© 1977 – LOU CARRIGAN
Publicado no Brasil pela Editora Monterrey Ltda.
Título original: “Objeto 777”
Tradução de Luiz Osvaldo Cunha
Capa de Benicio
520122-520125
MEMÓRIA
Este volume é a continuação da extraordinária aventura
começada no número anterior, 33, desta coleção ZZ7. O
leitor que, por circunstâncias alheias à sua vontade,
evidentemente, perdeu a parte já publicada, poderá encontrá-
la em qualquer banca de jornais do País. E é aconselhável
que o faça, pois a história é realmente fascinante.
Entretanto, para atender à praxe, segue-se um resumo da
parte já publicada. Servirá para dar ao leitor, que teve a
infelicidade de perder a primeira parte, uma ideia da Matéria
Explosiva em que Brigitte Montfort, como jornalista, viu-se
envolvida no misterioso Oriente. Para os leitores que vêm
acompanhando a incrível aventura, este resumo é um ponto
de referência.
Todos sabem quem é Brigitte Montfort, nossa heroína: a
filha de Giselle, A Espiã Nua Que Abalou Paris, cujas
aventuras foram publicadas com exclusividade pela “Editora
Monterrey”. Brigitte, morena espetacularmente bela, de
grandes olhos azuis, fez-se jornalista, trabalhando para o
“Morning News”, o matutino de maior circulação em Nova
Iorque, sob as ordens de Miky Grogan, o simpático redator-
chefe do grande periódico. Entretanto, não pode fugir às
tendências hereditárias que lhe foram transmitidas por sua
extraordinária mãe. Assim, por vocação, tornou-se
simultaneamente agente da espionagem internacional a
serviço da CIA — a Central Intelligence Agency — serviço
secreto dos Estados Unidos, trabalhando sob as ordens de
Alan Pitzer.
Identificada a nossa heroína, passemos aos fatos.
Encontrava-se Brigitte Montfort calmamente passando o
fim-de-semana em sua recém-adquirida casa-de-campo,
perto de Nova Iorque, quando, pelo ar, num barulhento
helicóptero, chega Miky Grogan com notícias
extraordinárias. Dois aviões militares norte-americanos, em
pleno voo, haviam-se chocado, caindo em águas da China
Comunista. O fato em si não teria maior importância, se não
tivesse determinado a concentração de boa parte da Marinha
de Guerra dos Estados Unidos no ponto em que os aviões
caíram, perto de Hong Kong, a fim de recuperar, do fundo
das águas, os corpos de dois pilotos mortos no desastre. Essa
concentração de belonaves, em mares chineses, provocou um
afluxo de jornalistas de todo o mundo para aquela área. A
mera recuperação de dois cadáveres não parecia justificar
tamanho aparato naval.
Brigitte Montfort foi incumbida de fazer a cobertura do
fato para o “Morning News” e, no mesmo dia, seguiu para
Hong Kong. Sua presença tem o dom de precipitar os
acontecimentos, como se ela fosse um agente catalisador (o
que é lógico, pois do contrário não seria nossa heroína e nem
teríamos histórias para contar a seu respeito).
Logo à sua chegada ao Celeste Hotel, encontra uma rosa
vermelha com um bilhete misterioso espetado num espinho.
Comparece a uma entrevista coletiva de altos oficiais da
Marinha de Guerra Americana (em que nada se esclarece),
provoca um rebuliço entre os jornalistas e conhece um jovem
e simpático tenente ianque, Reginald McCoy. É o chefe dos
homens-rãs da US Navy naquele setor; homem-chave no
problema.
Caminhando pelo movimentado e perigoso cais de Hong
Kong, à procura de uma embarcação que a leve ao centro das
operações de busca dos cadáveres, é atraída, por um
rapazinho chinês, a um pesqueiro, onde um velho fumando
ópio almeja o Nirvana. Inexplicavelmente, o velho tem em
seu bolso uma fotografia de Brigitte e consente em alugar-
lhe um barco. O rapazinho chinês, Lin Yuey, leva-a até o
fundo da baía de Bias, num ponto desconhecido dos
repórteres, de onde se pode observar melhor o movimento da
esquadra. Brigitte descobre vários pesqueiros chineses em
aparente tarefa de pesca, inclusive um muito afastado e
misterioso. Tira várias fotografias, mas é surpreendida por
um chinês mau... Mata-o. Quando está para voltar ao barco
que alugara, nota que dois outros chineses estão ameaçando
seu pequeno barqueiro Lin Yuey. Mata-os também...
Quando regressa ao hotel, encontra nova rosa e novo
bilhete misterioso. Três microfones secretos foram colocados
em seu apartamento. Segue a pista do bilhete e descobre um
espião russo assassinado, Fédor Yashin.
Já nesta altura, percebe que sua missão não é mais a de
jornalista, e sim de espiã. Apanha os três microfones que
estavam em seu apartamento e transfere-os para o do tenente
Reginald McCoy, na esperança de ouvir alguma revelação
importante.
Enquanto aguarda a hora de escutar o que se passa no
apartamento de “Reggie” (Reginald McCoy), vai ao saguão
do hotel onde é abordada por um misterioso (tudo é
misterioso...) e muito bem-apessoado chinês, Po Yang. Este
trazia um bilhete dela, Brigitte, convidando-o para um
encontro. Acontece que ela, Brigitte, jamais escrevera aquele
bilhete... (mais mistério).
Depois de namorar um pouco Po Yang e combinar
encontrar-se com ele no dia seguinte, volta ao seu
apartamento, pois já estava na hora de “Reggie” chegar e
queria ouvir qualquer coisa que lhe desse uma pista.
Ao entrar em seus aposentos, percebe que alguém estava
ali, mas tem uma grande surpresa ao verificar que é seu
velho chefe da CIA, Alan Pitzer. Este também não sabe de
nada, mas desconfia...
Enquanto os dois estão examinando as fotografias que ela
tirara pela manhã no fundo da baía de Bias (a esta altura ela
já as tinha revelado e copiado — em Hong Kong os
laboratórios fotográficos trabalham com muita rapidez,
principalmente quando se trata de cópias de fotos
coloridas...), ouvem três tiros no apartamento de “Reggie”,
através do amplificador ligado aos microfones que ela
instalara no apartamento do tenente.
Brigitte corre para lá e encontra o oficial da Marinha
Americana estendido no chão, com três balas no corpo.
Ainda está vivo. Pelos microfones ali instalados, chama
Pitzer que ficara no seu (dela) apartamento...
E neste ponto, exatamente, começa o Segundo Volume
desta excitante aventura. No final tudo se explica e se
esclarece.
Boa leitura, amigo leitor. Divirta-se.
UM
Quando faz falta um amigo — Objeto de arte para um
morto — Um beijo por um cadáver
Reginald McCoy sentiu no rosto a carícia suave de mãos
delicadas, ligeiramente perfumadas. A voz parecia vir de
muito longe, carinhosa:
— Reggie... Reggie...
Com grande esforço conseguiu abrir os olhos. As
pálpebras pesavam tanto que tinha a impressão de estar
erguendo enorme peso, o peito e o estômago ardiam como se
estivessem em brasa.
— Bri... Brigitte...
— Sou eu, Reggie... não se mova. Já pedi ajuda. Vou
chamar um médico.
— É... é inútil...
Começava a sentir nas costas o frio do chão e percebeu
onde estava: deitado, com o rosto para o teto, entre a sala e o
dormitório de seu apartamento. Lembrou-se dos tiros,
aquelas três pancadinhas recebidas no corpo, duas no peito e
uma no estômago. Recordou o homem que surpreendera em
seus aposentos. Não houve tempo para nada: disparou três
vezes seguidas... sim, três vezes.
— Brigitte...
— Quieto, Reggie... Quieto... Talvez a gente ainda possa
fazer alguma coisa.
— Não... não... Quero que você saiba... que você saiba...
Ouviu passos e assustou-se. Ao perceber seu próprio
susto, tentou rir da tolice: já estava quase morto, não havia
razão para mêdo. Mas a dor era muito aguda e teve que
conter o riso.
Um homem aproximou-se, ajoelhando-se ao lado de
Brigitte. Era Pitzer.
— Como está ele? — perguntou.
Ouviu claramente a resposta de Brigitte:
— Não tem salvação. Está com três balas no corpo, duas
no peito e uma no estômago. Perfuração total, segundo
parece. As do peito também são mortais. Não tem mais do
que alguns instantes de vida.
— Parece que ele quer dizer alguma coisa.
Brigitte voltou-se para o moribundo, olhando-o
intensamente.
— Você quer contar alguma coisa, Reggie?
— Foi... foi um... um chinês...
— Sei... continue. Por que atirou contra você, Reggie?
— Não sei...
— Reggie... é preciso que você me ouça com atenção.
Meu nome verdadeiro é Brigitte Montfort mesmo. Não é um
nome falso. É verdade, também, que eu trabalho para o
jornal “Morning News”, de Nova Iorque. Mas quase sempre
que vou ao exterior, faço algum serviço para a CIA. Você
está me ouvindo?...
— Você é uma... uma... mentirosa...
— Não, Reggie. Você precisa acreditar em mim. Olhe, eu
pedi informações sobre você hoje pela manhã, quando falei
com Nova Iorque. Recebi a resposta agora há pouco: você
trabalha para o G-2, o serviço secreto da Marinha, Reggie.
Essas informações eu obtive da CIA. Acredita agora?
— O... o... segredo...
— Segredo? Que segredo? Havia um homem aqui,
Reggie. Eu sei porque coloquei três microfones neste
apartamento. Foi ele quem atirou. Que tem ele a ver com
esse segredo?
— Um chinês...
— Sim, já sei... um chinês. Quem era? Você o conhecia?
— O segredo... o segredo...
— Segredo — repetiu Brigitte. — Que segredo, Reggie?
— Estão procurando... estão procurando... todo mundo
quer...
— Entendo, Reggie... entendo... Mas que segredo?
— Se você... se você... é... é da... da CIA, não deixe que
outros... que outros... o segredo...
Reginald McCoy emudeceu, os olhos abertos, parados,
fixos em Brigitte. A jovem, muito pálida, com as mãos
trêmulas, cerrou-os lentamente. Permaneceu imóvel durante
alguns segundos, sob o olhar de Pitzer que murmurou:
— Há sempre alguém que cai, Brigitte.
— Já sei... É assim que caímos, nós que nos dedicamos a
isto... Mas Reggie era um rapaz agradável, bom. Eu não o
amava, Charlie, mas lamento sinceramente que tenha sido
assassinado de maneira tão estúpida.
— Nunca me cansarei de dizer que você é por demais
sensível, Brigitte. Mas temos que pôr o coração de lado,
querida. Não podemos deixar o cadáver aqui. Se for
encontrado, vai ser uma confusão dos diabos e as coisas
ficariam muito difíceis para nós.
— Sim, isso é claro. Você vai fazer com que ele
desapareça?
— Eu? Impossível!
— Como, impossível? — perguntou Brigitte, surpresa.
— Não tenho gente para isso, Brigitte!
— Pensei que tivéssemos agentes em Hong Kong.
— Sim, temos. Mas são brancos, americanos. Em Hong
Kong, noventa por cento da população é constituída de
chineses e é essa gente que faz os trabalhos menos
importantes. Não posso enviar dois agentes fingindo de
empregados de uma tinturaria ou qualquer outra coisa. Dois
homens brancos fingindo de empregados de uma lavanderia
chamariam mais atenção do que se levassem cartazes
anunciando que pertencem à CIA. No hotel, também, a
maioria dos empregados é chinesa; boys, camareiros,
cozinheiros. Dois brancos ocidentais numa tarefa dessas
atrairiam demais a atenção.
Brigitte mordeu os lábios.
— É... você tem razão. Mas não podemos levar Reggie ao
meu apartamento, porque agora todo mundo está chegando
de volta ao hotel e os corredores começam a ter muito
movimento.
— De fato, está ficando difícil...
— Talvez fosse melhor avisar ao G-2, no porta-aviões...
Eles poderiam cuidar do caso discretamente.
Pitzer ficou pensativo durante alguns instantes.
— Não, Brigitte. Não podemos fazer isso. Preciso que
tudo continue em calma. Eu faria qualquer coisa se esse
rapaz ainda estivesse vivo, embora ferido. Mas já não
podemos fazer nada por ele e temos que pensar em nossa
missão. Você tem que dar um jeito... Resolva da melhor
maneira.
— O quê? Você quer que eu faça desaparecer o cadáver
de McCoy? Mas como?
— Problema seu. Enquanto isso, irei ver um dos nossos
agentes. Talvez ele consiga descobrir algo nestas fotografias.
Ah! Antes que me esqueça: recolha os microfones.
— Está bem. Mas você me deixa com um problema
difícil, tio Charlie.
— Eu sei, e sinto muito. Mas não há outro jeito. Até à
vista, Brigitte.
— Até logo!
Pitzer abandonou o apartamento de Reginald McCoy e a
jovem espiã ficou a sós com o cadáver, pensando em que
fazer. Sem dúvida, tio Charlie lhe havia deixado um caso
meio difícil.
Passou a recolher os três microfones que horas antes
havia colocado no apartamento do pobre oficial e, em
seguida, revistou rapidamente os aposentos, embora
soubesse que não iria encontrar nada de interessante. Em
primeiro lugar, era pouco provável que McCoy guardasse ali
qualquer coisa relacionada com as buscas, ou com o que
chamava de “segredo”. Em segundo lugar, o assassino de
McCoy deveria estar revistando tudo quando foi
surpreendido pelo oficial.
É lógico que teria levado o que fosse digno de interesse.
Mas continuou ali, mais alguns minutos, pensando em
algum jeito de remover o cadáver ou escondê-lo de tal modo
que não fosse encontrado antes da manhã seguinte. Talvez
pudesse colocá-lo debaixo da cama, ou dentro do armário.
Mas isso seria correr um risco muito grande; era preciso ter
certeza de que o cadáver não seria encontrado. E a única
maneira consistia em removê-lo dali. Mas como?
Logo seus companheiros do G-2 dariam pela falta e iriam
procurá-lo. É claro que se dirigiriam primeiro ao
apartamento. Se não o encontrassem, poderiam supor que
estivesse trabalhando ou seguindo alguma pista, e não
ficariam muito preocupados, pelo menos até a manhã
seguinte. Assim, ela teria a noite toda pela frente sem ser
perturbada pelo alarma que inevitavelmente seria dado pela
Marinha. E em uma noite muita coisa pode acontecer...
Apanhou a chave do apartamento, saiu e fechou a porta.
O melhor era ir até os seus próprios aposentos e esconder o
receptor e o gravador que, por enquanto, não tinham
utilidade. No meio tempo, talvez lhe ocorresse alguma coisa.
Já tinha escondido o equipamento, debaixo da cama,
embrulhado num jornal, quando notou a terceira rosa e o
habitual papelzinho, que dizia:
LAMENTÁVEL A MORTE DO RAPAZ DO G-2. LOGO VAI SOAR O
ALARMA. É PRECISO ESCONDER O CADÁVER. EU, DA MESMA
FORMA QUE ESSE SEU TIO CHARLIE, NÃO POSSO AJUDAR. VOCÊ
NÃO TEM AMIGOS NA CIDADE? NOTA: SEJA MAIS CUIDADOSA.
DEVERIA TER REMOVIDO OS MICROFONES ANTES...
Brigitte ficou alarmada. Apanhou de novo o gravador
pondo-o a funcionar. Realmente, toda a sua conversa com tio
Charlie estava gravada ali. O desconhecido que lhe enviava
rosas estivera em seu apartamento enquanto ela e Pitzer
estavam com McCoy. Assim, ouvira toda a conversa e sabia
da presença do inspetor em Hong Kong, embora seu nome
não tivesse sido pronunciado. Isto poderia trazer sérias
complicações para tio Charlie, ou pôr em risco sua vida.
Afinal, ainda não tinha certeza sobre quem era seu “amigo”,
ou se era amigo mesmo. Precisava avisar Pitzer e colocá-lo
de sobreaviso. Mas onde encontrá-lo?
Mais um problema a resolver. Desfez a gravação e tornou
a ler o bilhete, pensativa. Embora imaginasse quem era o
homem que parecia estar em toda parte, saber tudo, ouvir
tudo, não tinha absoluta certeza e não podia arriscar-se. De
mais a mais, quando realmente precisava de ajuda, seu
pretenso “amigo” falhava, e sugeria que procurasse amigos.
Amigos?
Teria ela amigos em Hong Kong? Por que aquela
sugestão? Estava em Hong Kong há muito pouco tempo e,
praticamente, não conhecia ninguém. O único que talvez
pudesse auxiliá-la, embora isso fosse muito problemático,
acabava de ser assassinado. E era para ele e por ele que
precisava de um amigo. Que situação mais irônica!
Que outros amigos teria? Nenhum, é claro.
Principalmente alguém tão compreensivo que a ajudasse a
remover um cadáver do Hotel Celeste! Em primeiro lugar,
esse amigo teria que ser chinês. Em segundo lugar, teria que
ser discreto e competente para efetuar tão delicada operação.
Lin Yuey?
Seria Lin Yuey realmente seu amigo? Talvez não.
Alugara um barco e estava ao seu serviço. Mesmo que
parecesse decente era ainda muito garoto. Entretanto, talvez
conhecesse alguém na zona do cais O cais! As docas!
Brigitte lançou uma exclamação. Correu para a sala e
apanhou em cima da mesinha o cartão com o endereço e
telefone de Po Yang, o chinês inteligente, simpático... mas
que também fazia ocasionalmente um pouco de contrabando
de ópio, segundo confessara.
Ficou olhando para o cartão com uma expressão de
dúvida no semblante. Quem enviara a mensagem a Po Yang,
provocando seu encontro com ela, o fizera com algum
motivo específico, importante. Estaria Yang envolvido no
assunto? Ou queriam envolvê-lo?
Mas isso agora não importava, pois quem quer que
tivesse enviado a mensagem deveria ter o mesmo interesse
que ela em fazer desaparecer o cadáver de Reginald McCoy,
para que não o descobrissem antes do tempo. Quanto ao
assassino, provavelmente queria a mesma coisa.
Po Yang, assim, era o homem lógico para o serviço. A
bela espiã resolveu ir vê-lo imediatamente. Decidiria depois,
segundo a conversa, os passos seguintes. Se Po Yang, como
parecia claro, estivesse envolvido, teria que entrar na jogada.
Não havia outra saída.
Quando Brigitte chegou à rua, Hong Kong começava a
iluminar-se. As avenidas estavam mais cheias de gente; de
gente menos apressada que durante o dia. A jovem esperou
um pouco na beira da calçada, aguardando um rikscha, que
logo apareceu, puxado por um coolie hercúleo.
— Doca número dois, em Hong Kong. Em linha reta e
rápido. Boa gorjeta!
— Sim, madame.
***
Não foi difícil encontrar o armazém de Po Yang: um
grande painel iluminado por uma lâmpada que dizia:
“Chineses Stores - Export & Import — Prop. Po Yang.”
Alguns chineses estavam descarregando um caminhão
cuja mercadoria era transferida para mm cargueiro de bom
aspecto, ancorado próximo. Duas garotas riam e faziam
sinais para os operários do “Chinese Stores”.
Brigitte aproximou-se e perguntou por Po Yang,
Indicaram-lhe uma porta muito grande, embutida num arco,
por cima do qual se viam as janelas que deveriam ser da
residência particular de Yang.
Tocou uma campainha e logo surgiu uma criada chinesa,
de idade avançada e olhar duro.
— Preciso ver urgentemente o senhor Po Yang! Diga-lhe,
por favor, que meu nome é Brigitte Montfort.
A empregada fez com que Brigitte entrasse e esperasse
num pequeno pátio, bastante agradável, mas com cheiro de
mar sujo, petróleo, peixe, fumaça. A velha subiu uma
escadinha e desapareceu pela parte alta da casa.
Instantes depois surgia o próprio Po Yang com uma
expressão de surpresa, mas evidentemente alegre. Desceu
rapidamente as escadas e tomou a mão de Brigitte, levando-a
delicadamente aos lábios.
— Senhorita Montfort, isto é uma felicidade muito
grande para mim. Cancelou seu compromisso desta noite?
— Fui forçada, senhor Yang. Mas se estiver ocupado...
— Para a senhorita, nunca. Permita-me oferecer-lhe a
minha humilde casa...
Brigitte expressou o seu mais doce sorriso e encaminhou-
se para a escada, aceitando o convite. Ficou agradavelmente
surpreendida com o pequeno hall. Todo aquele aspecto rude
do cais havia desaparecido. Notava-se conforto e bom-gosto.
Logo adiante, o espaçoso living, sobriamente mobiliado,
num plano em que se harmonizavam perfeitamente os
estilos. Ali, parecia que o Oriente se encontrava com o
Ocidente, sem atritos.
— Mora aqui, senhor Yang?
— Digamos que é o meu... cubículo. Pretendo em breve
comprar uma vila na parte alta da cidade. Mas, como já
disse, a vida é difícil e dura às vezes... e é preciso trabalhar.
Eu tenho trabalhado muito.
— Acredito. Já reuniu o bastante para o seu palacete no
Peak?
Po Yang disfarçou com um sorriso cortês a surpresa que
lhe causou a pergunta um tanto ousada e fora de propósito,
mas tão característica de Brigitte, como iria aprender mais
tarde. Respondeu no mesmo diapasão:
— O suficiente, para um pouco mais até... Onde prefere
sentar-se?
— Oh! Adoro esses almofadões!
— Esteja à vontade. É agradável ouvi-la dizer isso. O que
é que prefere tomar? Tenho bom uísque inglês, ou
americano.
— Tomarei escocês. Com gelo.
— Com gelo? Muito bem.
Po Yang bateu palmas e a velha chinesa apareceu tão
subitamente que Brigitte chegou quase a levar um susto.
Yang falou qualquer coisa em chinês e a empregada
desapareceu.
— Que lhe disse? — perguntou Brigitte.
— Pedi-lhe que trouxesse uísque com gelo, apenas. Não
fala chinês, senhorita Montfort?
— Ainda não. Mas espero aprender se ficar aqui mais
alguns dias.
Po Yang riu satisfeito.
— Acho que precisará ficar um pouco mais do que alguns
dias para aprender a falar chinês.
Yang sentou-se num almofadão próximo ao dela e ficou
olhando-a fixamente, mas sempre correto e cortês, com um
ligeiro sorriso nos lábios.
— Eu gostaria de poder expressar a satisfação que me
causa a sua vinda — continuou o chinês. — Mas temo que as
palavras não o consigam. Como devo interpretar esta sua
inesperada, mas tão grata visita?
— Seria preciso algum motivo especial para visitá-lo,
senhor Yang?
O chinês sentiu-se novamente desconcertado.
— Não... mas é que... Bom, eu preferiria que não, é claro!
— Pois lamento ter que decepcioná-lo — riu Brigitte. —
Existe um motivo.
— Um motivo? Que não é pessoal?
— Quando trato com um homem que me agrada, senhor
Yang, sempre ponho algo de... pessoal, nesse trato.
— E eu... agrado?
Os grandes olhos azuis daquela mulher fabulosa
concentraram-se de maneira intensa em Po Yang. Inclinou-se
um pouco para ele, entreabrindo os lábios com um ligeiro
tremor sensual e sussurrou lentamente:
— Muito, senhor Yang!
Po Yang tocou de leve o braço de Brigitte. A jovem
sentiu um ligeiro arrepio ao contato daquela mão seca, firme,
agradável, que lentamente subia por seu braço, até alcançar o
pescoço e acariciar a nuca.
Sem que o percebesse, o chinês havia mudado de lugar e
estava sentado a seu lado, na mesma almofada, forçando
delicadamente seu rosto para junto do dele. Seus lábios
estavam muito próximos e ele murmurou:
— Estou convencido... de que você... é uma mulher
sincera.
— Sempre... — sussurrou.
Sentiu a mão de Po Yang baixar pela espinha e o braço
enlaçar-lhe a esbelta cintura. Viu aqueles lábios varonis
aproximarem-se mais ainda e sentiu que desejava ser
beijada.
Quando seus lábios se tocaram, correspondeu cálida e
docemente ao beijo. Sentiu o tremor do corpo do chinês, e
gostou.
Suavemente afastou seus lábios dos dele, olhando-o
fixamente nos olhos.
— Po Yang, eu disse a você que sou uma mulher sincera,
sempre... Mas talvez não seja bem assim. Pelo menos em
relação a certas coisas...
— Seu beijo foi sincero, Brigitte.
— Sim, foi. Mas vim aqui não só para beijá-lo.
A velha criada chinesa surgiu na sala trazendo uma
bandeja, com uma garrafa de uísque, copos e um balde de
prata com cubos de gelo, e desapareceu de maneira tão
silenciosa quanto a sua chegada.
Po Yang acariciou delicadamente o ombro de Brigitte.
— Qual a outra razão da sua visita?
— Preciso de ajuda.
O chinês assentiu com a cabeça.
— Conte com ela.
— Mas ainda não lhe disse que espécie de ajuda.
Po Yang sorriu secamente.
— Não importa. Qualquer que seja, conte com ela.
— Mas você está compreendendo que eu estou querendo
alguma coisa de você, Po Yang?
— Sim, eu sei.
— E você não se importa?
— Sim. É claro que me importo. Mas se os seus beijos
forem todos iguais e sinceros como o primeiro, compreendo
tudo perfeitamente. Agrado você, mas ao mesmo tempo você
precisa de mim. E uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Diga-me, o que é que tenho que fazer?
— Você é um homem... surpreendente.
— Não muito. Aqui em Hong Kong, já vi mais coisas do
que aquilo que você possa imaginar, Brigitte. Conheço as
pessoas. E acho que... mesmo que você não tivesse vindo a
necessitar de mim, amanhã à noite jantaríamos juntos. E
teríamos nos beijado. Apenas, antecipamos esse beijo porque
você veio a precisar de mim. Mas são duas coisas
independentes, o beijo e o auxílio que você precisa. Por isso,
creio que devo ajudá-la. É uma questão à parte...
— Sou-lhe muito grata.
Po Yang sorriu de novo.
— Uma pedra, ou duas?
— Só uma.
O chinês serviu o uísque e estendeu o copo a Brigitte.
Esperou que ela provasse e perguntou:
— Que devo fazer?
— Várias coisas... Você poderia emprestar uma das
lanchas pequenas?
— Sim.
— É para ir...
— Já sei. Você quer ir até perto da zona onde estão
realizando as buscas. Você é jornalista, isto é natural. Todos
estão tentando a mesma coisa. Já recusei várias ofertas para
alugar as lanchas.
— E você vai alugar uma a mim?
— Alugar? — riu Po Yang. — Quanto você quer pagar?
— Po Yang, não quero envolver você nesse assunto. A
lancha tem que ser alugada.
O chinês pôs-se a pensar durante alguns segundos.
— Compreendo. Você acha que poderão advir
complicações para mim e quer salvaguardar a minha
responsabilidade. Está bem, alugo a lancha, o que é muito
diferente de emprestá-la.
— Isso mesmo, Po Yang.
— Bom. Você me dá um dólar e no recibo eu coloco três
zeros depois do um. Fica bem assim?
— Ótimo, Po Yang.
— Resolvido o caso da lancha, que mais você precisa?
— Bem... Eu lhe disse que havia cancelado meu
compromisso desta noite... por ter sido forçada.
— Sim... sim... Foi o que você me disse quando chegou.
Aconteceu alguma coisa?
— Mataram um homem.
Po Yang não se alterou.
— Não é coisa fora do comum em Hong Kong, Brigitte.
Esse homem... era o que ia jantar com você esta noite?
— Sim...
— E o que é que eu posso fazer?
— Preciso que esse cadáver não seja encontrado... por
enquanto.
— Eu o removerei e esconderei. Diga-me onde está.
— Po Yang, não quero que você aceite estas coisas
como... como uma fatalidade. Você tem o direito de negar-se
a me ajudar nisto...
— Sei disso. Mas eu quero ajudar você. E suponho que
você prefere que eu não faça perguntas.
— Creio que seria melhor para nós dois.
— Pois não pergunto — sorriu o chinês. — Onde está
esse homem?
— No Celeste Hotel. Apartamento 326. É um tenente da
Marinha americana, Reginald McCoy.
Po Yang revelou uma expressão de perplexidade.
— Um dos homens que...
— Era o chefe dos homens-rãs, segundo dizem. Ou seja,
o melhor homem entre os que buscam o cadáver do piloto,
com equipamento submarino.
— Suponho que... que não foi você quem o matou.
— Não, não fui eu.
Po Yang mostrou-se um pouco indeciso.
— Sei que disse que não ia fazer perguntas, Brigitte,
mas... Bem, manterei a palavra.
— Obrigada, Po Yang. Explicarei o que for possível, mas
depois. Você poderá retirar esse homem do hotel?
— Posso. Apartamento 326, não é?
— Sim.
— De quanto tempo disponho?
— Não muito... Quanto antes, melhor. Como é que você
pretende fazer?
— Bem... digamos que o oficial americano encomendou
um objeto de arte e dois de meus homens vão levá-lo a seu
apartamento para que o examine melhor. Como não
encontram o tenente, voltam para o armazém com o objeto.
Este será bastante volumoso, e precisará de uma caixa
grande... Que lhe parece?
— Perfeito, Yang. Esta é a chave do apartamento...
Suponho que seus empregados são discretos e... de
confiança.
— Um homem como eu, que às vezes faz tráfico de ópio,
sempre precisa de alguns homens discretos e de confiança,
Brigitte — sorriu Po Yang.
— Mais alguma coisa?
— Por enquanto não. E se você não fizer objeção...
— Você precisa ir?
— Esta noite, sim.
Yang assentiu com a cabeça e levantou-se, ajudando
Brigitte a se pôr de pé também. Enlaçou-a suavemente pela
cintura e trouxe-a para junto de si. Brigitte passou-lhe os
braços pelo pescoço, cerrou os olhos e entreabriu os lábios
para receber a carícia do beijo de Po Yang...
— Tenho... tenho que ir-me — murmurou ela.
— Levarei você até o portão e irei cuidar imediatamente
do assunto... Para quando vai você precisar da lancha?
— Não sei ainda.
— Ela ficará pronta para partir a qualquer momento, a
contar de agora.
Conservando o braço em torno da cintura de Brigitte, Po
Yang levou-a até a porta. Desceram ao pequeno pátio e,
antes de abrir o grande portão de madeira, o chinês voltou a
beijá-la, prolongadamente. Em seguida, sem dizer palavra,
abriu o portão e com um gesto suave fez Brigitte passar para
o lado de fora. Ela sorriu, deu-lhe um ligeiro beijo nos lábios
e afastou-se. Voltou- se, poucos passos depois, mas o portão
já estava fechado. Po Yang não era dos que perdem tempo.
Brigitte, agora, guardava absoluta certeza de que o
maneiroso chinês estava envolvido no assunto. Mas
descobrir que espécie de interesse o movia era tarefa para um
pouco mais de tempo. No momento, a luta se armava. E se
Po Yang retirasse o cadáver de Reginald McCoy do hotel,
ela não tinha nada a perder.
Foi caminhando em direção à saída do cais por entre
chineses, malaios, hindus e até um ou outro branco, que a
olhavam de maneira expressiva. Viu um rikscha estacionado
a pouca distância. Reconheceu imediatamente o coolie
musculoso que a havia trazido até ali. Estava esperando,
provavelmente na esperança de tornar a servir uma
passageira tão generosa. Brigitte resolveu não decepcioná-lo,
encaminhando-se para tomar aquele mesmo carro e ver
como...
— Continue andando — disse uma voz ao lado dela —
mas não em direção ao rikscha! vá pela esquerda, até o
automóvel negro!
Brigitte voltou ligeiramente a cabeça e viu o homem. Um
pouco mais adiante havia outro, com a mão direita no bolso
do paletó, como o que estava a seu lado. Ambos eram de
raça branca.
Mas Brigitte compreendeu imediatamente que não iam
tratá-la de maneira tão amável quanto o complacente
negociante chinês chamado Po Yang.
DOIS
Bola de carne — O barqueiro Mao Tsé-tung — O amigo,
quem é?
Caminhou até o automóvel. O homem que a
acompanhava abriu a porta de trás, fê-la entrar e sentou-se a
seu lado. O outro colocou-se a® volante e Imediatamente
pôs o carro em marcha.
Brigitte notou que as janelas de trás tinham cortinas
fechadas.
— Aonde vamos? — perguntou, dando à voz uma
entonação doce e suave.
— Logo verá.
— Vocês são ingleses?
— Cale-se.
— Vê-se logo que não são ingleses — sorriu ela — nem
americanos. Devem ser russos, mas afirmo-lhes desde já que
não tive nada a ver com a morte de Fédor Yashin.
O homem do seu lado voltou-se e Brigitte conseguiu ver
apenas o brilho duro de seus olhos. A zona portuária ia
ficando para trás. Tomaram por uma rua que desembocava
em Victoria Road. Pelos vidros da frente filtravam-se as
luzes multicoloridas da cidade. Via-se a grande multidão de
anônimos caminhando incessantemente do repouso ao
trabalho. Tudo aquilo estava parecendo à Brigitte um
estranho filme cinematográfico, silencioso e sem sentido.
— Pretendem matar-me?
— Tudo depende de você — respondeu o homem,
rispidamente.
— Como assim? Que esperam de mim?
— Por enquanto, que se cale. Logo saberá o que lhe
interessa.
O carro começou a subida em direção ao Peak e dava
tantas voltas que Brigitte, mal conhecendo Hong Kong,
sentia-se perdida. De quando em quando percebia o cais,
cada vez mais baixo. As embarcações iluminadas pareciam
estar encolhendo.
Quase bruscamente surgiram as vilas, de ambos os lados
da rua. Pouco depois, iam-se espaçando. Eram maiores e
ocupavam terrenos mais amplos. Formosas vivendas, com
motivos bem chineses nos gradis, mas já modernas,
profusamente iluminadas, de luzes coloridas.
Finalmente e de modo inesperado, o carro parou diante de
uma vila. Os portões abriram-se, imediatamente, mas antes
de o automóvel entrar, Brigitte conseguiu ver o dragão
vermelho feito de tubos fluorescentes, sobre um dos pilares
do portão. Por baixo, também em gás néon, o nome da vila,
condizente com a figura, e o número da residência: Red
Dragon — 2 347.
Notou que o portão fora aberto por um chinês vestido à
europeia, o que era estranho. Mas, a rigor, em Hong Kong
nada era de se estranhar.
O carro seguiu em frente, por espaçosa alameda, até uma
casa muito grande, a uns cem metros da entrada. Vila
moderníssima e luxuosa, rodeada de jardins e gramados,
cercada de amendoeiras, salgueiros e pinheiros. Passaram
junto a uma piscina e quadras de tênis. Canteiros de cravos
chineses e tulipas davam poesia ao estranho lugar.
Pararam diante da residência.
— Se tiver armas, é melhor entregá-las agora. Creia-me,
é um bom conselho, senhorita Montfort — disse o homem ao
lado de Brigitte.
— Acredito. Eu estava estranhando que vocês não me
tivessem revistado. Parecem até civilizados.
E dizendo isto, levantou a saia, retirou a pistola da coxa e
entregou-a ao homem que olhava sorrindo, entre divertido e
maravilhado.
— Não tem outra? — perguntou ele.
— Não.
— Bem, então desça.
Brigitte obedeceu. O que havia dirigido já estava do lado
de fora, aguardando. Quando o outro desembarcou, deu um
ligeiro empurrão em Brigitte, ordenando:
— Caminhe.
Amplo lanço de escadas levava a uma espécie de
plataforma em cujo centro se encontrava uma coluna com
caracteres chineses, tendo no topo imensa lanterna, também
chinesa, de cor verde e vermelha.
A porta principal da residência foi aberta por um chinês
silencioso com aspecto de mordomo oriental. Brigitte
lançou-lhe um olhar indiferente e entrou num amplo hall
cheio de objetos de arte chinesa, almofadas, lâmpadas de pé,
jarros com flores. Seus dois captores a seguiam bem de
perto, dando-lhe pequenos empurrões para indicar a direção
a seguir. Deteve-se diante de outra porta. Um dos homens
adiantou-se, abriu-a e fez sinal com a cabeça para que
entrasse. Brigitte apenas pôde conter uma exclamação de
assombro, pois sentiu-se num instante transportada para o
coração da autêntica China.
No meio de uma sala enorme em cujas paredes viam-se
quadros antigos, armas, leques e tapetes de seda bordada,
via-se um tanque em cujas águas recobertas de lótus
nadavam algumas carpas. Do centro do tanque jorravam para
o alto três fios de água vermelha, caindo graciosamente
sobre a superfície do pequeno lago. A cor vermelha era
conseguida por luz indireta.
Ao fundo, unia porta de vidro dava para um jardim cheio
de bambus. No chão, delicadas esteiras e grandes almofadas.
O teto era todo de vidro e, através dele, viam-se já as
primeiras estrelas que surgiam e a lua pálida em quarto
minguante.
— Agrada-lhe a minha humilde casa, senhorita Montfort?
Brigitte voltou-se rapidamente para um lado, onde
acabava de acender-se uma luz azulada, indireta também.
Sentado num monte de almofadas bordadas com motivos
florais, dragões, montanhas, pagodes, estava o homem que
havia feito a pergunta. Um chinês. Era o homem mais
incrivelmente gordo que Brigitte já havia visto em toda a
vida. Parecia uma bola imensa de cores castanha, cinzenta e
amarela, um verdadeiro monstro de carne com olhos, se é
que se podia chamar de olhos aqueles dois pontinhos
brilhantes metidos entre enormidades de banhas.
Trajava um quimono de seda, vermelho e preto, e tinha a
cabeça completamente raspada, brilhante. Suas mãos eram
duas bolas de onde saíam projetos de dedos, tão grossos
quanto os pulsos de Brigitte. Estava descalço, exibindo uns
pés assombrosos como dois globos. Aparentemente era de
pouca estatura, o que lhe emprestava aspecto ainda mais
grotesco.
Passado o primeiro instante de estupor, Brigitte recuperou
seu habitual controle e sorriu.
— Esta casa não me parece humilde, senhor. É
magnífica.
— Aceite meus expressivos agradecimentos. Ela está
desarmada? — perguntou aos dois brancos que a haviam
trazido até ali.
— Sim — respondeu um deles.
Não havia mais ninguém ali. Apenas Brigitte, os dois
homens que a trouxeram e o chinês monstruoso.
Este fez um sinal de assentimento com a cabeça.
— Bem... Não quer sentar-se, senhorita Montfort?
Brigitte aceitou, respondendo:
— O senhor é muito amável.
O chinês procurou sorrir da melhor maneira possível.
— Mas só por enquanto, senhorita. Não se deixe enganar.
Posso ser muito amável, ou terrivelmente cruel. Tudo
depende...
— De mim, não é? — sorriu Brigitte,
— Exato. Permita-me dizer-lhe que é extremamente
linda!
— Claro! Mas com uma condição.
— Sim? Que condição?
— Que o senhor me permita dizer-lhe que é
extremamente repugnante!
A massa informe de banha e carne começou a agitar-se e
Brigitte levou alguns segundos para compreender que aquilo
era uma manifestação de riso incontrolável por parte do
fabuloso chinês.
— Sei — admitiu ele. — Sei muito bem que meu aspecto
se diferencia radicalmente do de Po Yang.
— Radicalmente é a palavra certa, senhor. Po Yang é um
homem. Quanto ao senhor... não sei que tipo de bicho é...
As banhas voltaram a agitar-se, e quando o gordo
conseguiu controlar-se disse num meio sorriso:
— Senhorita Montfort: está tentando desafiar-me para
mostrar que não tem medo?
— Mais ou menos isso, senhor,
— O que é uma insensatez, bela senhorita. A mim,
porém, pouco me interessa, pois no final das contas quem vai
arcar com as consequências dessa insensatez é a senhorita
mesma, e não eu. A não ser que cheguemos a um acordo.
Antes de qualquer coisa, porém, quero que compreenda
perfeitamente, sem a menor sombra de dúvidas, que não tem
a menor possibilidade de... digamos, sobreviver a esta
entrevista.
Brigitte sorriu seu mais encantador sorriso. Abriu a bolsa,
tirou um cigarro e acendeu-o com seu isqueiro de platina e
brilhantes.
— E que mais, senhor?
— Vejo que tem imensa confiança em si mesma... em
suas possibilidades. A que se deve isso?
— Sempre tive muita sorte.
— Ah! Para começar, entregue seu isqueiro a Bárian, por
favor. Acho que uma fotografia minha, tirada com um
isqueiro tão bonito, seria uma peça de museu... policial.
Além disso, não sou muito fotogênico e de qualquer maneira
a senhorita não vai poder utilizar essa fotografia.
— O senhor é muito vivo, cavalheiro.
E dizendo isto Brigitte estendeu o isqueiro a um dos
homens a seu lado, que o colocou no bolso.
— Agora podemos continuar nossa conversa —
prosseguiu o chinês. — Como eu estava dizendo há alguns
segundos, é pouco provável... para não dizer impossível, que
a senhorita consiga sair daqui viva. Compreenda que esta é
uma vila solitária, sob certa forma. Todos me conhecem em
Hong Kong e sabem que levo vida retirada, que raras vezes
recebo visitas.
— O que não o impede de aplicar a sua inteligência,
senhor... Suponho que desse... pedestal almofadado o senhor
comanda certos serviços de... informação, por assim dizer.
Novamente as banhas começaram a sacudir.
— Estou vendo que vai ser um prazer conversar com a
senhorita. Mas peço-lhe que chamemos as coisas por seus
nomes verdadeiros. Por que dizer informação, quando nós
dois sabemos que a palavra correta é espionagem?
— Como queira — replicou Brigitte.
— É muita amabilidade sua. Realmente, daqui, por mais
difícil que pareça, dirijo uma importante rede de
espionagem. Bem, é claro, talvez não seja melhor que a dos
ingleses, ou a dos americanos. Mas sei que algumas pessoas
estão muito satisfeitas com meu trabalho. Muito contentes,
mesmo.
— Naturalmente, o senhor está-se referindo à MVD.
— Talvez.
Brigitte olhou para ele, ironicamente.
— Senhor repugnante: não tínhamos combinado que
daríamos às coisas o nome certo?
— De fato! Tem razão a senhorita, trabalho para os
russos. Isto a surpreende?
— Que bobagem, senhor! Nada me surpreende.
— Ótimo!
E dizendo isto o gordíssimo chinês mudou o tom de voz,
para prosseguir:
— Bem, franqueza por franqueza: para quem está
trabalhando?
— Para o Pato Donald.
O homem chamado Bárian avançou um passo em direção
a ela com a mão direita erguida, mas o chinês conseguiu
fazer um gesto para contê-lo.
— Seu senso de humor é admirável, senhorita, mas vai
lhe custar lágrimas de sangue.
— Fim do drama — caçoou Brigitte.
As enormes bochechas do chinês moveram-se
ligeiramente, dando a impressão de estar sorrindo.
— Meu nome é Tao Tsing e, como ia dizendo, tenho
certos... interesses em Hong Kong. Grandes e rendosos
interesses, senhorita Montfort. Vendo a minha inatividade
física, é pouco provável que me julguem agente de
espionagem. No entanto, sou um agente. E muito bem pago
pela Rússia. Apresento-lhe Bárian e Oglof. São russos.
Assim como o pobre Fédor Yashin, antes de seus amigos o
matarem. Agora não é nada, apenas um cadáver.
— Meus amigos? O senhor está muito mal informado.
— Talvez. Po Yang não é seu amigo?
— De certo modo, sim.
— Oh! De certo modo, não é? Bem, talvez seja amigo
bastante para matar Yashin porque este lhe carregou a
máquina fotográfica, senhorita. Assim, Po Yang livrou-se de
Yashin, fez-lhe um favor e ainda ficou com a máquina. Foi
pena a senhorita não ter tido tempo de avisá-lo de que a
máquina estava descarregada.
— Se foi ele quem atirou em Yashin, como é que o
senhor sabe que a máquina estava vazia?
— Muito simples: Yashin comunicou o fato por telefone.
Creio que a senhorita sabe que Yashin estava no Celeste
Hotel como jornalista.
— Não me interessei por isso, pois era lógico.
— A senhorita sabe o valor do tempo. Tempo é dinheiro,
como dizem seus amigos ingleses e americanos. Portanto,
creio que não vai fazer objeções e entregar imediatamente as
fotografias,
— Que fotografias? Não tirei fotografia alguma.
— Oh! Sim! Tirou sim, que eu sei. E parece que muito
interessantes.
— Não tirei fotografia alguma.
— Senhorita Montfort: quando esteve na baía de Bias,
num estranho pesqueiro, Bárian e Oglof a viram. Eles
estavam num certo lugar, muito longe para que pudessem
fazer qualquer coisa. Mas com os bons binóculos que
tinham, viram tudo o que aconteceu. Não conseguimos saber
quem alugou o pesqueiro e a levou até lá porque, como
vocês dizem, todos os chineses são iguais.
— Todos não.
— Já sei. Mas eu sou diferente. Sob muitos aspectos.
Mas, continuemos: Bárian e Oglof a viram e a identificaram
porque a conheciam do hotel. Então, quando você
abandonou a baía de Bias, eles avisaram a Yashin que você
tinha algumas fotografias que haviam provocado a... a ira de
alguns homens que estavam por lá. Como é natural, essas
fotos despertaram a nossa curiosidade. Mas você parece
inteligente, além de bela, e já havia colocado as fotos a
salvo. Agora, quero que me explique uma coisa que não
consigo entender...
— O que é?
— Aqueles três homens que você matou tão
elegantemente estavam a serviço de Po Yang. Disso nós
temos absoluta certeza. Você os mata. .. e acontece que é
amiga de Po Yang. Como se explica isso?
— Podem ser duas coisas. Uma, que não sou amiga de Po
Yang. Outra, que eu não sabia que eles trabalhavam para Po
Yang.
— Absurdo! As duas alternativas são absurdas, senhorita.
— Sinto muito se não acredita em mim, Tao Tsing.
— Você quer que eu creia que Po Yang e você não estão
trabalhando juntos?
— Para que quadrilha trabalha Po Yang, senhor Tsing?
— Para... Oh! Estamos perdendo tempo. Sabe de uma
coisa que me está ocorrendo, e que me parece muito
divertida?
— Deve ser alguma piada.
— Talvez seja. A piada consiste em mandar a Po Yang a
sua cabeça de presente, senhorita.
— Ele tem objetos de arte melhores — sorriu Brigitte. —
Em todo caso, acho que é uma boa ideia. Mas talvez Po
Yang fique aborrecido com isso.
— Ê possível. Mas Po Yang e eu nos conhecemos bem.
Procuramos nos respeitar mutuamente, dentro do razoável. É
claro que chegará inevitavelmente o dia em que teremos que
nos defrontar.
— E como é que vai chegar até ele? Rolando?
Novamente as imensas gorduras de Tao Tsing
sacolejaram.
— Esta piada também é muito boa. Mas é mais cômodo
viajar de automóvel. Olhe: acabemos logo com esta
conversa, porque eu me canso muito. Vamos direto ao
assunto: alguma coisa está acontecendo na baía de Bias e eu
quero saber o que é. Po Yang tem lá uns tantos homens, que
eu vou deixando em paz, enquanto me for conveniente, ou
até que encontrem o que procuram. Pois aí tirarei deles o que
quer que tenham encontrado. Mas, enquanto isso, quero ver
estas fotografias e fazer-lhe algumas perguntas que espero
sejam respondidas com rapidez e seriedade.
— As fotografias, não as tenho. Mas talvez responda às
suas perguntas.
— Vejamos. Primeira: que espécie de estranhas relações
existem entre você e Po Yang?
— Estranhas como?
— Muito estranhas, sim. Primeiro você mata três de seus
homens e depois ele vai visitá-la muito cordialmente. Aí
você vai vê-lo... O que há entre vocês?
— Nós nos sentimos irresistivelmente atraídos um pelo
outro.
Os pequenos olhos de Tao Tsing quase desapareceram no
fundo das suas gordas pálpebras.
— Segunda: o que é que estão procurando?
— Ostras com pérolas.
— Terceira: quem é o chinês que levou você até a baía de
Bias?
— Mao Tsé-tung.
— Quarta: que ligações tem você com homens brancos,
quem são eles e onde estão?
— São russos e estão em Moscou. Mande-lhes
lembranças minhas.
Tao Tsing levantou-se, devagar, mas não de maneira tão
pesada quanto seria de esperar. Era, de fato, de baixa estatura
e parecia mais monstruoso em pé do que sentado.
— Sinto por você, Brigitte Montfort.
E dizendo isto o gordo chinês dirigiu-se aos dois russos:
— Levem-na para as argolas.
Oglof e Bárian tomaram Brigitte pelos braços levando-a
até uma parede revestida com um painel de bambus.
Afastaram algumas ripas descobrindo duas argolas, das quais
pendiam várias tiras de pele. Ataram os pulsos de Brigitte,
sob o olhar frio e impenetrável de Tao Tsing.
Foi só quando a espetacular jovem estava firmemente
amarrada que ele se aproximou. Trazia na mão direita um
chicote curto e Brigitte compreendeu que aquele ia ser o
castigo menos severo que Tao Tsing estava disposto a
infligir- lhe.
—Sim... — murmurou o chinês. — Sinto muito por
você...
Repentinamente, sua mão esquerda agarrou o vestido de
Brigitte pelo decote. Seus enormes dedos crisparam-se na
fazenda leve e puxaram com força, arrancando o vestido
quase que completamente... Mais uns dois ou três puxões
violentos arrancaram as peças íntimas e Brigitte se viu nua
diante dos três homens, os braços erguidos, amarrados pelos
pulsos às argolas de ferro.
Tao Tsing acariciou, com a mão esquerda, os formosos
seios da espiã internacional e a jovem estremeceu de asco.
— É uma lástima, senhorita Montfort, que estes seios tão
maravilhosos, dentro em pouco, estejam transformados em
postas de carne esgarçada...
Bárian e Oglof olhavam hipnotizados o corpo escultural
de Brigitte, exposto diante deles como um regalo Inesperado
para seus olhos.
— Olhem — murmurou Tao Tsing. — Olhem bem,
porque, dentro em breve, vocês não vão reconhecê-la... Este
corpo perfeito estará em tiras... Ela, porém, estará viva...
muito viva. Tão viva que ainda poderá sentir a dor de outras
torturas, mais violentas... No começo, não doerão tanto
quanto as chicotadas, mas pouco depois sentirá o corpo
ardendo em fogo e pedirá aos gritos que a matemos... Olhem
bem agora, porque, quando eu a deixar, vocês não a
reconhecerão e aquilo que vocês agora tanto desejam lhes
dará nojo...
TRÊS
Fantasma no Dragão Vermelho — Pinceladas rubras na
semiobscuridade — Muitas perguntas e poucas respostas
Tsing levou a mão para trás e, repentinamente, num gesto
brusco, rápido, para a frente. O chicote curto, manejado
horizontalmente, atingiu em cheio o ventre de Brigitte. Ela
estremeceu, pareceu querer saltar e mordeu os lábios para
abafar um grito de dor.
— Como vê, senhorita Montfort — disse calmamente o
chinês — procuro atingir as partes que não prejudiquem a
sua beleza. Mas isto é só por enquanto. Logo chegaremos ao
rosto, ou aos seios... E é uma pena... Não quer responder a
nenhuma das minhas perguntas?
Brigitte não disse palavra. Sentia o ventre como se
estivesse encostado a um ferro em brasa, queimando de um
lado a outro. Tornara-se de uma palidez mortal. Se tivesse a
menor esperança de que poderia salvar a vida se falasse,
talvez contasse alguma coisa... Mas não podia sacrificar
Pitzer e, possivelmente, algum dos agentes da CIA em Hong
Kong.
Não podia falar.
Se pudesse esclarecer as estranhas circunstâncias que a
aproximavam de Po Yang... Mas sabia que Tao Tsing não se
conformaria apenas com essas revelações e continuaria
torturando-a, até que soubesse tudo. E ela não podia dizer
nada, pelo menos enquanto conseguisse aguentar o castigo...
A segunda chicotada atingiu-a um pouco mais abaixo. A
dor foi tão intensa que as pernas bambearam. Chegou quase
a ficar pendurada pelos pulsos. '
— Ainda está em tempo de morrer com a sua beleza
intacta. Não quero iludi-la: você está condenada à morte...
Mas há várias maneiras de morrer. Quer responder às minhas
perguntas, quer?
— Desmaiou — disse Bárian, acercando-se da jovem.
— Pois reanime-a! Não podemos ficar a noite toda com
ela. Vocês precisam voltar a Hong Kong para vigiar Po
Yang. Pensei que a MVD fosse mandar mais do que três
agentes, Bárian.
— O cais não parecia muito importante — contestou o
russo.
— Talvez não seja... Mas, importante ou não, vocês
levarão as informações. Isso eu garanto. Acorde-a.
Bárian ergueu a cabeça de Brigitte, segurando-a pelos
cabelos.
— Está sem sentidos — repetiu.
— Já me disse isso. Faça-a voltar a si.
— Vou tentar.
O russo não parecia muito satisfeito com aquilo, mas, no
final das contas, tinha ficado perfeitamente claro que Brigitte
Montfort fazia parte de um dos sistemas de espionagem que
se encontravam em Hong Kong... E isto significava que
Brigitte havia aceitado de antemão tudo quanto pudesse lhe
acontecer. A espionagem não é brincadeira.
Bateu-lhe nas faces, violentamente; primeiro na esquerda,
depois na direita. Brigitte moveu-se ligeiramente, gemendo,
e Bárian voltou a bater-lhe nas faces.
A pouco e pouco, a garota foi abrindo os olhos e
procurou entender o que ocorria em torno, num estado de
semiconsciência.
— Acho que você não tem muita resistência — disse o
chinês. — Como eu temia, o chicote é muito violento para
você. Teremos que experimentar outra coisa... Será mais
doloroso, mas você resistirá melhor porque é um pouco
mais... suave.
O rotundo chinês deixou o chicote e apanhou uma vara de
bambu que tinha uma das extremidades trabalhada a faca,
formando vários estiletes, finíssimos e pontiagudos.
— Este é um método que inventei não faz muito tempo
— prosseguiu o monstro. — Repare nesta vara: é de uma
variedade muito resistente de bambu. Se eu queimar estas
pontas, ficarão incandescentes... serão como agulhas de aço
ao rubro. Penetrando na carne de um ser humano, o estrago
será considerável... Contínua sem querer responder às
minhas perguntas, senhorita Montfort?
Brigitte permaneceu muda. Sempre tinha ouvido dizer
que toda resistência humana tem limite. Sabia de casos em
que agentes da CIA, submetidos a torturas, tinham por fim
delatado alguns de seus companheiros. Naquele instante,
compreendia a cautela do inspetor Pitzer em não deixar que
um agente soubesse quem eram os outros e onde se
encontravam. Pitzer, velha raposa, sabia que em dado
momento, em situações como aquela em que se encontrava
Brigitte, a resistência física do espião, sua integridade, deixa
de existir e ele se entrega...
E quando Brigitte percebeu a situação, começou a rir um
tanto espasmodicamente.
— Sua coragem é admirável, senhorita Montfort. Mas
acabará cedendo. Mais tarde ou mais cedo, você vai dizer o
que eu quero saber.
— Não... não posso, Tao Tsing... — gemeu Brigitte. —
Pela simples razão de... de que... nem ao menos sei... onde...
onde encontrá-los ...
— Ah! Isso quer dizer que seus companheiros não são Po
Yang e seu bando, senhorita Montfort... Estou enganado?
Brigitte compreendeu a armadilha em que caíra. Ergueu a
cabeça o quanto pôde e olhou Tao Tsing com o máximo de
altivez que conseguiu concentrar, dizendo com a voz fraca,
mas ríspida:
— Engana-se.
— Não creio. Talvez você nos faça uma revelação
interessante e surpreendente. Sei que você chegou dos
Estados Unidos, o que me causou mais estranheza quando
soube de suas relações com Po Yang. É possível que você
não seja do grupo dele e esteja fazendo um jogo particular.
Ou será que você é da CIA? Ou do MI5? Que espécie de
combinação ou arranjo existe entre você e Po Yang,
senhorita Montfort?
Brigitte limitou-se a esboçar um sorriso de mofa.
Tao Tsing dirigiu-se a um canto da sala onde havia um
pequeno braseiro de bronze, artisticamente decorado com
motivos chineses e que mantinha constantemente aquecida a
água para o chá. Aproximou das brasas os estiletes talhados
na extremidade da vara de bambu. Em poucos instantes, as
agulhas começaram a desprender pequenas colunas de
fumaça e logo ficaram incandescentes. Voltou então para
junto de Brigitte.
Aproximou o bambu com os estiletes em brasa a menos
de dois centímetros do rosto da jovem e ameaçou:
— Observe isto, senhorita Montfort. Posso fincar estas
agulhas em qualquer parte do seu corpo. Será como se
estivessem arrancando pedacinhos da sua carne com uma
pinça em brasa! Mas você resistirá melhor do que às
chicotadas. E se desmaiar, quando voltar a si terei preparado
algo muito melhor. Quer responder às minhas perguntas?
— Posso eu responder, Tao Tsing? — disse uma voz
forte e serena, vinda do fundo da saia.
O chinês lançou uma praga que parecia vir de uma
caverna. Voltou-se e cambaleou um pouco em virtude da
rapidez que tentou dar a seu movimento.
Oglof e Bárian foram muito mais rápidos, procurando
com o olhar o homem que havia falado, enquanto Brigitte
soltava uma exclamação:
— Fantasma!
Foi um grito de profunda alegria, de alívio, quase de
vitória e de pranto ao mesmo tempo.
Os dois russos apenas ouviram o grito: ainda não tinham
acabado de se virar completamente, e de um ponto diante
deles, mal iluminado pelas luzes indiretas, brotaram dois
disparos em rápida sucessão, abafados pelo silenciador.
Foram duas pinceladas rubras na semiobscuridade do
ambiente.
Bárian recebeu a bala no centro da testa e saltou
involuntariamente para trás, sem haver chegado a tocar sua
pistola. Deu um volteio grotesco e caiu já morto aos pés de
Brigitte.
Oglof chegou a sacar a pistola que trazia no bolso, mas
não conseguiu dar ao gatilho. A bala, que lhe fora destinada,
atravessou-lhe o coração. Ficou parado, como que
petrificado. Permaneceu uma fração de segundo imóvel e
começou a cair lentamente.
Tao Tsing conseguiu localizar o homem, inteiramente
vestido de negro. Estava parado num canto, junto a uma
porta disfarçada na parede.
— Não se mova, Tao Tsing — disse aquela voz, dura,
seca. — Temos que conversar.
Tao Tsing se pôs a correr em direção aos vidros que
davam para o jardim de bambus. Movia-se como se estivesse
rolando, parecendo uma gigantesca bola de carne agitada,
fremente.
Mas o homem de negro lançou-se como uma flecha e
chegou à porta de vidro antes que o chinês. Este fez um
esforço imenso para reduzir sua corrida cambaleante e
ergueu o bambu com os estiletes ainda em brasa para atirá-lo
como lança. Mas não conseguiu: o homem de negro avançou
e aplicou-lhe violento pontapé no ventre descomunal.
Tao Tsing lançou um grito fino e agudo que não tinha
nada de humano. Largou o bambu e retrocedeu alguns
passos, como se estivesse rodando sobre si mesmo. Enterrou
as gordas mãos no ventre parecendo querer arrancar dali uma
ferida insuportavelmente dolorosa.
Mas não pôde evitar outro pontapé de seu antagonista,
quase no mesmo lugar, porém mais violento que o primeiro.
O chinês perdeu a cor e caiu ao solo, rolando sobre suas
banhas e gritando como se o estivessem estraçalhando.
A imensa mão do homem de negro, queimada de sol,
vigorosa, agarrou Tao Tsing pela gola do quimono e
arrastou-o até a borda do tanque, ignorando o enorme peso
daquela massa disforme. Largou-o ali e ordenou:
— Dispa-se!
— Não... Não!
— Não?
O amigo de Brigitte apanhou a vara de bambu caída no
chão, aproximou as pontas ainda ardentes do rosto de Tao
Tsing e disse:
— Eu não ameaço como você, hipopótamo idiota. Veja.
E dizendo isto enfiou os estiletes em brasa nas bochechas
rechonchudas do chinês, num gesto de ódio e desprezo. As
pontas penetraram as banhas como uma faca aquecida
penetraria um bloco de manteiga. As pontas de bambu em
brasa partiram-se, ficando dentro da carne de Tao Tsing que
lançava gritos subumanos, ajoelhado numa atitude de prece
inútil.
O desconhecido agarrou de novo o chinês pela gola e
colocou-o de pé. Com um safanão violento atirou-o dentro
do tanque. A água respingou por todos os lados e as carpas
fugiram assustadas para um canto.
A cabeça de Tao Tsing surgiu desesperada na superfície
do tanque, que não tinha mais do que uns setenta centímetros
de profundidade. O homem de negro havia saltado para
dentro da água e, de pé, com a vara de bambu forçou a
cabeça horrenda novamente para o fundo do tanque. O
chinês virou de lado e conseguiu soltar-se voltando à tona
em busca de ar. O desconhecido esperou que ele se
levantasse e deu-lhe violento soco no estômago seguido de
uma série alternada, à esquerda e à direita da imensa barriga.
Tao Tsing pareceu desinchar, encolher. Começou a
dobrar-se sobre si mesmo, afundando lentamente na água do
tanque, entre seus lótus e carpas. Sem a menor piedade, o
desconhecido afundou a cabeça do monstro no tanque,
segurando-a pela nuca asquerosa. Bolhas de ar subiram à
superfície. O chinês sacudia-se desesperadamente, mas o
homem de negro não cedeu a pressão de sua mão de ferro.
As bolhas continuaram subindo, subindo, subindo.
Um minuto depois, haviam cessado completamente. O
homem retirou a mão e o corpo de sua vítima girou ficando a
barriga para cima, como imensa boia, enrolado em alguns
ramos de lótus.
O agente saiu do tanque e aproximou-se de Brigitte.
Acariciou ternamente o rosto formoso e murmurou:
— Como rainha universal da espionagem, sua situação
não é das melhores.
Brigitte conseguiu esboçar um sorriso.
— John... John Pearson... Meu querido Fantasma... Eu
sabia que era você quem estava me ajudando!
— Você acha mesmo que eu ajudei em alguma coisa?
— Ora, John! Não seja tão... britânico. Por favor, solte-
me.
— Por que esse “britânico”? Você pretende...
— John, por favor, solte-me! Depressa! Estou com frio e
há mais dois chineses aí fora.
Brigitte calou-se porque naquele instante Pearson, o mais
ousado agente do MI5, o Serviço Secreto Britânico, puxou
do cinto uma faca que ainda trazia manchas de sangue
fresco, começando a cortar as tiras de pele que atavam os
pulsos da bela espiã às argolas de ferro. Enquanto a soltava
murmurou:
— Havia dois chineses, querida. Acontece que um...
britânico deu-lhes uma demonstração de manejo de faca.
— Matou-os?
— Não havia outro remédio. Em um deles tive que enfiar
a faca três vezes nos rins, enquanto tapava sua boca por trás.
O outro, infelizmente, foi preciso liquidar num estilo mais de
açougueiro, mas a culpa foi dele. Como é que você está,
Brigitte?
Ajudou-a a manter-se de pé, abraçando-a pela cintura.
— Sinto-me como... como ressuscitada, Fantasma
querido. Como fui estúpida! Eu deveria ter reconhecido você
naquele mendigo hindu!
John Pearson apanhou do chão o vestido rasgado e deu-o
a Brigitte, olhando-a amorosamente enquanto ela cobria sua
nudez.
— E quando foi que você finalmente descobriu tratar-se
de mim?
— De repente, por certos pormenores. Quando me vieram
à lembrança os olhos daquele mendigo asqueroso e ousado.
Você deve ter pensado que eu estava perdendo as faculdades
mentais por não reconhecê-lo, John.
— Algo assim. Acho melhor cairmos fora daqui o quanto
antes, embora não acredite que ainda haja mais alguém neste
fantástico Dragão Vermelho. Você pode caminhar?
— Oh! Sim.
Passaram junto ao tanque e Brigitte parou para olhar Tao
Tsing. Apanhou a vara de bambu e com ela tocou o corpo
grotesco, que se moveu como uma medusa na água.
— Parece um sapo — murmurou ela.
— Pior que um sapo — sorriu Pearson secamente. —
Vamos, não convém perder mais tempo.
Saíram da casa e percorreram a alameda até o portão da
vila. Ali Brigitte viu o cadáver do chinês que deixara o carro
entrar quando ela chegou prisioneira. Estava caído de costas
para o chão, o rosto crispado.
— E o outro? — perguntou.
— Tive que matá-lo dentro da casa. Esteve a ponto de
surpreender-me, mas felizmente minhas faculdades auditivas
ainda funcionam muito bem. Viu-me um segundo antes que
lhe desse a primeira facada e tive que maltratá-lo um pouco
para que não gritasse.
— Oh! John! Por minha causa você matou cinco homens!
— Não sou um bom amigo? — riu Pearson. — Bem,
agora não é necessário pular o gradil como um ladrão
qualquer.
E dizendo isto abriu o portão de par em par, convidando
Brigitte a sair.
A maravilhosa agente da CIA, o vestido roto e o corpo
maltratado, deixou a vila quase rindo. Era inacreditável estar
viva, tornar a ver a rua, as pessoas, sentir de novo a vida, ela
que chegara a considerar-se morta. Que felicidade voltar a
encontrar o “Fantasma”, seu velho amigo e competidor em
tantas aventuras.
— Tenho um carro um pouco mais adiante — disse ele.
— Vamos para lá e conversaremos no caminho de volta para
a cidade.
Pouco depois, os dois se acomodaram no carro e Pearson
ofereceu cigarros de um maço que tirou do porta-luvas.
— Meu isqueiro! — exclamou Brigitte. — Bárian ficou
com ele. Preciso ir buscá-lo!
E dizendo isto saltou do carro e se pôs a correr em
direção à vila. Voltou alguns minutos depois, correndo ainda
e cambaleante de cansaço. Pearson olhou para ela, incrédulo.
— Você é um assombro! Voltar àquele lugar por um
simples isqueiro... Qual!
— Não é tão simples assim. Contém uma câmara para
microfotografias.
— Imagino. Mas que tem isso? Por acaso a CIA não
podia fornecer outro? Por falar nisso, querida, espero
merecer cópias ampliadas dessas microfotos.
— Que microfotos?
— As que você tirou de Bárlan, do outro e de Tao Tsing.
Ou você acha que sou tão bobo assim?
Brigitte desatou a rir.
— Prometo, John. Mandarei para você lindas ampliações
desses monstros.
— Muitíssimo agradecido. E agora, um cigarro?
Dizendo isto colocou um cigarro entre os lábios de
Brigitte, mas pensou melhor: tirou o cigarro, beijou os lábios
da jovem e voltou a colocar o cigarro na boca da
companheira.
— Você, sempre tão deliciosa. Para o Celeste?
— Claro! E a sua fantasia de mendigo?
— No porta-malas. Tenho que trocar de roupa
constantemente, de maneira que não tenho outro remédio
senão levá-la comigo. Encontrou alguma coisa interessante
nas fotos da baía de Bias?
— Que fotos?
— As que estão com Lin Yuey.
— Você também sabe disso? — exclamou Brigitte.
— Sei tudo. Ou quase tudo. Preciso dizer que Lin Yuey
está trabalhando para mim desde o primeiro instante. Você
não desconfiou?
— Não. Não de todo. Estranhei que o chinesinho me
levasse aonde não tinha levado ninguém, aonde seus
companheiros não queriam ir. Desconfiava de alguma coisa,
mas...
— Quando eu soube que você vinha para Hong Kong,
compreendi que ia tentar algo. Era lógico. Ora, você ia
precisar de uma embarcação, de maneira que lhe emprestei a
minha.
— A sua?
— A de Lin Yuey. Disse-lhe que você apareceria no cais
e que ele deveria alugar o barco a você e levá-la aonde ele
me havia levado nos dias anteriores. Cheguei até a dar-lhe
uma fotografia sua, querida, para que a reconhecesse.
— Oh!
— E, como sempre, você teve mais sorte do que eu. Creio
que não sou um agente secreto muito ruim... o que é que
você acha?
— Você é o melhor de todos... depois de mim, é claro.
Pearson sorriu, atento ao caminho que descia até Hong
Kong, agora já completamente iluminada.
— Isso é um grande elogio, vindo de você, meu amor.
Durante três dias fui à baía de Bias com Lin Yuey sem que
nada acontecesse. Você chega, empresto-lhe uma
embarcação e, na primeira viagem, as coisas começam a
acontecer, tudo entra em movimento. Você organiza um
grande rebuliço, morrem homens, você mesma quase
morre... Você tem algo de especial, boneca.
Brigitte estava pensativa.
— Quer dizer que Lin Yuey deixou você ver as
fotografias que eu lhe entreguei?
— É... Endereçadas a um tal de Charlie Montfort, o qual,
naturalmente, é um personagem falso, já que você não tem
família. De fato, rompi o fiozinho que você colocou no
envelope.
Brigitte tomou a rir.
— Não tem importância, John. Eu me sinto tão contente
por estar de novo com você que nada tem importância! E
agradeço muito os bilhetinhos. Sobretudo as românticas
rosas vermelhas. Onde é que você está hospedado?
Pearson voltou-se para ela com ar de surpresa,
— No Celeste Hotel, naturalmente. Mas... que foi que
aconteceu com Reginald McCoy, o homem forte do grupo de
homens-rãs?,
— Não sei. Eu havia instalado os três microfones no seu
apartamento, mas só consegui ouvir algumas palavras e os
tiros. Faz muito tempo que você sabia que ele era do G-2?
— Apenas há 24 horas. Diga-me a verdade, Brigitte.
Você sabe o que está acontecendo na baia de Bias?
— Não.
— Não precisa dizer o que está acontecendo. Diga apenas
se sabe ou não de que se trata.
— Com toda sinceridade, John. Não sei.
— E não conseguiu descobrir nada com as fotografias?
— Absolutamente. São fotografias bastante medíocres.
Seu único mérito, e assim mesmo bastante relativo, é que
foram tiradas de muito mais próximo que as outras.
— Apesar disso, várias pessoas as querem, Brigitte.
— Não posso imaginar por que, John. A propósito, você
mandou alguma nota, escrita com a minha máquina, a um
chinês chamado Po Yang?
— Não.
— Sabe quem matou Fédor Yashin?
— Tampouco.
— Nem quem matou Reginald McCoy?
— Também não.
— Isso quer dizer que nós dois estamos navegando à
deriva... — murmurou Brigitte, mais para si mesma.
— Nem tanto. Sabemos que alguns chineses estão
procurando qualquer coisa na baía de Bias. Refiro-me aos
dois que você fotografou perto da costa, e não aos que estão
mais afastados, reunidos em vários pesqueiros. É evidente,
Brigitte, que esses dois homens não estavam ali pescando...
— Então, que faziam? Estavam procurando a mesma
coisa que os homens-rãs norte-americanos?
John Pearson, aliás, o “Fantasma”, ergueu as
sobrancelhas.
— Parece-me um pouco difícil que dois homens, apenas,
possam competir com um grupo altamente treinado de
homens-rãs da Marinha dos Estados Unidos. Com tanta
vigilância, sem qualquer equipamento, dois homens
sozinhos...
— Tao Tsing afirmou que eles trabalhavam para Po
Yang.
— Isso pode ficar interessante... Que espécie de relações
há entre você e esse tal de Po Yang? Confesso que fiquei
espantado quando ele visitou você no hotel e mais ainda
quando você foi visitá-lo.
— Foi seu espanto que me salvou a vida, querido. Fez
com que você me seguisse até o Dragão Vermelho... Quais
as relações entre mim e Po Yang? Não sei bem... Ele é um
chinês bem-apessoado, mas tem seu jogo próprio nesse
negócio todo. Estou certa disso. Começa que aceitou sem
titubear a tarefa de remover o cadáver de McCoy lá do
hotel...
— Ótimo! Assim teremos umas tantas horas de liberdade
antes que a Marinha dê o sinal de alarma, Mas, no final das
contas, estamos mais ou menos como no princípio...
— Com a diferença de que nos livramos dos agentes
russos...
— O que de fato é tranquilizador. O que você pretende
fazer agora, querida?
— Primeiro, trocar de roupa. Depois... não sei. Creio que
preciso comer alguma coisa. Estou morrendo de fome!
— Não conte comigo! — riu o “Fantasma”. — Nem tente
me descobrir no Celeste Hotel. Meu disfarce ali é muito
cuidado, bem estudado. É claro que não estou registrado com
o nome de John Pearson, nem como “Fantasma”...
— Você é um fantasma autêntico — sorriu Brigitte
carinhosamente. — Ora aparece completamente de negro,
ora de mendigo, ora de... sei lá! Só espero, querido, que a
vida continue nos reunindo muitas e muitas vezes...
— E para quê? — suspirou desanimado Pearson.
— Não se desespere — riu Brigitte, maliciosamente. —
Quando a gente menos esperar, acontece...
— Amém — resmungou Pearson. — Você se importa se
eu deixar a algumas quadras do hotel?
— Você precisa... transformar-se?
— Isso mesmo. E quando chegar ao hotel, não pergunte
por um homem alinhado, de olhos cinzentos, cabelos
avermelhados, sorriso simpático e aspecto inteligente. O
carro também não servirá de pista. Okay?
— Está bem! — riu Brigitte. — Não me interessarei por
você... Espero, porém, que você não tencione perder-me de
vista, querido.
John Pearson limitou-se a sorrir. Pouco depois,
estacionava o carro uns oitocentos metros antes do hotel e
olhou para a jovem espiã com uma expressão de tristeza.
— Sinto ter que deixar você aqui, meu amor.
— Você já fez muito, John... — suspirou ela. — Nunca o
esquecerei.
Beijou-o na boca e deixou o carro, que se afastou.
Brigitte continuou a pé o resto do caminho até o hotel.
Embora fosse somente por aquela vez, pretendia respeitar
os desejos do “Fantasma”, que havia merecido muito mais
do que um beijo...
QUATRO
Brinquedo perigoso — Jogo escondido
Quando Brigitte entrou em seu apartamento, notou
novamente que o papelucho entre a porta e a esquadria não
estava no lugar. Parou na entrada, vacilante, mas Pitzer logo
surgiu, vindo do dormitório e levando um dedo aos lábios
em sinal de silêncio.
A jovem sorriu e entrou, seguindo o inspetor da CIA até o
dormitório para onde ele voltara.
— A estas horas creio que você já sabe que levaram o
cadáver, chefe. Chegou a ver os chineses que...? Mas, que
está se passando?...
O inspetor Pitzer estava com o rosto pálido,
extremamente abatido e cansado.
— Temos que agir depressa, Brigitte.
— Bem — murmurou Brigitte, meio alarmada. — O que
é que há agora?
— Já sabemos o que a Marinha norte-americana está
procurando. O cadáver do piloto foi encontrado ontem à
tarde, mas as buscas continuam.
— Compreendo. A CIA conseguiu saber... O que é que
estão procurando?
— Um segredo...
— Oh!... Reginald McCoy falou disso antes de morrer,
mas não explicou...
— É uma bomba nuclear, Brigitte!... Uma bomba H!
Apesar de sua serenidade habitual diante das coisas mais
extravagantes, Brigitte não pôde conter seu espanto. Deu um
passo atrás e levou as mãos ao rosto que ficara tão pálido
quanto o de Pitzer, os olhos desmesuradamente abertos.
— Uma bomba... H?!
— De tipo completamente novo. Segundo parece, sua
potência é o dobro da última que se fabricou desta série. Para
efeito de transporte, foi batizada com o nome de “Brinquedo
Perigoso”...
— Mas... mas... que faz uma bomba dessa categoria em
águas chinesas? — balbuciou Brigitte.
— Estava sendo transportada de uma base norte-
americana para Huê, a antiga capital Imperial do Vietnã e
hoje cidade principal e importante base do Vietnã do Sul.
Vinha do arquipélago de Ryu-Kyu, onde nossas Forças
Armadas têm instalações. Trace uma linha reta no mapa, de
Ryu-Kyu até Huê, e verá que o ponto onde os aviões caíram
fica nessa linha. O menor deles era o que levava a bomba...
— Mas não explodiu!...
— É porque estava sem a espoleta. Mas esse... esse
“Brinquedo Perigoso” está com o resto de seu mecanismo,
inclusive a carga atômica. E agora encontra-se no fundo do
mar, em qualquer ponto da baía de Bias... Compreende agora
o que os chineses do pesqueiro solitário estavam
procurando?
— Não!... Não pode ser... É impossível que dois homens
pensem que podem, sozinhos, apoderar-se de um objeto que
deve pesar pelo menos mil e quinhentos quilos!
— Dois mil e duzentos, aproximadamente. E, com
relação à sua incredulidade sobre o que esses homens estão
procurando, quero que veja o que os nossos companheiros de
Hong Kong conseguiram com as fotos que você tirou.
Pitzer retirou de um bolso interno as fotografias de
Brigitte, juntamente com um envelope maior.
— Tiveram que fazer o máximo de ampliação possível e
temos que admitir que foi um trabalho rápido e eficiente...
Fabuloso mesmo. Agora, preste atenção a este detalhe
fotográfico ampliado. Corresponde a um lado do pesqueiro
solitário e, segundo parece, você tirou esta foto quando os
dois chineses se inclinavam sobre a água... para recolher a
rede. Olhe com atenção.
Brigitte apanhou a foto, um tanto nervosa, examinando-a
atentamente. De repente, lançou uma exclamação e mordeu
os lábios, indicando com um dedo um ponto na fotografia.
— Mas isto é...
— Um homem-rã. Se não fosse pela cor do rosto e por
esse débil reflexo no vidro da máscara, não teríamos podido
distingui-lo, nem mesmo nesta foto ampliada. O homem está
em descompressão, já quase na superfície. Agora que o
localizamos, observe os detalhes, tão interessantes... Não há
dúvida de que está com uma roupa de borracha, mas a cor é
entre o verde-claro e o azul-claro. Não se veem os pés-de-
pato, mas devem ser da mesma cor. Entretanto, podemos ver
claramente que a cor do vidro da máscara é também um
misto de azul e verde-claro. O mesmo acontece com os tubos
de ar, a boquilha, o rifle do arpão...
Brigitte sentou-se na beira da cama e suspirou:
— Deus meu!
— É lógico que esse homem-rã não pode estar só. Um
homem apenas não conseguiria nada. Nem dois ou três. Dois
mil e duzentos quilos são muitos quilos, mesmo contando
com a ajuda da pressão da água. Se descontarmos o peso que
representa essa pressão, ainda assim a bomba pesaria uns mil
e quinhentos quilos, talvez mil, o que ainda é muita coisa.
Entretanto, é evidente que...
— Querem apoderar-se do “Brinquedo Perigoso”.
— É o que achamos.
— Mas isso é absurdo!
— Por quê?
— Porque...
Brigitte calou-se. Ficou pensativa enquanto Pitzer acendia
um cigarro olhando-a com curiosidade.
— Por quê? — insistiu carinhosamente.
— Não... Não é absurdo. É até possível. Deixe-me ver as
outras fotos.
Pitzer fez um gesto de aprovação.
— Creio que você percebeu, Brigitte.
A jovem pôs-se a examinar as fotos dos vários pesqueiros
chineses que se achavam bem à vista na baía de Bias.
Formavam uma espécie de círculo, um tanto deformado, mas
sempre um círculo. Murmurou para si mesma:
— Estes homens... estes pesqueiros, estão esperando que
os homens-rãs com equipamento cor de mar localizem a
bomba H. Podem esconder-se em qualquer ponto, burlar a
vigilância dos americanos... Em qualquer lugar e a qualquer
momento. Basta ficarem imóveis... É como se estivessem
perfeitamente ocultos. Se conseguirem localizar o
“Brinquedo Perigoso”, poderão amarrá-lo com cabos de
aço... que seriam puxados por todos os chineses nesses
barcos de pesca. Assim, o “Brinquedo Perigoso” seria
deslocado para perto da costa...
— Onde um caminhão, ou qualquer outro veículo,
poderia encarregar-se dele — finalizou Pitzer. — É fácil
compreender a utilidade desse engenho para os chineses. Se
a bomba chegar até a China comunista, seus técnicos a
estudarão e... bem, não nos iludamos: se os chineses
conseguirem um modelo do “Brinquedo”, a fabricação de
outras bombas deste tipo é apenas uma questão de tempo.
Imagine o que significaria para eles possuir uma bomba H
norte-americana... Não os planos, ou notas, ou
microfotografias conseguidas por um bom espião... mas a
própria bomba, completa, montada, inteirinha... analisariam
os materiais de que é feita, sua estrutura, seus dispositivos...
ficaria faltando apenas a espoleta, coisa que não deve ser
muito difícil de fabricar.
— Santo Deus! Como é que você soube de tudo isto?
— Sabe o que é um agente inter-double?
— Claro! É um agente que pertence a dois serviços
secretos do mesmo país...
— Exato. Temos um desses agentes no G-2, que está
atuando na frota e em Hong Kong. Um de nossos rapazes
estava em contato indireto com ele. Não podiam ver-se. Mas
hoje tiveram que encontrar-se por pressão minha, enquanto o
outro ampliava as fotografias.
— Bem... Temos que avisar o comando dessa frota.
— Por quê?
— Como, por quê?! — exclamou Brigitte. — Para que
procurem com mais insistência esse “Brinquedo Perigoso”...
E para que destruam a tiros de canhão os pesqueiros, se for
necessário.
— Querida — disse friamente Pitzer. — Você está
esquecendo uma coisa muito importante: o “Brinquedo” está
em águas chinesas. Até o momento, a China Comunista não
fez objeção à presença da frota ianque porque não pode dizer
ao mundo que não permite a busca e recuperação do cadáver
de um piloto americano...
— E porque lhes interessa que não tomem medidas
drásticas para recuperar o “Brinquedo”!
— Exatamente. Eles vão deixando que a Marinha
americana procure a bomba, porque, enquanto isso, eles
também a estão procurando. É lógico que seria muito mais
cômodo para eles proibir simplesmente a permanência
dessas belonaves em suas águas, e procurar a bomba com
toda a tranquilidade. Mas, enquanto o comando naval não
declarar ter recuperado o piloto, a atitude chinesa, se
expulsasse as belonaves, seria muito mal vista em todos os
meios políticos internacionais. Coisa que não lhe interessa
no momento. De maneira que são forçados a suportar a nossa
presença em suas águas. Existem, atualmente, muitos
correspondentes de jornais de quase todo o mundo em Hong
Kong. A China seria violentamente criticada se proibisse a
busca do piloto. Agora, imagine o que aconteceria se aquele
porta-aviões disparasse uns tantos tiros de canhão contra os
pesqueiros...
— A China ordenaria que a Marinha americana
abandonasse imediatamente suas águas territoriais.
— E com isso teria a área para procurar tranquilamente e
com toda a eficiência esse “Brinquedo Perigoso”. Isto quer
dizer, minha querida, que a Marinha americana, mesmo
sabendo o que está acontecendo, nada pode fazer. Atacar dez
inofensivos pesqueiros chineses seria considerado pelo
mundo todo um crime brutal, talvez pior que o de Pearl
Harbour. Não, Brigitte, a Marinha nada pode fazer, a não ser
continuar procurando a bomba.
— Mas nós podemos fazer alguma coisa...
— Pelo menos, podemos tentar... Ocorre-lhe alguma
ideia?
— Não sei... De momento, não. Se soubéssemos o lugar
exato em que está o “Brinquedo”!...
— Segundo parece, está em algum ponto diferente
daquele em que a Marinha faz as suas buscas — disse Pitzer,
com ar astuto.
— Claro...
— No entanto, mataram Reginald McCoy.
Brigitte voltou a cabeça para ele, vivamente.
— Você sabe mais alguma coisa!
— Um pouco mais. Graças ao nosso companheiro inter-
double encaixado no G-2. Segundo parece, Reginald McCoy
que, como já sabemos, era o melhor dos homens-rãs,
resolveu ir em busca do “Brinquedo” por outro setor.
Começou sozinho depois de haver exposto uma teoria, que
não foi muito bem aceita, segundo a qual a bomba, por um
motivo ou outro, fora deslocada em direção à costa. Não lhe
deram crédito, exatamente porque na baía de Bias passa uma
corrente em direção ao mar alto. Além do mais, o
“Brinquedo” é demasiadamente pesado para que tivesse
sofrido desvios em sua descida ao fundo das águas. Mas se
isso tivesse ocorrido, a corrente teria levado a bomba para o
mar e não em direção à costa.
— Mas McCoy começou uma exploração por conta
própria no sentido da costa... E quando voltou ao hotel, foi
morto.
— Isso lhe diz alguma coisa? — perguntou Pitzer,
sorrindo.
— Diz tanto que acho que vou começar a ter tremedeiras
a qualquer momento... Será que esses homens-rãs cor do mar
localizaram a bomba e a estão arrastando em direção à
costa?...
— De onde poderia ser amarrada por melo de cabos cujas
extremidades seriam levadas aos pesqueiros. Então, uns
trinta homens nos barcos puxariam os cabos, até a costa,
arrastando o “Brinquedo”. Sem dúvida, é uma tarefa
delicadíssima... Não se trata de arrastar o cadáver de uma
baleia, mas um artefato atômico do qual se desconhecem,
pelo menos os chineses, as condições para sua explosão. É
natural que tenham o máximo de cautela. Os homens-rãs
devem estar movendo o “Brinquedo” com todas as
precauções para que não bata de encontro a uma rocha...
Devem estar morrendo de medo, mas estão ali. Levando uma
bomba, querida.
— É incrível.
— Parece incrível. Mas estão... Que é que há com você?
Onde é que está o seu entusiasmo diante da perspectiva de
uma aventura excitante?
Brigitte não deu maior importância às palavras irônicas
de Pitzer.
— Você acha que neste momento estejam arrastando a
graciosa bombinha ?
— Duvido muito — replicou o inspetor, — o pessoal da
Marinha não faz buscas à nci:», de maneira que se vissem
luzes debaixo d’água £.3 coisas ficariam ruins para esses
trinta ou quarenta chineses... Creio que, nesse caso, o
comando americano deixaria de lado as sutilezas... Não, os
chineses não devem estar trabalhando a estas horas, correndo
o risco de que o “Brinquedo” sofra algum dano, de que um
cabo rebente ou que estoure... Trabalham durante o dia...
Mas, conte-me: o que aconteceu com você?
— Tive um mal-entendido com uns agentes da MVD...
— Entendo... É natural que eles também tenham metido o
nariz nisso. O que aconteceu com você tem alguma relação
com Fédor Yashin, o russo que roubou a câmara fotográfica?
— Era um deles... Imagine quem encontrei em Hong
Kong!
— Deixa-me ver... Seria seu amigo John Pearson, aliás, o
“Fantasma”, esse homem do MI5, tão esperto, inteligente e
audaz... segundo sua opinião?
Brigitte olhou espantada para Alan Pitzer.
— Como sabe?
O chefe de um grupo de espiões norte-americanos sorriu
divertido.
— Está hospedado neste hotel, sob o nome de Jean
Delafont, como jornalista francês. Ocupa o apartamento
529...
— Neste mesmo andar! — exclamou Brigitte.
— É seu vizinho. É claro, está disfarçado de maneira
muito convincente. Mas teve a má sorte de ser visto por mim
muitas vezes, nas fotos que você mesma me mostrou dele...
— Merece! — riu Brigitte. — Bem que merece, por estar
exibindo fotografias minhas a chinesinhos com pesqueiros!
— Posso saber o que lhe aconteceu, Brigitte?
— Claro. Fui ver Po Yang para pedir-lhe...
E Brigitte prosseguiu, contando tudo o que acontecera
desde quando saíra do hotel para ir ao armazém de Po Yang,
até quando John Pearson a deixou a certa distância do hotel.
Quando terminou, Pitzer estava acariciando o queixo,
pensativo.
— Uma coisa parece evidente, querida. Os russos não
estão tendo muito êxito neste assunto. Segundo entendo,
estão todos fora de combate. Pelo menos todos os que
estavam incumbidos deste caso.
— É o que parece.
— Seria interessante saber quem mandou aquela nota a
Po Yang, em seu nome, marcando um encontro no hotel... E
também seria interessante saber por que o fez, Teria sido
John Pear...
— Oh! Não! John não. Tenho certeza disso!
— Então?...
— Não sei. Temos que continuar pensando... Que estão
fazendo neste momento nossos dois companheiros?
— Vigiando a baía de Bias, naturalmente. Um deles, isto
é. O outro está longe daqui. Estamos em contato com rádios
de bolso... Trouxe um para você.
E dizendo isto, Pitzer estendeu a Brigitte um pequeno
aparelho transmissor-receptor.
— Esse agente também se chama Simão?
— É um nome que me agrada — sorriu Pitzer.
— A você não?
— Gosto muito! — riu Brigitte. — E já que podemos
entrar em contato pelo rádio, amado chefe, que tal se fosse
dando o fora... Assim eu poderia tomar banho, trocar de
roupas e comer alguma coisa.
— É uma boa ideia. Enquanto estiver jantando, lembre-
se: precisamos encontrar um plano para pôr em ação amanhã
de manhã.
— Okay, tio Charlie. Até à vista.
Pitzer contemplou satisfeito os joelhos de Brigitte deu-lhe
uma palmadinha carinhosa no rosto e saiu do dormitório. A
jovem acompanhou-o com o olhar até vê-lo desaparecer pela
porta de entrada do apartamento. Apanhou o telefone e
pediu:
— Ligue-me com o 529, por favor.
Esperou alguns segundos, até que atenderam a chamada.
Era uma voz de homem, com sotaque francês:
— Halo?
— Monsieur Delafont?
— Oui, madame...
— Vous êtes très charmant avec votre camouflage, mon
amour...1
— Brigitte!
1
Você está muito charmoso com seu disfarce, meu amor... (NR)
— Au revoir, chéri... — riu a espetacular espiã,
desligando.
Despiu-se e caminhou em direção ao banheiro,
deliciosamente nua. Já se dispunha a abrir a torneira de água
quente, quando soou a campainha da porta. Voltou ao quarto,
colocou um robe certificando-se de que as marcas deixadas
pelo chicote de Tao Tsing não eram visíveis, apanhou a
pequena pistola que havia retirado do bolso de Bárian
juntamente com o isqueiro, prendendo-a com esparadrapo na
coxa, como de hábito.
A campainha tornou a soar, insistente.
Dirigiu-se para a porta e abriu-a.
Outra surpresa... Embora nem tanto.
— Po Yang...
— Olá — sorriu o elegante chinês. — Posso entrar?
— Claro... Claro, querido!
Deixou-o passar, fechou a porta e voltou-se para ele com
uma expressão doce no olhar.
— Estava pronta para tomar um banho, meu bem... — e
logo uma expressão de alarma surgiu em seus olhos: —
Aconteceu alguma coisa errada?
— De forma alguma — sorriu Po Yang, contemplando-a
com olhos ardentes. — Tudo saiu muito bem, Brigitte.
— Oh... Ainda bem. Pensei que...
— Saiu tudo como eu lhe disse. Vim aqui porque achei
que não seria conveniente perguntar pelo telefone o que devo
fazer com esse cadáver.
— De fato, não... não esclarecemos esse ponto. É claro
que isso não é assunto para falar pelo telefone, Po Yang!
— É lógico — disse o chinês aproximando-se dela.
Abraçou-a e murmurou: — Você tem o que fazer esta noite?
— Não. Tomar banho, jantar.
— Que mais?
— Não sei. Talvez dê uma volta por Hong Kong.
— Ótimo! Você tem um guia competente?
— Po Yang, não! Esta noite, não. Você precisa cuidar
desse cadáver.
— É uma troca muito pouco vantajosa para mim —
sussurrou ele, beijando-a no colo, lentamente.
— Brigitte afastou-o com um gesto carinhoso.
— Po Yang, não gosto das coisas assim, às pressas. Às
vezes põe-se tudo a perder.
— Entendo. Aliás, você disse amanhã; logo, será amanhã.
Que faço com o cadáver?
— Tem algum lugar onde possa escondê-lo, mesmo que
seja só por um dia, vinte e quatro horas?
— Claro.
— Então, isso é tudo, por enquanto.
— Tudo? — murmurou Po Yang.
Brigitte sorriu. Enlaçou-o pelo pescoço e beijou-o
profunda e prolongadamente nos lábios. Sentiu Po Yang
apertando-a pela cintura com as mãos. Afastou o corpo
delicadamente e tornou a exibir seu mais doce sorriso.
— Até... à vista, querido.
Po Yang assentiu com a cabeça, sorrindo. Foi até a porta
e, quando estava para abri-la, Brigitte lançou uma
exclamação como se tivesse lembrado alguma coisa
importante:
— Um momento! O negócio da lancha está de pé?
— Mas é evidente, querida.
— Bem... Você tem equipamento para pesca submarina?
— Equipamento de mergulho?... — murmurou ele.
— Sim... Roupas de borracha, tubos de ar, pés-de-pato,
máscara, fuzil de ar comprimido...
— Você precisa de tudo isso?
— Talvez.
Po Yang olhou-a fixamente durante alguns segundos,
com as sobrancelhas franzidas. Por fim, murmurou:
— Espero que chegue a ocasião em que você se abrirá
comigo, sendo sincera, Brigitte...
— Já prometi isso, Po Yang — disse ela, aproximando-
se.
— Sim, você já prometeu. Não tenho o que você está
pedindo... mas posso conseguir, se realmente for necessário.
— Você faria isso por mim, amor?
— Acho que estou fazendo coisas mais difíceis e
perigosas, não lhe parece?...
— De fato... — riu Brigitte, carinhosamente.
— De fato, meu amor. E eu não o esquecerei nunca...
Você terá todo esse material pronto na lancha?
— Arranjarei tudo... Você não precisa de mais nada?
— Não precisa ser irônico. Agora, quero só mais um
beijo, tomar banho, jantar... e fazer algumas coisinhas em
Hong Kong...
— Coisinhas... nas quais eu não posso estar junto...
— Por enquanto não. Gosta de madrugar?
— Tenho que madrugar com muita frequência.
— Amanhã, por exemplo?...
— Vai querer que eu madrugue também?
— Você não quer?...
— Brigitte — sorriu Po Yang — creio que um homem
faria tudo... basta você olhar assim e prometer-lhe um beijo...
— Conte com o beijo! — riu ela num trejeito gracioso,
acariciando o queixo rijo de Po Yang.
— Que tal às três da manhã?
— Três da madrugada! — quase gritou Po Yang em
espanto. — Mas o que é que você tem que fazer a uma hora
dessas... Ah! Creio que entendo — murmurou, comprimindo
ligeiramente as pálpebras. — Você quer estar na baía de Bias
logo ao amanhecer... Não é isso?
Brigitte voltou a beijar-lhe os lábios, sempre doce e
carinhosa. Sussurrou:
— As três, então?
— As três. Creio que estou fazendo uma bobagem,
Brigitte... Sinto de longe as coisas... estranhas. Espero que,
pelo menos, continue a desfrutar dessa coisa estúpida que é a
vida.
— A vida é maravilhosa, querido! Por que perdê-la?
Po Yang moveu a cabeça num gesto preocupado, abriu a
porta e deixou o apartamento.
Brigitte permaneceu parada ali mais alguns segundos,
sorrindo pensativa. Dispôs-se a ir tomar seu banho, se não
houvesse mais interrupções. Precisava pôr alguma coisa nas
feridas causadas pelas chicotadas no ventre, que estavam
ardendo mais do que quando as recebeu. Depois iria jantar.
E em seguida, de fato, daria uma volta por Hong Kong.
Não seria bem uma volta, mas sim uma visita direta ao
pesqueiro do jovem chinês amigo do “Fantasma”, chamado
Lin Yuey.
CINCO
Rikscha na madrugada — Pagam os inocentes — “Feliz
espionagem, meu amor...”
— Lin Yuey!
Brigitte estava chamando da borda do cais. Via apenas a
luz mortiça no alto do mastro do pesqueiro. Teoricamente,
aquela luz era suficiente para que a embarcação fosse visível
à noite. Mas era a iluminação de Hong Kong e dos grandes
navios que de fato salvavam os pequenos barcos.
Surpreendeu-se quando viu o vulto surgindo de um lado
do barraco montado em cima do pesqueiro e caminhando
para a proa.
— Estou aqui, senhorita.
— Preciso ir a bordo outra vez, Lin. Quer colocar a
prancha?
— Bem...
O garoto estendeu a tábua e Brigitte passou rapidamente
para o barco. Sua agilidade e segurança já não surpreendiam
o rapaz.
— Temos que sair, senhorita Montfort?
— Não, não... Ainda não. Você tem o envelope que lhe
entreguei esta tarde?
— Claro... Está precisando dele?
— Sim.
— Vou buscá-lo, um momento.
O garoto desapareceu para dentro da cabana e voltou
alguns segundos depois, com o envelope, entregando-o a
Brigitte que perguntou:
— Todas as fotos estão aqui, ou o “Fantasma” ficou com
alguma?
— Como diz? Não entendo...
— Deixe de bobagem — riu ela. — Sei muito bem que
você está trabalhando para o “Fantasma”. Já falei com ele.
Entre outros, usa o disfarce de mendigo hindu. Conheço-o há
muitos anos e somos bons amigos.
— Melhor para a senhora, então.
— Sem dúvida. Esta noite, salvou-me a vida, Lin... Você
não sabia?
— Não. Mas isso não é de estranhar, tratando-se do
senhor... “Fantasma”.
— Isso mesmo! — voltou a rir Brigitte. — Nada de
nomes, Lin. Gosto da sua cautela, mas comigo não é
necessário. O “Fantasma” deve ter dito que confia em mim...
Até certo ponto, é claro... Se houver alguma coisa que
interessa ao seu país ou ao meu, lutamos por ela e chegamos
mesmo à agressão física. Mas às vezes temos trabalhado
juntos, em causas que interessam aos nossos dois países em
comum. Estou lhe contando isso, Lin, para que você confie
em mim.
— Está bem.
— Você confia?
— Se a senhora tem alguma coisa para perguntar,
pergunte.
— Certo. Conhece um homem chamado Po Yang?
— Claro...
— Quem é ele?
— Um homem importante no cais. Tem um armazém de
importação e exportação... Todo mundo o conhece.
— O que é que você acha dele?
— Eu?
— Sim, você — sorriu Brigitte.
— Bem... Não sei... É um homem agradável e parece que
se comporta bem com todos.
— Ora... E um chinês chamado Tao Tsing, você conhece?
— Tao Tsing! Esse é mais rico ainda do que Po Yang!
Mas nunca aparece aqui pelo cais... Tem uma vila muito
bonita lá no Peak, chamada Dragão Vermelho... Nunca
estive lá... quero dizer, na vila. Mas deve ser maravilhosa.
— Sim, é muito bonita de fato — sorriu Brigitte. — E
Tao Tsing adora lótus e carpas... O que e que você acha
dele?
— De Tao Tsing? Nada... não sei... De Po Yang, ouço
falar de vez em quando; aparece por aqui vez por outra...
Mas ninguém diz nada sobre Tao Tsing... Apenas que é
muito rico e que vive sozinho no Dragão Vermelho. Dizem
que está muito gordo e que quase não pode mover-se. Por
isso é que nunca vem a Hong Kong.
— Ouviu dizer alguma vez que, entre os dois, tenha
havido alguma coisa... algum tipo de relações... ou mesmo
disputas comerciais?
— Não. Nunca... Nunca soube de nada entre Po Yang e
Tao Tsing.
— Você sabia que Po Yang às vezes trafica em ópio?
Lin Yuey olhou Brigitte com ar de mofa.
— E quem em Hong Kong não trafica em ópio, quando
pode? Imagino que Po Yang, como todos, aceite algum bom
negócio quando aparece a oportunidade. Todos fazem, é
natural.
— Inclusive você?
— Para ganhar dinheiro com o tráfico de ópio, é preciso
ter dinheiro antes, senhorita.
— É lógico... Você alguma vez notou qualquer atividade
da parte de Po Yang, ou de seus homens, que lhe
parecessem... digamos, estranhas?
Lin Yuey parecia desconcertado.
— Não...
— Está bem... — suspirou Brigitte. — O que foi que o
“Fantasma” disse das fotografias?
— Que não estavam muito boas e que não tinham muito
interesse, segundo lhe parecia.
— Isso foi tudo?
— Sim.
— Bem... até logo, Lin.
— Vai passear por Hong Kong?
— Talvez. Adeus.
Voltou ao cais e afastou-se. Gostaria de ver Hong Kong à
noite, mas no momento tinha o que fazer e não dispunha de
tempo.
Principalmente nessa noite. Queria estar bem acordada às
três da manhã e seria melhor que fosse dormir...
Soou a campainha do telefone. Brigitte, semiadormecida,
estendeu a mão até o aparelho e atendeu à chamada.
— Sim?
— Brigitte? Que é que você está fazendo?
A belíssima espiã sentou-se bruscamente na cama,
acendeu a luz e olhou o despertador na mesinha de
cabeceira. Eram duas e cinco da madrugada.
— “Fantasma” — murmurou. — Que há?
— O que é que você está fazendo?
— Estava dormindo...
— Então vista-se imediatamente. Saia do hotel dentro de
dez minutos... Logo que você chegar à rua, verá aparecer um
rikscha. Tome-o e não pergunte nada. O coolie saberá para
onde ir... Compreendeu bem?
— Sim, mas...
Um clique cortou a ligação.
Brigitte ficou olhando o fone na mão. Assim, era John
Pearson... quando acontecia alguma coisa grave.
Saltou da cama, vestiu rapidamente um maiô preto, pôs
um vestido por cima e colocou a pistola na coxa esquerda,
presa com esparadrapo.
Olhou o relógio de pulso: eram duas e doze minutos.
Tinha ainda três minutos para chegar à rua em tempo de ser
apanhada pelo rikscha que a levaria a John Pearson. Mas
tinha tempo, ainda, para mais alguma coisa.
Procurou na bolsa, apanhou o pequeno rádio do tamanho
de um maço de cigarros e ligou o botão.
— Tio Charlie?
— É Simão. Tio Charlie está dormindo a estas horas.
Algo de novo?
— Muito. O MI5 acaba de me chamar por telefone.
Tenho que sair dentro de dois minutos e meio do hotel,
apanhar um rikscha que virá buscar-me. Vou deixar-me
levar.
— Sabe o que está acontecendo?
— Não.
— Chamarei Tio Charlie... Dois minutos e meio, você
disse?
— Agora, só dois minutos. Dá tempo?
— Faremos o possível.
Simão cortou a conversa. Brigitte guardou o rádio na
bolsa, colocou-a a tiracolo e saiu do apartamento.
Chegou à rua na hora exata, com aspecto tranquilo,
olhando como que fascinada a vida noturna de Hong Kong...
mas não teve muito tempo, pois um rikscha apareceu diante
dela, aproximando-se da calçada. Embarcou e o coolie
arrancou bruscamente, correndo em direção ao cais, Victoria
Road abaixo. Era um coolie forte, veloz, que puxava
vigorosamente o carrinho. Parecia ter muita pressa. Seus pés,
calçados com fortes sandálias, moviam-se rapidamente sobre
o asfalto.
Quando pararam, o rikscha estava perto do cais onde Lin
Yuey tinha o pesqueiro grande. O coolie baixou as varas do
carrinho, dirigiu-se até a borda do molhe, apanhou a corda
que prendia o barco, puxando-a com força de maneira a
encostar a embarcação no cais. Saltou para dentro e voltou-
se para Brigitte estendendo-lhe a mão.
A jovem aceitou a mão e pulou também para dentro do
barco...
— John! — exclamou, admirada.
O coolie levou um dedo aos lábios, em sinal de silêncio.
Soltou a mão da jovem e rapidamente desamarrou o barco,
deixando a corda cair na água. Apanhou um remo e
empurrou a embarcação, afastando-a do molhe.
Brigitte colocou-se a seu lado,
— Que significa isto, John?
John não respondeu e continuou trabalhando com o remo,
afastando cada vez mais o pesqueiro. Quando já estava a uns
cem metros do cais, largou o remo e apanhou uma lanterna
elétrica por baixo da blusa. Tomou a mão de Brigitte e disse:
— Venha.
E dizendo isto, conduziu-a para dentro do barraco.
O primeiro cadáver que Brigitte viu foi o do avô de Lin
Yuey. Estava deitado de lado e perto da mão havia um
cachimbo caído. No pescoço, um talho brutal, certeiro...
Pouco adiante estava a gorda chinesa, caída de costas,
esparramando suas banhas pelo chão. A luz da lanterna
mostrou o sangue que havia corrido de sua garganta.
A luz incidiu sobre o terceiro cadáver...
— Lin!... — gemeu Brigitte. — Que horror! ...
Ajoelhou-se ao lado do garoto, quase tremendo. O rapaz
tinha quatro facadas espalhadas pelo corpo. Perto de sua mão
direita, um velho facão enegrecido, de limpar peixe...
— Meu Deus... John! Que... Que aconteceu?
— Localizaram Lin — respondeu o “Fantasma” com a
voz rouca. — Creio que você e eu fomos seguidos.
— Eu... eu estive aqui, por volta das dez...
— Você esteve aqui?! — exclamou John, alterando a voz.
— Por quê?
— Vim apanhar as fotografias, John. Não... não podia
imaginar... E essas fotos são muito importantes!
John acariciou suavemente a fronte gelada de Lin Yuey.
— Entendo... entendo, Brigitte. Você tinha que fazê-lo, é
claro.
— A culpa... a culpa é minha...
— Parece que sim, querida. Mas alguém sempre tem a
culpa... E essas fotografias são importantes. Você fez bem
em vir buscá-las. É... má sorte, apenas. Pensaram que o
garoto era perigoso, que sabia muitas coisas... Mataram a
mãe e o avô... Queriam o rapaz vivo, mas Lin Yuey deve ter
apanhado esse facão... e tiveram que matá-lo também.
— É horrível.
— É... — suspirou o inglês. — Nós estamos acostumados
a isso, Brigitte, mas... Bem, acostumados não é a palavra
certa. Digamos que nosso estômago vai-se... fazendo em
pedaços, à custa de suportar as coisas que nossa profissão
nos obriga a ver... Mas, acostumarmos... Não. Creio que
ninguém se acostuma a isso... Quer saber de um segredo? Eu
gostaria de ter sessenta anos... Meus músculos estariam
enfraquecidos, minha cabeça já não seria tão boa, minha
ousadia forçosamente teria caído... Então eu já não seria
mais um espião veloz, perigoso, importante... O MI5 me
chamaria para dizer que não sirvo mais, que preciso me
aposentar. Aí eu faria uma lavagem cerebral, compraria uma
casinha à beira-mar, um barco, uns tantos caniços...
A voz de Pearson era de raiva. Brigitte apertou
suavemente seu braço.
— Você gostava muito dele, não é verdade?
— Era... um garoto inteligente, Brigitte. Nestes dois
últimos anos estive três vezes em Hong Kong. Sempre
trabalhou bem. Eu lhe havia prometido muitas coisas...
Dava-lhe livros, animava-o, dizia-lhe que mais tarde, quando
fosse um pouco mais velho, eu o transformaria num bom
agente, auxiliar do MI5... Poderia comprar uma casinha lá no
Peak, trabalhar para o Intelligence Service Inglês, abandonar
o cais, cuidar de sua mãe... Era um grande garoto, Brigitte.
De verdade.
— John, você não sabe... o quanto eu o sinto.
— Sim, sei... Você é como eu, como muitos de nós: uma
bobona sentimental... Matamos, enganamos, brigamos... E de
repente, em dado momento, alguma coisa vem do fundo da
gente... Sentimo-nos um pouco canalhas, um pouco
assassinos...
Brigitte tomou entre as mãos o rosto do agente inglês,
beijou seus lábios suavemente, numa carícia de amigo, de
compreensão, de afeto.
— John: você e eu vamos encontrar quem fez isto.
— Devem ter sido vários.
— E daí?... Nós vamos descobri-los e... matá-los.
— Sim! Você tem razão! — A voz de Pearson endureceu.
— Vamos matar esses canalhas covardes, Brigitte.
— Não há nem dúvida. Agora leve-me de volta ao cais.
— Não! Por que é que você acha que eu trouxe o barco
até aqui? É possível que estejam nos esperando. Chegamos
tão depressa, que não puderam fazer nada. Devem ter ficado
surpreendidos... E não quero que você volte para lá agora,
Brigitte.
— Obrigada... De qualquer maneira, já é hora de eu
começar a trabalhar. O que é que você veio fazer aqui, John?
— Íamos sair no outro barco antes do amanhecer, até a
baía de Bias... Na verdade, eu queria estar lá antes do sol
nascer e vim buscar Lin e o barco menor...
— Você sabe o que está acontecendo?
— Não... Em parte só. Tenho algumas ideias, mas...
— Trata-se do “Brinquedo Perigoso”: uma bomba H,
John.
— Uma?!... Nossa!... Creio que começo a entender...
— Os chineses estão com uns homens-rãs procurando
essa bomba. Estão com roupas de borracha da cor do mar.
— Sim... sim, compreendo... E esses pesqueiros chineses,
que não se movem, lá na baía...
— É isso mesmo, John. Têm o direito de estar lá...
Compreende a posição norte-americana?
— É claro. Então era isso... Não querem mais nada,
apenas uma das bombas H americanas para servir de modelo,
para construírem eles mesmos...
— Sim, John. E nós acreditamos que eles já a
encontraram. Ela deve estar sendo arrastada para a costa...
— Entendo... entendo... entendo... Não diga mais nada.
As peças do quebra-cabeça estão-se juntando com toda a
facilidade... O que é que você pensa fazer?
— O óbvio, querido — sorriu Brigitte, com ar angelical.
— Tirar essa bomba de suas mãos... Mas com toda a
delicadeza... Não queremos que a China comunista tenha
motivos de... de queixas contra nós. E agora, se não for
inconveniente, leve-me a qualquer ponto do cais. Tenho um
encontro às três, e falta pouco.
— Vai à baía de Bias?
— Parece que não tenho alternativa...
— Você terá ajuda da CIA?
— Muito pouca. Na verdade, meus objetivos são...
pessoais. É uma tentativa quase maluca, John. E creio que
não sejam necessárias muitas pessoas. A ajuda que eu
poderia receber seria mais em terra. E eu tenho que trabalhar
no mar.
— Levarei você a qualquer ponto do molhe — murmurou
Pearson.
Apanhou de novo o remo, enquanto Brigitte ligava o
rádio de bolso.
— Tio Charlie?
— Brigitte! Que está acontecendo? Eu ia chamar você,
mas não sabia se isso poderia prejudicá-la ... Quem é esse
coolie?
— Uma assombração, velha amiga minha... Onde é que
você está?
— Com Simão, no cais. Vimos você meter-se pelo porto,
mas...
— Está tudo bem. Faltam doze minutos para as três. Às
três, ou um pouco depois, saio rumo à baía de Bias. Deseje-
me boa sorte...
— Brigitte, espere!... O que é que você pretende fazer?
— A única coisa possível, querido tio Charlie: tirar o
“Brinquedo Perigoso” das mãos desses bonecos chineses.
— Você está doida? Espere! Precisamos encontrar um
jeito mais...
— Eu tenho esse jeito. Ah! Só mais uma coisa: se até ao
meio-dia não ouvirem nada de mim, digam ao comando da
frota americana que façam picadinho desses pesqueiros
chineses, que deixem de discrições e dissimulações... ou
amanhã o “Brinquedo” estará em terras chinesas... Okay?
— Brigitte, escute...
— Escute você, tio Charlie: neste caso há também um
assunto pessoal. E vou resolvê-lo a meu modo. Vou para a
baía de Bias. Se alguma coisa me acontecer, lembranças a
Miky Grogan e Frank Minello. Adeus...
— Brig...!
Mas Brigitte Montfort havia desligado o aparelho e já o
guardara na bolsa. Pearson, que manejava o remo,
resmungou:
— São uns sentimentalóides... já lhe havia dito antes.
Somos todos iguais. Inclusive esse tio Charlie, que sabe
perfeitamente que você vai tentar a única coisa possível,
excetuando a intervenção direta e decisiva da Marinha
americana. Teme que matem sua espiã preferida. Ah! Mas
ele deve considerar-se um homem durão, frio, sem
sentimentos... Pobre tio Charlie!
Brigitte sorriu melancolicamente.
— Sim, você tem razão... Pobre tio Charlie!
Pouco depois o pesqueiro encostava junto ao cais, num
ponto distante de onde partira. John Pearson voltou-se para
Brigitte e colocou as mãos sobre seus ombros.
— Adeus, meu amor... Feliz espionagem.
— Não façamos despedidas, John. Quem sabe... quem
sabe dentro de alguns anos você não me levará à sua bela
casa de praia, ao seu barco de pesca... feliz espionagem,
John... Só isso: nunca, adeus.
Beijou-o nos lábios e saltou para o molhe.
SEIS
“De você já não espero mais nada...” — Duas horas de
ar — A sorte foi jogada.
Às três menos dois minutos, Po Yang ouviu a campainha
da porta alta de sua casa, por cima dos armazéns... Não
gostou de que fosse aquela a campainha, pois isso
significava que alguém havia conseguido entrar no pátio,
subindo depois as escadinhas...
Apanhou a pistola automática no gavetão do aparador e
foi atender. Abriu a porta com a mão esquerda, deixando a
direita pendente, um pouco atrás do corpo, com a arma
pronta para atirar...
— Brigitte!
— Está pronto? Você parece surpreso, Po Yang...
— Claro que estou surpreso! — replicou o chinês,
guardando a pistola no bolso do paletó. — Já é bastante
grande a encrenca em que você está me metendo e ainda
entra no meu pátio como... como...
— Uma borboleta?
— Assustei-me, só isso. Como é que você entrou?
— Pulando o muro, ora...
— Você conseguiu pular o muro? — exclamou Po Yang,
incrédulo.
— Posso entrar?... Você garante que não vai atirar em
mim?... — perguntou a jovem sorrindo ironicamente.
— Mas é... Ora não seja irônica. Entre...
Brigitte entrou e o chinês fechou a porta, perguntando: —
Como foi que você conseguiu saltar o muro?
— Não é muito difícil, querido. Sou bastante ágil, tenho
bons músculos e, além disso, sou muito bem treinada...
— Treinada?...
— Sim... judô, karatê, jiu-jitsu...
Po Yang desatou a rir alegremente.
— Está bem, está bem. Gosto de ver você de bom humor,
querida! Isso de judô, de jiu-jitsu...
— É verdade. Além do mais, sei atirar de um modo
definitivamente mortal, amor. Tanto faz uma pistola como
uma metralhadora, ou uma granada de mão... Sei voar,
nadar, cavalgar, lutar...
— Escute, Brigitte...
— Tudo isso é verdade, querido. Eu... preciso dizer uma
coisa... preciso confessar, Po Yang.
— Confessar?...
— Sim. Pertenço à CIA americana.
Po Yang ficou boquiaberto, aturdido.
— A... à CIA?
— É. A Central Intelligence Agency, querido. O serviço
de espionagem e contraespionagem dos Estados Unidos.
Temos certa rivalidade com o FBI nas questões internas, que
afetam a segurança nacional, mas se você quiser contratar
um bom espião, nos Estados Unidos, deverá dirigir-se à
CIA... É verdade que o FBI também tem bons espiões, mas
são... como direi?... muito rígidos, muito sérios. O agente do
FBI é a lei, inflexível. O agente da CIA é mais sutil, mais
flexível, mais... contemporizado!. Dizem que nosso
treinamento é mais frio, desumano: somos capazes de
qualquer coisa para conseguir os nossos fins.
— Espero que você não esteja caçoando de mim, Brigitte.
— De modo algum. A lancha está pronta, com o
equipamento que eu pedi?
— Tudo arranjado...
— Então, vamos sair imediatamente para a baía de Bias.
Ou você prefere ficar?
— Não diga bobagem. Jamais deixaria você ir sozinha a
um lugar desses.
— Agradeço muito. Po Yang: posso confiar em você?
— Naturalmente.
— Você sabe o que está acontecendo na baía de Bias?
— Todo mundo sabe... Estão procurando o cadáver...
— Não, não, não... não, querido. O cadáver do piloto já
foi encontrado ontem. O que o pessoal da Marinha está
procurando é o “Brinquedo Perigoso”...
— Que é isso?
— Nada mais, nada menos do que uma bomba H.
Po Yang mordeu os lábios e ficou como que petrificado,
olhando fixamente para Brigitte.
— Isso... é uma brincadeira, claro...
— Você acha que eu estou com vontade de brincar? O
que eu estou dizendo é a pura verdade, meu amor.
— Mas... mas dizem... dizem que...
— Sei o que dizem. Mas o certo é que se trata de uma
bomba H. Estava sendo transportada de uma base americana
no arquipélago de Ryu-Kyu para Huê, no Vietnã do Sul. Deu
azar e o bombardeiro que a transportava chocou-se no ar
com um avião de abastecimento. Agora a bomba está em
algum ponto no fundo da baía, talvez a trinta ou a trezentos
metros de profundidade.
— Bem... não sei... que é que você tem a ver com isso?
— Muito. Vou recuperar essa bomba.
— Ora! Vamos!... A Marinha americana está aí há quatro
dias fazendo buscas sem encontrá-la... E agora é você quem
quer achá-la!...
— Você não quer vir comigo e ajudar-me?
Po Yang hesitou um pouco. Por fim murmurou:
— Você está louca... E eu mais louco do que você. Mas
vamos a esse lugar... Buscar uma bomba atômica!...
Brigitte aproximou-se, abraçou-o pelo pescoço e chegou
sua boca deliciosa bem junto à dele.
— Po Yang, meu querido! Eu sabia que podia contar com
você.
— Brigitte, isto é uma insensatez... uma estupidez das
maiores. É perder tempo...
— Não, não, querido... Acontece que se eu não conseguir
essa bomba H ela vai parar nas mãos da China Comunista.
'— O quê?!
— É isso mesmo, amor. Há uns homens-rãs da China
comunista que estão procurando a bomba. Talvez já a
tenham encontrado... e eu vou tomá-la deles, entendeu?
— Não sou nenhum menino — resmungou Po Yang. —
Compreendo tudo, e continuo achando que você está louca,
Brigitte.
— Louca... por você — sorriu a espetacular espiã.
E beijou mais doce do que nunca os lábios do oriental,
que começou a esquecer que a jovem agente secreta, naquela
madrugada, tinha outras coisas mais importantes em que se
ocupar...
' — Já... já chega, Po Yang. Um beijo só e vamos.
— Está bem. Venha comigo.
Conduziu-a a uma outra porta, cruzaram uma grande sala
às escuras passando por outra porta ainda, que havia nos
fundos. Brigitte viu o mar por baixo do piso. Uma escada de
madeira, com degraus muito gastos, levava a um flutuante ao
qual estava amarrada uma lancha.
— Deixe que eu ajudo...
— Não é necessário.
Po Yang desceu primeiro e, já na lancha, voltou-se para
ajudar Brigitte que, embora não precisasse de nenhuma
espécie de auxílio, aceitou a mão que lhe estendia o chinês.
— E o equipamento de mergulho?
— Está nessa caixa.
— Então, ponha a lancha em marcha, querido.
Po Yang obedeceu enquanto Brigitte abria a grande caixa
de madeira, examinando seu conteúdo. Era, de fato, um
equipamento para submersão, com tudo o necessário,
incluindo bujões de ar cuja duração deveria ser de pelo
menos duas horas. Isso era mais do que suficiente, pois se
ela não conseguisse em duas horas o que desejava, não o
conseguiria nunca.
Fechou a caixa e aproximou-se de Po Yang que estava
dirigindo a lancha para a saída do porto, passando
velozmente junto aos grandes cargueiros, iates e
transatlânticos. Para trás iam ficando as luzes multicoloridas
de Hong Kong, na agitação da sua intensa vida noturna
prestes a terminar com a chegada do dia.
Para frente...
Para frente, Brigitte Montfort tinha um de seus mais
espetaculares êxitos... ou a morte.
— Quanto tempo levaremos para chegar lá?
— Pouco mais de uma hora.
— Ótimo. Ainda não terá amanhecido de todo. Você
conhece bem estas águas, Po Yang?
— Há trinta anos que vivo em Hong Kong, toda a minha
vida. Conheço estes mares melhor do que ninguém.
— Então creio que você poderá burlar a vigilância da
Marinha e levar-me até o fundo da baía, perto da costa.
Po Yang olhou para ela com ar de dúvida.
— Essa parte está cheia de escolhos, Brigitte.
— E daí, você acha que não dá para passar?
— Sim... sim, dá. Mas é que... Está bem. Levarei você até
lá.
***
Chegaram quando uma tênue claridade surgia na linha do
horizonte. Em menos de dez minutos teria amanhecido e o
sol começaria a surgir, emergindo do mar como uma grande
laranja avermelhada.
— É bom parar o motor — disse Brigitte.
Po Yang obedeceu e ficou olhando Brigitte que havia
apanhado um pequeno binóculo da bolsa. Observou-a a
assestá-lo para o centro da baía, depois para um ponto
próximo da costa...
— Ainda estão ai... — murmurou ela. — É natural.
— Quem?
— Os pesqueiros chineses do continente, estão ancorados
no fundo da baía, na mesma posição quase circular.
— Não vejo nada de extraordinário nisso.
— Mas eu vejo. Os homens que estão nesses barcos têm a
função de ir puxando os cabos que os homens-rãs estão
amarrando ao “Brinquedo Perigoso”. O sistema é muito
simples. Um tanto lento, já que não lhes interessa revelar
suas intenções e seu verdadeiro trabalho. Mas simples e
seguro: os homens-rãs já localizaram a bomba em algum
ponto. Levam os cabos e amarram-na. Enquanto os
pescadores puxam, como se estivessem puxando a rede, os
rãs vão guiando e empurrando a bomba de maneira a que não
bata de encontro às rochas ou que venha a soltar-se. É um
trabalho paciente, próprio de chineses — sorriu Brigitte
amavelmente.
— Dizem que os chineses têm muita paciência, mas a
minha já está acabando com tanta bobagem — comentou Po
Yang num meio sorriso.
— Por outro lado, não estou disposto a perder uma coisa
tão interessante. E muito menos em sua companhia. E agora,
que vamos fazer?
— Você manda. Eu vou pôr o traje de mergulho para
buscar essa bomba... Se conseguir encontrá-la, soltarei os
cabos que a prendem.
— A ideia é muito boa... Se deixarem você executá-la.
Não seria melhor avisar a Marinha americana do que está
acontecendo?
— Não. Discrição, meu querido, discrição... Esse tem
sido sempre o lema da espionagem. E é o lema pessoal de
Brigitte Montfort. Não importa ter que matar alguém, mas é
preciso fazê-lo com elegância, com discrição.
— Po Yang voltou a sorrir, com ar um tanto triste.
— Estou achando, Brigitte, que você me utilizou de
acordo com os seus planos. Isso é tudo. E... de você já não
espero mais nada. Essa é a verdade.
Brigitte sorriu como uma menina travessa.
Tirou rapidamente o vestido. O maiô preto, que colocara
para esconder as marcas deixadas por Tao Tsing e para servir
de forro ao traje de mergulho, realçava ainda mais a sua
forma escultural. Aproximou-se de Po Yang, tomou suas
mãos e levou-as à sua própria cintura, colando seu corpo ao
dele. Beijou-o na boca intensamente, enquanto dava ao seu
corpo um ligeiríssimo e suave meneio. Depois do beijo, o
rosto junto ao dele, gemeu em seu ouvido:
— É verdade que você não espera mais nada de mim?...
— Brigitte... — balbuciou Po Yang.
— Agora preciso vestir a roupa de mergulho, Po Yang.
Enquanto isso você fica vigiando com o binóculo, tá?... —
disse, afastando-se dele.
— Vigiar o quê? — perguntou ele, já um pouco mais
calmo.
— Qualquer coisa, ora... — riu ela.
Po Yang passou a examinar com o binóculo o fundo da
baia e as praias próximas, enquanto Brigitte vestia a roupa de
borracha num canto da lancha. Levou quase dez minutos
nessa operação. Quando terminou, o sol já brilhava sobre o
mar.
— Quer me ajudar a pôr os bujões de ar, querido?
— Sim...
O chinês deixou o binóculo, encaminhou-se para ela e
ajudou-a a prender as correias de lona que sustentavam os
tubos gêmeos. Em seguida Brigitte sentou-se na borda da
lancha e calçou os pés-de-pato. Antes de colocar a máscara e
a boquilha, olhou intensamente para o chinês.
— Não posso demorar mais do que duas horas, Po Yang.
Se até lá eu não tiver voltado, regresse o mais rápido
possível... e não diga a ninguém que você teve contatos com
Brigitte Montfort. Isso poderia trazer-lhe sérios transtornos
mais tarde.
— O que você pretende fazer é muito perigoso, Brigitte...
uma loucura. Se você me tivesse dito antes...
— Você teria trazido o material da mesma maneira, Po
Yang. Mas não quero complicar mais a sua vida. Espere duas
horas, no máximo.
Não disse mais nada. Estendeu os braços para o chinês
oferecendo-lhe seus lábios, sempre doces, sempre suaves.
— Brigitte... volte.
— Farei o possível.
Colocou a máscara e a boquilha, deixando-se cair na
água.
Tinha duas horas de autonomia. Duas horas capazes de
esgotar o mergulhador mais experimentado e resistente. Mas
Brigitte sabia que não precisava de tanto tempo para concluir
seu trabalho. Isso, na suposição de que pudesse concluí-lo...
A água estava fria, mas a roupa de borracha neutralizava
a temperatura. Brigitte enxergava perfeitamente o fundo
arenoso e as rochas que chegavam até quase a superfície da
água, formando perigosos e traiçoeiros escolhos.
Começou a nadar em direção ao mar alto. Depois iria
para os pesqueiros chineses, único meio infalível de localizar
o “Brinquedo Perigoso”. Tinha apenas que encontrar um dos
cabos que, sem dúvida, estavam presos aos barcos e segui-
lo... Na outra extremidade estaria a bomba H, a esta altura já
devidamente livre dos destroços do bombardeiro sinistrado.
Afastava-se rapidamente da costa e o leito do mar
aprofundava-se cada vez mais. Começou a ver alguns peixes,
uns de vivas cores, outros prateados que pareciam
avermelhados quando os raios do sol incidiam sobre eles.
Da boquilha brotavam bolhas de ar semiesféricas,
características do mergulhador que utiliza bujões de ar.
Apareceram as primeiras algas e outras plantas exóticas,
esponjosas, rosadas, movendo-se em graciosa ondulação.
Um peixe com mais de meio metro de comprimento
escondeu-se assustado entre as algas. Grandes siris de
estranha cor vermelha fugiam para as reentrâncias das
rochas...
Brigitte ouvia apenas o borbulhar do ar que ia soltando,
como um doce e tranquilizador murmúrio. Em alguns
pontos, a profundidade de pequenas fossas parecia tingir a
água de negro. Um polvo imenso, lançando jatos de um
líquido preto, correu para o fundo de uma das fossas, com
suas oito patas em frenético movimento.
Calculou que já tinha avançado bastante mar adentro,
podendo agora virar em ângulo reto e tomar a direção dos
pesqueiros. Talvez os homens-rãs da cor do mar ainda não
tivessem entrado em ação. Era muito cedo...
De repente, viu um deles.
Nadava rapidamente em sua direção, apenas visível.
Brigitte mudou bruscamente de direção, procurando ocultar-
se. Chegou até uma cavidade nas rochas à sua direita, onde
se escondeu... Mas aquele homem não vinha casualmente em
sua direção.
Ela tinha sido vista.
Foi então que percebeu o outro, apenas a uns três metros
do primeiro.
Foi como se o frio da água repentinamente gelasse o seu
corpo... Não tinha nem sequer um fuzil aquático com arpão...
Estava completamente desarmada.
A sorte fora jogada.
Os dois homens-rãs haviam-se reunido e faziam sinais em
direção ao ponto em que ela estava, prepararam seus fuzis de
ar comprimido e continuaram nadando em sua direção.
Chegaram tão perto que Brigitte percebeu que sua única
possibilidade de salvação consistia em tentar fugir. Precisaria
nadar mais rapidamente do que eles, encontrar um ponto
onde pudesse sair da água...
Afastou-se do escolho e lançou-se para a grota onde
pouco antes se escondera o polvo assustado, gruta negra,
tenebrosa...
Fsssss!
Um breve sibilar, uma ligeira agitação na água... E um
arpão ricocheteou de encontro às rochas. Teria ido ao fundo
se não estivesse preso por um fio de nylon. Brigitte voltou a
cabeça e viu o homem que havia disparado recolhendo
rapidamente o fio que prendia o arpão. ..
Ao mesmo tempo percebeu o outro arpão, com idêntica
sibilar, agitando as águas tranquilas. Teve que recorrer a toda
a serenidade para não gritar quando, depois de um violento
giro de corpo, o arpão passou roçando por seu peito, para ir
também de encontro às rochas. A boquilha escapou e uma
grande quantidade de bolhas começou a subir para a
superfície.
Conseguiu recolocar a boquilha e reiniciou a fuga
desesperada. Precisava, pelo menos, tentar chegar até onde
se encontravam os americanos e contar-lhes...
O terceiro homem-rã apareceu de repente diante dela, a
menos de dois metros, de entre as rochas fendidas. Mas seu
traje não era cor de mar, era negro. E os olhos que Brigitte
viu através do vidro da máscara não eram os de um oriental...
— John! — pensou. — Sabia que estaria aqui,
“Fantasma”!
O arpão disparado por John Pearson passou roçando por
Brigitte, mas seu alvo não era aquele corpo maravilhoso, e
sim outro, um pouco mais afastado.
O homem-rã chinês que estava mais próximo e naquele
momento acabava de recolher o fio de nylon, recebeu a
arpoada disparada por Pearson bem no meio do peito. Foi
como se tivesse recebido uma descarga elétrica: largou seu
arpão, encolheu-se, deu uma volta sobre si mesmo e agarrou
com as mãos o cabo do arpão cravado em seu peito, tentando
arrancá-lo... Mas começou a afundar lentamente, enquanto
da sua boquilha solta saía grande quantidade de cilhas em
direção à superfície.
O outro chinês procurava freneticamente recolher o fio,
para recarregar seu fuzil o mais depressa possível. Mas John
Pearson empregava um sistema muito melhor. Sacou da
cintura um segundo arpão e rapidamente recarregou seu
fuzil. Não trazia os arpões presos com fio. Tinha uma reserva
deles, sem se preocupar em recuperá-los.
Fssssss!
O segundo arpão disparado pelo “Fantasma”, quando o
chinês ainda não tinha nem sequer conseguido recolher de
todo o fio, também passou raspando por Brigitte...
O chinês percebeu a sua aproximação e com grande
esforço virou-se de lado para esquivar-se da flecha. Não o
conseguiu completamente: o arpão cravou-se era uma de
suas pernas. O homem esqueceu-se de tudo. Largou o seu
arpão e levou as mãos à coxa, enquanto afundava girando
lentamente...
Pearson não teve piedade. Nadou rapidamente até ele
com uma faca na mão. O chinês sacou a sua faca, tentando
defender-se... mas em vão,
A primeira facada de Pearson cortou o tubo de ar e o
chinês começou a sacudir os braços desesperadamente. A
segunda atingiu o estômago e, de repente, todo o movimento
cessou. O corpo do oriental começou a descer, mais e mais...
Brigitte foi ao encontro de Pearson, tendo apanhado o
fuzil do primeiro homem-rã e seu arpão.
Pearson fez um sinal insistente, apontando para as rochas.
Brigitte compreendeu e ambos nadaram para ali.
Passaram por baixo de um arco na rocha e subiram à
superfície. As rochas formavam uma espécie de chaminé
com água tranquila, onde podiam ficar completamente
abrigados. Sentaram-se numa reentrância das pedras e
removeram as máscaras. Respiraram profundamente o ar
puro da manhã.
— Mas você nem ao menos trouxe um fuzil e um arpão?
— disse Pearson em tom de crítica.
Brigitte esperou alguns segundos, recuperando o fôlego e
olhou sorrindo para o “Fantasma”.
— Eu estava... esperando por você, John. E não queria...
que me vissem armada. Eu tinha que ser a vítima fácil...
entende?
— Você é uma insensata. Como é que podia ter certeza
de que eu viria?
— Já nos conhecemos há muito, John. Como foi que você
conseguiu chegar antes de mim?
— Bem, caso você não saiba, Hong Kong é colônia
britânica. Eu sou britânico. A polícia colonial dispõe de
umas lanchas velocíssimas...
— Você não sabe o quanto eu o amo, John!
— Engraçadinha... Bem, logo que você tenha recuperado
o fôlego, passaremos ao ataque. Há mais de três rãs amarelas
trabalhando nisto, Brigitte. Não vai ser fácil chegar até esse
“Brinquedo Perigoso”. Mas ocorreu-me algo que talvez a
interesse.
— Estou certa disso.
John Pearson lançou um braço para trás e apanhou um
rolo grosso de finíssimo fio metálico.
— Isso é tudo o que temos. E... bem, você sabe que isto
pode custar-nos a vida, Brigitte.
— Ainda está em tempo de você sair da jogada... se
quiser. Diga-me qual é o seu plano e eu o levarei a cabo...
você volta para a Inglaterra, para sua casinha à beira-mar.
Como foi que você encontrou este lugar? Ninguém pode ver-
nos aqui!
— A não ser do ar.
— É lógico... Bem, John: você volta para a Inglaterra?
— Não seja idiota. Este rolo de arame tem o
comprimento suficiente para...
***
Po Yang consultou o relógio e franziu o cenho. Fazia já
quase três quartos de hora que Brigitte tinha abandonado a
lancha, mergulhando no mar. E três quartos de hora era
tempo demais para...
De repente viu o homem-rã surgir na superfície, a uns
vinte e cinco metros dele. Vestia um traje de borracha cor do
mar e era apenas perceptível na água.
Mas Po Yang viu perfeitamente o movimento que o
mergulhador fêz com um braço. Junto ao primeiro homem-rã
surgiu outro, com roupa igual, erguendo acima da cabeça um
traje de mergulho. Um traje de borracha negra, comum...
Po Yang sorriu, respondeu à saudação que os
mergulhadores lhe fizeram com os braços e dirigiu-se aos
comandos da lancha. Quando voltou a olhar em direção a
eles, já haviam desaparecido.
O chinês apanhou a bolsa de Brigitte, abriu-a e ficou
olhando com um sorriso a pequena pistola de cabo de
madrepérola, o par de brincos, o minúsculo rádio de bolso.
Apanhou um cigarro do maço de Brigitte e acendeu-o com o
isqueiro de brilhantes e platina, soltando a fumaça para o céu
azul-dourado da radiosa manhã.
Colocou a lancha em marcha. Ainda não se tinham
esgotado as duas horas que Brigitte lhe dera de prazo. Mas
não tinha importância...
— Adeus... — sorriu Po Yang. — Adeus, doce e formosa
Brigitte... Creio que nunca a esquecerei.
SETE
Sonho de grandeza — Onde se comprova o fenômeno da
ubiquidade
Po Yang deteve a lancha junto ao embarcadouro de onde
havia partido com Brigitte umas três horas antes. Hong Kong
já estava inundada com a luz do sol e o caís em grande
atividade, pesqueiros chegando, outros partindo. Os grandes
cargueiros formigavam. Intenso ruído de correntes, vozes,
guindastes e motores dominava o ambiente.
Mas, naquela manhã, Po Yang não sentia o menor
interesse por tudo aquilo. Havia chegado o momento,
finalmente, em que teria o seu capital, a sua fortuna, que lhe
permitiria possuir uma vila no peak e continuar
tranquilamente seus negócios.
Dentro de poucas horas seria milionário. Carregava nas
costas, vários anos de lutas, de esforços, de medo... Por fim,
naquela manhã radiante, ia ser um dos homens
verdadeiramente ricos da exótica cidade de Hong Kong.
Amarrou a lancha e subiu rapidamente os degraus de
madeira, entrando em sua casa, a casa úmida, com cheiro de
cais, que suportara durante tantos anos. Mas tudo acaba.
Havia chegado o fim daquela casa para Po Yang.
Foi diretamente para um canto do living, revestido de
painéis de madeira. Fez pressão com os dedos em
determinado ponto, e dois painéis entreabriram-se
silenciosamente, deixando uma abertura que apenas dava
para um homem passar. Po Yang entrou num pequeno
cubículo, acendeu uma luz e tornou a fazer pressão num
outro ponto. Os painéis fecharam-se novamente, tragando o
chinês.
O living ficou solitário. Mas do outro lado da parede,
num pequeno cubículo, Po Yang abria a tampa de uma caixa
que escondia a emissora clandestina. Suas mãos moviam-se
rapidamente, nervosas...
Sentou-se numa banqueta e ligou o aparelho. Apanhou o
microfone e falou:
— Po Yang... Po Yang, de Hong Kong. Ponto dez, doze,
zero-um... Ponto dez, doze, zero-um... Respondam.
Houve uma breve pausa, e logo veio uma voz fina, em
chinês:
— Ponto dez, doze, zero-um... Identifique-se.
— Po Yang, Doca número dois... Assunto: submarino,
pesqueiros, artefato... Fala Po Yang, da Doca número dois,
em Hong Kong... Identificado?
— Identificado. Prossiga.
— A mulher de quem falei, Brigitte Montfort, era agente
da CIA americana...
— Era?...
— Era. Brigitte Montfort foi... executada, no fundo do
mar, por nossos homens-rãs especiais, em missão de
obtenção de artefato.
— Que há com o artefato?
— É chamado de “Brinquedo Perigoso” pelos
americanos. As últimas notícias, obtidas ontem à noite por
contato pessoal, indicavam que o “Brinquedo” estava preso
por cabos ligados aos pesqueiros em missão no centro e nas
praias da baía de Bias. Localizamos ontem o chinês que
havia ajudado a agente da CIA a chegar até a baía. Chamava-
se Lin Yuey e era muito jovem ainda. Vivia no pesqueiro
com uma mulher e um ancião que fumava ópio.
— Que houve com eles?
— Dois dos homens em missão na baía e eu fizemos uma
visita a eles. Estive no Celeste Hotel para perguntar à agente
da CIA o que fazer com o homem-rã americano que eu
mesmo matei. Depois de receber instruções dela, ordenei
àqueles dois homens que escondessem o corpo de Reginald
McCoy e fiquei próximo s.:
A agente inimiga, Brigitte, saiu do hotel. A agente
inimiga, Brigitte, saiu do hotel e foi ver o jovem chamado
Lin Yuey... Segui-a. Pouco depois, tornei a reunir-me com os
dois homens nossos e liquidamos Lin Yuey, a mulher e o
ancião. Não há mais nenhum fio solto, nenhum indício
perigoso.
— E o... “Brinquedo Perigoso”?
— Esperamos tê-lo esta noite na praia.
— E os russos?
— Não sei... Parece que desapareceram completamente.
Depois de matar Fédor Yashin e roubar a máquina
fotográfica que ele havia tirado da agente americana,
convenci-me de que não podiam saber muita coisa sobre o
“Brinquedo”... Então calculei que a mulher da CIA poderia
saber mais coisas do que Yashin, mas me pareceu muito...
prudente, muito astuta.
— E então?...
— Em uma das visitas que fiz ao seu apartamento, no
hotel, escrevi em sua própria máquina um bilhete dirigido a
mim mesmo, pelo qual ela me convidava a ir vê-la.
Encontrei-a no hall do hotel e entreguei-lhe o bilhete. Não
desconfiou de nada. Ela deve ter imaginado que era uma
jogada especial dos russos. E, como eu supunha, aceitou a
minha companhia com... com certo agrado. Foi o contato.
Deste modo, nesta mesma madrugada confessou pertencer à
CIA... Mas não apenas isso: levei-a esta manhã à baía de
Bias... Achei mais prudente do que executá-la em minha
própria casa... Ela tinha um plano maluco de recuperar o
“Brinquedo Perigoso”...
— E que foi que aconteceu?
— Quando mergulhou, utilizei seu espelho de
maquilagem e enviei sinais do tipo semafórico aos
pesqueiros. Responderam que cinco homens-rãs saíam
naquele momento em busca da agente secreta americana.
Apenas três quartos de hora depois, dois dos homens-rãs
com equipamento especial surgiram à tona, perto de mim,
exibindo o equipamento de Brigitte Montfort. Não há dúvida
de que esse nome é falso, mas mesmo que seja o verdadeiro,
já não importa, pois a estas horas ela está metida em alguma
fenda de rocha, no fundo do mar. Esta tarde espero receber
notícias do “Brinquedo” e, então, já deverá estar bem
próximo da praia.
— Devemos mandar o caminhão-grua?
— Não... Mantenham-no oculto. É melhor esperar que a
noite caia por completo. Além disso, é preciso agir com
cautela nestes últimos momentos. Não podemos esquecer
que tive que matar o tenente ianque que começou a procurar
onde não devia...
— Esse oficial descobriu alguma coisa?
— Nada. Mas teria descoberto se continuasse procurando
esta manhã. Por isso fui ao seu apartamento depois de haver
comparecido ao “encontro” que eu mesmo marquei com a
espiã da CIA, matando-o. Agora estou com seu cadáver
numa caixa endereçada a São Francisco, com declaração de
objetos de arte chineses...
— Bem... em resumo?...
— Morto Fédor Yashin, por minhas mãos. Morto
Reginald McCoy, por minhas mãos. Morto Lin Yuey, e
família, por minhas mãos. Morta a agente da CIA, por mãos
dos homens-rãs especiais. Parece que o caso está resolvido.
De qualquer maneira, voltarei a chamar às cinco da tarde,
quando já terei recebido o relatório dos homens que dirigem
os pesqueiros na baía. Nessa ocasião já terei
pormenorizadamente todos os acontecimentos, podendo
dizer se o caminhão-grua deve ou não sair do mato para a
praia a fim de recolher o “Brinquedo Perigoso”.
— E as fotografias que essa mulher tirou na baía?
— Parece que fotografou os homens-rãs no momento de
descanso, quando estavam em descompressão, prontos para
subir no pesqueiro isolado. Pelo menos, isso é o que a
atividade de Brigitte Montfort indicava. Mas, além dela,
parece que ninguém mais interferiu no assunto. Agiu
sozinha, por conta própria... e agora está morta.
— Bom trabalho, Po Yang.
— Obrigado. Chamarei às cinco da tarde.
Po Yang cortou a ligação, levantou-se, guardou o
aparelho clandestino e saiu do esconderijo. Fechou os
painéis que o ocultavam e voltou-se esfregando as mãos,
satisfeito. Caminhou até o centro do living. Ficou parado ali,
alguns segundos, com um sorriso petrificado nos lábios.
Ah! Os sonhos! Os sonhos de grandeza e opulência que
finalmente iam concretizar-se! Depois daquilo seria, sem
dúvida, considerado um dos melhores agentes sino-
comunistas, senão o melhor. Chefiaria a base em Hong
Kong, com dezenas de homens às suas ordens...
— Muito me alegra encontrá-lo de tão bom humor, Po
Yang.
A voz vinha de um monte de almofadões num canto da
sala. Vinha como sopro cálido, mas não obstante gelou a
espinha do chinês, fazendo seu corpo tremer.
Voltou-se com os músculos tensos para o lado de aonde
viera a voz e ficou olhando, de maneira incrédula, a
estupenda espiã, vestida apenas num par de shorts
masculinos e uma negra malha de lã, extremamente folgada,
com as mangas dobradas até a altura do cotovelo.
— Brigitte...
A belíssima agente da CIA sorriu docemente.
— Você já ouviu falar no dom da ubiquidade, amor?
— O dom... dom... de quê?...
— Da ubiquidade, querido.
— Eu... eu...
— Não leve as mãos ao paletó, benzinho. É um gesto de
muito mau-gosto.
Po Yang passou a língua pelos lábios subitamente secos.
— Sim... sim... Está bem...
— Muito inteligente da sua parte. Mas você ainda não
respondeu à minha pergunta.
— Que pergunta?
— Essa, sobre a ubiquidade. Sabe o que é?
— Claro...
— O que demonstra que você é uma pessoa de certos
conhecimentos... A não ser que esteja mentindo. Vejamos: o
que é o dom da ubiquidade?
— É a faculdade que uma pessoa tem para... estar em
vários lugares ao mesmo tempo.
— Muito bem! Geralmente, apenas em dois lugares. E,
segundo parece, querido, eu possuo esse dom. Digo isso
porque, como se supõe, neste momento eu estou metida na
fenda de uma rocha, morta, com um arpão atravessado em
meu formoso corpo. Donde se depreende que a ubiquidade
existe, querido Po Yang. Você não acha isso surpreendente?
— Brigitte, creio que... que...
— Você não precisa crer nada, meu amor. Simplesmente
sabe, está seguro. Você está seguro, por exemplo, de que
Brigitte Montfort, a agente da CIA, acha-se morta a estas
horas... Como não havia de estar, querido, se você mesmo
viu dois de seus homens-rãs fazendo sinais perfeitamente
claros, mostrando um traje negro de mergulhador...
exatamente o meu traje?
— Eu... estou contente de que você não esteja... morta.
Brigitte desatou a rir, imensamente divertida.
— Mas se eu estou morta, querido! Tudo o que acontece
é isto: o dom da ubiquidade. Ou você prefere acreditar que
eu tenha me reencarnado muito rapidamente e que voltei
para aqui o mais depressa possível a fim de estar junto do
homem que tanto me ama?
— Seja como for, estou feliz por tomar a vê-la, Brigitte.
— Acredito, benzinho. Quer que eu conte o que
aconteceu?
— Mas é claro! Estou ansioso por saber.
— Acho que deve estar. Bem, vamos pelo começo.
Atirei-me à água, desarmada, de acordo com o meu plano: eu
queria que certos homens-rãs da cor do mar o soubessem e
me considerassem presa fácil. Desta maneira enviariam
apenas dois para caçar-me, enquanto os outros continuavam
em seu trabalho junto ao “Brinquedo”. Esses dois homens
vieram em minha perseguição, muito seguros de si... É claro
que não podiam saber que eu tenho muitos amigos, inclusive
entre os serviços secretos de outros países. Um desses
amigos, um certo fantasma, apareceu no momento exato e
matou os dois homens-rãs da cor do mar. Daí, esse homem-
fantasma e eu fomos buscar os outros, que eram três... Creio
que tiveram uma grande surpresa. Mas não conseguiram sair
dela, porque começaram a morrer... Você está me
acompanhando?
— Sim... sim...
— Que bom! Como ia dizendo, querido, meu amigo e eu
matamos rapidamente aqueles três homens-rãs que tinham
sobrado. Em seguida, desamarramos os cabos que prendiam
o nosso brinquedinho aos pesqueiros e... não, não, estou
contando fora de ordem. Primeiro... isso mesmo: primeiro
matamos as três rãzinhas. Depois vestimos os seus trajes e
subimos à superfície para fazer sinais a um certo Po Yang
que estava à espera deles, como nós supúnhamos. Ele ficou
muito feliz e foi embora. Foi então que nós desamarramos os
cabos com muita ligeireza, amarrando-os em uma rocha para
que os homens dos pesqueiros não percebessem o que estava
acontecendo. Aí, meu amigo mostrou para que servia o rolo
de arame fino que ele havia levado: prendeu-o no
“Brinquedo” e levamos a outra ponta para um dos navios de
guerra americanos. De lá, um torpedeiro muito veloz nos
trouxe de volta a Hong Kong, a um lugar que nós
indicamos... Adivinhe que lugar era esse...
— Não... minha casa?
— Querido! Como você é inteligente! Aqui nós nos
escondemos e conseguimos saber algumas coisas. Você
acreditaria, amor de meus amores, se eu lhe contasse que
escutei o que você falou pelo rádio com alguém que, sem
dúvida, está no continente?
— Então... você sabe de tudo.
— De tudo, querido. Tudo mesmo. Mas nisso não há
muito mérito, porque, realmente, eu já desconfiava de você.
E as minhas desconfianças foram confirmadas por um certo
monstro amarelo que respondia pelo nome de Tao Tsing...
Coitado! Morreu entre seus lótus e carpas.
Po Yang fez um gesto fatalista e perguntou:
— Você não acha que foi uma boa ideia a do bilhete que
eu escrevi para mim mesmo?
— Muito original... Mas antes de encerrar quero dizer-lhe
que a estas horas o “Brinquedo Perigoso” já está no porta-
aviões americano...
— Imagino.
— Só mais uma coisa: meu nome verdadeiro é Brigitte
Montfort mesmo...
— Você é fabulosa! Tiro o meu chapéu. A CIA deve
estar orgulhosa de você...
— Como você é amável, querido! Naturalmente que a
CIA está orgulhosa de mim. Não é para menos!
— Incrível... — sorriu Po Yang.
— Vê? Descobri facilmente o homem-chave da
espionagem sino-comunista em Hong Kong, estive a ponto
de morrer várias vezes... sozinha matei alguns e meu amigo
liquidou outros tantos, todos armados e experientes. Esses
casos de espionagem são formidáveis, você não acha?...
— Sem dúvida...
— Mas descobri também um assassino frio e feroz, capaz
de matar uma mulher, um velho e uma criança indefesos...
sem falar no agente russo e no oficial americano, mortos à
traição: Po Yang você é um monstro!
— Devo agradecer seus elogios?
— Estou acusando...
— Você agora virou juiz?
— E por que não? — a voz de Brigitte tornara-se dura e
fria.
— E qual é o seu veredicto?
— A pena de morte.
— Você não tem coragem... não vai tornar- se uma
assassina.
— Eu nunca assassino. Apenas executo. Respeito a vida
dos espiões inimigos. Às vezes, porém, sou obrigada a matar
para salvar minha vida. Quando posso, capturo vivo e
entrego à CIA. Mas não posso respeitar nem perdoar um
assassino imundo que mata fria e covardemente...
— Você vai matar-me?
— Adivinhou.
E dizendo isso Brigitte apontou uma automática 45 que
tirara debaixo de uma das almofadas.
— Não, Brigitte... Você não vai fazer isso — implorou
Po Yang, mas ao mesmo tempo, num gesto rápido, levou a
mão à parte interna do paletó, tentando sacar sua arma.
O gesto não chegou a completar-se. O tiro da 45 ecoou no
living. Imensa mancha vermelha surgiu quase que
instantaneamente no peito do chinês. O impacto da bala fê-lo
recuar dois passos antes de cair grotescamente no chão.
A porta dos fundos do living abriu-se dando passagem a
John Pearson.
— Há momentos — disse — em que matar chega quase a
ser um prazer. Bom trabalho, Brigitte.
— Obrigada, John. E os chineses que ajudaram Po Yang
no assassínio da família de Lin Yuey?
— Não tive remédio... tentaram usar seus punhais contra
mim, mas fui mais rápido... Você ainda tem alguma coisa
que fazer aqui?
— Recolher o cadáver de Reginald McCoy...
— E depois?
— Depois... Depois, passarei uns dias em Hong Kong,
escreverei meus artigos para o “Morning News" e voltarei
para Nova Iorque... E ficarei esperando...
— Esperando o quê? — murmurou Pearson.
— Que uma outra aventura, em qualquer parte do mundo,
nos reúna mais uma vez...
FIM
A seguir:
Nova e sensacional aventura de Brigitte Montfort, desta vez no
cenário cinematográfico do sul da Itália. Não deixe de ler, A
Filha de Giselle vivendo um EPISÓDIO EM CAPRI, com
espiões embuçados, na prática de estranhos hábitos romanos
do tempo dos césares. Procure este volume 35 da Coleção
ZZ7, em todas as bancas de jornais do país. EPISÓDIO EM
CAPRI. Uma novela de suspense!2
2
Texto conforme o original. (NR)
De acordo com uma lenda do povo Krenak, oriundos do Vale do Rio Doce,
região leste do Estado de Minas Gerais, no entardecer do dia mais frio do ano,
surgia uma grande onça. A visão do magnífico animal deixava a todos imobilizados
enquanto ele atravessava a aldeia a passos lentos. Escolhia e seduzia a jovem
mais bela da tribo, levando-a consigo. A mulher jamais era visto novamente.
A aparição, acreditavam eles, era a encarnação do espírito de um grande
guerreiro que vinha em busca de uma esposa, para aquecê-lo nesta noite tão fria.
Chamavam o esplendoroso animal de saiva-jaware-açu, ou, em nosso idioma: a
grande fera do entardecer. Para outros, seu nome se resumia a saiva-aju, ou filho
do entardecer. Daí, a origem do nome Savajo.