© 1968 – LOU CARRIGAN
Título original: “El Torpedo”
Capa de Benicio
Colaboração de Sérgio Bellebone
530509
CAPITULO PRIMEIRO
A base “Top Secret” — Homem-Rã Número Um
Os isqueiros que falham são os melhores — Um anel de pedra verde
— Parece que todas as precauções foram tomadas,
general.
— Absolutamente todas. Trata-se de um novo engenho
que pode desempenhar papel importantíssimo numa guerra
futura. É lógico, portanto, que tenha sido estudado até o
último detalhe.
— Compreendo — disse a bela jovem, sorrindo. — E
espero que tudo esteja na mais perfeita forma possível.
— Por que não? — sorriu, por sua vez, o general Harry T.
Pearson.
Viajavam num carro particular, todo negro, fechado. No
fundo da paisagem monotonamente plana, via-se o azul e o
verde do mar. E era tudo. Nenhum ponto de referência. Um
lugar no litoral atlântico. E não havia mais nada a dizer.
O chofer naturalmente recebera instruções precisas a
respeito do itinerário, pois levara possivelmente duas horas
mais que as necessárias para chegar até aquele ponto,
tomando por estradas secundárias, caminhos rústicos de terra
batida, retornando depois à via principal... Finalmente,
estavam chegando ao destino: um ponto na costa do
Atlântico.
Perto da praia, uns quantos bangalôs. Quase à beira da
água, meia dúzia de para-sóis coloridos. Ancorados a pouca
distância, dois graciosos barcos esportivos, uma lancha
grande, algumas bicicletas aquáticas ao redor... Para
qualquer curioso que acaso chegasse àquele ponto da costa
arenosa, a coisa só poderia parecer um acampamento
organizado por desportistas visando a umas férias tranquilas
e confortáveis em plena praia.
Havia uma cerca feita de troncos não desbastados
fechando a entrada ao recinto dos bangalôs. E junto ao
portão existente na mesma, estava um homem à paisana.
Usava um short, uma camisa de cores vivas e tinha os pés
descalços. Também para o observador comum, aquele era
um homem que tomava sol sentado num tronco, recortando
pacientemente, a canivete, uma figura num pedaço de
madeira. Mas um observador atento e sagaz teria notado o
relevo de um revólver sob sua axila esquerda, apenas
perceptível na camisa de colorido brilhante.
O homem pôs-se de pé quando o carro se deteve diante
do portão de entrada e aproximou-se com Indolência, como
se nada na vida tivesse a menor importância. Parou diante do
carro, olhando para o chofer. Parecia disposto a continuar
esculpindo a figura em seu pedaço de madeira.
Mas o general Pearson saltou e acercou-se dele.
O homem olhou-o atentamente.
Pearson sacou um cartão do bolso e, após verificar a
autenticidade da fotografia que continha, o outro fez com a
cabeça um gesto de assentimento.
— Sua visita é esperada, general. Bem-vindo á base “Top
Secret”.
— Continue vigiando.
— Às ordens, general.
Este tornou ao carro e o chofer prosseguiu, transpondo o
portão e dirigindo-se diretamente ao bangalô marcado com o
número 1. Dele já estavam saindo vários homens, todos
exibindo o mais declarado aspecto esportivo e festivo.
“Shorts”, camisas de variadas cores, sandálias de palha, pés
descalços, óculos de sol, gorros brancos... Todos estavam
muito bronzeados e pareciam pictóricos de saúde. Inclusive
o mais idoso. Podia ter uns quarenta e cinco anos, ou talvez
estivesse mais perto dos cinquenta. Era um pouco calvo e
sua cabeça estava tão tisnada como o resto do corpo.
Foi o primeiro a chegar perto do carro. Justamente
quando o general apeava.
— Bem-vindo, general — saudou, sem assumir qualquer
atitude marcial. — Fez boa viagem desde Washington?
— Excelente, coronel Roberts. Obrigado. Parece que
todos estão passando otimamente aqui.
— Fazemos o possível. Na verdade, todos trabalhamos
muito, mas devemos aparentar a mais perfeita ociosidade
durante o dia inteiro. E isto cansa bastante.
— Acredito — concordou o general, sorrindo. — Tudo
vai bem?
— Até o momento. Embora todas estas precauções,
general, pareçam-me realmente um pouco... excessivas.
Harry T. Pearson franziu a testa. Era um homem alto,
espadaúdo, muito forte. Já tinha passado dos cinquenta, mas
todo o seu aspecto conservava certo ar juvenil cheio de
energia. Os olhos eram cinzentos, um tanto pequenos, e
moviam-se velozmente em todas as direções como se ele
quisesse estar informado de tudo o que acontecia ao seu
redor.
— É possível, coronel. Entretanto, esta é uma arma nova,
foi construída numa base ultrassecreta e assim prosseguirão
as coisas até que tudo esteja terminado.
— Claro que sim. Foi apenas uma observação de caráter
pessoal, que de modo algum significa cansaço ou
aborrecimento.
— E assim a entendi, coronel. Apresenta-me o seu
pessoal?
O coronel Roberts fez um aceno e todos se aproximaram.
Para um possível observador distante, aquilo era a
apresentação de um grupo de amigos a um recém-chegado
ao acampamento praieiro. O coronel Roberts apresentou
nada mais que uma dúzia de oficiais do Corpo de Fuzileiros
dos Estados Unidos, depois três civis que tinham colaborado
eficazmente na criação do novo engenho bélico.
— Senhores — concluiu — o general Harry Thornton
Pearson.
Claro que todos Já sabiam quem fosse o ilustre visitante,
o qual apertara a mão de cada um, á medida que as
apresentações se tinham sucedido.
— Bem, amigos: vejamos agora essa base e, se possível,
o torpedo. Estou ansioso...
Calou-se de súbito, porque compreendeu que não lhe
prestavam muita atenção. Todos os oficiais presentes, bem
como os três paisanos, olhavam para alguma coisa que nada
tinha a ver com o general, mas que estava às suas costas.
Pearson voltou-se e sorriu compreensivamente. Ele também
ficara impressionado quando lhe apresentaram aquela jovem.
Ela descera do carro o parecia indecisa. Era de estatura
mediana, tinha cabelos negros e uns admiráveis olhos azuis,
brilhantes de inteligência. Um vestido leve, com finas alças
cruzando-lhe os ombros, permitia antever a maravilhosa
forma de seu corpo. E seus lábios, rosados e cheios, exibiam
o mais adorável dos sorrisos.
— Oh, perdão... Mmm... Apresento-lhes miss Montfort.
Brigitte Montfort. Ah... Quanto ao chofer, claro está que é
meu ajudante de ordens, o major Jeff Sills.
Houve alguns movimentos de cabeça em direção ao
major, mas os olhos continuavam fixos naquela
deslumbrante beleza. Brigitte Montfort acentuou seu sorriso,
enquanto fazia um breve cumprimento, e pareceu que uma
brisa nova soprava pela praia.
— Mmm... Miss Montfort pertence a um Jornal de Nova
Iorque, o “Morning News”. É considerada uma das melhores
colunistas do país. Estou certo, miss Montfort, de que ouviu
o nome destes cavalheiros. Não creio que os recordes, mais é
possível que tenham ocasião de conhecer-se melhor.
Brigitte “Baby” Montfort, a espiã classe especial da CIA.
teria podido dizer a Harry T. Pearson que estava
completamente equivocado, que se lembrava muito bem dos
nomes e graduações de todos aqueles oficiais e que, graças à
sua memória privilegiada, alguns anos se passariam até que
esquecesse. Mas para que?
— Estimo que todos estejam passando tão bem como
parecem. E espero, com efeito, ter oportunidade de conhecê-
los melhor.
Trocou apertos de mão com todos eles, talvez o fazendo
mais calorosamente quando chegou o turno do capitão Aldo
Manning, sem dúvida o mais varonil e interessante do grupo.
Sua altura excedia um metro e oitenta e seus ombros eram
formidáveis, tinha meia dúzia de fios brancos nas têmporas e
podia-se sentir o calor de seu olhar. Pese os fios de cabelo
branco, seria difícil dar-lhe mais que trinta e cinco anos.
O coronel Jason Roberts, após apertar em primeiro lugar
a mão de Brigitte, estava agora olhando um pouco surpreso
para o general.
— Perdão, general... Disse o “Morning News”?
— Exato.
— Bem... Creio que é um órgão particular, sem qualquer
conexão com as Forças Armadas, nem com o Governo...
Pergunto-me o que faz miss Montfort aqui, general. Que eu
saiba, nenhum jornal foi convidado a assistir provas, ou
sequer a tomar conhecimento da nova arma.
— Correto. Não obstante, miss Montfort foi-me
apresentada em Washington, pouco antes de minha partida
para cá. Ao que parece, ela obterá as primeiras informações
sobre esta base, para seu jornal. Claro que tais informações
serão convenientemente limitadas. No momento, miss
Montfort se restringirá a ver, ouvir e calar. Quando receber a
autorização, publicará o que for adequado.
— Entendo que ela não pode ver o torpedo. Estou certo?
— Perfeitamente. Tudo, menos o torpedo.
— Bem. Pelo que posso concluir, miss Montfort tem
muito boas influências em Washington.
— Eu diria que conhece muitas pessoas importantes, com
efeito, coronel — disse Pearson, sorrindo. — Já sabe o que
ocorre com muitos jornalistas: conseguem ter amigos até
mesmo no Inferno. O caso é que miss Montfort está
autorizada a percorrer a base “Top Secret” e a tomar os
apontamentos que precise. O único lugar que lhe está vedado
é a sala do torpedo. Podemos entrar, coronel?
— Quando quiser.
O coronel Roberts afastou-se, deixando livre o acesso ao
bangalô número 1. Naquele momento, saíram do mar, todos
ao mesmo tempo e completamente equipados, doze homens-
rãs, que se sentaram na areia molhada para tirar os pés-de-
pato. Não se ouviu sequer uma voz, ou um suspiro. O
silêncio era completo, fazendo ressaltar o rumor das ondas.
— Os homens-rãs da base “Top Secret”. general —
explicou Roberts. — Seu treinamento é diário. E ao mesmo
tempo exploram esta parte da costa. Como pode observar,
todas as instruções são seguidas rigorosamente.
— Felicito-o por isso, coronel.
— Creio que não há em toda a Marinha homens melhores
que estes, general. Foram selecionados com um rigor
extremo. Aqui o capitão Manning é o comandante dos doze.
A Marinha concedeu-lhe o título de Homem-Rã Número
Um, há poucos meses.
O general Pearson desviou o olhar para Aldo Manning, o
oficial cuja magnífica aparência tanto tinha agradado
Brigitte.
— Não deveria estar com seu grupo, capitão?
— Sempre estou, general. Mas o coronel Roberts pensou
que devíamos estar todos presentes à sua chegada.
— De fato — corroborou Roberts. — O capitão Manning
jamais deixa de fazer o que lhe compete. A culpa é minha,
general.
— Não houve falta, portanto não há culpa. Queira
desculpar-me, capitão Manning.
— Não há de que, general. E se me permite, verei o que
têm a dizer os homens de minha equipe.
— Permitido. Ficarmos à sua espera aqui mesmo.
Aldo Manning encaminhou-se para a praia, seguido pelo
olhar admirativo de Brigitte. Na verdade, o comandante do
grupo de homens-rãs era um tipo simpático, viril, atraente.
Viu-o deter-se atrás dos mergulhadores e ouviu sua ordem
seca. Um a um, os integrantes do grupo foram erguendo a
mão direita, com o polegar para cima, pronunciando seu
nome. Manning emitiu outra ordem seca e retornou, detendo-
se diante de Jason Roberts.
— Sem novidade, coronel.
Este se voltou para Harry Pearson.
— Tudo bem, general. Trabalho de rotina. Quando
queira, podemos entrar.
Puseram-se todos a ingressar no bangalô número 1.
Brigitte olhava de relance para Manning, cuja atenção
parecia exclusivamente fixada em seus homens, que
chegavam da praia e encaminhavam-se para os outros
bangalôs, olhando-a com ardente interesse ao passar.
Entretanto, dois deles não lhe prestaram a mesma atenção.
Ela teria jurado que, por um segundo, eles olharam para
Manning e encolheram ligeiramente os ombros, esboçando o
clássico gesto de quem não sabe que outra coisa fazer para
manifestar seu desconhecimento de algo. Manning voltou-se
imediatamente para a entrada do bangalô, o rosto
inexpressivo, e Brigitte apressou-se a simular que toda a sua
atenção se concentrava na visita à base secretíssima da
Marinha, por isso mesmo denominada “Top Secret”:
ultrassecreta.
Já dentro do bangalô, o coronel Roberts estava dando
explicações ao general Pearson.
— Como pode ver, de fora tudo é normal c corriqueiro.
Inclusive para quem olhasse através de uma janela ou porta,
isto não seria mais que um simples bangalô. E o fato de estar
um sujeito refestelado numa cadeira extensível dá mais...
ambiente.
Mas o homem que estivera largado na cadeira extensível
tinha-se posto de pé e permanecia quase em posição de
sentido. Perto da cadeira havia um refrigerador portátil, que
Roberts indicou, sorrindo.
— Naturalmente, ai dentro não há uísque, general. Seria
demasiado. Apenas alguns refrigerantes e uma
metralhadora... Sem gelo, está claro. A vigilância da base é
dissimulada, mas muito efetiva.
— Estupendo, coronel. Podemos prosseguir.
Jason Roberts fez um gesto e o homem que se levantara
da cadeira extensível afastou-a. Deu quatro pancadas
seguidas no piso de tábuas, depois duas espaçadas.
Imediatamente, um retângulo de madeira elevou-se duas
polegadas. O vigia do bangalô meteu os dedos na fresta o
acabou de erguer o alçapão. Roberts indicou a abertura.
— Tenha a bondade, general.
Viam-se uns degraus de madeira. O general Pearson
desceu por eles, seguido pelo coronel. Depois, desceu
Brigitte, que obteve uma gentil prioridade sobre os oficiais
da base “Top Secret”.
Mal se iniciava a descida, a coisa mudava. Paredes de
chapa de aço, assentos metálicos, tela de televisão, radar,
sistema de sonar, rádio, armeiro, aparelhos de solda elétrica,
equipamentos de homem-rã, regulador de temperatura e
instalação de ar condicionado. Uma dúzia de homens,
distribuídos pelos diversos aparelhos. Um fuzileiro altíssimo,
um “marine”, estava ao pé da escada de madeira, tendo nas
mãos uma metralhadora, que cruzava diante do peito. Havia
mais dois gigantescos “marines”, com uniforme leve de
campanha c capacete branco. Cada um deles tinha também
nas mãos uma metralhadora. Um parecia bloquear com sua
colossal figura a entrada a um recinto cuja porta era também
de grossa chapa de aço. O outro, de um canto, em posição de
descansar, podia abranger de um golpe de vista tudo quando
sucedia naquele recinto metálico, de forma quadrada, com
aproximadamente vinte metros de lado.
— O Número 3 — Roberts indicou o da escada — vigia a
entrada: autoriza a entrar e a sair. O Número 2 — indicou o
do canto, ao fundo — vigia todo o recinto. O Número 3
guarda a porta da sala do torpedo. Os outros atendem os
diversos sistemas de segurança e alarma. Nada pode escapar-
lhes... Já regressaram os homens-rãs, Joe?
— Já, coronel. Os doze. Há — olhou um bloco de
anotações — dois minutos e meio, coronel.
Roberts sorriu, satisfeito.
— Temos radar, sonar, rádio, televisão em circuito
fechado dominando com teleobjetivas a costa e o mar, num
raio mínimo de mil milhas e de duas milhas no máximo.
Durante o dia, este é o efetivo de nossos serviços de controle
e vigilância. À noite, permanecem aqui três técnicos e,
sempre, três vigias especiais.
— Formidável, coronel. Podemos agora ver o torpedo?
— Sem dúvida. Quanto a suas características, suponho
que já foi devidamente informado e não será necessário,
portanto, que lhe dê explicações. Quero recordar-lhe.
general, que, de todos os presentes, apenas o senhor e eu
conhecemos a utilidade dessa nova arma. Nem sequer o
capitão Manning, que será encarregado de experimentá-la,
sabe exatamente em que consiste.
— E atreve-se a tripular o torpedo? — estranhou Pearson.
— O capitão Manning atreve-se a qualquer coisa,
general. Como se diz nas novelas, a palavra “medo” não
existe em seu vocabulário. Aliás, já lhe disse que ele é o
Homem-Rã Número Um. E também um grande oficial... Por
que há de ter medo? Não é certo, Manning?
— Certo, coronel — disse firmemente Aldo Manning.
— É um homem responsável, além disso. O melhor para
este assunto. Bem, quando quiser iremos ver o torpedo,
general. Os demais, por favor, deverão aguardar-nos aqui.
Aldo, você pode vir.
Aldo Manning, o coronel e o general aproximaram-se da
porta de aço, que foi aberta pelo gigantesco “marine”.
Manning tinha as mãos cruzadas diante do ventre, umas
mãos grandes, fortes, muito tostadas pelo sol. Na esquerda
usava um anel com uma grande pedra verde-escuro, que
estava a menos de um metro do sistema de comando
manipulado pelo “marine” para abrir a porta.
Segundos depois, os três desapareceram e a porta foi
fechada.
— Assim são as coisas — disse alguém perto de Brigitte
—: todos nós o fizemos, porém só uns poucos poderão vê-lo.
— Refere-se ao torpedo? — perguntou “Baby”.
— Exato. Foi trabalho de muitos... Um trabalho longo,
paciente... Controle a distância, assento duplo no interior,
sistemas de radar e rádio... Todos nós colaboramos. E agora,
só três pessoas podem vê-lo. E sabe por que, miss Montfort?
— Não... Posso fazer uma ideia, mas não sei.
— Porque está pronto. Quando todos nós demos o nosso
visto definitivo, o torpedo foi terminado por outras mãos,
que puseram o ponto final, algo que faltava. A partir de
então, ninguém pode vê-lo.
— Pensei que os senhores mesmos o tivessem terminado,
tenente Williams.
— Oh, é muito amável de sua parte recordar o meu nome
— sorriu Chester Williams. — Mas não. Nós não o
terminamos. Faltava a cabeça do torpedo. .
— A carga explosiva?
— Quem sabe? Eu disse a “cabeça”. Imagino... Bem,
espero não estar falando demais. Agradeceria-lhe que minhas
palavras não fossem publicadas no...
— Todos os meus artigos sobre esta base e o torpedo
terão que esperar, tenente Williams. E passarão por uma
severa censura do Departamento de Guerra em Washington.
— Isso é outra coisa — suspirou Williams. — A verdade
é que estou preocupado. Espero que não tenhamos
construído outra bomba atômica. Quero dizer, algo... algo
terrível. Não sei se me entende...
— Entendo. Sente remorsos, tenente?
— Não, não... Bem, fomos muitos os que trabalharam
nisto. Aqui estão todos eles. E em qualquer caso, a culpa do
que pudesse ocorrer não seria unicamente minha.
— O que é um consolo — disse Brigitte, com um sorriso
esmaecido.
— Não muito grande, admito. Nenhum de nós pretende
ocultar sua responsabilidade provável pela construção desse
artefato, se é isso o que pensa. Cada um fez alguma coisa, e
todos sabemos que o torpedo é fruto do trabalho de uma
equipe. Todos culpados, ou todos inocentes. Mas isso não
significa nada na hora da verdade.
— Que verdade?
— O resultado. O emprego desse torpedo.
— Como é ele exatamente?
— Bom... Suponho que lhe permitirão vê-lo, em seu
devido tempo.
— Fui indiscreta? — indagou ela.
— De modo algum. Procedeu como jornalista. Parece que
o general Pearson será o encarregado do dar-lhe as
informações, de modo que nós não teremos muito que lhe
dizer.
— Então, esperarei. Pode-se fumar aqui?
— Claro. Não há nenhum perigo.
Brigitte sacou um cigarro. Vários dos presentes tiraram
seus isqueiros do bolso do “short” e acenderam-nos. Ela
olhou ao seu redor, sorrindo.
— Parece que só há um meio de não lesar ninguém... Ou
de lesar a todos. Usarei meu próprio isqueiro. De qualquer
modo, muito obrigada, amigos: são bastante amáveis.
Sacou seu isqueiro e acionou-o várias vezes antes que
acendesse. Ao mesmo tempo, girava sobre si mesma, como
se olhasse com curiosidade o recinto revestido de chapas de
aço.
<><><>
O general Pearson, o coronel Roberts e o capitão
Manning estiveram na sala do torpedo durante vinte minutos.
Quando saíram, o rosto do general expressava uma grande
satisfação.
— Senhores: o alvo chegará aqui depois de amanhã, ao
amanhecer, a uma hora que saberão em tempo útil. Parece
que tudo está em perfeitas condições para funcionar, mas...
saberemos com certeza depois de amanhã. Podem retornar
todos ao seu trabalho.
O “marine” estava acionando os comandos que fechavam
a porta de aço. E Brigitte Montfort não perdia de vista as
mãos de Aldo Manning, novamente colocadas diante do
ventre, uma sobre a outra, destacando-se na pele tisnada o
bonito anel de pedra verde. Manning separou as mãos
quando a porta se fechou, e voltou-se. Já então, a espiã
“Baby” mostrava seu encantador sorriso habitual.
— Diga-me, general Pearson: que é esse alvo? —
perguntou.
— Um velho navio, miss Montfort. Está navegando para
estas águas. Cinco minutos antes de chegar ao ponto
determinado, será abandonado por sua tripulação. Seguirá
adiante, com as máquinas funcionando. E ao atingir o ponto
“Torpedo”, será... torpedeado.
— Pelo novo torpedo?
— Justamente.
— E quais os resultados que se esperam?
Harry T. Pearson franziu a testa. Súbito, pôs-se a rir.
— Convido-a a tomar um refresco, miss Montfort. Isso
conterá um pouco sua impaciência. Penso que temos uma
espécie de... salão de recreio nesta base. Uma espécie de bar
e clube.
— Aceitarei seu convite em outra ocasião. Agora,
gostaria de meter-me em baixo de um chuveiro e trocar de
roupa. Talvez tome um banho de mar... É proibido?
— De nenhum modo. O major Sills vai levá-la ao seu
bangalô. Os maiores são para os soldados, doze em cada um.
Os médios, para os técnicos. E os pequenos, para os oficiais.
Ocupará um destes. E até a hora do jantar, pode circular
livremente por este... acampamento de veranistas. Suponho
que seja justificada a confiança que depositam em sua pessoa
certos figurões de Washington.
— Naturalmente, general — disse ela, rindo. — Foi um
prazer conhecê-los, senhores.
Novamente subiu em terceiro lugar, atrás do coronel
Roberts, que ia atrás do general Pearson. Em cima, estava o
mesmo homem, que lhe abriu o alçapão de madeira forrado
em sua parte inferior com chapa de aço.
Quando saíram do bangalô, o sol cegou-os
momentaneamente. Viam-se apenas algumas palmeiras.
vegetação rasteira, o mar, o céu azul o umas quantas
gaivotas. O silêncio era absoluto, perturbado cinicamente
pelo rumor das ondas.
E meio àquele bucólico ambiente, uma base de aço
chamada “Top Secret”, que continha uma nova arma dos
Estados Unidos da América. Uma simples arma, à qual
denominavam torpedo, simplesmente.
— Ou não era uma simples arma?
Não devia ser. Já que fora construída naquela base recém-
criada e denominada “Top Secret”.
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CAPÍTULO SEGUNDO
Sensação no bangaló-clube — Mergulho a dois
Um completo sistema de alarma e proteção — A pergunta mais indiscreta...
Ao que parecia, cada bangalô era compartilhado por dois
oficiais ou técnicos. Significava isto que Brigitte havia
privado dois desses homens de seu alojamento, e que eles se
deveriam agregar a outro bangalô. Mas ninguém fizera o
menor comentário. Ter ali uma beldade daquela categoria
compensava amplamente qualquer sacrifício. O moral de
homens isolados sobe, ou pelo menos se mantém, quando
uma mulher formosa lhes sorri.
Só que, naquele momento, “Baby” Montfort não sorria.
Já tinha colocado suas roupas num dos armários esvaziados a
toda pressa pelos oficiais que antes ocupavam o bangalô. E
agora, em biquíni, estava contemplando os aparelhos que
havia sob o fundo falso da maleta. Todo um equipamento,
fora as pequenas coisas que sempre levava na maletinha
vermelha com flores azuis.
Durante dois minutos, manteve-se pensativa. Talvez
estivesse sendo demasiado desconfiada, mas afinal viera à
“Top Secret” exatamente para isso: para desconfiar. E havia
qualquer coisa que a mantinha inquieta. Aquela inquietude
indefinível, que tantas vezes havia dado resultado.
Por fim, tomou uma decisão. Apanhou sua bolsa de
palha, colocou dentro dela o isqueiro-câmara que já continha
algumas microfotos, cigarros, os óculos de sol, o estojo de
pó de arroz-microfone...
Segundos depois, saía do bangalô diretamente para a
praia. Pareceu ter uma ideia súbita, e dirigiu-se para o
bangalô-clube. Quando ali surgiu, em biquíni vermelho, as
conversas dos “marines” e homens-rãs que bebiam
refrigerantes e jogavam xadrez ou damas cessou
bruscamente. E dois segundos depois, quando todos se
convenceram de que a aparição era verdadeira, ouviu-se um
assobio unânime. Três ou quatro rapazes, altos e fortes,
tostados pelo sol, precipitaram-se para a porta, acotovelando-
se.
— Eu vi primeiro!
— Sai da frente, gorila!
— Fora, meninos, que aqui chega um homem!
— Posso oferecer-lhe uma bebida?
Brigitte ergueu a mão, sorrindo.
— São todos muito amáveis... Quem me indica o bangalô
do capitão Manning?
Seguiu-se um protesto geral, mas os “marines” logo se
resignaram. Quase todos queriam acompanhá-la. Brigitte
indicou um dos dois que, segundo lhe parecera, tinham leito
um sinal a Manning quando regressavam da praia.
— Você — escolheu.
— Mas é o mais feio de todos — exclamou outro
“marine”.
Houve risos e troças, mas o que fora indicado por Brigitte
adiantou-se, com um largo sorriso.
— Afastem-se, sardinhas viúvas! O escolhido fui eu!
Outra assoada. Brigitte saiu do bangalô-clube, seguida
pelo mergulhador. Os demais vieram ao pórtico e, enquanto
ela se afastava, tomaram a assobiar. Não era para menos.
Levariam muitos anos para tornar a ver semelhante
escultura, tão sensacionalmente biquinizada.
—. Conhece o capitão Manning? — perguntou o homem-
rã.
— Fomos apresentados... Queria pedir-lhe um favor.
— A mim?
— A ele — explicou ela, rindo. — Você como se chama.
— Cabo Ray Smith, dos Homens-Rãs da Marinha.
— Prazer. Eu sou Brigitte Montfort, jornalista do
“Morning News”. Tenho autorização para...
— Estamos avisados. Aquele é o bangalô do capitão
Manning... Que favor pensa pedir-lhe? Pergunto isso porque
o capitão é um homem um tanto... áspero. Se eu lhe pudesse
servir...
— Primeiro pedirei a ele, que esta manhã não esteve
trabalhando. Muito obrigada, Ray.
— Por nada — retrucou o “rã”. — Qualquer coisa, é só
pedir.
Brigitte sorriu e continuou para o bangalô. Quando
chegou à porta, sabia muito bem o que deveria dizer.
Não foi Aldo Manning quem abriu, mas precisamente o
outro “rã” que, junto com Ray Smith, tinha feito o sinal ao
capitão.
— Miss Montfort, não? — perguntou, risonho.
— Exato.
— Tenente Spencer Douglas, dos Homens-Rãs da
Marinha... Encantado por conhecê-la.
— Prazer, tenente. Eu... queria ver o capitão Manning, e
disse-me o cabo Smith que este é seu bangalô.
— Realmente. Aldo está trocando de roupa... Entre, por
favor. Ele virá em seguida... Aldo, temos uma visita
sensacional!
Brigitte entrou sorridente no bangalô. Não era muito
grande, mas podia abrigar confortavelmente dois homens.
Havia dois beliches, poltronas, uma mesinha, uma velha
estante com duas escassas dezenas de livros, um armário
grande, caniços de pesca... Ao fundo, uma cortina. Uma
cortina escura, que ela não tinha visto em seu bangalô,
exatamente igual àquele.
Aldo Manning surgiu de detrás da cortina, correndo-a
completamente até a parede. E naquele canto ficou visível
uma velha escrivaninha, com papéis, uma pasta, mais livros.
Ele trajava um calção de banho. Tinha a testa franzida, mas
não demorou a mostrar uma expressão cortês, embora um
tanto severa.
— Miss Montfort... Posso ser-lhe útil em alguma coisa?
— Bem... Receio ter vindo incomodá-lo, capitão
Manning. E não desejaria, de modo algum... Talvez encontre
outra pessoa que...
— Diga-me o que deseja — atalhou ele, talvez
compreendendo que não se tinha mostrado muito amável.
— Estive pensando... Suponho que o torpedo tenha saída
direta para o mar, não é assim?
— Naturalmente.
— E talvez me fosse possível vê-la... Imagino que se
tenha perfurado um túnel, revestido de chapa de aço...
Gostaria de ver a saída e a proteção de que dispõe. Em suma,
desejaria poder descrever bem este lugar e suas instalações.
Quer dizer: tudo o que me seja permitido pelo Departamento
de Guerra.
— Eu sei. Entendi que foi autorizada a fazer qualquer
coisa, menos entrar na sala do torpedo. Se sabe mergulhar,
não será difícil ver a saída do torpedo.
Brigitte estava olhando as mãos de Manning. Ele não
usava o anel, que tampouco era visível sobre aquela
escrivaninha.
— O caso, capitão Manning, é que eu tinha pensado em
pedir-lhe que me acompanhasse. Mas compreendo que...
A troca de olhares entre o tenente Spencer Douglas e o
capitão Aldo Manning foi brevíssima, porém muito viva,
quase alegre.
— Receia incomodar-me? — tornou a sorrir
atraentemente Manning.
— Sim, na verdade...
— De modo algum. Estava justamente preparando-me
para ir à praia. Não pude acompanhar a minha equipe hoje,
pelo que deverei fazê-lo sozinho: não posso passar um dia
sem treinar.
— E não o incomodo, com certeza?
— Dispunha-me a mergulhar durante uma hora, pelo
menos. Terei muito gosto em contar com sua companhia. E
se assim o deseja, lhe mostrarei a saída do torpedo.
Evidentemente, não poderá tomar notas nem fotografar sua
localização.
— Claro. Desejo tão somente ver a saída, para descrevê-
la, se Washington o permitir.
— Compreendo. Sabe mergulhar com equipamento?
— Considero-me quase uma especialista — declarou ela,
sorrindo encantadoramente.
— Ótimo. Spencer, vá buscar um equipamento adequado
para miss Montfort. Enquanto isso, ela me ajudará a colocar
o meu. Veremos se na verdade é uma especialista.
— É um momento — disse Douglas, sorrindo.
<><><>
— Bem. Já estamos os dois preparados. Parece mesmo,
miss Montfort, que entende um bocado destas coisas.
— Mas não tanto como o Homem-Rã Número Um da
Marinha, capitão Manning.
— Há vinte e cinco anos que estou treinando — disse
Manning. — Portanto, é lógico que saiba mais que alguém
que nem sequer deve ter essa idade.
— Já a ultrapassei — afirmou Brigitte.
— Impossível! — exclamou Douglas. — Não tem mais
que vinte anos.
— Muito gentil, tenente — disse ela, rindo. — Mas
garanto-lhe que estou me aproximando rapidamente dos
trinta.
— Não brinque conosco!
— É verdade! — insistiu Brigitte. — Este verão
completarei os dezoito.
Spencer Douglas pôs-se a rir e Manning conseguiu um
aceitável sorriso.
— Quando quiser, miss Montfort.
“Baby” dirigiu-se para a porta do bangalô, com a
sensação de que havia uma nova troca de olhares entre os
dois oficiais de Marinha.
Douglas acompanhou-os até a praia e ali permaneceu até
que os dois entraram na água e só então colocaram os pés-
de-pato, para evitar a areia. Depois, despediu-se acenando
com a mão e afastou-se, conforme pareceu a Brigitte, em
direção ao bangalô-clube. Antes de prender entre os dentes o
bocal do tubo de ar, Manning deu- lhe as últimas instruções,
de que Brigitte não necessitava para nada:
— Não se afaste de mim. Mas se por qualquer motivo
perder-me de vista, fique quieta, no lugar em que estiver, ou
volte para a praia. Não tente procurar-me, pois é o modo
mais seguro de não nos encontrarmos. Suponho que lhe será
útil a bússola-pulseira.
— Não creio que me seja necessária, ^capitão Manning.
Penso não me afastar de seu lado.
— Muito bem. Pronta?
— Quando quiser.
Morderam os bocais e submergiram. Cinco minutos mais
tarde, “Baby” Montfort compreendia que, sem contestação
possível, Aldo Manning ia mandar debaixo d’água, por
direito próprio. Ao que parecia, a Marinha tinha escolhido
muito cuidadosa e acertadamente seu Homem-Rã Número
Um.
Mas Aldo Manning acomodou seu rápido deslocamento
subaquático à velocidade que Brigitte podia desenvolver e,
assim, foram nadando um junto do outro durante algum
tempo, pois Manning, antes de levá-la à saída do torpedo,
percorreu o fundo pelos arredores, como investigando o
terreno. Areia, rochas e algas. Alguns peixes de bom
tamanho, que fugiam precipitadamente à aproximação
humana; e outros, diminutos, que pareciam permanecer
suspensos na água, imóveis e, súbito, moviam-se todos ao
mesmo tempo, em grandes bandos, afastando-se
bruscamente, como se fossem um só.
O fundo era dourado e verde, com uma bela luminosidade
devida aos raios do sol da tarde, que se filtravam através da
água com preciosos reflexos irisados.
Manning levou-a por fim à saída do torpedo. Brigitte
pensava se a amabilidade, a condescendência do
companheiro eram devidas às palavras do general Pearson,
quando afirmara que ela merecia confiança em Washington,
ou ao seu próprio desejo de se aproximar daquele ponto.
Estava perfeitamente dissimulada. Tanto, que Brigitte
levou alguns segundos para compreender os sinais de
Manning, tocando a muralha rochosa da costa, depois
descrevendo um círculo com o braço; um círculo cujo
diâmetro devia ser de uns sessenta centímetros. Parecia
simplesmente um trecho da muralha, mas, acompanhando o
dedo do homem-rã, pôde distinguir o bem dissimulado
rebordo. Brigitte moveu a mão, imitando uma porta que se
abre, e Manning assentiu com a cabeça; depois, repetiu ele
mesmo o gesto, com a esquerda, movendo velozmente a
direita para o lado do mar. Fácil de compreender: a comporta
se abria e o torpedo saía já lançado do interior da base “Top
Secret”.
Depois, Manning fez sinal de que o seguisse mar adentro,
e Brigitte concordou com a cabeça.
Nadaram uns duzentos e cinquenta ou trezentos metros. A
essa distância, via-se já a rede. Quer dizer, Brigitte a viu
porque Manning fez-lhe sinal para que parasse e quase a
tocou com um dedo. Era transparente, muito fina e parecia
sustentada por um fio mais grosso, de menor transparência.
Indicando este fio, Manning tornou a aproximar a mão da
rede, simulando tocá-la; depois, indicando a costa, moveu
rapidamente o dedo índice, imitando uma vibração: alarma.
Quer dizer que se alguma coisa tocasse a rede, produzia-se o
alarma na base.
Manning levou-a consigo, percorrendo toda a rede,
sempre atento a que ela não a tocasse por descuido, talvez
convencido de que aquela jovem, como qualquer outra, era
capaz de um movimento inábil.
A rede prolongava-se por um arco de quarto de milha, e
estava presa à costa pelas conexões do alarma. Não chegava
até a superfície, deixando um espaço de cerca de dois
metros. Evidentemente, quem não conhecesse sua
localização teria que ficar preso nela se nadasse sob a água.
E se nadasse a menos de dois metros de profundidade, seria
visto quando o vigia do radar comunicasse que alguma coisa
ou alguém se estava aproximando à distância da rede. Na
hipótese de que algum homem-rã desconhecido se atrevesse
a tentar chegar à saída do torpedo, sua presença seria
descoberta de qualquer modo. E em menos de dois minutos,
isto é, sem lhe dar tempo de descobrir a saída do torpedo, os
doze homens-rãs da base já estariam na água, procurando-o.
De um ou de outro modo, aproximar- se da saída do torpedo
era coisa que não deixaria de ser descoberta, a menos que se
viesse da costa. E para isto, seria necessário partir dos
próprios terrenos ocupados pela base “Top Secret”. Sem
contar que, de um modo ou de outro, o radar sempre
mostraria a presença de um corpo movendo-se na água, nas
proximidades do torpedo.
<><><>
Aldo Manning tirou os pés-de-pato e estendeu a mão a
Brigitte, ambos já na praia, com água pela cintura. Ela
também tirou os pés-de-pato aceitando a mão dele para
manter o equilíbrio.
Saíram da água e Brigitte deixou-se cair sentada na areia,
respirando com força. Manning passou para trás dela e
desprendeu de suas costas os tubos de ar, que deixou sobre a
areia. Sentou-se a seu lado e ela libertou-o também dos
tubos.
— Que achou do mergulho? — perguntou ele.
— Esplêndido! O que vi pareceu-me um sistema de
proteção e alarma, não? — insinuou “inocentemente”.
— Exato. Claro que, na Sala de Controle, sabem
perfeitamente que nós estivemos rondando a rede e a saída
do torpedo.
— Sabem que fomos nós, exatamente?
— Decerto — disse Manning, sorrindo. — Porque
Spencer avisou. De outro modo, e tendo em conta que todos
os homens de meu grupo estão em terra, o alarma teria sido
dado, e eles já estariam na água, à procura dos intrusos.
— Claro... O tenente Spencer Douglas deve estar agora
na Sala de Controle, não é assim?
— Ignoro se deu o aviso e retirou-se, ou se lá ficou para
bisbilhotar nossos movimentos por meio do radar... Devo
dizer que é uma excelente nadadora, miss Montfort.
— Assim pensava eu, até meia hora atrás, capitão.
— Até meia hora atrás... ?
— Quero dizer que depois de vê-lo embaixo d’água
receio ter adquirido um complexo de inferioridade —
explicou. Brigitte, rindo.
— Oh... Bem, já lhe disse que estou treinando desde os
dez anos. Além disso, segundo o Serviço Médico da
Marinha, tenho... uma capacidade fora do normal —
acrescentou sorrindo com certa timidez. — É o que dizem,
pelo menos.
Brigitte olhou o oceano durante alguns segundos, antes de
comentar.
— Tenho a impressão que o título de Homem-Rã Número
Um não o satisfaz, capitão.
— Acho que satisfaria a qualquer um.
— Claro, claro. É natural. Não me vai dizer como se
maneja o torpedo?
— Posso dizer-lhe que é um torpedo tripulado. Por um ou
dois homens. Melhor, um. Assim, o motor de regresso pode
desenvolver maior velocidade.
— O motor de regresso?
Aldo Manning olhou-a sorridente.
— Não lhe posso dizer mais, no momento. Sinto muito,
acredite.
— Não se preocupe, eu compreendo perfeitamente. Só
mais uma pergunta: o torpedo regressa... completo?
Aldo Manning continuava sorrindo, mas não respondeu.
Brigitte pôs-se a rir.
— De acordo, não responda essa pergunta. Mas então lhe
farei outra.
— Pode ir perguntando...
— E responderá o que quiser.
— O que puder, miss Montfort. Qual é a pergunta?
— Uma vez que vai tripular o torpedo, pergunto: depois
de utilizado este, como voltará à terra. Em todo ou em parte
do torpedo, ou nadando?
— Foi prevista a contingência de que o tripulante tenha
que se valer de seus próprios meios no mar. Daí, a escolha
do Homem-Rã Número Um para esta empresa. Tinha que ser
um homem com... digamos, com muitos recursos no mar.
— E com uma velocidade e uma capacidade física
realmente extraordinárias. Não lhe farei mais perguntas no
momento, capitão Manning. Foi extremamente gentil
comigo. E eu... gostaria de perguntar-lhe ainda uma coisa. É
uma pergunta de caráter pessoal.
As fortes sobrancelhas de Aldo Manning contraíram-se.
— Espero poder respondê-la — murmurou.
Brigitte olhou-o ternamente.
— É casado?
— Não.
Ele tinha respondido talvez um pouco hesitante,
secamente também. Pôs-se de pé, recolhendo os pés-de-pato
e os tubos de ar.
— Já vai? — perguntou Brigitte.
— Posso acompanhá-la até seu bangalô, se desejar.
— Creio que apanharei um pouco de sol, antes que ele
desapareça. Dizem que a esta hora é especialmente benéfico.
— De fato. Até logo, miss Montfort.
<><><>
CAPITULO TERCEIRO
Uma espiã espiona — O torpedo silencioso
Variações sobre o tema roubo — E agora?
Desculpara-se com o general e o coronel: não poderia
jantar com eles porque se sentia extraordinariamente
cansada. Informou que descansaria durante duas horas,
depois tornaria a encontrá-los para conversar sobre o torpedo
e fazer umas quantas perguntas.
Claro está que “Baby” Montfort tinha mentido. Não se
sentia cansada em absoluto. Mas tinha qualquer coisa que
fazer e estava disposta a aproveitar a menor oportunidade.
Por isso, estivera vigiando com um pequeno binóculo o
bangalô compartilhado pelo tenente Spencer Douglas e o
capitão Aldo Manning. Mal anoitecera, viu-os sair juntos e
esteve observando-os até compreender que, com efeito, eles
se dirigiam ao refeitório dos oficiais. Para qualquer
observador, aquela colônia de férias contava com dois
refeitórios, mas isso não pareceria estranho, tendo-se em
conta que ali havia uns cinquenta homens.
Depois de ver os dois oficiais entrarem no refeitório,
“Baby” Montfort ficou ainda alguns minutos olhando aquela
porta. Depois, deixou o binóculo na maleta e apanhou a
bolsa praieira de palha, que já tinha preparado com o
equipamento que pensava levar em sua visita clandestina.
Saiu do bangalô, deslizando pela escuridão, e
encaminhou-se para o de Manning e Douglas. Era já noite
fechada e ambos os refeitórios estavam esplendentes de
luzes, ressoantes de vozes e risos. Chegou ao pequeno
pórtico, sacou a gazua, manobrou na fechadura e a porta foi
aberta em menos de meio minuto. Entrou, encostou a porta e
ficou imóvel no escuro. Ouviu o tique-taque de um
despertador; naturalmente ali não havia toque de alvorada, e
cada um dos componentes da equipe “Top Secret” devia
valer-se de meios civis para sua vida na base.
Acendeu a pequena lanterna e dirigiu-se diretamente para
o fundo do bangalô. O resto não interessava: tinha certeza de
que tudo estaria em ordem. Mas esperava realmente
encontrar qualquer coisa que não estivesse em ordem no
bangalô do melhor homem da base, do que ia arriscar a vida
experimentando uma nova arma?
Deteve-se diante da escrivaninha, e o fino jato de luz
percorreu-a lentamente. Em cima só havia coisas normais,
comuns, as mesmas que tinha visto quando fora buscar
Manning.
Quis abrir a gaveta central, mas estava fechada.
Experimentou uma das laterais e tampouco pôde abri-la. A
escrivaninha era do tipo que, uma vez fechada a gaveta
central, todas as outras ficam bloqueadas.
Não importava: ia preparada para semelhantes
dificuldades. Uma espiã capaz de abrir centenas de modelos
de cofres fortes não pode encontrar obstáculos numa simples
gaveta de uma velha escrivaninha de madeira.
E assim foi. Com a fina gazua plana abriu a gaveta
central. Logo verificou que as outras ficavam destrancadas.
Na gaveta central não havia nada de interessante: cigarros,
blocos em branco, duas esferográficas, fósforos... Tampouco
havia nada nas outras gavetas que pudesse merecer-lhe
atenção.
Mas mereceu-lhe atenção o fato de que, apesar de
removido o bloqueio de todas as gavetas, a última da direita
não pudesse ser aberta. Isso queria dizer que o mecanismo de
bloqueio tinha sido desarranjado. Ou estava desarranjado,
simplesmente. Estaria vazia aquela gaveta, ou continha
qualquer coisa que devia permanecer oculta?
Uma espiã é sempre uma espiã. E o primeiro requisito
para o perfeito exercício da espionagem é desconfiar de tudo.
Brigitte retirou a gaveta de cima da que não se abria e,
pelo vão, levantou o mecanismo de bloqueio, que
efetivamente estava desarranjado. Abriu a gaveta. A primeira
coisa que viu foi uma fotografia, depois outra, ambas de
tamanho postal. A luz da lanterna pousou sobre a primeira.
Surpreendente.
Era uma mulher bonita, loura, de grandes olhos risonhos,
com uma menina de quatro ou cinco anos nos braços. Riam
as duas, como se tudo fosse uma brincadeira. A menina tinha
muitas sardas e seus olhos pareciam uma reprodução dos de
Aldo Manning. Faltava-lhe um dente e sua expressão não
podia ser mais deliciosamente infantil. Havia uma
dedicatória, com letra miúda, mas clara, elegante: “Para
Aldo Manning, com nosso carinho. Eve e Eveline”.
A segunda foto mostrava somente o rosto da menina
sardenta, talvez dois anos depois. Já não lhe faltava o dente.
Usava umas graciosas trancinhas e uniforme de colegial. No
fundo, via-se o edifício do colégio. A dedicatória dizia:
“Para o papai, de quem gosto muito, muito, muito...
Eveline”.
Com a surpresa estampada no rosto, ia Brigitte deixar as
duas fotografias quando viu o anel. E o projetor. E a garrafa
de ácido. E o diminuto microfilme, pendente de um fio que
ia de um lado a outro da gaveta, no fundo. Estava secando.
Apanhou o anel, examinou-o e por fim colocou-o no
dedo. Depois cruzou as mãos... Tomou a tirar o anel, olhou a
parte interna e viu a mola, pequeníssima. Aproximou do
ouvido o anel é comprimiu a mola,..
Clic.
Um clic levíssimo, quase imperceptível mesmo com o
anel rente à orelha. Tornou a examiná-lo atentamente. Por
fim, com a pequena gazua plana, apertou um lado da pedra,
no interstício entre esta e o ouro. A pedra quase caiu no
chão. Reteve-a na palma e olhou, sem demasiada surpresa, a
minúscula microcâmara montada dentro do anel, apenas do
tamanho de uma ervilha. A pedra tinha uma perfuração à
qual devia acoplar-se a objetiva da microcâmara.
Montou tudo novamente. Após verificar que já estava
seco, apanhou o microfilme e, retirando o projetor que havia
na gaveta, colocou em sua ranhura apenas visível a
pequenina película. Depois, apertou o botão vermelho, em
seguida o azul. Um jato de luz brotou do projetor. Brigitte
dirigiu-o para a superfície da mesa. E embora a improvisada
tela fosse realmente imperfeita, pôde ver as fotografias. Uma
delas era do mecanismo de abertura da sala do torpedo. As
outras mostravam coisas muito mais interessantes: a sala do
torpedo, de três ângulos diversos. Não era muito grande.
Depois, o próprio torpedo, fotografado em três seções. A
nova arma estava sobre sua plataforma de lançamento, que
não era um tubo fechado e com mecanismo de expulsão, mas
uma plataforma pura e simples. Quanto ao torpedo, exceto
pelo tamanho, de uns três metros e meio aproximadamente,
podia parecer qualquer torpedo comum. Via-se depois a
porta de aço, redonda, para a qual o torpedo estava apontado.
Era uma sólida comporta que se abria mediante comandos
combinados. Entendia-se que do outro lado estava o túnel
por onde o torpedo sairia ao mar.
No total, entre as dos mecanismos de entrada para a sala
do torpedo, o interior desta e o próprio torpedo, havia
dezenove fotografias.
<><><>
Pelas nove horas, Aldo Manning e Spencer Douglas
retornaram ao bangalô, sempre juntos.
E novamente em sua janela, Brigitte Montfort os viu com
seu pequeno binóculo. Apenas entraram no bangalô, ela
moveu o dial de um pequeno aparelho que tinha a seu lado.
E ato contínuo foi estabelecida a conexão entre este aparelho
e o microfone que ela colocara no bangalô dos dois oficiais.
<><><>
— Feche a porta — disse Manning. .
Spencer Douglas obedeceu. Dirigiu-se a uma das
poltronas e nela deixou-se cair, com a testa franzida, olhando
para Manning, que permanecia imóvel no meio da pequena
sala, com ar não menos sombrio que seu companheiro.
— Não vamos ver essas microfotos? — perguntou
Douglas, afinal.
— De pouco servirão — disse Manning.
— Como pode saber, se ainda não as viu?
— Está bem.
Manning foi à escrivaninha, abriu-a, removeu a trava que
prendia a gaveta inferior e retirou a tira do microfilme, bem
como o pequeno projetor. Douglas estava colocando um
lençol na parede, sempre sisudo, um cigarro pendente do
canto da boca.
— Tudo isto é uma loucura! — murmurou Manning.
— E é você quem diz, Aldo... Justamente quem mais
devia querer levar as coisas avante a qualquer custo. Bem...
Está pronto. Esperamos Ernie e Ray?
— É melhor. Quero que todos vejamos bem essas
microfotos, Spencer. E você tem razão. Preciso roubar o
torpedo, seja como for. Tenho que tirá-lo daqui por meus
próprios meios!
— Calma. Ainda não recebemos as instruções finais. Eles
dirão quando devemos tirá-lo, e para onde temos que levá-lo.
Se conseguirmos isso, obterão uma bonita arma... por um
preço muito módico.
Aldo Manning sentou-se e acendeu um cigarro com
gestos visivelmente nervosos. Durante alguns minutos,
estiveram silenciosos os dois, até que ouviram rumor do lado
de fora, no pórtico. Ergueram vivamente a cabeça, ao mesmo
tempo. Depois, se entreolharam.
— Vá ver se são eles.
Douglas dirigiu-se à porta, chegando diante dela
justamente quando soavam batidas convencionadas na
madeira. Abriu, olhou os visitantes e admitiu-os em silêncio.
O cabo Ray Smith e o soldado raso Ernie Parker entraram
no bangalô, um pouco tensos, ao que parecia. Olharam
rapidamente para Manning. Smith murmurou:
— Boa noite, capitão.
— Olá, Ray. Feche a porta... Como está, Ernie?
— Preocupado, capitão.
— Bem, já lhes disse que se têm receio... Quero dizer que
se não desejam participar disto...
— Nós estamos com o senhor, como sabe.
— Sim... Eu sei. Mas não os posso obrigar. Não se trata
de uma ordem, quero que isto fique bem claro.
— Sabemos muito bem o que estamos fazendo, capitão:
temos que roubar esse torpedo e entregá-lo a uns
desconhecidos, que... que o desejam. Pode contar comigo.
Aldo Manning olhou para o soldado raso.
— Ernie?
— Estou com o senhor, capitão. Sempre.
— Bem. Vamos agora examinar as fotos que consegui...
Não creio que nos sirvam para nada. Sentem-se no chão.
Os dois “marines” sentaram-se e Manning começou a
projetar o microfilme sobre o lençol colocado pelo tenente
Douglas.
— Aqui temos os comandos. Pura rotina fotográfica,
porque eu poderia acioná-los. Conheço seu mecanismo,
naturalmente, já que vou ser o “homem-torpedo”. Mas,
convém examinar atentamente esses mecanismos, pois é
possível que haja algum sinal de alarma. Creio que assim
deve ser, mas não vejo nada... Vocês veem alguma coisa?
Todos moveram negativamente a cabeça. E Douglas
expressou verbalmente sua negativa.
— Não... Nada, Aldo.
— Eu tampouco. Portanto, aí temos o primeiro risco.
Agora, vejamos as fotos do interior da sala do torpedo...
Aqui está... Fotografei-a de diversos ângulos. Vejam bem:
tudo chapa de aço, completamente lisa. Não se veem
conexões, nem relevos, nem comandos de qualquer classe.
Mas o alarma está em algum lugar. Um alarma que só deve
ser conhecido pelos encarregados do controle.
— Você não ouviu nenhum comentário a respeito? —
perguntou o tenente Spencer.
— Não. Bem sabe como foi levado a termo este projeto,
Spencer: a mão direita não sabe o que está fazendo a
esquerda. E não por... desconfiança, suponho, mas de acordo
com os novos sistemas de produção bélica.
— O que não sei — grunhiu o “marine” Ernie Parker — é
se esse torpedo pode ter tanta importância.
— Tanta importância? A que se refere, Ernie?
— Não sei... Quero dizer se ele vai ser tão terrível como
uma bomba atômica.
— Claro que não!
— Nesse caso, para que tanta despesa e tanto mistério? Já
temos torpedos muito bons na Marinha, capitão.
— Este é especial.
— Em que sentido?— perguntou Douglas.
— É silencioso.
— Como... ?
— Silencioso. Sua cabeça se desprende e segue em
frente, enquanto o corpo do torpedo, manobrado pelo
tripulante, gira, transformado num pequeno submarino, e
regressa ao ponto de partida. Na hipótese de que isto não
possa ocorrer, o submarino em que se transformou o corpo
do torpedo tem autonomia para navegar cem milhas, a mais
de quarenta por hora. Esse é o mistério. Quanto à carga
silenciosa, é simples: consta de um novo metal duríssimo
que, lançado a uma tremenda velocidade, girando, perfura o
casco de qualquer embarcação. A velocidade e a dureza são
tais, que a coisa sugere um prego entrando na manteiga: sem
vibrações, sem atrito perceptível, sem explosão de qualquer
espécie. Mas é praticado um rombo com mais de cinquenta
centímetros de diâmetro, que não pode ser vedado e pelo
qual a água se precipita. Em consequência, o barco afunda
silenciosamente, sem parecer que foi objeto de um ataque...
Uma simples avaria que nem sequer se tem tempo de
localizar — e pronto! O barco vai a pique, e ninguém tomou
conhecimento de nada.
— Diabo! — exclamou Ray Smith.
— Puxa, capitão: e temos que roubar isso da Marinha?
— Assim é, Ernie.
— Um momento, um momento... — pediu Ray Smith,
erguendo as mãos. — Vamos admitir que o torpedo é
silencioso e que o rombo seja praticado sem ruído, sem
vibrações...
— Como um prego entrando na manteiga — recordou
Ernie.
— De acordo. Mas suponhamos que o torpedo atinja os
motores, os depósitos de combustível ou a sala das
máquinas... A explosão se produziria de qualquer modo.
— Sim, se o torpedo não atingisse precisamente o ponto
que deve atingir, ou seja, um ponto neutro. Não se produz
explosão alguma, nem há ruído... Nada aconteceu. Mas o
barco se afunda.
— Bem. Mas isso é muito problemático.
— Por quê?
— Porque é muito difícil acertar num barco em
movimento precisamente na parte neutra: o barco se move, o
torpedo se move, a velocidade pode diminuir ou aumentar
por qualquer movimento das águas, tanto a do torpedo como
a do barco... Um desvio de meia dúzia de metros, o que é
coisa muito provável, e a explosão se produz.
— A menos que o torpedo acerte onde deve acertar. E
isto pode ser conseguido disparando-o de cento e cinquenta
ou duzentos metros. Talvez cem.
— Sim, mas para disparar dessa distância... Ah, sim!
— Exatamente. Tal perfeição de tiro não se pode
conseguir disparando o torpedo de outra embarcação,
também em movimento e a uma distância mínima de meia
milha. Mas pode ser conseguida pelo tripulante do torpedo,
que se aproxima a cem metros do barco a ser afundado. A
cem metros de distância, não pode falhar: a cabeça do
torpedo é dirigida com absoluta precisão à parte neutra, abre
o rombo... Enquanto isso, o resto do torpedo se afasta a toda
velocidade. Alvo perfeito. E tudo em silêncio. Quando
quiserem tomar conhecimento, já não haverá remédio. E o
tripulante do torpedo já pode estar a várias milhas de
distância.
— E se essa parte do torpedo não funcionar, capitão?
— Bem. Escolhe-se para tripular o torpedo o Homem-Rã
Número Um da Marinha... e ele que se arranje como puder.
Todos ficaram em silêncio.
Por fim, Ray Smith murmurou:
— O que nos contou, capitão... é o segredo do torpedo.
— Com efeito, Ray.
— Vejo que tem muita confiança em nós. Pelo que me
diz respeito, agradeço.
— Estamos todos metidos nisto, Ray. Depois, já que o
torpedo passará às mãos de outra potência, por que não
haveria de dizer a vocês em que consiste exatamente essa
nova arma?
— Bom... Continuemos, Aldo — suspirou Douglas.
Manning indicou novamente a tela.
— Sabemos que deve existir um sistema de alarma na
sala do torpedo. Mas não o pude descobrir. Tampouco vi
nenhum mecanismo ou dispositivo que dê o alarma no caso
de ser movido o torpedo, mas também pode existir. Em
resumo: estou como no princípio... Vejam o torpedo agora:
três metros e meio de comprimento e um pouco mais que
sessenta centímetros de diâmetro. A cabeça tem uma
coloração diversa. Depois, o corpo, no centro. A cauda
contém o motor elétrico que impulsiona a arma completa.
Disparado o torpedo, a cauda se desprende... Quer dizer,
quando foi disparada a cabeça. Repito: quando é disparada a
cabeça, a cauda se desprende, deixando livre o pequeno
motor suplementar, também elétrico, a transistores, e capaz
de funcionar durante duas horas e meia ou três. Quer dizer:
autonomia de cem milhas, distância que é considerada muito
mais que suficiente. E com este segundo motor, o corpo do
torpedo é manobrado como um pequeno submarino ultra
veloz para escapar. Esta é a nova arma da Marinha dos
Estados Unidos.
Fez-se novamente silêncio.
Até que Manning, após apagar o projetor e guardá-lo,
encolheu os ombros.
— Realmente, acho que é muito difícil para nós
roubarmos esse torpedo. Vocês tinham razão: não há
possibilidade de abrir a comporta de saída para o mar. Isso
poderia ser tentado com uma carga plástica muito potente.
Mas a explosão nos colocaria em sérias dificuldades. A saída
do torpedo só pode ser aberta de dentro, da Sala de Controle.
— Mas nunca poderíamos conseguir isso, Aldo —
contrapôs Spencer Douglas.
— Eu sei... Por isso, temos que concentrar toda a nossa
atenção na comporta externa, que abre para o mar. Seja
como for, temos que entrar por aí.
— Suponhamos que nos seja possível abri-la: que
aconteceria? A água não inundaria tudo?
— Somente o tuba que vai da saída para o mar à
comporta interna, na sala do torpedo.
— Bem. Suponhamos que conseguimos entrar nesse tubo,
o que para nós não é nada, com o equipamento. Que
acontece se abrirmos a outra comporta, a que dá para a sala
do torpedo? Então, esta seria inundada em poucos segundos.
— Sem dúvida.
— Tanto melhor! Aí é que nós poderíamos trabalhar bem,
capitão! — exclamou Ernie.
— Claro. Uma vez tudo cheio de água, nós nos
moveríamos com toda a comodidade lá dentro. E veríamos
tudo perfeitamente, com nossas lanternas. Era só chegar ao
torpedo, deixar vocês saírem e depois sair eu, tripulando-o.
— Simples — resumiu Ray Smith.
Spencer Douglas olhou-o um tanto ironicamente.
— Simplíssimo, Ray... Só que primeiro temos que entrar
na sala do torpedo.
Ray Smith desinflou como um balão furado. E novamente
todos ficaram em silêncio, até que Douglas perguntou:
— Você esteve na comporta, Aldo, com essa moça... Não
viu nenhuma possibilidade?
— Já estive lá várias vezes... Não, Spencer. Nenhuma.
Nenhuma que nos convenha, compreende-se. Uma explosão
ali poria tudo a perder. E utilizar brocas, ou alavancas, ou
qualquer outra coisa... nem por sonho. Levaríamos uma
semana.
— Mas, perfurando a rocha... — aventou Ernie.
— O tubo de aço chega até a boca, naturalmente. Se
perfurássemos a rocha, teríamos que perfurar também o tubo.
Não haveria tempo para isso.
— Contudo, deve haver algum meio de roubar esse
torpedo!
— Nós sabemos melhor que ninguém que todas as
medidas de segurança foram tomadas. Isso, quanto às
dificuldades... mecânicas para entrar no tubo. Levemos agora
em conta o radar, o sonar, o sistema de alarma, o circuito de
televisão... Quando eu subisse à superfície para evitar a rede,
a tela de televisão revelaria minha presença...
— Mas se o fizermos à noite...
— A câmara é dotada de luz negra. Veriam-me como se
fosse de dia. Mas isso pouco me importaria, uma vez que
tivesse o torpedo. Poderia escapar.
— É só chegar ao torpedo — murmurou Spencer.
— Sim, só isso. E com o escasso tempo de que dispomos,
e todas as medidas de segurança, o único caminho é entrando
pelo bangalô número 1. O que é de todo impossível. Muito
mais impossível que pela saída para o mar.
— Por que é mais impossível? — inquiriu Ernie.
— Há sempre pelo menos uma sentinela junto do
alçapão, com uma metralhadora.
— O senhor poderia enganá-la, capitão — sugeriu Smith.
— A essa sim. Mas, e as outras?
— Poderia tentar...
— Como? Há sempre pelo menos nove homens na Sala
de Controle. Três deles são “marines” especializados em
serviço de patrulha. Homens treinadíssimos, Spencer, você
bem sabe... Para impedir o alarme, abrir a sala do torpedo
sem estar presente o coronel e entrar lá, teria que libertar-me
de nove homens, três deles armados de metralhadoras. Nem
sequer poderia matá-los, mesmo que o quisesse fazer. Esse é
um caminho completamente fechado. O do tubo, embora
dificílimo, digamos quase impossível, talvez apresente
alguma oportunidade que ainda não pudemos descobrir. Terá
que ser tentado pelo tubo, rapazes. E terá que ser
conseguido. Amanhã de manhã, na hora do treinamento
diário, tornaremos a examinar a comporta. Iremos dois a dois
e observaremos tudo detalhadamente. Primeiro, irão Spencer
e Ray, como esta manhã. Depois, Ernie e eu, sempre
simulando que percorremos o trajeto usual de segurança.
— Há outra dificuldade, capitão.
— Qual, Ray?
— O equipamento. Sempre fica aos cuidados de
Joanathan, que o examina diariamente, deixando-o preparado
para o dia seguinte. Como vamos conseguir quatro
equipamentos para amanhã à noite?
— Esse ponto está resolvido. Nos serão facilitados
equipamentos, ferramentas, tudo... Como me foi facilitado o
anel com a microcâmara e o projetor. Não será material o
que nos falte. Teremos tudo quanto necessitarmos. Bem.
Creio que é só por hoje... Agradeço a todos.
Os dois “marines” puseram-se de pé e dirigiram-se para a
porta. Ao alcançá-la, Ray Smith voltou-se e murmurou:
— Não se preocupe, capitão: tudo sairá bem.
— Assim o espero, Ray. Tenho que obedecer a essa
gente...
— Claro... Entendo, capitão. Até amanhã.
— Até amanhã.
Douglas e Manning ficaram sós. O primeiro perguntou:
— E agora?
— Tenho que ir a uma entrevista, Spencer. Se alguém
perguntar por mim, diga simplesmente que saí para dar um
passeio. Até logo.
<><><>
CAPÍTULO QUARTO
Uma pantera negra na noite
Entrevista na noite
O fã clube de uma menina sardenta
Brigitte alertou-se ao ouvir que Aldo Manning se
despedia do companheiro de bangalô. Deixou de espiar a
marcha de Ernie e Ray para o bangalô-clube e novamente
enfocou o binóculo para o pórtico. Viu Aldo Manning sair e
afastar-se em direção ao norte, caminhando devagar, como
se estivesse a passeio.
Recolheu o receptor do microfone e o binóculo, e foi à
sua maleta. Escondeu aquelas coisas sob o fundo falso e
escolheu duas outras: o rádio de bolso e a pistolinha de
coronha de madrepérola com silenciador incorporado.
Depois, sem perder um segundo, abandonou o bangalô e,
procurando as sombras, tomou a mesma direção seguida por
Manning. Localizou-o apenas meio minuto mais tarde,
movendo-se sigilosamente na obscuridade. Depois,
acompanhou-o a distância até um dos extremos do
acampamento ou colônia de veranistas. Viu-o deter-se ali,
olhando dissimuladamente para todos os lados. Por fim,
convencido de que não havia olhares indiscretos, ele saltou a
cerca de troncos e afastou-se terra adentro.
Dez segundos depois, “Baby” Montfort fazia o mesmo
num ponto algo mais acima. Seu fino ouvido percebia o
caminhar de Manning por entre a vegetação. E vez por outra
avistava sua silhueta inconfundível entre as palmeiras,
distanciando-se mais e mais do acampamento, sempre
avançando para o interior.
Finalmente, chegaram a um caminho de terra e areia. Ele
se tinha voltado várias vezes, mas era o mesmo que tentar
ver uma pantera negra na noite... Uma pantera
continuamente treinada naquele tipo de perseguição.
Aldo Manning deteve-se entre umas palmeiras e esteve
um momento imóvel. Súbito, algo brilhou em sua mão. Um
fino jato de luz, que apareceu e desapareceu várias vezes.
Deixou passar mais dois minutos, e repetiu o sinal. A uns
cem metros de distância, os faróis de um carro brilharam um
instante.
E pouco depois um homem aparecia no caminho, vindo
diretamente em direção a Manning.
De longe, Brigitte olhou-os conversando enquanto
deslizava para onde vira brilhar a luz do carro. Quando o
localizou, não se aproximou imediatamente, mas deteve-se
para estudá-lo a uma distância prudente. No que fez bem,
com efeito, porque logo após um ponto luminoso apareceu
no interior do veículo.
Havia outro homem.
Ela se aproximou um pouco mais, compreendendo
entretanto que não conseguiria ver a placa da licença se não
rodeasse o carro, pois a luz da lua dava do outro lado. Além
disso, talvez conseguisse ver inclusive o homem...
Viu-o apenas. De qualquer forma, o suficiente para
identificá-lo numa próxima vez. Tinha a cabeça grande e
quadrada, cabelos curtos e crespos. Isso foi tudo quanto pôde
ver ao breve resplendor da brasa do cigarro.
Em compensação, viu com toda a clareza a placa da
licença, quando chegou a oito metros de distância. Estirou-se
ainda um pouco mais, deitada de bruços no chão, para
certificar-se de que não se equivocava. Depois, lenta e
cuidadosamente, retrocedeu até onde a sombra era mais
densa, antes de levantar-se.
Quando tornou ao seu observatório inicial, Manning e o
outro homem ainda estavam falando. Lamentou não ter
levado seu “lança-micros” e o receptor, mas já nada podia
fazer. Uma coisa era certa: a conversa dos dois homens devia
ser interessantíssima. E durou quase dez minutos mais.
Brigitte deslocou-se para vários lados, procurando um modo
de reduzir a distância, mas o risco de ser vista era evidente.
Se chegasse até onde necessário para ouvir a conversa, seria
descoberta. Ou, pelo menos, poderia fazer algum ruído. E era
um risco que não estava disposta a correr. Não por medo,
naturalmente, mas porque desejava acompanhar aquele
assunto à sua maneira. À maneira de um espião, sem se
precipitar estupidamente.
Por fim, os dois homens se separaram. O desconhecido
voltou ao carro e Aldo Manning ali permaneceu, imóvel.
Pouco depois ouvia-se o zumbido do motor, afastando-se.
O oficial ficou ainda uns três minutos na mesma posição,
no mesmo lugar. Depois regressou ao caminho e fez-se de
regresso ao acampamento.
Brigitte certificou-se de que, com efeito, ele partia. Então,
dirigiu-se ao lugar onde tinha estado o carro, convencendo-
se de que não havia truque e que tinha partido também.
Sentou-se numa pedra e acionou o rádio de bolso.
— Alô, “Baby”! Tudo bem?
— Alô, “Johnny”. Tudo mal.
— Como?
— Tudo mal.
— É uma brincadeira?
— Não. Nenhuma. Onde está você?
— Na cidade relativamente próxima desse lugar idílico
onde você se encontra. Num bonito quarto de um hotel grã-
fino. Vai mesmo tudo mal?
— Aprenda isto, “Johnny”, como eu tive que aprender e
admitir: A CIA nunca dorme.
— Bem, isso eu sei... Mas não compreendo.
— Compreenderá num instante. Fomos mandados aqui
para contraespiar uma possível infiltração estrangeira. Certo?
— Certo.
— E nos enviaram em duas metades. Uma metade, eu,
aqui em “Top Secret”. A outra, você, aí na cidade, atento a
meus possíveis chamados. Pois bem, vamos trabalhar. O
carro está em ordem?
— Sem dúvida.
— Então, terá que abandonar essa boa vida. Entre no
carro e tome qualquer caminho para “Top Secret”. Digamos:
o caminho que você escolheria se tivesse que viajar da
cidade à base, e da base à cidade, sem dar muito na vista.
Tem o mapa que nos foi fornecido?
— Está no carro.
— Pois faça o que lhe disse. Espero que chegue a tempo
para encontrar-se no caminho com um “Ford Mustang” de
cor creme, licença de Tallahassee H-22 379. Nesse carro
viajam dois homens. Quero saber quem são e onde poderei
encontrá-los quando julgar oportuno.
— Okay. Estou a caminho. Chamo você quando...?
— Não. Eu o chamarei quando me convier. Ah,
“Johnny”: suponhamos que não consiga encontrar esse carro
no caminho que escolher. Que faria então?
— Você parece estar de muito bom humor, “Baby”: o
encontraria onde fosse.
— Okay, “Johnny”. Até a próxima.
— Até.
Brigitte fechou o rádio e empreendeu o regresso ao
acampamento.
<><><>
O general Pearson olhou-a, sorrindo amavelmente.
— Ah, miss Montfort! Estava pensando que se tivesse
aborrecido conosco.
Brigitte ergueu as sobrancelhas, surpreendida.
— Por que motivo, general?
— Bem... Como não nos foi possível dar-lhe todas as
informações que desejava...
— Oh, não! Eu compreendo isso perfeitamente.
— Estivemos esperando-a para jantar, mas afinal
decidimos fazê-lo sem a sua encantadora companhia.
— Não me sentia muito bem. Estive descansando no
bangalô e depois dei um passeio. Agora estou em perfeita
forma. Perdi algo de bom?
— Se se refere ao jantar, nada do outro mundo — disse o
coronel Roberts, rindo. — Quanto ao resto, tudo continua na
mesma.
— Podemos oferecer-lhe alguma bebida? — perguntou
Pearson.
— Champanha — sorriu Brigitte.
— Champanha? — Os dois homens entreolharam-se,
sorrindo também. — É uma boa ideia, mas não sei se
teremos isso aqui.
Brigitte sentou-se, e os dignos oficiais superiores não
puderam evitar uma rápida olhadela às suas pernas. Depois,
pareceram um tanto formalizados.
— Não gostam? — perguntou ela.
— De quê?
— De champanha.
— Ah, champanha! Oh, sim... Claro que gostamos, mas...
— Não lhes parece que este seja um lugar indicado para
tomá-la?
— Não, de fato.
Brigitte puxou um pouco a saia; inutilmente, porque suas
pernas não podiam encurtar, nem a saia encompridar.
— Pois fazem mal. Numa colônia de veranistas normais
não deve faltar champanha. A não ser, está claro, que os
senhores queiram causar outra impressão, ou seja, que aqui
não há veranistas do tipo comum.
Novamente Roberts e Pearson se entreolharam. O último
franziu a testa.
— Parece — sussurrou — que miss Montfort tem umas
ideias... muito claras, coronel.
— Amanhã haverá champanha nesta base, general.
— Reserve-me uma garrafa — pediu Brigitte.
— Talvez, se não lhes parecer inconveniente, eu mesma
possa ir buscá-la na cidade. Tenho uns gostos muito
definidos.
Dirigiu um olhar ao major Sills, que estava a uma mesa
sobre a qual havia um rádio de pilha, como à espera de
alguma coisa. Os três homens eram os únicos no bangalô do
coronel Roberts. Este olhou para Brigitte e, por fim, disse
amavelmente:
— Seria conveniente que tivesse plena consciência de sua
permanência aqui, miss Montfort.
— A que se refere?
— Parece-me oportuno sugerir-lhe que não saia do
acampamento. Uma indiscrição de sua parte poderia causar-
nos contratempos.
— Supõe o senhor que eu seja uma tola capaz de praticar
leviandades, coronel? Porque se assim é, está equivocado.
Deve compreender que se em Washington foi admitida
minha presença aqui, deve-se isto ao fato de que existe uma
completa segurança quanto à minha discrição, minha pessoa,
meu modo de trabalhar. Imagino que uma jovem como eu,
que se apresenta num acampamento de veranistas com seu
querido tio — indicou o general Pearson —, dá um certo tom
de autenticidade a tudo isto. E se essa jovem vai visitar a
cidade e comprar umas garrafas de champanha, a coisa não
poderia ser mais natural.
— Pensaremos nisso.
— Ora, coronel: o senhor está pensando que vou à cidade
para comunicar-me pelo telefone com meu chefe no
“Morning News” e contar-lhe uma série detalhada de
segredos, não é verdade?
— Não me atreveria a considerá-la tão, amalucada.
— Muito obrigada. E como aqui não há champanha, acho
que devo retirar-me. Gostaria de madrugar amanhã e tomar
um esplêndido e solitário banho de mar. Isto é um luxo.
— Usará o seu biquíni vermelho?
— Coronel — exclamou ela, inocentemente —, pretende
o senhor que vá nadar despida?
Roberts corou visivelmente.
— Referi-me ao biquíni porque alvoroçou a colônia
inteira e não acho...
Interrompeu-se quando soou o chamado no rádio
atendido pelo silencioso major Sills. Este recebeu o chamado
e voltou-se para o general Pearson.
— Comunicação, general.
— Posso ficar ou devo retirar-me? — perguntou Brigitte.
— Fique. São detalhes rotineiros de segurança.
Assim era. Durante um escasso minuto, o general Harry
T. Pearson esteve falando com alguém em Washington.
Nenhuma novidade. Tudo ia bem, a base estava tranquila e
esperava-se a chegada do alvo dentro de trinta horas,
aproximadamente. Entrementes, seria feita uma última
revisão do torpedo e seus mecanismos, sempre, bem
entendido, tomando-se o cuidado de que cada técnico
vistoriasse apenas a parte que lhe competia na nova arma.
Quando terminou a comunicação, o general voltou-se.
— Bem. Parece que é tudo por hoje. Entretanto, é ainda
um pouco cedo para dormir... Joga xadrez, coronel?
— Sei defender-me.
— Talvez esteja disposto a suportar meus ataques, então.
Gostaria de assistir a uma partida, miss Montfort?
— Prefiro aborrecer-me em meu beliche. Boa noite,
senhores.
Despediu-se, sorrindo, e saiu do bangalô. Tinha apenas
dado alguns passos quando cruzou com um dos veranistas,
que a cumprimentou afavelmente.
— Boa noite, miss Montfort.
— Oh, tenente Williams... Quase me assustou.
— Pensou que fosse um fantasma?
— Algo assim — disse ela, rindo. — Já se retira?
— A menos que lhe possa ser útil em alguma coisa.
— É muito gentil... Bem diferente do capitão Manning,
não há dúvida.
— Ah... Soube que esteve excursionando com ele pelo
fundo do mar. Pretendeu afogá-la?
Puseram-se ambos a rir. Chester Williams colocou-se ao
lado de Brigitte, caminhando juntos para o bangalô que esta
ocupava.
— Não, não... Não pretendeu afogar-me. Foi muito
amável, mas muito... conciso. Dir-se-ia que não gosta de
tratar com mulheres. Tive a impressão de que minha
companhia não lhe agradava demasiado. Talvez sua esposa
seja ciumenta... Oh, não... Agora recordo que consegui
arrancar-lhe a confissão de que é solteiro.
— Disse-lhe isso? — estranhou Williams.
— Bem... não isso exatamente. Perguntei se era casado e
respondeu-me que não. Acaso terá mentido?
— Não de todo. É viúvo.
— Ah... Lamento...
— Sua esposa era muito bonita. Perdeu a vida num
acidente.
— Que pena... Suponho que tenha deixado um grande
vazio na vida do capitão Manning.
— Um grande vazio. Mas não completo... Ele tem uma
filha. É uma garotinha maravilhosa. — Williams quase ria ao
falar. — Gostaria de conhecê-la, miss Montfort. Nós, os que
há algum tempo servimos junto com Aldo, já a vimos
algumas vezes. Somos seus fãs incondicionais. É bastante
sardenta e de uma vivacidade assombrosa.
Para nós, Eveline é uma espécie de mascote. Aprende
logo o nome de todo o mundo, dos amigos do pai, dos
“marines”... Acho eu que, se não fosse por essa menina, ele
se teria... transtornado um pouco quando houve o acidente.
Mas, por sorte, Aldo tem Eveline, e isso dá um grande
sentido à sua vida.
— Ela está com familiares do capitão, ou de sua esposa?
— Não. Está num colégio. Aldo vai buscá-la para passear
sempre que consegue uma licença. As vezes viaja trezentos
quilômetros de ida e outros tantos de volta, num fim-de-
semana, para ir vê-la. E talvez não lhe seja fácil acreditar,
mas alguns dos amigos de Aldo vão com ele, de tal modo
são dedicados a Eveline.
— Como no seu caso, presumo?
— Bem... Eu fui apenas duas vezes. Os mais encantados
com a menina são o tenente Douglas, o “marine” Ernie
Parker... E, especialmente, o cabo Ray Smith. Deixariam
cortar o pescoço por ela... Creio que chegamos.
— Foi muito gentil de sua parte acompanhar-me, tenente
Williams. Espero que continuemos a ver-nos.
— Será um prazer. Boa noite, miss Montfort.
— Boa noite.
<><><>
CAPÍTULO QUINTO
Um lança-micros em ação — Plano de roubo em “playback”
O preço de um torpedo
Durante todo o dia seguinte, até as cinco da tarde, Brigitte
“Baby” Montfort esteve percorrendo o acampamento, de
ponta a ponta, sem passar por alto o mínimo recanto,
inclusive a Sala de Controle. Foi de um lado para outro,
tranquilamente, sorrindo para todos, fumando de quando em
quando... Era na verdade um motivo de alegria para a
rapaziada que ali servia contemplar aquela formosa jovem de
biquíni, perambulando pela base, gozando as delícias do mar
e do sol.
Acompanhara os homens-rãs em seu mergulho matinal,
até as onze da manhã. Depois tinha almoçado com o coronel
Roberts, o major Sills e o general Pearson, não sem antes ter
passado pelo bangalô-clube para tomar uma laranjada com
os “marines”, que ficaram em grande alvoroço, rodeando a
belíssima jornalista de estupendos olhos azuis.
Pouco depois das cinco da tarde, quando Aldo Manning
retirou-se ao seu bangalô após cumprir as tarefas que lhe
competiam na base, ela por sua vez se dirigiu ao que lhe fora
destinado. Esteve olhando pela janela até que Spencer
Douglas apareceu, também a caminho do bangalô que
partilhava com Manning.
E apenas ele entrou ali, “Baby” levantou as mãos,
segurando entre elas uma espécie de fuzil com o cano, muito
grosso, de alumínio, que evidentemente era desmontável.
Apontou-o para o lado de uma das janelas do bangalô e
disparou.
Imediatamente, moveu o dial do receptor e suspirou
aliviada quando ouviu a voz de Manning, o que não ocorrera
aquela manhã, já que, segundo parecia, o microfone por ela
instalado na noite anterior se desarranjara. Coisa pouco
provável, mas tinha que aceitar os fatos.
Manning estava dizendo:
— Nada! E você, Spencer?
— Lamento, Aldo. Eu tampouco. Tudo continua como
ontem. Você revistou novamente o bangalô?
— Não. Cheguei há três minutos apenas... Acha que terão
colocado outro microfone?
— Não sei. Tudo pode ser. Eles não se fiam muito em
você, está bastante claro.
— Por que, não sei — murmurou Manning — E o preço
que me vão pagar é muito alto... Sim: deveriam saber que
vou entregar-lhes o torpedo.
— Essa classe de gente não confia em ninguém. Por isso
instalaram o microfone aqui. Você está certo de que o
inutilizou?
— Completamente. Está agora achatado entre duas
pedras, no fundo do mar. Não gosto que me vigiem. Vamos
ver se esse sórdido nos colocou outro aparelho, Spencer.
— Está bem.
Durante três ou quatro minutos, os dois se dedicaram a
procurar algum outro microfone. Mas, certamente, dentro do
bangalô, não havia mais nenhum.
— Naturalmente não tiveram oportunidade... — concluiu
Spencer Douglas.
— Esse maldito traidor cairá um dia em minhas mãos, e
então...!
— Calma, Aldo. Tem que esquecer isso por ora, O
importante no momento é conseguir o torpedo.
— Não o conseguiremos! — quase gritou Manning. — E
não temo pelo que me possa acontecer, se fracasso. Tenho
ideia do que é capaz essa gente, mas nada receio por mim.
Nem mesmo sabendo que perto de nós está um traidor a
colocar microfones, a vigiar-nos, a informar sobre meus
movimentos, minhas conversas com os que vão ajudar-me...
— Querem estar certos de sua decisão, eis tudo.
— Mas alguém da base sabe tudo isto! Foi ele quem
informou a meu respeito, e é quem nos deve estar vigiando a
todo momento.
— Se você não se tranquiliza, vamos todos passar mal
esta noite — murmurou Douglas.
— Tem razão, Spencer. Sinto muito... Sei que devo
concentrar-me no modo de conseguir o torpedo, mas estou-
me convencendo de que nada se pode fazer. Tudo nesta base
é demasiado seguro, demasiado sólido, e a vigilância torna
praticamente impossível o roubo do torpedo. Acho que não
tenho o direito de aceitar o auxílio de vocês.
— Você não nos pediu nada, lembra-se? Nós três é que
nos oferecemos para ajudá-lo. Afinal de contas, o prego
desse torpedo nos beneficiará a todos de modo quase
idêntico.
— Eu sei, Spencer. Mas acho que estamos loucos. Nunca
conseguiremos realizar essa empresa!
Spencer Douglas encolheu os ombros e olhou o relógio.
— São cinco e quinze... A que horas você tem que ir
examinar o material?
— Não sei. Logo. Preciso ter certeza de que tudo ficará
preparado esta noite.
— Se você quiser, eu posso ir.
— Não, não. Isso toca a mim. Quero verificar
pessoalmente se mandaram tudo o que pedi.
— Aposto que sim. A parte... técnica eles garantem.
Temos apenas que apanhar o material, equipar-nos e... Bem:
ir buscar o torpedo. Simples.
— Eu prefiro que você não venha comigo, Spencer.
— Está bem. Mas qual a sua intenção, afinal? Fazer tudo
sozinho? Isso sim é loucura! E lhe direi outra coisa: você não
poderia impedir que Ernie, Ray e eu o ajudássemos. Temos a
nossa parte neste negócio e queremos colaborar.
Aldo Manning estava no centro da pequena sala, com as
mãos na cintura, pensativo, taciturno.
— Vou ver se o equipamento está no lugar conveniente.
Voltarei logo.
— Está bem. Fico aqui à espera. E continuarei pensando
numa solução.
— Não há nenhuma solução. Até logo.
<><><>
Brigitte fechou o receptor-gravador e chegou
cautelosamente à janela. Viu Manning sair do bangalô e,
como na noite anterior, dispôs-se a segui-lo. Era mais
arriscado, por ser dia claro, mas se lhe faltasse disposição
para aceitar riscos teria procurado emprego numa casa de
modas. Ou se teria limitado a ser jornalista.
Não obstante, e para atenuar os riscos, apanhou a pistola
e prendeu-a à coxa esquerda com as duas famosas tiras de
esparadrapo cor-de-rosa, depois vestiu uma minissaia e uma
blusa escura, de jérsei, muito decotada. Em seguida, colocou
o rádio portátil e o receptor-gravador na bolsa de palha e saiu
alegremente do bangalô, como se tivesse a intenção de dar
um passeio.
Contornou o bangalô, para afastar-se em sentido contrário
ao seguido por Manning. Mas logo mudou de direção,
tomando o rumo do Homem-Rã Número Um da Marinha.
Esta vez, Aldo Manning seguia pela beira do mar,
lentamente, como se também estivesse passeando. Sua figura
atlética, em “short” branco e camisa de cores brilhantes,
destacava-se contra o azul do oceano, que lhe servia de
fundo. “Baby” seguiu-o, por entre as palmeiras, durante
vinte minutos pelo menos.
Decorrido esse tempo, ele se deteve junto de uns
rochedos. Olhou para eles, depois ajoelhou-se e começou a
cavar vigorosamente a areia. Cinco minutos mais tarde,
puxava com força a ponta de uma corda... E um grande fardo
de lona foi aparecendo pouco a pouco. Ele desatou a corda e
separou as extremidades da lona. Contemplou o conteúdo:
quatro trajos de borracha para imersão, tubos de ar,
alavancas, marretas, carga plástica submarina, lanternas,
bússolas.. Tudo. Havia ali todo o necessário para...
— Boa tarde, capitão Manning.
Aldo Manning pôs-se vivamente de pé, voltando-se e
olhou sua inesperada visitante com olhos espantados.
— Miss Montfort...
— Alô.
— Que... que está fazendo aqui...?
— Passeando.
— Oh... Bem... Mas não deveria ter vindo a este lugar...
— Estou sendo indiscreta? Oh, talvez tenha chegado a
um ponto do qual o Comando gostaria de me ver afastada.
É... uma operação secreta, capitão Manning?
— Sim, de fato... Sua presença aqui coloca-me numa
posição delicada. Devo pedir-lhe que não comunique ao
coronel Roberts o que viu. Supõe-se que eu seja o único em
toda a base a ter conhecimento desta... operação. E uma falha
da minha parte poderia causar-me aborrecimentos... Que é
isso?
— Trouxe um pequeno gravador, capitão. Mas não é
música o que contém. Quer fazer o favor de ouvir?
Brigitte apertou o pequeno botão do receptor-gravador e
colocou-o sobre o rochedo, sem deixar de olhar para
Manning, que empalideceu ao ouvir sua própria voz:
— Feche a porta.
— Não vamos ver essas microfotos? —
perguntava Douglas,
— De pouco servirão.
— Como pode saber, se ainda não as viu?
Uma pequena pausa. E novamente a voz de
Manning:
— Tudo isto é uma loucura!
— E é você quem diz, Aldo? Justamente quem
mais devia querer levar as coisas avante a
qualquer custo. Bem... Está pronto. Esperamos
Ernie e Ray?
— É melhor. Quero que todos vejamos bem
essas microfotos, Spencer. E você tem razão.
Preciso roubar o torpedo, seja como for. Tenho
que tirá-lo daqui por meus próprios meios!
— Calma. Ainda não recebemos as instruções
finais. Eles dirão quando devemos tirá-lo, e para
onde temos que levá-lo. Se conseguirmos isso,
obterão uma bonita arma... por um preço muito
módico.
Alguns minutos de silêncio. Um ligeiro ruído. E a voz de
Aldo Manning:
— Vá ver se são eles...
Possivelmente, não fosse pela mudança de expressão do
rosto muito pálido de Aldo Manning, “Baby” não teria
ouvido o pequeno rumor às suas costas. Enquanto o gravador
continuava reproduzindo seu conteúdo, ela voltou-se
rapidamente... a tempo de esquivar o braço de Spencer
Douglas, que um segundo mais tarde se teria fechado em
torno de seu pescoço, de surpresa.
Em lugar disso, foi o tenente Spencer Douglas quem teve
a surpresa.
Aquelas mãos elegantes e delicadas pareceram cravar-se
em seu braço com a força de tenazes. O esbelto corpo
feminino colocou-se diante do seu, um pouco inclinado, de
costas. E súbito dobrou-se para frente, lançando o oficial da
U.S. Navy por cima, rumo ao chão, onde caiu de cabeça,
rodou e finalmente ficou ajoelhado, a cara cheia de areia,
olhando estupefato a adorável garota de suaves olhos azuis,
que lhe apontava uma pistola em miniatura.
— Encantada em tê-lo conosco, tenente — disse ela com
um sorriso —, já que também está no jogo, como terá podido
ouvir... Importam-se que eu feche o aparelho?
— Vejo — murmurou Manning — que foi você quem
colocou aquele microfone...
— De fato. Pensaram que tinham sido seus amigos, para
vigiá-los? Pois fui eu. E não faz muito tempo coloquei outro,
por meio do lança-micros, ao lado da janela... Agora
apanhem todo esse material e voltemos para a base.
— Que pensa fazer? — perguntou Douglas,
incorporando-se.
— Entregá-los, naturalmente. Que esperavam? Quanto ao
seu amigo da noite passada, capitão Manning, esqueça-o.
Não os poderá ajudar. Saibam que neste momento está
localizado. E também o outro, que ficou dentro do carro...
Vamos, recolham tudo isto, temos que voltar. E desistam de
roubar o torpedo.
— Mas... Quem é você, afinal? — indagou o perplexo
Douglas.
— Não importa. O que importa é que vão pagar muito
caro sua traição. Não lhes invejo a sorte.
Aldo Manning deixou-se cair sobre a areia, em vez de
obedecer a Brigitte. Estava como que aniquilado.
— Vão matá-la... — murmurou. — Sei que vão matá-la,
Spencer...
Douglas aproximou-se do amigo, caminhando de joelhos
pela areia. Passou um braço por seus ombros. Parecia que
ambos tinham esquecido a presença de “Baby”.
— Aldo, não se preocupe... Ela não morrerá. Por que
iriam matá-la? Você não pôde evitar isto. E quem sabe não
seria possível resolver tudo? Falaremos com o general
Pearson...
— Seria inútil — atalhou Manning, a voz embargada. —
Completamente inútil, Spencer, eu sei. Não poderiam
entregar o torpedo. Nem sequer simuladamente... E também
não aceitariam minha vida em troca da dela...
— De que estão falando? — perguntou Brigitte.
— Cale-se! — disse com voz trêmula de raiva o tenente
Douglas. — Maldita a hora em que veio a esta base! Eu...!
Parecia disposto a atacar Brigitte, afrontando o perigo da
pistola que esta empunhava. Mas Aldo Manning o conteve.
— Deixe-a... Ela está cumprindo seu dever, Spencer. Não
a ouviu? É leal... Não quer que roubemos o torpedo. Não
está do lado deles, mas do nosso... Bem, miss Montfort:
voltemos à base. E pode guardar a pistola, pois não vamos
opor resistência.
Brigitte retrocedeu alguns passos, sem deixar de apontar
para os dois homens. Aldo Manning foi o primeiro a
levantar-se e começar a recolher parte do conteúdo do pacote
de lona. Douglas permaneceu um instante silencioso e
sombrio antes de se dispor a ajudá-lo.
— Que está acontecendo com vocês? — perguntou
Brigitte. — Confesso que não chego a compreender...
— Que importa? — disse surdamente Manning. -—
Vamos à base.
— Primeiro, Manning, diga-me exatamente o que se
passa.
— Isso não resolverá absolutamente nad...
— Vão matar a menina! — exclamou Douglas. — A filha
dele! É isto o que se passa, miss Montfort, ou qualquer que
seja o seu nome!
<><><>
CAPÍTULO SEXTO
Dois perplexos oficiais da US Navy
Nada de matar, por enquanto... — A boa fada
— A filha de quem? — indagou Brigitte. — Do capitão
Manning?
— Exatamente! — confirmou Douglas. — E será por sua
culpa...!
— Cale-se, Spencer — cortou Manning. — E voltemos à
base. Explicarei tudo ao coronel. Eu sozinho. Não quero que
vocês...
— Um momento, Manning — pediu Brigitte. — Não sei
se compreendi bem... Vão matar sua filha, caso você não
roube esse torpedo e o entregue a alguém? É isso?
— É o que vai acontecer! — replicou desabridamente
Douglas.
— Estão loucos? Todos vocês... os quatro? Pelo amor de
Deus, que estavam pretendendo fazer?
— Mão é de sua conta — disse Manning. — Falarei com
o coronel Rob...
— Sente-se — ordenou “Baby”. — Sente-se, Manning. E
você também, Douglas.
Os dois a olharam em silêncio durante alguns segundos,
antes de obedecer. De pé diante deles, Brigitte contemplou-
os longamente, os belíssimos olhos brilhantes de
inteligência, de astúcia. Por fim, sentou-se defrontando os
dois oficiais e, para assombro destes, guardou a pequena
pistola no seio, tranquilamente.
— E agora — disse. —, quero que me contem somente a
verdade. Eu estou disposta a ajudar.
— Que...?
— Ajudar... ?
— Parece-lhes uma tolice? — perguntou, sorrindo. —
Acham que não sou capaz disso?
— Quer ajudar-nos a roubar o torpedo? — assombrou-se
Douglas.
— A fazer qualquer coisa que seja justa e humana. Se
necessário, roubaremos esse torpedo, por que não?
— Você sim, é que está louca... — resmungou Douglas.
— Menos que vocês... — atenuou ela. — Bastante
menos, creio eu. Digamos que... estou melhor preparada para
cometer loucuras. Digam-me toda a verdade, e se eu concluir
que é preciso roubar o torpedo, nós o roubaremos, dou minha
palavra. E eu tenho o péssimo costume de fazer o que
prometo.
— Mas quem você pensa que é, afinal?
— Cale-se, Spencer — sussurrou Manning. — Ela é do
G-2, o serviço de inteligência da Marinha... Não é assim,
miss Montfort?
— Mais ou menos — admitiu ela, com um sorriso
divertido.
— Está bem... Está bem, vou-lhe contar tudo. Pelo
menos, tenho certeza de que é leal à Marinha, e não como
esse traidor que existe na base...
— Que traidor?
— Não sabemos quem é. Alguém que me conhece muito
bem... Alguém que informou uns desconhecidos a respeito
da pessoa que tripularia o torpedo construído em “Top
Secret”. E como esses desconhecidos queriam o torpedo,
atacaram-me em meu ponto mais fraco: raptaram minha
filha. E mandaram-me uma mensagem dizendo que se eu não
roubasse o torpedo para eles, lhe tirariam a vida. Não é uma
simples e ingênua história que estou inventando, miss
Montfort.
— Simples, sim. Mas não ingênua... Por que supõe que
há um traidor na base?
— Disseram-me que não fizesse bobagens, porque eles
logo saberiam. E como ninguém que não seja da base pode
conhecer meus movimentos, a dedução é fácil. Além disso,
deve ter sido essa mesma pessoa quem lhes deu informações
a meu respeito. Quem lhes disse que eu era o encarregado de
experimentar o torpedo... Como também lhes deve ter dito
que, pessoalmente, nada seria possível conseguir comigo,
por bem ou por mal, e que o único modo era raptar minha
filha...
— E tem certeza de que ela foi raptada?
— Pus-me em contato com o colégio onde ela estava,
justamente quando de lá iam avisar-me que Eveline tinha
desaparecido. Contei-lhes uma mentira: que ela tinha fugido
e estava com uns amigos; que estes me tinham avisado, e que
eu a levaria de volta dentro de alguns dias...
— Acreditaram em tudo isso, mesmo tratando- se de uma
menina de oito anos?
— Sete. Fui... fui muito convincente. Tive que ser. Tinha
que fazer qualquer coisa para que na base não soubessem
que haviam raptado minha filha. Se o dissesse, ela morreria.
— Um recurso era falar com o coronel Roberts...
— E dizer-lhe que entregasse o torpedo em troca de
minha filha? Não, obrigado. Sei que o Comando procuraria
uma solução... menos dispendiosa. Tentaria uma série de
coisas... Tudo, menos entregar o torpedo. E como eu teria
falado, e já não poderia roubar o torpedo, que seria colocado
sob vigilância ainda mais severa que a atual, essa gente
mataria minha filha...
— Referiam-se à vida dessa menina quando falavam do
preço que iam cobrar, preço que a todos beneficiaria por
igual?
— Hem? Sim, claro... Alguns de meus companheiros
gostam muito de Eveline. Especialmente...
— Eu sei disso. Especialmente Spencer Douglas, Ray
Smith e Ernie Parker.
— Quem lhe disse?
— Chester Williams. Estivemos conversando uns
minutos, esta noite. Creio que ele também gostaria de ajudá-
lo, Manning.
— É um técnico eletricista, não um homem-rã, um
homem de ação... De nada serviria seu auxílio, e não quis
incomodá-lo.
— Compreendo. Bem, ao que parece, teremos trabalho
para esta noite: encontrar esse traidor, que é realmente quem
está vendendo o torpedo a uns... desconhecidos, e resolver as
coisas de modo que sua filha não sofra nenhuma desgraça.
Não é um trabalho fácil, Manning.
— Bem sei.
— Mas pode ser tentado.
Manning e Douglas olharam-na atentamente.
— Tentado? Como? Se ouviu nossa conversa, já sabe das
dificuldades que...
— Essas dificuldades existem por fora, não por dentro.
Podemos entrar na sala do torpedo pelo bangalô número 1.
— Impossível. E se está pensando que matar um só
desses homens poderia valer...
— Quem fala em matar? Ainda não, pelo menos... As
coisas podem ser feitas muito melhor do que pensam. Em
baixo d’água, Manning, você é o primeiro. Mas com os pés
sobre a terra e para assuntos desta natureza... Com licença
um minuto.
Ante o assombro dos dois homens, “Baby” Montfort
sacou o rádio de bolso e acionou-o.
— “Johnny”?
— Alô, “Baby”!
— Continuam aí os dois?
— Exatamente onde lhe disse ao meio-dia.
— Está certo de que os mantém sob controle?
— Ouça, encanto: ontem à noite, esses sujeitos não
passaram pela estrada que eu pensava, por isso não os vi.
Mas passei horas procurando o tal carro de cor creme e
encontrei-o de madrugada. Acha que agora vou deixá-los
escapar?
— Não se zangue, querido. E espere um momento. —
Dirigiu-se agora a Manning: — Tenho um amigo vigiando o
homem que falou com você à noite. Havia outro no carro, de
modo que os dois estão à minha disposição. Agora, diga-me
se o tal homem e você deverão tornar a encontrar-se.
— Sim...
— Quando?
— Esta noite, às dez, exatamente neste lugar, que é onde
vieram de madrugada deixar o material.
— Às dez... — Brigitte olhou seu relógio de pulso,
contraiu as sobrancelhas e ficou uns segundos pensativa,
antes de tornar a falar com seu companheiro da CIA: —
Atenção, “Johnny”, quero que venha buscar-me com o carro,
a toda pressa.
— Em “Top Secret”?
— Exatamente.
— Mas os dois homens que estou vigiando...
— Não há perigo de que escapem.
— Bem, você é quem manda, boneca. Afinal de contas,
estou falando nada menos que com “Baby”, certo?
— Certo, “Johnny”. Venha a toda velocidade e apanhe-
me no ponto... 107 do mapa especial de serviço.
— Serei um raio!
Brigitte guardou o rádio e olhou os surpreendidos oficiais
da US Navy.
— De acordo: tornem a enterrar estas coisas e regressem
à base.
— Quem é você? — murmurou Manning ao cabo de um
instante.
— Uma fada. E façam o que lhes digo.
— Confia em nós? — perguntou incredulamente
Douglas. — Por quê?
— Vou-lhe dizer, tenente: tenho dois olhos e um cérebro.
E, ao contrário de tanta gente, sei utilizá-los muito bem.
Pode ser que ambos me tenham mentido, por que não o
admitir? Mas se assim é, fizeram-no tão perfeitamente que
merecem um prêmio.
— Não lhe mentimos — asseverou Manning.
— Eu sei. Enterrem isso e ponham-se a caminho. Se
perguntarem por mim, digam que me viram passeando pela
praia. Só isto. Não se preocupem dando explicações mais ou
menos verossímeis. Digam apenas que me viram passeando
pela praia. Procurarei estar de volta antes das sete e meia.
Terei que correr muito, mas farei o possível para que não se
note minha ausência durante o jantar com o general e o
coronel. Até logo.
Tornou a olhar o relógio e afastou-se, quase correndo,
terra adentro. Após perdê-la de vista, os dois oficiais se
entreolharam.
— Você acha que ela é do G-2?
— Não sei... E também não sei até que ponto vai poder
ajudar-nos. Mas, afinal: que temos a perder?
<><><>
“Johnny” abriu a porta do carro e Brigitte sentou-se a seu
lado, apontando para frente.
— Vamos fazer uma visita aos nossos amigos.
— Se escaparam, não me culpe disso, “Baby”.
— Estarão lá. Têm que esperar até as dez da noite. Mas
toque a toda a velocidade, “Johnny”: preciso estar de volta a
“Top Secret” antes da hora do jantar, se possível.
— Ah-ah...
— Qual é a graça?
— É você pensar que está num avião a jato.
— Pé na tábua. Como disse que se chamavam ... ou que
se faziam chamar esses tipos ? Bert Tower e Pete Fellows?
— Isso.
— Vamos lá.
<><><>
CAPÍTULO SÉTIMO
Através do olho-mágico
Um corpo ao avesso
Que dizer a Aldo Manning?
Quando soou a batida na porta, Pete Fellows
sobressaltou-se e levou a mão à axila esquerda. Mas logo
sorriu, com a expressão de quem zomba de si mesmo por
assustar-se quando não há motivo.
Assim, aproximou-se da porta com a tranquilidade mais
absoluta. Espiou pelo olho-mágico e viu, diminuída e
distante, uma jovem de sorriso travesso e maravilhosos olhos
azuis, que olhavam justamente para o olho dele.
Abriu a porta, com uma curiosidade que se transformou
em puro deslumbramento quando viu do tamanho natural a
visitante desconhecida.
— Sinto muito — disse ele, em forma de galanteio —
mas você se enganou de porta, queridinha.
A jovem ergueu as sobrancelhas, como embaraçada.
Meteu a mão na bolsa, claro que para tirar um papel com o
endereço da pessoa que realmente procurava, e...
— Mister Fellows, ou mister Tower? — perguntou ela.
Fellows empalideceu ligeiramente olhando aquela
pistolinha, tão firme na mão da jovem como se estivesse
soldada a uma barra de aço.
— Eu...
— Caminhe para trás. Venha, “Johnny”.
Um rapaz alto, atlético, louro, de irônicos olhos
cinzentos, surgiu em cena, procedente da esquina do
corredor, revólver na mão. Empurrou Fellows com um só
dedo, que pareceu, por sua dureza, quase uma baioneta.
Fellows viu-se obrigado a retroceder, olhando de um para
outro seus visitantes. O homem foi quem fechou a porta, sem
deixar de apontar-lhe o revólver. A jovem, que a princípio
parecia querer proteger-se com o próprio Fellows, mostrou-
se assombrada ao não ver ninguém mais ali, e optou por
penetrar no apartamento, silenciosa, atenta. Colocou-se ao
lado de Fellows, abriu-lhe o paletó com o cano da pistola e
tirou-lhe o enorme revólver com a ponta dos dedos, como
nauseada.
— E seu companheiro? — perguntou.
— Que companheiro?
— Você como se chama?
— Pete Fellows.
— Então, estou perguntando por Bert Tower. Aonde foi?
— Sei lá! — disse Fellows, brusco.
— Está bem... E a menina? Onde está a menina, Fellows?
— Que menina?
— Eveline Manning. A filha do capitão Aldo Manning.
— Oh... Não está aqui.
'— Onde está? E o seu companheiro?
— Você parece esperta: procure-o.
— Não tenho tempo a perder, Fellows.
— E eu com isso?
Brigitte ficou pensativa, a testa franzida. Súbito, moveu a
mão direita e a pistola bateu rudemente na boca de Fellows,
que mal conteve um grito, saltando para trás e caindo
primeiro sentado, depois de costas, com a boca rebentada,
sangrando abundantemente. Quando ia levantar-se, um dos
pés de “Baby”, calçado com leves sandálias praieiras, deu-
lhe em pleno estômago, exatamente no centro, com tanta
precisão e força que o mundo pareceu rebentar dentro de
Pete Fellows, por um instante. Depois ele ficou como
paralisado, sem ar nos pulmões, o rosto lívido. Não fosse por
aquela total ausência de ar, teria agora gritado ao ver o novo
golpe que o ameaçava, outra vez com a pistola.
Mas como seus pulmões estavam vazios, recebeu em
silêncio a coronhada no supercílio, que se abriu, enchendo-
lhe de sangue um olho. Viu uma parede, o teto, outra
parede...
Quase inconsciente, ouviu:
— Encarregue-se dele, “Johnny”.
Duas possantes manoplas agarraram-no pelo paletó,
puxando-o. Através de uma névoa vermelha, viu aquela
massa enorme diante dele. E ao lado, a graciosa silhueta da
jovem demoníaca.
— Continuo tendo pressa, Fellows — ouviu-a dizer,
friamente.
— Vá para o diabo!
Um soco no estômago, desferido pelo tal “Johnny”, foi
certamente a pior coisa que já tinha acontecido na vida de
Pete Fellows. Teve a breve sensação de que se partia em
dois, ao mesmo tempo em que seu corpo virava do avesso,
com as vísceras para fora.
Por felicidade, perdeu o conhecimento.
E quando o recuperou, viu apenas sombras diante dele.
Sombras que começaram a tomar forma definida,
lentamente.
— Está voltando a si.
— Quebre-lhe uma perna, “Johnny”.
Pete Fellows sentiu aquele golpe exatamente sobre o
joelho e a dor intensa que o acompanhou. Tinha as pernas
amarradas a uma poltrona, na frente da qual o haviam
sentado, e o atroz “Johnny” aplicara-lhe uma patada com
tremenda violência.
— Tem os ossos muito duros — comentou “Johnny”.
— Vá à cozinha. Certamente encontrará uma boa faca, ou
uma acha de partir carne. Isso facilitará as coisas.
Pete Fellows não dava crédito ao que estava ouvindo,
apesar da absoluta, congelante frieza daquela voz feminina.
Quase ficou sem respiração, agora de susto, que era ainda
mais intenso que a dor. Não... Claro que não... Não iam fazer
isso com ele...
— Só encontrei esta faca... Não creio que sirva para
cortar-lhe a perna, infelizmente.
— Corte-lhe uma orelha. Depois, a outra.
— Okay.
Agora sim, Pete Fellows teria gritado se aquela mão
gigantesca não o agarrasse pelo pescoço, deixando-o incapaz
de emitir um som. Quis agitar-se, defender-se... mas aquela
simples mão era mais que suficiente para imobilizá-lo.
— Solte-lhe o pescoço, “Johnny” meu bem: talvez ele já
tenha compreendido que, na verdade, estou com muita
pressa... Onde está a menina, Fellows?
— Num... num submarino...
— Onde está o submarino?
— Não sei... Juro que não sei!
— Mas deve saber que esse submarino recolherá o
torpedo, não é certo?
— É... É sim!
— Onde e quando?
— Esta noite... às doze em ponto, duas milhas ao sul de...
da base “Top Secret”...
— Corte-lhe as orelhas, “Johnny”: está mentindo.
— Estou dizendo a verdade! — gritou Fellows,
aterrorizado.
— Onde está seu companheiro?
— Já foi... faz meia hora... Queria deixar o carro longe e
chegar a pé...
— Chegar a pé aonde?
— À praia, perto da base.
— Para quê?
— Para esperar o capitão Manning...
— E já foi para lá? O encontro estava marcado para as
dez. Por que Bert Tower resolveu ir tão cedo?
— Já disse... Queria chegar a pé, deixando o carro
longe... Ele tem que ver o capitão Manning para lhe dar as
últimas instruções...
— Muito bem. E agora, diga-nos o nome do traidor que
há na base.
— Não sei quem é!
— As orelhas, “Johnny”. Depois, a mão esquerda.
— Juro que não sei quem é! Nós não sabemos, só os do
submarino... Lá está o chefe, que nos contratou para isto...
para raptar a filha de Manning.
— Você e Bert Tower foram os raptores?
— Sim, nós dois...
— E a entregaram ao seu chefe, sabendo que a iam levar
para um submarino?
— Isso mesmo!
— Diga-me, Fellows: que pensam fazer com a menina
quando receberem o torpedo? Deixá-la livre ou matá-la?
— Deixá-la livre!
— Como? Como farão, se ela está no submarino?
— Não sei... Creio que Manning terá que chegar até lá
com o torpedo, e depois o deixarão ir com a menina...
— Mentira. — A voz de Brigitte congelou-se mais ainda.
— Mentira, Fellows: quando Manning chegar lá, será morto.
E, morto ele, a menina nunca poderá alcançar sozinha a
costa. Isso, no caso de não dispararem também contra ela. É
ou não é assim?
— Não, não! Eu não estarei lá, não sei nada, não sei...!
— Você é norte-americano?
— Sou!
— Ainda mais essa! Concebo a espionagem, Fellows,
mas não a traição. Aprecio todos os espiões que trabalham
em benefício de seu país. Mas quando encontro um tipo
como você... Rapta uma menina para que depois a
assassinem, trai sua pátria... Será que você não pode
enxergar sua própria baixeza?
— Eu direi tudo... Tudo!
— Mas já nos disse tudo, Fellows. E para você ver como
somos amáveis, lhe deixaremos uma faca para que se liberte
quando tivermos ido... Bem ao seu alcance, vê? Deixo-a
aqui!
Deixou-a cravada em seu estômago. Pete Fellows
retesou-se um instante, antes de emitir um curto gemido
agônico. Depois, a cabeça tombou sobre o peito, quase
tocando o cabo da faca.
“Johnny” olhou para sua companheira de missão. Estava
um pouco pálido.
— Não gostou, “Johnny”?
— Bem... era o que eu estava pensando fazer, “Baby”.
Surpreendeu-me apenas sua rapidez, seu modo decidido de
agir.
— Eu disse que tinha pressa. Agora, trate de retirar este
infeliz do edifício. Sem escândalo, sabe. E atire-o no mar
com uma pedra amarrada nos pés, ou esconda-o onde jamais
possa se encontrado. Depois, aproxime-se do ponto 88;
espere um possível chamado meu.
— Até que horas?
— Até as duas da madrugada. Se eu não chamar até
então, faça o que julgar mais conveniente.
— De acordo. Que pensa fazer agora?
— Voltar à base. Temos um carro apenas?
— Apenas.
— Azar! — “Baby” consultou o relógio. — Está-se
fazendo tarde. Terá que levar-me, “Johnny”. Depois, volte
para atender a este trabalho.
— Está bem. Pensa dizer a Manning que ele e sua filha
estão destinados a...?
— Não sei... Não sei, “Johnny”. Ainda não tenho ideia do
que direi a Aldo Manning.
<><><>
CAPÍTULO OITAVO
Lição bem aprendida
As delicadas mãos de “Baby”
Defunto falará pelo rádio
— Não fica nem uns minutos, miss Montfort?
Conseguimos um champanha aceitável, mas creio que nem o
coronel nem eu a tomaremos sem sua estimulante presença.
Brigitte sorriu amavelmente.
— Sinto, mas não poderei ficar, senhores.
— Nem sequer para fazer-nos mais perguntas? Foi um
jantar bastante... agitado, diria eu. Não me diga que sua
curiosidade está satisfeita...
— Não, de nenhum modo. Acontece apenas que as
perguntas que ainda tenho a fazer não seriam respondidas,
pelo menos no momento. Além disso, o capitão Manning
está-me esperando.
— Aldo? — estranhou o coronel Roberts. — Espero que
não pensará conseguir dele as informações que não lhe
pudemos dar.
— Para dizer a verdade — repeliu ela, sorrindo
docemente — espero que o capitão Manning e eu tratemos
de assuntos muito... diversos, coronel.
— Oh-oh! Miss Montfort, vejo que é uma pessoa cheia de
surprêsas.
— Surpresas? Não acha que o capitão Manning é um
homem atraente?
— Eu não — riu o coronel Roberts. — Estou bem certo
de que nunca me apaixonaria por ele.
Brigitte também riu, um pouco corada, segundo pareceu
aos dois oficiais superiores da US Navy. O que não podiam
saber de maneira alguma era que aquela adorável criatura
conseguia enrubescer quando quisesse, sorrir sem a menor
vontade e ser, sempre que necessário, a pessoa mais
hipócrita do mundo.
— Então, coronel, temos gostos diferentes. Bem, acredito
que não constitua ameaça à defesa nacional o fato de
Manning e eu darmos um passeio depois do jantar.
Nenhuma. Mas o capitão Manning deverá madrugar
amanhã, pois o alvo chegará ao ponto “Torpedo”. E como
suponho que ele se retire cedo para descansar, se quiser
então um pouco de champanha, o general e eu estaremos à
sua espera... jogando xadrez.
— Não esquecerei o convite. Até logo, senhores.
— Até logo, miss Montfort. Ah, outra coisa: amanhã,
depois da prova do torpedo, nós e o major Sills
regressaremos a Washington. Lá e perante dois
representantes da Secretaria de Defesa, poderá formular
algumas perguntas... indiscretas. Serão respondidas as não
irrespondíveis. E não esqueça que, antes de enviar seu artigo
ao “Morning News”, deverá apresentá-lo à censura.
— Lembro-me muito bem dessas instruções. Boa noite.
<><><>
Aldo Manning abriu a porta do bangalô. Ao fundo,
sentado, estava Spencer Douglas, que se levantou
rapidamente e aproximou-se.
— Julguei que nos tivesse esquecido — disse Manning.
— Está vendo que não. Você e eu, Manning, vamos dar
um passeio pela praia, agora. E bem à vista de todos. Disse
ao coronel e ao general que estou querendo conquistá-lo,
assim nossa atitude deverá ser adequada.
— Há um senão, miss Montfort — murmurou Manning:
— todos aqui sabem que as mulheres não me interessam.
— Também todos sabem que sou muito bonita... Não
poderá deixar-me em má posição. Além disso, acho que
deseja recuperar sua filha, não é verdade?
Aldo Manning trocou um olhar breve com Douglas.
— Até logo, Spencer.
— Depois me dirá o que decidiram. Acha que
conseguiremos algo de positivo, miss Montfort?
— Se me obedecerem, sim.
Os dois oficiais tornaram a entreolhar-se.
— Vamos ao nosso passeio — disse Manning.
Pouco depois, ele e Brigitte perambulavam lentamente
pela praia. O céu estava cheio de estrelas e a lua, em quarto-
crescente, traçava um caminho brilhante no mar.
— Fui visitar aqueles homens, Manning. Mas só um
deles estava no apartamento. O outro já tinha saído, para
chegar a pé ao lugar convencionado e dar a você as últimas
instruções. Qual é esse lugar? Mmm... O mesmo onde
enterrou o material, não?
— Exato. Estava lá... você viu...?
— Sua filha? Ela está num submarino.
Aldo Manning deteve-se de chofre e, quando encarou
Brigitte, ela viu em seu rosto varonil uma intensa palidez.
— Num submarino... — murmurou desalentado.
— Não sei onde está agora esse submarino, nem de que
nacionalidade é. Em minha opinião, trata-se de particulares.
— Particulares?
— Sim. Gente que se dedica por conta própria a toda
espécie de espionagem. No momento, seu negócio é
apoderar-se desse torpedo para vendê-lo depois a quem mais
der. Isso é comum.
— Não sei... Nada entendo do assunto. Mas sei que nunca
conseguiremos tirar Eveline desse submarino!
— Depende de você.
— De mim? — exclamou Manning. — Se dependesse de
mim...
— Calma. Não esqueça o traidor que temos na base. Se
nos está observando, ficará muito surpreso com sua agitação
durante um simples passeio de namorados.
— Sim... — Manning mordeu os lábios. — Tem razão.
Mas que é que depende de mim? Que tenho que fazer?
— Acima de tudo, não aceitar uma das condições que lhe
pretenderão impor. Essa condição é levar você mesmo o
torpedo até o submarino e ali entregá-lo em troca de sua
filha. Isso é o que lhe proporão. Considerada sua excepcional
habilidade de nadador, supõe-se que você aceite regressar a
nado até a costa, trazendo Eveline.
— Poderia fazê-lo perfeitamente...
— Eu sei — cortou Brigitte. — E coisas muito mais
difíceis. Mas você não aceitará isso. Na verdade, creio que o
plano é simples: lhe dirão que, à meia-noite, esteja com o
torpedo duas milhas ao sul da base, para levá-lo ao
submarino que então se deixará ver. Isso você pode aceitar.
A outra coisa, não. Quando lhe disserem o modo pelo qual
devolverão sua filha, não aceite. Não importa o que aleguem,
nem que ameacem matar a menina. Não concorde com o que
lhe propuserem. E proponha um outro modo.
— Que... que modo?
— Primeiro, você exigirá uma prova de que sua filha está
viva. Dirá que quer vê-la, ou ouvir sua voz, antes de roubar o
torpedo. Segundo, dirá que a devolução de sua filha em troca
do torpedo se fará longe do submarino, a uns duzentos ou
trezentos metros. Do seguinte modo: dois homens e a menina
deixarão o submarino numa balsa inflável, em direção à
praia. Ao meio caminho entre a praia e o submarino, você os
esperará com o torpedo. Entregará o torpedo em troca da
menina. E eles rebocarão o torpedo para o submarino,
enquanto você nada para a praia com sua filha. Terceiro:
esses dois homens deverão vir desarmados.
— É absurdo! — protestou Manning. — Não aceitarão
essas condições!
— Aceitarão — afirmou friamente Brigitte. — Aceitarão
tudo o que você lhes propuser, em troca do torpedo.
Aceitarão... pelo menos, verbalmente. O que na realidade
pensam fazer, isso é outra coisa. Mas aceitarão. E dadas as
circunstâncias, o pior que pode acontecer é que os dois
homens da balsa cheguem armados.
— Mas nesse caso me matarão, e Eveline jamais poderia
alcançar a praia sozinha. Sabe nadar muito bem, mas se a
distância...
— Também o matariam se levasse o torpedo até o
submarino, Manning.
— Sim, mas... Mas essa gente não pensa cumprir sua
palavra: não tem a menor intenção de devolver-me Eveline!
— Exatamente. Receio bastante que o plano seja matar
você quando estiver junto do submarino com o torpedo.
Depois, escapar com a menina, talvez na convicção de que
ninguém atacará o submarino com ela a bordo... Tudo foi
previsto. Tudo... exceto a intervenção de Brigitte Montfort.
— Não... não a compreendo... — Aldo Manning quase
tartamudeava. — Não sou um covarde. Por mim mesmo,
nada me importaria. Mas...
— Eu compreendo, Manning. Não só acredito em sua
coragem, como estou convencida de que vai ter ocasião de
prová-la. Uma grande coragem, porque não estará em jogo
sua vida, simplesmente, mas a de sua filha. Sim, você
precisará de coragem. E também de muita serenidade.
Aldo Manning esteve alguns segundos em silêncio.
Depois seu olhar pousou no rosto de “Baby”, que
resplandecia banhado de luar.
— Você... vai dirigir tudo isto, Brigitte?
— Vou sim.
— E acha que...?
— Que temos noventa e cinco por cento de
probabilidades a favor.
— Está bem... Está bem, Brigitte: quais são as suas
instruções?
<><><>
— Vejo que é pontual, capitão Manning — disse o
homem.
Aldo Manning olhou-o atentamente. Agora sabia que
aquele homem se chamava, ou se fazia chamar, Bert Tower.
E sabia outras muitas coisas, cada qual a mais interessante...
— Não posso perder muito tempo. Supõe-se que esteja
descansando em meu bangalô, para a prova de amanhã cedo.
— De acordo. Nada de perder tempo. Acha que
conseguirá o torpedo?
— Acho que sim.
— Ontem à noite não parecia tão seguro.
— Descobri o modo. Para uma pessoa fora da base, seria
completamente impossível. Mas para mim, e contando com a
ajuda de três de meus comandados, a coisa pode ser feita.
Hoje fiquei convencido disso.
— Muito bem. Espero que saiba o que está fazendo... e
não esqueça o que tem em jogo, capitão Manning.
— Se o esquecesse — disse secamente o oficial — não
roubaria o torpedo para vocês.
— Claro... Compreendo. Foi uma boa ideia do nosso
informador. Mas passemos ao que interessa... Já viu o
equipamento? Está de acordo com suas especificações?
— Completamente.
— Ótimo. Agora, escute: o senhor roubará o torpedo e se
dirigirá com ele para o sul, a toda velocidade...
— Se falhar um só detalhe de meu plano, na base saberão
que o torpedo saiu de sua câmara.
— E se não falhar nenhum detalhe?
— De nada saberão.
— Cuide, pois de que nada falhe, capitão Manning. Em
seu próprio bem... e no de sua filha. Como dizia, dirija-se
com o torpedo para o sul, a pouca distância da praia.
Digamos... um quarto de milha, mais ou menos. A partir do
momento em que tenha roubado o torpedo até as doze, um
submarino o estará aguardando. Quando tiver percorrido as
duas milhas, utilizará sua lanterna para enviar, mar adentro,
uma mensagem em morse que consistirá numa única palavra:
“torpedo”. Outra lanterna lhe responderá, do submarino.
Então, dirija-se para lá, entregue o torpedo e os do
submarino lhe devolverão sua filha. Compreendido?
— Claro. Mas não aceito as coisas assim.
— Como? Está louco? — perguntou Bert Tower. — Tem
que confiar em nós!
— Até certo ponto. O que desejo é estar seguro de que
me devolverão minha filha.
— Já lhe disse...
— Não me agrada o modo que propôs. Absolutamente
não.
— Bem... Ocorre-lhe outro melhor?
— É possível. Sim, creio que sim.
— Diga-o. Espero que seja razoável, capitão Manning.
— Para mim é. Minha filha está no submarino, não é
verdade?
— Está.
— Então, quero saber se está viva. Isso em primeiro
lugar. E depois quero que seja devolvida do seguinte modo:
dois homens lançarão ao mar uma balsa de borracha e
remarão até metade da distância entre a praia e o submarino,
trazendo minha filha. Nos encontraremos nesse ponto: eu
lhes entrego o torpedo e eles me entregam a menina. Eles
voltam ao submarino rebocando o torpedo, montados nele, e
eu volto à praia na balsa, com minha filha. Naturalmente,
esses homens virão desarmados.
— Está louco? — grunhiu Tower. — Não aceitaremos
isso! Como podemos saber que o senhor não irá armado,
matará os dois homens e voltará para a praia com o torpedo e
sua filha? Mais ainda: poderia torpedear-nos com essa nova
arma...
— Não aceitarei outra coisa.
Bert Tower simulou refletir durante alguns segundos. Por
fim, assentiu sombriamente.
— De acordo. Transmitirei suas condições ao submarino
agora mesmo. Mas quero prevenir-lhe, Manning, que do
submarino os estarão observando com luz negra. À menor
suspeita de que ocorre algo indevido, o senhor e sua filha
serão despedaçados com um canhonaço.
— Eu quero apenas garantir a vida de minha filha.
— De acordo... De acordo! Será feito como deseja. Isto é,
se os do submarino não tiverem objeção.
Sacou um rádio portátil e acionou-o. Tinha o dobro do
tamanho de uma carteira de cigarros e seu alcance podia ser
calculado em não menos de oitenta milhas. Durante alguns
minutos esteve transmitindo a contraproposta de Aldo
Manning, que foi aceita no submarino após breve
deliberação.
— Será como deseja, capitão.
— Quero falar com minha filha.
— Está bem. Façam falar a menina. Seu pai quer ouvi-la.
Passou o rádio a Manning, que o segurou com mãos
trêmulas.
— Eveline... Você está bem?
— Papai! Não são amigos de você! — gritou ela.
Aldo Manning mordeu os lábios.
— Sim, são amigos, Eveline. Não se preocupe...
— Eles me enganaram! Apareceram no jardim do colégio
com uniforme da Marinha e é mentira, porque agora estão à
paisana...
A voz da menina foi bruscamente cortada e em seu lugar
soou outra, de homem:
— Já ouviu sua filha, capitão Manning. Agora, trate de
agir. É tudo.
A comunicação foi interrompida. Manning devolveu o
rádio a Bert Tower.
— Há outro ponto que quero deixar bem claro, capitão
Manning: o senhor e seus homens estarão sob vigilância
durante toda a operação. Como já deve ter compreendido,
temos um elemento nosso na base... Por onde pensam
introduzir-se para chegar ao torpedo?
— Pelo tubo de saída.
— Estarão vigiando essa zona. Mas não se preocupem
com isso: concentrem-se exclusivamente em seu trabalho. Se
nosso colaborador observar algo de estranho no
comportamento dos senhores, me avisará imediatamente por
meio de seu rádio, que estará em conexão com o meu a partir
do momento em que tiver início o sequestro do torpedo.
Tudo bem compreendido?
— Perfeitamente.
— Pois quando quiserem podem começar... E seus
homens?
— Esperando a pouca distância daqui, prontos para
colocar o equipamento.
— Vá buscá-los. E esta é nossa última entrevista, capitão
Manning. Até nunca mais.
Aldo Manning deu meia volta e afastou-se pela praia.
Bert Tower também afastou-se, terra adentro, após certificar-
se de que Manning partia. Então, já entre as palmeiras,
tornou a acionar o rádio de bolso.
— Eu outra vez: Atlantic-3. Pensaram na solução para a
proposta de Manning?
— Eu acho a coisa simples — disse ele, friamente: —
façam o que Manning pede, mas esses dois homens da balsa
devem vir armados. Quando estiverem seguros de que
Manning leva o torpedo, que o matem, e também a menina.
Volto para junto de Atlantic-2 e ambos sairemos daqui esta
mesma noite para o ponto convencionado. É tudo.
Fechou o rádio, guardou-o... e deu-se conta de que algo
não estava bem ao seu redor. Algo que não lograva definir,
mas que o inquietava. Como se houvesse mais alguém ali...
Uma sombra passou diante de seus olhos, velozmente.
Pareceu-lhe que era uma folha destacada de um ramo de
palmeira... Sim, de um daqueles ramos de palmeira
encontráveis pelo chão... Uma visão muito fugaz, porque
logo em seguida aquela folha flexível incrustou-se em sua
garganta. Bert Tower, instintivamente, quis libertar-se
daquela pressão, que já começava a produzir-lhe um
atordoamento. Suas mãos resvalaram frenéticas pela folha
lisa, fria, sem espessura, até encontrar as mãos que a estavam
apertando em torno de seu pescoço, estrangulando-o. Umas
mãos finas, suaves, de unhas ligeiramente pontiagudas...
Umas mãos delicadas, mas cuja força insuspeita revelava-se
naquela tensão inexorável, firme, mortal.
Qualquer coisa pareceu rebentar na cabeça de Bert
Tower. Depois ele ouviu um zumbido agudo, o mundo pôs-
se a rodar vertiginosamente e a escuridão da noite fez-se
absoluta.
Brigitte apertou ainda uns quantos segundos, embora
sentisse o peso do cadáver na folha com a qual improvisara o
laço. Depois, deixou-o cair no chão, ajoelhou-se junto a ele e
pôs a mão em sua garganta.
— Era uma vez um canalha... — murmurou.
Recorreu ao rádio de bolso.
— “Johnny”?
— Esperando no ponto 88, “Baby”.
— Venha ao ponto 101. Encontrará Bert Tower defunto.
Enterre-o a toda pressa por aqui mesmo, na areia. Depois,
faça o que combinamos antes.
— Nenhuma mudança?
— Nenhuma.
— Vou já para aí.
— Mmm... Um momento, “Johnny”...
— Que é?
— Olhe... Bert Tower tem um rádio pelo qual esteve
falando com o submarino, e que parece colocado na mesma
frequência que o do traidor da base. Quero que você recolha
esse rádio e...
<><><>
Aldo Manning e seus companheiros sobressaltaram-se
quando ela apareceu diante deles, junto aos rochedos,
justamente quando terminavam de equipar-se a toda pressa
com os trajos de borracha, os tubos de ar...
— Tudo bem? — perguntou Brigitte.
Douglas, Smith e Parker olharam-na em silêncio. Não
conseguiam compreender aquela garota e sentiam-se
bastante embaraçados. Era tão bonita, tão adorável e
sorridente... E ao mesmo tempo, podia assumir com a maior
naturalidade uma atitude de comandante-chefe, como
naquele momento.
— Tudo bem — sussurrou Manning.
— Certifiquem-se de que os equipamentos estão em boas
condições, de que não haverá falhas a este respeito.
Examinem tudo com o máximo cuidado. E não falem.
Quando estiverem completamente equipados, dirijam-se à
comporta externa do túnel, para entrar na sala do torpedo.
— Não poderemos entrar por essa comporta...
“Baby” olhou firmemente para Ray Smith, sem tomar
conhecimento de sua declaração pessimista.
— Disse para não falarem, Ray. É tudo. Até logo. A coisa
vai ser fácil, depois do contato com o submarino por parte de
Bert Tower.
<><><>
CAPITULO NONO
Uma porção de gente com sono
É provocada uma inundação
Lá vai o torpedo...
O “marine” de vigilância no bangalô número 1 estava
bocejando, aborrecidíssimo. Durante o dia, pelo menos, ia e
vinha gente, era mais divertido. À noite, sentia um sono
atroz, talvez porque estivesse convencido de que nada
poderia acontecer ali, o que tinha o efeito de relaxar-lhe
todos os músculos...
O mau é que apenas há quinze minutos entrara de turno.
Isso queria dizer que até a meia-noite teria que ficar ali. Duas
intermináveis horas de tédio absoluto, e sem poder cochilar.
Mas talvez as coisas não fossem bem assim.
Ouviu o levíssimo ruído na janela aberta do bangalô e
levantou a cabeça, com a esperança de que alguém viesse
visitá-lo, proporcionar-lhe alguma distração.
Tudo o que viu foi um delgado tubo de alumínio num
canto da janela. Um tubo que apontava para ele. Só isso.
Após o primeiro segundo de surpresa, quis erguer-se da
cômoda cadeira extensível, mas justamente então sentiu o
suave golpe no peito. Um golpezinho apenas perceptível.
Baixou a cabeça, viu uma diminuta mancha em sua camisa...
E sentiu aquele cheiro muito tênue. Um cheiro de... de...
E foi tudo.
Caiu para trás, ficando confortavelmente refestelado na
cadeira extensível de lona colorida, a mão direita perto do
refrigerador portátil, que continha refrigerantes e uma
metralhadora. Mas tão profundamente adormecido como
poucos minutos antes estivera desejando.
E quase no mesmo instante, Brigitte “Baby” Montfort
apareceu no bangalô, tendo na mão o tubo de alumínio que
havia disparado a ampola de gás. Deixou-o num canto, abriu
a bolsa e sacou uma caixa de plástico rígido, com seis
pequenas divisões, cada uma delas parecendo conter um ovo
em miniatura, de cristal transparente. Colocou três na palma
da mão esquerda, fechou a caixa e deixou-a junto do tubo.
Depois foi ao alçapão e aplicou-lhe as batidas
convencionais, que já eram pura rotina para quase todos os
membros da base. Logo o alçapão foi erguido algumas
polegadas e Brigitte, em vez de segurar-lhe a borda e acabar
de abri-lo, meteu a mão pela abertura e deixou cair as
ampolas. Em seguida colocou-se sobre o alçapão, fechando-
o completamente. Contou até três, sorriu e saiu de cima do
alçapão. Abriu, desceu e, sempre sorridente, contemplou a
cena pacífica de nove homens tranquilamente adormecidos.
O gás fulminante, de dispersão imediata, tinha feito seu
trabalho.
Agora, era a vez dela.
Subiu novamente ao bangalô, saiu deste e reapareceu dois
segundos depois trazendo um grande embrulho, no qual
destacava-se um par de tubos de ar. Tornou a descer,
fechando bem o alçapão, e, após um golpe de vista ao radar e
demais aparelhagem, dirigiu-se à porta que dava para a sala
do torpedo. Se Aldo Manning não se tinha equivocado, era
só manipular os comandos de tal forma que...
Aberta.
Puxou a porta de aço, entrou e observou o torpedo. Olhou
as horas, contraiu as sobrancelhas, mas com a maior
tranquilidade acendeu um cigarro. Saiu da sala do torpedo e
voltou à de Controle. Sorriu ao ver na tela do radar quatro
pequenos pontos luminosos, que se iam ampliando e
reunindo, até formar um só. O varredor magnético emitia um
“bip” cada vez que passava por aquele ponto, que se tornava
cada vez maior.
Tudo continuava funcionando normalmente ali, sem
alarme. A única ocorrência era que dez homens estavam
dormindo placidamente.
Após um minuto de espera, apagou o cigarro, voltou à
sala do torpedo e dirigiu-se aos controles elétricos. Sempre
seguindo as instruções de Manning, apertou o botão em que
estava escrito “off”. Esperou meio minuto, tornou a apertá-
lo, e apertou em seguida o botão em que estava escrito “in”.
Imediatamente, a comporta interior do tubo se abriu e
quatro homens-rãs entraram, envoltos numa impetuosa
tromba d’água. Infelizmente, não teria sido possível fazer
melhor.
A água desapareceu quase de imediato pelo ralo que
havia na sala e os quatro homens puseram-se de pé,
cambaleantes, algo desnorteados, cuspindo água.
— Lamento... — disse Brigitte, sorrindo. — Mas este
mecanismo, ao que parece, funciona de dentro para fora, não
ao contrário. Estão todos bem?
— Por Deus! — murmurou Douglas. — Você
conseguiu!...
— Não há tempo para assombrar-se: temos que agir.
— Que aconteceu com os dez homens que...?
— Estão dormindo, Manning. Não tema por eles... Se não
acredita e quer perder tempo, vá ao Controle e ao bangalô
para certificar-se. Mas decida-se logo.
— Eu acredito.
— Então, tire os tubos de ar e entre no torpedo. Spencer,
você tem certeza de que saberá lançá-lo?
— Aldo me explicou tudo muito bem.
— Ótimo. Ajude-o, Ray e Ernie, venham cá.
Tirou a saia e a blusa de jérsei, descalçou-se.
Ficou de biquíni diante dos atônitos “marines”, que ao
seu enérgico sinal trataram logo de ajuda-la a colocar o trajo
de borracha, por ela mesma trazido ao bangalô e aos seus
secretos porões blindados. Enquanto isto, Manning, ajudado
por Douglas, tinha-se libertado dos tubos de ar e estava-os
colocando no interior do torpedo, cuja carlinga metálica
havia sido aberta. Depois Manning ocupou um dos assentos,
tendo à sua frente os tubos, os pés-de-pato e os óculos.
— Posso fechar, Aldo? — perguntou Douglas.
— Feche. Lembra-se bem de tudo?
— Lembro-me. Não se preocupe.
— Um momento — pediu Manning. Voltou-se para
“Baby”: — Boa sorte, Brigitte.
— Nós a teremos. Vá.
Ouviu-se um seco estalido e a carlinga fechou-se. O
torpedo reassumira sua forma de tubo brilhante. Dentro, um
homem.
Brigitte acabou de prender às costas os tubos de ar,
sempre auxiliada pelos dois “marines”. Spencer Douglas
tinha apertado um botão do painel de comando e o torpedo já
deslizava para o tubo de lançamento. Justamente quando
“Baby” dava por terminados seus preparativos, a arma
chegava quase ao extremo de saída.
— O cabo? — perguntou ela.
Ernie desenrolou o fino cabo de nylon, estendendo uma
ponta a Brigitte e outra a Smith. Ela prendeu o cabo ao
cinturão de chumbo e Smith atou-o à anilha esquerda da
cauda do torpedo, deixando-a solidamente ligada ao artefato
bélico.
— A prancha subaquática?
— Ancorada no fundo, à saída.
— Bem.
Foi ao pacote e apanhou a pistola aquática, com um tubo
de vinte e cinco centímetros na ponta; apanhou também um
estojo de plástico com seis arpões finos, brilhantes,
prendendo ambas as coisas ao cinturão.
— O torpedo está ajustado às guias, Spencer?
— Está.
— Vamos, então. Adiante, Spencer. Isto aqui vai-se
inundar.
— Se a coisa sair bem, nós colocaremos tudo em ordem,
depois — tentou pilheriar Ray Smith.
— Bastará entrar no tubo, fechar a comporta, deixar que a
água saia e fazer uma revisão dos controles.
— Já? — perguntou Spencer.
Brigitte, Smith e Parker estavam colados à parede
metálica, junto ao orifício de saída do torpedo.
— Já.
Spencer Douglas comprimiu o botão “off”, saltando em
seguida para junto de Ernie, a um dos lados do tubo. A
tromba d’água entrou violentamente, enquanto os quatro
colocavam os bocais dos tubos de ar. Em menos de vinte
segundos, a grande sala do torpedo ficou completamente
inundada. Em seguida, quatro jatos de luz atravessaram a
água tenebrosa. Spencer nadou para os controles e desligou a
fixação do torpedo à guias do tubo de saída. Depois, os
quatro entraram no tubo. Smith aproximou-se do torpedo e
por três vezes, com a lâmina da faca, bateu sobre sua cauda.
Retrocedeu até onde estavam os outros. Cinco segundos
depois, um jorro de espuma branca atingia-os com tremenda
força. Houve uma sucção, um redemoinho, depois um
impacto que os empurrou novamente para a sala. Mas apenas
dois segundos após, Brigitte sentiu o puxão no cabo de nylon
e viu-se arrastada, a pouca velocidade.
Apagou sua lanterna, colocou-a no cinturão e adaptou
habilmente seus movimentos à marcha de arrasto. Saíram do
tubo e os outros apagaram também suas lanternas, após
iluminar um instante a prancha subaquática. O torpedo se
tinha detido e Brigitte submergiu até o fundo, em busca da
prancha. Colocou-se sobre ela, deitada de bruços, passou a
correia nela cintura e deu um puxão no cabo. Mais acima,
Spencer sentiu o puxão e, aproximando-se do torpedo, bateu
sobre a carlinga. Ato contínuo, ele, Parker e Smith subiram à
superfície, enquanto, em baixo, “Baby” Montfort ajustava
adequadamente os ailerons da prancha, de modo a mantê-la
sempre entre duas águas, acompanhando a marcha veloz do
torpedo, arrastada por este.
Na superfície, agora, Aldo Manning tinha corrido a
cobertura da carlinga. Deixou-a aberta, e seus amigos
agarraram-se à borda metálica.
— Foi tudo bem? — perguntou ansiosamente ele.
— Perfeito — murmurou Douglas, ofegante.
— Ela está pronta para quando você quiser, Aldo.
— Bom... Vamos duas milhas para o sul. Agarrem-se
com força, embora eu não pretenda correr demais, pois
temos tempo. Essa garota é... extraordinária! E não penso
que seja do G-2.
O torpedo pôs-se em marcha, deixando atrás uma esteira
de espuma, que brilhava ao luar.
<><><>
Estendido de bruços sobre os rochedos, um homem
estava falando por um rádio cujo tamanho era o dobro do de
uma carteira de cigarros.
— Aqui é Atlantic-1... Formidável: eles conseguiram!
— ...?
— Não, não. Sem alarma de espécie alguma. Tudo está
tranquilo e normal. Não sei como fizeram, mas não serei eu
quem se aproxime agora do bangalô número 1. Retiro-me.
Vocês estão todos no submarino?
— Ótimo. Nos veremos dentro de dois meses, no ponto
combinado... E não se esqueçam da minha parte! O negócio
não foi fácil. Houve momentos em que me pareceu notar
qualquer coisa de estranho...
— ...?
— Não, não... Nada. Tudo saiu bem. Vocês só têm que
esperar o sinal... Ah, outra coisa: Manning vai com seus três
amigos. Não creio que os leve até o submarino. Certamente
os deixará em alguma praia... Mas se os levar, matem-nos
também. É tudo.
<><><>
CAPÍTULO DÉCIMO
Fssss... toc!
Operação salvamento, entre canhonaços
Era uma vez um submarino...
Após deixar seus amigos na praia, duas milhas ao sul da
base, Aldo Manning tinha navegado no torpedo até um
quarto de milha mar adentro. Uma vez ali, deteve o artefato e
lançou o sinal convencionado, com a lanterna.
Imediatamente veio a resposta, de uma distância que
calculou em outro quarto de milha.
Sabia que precisava esperar durante o tempo que os dois
homens levassem para cobrir aquela distância, remando.
Mais ou menos, o tempo justo para ele colocar os tubos, os
pés-de-pato, os óculos... O torpedo mexia-se suavemente
sobre águas negras estriadas de prata. Ouvia-se apenas o
vago rumor do mar, de modo que ele começou a sentir-se
realmente preocupado. Olhou ao redor, mas não viu sinal
algum que dissipasse sua intranquilidade.
Em menos de dois minutos, a balsa de borracha estava ao
alcance de sua vista. Vinham dois homens nela. E entre eles
sua filha, a pequena e sardenta Eveline, a única alegria que
tinha no mundo. Sentiu um nó na garganta e suas mãos
crisparam-se fortemente. Mas permaneceu imóvel,
aparentemente imperturbável.
— Capitão Manning!
— Aqui estou!
— Papai! Papai, quero ir com você! Papai...!
— Não se mova de onde está, capitão Manning!
O oficial da US Navy apenas podia dominar seu tremor.
A voz da pequena Eveline tinha sido como um impacto
definitivo para seus nervos. Mas precisava conservar a
serenidade... Era isso: tinha que ser tão frio como aquela
extraordinária Brigitte Montfort, tão impávido quanto ela.
A balsa ficou enfim balançando sobre a água, a uns cinco
metros do torpedo. Eveline chamava sem cessar por seu pai,
e este se incorporou no assento quase horizontal do torpedo.
— Está bem! — gritou. — Aqui o têm! Venham buscá-lo
e deixem-me chegar à balsa!
— Venha, Manning! Afaste-se do torpedo!
Aldo deslizou para a água e deu umas braçadas para a
balsa, para a angustiada Eveline, que estendia nervosamente
os braços ao Homem-Rã Número Um da Marinha dos
Estados Unidos. Súbito, um dos homens gritou:
— Quer sua filha, Manning! Pois aí tem!
Eveline Manning foi lançada violentamente da balsa, em
direção a seu pai. Ao mesmo tempo, o outro homem
apontava a metralhadora para pai e filha...
Fssss... toc!
— Ai!
Após o breve sibilo, o golpe do ferro contra a carne.
Depois, o grito agônico do homem da metralhadora, que
tombou para frente e caiu no mar, com o fino arpão cravado
nas costas, à altura do coração, no ponto exato.
— Carlos! — gritou o outro. — Que...?
Tinha começado a inclinar-se para apanhar sua
metralhadora, quando ouviu tudo aquilo e seu companheiro
passou diante dele, com o dardo fincado nas costas.
Sobressaltou-se, fazendo balançar mais a balsa. Viu o
companheiro afundar e ficou estupefato, sem compreender...
Afinal apanhou a metralhadora, gritando, e apontou-a para
Manning e sua filha... Quer dizer, para onde os tinha visto
três segundos antes. Já não estavam ali.
— Mas...
Notou o movimento da água à esquerda, viu algo
brilhante. Começou a girar, para apontar a metralhadora
naquela direção...
Fssss... toc!
O homem soltou a metralhadora e suas mãos crisparam-
se no fino arpão prateado que sobressaía uns dez centímetros
em seu peito. Mas foi apenas um movimento reflexo, uma
última contração nervosa, instintiva, porque aquilo se
cravara em seu coração, impelindo-o para trás. Ficou
estendido na balsa, de cara para cima, olhos muito abertos...
Mas não pôde ver o belo rosto que surgiu de um lado da
balsa, nem a pistola aquática de longo cano, com outro arpão
pronto para ser disparado.
Não era preciso.
Brigitte atirou a pistola dentro da balsa e subiu de um
puxão, cuspindo o bocal do tubo de ar.
— Manning! Manning!
Uma sombra separou-se do torpedo, pelo outro lado. À
luz da lua, “Baby” pôde ver Aldo Manning nadando
vigorosamente para a balsa, com a filha num braço e
mantendo o bocal do tubo de ar entre os lábios da menina.
— Aqui! — gritou ele. — Aqui, Brigitte!
Chegou junto à balsa e “Baby” tomou Eveline nos braços,
após desprender o bocal do tubo de ar de seus dentes
apertados. A menina começou a tossir, a chorar, a chamar
pelo pai...
Um clarão brilhou a distância e, quase ao mesmo tempo,
a água espirrou a menos de cinquenta metros da balsa.
— Estão nos vendo com a luz negra... viram tudo! —
gritou Brigitte. — Leve sua filha para a praia!
— Leve-a você!
— Está doido? Não poderia chegar lá com a balsa! E o
perigo para a menina...
— Você pode fazer, Brigitte! Pode e sabe como fazer!
Leve-a!
Outro clarão e, esta vez, a água espirrou a pouco mais de
vinte metros. A balsa rodopiou, após dar um violento
solavanco.
— Papai! Pai, quero ir com você!
— Eu volto já, Eveline!
Afastou-se da balsa, nadando a toda a velocidade para o
torpedo. Agarrando-se a este, libertou-se dos tubos de ar, que
afundaram rapidamente na água negra. Brigitte nem sequer
esperou para vê-lo subir ao torpedo: colocou o bocal de ar
entre os dentes de Eveline, enlaçou-a com força pela cintura
e saltou na água.
Aldo Manning estava subindo no torpedo, a cabeça
voltada para a balsa, quando o canhonaço seguinte fez a água
saltar a menos de dez metros de distância do mesmo, que
pareceu afundar arrastando seu tripulante. Mas tornou a
emergir imediatamente e ele, firmemente agarrado à borda
da carlinga, içou-se de golpe e ocupou o assento.
— Agora... vocês vão ver!
Atrás do torpedo brotou um jato de espuma e a nova arma
saiu à disparada em direção ao ponto onde naquele justo
momento brilhava outro clarão. O impacto produziu-se a
cinco metros apenas, à retaguarda. Um segundo de atraso na
marcha do torpedo e ele teria sido apanhado cheio.
Mas a distância ia-se reduzindo velozmente entre o
torpedo e o submarino. Duzentos metros... cento e
cinquenta... cem... setenta e cinco...
— Agora! — gritou Manning.
Apertou o botão. O torpedo sofreu um leve abalo, deteve-
se... À frente de Aldo Manning, um objeto brilhante, quase
branco, saiu a toda a velocidade, direto ao submarino. A
cauda desprendeu-se e o motor elétrico auxiliar entrou em
funcionamento.
E no mesmo instante, o último canhonaço do submarino
chocava-se com a água imediatamente atrás da última fração
do torpedo.
<><><>
A totalidade da guarnição do acampamento “Top Secret”
estava na praia, após saltar precipitadamente de suas
bicicletas, que foram atiradas pela areia, entre as palmeiras.
Quarenta homens se agitavam em torno do general Pearson e
do coronel Roberts, que se voltava excitado para o
desconhecido que cinco minutos antes aparecera em seu
bangalô.
— Vocês estão loucos! — gritou o coronel.
O tipo alto, louro e de irônicos olhos cinzentos encolheu
os ombros sem se dar o incômodo de responder.
— Pararam de atirar — murmurou o general.
— Devem estar submergindo... E certamente levam o
torpedo! O binóculo!
Um “marine” estendeu-lhe o binóculo, que Roberts
arrancou-lhe das mãos precipitadamente. Certo: o submarino
estava submergindo. Via-o muito bem, com o binóculo e
graças ao brilhante luar. Submergia lentamente.
— Burke, o rádio... Avise imediatamente os Guarda-
Costas!
— Sim senhor!
— Que venham a toda a pressa controlar esta zona,
dentro de um círculo de duzentas milhas! Não os deixaremos
levar o torpedo tão tranquilamente!
O rádio do acampamento começou a transmitir as ordens
do coronel Roberts, que esteve ainda uns segundos olhando o
submarino, enquanto este desaparecia sob as águas, sem que
ele o pudesse identificar.
Quando já não podia vê-lo, baixou o binóculo e olhou os
três homens-rãs da Marinha, mas sem o trajo de mergulhar
adotado pela Marinha, que estavam diante dele, olhando para
o mar.
— Tenente Douglas! Como lhes ocorreu tentar
semelhante loucura, semelhante... ? Prendam- nos! Os três!
Uns quantos “marines” rodearam os homens-rãs, que não
lhes deram a mínima importância. Seus olhares estavam
fixos no mar, com expressão de espanto, de pena...
— “Johnny”!
O grito chegou da beira da água, por cima do rumor das
ondas. Um grito forte, mas em que se notava o cansaço. O
homem que tinha aparecido no bangalô do coronel Roberts
correu para o mar, chapinhando com seus elegantes sapatos
de camurça na água espumosa. Os três homens-rãs também
correram na mesma direção, seguidos dos “marines”.
O coronel Roberts ficou um pouco pálido quando o
tenente Spencer Douglas colocou-se diante dele, com aquela
menina nos braços, uma menina que o cabo Ray Smith e o
“marine” Ernie Parker também estavam querendo segurar.
Ray Smith estava chorando como uma criança, com toda a
força. “Johnny” amparava miss Montfort, que parecia a
ponto de desfalecer.
— Está bem — disse roucamente Roberts. — Que
esperam para atender esta menina e miss Montfort? Tragam
cobertores, ou o que seja... Imediatamente!
“Johnny” deixou de amparar Brigitte, tirou o casaco e
estendeu-o a Ernie Parker, que ajudado pelo emotivo Ray
Smith envolveu o melhor possível o corpinho transido de
Eveline, enquanto Douglas a mantinha em seus braços.
— Ela está bem — disse Brigitte. — Apenas um pouco
assustada e cansada... Mantenham-na bem coberta e
tranquila, que logo se restabelecerá. E não a levem: tem que
esperar pelo pai.
— Vocês... todos vocês estão loucos — repetiu Roberts.
E apontou para “Johnny”. — Se o que me contou este
homem é verdade... vocês estão loucos! Pensam acaso que
Aldo Manning vai regressar? Não ouviram o canhoneio? O
submarino escapou, com o torpedo!
— Por que não espera um pouco, coronel? — sugeriu
amavelmente Brigitte, já inteiramente recuperada. — Está
dando a impressão de que não confia muito em seu Número
Um para casos como este.
— Mas tudo foi mal feito...! Estão loucos!
— Ernie, Ray: apanhem seus tubos e acompanhem-me.
Temos que procurar Aldo Manning.
— Eles estão presos! — exclamou o coronel Roberts. —
Além disso, que esperam encontrar? Não irão coisa
nenhuma...!
Sentiu uma pressão no braço, voltou-se e viu os olhos do
general Pearson fixos nele.
— Autorize-os, coronel, por favor.
— Mas, general...
— Não se perde nada.
— Está bem.
Ernie e Ray correram para seus equipamentos. Iriam com
o menos possível, para deslocar-se mais rapidamente: sem
arpões, sem os cinturões de chumbo... Mas as lanternas, sim.
— Quero ir com papai...
Brigitte aproximou-se da menina, que já se recuperava.
— Ele já vai chegar, Eveline. Você sabia que é o melhor
homem-rã de toda a Marinha dos Estados Unidos? E também
é muito valente... Você não viu, mas eu sim: apesar dos tiros
de canhão, ele disparou o torpedo contra o submarino dos
homens maus que enganaram você... Só mesmo um homem
muito valente...
— Ele morreu... Ele morreu...
— Não, não — Brigitte tentou sorrir. — Você não
acredita que seu pai é o melhor nadador do mundo? Olhe:
antes que você tenha contado até cem, ele voltará... Você
sabe contar até cem, não sabe? Vamos lá: um, dois, três,
quat...
— Brigitte! — gritou “Johnny”. — Na praia!
— Viu, Eveline? — disse “Baby”. — Nem sequer
chegamos ao cinco!
Ernie Parker, Ray Smith, “Johnny” e alguns “marines”
tinham corrido para a praia, diretamente para aquele homem
que estava lutando para se pôr em pé na areia. As mãos
amigas retiraram-no da água, arrastando-o para a praia.
— Estou... estou bem... Estou bem... Eveline... Ernie,
quero ver minha filha... se... se chegou com... com...
Ernie e Ray levaram-no para onde estavam Spencer e
Brigitte, que se adiantaram para ele.
— Papai, papai! Você voltou!
Aldo Manning abraçou Spencer Douglas, ficando entre
ambos Eveline, que rodeou o pescoço do pai com os
bracinhos.
— Você está bem, Manning? — perguntou o coronel
Roberts.
Aldo Manning retirou a filha dos braços de Douglas e
voltou-se para seu comandante.
— Estou bem, coronel. Todos estamos bem, menos eles.
Com o queixo, indicou o mar.
— Eles? Mas escaparam, Manning!
— Não. Não, senhor. Atingi-os em cheio na zona neutra.
Não escaparam.
— Quer dizer que...? Eu vi o submarino submergir!
— Viu-o afundar, coronel. Foi atingido em cheio, repito.
E o torpedo é um completo êxito, pode crer. Além disso,
demonstramos que um homem bem treinado pode fazer
prodígios com essa arma.
— Está delirando... Você fatigou-se em excesso,
Manning. Não sabe o que está dizendo...
Uma explosão surda chegou até a praia. No mar, a menos
de uma milha de distância, levantou-se uma nuvem de
espuma branca, vermelha e negra. Roberts assestou
rapidamente o binóculo. E dentro de poucos segundos uma
forma escura saía à superfície e ficava estendida de lado,
balançando impetuosamente sobre a água coberta de
espumas.
— Hurra! — gritou Ray Smith.
O coronel Roberts olhou fixamente para Aldo Manning,
que sorriu, acariciando a molhada cabeça da filha.
— Parece que sei manejar essa coisa...
— Ignoro como acabará tudo isto, Manning — murmurou
o coronel. — Espero que o general Pearson me ajude a
apresentar os fatos de um modo... convincente. Mas, na
verdade, não sei o que vai acontecer, apesar de que o torpedo
tenha sido um êxito.
— E justamente contra uns espiões — interveio Brigitte.
— Embora seja certo, coronel, que falta o último homem do
grupo... O traidor que existe nesta base.
— Não posso acreditar nisso... Simplesmente não posso!
— Acaso não lhe terei explicado bem? — perguntou
“Johnny”.
— Sim, mas... Não sei... Preferia que não fosse verdade.
Que fosse um falso alarma, e não houvesse traidor algum em
minha base...
— Nós o encontraremos, coronel — afirmou “Baby”. —
E de um modo muito simples. Estão aqui todos os homens de
“Top Secret”?
— Todos.
— Muito bem. Voltemos à base. Que todos fiquem num
só bangalô e, em menos de uma hora, direi quem é o traidor.
— Como... como poderá saber isso?
— Muito fácil... Tem o rádio de Tower, “Johnny”?
— Claro.
Entregou-o a Brigitte, que o levantou, exibindo-o.
— Usarei este rádio para fazer um chamado, percorrendo
todos os bangalôs. Num deles existe outro igual, regulado
para a mesma frequência. Ainda que esteja bem escondido,
não tem importância. Se não foi desligado, ouviremos os
zumbidos de chamada... E no bangalô em que encontrarmos
esse rádio, encontraremos também o traidor. Vamos? Não
demoraremos muito a...
— Hei! — gritou “Johnny”. — Aonde vai você?
Um homem separara-se do grupo e corria
desabaladamente em direção às palmeiras. Antes que alguém
começasse a persegui-lo, Brigitte apanhou um dos fuzis
carregados com arpão, que os amigos de Manning tinham
levado, e disparou-o. O homem lançou um grito quando o
arpão cravou-se em sua coxa direita. Caiu de bruços na areia,
mas quando “Baby” chegou perto dele, seguida pelos
demais, já se tinha virado, o rosto contraído de dor.
— Minha perna... Minha perna...
— Deixem que eu o mate! — pediu Ray Smith, cheio de
ódio. — Miserável traidor!
Vários “marines” se interpuseram entre o ferido e
Spencer Douglas, Ernie Parker e Ray Smith, que certamente
o teriam despedaçado.
— Por quanto faz tudo isto, Williams? — perguntou
Brigitte. — Cem, duzentos, quinhentos mil dólares? Um
milhão talvez?
— Minha perna...
— Achava que poderia chegar antes dos outros, para tirar
o rádio de seu bangalô, Williams? Como você é inocente!
Não pôde compreender que era isso exatamente o que eu
estava esperando? O traidor teria que se denunciar.
— Chester... — murmurou Manning, sempre com
Eveline nos braços. — Como pôde você... como pôde... ?
— Eram quinhentos mil dólares! — gritou Chester
Williams.
— Você me dá pena... Uma grande pena. E uma grande
tristeza, Chester.
— Esqueça-se dele — aconselhou Brigitte. — E pense
somente em homens como Ray Smith, Ernie Parker, Spencer
Douglas... Essas são as pessoas que devem ser lembradas.
— Eles... e você — sussurrou Manning.
DUAS DEDICATÓRIAS
— Olá! — disse Brigitte, estirando-se voluptuosamente
no sofá azul, com o que os olhos de seu visitante brilharam
muito expressivos. — Como vai, tio Charlie?
— Como sempre. Trago-lhe boas notícias.
— Verdade? — Brigitte ajeitou com certo coquetismo
sua elegante saída-de-cama. — Espero que seja certo, para
você vir antes do café da manhã. Estou lendo um livro de...
— Aldo Manning nem sequer será julgado. Nem seus
companheiros de... loucura. Parece até que vão felicitá-los
pela façanha.
— Na verdade é uma boa notícia! — exclamou “Baby”.
— Você é um encanto tio Charlie!
— Isso se deve a você, que conseguiu fazer com que os
do Quartel-General se dispusessem a agir. A CIA, não há
dúvida, tem uma força tremenda.
— O que é ótimo, quando se sabe utilizar... E isso aí?
— Ê um envelope para você. Foi mandado a Washington
e de lá para mim. Tem o seu nome.
Brigitte abriu o envelope e sacou duas fotografias. Numa
delas, em uniforme de gala, estavam Ernie Parker, Ray
Smith, Spencer Douglas e Aldo Manning. A dedicatória era
curta, mas expressiva: “Nossas vidas a seu serviço”. A outra
foto era de Eveline, que sorria graciosamente, como se nada
tivesse acontecido. E a dedicatória dizia: “À tia Brigitte, de
quem gosto muito, muito, muito... Eveline”.
— Ah-ah! — riu Charles Pitzer, chefe direto da mais bela
e eficiente espiã do mundo. — Agora terei que chamá-la Tia
Brigitte! Formidável!
— Estou ficando velha — suspirou “Baby”. — Tenha a
bondade de deixar-me sozinha, tio Charlie... Derramarei
umas quantas lágrimas de tristeza e continuarei lendo meu
livro.
— Ah, o livro... De que trata?
— De espionagem — explicou ela, sorrindo. — E eu me
pergunto, tio Charlie, por que será que os livros de
espionagem me agradam tanto?
A SEGUIR:
A missão da agente “Baby”
desta vez não é das mais
fáceis: matar um de seus
Johnnies, acusado de traição.