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Fuga e Mistério em Nassau: Ilha Navegante

O documento narra a fuga de um agente da CIA, FLA-2039, que está ferido e sendo perseguido. Ele consegue se comunicar sobre uma ilha artificial chamada 'Navegante' antes de ser capturado e morto por dois indivíduos. A história se desenrola em Nassau, Bahamas, onde uma misteriosa passageira chamada Nathalie Arlington chega ao hotel, atraindo a atenção de todos.

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Fuga e Mistério em Nassau: Ilha Navegante

O documento narra a fuga de um agente da CIA, FLA-2039, que está ferido e sendo perseguido. Ele consegue se comunicar sobre uma ilha artificial chamada 'Navegante' antes de ser capturado e morto por dois indivíduos. A história se desenrola em Nassau, Bahamas, onde uma misteriosa passageira chamada Nathalie Arlington chega ao hotel, atraindo a atenção de todos.

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© 1968 – LOU CARRIGAN

VÍBORA SIEN NICHO


Capa de Benicio
Colaboração de Sérgio Bellebone
530527
PRÓLOGO
“FLA-2039 chamando”
O homem vinha correndo o mais que podia, ofegante,
arrastando a perna direita. A todo o momento, lançava um
olhar para trás. Ia deixando gotas de sangue dispersas pelo
chão, algumas grandes, outras menores. Era alto, forte,
atlético. Evidentemente, seria capaz de correr a grande
velocidade, se não fosse o ferimento na perna que manchava
completamente a calça clara. Tinha o rosto coberto de suor,
que escorria pelo pescoço e pelo tórax peludo, mal
disfarçado pela camisa desabotoada, de listras vivas e
alegres.
Por cima de sua cabeça, as copas das palmeiras de
quando em quando deixavam passar os raios da lua, os quais
davam a seu rosto um tom pálido e brilhante.
Com gestos bruscos, afastava do caminho os ramos dos
arbustos e ervas, por entre os quais tinha a esperança de
ocultar-se temporariamente em sua fuga.
Tinha na mão direita uma pistola, mas, era evidente,
preferia fugir a enfrentar seus perseguidores, que não
conseguia ver nem ouvir. Teria conseguido despistá-los? Ou
estavam atrás dele, como o felino silencioso que persegue a
presa ferida?
O homem alto e atlético divisou, por fim, por entre os
arbustos, a pequena cabana próxima ao mar, no lugar
chamado Dick’s Point. A lua traçava um caminho de prata,
ligeiramente corrugado e movediço, sobre as águas
inquietas. Ah! se fosse realmente um caminho de prata,
sólido, por onde pudesse fugir, desaparecer!
Mas, as possibilidades de fuga eram poucas, tanto por
mar quanto por terra firme, com aquela perna ferida. Já tinha
feito muito, conseguindo chegar até ali.
Aproximava-se cada vez mais da cabana, mas continuava
a olhar constantemente para trás. Não via ninguém e o
silêncio era total. Ao longe, distinguia o clarão da cidade de
Nassau. As luzes da capital das Bahamas, na Ilha de New
Providence, lançavam-se para o céu e refletiam-se no mar
em miríades de cores, formando um estranho arco-íris
mesclado, sem separação entre os vários matizes.
Finalmente, a cabana!
O homem parou, tirou do bolso uma chave. Fazia o
possível para não arquejar, para não fazer o menor ruído. Seu
peito inflava e desinflava com força. A camisa estava
completamente empapada de suor.
Conseguiu abrir a porta e entrou rapidamente, fechando-a
atrás de si. Não acendeu qualquer luz, pois não era
necessário.
A pequena cabana tinha uma só peça. Pela janela que
dava para o mar penetrava a fraca luz do luar, permitindo
distinguir um beliche, a mesinha de cabeceira, um biombo. O
resto ficava na mais completa escuridão. No entanto, o
homem movimentou-se desembaraçadamente pela peça.
Enfiou a pistola na cintura e agachou-se diante de um velho
armário. Com as duas mãos agarrou os puxadores do gavetão
na parte inferior do móvel, puxando-os. Todo o painel da
frente abaixou, ao mesmo tempo que se acendia uma
pequena luz vermelha no interior daquela parte do móvel,
disfarçada em gavetão.
A luzinha vermelha permitia distinguir os controles da
radioemissora embutida ali. O homem sentou-se no chão,
diante do aparelho, e passou o braço pela testa, enxugando o
suor que escorria pelos olhos. Olhou para a janela e para a
porta.
Por fim, ligou um pequeno comutador e suspirou
profundamente.
— FLA-2039 chamando! — falou, novamente ofegante.
— CIA FLA-2039, chamando da base de Nassau, Bahamas...
Disponho de pouco tempo... Estão me perseguindo e fui
ferido... Não poderei repetir esta mensagem. Prestem
atenção, que não vou repetir. Algo de novo... algo de novo
está acontecendo na costa sul-oriental dos Estados Unidos.
Não sei exatamente o que é, mas existe uma ilha artificial
que tem alguma coisa a ver com isso. A ilha se chama
“Navegante”... “Ilha Navegante” é o nome. Não sei que jeito
tem, mas creio que se parece com uma ilha verdadeira, com
a diferença de que se movimenta, sai do lugar. Repito: ilha
“Navegante” que se desloca, navega. É pequena, apenas
cerca de meio quilômetro quadrado. Em Nassau...
Um silvo agudo saiu do aparelho de rádio, fazendo o
homem sacudir-se todo. Olhou para o aparelho, estupefato,
durante alguns segundos. Ligou e desligou várias vezes o
comutador. Tomou a enxugar o suor do rosto e insistiu
diante do microfone:
— Em Nassau há duas pessoas envolvidas no caso. Creio
que não são americanos nem ingleses, embora seus nomes
aqui sejam Hortense Wald e Peter Gilbert. Estão hospedados
no “Windsor Hotel”. Eu estava vigiando os dois, mas fui
descoberto quando ouvia uma conversa entre eles sobre a
ilha “Navegante”. Um deles continuou falando sozinho,
enquanto o outro, a mulher, saiu e me surpreendeu por trás.
Estou ferido na perna, mas farei o possível para fugir.
Repito: “Ilha Navegante”, deslocando-se para a costa sul-
oriental dos Estados Unidos. Peter Gilbert e Hortense Wald
no “Windsor Hotel”, Nassau. Se dentro de três horas eu não
tornar a chamar, é porque eles me apanharam. Comuniquem
se receberam a mensagem.
Baixou o comutador e de novo ouviram-se os silvos
agudos. Tornou a ligar, com o rosto crispado, nervoso.
— FLA-2039 chamando de Nassau... Chamando base
receptora no continente. Comuniquem se receberam
mensagem. Preciso fugir e destruirei o rádio antes. Câmbio.
Abaixou a pequena alavanca do comutador e novamente
entraram os silvos agudos. Entre eles, porém, conseguiu
ouvir uma voz de homem, distante, entrecortada:
— Base do cont... respond... mensagem... captada
perfeit... ordens... abando... fuja... entendido? Câmbio.
FLA-2039 levantou o comutador e conseguiu sorrir.
— Entendido e fora.
Desligou o aparelho e meteu a mão lá dentro, fazendo um
tremendo esforço. Retirou-a pouco depois, sorrindo
satisfeito. Ia fechar o painel, para ocultá-lo novamente, mas
hesitou. Resolveu deixá-lo exposto, à vista de quem quer que
entrasse.
Levantou-se, empunhou de novo a pistola e dirigiu-se
para a porta. Entreabriu-a cautelosamente e espiou pela
fresta. Não viu ninguém.
Saiu, sempre coxeando, correndo o quanto lhe permitia o
ferimento, mas agora se dirigia para a estrada que contornava
a costa, a Eastern Road, que pouco adiante, no extremo da
ilha, em East End, juntava-se com a Yamacraw Hill Road.
Mas não conseguiu chegar.
Um débil clarão brotou entre uns arbustos à sua direita,
um pouco para trás. FLA-2039 soltou um gemido abafado,
largou a pistola e caiu de bruços, procurando levar as mãos
às costas, no ponto onde a bala picara ferozmente.
Dois vultos surgiram de entre os arbustos, deslizando
rapidamente para junto do agente da CIA que, ofegante,
arrastava-se penosamente, tentando alcançar a pistola caída
um pouco adiante.
Quando estava para apanhá-la, foi atirada longe por um
pontapé feminino.
Diante dos olhos esbugalhados do agente americano
plantaram-se duas belas pernas, bem torneadas, douradas
pelo sol, mas com reflexos prateados de lua.
— Ainda está vivo — falou uma voz de mulher.
— O cara é resistente!
— Não temos tempo a perder — atalhou uma voz de
homem. — Precisamos examinar a cabana. Ali deve haver
uma radioemissora e ele talvez tenha conseguido comunicar-
se com alguém...
— Terá sido sua última chamada. Vire-o.
Um pé masculino meteu-se por baixo de uma das axilas
do homem caído, virando-o. O americano ficou de rosto para
o céu, com os olhos muito abertos, o rosto lívido.
— Quem será?
— Deve ser da CIA. Vamos acabar logo com isso,
Marya.
— É o melhor.
Plop.
A bala, disparada pela mulher, verticalmente, acertou em
cheio o coração do americano. O homem pareceu saltar,
estirou o corpo, emitiu um estertor e ficou completamente
imóvel.
— Pronto. Vamos examinar essa cabana.
Os dois encaminharam-se para lá e entraram. O homem
acendeu uma lanterna elétrica e ambos viram imediatamente
a radioemissora.
— Miserável!... Conseguiu comunicar-se, fazer uma
chamada!
— Calma — aconselhou a mulher. — É estranho que não
se tenha dado ao trabalho de esconder o aparelho. Sabia que
nós estávamos atrás dele. Se tivesse chamado, teria ocultado
o rádio, você não acha?
— Não sei. Parece lógico. Além disso, esteve aqui muito
pouco tempo.
— Vamos examinar esse aparelho, Piótor. Talvez não
esteja funcionando. Ligue-o.
O homem passou a lidar com o aparelho durante quase
um minuto. Ergueu a cabeça e olhou para a mulher.
— Não funciona.
— Está certo disso?
— Certíssimo! — Deu uma risadinha: — Nosso... espião
não teve muita sorte. Primeiro, foi surpreendido; depois, o
rádio não funcionou...
— É melhor você se assegurar de que o rádio não
funciona, Piótor.
— Já disse que está quebrado. Qualquer coisa está
arrebentada aí dentro, ou talvez tenha dois condensadores
queimados. Seja lá o que for, o fato é que não funciona. É
preciso uma boa revisão para que torne a falar. É por isso
que aquele sujeito saiu daqui tão rapidamente. Como o rádio
não funcionava, a melhor coisa a fazer era fugir. Lógico!
— Melhor assim. O contrário teria sido muito perigo para
nós e para todo o plano. Vamos embora. Feche isso. Levarão
muito tempo a aparecer por aqui e não há razão nenhuma
para facilitar a ninguém a descoberta do aparelho.
Piótor ergueu o painel que simulava o gavetão com seus
puxadores, colocando-o no lugar. O armário ficou
novamente transformado num móvel comum e inofensivo.
Alguns segundos depois, o homem e a mulher detinham-
se ao lado do cadáver do agente da CIA.
— Que vamos fazer com ele? Não convém deixá-lo aqui.
— O melhor é arrastá-lo e jogá-lo no mar, Piótor. Por ali,
pela escarpa.
— Isso!
Assim, frequentemente, termina seus dias um agente
secreto. Mas nem sempre com a oportunidade de dizer:
“FLA-2039 chamando”.

CAPÍTULO PRIMEIRO
Entre sessenta e quatro, um vale pena
Quem erra deve pagar por seus erros
Há uma brecha em algum lugar
Seis metros abaixo do nível do mar

Em vários pontos do compartimento de passageiros do


enorme jato DC-8, acendeu-se o letreiro luminoso em
vermelho, com o aviso: “No Smoking.” Quase ao mesmo
tempo, a voz da aeromoça fez-se ouvir pelos alto-falantes,
solicitando aos passageiros que não fumassem, atassem os
cintos de segurança e colocassem as poltronas na posição
vertical. Continuou informando que dentro de alguns
minutos pousariam no aeroporto de Oakes Field, o mais
importante das Bahamas. Agradeceu a preferência e desejou-
lhes uma feliz estada nas praias rosadas de New Providence.
Realmente. Cinco minutos depois, o colosso tocava
suavemente a pista de concreto, seguindo-se o estrondo das
turbinas na manobra de inversão do jato para a
desaceleração. Após a parada total da aeronave, o ônibus da
companhia aproximou-se para recolher os passageiros,
levando-os até a estação de desembarque a fim de cumprir as
formalidades de entrada no território.
Hora local: onze e vinte da manhã.
O número de passageiros procedentes de Nova Iorque era
de sessenta e quatro. Sessenta e três deles não despertavam a
menor atenção. Mas o de número sessenta e quatro, aliás, a
de número sessenta e quatro.
Ah! Essa passageira! Com seus imensos e belos olhos
azuis por trás das lentes montadas em espessa armação
negra; o sorriso angelical desenhado nos lábios sensuais...
Esses atributos, porém, eram os últimos a ser notados.
Qualquer um que a olhasse, fixar-se-ia primeiramente em
seu corpo esbelto e perfeito, que era, aliás, o que despertava
de imediato a atenção de todos. Instintivamente o olhar
desceria, lentamente, da cintura para os pés, descobrindo as
pernas mais perfeitas de toda sua vida. O olhar do
observador, então, percorreria mais lentamente ainda o
caminho de volta, detendo-se ligeiramente, maravilhado, na
altura do tórax, para continuar subindo e culminar nos
atributos mencionados em primeiro lugar, os quais coroavam
aquela perfeição em forma de gente.
De passagem, teria notado a elegância no vestir, no andar,
o gracioso meneio dos quadris.
Levava apenas uma valise de mão, de tamanho médio, e
uma deliciosa maleta vermelha adornada com pequenas
flores azuis. Não deixou que nenhum carregador
transportasse sua bagagem.
O motorista do táxi ficou paralisado quando a jovem
aproximou-se dele, indicando com uma das graciosas mãos a
porta de trás do carro.
— Pode levar-me até Nassau?
Teve que repetir a pergunta. Só então o homem chegou à
terra. Bateu as pálpebras, sacudiu a cabeça, saiu do carro e,
como um raio, correu para abrir a porta.
— Nassau?! — exclamou. — Ah! Sim! Nassau! Voando,
senhorita!
— Já voei hoje. Durante toda a manhã. Prefiro que me
leve por terra firme.
— Sim, sim. É claro! Onde, em Nassau?
— Windsor Hotel.
— Voando... Quero dizer, rodando.
***
Na elegante sobriedade do imenso hall do “Windsor
Hotel”, o surgimento da inacreditável passageira procedente
de Nova Iorque provocou uma espécie de discretíssimo
terremoto. Simultaneamente, trinta jornais foram abaixados
sobre trinta colos masculinos e sessenta olhos saltaram em
sua direção, ao mesmo tempo em que uma dúzia de corações
deu pinotes dentro das respectivas caixas torácicas. Os
demais corações limitaram-se a umas pulsações mais
aceleradas, já que as idades de seus donos não lhes
permitiam saltos acrobáticos mais audaciosos.
O encarregado da recepção limpou apressadamente as
lentes dos óculos com seu lenço imaculado e aguardou
ansioso a aproximação da sensacional dama.
— Sou Nathalie Arlington — disse ela. — De Nova
Iorque. Reservei uma suíte ontem à noite, a qual foi
confirmada.
— Sei, sei, sei...
— Não vai examinar a lista de reservas?
— A lista de?... Ah! Sim! Isso mesmo! Deixe- me ver...
— E depois de alguns instantes, o rapaz confirmou: — Aqui
está! Arlington, Nathalie. Felizmente tínhamos uma última
suíte, das quatro imperiais do hotel. A sua é a de número 3.
— Obrigada. O senhor tem à mão o livro de registro de
hóspedes?
— Claro!
— Posso vê-lo?
— Cla... Sinto muito. O regulamento, compreende? A
senhora está procurando alguém? Posso dizer-lhe se está ou
não neste hotel. Mas mostrar o livro é contra o regulamento.
Nathalie Arlington fez um gesto de decepcionada e um
muxoxo que partiu o coração do recepcionista.
— Não, não — murmurou ela.
— Bem... Eu gostaria de ajudá-la, mas...
— É que eu pretendia fazer uma surpresa. Não quero que
ninguém possa nem ao menos insinuar- lhe que cheguei.
— A quem, miss?
— A ele.
— Oh! Compreendo! Bem... Vou fazer uma exceção com
a senhora, mas, por favor, não comente com ninguém, miss
Arlington.
— Não direi nada, nem que me torturem.
O empregado ficou a olhá-la, maravilhado, perguntando-
se a si mesmo se aquela jovem era uma realidade, ou apenas
um sonho, desses que se têm quando se está feliz.
Deixou que olhasse o livro. Uma olhadela rapidíssima. A
jovem levantou os óculos de pesada armação negra, olhou,
sorriu e tornou a colocar os óculos no lugar.
— Pronto — disse ela.
— Está? — perguntou, ansioso, o recepcionista.
— Quem?
O homem inclinou-se para frente, confidencialmente:
— Ele...
Nathalie fez cara de desconsolo.
— Não... Não está. Parece que cheguei antes dele. De
qualquer maneira, se ele chegar, perguntando por mim, não
lhe diga que cheguei.
— Pode ficar sossegada. Oh! Quem é ele?
— Ele? É.... ele.
— Ah! Sei... Quer ir agora para a sua suíte, miss
Arlington?
— Quero.
O recepcionista tocou um timbre e imediatamente
apareceu um boy. A bela jovem deixou que ele carregasse a
valise, mas conservou consigo a maleta vermelha adornada
de florezinhas azuis.
Quando desapareceu do vestíbulo, um suspiro masculino
coletivo ficou flutuando no ar.
***
Aquela tarde, a belíssima miss Arlington dedicou-se a
coisas muito próprias de mulher: foi fazer compras.
Percorreu várias lojas, onde adquiriu finíssimas peças
íntimas, graciosos conjuntos, shorts, sapatos e duas
minissaias. Aparentemente, miss Arlington divertiu-se a
valer, voltando ao hotel muito satisfeita com seu passeio por
Nassau.
De suas atividades, apenas uma poderia parecer
surpreendente para uma jovenzinha tão graciosa: alugou um
aviãozinho esporte e todo o equipamento necessário para
voo, inclusive um paraquedas.
Às seis e meia da tarde, apareceu no bar do hotel com um
lindo vestido próprio para a hora, cor de ouro, muito
decotado e ligeiríssimo. Acercou-se do balcão e encarapitou-
se graciosamente na banqueta. Com o lindo dedinho
indicador, fez um gesto chamando o barman que, solícito,
praticamente voou para onde ela estava.
— Vodka-tonic, com muito gelo. Por favor.
— Perfeitamente, madama.
Na prateleira de bebidas, por trás do balcão, havia um
pequeno espelho, para o qual a senhorita Arlington passou a
dirigir frequentes e discretíssimas miradas. Um observador
atento talvez chegasse a pensar que ela ocupara precisamente
aquela banqueta para poder observar pelo espelho o
movimento no bar, sem ter necessidade de voltar-se
diretamente. Assim, como faziam os pistoleiros no velho e
distante Oeste Americano, segundo o testemunho insuspeito
dos filmes de Faroeste.
Por volta de quinze para as sete, entrou no bar um homem
que passou a merecer o insistente olhar de miss Arlington,
sempre por meio do espelho, é claro. O homem era alto,
pesado e áspero, de rosto amplo, sobrancelhas espessas,
trajando com sobriedade quase insólita um terno completo,
com gravata e tudo. Sentou-se diante de uma mesinha no
fundo da sala e pediu qualquer coisa ao garçom que o
atendeu. Acendeu um cigarro e percorreu com os olhos o
ambiente.
Por uns segundos, seu olhar fixou-se nas belas costas de
pele dourada de miss Arlington a qual, pelo espelho, sorriu-
lhe ligeiramente.
Em seguida, quando o garçom já havia servido o homem
de' sobrancelhas espessas, miss Arlington apanhou o copo de
cirna do balcão, desceu da banqueta e dirigiu-se diretamente
para a sua mesa. Parou graciosamente diante do homem que
olhou para ela, contendo muito bem sua surpresa.
— Dá licença? — sorriu ela.
A surpresa do homem, apesar de bem controlada, pareceu
aumentar.
— Claro... Tenha a bondade.
Ela sentou-se e ficou a encará-lo fixamente.
— Suponho que o senhor seja Peter Gilbert —
murmurou.
— Exato. A senhora me conhece?
— Não, não. Nem o senhor me conhece. No entanto, o
senhor é fácil de identificar, mister Gilbert. Por falar nisso,
esse seu sobrenome está todo errado: Gilbert é primeiro
nome.
— Creio que não estou entendendo — pestanejou o
homem.
— Já vai entender. Em certo lugar, disseram-me que
viesse para cá, Nassau, e que entrasse em contato com você e
com Hortense Wald. Deram-me uma descrição verbal de
vocês dois. De maneira que hoje, pela hora do almoço, fiquei
prestando atenção às pessoas que entravam no restaurante.
Assim, identifiquei você e Hortense Wald.
— Perdão! Miss Wald e eu não temos nada a ver um com
o outro. Eu apenas a vi por aqui uma ou duas vezes.
Continuo não compreendendo.
Miss Arlington baixou a voz e disse, em russo:
— Talvez nós nos entendêssemos melhor se pudéssemos
falar em algum lugar mais seguro do que este, mister Gilbert.
Houve um lampejo de alarma nos olhos de Peter Gilbert,
que murmurou, ainda em inglês:
— Não estou entendendo. O que foi que a senhora disse?
— Falei em russo, da mesma forma que agora — sorriu
Nathalie. — E sei muito bem que você está me
compreendendo. Além do mais, procuro ser amável, mister
Gilbert.
— Amável?
— Com relação a uma prestação de contas que você e
Hortense Wald devem, por terem fracassado.
Peter Gilbert empalideceu ligeiramente.
— Escute, miss...
— Arlington. Nathalie Arlington.
— Escute, miss Arlington. Não sei do que a senhora está
falando, nem entendo essa língua que está usando. Não
conheço uma só palavra de russo, nem...
— Mister Gilbert — interrompeu Nathalie. — Em algum
lugar, alguém quer saber a razão do seu fracasso. Querem
saber por que a CIA está informada a respeito de uma ilha
artificial que se desloca e que se chama “Navegante”.
Querem saber, também, por que não liquidaram muito antes
um agente da CIA que conseguiu enviar uma mensagem
antes de morrer. Creio que agora falei claramente, ou não?
— Quem é você? — estremeceu Gilbert.
— Arlington. Nathalie Arlington. É claro que o meu
nome é tão verdadeiro quanto o seu, ridículo, de Peter
Gilbert. Além do mais, acho que esta conversa deveria ser
mantida num lugar mais tranquilo, mais adequado.
— Não tenho nada que conversar com a senhora!
Nathalie Arlington ficou olhando fixamente para Peter
Gilbert. Com uma fixidez absoluta, aterradora, porque seus
formosos olhos azuis pareciam ter-se congelado. Era como
se estivessem disparando dardos de gelo contra o homem.
— Parece que você ainda não compreendeu muito bem,
Gilbert — sussurrou friamente. — Terá que me dar uma
explicação conveniente e convincente sobre esse caso. Ou,
do contrário...
— O quê?
— Bem... Mandaram-me para cá a fim de que você e
Hortense Wald expliquem o fracasso. Mas, se você não quer
aceitar esta espécie de julgamento particular, terei que passar
à segunda parte do meu trabalho em Nassau.
— Que segunda parte? De que está falando?
— Da execução, mister Gilbert. Da execução de dois
elementos que falharam.
— Você é uma... executora? — tornou a estremecer
Gilbert.
Nathalie Arlington não respondeu. Com seu sorriso frio,
encarou fixamente o homem das sobrancelhas espessas.
Apanhou um cigarro do maço sobre a mesa, acendeu-o e,
com um trejeito gracioso, lançou a fumaça sobre o copo do
seu interlocutor.
— Não há necessidade de empregarmos expressões
desagradáveis — disse por fim. — O importante é ter certeza
de que a “Ilha Navegante” poderá continuar em sua missão.
E isso duvidamos, já que a CIA está inteirada da sua
existência. É até possível que a ilha já esteja sob a vigilância
do Serviço Secreto Americano.
— Não, não! Tenho certeza de que o agente da CIA não
conseguiu enviar mensagem alguma!
— Mas nós temos certeza de que a CIA sabe alguma
coisa sobre a “Navegante”.
— Mas não foi por minha culpa, ou de Hortense! Não é...
— Abaixe a voz, mister Gilbert. Já lhe disse que seria
mais conveniente conversarmos em outro lugar. E, por favor,
não se exalte. Por que está tão certo de que o fracasso não é
por culpa de vocês dois?
— O agente da CIA que matamos não conseguiu enviar
nenhuma mensagem porque seu rádio não funcionava.
— Ora! Vamos!...
— Eu mesmo verifiquei isso! Não funcionava.
— Se essa é toda a explicação que você tem para
apresentar...
— O transmissor deve estar no mesmo lugar. Acho que
ninguém ainda foi até aquela cabana, em Dik’s Point. Pode ir
examiná-lo, se quiser, e ficará convencida de que o
americano que nos vigiava não conseguiu mandar qualquer
mensagem.
— Nesse caso, como é que a CIA veio a suspeitar da
“Navegante”?
— Sei lá!
Nathalie Arlington ficou silenciosa durante alguns
instantes, pensativa, fumando vagarosamente. Por fim, fez
um sinal de aprovação com a cabeça.
— Está certo, Gilbert. Mas é evidente que temos uma
brecha no grupo, pôr onde escapam as informações que a
CIA recebe. Se me provar que o agente americano não
conseguiu enviar nenhuma mensagem antes de ser morto por
vocês, regressarei a... à minha base, e começaremos a
procurar essa brecha em outro lugar. Compreendeu?
— Entendo. Espero convencê-la de que não é minha
culpa, nem de Hortense. Não há dúvida de que um agente da
CIA nos vigiava e chegou a ouvir qualquer coisa, mas,
segundo acreditamos, não teve tempo para nada. Só para
morrer.
— Estão certos de que morreu?
— Certíssimos. E sem ter tocado na radioemissora. Quer
dizer, chegou a tocá-la, mas sem resultado porque estava em
pane e...
— Foi você mesmo quem o matou, Gilbert? Ou mandou
alguém fazer esse trabalho?
— Hortense e eu o perseguimos. Mas foi ela quem o
matou, primeiro com um tiro nas costas e depois com um no
coração. Em seguida, jogamos o corpo do homem no mar,
em lugar conveniente.
— Está bem — a voz de Nathalie era tensa. — Agora,
vamos ver essa cabana e a radioemissora.
— Não quer esperar Hortense?
— Falarei com ela à parte, se você não fizer objeção.
Cada um de nós tem seus próprios métodos.
— Certo. Como você achar melhor.
— O seu carro está aí fora, Gilbert?
— Quase em frente à porta.
— Saia dentro de cinco minutos, tome o carro e siga por
Bay Street, até Dick’s Point, devagar. Eu irei ao seu
encontro, entrarei no carro e iremos os dois examinar a
cabana e o aparelho de rádio. Espero que você se lembre do
lugar em que fica essa cabana.
— Perfeitamente. É perto do mar, na...
***
— É aquela — indicou Gilbert.
Nathalie Arlington assentiu com a cabeça. Tinham parado
junto a um grupo de palmeiras e estavam olhando para a
cabana. O carro fora deixado bem para trás, fora da estrada.
Como na noite anterior, a cabana se destacava de
encontro ao mar prateado de lua.
— Não há luz. Parece que não tem ninguém lá.
— Claro que não há ninguém! — assegurou Gilbert. — É
possível que ainda não saibam que seu homem está morto.
Talvez estejam suspeitando, mas não se atrevem a vir até
aqui com medo de alguma cilada.
— É possível. Mas vamos ver primeiro o lugar onde você
jogou esse homem, Gilbert.
— Para quê?
— Sou boa nadadora. Amanhã de manhã, talvez eu venha
nadar por estas bandas. Quero ter certeza de que, de fato, há
um homem morto no fundo do mar.
— Você acha que estou mentindo? Acha que o agente da
CIA conseguiu fugir e que eu estou inventando esta história
para salvar a minha pele e a de Hortense?
— Você fala demais, Gilbert. Estou apenas tratando de
fazer o meu trabalho da melhor maneira possível e como
acho que deve ser feito. Vamos até lá.
Três minutos depois, Peter Gilbert, com cara de
aborrecido, indicava o ponto no penhasco, de apenas três
metros de altura, onde tinha atirado o homem.
— O mar aí embaixo tem pelo menos seis metros de
profundidade. Se você for capaz de mergulhar tudo isso, há
de ver o americano.
— Isso eu farei amanhã. Agora vamos até a cabana,
examinar o rádio.
Gilbert empurrou a porta, que continuava aberta.
Entraram e o espião russo fechou a porta atrás de si.
Acendeu sua lanterna, dirigindo o foco para o armário.
— A radioemissora está camuflada aí dentro.
— Mostre.
O espião russo, chamado Piótor Govárian, dirigiu-se ao
velho móvel, pôs-se de cócoras, colocou a lanterna no chão e
segurou os dois puxadores, confiante, tranquilo. Sabia que
podia provar à enviada de seus superiores que nem ele nem
Marya Smirkov tinham permitido ao agente da CIA enviar
qualquer mensagem. Portanto, a executora da MVD teria que
ir procurar a brecha de seu grupo de espionagem em outra
parte.
Mas a executora da MVD parecia ter intenções muito
diferentes.
Assim que teve o falso Peter Gilbert acocorado diante
dela, com ambas as mãos nos puxadores do gavetão
simulado, ergueu a mão direita. E deixou-a cair, de canto,
com toda a força, com fabulosa eficiência, de encontro à
nuca de Piótor Govárian.

CAPÍTULO SEGUNDO
O mar, uma cabana e o luar... e a morte de permeio
“Quem é mais linda do que eu?”, pergunta a dama perversa
Não aconteceu nada de importante

Quando Piótor Govárian abriu os olhos, teve que fechá-


los rapidamente para evitar o incômodo que lhe causava o
foco de luz de sua própria lanterna, dirigido para o seu rosto.
— O que... ?
— Sou eu, mister Gilbert: Nathalie Arlington.
— Que aconteceu? Vamos... Estou amarrado!
— De mãos e pés, mister Gilbert. E tão bem, que jamais
poderá soltar-se por seus próprios meios.
— O que significa isso? — a voz de Govárian era áspera
e dura.
— Clara e simplesmente significa que o agente da CIA
conseguiu, realmente, enviar uma mensagem. Espero que
compreenda — o foco de luz tornou a iluminar o rosto de
Govárian, que o suportou melhor. — E espero, também, que
possamos chegar a um acordo pacífico, mister Gilbert.
— Você... Você é da CIA!
— Ora! Vamos! — riu Nathalie. — Não seja fantasista,
mister Gilbert. Sou apenas uma pobre garota que veio passar
umas rápidas férias nas Bahamas. Embora... Bem, preciso
admitir mister Gilbert, que estou bastante aborrecida.
— De que é que você está falando agora?
— Vou explicar, em poucas palavras. O homem que você
e Hortense Wald mataram era meu amigo. Eu não o
conhecia, mas era meu amigo. Amigo muito querido. E me
sinto profundamente aborrecida com a sua morte. É o que
sempre me acontece, e não consigo evitar: quando matam
um dos meus amigos, principalmente pelas costas, sinto uma
sensação desagradável, de cólera, raiva, ódio! É uma ira
profunda, fria, que não consigo controlar. Sou muito
sentimental. Creio que você já percebeu isso.
— Quem é você?
— Uma suave garota, que fala perfeitamente o russo, mas
que não é russa. Diga-me, mister Gilbert: qual é seu
verdadeiro nome?
— Você é louca! Eu me chamo Gilbert. Peter Gilbert e...
Piótor Govárian interrompeu o que estava dizendo para
soltar um gemido que lhe brotou do mais fundo das
entranhas ao receber o violento golpe no estômago.
Encolheu-se no chão, sem forças nem para continuar
gemendo sua dor. Um segundo golpe, no mesmo lugar,
interrompeu-lhe a respiração. Ficou imóvel, como que
petrificado, com uma palidez total no rosto. Na sua testa
brotaram umas gotinhas de suor frio.
— Sei que pode me ouvir muito, bem mister Gilbert.
Estou batendo com uma velha chave inglesa que encontrei
nesta cabana. Não vou desperdiçar baias com você, esteja
certo disso. Se não responder às minhas perguntas, irei
matando-o lentamente, a pequenos golpes, um depois do
outro. Qual é o seu verdadeiro nome, mister Gilbert?
— Vá... para o diabo que a carregue!
Desta vez, o golpe atingiu as costelas de Piótor Govárian,
que deixou escapar um grito e quase desmaiou. A luz
continuava atingindo seu rosto em cheio, não lhe permitindo
enxergar a doce miss Arlington.
— Receio ter-lhe quebrado algumas costelas, mister
Gilbert. Mas não tenho pressa. Devo continuar?
— Piótor... Piótor Govárian.
— Da MVD?
— Não! Sou um honrado cidadão russo e... Aaaaaaiiii!...
O golpe de chave inglesa, agora, tinha atingido a boca de
Piótor Govárian. Não muito forte. Mas uma chave inglesa é
sempre mais dura do que a boca de um ser humano. Os
lábios do russo se arrebentaram e três ou quatro dentes
saltaram fora, em pedaços. Govárian tornou a quase perder
os sentidos, arquejando, manchando-se de sangue. Sentiu- se
arrastado pela gola e largado com as costas de encontro ao
beliche, sentado no chão.
— Vamos continuar, até que você responda direitinho,
Govárian. E cada vez que eu achar que está mentindo,
receberá um novo golpe. E amanhã de manhã não restará
muita coisa aproveitável de você. Combinado? Então,
vamos: pertence à MVD?
— Sim! Sim!...
— Muito bem! Qual é o verdadeiro nome de Hortense
Wald?
— Marya... Marya Smirkov Protopov.
— Ela, naturalmente, também trabalha para a MVD.
— Trabalha.
— E vocês dois mataram o agente da CIA?
— Foi...
— Por quê? O que foi que ele soube sobre essa “Ilha
Navegante”?
— Não sei.
— Creio que me expressei mal. Eu quis dizer: o que é que
há com essa ilha artificial chamada “Navegante"?
— Não sei... Não sei! Juro que não sei!
— Hum... É possível. Tá bem, vamos admitir que você
não saiba nada sobre essa ilha. Então, o que é que você sabe?
Se me responder tudo de uma vez, ganharemos tempo e
evitaremos uma série de perguntas idiotas.
— Eu... nós só sabemos que devemos esperar em Nassau
qualquer instrução sobre a ilha. E ajudar os mensageiros a
sair de Nassau, se for necessário.
— Mensageiros? Que mensageiros? Que espécie de
mensagens trazem ou recebem?
— Não sei. Eles conhecem Marya e a mim. Visitam a ilha
cada oito ou dez dias, apanham qualquer coisa lá, vêm para
Nassau e daqui seguem para a Europa, ou Cuba. Nós
estamos aqui apenas para lhes prestar algum auxílio, caso se
vejam em dificuldades. Sabem onde podem nos encontrar
para pedir ajuda.
— Mas você sabe, Govárian, o que eles vão buscar nessa
ilha artificial? Pense bem.
— Não sei! Juro que não!
— Mas você deve saber se é alguma coisa grande,
pequena, humana, científica, metálica...
— São envelopes. Apenas envelopes. Mas mudaram o
sistema nos últimos dias. Agora são microfilmes.
— E o que contêm esses microfilmes?
— Não sei.
— Entendo que a “Ilha Navegante” navega apenas pela
costa, sul-oriental dos Estados Unidos. É verdade?
— É...
— Estão espionando alguma coisa, ou tentando
sabotagem? Uma base militar, ou um centro de investigação
espacial?
— Não sei.
— Você sabe muito poucas coisas, Govárian. Muito
poucas. Acho até que você está querendo me enganar, de
maneira que...
Desta vez o golpe com a chave inglesa foi assestado na
perna direita de Piótor, que soltou um berro. Uma- fração de
segundo antes, porém, ouviu-se um estranho estalido, como
o de madeira que se parte sob violento golpe de acha.
E, nesse momento, sim. Nesse momento, Piótor Govárian
desmaiou.
***
O sabor ardente do uísque ajudou-o a voltar a si. Tossiu,
crispou-se e, imediatamente, começou a gemer,
mencionando seu joelho, em russo.
— Ficou apenas um pouco esfarinhado, Govárian —
disse Nathalie Arlington com sua doce voz. — Você vai
ficar coxo para o resto da vida, mas isso não é motivo para
ficar gemendo tanto assim. Continuemos com nossa cordial
conversa: quer dizer que você nada sabe sobre a “Ilha
Navegante”?
— Não! Não sei mais nada — gemeu Govárian, com a
voz débil. — Já lhe contei tudo o que sabia.
— Nem sabe onde se encontra neste momento essa
surpreendente e simpática ilha? Nem isso, Govárian?
— Creio que está a sudoeste das restingas da Flórida.
— O sudoeste é muito vasto, Govárian. Vamos: faça um
esforço e procure ser mais exato.
— Vinte e cinco graus de latitude norte... oitenta de
longitude oeste.
— É tão exata assim a sua posição?
— Aproximadamente... Devem estar por aí.
— Bem, isso já é alguma coisa. Diga-me, Govárian: é
possível distinguir essa ilha artificial de uma natural?
— Não. A não ser que esteja navegando.
— Claro. Existe alguma coisa notável nela? Algum
edifício, ou qualquer coisa que chame a atenção...
— Há uma casa, bem no centro.
— E a quem pertence a ilha e, portanto, a casa?
— A um americano.
— Seu nome?
— Pernell Newberry.
— Está vendo? Eu bem que desconfiava que você sabia
mais algumas coisas. Diga-me, Govárian: esse Newberry,
naturalmente, trabalha para vocês, não é?
— Acho que sim.
— Quem é ele, exatamente?
— Não sei... Um milionário americano.
— Um cão traidor, isso é o que ele é! Eu me encarregarei
dele, quando chegar a ocasião. Que mais que você sabe,
Govárian?
— Mais nada! Não sei mais nada!
— Tem certeza?
— Juro! Não sei mais nada!
— É uma pena, Govárian. Uma verdadeira pena! Porque,
quanto menos você souber, quanto menos você tiver para me
contar, tanto menos você viverá... E já que você não sabe
mais nada...
— Não! Eu sei, sim! Sei muitas coisas que posso contar!
— Ah! Muito bem! Então conte. Estou escutando.
— Sei que... Sei várias coisas, muitas. Mas não estou em
condições de falar... Deixe-me descansar algumas horas.
Nathalie Arlington desatou a rir, divertidíssima com
aquilo.
— Por favor, Govárian! Com quem é que você acha que
está falando? Com alguma novata bobinha? Você já não sabe
mais nada que possa interessar-me, de maneira que vamos
pôr um ponto final nesta entrevista.
Os saltos de Nathalie Arlington pisando o assoalho
ressoaram pela cabana. A luz da lâmpada acendeu-se,
fazendo Piótor Govárian pestanejar. Ele, porém, esforçou-se
para fitar a graciosa dama de corpo maravilhoso,
movimentando-se por aquela peça única. A jovem sorriu-lhe
inexpressivamente, ergueu a saia do vestido e exibiu a
minúscula pistola colada com esparadrapo na coxa esquerda.
Soltou uma das pontas da fita adesiva cor de carne,
empunhou a pistolinha de cabo de madrepérola e colocou-se
simpaticamente diante do falso Peter Gilbert.
— Fim da viagem, Piótor Govárian — disse.
— Não... Não, espere! Eu ainda posso lhe ser muito útil,
posso contar...
— Muitas e diversas coisas, eu sei — interrompeu ela. —
Para dizer a verdade, eu deveria entregar você a meus
companheiros, que o obrigariam a fazer um bom exame de
consciência e o fariam responder milhares e milhares de
perguntas. Mas para isso teriam que curá-lo, mandá-lo a um
hospital, cuidá-lo... É possível, mesmo, que não o matassem.
E isso é o que mais me aborrece, Govárian. Porque você
precisa morrer.
— Mas eu ainda posso ser muito útil! Eu...
— Eu sei. Mas, o que é que você quer? É algo que está
acima da minha vontade, Govárian: quem mata um dos meus
amigos, não vive mais do que quarenta e oito horas, se
depender de mim. Você tem que morrer. Adeus, Govárian.
— Não disp...
Plop.
Plop.
Friamente, sem a menor alteração, Nathalie Arlington
disparou duas vezes. Piótor Govárian calou-se para sempre.
Em sua camisa branca, já manchada de sangue, surgiram
dois pequenos pontos circulares, vermelhos, bem na altura
do coração.
Nathalie Arlington tornou a colocar a pequena pistola na
coxa esquerda, prendendo-a com o esparadrapo. Lançou um
olhar em redor, fixando- se por uns instantes, com a máxima
indiferença, no cadáver sentado de Piótor Govárian. Apagou
a luz e saiu da cabana, tranquilamente.
Nada de importante tinha acontecido ali.
***
— Quem é?
— Serviço, miss Wald — responderam do outro lado da
porta.
Hortense Wald franziu a sobrancelha. Serviço àquela
hora? O costume era arrumar a suíte pela manhã, e não na
hora do jantar. Além do mais, parecia que tudo estava em
ordem. Bem, talvez fosse uma camareira que tivesse
esquecido alguma coisa, ou que trazia toalhas, ou...
— Um momento, por favor — respondeu Hortense.
Examinou-se ainda uma vez no espelho. Estava linda,
radiante. Aquela noite, como nas anteriores, todos os homens
no restaurante iriam admirá-la. Menos Piótor, que, por força
das circunstâncias, era obrigado por todos os meios a evitar
que qualquer pessoa pudesse relacioná-los, e que, por isso,
era quem menos se aproximava dela.
Sim. Naquela noite, com seu espetacular vestido negro,
seus olhos claros, os cabelos louros, a boca sensual e
ardente, ela, Marya Smirkov, teria o êxito habitual de todas
as noites.
— Já vai... — repetiu.
Abriu a porta, ainda sorrindo, satisfeita consigo mesma.
Ficou olhando, com expressão de incredulidade, a
lindíssima camareira, em seu uniforme branco do hotel. Tão
linda, que Marya Smirkov sentiu-se francamente aborrecida.
Era admissível que uma simples empregada de hotel fosse
tão bonita, a ponto de poder ofuscá-la? E, apesar de estar
naquele uniforme, parecia mais elegante, mais distinta...
— Que deseja? — perguntou em tom rude.
A bela camareira mostrou a pequena bandeja que tinha na
mão.
— Um recado para a senhora, miss Wald.
A falsa Hortense Wald olhou para a folha de papel
dobrada na bandeja. Estendeu a mão para apanhá-la, mas a
camareira retirou a bandeja, olhando para ambos os lados do
corredor.
— Recebi ordens para entregá-lo dentro da suíte, miss
Wald.
— Quem lhe deu esse papel?
— Com licença...
A camareira entrou e Hortense Wald, depois de hesitar
por uns instantes, fechou a porta e seguiu com o cenho
franzido a jovem de maravilhosos olhos azuis que se dirigia
em linha reta para o quarto de dormir.
Entrou atrás dela no quarto, já aborrecida.
— Escute, você não...
— Miss Wald, trata-se de um recado importante, segundo
me disseram. Era preciso que entrasse aqui para estar certa
de que ninguém me viu entregando-o à senhora. Essas foram
as instruções que recebi, e eu gosto de fazer bem as coisas de
que sou encarregada.
— Pagaram-lhe para fazer isso?
— Não, não! Tenho nisso uma grande satisfação pessoal,
pode estar certa.
Hortense pestanejou, um pouco desconcertada e
desconfiada.
— Bem. Deixe-me ver o bilhete.
A camareira estendeu a bandeja e Hortense apanhou o
papel. Desdobrou a folha, olhou ainda uma vez para a jovem,
como que desconfiada, e baixou os olhos para o papel.
Estava escrito em russo e dizia:
Maria Smirkov Protopov: à sua frente esta uma
companheira do homem que você matou ontem à
noite. Segundo suas próprias normas, ela vingará
implacavelmente a morte do amigo. Piótor
Govárian está à sua espera, no inferno. Adeus,
Marya Smirkov.

Hortense Wald ergueu os olhos do papel, o rosto lívido,


tão aturdida quanto sobressaltada.
À sua frente, ainda com a bandeja numa das mãos, estava
a linda camareira de olhos azuis, fitando-a com um sorriso
gelado que não conseguia ser amável.
— Más notícias, Marya? — murmurou em russo.
— Não, não... — gaguejou a russa. — Espere um
momento, que preciso apanhar uma coisa no armário...
— Não aceito gorjetas — advertiu a camareira.
— Não se trata de... gorjeta.
Saltou para o armário, abriu a porta num movimento
rapidíssimo e apanhou debaixo de algumas roupas a pequena
pistola, virando-se para a empregada do hotel.
Marya ainda teve tempo de ouvir o “clic” da mola e ver o
brilho da lâmina. Mas isso foi tudo. O punhal pontiagudo
cravou-se profundamente em sua garganta, empurrando-a de
encontro ao armário. Bateu de costas, estremeceu e largou a
pistola, caindo de joelhos violentamente. Diante de seus
olhos esbugalhados, mas já sem vida, a elegante mão da
camareira fez um gesto de despedida.
— Eu disse: “Adeus”, Marya Smirkov Protopov.
Lembranças para Piótor.
Apanhou o papelucho que havia caído no chão e deixou o
quarto.
Parecia que ali, também, nada de importante tinha
acontecido.
Tirou o avental branco e a peruca, abriu a porta da suíte e
olhou para ambos os lados do corredor. Não havia ninguém.
Saiu e encaminhou-se para as escadas, subindo para a “suíte
imperial” número 3.
Uma vez ali, abriu o armário, apanhou a maleta vermelha
adornada de pequenas flores azuis e retirou de dentro o que
parecia ser um inocente maço de cigarros. Puxou para fora,
até a metade, um dos cigarros.
— Diga — ouviu falar uma voz masculina.
— Recolham também Marya Smirkov, em sua suíte no
“Windsor Hotel”. Negócio liquidado. Amanhã...
— Um momento! Esperamos...
— Não há nada que esperar. Já disse que o negócio nas
Bahamas está terminado. Cuidem dos cadáveres. Eu farei o
resto.
— Nós queremos ajudá-la a...
— Não! Eu sou nova aqui e ninguém me conhece. Com
vocês é outra coisa. É possível que haja mais agente da
MVD por perto. Assim, é melhor vocês não fazerem outra
coisa além de removerem os cadáveres, e isso com todas as
precauções. Sabem, também, onde está o do nosso
companheiro, no mar. Isso é tudo. Ah! Uma coisa! Segundo
entendo, a “Ilha Navegante” encontra-se a vinte e cinco
graus de latitude norte, e oitenta graus de longitude oeste.
Amanhã cedo irei para lá. Isso é tudo.
Abaixou o cigarro, cortando a comunicação. Guardou o
maço na maleta vermelha, colocando-a no armário. Dirigiu-
se em seguida ao telefone e discou um número de Nassau.
— Quem está falando é Nathalie Arlington. É sobre o
avião que aluguei. Vou sair amanhã bem cedo. Quero tudo
pronto.
— ...?
— Por volta das oito da manhã.
— Obrigada. Até amanhã. Por favor, não esqueçam o
paraquedas. Gosto de voar por esporte, mas com todas as
precauções...
— Ótimo! Obrigada, outra vez. Boa-noite.
Desligou o telefone. Olhou para o reloginho de pulso e
franziu as sobrancelhas.
Com tantas coisinhas insignificantes, quase perdera a
hora do jantar. E isso seria lamentável. Muito lamentável.
***
E assim transcorreu o primeiro dia, em Nassau, de
Nathalie Arlington, aliás, Brigitte “Baby” Montfort, agente
especial da CIA, o serviço secreto norte-americano. Filha de
Giselle, a famosa “Espião Nua que Abalou Paris” durante a
Segunda Guerra Mundial, Brigitte Montfort herdou de sua
mãe os dotes de beleza, coragem e inteligência, tendo
desenvolvido um agudo senso de luta contra o mal, onde
quer que ele se encontre. E, nesse sentido, faz sua própria
justiça, de acordo com os ditames de sua consciência e de
um código moral muito particular...

CAPÍTULO TERCEIRO
O impossível vem do céu
Festim para os tubarões
Quando perder cem dólares é um prazer
Ducha fria nem sempre esfria

O pequeno avião tipo esporte sobrevoou aquela ilhota que


não se achava assinalada no mapa, com menos de meio
quilômetro quadrado. Muito bonita, porém, com sua praia de
areia rosada, como as de New Providence. No centro, uma
bela residência em estilo tropical, branca e de telhado
vermelho. Num canto da praia, duas lanchas sobre a areia.
Ao lado da casa, separada desta por um gramado, a piscina
cujas águas azuis contrastavam com o tom esverdeado do
mar.
Flores, palmeiras, vegetação abundante. Parecia uma ilha
como qualquer outra. Uma diminuta ilhota onde alguém com
muito dinheiro havia construído um refúgio para viver em
paz, longe do bulício da civilização. Via-se, também, um
helicóptero, pintado de azul e vermelho, pousado na grama,
um pouco afastado da piscina.
Lá no alto, no pequeno avião, um dos graciosos dedos de
Nathalie Arlington pousava sobre um ponto no mapa,
assinalado com uma cruz, exatamente onde o paralelo de
vinte e cinco graus norte cruzava com o meridiano de oitenta
graus oeste. A ilhota não estava exatamente ali, mas bastante
próxima, segundo os cálculos de navegação por contato da
jovem aviadora. Na verdade, a ilha encontrava-se num ponto
onde, segundo o mapa e as mais atualizadas cartas de
navegação, não havia um decímetro quadrado sequer de terra
firme.
Aquela, pois, era a “Ilha Navegante”.
A doce miss Arlington dobrou cuidadosamente o mapa e
as cartas de navegação. Verificou em seguida se o
paraquedas estava bem colocado às suas costas. Fixou o
rumo do avião de maneira que a ilhota fosse ficando para o
sul.
Quatro quilômetros mais adiante, miss Arlington
introduziu um pequeno cartucho entre os instrumentos de
controle de voo. Cinco segundos depois, uma fumaça negra e
espessa começou a sair do aviãozinho.
***
Comodamente deitado na relva, à sombra de uma
palmeira, próximo à praia cor de rosa, Zoltan abriu
repentinamente os olhos, sobressaltado. Atirou um punhado
de areia em Pauley, que parecia dormitar com um chapéu de
palha cobrindo o rosto.
— Ei! Pauley! Olhe aquilo... está caindo!
Pauley ergueu-se, bocejando, mas o bocejo ficou
paralisado na boca aberta, até que soltou uma exclamação.
— Vem vindo para cá! Vai cair em cima de nós!
Ficaram olhando, aterrorizados, o pequeno aparelho que
parecia estar indo diretamente para a ilha, envolto na fumaça
negra. De repente, a direção do avião mudou ligeiramente,
apenas o suficiente para aliviar os temores de Zoltan e
Pauley, que tinham se levantado e olhavam para cima,
protegendo os olhos dos raios solares com as palmas das
mãos.
Um vulto saiu disparado do avião e, segundos depois,
enquanto este descia em pique vertiginoso sobre o mar, um
paraquedas abria-se no céu azul, a menos de duzentos metros
de altura.
— Puxa! — exclamou Zoltan. — Que sorte a desse cara!
— Parece... é uma mulher!
Pauley correu para uma das palmeiras, junto à qual
encontravam-se algumas garrafas de leite, revistas, cigarros e
um binóculo. Apanhou-o e voltou para Zoltan, assestando as
lentes na direção do pobre piloto.
— É uma mulher de biquíni! — exclamou, atônito. —
Olhe!
Zoltan tomou o binóculo e soltou um longo assovio.
— É mulher! E que mulher, papagaio!
— Deve ser biruta. Pilotando um avião de biquíni, por
estas bandas!
— Está atingindo a água. O que é que vamos fazer? É
melhor ir buscá-la, ou deixar que se afogue?
— Não sei... Acho que é melhor ir buscá-la. Talvez tenha
conseguido pedir socorro pelo rádio e nesse caso os guarda-
costas poderão aparecer por aqui para apanhá-la. Nós nos
veríamos num aperto se tivéssemos que explicar por que não
a salvamos. Ela deverá ter dado sua posição, a presença de
uma ilha...
— Tem razão. Vá recolhê-la enquanto eu aviso o chefe
para ver o que resolve. Não custa nada trazê-la até aqui.
Depois, se ele achar conveniente, poderemos jogá-la de novo
aos tubarões.
— Credo! — estremeceu Pauley. — Eu preferiria
esborrachar-me com avião e tudo a ir parar entre as
mandíbulas de um tubarão. Essa mulher não sabe o que está
fazendo.
Dizendo isso, Pauley correu para uma das lanchas.
colocando-a facilmente na água. Quando conseguiu pôr o
motor de popa em movimento, o aviãozinho já havia sido
tragado pelas águas e a moça de biquíni estava a menos de
três metros da superfície. A lancha saiu disparada, deixando
atrás de si uma esteira branca e espumosa.
Enquanto isso, Zoltan corria para a residência. Ao chegar
perto, gritou para um gigante de cabeça raspada que tinha
abandonado momentaneamente sua tarefa de cuidar das
flores que rodeavam a piscina e que estava olhando para o
lado da praia.
— Makário! — chamou Zoltan. — O chefe já se
levantou?
— Está tomando café no terraço. O que foi que houve?
— Não sei. É uma mulher que teve que...
O resto de sua frase não chegou até Makário, pois Zoltan
continuou correndo para rodear a casa, em direção ao
terraço. Havia ali dois homens. Um deles estava com uma
jaqueta e calças pretas, com uma camisa de listras muito
finas e estreitas entre si. Estava de pé, um pouco atrás do
outro, que se achava sentado à mesa de tampo de vidro,
tomando seu café da manhã, com ovos mexidos e bacon,
waffles com mel, uma terrina de corn flakes com leite morno
e um copo duplo de suco de laranja. Naquele momento,
porém, havia interrompido a ligeira refeição matinal e estava
olhando com um binóculo o náufrago aéreo, que já havia
caído n’água.
O primeiro homem, de pé, era absolutamente comum e
inexpressivo.
O segundo, tomando seu café, podia ser qualquer coisa,
menos comum. Devia ter seus trinta e cinco anos, alto
atlético, de ombros largos. Tinha uma expressão nobre e
viril. Como os cabelos, os olhos eram castanhos, grandes e
vivos, denotando inteligência. Queimado de sol, apresentava
uma cor de pele entre dourada e marrom, extremamente
agradável.
— Café, Leeper.
— Sim, senhor.
O outro serviu o café.
Quando Zoltan chegou ao terraço, os olhos do segundo
pousaram amavelmente no recém-chegado.
— Mister Newberry, uma mulher...
— Vi tudo o que aconteceu, Zoltan.
— Pauley foi buscá-la. Achamos que...
— Sei, aproximadamente, o que vocês pensaram.
Fizeram bem. Não convém deixá-la no mar, pois poderia
trazer-nos complicações. É claro que aqui também as trará.
Enfim, veremos o que deverá ser feito quando chegar o
momento de tomar uma decisão. Diga-me uma coisa, Zoltan:
a minha vista está falhando, ou essa mulher saltou do avião
de biquíni?
— De biquíni, mister Newberry!
— Ah!... Bem, nesta zona tropical, faz; multo calor
dentro dos aviões. Vai ver que essa mulher estava
procurando uma praia para pousar e tomar um bom banho de
mar.
— Duvido.
— Eu também — sorriu Newberry. — Mas a gente
sempre precisa ser cordial. Mesmo quando sabemos que
alguém está mentindo, tentando enganar-nos, que não passai
de um sem-vergonha. Isso não tem importância. A gente
deve ser correto e amável. Os espanhóis, que, segundo
algumas opiniões, são um tanto... briguentos, costumam
dizer que, “cortesia não exclui valentia”.
— Eu, mister Newberry, não entendo muito bem o que o
senhor quer dizer...
— É muito simples: podemos ser corteses e educados
com os demais, em todas as ocasiões. Mas, mesmo que seja
com o máximo de cortesia, com a mais fina educação,
degolamos uma pessoa quando é necessário.
— Isso sim, eu entendo! — sorriu Zoltan.
— Ótimo! Nesse caso, vamos empregar a tática
espanhola: vamos deixar essa mulher de biquíni vir até aqui
e, com toda a cortesia, ouviremos o que ela tem a dizer. Se o
que disser não nos agradar, cortamos-lhe o pescoço, com
toda a delicadeza.
— Pauley e eu tínhamos pensado em atirá-la aos
tubarões.
— Também é uma boa solução. Terei isso em conta.
Afinal, há muitas maneiras de se cortar um pescoço, por
mais bonito que seja... Embora, pelos meus cálculos, essa
intrépida aviadora deva ser uma típica milionária americana,
um pouco avançada em anos, cheia de rugas e pelancas em
virtude da vida dissipada que leva. Aposto cem dólares,
Zoltan.
***
Quando a mulher chegou diante deles, acompanhada de
Pauley, quem ficou mais espantado não foi precisamente
Zoltan. Parou em frente à mesa de vidro, em atitude tímida,
fitando Pernell Newberry com o mais doce dos sorrisos.
— Creio que vim causar-lhe alguns aborrecimentos,
senhor — disse.
Estava sem o paraquedas, é claro. Mas continuava vestida
no sumaríssimo biquíni, em vermelho vibrante, maravilhoso.
Isso e a maletinha, também vermelha com pequeninas flores
azuis, era tudo quanto trazia.
Pernell Newberry ainda tentou resistir durante alguns
segundos, antes de admitir a insofismável realidade. Isto é,
que havia falhado lamentavelmente em suas previsões.
— Zoltan — murmurou. — Lembre-me de que lhe devo
cem dólares.
— Não se preocupe. Eu lembrarei.
— Podem ir — acrescentou Newberry, indicando todos
os homens com um gesto largo e elegante.
— Não quer sentar-se, senhora?
Tinha se levantado cortesmente. Zoltan, Pauley e Leeper
afastaram-se. A jovem tornou a sorrir timidamente e ocupou
uma poltrona de ferro forjado, com almofadas em motivos
florais. Newberry sentou-se também, ainda um pouco
desconcertado.
— Peço-lhe que me desculpe — sorriu ele.
— Eu?! Não entendo.
— Apostei cem dólares com um de meus empregados que
a senhora era uma dessas clássicas americanas, cheias de
dólares, com mais de quarenta anos, muito vivida e... de
carnes flácidas.
— Bem — replicou ela, ainda em tom tímido.
— O senhor acertou em parte. Sinto-me culpada por fazê-
lo perder cem dólares por minha causa, antes mesmo de nos
conhecermos. Quem sabe o senhor acerta a sua dívida por
cinquenta, já que errou apenas em parte...
— Oh! Não! Pagarei os cem com a máxima satisfação,
senhora. . .
— Senhorita. Nathalie Arlington, de Boston.
Newberry ergueu as sobrancelhas, com ar de espanto.
— Não me diga que veio de Boston até aqui nesse
aviãozinho, e de biquíni!
— Não, não! — riu ela, gostosamente. — Estou de férias,
nas Bahamas.
— Ah! Bem! Isso é outra coisa... Não quer tomar um
pouco de café?
— Aceito. É uma boa ocasião para café. Por que achou
que eu tinha... que eu era flácida?
— Não sei. No íntimo, era um desejo de ser contrariado.
Vamos ver: muito açúcar, pouco ou nenhum?
— Hum... Deixe-me pensar: sinto a boca muito salgada,
por causa da água do mar. Pouco açúcar vai ser insuficiente;
muito açúcar será desagradável, por causa do contraste entre
o doce e o salgado. Acho que será melhor tomar sem açúcar.
— Ótimo! Sabia que há muitos tubarões nestas águas?
— Não! — assustou-se a jovem de grandes olhos azuis.
— Palavra! Alguns deles chegam a medir de três a cinco
metros! Faz dois dias, tivemos que matar um grupo de
quatro, a tiros de rifle, porque não queriam sair das
proximidades da ilha. Mas foi pior.
— Por quê?
— Bem... É que, quando os matamos, chegaram muitos
outros, atraídos pelo sangue. Foi uma orgia. Um banquete de
carne de tubarões para tubarões.
— Que horror! Como é que o senhor veio morar numa
ilha cercada de águas tão perigosas?
— O perigo está apenas na água, não na ilha. Já deve ter
notado que temos uma piscina para os nossos banhos.
— Sem tubarões?
— Sem tubarões — riu Newberry. — Seu café vai
esfriar... Oh! Perdão! Creio que não me apresentei: sou
Pernell T. Newberry, o dono da ilha.
Nathalie Arlington ficou olhando para ele, sorrindo,
segurando a xícara de café diante de seus lábios sensuais.
— Muito prazer murmurou.
Newberry fitou-a com toda a atenção, surpreso ainda com
tanta beleza. De repente, seus olhos notaram a maletinha
com flores azuis. Franziu as sobrancelhas, mostrando-se
perplexo.
— Saltou de paraquedas com essa maletinha? —
perguntou incrédulo.
— Foi a única coisa que tratei de salvar.
— A malinha é muito bonita, mas não me diga, que está
cheia de joias.
— Mais ou menos. Quer ver?
— Sempre gostei muito de joias. Terei prazer em vê-las.
Nathalie Arlington sorriu, abriu a maleta e foi tirando o
que continha: um espelho, um baton, um pente, creme para a
pele... Diante do olhar de espanto de Pernell Newberry,
começou a retocar a maquilagem que tinha sido desfeita em
parte com seu mergulho no mar. Penteou-se, pintou
ligeiramente os lábios, removeu o sal das faces protegendo-
as com uma fina camada de creme.
— Vejo que o senhor está um pouco espantado —
comentou ela, divertida.
— Espantado não é bem a palavra. Estou é assombrado,
sem poder acreditar no que vejo. Então, a única coisa que a
senhora pensou em salvar num momento de perigo, foi o seu
estojo de beleza?
— Vi a ilha, de maneira que alterei o rumo para cá. Eu
tinha notado a casa, a piscina... Sabia, portanto, que o lugar
era habitado e que ia receber ajuda. Ao mesmo tempo, achei
que não ficaria bem se não procurasse apresentar-me de
maneira agradável. Talvez o senhor me considere louca,
mister Newberry, mas isso é uma coisa que mulher alguma
esquece, qualquer que seja a situação.
— Acredito. Acredito. É fantástico! — riu ele.
— Desceu em pique sobre o mar, prestes a ser vítima de
um desastre fatal, e ainda teve tempo para pensar em seus
recursos de beleza que, devo acentuar, são completamente
desnecessários.
— O senhor é muito amável. Preciso vê-lo melhor.
— Como? Quer me ver melhor? Não entendo.
Nathalie retirou da maleta seus óculos com aros grossos e
pretos, colocou-os no nariz e fitou o homem com ar de quem
examina atentamente. Pestanejou e Newberry ficou com a
impressão de que até aquele momento ela ainda não o tinha
visto com suficiente clareza.
— A senhora precisa de óculos para enxergar bem as
pessoas?
— Meus olhos são razoavelmente bons. Mas enxergo
melhor com óculos. E confesso, mister Newberry, que
lamentaria muito se neste momento não estivesse com eles.
Pernell Newberry sentiu-se ligeiramente embaraçado,
pigarreou e, à falta de outra coisa, perguntou:
— Quer mais café?
— Não, obrigada. O que eu gostaria de saber, agora, é
como voltarei para Nassau. Fica um pouco longe e,
naturalmente, não vou pedir-lhe que me empreste uma de
suas lanchas.
— Por que não?
— Porque não quero causar incômodo...
Nathalie interrompeu-se com a aproximação de um
homem que caminhava pesadamente. Era alto, robusto, de
feições rudes, boca enorme, olhos pequenos e vivos. Coberto
de pelos, parecia mais um gorila.
Parou diante de Newberry e ficou olhando para a jovem
com agressividade.
— Onde é que você foi buscá-la? — resmungou.
— Sofreu um acidente de aviação — explicou Newberry,
friamente. — Pauley a socorreu. É miss Arlington, de
Boston. Este aqui — dirigiu-se para Nathalie — é Monaway,
meu imediato a bordo.
A jovem olhou inexpressivamente o brutamontes que, por
seu turno, limitou-se a um ligeiro gesto de cabeça.
— Tudo está pronto — disse, dirigindo-se a Newberry.
— Quando quiser, daremos partida aos motores.
— Pode ser agora mesmo. Cuide de tudo.
— Está bem. E ela?
Indicava Nathalie com o polegar, em atitude de desprezo.
Newberry franziu a sobrancelha e fez um gesto vago com
uma de suas fortes mãos bronzeadas.
— Logo veremos. Rumo norte, Monaway.
— Certo.
O mal-encarado afastou-se, seguido peio olhar de
reprovação de Nathalie Arlington. Newberry percebeu.
— É preciso perdoar Monaway. Não é muito sociável.
— Foi o que notei. É evidente que eu estou causando
transtornos, mas... Escute, mister Newberry, dinheiro é o que
não me falta. Posso comprar uma de suas lanchas e depois
lhe mandarei um cheque para onde o senhor indicar.
— Não se preocupe com isso. Trataremos de arranjar as
coisas da melhor maneira possível. O que interessa agora é
arranjar-lhe alguma coisa para vestir. Vamos lá dentro. Com
toda a certeza encontraremos algo que lhe sirva,
temporariamente, é claro.
— Eu não queria causar mais incômodos...
— Bobagem! — sorriu Newberry. — Tenho o máximo
prazer em ajudá-la, miss Arlington. Por aqui, por favor.
Passaram para o interior da casa pela vasta porta que
abria sobre o terraço. Havia ali um grande living, muito
acolhedor e decorado com extremo bom-gosto. O ar
condicionado dava ao ambiente uma temperatura muito
agradável. Tudo era moderno, confortável e novo.
Estritamente funcional e, com exceção de uns poucos
quadros, nada se mostrava supérfluo. Os móveis
destacavam-se pela aparente leveza.
Uma escada em curva e sem corrimão levava ao andar
superior. Lá em cima havia oito quartos, que deveriam ser
pequenos, dada a pouca separação entre as respectivas
portas. Pernell abriu uma delas e indicou:
— Este é o meu quarto. Vamos ver se encontramos
alguma coisa no armário. Ou prefere entrar só e escolher à
vontade?
Nathalie olhou-o e esboçou um sorriso malicioso.
— Alguma razão especial para eu entrar só?
Newberry fez um gesto de cabeça, de aprovação,
e afastou-se um pouco, dando-lhe passagem e entrando
em seguida. As persianas estavam semicerradas, deixando
passar apenas ura pouco de luz. Os estreitos vãos, porém,
permitiam ver o tom verde-azulado do mar. Nathalie
aproximou-se das persianas, enquanto Pernell abria o
armário.
— Mister Newberry! — exclamou. — Perdoe- me, mas
acho que estou sonhando!
— Por quê?
— Ou então ainda estou sob os efeitos do susto por que
passei. Meus olhos, mesmo com os óculos, não estão
funcionando bem. O que diria o senhor que estou vendo?
— Talvez que a ilha esteja se movendo — sorriu
Newberry.
— Exatamente! Devo estar pior do que imaginei. Mas
como é que o senhor adivinhou?
— Porque ela está se movendo, miss Arlington. Acontece
que a minha ilha, na verdade, se move. Neste momento,
estamos navegando para o norte.
— Navegando?... Ora! Por favor, mister Newberry!
— É verdade — riu ele, abrindo completamente a janela.
Veja a esteira que deixamos no mar ao nos deslocarmos.
Esta não é uma ilha comum, miss Arlington.
— Devo estar sonhando! Insisto nisso.
— Insisto em que não está! É tudo muito simples e não
há nada de mais: trata-se apenas de uma ilha que navega.
— Ah! Sim! Muito simples: uma ilha que navega! Só
isso?
— Bem. Admito que não é tão simples assim. É um
pouco complicado para explicar e é preciso mais tempo.
Numa ocasião mais oportuna eu lhe contarei tudo. Se quiser,
pode tomar uma boa ducha morna, com água doce, é claro.
Quanto à roupa, até que seja possível desembarcá-la, escolha
à vontade. Creio que uma de minhas camisas e uns shorts
serviriam.
— Os shorts seriam demais, mister Newberry — afirmou
ela, examinando o interior do armário. — Uma camisa será o
bastante: o senhor é um homem grande... muito grande.
— De fato. Mas apenas com uma camisa...
— Será o suficiente. Hum... Não sei se devo pedir-lhe
que saia de seu próprio quarto de dormir, mister Newberry.
— A senhora pode pedir o que quiser.
— É muita amabilidade sua. Acho que não vou pedir.
Afinal de contas, estou em sua casa, não é? Além do mais,
um biquíni não é lá muita coisa. Por favor, dê-me essa
camisa de cor clara... Essa mesmo.
Newberry voltou-se para o armário, apanhou a camisa
esporte que estava pendurada num cabide e tornou a virar-se
para Nathalie. E ficou petrificado ao vê-la. Com a maior
sem-cerimônia, ela havia tirado a peça superior do biquíni e
seus seios dourados, firmes, belíssimos, estavam
completamente à mostra. Pernell não podia acreditar em seus
olhos, paralisado de espanto e admiração.
— Essas peças molhadas grudam na pele e incomodam
muito... Quer me ajudar um pouco, mister Newberry?
— Sim... sim... como não... claro — balbuciou o atônito
Pernell.
Ela havia afrouxado as calcinhas, mas estava tendo
dificuldade em abaixá-las. Newberry agarrou-as e deu um
puxão para baixo. Nathalie ajudou, contorcendo em rápidos
movimentos seu belíssimo corpo. A minúscula peça
descolou-se da pele e Newberry se viu com a parte inferior
do biquíni nas mãos. À sua frente, completamente nua, a
mulher mais formosa que jamais havia visto, com os seios
rijos erguidos desafiadoramente, tendo nos bicos rosados o
arremate perfeito; o ventre, com a ligeira curva sensual
acentuada por uma breve saliência; os quadris
incomparáveis; as coxas sensacionais, juntando-se no alto,
numa perfeita harmonia de linhas e proporções. O conjunto
todo formando um poema à beleza da Mulher, uma ode viva,
em carne, formas e, movimento.
— Creio que vou usar esta camisa como se fosse um
sarong — disse Nathalie, com toda a naturalidade. —
Precisamos achar um jeito de prendê-la por cima do busto,
não acha?
— Como? Ah! Sim! Claro...
Ela olhou-o fixamente, com um sorriso maroto e
perguntou, maliciosa:
— O que foi, mister Newberry? O senhor até parece um
rapazinho que nunca viu mulher nua.
— Já vi muitas mulheres nuas, miss Arlington. Mas...
— Mas?
— Você ultrapassa tudo que já me foi dado conhecer!
— Obrigada! — sorriu ela de novo.
— Estou dizendo a pura verdade! Não consigo acreditar
no que os meus olhos estão vendo! Não é possível que você
seja uma realidade!
— Então está lhe acontecendo o mesmo que a mim, com
a sua ilha que navega... Quer me ajudar a vestir essa camisa,
para ver se conseguimos transformá-la num sarong?
Newberry colocou a camisa sobre os ombros da jovem e,
ao abaixar as mãos, roçou uma delas pelo seio direito da
Nathalie, que olhou para ele com os olhos semicerrados.
— Você está um pouco... sem jeito — murmurou ela.
— Desculpe.
— Não tem importância. Acha que vai ficar bem assim?
Pareço uma havaiana, mas creio que ninguém se incomoda
com isso, não? Se cortarmos as mangas ficará quase perfeito.
Pelo menos terei uma roupa seca. Está decidido! Agora, com
sua licença, vou tomar meu chuveiro... Já que está aqui, quer
fazer mais um favor e ensaboar-me as costas?
— Com todo o prazer! Ora essa!
Nathalie deixou a camisa sobre a cama e foi para o
banheiro, dando as costas a Newberry, cujos olhos brilhavam
intensamente. Voltou-se para ele, oferecendo-lhe o sabonete
e rindo, muito alegre.
— Você não quer entrar no chuveiro também? —
murmurou ela.
— Já tomei minha ducha hoje...
— Mas a água está uma delícia, tão fresca! Ou, talvez,
você não goste...
— Gosto sim!
— Então venha! É a sua banheira e o seu chuveiro, não?
Pernell Newberry deixou cair o sabonete, tirou
rapidamente a roupa e entrou na banheira. Nathalie
Arlington abraçou-se a ele, rindo, ficando os dois sob o jato
de água fria.
A jovem foi se deixando deslizar lentamente, encostada
na parede de mármore, até ficar estendida no fundo da
banheira.
Newberry também foi deslizando, mas não tão
lentamente.

CAPÍTULO QUARTO
Parece que uma víbora insinuou-se em ninho alheio
Uvas maduras para uma raposa lerda
O jantar fica para depois

Quando a tarde já ia avançada, Monaway reapareceu,


com a expressão sempre carrancuda, sobrancelhas franzidas,
caminhando como um gigantesco orangotango pela praia de
areias rosadas da ilha artificial, mas que parecia autêntica.
Pernell Newberry e Nathalie Arlington estavam ali,
deitados, aproveitando os últimos raios de sol, fumando e
conversando. De quando em vez, Nathalie acariciava uma
das mãos do jovem, olhava para ele e sorria docemente. De
tal forma, que Newberry sentia cada vez mais o incêndio
crescer dentro de si.
— Pernell — chamou Monaway, secamente.
— Desculpe-me um instante, Nathalie. Parece que
Monaway tem alguma coisa para me dizer.
— Não sairei daqui — murmurou ela, naquele seu
jeitinho cativante e enternecedor.
Newberry levantou-se e foi para junto de Monaway, com
ar francamente aborrecido.
— O que é que você quer agora, Monaway?
— Você passou o dia todo com essa mulher. Quando é
que vamos nos livrar dela?
— Livrar dela?! Por quê?
Monaway semicerrou seus olhos malignos.
— Você está brincando? — resmungou. — Estamos a
menos de trinta milhas de Cabo Kennedy! Ou você pretende
que ela nos acompanhe até lá?
— Eu decidirei isso, Monaway.
— No duro? Duvido que você esteja em condições de
decidir qualquer coisa.
— O que é que você quer dizer com isso?
— Essa garota chegou hoje de manhã como... como que
caída do céu, exatamente. Você lhe deu uma de suas camisas
e, a partir de tal momento, é como se não estivesse mais na
ilha.
— A ilha é minha e faço aqui o que bem entender.
— Acho que você ainda não entendeu muito bem todo
esse negócio, Pernell.
— Entendi perfeitamente.
— Pois eu acho que não. Ouça bem: a ilha é sua, mas nós
estamos fazendo uma coisa muito importante. A mulher não
pode ficar aqui, conosco.
— Eu decidirei isso quando chegar a ocasião.
— É mesmo? Veremos. Por enquanto você ficou o dia
todo passeando com ela pela ilha, nadando, rindo e fazendo
outras coisas... Mas isso não me preocupa, como também
não me preocupa o fato de você não ter aparecido na casa
das máquinas, pois eu posso dirigir perfeitamente a
navegação. Você pode perder o tempo que quiser com essa
miss Arlington e aproveitar a sua companhia. Ela contou se
pediu socorro pelo rádio, quando viu que ia cair no mar?
— Não teve tempo. Não chamou ninguém.
— Então, mate-a!
Pernell Newberry empalideceu ligeiramente.
— O quê?! — exclamou.
— Eu disse para você matá-la — repetiu Monaway,
taxativo. — Quando chegarmos ao ponto onde temos que
trabalhar, essa mulher deve estar morta, no fundo do mar.
Creio que falei suficientemente claro, Pernell.
— Não há razão para matá-la. É apenas uma garota
caprichosa, com muito dinheiro, que está de férias em
Nassau.
— Não está de férias em Nassau — falou Monaway,
pausadamente e com muita lógica, — mas aqui, na “Ilha
Navegante”. E eu pergunto se isso tudo foi realmente uma
casualidade.
— Você está louco? — sobressaltou-se Newberry. —
Quer insinuar que Nathalie tem alguma coisa a ver com...
— Escute: você não é um espião profissional, Pernell. Há
muitas coisas que você não sabe. Um espião é capaz de tudo.
De tudo. Desde a atitude mais ingênua e doce, até a maior
das canalhices. Cada situação determina o que é mais
conveniente.
— Você está falando bobagens — resmungou Newberry,
irritado. — Ela não tem nada a ver com tudo isto.
— Melhor. De qualquer maneira, quando cair a noite,
mate-a. E não se fala mais no assunto.
— Não pretendo matá-la.
— Não? E o que é que você vai fazer quando chegar a
hora do trabalho? O que é que você vai fazer com ela? Pedir
que nos ajude?
— Vou deixá-la dentro da casa, fechada. Não verá nada.
Quando amanhecer, tudo estará terminado mais uma vez e
ela continuará vivendo.
Monaway ficou estupefato.
— Não sei se devo acreditar no que estou ouvindo. Você
está dizendo que vai deixá-la viva e que ela ficará aqui na
ilha vários dias, conosco?
— Exatamente!
— Você está doido varrido! Escute, Pernell: tenha juízo!
Ela não vale nada. Não passa de uma mulher que. ..
— Você é um selvagem que não entende nada de nada,
Monaway.
— Concordo. Sou um selvagem! Mas agora escute: hoje
à noite eles chegarão aqui numa lancha. Desembarcarão na
ilha, ajudarão no trabalho, se for preciso, ou se limitarão a
recolher o material. Pense bem. Pense se convém a você que
eles vejam essa garota. Não tenho mais nada que dizer. O
problema agora é seu.
Deu meia volta e afastou-se, furioso. Newberry regressou
para junto de Nathalie, deitando-se a seu lado na areia.
— Que más notícias trouxe o meu inimigo? — sorriu ela.
— Seu inimigo?
— Oh! Sim! Já percebi. Vi-o apenas umas duas vezes, no
entanto me olha como se tivesse desejos de me matar.
— Que bobagem! — murmurou Newberry, sem muita
convicção.
— Eu sei — sorriu Nathalie. — É que ele é tão feio e
desagradável... Desculpe eu falar e aborrecer você com isso.
— Me aborrecer com isso? Por quê? Eu ficaria
aborrecido se você dissesse isso de mim.
Nathalie voltou-se para ele, com ar de incredulidade.
— De você?! Oh! Pernell, você sabe muito bem que...
Interrompeu-se, como quem compreende que as palavras,
em certas ocasiões, são supérfluas. Acercou-se mais, passou-
lhe o braço pelo pescoço e uniu seus lábios aos dele com um
gemido amoroso. Ele acomodou-se melhor na areia, abraçou
o corpo vibrante da jovem e correspondeu sofregamente ao
beijo.
— Não, Pernell. Aqui não. Estamos na praia... Diga-me:
que más notícias Monaway trouxe?
— Nathalie! Você é tão linda, tão doce!
— As aparências enganam — sussurrou ela, ao mesmo
tempo em que erguia o dedo indicador, encostando-o no
peito másculo. — E agora, por favor: fique quieto. Vamos
conversar, simplesmente conversar. Depois do jantar, com as
estrelas no céu, então será diferente...
Newberry tornou a abraçá-la, apaixonadamente, beijando-
a com força. Ela aceitou o beijo, acariciando-lhe a nuca, mas
pouco depois tornou a se- parar-se.
— Eu disse que íamos apenas conversar. Continue
contando coisas da ilha — sorriu.
— Mas já contei tudo!
— Pois conte de novo. Assim você deixa de pensar... em
outra coisa.
— Está bem — resignou-se Newberry. — Mas é que
cansa falar da mesma coisa o dia todo. Enfim, vá lá: a ilha é
natural, ou seja, tem plantas, árvores, areias e rochas
naturais. Mas foi construída sobre uma base de plástico, sob
a qual fica a casa das máquinas. Na verdade, é como se fosse
um gigantesco iate cujos motores e máquinas ficassem por
baixo da água. A casa foi construída como se estivesse numa
ilha de verdade. Não há nada de mais...
— Não? Pois eu afirmo — beijou-o rapidamente no
queixo — que é a primeira vez que vejo ou que ouço falar de
uma ilha capaz de navegar.
— Bem, mas isso não é motivo para ficar tão espantada
assim. É como se colocassem uma plataforma por cima de
um submarino, construindo uma casa sobre ela. O submarino
teria apenas que navegar quase à superfície, e todo o mundo
pensaria que a casa é que ia navegando. Eu, em vez de
comprar um iate, ou um submarino, mandei construir uma
ilha.
Nathalie estalou dois dedinhos, rindo.
— Plaf! Assim, sem mais nem menos! Manda construir
uma ilha, com casa e tudo, inclusive piscina, lanchas,
helicóptero... e acha tudo muito natural, normal e comum!
Será que você não é um gangster, querido? Ou
contrabandista de qualquer coisa: mulheres, armas,
entorpecentes?
— Não, não! — riu Newberry. — Sou apenas um
milionário um pouco extravagante.
— Tudo isto deve ter custado muito dinheiro!
— Não custou mais do que aquilo que eu podia pagar.
— Claro! Não creio que fabriquem ilhas para pagar em
prestações, como sapatos ou automóveis... Aí embaixo deve
haver motores, máquinas, homens, depósitos de água,
combustível, fios e encanamentos de toda espécie... Você
não acha que com isso complicou um pouco a sua vida,
amor? Com um simples iate...
— Com um simples iate eu não teria estado onde você
caiu ao mar esta manhã.
— Ah! Você me convenceu! — riu Nathalie.
Tomou o rosto de Newberry entre as mãos e beijou-o
rapidamente na boca. Ele quis aproveitar a ocasião para
abraçá-la, mas Nathalie rolou pela areia, afastando-se e
rindo. Levantou-se e saiu correndo em direção à casa. Mas
Newberry alcançou-a e lançou-se sobre ela, derrubando-a.
Rolaram os dois pela areia e Nathalie deixou de rir quando a
boca do homem apoderou-se da sua. Com muito esforço,
conseguiu livrar seus lábios.
— Pernell, por favor!...
— Tenho trabalho para depois do jantar. Lá embaixo, na
casa das máquinas.
— Oh! — decepcionou-se ela. — Mas, a noite toda?
— Talvez.
— Esse trabalho é mais importante do que eu? —
murmurou ela.
— É... muito importante.
Ela rodeou-o pelo pescoço com os braços e ficou a olhá-
lo fixamente.
— Pernell. Diga-me a verdade: o que é que você está
tramando? Não tenha receio em me contar. Mesmo que você
seja um contrabandista, a mim não me importa. Nada me
importa, a não ser você mesmo. Já demonstrei isso. Mas não
gosto de ficar como uma pateta, sem saber das coisas. O que
é que você precisa fazer, logo você, que é tão importante
assim? Não pode ficar a cargo dos outros, que trabalham
para você? Ou será que há outro chefe nesta ilha?
— Sou o chefe absoluto!
— Então?
— Bem, é que...
A voz seca de Monaway soou atrás deles, muito próxima:
— Pernell: querem falar com você pelo rádio. É
importante!
— Volto já — murmurou ele, dirigindo-se a Nathalie.
Afastou-se em direção à casa, fazendo um gesto de adeus
para Nathalie, que se levantou, aproximando-se de
Monaway. Este a olhava com ódio mal reprimido.
— Você tem alguma coisa contra mim, Monaway? —
sorriu ela. — Já por duas vezes o vi me olhando de longe,
com ar de fúria.
— Deixe-me em paz, menina. Comigo você não pode
brincar.
— Parece que você tem muita segurança em si mesmo.
Monaway sorriu grosseiramente.
— Não entrego os pontos com tanta facilidade quanto
Pernell, miss Arlington.
— Como é que você sabe?
— Eu sei.
— É fácil falar quando sabemos que não vamos ser
postos à prova — sorriu Nathalie, aproximando-se
maliciosamente. — Você conhece a fábula da raposa e as
uvas?
— Não estou interessado em bobagens.
— Não é bobagem. Escute: havia certa vez uma raposa,
muito esperta, muito ladra e egoísta, que costumava roubar
tudo o que encontrava. Um dia, numa parreira, viu uns
formosos cachos de uvas, maduros, tentadores. Bastava
apanhá-los e cair fora. Ou seja, roubar, como costumava
fazer. Assim, disposta a apanhar as uvas, a raposa começou a
saltar, a saltar e a saltar. Mas, por mais que saltasse, não
conseguia apanhar as uvas, que estavam muito altas. Por fim,
cansada e decepcionada, percebeu que fazia um papel
ridículo diante dos outros animais que a estavam olhando.
Assim...
— Assim?
— Deixou de saltar. Deu meia volta e afastou-se, dizendo
com desdém: “Para que quero estas uvas, se ainda estão
verdes?”
— E eu sou a raposa e você as uvas?
— É o que me parece, Monaway. O bom é provar uma
das uvas, para saber se estão boas e maduras, e desprezá-las
depois. Para isso, sim, é preciso muita força de vontade.
Desdenhar as uvas que ainda não se provou é fácil, porque
não sabemos se vamos gostar ou não. E assim podemos
assumir uma atitude orgulhosa, de desdém.
— Você acha que, se eu provasse, as coisas mudariam?
— Quer provar? — murmurou Nathalie.
Enlaçou de repente o pescoço de Monaway, erguendo-se
nas pontas dos pés. E antes que o gigantesco e peludo
marinheiro pudesse reagir, já o estava beijando nos lábios.
Por um instante, Monaway ficou tenso, como um feixe de
aço. Em seguida, relaxou o corpo, frio, indiferente... E cinco
segundos depois seus enormes braços estenderam-se, para
enlaçar com violência a cintura esbelta de Nathalie
Arlington.
Então, exatamente nesse momento, ela o soltou e afastou-
se dele. Monaway mastigou uma praga e avançou para ela,
estendendo suas manzorras, exigindo-lhe que se
aproximasse.
— Que foi, Monaway? — esquivou-se Nathalie,
maliciosamente. — Por acaso, você gostou das uvas?
Ele parou de estalo, como se acabasse de ter sido atingido
por um raio. Um brilho de cólera passou por seus olhos
miúdos.
— Você está brincando comigo, não é? — grunhiu.
— Quis apenas mostrar que você não é ninguém para
mim. Eu conheço os homens e você não passa de um pobre
sujeito despeitado. Jamais conseguirá interessar mulher
alguma. Por isso você se irrita ao ver que Pernell consegue
tão facilmente o que você jamais conseguirá!
— Não estou interessado nisso — murmurou Monaway.
— Oh! Viu só? Eu ia exatamente dizer que Pernell tem
trabalho a noite toda e que... Qual! Você não passa de um
pobre-diabo! Adeus, Monaway. Vá dormir. E esqueça as
uvas — a voz de Nathalie tornou-se sarcástica. — Afinal de
contas, estão verdes ainda...
Afastou-se, deixando o brutamontes como que pregado
no chão, imóvel, os punhos cerrados e as mandíbulas
retesadas, sentindo um ódio profundo a arranhá-lo por
dentro.
Segundos depois, num impulso, resolveu segui-la.
Quando entrou na casa, Nathalie já, estava no alto da escada,
de onde lhe atirou um beijo com a ponta de um dedo,
sorrindo daquela sua maneira ferina.
Ardendo de raiva, Monaway encaminhou-se para a
cozinha, começando a descer pela rampa que levava à casa
das máquinas. Encontrou-se com Pernell na metade do
caminho. O dono da extravagante ilha estava um pouco
pálido, denotando grande inquietação.
— Chamaram de Nassau — murmurou.
— Eu sei — resmungou Monaway. — Fui avisar você lá
na praia, lembra-se? Que é que há em Nassau?
— Não sabem muito bem. Mas parece que há
dificuldades grandes. Dois dos agentes que ficam lá para
estabelecer ligação com Cuba e ajudar a fugir para a Europa,
se for necessário, desapareceram.
— Quem são eles?
— Hortense Wald e Peter Gilbert. Você os conhecia?
— Não. Mas sei que eram bons elementos em toda essa
cadeia de informações que foi organizada. Não estou
gostando nada disso, Pernell.
— Nem eu.
Monaway ficou pensativo, com o cenho franzido.
— E isso aconteceu em Nassau, bem? — murmurou por
fim.
— É. Em Nassau. Por quê?
— Ela veio de lá, de Nassau.
Newberry sobressaltou-se e olhou para ele fixamente, não
sem irritação.
— Ela? Está se referindo a Nathalie?
— Exato. Tenho a impressão de que é uma víbora.
— Não gosto das suas palavras, Monaway.
— Mas terá que ouvi-las. Olhe, Pernell. Nós estamos aqui
para ganhar dinheiro. É certo que podemos ser chamados de
traidores, mas já resolvemos deixar de lado essas bobagens.
Você estava numa situação difícil quando lhe propuseram o
trabalho, depois de conversar comigo. E eu lhes disse que a
pessoa ideal era você: um milionário gozador, cosmopolita,
educado, conhecido em todo o grande mundo. Ninguém
suspeitaria de você pela extravagância de mandar construir
uma ilha que navegasse. Esta embarcação foi financiada pela
MVD e eles querem resultados, como é lógico. Graças a
eles, você pôde encobrir as suas dívidas, das quais ninguém
ainda suspeitava. Graças a esses espiões, você conseguiu sair
do buraco financeiro e ninguém ficou sabendo de nada. Você
continua sendo o milionário fabuloso, o simpático playboy
que tem uma ilha navegante...
— Você está falando demais, Monaway — resmungou
Newberry. — A troco de que tudo isso?
— Quero apenas lembrá-lo de que todos os que estamos
nesta ilha, seja lá por que for, somos traidores, trabalhando
contra os Estados Unidos. Se formos apanhados, é possível
que sejamos condenados à morte.
— Está bem, está bem! Sei disso! Somos espiões e
traidores. Onde é que você quer chegar com essa lengalenga?
— A essa mulher, essa víbora. Não gosto nem um pouco
da sua presença aqui, Pernell. É demasiadamente linda,
demasiadamente doce. Já passou pela sua cabeça que ela
pode estar ligada a tudo isso?
— Não diga asneiras!
— Asneiras?!
— Seu avião caiu ao mar e ela teve que saltar. Vimos isso
muito bem.
— Pode ter sido um truque.
— O avião estava envolto em fumaça.
— E daí? Com toda a certeza era um aviãozinho velho,
que não valeria mais do que uns três ou quatro mil dólares. E
mesmo que valesse dez mil: acha que teria muita
importância? Que são dez mil dólares? Há muitas maneiras
de simular um acidente. O importante é o resultado final:
colocar a víbora em ninho alheio. E nós estamos com uma
víbora em nosso ninho, Pernell.
— Não torne a chamá-la de víbora, Monaway. Eu não
gosto.
— Talvez você venha a gostar menos ainda ao saber que
ela acaba de me beijar.
Pernell comprimiu os olhos, fixando o marinheiro com
expressão dura, gelada.
— É mentira!
— Mentira? Pergunte a ela.
— Por que haveria de beijar você?
— Pela mesma razão que beija você, ora essa! —
resmungou Monaway. — Quer dominar a todos nós,
deixando-nos tontos com a sua beleza, os seus encantos, seus
beijos e sorrisos... Ela pode ser qualquer coisa, menos uma
inocente criaturinha que sofreu um acidente aéreo. Acho que
não será difícil descobrir a verdade.
— Vou cuidar disso. Pode ficar tranquilo, que vou
descobrir a verdade, Monaway.
— Boa sorte! Quero saber depois o que você resolveu.
Que mais disseram os homens de Nassau?
— Chamaram de uma lancha. Estão vindo para cá e
devemos ir ao encontro deles.
— Vêm para cá?! — alarmou-se Monaway. — Para quê?
Até parece que todo o mundo resolveu complicar as coisas.
— Querem ter certeza de que tudo está em ordem na ilha.
Um dos russos vem na lancha, com mais dois homens.
— Você informou a nossa posição e o rumo atual?
— Tudo. Chegarão depois do anoitecer.
— Bom... — Monaway deu de ombros. — Ficarei lá
embaixo, no meu posto. Enquanto isso, acho melhor você ir
caçar essa víbora.
— Eu já avisei...!
Mas Monaway não lhe fez caso. Continuou descendo,
rumo à casa das máquinas.
Newberry subiu, atravessou a cozinha e chegou ao
vestíbulo e sala de estar. Olhou para o ligeiro lance de
escadas que levavam ao andar superior. Talvez fosse bom
procurar convencer-se por si mesmo de que nenhuma víbora
havia entrado em seu ninho.
Subiu e bateu na porta do quarto de Nathalie, que
respondeu em tom desconfiado:
— Quem é?
— Pernell.
A porta abriu-se imediatamente. As sobrancelhas de
Newberry ergueram-se, num gesto de surpresa, ao ver os
olhos úmidos de Nathalie Arlington.
— Que aconteceu? — perguntou. — Você está chorando!
— Não... não é nada. Palavra...
Pernell entrou no quarto e fechou a porta. Prendeu
Nathalie entre seus braços e fitou-a fixamente nos olhos.
— Você esteve chorando — insistiu. — Por quê?
— Não é nada, já disse — murmurou ela, num gemido.
— Bobagem minha, querido. Não ligue para isso.
— Ninguém chora por bobagem. Fiz alguma coisa de
errado? Você está aborrecida comigo, Nathalie?
— Bem... Como você vai me deixar sozinha esta noite...
— tentou sorrir a jovem, com os lábios trêmulos.
— E é por isso que você está chorando? Não acredito!
Alguma coisa aconteceu. Diga o que foi que eu fiz que levou
você a chorar.
— Nada. Você não fez nada...
— Então, quem?
— Ninguém... Ninguém, querido! Ju... ju... Não. Não
posso jurar! — exclamou ela, desatando a chorar.
Pernell levou-a para a cama, sentando-a ali a seu lado. As
lágrimas escorriam dos belos olhos de Nathalie Arlington.
— Foi Monaway? — sussurrou Pernell. — Ele fez
alguma coisa?
— Não... Não.
— Diga-me a verdade. Preciso saber a verdade!
— Não foi nada. Bem... ele... ele...
— O quê? — exasperou-se Newberry. — Fale!
— Esse... esse homem horrível me agarrou lá na praia,
quando você se afastou, e me beijou à força. Eu lhe tinha
dito que ele estava furioso porque eu só ligava para você... E
eu disse, mais, que eu era como as uvas e ele a raposa que
jamais poderia alcançar-me e que por isso estava com raiva
de mim. E então ele me disse...
— Disse o quê?
— Disse que poderia fazer comigo o que bem quisesse e
quando quisesse e que, dentro em pouco, nós todos íamos
saber quem ele era... Não sei mais o que falou, só sei que me
agarrou à força e me beijou...
— Canalha!
A mão de Nathalie apoiou-se no peito de Newberry.
— Querido, não quero mais falar disso. É muito doloroso.
Pronto! Está vendo? Já não choro mais. Não foi nada, apenas
um beijo à força. Quero esquecer...
— Esse canalha vai ver uma coisa!
— Não, não, querido! Não lhe diga nada. Tenho medo.
Por favor, não diga nada, até eu sair da ilha. Ele seria capaz
de se vingar de mim. Tenho medo, querido. Não quero que
ele saiba que contei a você.
— É um cachorro miserável! Ele me disse que você é que
o tinha beijado à força!
Nathalie olhou estupefata para Newberry, com os olhos
desmesuradamente abertos de espanto.
— Eu?! — exclamou. — Ele teve a coragem de dizer
isso?!...
— É claro que sei que mentiu — sorriu Pernell.
— Está bem. Não falemos mais disso. Ajustarei contas
com Monaway, quando chegar a ocasião.
— Receio por você, amor. Esse homem parece... um
assassino! Oh! Sei que eu não deveria dizer essas coisas, mas
tenho tanto medo!
— Fique tranquila, que nada acontecerá. Enxugue as
lágrimas. Isso! Vamos jantar só nós dois, aqui neste quarto.
Você quer?
— Ótimo, Pernell! Boa ideia!
— Vou buscar qualquer coisa na cozinha. Não levarei
mais do que cinco minutos.
Beijou-a nos lábios e saiu do quarto, deixando-a
recostada na cama, com ar desconsolado. Pobre garota! Mas
assim que seu amante saiu, o olhar desconsolado
transformou-se num sorriso malicioso e, com uma caretinha
marota, mostrou a ponta da língua para a porta que acabara
de fechar-se.
Na cozinha, Newberry encontrou-se com Monaway e
Leeper, este preparando um jantar ligeiro. Monaway estava
colocando num prato pequenas porções, que sem dúvida ia
levar para a casa das máquinas.
— Deixe isso, Leeper — ordenou Newberry — Nathalie
e eu vamos comer qualquer coisa lá em cima.
— Sim senhor.
Newberry começou também a preparar dois pratos que
tinha colocado numa bandeja. Apanhou no refrigerador uma
garrafa de champanha e encaminhou-se para a porta.
— E então? — soou a voz de Monaway, áspera. — Que
foi que ele disse?
— Falaremos mais tarde, Monaway. Em momento mais
oportuno.
— Mais oportuno? Por quê?
Newberry olhou-o de alto a baixo, com desprezo. Ia dizer
qualquer coisa, mas resolveu o contrário. Deu meia volta e
saiu da cozinha, sem responder. Ajustariam contas quando
chegasse a ocasião.
Quando entrou no quarto, Nathalie já não chorava, mas
parecia ainda um pouco assustada. Colocou a bandeja sobre
uma das poltronas, apanhou as taças e deixou-as na mesinha
de cabeceira.
— Espero que você goste de champanha, querida —
murmurou.
— Adoro! Você vai mesmo me deixar sozinha esta noite?
— É preciso — olhou o relógio. — Mas ainda temos uma
hora para nós.
— Oh! Querido...
E estendeu-lhe os doces braços num convite que não era
de recusar.
Pernell acercou-se dela e sentiu outra vez aquela corrente
de fogo percorrendo-lhe todo o corpo quando aqueles
bracinhos o enlaçaram. A corrente de lago transformou-se
numa carga elétrica de alta tensão, ao sentir os lábios da
jovem colados aos seus, num beijo longo e profundo, ao
mesmo tempo em que seu corpo se comprimia de encontro
ao dele.
Suas mãos percorreram o corpo da jovem até
encontrarem o alfinete que prendia a camisa transformada
em sarong. Soltou-a e atirou a peça longe.
Ela afastou ligeiramente os lábios e murmurou:
— Querido... precisamos jantar.
— Tem tempo — sussurrou ele, tornando a beijá-la.
CAPÍTULO QUINTO
Reaparece um filósofo de outras eras
Víbora ou felino?
Cada clarão vermelho assinala uma vida de menos
Audácia “brigittiana”

Era de se supor que a doce bonequinha chamada Nathalie


Arlington estivesse dormindo, trancada em seu quarto, com
medo do malvado e repulsivo Monaway. No entanto, não era
bem assim.
Não há dúvida de que a luz em seu quarto estava
apagada. A jovem, porém, não dormia. Estava sentada junto
à janela, completamente às escuras. A seus pés, a bonita e
caprichosa maletinha vermelha, adornada de flores azuis,
com seus petrechos de beleza: frascos, cremes, maquilagem,
estojo de manicura, alguns tubos de alumínio de aspecto
inocente... Tudo parecendo um monte de coisinhas
inofensivas.
Como, por exemplo, o binóculo prismático que havia
montado com duas lentes e que parecia uma pequena
teleobjetiva acessória da minúscula câmara fotográfica. Era,
porém, uma teleobjetiva bastante curiosa, já que servia
perfeitamente para a obscuridade reinante.
Miss Arlington, naquele momento, estava empregando o
óculo de alcance para observar a praia, banhada pelo luar, e
as ondas brancas e espumosas que vinham se formando, uma
vez que tinham detido a marcha da “Ilha Navegante”. E a
marcha tinha sido detida para que á lancha recém-chegada
não tivesse dificuldades. Três homens tinham desembarcado.
Dois deles estavam puxando a embarcação para a praia. O
terceiro, mais esbelto, conversava com Pernell Newberry.
Via-se bem o rosto de Pernell, mas não o de seu interlocutor,
que olhava seus homens puxando a lancha.
Próximo ao grupo achavam-se Zoltan e Pauley, em
atitude de expectativa, interessados na conversa. O binóculo
moveu-se, procurando outras pessoas ao longo da pequena
costa. Mas não havia mais ninguém por ali, de maneira que
miss Arlington voltou a observar a praia. A embarcação já
tinha sido colocada na areia e o homem alto e esbelto
voltara-se, olhando em direção à casa.
Por uma fração de segundo, as mãos de Nathalie
apertaram com mais força numa crispação brusca, o
improvisado e extraordinário binóculo.
— Meu Deus! É Sócrates! Sócrates Kopoulos Pasalos!
Abaixou o binóculo, sobressaltada, desconcertada, quase
assustada.
Seria possível? Como se ainda tivesse esperanças de ter-
se enganado, tornou a olhar pelo binóculo. Mas não. Era
Sócrates Kopoulos, o homem que conhecera em Atenas um
ano antes. Que se fizera passar por grego e que, tendo em
vista sua missão, ajudara-a a cumprir a que lhe competia. No
fim, depois de salvarem-se mutuamente a vida, tinham se
separado como bons inimigos, tendo ela admitido que
pertencia à CIA e ele que trabalhava para o MVD. Ele
admitira, também, que seu nome não era Sócrates Kopoulos
Pasalos. Ao se separarem, tinham concordado em que, da
próxima vez que se encontrassem, atirariam para matar...1
Eram bons inimigos, mas atirariam para matar.
Evidentemente, se Sócrates a visse, iria reconhecê-la de
imediato. E diria que não era Nathalie Arlington. Diria que
ela.

1
Ver novela “Episódio Especial”, volume 43 desta coleção.
Miss Arlington sentiu-se perdida, por alguns segundos.
Quantos homens havia na ilha para caçá-la? Numa ilha de
menos de meio quilômetro quadrado! Newberry, Monaway,
Leeper, Makário, Zoltan, Pauley... Havia mais dois na casa
das máquinas. E Sócrates, o falso grego, que vinha com mais
dois homens! Onze homens! Onze homens para caçar uma
linda boneca.
E tudo por causa do único homem que poderia reconhecê-
la ali: Sócrates Kopoulos Pasalos, o falso grego, agente da
MVD russa. Iria reconhecê-la, assim que a visse... A não ser
que pudesse evitá-lo. Mas, como?
A agilíssima mente de Nathalie Arlington começou a
funcionar a toda a velocidade, procurando uma saída. A
única, evidentemente, era matar Sócrates antes que ele
pudesse vê-la. Mas, como? Como poderia fazê-lo sem se
denunciar aos outros?
Em cinco segundos, uma dúzia de planos foram pensados
e rejeitados rapidissimamente. E, de repente, a ideia! A
solução que não poderia falhar!
Voltou a examinar a praia. Todos vinham caminhando em
direção à casa. Nathalie inclinou-se sobre a maletinha,
apanhou uma pulseira larga, de ouro, enfeitada com um
belíssimo rubi, colocando-a no pulso esquerdo. Em seguida
apanhou os tubos de alumínio e uma pequena caixa metálica.
De um secador de cabelos movido a pilhas, retirou a parte
inferior que servia de cabo, em forma de coronha, mas de
aparência tão inofensiva. Tornou a olhar em direção à praia,
já sem o binóculo, pois era mais necessário. Os inimigos já
estavam muito próximos e eram perfeitamente visíveis à luz
da lua. Iam entrar na residência. E se ela conhecia bem
Sócrates, a primeira coisa que ele ia fazer era visitá-la,
examiná-la, estudá-la. Aliás, Sócrates não precisava tanto:
bastava vê-la, para dizer quem realmente era ela.
Recolheu e guardou tudo, abriu a janela e colocou os
óculos. Esperou cerca de quinze segundos, antes de ouvir os
passos na escada. Lá fora não havia mais ninguém. Passou as
pernas pelo peitoril da janela, calculou a altura até o chão
nuns três metros e, depois de ligeira hesitação, deixou-se cair
para frente, envolta no improvisado sarong. Caiu com a
suavidade e a segurança de uma pantera, mas o salto tinha
sido um pouco grande, de maneira que se ergueu e se
abaixou repetidas vezes sobre as próprias pernas, cujos
músculos tensos funcionaram como bem lubrificadas molas.
Rolou para frente, sobre a cabeça, como num exercício
acrobático e pôs-se de pé, correndo em seguida para a
piscina. Rodeou-a e, alguns segundos depois, escondia-se de
um salto entre a vegetação.
Permaneceu ali, arquejante, olhando em direção à casa,
ao mesmo tempo que atarraxava os três tubos uns nos outros,
formando um só, com cerca de sessenta centímetros de
comprimento. A luz do seu quarto foi acesa no momento em
que encaixava o cabo do secador de cabelo naquele tubo.
Comprimiu um ressalto disfarçado na sua base e um pequeno
gatilho apareceu entre as saliências da parte interna do cabo
e que serviam para acomodar os dedos, anatomicamente.
Algumas gotas de suor surgiram na testa de Nathalie
Arlington. Na janela de seu quarto apareceu a. figura de
Pernell Newberry. Voltou o rosto para dentro, como que
falando com alguém. Em seguida desapareceu e a luz foi
apagada.
Nathalie abriu a caixa metálica, retirando um refil de
batom que sem dúvida alguma tinha a forma de bala. Meteu-
o pela ponta do tubo de alumínio e esperou.
Vários homens saíram da casa, correndo.
— Nathalie! — ouviu a voz de Newberry. — Onde é que
você está?
Miss Arlington recuou e escondeu-se mais ainda entre os
arbustos. Ouviu Newberry chamando-a mais umas duas
vezes, antes que as ordens secas para que fosse procurá-la
chegassem a seus ouvidos.
Por entre a vegetação, Nathalie espreitava atentamente.
Viu a direção tomada por Sócrates, quase uma linha reta para
o ponto em que ela se encontrava e sorriu friamente. Pacto é
pacto: tinha que atirar para matar.
Ergueu o tubo, como se estivesse manejando um rifle, e
apontou para Sócrates Kopoulos. Ele vinha caminhando em
sua direção, devagar, cauteloso, pistola na mão. A seu lado,
um dos recém-chegados à ilha, igualmente de pistola na
mão. Os demais iam se dispersando, em forma de leque,
procurando-a por todos os recantos. Logo depois, formariam
um círculo e iriam apertando-o, de maneira que ela ficaria
irremediavelmente encerrada no centro, sem escapatória
possível.
À medida que Sócrates Kopoulos e seus companheiros
avançavam, ela ia retrocedendo, lentamente, sempre com o
fuzil apontado. De repente, suas costas deram de encontro a
uma palmeira. Nesse instante, apertou o gatilho do secador
de cabelos.
Ouviu-se ligeiro estalido.
No mesmo momento, quase vinte metros à frente,
Sócrates Kopoulos soltou um grito, quando a cápsula mortal
envolta em batom explodiu sobre seu coração, com uma
chama vermelha e vivíssima. O falso grego foi jogado para
trás, morto instantaneamente, com seu órgão vital
destroçado.
Miss Arlington tinha que atirar para matar. Não havia
outra solução.
O homem que vinha ao lado de Sócrates, saltou para o
lado e rolou pelo chão, buscando abrigo entre uns arbustos,
onde ficou imóvel. Ouviam-se gritos, exclamações, correrias
pela ilha. O companheiro de Sócrates, evidentemente, não
pretendia sair dali, até receber ajuda.
Deveria ter pensado melhor. A menos de vinte metros,
dois olhos azuis, brilhantes como os de um felino sem
piedade, estavam fixos naquele arbusto, enquanto as
delicadas mãos colocavam outra cápsula semelhante a um
batom no tubo de alumínio.
O novo disparo ocorreu quando vários homens estavam a
menos de quinze metros do lugar onde estava escondido o
outro. O projétil envolto em batom foi direto para os
arbustos, atravessou-os lindamente e atingiu em cheio o
rosto do homem agachado ali. Outra chama intensa, viva,
brotou na escuridão da noite. O homem foi jogado
violentamente para trás e, durante alguns instantes, todos
viram o que restava de sua cabeça iluminada fugazmente
pelas chamas.
A partir desse momento, um vento de terror abateu-se
sobre a ilha. Os homens procuraram refúgio por trás de
coisas mais sólidas. Cessaram os gritos, as vozes, as corridas
e o arquejar. O silêncio mais negro envolveu a ilhota cercada
pelas águas escuras manchadas de prata.
Sem romper essa quietude, deslizando realmente como
uma víbora, Nathalie Arlington afastou-se dali, rodeando a
casa de longe, à procura de outra posição ofensiva.
Encontrou-a de repente, entre umas rochas. Agachou-se e,
com tudo entre os joelhos, colocou outra cápsula e ficou
imóvel, esperando.
Durante alguns minutos, ouviu apenas o ruído do mar.
Depois, pouco a pouco, o do mato agitando- se à passagem
dos homens em busca de uma víbora. A caçada fora
reiniciada.
Três minutos depois, cautelosamente, viu Pernell
Newberry, deslizando entre os arbustos, pistola na mão,
olhando para todos os lados, inquieto. Estava a menos de
oito metros. Podia matá-lo impunemente, com absoluta
tranquilidade. Mas, ao invés disso, Nathalie encolheu-se
mais entre as rochas, até ficar completamente oculta,
espreitando por uma fissura mínima.
Quando Pernell se afastou dali, não podia imaginar que
durante quase um minuto a caça poderia tê-lo caçado mil
vezes.
Pouco depois ocorreu o mesmo com o gigantesco
Makário, cuja cabeça pelada brilhava estranhamente à luz da
lua. Também Makário teve a vida salva, por mercê e
benevolência da víbora oculta. Deixou-o passar e isso foi
tudo.
O terceiro personagem que apareceu interessou Nathalie.
Colocou o tubo horizontalmente entre as pedras. Os óculos
da jovem brilharam, refletindo os raios do luar. Mas o
homem não viu nada. Era o último dos três que tinham
chegado à ilha. O último a morrer.
O seco estalido tornou a se reproduzir no tubo, no
instante em que o homem iniciava um passo naquela direção.
A cápsula explodiu em seu peito, produzindo novamente
aquela chama vermelha, brilhante. O grito do homem, seu
último grito, ressoou por toda a ilha, quebrando aquele
silêncio, antes interrompido apenas pelo rumor do mar.
O homem ainda estava caindo, quando miss Arlington
saltava fora de seu esconderijo, passando a toda a velocidade
por cima daquele que acabara de matar. Ouviu perfeitamente
as vozes que vinham do lugar onde soara o grito, onde fora
vista a chama intensa. Às vezes, é claro, convém assinalar a
posição. E os refills de batom, eram exatamente para isso.
Assim, enquanto todos, com mil precauções, se
aproximavam do lugar assinalado pelo clarão, Nathalie
Arlington corria diretamente para a orla da ilha, sempre
deslizando por entre as sombras da vegetação. Chegou sem
novidades à beira da água, saltando para dentro dela do
pequeno barranco de um metro e pouco que havia naquele
ponto. Deixou que o tubo de alumínio e a caixinha de
cápsulas fossem para o fundo. Mais tarde arranjaria outro
conjunto para colocar na sua maleta.
Nadando silenciosamente em direção à pequena praia de
areias rosadas, ouvia novamente gritos e vozes. Se as coisas
estivessem arrumadas da maneira que ela supunha, poderia
ficar na ilha, enganando os sobreviventes. Se, contra toda a
lógica, Newberry houvesse disposto as coisas de modo
diferente, teria que apoderar-se de uma lancha e fugir. E isso
seria lamentável, já que estava muito interessada em saber o
que faziam naquela ilha, para depois destruí-la. Destruir era
fácil. O importante era saber o que estavam tramando.
E ela viria a saber.
Compreendeu isso assim que chegou, silenciosamente, à
pequena praia.
Pernell Newberry havia distribuído seus homens com
lógica. Ali, na praia, com um rifle nas mãos, estava o
impassível e impenetrável Leeper, o mordomo-cozinheiro-
camareiro da ilha, a serviço exclusivo de Newberry.
Estava de pé, entre a lancha recém-chegada e as outras
duas. Mas o homem, idiotamente, vigiava com toda a
atenção o interior da ilha, e não o mar. Estava tão
concentrado, tão entregue à sua missão, que a víbora pôde
sair da água, às suas costas, tranquilamente. Era evidente que
Leeper não esperava, de maneira alguma, um ataque vindo
do mar.
No entanto, atrás dele, agachada na areia, miss Arlington
estava puxando com força o rubi que adornava sua bela
pulseira de ouro. Arrancou a pedra, que veio puxando pela
base um fino fio de aço, o qual saía de dentro da pulseira, até
alcançar o comprimento de uns cinquenta centímetros.
Nathalie enrolou a mão esquerda com uma volta do fio de
aço pela extremidade livre, segurando com a mão direita a
outra ponta que tinha o rubi. Levantou-se e deu um passo em
direção a Leeper, que continuava de costas. A areia estalou
suavemente, mas Leeper não se voltou. No entanto, era um
risco demasiadamente grande caminhar pela areia, tão
próximo do homem. Ele fatalmente teria que ouvi-la, e se
voltaria com o rifle pronto para atirar.
Para evitar isso, Nathalie desfechou um rapidíssimo
ataque por trás, alcançando pleno êxito. Correu a toda a
velocidade os três metros que a separavam de Leeper, sem
preocupar-se com qualquer ruído, fiando-se apenas em sua
rapidez.
Leeper ouviu o barulho e começou a virar sobressaltado.
Mas nesse instante, Nathalie já estava às suas costas,
passando o fio de aço para frente. Leeper parecia a ponto de
gritar, mas o arame não o permitiu. Apertou-se brutalmente
em seu pescoço.
— Aaaaaaaaaagggg!
O grunhido de Leeper não chegou sequer a três metros de
distância. Por trás dele, as pequenas e belas mãos puxavam o
arame, apertando violentamente o pescoço do homem.
Leeper relaxou o corpo e caiu de joelhos. Mas assim
mesmo, Nathalie continuou apertando. Meteu um dos
joelhos nas costas do homem, para ter um melhor ponto de
apoio e continuou puxando o arame.
Por fim, Leeper ficou como um saco vazio. Nathalie
removeu o fio, metendo-o com o rubi entre os seios. Pegou
Leeper pelos pés e arrastou-o para a lancha em que os três
homens haviam chegado à “Ilha Navegante” para morrer.
Jogou o cadáver dentro da embarcação e voltou ao ponto
onde tinha liquidado Lepper, de onde retrocedeu para a
lancha, apagando com os pés a marca deixada na areia com o
arrasto do corpo.
Novamente junto à lancha, começou a empurrá-la para
dentro da água. Por trás, ouvia cada vez mais fortes as vozes
dos homens que tinham conseguido algumas lanternas
elétricas.
Arquejando, com o suor escorrendo-lhe pela testa,
Nathalie conseguiu meter a lancha na água. Subiu nela, tirou
os óculos e arrancou uma das hastes, removendo de dentro
uma pequena peça achatada de metal, com dois centímetros
de comprimento. Comprimiu-a pelas extremidades entre os
dedos, até ficar com a metade do tamanho original. Isto feito,
tornou a colocar a peça dentro da haste que prendeu de novo
nos óculos, deixando-os sobre o painel de instrumentos.
Apanhou o rubi de entre os seios, dobrando o arame várias
vezes seguidas até ele se partir. Encaixou o rubi novamente
na pulseira e com o arame travou o volante da lancha, de
maneira que uma vez posta em marcha seguiria em linha
reta.
Colocou a embarcação em movimento. O rugido do
motor ressoou pela ilha e novamente se ouviram gritos e
vozes de alarma. A lancha partiu velozmente numa reta,
como previsto. A oito ou dez metros da ilha, Nathalie saltou
para a água e nadou em direção à praia.
Chegando ali, sentou-se na areia e esperou com tremenda
tranquilidade.
Poucos segundos depois, ouviu atrás de si as pisadas de
vários homens, mas nem sequer voltou- se para eles. Seu
olhar azul estava fixo na lancha que se afastava velozmente.
— Está aqui! — gritou Monaway, incrédulo. — A víbora
está aqui!
Monaway agarrou-a brutalmente por um braço,
obrigando-a com um puxão a ficar de pé, enquanto os
demais, com Newberry na frente, chegavam correndo.
— Deixe-a, Monaway! — exclamou Newberry. —
Talvez possa explicar...
— Deixá-la?! Vou é...
Monaway ergueu a mão armada com a pistola, com
evidentes intenções de partir a cabeça da jovem com uma
coronhada. Mas nem Newberry teve tempo de interferir. A
doce miss Arlington ergueu suas mãos, agarrou o pulso de
Monaway, voltou-se, ficando de costas para ele, e puxou-o
para frente, inclinando-se. Monaway saiu voando, para cair
de cara na areia. Quis erguer-se imediatamente, mas a mão
direita de Nathalie abateu-se de canto bem no meio de suas
costas, aparentemente sem muita força. No entanto, o gorila
afundou novamente a cara na areia. Seu corpo ficou rígido, a
respiração ofegante.
— Chega! — gritou Newberry, afastando a jovem
rudemente. — Chega de farsas! Quero saber o que significa
tudo isto, Nathalie!
— Não me chamo Nathalie — disse a belíssima víbora.
— Meu verdadeiro nome é Marya Smirkov Protopov...
Naquele momento ocorreu uma explosão em pleno mar.
Todos se voltaram para o ponto de onde tinha vindo o
estrondo e ainda puderam ver os pedaços de madeira voando
pelo ar, iluminados por uma chama imensa que pouco depois
se apagou. Nathalie apontou para ali e explicou:
— Lá vai o traidor que vocês estavam procurando. Mas
não creio que valha a pena recolher os seus fragmentos.

CAPÍTULO SEXTO
Uns podem ser mais nacionalista do que outros
Numa história bem contada, tudo se encaixa perfeitamente
Alguém tem que decidir

Todos a fitavam atentamente, enquanto ela, com mão


firme, servia-se de uma taça de champanha. O mais
assombrado era, evidentemente, Pernell Newberry. O mais
irritado, Monaway, que lhe dirigia olhares cheios de rancor.
Os outros esperavam, simplesmente, em grande expectativa,
embora também estivessem espantados.
Nathalie estava num sofá do living, tão tranquila como se
estivesse numa festa maravilhosa, cercada de amigos.
Sorveu um pouco de champanha e aprovou-o com a
cabeça, olhando para Newberry.
— Não é minha marca preferida, querido, mas não é de
todo má.
— Estamos esperando uma explicação — murmurou
Newberry.
Nathalie olhou para a pistola novamente empunhada por
Monaway, dirigindo-lhe um olhar seco, de ironia.
— Bem. Terei que dar explicações a fim de convencer
Monaway de guardar seu canhãozinho, não é?
— Você está demorando muito. Pediu uma trégua para
explicar; depois pediu champanha, era seguida queria
descansar... Já lhe demos tudo. Agora, explique-se.
— Certo. Creio que vocês já compreenderam que Leeper
era o traidor que estávamos procurando.
— Como?! — exclamou Newberry.
— Exatamente o que você ouviu, meu querido.
— Não é possível! Leeper trabalhava há vários anos
comigo. Tinha toda a minha confiança!
— Sabemos disso, Pernell. Mas... não lhe ocorreu a ideia
de que Leeper pudesse ser mais americano que você?
— Mais americano do que eu?
— Sim, meu amor. Em dado momento, o pobre Leeper
deve ter chegado à conclusão de que não gostava de trair os
Estados Unidos. Então, denunciou vocês.
— Não acredito! — resmungou Newberry.
— Não?! Então, como é que você explica que um agente
da CIA estivesse nos vigiando em Nassau, a mim e a Peter
Gilbert? Alguém nesta ilha conseguiu entrar em contato com
a CIA e esta mandou a Nassau um de seus muitos agentes,
ou mais de um. Só sei que um homem do serviço secreto
americano conseguiu nos descobrir, a Peter Gilbert e a mim.
Tivemos uma luta e matei-o. Mas o pobre Piótor não teve
sorte.
— Quem é Piótor?
— Piótor Govárian era o nome do homem que vocês
conheciam como Peter Gilbert. O agente da CIA conseguiu
matá-lo, mas eu, por minha vez, liquidei o americano.
— Bem... — Newberry estava de fato perplexo. — E que
mais?
— Percebemos que havia um traidor no grupo.
Preferencialmente na ilha, onde todos, com exceção de
Makário, são americanos. De maneira que resolvemos
investigar para descobrir o traidor.
— Quem foi que decidiu isso?
— Sócrates e eu, naturalmente — arriscou Nathalie,
contando com a sorte.
— Sócrates estava agindo de acordo com você?
Nathalie chegou quase a sorrir. Quer dizer que tinha
acertado, ao supor que seu bom inimigo também usava
aquele nome em terras americanas?
— Claro que estávamos de acordo. Arquitetamos o plano
do aviãozinho. Eu deveria saltar nas proximidades da ilha,
ser recolhida e ir estudando todos vocês, até descobrir o
traidor. Enquanto isso, Sócrates e os outros deveriam
certificar-se de que em Nassau tínhamos cortado as pistas.
Depois eles viriam para a ilha, a fim de me ajudar a
encontrar o homem que não estava se comportando
devidamente. Por acaso, Sócrates não chamou vocês pelo
rádio, comunicando que tinha havido dificuldades em
Nassau?
— De fato — interveio Monaway. — Mas ele nos disse
que Hortense Wald e Peter Gilbert tinham desaparecido.
Nathalie fitou-o ironicamente.
— E o que é que você queria que ele dissesse? Que eu era
Hortense Wald e que estava aqui como Nathalie Arlington
para vigiar porque desconfiávamos de um de vocês?
Seguiu-se um murmúrio de aprovação. Realmente, a
atitude de Sócrates parecia plenamente justificada.
— Falei de você, assim que desembarcou aqui na ilha —
observou Newberry — e ele me disse que não conhecia
nenhuma Nathalie Arlington.
— Pelos mesmos motivos, querido. Ele ainda não sabia
se eu havia descoberto o traidor ou não, e não queria que
vocês me relacionassem com ele, a fim de que eu pudesse
trabalhar a minha maneira.
Isso também fazia sentido, mas Newberry insistiu:
— Então, por que quis ver você?
— Que tinha a perder com isso? Pelo contrário, convinha
mostrar que desconfiava de mim. Iria ver-me, e diria que não
me conhecia, para vocês me vigiarem bem. O caso era
arrumar as coisas de maneira que eu pudesse continuar
procurando o traidor. Ele, assim, faria a busca à sua maneira
e eu à minha. Apanharíamos o traidor entre dois fogos, de
um modo ou de outro.
— Tudo isso está muito bem, até agora — interveio de
novo, Monaway. — Mas eu gostaria de saber como explica a
sua fuga.
— Minha fuga?
— Exatamente. Por que não ficou em seu quarto
esperando a visita de Sócrates?
— Eu não podia ter permanecido no quarto, pela simples
razão de não me encontrar nele, Monaway — riu ela.
— Onde estava?
— Pela ilha, vigiando para ver se algum de vocês fazia
sinais, ou jogava qualquer coisa na água. Vigiando, à procura
do traidor. De repente, armou-se a confusão. Pensei que
alguma coisa estivesse acontecendo com meus companheiros
e me escondi. Pensei que vocês todos tivessem resolvido nos
trair, por se terem arrependido de trabalhar para nós que
somos russos. E me convenci mais disto, quando vi Leeper
disparar com uma estranha pistola contra Sócrates e o seu
companheiro.
— Foi Leeper quem fez aqueles... aqueles estranhos
disparos? Tem certeza?
— Vi perfeitamente bem. Mas eu não tinha armas
comigo, de maneira que continuei escondida. Pouco depois
ele se afastou, agachado. Compreendi então que era ele o
traidor e que estava com medo de ser descoberto.
Evidentemente, tentaria fugir. Como a única maneira de
escapar da ilha é por meio de uma lancha, fui até à praia
esperá-lo.
— Fui eu que o mandei para lá com um rifle.
— Pois você deve ter lhe dado uma grande alegria,
querido Pernell. De qualquer maneira, joguei minhas cartas a
meu modo: sabotei a lancha que me parecia mais provável
que ele usasse, ou seja, a mais veloz.
— Você disse antes que não tinha armas — lembrou,
secamente, Monaway.
— Apenas os meus óculos — sorriu Nathalie.
— O quê?
— O interior das hastes contém um explosivo plástico.
Em uma delas fica o detonador especial, formado por duas
placas metálicas que... bem, isso é muito complicado de
explicar. O fato é que os meus óculos eram... uma bomba.
Deixei-os na lancha e esperei. Vi Leeper aproximar-se, mas
afastou-se outra vez. Desapareceu durante uns dois minutos
e logo voltou correndo. Empurrou a lancha e embarcou nela
rumo ao inferno. Alguém tem ainda alguma dúvida?
Fez silêncio durante quase meio minuto. Por fim, Pauley
murmurou:
— Acho que tudo está entendido, menos uma coisa.
— O quê?
— Que fazemos agora? Seguimos em frente, fugimos do
país...? Depois de tudo o que aconteceu, não me parece
sensato continuar no mesmo trabalho. Isso, pelo menos, é o
que eu acho.
— Não sabemos até que ponto o nosso projeto está
comprometido — murmurou Nathalie. — De qualquer
maneira, parece claro que fomos descobertos. Temos que
analisar cuidadosamente a situação. Enquanto isso, voltem às
máquinas e ponham a ilha em movimento, no rumo
estabelecido.
— A vigilância no Cabo Kennedy talvez tenha sido
redobrada — sugeriu Zoltan.
Nathalie voltou-se para ele vivamente.
— Bem. Por enquanto iremos nessa direção. Não estou
muito segura neste assunto, pois o meu trabalho consistia em
servir de contato e apoio em Nassau. Que vamos fazer em
Cabo Kennedy?
— Você verá, se chegarmos até lá — disse Newberry. —
Agora, é preciso tomar uma decisão. A qualquer momento
poderemos ser apresados pelos Guarda-Costas, cheios de
agentes da CIA e do FBI.
— Pensarei em alguma solução — afirmou Nathalie. —
Enquanto isso, o melhor é cada um voltar a seu posto. Ê
preciso nos afastarmos o máximo possível do lugar onde
ocorreu a explosão da lancha. Alguém pode ter visto e talvez
esteja se aproximando.
— Braden, Malloy, Monaway: voltem a seus postos e
afastem a ilha destas águas — ordenou Newberry. — Os
demais assumam seus postos normais de vigia.
No living ficaram apenas Nathalie e Newberry, olhando-
se fixamente. Ela sorveu mais um pouco de champanha e
sorriu para ele. Bateu com a palma da mão na almofada-sofá
a seu lado e convidou-o:
— Sente aqui, querido.
— Estou pensando. Acho que fui um idiota — disse
Newberry, sentando-se a seu lado e olhando-a intensamente.
— Tudo quanto você fez foi para conquistar a minha
confiança, para me vigiar mais estreitamente, para saber se
eu era o traidor nesta ilha...
— Você não poderá me perdoar por isso? — sussurrou
ela docemente.
— Não sei. No fundo, Monaway tinha razão: você
mentiu.
— Mas não em tudo, querido.
— Como assim?
— É preciso que uma mulher diga tudo explicadinho para
que você a entenda?
— Não. Não é preciso. Mas, o que eu me pergunto é...
será que você é mulher?
Nathalie passou o braço pelo pescoço de Pernell
Newberry, aproximando a cabeça de seu peito, e fitou-o de
baixo para cima, de modo que seus lábios ficaram bem
próximos da boca do homem.
— Agora? — murmurou. — Agora é que você duvida de
mim como mulher? Depois de ter comprovado por si
próprio...?
Seus lábios estavam entreabertos, a respiração tensa...
Pernell não podia resistir. Inclinou a cabeça e colheu o beijo
que se lhe oferecia. Mas foi por pouco tempo. Nathalie
afastou-o, suavemente, murmurando:
— Somos uns loucos, querido. Dois inconscientes.
— Por quê?
— É possível que neste mesmo instante estejamos
correndo perigo de morte. Estamos completamente
desligados de todo o sistema de espionagem que está
dirigindo este assunto.
— Desligados?! Mas você deve saber!...
— Eu não sei nada — cortou amargamente Nathalie. —
Quem sabia era Sócrates. Agora, encontro-me desligada,
como já disse. Não sei o que deva fazer, nem a quem
recorrer. O seu amigo Leeper, não há dúvida, causou-nos um
grande problema. Eu poderia voltar para Nassau e esperar
algum contato, uma mensagem, qualquer coisa. Mas receio
que regressar a Nassau signifique a minha morte. Esse
caminho de fuga, logicamente, já deve ter sido cortado pela
CIA... Um momento! — fitou-o vivamente, como que
gratamente surpresa por uma ideia, uma boa ideia. — Vocês
recebiam instruções pelo rádio, não é verdade?
— Exato.
— De onde vinham essas instruções?
— De Washington.
— De Washington?! Quem é que manda, de lá, as
instruções para o trabalho?
— Não sei.
Nathalie olhou para eles com expressão de dúvida.
— Você... está mentindo. Recebe instruções de
Washington e não sabe quem dá essas instruções?
— Isso foi o combinado. A colaboração era direta entre a
“Ilha Navegante” e algumas pessoas em Washington.
Embora, na verdade, não precise de instruções para fazer o
meu trabalho.
— Que trabalho?
— Você não sabe? — espantou-se Newberry.
— Não. Já imaginou? — riu ela, secamente. — Ser espiã
não é fácil. Dizem o que a gente deve fazer, mas sempre de
maneira limitada. A cadeia é cortada em vários escalões. Eu
sabia, por exemplo, que deveria estar à disposição da “Ilha
Navegante” e ajudar qualquer um que viesse da ilha. Ao
mesmo tempo, vocês conheciam os nomes de Peter Gilbert e
o meu, mas isso era tudo. Nem vocês sabiam nada a nosso
respeito, nem nós sabíamos nada sobre vocês. E’ o que se
chama de sistema “independente”. Admito, é lógico, que é o
mais conveniente. Mas às vezes, o espião se vê em apuros,
como eu e... que fazer? Não posso voltar para Nassau, nem
posso ficar na ilha. Pergunto outra vez: que fazer?
— Não sei.
— Mas eu sei. Vamos pedir instruções a Washington. É
evidente que existe ali um grupo de espionagem russo,
alguém que conhece Marya Smirkov Protopov. Eles me
dirão o que fazer E... Sim. Acho que devemos chamá-los e
informá-los de tudo o que aconteceu. Eles que tomem a
decisão final. Você não acha, querido?
— A decisão final?
— Sim! Temos que fazer alguma coisa. Não podemos
fugir tão facilmente, nem ficar na ilha. Não podemos,
tampouco, tocar território americano, sem risco de sermos
presos. Eles que decidam. Que nos tirem deste apuro, que é,
ao mesmo tempo, apuro para eles. Pois, se cairmos, eles em
Washington, cairão também. Você os conhece?
— Não.
— É só pelo rádio que você mantém contato com eles, no
duro?
— No duro.
Nathalie Arlington ficou pensativa durante quase um
minuto.
— É isso mesmo. Vamos chamá-los, Pernell. Diremos
como está a situação e eles que resolvam. Têm que nos tirar
do apuro, só isso. Algum de vocês fala russo?
— Não. Nenhum de nós fala russo.
— Tem certeza?
— Certeza absoluta, querida.
— Então eu terei que falar pelo rádio, para convencê-los.
Terão que acreditar em mim e ajudar- nos. Não poderão
ignorar o SOS de Marya Smirkov Protopov!
O gorila conseguiu rapidamente a ligação, levantou-se e
indicou o aparelho a Nathalie.
— Pronto. É só falar.
— Obrigada, Monaway.
Sentou-se, olhando meio desconfiada os diversos
mecanismos e controles do rádio. Por fim, inclinou- se para o
microfone e murmurou em russo:
— Marya Smirkov Protopov, em missão de contato e
ajuda em Nassau, chamando. Câmbio.
— Pode falar, Marya Smirkov — responderam em russo.
— Câmbio.
— Estou na “Ilha Navegante”, é claro. Houve
dificuldades em Nassau. Mataram Piótor Govárian e eu tive
que fugir. Felizmente consegui chegar à ilha e agora estamos
navegando para o norte. Sócrates esteve aqui com seus
auxiliares de Nassau, mas foram eliminados por um dos
americanos, que nos traiu. Esse americano foi liquidado por
mim, mas não pude evitar que matasse Sócrates e os outros
dois. Agora estamos indecisos, sem saber até onde vai o
perigo com a delação do traidor americano. Logo
chegaremos às proximidades de Cabo Kennedy, mas não
sabemos se continuamos na rotina, sem temer nada, ou se
devemos fugir. Espero instruções. Câmbio.
— Responda o seguinte: acha que a “Ilha Navegante”
corre perigo sério? Câmbio.
— Grave perigo. Câmbio.
— Você afirma que a CIA está a par do trabalho que se
realiza na ilha? Câmbio.
— Isso eu ignoro. É possível. O fato é que a CIA sabe da
existência da ilha artificial. Talvez esteja à nossa procura.
Durante a noite temos possibilidade de escapar de uma
eventual perseguição, mas, quando amanhecer, seremos
localizados. Por isso, acho que é urgente fugir. Não falo por
mim, camarada. Mas por esses americanos, que, se forem
presos, contarão tudo o que sabem. É preciso sair
rapidamente desta situação. A ilha deveria ser destruída,
afundada, e os homens aqui deveriam ser retirados, de um
modo ou outro. E’ a única forma possível de cortar o
caminho da CIA para vocês aí em Washington. Câmbio.
— Tudo entendido, Marya Smirkov. Não importa essa
gente .da ilha. Siga estas instruções: mate todos, afunde a
ilha e fuja numa lancha. Entendido? Câmbio.
— Entendido — respondeu Nathalie, sempre em russo.
— Não vai ser difícil. Considerem a ilha afundada e mortos
todos os seus habitantes. Mas quero saber para onde devo ir,
quando abandonar a ilha numa lancha. Câmbio.
— Regresse ao sul, a Miami. Chegue ao Píer 5 e espere.
Coloque uma peça de roupa sobre a cabina da lancha e isso
será o sinal para que um dos nossos a recolha. Ele lhe
facilitará os meios para chegar a Washington, de onde será
recambiada para a Rússia, sem dificuldades. Diga se
entendeu. Câmbio.
— Tudo entendido. Entretanto, acho perigosa essa parte
do plano de fuga. Por vários motivos. Um deles é que a CIA
talvez esteja vigiando a ilha e me deixe fugir para seguir-me
e caçar alguns de nossos camaradas. Outra possibilidade
perigosa é que o homem que deverá apanhar-me em Miami
talvez também esteja sob vigilância, e nesse caso cairemos
os dois. Se não houver inconveniente, prefiro instruções para
chegar por meus próprios meios a Washington. Diga-me
lugar, dia e hora. Câmbio.
Desta vez a resposta custou a chegar. Quase um minuto.
Finalmente ouviu-se a voz do mesmo homem:
— Lugar: National Histórical Museum, Washington. Dia:
depois de amanhã. Hora: seis da tarde. Confirme. Câmbio.
— Informação recebida. Estarei aí na hora marcada.
Cinco minutos de atraso significará perigo para quem estiver
à minha espera. Como reconhecerei o homem? Câmbio.
— Terá um livro de História Universal na mão esquerda e
estará fumando um charuto havana, que manipulará com a
mão direita. Ficará esperando na porta principal do Museu.
Câmbio..
— Tudo entendido e perfeito. Passo a cumprir instruções
de eliminação do pessoal e afundamento da ilha. Até depois
de amanhã, camaradas. Informou Marya Smirkov Protopov.
Câmbio e fora.
Cortou a ligação e ficou pensativa, apoiando o rosto
numa das mãos, com o cotovelo no tabuleiro defronte ao
painel da radioemissora.
— Então? — impacientou-se Newberry. — Que foi que
eles disseram?
— A situação não está boa, querido. Negam-se a
colaborar, alegando que isso está fora de suas atribuições.
Indicaram-me outro comprimento de onda para pedir
instruções definitivas.
— Que comprimento de onda? — resmungou Monaway.
— Farei a...
— Eu mesma farei o contato — refugou Nathalie. — Sei
o suficiente sobre rádios para isso. E quero pedir-lhe um
favor, Monaway: fique quieto e não me aborreça mais! —
Olhou friamente para ele. — Espero que tenha entendido
bem, já que agora não estou falando em russo.
Monaway deixou escapar um grunhido e afastou-se para
um canto da casa das máquinas. Nathalie passou a manipular
a potente emissora durante uns cinco minutos, até conseguir
o comprimento de onda desejado. Então, fez a chamada,
empregando novamente’ o idioma russo:
— Garotinha de olhos azuis chamando da “Ilha
Navegante” a todos os seus bons amigos americanos.
Atenção: falarei em russo, único modo de driblar a estreita
vigilância a que estou submetida. Quero saber se há aí algum
rapaz que possa entender-se comigo nesse idioma. Espero e
câmbio.
A resposta veio poucos minutos depois.
— Pode falar, garotinha de olhos azuis. Um rapaz
simpático, que fala perfeitamente russo, está à sua
disposição. Informe se é proibido mencionar nomes! Espero
instruções e câmbio.
— Absolutamente proibido mencionar nomes, pois aqui
em “Ilha Navegante” sou Marya Smirkov Protopov. As
instruções são as seguintes: depois de amanhã, às seis da
tarde, um homem estará esperando Marya Smirkov Protopov
na porta principal do National Historical Museum de
Washington. Terá um livro de História Universal na mão
esquerda e estará fumando um charuto havana, que
manuseará com a mão direita. Informe se entendeu, pois
assim, uma vez preso esse homem, conseguirão apanhar a
rede soviética que opera em Washington, dirigindo este caso
da “Ilha Navegante”. Câmbio.
— Entendido e fantástico, doce Marya Smirkov. Câmbio.
— Segundo: vou mandar que a ilha prossiga em suas
operações rotineiras, em direção ao objetivo habitual, a fim
de conhecer os planos soviéticos. O objetivo desses planos
parece que é Cabo Kennedy. Mobilizem pessoal para esse
ponto, mar adentro. Lanchas rápidas, exclusivamente.
Quando virem um fogo de bengala vermelho, abordem a
ilha. Isso é tudo. Entendido? Câmbio.
— Tudo entendido, de cabo a rabo. Receba
antecipadamente as mais efusivas felicitações de seu chefe
imediato. Você já sabe quem é. Considere destruída a rede
soviética operando em Washington e proceda à sua maneira
com relação à “Ilha Navegante”. Alguma dúvida ou
sugestão? Câmbio.
— Nenhuma dúvida, nem sugestão. Isso é tudo. Fora.
Desligou a radioemissora, levantou-se e olhou com
expressão animada para Pernell Newberry.
— Parece que as coisas não estão assim tão más, como eu
havia pensado. Recebi instruções, ordens, para que se
proceda como habitualmente. Quanto às minhas perguntas
sobre a missão da “Ilha Navegante”, disseram-me que você
me informará de tudo. Devemos proceder de modo normal e
esperar que venham apanhar os microfilmes. Bem... Fiz tudo
o que me era possível. Agora, você tem a palavra, querido.
— Tem certeza de que mandaram também tirar
fotografias esta noite?
— Não me disseram isso. Apenas que se proceda de
modo normal e que alguém virá apanhar os microfilmes.
Como é que vou fazer para você entender que eu não sei
exatamente o que vocês estão fazendo aqui na “Ilha
Navegante”?
Estava dizendo tamanhas mentiras, que chegava quase a
rir. Mas ali, ninguém entendia o russo e nenhum deles era
realmente um espião. Eram todos, simplesmente, uns
traidores nojentos que se tinham metido no mundo da
espionagem por dinheiro. Contra seu próprio país!
Lamentável... para eles.
Newberry olhou para Monaway.
— Onde nos encontramos, exatamente?
— A umas cinquenta milhas a sudeste de Cabo Kennedy.
— Bem. Seguiremos para lá e procederemos de maneira
normal, ao chegarmos às vinte milhas. Você ficará
encarregado da navegação, enquanto eu vou para cima
cuidar de tudo. Pressinto que este vai ser o nosso último
trabalho e precisamos fazê-lo bem, se quisermos que os
russos, pelo menos, nos ajudem a sair da enrascada. Maldito
Leeper!
— Nada se consegue com lamentações, Pernell —
comentou Nathalie. — Mas você tem razão numa coisa: é
preciso fazer bem o trabalho, e assim seremos ajudados a
sair do apuro. O homem que vem apanhar os microfilmes
nos dará instruções definitivas. Parece que temos tempo de
sobra para fazer tudo calmamente e sair bem do negócio.
— Espero que sim. Entendido. Monaway?
— Entendido — resmungou o gorila. — Seguiremos
rumo a Cabo Kennedy, como todas as semanas.
— E nós? — perguntou Nathalie.
— Venha comigo.
Tomou-a pela mão e dirigiram-se para a rampa que
levava da casa das máquinas à cozinha. Pouco depois saíam
da residência, em direção ao centro da ilha. Pararam a uns
quinze metros da casa e Newberry chamou:
— Makário!
O gigantesco e silencioso indivíduo de cabeça raspada
apareceu poucos segundos depois.
— Pronto, mister Newberry.
— Vá chamar Zoltan e Pauley. Começaremos dentro de
uma hora. Deixem a vigilância e venham todos para cá.
— Sim, senhor.
Makário desapareceu entre as sombras e Newberry
ajoelhou-se no chão, ficando assim durante alguns segundos,
remexendo qualquer coisa. De repente afastou-se correndo,
puxando Nathalie.
— Pernell! O que...?
A terra abriu-se, inesperada e silenciosamente, em quatro
imensas comportas, deixando ver um retângulo escuro,
profundo, que levava ao interior, ao subsolo da ilha. Fez-se
ouvir o ruído de um motor muito potente. Os quadriláteros
de terra que tinham se erguido, caíram para os lados,
revelando na parte inferior as sólidas placas de aço que sus-
tinham a terra e as rochas, bem como algumas plantas que
ocultavam aquele esconderijo.
Do fundo do poço, lentamente, foi brotando uma grande
máquina, parecida a um telescópio de muita potência. Estava
montado sobre uma plataforma de plástico reforçado, com
dois selins bem defronte do visor do telescópio. Havia outros
aparelhos, menores, fixos na plataforma que era empurrada
por um braço metálico articulado, o qual ia se estendendo,
esticando. Era um mecanismo extensível, que parecia não ter
fim. As vigas de ferro cruzadas iam se colocando cada vez
mais na vertical, à medida que o objeto parecido com um
telescópio subia mais e mais.
Zoltan, Makário e Pauley voltaram juntos, e ficaram
olhando o artefato, silenciosos. Ninguém dizia nada. Ouvia-
se apenas o ruído do motor que movimentava o braço
mecânico.
Por fim, o aparelhamento todo parou. A plataforma tinha
ficado a mais de vinte metros de altura, como um estranho
monstro. Parecia um instrumento de ficção científica...
— Mas... o que é isso? — murmurou Nathalie.
— É o que chamam de “Antiprojeto Apoio”.
— O quê?! Não compreendo, Pernell.
— Ê uma câmara fotográfica que alcança até cem
quilômetros. Com uma câmara dessas, podemos fotografar
tudo quanto acontece em Cabo Kennedy. Basta apenas
encontrar uma posição bastante alta, enfocar a base da
NASA e bater as chapas.
— De noite?!
— Raios ultravioleta — riu Newberry. — Tudo foi
previsto. Há sete semanas, já, que nos colocamos a vinte
milhas de Cabo Kennedy. Subimos à torre e passamos a
noite toda tirando fotografias da base espacial de Cabo
Kennedy onde, como você deve saber, estão preparando o
“Projeto Apolo”, isto é, o envio de seres humanos à Lua.
— Sim, sim... Conheço isso tudo. Mas...
— Daí de cima, domina-se o Cabo Kennedy a uma
distância de vinte milhas. Nosso trabalho consiste em tomar
fotografias uma vez por semana. Se houver muito
movimento, filmamos. Tudo isso forma um conjunto de
microfilmes que é recolhido semanalmente, também, por um
agente russo que o leva a Moscou e, de lá, para a “Cidade
das Estrelas”, ou seja, o Cabo Kennedy da Rússia. Desta
maneira, os soviéticos ficam perfeitamente a par do
progresso americano em seu caminho para a conquista da
Lua.
— Entendo, sim.
— Seus compatriotas não lhe disseram nada sobre isso?
— Não. Não, é claro.
— Para mim, isso é um empreendimento audaz, de
grande envergadura. Você já imaginou? Tudo quanto nós, os
americanos, fazemos com vistas à chegada à Lua, é
conhecido com tempo suficiente por vocês, os russos! Para
isso, vocês não olharam despesas. Uma ilha artificial, dois
milhões de dólares para mim, ao terminar o' negócio; meus
homens pagos à parte, todas as despesas cobertas.
— A mim me parece um disparate.
— Um disparate?! Por quê?
— Que importa que nós, os russos, tenhamos
conhecimento do que vocês estão fazendo? Se vocês tiverem
que chegar à Lua antes de nós, assim será, por mais que nós
saibamos. Não lhe parece?
— Bom. Não é bem assim. Você vai ver: esta ilha, em
princípio, é o capricho de um milionário americano. Por
meio dela, os russos conseguem todas as informações
possíveis sobre os adiantamentos gerais do “Projeto Apoio”.
A todo instante vocês sabem como as coisas andam. Ao
mesmo tempo, vocês se esforçam para terminar seus
preparativos antes que nós.
— Você acha que o conhecimento do que os americanos
estão fazendo pode apressar o progresso russo em direção à
Lua?
— Isso eu não sei. Mas sei que da “Ilha Navegante”
pode-se atrasar a viagem dos americanos à Lua.
— Como assim?
— Não sei muito bem. Mas ouvi qualquer coisa sobre
isso. Suponhamos que os americanos, nós, estejamos prontas
para lançar uma nave tripulada ao satélite natural da Terra. E
suponhamos que aos russos, que também querem ser os
primeiros a chegar, não interesse esse lançamento. Pois bem:
segundo entendi, daqui da “Ilha Navegante”, pode-se lançar
um pequeno artefato que deixaria Cabo Kennedy convertido
em cinzas... Desta maneira, já não haveria concorrência para
os russos.
— É esse o plano? — murmurou Nathalie.
— Receio que se os americanos andarem mais depressa
do que vocês, os russos, o plano é esse. O mundo teria que
aceitar a ocorrência de um desastre em Cabo Kennedy. E os
russos, com toda a tranquilidade, seriam os primeiros' a
chegar à Lua.
— E esse é um plano soviético?
— É o que parece, querida. Tenho que admitir que vocês
são muito espertos.
— Você já pensou que tudo isso pode custar a vida de
mais de duas mil pessoas?
— A ideia não foi minha.
— Claro! Você apenas está fazendo o que mandam. Por
dois milhões de dólares.
— Exatamente. E, no fim de contas, que importa quem
chegue primeiro à Lua?
— De fato. Isso pouco importa. Mas acontece que se os
americanos estivessem em condições de chegar antes, daqui
da “Ilha Navegante”, ou de qualquer outro lugar semelhante,
toda a base de Cabo Kennedy seria destruída, com a
simulação de um acidente. São duas mil pessoas, Pernell. Já
imaginou?
— Bem... Para isso há uma solução: nós, os americanos,
temos que cuidar de proteger melhor nossas costas.
— É isso mesmo. Vocês, os americanos, são muito
ingênuos... Bem. O que é que fazemos agora?
— Vamos subir na torre. Quando chegarmos a vinte
milhas de Cabo Kennedy, começaremos a tomar fotografias.
Quer vir comigo?
— Pode-se subir?
— Claro! Há umas saliências de ferro, separadas trinta
centímetros, como se fossem degraus. É fácil. Venha.
— Eu... Prefiro ficar aqui embaixo, por enquanto. Vou
até a casa buscar um abrigo. Faz frio a estas horas, em pleno
mar.
— Certo. Espero por você lá em cima. De fato, é melhor
apanhar um abrigo. Você se incomodaria de trazer um para
mim também?
— Claro que não, querido. Oh! Eu queria pedir um favor
a você.
— Pois não. O que é?
— Receio que... Bem, talvez você ache uma bobagem
minha, mas não me agrada o fato de saber que houve um
traidor aqui, entre nós. E estou pensando que talvez haja
outro. Talvez você pense que estou com prevenção, mas...
— Você se refere a Monaway?
— É. Sinto muito, mas...
— Engano da sua parte, mas não importa. O que é que
você quer?
— Eu gostaria que Makário, Zoltan e Pauley me
acompanhassem. Não quero entrar na casa sozinha, com
Monaway lá. E eu desarmada.
— É bobagem. Mas, está bem. Makário e Zoltan irão com
você. Pauley terá que ficar aqui para cuidar dos mecanismos
de superfície da torre. Eu estarei lá em cima tirando as
fotografias. Pode ir com Zoltan e Makário.
— Obrigada, querido. Sei que sou uma espiã muito boba.
Pernell Newberry abraçou-a e aproximou sua boca dos
lábios de Nathalie.
— Uma espiã... Quero ter toda a certeza, Nathalie, de que
você não esteve me enganando também.
— Não.
— Então...?
A jovem ergueu-se nas pontas dos pés e beijou os lábios
de Newberry.
— Então — murmurou — tudo foi verdade entre nós,
Pernell. Desejo apenas que terminem este trabalho, que nos
recolham e nos ponham a salvo. Depois, meu amor, a única
coisa que me interessa é que nunca mais tenhamos que nos
separar.
Pernell apertou fortemente a mulher entre seus braços.
Marya Smirkov, Hortense Wald, Nathalie Arlington... Qual
era seu verdadeiro nome? Não tinha importância. Pernell via
apenas a mulher, e não a espiã. Beijou-a profundamente, até
que ela o afastou com suavidade.
— Até logo, querido. Espere-me lá em cima.
Afastou-se lentamente, enquanto Newberry, procurando
recuperar o pleno controle sobre si mesmo, ordenava a
Makário e a Zoltan que acompanhassem miss Arlington.
Deu instruções a Pauley e começou a subir a altíssima
torre, a vinte metros acima do nível cio mar, v.
O “Antiprojeto Apoio” continuava em andamento, apesar
de tudo.
CAPÍTULO OITAVO
Propostas indecorosas merecem um corretivo
Liquidação para balanço
Uma víbora sem ninho dorme em qualquer lugar

— Tenho apenas que apanhar algumas coisas — disse


Nathalie, docemente. — Entrem, entrem.
Makário e Zoltan entraram no quarto, trocando olhares e
sorrisos de cumplicidade. Era uma pena que aquela espiã
russa já tivesse a marca de Pernell Newberry, senão...
— Oh! Makário! — falou de repente Nathalie. — Pernell
também quer um agasalho para abrigar- se esta noite, lá na
torre. Será que você poderia ir buscar qualquer coisa para
ele, no seu quarto, enquanto eu procuro um casaquinho para
mim?
— Okay! — respondeu Makário.
O gigante saiu do quarto, deixando Nathalie e Zoltan
sozinhos. O rapaz começou a sorrir de modo estranho, meio
encabulado. Seus pensamentos, indiscutivelmente, levavam-
no por caminhos que lhe iam parecendo cada vez mais
agradáveis.
— Ficamos sós... — arriscou ele.
Nathalie olhou-o com expressão de espanto.
— É... É verdade, Zoltan.
— Completamente sós. Todo mundo na ilha está
ocupado.
Ela continuou olhando fixamente para ele. De repente,
sorriu e colocou sobre a cama a maletinha vermelha, com
enfeites, de flores azuis.
— De fato. Estão todos muito ocupados — concordou,
amavelmente.
Zoltan aproximou-se, sem deixar de sorrir. Chegou junto
à jovem de belíssimos olhos azuis, quando ela estava pondo
entre os lábios sedutores uma piteira de marfim adornada de
brilhantes, que acabara de tirar da maleta. A mão direita de
Zoltan pousou num dos ombros da espiã.
— Estou pensando que não há pressa para ir até a torre...
Não acha, boneca?
— Não — sorriu ela. — Não há pressa alguma, Zoltan.
Quanto menos tempo eu ficar lá em cima, menos frio
sentirei.
— Esse é o ponto: sentir frio, ou estar bem quentinha.
Talvez eu tenha uma solução para isso...
— O que é que você sugere? — convidou ela, muito
doce.
— Poderíamos ficar aqui durante uma hora mais ou
menos, acumulando reservas de calor para toda a noite. O
que é que você acha?
— Acho muito ruim.
— Ruim?
— Tão ruim, que temo ter de matá-lo, Zoltan. Você é
um... cachorro sem a menor classe. Muito diferente de
Pernell. Nele, algumas coisas podem ser perdoadas, mas em
você, nenhuma. Adeus, Zoltan.
Nathalie soprou ligeiramente na piteira de marfim,
adornada de brilhantes. No mesmo instante
Zoltan levou a mão à garganta, onde sentira a picada de
um mosquito furioso.
E isso foi tudo. Um segundo depois, caía, morto, de
maneira fulminante pelo pequeno dardo disparado pela
piteira.
Quase ao mesmo tempo, Nathalie ouviu os passos de
Makário no corredor, voltando. Abriu tranquilamente a
piteira e colocou no estreito tubo outra minúscula seta, do
tamanho apenas da ponta, de um alfinete, que tinha retirado
da segunda parte da mesma piteira, de um compartimento
especial. Atarraxou rapidamente as duas peças e levantou o
olhar.
Makário estava no umbral da porta, olhando atônito para
o cadáver de Zoltan.
— Que aconteceu?
— Ele quis uma coisa com a qual eu não estava de
acordo, e tive que golpeá-lo.
Makário recordou a brevíssima luta daquela mulher com
o enorme Monaway algumas horas antes, em que ela saíra
vencedora, e assentiu com a cabeça. Entrou e deixou um
cobertor sobre a cama — a única coisa que encontrara para
abrigar Newberry —, inclinando-se sobre Zoltan.
— Que faço com ele? — perguntou. — Mister Newberry
vai ficar aborrecido quando souber que ele quis o que não
lhe pertencia.
— Só há uma coisa que se pode fazer com ele, Makário.
— O quê?
— Acompanhá-lo ao inferno.
E de novo os suaves e sensuais lábios da jovem sopraram
pela piteira. Makário, da mesma forma que Zoltan, deu uma
palmada no pescoço, protestando contra a picada do maldito
mosquito. Mas não teve tempo de compreender que não
havia mosquito algum. Ergueu o rosto para a bela jovem de
olhos azuis, abriu a boca e caiu de bruços sobre o
companheiro.
Nathalie permaneceu alguns instantes contemplando os
dois cadáveres, ainda quase palpitantes. Encolheu os ombros
e começou a desatarraxar a piteira.
— Agora chega! O seu jogo acabou, divina víbora...
Nathalie ergueu a cabeça vivamente e mordeu os lábios
ao ver Monaway olhando-a com expressão maligna, os olhos
semicerrados. Na mão direita, empunhava firmemente uma
pistola automática calibre 45, que poderia transformar em
pedaços o belo corpo de Nathalie, apenas com alguns
disparos.
— O que é que você está fazendo aqui, Monaway? O seu
posto...
— A ilha navega sem mim — sorriu ele. — Você é de
um cinismo fabuloso, boneca. Acaba de matar dois homens e
ainda me pede explicações sobre a minha presença aqui.
Admirável! Não sei se você é americana, russa, ou chinesa.
Não sei se trabalha a favor ou contra nós. Não sei se é
sincera ou embusteira... Estou na maior confusão. Por que
não me conta a verdade?
— Eu... estou do seu lado, Monaway.
— Oooooh!... Não diga! Do meu lado, não é?
— Você preferiria o contrário?
— Não sei. Acho que preciso pensar sobre isso,
detidamente. Estou me lembrando agora de uma história
sobre certa raposa e umas uvas... Mas acho que você não
explicou bem o conto, não é, boneca?
— Com toda a certeza, enganei-me em algum ponto —
sorriu Nathalie.
— Ainda bem. Porque, na realidade, eu não sou homem
que despreze umas tantas uvas, só por estarem verdes. Sou
muito mais primitivo. Simplesmente, tomo o que quero.
— Acho que faz bem, Monaway.
— Afaste-se dessa maleta. Isso... Agora, tire essa camisa
de Pernell, para eu ter certeza de que não tem nenhuma arma
escondida... Assim! Muito bem. Agora, vire-se de costas.
Perfeito. Segundo parece, miss Arlington, está
completamente desarmada. Não tem nada escondido, nem
nada sobre o corpo.
— Apenas a pulseira — riu ela.
— Pode ficar com a pulseira. E agora, já que está como
veio ao mundo, vamos tratar de resolver uma questão que
temos pendente, e que eu pretendo deixar bem clara.
— Não é má ideia. Pelo contrário, pois dará mais emoção
ao combate.
O gorila meteu a pistola no bolso da calça e acercou-se de
Nathalie, sorrindo friamente. Agarrou-a pelos ombros e, de
repente, puxou-a de encontro a si, enlaçando-a com ambos
os braços, com a brutalidade própria de um urso. Encerrou a
jovem no cerco fortíssimo de seu abraço e sorriu.
— Muito bem... Estava dizendo alguma coisa sobre uvas
verdes, miss Arlington?
— Estava. Mas eu acho que já amadureceram.
— Ótimo! Nesse caso, a raposa pode comê-las, não é?
— Exatamente, querido.
Ela cerrou os olhos e Monaway ficou admirando seu
belíssimo rosto, os lábios úmidos e frescos que lhe eram
oferecidos. Sentiu nas costas os dedos femininos, cravando-
se suavemente em sua pele e ouviu o suspiro que brotou
daqueles lábios.
— Você é uma víbora — murmurou. — Uma autêntica
víbora em ninho alheio. Mas gosto de você. Vou...
AAAAaaaaAAAAhhhhH!
O grito de dor escapou da garganta de Monaway quando
o rubi que adornava a pulseira de ouro de Nathalie, percorreu
suas costas, rasgando-as profundamente, como se fosse uma
faca afiada, desde a omoplata direita até a cintura, do lado
esquerdo. Foi um talho brutal, áspero, violento, que fez o
gigante estremecer. Não teve outro remédio senão largar a
jovem. E, no mesmo instante, recebeu dela um golpe no
pescoço, desfechado com o canto da mão, que quase o
matou. Saltou para trás, escorregou e caiu de joelhos.
Enquanto procurava colocar-se de pé, cambaleante, metendo
a mão no bolso onde guardara a pistola, Nathalie apanhou
rapidamente da maletinha vermelha seu pente de cabelo.
Saltou para Monaway, plantando-se à sua frente,
exatamente quando ele começava a sacar a pistola. Apertou o
cabo do pente e uma lâmina de aço, finíssima, aguda e
afiada, pulou para fora.
— As uvas continuam verdes, Monaway.
A lâmina de aço, ao penetrar a carne do gigante com
violento impacto, produziu um som surdo e abafado. A feroz
punhalada penetrara-lhe no ventre. A jovem puxou o punhal
para fora e tornou a cravá-lo nas carnes do gorila, um pouco
mais acima. O gigante fechou os olhos e desmontou, caindo
de bruços, completamente imóvel.
Com uma indiferença de causar calafrios, a meiguíssima
jovem limpou a lâmina de aço, colocou-a de novo no cabo
do pente, jogando-o para dentro da maleta. Apanhou um
tubo de desodorante e desatarraxou a base, descobrindo um
pequeno compartimento onde havia três pequenas ampolas
de vidro, envoltas em algodão cor-de-rosa. Retirou uma
delas e tornou a atarraxar a base no tubo. Guardou tudo e
vestiu convenientemente o improvisado sarong, saindo do
quarto.
Desceu e dirigiu-se à cozinha, tomando a rampa que
conduzia à casa das máquinas. Sorriu para Braden e Malloy
que se voltaram para admirá-la, em expectativa.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Malloy.
— Não. Pernell pediu que eu viesse ver se tudo está em
ordem, se continuamos no rumo de Cabo Canaveral, quero
dizer, Cabo Kennedy.
— Está tudo em ordem, sem novidades.
— Muito bem. Até logo, então.
— Um momento! A senhora viu Monaway?
— Vi sim. Acabei de matá-lo, com duas estocadas. Com
vocês a morte será menos violenta. Este gás mortal não dói
nada!
Atirou a pequena ampola de vidro no chão, na direção
dos dois homens que estavam petrificados de espanto. A
cápsula ainda não havia rebentado junto aos pés de ambos, e
ela já corria rampa acima, a toda a velocidade. Nem sequer
se deu ao trabalho de olhar para trás e muito menos de
verificar o efeito do gás. Conhecia-o de sobra.
No vestíbulo, apanhou o casaco de Newberry, jogado
sobre uma poltrona, e a pequena maleta que deixara ali ao
descer de seu quarto alguns instantes antes. Foi para a torre e
começou a subir.
— Êi!... — era a voz de Pauley chamando. — Onde estão
Zoltan e Makário?
— Ah! Sim! Mandaram um recado para você, Pauley.
Um momento.
Desceu os poucos degraus que havia subido, abriu a
maleta e apanhou a piteira, colocando-a entre os lábios.
— Venha, Pauley. Ajude-me a procurá-lo.
— Procurar o quê? Eles deveriam estar... Aaaiii...!
Também Pauley deu uma palmada no pescoço, para
espantar o mosquito, enquanto caía lentamente. Nathalie
guardou a piteira, fechou a maleta, apanhou o casaco e
recomeçou a subir.
Quando chegou lá em cima, Newberry ajudou-a a
colocar-se na pequena plataforma e apanhou o casaco que
ela lhe estendia.
— Sente-se no outro selim — disse. — Está tudo bem lá
embaixo? Não há mais traidores?
— Não. Lá embaixo já não há mais nenhum traidor.
— Ótimo! Quer um cigarro?
— Aceito, obrigada. A noite vai ser longa e não vejo
razão para ficar aqui em cima, não acha? Poderá descer e
dormir confortavelmente numa boa cama.
— De fato... Tome — ofereceu-lhe o cigarro, acendendo-
o em seguida. — É apenas uma questão de escolher entre
ficar lá embaixo, sem mim, ou aqui em cima, comigo.
— A escolha não admite dúvidas — disse ela, tragando
com satisfação a fumaça do cigarro. — Eu prefiro uma boa
cama. É claro que posso dormir num ramo de árvore, se for
necessário, como um macaquinho, ou macaquinha. Mas, por
quê? Por que não dormir confortavelmente numa cama
quentinha, sabendo que ninguém virá aborrecer-me?
— Você está falando de um modo estranho. O que é que
há?
— Estou apenas lhe informando que lá embaixo todos
estão mortos. Portanto, ninguém poderá me aborrecer.
— Mortos? Não compreendo. Quem é que está morto?
— Todos: Zoltan, Pauley, Makário, Braden, Malloy,
Monaway... Só resta você querido... Não! Não se mova, por
favor...
Pernell Newberry ficou olhando para a pistola que surgira
repentinamente na mão da jovem, brilhando à tênue luz da
lua.
— Você está louca? — murmurou.
— Nem um pouco. Esta pistola significa apenas que
estou contra você. Menti o tempo todo, querido. Você
ganhou apenas o que me pareceu conveniente. Não meço
gastos nem sacrifícios. Nunca. A única coisa que me importa
é alcançar resultados.
— Você não é russa?
— Claro que não! — riu Nathalie.
— Então... Monaway é quem estava certo: você é uma
víbora traidora, uma víbora em ninho alheio.
— Mais ou menos. Mas, querido, estou sempre em ninho
alheio quando me transformo em víbora. O que já fiz muitas
vezes. Abasteço-me de bastante veneno e procuro um ninho
onde estejam fazendo qualquer coisa que não fica bem. Uma
vez aí, solto o veneno. Foi o que aconteceu na “Ilha
Navegante”. Ê o que tem acontecido centenas de vezes e
continuará acontecendo por muito tempo ainda. Gosto de ser
víbora quando é necessário. Todo o mundo mata as víboras,
mas eu faço as coisas ao contrário: mato aqueles que são
mais víboras do que eu. Traidores, assassinos, loucos,
ambiciosos de dinheiro e poder. Tenho conhecido toda classe
de homens e de mulheres. Conheço tão bem os humanos, que
muitas vezes me pergunto se não seria melhor ser víbora.
Uma víbora para caçar outras víboras. Uma víbora sem
ninho, à procura de ninhos alheios, para exterminar as
demais, muito mais perigosas do que eu mesma. Enquanto
houver víboras, eu continuarei sem meu próprio ninho.
Estarei sempre à procura de gente como vocês, como você...
Adeus, Pernell Newberry.
— Não! — gritou ele. — Você não vai me matar...
— Não? Por quê?
— Você não se atreveria! Não seria capaz de matar um
homem a sangue-frio!
A bela jovem começou a rir, seca e friamente.
— Um homem?! Oh! Não, querido! Você não é um
homem. Apenas uma víbora. Isto é uma luta de víboras, e
nesta espécie de guerra vence quem for mais víbora...
— Não! Espere! Não me mate...
— Você é um covarde, traidor, ambicioso e falso. Adeus,
amor.
— Não!...
Plop.
Plop.
Plop.
Pernell Newberry encolheu-se no selim. Fez uma
tentativa para levantar-se, mas tornou a sentar,
languidamente, suavemente. Ficou como que adormecido.
Nathalie Arlington deixou a pistola sobre a plataforma,
abriu mais uma vez a maleta e procurou...
Franziu a sobrancelha. Onde estavam as bengalas
vermelhas?
— Esqueci! Esqueci as bengalas vermelhas! Oh! Esta
maletinha não serve para nada! Para nada!... Acho que o
melhor é ir dormir algumas horas.
Olhou para Newberry durante alguns segundos. Sorriu e
cobriu-o com o casaco, agasalhando-o. Em seguida, desceu
pelos barrotes de aço. Olhou para o cadáver de Pauley, com
a maior indiferença, como se fosse apenas um tufo de erva
daninha.
Foi à casa das máquinas e parou os motores.
Dirigiu-se, finalmente, para o andar superior e decidiu-se
contra o seu quarto, com três cadáveres, entrando em outro
vazio.
Deixou a maletinha no chão, deitou-se na cama e
espreguiçou-se. Tudo estava em paz, tudo em silêncio, com a
ilha flutuando, parada na superfície do mar.
Um minuto depois, estava profundamente adormecida.
Uma víbora sem ninho dorme em qualquer lugar.

EPÍLOGO
As três rápidas lanchas pararam por fim ao largo da ilha
artificial. Uma dirigiu-se para. a praia rosada, que brilhava,
maravilhosa, ao sol da manhã. As outras aproximaram-se
depois, cautelosamente. De cada uma, saltaram seis homens,
bem armados, que se espalharam pela ilha, ocupando-a por
completo.
Dois deles, sem armas visíveis, caminharam de maneira
pausada em direção à casa. Ou, melhor, em direção à piscina.
Pois ali, nadando, feliz da vida, estava Nathalie Arlington,
que saudou os recém-chegados com um gracioso gesto de
mão.
— Olá! — exclamou alegremente. — Vou servir-lhes
café com torradas logo que terminar meu banho.
Os dois homens se acocoraram à beira da piscina e
sorriram, apreciando a esplêndida jovem de olhos azuis que
brincava nas águas azuis.
— O que é que houve com os fogos de bengala? —
perguntou um deles.
— Esqueci de apanhá-los! Creio que estou perdendo
minha eficiência, não acham? Imagino que vocês tenham
passado toda a noite esperando por eles no céu.
— Isso mesmo. O que é que você esteve fazendo?
— Dormi, naturalmente... Vocês não querem cair na
piscina? A água está uma delícia! Será que a CIA não me
daria de presente esta maravilhosa “Ilha Navegante”?
— Vou sugerir isso. Está de pé o convite para café com
torradas?
— Claro! A cozinha tem tudo. É evidente que seria muito
mais agradável se um desses rapazes fosse prepará-lo...
O homem que estava falando assentiu com a cabeça,
sorrindo. Deu instruções a um dos homens que se
aproximavam. Cada qual fazia um sinal com o polegar para
baixo, indicando que tudo estava terminado.
Kaputt!
Nada mais tinham que fazer ali. O chefe do grupo tornou
a acocorar-se na borda da piscina.
— De acordo. Um dos rapazes vai preparar o café com
torradas — disse. — Este foi um trabalho digno de você,
“Baby”. Parabéns!
— Nada além do normal — sorriu Brigitte Montfort, que
tornava agora a assumir sua verdadeira identidade. — Um
trabalho como tantos outros, mister Cavanagh

A SEGUIR:

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