Nudge e Políticas Públicas: Economia Comportamental
Nudge e Políticas Públicas: Economia Comportamental
ARARAQUARA – S.P.
2019
AMANDA DE MORAES FUSO
ARARAQUARA – S.P.
2019
AMANDA DE MORAES FUSO
Começo agradecendo à minha família, Marisa Cristina e Washington por serem pais
incríveis, por me apoiarem em toda minha trajetória, por me ensinarem e permitirem que eu
buscasse sempre o melhor para mim, e por me incentivarem a buscar a melhor versão de mim
mesma.
Agradeço também à minha irmã, Camila, que sempre me apoiou, foi a melhor irmã
que poderia ser, me ensinou tanto e com quem dividi toda minha infância e adolescência.
Também ao Vitor, eu agradeço o imenso amor e companheirismo, sua paciência e
carinho comigo. Agradeço por todos os momentos juntos e por ter me ajudado a chegar a esse
momento, sempre me apoiando e incentivando.
À minha orientadora, Ana Claudia, eu agradeço por aceitar o desafio de orientar uma
aluna de outro departamento em um tópico tão novo e desconhecido por ambas, por ter me
ajudado na construção dessa monografia e ter me dado a liberdade de aprender junto a ela.
Ainda, agradeço a todos que conheci em minha graduação de modo em geral, todos os
professores que de alguma maneira construíram a profissional que sou hoje. Ao Centro
Acadêmico “Celso Furtado”, onde passei a maior parte de minha graduação e pude conhecer
tantas pessoas e me desenvolver grandemente, e a todos os projetos que me envolvi e de
alguma maneira moldaram a pessoa que sou ao final dessa graduação. A todos os colegas com
os quais compartilhei os últimos cinco anos de minha vida, seja em sala de aula, pelo campus
da universidade ou morando junto.
RESUMO
The field of behavioral economics, which is a novelty in the Economic Theory and has been
explored in the past five decades, has increasingly conceived evidence that human behavior
distances, in a systematic and meaningful way, from the idealization defended by Economy -
the Homo Economicus, or Econ, that follows maximizing standards, and which is totally
rational, contains all of the information it might need to make decisions.
This re-read on man and his real architecture of choices has new perspectives and tools that
allow us to help in the improvement of all the areas that until now used the conception of
Econ. In the case of this work, this new vision is applied to the construction of Public
Policies.
Thus, the main purpose of this paper is to present and discuss the main characteristics of
Behavioral Economics, with the identification of the nudge approach - the aspect of the
architecture of choices that alters the behavior of people in a predictable way - in order to
search within this new approach in particular.
The specific objectives of this work are to understand how Economy characterizes the man
and his choices, as the Behavioral Economy makes a new reading on this, and then to explore
the particularities of the nudge phenomenon, which would be the architecture aspect of
choices, directing them to more beneficial choices.
From the development of the research it can be concluded that a better understanding on
human behavior can improve policy formulation. In this sense, the use of behaviorally
oriented interventions seems to have a wide scope to improve their efficiency and
effectiveness, considering that one of the fundamental roles of government is to empower
citizens, that is, to provide a framework by which people can make well-informed and
appropriate life choices.
Create a guidance system so that people can make important choices about how much they
want to eat, drink and exercise is a challenge. However, approximate solutions are far better
than no solution at all. Wherever the challenge is too great for the government, academia, or
consultancy, it is certainly not to be expected that individuals individually will lead the way to
making the best decisions without any assistance. Governments need to be open to involving
behavioral experts when programs are designed. In a world marked by increasing complexity,
one cannot but understand the concrete human being who is both the formulator and object of
public policy and development projects.
Key words: Behavioral Economics, Nudge, Policy Building.
LISTA DE TABELA
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
LISTA DE SIGLAS
I. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 10
I. Introdução
“Que obra admirável é o Homem! Tão nobre na razão, tão infinito em faculdades!
Na forma e movimento, tão preciso e admirável! Na ação, tal como um anjo! Na
compreensão, tal como um deus! A beleza do mundo! O modelo dos animais!”
(SHAKESPEARE, 1603, Hamlet, ato II, cena II.)
Entretanto, a racionalidade plena do ser humano tem começado a ser questionada pela
própria Economia. A Economia Comportamental surge enquanto uma das facetas desse
questionamento da tão perfeita racionalidade humana, trazendo em perspectivas as falhas da
até então lógica econômica dominante quanto ao entendimento do que é o homem. Nessa
vertente da Economia, traz-se a real ilustração do homem: um ser racional, mas que não se
comporta efetivamente como um ser perfeitamente racional. Segundo essa nova perspectiva, o
homem tem influências psicológicas e emocionais nas suas escolhas.
Essas considerações provocam uma nova discussão acerca de políticas públicas. Se os
agentes nem sempre tomam decisões racionais, e se o ato escolhido para determinada política
tem pressuposto a racionalidade, o resultado obtido será diferente do resultado esperado.
Portanto, a política construída não será de completa eficiência, e, por isso, é relevante analisar
os fundamentos da Economia Comportamental sob a perspectiva de políticas públicas.
Para a discussão de uma nova maneira de se fazer políticas públicas, surge, então,
dentre as ferramentas da Economia Comportamental, o conceito do ‘nudge’: uma nova
maneira de se pensar o fazer político seguindo um princípio de direcionamento de escolhas
inteligentes que podem transformar os policy makers e a maneira como se lida com políticas
públicas.
O princípio do nudge, a ser explorado neste trabalho, coloca em perspectiva a
psicologia humana de escolha, até então dita perfeitamente racional. A ideia explorada é a da
construção das escolhas a serem apresentadas a um público, a maneira como se é construída
uma política, para que seu desenho leve em consideração o aspecto real da maneira como o
ser humano se comporta. Assim, ao se desenhar uma política, é possível direcionar as pessoas
a fazerem escolhas que sejam mais benéficas para elas e para a sociedade num todo.
A pesquisa norteia-se com base na premissa de que há veracidade na aplicação da Teoria
Comportamental à construção de Políticas Públicas, sendo possível, portanto, explorar a
teoria econômica do século XXI aplicando-a a outras áreas, uma vez que dizem respeito a
uma realidade social construída e atribuída de inúmeros de significados - no caso, em
destaque, o de que o homem não mais é visto unicamente como ser permanentemente racional
e maximizador. Dessa perspectiva, esse fenômeno carrega um componente reflexivo que tem
em conta o componente da caracterização econômica do Homem para se entender a sociedade
e construir as políticas a serem regidas.
A pesquisa foi organizada com enfoque na revisão da literatura de autores referenciais
nos temas, e da contribuição desses trabalhos deve ser feita a ponte para a nova leitura do
12
Homo Economicus e do fenômeno do nudge com a maneira que são construídas novas e mais
sofisticadas políticas. O instrumental a ser utilizado na pesquisa será composto pela
bibliografia selecionada - os livros do autor Richard H. Thaler, que contextualiza toda a
Economia Comportamental e o fenômeno do nudge, assim como os textos e artigos de
comentadores e demais pensadores que auxiliaram na reflexão sobre as temáticas trabalhadas
na pesquisa, e que contextualizam e discutem a parte voltada à construção das Políticas
Públicas.
Enfim, ao lidar com temas complexos e modernos tais como uma nova teoria
econômica, que foge ao mainstream sob o qual a Economia vem sendo construída pelos
últimos três séculos, se requer, ainda que sob certos recortes, uma boa caracterização da
teoria. Ressaltamos, ainda, que, neste momento, não há intenção de uma aplicação pratica de
formulações de políticas específicas baseadas nas já mencionadas premissas, mas sim uma
abordagem geral, daí a escolha de um instrumental predominantemente teórico e conceitual.
i. Homo Economicus
Em meio ao desenvolvimento econômico do século XIX e início do XX, os
economistas tinham em seus modelos formais o resguardo de sua reputação enquanto
cientistas sociais dos mais completos e poderosos. Porém, a economia se baseava em modelos
que partem de premissas para cuja construção foi necessário criar uma criatura ficcional que
caracterizasse o homem. Tem-se, então, a ideia do Homo Economicus, ou Econ, que remonta
aos conceitos econômicos de Adam Smith e passa por grandes pensadores, tais como Stuart
Mill.
“(...) essa cisão ocorreu enquanto os temas ligados à filosofia moral foram sendo
excluídos dos limites da economia. Este passo fez a citada ciência não mais
questionar como a conduta humana se configura, ignorando suas facetas morais que
ponderam o egoísmo e que influenciam nas decisões dos agentes econômicos.”
(AVILA, 2014, p. 310)
complexos e tem muito mais variáveis, o que torna os problemas insolucionáveis. Segundo a
concepção de Richard H. Thaler, em “Misbehaving: A Concepção da Economia
Comportamental”, basta imaginar uma família comum indo ao supermercado, para quem
existem ali milhões de combinações de cestas possíveis que se encaixam dentro de seu
orçamento. Com essa variedade, então, expandida para escolhas maiores como a escolha de
uma carreira ou um cônjuge, tem-se que não é possível afirmar com veemência que a escolha
ideal será feita em todos os momentos.
Segundamente, pode-se afirmar, com rigor, que as crenças das pessoas irão influenciar
em suas escolhas, assim, todas elas são enviesadas. Basta voltar ao exemplo do supermercado,
em que a família, sem dúvidas, fará escolhas baseada em seus gostos pessoais. Ainda, os
psicólogos apontam que existem muitos outros vieses, como, por exemplo, o excesso de
confiança, que a Teoria Econômica não considera. Em terceiro lugar, há muitos fatores que
são deixados de lado no modelo de otimização, uma vez que, no mundo dos Econs, muitos
outros aspectos são considerados irrelevantes. Ainda no exemplo do supermercado, para um
Econ seria irrelevante ele estar com fome durante a compra, então, isso não afetaria a
quantidade de comida a ser comprada para os próximos dias, e mesmo que comprasse mais
comida que o necessário, ele consumiria apenas o suficiente para lhe satisfazer, não haveria
preocupação com o preço pago ou o desperdício, o gasto passado não influenciaria na
quantidade a ser consumida no presente. Um grande exemplo pode ser obtido imaginando a
concepção de um Econ sobre qual seria o melhor presente possível. Provavelmente seria
dinheiro, já que este permitiria que a pessoa comprasse qualquer bem ou serviço que
considerasse ideal. No entanto, na própria concepção cultural da sociedade há um estigma em
presentear pessoas, como por exemplo sua esposa, com dinheiro.
Apesar do Econ ser parte da base teórica econômica aceita e amplamente
disseminada, é bem explicito seu distanciamento do Homo Sapiens. A natureza humana não é
explicitamente otimizadora, afinal, qualquer leigo pode perceber que somos moldados por
uma sociedade, por crenças, por múltiplas culturas. Economistas são seres humanos e sabem
da limitação do modelo, contudo, mesmo assim, modelos econômicos foram criados a partir
do conceito de que o mundo é formado por Econs, estes foram aceitos e são até hoje
estudados. É necessário entender que a premissa de racionalidade presente no homem é um
dos pontos cegos da Economia
Mas é em meados dos anos 1970 que começa a nascer a real busca por modelos que
fossem mais realistas ao lidar com as escolhas dos indivíduos. Foi a partir dos psicólogos
15
Pensar na realidade humana por um breve momento já torna perceptível que nem
sempre as escolhas feitas são de todo egoístas, tampouco são um cálculo de custo e benefício
sendo feito a cada tomada de decisão, e preferências não são sempre estáveis, sendo,
inclusive, em muitas pessoas e situações altamente mutáveis. Para se definir EC, a premissa
central a se destacar é o fato do ser humano ser altamente mutável, suscetível ao momento,
seu estado psicológico e ao fator social, que está relacionado a preferencias sociais.
Para trabalhar a ideia de EC, pode-se seguir um breve exemplo. Imagine que você
decidiu comprar um novo notebook. Na premissa da Economia Clássica, não faria diferença a
marca do produto, por exemplo, pois você apenas optaria pelo melhor custo benefício. Mas
essa não é a realidade aplicada aqui, afinal, considerando que você decidiu optar por uma
marca já conhecida que lhe agrada e essa foi sua primeira decisão, um leque de outras
decisões se abrirá. As características próprias de cada componente chave de um notebook
precisam ser decididas a fim de se encontrar o produto ideal. Suponha que você parte de um
produto base e pode personalizar cada componente de acordo com sua preferência, a maneira
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como esses componentes serão apresentados influenciara diretamente na escolha final a ser
feita. Todo esse processo é capaz de ilustrar diversos conceitos das teorias de EC.
Começando pelo modelo básico, ele representa a escolha padrão (default), ou seja,
quanto mais incerto sobre qual escolha fazer, mais provável será que essa seja a sua escolha
final, principalmente se ela for apontada como a opção mais adequada. Segundo, pode ser
aplicado a noção de “framing”, (enquadramento) apresentando opções de diferentes modelos
com opções de adicionar ou remover em um modo de personalização. Segundo um estudo, foi
observado que os consumidores acabam por optar por modelos mais completos, com um
número maior de características quando o modelo personalizado está programado no modo
remover em vez de adicionar (Biswas, 2009). A estratégia de enquadramento pode ser
facilmente percebida quando a questão financeira é posta em destaque, se colocado o modelo
mais completo a um valor de R$3000,00 e, então, se remover algumas características ele
passa para um valor R$2500,00, e parece, na visão do consumidor, mais atrativo
economicamente que se começasse com um modelo básico de R$2000,00 e fosse adicionado
características que elevasse o produto ao preço final de R$2500,00. Dessa forma, a empresa
que vende esses notebooks precisa passar por um processo meticuloso de experimentação
para encontra o ponto ideal onde se possa maximizar vendas com um produto mais completo
em relação às características, mas que parta de um preço padrão que encoraje o máximo
possível de consumidores a iniciarem o processo de compra.
Ficou expresso, no exemplo acima, o que é a economia comportamental e como ela,
funcionando a partir de exemplos realistas, é capaz de demonstrar que modelos clássicos
econômicos não expressam a realidade precisa de como o mercado e o homem funciona.
Existem diversos modelos de Teorias Comportamentais que podem ser aplicados em
diferentes cenários que diferenciam em propósito e aplicação entre as teorias. Os modelos
dependem de sua interpretação, podendo servir com o propósito de explicação ou intervenção.
Enquanto modelos tradicionais comportamentais tendem a incluir efeitos ambientais, sociais e
pessoais duradouros, muitos modelos procuram integrar ideias de EC e disciplinas
relacionadas e se concentram em influências do contexto sobre o comportamento. Essa ideia é
evidenciada na teoria do Nudge e na arquitetura de escolhas. (SAMSON, 2015)
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i. Definindo um Nudge
Um nudge é qualquer aspecto da arquitetura de escolhas que altera o comportamento
das pessoas de um modo previsível sem proibir quaisquer opções nem alterar
significativamente seus incentivos econômicos, e a arquitetura de escolhas é a forma como se
organiza o contexto no qual as pessoas tomam decisões. Assim, o que se é construído aqui é a
maneira como se são apresentadas opções às pessoas para direciona-las a escolhas melhores
para si e para a sociedade.
No livro de Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein “Nudge: Como Tornar Melhores
Decisões Sobre Saúde, Dinehiro e Felicidade” é construído um exemplo para melhor
descrever um ‘nudge’: Carolyn é responsável pelo serviço de alimentação de escolas em uma
cidade, ela é um nutróloga que é responsável pela alimentação de uma centena de crianças
todos os dias. Certo dia, acompanhada de seu amigo, Carolyn pensou sobre as escolhas dos
alunos, e traçou o plano de, sem fazer nenhuma alteração de cardápio, analisar as escolhas dos
alunos segundo a disposição dos alimentos nas cafeterias das escolas. Assim, selecionando
algumas escolas, foi instruído a cada cafeteria como disponibilizar os alimentos para os
alunos. Em algumas escolas, a sobremesa ficava junto ao prato principal, em outras à sua
frente, em outras atrás, e em algumas ficavam separados. Seguindo essa mesma ideia, em
algumas a batata frita ficava bem na linha de visão das crianças, já em outras, esse espaço era
da cenoura. Dessa forma, o posicionamento de vários itens variava de escola para escola. Os
resultados foram bem expressivos, essa alteração na disposição de alimentos foi capaz de
reduzir ou aumentar o consumo em até 25%. Assim, pode-se concluir que as escolhas feitas
pelas pessoas são influenciadas pelo contexto.
O termo ‘nudge’ pode ser interpretado como uma pequena mudança em algum
processo já existente, como no caso apresentado pelos autores. Em uma escola é feita a
mudança na cantina, e os alimentos saudáveis são expostos ao nível dos olhos das crianças, no
lugar das então junk foods. Então, naturalmente, se vê um aumento no consumo de alimentos
saudáveis. Assim, seguindo medidas à prova de vieses por meio de elementos supostamente
irrelevantes, haveria uma melhoria no hábito alimentar dos alunos.
Acima de tudo, ‘nudge’ é um aspecto da arquitetura de escolhas que altera o
comportamento das pessoas de maneira previsível, sem criar proibições ou alterar incentivos
econômicos. Assim, vemos que é feita uma alteração na colocação das possibilidades de
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1
Friedman e Fridman (1980) apud Thaler e Sunstein (2019)
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hipoteca para a própria casa, ou lidar com quaisquer tipos de problemas complexos em que os
recursos de que dispomos diariamente para auxiliar nossa vida (planilhas, corretores
ortográficos, calculadoras, entre outros) não são suficientes para nos levar a tomar as
melhores decisões. Alguns afazeres, mesmo que difíceis, conseguem ser aperfeiçoados
mediante prática (p. ex., jogar tênis), mas a verdade é que as decisões mais difíceis e
importantes com que nos deparamos ao longo da vida aparecem e exigem de nós saber o que
fazer sem qualquer treinamento prévio – afinal, as pessoas geralmente escolhem uma
faculdade, se casam, se divorciam poucas vezes na vida, e ainda que essas situações ocorram
mais de uma vez, não há como praticar a ação de escolher uma faculdade, se casar ou se
divorciar de modo a fazê-las da forma mais possivelmente racional e perfeita.
Às decisões sobre cuja tomada os nudges são uma ajuda bem-vinda, somam-se as
ações ausentes de feedback. A maioria das ações que empreendemos em nossas vidas são, nas
palavras dos autores, como treinar tacadas de golfe sem ver onde a bola está caindo. Nesses
casos, torna-se bastante difícil melhorar no que se está fazendo, pois, uma vez que não há
como monitorar nosso progresso, podemos passar uma enorme quantidade de tempo
praticando, mas essa prática não nos levará a se aproximar da perfeição, pois, para haver
aprendizagem é preciso haver feedback, é preciso prestar atenção constante nos aspectos da
atividade em que estamos melhorando e podemos melhorar. Por isso, sem feedbacks, os
nudges passam a ser opções interessantes.
Por fim, complementando-se às ações em que os nudges são cabíveis em substituição a
feedbacks, tem-se as decisões que envolvem opções muito variadas e desconhecidas para nós.
Sem ajuda, essas situações nos levam a escolher aleatoriamente sem saber quais serão os
efeitos da nossa escolha. Tem-se exemplo disso na ocasião de ir a um restaurante
especializado em comidas exóticas: para que nossa experiência no estabelecimento acabe não
sendo desagradável para nós, é interessante ouvir dicas de pessoas locais ou garçons sobre
quais pratos pedir. O que é possível compreender a partir das afirmações feitas é que talvez
as pessoas precisem de um nudge para poderem tomar decisões, principalmente decisões que
iram ter efeitos posteriores, decisões difíceis, incomuns e com pouco feedback e para aquelas
em que nem sempre a escolha feita e a experiência vivida são duvidosas.
Assim pode-se notar que uma política é construída após o surgimento de um problema,
e fica esclarecido que seu conteúdo compreende a “seleção de objetivos e de meios” que estão
ao alcance da população alvo. Ainda, Jenkins destaca que a política é “um conjunto de
decisões inter-relacionadas”, ou seja, os governos não tratam os problemas com uma única
decisão, em sua maioria a formulação de políticas envolvem uma série de decisões que
convergem cumulativamente para um resultado. É nessas múltiplas decisões que diferentes
perspectivas são levantadas, e assim a construção de políticas pode abrir caminhos para novos
conceitos.
i. A Formulação de uma Política Pública
A formulação de uma nova política segue um ciclo, como pode ser visto a seguir:
2
Disponível em: <[Link] Acessado em: 20 de junho de 2019.
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O ciclo é composto, em sua essência, por cinco partes, começando com a ‘formação da
agenda’, onde um governo toma conhecimento da existência de um problema público e nota-
se a necessidade de tomar providencias a respeito. Tem-se, em sequência, a formulação de
políticas - sendo aqui onde se inicia o processo de aplicação da Economia Comportamental,
como ver-se-á mais adiante.
A formulação de políticas é a etapa da construção das políticas públicas que
correspondente ao momento em que os policy makers estabelecem o curso de ação a ser
tomado ‘depois que um governo reconheceu a existência de um problema público e a
necessidade de tomar um posicionamento a seu respeito (...)’ (HOWLETT; RAMESH;
PEARL, 2013). Essa etapa é pautada pela avaliação das possibilidades, opções, riscos e
méritos decorrentes de uma ou mais formas de lidar com um problema público à medida em
que elas estejam em uma quantidade com que os policy makers consigam trabalhar antes que
o curso de ação escolhido siga adiante para as deliberações formais dos tomadores de decisão.
É importante frisar que a formulação de políticas é um processo altamente difuso e
desconexo que varia de caso para caso, porém, é possível estabelecer um conjunto de
subdivisões que caracterizam esse processo como um todo, ou, como as diversas opções
avaliadas entram e saem de consideração durante a realização dele. Assim, THOMAS (2001)
divide a formulação de políticas da seguinte forma:
• Primeiro, tem-se a fase da apreciação, em que os dados e evidências acerca do problema público
em questão são levantados pelas partes envolvidas de diversas formas: depoimentos de
especialistas, consulta pública, relatórios etc.
• Depois, vem a fase do diálogo, em que se procura estabelecer canais de comunicação entre os
atores para que eles debatam entre si, oferecendo diferentes perspectivas sobre o problema
público. Isso também pode ser feito de diversas formas, e cada uma delas influencia no desenrolar
do processo de comunicação incentivando, por vezes, o engajamento popular, e por outras, a
proeminência das opiniões mais técnicas sobre o assunto, entre outros tipos de influência.
• Em seguida, se tem a formulação, etapa em que atores situados na esfera do funcionalismo
público propõem seus feedbacks por meio de regulamentações e projetos de lei, selecionando
determinado conjunto de aspectos entre todos os que já foram discutidos nas fases anteriores para
levar em conta na elaboração desses feedbacks e orientar as próximas fases do processo de modo a
dar mais enfoque, ou, especificidade a elas.
• Por fim, há a fase da consolidação, em que os demais atores respondem às recomendações feitas
via regulamentações e projetos de lei, e, dessa forma, continuam contribuindo, cada um à sua
maneira, para o desenho final que a política pública virá a ter. Assim como a fase da formulação, a
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consolidação também é uma fase de feedback, porém, ao passo que a primeira visa conferir uma
estrutura normativa e limitada a um debate mais amplo, na segunda pretende-se influenciar a
maneira como essa estrutura normativa irá se desenhar.
Seguindo a caracterização da formulação de uma política, é em meio ao processo de
diálogo e da formulação que pode surgir a aplicação dos conceitos de nudge, feita desde a
base da construção das políticas. Nascendo junto ao diálogo dos agentes, a concepção do
nudge pode se aplicar à formulação de uma política partindo de exemplos de outras nações.
Pode-se aqui destacar países que começam a usar desse novo modelo de política. Um caso
muito distinto a ser destacado é o do Reino Unido, o país desenvolveu nos últimos anos umas
novas políticas públicas. Um grande exemplo foi a mudança na política de doação de órgãos,
a lei foi alterada a fim de se aumentar o número de doadores de órgãos no país. Foi a partir
dessa pequena políticas que o país ganhou uma nova perspectiva na aplicação de políticas, e
então o governo britânico no ano de 2010 deu início a uma “unidade nudge”, como é
conhecido informalmente o Behavioural Insights Team (BIT), uma organização focada em
aplicar teorias nudge com a finalidade de melhorar a política e os serviços do governo. A ideia
por traz dessa organização, que hoje atua fora do governo britânico, mas ainda com sua
parceria, é revolucionar as políticas públicas por meio de conceitos modernos e agregar
maiores resultados a políticas melhorando a vida das pessoas e comunidades em diferentes
localizações do mundo.
determinado procedimento para demonstrar que tem a intenção de serem doadoras de órgãos.
O problema nessa regra é que apesar de muitos demonstrarem interesse na doação, poucos são
os que passam pelo procedimento concreto necessário para se cadastrar como doador. Assim
como ocorre em outros casos, a norma-padrão exerce um forte impacto, e a inércia exerce
grande influência nas pessoas.
Uma política que se encaixa na categoria ‘libertário’ é a do consentimento implícito.
Há uma mudança na norma-padrão nesse caso. O estado que adota essa medida parte do
pressuposto de que todos cidadãos são doadores de órgãos, mas aqueles que desejem não o
fazer tem a liberdade de se registrar, sem complicações, o desejo de não ser. Embora o
consentimento implícito seja, em certo sentido, o oposto do consentimento explícito, existe
uma semelhança destacável entre eles: aquele que não deseja seguir a opção padrão imposta
tem todo direito de, sem qualquer tipo de dificuldade, registrar sua opção de não participar
dessa política.
Seguindo essa mesma vertente, Kahneman expõe:
“Um artigo publicado em 2003 observou que o índice de doação de órgãos ficou
perto de 100% na Áustria, mas foi de apenas 12% na Alemanha, ficou em 86% na
Suécia, mas foi de apenas 4% na Dinamarca. Essas enormes diferenças são um
efeito de enquadramento, que é causado pelo formato da questão crítica. Os países
com alto índice de doação tem um formulário do tipo ‘optar pela exclusão’, em que
os indivíduos que não desejam doar devem ticar no campo apropriado. A menos que
executem essa ação simples, eles são considerados doadores voluntários. Os países
com baixo índice de doação não possuem formulário desse tipo: a pessoa deve ticar
num campo para se tornar um doador. Isso é tudo. A melhor forma isolada de prever
se a pessoa irá ou não irá doar seus órgãos é a indicação da opção default que será
adotada sem ter de ticar em um campo.” (KAHNEMAN, 2012, p.398)
Ambos os trabalhos exemplificam bem os vários aspectos de uma política construída em cima
de um nudge, e típica do paternalismo libertário. Antes de se construir a política, baseando-se
em dados de pesquisas e da já aplicação na mudança do desenho da política por outros países,
é possível notar que o enquadramento feito quanto à doação de órgãos é estrutura fundamental
para as doações efetivas de um país. Pode-se observar que primeiro é tido um ganho efetivo
demonstrado pelo aumento do índice de doação de órgãos nos países que optam por este tipo
de política, algo que tem implicações para a sociedade. É também notável a manutenção da
liberdade, pois os indivíduos que não desejam realizar a doação de órgãos podem
27
IV. Conclusão
Este trabalho faz uma breve revisão sobre a noção de comportamento humano usado
na economia tradicional e na então economia moderna, e como uma nova concepção de
homem foi aplicada à política em uma tentativa de demostrar o que é possível ser alcançado
se princípios de design forem aplicados de maneira mais ampla.
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Concluímos, observando adiante, como essas lições podem ser aplicadas na prática, e
o que isso significa para o funcionamento das políticas na sociedade, que políticas públicas
podem se beneficiar de insights comportamentais, adotando na sua arquitetura de escolha e na
sua implementação elementos que melhorem a qualidade das decisões tomadas pelas pessoas.
Um maior entendimento do comportamento humano pode aprimorar a formulação das
políticas, a utilização de intervenções orientadas por uma perspectiva comportamental parece
ter um campo vasto para melhorar a eficiência e a efetividade das políticas, levando em
consideração que um dos papéis fundamentais do governo é empoderar os cidadãos, ou seja,
oferecer uma estrutura pela qual as pessoas possam fazer escolhas de vida bem embasadas e
adequadas.
O governo busca garantir que os produtos sejam seguros e as informações ao
consumidor sejam confiáveis por meio de reguladoras que constantemente os avaliam e
analisam. No entanto, alguns desafios-chave enfrentados pelo governo e pelos e cidadãos são
extremamente complexos, e não se pode esperar que sejam enfrentados sem nenhuma
assistência. A tarefa da ciência comportamental aplicada é análoga à questão do design na
criação de controles para um automóvel, um sistema de sinais e regulamentações para o
trânsito e mapas físicos ou eletrônicos para que motoristas consigam se orientar com
segurança. Oferecer quantidades cada vez maiores de informação e conselhos ao cidadão não
será, por si só, suficiente. No setor automobilístico, um navegador GPS é útil porque oferece
sistemas simples e bem projetados e é capaz de traduzir recomendações em sequências
específicas de ação. Um navegador GPS, é claro, não determina onde o motorista deve ir; ele
não interfere na liberdade de escolha do motorista, ao contrário, fornece uma ferramenta
poderosa para ajudar as pessoas a atingirem sua meta de maneira eficiente. Mas espera-se que
os cidadãos tomem decisões “bem orientadas” e muito mais complexas em outros aspectos da
vida, não apenas na ausência de um GPS mas sem mapa, bússola, placas de sinalização e nem
o equivalente a volante e freio. Espera-se que as pessoas façam decisões cruciais em relação à
saúde, finança e afins.
A criação de sistemas de orientação para que as pessoas possam fazer escolhas
importantes sobre quanto desejam comer, beber e se exercitar é um desafio. No entanto,
soluções aproximadas são bem melhores do que nenhuma solução. Onde quer que o desafio
seja grande demais para o governo, o meio acadêmico ou as consultorias, certamente não se
pode esperar que as pessoas, individualmente, intuam o caminho para melhor decisões sem
nenhuma assistência.
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Entretanto, ainda existe uma lacuna na difusão desses temas para os policy makers, em
particular daqueles localizados em países em desenvolvimento. Os resultados apresentados
pela experiência de países desenvolvidos sugerem uma oportunidade para a promoção da
autonomia e do bem-estar das populações de diversas regiões do mundo a partir de uma
consideração mais adequada de como os seres humanos compreendem o mundo, tomam suas
decisões. Para isso governos precisam estar abertos a envolver especialistas em
comportamento quando os programas são projetados. Em um mundo marcado pela crescente
complexidade, não se pode deixar de compreender o ser humano concreto que é ao mesmo
tempo formulador e objeto das políticas públicas e dos projetos de desenvolvimento.
Referências Bibliográficas
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Strategies for Changing Civic Behavior. The Political Quarterly, v. 80, n. 3, p. 361-370,
2009.
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações – Investigação Sobre sua Natureza e suas Causas.
São Paulo: Nova Cultural, c1996. v.1.
THALER, Richard H.; SUNSTEIN, Cass R. Nudge: Como Tomar Melhores Decisões
Sobre Saúde, Dinheiro e Felicidade. 1ª Ed - Rio de Janeiro: Objetiva, 2019
World Bank. 2015. World Development Report 2015: Mind, Society, and Behavior.
Disponível em: <[Link] acesso em 01 de abril
de 2019.