn se, e somente se, o mdc de m e n for 1; neste caso, (1, 1) gera um subgrupo cíclico de
2.1. PRODUTO DIRETO DE GRUPOS ABELIANOS 69
ordem mn, que é a ordem de todo o grupo. Isso mostra que Zm × Zn é cíclico de ordem mn
e, portanto, isomorfo a Zmn se m e n são relativamente primos. Do contrário, suponha que o
mdc de m e n seja d > 1. Então mn/d é divisível por m e n. Conseqüentemente, para qualquer
(r, s) em Zm × Zn , temos
(r, s) + (r, s) + · · · (r, s) = (0, 0)
| {z }
mn
d
− somandos
Portanto, nenhum elemento (r, s) em Zm × Zn pode gerar o grupo inteiro, então Zm × Zn não
é cíclico e portanto não é isomorfo ao grupo Zmn .
Este teorema pode ser estendido para um produto de mais de dois fatores com demonstração
similar.
O grupo ni=1 Zmi é cíclico e isomorfo à Zm1 m2 ···mn se, e somente se, os
Q
Corolário [Link]
números mi são dois a dois coprimos.
Exemplo 2.1.3 O corolário ([Link]) mostra que se n é escrito como um produto de potências
de números primos distintos, como em
então Zn é isomorfo a Z(p1 )n1 × Z(p2 )n2 × · · · × Z(pr )nr . Em particular, Z72 é isomorfo a Z8 × Z9 .
Observamos que alterar a ordem dos fatores em um produto direto produz um grupo iso-
morfo ao original. Os nomes dos elementos foram simplesmente alterados por meio de uma
permutação dos componentes nas n-tuplas.
É fácil provar que o subconjunto de Z consistindo de todos os inteiros que são múltiplos de
r e s é um subgrupo de Z e, portanto, é um grupo cíclico. Da mesma forma, o conjunto de
todos os múltiplos comuns de n inteiros positivos r1 , r2 , · · · , rn é um subgrupo de Z e, portanto,
é cíclico.
Definição 2.1.1 Sejam r1 , r2 , · · · , rn inteiros positivos. Seu mínimo múltiplo comum (abre-
viadamente mmc) é o gerador positivo do grupo cíclico de todos os múltiplos comuns os ri ’s
, ou seja, o grupo cíclico de todos os inteiros divisíveis por cada ri parai = 1, 2, ·, n.
Da Definição (2.1.1) e de nosso do que sabemos sobre grupos cíclicos, vemos que mmc de
r1 , r2 , · · · , rn é o menor inteiro positivo que é um múltiplo de cada ri para i = 1, 2, · · · , n, daí
a razão do nome mínimo múltiplo comum.
Exemplo 2.1.4 Encontraremos a ordem de (8, 4, 10) no grupo Z12 × Z60 × Z24 . Uma vez que
o mdc de 8 e 12 é 4, vemos que 8 é um elemento de ordem 12/4 = 3 em Z12 .
Da mesma forma, descobrimos que 4 é de ordem 15 em Z60 e 10 é de ordem 12 em Z24 . O
mmc de 3, 15 e 12 é 3 · 5 · 4 = 60, então (8, 4, 10) é a ordem 60 no grupo Z12 × Z60 × Z24 .
Exemplo 2.1.5 O grupo Z × Z2 é gerado pelos elementos (1, 0) e (0, 1). Mais geralmente, o
produto direto de n grupos cíclicos, cada um dos quais é Z ou Zm , para algum inteiro positivo
m, é gerado pelas n n-uplas
Esse produto direto também pode ser gerado por menos elementos. Por exemplo, Z3 × Z4 ×
Z35 é gerado pelo único elemento (1, 1, 1).
Gi = {(1, 1, · · · , 1, ai , 1, · · · , 1) | ai ∈ Gi },
importância de um teorema, mas omitimos sua prova. O teorema que agora enunciamos nos
dá informação estrutural completa sobre todos os grupos abelianos suficientemente pequenos,
em particular, sobre todos os grupos abelianos finitos.
Teorema 2.2.1 [Teorema Fundamental de Grupos Abelianos finitamente gerados] Todo grupo
abeliano finitamente gerado G é isomórfico a um produto direto de grupos cíclicos na forma
Z(p1 )n1 ×Z(p2 )n2 · · ·×Z(pr )nr ×Z×Z · · ·×Z, onde os pi são primos, não necessariamente distintos,
e os ri são inteiros positivos. O produto direto é único, exceto pelo possível rearranjo dos
fatores; ou seja, o número (número de Betti de G) de fatores Z é único e as potências primas
(pi )ri são únicas.
Demonstração. A demostração será omitida aqui, consulte por exemplo Galian para de-
mosntração do caso grupo abeliano finito.
1. Z2 × Z2 × Z2 × Z3 × Z3 × Z5
2. Z2 × Z4 × Z3 × Z3 × Z5
3. Z2 × Z2 × Z2 × Z9 × Z5
4. Z2 × Z4 × Z9 × Z5
5. Z8 × Z3 × Z3 × Z5
6. Z8 × Z9 × Z5
Assim, existem seis grupos abelianos diferentes (a menos de isomorfismo) de ordem 360.
Teorema 2.2.2 Os grupos abelianos indecomponíveis finitos são exatamente os grupos cíclicos
com ordem uma potência de primo.
72 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS
Teorema 2.2.3 Se m divide a ordem de um grupo abeliano finito G, então G tem um subgrupo
de ordem m.
onde nem todos os primos pi são distintos. Como (p1 )r1 (p2 )r2 · · · (pn )rn é a ordem de G, então
m deve ter a forma (p1 )s1 (p2 )s2 · · · (pn )sn , onde 0 ≤ si ≤ ri . Assim, temos que (pi )ri −si gera um
subgrupo cíclico de Z(pi )ri , de ordem igual ao quociente de (pi )ri pelo mdc de (pi )ri e (pi )ri −si .
Mas, o mdc de (pi )ri e (pi )ri −si é (pi )ri −si .Assim, (pi )ri −si gera um subgrupo cíclico de Z(pi )ri
de ordem
Lembrando que hai denota o subgrupo cíclico gerado por a, obtemos que
Teorema 2.2.4 Se m é um inteiro quadrado livre, isto é, m não é divisível pelo quadrado de
nenhum primo, então todo grupo abeliano de ordem m é cíclico.
Demonstração. Seja G um grupo abeliano de ordem livre quadrada m. Então, pelo Teorema
(2.3.3), G é isomorfo a Zrp11 × Zrp22 × · · · × Zrpnn , onde m = (p1 )r1 (p2 )r2 · · · (pn )rn . Uma vez que não
há quadrados, devemos ter todos os ri = 1 e todos os pi primos distintos. O Corolário ([Link])
mostra então que G é isomorfo a Zp1 p2 ···pn , então G é cíclico.
2.3. GRUPO ABELIANO LIVRE 73
O conceito de grupo abeliano livre é modelado a partir de certos aspectos da álgebra linear em
Rn . Escreveremos grupos abelianos aditivamente de modo que nx corresponda à adição de x
n-vezes. Para qualquer conjunto finito {x1 , x2 · · · , xr } em um grupo abeliano (G, +) chamamos
qualquer expressão da forma c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr , com ci ∈ Z, uma combinação linear de
{x1 , x2 , · · · , xr }.
Definição 2.3.1 Um subconjunto X ⊆ G de um grupo abeliano é dito linearmente inde-
pendente se para todo subconjunto finito {x1 , x2 , · · · , xr } ⊆ X, as combinações lineares
satisfazem
c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr = 0 ⇒ c1 = c2 = · · · = cr = 0.
Uma base de um grupo abeliano G é um subconjunto linearmente independente X que gera
G
O grupo cíclico Z tem {1} como base. A soma direta Z ⊕ Z tem {(1, 0), (0, 1)} como base
já que todo elemento (m, n) pode ser escrito como m(1, 0) + n(0, 1). No entanto, {(3, 1), (1, 0)}
também é uma base porque (3, 1) − 3(1, 0) = (0, 1), então novamente h(3, 1), (1, 0)i = Z ⊕ Z e
o conjunto também é linearmente independente. Em contraste, Z/10Z não tem base pois para
todo x ∈ Z/10Z, temos 10x = 0 e 10 6= 0 em Z. Observe que uma base não pode conter a
identidade 0 desde então 1 · 0 = 0 é combinação linear não trivial do elemento de base que dá
0.
Definição 2.3.2 Um grupo abeliano (G, +) é chamado de grupo abeliano livre se tiver uma
base.
Proposição 2.3.1 Seja (G, +) um grupo abeliano livre com uma base X. Todo elemento
g ∈ G pode ser expresso de modo único como uma combinação linear de elementos em X.
Exemplo 2.3.1 O grupo (Q, +) não é um grupo abeliano livre. Assuma que (Q tem uma base
X. Assuma que X contém pelo menos dois elementos diferentes de zero a
b
e d. Então,
a c
(−bc) + ((da) = −ac + ac = 0.
b d
Isso contradiz a condição de independência linear. Agora assuma que X contém apenas
um elemento a
b
6= 0. Então, X não gera Q porque o elemento a
2b
6= hXi. Concluímos por
contradição que (Q não tem base.
Teorema 2.3.1 Seja G um grupo abeliano livre diferente de zero com uma base possuindo r
elementos. Então G é isomorfo a Z ⊕ Z ⊕ · · · ⊕ Z = Zr .
então φ é um homomorfismo. Como a base gera G, então φ é sobrejetivo. Além disso, como
Ker φ = {(c1 , c2 , · · · ., cr ) ∈ Zr | c1 x1 + c2 x2 + · · · + cr xr = 0}
= {(0, 0, ..., 0)},
o homomorfismo também é injetivo. Assim, φ é um isomorfismo.
Proposição 2.3.2 Seja G um grupo abeliano livre finitamente gerado. Então toda base de
G tem o mesmo número de elementos.
Demonstração. Suponha que G tenha uma base com n elementos. Então G é isomorfo a Zr .
O subgrupo 2G = {g + g | g ∈ G} é isomorfo a (2Z)r então, G/2G = (Z ⊕ Z ⊕ · · · ⊕ Z)/(2Z ⊕
2Z · · · ⊕ 2Z) ∼
= Zr . 2
2.3. GRUPO ABELIANO LIVRE 75
Assim, |G/2G| = 2r . Suponha que G também tenha uma base finita com s 6= r elementos.
Então |G/2G| = 2s 6= 2r uma contradição.
Devemos também provar que G também não pode ter uma base infinita. Assuma que G
tem uma base infinita X. Sejam x1 , x2 ∈ X. Assuma x1 = x2 em G/2G, então x1 − x2 ∈ 2G,
então x1 − x2 é uma combinação linear finita de elementos em X (com coeficientes pares ). Em
particular, X não é um conjunto linearmente independente, o que contradiz que X é uma base.
Assim, no grupo quociente G/2G, os elementos {x | x ∈ X} são todos distintos e, portanto,
G/2G é um grupo infinito. Isso contradiz o fato de que |G/2G| = 2r . Conseqüentemente, se G
tem uma base de r elementos, então todas as outras bases são finitas e têm r elementos.
O número de geradores de um grupo abeliano livre G, com base {x1 , x2 , . . . , xn } será cha-
mado de posto de G, e é denotado por rank(G) = n. E a Proposição (2.3.2) diz que este
número é bem definido e não depende da escolha da base. O posto de um grupo abeliano livre
desempenha o mesmo papel que a dimensão de um espaço vetorial.
Definição 2.3.3 Se G é um grupo abeliano livre finitamente gerado, então o número comum
r de elementos em uma base é chamado de posto, e ;e denotado por rank (G) = r. O posto
também é chamado de número de Betti de G e é denotado por β(G).
Lema 2.3.1 Seja X = {x1 , x2 , · · · , xr } uma base de um grupo abeliano livre G. Seja i um
índice com 1 ≤ i ≤ r, com i 6= j e seja t ∈ Z. Então
Notemos a semelhança entre a nova base descrita no Lema (2.3.1) e a operação de substi-
tuição de linhas usada no algoritmo de eliminação de Gauss-Jordan da álgebra linear.
76 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS
Teorema 2.3.2 Seja G um grupo abeliano livre diferente de zero de posto finito s e seja H ≤ G
um subgrupo não trivial. Então H é um grupo abeliano livre de posto t ≤ s. Existe uma
base {x1 , x2 , · · · , xs } para G e inteiros positivos n1 , n2 , · · · , nt , onde ni divide ni+1 para todo
1 ≤ i ≤ t − 1 tal que {n1 x1 , n2 x2 , · · · , nt xt } é uma base de H.
z2 = a1 x1 + n2 (y2 + q3 y3 + · · · + qs ys ) + r3 y3 + · · · + rs ys .
Mas então, como r < n1 , pela minimalidasde positiva de n1 , devemos ter r = 0. Portanto,
n1 | n2 . Se {n1 x2 , n2 x2 } gera H, então terminamos porque o conjunto é linearmente indepen-
dente, pois por construção {x1 , x2 , y3 , · · · , ys } é uma base de G então {x1 , x2 } é linearmente
2.3. GRUPO ABELIANO LIVRE 77
independente e {n1 x1 , n2 x2 } é então uma base de H. Continuando desta forma obtemos uma
base {x1 , · · · , xt , yt+1 , · · · , ys } de G tal que {n1 x1 , n2 x2 , · · · , nt xt } é uma base de H para alguns
inteiros positivos ni tais que ni | ni+1 para 1 ≤ i ≤ t.
Esta prova não é construtiva, pois não fornece um procedimento para encontrar o ni , que
é necessário para construir x1 , x2 e assim por diante. Nós apenas sabemos que o ni existe pela
boa ordenação dos números inteiros. Em alguns casos é fácil encontrar uma base do subgrupo
como no exemplo a seguir.
O Teorema (2.3.2) leva ao Teorema Fundamental para Grupos Abelianos Finitamente Ge-
rados.
Teorema 2.3.3 — Teorema Fundamental dos grupos abelianos finitamente gerados. Seja G um
grupo abeliano finitamente gerado. Então, G pode ser escrito unicamente como
G∼
= Zr ⊕ Zd1 ⊕ Zd2 ⊕ · · · ⊕ Zdk
φ(n1 , n2 , · · · , ns ) = n1 g1 + n2 g2 + · · · + ns gs .
Definição 2.3.4 Assim como nos grupos livres, o inteiro r é chamado de posto ou número de
Betti de G. Às vezes é denotado por β(G). Os inteiros d1 , d2 , · · · , dk são chamados de fatores
invariantes de G e a expressão (2.3.3) é chamada de decomposição em fatores invariantes de
G.
É interessante notar que a prova do Teorema (2.3.1) não é construtiva no sentido de que
não fornece um método para encontrar elementos específicos em G cujas ordens são os fatores
invariantes de G. Os fatores invariantes existem em virtude do princípio da boa ordenação dos
inteiros. O Teorema (2.3.3) se aplica a qualquer grupo abeliano finitamente gerado. No entanto,
aplicado a grupos finitos, que obviamente são gerados finitamente, nos dá uma maneira eficaz
de descrever todos os grupos abelianos de uma dada ordem n. Se G é finito, o posto de G é 0.
Então devemos encontrar todas as sequências finitas de inteiros d1 , d2 , · · · , dk tais que
• di ≥ 2, para 1 ≤ i ≤ k;
• di+1 | di , para 1 ≤ i ≤ k − 1;
• n = d1 d2 · · · dk .
As duas primeiras condições são explícitas no teorema acima. A última condição decorre
do fato de que di = |xi| onde {x1 , x2 , · · · , xk } é uma lista de geradores correspondentes de G.
Então cada elemento em G pode ser escrito exclusivamente como
g = α1 x1 + α2 x2 + · · · + αk xk
Z16 Z8 ⊕ Z2 Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 .
Z24 Z12 ⊕ Z2 Z6 ⊕ Z4 ⊕ Z2
2.4. DECOMPOSIÇÃAO EM FATORES ELEMENTARES 79
. tal que α1 ≥ α2 ≥ · · · αk ≥ 1 e α1 + α2 + · · · + αk = m.
Demonstração. (Isto segue como um corolário do Teorema (2.3.3), então deixamos a prova
como um exercício ).
De acordo com o Lema (2.4.1), se G é um grupo abeliano de ordem pm para algum primo
p, então existe p(m) possibilidades para G, cada uma correspondendo a uma partição de m.
Teorema 2.4.1 Seja G um grupo abeliano finito de ordem n > 1 e seja n = pβ1 p2 2 · · · pbeta a
rβ
r
fatoração de n. Então G pode ser escrito de uma maneira única como
G∼
= A1 ⊕ A2 ⊕ · · · ⊕ Ar ,
A condição di+1 |di implica que para cada j, os expoentes em pj j satisfazem αi+1,j ≤ αij .
A condição que n = d1 d2 · · · ds implica que para cada j, βj = α1j + α2j + · · · + αsj . Ob-
serve que mdc (paj , pbj0 ) = 1 para quaisquer inteiros não negativos a e b se j = 6 j 0 . Portanto,
Zdi ∼
= Zpα1 i1 ⊕ Zp2αi2 ⊕ · · · ⊕ Zpαr ir . O teorema decorre do fato de que G1 ⊕ G2 ∼
= G2 ⊕ G1 para
quaisquer dois grupos G1 e G2 .
Definição 2.4.2 Os inteiros pαi que surgem na expressão de G descrita no Teorema (2.4.1) são
chamados de os divisores elementares de G. A expressão do Teorema (2.4.1) é a decomposição
dos divisores elementares.
Usamos a terminologia “divisores elementares” porque todo grupo cíclico Zpα , onde p é um
número primo não é isomorfo a uma soma direta de quaisquer grupos cíclicos menores. Como
primeiro exemplo, observe que, como 16 é uma potência de primos, devido ao Lema (2.4.1), a
lista de grupos fornecida no Exemplo (2.3.3) fornece as decomposições de divisor elementar e
de fator invariante de todos os 5 grupos abelianos de ordem 16.
Z16 , Z8 ⊕ Z2 , Z4 ⊕ Z4 , Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 , ou Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 .
Z27 , Z9 ⊕ Z3 , ou Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 .
Z8 ⊕ Z2 ⊕ Z27 ∼
= Z1080 ⊕ Z2
Z8 ⊕ Z2 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z360 ⊕ Z6
Z8 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z120 ⊕ Z6 ⊕ Z3
Z4 ⊕ Z4 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z540 ⊕ Z4
Z4 ⊕ Z4 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z180 ⊕ Z12
Z4 ⊕ Z4 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z60 ⊕ Z12 ⊕ Z3
Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z540 ⊕ Z2 ⊕ Z2
Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z90 ⊕ Z6 Z2 ⊕ Z2
Z4 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z60 ⊕ Z6 ⊕ Z6
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z27 ⊕ Z5 ∼
= Z270 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z9 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z90 ⊕ Z6 Z2 ⊕ Z2
Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z2 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z3 ⊕ Z5 ∼
= Z30 ⊕ Z6 ⊕ Z6 ⊕ Z2
Ao listar cada tipo de isomorfismo possível para um grupo de determinada ordem, cada
grupo listado de acordo com a decomposição dos fatores invariantes corresponde a um único
grupo na lista de acordo com os divisores elementares. A prova do Teorema (2.4.1) descreve
como ir da decomposição dos fatores invariantes para a decomposição dos divisores elementares
correspondentes. Para ir na direção oposta, colete as potências primos mais altas correspon-
dentes a cada primo para obter Zd1 ; colete as segundas potências primos mais altas corres-
pondentes a cada primo para obter Zd2 ; e assim por diante. Frequentemente nos referimos aos
Teoremas (2.3.3) e (2.4.1) juntos como o Teorema Fundamental dos Grupos Abelianos Finita-
mente Gerados. Os dois teoremas simplesmente fornecem maneiras alternativas de descrever
exclusivamente a parte de torção do grupo. O poder do Teorema Fundamental dos Grupos
Abelianos Finitamente Gerados (TFGAFG), e dos teoremas de classificação em geral, é que
em muitas aplicações da teoria dos grupos, encontramos grupos abelianos para os quais na-
turalmente conhecemos a ordem. Então o TFGAFG nos dá uma lista de possíveis tipos de
isomorfismo.
Exercícios
1. Liste os elementos de Z2 × Z4 . Encontre a ordem de cada um dos elementos. Este grupo
é cíclico? 2. Repita o Exercício 1 para o grupo Z3 × Z4 .
8. Seja G um grupo e H um subgrupo de G. Prove que G/H é abeliano se, e somente se,
H 0 ⊆ G0 .
9. Liste todos os fatores invariantes possíveis para os seguintes inteiros: (a) 45; (b) 480; (e)
900.
10. Liste todos os possíveis divisores elementares para os seguintes inteiros: (a) 45; (b) 480;
(e) 900.
11. Liste todos os grupos abelianos não isomorfos de ordem 945 tanto na forma de fato-
res invariantes quanto na forma de divisores elementares. Mostre quais decomposições
correspondem a quais nas diferentes formas.
12. Liste todos os grupos abelianos não isomorfos de ordem 864 na forma de fatores invariantes
e na forma de divisores elementares. Mostre quais decomposições correspondem a quais
nas diferentes formas.
13. Qual é o menor valor de n tal que existem 5 grupos abelianos de ordem n? Liste os grupos
específicos.
14. Qual é o menor valor de n tal que existem 4 grupos abelianos de ordem n? Liste os grupos
específicos.
15. Qual é o menor valor de n tal que existam pelo menos 13 grupos abelianos de ordem n?
Liste os grupos específicos.
16. Suponha que um grupo abeliano tenha ordem 100 e tenha pelo menos 2 elementos de
ordem 2. Quais são os possíveis grupos que satisfazem essas condições?
2.4. DECOMPOSIÇÃAO EM FATORES ELEMENTARES 83
18. Suponha que G seja um grupo abeliano de ordem 176 tal que o subgrupo H = {g 2 |g ∈ G}
tem ordem 22. Quais são os possíveis grupos G com esta propriedade?
19. Seja p um número primo. Para todos os grupos abelianos de ordem p3 , liste quantos
elementos existem de cada ordem.
20. Sejam p e q números primos distintos. Para todos os grupos abelianos de ordem p2 q 2 ,
liste quantos elementos existem de cada ordem.
21. Encontre todos os inteiros n tais que exista um único grupo abeliano de ordem n.
25. Prove o Teorema de Cauchy para grupos abelianos. Em outras palavras, seja G um grupo
abeliano e prove que se p é um número primo que divide |G| então G contém um elemento
de ordem p.
27. Seja G um grupo abeliano. Prove que Aut(G) é abeliano se, e somente se, G é cíclico.
28. . Prove que o conjunto de funções de N a Z, denotado por F un(N, Z), equipado com
adição de funções + não é um grupo abeliano livre.
29. Considere o subgrupo H = {(x1 , x2 , x3 ) ∈ Z3 | 6 divide 2x1 + 3x2 + 4x3 } do grupo abeliano
livre Z3 . Encontre uma base de H.
84 CAPÍTULO 2. GRUPOS ABELIANOS
3
Anéis
Vimos que a teoria dos grupos estuda propriedades gerais de estruturas determinadas por ape-
nas uma operação binária. O estudo dos anéis refere-se a estruturas que possuem duas operações
binárias, relacionadas através das leis de distributividade. Introduziremos neste capítulo o con-
ceito de anel, a teoria dos anéis fornece uma grande classe de estruturas algébricas interessantes.
Intuitivamente falando, um anel é uma estrutura algébrica com duas operações: uma adição e
uma multiplicação e que se comportam como de maneira bastante simples. Faremos um estudo
análogo ao que foi desenvolvido na teoria da estrutura do grupo.
85
86 CAPÍTULO 3. ANÉIS
a · 1 = 1 · a = a, ∀a ∈ A
dizemos que A é um anel com unidade. Se |A| < ∞, dizemos que A é um anel finito. Segue
da lei de distributividade que para cada a ∈ A, a aplicação que envia x ∈ A para ax ∈ A é um
homomorfismo de grupos (A, +) com a adição.
Como na teoria de grupos, frequentemente nos referiremos ao anel por A, se não houver
confusão sobre quais seriam as operações. Em um anel abstrato, denotamos a identidade aditiva
por 0 e nos referimos a ela como o “zero”do anel. O inverso aditivo de a é denotado por −a.
Assim como na álgebra típica sobre os reais, muitas vezes escreveremos a multiplicação como
ab em vez de a · b. Além disso, se n ∈ N e a ∈ A, então n · a representa a adicionado a si mesmo
n vezes,
n·a=a {z· · · + a}
|+a+
n−vezes
Estendemos esta notação para todos os inteiros definindo 0 · · · a = 0 e, se n > 0, então (−n)·a =
−(n · a).
1. 0a = a0 = 0, para todo a ∈ A;
Como um anel possui sempre uma identidade aditiva, quando se diz simplesmente “um anel
com unidade”, refere-se à identidade multiplicativa, cuja existência não é exigida pelos axiomas.
Exemplo 3.1.2 Z, Q, R e C são anéis comutativos com unidade, com a adição e multiplicação
usual). Os axiomas de definição de anel para estes 3 últimos exemplos segue dos axiomas para
para o anel Z. Mostraremos como contruir Q e R apartir de Z. Seja M(R) o conjunto das
matrizes n × n, munido das operações de adição e multiplicação usuais, M(R) é um anel não-
comutativo com unidade. O grupo quociente Z/nZ é um anel finito comutativo com identidade,
sobre as operações de adição e multiplicação das classes de resíduos módulo n, denominada
aritmética modular.
É fácil verificar que uma condição suficiente para um subconjunto B não vazio de um
anel A ser um subanel se B é fechado sobre a subtração e a multiplicação como vemos na
seguinte
H = {a + bi + cj + dk|a, b, c, d ∈ R},
onde os elementos adicionados como vetores {1, i, j, k} formando uma base. Ele definiu a multi-
plicação sobre H, onde elementos arbitrários devem satisfazer a distributividade e os elementos
i, j, k satisfazem i2 = j 2 = k 2 = −1, ij = k, jk = i, ki = j, ij = −ji, ik = −ki e jk = −kj.
Lembremos que os elementos ±1, ±i, ±j, ±k é o grupo dos quaternios Q8 .
O terno (H, +, ·) é um anel pode ser verificado diretamente ( a cargo do leitor). O anel dos
quartérnios H não é comutativo pois ij = k e ji = −k e com identidade 1.
Exemplo 3.1.8 (Anel de funções). Seja I um intervalo de números reais e seja F(I, R) o
conjunto de todas as funções de I em R. Equipado com a adição e multiplicação usuais de
funções, F(I, R) é um anel comutativo. As propriedades de um anel são herdadas de R. Em
contraste, F(I, R) não é um anel quando equipado com adição e composição porque o axioma
da distributividade falha. Por exemplo, considere as três funções f (x) = x + 1, g(x) = x2 e
h(x) = x3 . Então
(f ◦ (g + h))(x) = f (x2 + x3 ) + 1 = x3 + x2 + 1
(f ◦ g)(x) + (f ◦ h)(x) = x2 + 1 + x3 + 1 = x3 + x2 + 2.
Definição 3.1.5 Sejam (A1 , +1 , ·1 ) e (A2 , +2 , ·2 ) dois anéis. A soma direta dos dois anéis é o
triplo (A1 · A2 , +, ·), onde + e · são definidos como
Exemplo 3.1.9 — Anel das Matrizes Mn (A). Sejam A um anel e n um número inteiro positivo.
Seja Mn (A) o conjunto de todas as matrizes n × n com coeficientes em A. O conjunto Mn (A)
da matrizes é um anel sobre a adição e a multiplicação definidas de modo natural:
com estas operações Mn (A) é um anel. Observe que mesmo que A seja um anel comutativo,
Mn (A) não é um anel comutativo para n ≥ 2.
A aritmética modular apresenta exemplos de aritmética com algumas propriedades que não
aparecem na aritmética em Z ou em Q. Em particular, considere os exemplos de Z/5Z e
Z/6Z. Existem diferenças qualitativas entre algumas das propriedades aritméticas em Z/5Z e
em Z/6Z. Essas diferenças e outras são comuns na teoria dos anéis. Apresentamos algumas
terminologias principais.
Definição 3.1.6 Seja A um anel.
Observe que a identidade 1 é ela mesma uma unidade, mas o elemento 0 não é um divisor
zero. Essa falta de simetria nas definições pode parecer pouco atraente, mas essa distinção
acaba sendo útil em todos os teoremas que discutem unidades e divisores zero. A definição
acima pode ser considerada para divisor de zero a direita e a esquerda. O anel Z não possui
divisores de zero, e os anéis Zn não possuem divisores de zero se, e somente se,
p é primo.
Seja
1 −2 6 2
A = M2×2 (Z) o anel das matrizes 2×2 com entradas em Z, se x = ey=
−2 4 3 1
0 0
em A, então xy = , então x é divisor de zero à esquerda e y é divisor de zero à direita.
0 0
A notação U (A) é uma notação herdada de U (n) como o conjunto de unidades em Z/6Z.
No anel (Z/nZ, +, ·), cada elemento diferente de zero é uma unidade ou um divisor zero.
Sabemos que as unidades em Z/nZ são elementos a tais que mdc(a, n) = 1. Agora, se mdc
(a, n) = d 6= 1, então existem inteiros k, l ∈ Z tal que ak = nl. Então, em Z/nZ ak = 0.
Em um anel arbitrário, em geral não é verdade que todo elemento diferente de zero seja uma
unidade ou um divisor zero. Não precisamos ir além dos inteiros para ver isso. As unidades
nos inteiros são U (Z) = {−1, 1}, e todos os elementos maiores que 1 em valor absoluto não
são unidades nem divisores zero. Por outro lado, como mostra a seguinte proposição, nenhum
elemento pode ser ambos.
Demonstração. Suponha que a seja uma unidade e um divisor zero do anel A. Então existe
b ∈ A \ {0} tal que ba = 0 ou ab = 0. Suponha sem perda de generalidade que ba = 0. Também
3.1. PROPRIEDADES PRINCIPAIS E EXEMPLOS 91
b = b(ac) = (ba)c = 0c = 0.
Proposição 3.1.4 Seja A um anel com unidade 1 6= 0. Então, o conjunto U (A) é um grupo.
Chamado grupo das unidades de A.
a(x1 +(−x2 2)) = ax1 +a(−x2 ) = ax1 +(−(ax2 )) = x1 a+(−(x2 a)) = x1 a+(−(x2 )a) = (x1 +(−x2 ))a.
Portanto, x1 + (−x2 ) ∈ Z(A) e, portanto, (Z(A), +) é um subgrupo de (A, +). Além disso,
a(x1 x2 ) = (ax1 )x2 = (x1 a)x2 = x1 (ax2 ) = x1 (ax2 a) = (x1 x2 )a, então x1 x2 ∈ Z(A). Isso prova
que Z(A) é um subanel.
Exemplo 3.2.1 O anel Z Z não é um domínio integral porque, em particular, (1, 0)·(0, 1) =
L
ab = ac ⇒ b = c.
ab = ac ⇒ ab − ac = 0 ⇒ a(b − c) = 0.
Uma consequência dessa proposição é que a não precisa ser uma unidade. Na verdade, a lei
do cancelamento se aplica a qualquer anel sempre que a não for um divisor zero.
Definição 3.2.2 Um anel A com identidade 1 6= 0 é chamado de anel de divisão se cada
elemento diferente de zero em A for uma unidade.
Exemplo 3.2.2 O anel dos quatérnios H é um anel de divisão. Um cálculo simples fornece o
produto
Um corpo é um conjunto F que possui uma adição + e uma multiplicação ·, em que (F, +)
é um grupo abeliano, (F \ {0}, ·) é um grupo abeliano, e no qual · é distributivo sobre + .
Essa estrutura já é conhecida por todos os alunos de longa data, por exemplo Q, R e C. No
entanto, no contexto da aritmética modular, encontramos corpos finitos., à saber, quando p é
primo Z/pZ é um corpo que contém p elementos e geralmente denotamo este corpo por Fp .
Apresentamos duas famílias importantes de anéis que constroem novos anéis a partir de
anéis conhecidos.
Seja A um anel comutativo. Seja B um subanel de A e seja S um subconjunto de A. A
notação B[S] denota o menor (por inclusão) subanel de A que contém B e S. Obviamente, se
S ⊆ B, o anel B[S] = B então a notação é desinteressante. No entanto, se os elementos de S
não estiverem em B, então B é um subanel próprio de B[S].
k
{ | k, n ∈ Z}
2n
Não é incomum que o anel A seja obtido pelos elementos do conjunto S. Os dois exemplos
a seguir ilustram esse hábito de notação.
Exemplo 3.2.5 [Inteiros Gaussianos] Considere o anel Z[i]. É entendido que este número
imaginário i satisfazendo que i2 = −1. Esta notação assume que o anel A é C. O anel Z[i]
94 CAPÍTULO 3. ANÉIS
conten todos os inteiros e, como ele é fechado sob a multiplicação, ele contém todos os multiplos
inteiros de i. Como Z[i] é fechado sob a adição, ele deve conter o subconjunto
{a + bi | a, b ∈ Z}.
Entretanto, este subconjunto é fechado sobre a subtração e sob a multiplicação com vemos
abaixo
(a + bi)(c + di) = (ac − bd) + (ad − bc)i.
O anel Z[i] é chamado de anel dos inteiros gaussianos e é importante na teoria dos números
elementares. Em C, o inverso multiplicativo de um elemento é
a − bi
(a + bi)−1 = .
a2 + b 2
O grupo das unidades U (Z[i]) consiste de elementos a + bi ∈ Z[i] tal que
a b
, 2 ∈ Z.
a2 + b a + b2
2
Se |a| ≥ 2, então a2 > |a|, no qual a2 + b2 > |a| e portanto a2 + b2 pode não dividir a. De
modo análogo pra b. Consequentemente, se a + bi ∈ U (Z[i]), então |a| ≤ 1 e |b| ≤ 1, então
a2 + b2 = 2, enquanto a = ±1 e então a
a2 +b2
/ Z. Assim, vemos que as únicas unidades de Z[i]
∈
satisfaz |a| = 1 e b = 0 ou a = 0 e |b| = 1. Portanto,
→ →
a i + b u,
→ → √
onde i = (1, 0) e u = 2(cos( π4 ), sen( π4 )) O número real a + b 2 é obtido projetando o vetor
sobre a reta real, como podemos ver na figura abaixo.
Exercícios
1. Seja A = Z × Z e defina (a, b) + (c, d) = (a + c, b + d) e defina também (a, b) × (c, d) =
(ad − bc, bd). Verifique se (A, +, ×) é um anel.
(a) m · (r + s) = (m · r) + (m · s)
96 CAPÍTULO 3. ANÉIS
(b) (m + n) · r = (m · r) + (n · r)
(b) (mn) · r = m · (n · r)
5. Seja I um intervalo de números reais. Prove que os divisores de zero em F un(I, R) são
funções diferentes de zero f (x) tais que existe x0 ∈ I tal que f (x0 ) = 0. Prove que todos
os elementos em F un(I, R) são ou 0, um divisor zero ou uma unidade.
6. Prove (cuidadosamente) que os elementos diferentes de zero em (C0 ([a, b], R), +, ×) que
não são divisores de zero nem unidades são funções para as quais existe um x0 ∈ [a, b] e
um > 0 tal que f (x0 ) = 0 e para o qual f (x) 6= 0 para todo x tal que 0 < |x − x0 | < .
(a) α + β;
9. Fixe um inteiro n ≥ 2. Seja A(n) o conjunto de símbolos ā + ib̄ onde a, b ∈ Z/nZ. Defina
as operações + adioção e × multiplicação em A como em C.
11. Sejam A1 e A2 anéis com elementos identidade diferentes de zero. Prove que U (A1 ) ⊕
A2 ) ∼
= U (A1 ) ⊕ U (A2 ). Prove o resultado equivalente para um número finito de anéis
A1 , A2 , · · · , An .
3.3. HOMOMORFISMO E ANÉIS QUOCIENTES 97
15. Sejam A1 e A2 anéis. Prove que A1 ⊕ A2 é um domínio integridade se, e somente se, A1
é um domínio integridade e A2 = {0} ou vice-versa.
Exemplo 3.3.1 Sejam A e B anéis. Então aplicação nula θ : A → B que envia cada x ∈ A
para 0 é um homomorfismo.
98 CAPÍTULO 3. ANÉIS
Exemplo 3.3.2 Seja C o corpo dos números complexos. Então aplicação φ : C → C dada por
φ(a + ib) = a − ib é um automorfismo de C.
3.3.1 Ideais
Os ideais são uma classe importante de subanéis em um anel. Primeiro, veremos sua impor-
tância em referência à construção de anéis quocientes, onde os ideais desempenham o papel na
teoria dos anéis que os subgrupos normais desempenham na teoria dos grupos. No entanto, os
ideais possuem muitas propriedades importantes independentemente de seu papel na criação
de anéis quocientes. O conceito de ideal surgiu pela primeira vez na teoria dos números no
contexto do estudo de propriedades de extensões inteiras, ou seja, certos subanéis de C que
√
contêm Z. Os inteiros gaussianos e anéis como ZZ[ 3 23 são alguns exemplos. Em extensões
inteiras, os números nem sempre têm certas propriedades de divisibilidade desejadas, mas os
ideais têm. (Este é um resultado do Teorema de Dedekind da teoria algébrica dos números,
que não tratamos aqui, mas facilmente acessível com o conteúdo que desenvolvemos nesteas
notas.) Isso motivou o termo “ideal”. Também se verifica que os ideais desempenham um papel
fundamental na geometria algébrica, um ramo da matemática em que as ferramentas da álgebra
abstrata são aplicadas ao estudo da geometria.
Definição 3.3.2 Seja A um anel. Um subanel I de A chama-se ideal à esquerda de A se é
fechado pela multiplicação à esquerda por elementos de A, isto é, para todo a ∈ A, i ∈ I,
temos que ai ∈ I. De modo análogo define-se ideal à direita. Um subanel que é ideal à
esquerda e à direita é chamado um ideal (ou, um ideal bilateral) de A. Denotaremos o ideal
I de A, escrevendo I C A.
Exemplo 3.3.6 — Ideais em Z. . Afirmamos que todos os ideais em Z são da forma nZ, onde
n é um inteiro não negativo. O subconjunto {0} = 0Z é um ideal. Por outro lado, seja I um
ideal em Z e seja n o menor inteiro positivo em I, que existe em virtude do do Princípio da
Boa Ordenação de Z. Agora, seja m qualquer inteiro em I. Pelo Algoritmo da divisão aplicado
a m e n temos que m = nq + r, para algum inteiro q e algum resto 0 ≥ r < n. No entanto,
como I é fechado sob multiplicação por qualquer elemento no anel, então nq ∈ I e como I é
fechado sob subtração, r = m − nq ∈ I. Como n é o menor elemento positivo em I e como r é
não negativo com r < n, então r = 0. Concluímos que m = qn e, portanto, todo elemento em
I é um múltiplo de n. Consequentemente, I = nZ.
Exemplo Seja A = M2×2 (Z) o anel da matrizes 2×2 com entradas no anel Z. Considere
3.3.8
x 0
I ={ | x, y ∈ Z}, temos que I é um ideal à esquerda de A, mas não é um ideal à
y 0
direita de A.
Existe uma maneira conveniente de descrever ideais em um anel usando subconjuntos gera-
dores.
Definição 3.3.3 Seja S um subconjunto de um anel A.
(1) Denotamos por (S), o menor ideal (por inclusão) em A que contém o conjunto S. Dizemos
que o ideal (S) é gerado por S.
(2) Um ideal que pode ser gerado por um único conjunto de elementos é chamado de ideal
principal. (3) Um ideal gerado por um conjunto finito S é chamado de ideal finitamente
gerado.
Observe que, quando nos referimos ao subconjunto (S) de A, ele é, por definição, um ideal
e, portanto, não há necessidade de provar isso. A notação acima, no entanto, não é explícita,
pois não oferece diretamente um meio de determinar todos os elementos em (S). Existe uma
100 CAPÍTULO 3. ANÉIS
Demonstração. Para a parte (1), sejam a1 s1 + a2 s2 + · · · + am rm e a01 s01 + a02 s02 + · · · + a0m s0m
dois elementos de AS. Então, sua diferença
é outra combinação linear finita de elementos em AS. Além disso, dado qualquer a ∈ A,
Finalmente, para a parte (3), suponha que A seja comutativo com uma identidade 1 6= 0.
Pela parte (2), já temos ASA = (S). A comutatividade resulta em SA = AS. Também por
comutatividade segue,
a1 s 1 b 1 + a2 s 2 b 2 + · · · + am s m b m = a1 b 1 s 1 + a2 b 2 s 2 + · · · + am b m s m ,
Logo, ASA ⊆ AS. Entretanto, como A tem uma identidade, definindo bi = 1 para
i = 1, 2, · · · , m, obtemos todos os elementos em AS como elementos em ASA. Portanto,
AS ⊆ ASA e, portanto, temos AS = SA = ASA.
Exemplo 3.3.10 Considere o ideal I = (5, x2 − x − 2) em Z[x]. Este ideal consiste de todas
as combinações lineares polinomiais
com p(x), q(x) ∈ Z[x]. Como no Exemplo 3.3.9, mesmo que o ideal é expresso usando dois
geradores não significa que dois geradores sejam realemente necessários. Suponha que I =
(a(x)), para algum polinômio a(x). Então, como 5 ∈ I, temos a(x)r(x) = 5 para algum r(x) ∈
Z[x]. Portanto, por considerações sobre o grau, temos que gr a(x) = 0 e, portanto, a(x) deve ser
1 ou 5. Agora, x2 −x−2 tem coeficientes que não são múltiplos de 5, então, como x2 −x−2 ∈ I,
não podemos ter I = (5). Portanto, se I é um ideal principal, então I = (1) = Z[x]. No entanto,
notamos que todo polinômio r(x) na forma de 3.1 tem a propriedade de que r(2) é um múltiplo
de 5. Este não é o caso para todos os polinômios em Z[x] Portanto, I = Z[x]. A suposição de
que I é principal leva a uma contradição, então I requer dois geradores.
Os exemplos a seguir ilustram como as condições da Proposição 3.3.1 são necessárias para
que o resultado seja válido.
Exemplo 3.3.11 Seja A o anel 2Z e considere o subconjunto S = {4}. O ideal (4) = 4Z,
enquanto AS = SA = 8Z e SAS = 16Z.
102 CAPÍTULO 3. ANÉIS
0 1
Exercício 3.3.3 Seja A = M2×2 (Z) e seja S = .
0 0
(a) Determine todas as matrizes AS e todas as matrizes em SA;
(b)Obtenha matrizes
a 0 0 b 0 0 0 0
, , , ,
0 0 0 0 c 0 0 d
, como elementos em ASA.
(c) Deduza que ASA = (a) = M2×2 (Z).
IJ = {a1 b1 + a2 b2 + · · · + an bn | ai ∈ I, bi ∈ J}.
IJ ⊆ I ∩ J ⊆ I, J ⊆ I + J
Como os ideais generalizam a noção de mínimo múltiplo comum e máximo divisor comum,
devemos ter um conceito equivalente para relativamente primo. Lembre-se de que a, b ∈ Z são
chamados relativamente primos se mdc(a, b) = 1. Na teoria dos anéis, a noção que generaliza
é semelhante.
Definição 3.4.3 Seja A um anel com identidade 1 6= 0. Dois ideais I e J de A são chamados
comaximais se I + J = A.
Observe que esta definição só se aplica quando um anel tem uma identidade. Por exemplo,
os ideais (2) e (3) são comaximais em Z. Consideremos agora outro exemplo, tomemos os ideais
(x2 ) e (x + 1). Temos que (x2 ) + (x + 1) = (x2 , x + 1). Mas (1 − x)(x + 1) + 1 · x2 = 1 está no
ideal (x2 , x + 1) e, portanto, (x2 , x + 1) = Z[x]. Assim, (x2 ) e (x + 1) são ideais comaximais.
É fácil obter conjuntos geradores de I + J e IJ a partir de conjuntos geradores de I e
J. Suponha que I e J sejam gerados por certos conjuntos finitos de elementos, digamos I =
(a1 , a2 , · · · , am ) e J = (b1 , b2 , · · · , bn ). Então I + J = (a1 , a2 , · · · , am , b1 , b2 , · · · , bn ) e o conjunto
IJ é gerado pelo conjunto {ai bj | i = 1, 2, · · · , m, j = 1, 2, · · · , n} (Verifique!).
Seja A um anel e I um ideal de A. Como A é um grupo abeliano com a adição e I é um
subgrupo de A com respeito à esta operação, então podemos definir o grupo quociente A/I.
Observe que os elementos de A/I são as classes laterais a + I, onde a ∈ A. E a adição sobre o
grupo quociente A/I é dada por
(a + I) + (b + I) = (a + b) + I.
Para tornar A/I um anel precisamos definir uma multiplicação sobre A/I de modo natural.
Como este intuito definamos
(a + I)(b + I) = ab + I.
Mas não é claro se isto define uma operação binária sobre A/I. Para mostrar isso considere
outros representantes para as classes laterais, isto é, a + I = a1 + I e b + I = b1 + I, onde
104 CAPÍTULO 3. ANÉIS
ab + I = (a1 + i)(b1 + j) + I = a1 b1 + I,
e então a operação de multiplicação sobre A/I está bem definida. Resta agora provar que vale
as leis de distributividade sobre A/I. E assim R/I torná-se um anel. Se A é um anel com 1,
então 1 + I é a identidade de A/I. Se tivermos que A é uma anel comutativo, então A/I é um
anel comutativo. A aplicação natural π : A → A/I, definida por π(x) = x+I é um epimorfismo
e o Ker π é o ideal I. Como vimos anteriormente, o núcleo de um homomorfismo é um ideal,
mas agora podemos dizer que de fato dado um ideal qualquer I de uma anel A, então I é um
núcleo de um homomorfismo de A em um outro anel, a saber I = ker π.
Definição 3.4.4 O anel A/I definido acima é chamado Anel quociente de A com respeito ao
ideal I, (ou simplesmente A mod I). O homomorfismo π : A → A/I que envia a ∈ A para
a + I é chamado de homomorfismo natural.
Descrevemos agora todos os ideais de um anel quociente A/I em termos dos ideais de A
que contém I.
Teorema 3.4.1 Seja I um ideal de um anel A. (1) Se J é um ideal de A com I ⊆ J, então
I/J = {b + I I b ∈ J} é um ideal de A/I.
(2) Se J éum ideal qualquer de A/I, então J = J/I para algum (único) ideal J de A com
I ⊆ J. Mais precisamente, J = {b ∈ A I b + I ∈ J}.
(3) Se J e J1 são ideais de A que contêm I, então
Demonstração. .(1) Esta é uma verificação de rotina que deixamos para o leitor.
(2) Dado um ideal J ⊆ A/I, seja J = {b ∈ A | b + I ∈ J}. Então, J é um ideal de A (verifique!),
e temos J ⊆ I, pois a + I = 0 + I ∈ J, para totos a ∈ I. Portanto, resta mostrar que J = J/I.
Temos J ⊆ J/I, pois x + I ∈ J, implica que x ∈ J, portanto x + I ∈ J/I. Reciprocamente, se
x + I ∈ J/I, então x + I = b + I, para algum b ∈ I. Mas, b + I ∈ J, pois b ∈ J, isto é x + I ∈ J,
e mostramos que J/I ⊆ J. Portanto, J/I = J.
(3) Se J ⊆ J1 , é claro que J/I ⊆ J1 /I. Para a inclusão oposta, suponha que J/I ⊆ J1 /I,
e seja b ∈ J. Então b + I ∈ J1 /I, digamos b + I = b1 + I, para algum b1 ∈ J1 . Portanto,
b ∈ b1 + I ⊆ J1 , pois I ⊆ J1 , então J ⊆ J1 como queríamos.
3.4. DOMÍNIO DE IDEAIS PRINCIPAIS 105
Proposição 3.4.2 [Primeiro Teorema do Isomorfismo para Anéis] Sejam A e B anéis e seja
f : A → B um homomorfismo. Então A/Ker f ∼
= Im f .
Exemplo 3.4.2 Para qualquer anel A, o subconjunto {0} é um ideal de A e A/{0} é isomorfo
a A. Para ver isso usamos o Primeiro Teorema do Isomorfismo, considere o homomorfismo de
identidade i : A → A. É obviamente sobrejetivo e o núcleo é Keri = {0}. Portanto, {0} é um
ideal com A/{0} ∼= A.
Exemplo 3.4.3 . Seja A um anel comutativo e seja G um grupo finito com G = {g1 , g2 , · · · , gn }.
Seja
n
nX o
ai gi ∈ A[G] | a1 + a2 + · · · + an = 0
i=1
Este conjunto é um ideal em virtude de ser o núcleo da aplicação θ : A[G] → A que associa
a cada elemento ni=1 ai gi ∈ A[G] oelemento a1 + a2 + · · · + an . Esta aplicação é sobrejetiva,
P
onde ā é o classe lateral de a em A/I. Como a inclusão de classes laterias em A/I se comporta
bem em relação a + e ×, é fácil mostrar que φ é de fato um homomorfismo conforme afirmado.
O núcleo de φ é Kerφ = I[x]. O Primeiro Teorema do Isomorfismo leva ao seguinte resultado.
Proposição 3.4.3 Seja A um anel e seja I um ideal. Então o subanel I[x] de A[x] é um ideal
e
A[x]/I[x] ∼
= (A/I)[x].
Listados abaixo estão os segundo, terceiro e quarto teoremas de isomorfismo para anéis. As
provas foram omitidas e deixadas para verificação do leitor.
Teorema 3.4.2 (Segundo Teorema do Isomorfismo) Sejam A um anel qualquer, I um subanel
106 CAPÍTULO 3. ANÉIS
(I + J)/J ∼
= I/I ∩ J.
(A/I)/(J/I) ∼
= R/J.
Exemplo 3.4.4 Uma aplicação simples do Terceiro Teorema do Isomorfismo para anéis surge
na aritmética modular. Seja A = Z e I = (12) = 12Z. Agora, J = (4) = 4Z é também um
ideal de Z. O terceiro teorema do isomorfismo fornece:
(Z/12Z)/(4Z/12Z) ∼
= Z/4Z
Demonstração. Para cada i, defina n0i = n/ni . Agora ni e n0i são relativamente primos, então
existem inteiros si e ti tais que si ni + ti n0i = 1. Então para todo i, temos ti n0i ≡ 1 (mod ni ),
então ai ti n0i ≡ ai (mod ni ). Considere o inteiro dado por x = a1 t1 n01 + a2 t2 n02 + · · · + ak tk n0k .
Então, como j ≡ 0(mod ni ) se i 6= j, temos que x ≡ ai (mod ni ) para todo i. Assim, x
satisfaz todas as relações de congruência no sistema.
Se outro inteiro y satisfizer todas as condições de congruência, então x − y é congruente a
3.4. DOMÍNIO DE IDEAIS PRINCIPAIS 107
Exemplo 3.4.5 Encontre um x tal que x ≡ 3 (mod 8), x ≡ 2 (mod 5) e x ≡ 7 (mod 13).
O teorema confirma que existe uma solução única para x módulo 520. A prova fornece um
método para encontrar essa solução. Temos que n1 = 8, n2 = 5n3 = 13; e n01 = 65, n02 = 104,
n03 = 40.
Precisamos agora calcular ti como o inverso de n0i módulo ni . Assim, ni são pequenos o
suficiente para obtermos por tentativa. Logo, encontramos t1 = 1, t2 = 4, t3 = 1. Assim,
de acordo com a prova acima, a solução para o sistema de equações de congruência é x =
a1 t1 n01 + a2 t2 n02 + a3 t3 n03 = 3 × 1 × 65 + 2 × 4 × 104 + 7 × 1 × 40 = 1307. Portanto, a solução
do sistema é x ≡ 267(mod 520).
Para generalizar o teorema acima para anéis, uma congruência é equivalente a igualdade em
um anel quociente e a noção de relativamente primo corresponde a comaximalidade de ideais.
Teorema 3.4.6 Seja A um anel comutativo com 1 6= 0 e sejam I1 , I2 , · · · Ik ideais de A. A
aplicação
A → A/I1 ⊕ A/I2 ⊕ · · · ⊕ A/Ik
a 7→ (a + I1 , a + I2 , · · · , a + Ik )
é uma homomorfismo de anéis com núcleo I1 ∩ I2 ∩ · · · Ik . Se os ideais são dois a dois
comaximais, então a aplicação é sobrejetora, I1 I2 · · · Ik = I1 ∩ I2 ∩ · · · ∩ Ik , e
A/(I1 I2 · · · Ik ) ∼
= (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) ⊕ · · · ⊕ (A/Ik )
φ(a) = (a + I1 , a + I2 ).
A/(Ker φ) = A/(I1 I2 ) ∼
= (A/I1 1) ⊕ (A/I2 ).
108 CAPÍTULO 3. ANÉIS
A/(I1 I2 · · · Ik+1 ) ∼
= (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) ⊕ · · · ⊕ (A/Ik ) ⊕ A/Ik+1
A/(I1 I2 · · · Ik+1 ) ∼
= (A/I1 ) ⊕ (A/I2 ) ⊕ · · · ⊕ (A/Ik ) ⊕ (A/Ik+1 )
Z/nZ ∼ α
= Z/pα1 1 Z ⊕ Z/pα2 2 Z ⊕ · · · ⊕ Z/pk k Z
U Z/nZ ∼ α
= U Z/pα1 1 Z ⊕ U Z/pα2 2 Z ⊕ · · · ⊕ U Z/pk k Z .
Exercícios
1. Prove que se a é nilpotente, então é um divisor de zero.
4. Prove que o anel quociente Z[x]/ (5x − 1) é isomorfo ao subanel Z[5] = { 5nk | n ∈ Z, k ∈
N} de Q.
10. Seja A um domínio inteiro e seja a(x) ∈ R[x] com gr(a(x)) = n > 0 e an ∈ U (R).
(a) Prove que, no anel quociente A[x]/(a(x)), o elemento x satisfaz xn = −a−1
n (an−1 x
n−1
+
· · · + a1 x + a0 ).
(b) Prove que para todo polinômio p(x), existe um polinômio q(x) que é 0 ou tem
gr(q(x)) < n tal que p(x) = q(x) em A[x]/(a(x)). [Dica: Use indução sobre grau de
p(x).] (c) Prove que o polinômio q(x) descrito acima é único.
11. Seja A um anel e seja I um ideal de A. Prove que Mn (I) é um ideal de Mn (A) e mostre
que Mn (A)/Mn (I) ∼
= Mn (A/I). [Dica: PrimeiroTeorema do Isomorfismo.]
12. Seja Un (A) o conjunto das matrizes triangulares superiores n × n com coeficientes em A.
Prove que o subconjunto I = {A ∈ Un (A) | aii = 0 para todo i = 1, 2 · · · , n} é um ideal
em Un (A) e determine Un (A)/I
16. Seja p um número primo. Considere o subconjunto R de Q de frações, que, quando escrito
na forma reduzida, tem denominador não divisível por p. Prove que R é um subanel de
Q. Prove que R não pode ser escrito como Z[S] para qualquer conjunto finito S ⊆ Q.
√
17. Prove que para todos os primos p, o anel Q[ p] é um corpo.
√
18. Considerando Q[ 3 2] como um subanel de R.
√ √ √
(a) Prove que Q[ 3 2] consiste em elementos da forma a + b 3 2 + c( 3 2)2 com a, b, c ∈ Q.
√
(b) Prove que todo elemento da forma a + b 3 2 com (a, b) 6= (0, 0) é uma unidade.
20. Para todo n, calcule (2x + 3)n em Z/6Z[x]. Repita a mesma pergunta, mas em Z/12Z[x]
21. Suponha que A seja um anel com identidade 1 6= 0 de característica n. Prove que A[x]
também é de característica n.
22. Seja p um número primo. Prove que para todo a ∈ Z/pZ, a seguinte identidade vale no
anel (Z/pZ)[x],
(x + a)p = xp + a.
24. Considere o anel Z[i] e o ideal I = (2 + i). Estudamos o anel quociente Z[i]/(2 + i).
(a) Prove que −1 + 2i, −2 − i e 1 − 2i estão no ideal (2 + i).
(b) Prove que todo elemento a + bi ∈ Z[i] é congruente módulo I a pelo menos um
elemento dentro ou na borda do quadrado com vértices 0, 2 + i, 1 + 3i e −1 + 2i. Prove
também que os vértices do quadrado são congruentes entre si módulo I.
(c) Usando a divisão em C, mostre que nenhum dos cinco elementos em 0, i, 2i, 1 + i, 1 + 2i
são congruentes entre si e conclua que Z[i]/(2 + i) = {0, i, 2i, 1 + i, 1 + 2i}.
(d) Escreva a tabuada de multiplicação em Z[i]/(2 + i) e deduza que esse anel quociente
é um corpo.
(e) Encontre um isomorfismo explícito entre Z[i]/(2 + i) e F5 .
3.5. IDEAIS MAXIMAIS E IDEAIS PRIMOS 111
ax + pZ = 1 − py + pZ = 1 + pZ,
e então x + pZ é o inverso de a + pZ. Portanto, Z/pZ é um corpo. Assim Z/nZ é um corpo se,
e somente se, n é primo.
Agora nos voltamos para duas classes diferentes de ideais em anéis. Embora não seja óbvio
a princípio, ambos tentam generalizar a noção e as propriedades dos números primos em Z.
Lembre-se de que na teoria elementar dos números existem duas definições equivalentes de
números primos.
(1) Um inteiro p > 1 é um número primo se, e somente se, p só é divisível por 1 e por ele
mesmo. (definição de primo.)
(2) Um inteiro p > 1 é um número primo se, e somente se, sempre que p | ab, então p | a ou p | b.
(Lema de Euclides)
Na teoria dos anéis em geral, essas duas noções não são mais equivalentes. A conexão entre
112 CAPÍTULO 3. ANÉIS
propriedades de ideais e aritmética inteira vem do fato de que a | b se, e somente se b ∈ (a), se
e somente se (b) ⊆ (a).
Na linguagem da teoria dos anéis, o segundo critério para o número ser primo nos inteiros
(Critério 2) pode ser reformulado dizendo que p ≥ 2 é um número primo se, e somente se, se o
ideal (ab) ⊆ (p) implica que (a) ⊆ (p) ou (b) ⊆ (p). Isso motiva a seguinte definição.
Definição 3.5.1 Seja A um anel. Um ideal P 6= A é chamado um ideal primo se sempre que
dois ideais J e J satisfaz IJ ⊆ P , então I ⊆ P ou J ⊆ P .
Exemplo 3.5.1 Se n ≥ 2 em Z, vimos que nZ é um ideal primo se, e somente s, n for primo.
A noção de número primo nos inteiros, garante que entre pZ e Z não existem mais ideais,
quando p é primo. Vejamos a definição de ideal maximal em um anel que generaliza esta noção.
Definição 3.5.2 Um ideal M em um anel A é chamado de ideal maximal de A, se M 6= A e
os únicos ideais I de A tais que M ⊆ I ⊆ A são I = M e I = A.
Um anel arbitrário não precisa ter ideais maximais. Em muitos anéis específicos é óbvio
ou pelo menos muito simples provar a existência de ideais maximais. Entretanto, a seguinte
proposição geral prova a existência de ideais maximais em anéis com pouquíssimas condições.
A prova se baseia no Lema de Zorn, que é equivalente ao Axioma da Escolha.
Teorema 3.5.2 Em um anel A com identidade, todo ideal próprio I está contido em um ideal
maximal M .
Demonstração. Seja A um anel com uma identidade e seja I ideal próprio qualquer. Seja S
o conjunto de todos os ideais próprios que contêm I. Então S é um conjunto não vazio (já que
contém I), que é parcialmente ordenado pela inclusão. Seja C qualquer cadeia de ideais em S
. Mostramos que C tem uma cota superior. Defina o conjunto
J = ∪ X.
X∈C
que S tem um elemento maximal. Um elemento maximal de S é um ideal maximal que contém
I
Nos inteiros, suponha que (n) é um ideal maximal em Z. Então qualquer ideal I = (m)
satisfazendo (n) ⊆ (m) ⊆ Z é (n) = (m) ou (m) = Z. Expressando isso em termos de
divisibilidade, deduzimos que m | n implica m = ±1 ou m = ±n. Supondo que m seja positivo,
então m = 1 ou m = n. Esse corresponde à definição de número primo, listada acima no
(Critério 1) acima. Portanto, os ideais maximais em Z correspondem aos ideais (p), onde p é
um número primo.
Exemplo 3.5.2 Seja A o anel de funções reais contínuas em [0, 1]. Seja M = {f |f (1/2) = 0} o
conjunto das funções de A que se anulam em 1/2. Observe que g(1/2)f (1/2) = 0, se g ∈ I, mas
g 6∈ M . Defina h = g(x) − α, onde α = g(1/2) 6= 0. Assim h(1/2) = g(1/2) − α = α − α = 0,
então h ∈ M ⊆ I o que implica que α = g − h ∈ I e α−1 α = 1 ∈ I. Logo I = A. Portanto, M
é ideal maximal de A.
Proposição 3.5.2 Seja A um anel comutativo. Então um ideal M é maximal se, e somente
se A/M é um corpo.
Demonstração. Pelo quarto teorema do isomorfismo para anéis, existe uma correspondência
bijetiva entre os ideais de A/M e os ideais de A que contêm M . Mas, M é um ideal maximal
se, e somente se, os únicos ideais de A que contêm M são M e próprio A. Assim, A/M contém
precisamente dois ideais, (1) e (0). Logo, A/M é um corpo (Prove que A é um corpo se, e
somente se,os únicos ideias próprios são os ideais triviais).
A proposição (3.5.2) oferece a estratégia para provar que um ideal M é maximal: Determine
o anel quociente A/I, prove que A/I é um corpo e então invoque a proposição. Com os inteiros,
vimos anteriormente que todos os ideais são da forma (n) com n não negativo e que Z/nZ é
um corpo se, e somente se, n for um número primo. A Proposição (3.5.2) mostra que (n) é
maximal se, e somente se, n é um número primo, o que retorna aos números primos como a
motivação para a noção de um ideal maximal.
Exemplo 3.5.3 Como um exemplo não óbvio da Proposição (3.5.2), considere o anel de inteiros
gaussianos Z[i] e o ideal principal (2 + i). Mostre o seguinte Z[i]/(2 + i)(Exercício) é isomorfo
a F5 , que é um corpo, logo (2 + i) é um ideal maximal.
3.5. IDEAIS MAXIMAIS E IDEAIS PRIMOS 115
Anéis simples
Por analogia com grupos, temos a seguinte definição.
Definição 3.5.3 Um anel A é chamado de anel simples se, A 6= 0 e os único ideais de A são
0 e A.
Existem anéis simples que não são anéis de divisão, como vereremos a seguir), mas tais os
anéis devem ser não comutativos.
Teorema 3.5.3 Se A é comutativo, então A é simples se, e somente se, A for um corpo.
Demonstração. Assuma que M é um ideal maximal e seja I/M um ideal diferente de zero
de A/M , ondeI é um ideal de A com M ⊆ I (veja Teorema (3.4.1)). Visto que I/M 6= 0, seja
0 6= x + M ∈ I/M , onde x ∈ I. Então, x ∈ I, mas x ∈
/ M netão M 6= I. Assim, I = A, pela
maximalidade de M , portanto, I/M = A/M . Logo, A/M é anel simples. Reciprocamente, se
A/M é simples, seja M ⊆ I ⊆ A, com I 6= M , um ideal de A. Então, I/M é um ideal de A/M
pelo Teorema (3.4.1), e A/M 6= 0, pois I 6= M . Portanto, I/M = A/M , pela simplicidade do
anel A/M , e assim I = A pelo item (3) do Teorema (3.4.1). Isso mostra que M é um ideal
maximal de A.
X = {xa + m | a ∈ Aem ∈ M },
é fácil ver que X é um ideal de A. Agora, note que se m ∈ M , então m = 0.a + m ∈ X, logo
M ⊂ M , e como a = 1.a + 0 ∈ X e a ∈
/ M , temos que M $ X ⊂ A, e sendo M ideal maximal,
temos que X = A. Assim, 1 ∈ X, e então 1 = xa + m, para algum a ∈ A e para algum m ∈ M .
Logo,
(x + M )(a + M ) = xa + M = (1 − m) + M = 1 + M.
O fato de que todo corpo é um domínio integridade, junto com o Teorema (3.5.1), fornece
o seguinte
Assim, rEij é a matriz com a (i, j)-entrada r e todas as outras entradas 0. Portanto, uma
matriz qualquer é uma combinação linear das unidades de matriz Eij , onde 1 ≤ i, j ≤ n:
X
(aij ) = aij Eij . (3.2)
i,j
Lema 3.5.1 Todo ideal de Mn (A) tem a forma Mn (I) para algum ideal I de A.
Reciprocamente, seja B = (bij ) ∈ I. Devemos mostrar que bpq ∈ I, para todo p e q, ou seja,
bpq E11 ∈ I. Como B = ij jbij Eij pela equação (3.2), podemos calcular
P
X X
E1p BEq1 = E1p ( bij Eij )Eql = Elp (bij Eij )Eql = bpq E11
i,j i,j
pela equação (3.3). Portanto, bpq E11 = E1p BEq1 ∈ I, pois B ∈ I e I é um ideal.
Teorema 3.5.5 Se A é um anel então Mn (A) é um anel simples se, e somente se, A é simples.
Demonstração. Suponha que A seja simples. Se I é um ideal de Mn (A), então pelo Lema
(3.5.1) temos que I = Mn (I), para algum ideal I de A. Portanto, I é 0 ou A, pois A é uma anel
simples, então calI = Mn (0) = 0 ou I = Mn (A). Isso mostra que Mn (A) é um anel simples. A
recíproca é provada de forma similar, e deixamos para o leitor.
Assim, por exemplo, M2 (Z2 ) é um anel não comutativo simples que não é um anel de divisão.
Na verdade, pode ser demonstrado que é o menor anel desse tipo. Parte da importância
do Teorema (3.5.5) é que ele fornece metade de outro teorema de Wedderburn: um anel B
118 CAPÍTULO 3. ANÉIS
Exercícios
1. Sejam I e J ideais dos anéis A e B respectivamente. Mostre que I × J é um ideal de
A × B, e A × B/I × J ∼ = A/I × B/J. Mostre também que todo ideal de A × B é da
forma I × J, onde I é um ideal de A e J é um ideal de B. Conclua, descrevendo todas as
imagens homomorficas de A × B.
2. Se I é um ideal de um anel A. Mostre que Mn (I), é um ideal de Mn (A) e que Mn (A)/Mn (I) ∼
=
Mn (A/I).
10. Dê um exemplo de um anel com unidade e um ideal maximal I tal que R/I não é um
anel de divisão.
11. Se {Iλ }λ∈Λ uma coleção quaquer de ideais em um anel A, então mostre que I = ∩{Iλ | λ ∈
Λ} é um ideal de A.
Proposição 3.6.1 Seja D um domínio de integridade com car(D) > 0. Então char(D) é
primo.
FO A
∃!f
φ
A / K
θ
É fácil ver que ∼ é simétrica e reflexiva, mostraremos que ∼ é uma relação transitiva. Sejam
(a, b) ∼ (c, d) e (c, d) ∼ (e, f ), então ad = bc e cf = de. Assim, adf = bcf = bde, ou af d = bed
e portanto (af − be)d = 0. Mas d 6= 0 e R é um domínio de integridade, então af == be, e isto
significa que (a, b) ∼ (e, f ). Logo, ∼ é uma relação de equivalência. Denotaremos a classe de
a
equivalência do elemento (a, b) por . Chamaremos FA = X/ ∼ o conjunto de todas as classes
na b o
de equivalências, isto é, FA = | a ∈ A e b ∈ A∗ . Definiremos de modo natural uma adição
b
e uma multiplicação sobre o conjunto FA da seguinte forma
a c ad + bc
+ =
b d bd
a c ac
. =
b d bd
É rotina verficar que estas operações estão bem definidas e que são associativas. Agora FA é de
0
fato um anel comutativo com 1, onde o zero é 0 = , para qualquer b ∈ A∗ ; o simétrico aditivo
a −a b
a a
de é − = ; e o elemento neutro da multiplicação é 1 = , para qualquer a ∈ A∗ .
b b b a a b
a b
Se 6= 0 em FA , então necessariamente a 6= 0, e então ∈ FA , e logo . = 1.
b a b a
Portanto, FA é um corpo.
ra
Defina φ : A → FA , que envia r para , para todo a ∈ A∗ , a aplicação φ é um
a
ra 0
homomorfismo de anéis. Seja agora r ∈ Kerφ, então φ(r) = = , logo (ra)a = a.0 = 0 e
a a
segue que r = 0. Portanto, φ é um monomorfismo.
Suponha agora que K é um outro corpo qualquer e que θ : A → K é um monomorfismo.
a
Defina f : FA → K por f = θ(a)θ(b)−1 , é fácil checar que f é bem definida. E é claro que
b
f é um monomorfismo uma vez que θ o é, e tem-se que f ◦ φ = θ.
Mostraremos agora que f é única. De fato, seja g : FA → K um outro monomorfismo tal
r
que g ◦ φ = θ. Então, se ∈ FA é um elemento qualquer, então
s
r ra sa −1
g = g . = g (φ(r)) g (φ(s))−1
s a a r ,
−1
= θ(r)θ(s) = f
s
e portanto g = f e FA é um corpo de frações para A.
ra
Sendo a aplicação que envia r 7→ é um monomorfismo de A em FA , então identificar
a
ra r
r com e pensar que A é um subanel de FA . Cada elemento de FA é uma fração , onde
a s
r, s ∈ A e s 6= 0. É claro que FA é o menor corpo que contém A como subanel a menos de
isomorfismo.
3.7. ANÉIS DE POLINÔMIOS 121
A construção feita para FA pode ser generalizada em muitos caminhos. Por exemplo, seja
A um anel comutativo com 1 qualquer e seja S um subconjunto de A∗ que é um semigrupo
multiplicativo e sem divisores de zero.
Seja X = A × S e defina a relação (a, b) ∼ (c, d) se, somente se, ad = bc. A relação ∼ é
de fato uma relação de equivalência sobre X. Como foi feito no outro caso denotemos a classe
a
de equivalência do elemento (a, b) por e o conjunto quociente por AS = X/ ∼. AS é um
b n ra o
anel com 1. Se a ∈ S, mostre que o conjunto | r ∈ A é um subanel de AS e a aplicação
a
ar
r 7→ é um monomorfismo, então A pode ser identificado como um subane de AS . É possivel
a
provar uma propriedade universal para AS analoga a que foi feita para FA . Outros fatos que
podem ser provados são: (i)Todo elemento de S é uma unidade de AS ; (ii) AS é único à menos
de isomorfismo.
O anel AS é chamado a localização de A em S. Este conceito é importante na Teoria
Algebrica dos Números e na Geometria Algébrica.
onde ai ∈ A e x é uma variável que pode assumir valores em A ou de algum anel que contém
A com subanel. A seguinte construção tornará estas noções precisas.
Seja A um anel, dentotemos por P (A) o conjunto de todas as sequências a = (a0 , a1 , a2 , . . . ),
onde cada ai ∈ A e a6 = 0 apenas para um número finito de valores de i, 0 ≤ i ∈ Z. Se
a, b ∈ P (A), definiamos:
a + b = (ai + bi )
a.b = ( ij=0 aj bi−j )
P
= (a0 b0 , a0 b1 + a1 b0 , a0 b2 + a1 b1 + a2 b0 , . . . )
Teorema 3.7.1 Se A é um anem, então P (A) é também um anel. P (A) é comutativo se, e
somente se, A é comutativo. P (A) tem identidade se, e somente se, A tem identidade, e neste
caso indicaremos a identidade por 1P (A) = (1, 0, 0, . . . ).
a = (a0 , a1 , a2 , . . . ) = a0 + a1 x + a2 x2 + . . . ,
Proposição 3.7.1 Suponha que A é um anel com 1, esejam f (x), g(x) ∈ A[x]. Então: (a)
gr(f (x) + g(x)) ≤ max{gr(f (x)), gr(g(x))};
(b) gr(f (x).g(x)) ≤ gr(f (x)) + gr(g(x));
A igualdade no item (b) é valida se A não possui divisores de zero à esquerda ou à direita.
Corolário [Link] Se A é um anel que não tem divisores de zero à direita ou à esquerda,
então f (x) ∈ A[x] é uma unidade se, e somente se, f (x) = r, uma constante, com r ∈ U (A).
[1] Fraleigh, J. B., A First Course in Abstract Algebra, 2nd ed., Reading: Addison-Wesley,
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