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Espionagem e o Enigma de Iskra

O documento apresenta a agente da CIA Brigitte Montfort, conhecida como 'Baby', que é chamada para uma missão delicada envolvendo o espião russo Iskra, que deseja se passar para o lado americano. Apesar de cética sobre a proposta, Brigitte é designada para ir à Europa, onde deverá encontrá-lo em Palma de Maiorca. A narrativa destaca a tensão e o humor entre os personagens enquanto discutem os riscos da missão.

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Espionagem e o Enigma de Iskra

O documento apresenta a agente da CIA Brigitte Montfort, conhecida como 'Baby', que é chamada para uma missão delicada envolvendo o espião russo Iskra, que deseja se passar para o lado americano. Apesar de cética sobre a proposta, Brigitte é designada para ir à Europa, onde deverá encontrá-lo em Palma de Maiorca. A narrativa destaca a tensão e o humor entre os personagens enquanto discutem os riscos da missão.

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© 1968 – LOU CARRIGAN

“?JUGAMOS AL PÓKER?”
Capa de Benicio
Colaboração de Sérgio Bellebone
530527
CAPÍTULO PRIMEIRO
Faíscas no mundo escuro da espionagem

O pequeno helicóptero desceu suavemente no gramado


verde, em que já começavam a pontilhar aqui e ali as
primeiras flores silvestres, indicando a aproximação da
primavera.
Assim que as hélices deixaram de girar, uma das
mulheres mais belas do mundo saltou do aparelho, ágil e
graciosa em seu blue-jeans e sua camisa xadrez colorida,
com os imensos olhos azuis muito abertos, exibindo um
sorriso estonteante, emoldurado por vasta cabeleira negra.
Dois homens estavam à sua espera, ansiosos, felizes com
aquela simples e agradável missão para a qual a CIA em boa
hora os designara. Geralmente as ordens que recebiam eram
muito mais ingratas do que comparecer ao heliporto da
Central da CIA, para receber nada menos que a fabulosa
agente “Baby”.
— Oi, “Baby”! — saudou um deles.
O outro sorria como um bobalhão, movendo a cabeça
num gesto de plena concordância, facilmente compreensível.
— Tudo bom, Johnny? — sorriu a magnífica espiã. —
Como é que andaram as coisas nesses últimos meses?
— Lembra-se de nós?
— Mas é claro!
— Vimo-nos apenas uma vez, faz quase um ano! E assim
mesmo, só por alguns minutos... No duro que você se lembra
de nós?
— Meu caro Johnny: “Baby” jamais esquece dos
rostinhos de seus amiguinhos. E por isso mesmo, eu trouxe
balas para vocês.
Os dois agentes sorriram mais abobalhados ainda.
— Boa piada! — disse um deles.
— Não é piada coisa nenhuma! — protestou “Baby”,
aliás, Brigitte Montfort, tirando da bolsa de couro cru um
saquinho de balas e estendendo-o aos rapazes. — Quando tio
Charlie me disse que eu tinha que vir ao ponto de recepção
272, para ser levada à Central, imaginei que dois dos meus
amigos estariam aqui para acompanhar-me até mister
Cavanagh, o terrível chefe dos agentes especiais da CIA.
Então, perguntei a mim mesma: por que não levar umas
balinhas para os garotos?
Um dos agentes abriu o saquinho e meteu dois dedos
dentro, retirando uma bala de caramelo, que ficou olhando
com ar de espanto.
— E não é que trouxe balas mesmo?! — exclamou o
outro.
— Não vai oferecer ao seu companheiro, como um
menininho bem educado? — sugeriu Brigitte, em tom de
troça.
— Ah! Sim! — lembrou-se o primeiro, oferecendo a
guloseima à jovem, que aceitou uma, passando o saquinho
depois para o colega,
— Bem. Agora que isto está resolvido — disse a agente
especial — e da maneira mais doce possível, que tal se vocês
me levassem a mister Cavanagh? Onde é que ficou de me
esperar?
— Certo! — concordou um dos “Johnnies”. — Está na
área de tiros. Vamos até lá.
— Chupando balas! — comentou o outro.
— É pra vocês verem! E depois dizem que os agentes da
CIA não sabem apreciar as boas coisas da vida — riu
Brigitte.
— Quem foi que disse isso? — quis saber um dos
homens que, olhando significativamente para “Baby”,
acrescentou: — Eu pelo menos sei!
— Vamos embora, rapazes — insistiu a jovem.
— Não devemos fazer mister Cavanagh esperar.
Um dos agentes indicou um jipe estacionado ali perto e
os três encaminharam-se para o veículo. Embarcaram e em
poucos segundos arrancavam em direção ao campo de
treinamento de tiro.
***
Mr. Cavanagh viu-a chegar, mas não lhe deu atenção por
mais de um segundo. Continuou no exercício de tiro ao alvo,
com seu revólver de imenso cano, especial para treinamento.
A agente “Baby” aproximou-se, passando a bala de
caramelo de um lado para o outro da boca, com o auxílio da
língua, e sorrindo como uma menininha travessa.
— Continua com o pulso firme, mister Cavanagh? —
perguntou.
— Mais ou menos. Dos nove tiros, devo ter acertado uns
seis ou sete.
— Só?!
— Receio que sim. Se tivesse acertado os nove na mosca,
uma luz vermelha acenderia no alvo — explicou seu
superior.
— Não vejo luz vermelha nenhuma...
— O que quer dizer que errei alguns tiros. Este é o novo
modelo dos polígonos de tiro da CIA, Brigitte. O alvo fica a
trinta e três metros, e a mosca é do tamanho de uma bola de
tênis. Se os novos disparos acertarem esse pequeno círculo,
acende-se uma luz vermelha. É uma prova difícil, mesmo
para nossos melhores agentes. Basta um erro para que a luz
não se acenda. E você sabe como a pontaria torna-se
insegura à distância de trinta metros, para o tiro de revólver.
— Entendo. Os revólveres para tiro ao alvo geralmente
levam uma bala só. Mas vejo que esse tem carregador. Deve
ser um modelo novo. Quantos tiros? Nove?
— Exato. Quer experimentar a pontaria?
Brigitte ficou olhando amavelmente para seu chefe direto
na Central da CIA.
— Não creio que o senhor tenha me feito abandonar
minha caçada aos patos selvagens, só para vir experimentar
um revólver de nove tiros...
— Não, não! Claro que não. Era apenas uma sugestão.
Chamei-a para encarregá-la de um assunto... delicado. Muito
delicado, Brigitte.
— Não diga! — ironizou a divina espiã. — E eu que
pensei que o senhor só me empregava em trabalhos comuns!
— Lá vem você com o seu sense of humor. Você há de
ser sempre uma adolescente, Brigitte.
— Amém! — riu “Baby”. — Quero dizer, que Deus o
ouça... E o que é que eu tenho de fazer desta vez, tão
delicado assim?
— Apanhar alguém na Europa.
— Ah!... Quem?
— A palavra “Faísca” lhe diz alguma coisa?
— “Faísca”? Bem... é um pedacinho de fogo, uma
chamazinha... Ora bolas! Faísca é faísca! Ou não?
— Talvez você desse mais importância a essa palavrinha
se eu a pronunciasse em russo: Iskra. Agora ela lhe diz
alguma coisa?
Os belíssimos olhos da jovem fixaram os de Cavanagh
com expressão interrogativa, mal disfarçando um brilho de
interesse. De grande interesse.
— Iskra?... O senhor está se referindo ao espião russo?
— Exatamente! Estou me referindo ao espião russo, do
qual a única coisa que se sabe é que se faz chamar, ou que o
chamam, de Iskra. Um homem notável em nossa profissão,
Brigitte.
— Notável?! — sorriu secamente a jovem. — O senhor
quer dizer que Iskra é o melhor espião com que já contou a
Rússia, e com o qual continua contando, há muitos anos.
— Vinte e quatro anos, precisamente. Durante todo esse
tempo, a Rússia teve em Iskra o melhor homem para as mais
difíceis missões. Poderíamos dizer que ele foi um dos
pioneiros da espionagem soviética em todo o mundo. Na
Rússia, como em qualquer outra parte do globo, dizer Iskra é
o mesmo que dizer espião perfeito. Jamais cometeu um erro.
Sempre que seu país precisava de resultados absolutos, era a
ele que enviavam. Durante quase um quarto de século, o
agente soviético conhecido pelo nome de Iskra, ou Faísca,
foi o curinga no baralho da espionagem russa. Nunca falhou,
nunca teve um malogro, nem mesmo parcial! Não se sabe
absolutamente nada a seu respeito, a não ser seu nome de
guerra. Pode ser alto ou baixo, gordo ou magro, feio ou
bonito, louro ou moreno. A única coisa que se pode calcular,
com alguma probabilidade de acerto, é a sua idade. Faz vinte
e quatro anos que está agindo; se admitirmos que quando
começou tinha a idade mínima de vinte, terá agora quarenta
e quatro. E isso é tudo o que podemos deduzir sobre o
insuperável espião da MVD russa...
— Muito bem — interrompeu Brigitte, impaciente. — E
o que é que há com esse espião soviético?
— Você deverá recolhê-lo na Europa.
— Eu?!
— Sim, você! Não quer experimentar a pontaria,
Brigitte?
Estendeu-lhe o revólver recarregado e “Baby” apanhou-o,
ficando a olhar o alvo, a trinta e três metros de distância. .
A bela espiã deu de ombros, ergueu a arma e começou a
disparar, sem pressa, mas tampouco devagar. Três segundos
depois de haver feito o nono disparo, esgotando a carga do
belíssimo revólver especial, uma luz vermelha acendeu-se
sobre o alvo.
Mr. Cavanagh sorriu pensativamente.
— Você não erra nunca, “Baby”?
— Nem pretendo. Mas se isso acontecer alguma vez,
lembre-se de que desejo rosas vermelhas para o meu túmulo.
Lírios, não. Causam-me tristeza. Ao passo que as rosas são
alegres, cheias de vida!
— Para os mortos todas as flores são iguais.
— Prefiro não pensar nisso... Iskra? Então, eu tenho que
apanhar Iskra, o melhor homem da MVD?
— Exato.
— Não me diga que ele resolveu passar-se para o nosso
lado.
— É o que ele diz.
Brigitte ficou olhando seu superior, fixamente. Os dois
sorriam de um modo especial, duro, irônico, quase maligno.
A possibilidade de que um espião da categoria de Iskra, e
soviético ainda por cima, passasse para a CIA, só podia ser
piada.
— Ele é quem diz? E quem disse isso? Um de nossos
agentes na Europa, talvez?
— Mandou-nos uma carta...
— Iskra mandou uma carta para a Central da CIA?! —
exclamou Brigitte, caindo na gargalhada, sem poder conter-
se por mais tempo. — Essa não!
— Pois foi o que ele fez.
— Fantástico! Realmente, fantástico! A imaginação dos
espiões não tem limites, pelo que vejo. E a que se deve tão
inesperada decisão do famosíssimo Iskra?
— Não sabemos. Afirma que tem uma coisa para nos
entregar e que quer passar-se para os Estados Unidos.
— O homem mais escorregadio dos serviços secretos
russos. Um quarto de século trabalhando para a Rússia e
sobre quem nada se sabe, a não ser o apelido: Iskra. E, de
repente, sem mais nem menos, esse homem manda uma
cartinha, dizendo que deseja passar para os Estados Unidos e
que tem algo para nos dar! Espero que o senhor não esteja
pensando seriamente em enviar-me para a Europa: isso é
uma cilada! Não sei o que os russos estão tramando agora,
nem em que pode consistir essa armadilha, mas é claríssimo
que se trata de uma cilada! Talvez estejam querendo agarrar
a agente “Baby”. E, se não for isso, deve ser alguma jogada
de muito mais alcance, mais perigosa, internacionalmente.
— Na verdade, Brigitte, estamos desorientados. Mas
chegamos à conclusão de que a proposta de Iskra deve ser
aceita.
— Oh! Não!... O agente, ou agentes, que se aproximarem
de Iskra, para recolhê-lo, serão passados por facas ou
punhais. Mas, se forem mantidos vivos, é porque existe aí
algum plano diabólico que nem podemos imaginar.
— Pensamos em tudo isso. Mas o problema é o seguinte:
o que é que a MVD está tramando?
— Nada de bom. Mas se...
— Espere, Brigitte. Há dois aspectos nesse assunto. O
primeiro é que, sem dúvida, parece tratar- se de uma cilada, e
das mais toscas. Tão grosseira, que não podemos acreditar
que a Rússia a tenha preparado. E isto nos leva ao outro
aspecto, ou seja, a possibilidade de que Iskra, realmente, seja
lá por que motivo for, tenha resolvido bandear-se para o
nosso lado.
— Para que e por quê?
— Não sabemos por quê. Mas sabemos para quê: para
entregar-nos alguma coisa.
— Que coisa?
— Só ele sabe... e a Rússia.
— O senhor está sugerindo, seriamente, a possibilidade
de que Iskra tenha abandonado a Rússia com alguma coisa
que seja de interesse para os Estados Unidos, e que pretenda
entregá-la sob certas condições?
— É o que nos parece.
— Insisto em que se trata de uma cilada.
— Com toda a certeza. E é por isso que vamos enviar
você.
— Muito obrigada — resmungou Brigitte.
— Com isso quero dizer que, encaminhar você a uma
cilada, por mais perigosa que seja, é o mesmo que meter
fumaça numa gaiola de passarinhos: a fumaça escapa por
entre as grades.
— Fico muito lisonjeada com a opinião da CIA a meu
respeito. Mas eu pertenço àquela classe de indivíduos que
acredita em não abusar da sorte.
Mr. Cavanagh havia carregado novamente o revólver e
tentou mais uma vez o alvo, sem lograr acender a luzinha
vermelha. Suspirou decepcionado e voltou-se para a bela
jovem.
— Está decidido que você irá à Europa, Brigitte. Se for
uma cilada, temos certeza de que saberá sair dela. Se não
for... Bem, será sempre muito interessante ter em nosso
poder o melhor espião russo, Iskra, veterano com vinte e
quatro anos de espionagem. Lamento ter de dizer que isto é
uma ordem da chefia do Departamento Central: você terá
que ir a Palma de Maiorca e...
— Palma de Maiorca! — exclamou Brigitte. — Claro que
vou! E com o maior prazer...
— Fico satisfeito em ver que você concorda — sorriu
Cavanagh.
— O senhor sabe que estou sempre à disposição da CIA...
— riu a espiã. — Como identificarei e como entrarei em
contato com Iskra?
— Bom. Em Palma de Maiorca, Iskra estará à sua espera
no Clube Náutico. No dia vinte e sete, às dezoito horas, você
deverá ir ao bar do Clube, sentar-se junto ao balcão e pedir
um vodca com água tônica. Iskra, então, entrará em contato
com você.
— Simplíssimo! Quando devo sair?
— O mais cedo possível. Seu primeiro destino será
Roma.
Brigitte olhou espantada para Mr. Cavanagh.
— Roma? Fazer o que, em Roma?
— Recolher Iskra.
— Iskra? Mas o senhor não acabou de me dizer que ele
está esperando ser recolhido em Palma de Maiorca?
— Exato. Mas em Roma também, assim como em Nice.
A espiã internacional mais fabulosa do mundo, em todos
os sentidos, ficou definitivamente abobalhada: deixou cair o
queixo, abriu e fechou repetidas vezes as pálpebras e
inclinou a cabeça um pouco para frente.
— Perdão, mister Cavanagh... Acho que um de nós dois
não está — como direi? — funcionando bem. O senhor me
disse que devo apanhar Iskra em Palma de Maiorca. Logo
depois me disse que tenho que recolhê-lo em Roma.
Finalmente, que devo apanhá-lo em Nice Entendi direito?
— Você sempre entende tudo muito direitinho, “Baby”.
Não me decepcione agora.
Um súbito brilho de vivo interesse surgiu nos magníficos
olhos de Brigitte Montfort. Sua atitude de amável
condescendência deu lugar a uma quase excitação
profissional.
— Tenho que apanhar esse russo em três lugares
diferentes? — murmurou.
— Exato.
— Em Roma, em Nice e em Palma de Maiorca...?
— Correto.
— Mister Cavanagh: não me diga que a CIA recebeu três
cartas de Iskra, cada uma indicando um lugar para ser
recolhido e trazido aos Estados Unidos.
— Mais uma vez, exato.
— Mas isso é assombroso! Genial! — Brigitte desatou a
rir gostosamente. — Quer dizer que nós temos três Iskras no
ar, ao invés de um só?
— De fato.
— Formidável! Isso é sensacional! Mister Cavanagh,
peço-lhe que me perdoe. Pensei que o senhor estivesse me
enviando para um trabalho sem importância, mais indicado
para agentes de segunda categoria. E agora vejo que tenho
por missão recolher três homens, um em Roma, outro em
Nice e o terceiro em Palma de Maiorca, cada qual afirmando
ser Iskra, o famosíssimo espião russo!
— É o que acontece.
— Não consigo sair do meu espanto. Como foi que
aconteceu isso?
— Em primeiro lugar, recebemos a carta de Roma. Nela,
Iskra dizia querer passar para o nosso lado etc., e que tinha
em seu poder algo de grande interesse para a CIA. Em
seguida, recebemos a carta de Palma de Maiorca, em que
outro Iskra dizia exatamente a mesma coisa, com a variante
de que deveria ser recolhido na capital do arquipélago das
Baleares. Finalmente chegou a carta de Nice, na qual um
terceiro Iskra fazia idêntica oferta, indicando Nice como o
pronto onde deveria ser apanhado. Assim, temos três homens
operando na Europa, e cada um deles afirma ser o autêntico
espião soviético conhecido pelo nome de Iskra. Todos três
estão esperando ser recolhidos e trazidos para os Estados
Unidos.
— Nossa senhora! É uma jogada sensacional! Algo novo,
inacreditável. Três homens que afirmam ser Iskra, cada qual
esperando num lugar diferente... Qual é o alcance da jogada?
— Você é que vai descobrir isso, Brigitte.
— Claro. Entendo, sim... Para começar, não pretendo
perder esta jogada de altos voos! É como se os russos
recebessem a notícia de que três agentes “Baby”, e não
apenas uma, quisessem passar para a MVD! Só existe uma
“Baby”, como só existe um Iskra. Quem são os outros dois?
O que é que a MVD está pretendendo com esta jogada? Que
podem pretender?
— Eu lhe garanto que o Conselho de Probabilidades da
CIA não encontrou a menor resposta para estas perguntas. E
estão querendo uma, Brigitte.
— E terão — sorriu “Baby”, docemente. — Hão de ter!
— Tenho certeza disso — concordou Cavanagh.
— Muito bem — continuou Brigitte. — Sei que tenho
que estar no dia vinte e sete, às seis da tarde no bar do Clube
Náutico de Palma de Maiorca, e pedir uma vodca com água
tônica, aguardando que um Iskra entre em contato comigo. E
os outros dois?
— O de Roma diz que os agentes da CIA que forem
apanhá-lo deverão hospedar-se no Albergo Colombo, Via
Boccina 38. Pedirão o quarto 7 e aguardarão o contato. Em
Nice, um de nossos enviados deverá passear ao meio-dia
pelos Jardins Alberto I, aproximando-se da Fonte dos
Tritões, tendo na mão esquerda um número da revista Life,
enrolada de tal maneira que se veja claramente a palavra
Life.
— Entendido. Devo comparecer primeiro ao encontro de
Roma?
— É o mais conveniente. Ganha-se tempo, esperando que
chegue o dia vinte e sete, quando deverá estar em Palma de
Maiorca. Nessa altura você já deverá ter resolvido o
problema dos outros dois.
— Hummm... Evidentemente, existe apenas um Iskra, de
maneira que eu pergunto: que faço com os outros dois?
— A pergunta poderia ser feita de outra maneira — sorriu
maliciosamente Cavanagh: — o espião russo Iskra, é
realmente um desses três homens?
— Lógico. Talvez Iskra não seja nenhum deles. De
qualquer maneira, não pode ser os três. E o mais provável é
que nenhum dos três seja o verdadeiro Iskra. Preciso admitir,
honestamente, que não consigo fazer a menor ideia do que
pretendem os soviéticos com essa armadilha.
— Sinto não poder ajudá-la. Em compensação, você vai
ter absoluta liberdade de ação... já que, aliás, você sempre
faz, por conta própria. No final das contas, o que nós
queremos são resultados. Resultados claros e positivos,
como sempre os conseguiu a agente “Baby” da CIA...
— Eu sou formidável, não acha, mister Cavanagh? — riu
Brigitte.
— Seria estupidez negá-lo — concordou Cavanagh,
sorrindo. — A impressão geral na CIA, é de que a Rússia
está lançando um balão de ensaio com esse trio de espiões,
Brigitte. Nem remotamente nos ocorre o alcance da jogada.
Pode ser simples, pode ser maquiavélica, Você terá que
descobrir de que se trata. E, se necessário, use essa
maravilhosa pontaria que demonstrou possuir faz alguns
minutos.
— Entendo.
— Mas, acima de tudo, não se deixe apanhar. Se for uma
cilada, uma armadilha sem saída, se perceber o mais remoto
perigo pessoal, abandone o jogo. Não queremos perdê-la
num lance que ignoramos qual seja.
— Vocês são muito amáveis... Vejamos primeiro o que se
propõe a MVD com esses três homens que afirmam ser
Iskra. Provavelmente, mentem os três. Mas, com toda a
certeza, dois estão mentindo. De uma maneira ou de outra,
temo que a MVD entrou numa jogada com uma trinca. É
pouco.
— Pouco? Não entendo
— Uma trinca é pouco no jogo da espionagem. É preciso,
pelo menos, ter quadra, para entrar com possibilidades na
disputa. E para formar uma quadra são necessários quatro
espiões... Não acha, mister Cavanagh?
— É lógico. Mas acontece que a Rússia só entrou com
uma trinca...
— Não tem importância. Os Estados Unidos entrarão
com a quarta carta, para formar a quadra de espiões. Iskra de
Roma, Iskra de Nice, Iskra de Palma de Maiorca e... “Baby”
dos Estados Unidos. Quadra de espiões. O mais lamentável é
que, quando terminar a partida, já não haverá mais quadra.
Alguém não chegará ao fim, mister Cavanagh. E eu lhe
garanto que não pretendo que seja eu quem fique no
caminho... Quando sai meu avião para Roma?

CAPÍTULO SEGUNDO
De como uma jovem mexicana entra na jogada
Até as crianças brincam com microfilmes
O problema é colocar uma faísca em órbita

A bela jovem de grandes olhos negros, procedente de


Nassau, nas Bahamas, e cujo passaporte indicava chamar-se
Marina Lucientes Valdés, de nacionalidade mexicana,
passou sem maiores novidades pelos trâmites da alfândega
do Aeroporto le Fiumicino. E não poderia ser de outra
maneira, já que seu passaporte falso era tão perfeito que não
causou a menor suspeita aos agentes da Polícia italiana ali
postados. De maneira alguma lhes ocorreu que diante deles
passava a mais esperta agente da espionagem internacional:
“Baby”.
Um táxi levou-a de Fiumicino a Roma. Transportava uma
única valise, além de sua graciosa maleta vermelha com
florezinhas azuis. O táxi deixou-a na porta do Albergo
Colombo, na Via Boccina 38, onde um garoto com um
uniforme meio surrado carregou sua mala até a recepção,
embora ela conservasse consigo a maleta.
O recepcionista abriu desmesuradamente os olhos ao ver
à sua frente aquele magnífico exemplar da fauna humana,
mas logo recuperou seu ar profissional e recebeu a viajante
com um sorriso amável.
— Buona sera, signorina.
Lucientes Valdés ficou olhando para ele, desconcertada, e
depois sorriu timidamente.
— Boa-tarde.
— Non capisce italiano?
— Como?
— Espanhola?
— Não... mexicana.
— Então não há problema, senhorita. Neste hotel, quase
todos falam espanhol.
— Graças a Deus! — suspirou a jovem. — Disseram-me
que o espanhol e o italiano são muito parecidos, mas...
— Aprenderá logo, não se preocupe — sorriu o
recepcionista que, é claro, não podia saber que aquela
maravilhosa jovem sabia o italiano tão bem quanto o russo, o
francês, o alemão, o inglês e que, ultimamente, vinha
aperfeiçoando rapidamente seu português... — Deseja
acomodações?
— É claro! Quero o apartamento número sete.
— Tem que ser o sete?
— Exatamente o sete, se possível.
— Receio que não seja, senhorita. Mas deixaram aqui um
pacote, faz três dias, para ser entregue à pessoa que pedisse o
apartamento número sete. Deve ser seu, portanto...
— De fato. É para mim — murmurou Brigitte. — Quem
foi que o trouxe?
— Um garoto. Vou entregá-lo agora mesmo.
Apanhou uma caixa metálica de uma das prateleiras por
baixo do balcão, da qual retirou um pequeno embrulho, do
tamanho de um maço de cigarros. Estava envolto em papel
branco e numa das faces tinha o número sete. Isso era tudo.
Brigitte virou-o umas duas vezes em suas mãos, antes de
perguntar:
— De onde era esse garoto?
— Não sei. Serve o apartamento número doze?
— Serve, sim. Já que não há outro jeito... Oh! Meu
passaporte!
— Mandarei devolvê-lo dentro de alguns momentos.
Giovanni! — chamou, estalando os dedos para um dos boys.
— Leve a senhorita ao doze.
Entregou-lhe as chaves e o rapaz apanhou a valise da
jovem hóspede, indicando-lhe o caminho para as escadas do
pequeno hotel, que nem ao menos elevador tinha.
Quando estava na metade do primeiro lance de escadas, a
bela mulher voltou ligeiramente a cabeça, para fixar seus
falsos olhos negros no homem que estava sentado numa
poltrona do diminuto hall, fingindo ler um jornal. Ainda
conseguiu vê-lo esconder rapidamente a cabeça.
Com um sorriso frio, Brigitte continuou subindo, atrás do
boy, até o segundo andar, onde o garoto abriu a porta do
doze, deixando-a entrar. Seguiu-a, colocou a valise sobre a
cama e abriu as cortinas, para depois ficar em atitude de
expectativa.
— Você não fala espanhol? — sorriu ela.
— Io non capisco, signorina.
— Pensei que muitos de vocês, aqui, falassem espanhol.
Mas não tem importância: isto, sim, você “capiscará”.
Estendeu-lhe uma nota, fazendo-o sorrir. Assim que ficou
só, Brigitte começou a examinar detidamente o quarto. Era
pouco provável que lhe escapasse qualquer pormenor, de
modo que, depois de dez minutos de minuciosa investigação,
deu-se por satisfeita. Ali não havia microfones, bombas ou
artefatos semelhantes, nem câmaras ocultas. Nada. Tudo
normal e tranquilo. O que era extraordinário, considerando-
se que se metera espontaneamente na boca do lobo. Afinal
de contas, estava aceitando o sistema de contato do espião
soviético mais astuto nos últimos vinte e quatro anos.
A última coisa que examinou foi o telefone. Mas também
ali não havia nada. Desatarraxou as tampas do auricular e do
fone, procurando um possível microfone minúsculo, desses
que podem ser colocados em qualquer lugar.
Acabou encolhendo os ombros e decidindo que um banho
morno seria a melhor coisa para recuperar-se da viagem.
Depois, uma ducha fria, um cigarro e... voilà! “Baby” estaria
pronta para qualquer eventualidade.
***
Enrolou-se numa toalha, como uma deliciosa havaiana,
sentou-se na poltrona, acendeu o cigarro e desfez o embrulho
que lhe tinham entregue na recepção. Conforme imaginara,
tratava-se de um pequeno rádio de bolso, de fabricação
russa.
Ligou-o, fazendo a chamada que, sem dúvida, alguém
estava esperando.
No mesmo instante ouviu, saindo do aparelho, uma voz
apenas murmurada.
— Diga.
— É o senhor quem deve dizer — murmurou “Baby”. —
Pedi o quarto número sete, mas parece que está ocupado.
Encontro-me no doze. Do Albergo Colombo, naturalmente,
como o demonstra o fato de estar empregando o rádio que o
senhor enviou.
— Quem é você? — perguntaram, desta vez em russo.
— Um contato da CIA, pronta para ouvir sua proposta.
— Não pensei que mandassem uma mulher...
— E daí? Conheço meu trabalho, falo russo, estou onde o
senhor queria que eu estivesse... São fatos suficientes para
que confie em mim, não acha, senhor Iskra?
— Eu não disse que sou Iskra.
— De fato. Mas é, ou não é?
— Talvez,
— Talvez? Escute isto atentamente, senhor seja-lá-quem-
for: a proposta de Iskra é clara e terminante e eu estou aqui,
possivelmente arriscando a minha vida, com o único objetivo
de levar Iskra a um lugar de onde será transferido para
“Ianquelândia”. Muito bem. Eu admito qualquer risco, mais
nunca, em hipótese alguma, intermediários. Assim, se você
não for Iskra, estamos os dois perdendo tempo.
— Eu sou Iskra.
— Bom. Estamos começando a nos entender. Pode falar
livremente, sem ninguém que o ouça?
— Não. Ninguém nos escuta.
— Ótimo. Então, diga-me em primeiro lugar: quais são os
motivos pelos quais desertou da MVD, querendo agora
passar para os Estados Unidos?
— São motivos pessoais, que explicarei no devido tempo.
Quem é você?
— Marina Lucientes, mexicana. Está satisfeito?
— Não.
— Tampouco estou eu com... com sua resposta anterior,
Iskra. Mas, deixemos isso de lado. Outra pergunta: o que é
que você possui que pode interessar tanto à CIA?
— Um microfilme.
— Um micro...? Ora! Vamos, senhor Iskra!
— É extremamente interessante.
— Não diga! Em minha opinião, esse negócio de
microfilmes já passou de moda. Hoje em dia, até as crianças
brincam com microfilmes.
— O que o meu contém não é coisa de crianças.
— Hummm... Pode ser. Mas é preciso que isso fique bem
claro: antes de eu colocá-lo em órbita, a caminho de
“Ianquelândia”, terei que examinar esse microfilme.
— Não vai entender nada.
— Isso nós veremos. O irrevogável nesse assunto é que
eu quero examiná-lo detidamente, e de forma muito especial,
Iskra. Hoje em dia, inclusive em microfotografia,
conseguem-se truques surpreendentes... Onde e quando nos
veremos?
— Está tudo pronto para a minha partida?
— Eu me encarrego disso. Não se preocupe. No entanto,
devo dizer-lhe que estou muito surpresa com o fato de que o
famosíssimo Iskra, com vinte e cinco anos de efetiva
espionagem, não seja capaz de abandonar a Europa por seus
próprios meios. Como é que se explica isso?
— Ficaria muito mais surpresa se soubesse a quantidade
de agentes da MVD que estão vigiando todas as saídas da
Europa. Houve uma mobilização geral, em todo o
continente. Espero que seus meios de saída sejam infalíveis,
miss Lucientes.
— Lembre-se de que sou apenas um contato que vai
colocá-lo em órbita em direção a “Ianquelândia”. Quero
lembrá-lo, também, de que tenho uma pistola e outros meios
para resolver dificuldades. Você deve ter imaginado a grande
estupefação que sua carta causou na Central da CIA. Para
dizer a verdade, nossa desconfiança é quase total. Sua
passagem para o Ocidente é como... como se nossa agente
“Baby” decidisse, de repente, trabalhar para a Rússia.
— A agente “Baby” está interferindo neste caso?
— É possível...
— Gostaria de conhecê-la. Admiro-a profundamente,
como colega de primeiríssima categoria. Será que é você?
— Poderia ser. Mas as probabilidades de que a CIA
mobilizasse “Baby” para isto são... muito poucas. Teria a
MVD mobilizado Iskra num caso semelhante?
— Creio que não. Mas a CIA pode pensar de maneira
diferente.
— Sem dúvida. Mas o que interessa não é quem sou eu, e
sim, quem é você. Qual é seu verdadeiro nome?
— Isso é piada? — ouviu-se o riso seco do russo. —
Ninguém o sabe, a não ser uns poucos chefes da MVD. E
ninguém sabe como sou. Acontece comigo a mesma coisa
que com a agente “Baby”: quem consegue me ver o
suficiente para identificar-me um pouco mais tarde, não
chega a viver o bastante para isso. É uma norma de
segurança pessoal.
— Com a qual estou de pleno acordo. Muito bem. Esta
conversa já demorou muito, Iskra. Onde e quando nos
veremos?
— Você é que deve dizê-lo. A única coisa que eu quero é
sair voando da Europa. Ao dizer voando, quero dizer: a toda
a pressa, e sem riscos.
— Você acabou de dizer que ninguém o conhece, Iskra.
Então, como é que não pode deixar a Europa por seus
próprios meios?
— Eu poderia tentar. Mas receio que tenham distribuído
fotografias minhas, nestas circunstâncias.
— Sei. Entendo. Bem... São seis e quinze. Que tal se nos
encontrássemos depois do jantar, aí pelas nove, no Parque de
Gianicolo? Junto à estátua de Garibaldi. Está bem?
— Como poderei identificá-la?
— Sou morena, olhos negros, muito bonita... Aparento
uns vinte e dois ou vinte e três anos. Mas, se estes detalhes
não forem suficientes, levarei uma flor sobre o peito. Sobre o
seio direito, exatamente.
— Que flor?
— Ainda não sei. Qualquer flor, a que eu encontrar.
Estarei passeando e de quando em quando passarei a mão
sobre a flor.
— Está bem.
— Às nove em ponto, Iskra.
— Sim, sim... Entendi. Espero que você saiba o que está
fazendo, señorita Lucientes.
— Eu sempre sei o que faço. Até logo.
Desligou o rádio. Apanhou seu próprio aparelho na
maleta vermelha, ligando-o depois de alguns momentos de
reflexão.
— Johnny?
— Às suas ordens, “Baby”.
— Tudo preparado?
— Tudo. Fez contato com Iskra?
— Fiz.
— Fabuloso! De que jeito?
— Deixou um rádio para mim, no hotel. Chamei e
conversamos um bocado. E chegamos a um acordo para eu
apanhá-lo. Espero que você esteja bem lembrado de todas as
instruções minhas que lhe enviaram de Washington.
— Não se preocupe. Tudo está pronto, perfeito, e nada
vai falhar.
— Muito bem. Vou sair do Albergo Colombo dentro de
quinze minutos exatamente. Isso é tudo, por enquanto.
CAPÍTULO TERCEIRO
Quando as coisas difíceis se tornam fáceis demais, há gato na tuba
E quando o presente é grande demais, pode ser de grego
Os macaquinhos podem incomodar, mas são inofensivos

O táxi deixou-a em Via Flaminia, muito perto da Piazza


dei Popolo. Havia ali um restaurante típico, muito bem
instalado, onde a bela espiã internacional pediu um jantar
leve, regado a vinho tinto italiano.
Permaneceu ali, jantando tranquilamente, até às oito e
quinze. Tinha o aspecto da turista deslumbrada com tantas
novidades. Com seus imensos olhos negros, o sorriso tímido,
as maneiras impecáveis, conquistou o garçom encarregado
de sua mesa. Percebeu os gestos, comentários e piscadelas
dos colegas do garçom ao cruzarem com ele, invejando sua
sorte. Mas tudo isso não interessava realmente a “Baby”
Montfort.
O que atraiu sua atenção foi a presença, naquele mesmo
restaurante, do homem que, no Albergo Colombo, a
observara escondido pelo jornal. Tinha saído do hotel atrás
dela, tomara um táxi para segui-la e agora também terminava
seu jantar. Não a olhara nenhuma vez. Ou melhor,
observava-a apenas quando a imaginava distraída.
Cometia um erro. Um grande erro, pois Brigitte não se
distraía nunca...
O homem era moreno, mais para gordo, com
características de cigano, apesar da correção ao vestir. A cor
da pele, os grandes olhos escuros, os negros cabelos
brilhantes lembravam muito os ciganos europeus.
Eram oito e quinze em ponto quando Brigitte pagou a
conta e dirigiu-se para a porta de saída, deixando desolado o
garçom que a atendera.
O cigano, apressadamente, pediu também a sua conta,
pagou-a e saiu logo em seguida.
Quando a bela espiã alcançou a rua, aproximava- se um
táxi. Levantou graciosamente o braço, fazendo-lhe sinal.
Quando se inclinava para entrar no carro, ouviu ao seu lado a
voz do homem que a seguia:
— Irei com você nesse táxi.
A moça pareceu sobressaltar-se. Endireitou o corpo e
voltou-se para ele com os olhos esbugalhados de espanto:
— Acho... acho que está enganado, meu senhor — disse
em italiano, pois ele também lhe falara nessa língua. — Não
o conheço e não...
— Tenho uma pistola no bolso — atalhou o homem.
— Uma... uma... Oh! Meu Deus!
— Ora, não se faça de boba — cortou ele outra vez, em
tom seco. — Sei que vai ao encontro de Iskra, e eu vou com
você.
Dizendo isso, colocou a mão esquerda no cotovelo da
jovem, como para ajudá-la a subir, conservando a direita no
bolso.
— Suba logo e se tiver que dizer alguma coisa, faça-o em
inglês para que o motorista não entenda. E fique quietinha.
Brigitte encolheu os ombros, como quem se resigna aos
caprichos de um louco e entrou. O homem sentou-se a seu
lado.
— Diga-lhe para onde vamos.
— Eu... eu ia voltar... ao meu hotel...
— Ora. Sei muito bem que tem um encontro marcado
com Iskra. Dê o endereço certo ao motorista e não
complique as coisas se quiser continuar viva.
“Baby” passou a ponta da língua pelos lábios e assentiu
com a cabeça. Parecia terrivelmente assustada.
— Parque de Gianicolo — disse ao motorista.
— Va bene, signorina. Subito.
O táxi afastou-se da calçada, fazendo uma curva em U,
voltou à Piazza dei Popolo, desviou-se para a direita e
cruzou o rio Tibre pela ponte Margherita, em direção à Via
Cola di Renzo.
— Quem é você? — perguntou ela de repente.
— Um inimigo de Iskra. E você, é americana?
— Não. Sou mexicana.
— Não diga bobagens. Conheço bem essa história de
Marina Lucientes Valdés que não capisce italiano. Sei que
Iskra fugiu da Rússia. Essa notícia correu toda a Europa,
assim como a informação de que ele tinha certa preferência
pelo Albergo Colombo onde se hospedou várias vezes e
sempre no quarto número sete.
— Meus parabéns! — sorriu “Baby”.
— Ora, por quê?
— Mas é claro! Durante vinte e cinco anos, Iskra moveu-
se livremente pela Europa, sem que ninguém nem ao menos
conseguisse vê-lo. De repente, seus amigos de Moscou
conseguem saber que ele bem pode estar em Roma, no
quarto número 7 do Albergo Colombo. Então esse excelente
trabalho não merece parabéns?
— Sabemos muito bem que os russos soltaram essa
informação de propósito. Diz-se que Iskra pretende passar-se
para os Estados Unidos e com isso seus compatriotas
pretendem obter a ajuda de outros serviços secretos para
capturá-lo e impedi-lo de atingir seu objetivo.
— Estou entendendo. Então a MVD delatou Iskra, uma
vez que ele a abandonou e espera que vocês o matem,
impedindo-o de chegar aos Estados Unidos. E foi graças a
isso que vocês deram comigo e esperam, por meu
intermédio, chegar ao grande Iskra.
— De onde se conclui que você é agente da CIA e que
veio a Roma para ajudar Iskra a chegar ao seu país.
— Perfeito. E o que é que vai acontecer comigo quando
os levar para junto dele?
— Não temos nada contra você, ou o seu país. De modo
que, se cumprir a sua parte, poderá voltar sã e salva.
— Ah, é!? — sorriu ela, cinicamente.
— É sim. Estamos interessados apenas em Iskra.
Brigitte ajeitou-se no assento de modo a poder olhar pelo
espelhinho retrovisor. Viu o carro que vinha bem próximo do
táxi. Um homem ao volante e dois outros no banco de trás.
— São os seus amigos que vêm nesse carro aí atrás?
— É possível. Onde é que vai encontrar-se com Iskra?
— Junto à estátua de Garibaldi. Bem... não se pode negar
que tenha tido sorte, senhor. Vem a Roma, espera por Iskra,
apareço eu e... tudo está resolvido!
— Não foi tão fácil assim. Há muitos outros agentes
espalhados pela Europa, procurando por ele. Apenas, por
obra do acaso, ou pura sorte, coube a mim e meus
companheiros daqui encontrá-lo. A esse maldito Iskra!
— Você fala como se o odiasse profundamente...
— E é verdade. Mas não sou o único. Pode ter certeza
que vários serviços secretos pagariam qualquer preço para
ficar com a cabeça desse homem!
— E... qual é o seu país?
— Isso não vem ao caso — desconversou o homem. —
Estamos chegando ao Parque de Gianicolo. Qual é a senha?
— Eu devo passear lentamente perto da estátua de
Garibaldi, brincando com esta flor. Ele, então, se aproximará
de mim.
— Tem certeza de que é mesmo Iskra quem virá ao seu
encontro?
— Tenho tanta certeza quanto a de alguém que nunca o
viu. O senhor o conhece?
— Não.
— E então...
— Vou dizer-lhe o que deve fazer, miss Lucientes... ou
seja lá quem for. Desça do táxi antes que eu e dirija-se para a
estátua de Garibaldi, conforme o combinado, para que Iskra
se aproxime. Quando estiver a dois passos dele, atire-se no
chão. É a única maneira de salvar sua vida. Compreendeu?
— Vocês são muito generosos comigo — murmurou
“Baby”. — Não é comum perdoar a vida dos espiões
inimigos.
— Você não é nossa inimiga. Mas passaremos a
considerá-la assim, se não cumprir a sua parte. Volte para os
Estados Unidos, diga que lhe arrancaram Iskra das mãos, e
pronto.
— Obrigada. Sinceramente, muito obrigada. Mas, que
acontecerá se Iskra não se aproximar de mim, se não
comparecer ao encontro?
O sujeito que parecia um cigano olhou fixamente para a
espiã internacional.
— É melhor que se apresente, minha cara.
— Compreendo. Mas eu não tenho culpa se...
— Estamos chegando ao Parque Gianicolo. Agora você
desce, enquanto eu permaneço no táxi. Encaminhe-se para o
encontro com Iskra. E, lembre-se: a dois passos dele, atire-se
no chão. Sua vida depende disso.
— Terei isso em conta. Desço agora?
— Sim — o cigano elevou a voz e falou para o motorista,
em italiano: — Pare aqui, por favor.
O táxi parou perto de uma das entradas do jardim e o
motorista voltou-se, olhando sorridente para Brigitte, que
assentiu com a cabeça. No mesmo instante, a mão direita do
chofer surgiu por cima do encosto empunhando uma
imponente pistola, equipada com silenciador, apontando-a
contra o peito do espantado cigano.
— Pois é! Está vendo como são as coisas? — sorriu
Brigitte. — Você tem uma pistola no bolso e meu amigo tem
uma na mão!
— Mato? — perguntou o motorista.
— Não, Johnny. Embora o merecesse, por ser inepto.
Então ele não percebeu que este táxi é o mesmo que tinha me
levado do hotel ao restaurante, e que isso não é comum numa
cidade grande como Roma?
— Existem espiões medíocres... Que fazemos com ele?
Brigitte tornou a sorrir e olhou para o cigano, que havia
empalidecido um pouco. Subitamente, sem deixar de sorrir, a
moça lançou sua mão direita à garganta do desconhecido e
ineficiente espião. Este ainda tentou aparar o golpe, ao
perceber a intenção da jovem, mas já era tarde. A pancada
ressoou surdamente no interior do veículo e a cabeça do
homem caiu sobre o peito.
— Golpe de mestre — comentou Johnny. — O outro
carro parou ali atrás.
— Vão ter que esperar um pouco — comentou Brigitte,
enquanto revistava o homem adormecido a seu lado.
— Quem é? — tornou a falar o falso motorista, vendo
que a jovem examinava alguns documentos que pareciam de
identidade.
— Chama-se Ferenc Kzorvac. É húngaro.
— Parece que Iskra não se portou muito bem com os
húngaros durante a revolta de 1956...
— É. E como não se portou bem em vários países seus
respectivos serviços secretos, informados por Moscou da
fuga do grande agente, devem estar à sua procura.
— Iskra, então, parece não ter sido muito boa pessoa —
comentou Johnny no mesmo tom levemente irônico da bela
“Baby”.
— Não. Mas, tudo isso, Johnny, parece indicar que a fuga
é verídica. Iskra abandonou os soviéticos e quer mesmo
passar para o Ocidente, em troca de alguma informação
muito valiosa.
— Suponho que seja assim, qual é o verdadeiro Iskra? O
de Roma? O de Nice, ou o de Palma de Maiorca?
— Ainda não sei. Mas vou saber. Por enquanto, vamos
continuar seguindo as regras do jogo. Mas... não quero
deixar os amigos de Ferenc esperando por mais tempo...
— Que vai fazer?
— Contar-lhes que Ferenc Kzorvac está... indisposto.
— O quê? Você vai até lá...?
Mas “Baby” já não o ouvia. Tinha descido do carro e
dirigia-se em passo gracioso para o outro, sem dissimular sua
intenção. A bolsa balançava suavemente ao ritmo de seu
andar. Ao peito, levava a flor.
Quando se encontrava a uns quinze metros do carro,
levantou as mãos em sinal de paz e rendição. Os três
homens, um na frente e os outros dois atrás, tinham sido
tomados de surpresa por sua atitude inesperada.
Ela sabia perfeitamente que três revólveres apontavam
em sua direção, desde que saltara do carro que a conduzira,
mas não se intimidou em absoluto por isso.
Quando se encontrava a três passos do veículo, ergueu
rápida e inopinadamente o braço direito, lançando para
dentro da janela aberta um pequeno objeto, redondo e
brilhante. Ao mesmo tempo, saltava para frente, indo cair
bem por baixo do carro.
A porta ao lado do motorista abriu-se de golpe, mas o
homem não chegou sequer a pôr o pé no chão. Caiu de
bruços sobre o volante, ao mesmo tempo que seus
companheiros, no assento traseiro, escorregavam lentamente
para o fundo do carro.
Alguns segundos depois, ainda segurando um lenço
contra o narizinho, “Baby” saía de sob o automóvel.
Guardou o lenço na bolsa e olhou sorrindo para os três
húngaros adormecidos.
— Mandaram pardais para caçar um gavião... —
suspirou. — Rapazes, vocês tiveram sorte em tropeçar
comigo, antes de encontrar Iskra.
Empurrou o motorista adormecido para o lado e sentou-se
ao volante. Pôs o carro em movimento, levando-o para junto
do táxi dirigido por Johnny.
— Devo cumprimentá-la? — perguntou este, sorridente.
— Talvez, se estiver pensando nas quatro vidas que
acabo de salvar. O resto foi coisa banal, que faço com
frequência e sem esforço algum. Quer trazer o Ferenc para
junto de seus amigos, aqui neste carro?
— Que vamos fazer com eles?
— Ainda não sei — respondeu ela, consultando seu
relógio de pulso. — Iskra não deve demorar. Ande depressa,
Johnny.
Depois que Johnny fez a transferência, ela atirou outra
ampolazinha no carro dos húngaros, já que Ferenc poderia
acordar antes dos companheiros. Agora todos dormiriam até
à meia-noite, pelo menos.
— Espere aqui, Johnny, Iskra deverá chegar a qualquer
momento, e você vai levá-lo até o lugar que lhe indiquei. Eu
seguirei neste outro carro.
— Muito bem.
Brigitte tornou a entrar no automóvel dos húngaros
adormecidos, pois o gás já se dissipara, permanecendo,
porém seu efeito nos quatro homens. Levou o veículo para
um ponto mais afastado. Desceu, colocou a pistolinha de
cabo de madrepérola na palma da mão esquerda e penetrou
nos jardins, caminhando diretamente para a estátua de
Garibaldi.
Nem por um momento deixou de pensar que aquilo podia
ser uma cilada de consequências imprevisíveis para a CIA,
ou para ela própria. Mas, se fosse uma armadilha, a MVD
teria que aprender, de uma vez por todas, que não se pode
importunar a agente “Baby” impunemente.
***
No entanto, não era uma cilada. Pelo menos, não naquele
momento, no Parque de Giancolo.
Fazia apenas dez segundos que Brigitte passeava como
que distraída perto da estátua equestre, quando um homem
surgiu por detrás de uma das árvores que crescia no
gramado. Era um indivíduo de média estatura, cheio de
corpo, ombros largos. As luzes refletiram-se duas vezes em
seus óculos, enquanto caminhava em direção a Brigitte, que
ficou a esperá-lo, imóvel, avaliando com o cenho franzido a
personalidade daquele famosíssimo agente soviético.
Antes que Brigitte chegasse a uma conclusão sobre ele, o
homem parou diante dela, olhando-a fixamente. Sua boca era
um traço fino por cima de um queixo robusto. Os olhos
alongados e estreitos, quase mongólicos. Cabeleira espessa,
abundante, com numerosas cãs. Não deveria ter menos que
cinquenta anos. Seu porte, a atitude fria e alerta, lembravam
um tigre desconfiado, mas demasiado seguro de si para
demonstrá-lo.
— Miss Lucientes?
— Iskra?
— Se tudo estiver arranjado, vamos sair de Roma. Para
onde?
— Um de meus companheiros está à sua espera num táxi.
Ele o deixará no lugar conveniente.
— Que lugar?
— Um lugar. Só isso.
— Está bem. O táxi?
— Não me viu chegar?
— Vi.
— Então, siga o caminho por aonde vim e tome o táxi
que está esperando, com os faroletes acesos. Não é preciso
dizer nada. Apenas embarque no carro.
— Certo.
O espião soviético afastou-se, seguindo pelo caminho por
aonde viera a espiã americana. Brigitte acompanhou-o de
longe, até vê-lo tomar o carro, em cuja direção se achava
Johnny. Subiu, depois, ao automóvel dos húngaros. Estes
estavam dormindo e continuariam assim pelo menos por
mais três horas, que era quanto duravam os efeitos do gás
contido nas ampolas de finíssimo vidro.
Assim que ligou o motor, pronta para arrancar, Brigitte
fez os faróis piscarem duas vezes. No mesmo instante, o táxi
pôs-se em movimento, e ela partiu, seguindo-o.
Saíram de Roma por noroeste, tomando a estrada que em
primeiro lugar leva a La Storta, mas meio quilômetro antes
de chegar a esta localidade o táxi abandonou a estrada.
Entrou para um caminho ruim, de terra e esburacado, que
colocou à prova os amortecedores de ambos os carros.
Finalmente, por volta das dez da noite, depois de uma hora
de marcha lenta e incômoda, o táxi parava entre um espesso
grupo de pinheiros. Cinco metros atrás parou o carro
conduzido por Brigitte.
A jovem desceu rapidamente e encaminhou-se para o
táxi, abrindo a porta de trás.
— Pode sair, Iskra.
O russo desceu e ficou de pé, diante da americana, com
os olhos semicerrados. Não parecia ter um tico de medo, mas
talvez estivesse um tanto inquieto, nervoso.
— O que é que estamos fazendo aqui? — perguntou ele.
— O microfilme — e Brigitte estendeu-lhe a mão direita.
— Não pretendo entregar o microfilme até que...
A pequena pistola de “Baby” surgiu diante dos óculos do
espião russo.
— O microfilme — exigiu ela, em tom glacial.
O cenho de Iskra se franziu, denotando seu
aborrecimento. Mas acabou por encolher os ombros. Tirou
um sapato, girou o salto para um lado, revelando uma
concavidade de onde retirou uma pequena cápsula de aço,
exibindo-a na palma da mão. Brigitte apanhou-a com a
esquerda, em silêncio, segurando-a entre os dedos indicador
e polegar. Não era maior do que uma ervilha, das grandes.
— Johnny — chamou. — Faça com que Iskra fique
completamente desarmado. Preciso examinar isto. Alguma
objeção, Iskra?
— Não.
Brigitte entrou no táxi, levantou a almofada do banco
traseiro e apanhou a maleta vermelha, adornada de
florezinhas azuis. Retirou dela um pequeno visor a pilhas.
Em menos de um minuto colocava o microfilme na
minúscula ranhura do aparelho, cuja tela tinha cinco
centímetros de largura, por três de altura. Nessa pequena tela
surgiu, com surpreendente nitidez, dado seu reduzido
tamanho, o mapa do continente europeu, cortado por
finíssimas linhas vermelhas e marcado por mais de cinquenta
pontos azuis, em lugares como Paris, Madri, Lisboa, Roma,
Viena, Londres, Atenas, Praga... As mais importantes
cidades da Europa estavam assinaladas ali com pontinhos
azuis. E todas elas unidas pelas linhas vermelhas.
Brigitte puxou suavemente a fita de microfilme,
colocando na tela a fotografia seguinte. Era também um
mapa da Europa. Somente que agora havia pequenos e claros
desenhos de sistemas de radar e de projéteis teleguiados,
cujas pontas superiores pareciam querer perfurar as cidades
assinaladas com pontinhos azuis no mapa anterior. A foto
seguinte mostrava novamente a Europa, agora com mais de
cem pontinhos azuis e coberta de linhas vermelhas, unindo-
os entre si.
Em seguida apareceram os mapas de todo o Continente
Americano, da África, da Ásia, da Austrália, de importantes
grupos de ilhas no Pacífico, no Indico, no Atlântico, no Mar
do Japão, no da China... Na verdade, todas as partes do
mundo estavam ali, naquelas cinquenta microfotografias. E
em cada uma se viam, ou pontos azuis com linhas vermelhas,
ou desenhos de radar e de foguetes teleguiados.
“Baby” levou mais de meia hora no exame de tudo
aquilo. Ao terminar, enrolou o microfilme e tornou a guardá-
la na cápsula de aço. Pôs o visor de pilhas na maleta e saiu
do carro.
Bem próximo, estava Johnny, revólver em punho,
vigiando Iskra que se sentara no banco do motorista do táxi,
com a porta aberta, e fumava placidamente.
— Se eu estiver errada, corrija-me — murmurou ela,
dirigindo-se a Iskra. — Esses microfilmes assinalam os
pontos de queda dos novos teleguiados soviéticos, dirigidos
agora contra cidades, e não contra objetivos militares.
Indicam, ainda, os pontos clandestinos de vigilância por
meio de radar, montados em todo o mundo, à espera de
possíveis projéteis americanos. Mostram, além do mais, os
pontos-chave de grupos de agentes da MVD, distribuídos por
todo o mundo, e seus sistemas de comunicação direta entre
si. Certo?
— Certíssimo. Pensei que não fosse entender.
— Já viu que se enganou. E tudo isso me parece tão
fantástico, Iskra, que não posso acreditar. Sinto muito.
— Acha, então, que estou mentindo? Que isso é uma
cilada?
— É o que eu acho. Na verdade, se pensarmos um pouco,
vemos que você está colocando em nossas mãos a completa
inutilização de todo o sistema defensivo e de espionagem da
Rússia no mundo inteiro. Não é?
— Isso mesmo.
— Não posso acreditar. A não ser que me dê uma
explicação inteligente, que convença, das razões que levam
você a colocar-se contra seu próprio país, depois de vinte e
cinco anos de espionagem a seu favor.
— Quero terminar meus dias em paz.
— Não compreendo.
— Estou ficando velho. Há certos espiões que, ao
chegaram a uma idade avançada, talvez possam ser mais
úteis do que antes. Eu não estou nesse caso. O dia em que já
não puder agir diretamente, entrando em ação efetiva, terei
terminado minha carreira como Iskra. Então, é possível que
decidam suprimir um cérebro que está a par de todos os
pormenores da espionagem russa.
— Você acha que já chegou esse momento?
— Chegará muito em breve. Na minha idade, os esforços
físicos não são fáceis. Serei retirado do serviço ativo... e não
tardarão a concluir que um espião aposentado é mais um
estorvo do que outra coisa.
— E que espera conseguir nos Estados Unidos?
— Um milhão de dólares, um passaporte americano e
uma cabana num lugar montanhoso e nevado. Caçar, pescar,
dormir, ouvir música, ler... Esperar que a morte venha por si
mesma, e não pelas mãos de um novo agente da MVD,
ansioso para fazer alguns pontos...
Brigitte Montfort passou a mão pelo queixo, em atitude
pensativa, sem tirar os olhos do traidor da MVD. Não era
fácil tomar uma decisão em assunto de tal natureza e naquele
instante. No entanto, ela ali viera para tomar decisões.
— Estava armado, Johnny? — perguntou repentinamente.
— Apenas uma pistola. Agora está completamente
desarmado, com absoluta certeza.
— Bem... Vá preparar a viagem. Vamos levá-lo... Isto é,
você vai levá-lo ao lugar combinado.
— Okay.
Johnny afastou-se em direção a uns pinheiros mais
separados, em torno dos quais, surpreendentemente,
cresciam numerosas canas. E estas nada mais eram do que
um disfarce que escondia o helicóptero pintado em cor
escura.
Iskra deve tê-lo visto, pois se voltou vivamente para
Brigitte:
— Com isso não chegaremos aos Estados Unidos...
— Você não vai para os Estados Unidos... ainda. Tenha
paciência, Iskra. Há de compreender que na CIA estejamos
tomando todas as precauções possíveis.
— Para onde vão me levar agora?
— Para um lugar mais confortável do que aquele que uns
tantos húngaros tinham escolhido para você.
— Como?!...
— Quatro agentes do serviço secreto húngaro estão
adormecidos no outro carro, Iskra. Queriam matá-lo.
Segundo parece, de Moscou, por meios extraordinariamente
simples e fáceis, foram informados sobre alguns dos lugares
na Europa onde, possivelmente, poderiam encontrar Iskra. E
o serviço secreto húngaro resolveu... acertar algumas contas
atrasados que tinha com você. O que foi que você lhes fez
em 1956?
— Você... está mentindo!
— Quer ver os húngaros?
— Quero! É lógico!
— Então venha.
Encaminharam-se os dois para o outro carro e Brigitte
acendeu a luz interna. Iskra ficou olhando aquele monte de
homens adormecidos sob os efeitos do gás. Brigitte olhou o
russo de soslaio e percebeu a intensa palidez de seu rosto.
— Admirado, Iskra?
— Essa... informação jamais poderia ter saído de
Moscou.
— Mas saiu. De outra maneira, os húngaros não o teriam
encontrado. Isto quer dizer, como você compreende, que a
MVD está usando de todos os recursos possíveis para acabar
com a sua vida, para impedi-lo de sair vivo da Europa.
— Mas como é que esses homens estão aí, desacordados?
— Digamos que eu lhe salvei a vida, Iskra.
— Compreendo. Estavam atrás de mim?
— Sem dúvida. E imagino que estes não sejam os únicos
a tentar aproveitar a oportunidade para liquidar Iskra. No
fundo, creio que eles têm razão, mas, evidentemente, não
pretendo deixar que o matem, pois você, vivo, pode ser
muito interessante para a CIA. Assim, sem que você tenha
que se preocupar com coisa alguma, vamos arrancá-lo deste
vespeiro... Pronto, Johnny?
— Tudo pronto — respondeu Johnny, aproximando-se.
— Ótimo. Iskra, tome o helicóptero... Não. Espere: é
melhor você nos ajudar a colocar estes homens lá.
— No helicóptero? — espantou-se Iskra.
— Exato.
— Mas...
— Sei o que faço.
— Está bem...
Os dois homens, Johnny e Iskra, ajudados por Brigitte,
levaram os húngaros para o helicóptero que, certamente, ia
ficar com excesso de peso. Depois que o russo se acomodou
no assento dianteiro, a espiã americana chamou seu auxiliar
de lado e deu-lhe as últimas instruções:
— Dentro de uma hora, aproximadamente, vocês estarão
sobrevoando o estreito de Messina. Baixe à terra, em
qualquer ilhota, e deixe ali os húngaros, sãos e salvos.
Entendeu?
— Entendi. Você tem um coração muito grande, “Baby”.
— Tão grande quanto o da pantera que perdoa as
insolências de uns macaquinhos bobalhões. Agora, com
relação a Iskra: ele não vai tentar nada. Será dócil e
obediente, de maneira que você poderá levá-lo
tranquilamente para o lugar combinado na ilha de Maiorca...
— Você acha que é realmente Iskra? O que é que estão
tramando, “Baby”?
— A resposta às duas perguntas é: “não sei”. Mas sei que
Iskra será dócil e obediente. Entretanto, Johnny, você deverá
ficar permanentemente alerta e... Bem, tudo se reduz a esta
ordem que deve ser cumprida rigorosamente: não abra a
boca em nenhum momento. Seja lá o que for que Iskra
perguntar, comentar ou sugerir, você não dirá uma só
palavra. A partir de agora, você é um mudo. Seu trabalho
consiste em deixá-lo em Maiorca, no lugar combinado e
seguir imediatamente para Nice. Alguma dúvida?
— Nenhuma.
— Então, até amanhã, em Nice.

CAPÍTULO QUARTO
Tudo anda errado, segundo a velha nobreza de França
A memória dos anciãos é tão fraca!
Nada melhor que a multidão para um encontro discreto

Às dez da manhã do dia seguinte, chegou a Nice o


primeiro avião saído de Fiumicino. Entre os vários
passageiros havia uma anciã de cabelos brancos, porte
aristocrático, olhos azuis, trajando um vestido negro e
severo, com uma impertinente bengala de ébano e punho de
ouro. Tão impertinente quanto a bengala, era o lorgnon
pendurado sobre o peito por uma fita de seda preta.
Impressionava por seu vestido austero, 'de saia longa, o olhar
carregado de reprovação contra tudo e contra todos, o porte
senhoril. Não teve a menor dificuldade em ser admitida da
França. Afinal de contas, era cidadã francesa: nada mais,
nada menos que Madame La Duchesse de Montpelier.
Exatamente isso: Annette Simonet, Duquesa de
Montpelier. Um passaporte mais falso do que um cartão
postal mostrando a Estátua da Liberdade na Praça Vermelha
de Moscou, mas... perfeito.
A duquesa, seguida por dois carregadores com a
bagagem, caminhava pelo salão com sua aristocrática
impertinência, apontando a bengala para a frente como se
quisesse derrubar com uma estocada o primeiro ousado que
se atravessasse em seu caminho. Naturalmente, o maior
divertimento da senhora duquesa era reclamar de tudo e de
todos, a começar por Roma, passando por Paris, para
terminar nos serviços aduaneiros do Aeroporto de Nice.
— Vou buscar um táxi, Madame? — perguntou um dos
rapazes.
— Para quê?!
— Bem... Para ir a Nice, Madame...
— Eu tenho o meu próprio carro, menino! Mas esse
cretino de Jean Pierre... Ah! Lá vem ele, sempre atrasado!
Coloquem a bagagem no porta-malas. Quanto lhes devo?
— Preferimos deixar isso à sua vontade, Madame...
— Não senhores! Com quem pensam que estão falando?
Com uma turista? Saibam, meninos, que quando vocês ainda
nem pensavam em nascer, eu já conhecia todas as artimanhas
de “espertotes” como vocês. Quanto?
Os dois rapazes murmuraram a importância regulamentar
e, enquanto colocavam as malas no magnífico Mercedes
negro, a aristocrática dama contava cuidadosamente umas
tantas moedas, estendendo-as aos carregadores quando estes
terminaram o trabalho. Em seguida, lançando um olhar de
crítica arrasadora ao jovem e correto motorista Jean Pierre,
entrou no carro. Jean Pierre fechou a porta, passou ao
volante e partiu em direção a Nice, sob o olhar desconsolado
dos dois rapazes.
— Puxa! Que senhora! — exclamou um deles.
— Até que não foi pão-dura. Já conheci várias desse tipo.
Passam o dia todo resmungando, mas no fundo...
Dentro do Mercedes, Madame La Duchesse de
Montpelier soltou um profundo suspiro e ficou mais à
vontade. Acendeu um cigarro americano e olhou sorridente
para Jean Pierre, por meio do espelho retrovisor.
Depois de lançar a primeira baforada, perguntou:
— Então, tudo bem, Johnny?
— Perfeito.
— Que aconteceu com o nosso Iskra?
— Deixei-o na casinha perto de Valldemosa, em
Maiorca.
— Protestou contra alguma coisa?
— Seria o cúmulo! Nem todo o mundo pode residir nas
proximidades do lugar onde, em 1838, Chopin viveu seu
belo romance com George Sand, a...
— Conheço a história, Johnny. Fez perguntas? Quis saber
alguma coisa, nomes, relações, vias de comunicação da CIA
com a América?...
— Você me disse para ficar calado, não foi isso? Pois
bem: ele manteve-se mais calado do que eu. Aceitou tudo,
não perguntou nada, não fez nada. Foi como se eu estivesse
transportando um robô.
— Não me fale de robôs — estremeceu-se Brigitte. —
Ainda me lembro... Brrrrrr!...1
— De que é que você está falando?

1
Na aventura “Assassinos Invencíveis”, volumes 77 e 78 desta coleção, Brigitte
enfrentou robôs assassinos. NR
— Nada. Suponho que em Nice as coisas estejam tão bem
preparadas quanto em Roma.
— Espero que sim.
— Espera?! Se não tiver certeza...
— Vou contar a verdade, “Baby”: não estou acostumado
a trabalhar só, de modo que receio falhar a qualquer
momento.
— Isso é falta de segurança, Johnny.
— Talvez. Mas, sendo assim, é meu dever informá-la.
— Acha que é muito cansativo fazer tudo sozinho sem a
ajuda de um companheiro?
— Cansativo?... Não, de modo algum! Gosto de ação.
Mas é que estou acostumado a trocar ideias com os colegas
com quem trabalho. Fazer tudo por minha conta me deixa
um pouco... indeciso. De qualquer maneira, espero que tudo
dê certo.
— É assim que deve ser, Johnny. Um espião precisa
saber contar apenas consigo para qualquer coisa, em
qualquer parte do mundo e em quaisquer situações.
— Bonitas palavras. Mas se todos pudéssemos conseguir
isso, haveria no mundo muitas Babies e muitos Número
Um...
— Número Um... — murmurou Brigitte. — Foi uma
pena ter morrido, não acha, Johnny?
— Dizem que ele está vivo...
— Bobagem. Eu vi quando morreu — mentiu Brigitte,
impávida. — Quanto a ser você o único a colaborar comigo
neste caso, a explicação é simples. Não quero arriscar um só
agente, além do necessário. Se isto for uma cilada, uma
jogada suja da MVD, cairemos você e eu, Johnny. Mas
ninguém mais.
— Entendo e acho muito certo. Por que escolheu a mim?
— Não fui eu que escolhi, mas a Central. Pedi que me
dessem um dos rapazes mais vivos e o mais pão da Europa, e
colocaram você a meu serviço. E devo dizer — mudou o tom
de voz, empregando a fala esganiçada da Duquesa de
Montpelier — que você está fazendo tudo muito bem, Jean
Pierre.
Johnny desatou a rir.
— Dá gosto trabalhar com “Baby”, no duro! Não fiz
reserva em hotel porque me pareceu desnecessário, uma vez
que o encontro é às doze da manhã.
— Fez bem. Tomamos um lanche rápido em algum lugar
agradável e depois vamos ao Parque Alberto I, recolher
nosso segundo Iskra. Estou doida para ver como é esse outro
espécime da espionagem russa. Por falar nisso: Arranjou o
exemplar da revista Life?
— Glaxo, Madame La Duchesse!
Às doze menos cinco, o Mercedes estacionava num ponto
da Place Massena, diante do Syndicat d’Initiative de Nice.
Por trás ficava o Parque Alberto I, com suas palmeiras,
árvores exóticas, gramados e alamedas.
Johnny desceu rapidamente do veículo, abriu a porta para
Madame La Duchesse que, ao pôr os pés em terra, olhou em
volta com seu habitual ar de crítica em relação a tudo,
indicando vários pontos.
— Isto aqui deveria estar muito mais limpo —
resmungou.
— Mas, se Madame me permitir, tudo está tão limpo!
— Bah! Está horrível! E estas arcadas em estilo genovês
do século XVII, que fazem aqui em Nice? Por que não as
levam para Gênova?
— Ia ficar muito caro, Madame...
— A França tem muito dinheiro! De qualquer maneira, é
bom voltar a tudo isto. O Cassino, a Fonte do Sol... E vejo
que o Mont Vial continua o mesmo lugar simpático de
sempre.
Johnny olhou, sorrindo, para a Avenue de la Victoire. Ao
longe, com efeito, via-se o monte, com seus quase mil e
quinhentos metros de altitude.
— Também seria muito caro transladar a montanha,
Madame... Se me permite, direi que faltam apenas três
minutos para o meio-dia.
— Ah! Sim... Vejamos como sairão as coisas esta vez.
Sabe de um detalhe que muito me aborrece, Johnny?
— O quê?
— A idade de Iskra: cinquenta anos, a média que se
calculou para ele. Para ser sincera, eu preferiria que tivesse
trinta, ou por aí. Enfim...
Apoiou-se na bengala e encaminhou-se para o Parque
Alberto I, com seu passo incerto de anciã que não quer
admitir a passagem dos anos, olhando para todos os lados
com o auxílio de seu lorgnon, preso graciosamente quase na
ponta do nariz. Atrás dela, com ar de protetor e criado de
confiança, o agente auxiliar da CIA, não menos alerta que a
aristocrática dama.
Às doze em ponto, com um exemplar da revista Life,
edição francesa, enrolado na mão esquerda, Annette
Simonet, Duquesa de Montpelier, parava em atitude crítica
diante da Fonte dos Tritões. Ficou observando o chafariz
durante alguns segundos e, por fim, resmungando, dirigiu-se
a um dos bancos próximos. Sentou-se, segurando no regaço
a revista, de maneira que a palavra Life ficasse perfeitamente
visível e fez um sinal a Johnny, que se aproximou solícito.
— Madame?
— Quero um cigarro.
— Oui, Madame.
O falso Jean Pierre sacou uma cigarreira de prata, extraiu
dela um cigarro dourado, enrolado a mão, e colocou-o entre
os dedos da senhora. Acendeu um isqueiro, aproximando a
chama da ponta do cigarro, que a duquesa já colocara entre
os lábios. Ela aspirou com grande deleite a fumaça e
continuou a observar o chafariz, fazendo sinais ao chofer
para que se afastasse.
Estava fumando já há uns dois minutos, gozando as
carícias do sol, quando surgiu um cavalheiro. Aproximou-se
com decisão do banco, sorrindo amavelmente.
— Me permite?
A duquesa olhou-o por um instante.
— Pois não...
Naquele breve olhar, fotografou mentalmente o
indivíduo. Teria seus sessenta anos, barba bem tratada,
embranquecida como os cabelos, e bigodes de pontas
ligeiramente curvadas para cima. Olhos claros, porte
elegante a maneiras cavalheirescas. Vestia-se
impecavelmente.
Sentou-se, contemplou a fonte, lançou um olhar de
soslaio para a dama e depois para Jean Pierre que, a certa
distância, parecia vigiar com grande interesse a idosa patroa.
— Humm... Vejo que a senhora está lendo uma revista
muito interessante, Madame.
— Não estou lendo, Monsieur. Qualquer um pode ver que
não estou lendo.
— De fato. Quis dizer que a revista Life é muito
interessante, pelo menos para mim.
A Duquesa de Montpelier voltou-se diretamente para o
cavalheiro de sessenta anos a seu lado, examinando-o de alto
a baixo e falou cortês, mas friamente.
— Cavalheiro, — devo adverti-lo de que não estou em
idade de... aceitar galanterias, nem conversações triviais com
características de abordagem.
— Perdão... Eu não pretendi...
— Conheço muito bem os tipos como o senhor, que nem
respeitam sua própria idade. Se está procurando companhia,
é melhor mudar de rumo. Bom-dia.
— Eu estava apenas interessado em sua revista, Madame.
— E por que tanto interesse?
— É que... Bem, eu estou esperando uma pessoa que
deveria vir aqui, com uma revista Life enrolada na mão
esquerda, exatamente ao meio-dia.
— Que coincidência, Monsieur! Foi um encontro igual a
esse de que o senhor está falando, que marcaram comigo por
meio de uma carta enviada a Paris...
— A Washington — corrigiu o cavalheiro.
— Ah! Sim! Washington. Estou ficando tão velha! Minha
memória tem andado muito mal nesses últimos anos. Certa
ocasião, quando eu estava em Paris, minhas duas netas
convidaram-me por telegrama para a festa de seus
aniversários...
— São da mesma idade, Madame?
— São gêmeas. Pois me disseram que me esperavam para
o aniversário em Chamonix. E sabe o senhor onde é que eu
fui parar?
— Em Chamonix, creio.
— Não, não! Em Acapulco!
— Não, Madame! Não é possível!
— Pois é verdade embora ninguém acredite! Já viu como
eu ando de cabeça, Monsieur... Monsieur...
— Não sabe o meu nome?
— Não. Acho que o senhor não disse o seu nome. Mas eu
poderia chamá-lo de... Iskra. Agrada-lhe esse nome?
— Fico encantado, Madame... Madame... ?
— Não sabe o meu nome?
— Não. Mas eu poderia chamá-la de... “Baby”. Não lhe
agrada?
— Gostaria de poder dizer que sim. Mas receio que o
senhor terá que se conformar com uma simples Annette
Simonet, Duquesa de Montpelier.
— Maravilhoso!
— O quê?
— Que a senhora seja duquesa.
— Creio que na Rússia eu não duraria muito, monsieur
Iskra. Mas, como estamos na França, posso permitir-me esse
luxo. E agora, deixando de lado essas brincadeiras, eu
pergunto: que provas- pode me dar de que é Iskra?
O tom de Annette Simonet tinha mudado radicalmente.
Sua voz tinha sido fria e cortante, embora conservasse aquele
timbre esganiçado da Duquesa de Montpelier.
O homem espantou-se um pouco e ergueu as
sobrancelhas.
— Não entendo, Madame. Escrevi para a CIA marcando
este encontro com um de seus agentes. Acha que, se eu não
fosse Iskra, estaria aqui, teria me aproximado por causa da
revista Life, teria admitido ser Iskra?
— Está bem. Concordo. Você é Iskra.
— Obrigado, Madame.
— Portanto, sem dúvida, tem alguma coisa para me
oferecer. Alguma coisa que, segundo a sua carta, despertaria
o máximo interesse da CIA. O que é que tem, monsieur
Iskra?
— Um microfilme.
— Oh!... Que interessante! Posso vê-lo?
— Não neste momento, Madame.
— Por que não? Ninguém vai achar estranho que um
casal de velhinhos se ponha a olhar através da luz do sol um
rolinho de filme, não acha?
— Claro. Mas acontece que não tenho o filme comigo.
— Onde está?
— Despachei-o de Varsóvia, pelo Correio, em nome de...
Bem, em nome de um homem que em várias ocasiões teve
sua base em Nice. Neste instante, o pacote com o microfilme
está esperando na caixa do correio de uma casa aqui perto.
— A ideia não é nova, mas serve. O que contém esse
microfilme, monsieur Iskra?
— Seria melhor a senhora mesmo vê-lo. A não ser que
não esteja preparada para compreender certos aspectos de...
— Não tenha dúvida: eu saberei entender tudo direitinho
— sorriu a dama. — Mas, é claro, para isso preciso ter o
microfilme em mãos. Qual é o endereço dessa casa,
monsieur Iskra?
— Se não se incomodar, prefiro ir até lá com a senhora,
para apanhá-lo pessoalmente. Na mesma hora eu o entregarei
para que o examine quanto quiser. É claro que a minha saída
da Europa para os Estados Unidos está convenientemente
preparada, por meios fora do comum, isto é, sem que seja
necessário utilizar as linhas regulares de transporte?
— Não se preocupe com isso, Monsieur. Com toda a
sinceridade, posso dizer-lhe que a CIA exultou quando
recebeu a carta dizendo que poderiam dispor de nada menos
do que Iskra, o mais eficiente, astuto e misterioso espião
russo nos últimos vinte e quatro anos.
— Estou às suas ordens, Madame. E desejoso de chegar
aos Estados Unidos.
— Sairemos à noite, monsieur Iskra. Por motivos de
segurança, é claro. E por esses mesmos motivos, sugiro que
até lá não devemos permanecer juntos. Corre-lhe algum
lugar onde nos possamos reunir depois do jantar, sem
qualquer risco, para depois irmos apanhar o microfilme?
— Já pensei nisso e acho que tenho o lugar ideal. É
discreto. Muito discreto.
— Onde?
— No final da Rue Durante...
Madame La Duchesse ergueu as sobrancelhas,
surpreendida. Logo em seguida, sorriu.
— Ótimo, monsieur Iskra! Creio que se refere à Estação
da Estrada de Ferro.
— Exato. A estação da SNCF. Esteja lá às dez em ponto,
na saída da Avenida Thiers. Como a senhora deve saber não
há lugar mais discreto do que aquele sempre cheio de gente.
— Certo — sorriu a dama. — Estarei lá às dez em ponto.
— Mas não em seu Mercedes, Madame La Duchesse.
— Claro que não! Para isso, usaremos um carro modesto,
discreto. Iremos buscar o microfilme, eu o examinarei e, se
estiver de acordo com seu conteúdo, esta mesma noite o
senhor fara sua primeira escala, rumo aos Estados Unidos.
— Parece que estamos entendidos, Madame.
— Perfeitamente, Monsieur.
Iskra levantou-se.
— Bom-dia, Madame. Foi um prazer.
— Bom-dia, Monsieur. Até mais tarde.
CAPÍTULO QUINTO
A tranquilidade mora numa casinha no alto da colina
Rejuvenescimento instantâneo de uma senhora anciã

Às dez horas em ponto, Madame La Duchesse de


Montpelier estava diante da estação da SNCF, na esquina de
Avenue Thiers com a Rue Durante, apoiada sobre a direção
do pequeno Fiat de duas portas.
Quando começava a impacientar-se, a porta foi aberta do
lado direito e Iskra entrou no carro, surgindo de entre o povo
que pululava em volta da estação ferroviária.
— Boa-noite, Madame.
— Boa-noite, Monsieur. Devo dizer-lhe que a
pontualidade não parece estar entre as suas tão decantadas
virtudes.
— Foram apenas dois minutos, Madame...
— Em dois minutos pode-se morrer cento e vinte vezes.
Para onde vamos?
— Coline de Cirniez, pelo Boulevard. Conhece essa parte
da cidade?
— Mas é claro! Qual é o endereço exato?
— Indicarei o caminho.
— Muito bem.
Brigitte deu a volta e seguiu pela Avenue Thiers, em
direção ao Boulevard Cimiez. Uma vez ali, o terreno subia
suavemente e, seguindo as indicações de Iskra, dirigiu
durante uns quinze minutos, parando, finalmente, numa
avenida solitária e silenciosa. Colina abaixo, brilhavam as
luzes coloridas de Nice e o mar refletindo as estrelas.
À direita da rua, um pouco adiante de onde estavam
estacionados, via-se uma casa, pequena, mas graciosa, cujo
minúsculo jardim estava separado da rua por uma gradezinha
de madeira pintada de branco.
— A casa é aquela — disse Iskra. — Ainda não estive lá,
nesta minha passagem por Nice, mas quero crer que a carta
da Polônia já chegou.
— Então, vamos apanhar esse microfilme. Sem ele, o
senhor teria muito pouco a oferecer à CIA em troca de nossa
hospitalidade.
Desceram os dois. Madame la Duchesse apanhou sua
maleta vermelha com florezinhas azuis, que estava no banco
de trás, e olhou com um sorriso irônico para o diminuto
objeto metálico preso ao assoalho do carro, junto ao encosto
do banco dianteiro.
Fechou o carro e, segurando a maleta na mão direita e a
bengala na esquerda, pôs-se a andar em direção à casa, ao
lado de Iskra, que esquadrinhava os lados furtivamente.
— Preocupado? — sorriu ela.
— Um pouco.
— É o que acontece com o passar dos anos. Começa-se a
sentir mais apego à vida. O mesmo se dá comigo.
— A senhora é jovem.
— Jovem! Ora, Monsieur, por favor!
— Parece de fato uma anciã, mas eu sei que não é. Pelo
menos, acho que não é.
— Oxalá tivesse razão, Monsieur — suspirou a duquesa.
— Eu bem que gostaria de ser jovem, bonita, com o corpo
elástico e os olhos brilhantes!
Iskra encolheu os ombros. Chegaram diante da cerca de
madeira e passaram pelo portãozinho, apenas fechado por
um trinco. Enquanto percorriam o curto caminho de cascalho
que levava à porta de entrada, Iskra tirou do bolso uma
chave.
Abriu a porta e afastou-se para dar passagem à senhora.
— Entre, Madame. Na caixa da correspondência
encontraremos o volume com o microfilme.
— Muito bem.
A dama entrou. Iskra seguiu-a e acendeu a luz. E os dois
ficaram como que petrificados.
À sua frente, um homem apontava-lhes um revólver. À
direita, um outro fechou a porta com o pé, empunhando
também um revólver. A atenção de ambos parecia
concentrar-se em Iskra, que se voltou para a mulher que o
acompanhava, extremamente pálido.
— Isto é uma cilada! A senhora me atraiu... para uma
cilada...
Brigitte levantou as sobrancelhas e olhou-o por sobre as
lentes do lorgnon, como se o espião russo fosse um
retardado mental.
— Eu o atraí, Monsieur? Sabe muito bem que só o senhor
conhecia este lugar! E... a MVD, naturalmente.
— E também os seus amigos da CIA! Aí está a prova! —
concluiu, indicando os dois homens que continuavam
apontando seus revólveres.
— Não seja cretino, Monsieur. Esses cavalheiros não são
americanos. Eu diria que são alemães, ou, quem sabe,
italianos. Não sei... mas tenho certeza de que pertencem a
um país que não gostou do comportamento de Iskra durante
a Segunda Guerra Mundial. Ou, talvez, de suas façanhas
posteriores a ela. Não estou certa, cavalheiros? — perguntou
em alemão.
Um deles a examinava atentamente, sem disfarçar sua
surpresa pela agilidade mental da velha dama.
— Quem é a senhora? — perguntou também em alemão.
— Uma espiã americana, mein Herr. Encarregaram-me
de levar Monsieur Iskra para os Estados Unidos. Como os
senhores devem saber, ele desertou a Rússia, oferecendo-se à
CIA, e eu vim buscá-lo. Apenas isso.
— Então... esse é mesmo Iskra?
— Pois os senhores não sabem? Não o conhecem?
— Ninguém o conhece.
— Eu também não — comentou a velha senhora.
— Mas, ele lhe disse que era Iskra?
— Disse. E referiu-se às instruções de contato
estabelecidas na carta que enviou à Central da CIA. Tudo
indica que o cavalheiro que me acompanha seja Iskra. Mas
não lhes posso assegurar — completou, num tom levemente
irônico. — Sinto muito.
O outro indivíduo indicou a porta com a cabeça, dizendo:
— Retire-se, cara senhora.
— Madame La Duchesse de Montpelier, cavalheiros.
Como poderei agradecer-lhes?
— Esquecendo-se de nós assim que sair desta casa. Tome
seu carro e afaste-se. Se fizer alguma outra coisa estará
complicando sua vida... arriscando-se a perdê-la.
— Entendo... Mas, posso levar o microfilme?
— Que microfilme?
— Ahn!... Parece que cometi uma... indiscrição...
— Que microfilme, Madame La Duchese?
— Bem... um microfilme muito interessante que
monsieur Iskra trouxe da Rússia.
— Se é assim tão interessante, ficaremos com ele
também. Sobre o que é?
— Não sei. Mas tenho um visor na maleta que nos
poderia dar uma ideia do que contêm essas microfotos.
Proponho-lhes um trato, cavalheiros: vamos nós três
examinar esse microfilme. Se for do seu interesse, podem
ficar com ele. Mas, caso não lhes sirva para nada... posso
levá-lo comigo?
Os dois alemães olhavam sorridentes e como que
incrédulos para a surpreendente senhora que aparentava
cerca de setenta anos.
— A senhora é... extraordinária! Onde...?
— Madame La Duchesse, por favor.
— Oh, sim!... Madame La Duchesse, claro... Onde está
esse microfilme?
— Na caixa do correio, segundo diz Iskra. Enviou-o para
si mesmo, da Polônia, endereçado a esta casa. Já deve ter
sido deixado na caixa pelo carteiro.
Com a bengala, a veneranda senhora indicava a porta
onde, efetivamente, via-se a caixa para recolher cartas. Um
dos alemães encaminhou-se para ela.
— Espere — disse o outro. — Pode ser uma armadilha.
— Garanto que não — avançou Brigitte. E, dirigindo-se
ao russo: — A chave da caixa, monsieur Iskra. Vamos,
vamos! Não adianta resistir, pois não teriam mais que matá-
lo, tirar a chave e apanhar essa encomenda. Assim, não
convém complicar mais as coisas.
Iskra caminhou em direção à parede e, de uma pequena
ranhura junto à porta, tirou uma chave que estendeu a
Brigitte, com expressão bastante assustada. Seu rosto
continuava pálido.
Brigitte abriu a caixa de correspondência e, de fato,
encontrou um pequeno pacote, enviado por via aérea. Era
uma caixinha, retangular, endereçada a monsieur Charles
Deauville.
A agente “Baby” entregou o pacote a um dos alemães,
depois de verificar que os selos eram de Varsóvia. Dentro
havia alguns papéis dobrados e a tira do microfilme,
enrolada várias vezes sobre si mesma.
— O visor, Madame La Duchesse? — pediu o homem
que tinha o microfilme, dirigindo-se a Brigitte. — Não se
incomode, eu posso apanhá-lo na malinha.
Brigitte Montfort estendeu-lhe sua preciosa maleta, sem
resistência alguma. O alemão abriu-a e sorriu.
— Que mistura de coisas, Madame! Binóculos, produtos
de beleza, tubos de alumínio... Para que tudo isso?
— É o equipamento de uma espiã moderna... O visor está
em cima de tudo, mein Herr.
— Estou vendo — sorriu o alemão divertido. — Devo
confessar que nunca vi uma espiã mais... mais...
— Bem equilibrada? Mentalmente, é claro! — ajudou
ela.
— Bem equilibrada mentalmente... É. É uma boa
definição para a senhora, Madame La Duchesse.
Não precisou de instruções para utilizar o visor.
Examinou o microfilme durante alguns segundos e, por sua
expressão, Brigitte percebeu que não estava muito
interessado. Quando levantou a vista, foi para encarar seu
companheiro e mover negativamente a cabeça.
— Não lhe interessa? — perguntou Brigitte.
— Não entendo o que contém. Mapas e riscos. A única
coisa que me parece inteligível são desenhos de projéteis.
Pode contar isso em Washington, Madame.
— Quer dizer que não vai me dar o microfilme?
— Não. Vou levá-lo para ser examinado por pessoas mais
competentes do que eu.
— Os senhores... desculpe, mas o senhor me parece um
espião muito antiquado. Com uma simples olhadela posso
dizer-lhe o que significam esses mapas. Estou certa de que
os entenderei.
— Tem exatamente dez segundos para retirar-se,
Madame. Não nos obrigue a... suprimir os poucos anos de
vida que ainda lhe restam. São apenas dez segundos que
começam a ser contados agora.
— E Iskra?
— Ele não morrerá... tão cedo. Primeiro vamos fazê-lo
lembrar-se de algumas coisas que aconteceram em Berlim...
Tem mais três segundos, Madame.
— Adeus, cavalheiros.
Brigitte deu meia volta, dirigindo-se para a porta. Foi
então que Iskra reagiu. Afastou a anciã com um empurrão,
precipitando-se para a saída. Um dos alemães saltou sobre
ele, agarrou-o por um ombro, forçando-o a virar-se. Deu-lhe
um golpe na testa com a coronha do revólver, derrubando-o.
Iskra caiu de joelhos, agarrando-se às pernas do alemão:
— Eu não sou Iskra! Não me matem...!
Houve um instante de surpresa... mas não para Madame
La Duchesse, que puxou com força o cabo de sua bengala,
retirando dela um estoque de aço reluzente. O alemão que
tinha estado à margem, segurando ainda o visor e o
microfilme, tomado de surpresa, ao querer reagir foi
impedido pelo estoque da duquesa, o que com um silvo
agudo, tinha atravessado a sala, cravando-se em seu peito.
O homem soltou o revólver, o visor com o microfilme e
deixou-se cair no chão, os olhos esbugalhados vidrando-se
rapidamente.
O outro, desvencilhando-se das mãos de Iskra com
violento puxão, voltou-se para Brigitte e disparou.
O tiro ressoou no aposento e a bala passou por onde uma
fração de segundo antes tinha estado a velha senhora, indo
cravar-se na parede.
A agente “Baby”, além de esquivar-se de maneira
espetacular, tinha avançado e, estendendo o braço, golpeou
secamente o pulso que empunhava o revólver. O alemão
soltou um grito, largou a arma... e saltou com todo o seu
peso sobre a espiã americana.
Os braços rodearam o corpo de aparência frágil da anciã e
seu queixo apoiou-se sobre o ombro da dama.
— Maldita bruxa — murmurou —, vou parti-la em
duas...
Apertou, mas o frágil corpo resistiu à primeira investida.
O alemão teve a impressão de que abraçava um objeto de
aço... não fosse o calor que desprendia. Ao mesmo tempo,
sentiu duas pancadas, uma de cada lado, à altura dos rins. As
mãos da velha senhora tinham ficado livres...
— Aaauggghhh...!
O alemão afrouxou a pressão por um instante. Apenas um
instante... e quando percebeu, a mulher não mais se
encontrava entre seus braços. Estava abaixada, à altura de
seus próprios joelhos, pois tinha deslizado como uma víbora
escorregadia. As duas mãos femininas, juntas, golpearam-lhe
o estômago. Ele inclinou-se para trás, afastando uma das
pernas para recuperar o equilíbrio e contra-atacar... Brigitte
não se levantou, apoiou as duas mãos no chão e seus pés,
juntos, retesados, golpearam o rosto do alemão, num
impecável golpe de capoeira que o derrubou de costas, como
fulminado. Antes que pudesse levantar-se, o salto grosso de
um sapato preto chocou-se duramente contra a sua fronte. O
homem emitiu um fraco gemido e ficou imóvel, espichado
no chão, de cara para o teto.
Sem perda de tempo, como num estranho balé muito bem
ensaiado, emendando os movimentos, Brigitte voltou-se para
Iskra que, ainda no chão, olhava a cena incrédulo, atônito.
Tinha engatinhado até a porta e ia abri-la...
— Pare, estúpido! — gritou Brigitte. — Aí fora deve
haver...
O espião russo tinha desencostado a porta e a jovem foi
interrompida pelo ruído de madeira lascada. Uma bala vinda
de fora cravara-se na porta.
Iskra fechou-a rapidamente e estendeu o braço em busca
da arma do primeiro alemão abatido. Antes que pudesse
alcançá-la, um saldo de sapato grosso e preto, cravou sua
mão contra o assoalho. Ao mesmo tempo, Madame La
Duchesse levantou a saia, mostrando aos olhos de Iskra o
mais belo par de pernas que ele já vira em sua longa e
movimentada vida. De uma das coxas, envolta pela
atualíssima meia-calça, a delicada mão da senhora retirou
uma pistolinha de cabo de madrepérola, presa com uma tira
de esparadrapo.
Em menos de um segundo, a saia voltou a encobrir as
pernas e a pistolinha apontava para a cabeça de Iskra.
— Quietinho, Iskra... Ou você não é Iskra?
— Claro que sou... sou Iskra.
— Mas há pouco disse que não era, Monsieur.
— Eu tinha que tentar algo, não?
— Está bem. Agora, acalme-se. Acha que pode acalmar-
se, Monsieur?
— Sim. Claro.
— Lá fora há mais alemães. Não pensou nisso, monsieur
Iskra?
— Eu... apenas queria escapar...
— Muito instintivo: Mas para escapar é preciso astúcia.
Na realidade, para escapar, a coisa mais necessária é
exatamente astúcia. E a astúcia, monsieur Iskra, indicava que
não iam deixar a casa e o senhor nas mãos de apenas dois
homens, não lhe parece? Ê fácil deduzir isso, não? Tão fácil
como foi para os alemães descobrir, finalmente, depois de
tanto tempo, onde encontrar o famoso Iskra. A MVD
encarregou-se de deixar filtrar as informações sobre os
possíveis esconderijos de Iskra na Europa...
— Oh! Não!
— E por que não, Monsieur? Não se esqueça de que o
senhor os traiu e eles desejam a sua morte... Em todos os
pontos onde possa aparecer, há homens de diferentes
serviços secretos dispostos a eliminá-lo, além de seus
companheiros da MVD, evidentemente. É, Monsieur, com
tudo isto, creio que Iskra não foi exatamente um espião dos
meus...
— Dos... seus?
— Nada, não, Monsieur. Esqueça. Agora, se quer mesmo
chegar aos Estados Unidos, recolha esse revólver e vigie a
janela. Vou tirá-lo daqui.
— Quem é a senhora? Não é uma velha dama... Nem uma
mulher... normal.
— Cale-se e vigie a janela. Os alemães estão se
aproximando da casa.
Afastou-se dele, recolheu o visor com o microfilme,
colocou-os na maleta, tirou seu radiozinho e, sempre
abaixada, foi até o interruptor e apagou a luz.
— Johnny? — chamou pelo rádio.
— A seus pés, Duquesa.
— Localizou-os?
— Claro! O transmissor do Fiat está funcionando
excepcionalmente bem. Teve algum contratempo?
— Apenas o esperado. Desta vez foram os alemães que o
descobriram. Lamento muito, mas tive que eliminar um.
Venha buscar-me dentro de um minuto. Dá?
— Acho que sim. Procedimento?
— A quarta alternativa.
— Muito bem. Lá vou eu!
Brigitte guardou o rádio e aproximou-se de Iskra.
— Sairemos desta casa em um minuto. Esses homens aí
fora já estão bem próximos. Melhor... Quanto mais perto
melhor.
— Como?
— Nada, não. Olhe, coloque isto — disse estendendo um
rolinho em sua direção. — Deixe que eu mesma ponho. E
fique calado!
Colocou-lhe sobre a boca e o nariz uma pequena máscara
contra gases. Amarrou os cordões na nuca do russo e cuidou
de proteger também seu próprio nariz e sua boca. Estava
terminando de atar a máscara, quando se ouviu o baralho do
helicóptero. Estava tão próximo que os vidros das janelas
estremeceram com a vibração das hélices.
Brigitte abriu a porta. No jardinzinho viam-se pequenas
nuvens de fumaça em vários pontos.
— Para fora, Iskra.
— Mas...
— Saia!
Agarrou-o pelo braço e empurrou-o. Iskra quase tropeçou
no corpo de um homem caído de bruços perto da porta,
empunhando ainda um revólver na mão direita. Embaixo da
janela, outro homem caído, estendido de lado.
O helicóptero pousou na avenida e Brigitte empurrou
Iskra em sua direção. Subiram os dois rapidamente e ela,
com o polegar da mão direita, fez um gesto característico,
apontando para cima. Johnny, também munido de máscara
contra gases, assentiu com a cabeça e o aparelho subiu
rapidamente.
Poucos segundos depois, Brigitte tirou a máscara de seu
próprio rosto e do de Johnny, ocupado com os comandos do
aparelho. Iskra compreendeu que devia fazer o mesmo. A
espiã recolheu as três máscaras e guardou-as na maleta,
retirando o visor e o microfilme.
— Tudo bem, Johnny? — perguntou.
— Perfeito. A casa de Maiorca, em Binisalém, está
preparada para receber Iskra. A bagagem de Madame La
Duchesse está a caminho de seu esconderijo habitual. O
Mercedes já está longe de Nice, levado por um companheiro
que recolocará a placa verdadeira no devido tempo. O Fiat
ficará lá mesmo, até que eu volte para apanhá-lo.
— Magnífico. Então vamos direto para Maiorca. Iskra
vai ficar lá e eu... você já sabe.
— Para onde vamos? — resmungou o russo. — Não creio
que tenha nada a fazer em Maiorca...
— O senhor fará o que eu determinar, Monsieur. Do
contrário, não creio que chegue a salvo aos Estados Unidos.
Meia hora mais tarde, Brigitte acabava de examinar a
última microfoto. Guardou novamente o visor e o filme e
ficou pensativa, olhando o reflexo prateado da lua no mar.
Mas a espiã não estava para romantismos naquele
momento. Pensava na jogada suja dos russos, claramente
indicada pelos microfilmes que examinara: tanto os de
Roma, quanto os de Nice eram semelhantes. Pontos azuis,
linhas vermelhas, foguetes muito bem desenhados. Mas, as
microfotos de Nice indicavam posições diferentes das de
Roma. Assim, se a CIA recebesse aqueles dois microfilmes,
faria a maior confusão do mundo.
Bem... Talvez as coisas fossem diferentes com o Iskra de
Palma de Maiorca.

CAPÍTULO SEXTO
Certas presenças causam alvoroço por si mesmas
Quando idade não é documento
Quatro horas pela frente sem ter o que fazer

— Vodca com água tônica...


Esse pedido foi feito no balcão do bar do “Hotel Clube
Náutico” em Palma de Maiorca, exatamente às dezoito horas
do dia vinte e sete de março. Quem o fez foi uma jovem de
longos e lisos cabelos negros, olhos escuros e boca rosada,
sem pintura. Parecia ter uns vinte e dois a vinte e quatro
anos. Vestia minissaia, blusa leve, sem mangas, com decote
generoso, e calçava sandálias. Isso em março. Em Paris,
provavelmente, ainda fazia frio, nesse começo de primavera
europeia. Talvez exatamente por essa razão, aquela
parisiense tivesse ido, com sua beleza, seu charme, à
chamada “Ilha da Calma”, buscando uma temperatura mais
amena, mais de acordo com seu temperamento. Spain is
different ou a “A Espanha é diferente”, diz o slogan
publicitário das agências de turismo.
E devia ser verdade mesmo, pois às seis horas da tarde
via-se o sol, bonito, redondo, cercado dos mais vibrantes
tons de amarelo, vermelho e laranja, sobre a península
ibérica. Ainda cálido, brilhante.
O barman ficou olhando embasbacado para a mulher.
— Com você eu iria até o inferno... — murmurou em
espanhol.
— Comment? — perguntou a francesinha.
— Eu disse que é pra já, boneca. Vou preparar sua
bebida... A senhorita não fala espanhol?
— Oh! Oui... Fala un petit-peu. Você não fala francês?
— Estou aprendendo, e com você vou melhorar muito,
meu broto...
— Meu brót...? Que quérrr dizérr isso?
— Que você é muito boa, mulher do inferno! Nossa
Senhora! E dizer que ainda não começou a temporada!
— Que temporrada?
— Dos turistas, menina! Dos turistas! — Virou-se para o
garoto aprendiz de garçom e gritou: — Puig! Sai um russo
com tônica!
— Tá saindo! — respondeu o rapaz maiorquino.
O que atendera a jovem inclinou-se mais sobre o balcão,
piscou um olho e meteu o outro pelo decote da francesinha.
— Então, franguinha: como é seu nome?
— Você quérrr sabérrr num nómmm?
— Acertou! Quero sabe também seu telefone, seu
endereço, suas medidas... Filhinha, você tá me deixando
tarado!
— Eu me chama Monique. Monique Lafrance...
— Monique!... Que lindo! E eu me chamo Pepe.
— Pepe... José?
— Isso! Vejo que você sabe muitas coisas sobre a
Espanha. E se quiser, lhe ensino o resto. Principalmente de
Sevilha, a minha terra.
— Non, non... Eu quérrr mort vodkâ com água tonique.
— Tá bem! Já vai sair esse vodká com água tonique. Que
gracinha!... Você é boa de morrer, bandida!
— V-Você quérrr morrérrr?...
— Que morrer, que nada, meu anjo! Eu quero é viver! E,
se possível, com você. Tomamos um foguete americano e
vamos até a Lua!
Afastou-se para o fundo do balcão e apanhou a vodca
com tônica que o maiorquino preparara, trazendo-o para a
jovem.
— Pronto, boneca!
— Vou tomam ali. Quérrro verr a marr — falou
Monique, indicando uma pequena mesa junto à grande
janela, ao mesmo tempo em que se encaminhava para lá.
Pepe aproximou-se e serviu a bebida, meteu os dois olhos
pelo decote, estremeceu todo e afastou-se murmurando o seu
entusiasmo sevilhano.
Monique Lafrance ficou só na mesinha, apreciando pela
janela a paisagem do entardecer, a melancolia do ocaso.
Acendeu um cigarro e aparentemente perdeu-se em seus
pensamentos. No entanto, a despeito de seu ar abstraído,
nenhum movimento, nada do que acontecia dentro do bar
escapava à sua atenção.
Havia ali, talvez, uma dúzia de homens e umas quatro ou
cinco mulheres, todas acompanhadas. A única que se achava
só era ela. Os homens desacompanhados lançavam-lhe
olhares descarados, imaginando coisas a respeito da
francesinha de minissaia, coisas em que eles, evidentemente,
tinham papel preponderante.
De todos os homens presentes, apenas um mereceu a
atenção de Monique. Era o mais alto, o mais louro, o mais
alinhado. Tipo perfeito do atleta, de olhar cinzento, queixo
protuberante, mãos grandes, fumando lentamente com
visível prazer. Trajava as clássicas calças brancas e japona
azul, calçava sapatos de lona e tinha um boné de yachtman
na cabeça. Seu aspecto de esportista náutico sobrepunha- se
a tudo o mais. Era o que se pode chamar de “uma figura”. Os
outros, embora simpáticos e divertidos, não passavam de
tipos comuns, vulgares.
A francesinha começou a fazer rapidamente seus
cálculos, que podiam ser definidos assim: Em Roma, o Iskra
que apareceu poderia ter uns cinquenta anos; em Nice, o
Iskra que se apresentou teria seus sessenta. Logo, nessa
progressão, o Iskra de Palma de Maiorca, logicamente, seria
um homem de setenta... Setenta anos! O que é que ela ia
fazer com um homem de setenta? Evidentemente, aquela ia
ser a mais aborrecida de suas aventuras. E logo em Palma de
Maiorca! Via-se cercada por um grupo de velhinhos que mal
conseguiam sustentar-se em suas pernas. É claro que um
homem de setenta anos pode ser muito inteligente e, por
conseguinte, um ótimo espião. Mas nunca seria um desses
amáveis colegas de aventuras que em certas circunstâncias
podem tomar mais amena a missão.
Não gostou nada da ideia. Já tinha na ilha, em casas
separadas, dois dos supostos Iskras. Um com cinquenta,
outro com sessenta. Faltava agora o de setenta. Não. Aquela
ideia não lhe agradava, positivamente não.
De modo que...
— Posso sentar-me?
A pergunta foi feita em perfeito inglês e Monique
Lafrance ergueu vivamente a cabeça. Distraíra-se por alguns
segundos, absorta em seus pensamentos. Ficou olhando
fixamente o magnífico exemplar que se dirigira a ela, com
trinta e cinco anos no máximo, de calças brancas, japona
azul-marinho, boné de yachtman, sapatos de lona, queixo
protuberante, olhar cinzento, sobrepondo-se a tudo com seu
aspecto de esportista náutico. Enfim, o único tipo ali que lhe
chamara a atenção.
— Não! — foi a resposta.
O homem olhou para o copo sobre a mesa e murmurou:
— Tive a impressão de que, às seis em ponto, a senhora
pediu vodca com água tônica.
— Foi o que eu pedi, às seis em ponto.
— Bem... Tem certeza de que não posso fazer-lhe
companhia?
— Não o conheço, senhor. E não gosto de desconhecidos.
— Pensamos mais ou menos da mesma forma. Creio que
por meu aspecto a senhora acha que estou, simplesmente,
.procurando a companhia de uma jovem bonita.
— Talvez eu pense isso, senhor... Senhor o quê?
— Iskra.
Um brilho de satisfação passou pelos falsos olhos escuros
de Monique Lafrance.
— Sente-se — sussurrou.
— Obrigado. Meu nome significa algo para a senhora?
Monique fitava-o evidenciando tanta satisfação, que o
atlético Iskra não teve outro remédio a não ser sorrir.
— Um nome nada significa, senhor Iskra — respondeu
de repente a jovem.
— É o que eu acho. Principalmente depois de ouvi-la
dizer que se chama Monique Lafrance. Creio, também, que é
americana, da CIA, claro.
— Claro. Não se importe com meus nomes. Já os utilizei
em diversas ocasiões, segundo o lugar.
— Compreendo perfeitamente. Em geral, nós os espiões
não andamos pelo mundo dando nossos verdadeiros nomes2.

2
Até o momento, “Baby” empregou três nomes falsos: Maria Lucientes; Annette
Simonet e Monique Lafrance. São nomes que ela já utilizou em outras aventuras,
— Qual é o seu?
— Meu nome verdadeiro?
— Sim.
— Acabei de lhe dizer — sorriu o atraente personagem
— que nós os espiões não costumamos andar por aí dando
nossos verdadeiros nomes...
— Mereço a resposta. Vamos ao que interessa: segundo
entendo, você pretende ser levado para os Estados Unidos
com absoluta segurança.
— Exato.
— Entendo, também, que você tem alguma coisa de
grande interesse para a CIA.
— Certo.
— E em que consiste essa informação, assim tão
interessante?
— Trata-se de um microfilme.
— Ah!...
— Parece que ficou decepcionada, miss Lafrance.
— É que sou um pouco cética, sabe? Para dizer a
verdade, a CIA esperava algo mais substancioso e
interessante do que um simples microfilme.
— Nem todos os microfilmes são... simples.
— Talvez. Sobre o que é o seu?
— Espionagem.
— Não diga! — os olhos da jovem brilharam por um
instante e sua boca abriu-se num leve sorriso, bastante
irônico. — Pensei que fosse sobre o cultivo de rosas durante
o inverno.
— Rosas durante...? — Iskra desatou a rir. — Garanto-
lhe que até agora não tive o menor interesse em floricultura.

respectivamente, a saber: “Os Espiões Não Existem”, “Espionagem Científica” e


“Plano de Invasão”, volumes 47, 48 e 53 desta coleção. NE
O que estou oferecendo é verdadeiro, sem artifícios. Não
estou brincando.
— Em espionagem não se brinca. Sei disso. Está aí o
microfilme?
— Não.
— É lógico. Pode provar que é realmente Iskra?
— Não.
— Pelo menos, poderá adiantar alguma coisa sobre o
conteúdo do microfilme?
— Também não.
— Meu caro Iskra, você emprega com demasiada
frequência a palavra “Não”.
— E você pergunta com frequência demasiada.
— Mas é evidente! Esse é o meu trabalho.
— Seu trabalho? Por que fazer tantas perguntas a um
homem disposto a entregar-se à CIA? Suponho que em
Washington irão fazer muito mais perguntas e, uma vez lá,
responderei a todas.
— Está bem. Entretanto, permita-me adiantar uma das
perguntas que lhe farão em Washington: quantos anos você
tem?
— Trinta e quatro. É isso que você quer saber?
— Não, não. O que estou perguntando é: o que é que
você pretende ao usurpar a personalidade do espião soviético
conhecido por Iskra?
— Não acredita que eu seja Iskra?
— Não.
— Por quê?
— Há vinte e quatro anos que o agente Iskra está em
atividade, e sempre agindo com a máxima eficiência.
Quando eu comecei a ser espiã, Iskra já estava na lista negra
da CIA. Jamais pôde ser localizado, fotografado, identificado
por qualquer maneira. Agora, de repente, um jovenzinho de
trinta e quatro anos aparece sem mais nem menos no
caminho da CIA, dizendo ser Iskra. Donde se deduz que
você começou a ser espião aos dez anos de idade...
— Acha que não é possível? — sorriu Iskra.
— Bem... Possível? Talvez. Tudo é possível em
espionagem. Inclusive um menino de dez anos fazendo
espionagem em Berlim, em favor das tropas russas. Não sou
das que se espantam facilmente, Iskra. Um menino fazendo
trabalho de espionagem não seria novidade, nem muito
surpreendente. Um pouco fora do comum, sim. Mas não
inacreditável, nem impossível.
Iskra moveu a cabeça afirmativamente, devagar.
— É melhor esclarecermos isso — murmurou. — Você
acredita ou não, que eu seja Iskra?
— Não. Não acredito.
— Então, quem sou?
— Não sei.
— Assim — sorriu o russo —, você está em desvantagem
em relação a mim, pois eu sei muito bem quem você é.
— Sabe? Pois, quem sou eu?
— “Baby”.
Monique Lafrance franziu as sobrancelhas
graciosamente.
— O que é que você está bebendo, Iskra?
— Chá do Ceilão.
— A julgar pelas bobagens que está dizendo, acho que se
encharcou de vodca russa, ou qualquer coisa mais forte
ainda.
— Quer dizer que estou bêbado? — riu Iskra.
— Qualquer coisa assim.
— Chá não embriaga. Mas, acho que é tempo de acabar
com esta conversa que não leva a coisa alguma. Eu afirmo
que sou Iskra, o resto é com você. Vai levar-me ou não, aos
Estados Unidos?
— A solução é mais simples. Tome um avião qualquer
com destino a Washington e, uma vez lá, pergunte pelo
Quartel General da CIA — sorriu Brigitte docemente. —
Qualquer pessoa lhe dirá onde fica.
— Você parece uma profissional da espionagem, e de
alto gabarito. De maneira que não preciso explicar-lhe a série
de... possíveis contratempos que eu encontraria se
pretendesse tomar um avião ou um navio com destino à sua
terra.
— Que contratempos? Cite um, por exemplo.
— Vejamos. A MVD, logicamente, não deve ter ficado
muito satisfeita com a minha deserção. Imagino que tenham
mobilizado toda uma série de agentes os quais, a estas horas,
estão à minha procura por toda a Europa. Além do mais,
tendo em vista minha provável eliminação, devem ter
deixado passar informações sobre meus hábitos europeus a
diversos sistemas da espionagem internacional. Isso quer
dizer que na França, na Alemanha, na Hungria, na Itália, na
Suíça etc., etc., centenas de homens estão atrás de mim. O
objetivo da MVD é claríssimo: colaborar para que eu seja
encontrado, não importa se por uns ou por outros, e
eliminado... sem deixar traços. Farão o possível para que eu
não chegue aos Estados Unidos. Terão me delatado a todos
os países que têm motivos para estar ressentidos com Iskra.
— Parece razoável — murmurou Monique. — Quer dizer
que não há nada contra você na Espanha?
— Na Espanha? Não, não. Foi por isso que a escolhi. A
Espanha tem já quase trinta anos de paz com o exterior.
Tudo está esquecido. Ou, talvez seja mais próprio dizer,
perdoado. Além do mais, o nome Iskra nada significa para a
Espanha. E menos ainda o nome falso que estou usando aqui.
— A Espanha não é amiga da Rússia.
— É um erro o que você está dizendo — riu Iskra.
— Você sabe, ou deveria saber muito bem, que a
Espanha tem muitos amigos e nenhum inimigo. Mas, tudo
isso, miss Lafrance, é conversa para jornalistas que não têm
o que fazer. História' antiga. Sei muito bem onde ponho os
pés e me sinto seguro aqui. E aqui ficarei, enquanto a
Brigada Secreta espanhola me veja dedicado exclusivamente
a tomar banhos de sol, pescar e escrever. Agora, decida de
uma vez: Espanha ou Estados Unidos? Fico, ou você me
leva?
Brigitte Montfort; aliás, Marina Lucientes; aliás, Annette
Simonet, Duquesa de Montpelier; aliás, Monique Lafrance;
aliás, “Baby”, passou pensativamente a mãozinha pelo
queixo delicado. Permaneceu alguns segundos contemplando
aqueles olhos cinzentos, simpáticos e inteligentes.
Por fim, assentiu com a cabeça.
— Está bem. Levarei você, Iskra.
— Ótimo! Quando saímos?
— A hora prevista é a meia-noite de hoje. Um helicóptero
e recolherá, levando-o para a base aérea conjunta, hispano-
americana, de Torrejón, perto de Madrid. De lá, um dos
aviões em voo extra o levará até Washington, sem o menor
contratempo.
— Perfeito.
— Mas... eu tenho ordens severíssimas, Iskra.
— Em que sentido?
— Antes de colocar você nesse helicóptero para ir a
Torrejón, preciso ver seu microfilme. Qualquer desculpa ou
pretexto para que eu não o veja, anulará automaticamente
nossa combinação.
O espião soviético hesitou por uns instantes. Finalmente,
assentiu com a cabeça e disse:
— Está bem. Mostrarei o microfilme antes de partir.
— Tem que ser agora, Iskra.
— Agora?
— Agora. Neste momento.
— Bem... Eu estou morando numa balandra. O
microfilme está lá.
— Então vamos até esse barco.
— Não é fácil examinar o microfilme.
— Acho que é. Na portaria do hotel, estão guardando
minha maleta, onde tenho tudo de que preciso. Ponha o
microfilme em minhas mãos e deixe o resto por minha conta.
— Está bem — o russo deu de ombros. — Faremos como
você quer.
Levantaram-se. Iskra deixou sobre a mesinha uma nota
de cem pesetas, tomou a graciosa espiã pelo braço e
deixaram o bar, sob o olhar furibundo do garçom sevilhano.
Na portaria do “Hotel Clube Náutico”, Monique Lafrance
apanhou sua famosa maleta vermelha adornada de
florezinhas azuis. Deixaram o hotel, bordejaram a pequena
enseada onde ficava o ancoradouro do “Clube Náutico”, até
atingir a outra extremidade, onde o Iskra mais jovem dos três
até então conhecidos indicou uma balandra, pequena e um
pouco surrada, mas de bom aspecto. Saltou para a coberta,
ajudando “Baby” a fazer o mesmo, e apontou a minúscula
porta dupla que dava acesso à cabina.
Dentro havia uma espécie de living com dois beliches,
livros, poltronas pequenas, uma diminuta cozinha. Varas de
pescar, revistas, jornais... Mas, principalmente, livros. De
todos os tipos e em vários idiomas, inglês, espanhol, italiano,
francês, alemão. Menos em russo, o que era compreensível.
— Tenho vinho espanhol — disse Iskra. — Aceita?
— Que tipo de vinho?
— Moriles.
— Verdade?! Aceito encantada. Espero que tire o mau
gosto do vodca.
Iskra olhou-a com o cenho franzido, mas acabou
sorrindo.
— Deve ser o seu humor norte-americano — murmurou.
— Mais ou menos. Sirva-me o vinho, por favor. Mas,
antes, dê-me o microfilme.
Iskra retirou a pequena cápsula de entre duas tábuas do
assoalho da velha balandra e entregou-a a Brigitte, como se
se tratasse de uma coisa sem valor. Ela abriu a cápsula e
removeu a tira de filme. Estava um pouco suja, rasgada em
alguns pontos das bordas e dobrada em outros, parecendo,
mesmo, ser coisa sem o menor interesse.
Sentou-se numa das poltroninhas, apanhou o visor na
maleta e enfiou uma das extremidades da fita na ranhura.
Nessa altura, Iskra estendia-lhe um copo de vinho Moriles
que ela apanhou, aparentemente distraída.
Acendeu a luz do visor e a primeira microfoto apareceu
na pequena tela. Iskra fitou-a durante alguns segundos e
depois serviu-se de vinho. Sentou-se na outra poltrona,
acendeu um cigarro da marca Ducados e dispôs-se a esperar.
Desta vez, Brigitte Montfort precisou de apenas quinze
minutos para inteirar-se do conteúdo do microfilme. Quando
ergueu os olhos para Iskra, este parecia sumido em seus
pensamentos, os quais, a julgar por sua expressão, não
deviam ser muito agradáveis. Avivou o olhar
repentinamente, de súbito alerta, interessado.
— Então? — perguntou.
“Baby” Montfort sorriu de maneira inexpressiva. Tinha
em suas mãos um microfilme parecido com os outros dois.
Mapas, pontos azuis, linhas vermelhas, posições de foguetes
teleguiados. Se juntasse aquele microfilme aos outros dois,
enviando-os a Washington, a confusão lá seria maior ainda,
pois nesse terceiro, os mapas, pontos, linhas, foguetes,
achavam-se em posições diferentes. Não havia ali nada igual
nem semelhante aos outros dois. Em resumo: A CIA, com
aqueles três microfilmes, se veria metida num embrulho cada
vez maior. Qual era o verdadeiro? O do Iskra de Roma, o do
Iskra de Nice ou o do Iskra de Palma de Maiorca? Ou, pior
ainda: algum daqueles microfilmes era verdadeiro?
— Parece interessante — murmurou Brigitte.
— Parece?! Não acha que realmente seja interessante?
— Bem. É que, talvez, seja demasiadamente bom para ser
verdadeiro. Por estas microfotos, a CIA ficaria a par de todos
os objetivos civis dos novos projéteis teleguiados soviéticos.
Estão assinalados, também, os pontos clandestinos de
vigilância pelo radar em todo o mundo, à espera dos
projéteis americanos. Além disso, indica os pontos-chave de
agentes da MVD, assim como os sistemas de comunicação
direta entre esses grupos... Não é isso?
— Exato.
Brigitte sorriu, como se estivesse muito satisfeita, apesar
de saber muito bem que aqueles mesmos dados, só que em
posições diferentes, estavam contidos nos outros
microfilmes. Sentia-se roubada, quase furiosa.
— É uma informação interessante, de fato, Iskra.
— Você acha? Não diga! — ironizou Iskra.
— Não tenho outra alternativa. Você está pondo nas
mãos da CIA a possibilidade de anular completamente todo
o sistema soviético de espionagem, no mundo inteiro. Põe,
também, em nossas mãos o sistema ofensivo por meio de
teleguiados. Se este microfilme chegar a Washington, a
Rússia terá que adotar uma de duas medidas: ou modifica
todo o sistema, o que lhe custaria centenas de milhões de
rublos, ou se conforma em que os Estados Unidos tenham
conhecimento de seu esquema geral de espionagem, bem
como de sua provável ofensiva atômica por meio de
foguetes, o que, para ela equivaleria a não dispor desses
teleguiados. Sabe o que isso representa, Iskra? O quanto
vale?
— Quanto você calcula? — sorriu o russo.
— Não sei... Milhões e milhões de dólares. Centenas de
milhões de rublos. Que sei eu! O que é que você pede em
troca?
— Nada. Isto é, muito: nova personalidade e um emprego
tranquilo em qualquer parte do mundo não soviético.
— Em Palma, por exemplo?
— Por que não?
— Você está pedindo muito pouco, Iskra. Por quê?
— Cada um de nós tem seus motivos para agir de uma
forma ou de outra, para fazer as coisas que fazemos, sejam
elas boas ou más.
Brigitte Montfort semicerrou os olhos que agora, devido
às lentes de contato, apareciam escuros, como em Roma.
Acabou por sorrir, com aquela doçura enganosa que a
transformava na espiã mais dissimulada do mundo.
— Encerremos o assunto, Iskra — disse amavelmente. —
E agora, se você não se importar, eu passarei a cuidar das
coisas.
— Certo. Faça o que for necessário.
Brigitte apanhou o rádio na maleta e chamou:
— Johnny?
— Olá, Monique, Tudo bem?
— Tudo normal. Alguma dificuldade do seu lado?
— Tudo em ordem também. As coisas todas preparadas,
sem uma única falha. Você é formidável. Continuo segundo
o combinado?
— Pode seguir em frente, segundo as instruções.
Desligou o rádio e ficou olhando docemente para Iskra, que
estava com as sobrancelhas franzidas.
— Creio haver entendido que tudo vai bem, miss
Lafrance.
— Exatamente. Às onze teremos que ir a um certo lugar.
Até lá, acho melhor ficarmos aqui.
— Por mim, de acordo. E o que vamos fazer nessas
quatro horas e meia que temos pela frente?
— Não sei... — sorriu Monique, provocadoramente. —
Você tem alguma ideia?

CAPÍTULO SÉTIMO
Não se deve abusar da sorte
Algum jogador pode ter uma carta escondida na manga
Sempre há uma primeira vez em que se perde

Por volta das onze da noite, a senhorita Monique


Lafrance ergueu-se do beliche, foi até a pequena vigia da
balandra e atirou o cigarro ao mar. Em seguida, vestiu-se
lentamente.
— Tenho que ir-me — disse.
— Só?
— Só. Mas logo nos veremos, Iskra, Está lembrado de
tudo o que tem que fazer?
— É lógico. Estarei às onze e meia em ponto no lugar
combinado, à sua espera.
— Não deixe no barco nada que possa ser
comprometedor. Um de meus companheiros, mais tarde, irá
apanhá-lo, para tirar você de Palma. Mas até lá é melhor não
deixar o menor rasto.
— Não sou nenhum novato. Sei muito bem o que preciso
fazer.
— Claro — sorriu ela. — Você acabou de me demonstrar
que sabe muito bem o que fazer
E sabe fazer bem...
Acercou-se do russo e beijou-o doce e ligeiramente nos
lábios. Apanhou a bolsa e a maleta, encaminhando-se para a
saída.
— Até logo — querido.
— Até logo.
A espiã internacional abandonou a embarcação. Percorreu
o longo molhe, desviando-se para o Paseo Sagrera, onde
estava estacionado o pequeno carro, um Seat-600, “Fiat”.
Entrou e deu a partida, sorrindo incrédula ao verificar que
funcionava perfeitamente bem, como o de Nice. Pouco
depois, percorria de carro a zona antiga de Palma de
Maiorca, de ruas estreitas e labirínticas. Parou, subindo com
duas rodas laterais numa calçada, em frente a um velho
casarão caiado de branco. Entrou pelo portão, passando para
um pátio onde havia plantas de intenso verdor. À direita,
uma janela alta, com vidros coloridos, dando luz a uma
escada de largos e baixos degraus. À esquerda, uma porta de
vidro onde Monique bateu.
A porta foi aberta por uma senhora de seus cinquenta
anos, de aspecto agradável, que sorriu amavelmente.
— Boa-noite, señorita Lafrance.
— Vim avisá-la de que vou embora e pagar a
hospedagem.
— Mas como?! Já vai? Mas se chegou apenas hoje pela
manhã!
— A senhora foi muito amável em receber-me. Mas
encontrei uns amigos de Paris que estão em Manacor e que
me convidaram para ficar com eles na casa que alugaram lá.
Deixaram até um carro para eu ir encontrá-los. Amanhã
iremos a Porto Cristo e depois vão me mostrar as Cuevas del
Hams, as de Drach... Enfim, creio que devo aproveitar a
oportunidade e aceitar o convite. O dinheiro não é o que me
sobra... Está bem assim?
Estendeu à senhora duas notas de cem pesetas, que ela
aceitou de imediato.
— Oh! Muito bem... Obrigada.
— Obrigada digo eu — respondeu Brigitte. — Vou
apanhar minhas coisas e irei em seguida. Adeus.
— Adeus, señorita Lafrance. Já sabe que esta casa é sua.
— Obrigada.
Subiu o lance de escadas e entrou no quarto que tinha
alugado pela manhã. Retirou a valise do armário, colocando-
a sobre a cama, ao lado da maleta. Olhou em torno, e achou
tudo em ordem.
Começou então a trocar de roupa, substituindo a
minissaia por calças compridas justas, pretas; a blusa leve,
por uma de malha também preta, de mangas compridas e
gola roulée. Substituiu as sandálias por mocassins pretos de
sola de borracha. Um cinturão largo, de couro, completou
sua indumentária.
Guardou tudo o mais, cuidadosamente, em ordem e sem
pressa, como de hábito. A qualquer momento, qualquer peça
ou objeto poderia ser encontrado na mala, no lugar exato.
Fechou-a metodicamente, pondo-a no chão.
Apanhou, então, na maletinha, um pote de vidro que, a
julgar pela etiqueta, continha pó de maquilagem para a noite.
Desatarraxou a tampa, meteu dois dedinhos dentro, tateando,
até encontrar o que procurava. Retirou uma bolsinha de
plástico, hermeticamente fechada e que continha uma
ampola de vidro alongada, pouco maior do que um
amendoim. Rasgou o invólucro de plástico e deixou a
ampola sobre a cama, com todo o cuidado. Tornou a guardar
na maleta o invólucro rasgado. Em seguida, cortou duas tiras
de esparadrapo de cinco centímetros de comprimento,
deixando-as ao lado da ampola. Fechou a maleta e certificou-
se mais uma vez de que nada fora esquecido.
Colocou a ampola sobre uma das tiras de esparadrapo,
fazendo com que aderisse a ela com uma leve pressão.
Abaixou as calças, descobrindo as pernas até a altura dos
joelhos. Hesitou durante alguns segundos e, finalmente,
colou a tira de esparadrapo com a ampola na parte interna da
coxa direita. Reforçou a fixação da ampola com a segunda
tira.
Colocou de novo as calças e foi até o armário, olhando-se
no espelho.
— “Baby” — murmurou — desta vez você está abusando
da sorte. Qualquer dia destes...
Encolheu os ombros, apanhou a valise e a maleta, e saiu
do quarto.
***
Parou o carro num ponto da Praça Francisco Pizarro. De
onde estava, via perfeitamente Iskra III esperando-a. Mais
uma vez, porém, recorreu ao rádio de bolso.
— Johnny?
— Fale, miss Lafrance.
— Pode me chamar de “Baby”: estou sozinha agora.
— Então fale, “Baby” — riu Johnny.
— Eles estão no lugar combinado?
— Estão.
— Você está pronto?
— Estou.
— Eles tiveram suficiente liberdade de ação, em todos os
sentidos, durante estes dias, para comunicar-se etc, etc.?
— Ficaram à vontade. Não os importunei em momento
algum.
— Bem. Esta é a minha última chamada, Johnny. Se
dentro de duas horas eu não tomar a chamar, você sabe o que
deve fazer.
— Boa sorte, “Baby” — murmurou o agente da CIA. —
E você vai precisar dela... Não seria melhor que eu...?
— Não. O plano está em plena marcha. Seja o que Deus
quiser. Até à vista, Johnny.
— Amém — suspirou o espião.
Brigitte desligou o rádio, guardando-o na maleta.
Aproximou-se com o carro do ponto onde Iskra estava à sua
espera. Abriu a porta direita e o russo entrou rapidamente.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele.
— Não aconteceu nada. Por quê?
— Achei que você estava demorando muito. Comecei a
temer
— Que nada, querido... — Brigitte pôs o carro em
movimento e continuou: — Eu sempre saio ganhando.
Iskra fitou-a de maneira benevolente, erguendo as
sobrancelhas. Um bom observador notaria sob a japona o
volume de uma pistola.
— Sempre há uma primeira vez em que a gente perde,
Monique... Aonde vamos agora?
— A uma pequena vila, num lugar chamado S’Arenal, a
uns quinze quilômetros daqui, seguindo-se pela costa.
Conhece?
— Só pelo mapa da ilha. Teremos que seguir pela estrada
da costa. Passaremos por Coll d’en Rabassa, d’en Pastilla e
logo vem S’Arenal.
— Exato. Dali iremos para a vila de que falei.
— E depois?
— Espero que às doze em ponto chegue o helicóptero que
levará você a Torrejón. O resto é absurdamente fácil.
Absurdamente fácil!
Poderia ser fácil assim, de fato, se existisse apenas um
Iskra. Mas havia três. Com ela, eram quatro espiões metidos
naquela surpreendente jogada russa a qual, realmente, tinha
quase certeza de haver compreendido. E, uma vez
compreendida a jogada do adversário, uma vez conhecidas
suas cartas, o resto é absurdamente fácil. Só que, apesar de
tudo ter sido por ela preparado, até o mínimo detalhe, com a
máxima perfeição, em qualquer momento um dos jogadores
podia fazer trapaça, sacando uma carta de dentro da manga.
Sim. Sempre há uma primeira vez em que se perde.
CAPÍTULO OITAVO
Pôquer a quatro é um tanto violento
Principalmente quando aparecem sapos não convidados
Jogo sujo com jogo sujo se paga
“Baby" trapaceia sempre

Faltavam uns poucos minutos para as doze quando o


carro parou diante da vila, um pouco ao sul de S’Arenal,
virada para o mar, distante talvez uns quinhentos metros.
Viam-se com nitidez os reflexos da lua sobre as águas um
pouco agitadas, totalmente escuras se não fosse pelo
caminho de prata que traçava a luz lunar.
-— Chegamos — anunciou Brigitte.
Desceram. Ela deixou as chaves no contato, limitando-se
a bater a porta. A valise ficou sobre o banco de trás e a
maletinha no porta-malas da frente.
— Quem é que está aí à nossa espera? — perguntou
Iskra.
— Uns amigos, é claro. Mas você, querido, terá que me
entregar sua pistola.
— Por quê?
— É uma norma bastante antiga, que não deveria
surpreendê-lo. A agente “Baby” é muito cuidadosa e
precavida...
— Mas você deu a entender que não era “Baby” —
lembrou Iskra.
— Nem estou dizendo agora que seja.
— Então ela está aí?!
— Você a verá. Foi ela quem planejou tudo, é lógico.
— Sem intervir diretamente?
— Ela sempre intervém diretamente, de um modo ou de
outro. Entremos.
Estendeu a mãozinha direita para o russo, que se resignou
a entregar sua pistola a qual, para seu espanto, foi parar
dentro do carro, através da janela dianteira esquerda, cujo
vidro ficara abaixado.
Encaminharam-se para a casa. A porta estava aberta e
entraram silenciosamente no living, com imenso janelão
dando para o mar.
Brigitte indicou o bar num canto.
— Sirva-se à vontade, enquanto espera uns instantes.
— Onde é que você vai agora?
— Chamar meus amigos.
Deu meia volta e saiu. Atravessou o pequeno corredor
que servia de hall, tomando a escadaria que levava ao andar
de cima. Parou diante de uma das portas e bateu três vezes
seguidas em rápida sucessão, e depois mais três vezes,
espaçadamente. A porta foi aberta, puxada para dentro, por
Iskra de Roma, que ficou olhando a bela espiã com ar
intrigado.
— Boa-noite, senhor Iskra — cumprimentou ela.
— Quem é você?
— Não se lembra? Maria Lucientes, é claro! Espero que
não faça caso de uma cara um pouco diferente, colega.
— Esse é o seu rosto verdadeiro?
— Não! — riu a espiã! — nem este, nem o que você viu
em Roma. Todo o mundo sabe que os espiões, pelo menos os
bons espiões, têm pelo menos mil caras.
— Bom. Chega de brincadeiras. E agora?
— Agora, faça exatamente isto: desça e espere por mim
ao pé da escada. Não no living, mas ao pé da escada.
— Está bem.
Iskra saiu do quarto e desceu as escadas. Quando sua
cabeça desapareceu abaixo do nível visual do corredor,
Brigitte dirigiu-se para outra porta e chamou da mesma
maneira.
A porta foi aberta por Iskra de Nice.
— Boa-noite, monsieur — cumprimentou “Baby”,
sorridente.
— Quem é você?
— Como é horrível a falta de originalidade de certas
pessoas! Repetem o que os outros dizem... Não se lembra,
monsieur! — perguntou, com a voz áspera e esganiçada de
Madame la Duchesse de Montpelier.
— Não é possível!... Você... você é...
— Ora, vamos! É evidente que sou a senhora Duquesa,
monsieur Iskra. Tenha a bondade de vir comigo.
— Eu sabia que você era jovem! Tinha certeza! Eu estava
certo quando supus que você era “Baby”?
— Talvez, monsieur. Talvez. Vamos?
Indicou as escadas e Iskra encaminhou-se naquela
direção, seguido da espiã. Parou ao ver lá embaixo o outro
Iskra, mas Brigitte o empurrou amavelmente com um
dedinho.
— É um amigo, monsieur. Pode descer sem susto.
Ao pé da escada, reuniram-se a Iskra de Roma, que
olhava com expressão estranha e quase assustada para Iskra
de Nice, dez anos mais velho do que ele. Os olhos de Iskra
de Roma brilharam malignamente por trás dos óculos.
— Quem é esse? — perguntou Iskra de Roma.
— As apresentações serão feitas dentro de alguns
instantes, no living. Por favor, queiram me acompanhar.
Entraram no living. Os dois Iskras ficaram olhando para
o personagem atraente e bem-posto que havia ali, bebendo
junto ao bar e que, com o cenho franzido, olhava por sua vez
para a porta.
— Senhores — disse Brigitte, dirigindo-se aos dois
homens que a acompanhavam e indicando o homem junto ao
bar. — Apresento-lhes Iskra. Iskra, meu amor querido —
sorriu ela para o yachtman — apresento-lhe Iskra e Iskra.
Os três homens ficaram tensos, olhando-se uns aos
outros. O mais jovem foi o primeiro a reagir, deixando o
copo sobre o pequeno balcão do bar.
— Que significa isto? —- grunhiu.
A espiã fitou os três. Encaminhou-se para o sofá, sentou-
se languidamente e sorriu.
— Espero que vocês possam explicar — disse, em tom de
indiferença.
— Explicar... o quê? — quis saber Iskra de Roma.
— O fato, bastante surpreendente, de existirem nada
menos do que três Iskras E sou capaz de apostar que esqueci
algum por esta velha e simpática Europa.
— Você está doida? — resmungou Iskra-Palma.
— Qualquer dia acabo doida mesmo — sorriu a espiã..—
Principalmente se continuarem me dando missões como esta.
Vamos, cavalheiros: discutam entre si sobre quem é o
verdadeiro Iskra. Mas, é evidente — sacou sua pistola,
apontando-a para o grupo — façam isso com tranquilidade e
cortesia. Com bons modos, meninos!
— Não há o que discutir! — exclamou Iskra-Palma. —
Eu sou o verdadeiro Iskra!
— É mentira! — negou Iskra-Roma. — Iskra sou eu!
— Só há um Iskra — resmungou Iskra-Nice. — Eu.
Brigitte olhou-os, um a um, amavelmente. Tornou a
sorrir, colocou-se de pé e foi até o bar. Passou para trás do
balcão, inclinou-se e apanhou um baralho de cartas numa
prateleira, voltando ao sofá. Puxou para perto a mesinha de
centro e apontou para as duas poltronas que estavam
próximas.
— Por favor, senhores. Sentem-se. A partida vai
começar.
— Que partida?
— Uma partidinha de pôquer. Sentem-se, por favor...
Deixou a pistolinha sobre a mesa e começou a embaralhar
as cartas. Os três homens aproximaram- se, arrastando as
poltronas. Mas, de repente, ao invés de sentar-se, Iskra-
Roma apanhou velozmente a pistolinha de Brigitte sobre a
mesa, apontando-a. contra o peito da jovem.
— Não vai haver partida de pôquer! — exclamou. —
Esta armadilha...
— Sossegue e sente-se — sorriu Brigitte, friamente: — a
pistola está descarregada.
Iskra-Roma voltou-se para Iskra-Palma e apertou o
gatilho. Ouviu-se apenas um suave “clic” metálico, e nada
mais. Iskra-Palma avançou um passo, com as feições
crispadas, e uma de suas grandes mãos se fechou diante do
rosto de Iskra-Roma.
— Sejamos civilizados! — impôs Brigitte. — Podemos
resolver o caso de outra maneira. Vamos jogar pôquer, sim?
Em minha opinião, isto vai ser resolvido independentemente
de nossa vontade... Obrigada por terem se sentado,
cavalheiros.
— O que é que você está tramando agora? — murmurou
Iskra-Nice.
— Apenas uma partidinha de pôquer, no duro. Vejamos:
aqui temos os quatro ases, espadas, paus, copas e ouros...
Bonita quadra, não lhes parece?
— Tudo isto é absurdo, Monique! Uma bobagem! —
protestou Iskra-Palma.
— Talvez, querido. Mas deste jogo tem que sair a
verdade.
— A verdade sou eu, Monique. Eu sou Iskra.
— Bem... É possível, sim. Mas acho que você é quem
tem menos probabilidades de me convencer. Segundo todos
os dados razoáveis, Iskra não pode ter menos que cinquenta
anos. Como é que você explica o seu aspecto tão juvenil?
— Sou filho do verdadeiro Iskra.
— Filho de...?! Oh! Vamos!...
— É a pura verdade! Faz dez anos, meu pai foi
assassinado em Bombaim. Foi então que ingressei na MVD,
assumindo o seu nome.
— Muito interessante... De maneira que você está
trabalhando para a MVD há dez anos e, de repente, sem mais
nem menos, resolve passar para a CIA. Por quê?
A expressão de Iskra-Palma endureceu-se.
— Porque há apenas um mês descobri que meu pai foi...
eliminado pela própria MVD, por motivos de reestruturação
de pessoal. Meu pai, o primeiro e verdadeiro Iskra, era um
espião que pensava por conta própria, e não um fanático
cego que tivesse aderido incondicionalmente ao regime e ao
Partido. Isso não convinha à MVD. Tinha então quarenta e
oito anos e sua trajetória profissional estava aproximando-o
demasiadamente ao Kremlin, a uma possível posição política
de influência. Assim, a MVD resolveu que Iskra, com seu
modo muito pessoal de pensar, não podia ocupar um posto
político. Por isso, foi eliminado. Assassinado por três
agentes da própria MVD em Bombaim. Esta é a verdade
verdadeira.
— Parece razoável — murmurou Brigitte. — De maneira
que você, ao inteirar-se dessa sujeira da MVD, resolveu
vingar-se, colocando nas mãos da CIA um fabuloso
microfilme.
— Exato. Merecem essa lição, pelo que fizeram!
— Esse sujeito está louco! — grunhiu Iskra-Roma. —
Completamente louco. Eu sou Iskra!
— Sou eu — contestou Iskra-Nice.
— Amigos: não vamos lucrar nada discutindo. Algum de
vocês pode provar de modo insofismável que é Iskra? Por
menor que seja o detalhe, eu talvez possa compreendê-lo e
aceitá-lo como prova. Algum de vocês tem qualquer indício,
por pequeno que seja, para demonstrar quem é? Não? Então,
vamos dividir entre nós esta quadra. Tenho quatro ases em
minhas mãos. Meu preferido é o de copas, naturalmente.
Pois bem, esta partida de pôquer vai ser realmente muito
peculiar: darei uma destas cartas a cada um de nós. Aquele
de vocês que receber o ás de copas, será o verdadeiro Iskra.
Se eu o receber, é porque nenhum de vocês é Iskra...
— Isso é absurdo! — murmurou Iskra-Palma.
— Eu sei — concordou Brigitte. — Mas é a única
maneira de que disponho para tomar uma decisão. Aquele de
vocês que receber o ás de copas será considerado, para todos
os efeitos, o verdadeiro Iskra e levado para os Estados
Unidos, onde...
Calou-se, repentinamente, e ficou olhando os dois
homens que surgiram pela porta, empunhando cada qual um
revólver. Os três Iskras acompanharam seu olhar e ficaram
imóveis, petrificados.
Os recém-chegados encaminharam-se lentamente para o
living, silenciosos. Atrás deles, outros dois, um dos quais
postou-se junto à janela, enquanto outro apressou-se em
apanhar a pistolinha de Brigitte.
— Não me lembro de tê-los convidado para a festa —
sorriu “Baby”, falando em russo, cordialmente. — Quero
dizer, para o pôquer.
— Não há necessidade de continuar o jogo, “Baby” —
disse um dos homens, também em russo.
— Não? Então, como vou saber qual de meus três
convidados é o verdadeiro Iskra?
— Nós lhe facilitaremos a solução: vocês dois, venham
para cá.
Iskra-Roma e Iskra-Nice levantaram-se, sorrindo, e
afastaram-se da mesinha, deixando Brigitte e Iskra-Palma de
lado. A espiã lançou-lhe um olhar, sorrindo também, quase
com doçura.
— De maneira que era você mesmo? — murmurou.
O jovem russo, em trajes de yachtman, estava um pouco
pálido. Tirou o boné e deixou-o sobre a mesa, num gesto de
desalento.
— Você pôs tudo a perder, Monique.
— Lamento, sinceramente, querido espião. Mas, eu não
podia acreditar em nenhum de vocês três. Com que base?
Qualquer um podia ser o verdadeiro Iskra. Você precisa
compreender...
— Compreendo. E espero que você também tenha
compreendido, por fim, que eu sou Iskra, filho de Iskra. O
que eu contei é verdade.
— Não tenho outra saída a não ser acreditar. Mas... Não
sei... Foi tudo tão confuso, desde o primeiro instante...
— Já não adiantam lamentações, Monique.
— Ela não é Monique — disse um dos russos recém-
chegados, aproximando-se. — É a famosíssima e jamais
caçada ou identificada agente “Baby”, da CIA. Ou será que
não?
— Claro que sim — sorriu Brigitte. — Eu sou “Baby”,
cavalheiros. Convenientemente maquilada, com as feições
muito alteradas, mas... sou “Baby”. Seria bobagem negá-lo
num momento como este, tão próximo da morte.
— Oh! Não! De forma alguma, “Baby”! As coisas não
são tão simples assim. Quem falou em morrer?
— Bem... Não sei. Por acaso, não vão me matar?
— Claro que não! Por enquanto, pelo menos. Seu cadáver
não serviria de nada à MVD. Você é uma peça que nos
interessa viva. Sabe qual é a recompensa oferecida pela
MVD ao agente que levar “Baby” a Moscou?
— Um bilhão de dólares?
— Não tanto — sorriu secamente o russo. — Apenas um
milhão. Milhão, e não bilhão.
— Mas... um milhão de quê? De dólares ou de rublos?
— De rublos.
— Só isso? Terei que fazer uma queixa à MVD. E vou
fazê-la por intermédio de vocês.
— Por nosso intermédio?!
— Sim, de vocês. Quando voltarem a Moscou, digam, da
minha parte, que me parece intolerável o preço que oferecem
por minha cabecinha. E vocês, os eficientes agentes da
MVD, não sejam bobos: para arriscarem a vida contra
“Baby” peçam, no mínimo, um milhão... de dólares. Muito
embora, depois disto, a MVD venha a oferecer um milhão de
dólares mesmo, e mais outro de gratificação...
— Depois disto? Disto, o quê?
— O que vai acontecer aqui, dentro de pouco.
— Você tem esperanças de poder escapar mais uma vez?
— Nunca perco as esperanças. Além do mais Iskra-Roma
aproximou-se do russo que estava mantendo o diálogo com
Brigitte e murmurou algumas palavras em seu ouvido. O
homem assentiu com a cabeça e, por sua vez, cochichou
algumas palavras ao ouvido do companheiro que tinha
entrado com ele, o qual saiu do living. Passou então à fitar
friamente a espiã internacional.
— Nosso camarada nos disse que logo vai chegar um
helicóptero a esta vila para apanhá-la e, provàvelmente, o
Iskra que você tivesse escolhido. Você concorda em que
esperemos seu companheiro, ou companheiros?
— Eu preferiria que não.
— Mas vamos esperar assim mesmo.
— Ele verá o carro, ou alguma coisa...
— Nosso carro? Não, não. Está longe daqui. E não verá
nada, pois estaremos todos aqui dentro, bem escondidos.
Será uma surpresa para seus amigos, “Baby”.
— É. Vai ser uma surpresa terrível — sorriu Brigitte. —
Eu queria perguntar uma coisa: vocês têm certeza de que este
aqui é Iskra?
Indicou o mais jovem, o de Palma de Maiorca.
— Absoluta certeza.
— Bem... Então o ás de copas é dele, não há mais
dúvidas.
Separou o ás de copas e colocou-o dentro do boné do
yachtman, fitando-o com um sorriso triste.
— Distribuição de cartas correta — disse o que vinha
conversando com ela. — Pena é que tenha sido um pouco
tarde, “Baby”.
— Tarde? Por quê?
— Porque nenhum dos que estão aqui presentes chegará a
Washington.
— Isso é discutível. De qualquer maneira, os três
microfilmes chegarão a Washington. E isto vai dar dor de
cabeça à MVD, não acha?
— Enviou os três microfilmes? — sorriu o russo.
— Claro! E por uma via rapidíssima e segura. Você se
incomoda?
— Lógico que não! O que é que a CIA vai fazer com três
microfilmes parecidos, mas de conteúdo diferente? A qual
deles dará crédito? Aos três? Isso custaria a vocês mais
milhões de dólares do que a nós ter que refazer o esquema da
espionagem mundial. E se fizerem caso de apenas um, quem
garante que esse é o verdadeiro, o que Iskra conseguiu
roubar, e que não estarão jogando fora milhões de dólares,
numa contraespionagem inútil?
— Isso é verdade. A não ser que alguém fosse a
Washington para indicar qual o verdadeiro microfilme.
— Mas ninguém daqui vai chegar a Washington para
fazer isso.
— Eu chegarei — sorriu Brigitte; olhou para o reloginho
de pulso. — Exatamente amanhã, às duas da tarde, em voo
especial que sai da base ianque-espanhola de Torrejón.
— Você se acha invencível? Ou está tentando nos
intimidar? Nem sequer tem uma ideia de como foram feitas
as coisas, da armadilha que lhe preparamos, da astúcia que
usamos para resolver a desagradável situação em que Iskra
ia nos colocar. Nem ao menos...
— Você está querendo dizer que eu não compreendi
nada, russo? — interrompeu Brigitte. — Você acha,
realmente, que a agente “Baby” ainda não compreendeu do
primeiro até o último detalhe esta jogada da MVD?
— É exatamente o que eu estou dizendo.
— Pois você está enganado, russo, Muito enganado. Eu
sei tudo.
— Ah! É?!...
— Se quiser, eu lhe explico tudinho.
— Por que não? Temos muito tempo. Quero só ver se a
famosa “Baby” é mesmo essa grande agente contra quem
ninguém pode. Vamos: explique como foi a nossa grande
jogada.
Brigitte ia começar a falar, quando surgiu na porta o russo
que havia saído pouco antes, acompanhado agora de um
outro. O que vinha falando o tempo todo, e que parecia ser o
chefe do grupo, assentiu com a cabeça, distribuiu-os pelo
living, assinalando diversos pontos. Voltou-se depois para
Brigitte.
— Desculpe a interrupção. O que é que você ia dizer?
— Vou apenas fazer um pequeno resumo dos
acontecimentos. Iskra escapou da Rússia com um microfilme
valiosíssimo e a MVD percebeu que apenas a CIA poderia
compreendê-lo devidamente. Escolheu então dois de seus
agentes — apontou para Iskra-Roma e Iskra-Nice —
lançando-os na Europa para que enviassem à CIA, em
Washington, simultaneamente, ofertas de colaboração, na
suposição de que era exatamente isso o que o verdadeiro
Iskra ia fazer. A MVD achou, também, que a CIA teria que
ajudar Iskra a alcançar a América, pois todas as saídas do
continente estão fechadas para o homem procurado pelo
serviço soviético pela rede lançada em toda a Europa. Só
com uma ajuda eficiente Iskra poderia escapar. Não contente
com isso, porém, a MVD deixou que se filtrassem
numerosas informações sobre o verdadeiro Iskra, de maneira
que vários sistemas de espionagem europeus se puseram
freneticamente em movimento nos pontos onde talvez
estivesse Iskra. Assim, em Roma e em Nice, os húngaros e
os alemães, respectivamente, conseguiram localizar dois
falsos Iskras, nos lugares onde o verdadeiro tinha bases de
operações durante seus deslocamentos pelo continente. Em
poucas palavras: a MVD procurou assegurar-se ao máximo
de que Iskra seria localizado e eliminado, fosse pela própria
MVD, fosse por outros serviços secretos. Ao mesmo tempo,
fez com que três microfilmes entrassem na dança, de tal
maneira que, se chegassem à CIA, esta ficasse
completamente desconcertada... Estou indo bem?
— Até aqui, tudo certo.
— Então, mereço um cigarro. Posso?
Estendeu uma das mãos até sua bolsa, mas um dos russos
adiantou-se rapidamente, impedindo-a de apanhá-la. O que
vinha falando, acercou-se sorrindo e ofereceu um de seus
próprios cigarros a Brigitte, que aceitou:
— Obrigada — sorriu a belíssima espiã. — Onde
estávamos, mesmo? Ah, sim! Nesse plano que estou
expondo, arriscam-se as vidas de dois agentes — indicou
novamente os dois Iskras falsos, que empalideceram
ligeiramente. — Mas isso não importa. Naturalmente, eles
não sabem que a MVD delatou os esconderijos de Iskra na
Europa e que não dá a mínima importância à possível morte
de ambos. O que interessa, além de desconcertar a CIA com
três Iskras e três microfilmes, é que os dois falsos, caso
saiam vivos da vingança dos húngaros, alemães etc. etc.,
sejam recolhidos pela CIA e levados a um lugar de onde,
evidentemente, serão transladados para os Estados Unidos.
Claro que nesse lugar, ou seja, nesta vila onde agora nos
encontramos, serão reunidos três Iskras. Um deles é o
verdadeiro, aquele que a MVD por seus próprios meios,
apenas, não consegue encontrar. Mas que é encontrado pela
CIA, uma vez que ele, o autêntico, terá evidentemente
marcado um encontro com o agente enviado pelo serviço
secreto americano. Assim, vigiando os dois agentes russos
que se fazem passar por Iskra e que também marcaram
encontro com a CIA, um em Roma e outro em Nice, vocês
chegariam ao ponto-chave de onde a CIA pretendia enviar o
verdadeiro Iskra para os Estados Unidos. E assim fazem:
vigiam seus próprios agentes de longe, sem interferir em
nada, nem mesmo quando os dois correm risco de vida,
porque confiam em que a CIA os tirará do apuro. É o que
acontece: primeiro um, depois, o outro, ambos os falsos
Iskras são trazidos para Maiorca e depositados,
provisoriamente, cada um em uma casa nos vilarejos de
Valldemosa e Binisalem. Ficam ali com inteira liberdade
para entrar em contato com vocês. De maneira que vocês
vêm para cá, localizam os seus próprios agentes e ficam
esperando que a CIA traga também o verdadeiro Iskra...
Certo?
O russo sorriu de má vontade.
— Está certo.
Brigitte indicou o bar.
— Posso tomar um trago de qualquer coisa?
— Não.
— Mesmo que seja vodca?
— Não. Continue.
“Baby” suspirou com ar de menina contrariada.
— Está bem. Vou continuar: esta noite, um homem da
CIA foi a Valldemosa e a Binisalem, e trouxe os dois falsos
Iskras para esta vila, um de cada vez, colocando-os em
quartos separados e com ordens de não sair. Assim, ambos
ignorando a presença do outro, ficam aguardando o meu
sinal para abrir a porta. Enquanto isso, vocês estão lá fora,
bem escondidos, esperando a chegada do terceiro Iskra, o
verdadeiro. Estão no bom caminho, o plano é formidável:
três Iskras, três microfilmes, deixando a CIA completamente
às tontas. Enquanto isso, a coitadinha da CIA fazendo por
vocês o trabalho de encontrar o Iskra legítimo. A CIA gastou
trabalho e dinheiro e arriscou nada menos que a agente
“Baby”. Como prêmio, ganhou apenas três microfilmes
parecidos, dos quais um só pode ser o verdadeiro; talvez
todos sejam falsos. Por outro lado, vocês ficam com nada
menos que o verdadeiro Iskra e com “Baby”. Grande jogada,
cavalheiros! Minhas felicitações! E no fim, o que
arriscaram? Apenas as vidas de dois agentes, os falsos
Iskras. Mas isso não tem a menor importância, comparado
com o desastre que teria sido se Iskra e seu verdadeiro
microfilme conseguissem chegar a Washington, sem
complicações para a CIA. Terminei. Esqueci alguma coisa?
O russo que comandava o grupo sacudiu a cabeça,
negativamente.
— Nada — murmurou, — Formidável, “Baby”. Começo
a achar que a sua cabeça vale um milhão... de dólares.
— Valerá dois, quando isto estiver terminado.
— Continua insistindo em que vai chegar aos Estados
Unidos, à Central da CIA, para indicar-lhe qual o verdadeiro
microfilme?
— Tenho certeza de que chegarei, senhores.
Iskra-Roma avançou, vacilante, pálido.
— Yashin, o que ela contou sobre nós...
— Cale-se! Não percebe que ela pretende nos iludir,
Leon?
— Ela disse que vocês estavam dispostos a nos sacrificar,
deixando-nos cair nas mãos dos húngaros, ou dos alemães,
ou...
— Cale-se, já disse! Em Moscou darão todas as
satisfações que você quiser. O que importava era capturar
Iskra, e isso nós conseguimos, não é?
— Mas a MVD estava disposta a deixar que nos
matassem, desde que vocês, que estavam ali perto sem
intervir, conseguissem localizar e seguir os enviados da CIA
para chegar até aqui. Vocês estiveram perto de nós o tempo
todo e não nos ajudaram!...
— Já lhe disse que isso será explicado em Moscou.
— Explicar o quê? Dar que satisfações? Ficou
perfeitamente claro que nós estávamos sendo sacrificados,
que estávamos sendo usados como carniça para encontrar
Iskra
— Não fique muito decepcionado — sorriu Brigitte,
friamente. — A CIA também faz suas jogadas, tão sujas
quanto esta. Somos espiões e temos que aguentar as
consequências. A propósito, Yashin: o que vai acontecer
com Iskra? Entendo que vocês pretendem me levar viva para
Moscou. Mas, o que vai ser dele?
Yashin olhou friamente para Iskra-Palma.
— Acontecerá com ele o que acontece com todos os
traidores. E isso vai ser aqui mesmo, antes de nos irmos.
— Compreendo. Bem, creio quo chegou o momento de
terminar a partida, senhores.
Os russos se entreolharam, malévolos, em expectativa.
Mas Brigitte não se moveu, nem deixou de sorrir.
— Isso é uma cilada — murmurou um dos russos. — Ela
nos meteu numa armadilha, Yashin...
— É possível — concordou o chefe do grupo. — Mas
uma coisa é certa. Não será ela quem sobreviverá. Nem
Islora.
— Creio que sobreviveremos todos... por esta vez, ao
menos — disse Brigitte. — Mas da próxima vez que nos
encontrarmos, não serei tão condescendente com vocês.
Minhas saudações à MVD.
— Ah!... Não esqueçam de dizer em Moscou que exijo
que me avaliem em dois milhões de dólares, pelo menos.
Senhores: a partida terminou.
Cruzou as pernas e apertou-as fortemente. Foi a única a
saber que, naquele momento, rompia-se uma diminuta
ampola contendo gás concentrado de efeito fulminante.
Cravaram-se em sua coxa minúsculos cacos de vidro,
deixando escapar o gás...
***
Hora e meio mais tarde, quase às duas da madrugada, um
helicóptero pousava no jardim da vila. Johnny saltou e
dirigiu-se tranquilamente para a casa. Encaminhou-se para o
living, empunhando sua pistola.
Assim que assomou à porta, sorriu e guardou a arma.
Foi ao bar, serviu-se de uma dose de uísque e bebeu
lentamente, apreciando-o, enquanto contemplava o
surpreendente quadro que se oferecia a seus olhos: oito
homens e uma mulher dormindo tranquilamente, como se a
vida fosse a coisa mais plácida do mundo. Sete dos homens,
dois dos quais eram Iskra-Roma e Iskra-Nice, achavam-se
jogados no chão de qualquer maneira, alguns deles com um
revólver na mão inerte. O oitavo homem, o mais jovem dos
Iskras, estava caído de bruços sobre a mesinha de centro.
Quanto à fabulosa e jamais suficientemente decantada
espiã, achava-se sentada no sofá, qual uma bonequinha,
dormindo o mais doce dos sonhos, com a graciosa boca
entreaberta, numa atitude de menina feliz.
Johnny terminou o uísque, deixou o copo perigosamente
equilibrado sobre outro, em cima do balcão, e começou a
agir, assoviando alegremente. Com grande perícia e
tranquilidade, revistou primeiramente Iskra-Roma, depois
Iskra-Nice e, finalmente, Iskra-Palma.
Então, subitamente, deixou de assoviar e coçou a cabeça,
desconcertado.
— Que diabo! — resmungou. — Ela disse que colocaria
o ás de copas sobre o verdadeiro Iskra, mas nenhum dos três
está com a carta!...
Sentia-se realmente perplexo.
— Vejamos, vejamos, meu caro Johnny — continuou,
falando consigo mesmo. — “Baby” sabia que os garotos da
MVD viriam a esta vila quando os três Iskras estivessem
reunidos. E era isso exatamente o que ela desejava, para que
os próprios russos, caindo na armadilha, lhe indicassem, sem
a menor sombra de dúvidas, qual dos três era o verdadeiro
Iskra... Quando soubesse, colocaria o ás de copas nas roupas
de...
Afastou de repente Iskra-Palma, jogando-o de encontro
ao encosto da poltrona. E viu, então, o ás de copas dentro do
boné do simpático russo.
— Puxa! — riu Johnny. — Como é que passou pela
minha cabeça que ela falharia?
Colocou Iskra-Palma, o verdadeiro Iskra, nas costas e
levou-o ao helicóptero. Regressou ao living, apanhou a bolsa
de Brigitte, sua pistolinha, os revólveres dos agentes da
MVD, levou tudo para o helicóptero e voltando novamente
ao living.
Acercou-se de Brigitte e deteve-se durante alguns
segundos, contemplando-a. Por fim, sorriu e disse:
— Agora é a sua vez, “Baby”.
Ergueu-a pelos ombros, como se fosse um saco, e
colocou-a sobre seu próprio ombro esquerdo, dobrada pela
cintura, com a cabeça voltada para o chão, sobre suas costas.
Segurando-a pelas pernas com o braço esquerdo, deu-lhe
uma palmada nas nádegas com a mão direita e riu.
— Você não acordará antes de Torrejón, boneca. Mas
espero ter uma oportunidade para bater um papinho antes de
meter você e Iskra num avião, rumo a Washington. Esse cara
sim que tem sorte! Cruzar todo o Atlântico em companhia de
“Baby”!
Com seu delicioso fardo no ombro esquerdo, saiu do
living. Ao chegar à porta, voltou-se rapidamente e piscou um
olho para os agentes da MVD, profundamente adormecidos.
— Espião algum jamais teve tanta sorte quanto vocês,
meus caros. Espero que isto, pelo menos, lhes sirva de lição:
nunca mais aceitem jogar pôquer com “Baby”... Quando é
que vocês da MVD vão aprender que “Baby” sempre
trapaceia?...

Pôquer sem sono, para variar...

— O senhor Grogan, miss Montfort. E Frank, quero dizer,


o senhor Minello, está com ele.
— Mande-os entrar.
Mas Miky Grogan e Frank Minello já tinham entrado na
sala íntima de Brigitte Montfort. Frank, como, sempre, sorria
e, como sempre, seu olhar detinha-se nos insuperáveis
encantos da bela espiã. Miky também notou seus encantos,
mas estava furioso e não se deixou enternecer.
— Muito bonito! — gritou. — Pede uns dias de férias
para ir caçar patos selvagens e quando, no fim-de-semana,
vou até à cabana para encontrar-me com você, acontece que
não está lá! Por quê?
— Tive que dar um recado... Olá, Frankie, meu amor.
— Olá, belíssima espiã. Você me ama?
— Deixe-se de bobagens! — gritou Grogan. — Ela
também lhe deu o bolo, não é? Quando fomos até a cabana
para passarmos o dia caçando, com ela, a pombinha tinha
voado! Foi ou não foi? Você mentiu!
— Claro que o amo, Frankie querido! — sorriu Brigitte.
— Mas não inteiramente, você sabe... Eu menti, furioso
chefe?
— Aproveitou as férias para coisas que não disse!
— Já expliquei que tive que dar um recado.
— Um recado! Aposto como foi fazer coisas para a CIA!
E sou eu quem paga!
— A CIA também paga, querido.
— Não me chame de querido!
— Está bem. A CIA também paga, odiado. E mais do que
você. Por falar nisso, eu queria exatamente conversar sobre
um possível aumento...
Miky Grogan empalideceu intensamente.
— Não! — exclamou. — Nada de aumentos! Falemos de
outra coisa. E não conte com férias até... até daqui a vinte
anos! Está claro?
— Claríssimo. Os cavalheiros aceitariam uma taça de
champanha com cerejas?
— Bem...
— Parece que está se acalmando, odiado chefe... E você,
Frankie? Aceita?
Frank Minello sentou-se no sofá, a seu lado, abraçou-a e
tentou beijá-las nos lábios. Ela esquivou- se, rindo, enquanto
Miky Grogan tornava-se verde, com ciúmes e inveja da
intimidade de Frank.
— Parem com isso! — exclamou. — Explique de uma
vez onde é que você andou, Brigitte.
— Você não vai acreditar...
— Não tem importância. Quero ouvir a sua explicação.
— Bem... Estive jogando uma partidinha de pôquer. E,
como sempre, tive as melhores cartas.
— Ganhou?
— Ganhei.
— Trapaceando, é claro...
— Lógico! Não tive outro remédio Por falar nisso, vocês
querem jogar pôquer? Espero não ter que dormir desta vez...

A SEGUIR:

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