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Apoio Materno em Tempos Difíceis

Aoife enfrenta uma gravidez inesperada e encontra apoio incondicional em sua mãe, que a ajuda a lidar com a situação difícil. Enquanto tenta entender seus sentimentos por Joey e a pressão de sua nova realidade, ela reflete sobre o passado e a dinâmica familiar. A relação entre mãe e filha se fortalece à medida que compartilham experiências e desafios, destacando a importância do amor e do apoio mútuo.

Enviado por

Nathali Oliveira
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Apoio Materno em Tempos Difíceis

Aoife enfrenta uma gravidez inesperada e encontra apoio incondicional em sua mãe, que a ajuda a lidar com a situação difícil. Enquanto tenta entender seus sentimentos por Joey e a pressão de sua nova realidade, ela reflete sobre o passado e a dinâmica familiar. A relação entre mãe e filha se fortalece à medida que compartilham experiências e desafios, destacando a importância do amor e do apoio mútuo.

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MÃE SABE MAIS

AOIFE

Eu faltei aos próximos dias de aula e liguei dizendo que estava doente para todos os
meus turnos; estava miserável e nervosa demais para conseguir me concentrar em
qualquer coisa além da tempestade que minha vida havia se tornado.

Tudo parecia escapar das minhas mãos e, no meio da loucura, a única boa decisão que
eu parecia ter tomado foi confiar na minha mãe.

Desde que contei a ela sobre a gravidez, mamãe tinha sido incrível.

Quando eu me sentia mais vulnerável, verdadeiramente à beira do abismo, ela apareceu


e segurou minha mão. Ela me deu alguém para apoiar, alguém para me mostrar o
caminho. Eu sabia que ela estava desapontada comigo — comigo, como ela tinha
colocado tão delicadamente —, mas tê-la ao meu lado tornava o pensamento do meu
futuro incerto quase suportável.

Permitindo meu afastamento temporário da vida, bloqueando as ligações do meu diretor


e chefe, sem contar as visitas não solicitadas da Katie e do Casey. Mamãe colocou o
pescoço à prova por mim e estendeu a mão para afastar o mundo enquanto eu tentava
aceitar o caminho que minha vida havia tomado. Incluindo me acompanhar àquela
temida consulta com nosso médico de família, onde tive que sentar na frente do médico
que me conhecia desde criança e contar que eu tinha cometido o erro antigo de
engravidar no ensino médio.

Ele confirmou o que eu já sabia, fez meus exames de sangue e me deu uma data prevista
para o parto: 20 de setembro. Depois me mandou embora com um monte de folhetos
sobre gravidez na adolescência e mães jovens, além da informação de que em breve eu
receberia pelo correio uma consulta para o exame morfológico no hospital público de
maternidade.

Eu fiquei tão abalada depois disso que minha mãe sacou o cartão de crédito de
emergência que meu pai achava que ela não sabia que existia e me levou para fazer
compras. Gastando uma fortuna no nosso salão de beleza e bar de estética de sempre,
sem contar que renovou todo o meu guarda-roupa com roupas que eu não poderia usar
por muito mais tempo, mamãe conseguiu de algum jeito tornar leve e normal uma
situação que não era nada disso.

Me mimando com canecas de chocolate quente e pratos de doces fresquinhos, ela nos
levou para passear pela cidade de Cork até eu não conseguir mais olhar para outra arara
de promoção ou mexer em outra cesta de barganhas.

Me cansar fisicamente fazendo o que eu mais amava era uma façanha impressionante, e
aprendi rápido que essa era a maneira da minha mãe me levar a um estado de exaustão
maleável.

Sentadas frente a frente em poltronas de couro combinando, numa cafeteria na Patrick’s


Street, com uma pequena mesa redonda e umas doze sacolas de compras entre nós,
mamãe levantou seu latte espumoso até os lábios e tomou um gole pequeno. Parecendo
uma verdadeira dama, com as pernas cruzadas nos tornozelos e seu lindo cabelo loiro
preso num coque solto, senti aquela familiar onda de irritação.

Minha mãe era bonita, por dentro e por fora. Ela era inteligente, espirituosa e leal. Se
cuidava, tinha um corpo lindo e trabalhava duro pela família. Mas nada disso parecia
importar para meu pai, que continuava repetindo os mesmos erros. Não era questão de
mamãe ter se deixado levar e meu pai ter mudado sua atenção para alguém melhor,
porque não havia ninguém melhor.

— Então, sobre o Joey — mamãe finalmente tocou no assunto que eu vinha evitando o
dia todo. — O que está acontecendo?

— Nada — respondi, pegando minha caneca de chocolate quente.

Eu não via nem ouvia falar do Joey desde a noite em que ele saiu pela janela do meu
quarto. Ele não voltou, e eu não sabia se ele tinha tentado ligar ou mandar mensagem,
porque eu, sem querer, tinha deixado meu celular na casa dele naquela noite. Eu estava
tão desesperada para sair daquela casa e daquele pai dele que deixei o celular junto com
o carregador, maquiagem, bolsa de viagem e, o mais importante, meu colar; aquele que
ele me deu no meu aniversário de dezoito anos.

Tirei as joias antes de usar o chuveiro dele e esqueci de colocar de volta. Ainda estavam
no criado-mudo dele, junto com meu anel Claddagh e brincos. Eu poderia sobreviver
sem tudo o que deixei para trás, menos sem o meu celular, e meu pescoço parecia tão
vazio sem aquele colar. Eu me pegava constantemente passando a mão no medalhão,
algo que virou quase um cobertor de conforto, só para sentir uma onda de desconforto
ao lembrar que ele não estava lá.

Eu estava desesperada para vê-lo, falar com ele, me acertar, mas era silêncio total do
lado Lynch.

— Nada? — mamãe arqueou a sobrancelha. — Eu não o vejo há alguns dias.

— Nem eu. — Ele tem muita coisa acontecendo.

Segundo o Kev, que ouviu do Mack, que ouviu do Alec, Joey estava na lista de
desaparecidos.

Ninguém o via ou ouvia desde o fim de semana.

Nem na escola, nem no treino, nem no campo do GAA, nem no pub.

Eu sabia que isso não era totalmente verdade, porque, embora ninguém da escola tivesse
notícias do meu namorado, ele tinha entrado em contato com meu pai.

Meu pai tinha mencionado para mamãe que Joey ligou para pedir folga, algo que
mamãe me contou depois.
Aparentemente, a mãe dele teve um aborto espontâneo tardio no segundo trimestre e ele
precisava ficar em casa para ajudar com os irmãos por uma ou duas semanas até ela se
recuperar.

Eu vomitei violentamente ao ouvir a notícia, ligando os fatos rapidamente, e percebendo


que quando ele me disse que algo tinha acontecido naquele dia, ele não estava me
enganando.

Ele estava falando sério.

E eu o tinha magoado naquela noite.

Feio.

Minhas palavras o devastaram, e eu me arrependi no instante em que saíram da minha


boca. Eu não quis dizer nada daquilo, mas na hora eu estava num estado que não
conseguia pensar direito. Nunca na minha vida senti tanto medo e humilhação quanto
naquela cozinha.

O ataque, pelas mãos do pai do Joey, durou no máximo noventa segundos, mas aqueles
noventa segundos foram os mais assustadores da minha vida. Teddy Lynch era o
homem mais assustador que eu já tinha encontrado, e a necessidade desesperada que eu
tive de me proteger para nunca mais encontrá-lo me levou a afastar a única pessoa que
sabia o que era ter medo daquele homem. Isso me deu um vislumbre do medo que Joey
e seus irmãos carregavam a vida toda, e meu coração se partiu por eles.

— Você precisa conversar com ele logo — mamãe me disse. — E seu pai e eu teremos
que sentar com os pais dele e ter uma conversa nossa.

— Não, não precisam — argumentei, com o coração batendo forte só de pensar na


minha mãe perto daquela casa. Ela não sabia o que aconteceu comigo. Se soubesse, a
conversa seria muito diferente. Entre ela e o policial que a prendeu por assassinato.

— Eu sei que eu e o Joey temos que conversar, e vamos. Mas você e papai não precisam
conversar sobre nada com os pais dele, mamãe. A mãe dele está acabada, e o pai dele é
um completo —

— Idiota?

Assenti e soltei o ar com dificuldade. — Um enorme.

— Você não precisa me contar sobre o Teddy Lynch, querida — respondeu ela. — Eu
passei seis anos do ensino médio tolerando aquele bastardo insuportável.

— Bastardo? — Levantei as sobrancelhas surpresa. — Você quase nunca xinga,


mamãe.

— É, às vezes não tem outra palavra que caiba melhor na descrição — respondeu ela,
me dando um sorriso pequeno. — E quando se trata de descrever aquele homem,
bastardo é pouco.
— Ele vai reagir mal — me ouvi admitir, mordendo o lábio, enquanto uma onda de
ansiedade me invadia.

— Teddy? — ela riu. — Não se preocupe com ele, querida. Seu pai e eu somos mais do
que capazes de lidar com ele.

Balancei a cabeça.

Os olhos da mamãe suavizaram. — Joey.

Assenti nervosamente. — Ele odeia o pai dele, mamãe. Quero dizer, ele realmente,
realmente despreza aquele homem. É sério, mamãe. Ele é tão paranoico de virar igual
que isso bagunçou a cabeça dele enquanto crescia.

— Isso é tão triste — mamãe respondeu. — Joey não é nada como o pai dele.

— Eu sei. Mas quando eu contar que estou grávida — que vamos ter um bebê ainda na
escola — ele vai olhar para a nossa situação e comparar com os pais dele. — Encolhi os
ombros, impotente, antes de acrescentar: — Eu tenho muito medo que isso o faça
desabar.

Embora nunca tivéssemos falado abertamente sobre os problemas do Joey, minha mãe
não era boba. Por anos, antes de sermos um casal, Joey tinha trabalhado com meu pai e
ido à nossa casa inúmeras vezes. Se eu já percebia que ele estava acabado naquela
época, meus pais também podiam. Mesmo assim, papai nunca o mandou embora, e
mamãe nunca o expulsou da porta.

Eles continuaram a segurar a porta aberta para um garoto que nunca teve uma chance de
lutar.

— Eu o amo, mamãe — declarei, a voz embargada, fixando os olhos nos dela através da
mesa de café. — Eu amo. Eu o amo tanto que isso me cega.

— É o que costuma acontecer quando a gente se apaixona pela primeira vez —


respondeu ela gentilmente. — Acontece com todo mundo, querida.

— Claro que sei que nosso relacionamento não é perfeito. Longe disso. — Os ombros
caídos, balancei a mão enquanto continuava: — Estar com ele é bagunçado, cru e
complicado pra caralho, mas também é excitante, viciante e tão incrivelmente certo. —
Soltei um suspiro e dei de ombros, impotente. — Não tem ninguém mais pra mim,
mamãe. Eu sei disso. Sinto na pele.

— Eu acredito em você — respondeu ela, segurando a caneca entre as mãos. — Você


sempre foi uma dramática —

— Ei!

— Deixa eu terminar.

— Tá. — Soltei o ar.


Rindo, mamãe tentou de novo: — O que eu quero dizer é que, apesar de você sempre ter
uma queda por drama e agir impulsivamente, você nunca foi imprudente com o seu
coração.

— Uau — pensei. — Que elogio com indireta.

— Ah, para — mamãe riu. — Onde está a mentira nisso?

Não havia nenhuma.

— Tá, eu sou dramática — admiti, dispensando-a com a mão. — Mas o Kev é que está
morrendo por sua atenção.

— Aoife — mamãe riu.

— É verdade — argumentei, meio brincando. — Ele está insano de ciúmes de todo o


tempo que temos passado juntas. Você não notou a carinha rabugenta dele? Eu não
ficaria surpresa se tivesse uma mini boneca minha no quarto dele com alfinetes
espetados.

— Coitado do Kev — ela riu.

— Coitado do Kev, uma ova — desafiei, revirando os olhos. — Você mimou ele, Mam,
e ele não sabe lidar com ninguém mais tendo sua atenção.

— Se eu mimei o Kev, foi porque ele precisava de mim.

— Ugh. — Fingi engasgar. — Claro.

— É verdade. Você nunca precisou de mim do jeito que ele precisou. Você sempre foi
minha criança selvagem — ela continuou me dizendo. — Mais desafiadora que seu
irmão — e mais rebelde também. Enquanto o Kev sempre se escondeu na segurança da
sombra, incerto e inseguro de si mesmo, você, minha querida, se banhou no sol. Você se
recusa a se esconder do mundo, escolhendo, em vez disso, abraçar tudo que a vida tem a
oferecer.

— Não tenho certeza se você está dizendo que isso é bom ou ruim — admiti, olhando-a
com cautela.

— É bom — Mam riu. — Claro, você já me deu alguns fios de cabelo branco ao longo
dos anos, e eu tive que conter essa sua veia imprudente de vez em quando, mas você fez
um trabalho maravilhoso ao conseguir encontrar o equilíbrio entre aproveitar sua
adolescência e não se perder no processo. E estou tão orgulhosa de você por isso, minha
pequena querida.

— Ah, olá? Eu estou grávida, Mam — retruquei dramaticamente, gesticulando para o


pequeno inchaço da minha barriga — o inchaço que mais parecia que eu tinha comido
uma refeição pesada do que qualquer outra coisa. — Estou prestes a te transformar em
avó antes do seu aniversário de quarenta e cinco anos. Acho que é seguro dizer que eu
não consegui encontrar equilíbrio em nada — a não ser que você esteja falando da
minha habilidade de me equilibrar no pau do Joey, nesse caso, as provas estão aí e
acontece que eu sou profissional.

— Por que você diz isso pra mim? — Mam gemeu, cobrindo o rosto com a mão. — Eu
sou sua mãe, Aoife. Jesus.

Dei de ombros. — Acho que é minha veia imprudente mostrando sua cara feia de novo,
né, Mam?

— Sim, bem, eu sou totalmente a favor de uma conversa aberta e honesta com minha
filha — ela disse com uma careta. — Mas, por favor, considere o fato de que eu te pari e
conheço o Joey desde que ele era um garoto de doze anos. Eu não preciso da imagem
mental de você se equilibrando no pinto dele, nem preciso que você entre em detalhes
íntimos. Guarde esse tipo de conversa para a Casey.

— Pinto — ri baixinho. — Fala pau, Mam.

— Eu não vou falar — ela respondeu, corando. — É uma palavra horrível.

— Para uma parte maravilhosa do corpo.

— Aoife!

— Tá bom, tá bom. — Levantei as mãos. — Vou calar a boca agora. — Rindo


suavemente, olhei para a Mam e disse: — Lembra de alguns anos atrás, quando eu te
disse que nunca ia deixar meu coração se apaixonar loucamente por um garoto?

— Ah, sim — Mam sorriu, sabendo exatamente do que eu falava. — Me lembro de


você insistindo que nunca ia se apaixonar pelo Paul, ou deixar qualquer garoto, na
verdade, nublar seu julgamento.

Fiz uma careta. — Deus, eu era uma tola santinha.

— Você acreditava naquilo na época.

— É, eu realmente acreditava.

— Ah, mas o Paul Rice nunca foi o Joey Lynch, foi?

Isso com certeza.

— Não. — Soltei um suspiro trêmulo e balancei a cabeça. — Ele não foi.

— Isso me deixava triste, sabia? — Mam deu outro gole no latte antes de acrescentar:
— Ver você com o Paul, se forçando a sentir coisas que eu sabia que você não sentia,
enquanto carregava uma paixão tão forte por outra pessoa.

Fiz uma careta. — Era tão óbvio assim?


— Ah, sim — Mam assentiu. — Você passou quatro anos da sua juventude se
acomodando com um garoto com quem você não tinha nada em comum, enquanto seu
coração nunca uma vez sequer se desviou do garoto que fazia seu rosto inteiro se
iluminar quando entrava na sala. — Um suspiro melancólico escapou dela. — Eu nunca
vi você ter esse tipo de reação quando estava com o Paul. Seus olhos não brilhavam
quando ele olhava para você, e suas bochechas nunca coravam quando ele piscava.
Você quase parecia abatida quando ele ia te visitar.

— Três anos e meio — corrigi, fazendo uma careta. — Eu sei que o Paul era estável,
Mam, e ele vem de uma família rica e tem um grande futuro pela frente, mas eu nunca
fui feliz com ele.

— Se você quer dinheiro, pode ganhar o seu — Mam respondeu. — Você não precisa
de um homem para isso.

— Eu sei e concordo completamente — falei rapidamente. — Mas a Casey achou que


eu estava louca por deixá-lo. Quero dizer, ela agora é do time Joey, mas por um tempo,
ela realmente questionou meu julgamento.

— Você sabe tão bem quanto eu o tipo de lar de onde a Casey vem — Mam respondeu
gentilmente. — Você sabe como é a mãe dela, Aoife. Você viu o que aquela mulher
expôs a filha ao longo dos anos. O tipo de homens que ela arrastou pela porta da frente.

— É — murmurei, me arrepiando só de lembrar.

— E você também sabe como eles estão apertados financeiramente naquele pequeno
apartamento em Elk’s Terrace — Mam continuou. — Só posso presumir que quando a
Casey viu você jogar fora um garoto com futuro garantido, por um garoto com futuro
indefinido, ela entrou em pânico por você.

— O Paul não era nenhum grande prêmio — murmurei. — E nós também não estamos
exatamente nadando em dinheiro, Mam.

— Podemos não ter dinheiro, Aoife, mas sempre tivemos uma à outra — Mam
explicou. — Sempre tivemos nossa unidade familiar, e isso é uma forma de estabilidade
e conforto que, tanto você quanto eu sabemos, a jovem Casey nunca teve.

Ou o Joey.

— Tenho sorte de ter você, Mam.

Ela arqueou a sobrancelha.

— O quê? — ri. — Eu estava sendo sincera.

— Sim, bem, tenho certeza que você vai pensar isso ainda mais daqui a seis meses —
ela riu. — Quando houver um bebê chorando sem parar e você estiver coberta de cocô e
vômito, gritando para sua mãe vir buscar o neto dela. — Claramente se divertindo, ela
acrescentou: — Pelo menos o seu parceiro no crime tem experiência com recém-
nascidos, porque você nunca segurou um bebê na vida.
— Eu já segurei o Sean.

— O Sean tem três anos.

— Ele só tinha dois quando segurei ele pela primeira vez.

— Há uma grande diferença entre um garotinho de dois anos que você pode devolver e
um bebê indefeso que depende inteiramente de você para suprir todas as necessidades
dele.

— Mam.

— Ele ou ela vai precisar que você alimente, faça arrotar, troque, vista, conforte, ame,
acalme — tudo isso e mais um pouco. Ele ou ela vai até depender de você para limpar
as vias respiratórias com um aspirador nasal pequenininho quando estiver resfriado,
porque não vai conseguir fazer isso sozinho. Esse bebê vai depender completamente da
mãe para sobreviver. E isso é só a fase de recém-nascido, que, acredite ou não, minha
querida, é a fase mais fácil da maternidade.

— Por favor, pare — implorei, sentindo tontura só de pensar. — Estou tão


absurdamente apavorada com o que está por vir, que me surpreende conseguir
funcionar.

— Você consegue fazer isso — ela me garantiu. — Você vai ser uma boa mãe.

— Eu vou ser um desastre — murmurei, desanimada. — Mal sei fazer uma rabanada.

— Porque você é uma princesinha mimada acostumada a ter tudo feito para ela — Mam
riu. — Mas logo vamos te colocar em forma, querida. Quando meu neto chegar, você
vai estar cozinhando feito uma chef e pronta para conquistar o mundo.

— Nunca me deixe, tá bom — consegui dizer, a voz embargada. — Eu posso estar


prestes a virar mãe, mas isso não significa que vou deixar de precisar da minha.

— Você está presa a mim, receio — Mam riu, piscando. — Gostando ou não.

— Eu não vou me mudar — avisei, levantando um dedo trêmulo. — Nunca vou sair de
casa, Mam. Vou ficar aqui, onde tem uma veterana da maternidade na residência — e
uma veterana da tábua de passar.

Mam riu de novo. — Isso é outra coisa que vou ter que te ensinar.

— Eu nunca vou passar roupa.

— Você não vai ter escolha.

— Vou sim — rebati. — Vou comprar só roupas sem necessidade de passar para o bebê
usar.

— E quem, posso perguntar, vai passar suas roupas?


Revirei os olhos. — Minha mãe, obviamente.

— Ah, Aoife, você me faz sorrir — Mam riu. — Você vai ficar bem, querida. De
verdade.

— Espero que você esteja certa, Mam — respondi. — Espero mesmo.

— Joey também vai ficar bem — ela acrescentou. — Vocês dois vão. — Mam me deu
mais um daqueles sorrisos perspicazes. — Quer saber como eu sei disso?

— Por favor, sensei.

— Porque o pai do seu bebê pode ser tão teimoso e cabeça dura quanto você para
admitir o que sente, mas o coração dele nunca uma vez sequer se desviou de você.

— Não. — Balancei a cabeça. — Você não sabe disso, Mam.

— Eu sei sim — ela corrigiu, com um tom suave. — Além do fato de ter visto vocês
dois crescerem e ter experiência direta com as qualidades que vocês possuem, também
tenho meus próprios olhos — e ouvidos — em perfeito funcionamento.

— Quer dizer?

— Quer dizer que quando você tira todas as camadas do relacionamento de vocês,
tirando as provocações, os hormônios à flor da pele e o aspecto físico, existe uma base
sólida por baixo — ela me disse. — Uma base feita de amizade, respeito e confiança. —
Sorrindo carinhosamente, ela descruzou e cruzou os tornozelos de novo, inclinando-se
para frente no assento. — Ele é seu amigo, Aoife, e você é amiga dele. Esquece o amar
um ao outro, isso é a parte fácil, você e o Joey gostam um do outro. Vocês gostam da
companhia um do outro, e posso garantir que todos esses aspectos maravilhosos do
relacionamento de vocês, todas essas conversas fáceis que vocês têm, ou todos os
momentos confortáveis de silêncio que passam juntos, só vão fortalecer a capacidade de
vocês de resistirem ao teste do tempo. E, mais importante, ao teste da paternidade.

— Você realmente acha isso?

— Acho sim — ela respondeu, me dando um sorriso reconfortante. — E lembre-se: mãe


sabe o que é melhor.
PENSE NO SEU FUTURO
JOEY

— Joey.

Tum. Tum. Tum.

— Joey.

Tum. Tum. Tum.

— Joey.

Tum. Tum. Tum.

— Joey!

Soltando um gemido dolorido, pisquei devagar ao acordar, sentindo um peso anormal


pressionando o meio das minhas costas, enquanto eu estava de cara enfiada no colchão.

O peso continuou pulando para cima e para baixo nas minhas costas, e eu lentamente
reconheci o peso como sendo meu irmãozinho.

— O-ee. O-ee.

— Porra, Seany-boo — gemi, esticando uma mão debaixo da cabeça e pegando um


travesseiro. — Para de pular nas minhas costas, moleque. Eu tô morrendo aqui.

Cobri a parte de trás da cabeça com o travesseiro, tentando — e falhando — abafar o


barulho atacando meus sentidos de todos os lados.

— Sean, desce e vai brincar com o Ollie — a voz familiar da Mam perfurou minha
mente, e eu me enrijeci, o corpo inteiro se tensionando. — Eu preciso conversar com
seu irmão.

Sean ainda deu mais três pulos bons nas minhas costas antes de obedecer nossa mãe e
sair cambaleando.

— Nem começa — resmunguei, rolando de costas. — Seja lá o que for, deixa pra lá.

— Eu não ia começar nada. — Fechando a porta do meu quarto, Mam veio até minha
cama e sentou ao meu lado. — Eu só queria saber se você tá bem.

Suspirando pesadamente, ela esticou a mão e tirou o cabelo do meu rosto, e aquele
pequeno gesto de afeto me fez me arrastar para o canto mais distante da cama, o mais
longe possível dela.

— Você queria saber se eu tô bem — repeti friamente, encostando as costas na parede e


lançando um olhar duro para ela. — Desde quando você dá a mínima pro meu estado?
— Desde o dia que você nasceu.

— Hã? — Franzi o cenho de confusão. — Tem assistente social lá embaixo ou alguma


coisa assim que eu não tô sabendo?

— Não, Joey — Mam suspirou, os olhos azuis cheios de tristeza enquanto me observava
com aquela desconfiança cautelosa. — Foi uma pergunta genuína.

— Que eu genuinamente não entendi — respondi secamente. — O que você quer?

— O que te faz pensar que eu quero alguma coisa?

— Porque você tá no meu quarto, perguntando como eu tô — respondi, os ombros


tensos. — Então, fala logo.

— Eu não quero nada de você, Joey.

Fiquei em silêncio, esperando ela ir direto ao ponto.

Aquilo não era uma checagem espontânea do meu bem-estar emocional.

— Você não foi pra escola essa semana — ela disse finalmente. — O Sr. Nyhan ligou
duas vezes.

— E daí? A Shannon também não foi.

— Sim — Mam concordou. — Mas a Shannon ficou em casa essa semana pra me
ajudar.

— Diferente de mim, o babaca que nunca te ajudou em nada na vida?

— Não, não é isso que eu tô dizendo.

— Então o que você tá dizendo? — rebati. — O que você quer?

— Eu tô preocupada com você.

Mentira.

Cruzei os braços no peito. — Desde quando?

— Desde o que aconteceu no outro fim de semana — ela respondeu, com o tom
cansado.

— Ah, você quer dizer quando o meu pai tentou estuprar minha namorada? — soltei,
tremendo de raiva de novo. — Não, não, eu tô ótimo, Mam. Isso não bagunçou minha
cabeça nem um pouco.

— Ah, Joey — Mam soltou um suspiro trêmulo. — Me desculpa.


— Por quê? — rebati, sem expressão. — Eu não sabia que você também tentou estuprar
minha namorada?

— Joey.

— Ah, não, pera aí, é verdade — continuei. — Você não tentou comer a Aoife. Não,
você só levou o quase estuprador dela pra sua cama.

Mam se encolheu. — Como ela tá? Ela tá bem?

— Não faço ideia — respondi com a voz tensa. — Não vi ela.

— Por quê?

— Porque ela não suporta olhar pra minha cara — falei. — Eu lembro ela demais do
meu pai, o estuprador desgraçado em pessoa.

— Ele não estuprou ela.

— Ele estuprou você.

Outro encolher de ombros dela. — Isso é diferente.

— Porque ele botou um anel no seu dedo quando você ainda brincava de boneca, e isso
dá a ele domínio automático sobre seu corpo?

— Joey. — Ela soltou um suspiro dolorido. — Eu queria que você entendesse.

— Se você tá falando da fixação doentia que você tem por aquele homem, pode
esquecer — falei. — Porque eu nunca vou entender.

— Eu não quero brigar com você.

— Quem tá brigando?

— Você tá, Joey — ela disse com um suspiro. — Toda vez que eu tento me aproximar
de você, toda vez que tento te dar um pouco de atenção, você já parte pro ataque.

— Talvez eu não fizesse isso se a experiência não fosse tão estranha pra mim.

Ela balançou a cabeça, triste. — Lá vem você de novo.

— Jesus Cristo, eu não acerto uma contigo, né?

— Quer saber uma coisa que eu não entendo?

— Nem quero saber — dei de ombros. — Essa lista é tão grande que a gente ia passar
semanas aqui.
— Eu não entendo como um garoto que odeia tanto o pai quanto você odeia o seu,
consegue seguir exatamente os passos dele em direção ao vício.

— Eu não sou alcoólatra.

— Pior, você é viciado em droga! — ela gritou, rouca.

— Não — retruquei, balançando a cabeça. — Eu não sou.

— É sim — ela choramingou, tentando pegar minha mão. — Você tem um problema,
filho. — Soltando um suspiro trêmulo, ela completou: — Eu sei que você voltou com as
velhas manias. Eu achei os saquinhos vazios no bolso da sua calça.

Estreitei os olhos. — Você tá muito enganada.

— Mentira, Joey — ela rebateu. — Eu sinto o cheiro da maconha na sua roupa.

— Tá, eu fumei um — retruquei. — Grande merda.

— E?

— E nada — rebati. — Então, para de encher o saco, Mam.

— Então o que é isso? — ela exigiu, tirando do bolso a carcaça rachada de uma caneta.

Meu estômago afundou, mas mantive a expressão firme, com vergonha demais de mim
mesmo pra admitir qualquer coisa — ainda mais pra ela.

— Parece uma caneta quebrada pra mim.

— Sério? Porque isso aqui parece mais um canudo improvisado! — Ela jogou o objeto
na cama. — E eu posso não ser a pessoa mais inteligente do mundo, mas sei muito bem
que não se usa isso pra maconha.

Dei de ombros, sem compromisso. — Não sei o que te dizer, Mam.

— Que tal começar explicando pra onde foi o meu remédio? — ela insistiu, os olhos se
enchendo de lágrimas. — Você tava indo tão bem. Meses, Joey, meses! E agora o quê?
Voltamos pra estaca zero? Por que você faz isso com você mesmo, Joey, por quê?

— Quando foi que eu botei um dedo em você? — exigi, o coração disparando no peito
enquanto puxava minha mão de volta. — Ou na Shannon? Ou nos meninos, pra falar a
verdade?

— Eu não tô falando de machucar os outros, Joey — Mam respondeu. — Eu tô falando


do que você tá fazendo com você mesmo. Eu não entendo como você consegue jogar
sua vida fora por um hábito que você sabe que destrói vidas.

— O que você quer de mim, hein? — exigi, no limite. — Você deixou aquele
desgraçado ficar aqui, sabendo o que ele tentou fazer com a minha namorada, então eu
fui embora. Depois, três dias depois, você me manda mensagem, implorando pra eu
voltar e te salvar dele, então eu volto e faço exatamente isso. Agora você tá no meu
quarto, me cobrando porque faltei na escola, me acusando de ser frio contigo e me
chamando de viciado? — Balancei a cabeça. — Eu tô aqui, mesmo sem querer, mesmo
preferindo estar em qualquer outro lugar desse planeta — e isso inclui um caixão —
mas eu tô aqui porque você me chamou. Porque você precisa de mim. Porque eles
precisam de mim. Mesmo que estar dentro dessa casa me dê vontade de arrancar a
própria pele. Eu tô aqui. Se isso não te diz tudo o que você precisa saber, então eu não
sei mais o que dizer, de verdade.

— Eu quero que você se ame o bastante pra parar de se destruir.

— Como você espera que isso aconteça se a própria pessoa que me colocou no mundo
não consegue me amar?

Mam recuou como se eu tivesse dado um tapa nela — e talvez eu tenha, mas com a
verdade.

— Isso não é verdade — ela chorou, empurrando o cabelo pra trás. — Você não pode
acreditar nisso.

— Tanto faz. — Balançando a cabeça, me arrastei pra fora da cama e fui pegar minha
roupa. — Não vou discutir isso com você agora. Tenho lugar pra ir.

— Lugar tipo a casa do Shane Holland?

Fiquei em silêncio, de costas pra ela, vesti minha calça de moletom e coloquei um
moletom por cima.

— Não faz isso — ela implorou, me seguindo enquanto eu guardava o celular e a


carteira e ia em direção à porta. — Pensa no seu futuro.

— Eu não tenho mais um desses.

— Tem sim.

— Não. — Balançando a cabeça, abri a porta com força. — Ele tirou ela de mim.

COM UM CIGARRO preso entre os lábios, passei um tempo absurdo largado nos
degraus em frente à delegacia, me forçando a simplesmente levantar e entrar.

Bastar meus pés me levarem lá pra dentro e dar meu depoimento pros Gards.

Contar minha verdade.

Meu pai deveria estar atrás das grades por ter colocado as mãos na Molloy, e o
ressentimento de estar, mais uma vez, de mãos atadas por causa de uma mulher que eu
amo e estou desesperado pra proteger, tava me destruindo mentalmente como nada mais
conseguia.
Eu cheguei ao limite naquela noite e vacilei, mas o arrependimento pelo uso não
chegava nem perto do arrependimento de ter ficado calado.

De deixar ele sair impune pelo que fez.

Ele abusou e estuprou minha mãe.

Me forçaram a ficar calado.

Ele espancou minha irmã.

De novo, fui emocionalmente chantageado a ficar quieto.

Mas a Molloy?

A Molloy, percebi rápido demais, era meu calcanhar de Aquiles.

Quando ele colocou as mãos nela naquela noite, ele mirou direto no meu ponto fraco, e
quando ela me rejeitou, quando me comparou a ele, aquela flecha foi disparada e me
acertou em cheio no calcanhar.

Sangrando e ferido, desisti de todas as mentiras, de papinho sobre recomeços e fui


direto pro único caminho que eu sabia que podia calar o barulho.

Acalmar toda essa porra de agonia.

Porque a verdade é que eu não queria mais mentir.

Não queria mais fingir.

Eu tava completamente cansado de toda essa merda, e se isso me tornava um filho


ingrato e um irmão horrível, que fosse.

Porque o velho expôs algo dentro de mim naquela noite.

Uma verdade que eu mesmo não tinha percebido, até ele me forçar a encarar.

Me abalou profundamente reconhecer isso, mas a verdade é que algo dentro de mim
mudou nesse último ano, minhas prioridades mudaram. Eu percebi que a Aoife Molloy
se tornou a pessoa mais importante do meu mundo.

Assustador admitir, mas não havia nada que eu não fizesse pra proteger ela. Mesmo que
isso significasse ir contra toda a minha família. Porque, independentemente das
consequências pro resto da família, eu tava disposto a ir contra tudo que fui programado
pra proteger, só pra proteger ela.

Mesmo que isso significasse ir contra cada fibra do meu ser e ficar calado sobre meu
pai, porque era isso que ela precisava de mim.
Conflituoso e furioso, fiquei ali mesmo, nos degraus da delegacia, até o céu escurecer e
minha raiva diminuir, dando lugar à depressão.

E, porra, a depressão era muito pior.

Morrendo por dentro e queimando por fora, olhei pras cicatrizes nos meus nós dos
dedos e me obriguei a fingir que tava tudo bem.

Que nada disso doía.

Que eu não ligava.

Finalmente, quando consegui controlar a dor, me levantei, limpei a poeira e fui embora,
sentindo o peso do mundo nos ombros a cada passo que me afastava de fazer a coisa
certa.
O QUE VOCÊ TOMOU?
AOIFE

Quando finalmente voltei pra escola na manhã da segunda-feira seguinte e sentei na


minha carteira, a cadeira ao meu lado estava vazia — a mesma carteira que eu tinha sido
designada pra compartilhar com o Joey desde o começo do ano letivo.

— Arrrggghhh! — Casey gritou, parada na porta da nossa sala e me encarando


horrorizada. — Onde diabos você estava e o que caralho você fez no seu cabelo? — ela
exigiu, apontando um dedo acusador pra mim. — Ai, meu Deus. — Os olhos dela se
arregalaram de horror quando deixou a bolsa cair do ombro e correu pra trás da minha
cadeira, tentando ver melhor. — Tá tudo cortado.

— Também é bom te ver, Case — ri, passando a mão pelo meu cabelo, que agora ia só
até os ombros. — Respondendo sua primeira pergunta: eu estava em casa. Precisava de
uns dias pra colocar a cabeça no lugar. Quanto à segunda: eu precisava de uma
mudança.

Não, o que eu precisava era remover da minha memória as mãos daquele homem no
meu cabelo, e isso me custou oitenta euros, mas ela não precisava saber dos detalhes.

Ainda dava pra prender o cabelo num rabo de cavalo pequeno, mas não era mais longo
o suficiente pra me deixar vulnerável a um homem me segurar por ele.

— Você gostou?

— Não! — ela engasgou, horrorizada, pegando a bolsa do chão.

— Uau — revirei os olhos. — Obrigada pelo apoio.

— Ah, cala a boca, você continua sendo uma gata — ela retrucou, puxando uma mecha
solta do meu cabelo. — Eu só nunca te vi com o cabelo mais curto do que o meio das
costas, Aoif. Você tinha cabelo de Rapunzel desde a pré-escola. — Me lançando um
olhar de canto, ela acrescentou: — Eu tentei te ligar umas cem vezes, só pra constar.

— Meu celular tá na casa do Joey — falei. — E as pessoas mudam.

— É, suponho que gravidez iminente possa mudar uma garota.

— Fala mais alto, por que não? — sibilei, me virando pra fuzilar ela com o olhar
enquanto ela se sentava na carteira atrás da minha. — Jesus.

— Desculpa. — Ela fez uma careta, levantando as mãos. — Alguma novidade quanto a
isso, aliás?

— Contei pra minha mãe.

Os olhos azuis dela se arregalaram. — E como ela reagiu?


— Melhor do que eu, eu acho — admiti com um suspiro dolorido. — Ela foi comigo ao
médico semana passada.

Os olhos dela se arregalaram ainda mais. — E?

Assenti. — Vinte de setembro.

— Sua data prevista? — Os olhos dela quase saltaram. — Isso é dois dias depois do seu
aniversário de dezenove anos.

— Shh — alertei, assentindo de má vontade. — Mas é, essa é a minha data prevista.


Chegou minha consulta do hospital pelo correio — pro meu primeiro ultrassom.

— Pra quando?

— Sexta agora.

— Que horas? Porque a gente sai da escola meio-dia por causa do recesso da Páscoa, e
eu posso ir contigo se…

— Agradeço a oferta, mas não — respondi, balançando a cabeça. — Mam já se


ofereceu, mas eu não quero ela lá, também.

— Por quê?

Porque eu só quero o Joey.

— Porque — soltei um suspiro frustrado — porque eu só não quero.

— E ele, como reagiu? — ela perguntou, com os olhos cheios de compaixão. — Não
muito bem, eu imagino, considerando que ele também não veio pra escola a semana
toda.

— Eu não contei pra ele.

— Ainda? — Os olhos dela se arregalaram. — Aoife.

— Eu sei, eu sei — resmunguei, sentindo minha garganta apertar só de pensar nele não
sabendo, quase tanto quanto pensar em contar. — Ugh.

— Quando vocês dois sumiram da escola, eu me convenci de que você tinha contado —
Casey comentou, franzindo a testa. — Achei que você não ia voltar até depois das férias
de Páscoa.

O sinal tocou alto naquele momento, interrompendo nossa conversa, e eu observei a sala
começar a encher aos poucos, revirando os olhos quando Danielle e Paul entraram se
exibindo, abraçados.

— Ugh — Casey resmungou, fingindo enfiar o dedo na garganta. — O que ela acha que
vai acontecer se não ficar grudada nele a aula inteira?
— Que ele vai ser roubado, pelo visto — comentei, me virando no assento e me
encostando na carteira dela. — Tanto faz. Ela que fique com ele.

— É, você certamente fez um upgrade impressionante — Casey murmurou, depois


sorriu, olhando atrás de mim. — Falando nisso…

Ela apontou pra porta da sala e eu me virei bem a tempo de ver o Joey entrando.

No instante em que meus olhos pousaram nele, meu coração disparou no peito,
reconhecendo na hora a pessoa que ele era pra mim.

O cabelo dele estava no estilo de sempre, raspado nas laterais e atrás, com um topete
bagunçado em cima.

Sem o suéter da escola, a camisa cinza estava desabotoada e caída fora do cós da calça,
a gravata jogada de qualquer jeito no pescoço. As mangas da camisa estavam dobradas
até o cotovelo, revelando as tatuagens pretas que ele vinha preenchendo desde o quarto
ano, agora cobrindo ambos os antebraços.

Com a expressão típica de “foda-se o mundo” gravada no rosto, ele foi até a mesa da
professora, entregando o que eu sabia ser o famoso caderninho vermelho — também
conhecido como o livro de comportamento.

Era um tipo de boletim de comportamento destinado aos alunos mais problemáticos e


precisava ser assinado por cada professor na chegada e saída da aula. No fim de cada
dia, o próprio diretor chamava todos os alunos com caderno vermelho no escritório pra
conferir os comentários recebidos. Dá pra imaginar que o Joey tinha recebido mais do
que a cota dele ao longo dos anos.

Normalmente, o aluno mais malcomportado só precisava carregar esse caderno por no


máximo uma semana. Mas eu lembrava especificamente do Joey carregando um desses
durante o segundo e o terceiro ano inteiros, sem pausa.

Parecendo totalmente desinteressado com o que a Srta. Lane estava dizendo enquanto
apontava pro caderno vermelho na mesa, Joey só entregou a caneta pra ela e cruzou os
braços, esperando pela assinatura.

E foi exatamente nesse momento que ele varreu o olhar pela sala. Eu senti o peso do
olhar dele no segundo em que pousou em mim.

O ar ficou rarefeito ao meu redor, dificultando até respirar. Tremendo sob a intensidade
daquilo tudo, forcei um sorriso fraco e um aceno tímido.

De que outra forma você cumprimenta o garoto que você amou por anos?

O garoto cujo pai tentou te molestar?

O garoto cujo coração você despedaçou da última vez que se viram?

Jesus.
Observei o Joey se enrijecer, os olhos intensos, completamente focados em mim.

Ele não sorriu.

Ele não acenou.

Ele só me encarou.

Aquilo era demais.

Era coisa demais pra suportar.

Havia tantas palavras não ditas, tantas perguntas sem resposta pairando entre nós dois.

Eu sabia que ele também sentia isso.

A expressão dele não escondia nada de mim.

Ele estava mostrando tudo ali, cada gota de confusão, dor e irritação.

Eventualmente, a professora devolveu o caderno vermelho pra ele, e eu assisti enquanto


ele vinha até nossa carteira, ainda me encarando, ainda sem sorrir.

Derrubando a mochila no chão ao lado da carteira, ele puxou a cadeira e se afundou no


assento ao meu lado.

No instante em que ele sentou, o cheiro familiar de desodorante Lynx e sabonete me


invadiu, me fazendo estremecer.

— Joey — chamei, com a voz fraca, observando ele com cautela, sem saber como reagir
depois de como deixamos as coisas.

— Molloy — ele respondeu, o ombro encostando no meu enquanto ele ajeitava a


cadeira, empurrando pra trás pra ter mais espaço pras pernas.

— Camisa bonita — sussurrei, dando uma leve cutucada no ombro dele, prendendo a
respiração, esperando a resposta de sempre.

Diz isso.

Por favor, diz isso.

Duas palavras.

É tudo que eu preciso.

O suspiro que ele soltou foi tão profundo que os ombros dele subiram e desceram
visivelmente antes dele balançar a cabeça, parecendo se render de má vontade.

— Pernas bonitas.
Obrigada, meu Deus.

— Eu estava esperando que você viesse hoje.

— Onde mais eu estaria?

— Você não veio pra escola semana passada.

— Eu tinha muita coisa acontecendo.

É, com a mãe dele. — Como tá sua mãe?

Ele deu de ombros, sem compromisso, enfiou a mão no bolso da calça da escola e tirou
meu celular, colocando do meu lado da carteira.

— Você deixou isso lá.

— É, eu… eu sei. — Engolindo em seco, peguei o celular rápido e coloquei no bolso.


— Obrigada por trazer de volta.

Ele assentiu brevemente. — Sem problema.

— Eu deixei meu colar lá também — sussurrei. — No seu quarto. Aquele que você me
deu de aniversário ano passado.

— Eu te devolvo.

— Obrigada — sussurrei, odiando a distância entre nós. — Então… você tá bem?

Ele assentiu rigidamente, os olhos fixos na porta da frente.

— E você?

— É… — dei de ombros, sem muita convicção. — Acho que sim.

— Que bom. — A mandíbula dele tensionou e eu vi ele engolir em seco. — Fico feliz.
Eu estava preocupado com você.

— Eu estava preocupada com você. — Tremendo, enfiei a mão debaixo da carteira e


coloquei sobre a coxa forte e musculosa dele. — Deus, Joe, senti tanto a sua falta.

Um arrepio percorreu o corpo dele, mas ele não retribuiu o toque.

Em vez disso, ele se inclinou pra frente, apoiou os cotovelos na carteira, cobriu o rosto
com as mãos e murmurou algo inaudível.

— Você nunca voltou — me ouvi dizer, olhando pra ele.

— Você queria espaço — ele respondeu, sem emoção.


— Eu queria que você voltasse.

— Como eu ia saber disso?

— Você não ia… — suspirei. — Eu só… esquece.

Um silêncio horrível se instalou entre nós, e eu estava desesperada pra quebrar aquilo.

— Joe?

— Hm?

— A gente pode conversar?

— A gente tá conversando — ele respondeu no automático, quase robótico, ainda


apoiado na carteira.

— De verdade — insisti, estalando os dedos nervosamente. — Em particular.

Ele deu de ombros, soltando um suspiro dolorido, mas não respondeu.

— A gente pode sair hoje?

— Tenho que trabalhar. Já faltei uma semana. Não posso faltar mais.

— E amanhã?

Ele não respondeu.

— Eu queria saber se você tem planos na hora do almoço sexta-feira? — minha voz saiu
rouca, as palmas das mãos suando, o pânico crescendo. — Porque tem um lugar que eu
preciso ir e eu… eu queria muito que você fosse comigo.

Mais silêncio.

— Joe?

Ele se endireitou bruscamente, olhou ao redor, parecendo atordoado, antes de voltar a se


apoiar na carteira.

— Hm?

— Você tem planos sexta?

— Eu… ah, não sei — ele murmurou, a voz exausta. — Não tenho certeza.

— Tá ocupado no almoço hoje? — tentei outra abordagem. — Quero dizer, tem treino
ou algo assim? Porque eu preciso muito falar com você em particular.

— Eu não quero conversar em particular — ele respondeu baixo. — Não hoje, Molloy.
— Mas você nem sabe sobre o que eu quero falar com você — eu soltei. — É
importante.

— Seja lá o que for, eu não quero falar sobre isso agora.

— Por quê?

— Porque eu tô cansado pra caralho, Molloy.

— Você tem que saber que eu não quis dizer aquilo — eu soltei, finalmente falando
sobre o elefante na sala. — Tudo aquilo que eu falei da última vez que a gente se viu?
Não era eu, Joe.

Ele ficou tenso.

— Eu não quis dizer, tá? — Alcancei e coloquei uma mão nas costas dele, franzindo a
testa quando senti o calor que emanava do corpo dele. Jesus, ele tava pegando fogo. —
Eu juro, Joe. Nenhuma palavra daquilo.

— Quis sim — os músculos das costas dele se retesaram sob o meu toque. — E tá tudo
bem. Eu não te culpo.

— Eu não te culpo pelo que aconteceu, Joe — falei, me sentindo vulnerável até a alma
naquele momento. — E eu não quero espaço. Eu nunca quero espaço de você.

— Nem eu quero — ele respondeu baixinho. — Mas só porque a gente não quer algo
não significa que a gente não precise.

A ansiedade revirou dentro de mim.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer o que quer dizer, Molloy.

— Olha pra mim.

Ele não olhou.

— Joe.

— Deixa isso pra lá, Molloy.

— Joey Lynch, é melhor você olhar pra mim.

Soltando um suspiro dolorido, ele se recostou na cadeira, apoiou as mãos no colo e,


relutante, olhou pra mim.

De repente, tudo fez sentido.

A sonolência.
A letargia.

A pele absurdamente quente.

Olhos negros como carvão.

— Meu Deus — eu arfei. — O que você tomou?

— Nada.

Ele tentou virar o rosto, mas eu segurei o queixo dele entre os dedos e o obriguei a me
encarar.

— O que você tomou?

— Nada — ele insistiu, antes de soltar um suspiro doloroso. — Hoje.

— Ontem?

Ele assentiu devagar.

— E anteontem?

Outro aceno.

Meu coração se partiu ainda mais.

— Quando começou?

Silêncio.

— Quando começou?

— Depois que saí da sua casa.

Ah, não, Deus…

— Então faz o quê… uma semana?

— Por aí.

— O que foi? — forcei a pergunta. — O que você tomou?

— Não é o que você tá pensando.

— O que você tomou, Joey?

— Não é isso.
— Eu não perguntei o que você não tomou — sibilei, arrasada e furiosa. — Me diz o
que você tomou, caralho.

Os olhos dele grudaram nos meus, e ficaram lá, focados em mim o melhor que ele
podia, considerando que estava claramente sob efeito de alguma coisa.

— Só uns comprimidos e umas paradas.

— Umas paradas? — eu fuzilei ele com o olhar. — O que exatamente inclui nessas
“paradas”? Porque eu tô com você faz tempo o suficiente pra saber que quando você
fala “comprimidos e umas paradas”, o significado pode variar muito.

— Molloy…

— Então, estamos falando de quê aqui? Um baseado, uma carreira, ou uma porra de
uma agulha? — Me senti transportada de volta no tempo pra um lugar onde eu nunca
quis voltar. — Ah, meu Deus — minha respiração falhou. — Por quê, Joe, por quê?

— Por que você acha? — ele sussurrou, com a voz quebrada, ainda mantendo o contato
visual, enquanto eu segurava o queixo dele.

— Você me quebrou — ele sussurrou.

— Não, Joe, você não me quebrou — balancei a cabeça, sentindo as lágrimas


queimarem meus olhos. — Você quebrou você mesmo.

— A culpa é minha — ele desviou o olhar então, soltando o rosto das minhas mãos. —
O que aconteceu com você é culpa minha.

— Você não fez nada de errado.

— Eu te levei praquela casa — ele sibilou, girando o rosto de volta pra me encarar, com
fúria nos olhos. — Eu te coloquei em perigo e o perigo te pegou.

— Eu tô bem — consegui dizer, com a voz embargada, alcançando o rosto dele, só pra
sentir a rejeição quando ele se afastou do meu toque. — Não faz isso. Não joga fora
tudo pelo que você lutou tanto.

— Eu não tenho nada, Molloy — a resposta dele foi vazia. — Nunca tive.

— Você me tem — eu respirei, sentindo o peito subir e descer rápido, enquanto lutava
pra manter a compostura naquela sala cheia de colegas de aula. — Você ainda me tem,
Joe. Eu não te culpo, tá? Eu não culpo.

— Eu sou ele.

— Não, você não é.

— Sou sim — ele deu de ombros. — Você mesma disse isso.


— Aquilo foi a minha dor falando — engasguei. — Eu não quis dizer aquilo.

— Foi o seu cérebro falando — ele corrigiu. — Foi a sua verdade.

— Joey, por favor…

— Eu não posso — vi outro arrepio percorrer o corpo dele. — Eu não consigo lidar com
isso agora, Aoife.

— Não consegue lidar com o quê? — minha voz saiu estrangulada, meu rosto
esquentando, enquanto meu coração disparava. — Não consegue falar comigo? Não
consegue me olhar? Não consegue ficar comigo? O quê?

— Eu não consigo lidar com isso — observei ele passar as mãos pelos cabelos,
frustrado. — É, definitivamente, eu não consigo lidar com isso — ele murmurou,
empurrando a cadeira pra trás, pegando a mochila do chão e se levantando. — Tô fora.

— Senta aí, Joseph — Miss Lane ordenou da mesa dela. — A aula tá começando agora.

— É, sem mim — ele retrucou, indo em direção à porta da sala.

— Nem pense em sair dessa sala — ela comandou, levantando a mão em advertência.
— Você já tá com um red book. Não piora as coisas.

— Tipo quando eu mandar você se foder e isso piorar? — ele zombou, batendo a palma
da mão contra a porta, fazendo ela se abrir com um estrondo. — Bom, parece que eu já
piorei, né?

— Joseph!

— Vai se foder, professora — ele gritou por cima do ombro, e então ele se foi, saindo
furioso.

— Ah, Deus — coloquei a cabeça entre as mãos, lutando contra o impulso de ir atrás
dele. Consegui resistir por exatos três minutos até ceder, me levantando e indo até a
porta como se minha vida dependesse disso.

— Aonde você pensa que vai, Aoife?

— Acho que ela vai se foder, professora — Alec comentou com uma risadinha. — No
sentido literal dessa vez.

— Linguagem — Miss Lane advertiu Alec, antes de voltar o olhar pra mim. — Isso
aqui não é aula de teatro, Aoife. Não precisa encenar Bonnie e Clyde. Volte pro seu
lugar.

— Mas…

— Agora, Aoife.
— Ah, professora, não estraga o rolê — Alec provocou, incentivado pela sala cheia de
garotos rindo. — Tá vendo a cabeçona do Lynch? Cês só têm uma aula com ele; o resto
do dia somos nós levando patada. Deixa ela ir lá dar um jeito no cara. Ele vai tá bem
mais tranquilo depois.

— Pode sair da minha sala, Alec — Miss Lane mandou, furiosa. — Diretamente pro
diretor pegar um red book pra você também.

Aproveitando essa deixa, corri pra fora da sala.

Ignorei as risadas atrás de mim, sem me importar com a voz da coordenadora me


chamando ou Alec gritando um "de nada" debochado. Saí da sala sem olhar pra trás,
deixando minha mochila lá e confiando que Casey ia guardar tudo pra mim no fim da
aula.

Meu plano era ir direto pros fundos do ginásio, já que esse era um dos cantos favoritos
do Joey, e se não o encontrasse lá, eu tentaria os depósitos da escola.

Mas tudo mudou quando cheguei na entrada principal da escola e vi ninguém menos
que Marie Lynch saindo da sala do diretor.

— Aoife — o rosto dela se iluminou ao me ver, e ela veio direto em minha direção,
bloqueando a saída que eu tanto queria alcançar. — Por favor, podemos conversar?

Meus pés vacilaram, parando bruscamente, enquanto minha cabeça me implorava pra
continuar andando.

— O que você tá fazendo aqui?

— Eu tive uma reunião com o diretor — ela respondeu, diminuindo a distância entre
nós, me encontrando na porta. — Eu sei que sou a última pessoa com quem você quer
falar agora.

— A penúltima.

— Perdão?

— Você é a penúltima pessoa com quem eu quero falar.

Ela teve a decência de se encolher com minhas palavras.

— É… bem, você pode andar comigo um minuto pra gente conversar? — ela pediu,
apontando pras portas de saída. — Por favor. É importante.

Sabendo que fugir da mãe do Joey não era algo que eu conseguiria fazer pra sempre,
assenti, rígida, e a acompanhei pra fora, caminhando ao lado dela, com a expressão de
pedra.

— Como você tá?


— Bem — respondi, fria.

— Tem certeza?

— O que você quer, Marie?

Ela percebeu que não ia conseguir nada me rodeando daquele jeito, então soltou um
suspiro pesado e passou a mão pela testa.

— Eu tô preocupada com o Joey.

É, eu também.

— Por quê?

— Acho que ele tá caindo nos velhos padrões de novo.

— É — suspirei pesadamente, cruzando os braços enquanto andávamos, ignorando a


chuva torrencial de março. — Eu percebi.

— Então ele tá aqui? — alívio encheu os olhos dela. — Ele veio pra escola?

— Ele tava aqui — corrigi, seca. — Saiu da sala praticamente assim que chegou.

— Ah, Deus, era disso que eu tinha medo — ela murmurou, aflita. — Eu não sei mais o
que fazer com ele, Aoife. Não sei como ajudar.

— Sem querer te ofender, mas fica meio impossível você ajudar ele sendo o motivo da
dor dele.

Ela se encolheu com minhas palavras, mas não rebateu.

Porque sabia tão bem quanto eu que tinha grande parcela de culpa no descontrole do
filho.

De novo.

— Eu mereci isso.

— Não se trata do que você merece, Marie — rosnei. — É sobre a verdade.

— Ele me disse que você pediu espaço — ela arriscou, nervosa. — Que você não queria
mais vê-lo.

A dor me consumiu.

— Eu falei muita coisa que não queria ter dito pra ele.

— Então temos algo em comum — ela respondeu, com tristeza. — As duas


descontamos nossa dor e raiva na pessoa errada.
— Por que você tá me dizendo isso? — perguntei, parando bruscamente ao ver o carro
do marido dela no estacionamento.

Com o dito cujo dentro do veículo.

Ah, Deus.

Só de ver o homem, um arrepio nojento percorreu minha espinha, e dei um passo pra
trás.

— O que você quer de mim?

— O que eu te disse quando nos conhecemos — ela disparou, ficando entre mim e o
campo de visão dele, tentando me proteger, mesmo que pateticamente. — Sobre eu
achar que você precisava ficar longe do meu filho? Eu tava errada.

Franzi o cenho.

— Errada?

— O Joey precisa de você — ela insistiu, os olhos azuis cheios de sinceridade triste,
com urgência na voz. — Mais do que precisa de mim, ou de qualquer um. Ele passou a
vida toda tentando fugir da própria cabeça, sem se importar em se destruir no caminho.
Mas com você, desde que ele tá com você, ele mudou. Ele tá presente, ele quer estar
aqui. Você acalma algo dentro dele que eu e o pai dele destruímos, e eu não quero ver
isso ser tirado dele de novo.

— Por que você tá me dizendo isso? — minha voz falhou, meu olhar indo dela pro
carro. A ansiedade corroía meu estômago e eu me forçava a não correr.

— Porque eu errei, Aoife — ela disse, a voz trêmula. — Errei muito com meu filho,
mas esse erro eu quero consertar.

Ela me olhou nos olhos, implorando.

— Não desiste dele, Aoife. Por favor, não desiste do meu menino.

A sinceridade me pegou desprevenida. Demorei alguns segundos pra conseguir


responder.

— Nada do que você disse sobre o Joey mudou alguma coisa pra mim — ouvi minha
própria voz afirmar. — Eu sei que seu filho vale a pena, vale ser amado, vale ser salvo
— mesmo que o resto do mundo não veja isso. — Eu sei quem ele é, Marie — o homem
que ele é — e sei o valor dele, então pode ter certeza que nada que você — lancei um
olhar de desprezo pro carro — seu marido, ou qualquer outro, disseram ou fizeram
chegou perto de abalar meus sentimentos por ele.

Mesmo sendo cruel, vi o alívio visível nos ombros dela.

— Obrigada — ela sussurrou. — Por amar meu filho. Eu sei que não é fácil.
— Amar seu filho é a parte fácil — cortei, tirando o cabelo molhado dos olhos. —
Difícil é fazer ele se amar.

Claro que o marido dela escolheu esse momento pra abaixar o vidro e gritar:

— Marie, vamos logo, caralho! Tenho coisa pra fazer.

O medo tomou o rosto dela, ela se encolheu.

— Me desculpa pelo que ele tentou fazer com você — ela sussurrou. — Desculpa
mesmo.

— Tá me ouvindo, mulher? — ele berrou. — Anda logo ou vai voltar a pé pra casa.

O olhar dele me encontrou e o reconhecimento brilhou nos olhos nojentos dele.

Meu corpo se arrepiou inteiro, mas me recusei a recuar.

Travei o olhar nele, ergui o dedo do meio, bem na cara dele.

Foi nesse instante que o Joey apareceu, vindo dos fundos do ginásio, com o resto de um
baseado entre os lábios.

Ele tragou uma última vez, jogou o toco no chão e soltou uma nuvem de fumaça antes
de nos notar.

A confusão virou fúria.

— Mas que porra é essa?!

— Não, Joey, não — a mãe dele implorou, sentindo o perigo iminente.

— O que eu te falei sobre olhar pra ela?

— Joe, calma. Tá tudo bem.

— O que eu te falei sobre chegar perto dela?

— Joey, por favor.

— Sai do carro, velho!

Agindo por instinto, corri até o Joey, bloqueando o caminho.

— Não.

Coloquei as mãos no peito dele, o corpo dele vibrava de raiva.

— Sai da minha frente.


— Não — segurei firme o pescoço dele e arrastei o rosto dele pra mim. — Olha pra
mim e beija minha boca.

— O quê? — ele sacudiu a cabeça, a chuva caía pesada. — Não, Molloy, a gente não
pode simplesmente…

Não deixei ele terminar.

Colei meus lábios nos dele.

Segurei a camisa dele com uma mão, e com a outra guiei as mãos dele pro meu quadril
e pra minha bunda.

Ele tava tenso, mas eu sabia que tava segura com ele.

Demorou alguns segundos, mas ele cedeu.

O carro arrancou, pneus cantando.

Suspirei aliviada.

Nosso beijo continuou, as bocas se movendo, línguas duelando.

Joey tava ferido, e deixou isso claro num beijo brutal que bagunçou completamente
meus hormônios.

Flexionando a mão na minha bunda, ele apertou minha cintura com mais força, puxando
meu corpo bruscamente contra o dele, enquanto tirava de mim tudo o que precisava
naquele momento para se estabilizar e se manter no chão.

Precisando dele com a mesma urgência, me ergui na ponta dos pés, enrosquei os braços
ao redor do pescoço dele e retribuí com os lábios tudo o que ele estava me oferecendo.

Num momento ele estava ali, e no seguinte, tinha sumido; se afastando de mim como se
meu beijo tivesse causado algum tipo de dor física.

— Não faz isso comigo — Joey avisou, ofegante, enquanto limpava o resquício do meu
gloss da boca com o polegar e me lançava um olhar furioso. — Não fode com a minha
cabeça assim.

— Do que você tá falando? — arfei, totalmente confusa com a reação dele. — Eu não
tava tentando foder com a sua cabeça.

— Me beijando — ele disparou, dando alguns passos pra trás. — Me manipulando com
meus sentimentos, Molloy. Eu já tive disso o suficiente pra durar uma vida inteira.

— Você tá falando sério? — estreitei os olhos em resposta. — Como me beijar é uma


forma de manipulação?
— É manipulação quando você usa o que eu sinto por você contra mim — ele rebateu,
implacável. — Você fez isso naquela noite e tá fazendo de novo.

— Você tá me culpando pelo que aconteceu?

— Não, eu tô me culpando por isso! — ele rugiu, furioso, passando a mão pelos
cabelos. — Eu me culpo por me importar demais com o que você quer, e deixar o que
eu sinto por você me cegar ao ponto de não fazer a coisa certa!

— Eu já te falei que quero esquecer isso.

— E eu já te falei que faria o que você quiser que eu faça — a veia no pescoço dele
pulsava enquanto ele me observava. — Mas isso não significa que meu silêncio não
esteja me destruindo por dentro.

— Joey, não deixa ele fazer isso com a gente — dei um passo em direção a ele e tentei
segurar a mão dele. — Não deixa ele ganhar.

— Você não entende, Molloy? — Joey puxou a mão da minha e recuou. — Ele sempre
ganha.

Enquanto eu via o Joey se afastar, se fechar, percebi que alguma parte essencial dele
tinha sido apagada naquela noite, e que se eu deixasse ele ir agora, talvez não
conseguisse mais alcançá-lo.

— Eu te amo — ouvi minha própria voz dizer, e vi os ombros do Joey se enrijecerem, o


passo dele vacilar.

Movida pelo instinto, fechei o espaço entre nós e agarrei a mão dele, sem permitir que
me deixasse pela segunda vez.

— Eu tô apaixonada por você — falei — e isso é algo que ele nunca vai conseguir tirar
de você.

Um arrepio percorreu o corpo dele.

— Molloy…

— Ele não ganhou, Joe — falei, só parando quando estava colada no peito dele, com as
mãos agarradas na frente da camisa da escola. Puxei o tecido com força, sorrindo por
dentro quando ele cedeu e baixou o rosto até o meu. — Você ganhou.

Soltando um gemido de dor quando meus lábios se chocaram contra os dele, ele não me
afastou dessa vez; preferiu me envolver com os braços e me puxar ainda mais pra perto.

Com nossos lábios fundidos, tropeçamos de lado até o canto do ginásio, escorregando
pelos fundos do prédio.

Minhas costas bateram na parede no momento seguinte, seguidas pelo corpo grande
dele colidindo contra o meu.
— Eu não sei mais onde eu tô com você — ele confessou contra meus lábios, enquanto
pressionava os quadris contra os meus e deixava os braços caírem ao lado do corpo. —
Suas mudanças de humor me deixam maluco.

— Eu sei, gostoso — sussurrei, alcançando o espaço entre nós para desabotoar o cinto
dele e abrir o botão da calça cinza da escola. — Eu sou uma bagunça.

— Eu também — ele respondeu com a voz rouca, carregada de necessidade, enquanto


me observava libertar o pau dele da prisão da cueca preta. — Eu sou um fracasso,
rainha. Te decepcionei de novo.

— Tá tudo bem — respondi, levantando a barra da minha saia para empurrar


rapidamente minha calcinha pelas pernas e sair dela. — A gente vai dar um jeito.

— Seu cabelo — ele disse, ao invés de responder, me encarando com olhos tão
dilatados que estavam quase negros. — Você cortou.

Uma pontada de tristeza me atingiu, e eu imediatamente voltei a colar meus lábios nos
dele, desesperada pra fugir daquela conversa.

— Porra — ele gemeu de dor, agarrando a parte de trás das minhas coxas e me
levantando num só movimento.

Envolvi a cintura dele com as pernas e deslizei a mão entre nós, guiando a cabeça
grossa do pau dele pra dentro do meu corpo.

— Você vai me mandar embora de novo? — ele perguntou com um tom dolorosamente
vulnerável, se afundando dentro de mim. — Fala agora, pra eu já me preparar.

Meu coração falhou uma batida.

— Não, Joe — acariciando a bochecha áspera dele, me aproximei e roçei os lábios nos
dele. — Eu nunca mais vou te mandar embora.
TODO FODIDO DE NOVO
JOEY

— Do que diabos você tá falando? — Alec exigiu, no intervalo grande, arregalando os


olhos para Casey do outro lado da mesa do almoço. — It’s Been Awhile, do Staind, é
uma música foda.

— Eu não disse que não era uma boa música — ela retrucou, entregando o mp3 player
que eles estavam passando de mão em mão durante o almoço. — Eu disse que não era
uma música de amor. É muito depressiva.

— E daí? A vida é depressiva — ele argumentou. — Esse é o ponto.

— Bom, o amor não é depressivo.

— O amor é incrivelmente depressivo pra caralho.

— A gente nunca vai concordar nisso, Al.

— Então, por favor, me tortura com a sua versão de música de amor.

Casey inclinou a cabeça para o lado, claramente pensando muito na resposta, antes de
pegar o mp3 player e apertar alguns botões.

— World of Our Own — Casey sorriu docemente para ele. — Westlife.

Parecendo desconfiado, Alec colocou o fone no ouvido e fez uma careta.

— Você é muito garota.

— Não finge que não sabe cada palavra dessa música.

Ele abriu um sorriso malicioso pra ela antes de começar a cantarolar o refrão.

— Eu sabia — ela riu.

— Vai comer isso, Lynchy? — Mack perguntou, apontando para o sanduíche de


presunto intocado na minha frente na mesa.

Balancei a cabeça.

— Pode pegar, mano.

— Valeu.

Me recostando na cadeira, fiquei encarando sem foco as pessoas ao meu redor, com a
cabeça girando e o estômago em nós.
— Você tá bem? — Molloy perguntou, puxando a cadeira mais perto da minha
enquanto falava. — Você não comeu nada o dia todo. — Ela colocou a mão no meu
joelho, que tremia sem parar, tentando conter o tremor que percorria meu corpo. —
Você tá muito pálido, Joe.

— Tô de boa — respondi, virando de lado e me forçando a dar atenção pra ela — e


parar de tremer. — Tá tudo certo, Molloy.

O olhar que ela me lançou me garantiu que ela não acreditou em uma palavra do que eu
disse, mas ela não insistiu. Provavelmente porque ela já sabia o quão nada certo estava a
minha vida nesse momento.

Tudo parecia estar desmoronando de novo, e ao invés de manter ela segura, longe da
minha merda, eu, mais uma vez, arrastei ela de volta pro meu caos.

Hoje de manhã, quando fodi ela atrás do ginásio, logo ali, só provou que eu era tão
imprudente com o meu coração quanto com o meu corpo quando se tratava dessa
garota.

Eu era um idiota por ela, e nós dois sabíamos disso.

O poder que ela tinha sobre mim era perturbador.

Saber que uma garota podia dobrar a minha vontade pra se adequar aos interesses dela
era um conceito que me deixava inquieto pra caralho.

Quando eu vi meu pai no estacionamento hoje de manhã, com aqueles olhos de rato
cravados nela, eu já tinha feito as pazes com o cara lá de cima.

Eu tava decidido a matar ele.

De verdade.

Até ela se enfiar no meio do meu colapso pessoal e me puxar de volta. Usando o corpo
dela pra me manipular e me fazer ceder — jogada clássica de garota — e a minha
namorada tinha aperfeiçoado isso com maestria.

Mesmo agora, sentados na cantina da escola, almoçando e cercados pelos nossos


amigos, eu podia sentir a ansiedade me consumindo por dentro.

Molloy aliviava a dor, mas não podia tirá-la.

Ontem à noite, por exemplo, eu sabia que meu velho encostou as mãos na Shannon.

Eu sabia.

O jeito que minha irmã correu pro quarto dela e trancou a porta dizia tudo o que eu
precisava saber sobre o que rolou entre eles.

Ele machucou ela.


E eu não tava lá embaixo pra proteger ela.

Eu tava no meu quarto chapado.

Bati na porta dela pra ver se ela tava bem quando ouvi a porta bater, mas ela me enrolou
com alguma desculpa esfarrapada.

Eu precisava tirar ela daquela casa.

Precisava tirar todo mundo dali.

Só que… eu tava tão cansado.

Eu me sentia vazio.

Como se não tivesse mais nada dentro de mim.

Toda vez que fechava os olhos à noite, era assombrado pelo som dos gritos da minha
mãe e da minha irmã. E se não eram os gritos delas, era a imagem dele prendendo
minha namorada naquela mesa.

Eu queria destruir aquela mesa.

Queria meter uma marreta nela e quebrar em um milhão de pedaços.

— A gente podia dar uma volta depois da escola? — Molloy perguntou, me puxando de
volta pra realidade. — Ou você podia ir lá pra casa. — Ela passou o polegar pelo roxo
no meu rosto e me deu um sorriso pequeno. — Eu não sou exigente, mas a gente
realmente precisa conversar.

Meu celular vibrou no bolso e eu me enrijeci, sem ousar tirar ele dali enquanto ela me
olhava tão de perto.

— Na real, eu tô meio ocupado hoje à noite com o trabalho — ouvi minha própria voz
dizer, e me senti um merda quando a expressão dela desmoronou de decepção.

— É meio importante, Joe.

Eu sabia que era.

Sabia que ela tinha coisas pra me falar, coisas presas na garganta. Nada tinha se
resolvido entre nós, a gente só caiu de novo no mesmo ciclo fodido de carinho físico,
mas eu não tinha energia pra discutir mais uma vez com ela.

Com ninguém.

Eu tava fodidamente exausto pra fazer qualquer coisa além de sobreviver agora.

Levantar da cama hoje de manhã foi como escalar o Everest.


Tava esgotado só de ter vindo pra escola.

O esforço monumental que foi andar de sala em sala o dia inteiro foi quase insuportável.

Eu não tinha condições de encarar conversas profundas.

Eu simplesmente não tinha forças.

— A gente realmente precisa conversar — ela insistiu, os olhos cheios de incerteza. —


Por favor, Joe. Não pode exatamente esperar.

— Posso ir na sua casa amanhã à noite depois do trabalho — ofereci fraco, sabendo que
era a última coisa que eu precisava, mas dando pra ela o que ela queria de qualquer
jeito. — Se você estiver livre.

— Eu vou estar.

Assenti, me inclinei e beijei a bochecha dela antes de me levantar.

— Te vejo depois, tá?

— O-quê? Por quê? — os olhos dela se encheram de ansiedade. — Onde você vai?

— Nyhan quer falar comigo.

Mentiroso.

Mentiroso.

Mentiroso do caralho.

— Você não falou nada.

— Esqueci.

— Ah… — ela não parecia convencida.

— Te vejo depois — murmurei, passando o nó dos dedos no queixo dela com carinho e
então me virando bruscamente e indo embora.

Precisava me afastar da pessoa que acendia a minha consciência como ninguém.

Precisava de um maldito respiro dessa vida.

Esperei até estar fora do campo de visão e tirei o celular do bolso, verificando a
mensagem não lida.

Holland: Tô lá fora. Bora.

Suspirando desanimado, digitei a resposta e enfiei o celular de volta no bolso.


Lynchy: Tô indo.
DEUS AMA UM TEIMOSO, MAS AOIFE AMA JOEY
AOIFE

— Ok, já faz três semanas — declarou Casey na manhã de terça-feira, durante a aula de
francês, quando o nosso professor, Sr. Brady, saiu da sala. Fechando o livro com um
estalo, ela se virou na cadeira para me encarar. — Me diz que hoje é o dia.

— É — sussurrei, balançando os joelhos inquietamente embaixo da mesa, enquanto


mantinha os olhos grudados nas costas do meu namorado. — Hoje é o dia.

Ele estava sentado duas fileiras à minha frente com Neasa Murphy, largado na cadeira,
parecendo levemente divertido com o que quer que ela estivesse dizendo para ele.

— Dá pra parar de encarar ela como se ela tivesse mijado no seu cereal? — Casey
sussurrou entre os dentes, puxando minha atenção de volta para ela, enquanto tirava
meus dedos do lápis que eu estava espremendo. — Ele tem que sentar com ela. É lugar
marcado, gata.

— Ele já ficou com ela antes.

— E daí? Isso foi há mil anos.

— Eu odeio ela.

— Não odeia — ela zombou. — Isso é só os hormônios falando.

— Não, eu odeio mesmo. — Me virei para olhar minha melhor amiga. — Eu odeio
todas as garotas com quem ele já ficou.

— Então você odeia metade das meninas dessa sala — Casey riu.

— Engraçadinha.

— Então, você vai mesmo contar pra ele?

Ignorando a ansiedade que arranhava minha garganta, assenti.

— Hoje à noite. Quando ele for lá em casa depois do trabalho.

— Ai, Jesus, momento tenso do caralho — ela sussurrou, quase sem ar. — Você já
preparou o discurso?

— É mais um ‘minha pílula falhou, você vai ser pai, por favor não me larga’ do que um
discurso — falei, gaguejando nervosa.

— Aoif — ela colocou a mão no meu braço. — Ele não vai te largar.

— É? — Soltei um suspiro ansioso. — Tomara que você esteja certa, Case.


Fomos interrompidas pelo Charlie, que se inclinou na carteira atrás da gente e deu um
tapinha no ombro da Casey.

— O Mack quer saber o que tá rolando entre você e o Alec.

— O quê?

— O Alec — ele repetiu. — Você tá com ele ou algo assim?

Casey e eu trocamos um olhar confuso antes de nos virarmos de volta para o Charlie.

— Eu não tô—

— Por que o Mack quer saber? — perguntei rápido, cobrindo a boca da minha melhor
amiga com a mão. — O que que importa pra ele com quem a Casey tá ficando?

— Por que você acha? — Charlie piscou. — Ele ainda tá caidinho por ela.

— É mesmo? — Ergui a sobrancelha para ela. — Ouviu isso, Case? Charlie disse que o
Mack ainda tá caidinho por você.

— Pois pode falar pro Mack que eu tô saindo com alguém — respondeu Casey, tirando
meus dedos da cara dela. — Então ele pode pegar esse sentimento e levar de volta pro
lado dele da cidade.

— O Alec?

— Não.

— Então, com quem você tá saindo? — Charlie perguntou, se inclinando mais.

— Isso é pra eu saber e você descobrir — ela respondeu, batendo o dedo no nariz.

— Não, sério — franzi a testa. — Com quem você tá saindo?

Ela me lançou um olhar do tipo “entra no clima” antes de revirar os olhos.

— Agora vai embora — falou, acenando para ele sair e me puxando de volta no assento.
— Eu não tô saindo com ninguém, mas ele não precisa saber disso.

— Mas você gosta do Mack.

— Meh.

— E do Alec?

Ela deu de ombros.

— Tantos meninos, tão pouco tempo de último ano.


— Você não presta — ri.

Outro tapinha veio, mas dessa vez foi no meu ombro.

— Chamou — falei, imitando a voz do Tropeço da Família Addams, ao me virar no


assento e encontrar Charlie me encarando. — Fala, Cha.

— Tenho um amigo que ouviu um boato de que você e o Lynchy tão se separando —
disse ele, sorrindo de canto. — E meu amigo quer saber se isso é verdade.

— Ah, é? — Sorri. — E por que o seu amigo quer saber disso?

— Porque meu amigo acha que você é, de longe, a garota mais bonita da escola.

— O amigo tá com desejo de morrer? — Casey riu. — Porque o namorado da minha


amiga vai matar você, Cha. Matar mesmo, tô falando sério.

— Então ele ainda é seu—

— Pode falar pro seu amigo que eu tô lisonjeada, mas ainda sou muito comprometida.

— E pode falar pro seu amigo que o amigo dele tem uns culhões bem grandes pra tentar
roubar a namorada do Joey Lynch — Casey riu. — Sério mesmo.

Charlie deu de ombros, envergonhado.

— Valeu a tentativa.

— Deus ama um teimoso — Casey concordou, os olhos brilhando de malícia. — Mas a


Aoife ama o Joey.

DEMAORANDO o máximo que pude pra voltar pra minha última aula do dia, depois
de ser liberada pra ir ao banheiro, fiquei enrolando no corredor, admirando a mais
recente exposição de arte no hall principal, cortesia da turma de artes do último ano.

Relutante em voltar pra aula de negócios, porque eu entendia de ABQ’s tanto quanto
entendia da minha vida, arrastei os pés, parando a cada poucos passos para olhar os
quadros pendurados ou fingindo ler o último boletim.

Quando passei pelo banheiro masculino e ouvi uma tosse, parei de novo, mas dessa vez,
não tava enrolando à toa.

Não, porque eu reconheci aquela tosse.

Cheia de malícia, entrei no banheiro masculino, andando na ponta dos pés pelas cabines
vazias. Ignorando o fedor de mijo vindo dos mictórios nojentos e amarelados, fui até a
cabine do fim, a que tinha acesso à janela.

A porta estava entreaberta e eu a empurrei delicadamente até conseguir ver o suficiente


para enxergar o Joey.
Só que qualquer vontade de brincar ou fazer gracinha morreu ali mesmo quando meus
olhos captaram o que ele estava fazendo.

Com um dos joelhos apoiado na tampa fechada do vaso, Joey estava inclinado na
direção da janela e, com uma nota enrolada na mão, cheirava uma carreira de pó branco.

Congelada de horror, incapaz de emitir um som, fiquei parada observando enquanto ele
apoiava os cotovelos na janela e abaixava a cabeça nas mãos, fungando e mexendo o
nariz, soltando um suspiro que soava terrivelmente como alívio.

Os minutos passaram e eu fiquei ali, parada, vendo a tensão dos ombros dele se desfazer
e o corpo começar a balançar.

Um gemido baixo escapou dos lábios dele, e ele se jogou mais perto da janela, apoiando
o peso ali.

Enquanto a onda da droga dominava ele e o corpo ficava mole, senti meu coração
murchar e morrer no peito.

Eu não podia passar por isso de novo com ele.

Não agora que tinha um bebê envolvido.

Minha mão foi até o pequeno inchaço na minha barriga e, pela primeira vez desde que
percebi o tamanho da enrascada, senti algo estranho crescer dentro de mim.

Algo que parecia muito com proteção pelo bebê crescendo dentro de mim.

Algo que parecia muito com amor.

Algo que aumentava e queimava mais forte a cada respiração.

O instinto protetor era tão forte, tão dominante e potente, que parecia quase primitivo,
eclipsando o medo que me fez enterrar a cabeça na areia essas últimas semanas.

Tô grávida, me dei conta de repente, como se só agora minha mente realmente


processasse que eu, de fato, estava esperando um bebê.

O bebê dele, minha cabeça repetiu, enquanto meus olhos, horrorizados, olhavam o
garoto dopado na cabine. Você tá esperando o bebê dele.

Olha pra ele.

Olha o que você amarrou na sua vida.

Respirei fundo, tentando retomar o controle, absorvendo a avalanche de sentimentos me


atravessando, e pigarreei, empurrando a porta só o suficiente pra ele me notar.

Oscilando contra o parapeito da janela, Joey virou a cabeça na minha direção.


— Molloy — ele murmurou, os lábios se amassando, enquanto forçava os olhos a
focarem no meu rosto.

— Eu não vou passar por isso com você de novo.

As sobrancelhas dele se uniram devagar e ele inclinou a cabeça, tentando entender


minhas palavras naquela mente enevoada. Levou mais do que o normal pra ele
processar o que eu disse antes de balançar a cabeça lentamente.

— Não é o que parece.

— Ah, claro — engasguei, gesticulando pro estado dele largado ali. — Com certeza
interpretei tudo errado. — Balancei a cabeça, sentindo as emoções borbulharem,
querendo explodir. — Eu não vou passar por isso de novo com você.

— Então continua andando — ele murmurou, ainda balançando, tentando se endireitar,


mas falhando miseravelmente e caindo sentado no vaso. — Porque eu sou o que sou.

As palavras dele bateram como um tapa e eu estremeci.

— Você é o que você é?

— É — ele balançou a cabeça, tentando levantar de novo, dessa vez conseguindo. —


Então só vai embora, Molloy.

Doeu.

— Você tá me mandando ir embora quando nem consegue andar em linha reta — falei,
o encarando com nojo. — Olha o estado que você tá.

— Você disse que não aguenta mais isso comigo — ele murmurou, meio andando, meio
cambaleando pra fora da cabine, se apoiando na parede quando o equilíbrio falhou. —
Mas pra mim é a mesma coisa. — Ele franziu as sobrancelhas, balançando a cabeça,
completamente perdido, tentando focar no meu rosto. — Eu também não aguento isso
com você.

Esquece tapa; as palavras dele me esfaquearam.

— O que você tá dizendo?

— Tô dizendo que devia ter ficado longe quando a gente terminou no Natal — ele
falou, as palavras vindo como balas no meu coração. — Ao invés de prolongar essa
merda por mais três meses.

— E presumo que essa merda seja eu? — Engoli o nó na garganta antes de sussurrar: —
Vai se foder, Joey Lynch.

Me virei pra sair, mas congelei quando o braço dele veio em volta da minha cintura, me
puxando contra o peito dele.
— Me desculpa — ele suspirou pesado, apertando o braço em volta de mim. — Eu
caguei tudo.

— Cagou mesmo — sussurrei, tremendo inteira, resistindo à vontade de me apoiar nele,


porque sejamos sinceros, ele mal conseguia se sustentar. — Você é um babaca.

— Eu sei — um gemido de dor escapou dele e ele deixou a cabeça cair no meu ombro.
— Eu sei, baby.

— Você tá me machucando.

Ele gemeu de dor.

— Shh, para de dizer isso.

— Isso me machuca, Joey.

Outro gemido de dor escapou dos lábios dele.

— Não, não, não, eu nunca te machucaria.

— Você se machuca, e isso é a mesma coisa — engasguei. — Porque quando você dói,
eu dói. Quando você queima, eu queimo junto. A gente tá entrelaçado, Joe. Somos
espelhos. Você ainda não entendeu?

— Ah, caralho — tremendo, ele me puxou mais forte. — Me desculpa por te machucar,
Molloy.

— Me escuta, Joe; você precisa se resolver, tá? — Arrepiando quando senti os lábios
dele no meu ouvido, fechei os olhos com força, tentando me acalmar. — Lembra
quando eu disse que não precisava de você antes? — Apertei os olhos, quase
implorando: — Eu definitivamente preciso de você agora, tá?

— Não, você não precisa — ele murmurou, a mão se movendo e se apoiando na minha
barriga, fazendo tudo dentro de mim se retorcer. — Eu sou a merda, Molloy. Eu sou
toda a merda desse relacionamento. Você traz tudo de bom, e eu trago tudo de ruim.

— Isso não é verdade.

— É sim.

— Mesmo assim — forcei a voz. — Eu preciso que você dê um fim nessa porra toda e
volte pra mim, tá? Porque eu tô, ah… — Soltando o ar trêmulo, deixei a cabeça cair pra
trás, encarando o teto, tentando encontrar as palavras. — Eu tô tendo um… quer dizer, a
gente tá tendo um… — Arrepiei violentamente, praticamente cuspindo as palavras: —
Um bebê.

— Um bebê — ele repetiu devagar, a voz enrolada. — Cadê o bebê?

— Aqui dentro — engasguei, levando a mão até a barriga, cobrindo a dele.


— Dentro de você?

Com o corpo inteiro rígido de tensão, assenti.

— O que ele tá fazendo aí dentro?

— Você colocou ele aí, Joe.

— Eu coloquei?

— Sim — soltei um suspiro trêmulo. — Você colocou.

— Porra — ele murmurou, roçando o nariz no meu pescoço. — Me desculpa, Molloy.


Eu não queria.

— Você tá bravo?

— Hm?

— Bravo, Joe — repeti, engolindo a histeria. — Você tá bravo?

— Não, não tô bravo — ele murmurou, sonolento.

— Tá me ouvindo?

— Hm?

— Joe?

— Hm?

— Vai lembrar dessa conversa, né? — Me virei pra encará-lo, segurando o rosto dele
entre as mãos, forçando ele a me olhar. — Dessa conversa. — Reforcei quando ele não
respondeu, os olhos negros perdidos, olhando através de mim. — De mim?

— Claro — ele passou o braço na minha cintura e, de novo, escondeu o rosto no meu
pescoço, soltando um suspiro satisfeito. — Você cheira a lar.

Não adiantava.

Ele não tava aqui.

Pelo menos, a cabeça dele não tava.

— Vamos — pigarreei e falei: — Vou te levar pra dormir isso aí.

— Achei que você tinha desistido de mim — ele respondeu, depositando o beijo mais
suave no meu pescoço. — Achei que ele tinha te tirado de mim. — Um gemido dolorido
escapou dele, enterrando o rosto no meu pescoço. — Eu caguei tudo de novo, Molloy.
— Eu não desisti de você, Joe — forcei as palavras, tremendo. — E tudo bem. Vai ficar
tudo bem.

— Você também, Molloy — ele apertou os braços em volta de mim e, mesmo


completamente chapado, de algum jeito, disse exatamente o que eu precisava. —
Porque eu vou cuidar de vocês dois.

Meu coração disparou.

— Você promete?

Ele assentiu.

— Eu prometo.

Momentos depois, as pernas do Joey cederam e ele desabou no chão.

Perguntar ao ChatGPT
EU NÃO POSSO ENTRAR LÁ
JOEY

Oscilando entre a consciência e o apagão, consegui ouvir duas vozes familiares


conversando ao meu redor.

— Esse carro é uma lata de lixo.

— Eu sei.

— Sério, o pai dele é mecânico e isso é o melhor que ele consegue arrumar?

— Só cala a boca e dirige, Podge.

— Tô calando agora.

— Molloy. — Amassando os lábios, virei a cabeça pro lado e gemi de satisfação


quando meu nariz se enfiou entre as coxas quentinhas dela. — Mm.

— Shh, Joe, tá tudo bem — ela acalmou, acariciando minha bochecha com uma mão,
enquanto com a outra segurava minha cabeça no colo dela. — Só dorme, tá bom?

Obedecendo aquela voz maravilhosa que pertencia ao rosto mais lindo que eu já tinha
visto, deixei minhas pálpebras se fecharem e me aconcheguei no colo quentinho dela,
me sentindo mais seguro do que tinha me sentido em anos.

Talvez na vida inteira.

— Você me faz sentir seguro.

— Ah, Joe.

— Eu te amo tanto que dói.

— Eu sei, amor. Eu também te amo.

— Não me manda embora de novo, Molloy.

— Eu não vou, Joe. — A mão dela voltou pro meu cabelo. — Shh, agora. Só dorme,
amor.

— O que ele tomou?

— Algum tipo de pó.

— Oxi triturado?

— Acho que não. Algo mais forte.


— Cocaína?

— Ele estaria pulando pelas paredes.

— Verdade.

— Acho que pode ser heroína.

— De jeito nenhum. Ele não é tão inconsequente.

— Dá pra cheirar heroína?

— Porra, Aoif, eu não sei.

— Nem eu.

— Merda.

— Escuta, preciso que você faça uma coisa pra mim. Quero que revire o quarto dele.
Olha todos os bolsos de todas as calças jeans que encontrar. Revira o guarda-roupa. A
cômoda. O criado-mudo. Cada gaveta. Cada centímetro do quarto dele. A mochila da
escola. A bolsa de treino. Tem um buraco na lateral do colchão. Olha lá também. Ele tá
usando de novo, o que significa que tem um estoque escondido. O que você achar, joga
fora. Consegue fazer isso pra mim?

— Você não vai entrar?

— Eu não posso entrar na casa dele e não posso levar ele pra minha casa assim. Não
com a minha mãe lá.

— Tá tranquilo, Aoife. Eu cuido dele. Você sabe como é. Ele só precisa dormir. Vai
ficar de boa depois de algumas horas de sono.

— Não deixa ele sozinho, tá? Por favor, Podge. Não quando ele tá assim.

— Eu não vou.

— Tô falando sério. Porque ele pode passar mal dormindo e se engasgar com o próprio

— Eu não vou deixar ele sozinho, eu prometo.


DO RUIM PARA O PIOR
AOIFE

Mam estava me esperando na porta da frente quando cheguei da escola na terça-feira à


noite.

— E então? — ela perguntou, com o tom esperançoso, enquanto dava um passo para o
lado para me deixar entrar. — Você contou pra ele? Ele vem aqui?

Sim, eu contei, mas ele estava em outro planeta e não ouviu uma palavra do que eu
disse.

Balançando a cabeça, larguei minha mochila no corredor e pendurei o casaco no


corrimão, me sentindo completamente derrotada.

— Aoife. — A expressão dela caiu. — Você precisa contar pro garoto.

— Eu sei — cortei ela rapidamente, indo em direção à cozinha, com meu corpo
fervilhando de ansiedade. — Eu tentei. Ele estava ocupado.

Ocupado perdendo a cabeça.

— Todos nós estamos ocupados, Aoife — Mam argumentou, fechando a porta da frente
e vindo atrás de mim. — Nunca vai ter um momento certo pra ter essa conversa, mas ela
precisa acontecer.

— Eu sei — repeti, com os ombros tensos, enquanto revirava a geladeira. — Eu tentei.

— Quer que eu fale com ele por você?

— O quê? — Batendo a porta da geladeira com força, me virei e encarei ela,


boquiaberta. — Não, Mam. Jesus!

— Se você não contar logo, só vai piorar tudo milhões de vezes.

Meus olhos se estreitaram.

— Eu tô tentando, Mam, mas isso não é algo que se fala assim fácil, tá? O que você
quer que eu faça, hein? Solte no meio da aula?

— Você devia ligar pra ele — Mam disse, colocando a mão no meu ombro de forma
reconfortante. — Se não consegue falar pessoalmente, então faz isso por telefone.

— Mam, eu já tentei — engoli o nó na garganta, implorando com os olhos pra ela


entender. Eu já estava destruída o suficiente depois da merda que foi essa tarde, não
precisava da pressão da minha mãe por cima. — Deixa isso quieto, tá?

— Você precisa fazer isso, Aoife — ela insistiu. — Você tem o hospital na sexta e o
Joey precisa estar lá. Ele precisa saber que vai ser pai. Ele tem direitos, sabia?
— Pai? — Kev falou secamente, e eu me virei e encontrei ele parado na porta da
cozinha.

— Kev, você não devia ficar escutando conversa dos outros — Mam repreendeu,
levando a mão ao peito, enquanto ralhava com meu irmão. — Isso não é certo.

— Joey Lynch vai ser pai — ele repetiu, com os olhos travados nos meus. — O que
claramente significa que você vai ser mãe.

— Não, eu não vou — menti, com o rosto quente e sem saber onde me enfiar, enquanto
me esquivava da Mam e ia em direção à chaleira. — Não fala besteira.

— Eu não tô falando besteira — meu irmão rebateu rápido, entrando na cozinha. — Eu


sou teu irmão gêmeo, sabia? Eu senti que tinha algo errado com você faz tempo. — Ele
balançou a cabeça. — E agora tudo faz sentido. — Ele virou pra Mam e encarou ela. —
Vocês duas grudadas o tempo todo esses dias. Cochichando e se escondendo — ele
zombou. — Porque ela tá grávida.

— Para de falar isso — forcei a voz a sair, me sentindo fraca. — Não é verdade.

— Mentira — ele rebateu, com o tom cheio de raiva. — Você tá insuportável de


conviver faz semanas. Aqui em casa tá parecendo montanha-russa de humor — sem
falar das aulas que a Mam deixou você faltar. — Ele me olhou dos pés à cabeça, os
olhos se estreitando com nojo. — É porque você deixou aquele vagabundo te
engravidar, né?

— Já chega, Kev — Mam avisou, falando por mim quando eu não consegui. — Você
precisa parar agora, rapazinho. Isso não te diz respeito, então fica quieto.

— Não me diz respeito? — ele cuspiu as palavras, furioso. — Tá de brincadeira? Eu


moro aqui também, tá? Se ela vai trazer um bebê pra essa casa, então eu tenho o direito
de saber, e o papai também.

— Para com isso — implorei, sentindo o sangue sumir do meu rosto. — Só cala a boca,
Kev.

— No começo eu achei que você só tava engordando, mas agora faz sentido. Todos os
alimentos esquisitos que você anda comendo são desejos de grávida.

— Kevin!

— Você nem consegue negar, né? — ele continuou, ignorando a bronca da Mam e
mantendo os olhos furiosos em mim. — Não dá pra esconder essa barriga que você tá
tentando esconder.

— Kevin! — Mam gritou. — Eu falei que já chega!

— Eu tô vendo. Eu não sou cego, e muito menos burro — meu irmão zombou, me
encarando. — Diferente de você. A idiota que deitou de pernas abertas e deixou um
maluco como o Lynch te engravidar.
— Vai se foder — solucei, sentindo as lágrimas caírem, enquanto meu irmão me jogava
a realidade na cara com crueldade. — Você não faz ideia, Kev. Nenhuma porra de ideia.

— Parabéns, irmãzinha — ele continuou, com desprezo. — Você acabou de se tornar


mais uma estatística de gravidez na adolescência. Palmas pra você. Pode dar adeus pro
seu futuro agora que entrou pra lista das meninas burras da nossa escola que abriram as
pernas pra caras como ele.

— Eu falei que já chega, Kevin! — Mam gritou, abrindo o armário e batendo a porta
com força. Ela fez isso mais três vezes até o Kev prestar atenção. — Você — ela
apontou o dedo no rosto dele. — Nem mais uma palavra.

— Mas—

Mam bateu a porta de novo. — Nem mais uma porra de palavra, Kevin, ou a próxima
coisa que eu vou bater vai ser minha mão na tua cara.

— Então ela engravida e eu que levo ameaça de tapa? — meu irmão bufou, cruzando os
braços. — Isso que é favoritismo.

— Isso não tem nada a ver com favoritismo e tudo a ver com decência — Mam rosnou,
cutucando o peito dele. — E tô te avisando agora, rapazinho, é melhor você não abrir a
boca sobre isso. Tá me ouvindo, Kevin? Nem uma alma.

— Eu obviamente vou contar pro papai.

— Se você sabe o que é bom pra você, vai manter essa boca fechada — Mam avisou,
num tom raro e ameaçador. — Essa notícia não é sua pra contar, Kevin. Isso não tem a
ver com você. Tem a ver com sua irmã, e a Aoife tem o direito de contar pro seu pai e
pra todo mundo quando ela estiver pronta.

— Tá maluca? A gente tá falando da Aoife. Ela nunca vai estar pronta pra ser mãe —
ele disse, apontando um dos meus maiores medos. — Ela nem consegue cuidar do
Spud, e foi ela que implorou por aquele cachorro. Como você acha que ela vai cuidar de
um ser humano de verdade? — Ele olhou pra mim e disse: — Faz um favor pra você
mesma e tira isso. Conserta essa cagada enquanto ainda dá tempo.

— Vai se foder! — Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, empurrei meu irmão e saí
correndo escada acima.

— Você sabe que eu tô certo — Kev gritou atrás de mim. — Você não aguenta nem um
dia sendo mãe antes de enfiar o bebê no colo da Mam pra ela criar.

Um toque suave na porta do meu quarto chamou minha atenção, me afastando do


travesseiro que eu tentava enfiar na cara pra abafar o choro.

— Aoife, amor, é a Mam. Posso entrar e conversar com você?

Por que não?


Eu sou uma adolescente grávida no ensino médio. Meu irmão gêmeo, ao descobrir, me
chamou de vadia burra, me humilhou pelo pai do meu bebê e ameaçou me dedurar pro
nosso pai. E, enquanto isso, o tal pai da criança provavelmente tava largado por aí,
dormindo tranquilo, sem lembrar da bomba que eu joguei no colo dele.

Na real, não tinha nada que minha mãe pudesse falar que deixasse essa situação pior.

— Tá destrancada — respondi, me ajeitando sentada na cama, com o travesseiro


apertado contra a barriga.

A porta do meu quarto abriu e minha mãe apareceu, com o olhar cheio de preocupação.

— Tá tudo bem?

Dei de ombros.

— Nem um pouco.

— Eu conversei com teu irmão, e ele me prometeu que vai ficar quieto até você estar
pronta pra contar pras pessoas.

— E você acredita nele?

— E você não?

— Não sei — soltei um suspiro cansado. — Ele foi cruel lá embaixo.

— Seu irmão foi um idiota — Mam sentou na beira da cama e pegou minha mão. —
Não dá ouvidos pro que ele falou, Aoife. Nem uma palavra.

— Eu não sabia que ele me odiava tanto assim, Mam — confessei, me sentindo chorosa
de novo, enquanto as palavras horríveis dele ecoavam na minha cabeça. — Eu entendo
ele estar chateado por causa do bebê, mas o que ele disse? Tinha ódio de verdade ali.

— Não era ódio que você ouviu, Aoife, era ciúme — Mam corrigiu, soltando um
suspiro triste. — E isso tem muito mais a ver com o teu pai do que com você.

Franzi a testa, confusa.

— Papai?

— O teu pai e o Kev nunca tiveram conexão. Nunca tiveram. Tem amor, claro, mas não
tem sintonia.

— E o que isso tem a ver com eu estar grávida?

— Porque, na cabeça do teu irmão, o garoto que te engravidou é o mesmo garoto que
representa a maior ameaça pro relacionamento dele com teu pai.

— O Joey?
— O Joey. — Ela me deu um sorriso triste antes de continuar: — Consegue imaginar
como foi nos últimos seis anos pro Kev? Ver teu pai criando laços com um garoto da
turma dele, enquanto mal reconhecia as conquistas do próprio filho?

— Tá, mas como isso é culpa do Joey?

— Não é culpa do Joey — Mam respondeu suavemente. — E nem tua. É culpa do teu
pai por não ter se esforçado mais com o Kev ao longo dos anos.

— Mam, eu sei que o Kev é teu preferido, mas não dá pra culpar os surtos dele em
trauma de pai — argumentei. Eu conheço trauma de pai de perto e isso não é o caso do
meu irmão. — Confia em mim, a gente tem um bom pai.

— É verdade, ele é um bom pai — Mam concordou. — Mas você precisa reconhecer
que falta sintonia entre ele e o Kev.

— O papai gosta de carros e o Kev gosta de computadores. Papai é o tipo machão


tranquilo, e o Kev é um nerd introvertido — admiti, me forçando a reconhecer. — Eles
não combinam. Grande coisa. Nem eu e você combinamos, mas nem por isso eu fico
agindo assim, porque eu sei que você ainda me ama, do mesmo jeito que o papai ama o
Kev.

Os olhos dela se arregalaram, surpresa.

— Você acha que a gente não combina?

— Sendo sincera?

Ela assentiu.

— Não, Mam, não acho. — Peguei um fiapo do meu pijama e dei de ombros. — O Kev
sempre foi teu queridinho, enquanto eu sempre fui demais pra você lidar.

— Isso não é verdade.

— É sim. — Sorri, triste. — Pra ser sincera, acho que a gente conversou mais na última
semana do que nos últimos três anos, e isso só porque agora temos algo em comum.

A dor tomou conta do rosto da minha mãe e eu me senti um lixo por ter causado aquilo.

— Não tô dizendo que não me sinto amada — me apressei em dizer, apertando a mão
dela. — Só sei como é se sentir fora de sintonia com um dos pais, mas ainda assim se
sentir apoiada e cuidada. Não guardo rancor, não tenho nenhum drama de mamãe.

— Me desculpa — Mam sussurrou, com o rosto horrorizado. — Nunca percebi que


você se sentia assim.

— Mam — revirei os olhos. — Se controla, tá? Nem é tão profundo assim.


— Eu não favoreço teu irmão — ela soltou, desesperada. — Não favoreço. Juro. Amo
vocês dois do mesmo jeito.

— Eu sei disso — falei, e era verdade. — E também sei que tudo bem você se dar
melhor com o Kev. Isso não tem nada a ver com amor, Mam. É só que a personalidade
dele combina mais com a tua do que a minha, e eu tô de boa com isso. Juro.

— Você tá falando sério, né?

Assenti com sinceridade.

— Tô falando sério.

Ela me encarou por um tempo antes de soltar o ar.

— Você vai ser uma mãe maravilhosa, sabia, minha menina?

— É — murmurei. — Claro que vou.

— Vai sim — Mam insistiu. — Agora eu consigo enxergar tudo com muito mais
clareza.

— Enxergar o quê?

— Você — Mam respondeu. — A mulher que você tá se tornando. Essa espinha dorsal
de aço que carrega. O motivo dele ser tão atraído por você.

— Quem?

— O Joey.

Meu rosto esquentou.

— Ah?

— Obviamente, você é uma menina linda.

Eu dei uma risadinha, abanando a mão na frente do rosto.

— Obviamente.

— E modesta — Mam debochou antes de continuar. — Mas você é muito mais do que
um rostinho bonito. Você é calorosa, Aoife. Aquele pobre menino nunca teve chance
com você, né? Não com tudo que ele nunca recebeu fluindo de você como uma
cachoeira.

— Não, eu sou dramática, lembra? — brinquei, envergonhada.

— Você é isso também — ela concordou, com um sorriso malicioso. — Mas meu Deus,
como esse calor brilha por trás do seu jeito travesso. É contagiante.
— Ah, isso deve ser o tal brilho de grávida, Mam.

— Para de desviar o assunto e aceita o elogio.

— É, bom… eu não consigo evitar — fiz uma careta em protesto. — É estranho.

— Você não tem problema nenhum em aceitar elogio quando é sobre o rosto.

— É, bom, eu posso olhar no espelho sempre que quiser uma validação física —
retruquei, sem o menor arrependimento. — Não dá exatamente pra me cortar e ver todo
esse calorzinho fofo e contagiante, dá?

— Bom, confia em mim, ele tá aí — ela respondeu, sorrindo. — E nem ouse perder isso
algum dia.
— COMO É QUE EU ACHEI ESSA PORRA?

JOEY

Com a mãe de todas as dores de cabeça, eu acordei lentamente, piscando os olhos


devagar. Fiquei completamente horrorizado ao perceber que estava de bruços em
lençóis florais de um estranho, sem a menor ideia de como tinha chegado ali.

Entrando em pânico, me levantei rápido apoiando nos cotovelos e olhei pra baixo,
aliviado ao me ver totalmente vestido com o uniforme da escola — até com os sapatos
calçados.

Bati a cabeça numa barra da beliche familiar acima de mim e fui entendendo que estava
na minha própria cama, mas com os lençóis trocados — provavelmente pela Shannon.

— Então você vive pra contar outra história — Podge disse, seco, sentado na beirada do
colchão, segurando uma garrafa d’água vazia. — Que porra, Joey? Achei que você
tivesse controlado essa merda.

— Por que você tá aqui? — murmurei, me sentando devagar enquanto o quarto parecia
girar em volta. Afastei o cabelo molhado dos olhos e perguntei: — Por que eu tô aqui?

— Eu te trouxe — ele respondeu. — Você desmaiou no banheiro da escola hoje à tarde,


idiota. A Aoife te encontrou e me chamou. Tá com sorte que o Nyhan não pegou você,
senão você tava frito.

— Hoje à tarde? — a confusão tomou conta da minha mente e meu coração acelerou. —
Que horas são? — Neguei com a cabeça. — Onde tá a Aoife?

— Passou das duas.

— Da tarde?

— Não, mano, da madrugada — Podge suspirou pesado. — Você ficou apagado por dez
horas, Joey. Então, mais uma vez e eu não vou cansar de dizer: que porra foi essa?

Jesus Cristo.

— Eu não sei — me levantei instável, empurrando o cabelo molhado do rosto outra vez.
— Por que meu cabelo tá molhado?

— Tive que te acordar de algum jeito — ele se defendeu, jogando a garrafa vazia na
minha cabeça. Não me esquivei, deixei o plástico me acertar. — Você ficou tanto tempo
apagado que comecei a achar que tinha morrido.

— Pois é, claramente não morri.

— Por enquanto — retrucou, passando a mão no cabelo. — Jesus Cristo, quanto tempo
isso tá acontecendo mesmo?
— Foi só uma vez.

— Mentira.

— Para com isso, Podge — murmurei. — Fodi tudo, beleza? Não preciso de sermão.

— Pelas lágrimas que vi na cara da Aoife e o tanto que ela chorou, você fodeu muito
mais que isso dessa vez.

Fiquei tenso, nervoso.

— O que é que isso quer dizer?

— Como se você ligasse pra alguma coisa além do que vai direto pro seu nariz.

— O que é que isso quer dizer, Podge?

— Que você fodeu tudo com a sua namorada — ele falou baixinho, se levantando. —
Não sei o que você fez com ela ou o que disse, mas nunca vi alguém tão destruído
assim.

— Como assim? — em pânico, peguei meu celular e vi que não tinha nenhuma
notificação da Molloy. Liguei pra ela na pressa e só caiu na caixa postal. — Jesus
Cristo, o que foi que eu fiz?

Ele cruzou os braços e me olhou sério.

— Você me diz.

— Eu não ia estar perguntando se soubesse — rosnei, perdendo a calma enquanto


andava pelo quarto. — Você disse que ela tava chorando? — olhei pra ele, apavorado.
— Eu machuquei ela?

Ele me encarou por um tempo e balançou a cabeça resignado.

— Não, Joe, você não machucou ela assim. Você nunca encostou um dedo nela, cara, e
nunca ia fazer isso, então relaxa.

Soltei um suspiro tremido e encostei na parede do quarto, tentando me recompor.

— Porra.

— Você se importa com ela — Podge falou, me observando. — Mais do que com
qualquer coisa ou pessoa que você já tenha permitido se importar. Eu vi a mudança em
você, e o Alec também. A esperança que ela traz pra você. Porra, o mundo todo vê
como essa garota é boa pra você, cara. Mas você tá tão determinado a se autodestruir
que nem percebe o que tá fazendo com ela. — Ele balançou a cabeça, depois
completou: — Se você não se importa consigo mesmo, e tá bem claro que não se
importa, então pelo menos pense no que suas ações tão fazendo com ela. Porque sabe o
quê, filho da puta? A Aoife Molloy te ama. Me escuta, sortudo do caralho. A garota
mais gata da nossa escola — provavelmente de toda a cidade — com a melhor conversa
te ama.

— Faz um papel mais surpreso, vai.

— Eu não tô surpreso — respondeu sem hesitar. — Já vi um monte de garota que você


pegou ao longo dos anos. Não sou inseguro a ponto de negar que você é um filho da
mãe gato. — Encolheu os ombros. — Vocês dois são lindos. Faz sentido ela estar
contigo.

— Sabe, não tenho certeza se gosto de onde essa conversa tá indo — avisei. — Porque
se essa for a parte em que você diz que é atraído pela minha namorada, vou ficar muito
puto, e se disser que é atraído por mim, vou ficar traumatizado pra caralho.

— Claro que sou atraído pela sua garota — Podge retrucou. — Como todo cara da
escola.

— É. — Assenti. — Tô puto.

— Bonito à parte, você é um desastre ambulante — argumentou. — E eu sei disso.


Passei os últimos quatorze anos vendo você descarrilhar, mas fiquei por causa da
mesma razão que ela ficou: porque ela vê o que eu vejo — uma pessoa boa por baixo de
toda essa merda. Mas você tá borrando essas linhas, Joe. Ultrapassou uma linha hoje e
precisa consertar isso — falou, levantando um dedo. — Eu te amo como um irmão,
sempre amei, mas um dia você vai cair tão fundo que nenhum de nós vai conseguir te
alcançar.

As palavras dele me atingiram fundo e eu reagi no automático.

— Eu não preciso que ninguém me alcance. — Agitado, sussurrei. — Não preciso de


você, dela, nem de mais ninguém pra me ajudar com essa merda.

Ele estreitou os olhos.

— Continua assim que ninguém vai querer.

Eu estreitei os olhos de volta.

— Tá ótimo pra mim.

— Vai lá, Joe, continua empurrando embora as pessoas que realmente te amam —
argumentou, com tom irritado e olhos cheios de decepção. — Continua expulsando a
gente da sua vida e vai acabar só com o Shane Holland e os vampiros sugando tua
energia.

— Já terminou com a palestra? — Fui até a porta do quarto, abri e olhei pra ele. —
Porque pode sair agora.

— Cara, você ainda tá pirado se acha que eu vou andar na sua rua cheia de marginais às
duas da manhã. — Jogando-se na minha cama, Podge ajeitou o travesseiro e se
acomodou. — Não, você vai me aguentar essa noite, então pode se acostumar com o
lugar de cachorro no chão — ofereceu, bocejando. — Tenho a sensação que é onde
você vai passar a maior parte do tempo daqui pra frente.

— Eu devia ir vê-la—

— Não, você devia se jogar na cama antes de arrumar mais confusão — meu amigo
ordenou, jogando um travesseiro em mim. — Deixa a pobre garota dormir. Você vai lá
primeiro horário da manhã.

Cedendo, me joguei no chão e cobri o rosto com o braço.

— Porra.

— Quer saber de uma coisa?

— Se for pra me lembrar o quanto eu sou um merda, nem quero. — Murmurei. — Já tô


bem ciente disso.

— O Charlie Monaghan tentou algo com a Aoife hoje na escola.

— Que porra? — Tirei o braço do rosto e olhei surpreso pra ele. — Como você sabe
disso?

— Ouvi do Rambo, que ouvi da Becca.

— O que ele falou?

— O que eu sou, um leitor de mente? Eu já te disse, ouvi do Rambo que ouvi da


Rebecca. Não sou telepatético, cara.

— Esse babaca.

— Segundo dizem, ele pegou pesado com ela — Podge riu. — Acho que você precisa
tirar a cabeça do buraco e melhorar seu jogo se quiser manter essa garota.

— Parece que eu preciso quebrar o nariz do Charlie Monaghan.

— É — meu melhor amigo riu. — Isso também.


LÁ VAI VOCÊ ME FALAR

AOIFE
Com a camisa do meu uniforme escolar aberta, e só meu sutiã e calcinha cobrindo
minha dignidade, eu estava em pé na frente do espelho de corpo inteiro no meu quarto
na manhã de quarta-feira, estudando cada centímetro da minha pele, prestando atenção
especial nas partes do meu corpo onde havia mudanças óbvias.

Meus seios estavam enormes, e isso já dizia muito porque eu nunca tinha ficado sem
eles.

Sério, estavam tão cheios e pesados que parecia que eu estava carregando bolas de
boliche no sutiã.

Meus mamilos tinham escurecido cerca de dez tons, e eu tinha veias muito visíveis, bem
azuis, aparecendo nos dois seios.

Nojento.

E aquele pequeno inchaço na minha parte inferior da barriga, aquele que eu tinha
conseguido fingir que era só inchaço até agora, já não era tão pequeno assim. A área da
minha barriga abaixo do umbigo tinha se distendido num pequeno porém firme “pouch”
(pochete, barriguinha).

Só de ver aquilo, meu pulso disparou.

Eu chamava de “pouch” porque me recusava a usar a palavra com B que rimava com
“pump”.

Sim, eu estava muito longe de estar pronta para a palavra com B.

Eu não ia conseguir esconder minha situação por muito mais tempo.

As mudanças no meu corpo já tinham sido drásticas, e eu previ que ainda tinha mais um
mês, no máximo, antes do mundo inteiro saber.

A gente teria as férias de Páscoa na sexta-feira. Teríamos duas semanas de folga e uma
enorme parte de mim estava preocupada que eu explodisse nesse tempo e acabasse
voltando pra escola parecendo uma baleia encalhada.

Era um pensamento aterrorizante.

Virando de um lado para o outro, eu estudava minha aparência, cutucando e apertando


aquela coisa estranha que tinha se alojado no meu útero.

Ugh.

Útero definitivamente era outra palavra que eu odiava, junto com placenta, ductos de
leite, parto, exames de membrana e, pior de todos, coroação.
Lutando com o conceito de um bebê crescendo dentro do meu corpo, e ainda mais com
a ideia dele entalando a cabeça grande e careca e os ombros do tamanho do Joey Lynch
para sair pela minha vagina, eu estremeci violentamente, fazendo uma pequena
dancinha nervosa no lugar, enquanto segurava uma onda de náusea.

Esvazie sua mente.


Respire fundo.
Apague tudo.

Você ainda é linda.


Nada esticou sua vagina.
Seu corpo ainda não tem estrias.
Tá tudo bem.

Controlando minha ansiedade para um nível suportável, comecei a me maquiar inteira e


passar o babyliss no cabelo, decidindo fazer ondas soltas de praia para a escola naquele
dia.

Eu estava fuçando minha malinha de maquiagem ruim de reserva, aquela que guardava
todos os produtos rejeitados de kits de beleza que ganhei de aniversário e Natal,
procurando uma paleta de bronzeador, e mentalmente me xingando por não ter
comprado dois de cada produto que uso, quando um par de braços tatuados familiares
apareceu ao redor da minha cintura, me puxando de volta contra um peito ainda mais
familiar.

— Numa escala de um a dez, quão puta da vida você está comigo? — ele perguntou.

— Caralho, Joe — eu engasguei, quase chamando aquilo de mentira, porque quase pulei
da pele, — você não podia usar a porta da frente?

— Por que quebrar um hábito de uma vida? — os lábios dele roçaram meu ouvido
enquanto falava, olhos presos nos meus no espelho à nossa frente. — Eu diria “boas
pernas”, mas isso seria fazer um desserviço ao resto de você.

Liso como o pecado, ele deixou as mãos passearem da minha cintura para os quadris, os
dedos entrando por baixo do tecido de renda da minha calcinha por um instante antes de
deixar a cintura elástica voltar ao lugar, e as mãos retornaram para os quadris.

— Bonita de tudo, Molloy.

O movimento fez todos os músculos abaixo do meu umbigo se contraírem em


antecipação ardente.

— Obrigada.

— E então? Numa escala de um a dez?

Minhas pálpebras fecharam sem querer; uma reação inevitável ao toque daquele garoto,
e soltei um suspiro trêmulo.
— Onze.

— É. — Os lábios dele roçaram meu pescoço e ele inspirou fundo antes de soltar um
suspiro pesado. — Eu imaginei.

Como um cordeiro indo para o matadouro, eu me apoiei pesado nele, enquanto meu
corpo se deleitava na sensação das mãos dele na minha pele.

— Isso é tudo que você tem a dizer por si mesmo?

— Sou um idiota — ele ofereceu, pressionando um beijo na minha bochecha. — Eu não


mereço. — Ele mudou de lado e beijou a outra bochecha. — Desculpa. — Outro beijo
na curva da minha mandíbula. — Eu te amo.

— Você não se lembra de nada, né? — perguntei, me virando justo a tempo de receber
o beijo suave que ele deu no canto da minha boca. — O que falamos ontem?

— Eu lembro que eu fodi tudo.

Eu revirei os olhos.

— Você sempre fode tudo.

— Ei. — Ele pegou meu rosto entre as mãos, se inclinou perto, olhos verdes claros
presos nos meus. — Eu falo sério. — Esfregando o nariz no meu, ele beijou a ponta e
suspirou. — Desculpa pelo ontem.

— Qual parte?

— A parte em que seu namorado idiota te fez chorar.

— É? — Odiando o quanto eu amava a atenção dele e sentindo a cabeça rodar por como
meu corpo desejava desesperadamente seu toque, me apoiei nas mãos dele, me sentindo
completamente fisgada. — Bem, se você vir aquele babaca por aí, diga pra ele que eu
não perdoo.

— Você não devia. — Ele acariciou meu nariz outra vez. — Ouvi dizer que ele é um
desastre.

— Um baita desastre. — Concordei, retribuindo o beijo quando os lábios dele roçaram


os meus. — Se não fosse pelo pau enorme dele, eu já tinha chutado o traseiro dele.

— É mesmo?

— Uh-huh. — Assenti. — Pra mim, é tudo sobre o pau.

— Então é sorte dele saber usar o pau, hein? — Ele provocou, lábios pairando perto dos
meus, enquanto me pressionava contra o corpo dele. — E os dedos dele. — Meu fôlego
falhou quando a mão dele deslizou por baixo da cintura da minha calcinha. — E a
língua dele.
E assim, eu derreti feito uma tola contra ele, lábios se movendo contra os dele num beijo
que disparou meus hormônios já em ebulição.

Sabendo perfeitamente que ele era tão perigoso para minha mente quanto as drogas
eram para ele, quebrei o beijo antes de me perder ainda mais nele.

Dentro dos meus sentimentos.


Dentro dele.

Recuando antes de me perder por completo, coloquei as mãos no peito dele para me
equilibrar e disse:

— Você não vai se safar tão fácil assim.

— Nunca pensei que fosse.

— Por que você está aqui? Pensei que íamos nos encontrar na escola, como sempre.

— Porque eu precisava pedir desculpas — ele explicou, limpando o brilho labial usado
que tinha nos lábios com o polegar, antes de caminhar até a minha janela e escalar para
fora dela.

Alguns segundos se passaram antes que a mochila dele voasse pela janela, seguida do
hurley, capacete e da bolsa de viagem que eu tinha deixado na casa dele.

— Você trouxe meu colar? — perguntei, vendo-o escalar de volta pela janela. — Eu
sinto como se estivesse andando nua sem ele.

— Trouxe — respondeu, tirando a corrente prateada do bolso enquanto se aproximava.


— Vira-se.

Atendendo, joguei o cabelo para cima do pescoço, enquanto ele fechava o fecho.

— Obrigada, stud.

— A qualquer hora, queen.

— Você ainda está em apuros.

— Não é sempre assim? — murmurou, pressionando um beijo suave na curva do meu


pescoço antes de ir até minha cama e se jogar. — Ok, estou ouvindo.

— Hã?

— Você queria falar — ele se apoiou nos cotovelos, parecendo bem íntimo da minha
cama — e bem gostoso também. — Vamos falar.

— Verdade — respondi, a ansiedade borbulhando dentro de mim enquanto fechava os


botões da camisa. — Mas você devia ter vindo ontem à noite pra conversar. — Pausei e
franzi o cenho. — O que claramente foi outra coisa que você esqueceu.
— Bem, agora que estou aqui, é melhor acabar logo com isso.

— Acabar com isso? — Ouvi meu próprio suspiro afoito, incapaz de esconder a quase
histeria ameaçando me dominar.

— Fala, Molloy — ele disse. — Vamos lá.

Eu não estava pronta.

Ao contrário de ontem, quando ele estava fora de si por sabe-se lá o quê, meu namorado
estava sentado na minha cama, sóbrio, me olhando esperando.

Puta merda.

— Pode esperar — tentei ganhar tempo. — Até o almoço ou depois da escola, talvez?
Depois do trabalho também serve. Ou amanhã. Merda, amanhã também é bom pra mim.
Não precisa ser agora.

— Escuta, eu já sei como essa conversa vai acabar — interrompeu Joey. — Você tem
coisas pra me falar, coisas que eu mereço ouvir, então manda logo.

— Mandar? — A confusão me invadiu. — Joe, acho que não estamos na mesma página.

— Ontem — ele falou de repente, soltando um suspiro pesado e esfregando a mandíbula


— do jeito que eu estava? O que você viu? Eu sei que te decepcionei, tá? Fodi tudo e
entendo isso, mas não precisa se preocupar. Não é como antes, Molloy. Eu não sou a
mesma pessoa que eu era antes do Natal e não tenho intenção de voltar para aquele
lugar. Eu tô no controle agora, tá?

Drogas.

Ele falava sobre drogas.

E enquanto o comportamento dele ontem certamente precisava ser resolvido, não era o
problema mais fodido do dia.

Porque, por mais ridículo que parecesse, tínhamos um problema ainda maior.

— Quando você diz que está no controle — falei cautelosamente — o que você quer
dizer é que teve uma escorregada momentânea de sanidade por algumas semanas, mas
voltou a si, e nunca vai fazer isso de novo, certo?

Diz.

Por favor, só diz.

Diz que está tentando de novo.

Tudo o que preciso é que você continue tentando.


— Eu tô bem, Molloy — ele insistiu, tom leve. — Tá tudo bem. Você não tem com o
que se preocupar. Eu tô no controle aqui.

Eu tô no controle aqui.

Devastação me inundou.

Meu coração quebrou no peito.

— Não foi isso que eu perguntei, Joey.

— Tá tudo bem.

Dor.

Quase me engoliu inteira.

— Diz — exigi rouca. — Diz que está tentando de novo.

Ele não respondeu.

— Diz que vai parar, Joe. Melhor ainda; diz que já parou.

— Já te disse que tô bem — respondeu, tom ríspido, levantando-se, indo para o outro
lado do quarto e fingindo inspecionar uma das portas do meu armário. — Para de se
preocupar, tá? Tá tudo bem.

— Bem? — rosnei, pegando a saia do uniforme e vestindo-a. — Eu já estive aqui com


você, lembra? Já andei por esse caminho com você mil vezes, e se você está usando de
novo, não está bem, e se ontem é um indicativo, definitivamente não está no controle.

— Você está errado — ele mordeu — você está exagerando.

— E você está delirando — rosnei, tirando o suéter da escola pela cabeça. — E é um


maldito mentiroso.

— Molloy.

— Não. — Balancei a cabeça. — Não me chame de Molloy, idiota. Você não vai se
safar dessa com conversa fiada. Eu não estou bem com isso, nunca estive e nunca vou
estar.

Dando de ombros, ele fechou a porta do armário e me encarou.

— Então não sei o que te dizer.

— Que tal começar explicando o que te possuía a voltar pra esse caminho? — joguei,
amarga, machucada com as ações dele. — E nem pensa em culpar o que seu pai tentou
fazer comigo, porque eu achei seu estoque de drogas no dia antes disso até acontecer,
Joey.
Ele se tencionou.

— Do que você está falando?

— Achei um saquinho de comprimidos na calça de moletom sua.

Ele estreitou os olhos.

— Por que você estava fuçando minhas roupas, Aoife?

Eu estreitei os meus também.

— Eu não estava fuçando suas roupas. Estava procurando algo para vestir. Mas mais
importante, por que estavam lá no seu bolso, Joseph?

— Aqueles comprimidos não eram meus.

— Não? Então por que estavam no seu bolso?

— Eu tô te dizendo, Molloy, eu não comprei aquilo.

— Eu não acredito em você.

— Beleza. — Ele balançou a cabeça e soltou um rosnado frustrado. — Eu fodi tudo,


ok? Eu sei disso. Eu fodi tudo. Eu pensei que você tinha acabado comigo e desisti.
Joguei a toalha, porque, caso não tenha notado, Molloy, além de você, eu não tenho
muita coisa na vida. Na minha cabeça, você tinha acabado e eu não via motivo pra
continuar com essa fachada de merda.

— Que fachada de merda?

— Aquela onde eu finjo ser alguém que não sou — ele estalou. — Tudo o que fiz, todas
as mudanças que fiz, foram por você. E aí você se foi, então eu só... — Ele jogou as
mãos pro alto, derrotado. — Parei de lutar contra minha natureza.

— Sua natureza? — lancei um olhar duro. — Isso não é sua natureza.

Ele deu de ombros, mas não respondeu.

— Então, porque estamos passando por uma fase difícil, você achou que podia jogar
fora os últimos três meses?

— Meu pai tentou me foder, Molloy — ele rosnou, voz rouca. — E aos seus olhos eu
pareço com ele, lembra? Eu diria que isso é mais que uma fase difícil.

E lá estava.

A razão por trás de cada decisão errada do meu namorado voltou à tona.
— Eu estava magoado — tentei raciocinar com a parte dele que queria se autodestruir.
— Eu estava com medo. Eu estava em choque. Eu estava fodidamente perdido, Joey. Eu
não quis dizer nada daquilo que falei naquela noite, e você sabe disso, então para de
tentar me fazer sentir mal por isso.

Ele estremeceu como se eu tivesse batido nele.

— Se você me conhece, e provavelmente é a única que me conhece, sabe que eu nunca


faria isso com você — ele rosnou, parecendo magoado. — Eu mereci sua dor naquela
noite. Eu mereci tudo o que você falou e mais.

— Eu sei que você não faria — suspirei, passando a mão na testa, enquanto minhas
emoções continuavam a me derrubar. — Eu sei, Joe.

— Não estou tentando fazer você se sentir mal — continuou. — Mas você pediu uma
explicação e eu estou tentando te dar.

— Bem, claramente eu não terminei com você — disse, tentando que ele me ouvisse. —
Seu pai fez uma coisa terrível, isso é verdade, mas não é você. Nada mudou pra gente,
ok?

— Eu não sabia disso. — As palavras dele mal saíram enquanto engolia seco. — Eu não
sabia.

— Agora você sabe — insisti. — Então precisa parar com isso. Entendeu? Preciso que
você se reergue e continue tentando.

— Eu já te disse que tenho tudo sob controle dessa vez.

— Vê, isso não é suficiente pra mim, Joe — ouvi minha voz responder. — Eu não
quero sua garantia. Eu quero sua sobriedade.

— E você vai ter.

— Quero agora.

— Não sei se posso te dar isso.

Pânico me consumiu.

— Por quê?

— Porque eu não quero mentir pra você — ele rosnou. — Prometo que não vai ser
como antes.

— Não. — Balancei a cabeça, sentindo meu coração quebrar. — Não, Joe.

— Molloy. — Os ombros dele caíram em derrota, ele soltou um suspiro resignado. —


Eu sou o que sou.
Lá estava de novo.

Essa frase horrível.

Eu odiava essas cinco palavras quando saíam da boca dele.

— Sim, e quem você é é muito melhor do que o cara na minha frente, soltando
desculpas para fazer algo que quase o destruiu antes — estalei, mãos na cintura, olhando
para ele. — Você é um homem melhor que isso, Joey Lynch.

— Talvez eu achasse que era.

— Ainda é — estrangulei, lutando contra o pânico e a dor. — Você é melhor que o


estilo de vida que está determinado a voltar, e com certeza é melhor que o Shane
Holland, e sabe disso.

— Isso não tem nada a ver com o Holland.

— Tem tudo a ver com ele.

— Não é problema seu! — A voz dele quebrou e eu o vi inspirar fundo, tentando


controlar o temperamento, antes de tentar de novo, desta vez com voz relativamente
calma. — Escuta, eu não quero brigar com você. — Aproximando as mãos dos meus
ombros, ele me olhou fixamente. — Eu não quero te machucar, Molloy.

— Bem, você machucou — rebati, voz grossa. — Você está me machucando, Joe.

Dor estampada no rosto dele.

— Desculpa.

— Mas?

— Eu só... — Ele sacudiu a cabeça, esfregou a mandíbula e soltou o ar com força. —


Estou passando por um momento foda na minha cabeça e preciso que você me deixe
lidar do meu jeito.

— Usando drogas? — respondi seca. — Me destruindo?

— Não. — Ele balançou a cabeça. — Não é isso que estou fazendo.

— Sim, Joey, é. — As lágrimas enchiam meus olhos. — E você está me pedindo pra
virar a cara de novo. — Minha voz quebrou e puxei um suspiro trêmulo. — Eu fiz isso
antes e quase te perdi e me quebrei.
OS PÁSSAROS, AS ABELHAS E O DUB
JOEY

— O QUE você está fazendo no meu quarto? — Shannon perguntou quando entrou no
quarto dela na hora do almoço, numa quarta-feira à tarde, quebrando o silêncio raro que
eu estava aproveitando, com todo mundo fora de casa.

— O Sean mijou na minha cama — expliquei, soltando uma nuvem de fumaça,


enquanto olhava para o teto do quarto dela, descendo do meu barato. — Minhas roupas
de cama estão na lavagem.

— Ah. — Ela largou a bolsa escolar no chão do quarto, tirou os sapatos com o pé e foi
até a cama. — Dá uma encostada.

Eu obedeci, me ajeitando mais perto da parede e apoiando o braço atrás da cabeça


enquanto ela se jogava na cama de solteiro pequena ao meu lado. — É hora do almoço,
Shan. O que você está fazendo em casa na escola?

— Como você pode falar isso? — Ela me cutucou na lateral com o cotovelo magro,
imitando: — É hora do almoço, Joey. O que você está fazendo em casa?

— Estou na pior — respondi.

— Com a Aoife?

— Isso.

— Isso é maconha?

— Não.

— Você está mentindo.

Puxando outra tragada profunda da fumaça, segurei um tempo antes de soltar devagar.
— Sim.

— Maconheiro.

— Preguiçoso.

— Então, o que você fez? — Ela perguntou, afastando a fumaça com a mão. — Pra ser
mandado pra pior?

Ela engoliu o ar antes que eu pudesse responder e sussurrou: — Por favor, me diz que
você não traiu ela? Porque aquela garota é incrível e você precisa casar com ela.

— Que porra? — Eu estreitei os olhos e soltei uma nuvem de fumaça. — Não, Jesus, eu
não traí ela. Eu não trairia, Shan.
— Desculpa. — Ela deu de ombros, meio sem graça. — É que, quando eu estava no
BCS, eu ouvia muito as meninas no banheiro falando sobre você e suas, uh, habilidades
no quarto.

— Minhas habilidades no quarto? — Eu ri com desdém. — Jesus Cristo. As meninas


são malucas.

— Meninas são malucas — minha irmãzinha concordou totalmente. — Eu não as


entendo nem um pouco.

— Sabe, dizem que os caras falam, mas é o contrário — reclamei. — As meninas falam.

Eu virei a cabeça para encontrá-la me encarando com os olhos arregalados. — As


meninas falam muito, Shan.

— Sim, eu sei — ela suspirou.

— Sabe, a maior parte do que dizem é pura besteira — acrescentei, meio azedo. — Eu
só estive no quarto de uma garota.

Os olhos dela se abriram. — Então você só esteve com uma garota?

— Eu só estive no quarto de uma garota — confirmei, reforçando.

— Joey. — Minha irmã estreitou os olhos. — Isso não é a mesma coisa.

— Como se você pudesse falar — retruquei, devolvendo a provocação.

— Como foi no quarto do Mister Rugby na outra semana? — Ela perguntou, com um
sorriso maroto. — Aposto que essa ida repentina pra casa tem a ver com ele.

— O quê?

— Não se faça de tímida — ri. — Eu te leio como um livro.

Ela se enroscou no meu braço e suspirou pesadamente. — Eu não vim pra casa mais
cedo por causa do Johnny.

Eu me estiquei. — Então por quem?

— Bella Wilkinson.

— O que ela fez?

— Não importa — Shannon respondeu, balançando a cabeça. — Esquece.

Franzindo a testa, olhei pra ela. — Ela te machucou?

— Não.
— Chamou você de nomes ou algo assim?

Ela se enrijeceu.

— Então ela chamou você de nomes?

Ela assentiu.

— Quais nomes?

— Os de sempre — admitiu baixinho. — E depois ela zombou de mim por eu morar no


Elk’s Terrace.

— Puta que pariu — eu rosnei, dando outra tragada profunda antes de me sentar,
sentindo a raiva crescer. — Você sabe porque essas meninas te atacam, né?

— Porque elas me odeiam.

— Porque elas se sentem ameaçadas por você — corrigi. — Porque a bondade brilha
em você, e elas jogam merda pra tentar apagar esse brilho. Não deixa elas vencerem,
Shan.

— Como tá o BCS pra você? — ela perguntou, claramente tentando tirar o foco dela e
jogar a conversa pra mim.

— Escola é escola, Shan — respondi, olhando pela janela. — Mesma merda, dia
diferente.

— Você sabe o motivo real de eu estar em casa no meio do dia — respondeu. — Qual é
o seu motivo real, Joe?

— Já te disse. — Dei de ombros e puxei outra tragada. — Estou na pior.

— Por que eu sinto que isso não é verdade?

Eu dei de ombros. — Eu simplesmente não tava afim de ficar.

— Por que você não fala comigo, Joe? — ela perguntou, com um tom de tristeza. — Eu
sempre confio em você, mas você nunca faz o mesmo comigo.

Porque eu não posso. Porque você desmoronaria. Porque eu preciso te proteger.

— Você me conhece, garota — respondi, levantando da cama dela e indo até a janela.
Virei e sorri pra ela. — Eu sou à prova de balas.

Ela me encarou, incerta, por um bom momento antes de sussurrar: — Se eu te contar


algo, você promete não ficar bravo?

— Depende.
— Promete, Joe.

— Tá, eu prometo.

Mordendo o lábio inferior, minha irmãzinha se mexeu desconfortável antes de jogar as


mãos pro alto e soltar: — Eu beijei o Johnny Kavanagh.

Caralho.

Eu não esperava isso.

Minhas sobrancelhas se levantaram surpresas. — Você beijou—

— Johnny Kavanagh — completou com um aceno, as bochechas corando.

— Ok — respondi devagar, tentando navegar por esse novo território que minha
irmãzinha tinha me jogado de supetão. Essa não era uma conversa que ela devia ter com
o irmão mais velho. Era conversa de irmã mais velha. Ou de mãe e filha. Em vez disso,
ela estava presa comigo. Foda. Minha. Vida. Senti meu barato indo embora
rapidamente. — Foi só isso que você fez com ele?

Por favor, que sim. Por favor, Jesus, não me conta mais nada.

— Sim — ela disse, apertando a garganta e assentindo rápido.

— Quando?

— Segunda-feira à noite. Na casa dele.

— Na casa dele? — arqueei a sobrancelha. — Onde exatamente na casa dele?

— No quarto dele.

Agora minhas sobrancelhas se ergueram junto com minha pressão subindo. — No


quarto dele?

— Mas ele não me beijou de volta — ela disparou, torcendo as mãos. — E eu me sinto
tão envergonhada com tudo isso, Joe.

— Por que ele não te beijou de volta?

— Ele disse que não seria justo começar algo comigo porque ele vai embora em breve.
— Ela roeu o lábio, parecendo muito jovem e insegura. — Mas aí ele veio aqui depois
da escola ontem.

— Ele veio aqui? — Meus olhos se arregalaram. — Nesta casa?

Ela assentiu. — Ele me ajudou com o dever.

— Aconteceu alguma coisa?


— A gente se abraçou.

Eu lutei para não rir, que ameaçava escapar. — Você se abraçou?

— Uh-huh.

Tentando manter a cara séria, perguntei: — Foi um abraço bom?

Ela suspirou com saudade e segurou o peito. — Foi o melhor abraço que já tive.

Agora eu ri.

— Joey!

— Desculpa, desculpa. — Limpei a garganta, esfreguei o rosto com a mão e tentei de


novo. — Então, o Dub abraça bem, né?

— Sim. — Ela deu outro aceno incerto e deu de ombros, meio sem jeito. — Mas eu
queria que fosse mais do que um abraço porque eu gosto muito dele, Joe. E aí, hoje no
almoço, ele literalmente socou o namorado da Bella na cara porque ela estava falando
aquelas coisas maldosas sobre mim. Mas isso me assusta porque você sabe como eu me
sinto sobre violência, mas eu não tenho medo dele assim, sabe? Ele é uma boa pessoa.
Quer dizer, ele é uma pessoa realmente, realmente boa. Excelente, na verdade. Eu
consigo perceber. E eu gosto dele, Joe. Eu gosto tanto que é difícil respirar quando ele
está perto. Mas eu só e ele não e eu não ah Deus, me ajuda!

Jesus, eu precisava de outro cigarro pra isso.

— Você não poderia gostar de um cara daqui?

Sacudindo a cabeça, eu me afundei na cama dela e suspirei. — Você tinha que escolher
o irlandês internacional?

Ela se mexeu desconfortável. — Desculpa?

— Não peça desculpas, Shan — ri, massageando o maxilar. — Você não pode controlar
quem você gosta. E, pra falar a verdade, acho que ele gosta de você também, garota.

— O que eu faço, Joe?

— Você tá me perguntando?

— Quem mais eu posso perguntar?

— Caralho. — Pressionando os dedos nas têmporas, tentei pensar numa resposta


adequada pra dar naquele momento. — Me dá um segundo pra pensar nisso.

— O que você faria se fosse eu?

Não, eu não ia contar o que eu faria.


— Ou a Aoife? O que ela faria nessa situação?

E eu definitivamente não ia contar o que o Molloy faria.

— Só leva o tempo que precisar. Seja amigo dele e deixa acontecer naturalmente —
decidi finalmente, sabendo que era uma resposta muito clichê, mas sem vontade de dar
dicas pra minha irmãzinha sobre como seduzir um cara. — Se acontecer, aconteceu. Se
não, tudo bem também. E, por favor, pelo amor de Cristo, não peça conselho pra Aoife
— acrescentei, estremecendo só de pensar nas dicas que o Molloy daria pra ela. —
Você tem só dezesseis anos, Shan. Isso tudo é novo pra você. Você precisa lidar com
essa coisa com o Kavanagh no seu próprio ritmo e de ninguém mais.

— Eu consigo fazer isso — ela sussurrou, olhando pra mim como se eu tivesse dado um
conselho sagrado. — Obrigada, Joe.

— Sempre.

— Posso te perguntar outra coisa?

— O quê?

— Quantos anos você tinha? — Ela fez uma careta antes de acrescentar — Quando
você, sabe...

Eu olhei pra ela desconfiado. — Precisamos ter a conversa?

Os olhos dela se abriram. — A conversa?

— A conversa — confirmei, meio sombrio. — Você já teve a conversa, né?

— Eu, ah...

— A mamãe já teve a conversa com você, né? — insisti, com as mãos suando.

— Não. Ela teve a conversa com você?

— Que porra não, eu aprendi na marra — respondi, com dificuldade.

— Ah. — As bochechas dela ficaram vermelhas. — Ok.

— Mas não faça isso — acrescentei depois de uma pausa. — Não aprenda na marra.

— Na marra?

— Você sabe o que eu quero dizer.

— Uh. — O rosto dela corou. — Eu realmente não sei.

Jesus Cristo. — Então você sabe como tudo funciona, né? — perguntei, me mexendo
desconfortável. — Sexo, intimidade, anticoncepcional e toda essa merda?
— Uh, sim? — Ela exalou um suspiro trêmulo, assentindo incerta. — Eu sei o
suficiente.

— Sabe mesmo?

— Quer dizer, acho que sim?

Isso significava que definitivamente não sabia.

Ah, merda.

— Você precisa me perguntar alguma coisa sobre isso?

— Tipo o quê?

— Eu não sei, Shan — gaguejei. — Conselho? Você tem três minutos pra perguntar o
que quiser e aí eu vou embora e essa conversa nunca mais vai acontecer.

— É igual nos filmes? — Ela se mexeu desconfortável. — Sexo? Dói?

— Sim, a primeira vez pode doer para a garota — respondi, resistindo à vontade de me
encolher no canto do quarto dela e balançar. — Mas não deveria doer depois, e se doer,
é porque ele tá fazendo errado.

— A gente realmente sangra?

— Uh, sim, algumas meninas sangram na primeira vez, mas não acontece com todas.

— Por quê?

— Se eu soubesse... — Dei de ombros. — Porque é diferente pra cada uma.

— E os caras? Dói para eles na primeira vez?

— Não, é mais uma questão de tentar controlar a cabeça.

— A cabeça?

— Calma — corrigi com uma careta. — É questão de manter a calma e o controle.

— O que acontece se você não conseguir manter a calma?

— Aí acaba antes de começar.

— Acaba?

— Acaba — confirmei, sombrio. — Como se o show tivesse acabado.

— Ah. — As bochechas dela ficaram vermelhas. — E se o dele, sabe, for muito grande?
E não couber, tipo, sabe?
— Coube. — Deixei a cabeça cair nas mãos e gemi. — Sempre coube.

— Mas como?

— Mágica.

— Joey.

— Simplesmente coube, Shan — respondi. — Quando a garota está relaxada e não


ansiosa ou pressionada — parei para olhar sério pra ela. — Ninguém tá te pressionando,
né?

— Ah, Deus, não — ela apressou-se a dizer. — Só tô curiosa.

— Então tá. Que bom ouvir isso. — Reprimindo um arrepio, continuei rápido. — Jesus,
não acredito que tô dizendo isso, mas o preliminar ajuda muito.

— Preliminar?

— Sim, Shan.

— Que tipo de preliminar?

— Bem, não é abraço com certeza.

— Ah. — Ela corou. — Tipo beijo e tal?

— E tal — respondi, me sentindo a segundos de me jogar pela janela do quarto dela.

— Tipo toque?

— Sim, tipo toque e gosto e, argh, sabe o quê?

Bati as mãos nos joelhos, levantei e andei pelo quarto. — Fica no abraço mesmo.
Abraço é perfeito. Abraço já é mais que suficiente até você fazer vinte anos.

— Quantos anos você tinha, Joe? Quando você, sabe...

— Muito jovem.

— Quão jovem?

— Mais jovem que você.

Os olhos dela se abriram e ela tossiu surpresa. — Joe.

Eu fiz uma careta. — Eu sei.

— Então como foi sua primeira vez?


— Terrível — admiti baixinho. — Eu não estava pronto.

Os olhos azuis da minha irmã se abriram. — Então por que você foi até o fim?

Eu — abri a boca para responder, mas as palavras me faltaram. — Eu...

Sacudindo a cabeça, tentei lembrar as palavras certas para responder, mas nada veio.

Ela olhou preocupada para mim. — Joe?

— Eu não sei, Shan. — Encolhido, sentei na cama ao lado dela e apoiei os cotovelos nas
coxas. — Acho que...

— Você acha o quê, Joe?

— Acho que eu estava — Soltei um suspiro forçado, lutando com as memórias turvas,
tentando entender uma noite que nunca fez sentido pra mim. — Acho que eu não estava
no meu próprio corpo, se é que isso faz sentido?

— De que jeito?

— Eu estava chapado pra caralho naquela noite, e quero dizer, eu até meio que lembro
que aconteceu — admiti, estalando os dedos juntos. — Mas não lembro como ou por
que aconteceu.

— Eu não entendo — ela sussurrou, virando o corpo para me encarar. — Você está
dizendo que...

Engolindo em seco, minha irmãzinha segurou minha mão e apertou. — Você não quis
que isso acontecesse, Joe?

— Eu não sei, Shan — me forcei a admitir em voz alta pela primeira vez. — Quero
dizer, eu sei que eu gostava da garota com quem aconteceu, e sei que eu não fiquei
chateado depois, mas eu simplesmente não lembro como aconteceu.

— Joe. — A mão dela apertou a minha. — Isso soa como se você não tivesse
consentido.

— Talvez — murmurei, coçando a cabeça. — Mas eu devia ter gostado porque eu voltei
lá com ela várias vezes ao longo dos anos. Ela era meio que uma amiga minha na época.

— Não importa se você fez isso mil vezes com mil garotas — Shan disse rouca. —
Vocês têm que consentir toda vez, Joe.

— Jesus — murmurei, balançando a cabeça. — Como essa conversa ficou tão pesada?

— A Aoife sabe?

— Sabe o quê?
— Sobre o que aconteceu na sua primeira vez?

— Não, porque nada aconteceu comigo, Shannon — fechei o assunto rapidamente antes
que fosse pra um lugar que minha mente não queria visitar. — Eu fiquei chapado, levei,
superei e quando fiquei chapado de novo, levei de novo. Rince and repeat. Esse era meu
mantra. Então sim, eu fui muito jovem e irresponsável com meu corpo — admiti,
lançando um olhar duro pra ela. — Não cometa meus erros, Shan. Não se entregue pra
primeira pessoa que te der um pouco de carinho. Vai com calma. Prometo que a pessoa
certa vale a espera, tá?

— Joe, eu realmente sinto que você não foi...

— Para, tá? — Irritado, levantei e fui até a porta dela. — Não me faça vítima, Shan.
Essa não é a narrativa da minha história.

— Você queria que a Aoife fosse sua primeira? — ela mudou o assunto agradecida.

— Todo dia — admiti com um encolher de ombros. — É uma merda saber que eu
desperdicei algo que significa tanto com a pessoa certa. É pior ainda saber que ela sabe
disso.

— Então ela esperou por você?

— Eu não estou falando da Aoife, Shan — respondi. — Um cara tem limites, sabe?
Pergunte o que quiser da minha vida sexual, mas não da minha namorada, tá?

— Você realmente a ama, né?

— Não é só amor. É respeito.

— E compatibilidade.

— E amizade.

— E lealdade.

— Exatamente.

— Uau — Shannon suspirou. — Você é bem doce por baixo dessa casca cheia de
espinhos, não é?

— Eu tô com fome por baixo dessa casca cheia de espinhos — murmurei, desesperado
pra fugir do assunto dos pássaros e das abelhas. — Quer fazer algo pra seu irmão
favorito comer antes dele ir trabalhar?

— Ok. — Ela suspirou pesada, levantou da cama e veio até mim, envolvendo os braços
magros na minha cintura. — Mas só porque você é meu irmão favorito.
VOCÊ NÃO PODE ME DEIXAR
AOIFE

— Você vai falar comigo?


— Não.
— Ah, Molloy, não fica mal-humorado.
— Cala a boca e assiste ao filme.
— Eu não tô falando. Tô mandando mensagem.
— É, mas eu posso ouvir sua voz estúpida na minha cabeça.
— Bruxa.
— Babaca.
— Eu não vou ficar aqui se você não for falar comigo.
— Ha! Tenta sair. Eu te desafio.
— Tá, mas eu não vou ficar grudado em você.
— Bom. Eu não quero que você fique grudado em mim. Você cheira a maconha.
— Pena que isso não está te deixando mais tranquilo.
— Shhh. Eu tô tentando assistir ao filme!!!
— Tá.
— Para de jogar Snake no celular.
— Para de ser uma vaca.
— Eu paro assim que você parar de ser babaca!
— “PORRA.” — Jogando o celular na cama entre nós, Joey cruzou os braços no peito e
encarou o teto do meu quarto. — Essa parada de ignorar é uma merda.
Não, não era merda.
Era uma consequência direta da merda que ele fez.
Com apenas a tela da minha TV portátil iluminando o quarto, eu assistia pelo canto do
olho enquanto Joey bufava feito touro frustrado.
Meu namorado estava sendo um babaca, e eu tinha toda intenção de fazer ele saber
disso.
Surpreendentemente, meu silêncio estava irritando ele muito mais do que minhas
palavras teriam irritado.
— Molloy. — Sem camisa, ele sentou reto na cama e passou a mão no cabelo. — Vai,
eu não fiz nada de errado hoje.
— O fato de você ter que dizer “hoje” na frase “Eu não fiz nada de errado” já diz tudo,
Joe.
— Eu disse que sinto muito.
— Eu sei que você disse.
— Então o que você quer de mim?
— Quero você saudável.
— Eu estou saudável — ele resmungou, se jogando de novo no colchão.
— Porra.

Eu sabia que ele estava à beira de um problema de novo, e me recusava a deixá-lo cair
daquela vez.
O fato de que ele não lembrava uma palavra da conversa que tivemos ontem, quando eu
me abri toda, era horrível.
Eu não conseguia explicar como foi difícil para mim falar aquilo, e ele simplesmente
não ouviu.
Saber que eu estava carregando o filho dele, enquanto ele brincava com a saúde, era
ainda mais assustador.
— Eu não vou fazer isso de novo, Joe — eu disse. — Eu não vou deixar você fazer isso
de novo.
— Deixar eu? — ele cuspiu as palavras como se fossem um insulto. — Você não tem o
direito de deixar eu fazer merda, Aoif. Eu faço o que eu quiser.
— Uh-huh, claro, babaca — eu zombei, aumentando o volume do controle da TV. —
Aliás, eu joguei seu estoque fora.
Ele estreitou os olhos pra mim. — Eu não tenho estoque.
— Não tem? — eu estreitei os olhos de volta. — Então aquelas pílulas na frente do
bolso da sua mochila são de quem?
— Você vasculhou minha mochila?
— Sim. — Sorri doce. — Com certeza vasculhei.
— Porra. — Ele murmurou, passando a mão no rosto. — Cadê o saquinho, Molloy?
— O saquinho está na minha lixeira. O conteúdo do saquinho está a caminho do mar.
— Você não jogou minhas pílulas fora, sério?
— Joguei, e com certeza, gostoso.
— Jesus Cristo. Você sabe quanto custam essas merdas pra mim? — Sentando direito,
ele caiu com a cabeça nas mãos e mordeu o grito que queria soltar. — Porra, Aoif, eu te
disse que eu tenho tudo sob controle.
— E eu te disse que não vou deixar você fazer isso de novo.
— Eu tô bem.
— E eu vou garantir que você fique bem.
— Isso é ridículo — ele resmungou, se virando pra me encarar. — Você sabe que
nenhum outro cara aceitaria isso da namorada dele.
— Que coisa exatamente? — Joguei o controle na cama e sentei direito, encarando ele.
— A parte onde eu tento manter você vivo?
— Eu não vou morrer.
— Você pode morrer— — Minha voz falhou e eu puxei um suspiro forte, tentando
controlar a expressão enquanto o encarava firme. — Eu te amo.
— Eu sei. — A emoção brilhou nos olhos dele e ele baixou a cabeça. — Eu também te
amo.
— Não. Você não entende. Você é o amor da minha vida — falei com firmeza,
segurando o queixo dele e forçando ele a me olhar. — O que eu sinto por você? O
quanto eu te amo profundamente? É uma loucura, Joe. Então, sim, eu vou fazer a coisa
certa por você toda vez, mesmo que isso te irrite, porque eu quero você aqui comigo. Na
Terra. Por muito tempo.
— Eu não vou a lugar nenhum — ele sussurrou, segurando minha mão na dele. — Eu
nunca vou te deixar, Molloy.
— Tá vendo? Eu sei que você acredita nisso — respondi, com a voz embargada. — Mas
toda vez que você cheirar uma linha ou tomar uma pílula, você está brincando de roleta
russa com a sua vida e com o meu coração.
FURACÃO MOLLOY
JOEY
A raiva que emanava da garota no banco do motorista me assegurava que eu não só
havia ganho residência permanente na sua “casinha de cachorro”, mas que também
havia conquistado o título de rei das merdas.
Quando chegamos à escola na manhã de quinta-feira, a tensão silenciosa que crescia
entre nós era insuportável.
Ambos sem vontade de ceder um centímetro, deixei que ela ficasse com a raiva dela,
enquanto ela me deixava cozinhar na minha culpa.
Depois da quarta tentativa patética dela de dar ré numa vaga apertada, dessa vez quase
arrancando o para-choque do carro ao lado, Molloy soltou um rosnado furioso. Ela
puxou o freio de mão, colocou a alavanca de câmbio no ponto morto e desceu do carro,
deixando-o no meio da faixa de trânsito.
Sem dizer uma palavra, saí do carro e fui para o lado do motorista, enquanto Molloy
cruzava os braços sobre o peito, batia o pé impacientemente e me lançava um olhar
carregado de tempestade.
Revertendo o carro para a vaga que ela queria, desliguei o motor, desci de novo e fui até
o porta-malas.
Puxando-o, peguei nossas duas mochilas e joguei-as sobre meus ombros antes de
alcançar meu bastão de hurling e capacete.
Fechando com força o porta-malas, tranquei o carro de novo e joguei as chaves para ela.
Pegando-as no ar, ela as guardou no bolso e, com o nariz empinado, caminhou até mim
e puxou a mochila do meu ombro.
— Beleza.
— Faça o que quiser.
Ergui uma sobrancelha e assisti enquanto Molloy pendurava a mochila no ombro e
desfilava em direção à entrada principal, mantendo pelo menos três metros de distância
entre nós e me presenteando com uma vista gloriosa de seu bumbum rosado, enquanto
seus quadris balançavam com raiva.
— Lynchy? — ouvi Rambo chamar, tirando minha atenção daquela bunda fantástica.
Virei para vê-lo acenando para que eu fosse até ele, ao lado do ginásio, com fumaça
subindo de dentro da manga do seu suéter escolar.
— Vai vir, cara?
Fiz um aceno curto com a cabeça e desviei do caminho, indo em direção ao meu amigo,
quando uma mão agarrou a minha e me fez parar.
Me virei para ver Molloy parada ali, com minha mão entre as dela, enquanto ela olhava
para mim com raiva e balançava a cabeça.
Ainda se recusando a falar comigo, mas sem vontade de ir embora, ficou ali me
encarando, me dando um ultimato com os olhos.
— Vai em frente — parecia desafiar mentalmente — vê o que acontece.
Irritado pra caralho, olhei para baixo para ela, igualmente relutante em ser o primeiro a
ceder e falar.
Soltando minha mão, ela me lançou um último olhar duro antes de recuar alguns passos,
e então, com o nariz empinado sexy pra caralho, virou nos calcanhares e se foi.
— Beleza.
Soltando um rosnado frustrado, virei nos calcanhares e caminhei em direção ao ginásio,
mas consegui andar só uns cinco passos antes de virar de novo.
— Maldição!
Ouvi Rambo e os caras rindo alto e fazendo aquele som obrigatório de “mimimi”
enquanto eu seguia atrás da minha namorada feito um cachorro.
— Jesus Cristo.
Quando a alcancei na porta, ela não olhou para trás, deslizou a mochila do ombro e
estendeu para mim.
Com a mandíbula trêmula, peguei a mochila a contragosto e joguei-a no meu ombro.
Ela limpou a garganta, cruzou os braços sobre o peito e inclinou o queixo para a porta.
Engolindo o rosnado, passei por ela e segurei a porta aberta.
— Hm — resmungou altiva antes de entrar com passo confiante.
Resistindo à vontade de bater a porta na cara dela, cerrei os dentes e segui a garota que
tinha firme controle sobre meu coração — e minhas bolas.

— O QUE TÁ TE PEGANDO? — Alec perguntou, jogando um cigarro para mim


quando cheguei ao fundo do ginásio para fumar com ele. — A perna de seda ainda te
dando gelo?
— Digamos que as mulheres da minha vida estão me deixando louco, cara —
murmurei, pulando no muro ao lado dele. — Valeu, Al — murmurei, com o cigarro
preso nos lábios, pegando o isqueiro que ele estendeu e acendendo. — Tudo certo, cara.
— As garotas são um saco, Lynchy.
— Ah, acredita. Tô por dentro.
— Como tá sua irmã com a elite do Tommen?
— Bem — respondi, soltando uma nuvem de fumaça. — Muito bem, Al.
— Que bom — ele respondeu, cutucando meu ombro com o dele. — Ela sempre foi
pura demais pra esse lugar.
Concordando com a cabeça, puxei uma tragada mais funda antes de dizer:
— Achou um namorado.
— Um daqueles cabeças de rugby?
— Pois é.
— Caramba — ele riu. — A gente precisa avisar ele?
— Nah, parece um cara decente.
— Deve ser, se você não tá pendurando ele pelos bagos.
— Ah, soa meio inocente — refleti, tragando mais uma vez e ignorando o sinal da
campainha que avisava que o intervalo acabara. — Enquanto ele for bom pra ela, não
vai ter problema comigo.

— Bem, se ele não for bom pra ela, vai ter fila esperando para tomar o lugar dele. —
Ele bateu uma mão no meu ombro. — Porque odeio te dizer isso, Lynchy, mas essa sua
irmã é um espetáculo.
— Jesus Cristo, — eu gemei, incapaz de parar o arrepio que me percorreu. — Por que
você tem que ferrar a minha vida dizendo essas merdas?
— O quê? — ele riu. — É verdade. Todos pensamos isso. Nenhum de nós jamais tentou
nada por respeito a você.
— Ela é minha irmãzinha, seu pervertido do caralho.
— Ela não é mais bebê, cara, — ele disse com um sorriso. — Shannon Lynch tem
dezesseis anos e parece um sonho molhado.
— Eu vou te matar.
— Só tô dizendo.
— Então não diga. — Eu tremi de novo. — Nem pense nisso. Jesus.
— Ela tem uns olhos azuis épicos.
— Eu tenho um gancho direito épico.
— Então guarda isso pro cara que realmente está pegando sua irmã, não pro cara que só
a admira de longe, — ele riu.
— Ele não tá pegando ela.
— Ainda não.
— Para com isso.

Enfrentando a tempestade que era o Furacão Molloy, consegui ficar fora do radar dela e
longe de encrenca nas primeiras quatro aulas. Até a dupla de matemática antes do
intervalo, quando não só tive que encarar a fúria dela, mas fazer isso sentado ao lado
dela.

Com cara de poucos amigos, Molloy entrou na aula com cinco minutos de atraso, o que
era estranho nela, enquanto contava uma história para a professora dizendo que
precisava ir ao banheiro.

Com todos os olhos nela, e suas pernas longas à mostra para todo babaca de olho nela,
que, sejamos honestos, era a maior parte da classe, minha namorada desfilou pelo
corredor até nossa carteira, com os peitos estufados e os quadris balançando.

Sabe, essa era a coisa sobre Molloy — e uma das primeiras coisas que aprendi sobre ela
— quando ela ficava puta, ela ficava sexy.

Isso não quer dizer que ela não fosse ridiculamente sexy todos os dias. Era só que ela
nunca estava mais consciente da sua supremacia feminina do que quando tinha algo a
provar.

Tipo agora, por exemplo, ela estava me deixando claro que eu estava no topo da lista
negra dela, e ela tinha muitas opções se eu não me mexesse e melhorasse meu jogo.

— Molloy, — decidi quebrar o silêncio dizendo quando ela sentou ao meu lado. —
Belo par de pernas.

Seus lábios se curvaram relutantemente para cima, mas ela rapidamente endureceu as
feições, segurando a carranca enquanto arrumava os livros e o estojo de lápis na nossa
carteira.

— A gente pode só—


Ela balançou a cabeça, deixando claro que não estava pronta para jogar a toalha.

Ela tinha muita cara de pau.

Se alguém tinha o direito de estar puto, esse alguém era eu, o desgraçado azarado cujo
estoque ela tinha jogado na privada na noite anterior.

Dando de ombros para a implicância dela, me recostei na carteira, lápis na mão, e olhei
pela janela, vendo a chuva de março bater contra o vidro.

Perdido em meus pensamentos, me deixei mergulhar na bagunça que era minha vida,
me perguntando como diabos a garota sentada ao meu lado ainda estava, bem, ao meu
lado.
Sim, deixando o lance do estoque de lado, eu sabia que eu estava errado.

E do lado errado.

Eu tinha feito uma cagada em tudo.

De novo.

Eu tinha voltado atrás na minha palavra.

De novo.

Eu a tinha desapontado.

De novo.

Nada na nossa relação estava mais a meu favor, e honestamente, além da minha
habilidade em usar meu pau bem, eu não via motivo algum para estar comigo.

Achei que ela tinha acabado comigo naquela noite.

Esperei que ela tivesse acabado comigo.

Meu pai a agrediu, pelo amor de Deus.

Nenhuma relação, não importa o quanto de amor ou lealdade houvesse, sobreviveria a


um golpe como o que a nossa levou.

Mas lá estava ela, puta da vida, vestindo as luvas de boxe para mais uma rodada
comigo.

Eu não sabia como Molloy podia me amar depois do que ele fez com ela, muito menos
querer estar comigo. Eu certamente não suportava me olhar no espelho.

— Joseph, você precisa de ajuda com algo? — nossa professora perguntou, tirando
minha atenção da janela e focando na frente da sala.

Olhei para ela em branco. — Hã?

— Página 457, — ela disse com um suspiro cansado. — Olhos no livro, por favor.

Revirando os olhos, voltei minha atenção para o livro da Molloy aberto na nossa
carteira, o mesmo que eu usava desde o começo do ano, e franzi a testa quando meu
olhar caiu num fone de ouvido solitário.

O fio conectado a ele ia até o MP3 que equilibrava no colo dela, debaixo da carteira,
enquanto o outro fone pendia da orelha direita dela.

Peguei o fone e discretamente coloquei no meu ouvido esquerdo, ouvindo “She Hates
Me” do Puddle of Mudd entrar no meu ouvido.
Lindo.

Que jeito doce de cantar para o seu namorado.

Foda-se. Minha. Vida.

Virando a página do caderno, observei Molloy pairar sobre a folha e rabiscar algo antes
de empurrar o caderno para mim.

— Você é um babaca.

Soltando um suspiro pesado, peguei o lápis que estava atrás da minha orelha e
rapidamente escrevi uma resposta.

— Você só tá percebendo isso agora?

Lendo minhas palavras, ela rapidamente pegou a caneta e respondeu.

— Eu estava cega pelo seu pau grande.

Balancando a cabeça, peguei a folha e escrevi minha réplica.

— Então, você está me escrevendo bilhetes e tocando músicas de amor pra mim. Isso
significa que eu saí da “casinha”?

Ela franziu as sobrancelhas lendo minha pergunta e rabiscar uma resposta furiosa.

— Não, idiota, você não saiu da casinha. Considere essa nota minha forma de te dar um
osso. Quanto a músicas de amor? Ha! Você devia ser tão sortudo.

Sorri maliciosamente e escrevi uma resposta.

— É, bem, esse idiota aqui te ama.


— Você não pode escrever coisas assim.
— Por quê?
— Porque eu tô tentando ficar puto com você.
— E daí? Você tá sempre puto comigo, e eu sempre te amo.
— Tá, agora você tá é sendo charmoso.
— Charmoso como um Rolo?
— Ai, eu adoraria um pacote de Rolos agora.
— Dá uma olhada no bolso da frente da minha bolsa.

— AOIFE! JOSEPH! — Uma mão apareceu entre nós e puxou o fio dos fones,
arrancando o MP3 player. A Srta. Murphy ficou na frente da nossa carteira, MP3 player
na mão. — O que eu já disse para vocês dois sobre se distraírem um com o outro na
minha sala?

— Fazer isso em silêncio? — Molloy respondeu com um daqueles sorrisos que ela
sempre usava para se safar. — O que a gente tava fazendo.
— Não fazer isso de jeito nenhum, — corrigiu a Srta. Murphy, com olhar severo. —
Sério, vocês dois já são grandes o bastante para saber que trazer música para a minha
aula não é permitido. Esse é o ano do certificado de conclusão de vocês, — ela suspirou
cansada. — Seus últimos meses para revisar o máximo que puderem e passar nas
provas.

— Aparentemente, esses dois não precisam de prática em matemática, senhorita, —


Ricey falou do fundo da sala. — Pelo que eu ouvi, eles são feras em multiplicar.

— Paul, volte ao seu trabalho, por favor, — a Srta. Murphy repreendeu.

Observei a boca da Molloy se abrir, e minha irritação subir numa hora.

O olhar dela se desviou para Casey, na carteira à nossa frente, que deu de ombros
confuso e fez um gesto com a boca dizendo ‘Juro que não fui eu’ para minha namorada.

— Que porra você tá falando, idiota? — perguntei, encarando aquele babaca


convencido.

— Seu irmão tem a boca grande, — Paul continuou.

— Kev? — ela disse, com dificuldade, a dor nos olhos dela me tocou. — O Kev contou
pra você?

— Ele tá contando para todo mundo que quiser ouvir.

— Não, — ela engasgou, balançando a cabeça. — Não, não, não, não. — Ela abaixou a
cabeça nas mãos. — Isso não tá acontecendo.

— Eu me livrei de você, não foi? Que clichê de merda você acabou sendo, — ele
zombou. — Mandou bem pra caralho em destruir sua vida, Aoife.

— Um clichê?
— Boa em multiplicar?

Senti o ar sair dos meus pulmões num suspiro. — Que. Porra. É essa?

— Eu não sei, eu, uh — exalando um suspiro áspero, Molloy engoliu um soluço. — Ai,
Jesus.

Meu coração bateu forte no peito enquanto olhava para a garota sentada do meu lado.

— Molloy.

Eu não era burro.

— Molloy.

Ouvi a ficha cair.


— Molloy.

Merda, ouvia meu pulso pulsando nos meus ouvidos.

— Aoife!

— Joe, — Molloy sussurrou, virando os olhos apavorados para mim. — Eu —

— Parece que ele tá com dificuldade pra fazer a conta, — Danielle riu, entrando na
brincadeira. — Deixa eu ajudar você, Joe, — ela continuou, toda feliz em dar sua
opinião. — Seu pênis, mais a vagina dela, dá um bebê.

Todo mundo na sala ficou em silêncio mortal.

Com exceção de alguns suspiros, dava para ouvir uma agulha cair.

Enquanto isso, meu coração batia forte no peito, enquanto meu mundo inteiro
desmoronava ao meu redor.

— Eu te disse que você não chegaria na formatura sem um bebê na barriga, — Danielle
zombou. — Parece que eu tava certa.

— Ai, meu Deus. — Engasgando um soluço doloroso, Molloy empurrou a cadeira para
trás e saiu correndo da carteira, indo em direção à porta da sala mais rápido do que eu
conseguia entender o que estava acontecendo.

— Aoife! — A Srta. Murphy chamou atrás dela, antes de lançar um olhar horrorizado e
arregalado para mim. — Eu não sabia.

— Nem ele, pelo visto.

— Cala a boca, Paul! — A Srta. Murphy rosnou, com o rosto vermelho, enquanto
continuava me encarando, esperando uma resposta. — Joseph, me desculpe. Eu não
sabia.

Incapaz de entender uma palavra do que ela dizia, levantei e saí da sala, atônito por
ainda conseguir me manter em pé, ignorando os cochichos e rumores que certamente já
estavam começando a se espalhar.

Meu corpo todo estava em chamas, abalado por um tremor ansioso, quando cheguei no
corredor e meus olhos encontraram Molloy.

Meus pés vacilaram ao vê-la encostada na parede em frente à porta da sala, no corredor
vazio, claramente me esperando.

— Joe.

— O que tá acontecendo?
— Eu sinto muito — engolindo um soluço, ela olhou para mim com os olhos cheios de
lágrimas. — Desculpa.
— Desculpa por quê? — eu não reconhecia minha própria voz, enquanto a observava
me olhar, sentindo-me inquieto e tenso. — Que porra está acontecendo aqui? Do que
eles estão falando?
— Eu tenho tentado te contar, — ela falou com dificuldade, enquanto ajeitava o cabelo
atrás da orelha. — Eu te contei, mas você — sua voz quebrou — esqueceu. — Ela
puxou várias respirações trêmulas antes de tentar de novo — Eu sinto muito, Joe. —
Segurando o rosto entre as mãos, balançou a cabeça e engoliu um soluço. — Por favor,
não me odeie.
— Para de pedir desculpa, Molloy, — eu rebati, levantando a mão trêmula enquanto
resistia à vontade de gritar. — Eu não te odeio, mas você precisa simplesmente me
contar o que está acontecendo aqui.

Observei, com o coração na boca e uma sensação horrível de vazio no estômago,


enquanto minha namorada pressionava a palma da mão contra a testa e dizia as palavras
que mudariam meu mundo para sempre:

— Eu estou grávida.

— Grávida. — Como eu consegui falar essa palavra, nunca saberei, mas falei, mantendo
o tom calmo. — Você está grávida.

Tremendo, ela manteve a mão na testa como um escudo e assentiu fraca.

— Grávida.

Um soluço dolorido escapou dela. — Sim.

— Você está grávida.


— Sim.
— Você está dizendo que está grávida, — ouvi a mim mesmo repetir feito idiota,
enquanto meu coração se contorcia no peito. — Grávida de um bebê, grávida.
— Sim, Joey, eu estou dizendo que estou grávida de um bebê, — ela disparou, e então
engoliu outro soluço. — Então para de falar essa palavra, grávida. Jesus!
— Me desculpa, eu só... — incline minha cabeça para o lado, sentindo uma mistura de
descrença e confusão, esperando que ela quebrasse o personagem e falasse “te peguei”.
— Você tá brincando comigo?
— Eu fiz sexo com você, — ela falou com dificuldade, parecendo nervosa. — Muitas
vezes. Esse é exatamente o problema.
— Você não tá brincando, né? — engasguei, completamente perturbado, enquanto
sentia minhas costas escorregarem pela parede. — Você tá falando sério... — balancei a
cabeça, boquiaberto. — Grávida?

As lágrimas nos olhos dela me garantiram que não era brincadeira.

Jesus Cristo.

Franzi a testa enquanto uma onda de puro e cru terror percorria minhas veias. — Como?
Ela me olhou como quem diz “como você acha?”.

— Mas você toma pílula.

— Eu sei, e nunca pulei ou esqueci um dia, juro, — Molloy implorou, ainda com a mão
protegendo o rosto. — Mas foi naquela festa na casa. Aquela que aqueles caras do
Tommen fizeram. — Ela estremeceu violentamente antes de acrescentar: — Passei a
noite toda vomitando. E na noite seguinte também, lembra? Depois que pedimos comida
chinesa enquanto cuidávamos do Sean? Lembra que fiquei mal por horas? Deve ter
atrapalhado o controle de natalidade.

— A festa do Tommen? — Meu coração batia forte na caixa torácica. — Jesus Cristo,
Aoife. Isso foi meses atrás.

Ela estremeceu. — Eu sei, Joe.

Soltei um suspiro trêmulo, passando a mão pelo cabelo, completamente atordoado. —


Exatamente há quanto tempo você está grávida?

— Joe.
— Me fala.
— Uns três meses e meio.
— Três meses e meio! — Meus olhos se arregalaram, e o pânico que eu sentia
multiplicou em três meses e meio. — Três meses e meio de gravidez e eu só tô sabendo
agora?
— Eu tava com medo, tá? — ela chorou defensivamente. — E só descobri algumas
semanas atrás. Tentei te contar um milhão de vezes, juro, mas eu tava com muito medo,
Joe. Eu tava apavorada de te perder de novo. Você tava indo tão bem, e eu não queria
arriscar isso. Mas aí tudo o que aconteceu com seu pai aconteceu e você perdeu o
controle de novo—
— Ai, meu Deus. — Meu estômago revirou e precisei apertar a mão no peito para me
controlar. — Ele fez isso com você enquanto você tava grávida do meu bebê?
— Joe, é—
— Ele fez isso com você. — Coração martelando no peito, eu consegui dizer: — Ele te
machucou quando você estava... Jesus Cristo, você está...
— Quando eu finalmente tive coragem de te contar, você nem tava presente.
— O quê? — perguntei rouco. — Quando?
— Outro dia, — ela admitiu quebrada. — Mas você tava chapado.

Meu coração disparou no peito, enquanto tentava controlar meu pânico, e flashes de
uma conversa que não conseguia lembrar passaram pela minha mente.

— NÓS VAMOS TER UM BEBÊ.


— Onde está o bebê?
— Aqui dentro.
— Em você? O que ele está fazendo aí dentro?
— Você colocou ele aí, Joe.
— E você tem certeza que não é engano? — perguntei, em desespero. — Você está
definitivamente grávida?
— Fiz um monte de testes e todos deram positivo, — respondeu, com olhos arregalados
e incertos. — E a mamãe me levou ao médico semana passada pra confirmar.
— Sua mãe? — As palavras foram como um tapa na cara. — Espera aí. — Sacudindo a
cabeça, na minha tentativa desesperada de entender a loucura, levantei a mão e disse: —
Você contou para sua mãe antes de me contar?

Ela fez uma pequena cabeça em sinal de desculpas. — Me desculpa.


— Quem mais?
— Joe.
— Quem mais você contou antes de mim, Aoife?
— Casey sabe, — ela admitiu baixinho. — Mas só porque ela desconfiou. Juro que não
teria contado se ela não tivesse descoberto.
— Espera, espera, espera, deixa eu entender direito. — Pressionando os dedos nas
têmporas, tentei me acalmar enquanto meu mundo desabava. — Você, Casey e Trish
andaram sabendo das últimas semanas que vamos ter um bebê e eu não?
— Não foi bem assim, Joe.
— Seu velho sabe?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Juro.
— E Ricey e Danielle? — perguntei, com a voz partida. — Aposto que essas duas
também sabem, considerando o que elas falaram na aula. Você contou para sua ex antes
de mim também?
— Não, — ela respondeu brava. — Claro que não. Não seja ridículo.
— Acabei de descobrir que você está grávida durante aquela maldita aula de
matemática, Molloy. Como eu deveria reagir?
— Não sei como o Paul descobriu, — ela chorou, balançando a cabeça. — Deve ter sido
o Kev que contou pra ele.
— Kev? — meus olhos arregalaram. — Kev? O maldito Kev?
— Ela arregalou os olhos horrorizada. — Joe.

— Seu irmão sabe? — sacudi a cabeça. — Eu não acredito nisso.


— Para de gritar comigo, idiota.
— Eu não tô gritando, — gritei, jogando as mãos para o alto. — Eu tô tendo um ataque
de pânico.
— Então se acalma, Joey.
— Eu tô calmo. Isso é o mais calmo que um cara consegue ficar quando descobre que é
o último a saber que a namorada está esperando o bebê dele, — quase gritei.
— Me desculpa, tá? Eu só tava tentando te proteger, — ela gritou de volta, rouca. — Só
isso que eu tentei fazer.
— Essa decisão não era sua para tomar, — respondi, tremendo. — Eu tinha o direito de
saber o que estava acontecendo.
— É, bem, eu pensei que tava fazendo a coisa certa, — ela falou teimosa. — Além
disso, é meu corpo que tá passando por isso.
— É meu bebê, — rebati teimoso, e depois me assustei com o que tinha acabado de
dizer. — Ai, Jesus, — ofeguei, sentindo o coração apertar tanto que achei que fosse ter
um ataque cardíaco. — É meu bebê. — Coloquei a mão no peito, soltei um suspiro
tentando controlar os soluços. — Ai, porra.
— Eu sinto muito, Joe. — Jogando as mãos para o alto, Molloy deu meia volta e saiu
correndo de mim. — Por favor, não me odeie.

Eu sabia que precisava ir atrás dela, mas meus pés não colaboraram.
Consegui dar dois passos na direção que ela foi e desabei sentado, completamente
abalado.

Grávida.
Ela estava grávida.
De um bebê.
Do meu bebê.
Levanta essa porra e cuida dela.
Para de pensar em você, seu covarde filho da puta.
Nem pense em fingir que você não se importa.
É seu e você se importa.
Ela é sua e você se importa.
Importa sim, e você se importa.

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