Apoio Materno em Tempos Difíceis
Apoio Materno em Tempos Difíceis
AOIFE
Eu faltei aos próximos dias de aula e liguei dizendo que estava doente para todos os
meus turnos; estava miserável e nervosa demais para conseguir me concentrar em
qualquer coisa além da tempestade que minha vida havia se tornado.
Tudo parecia escapar das minhas mãos e, no meio da loucura, a única boa decisão que
eu parecia ter tomado foi confiar na minha mãe.
Desde que contei a ela sobre a gravidez, mamãe tinha sido incrível.
Ele confirmou o que eu já sabia, fez meus exames de sangue e me deu uma data prevista
para o parto: 20 de setembro. Depois me mandou embora com um monte de folhetos
sobre gravidez na adolescência e mães jovens, além da informação de que em breve eu
receberia pelo correio uma consulta para o exame morfológico no hospital público de
maternidade.
Eu fiquei tão abalada depois disso que minha mãe sacou o cartão de crédito de
emergência que meu pai achava que ela não sabia que existia e me levou para fazer
compras. Gastando uma fortuna no nosso salão de beleza e bar de estética de sempre,
sem contar que renovou todo o meu guarda-roupa com roupas que eu não poderia usar
por muito mais tempo, mamãe conseguiu de algum jeito tornar leve e normal uma
situação que não era nada disso.
Me mimando com canecas de chocolate quente e pratos de doces fresquinhos, ela nos
levou para passear pela cidade de Cork até eu não conseguir mais olhar para outra arara
de promoção ou mexer em outra cesta de barganhas.
Me cansar fisicamente fazendo o que eu mais amava era uma façanha impressionante, e
aprendi rápido que essa era a maneira da minha mãe me levar a um estado de exaustão
maleável.
Minha mãe era bonita, por dentro e por fora. Ela era inteligente, espirituosa e leal. Se
cuidava, tinha um corpo lindo e trabalhava duro pela família. Mas nada disso parecia
importar para meu pai, que continuava repetindo os mesmos erros. Não era questão de
mamãe ter se deixado levar e meu pai ter mudado sua atenção para alguém melhor,
porque não havia ninguém melhor.
— Então, sobre o Joey — mamãe finalmente tocou no assunto que eu vinha evitando o
dia todo. — O que está acontecendo?
Eu não via nem ouvia falar do Joey desde a noite em que ele saiu pela janela do meu
quarto. Ele não voltou, e eu não sabia se ele tinha tentado ligar ou mandar mensagem,
porque eu, sem querer, tinha deixado meu celular na casa dele naquela noite. Eu estava
tão desesperada para sair daquela casa e daquele pai dele que deixei o celular junto com
o carregador, maquiagem, bolsa de viagem e, o mais importante, meu colar; aquele que
ele me deu no meu aniversário de dezoito anos.
Tirei as joias antes de usar o chuveiro dele e esqueci de colocar de volta. Ainda estavam
no criado-mudo dele, junto com meu anel Claddagh e brincos. Eu poderia sobreviver
sem tudo o que deixei para trás, menos sem o meu celular, e meu pescoço parecia tão
vazio sem aquele colar. Eu me pegava constantemente passando a mão no medalhão,
algo que virou quase um cobertor de conforto, só para sentir uma onda de desconforto
ao lembrar que ele não estava lá.
Eu estava desesperada para vê-lo, falar com ele, me acertar, mas era silêncio total do
lado Lynch.
Segundo o Kev, que ouviu do Mack, que ouviu do Alec, Joey estava na lista de
desaparecidos.
Eu sabia que isso não era totalmente verdade, porque, embora ninguém da escola tivesse
notícias do meu namorado, ele tinha entrado em contato com meu pai.
Meu pai tinha mencionado para mamãe que Joey ligou para pedir folga, algo que
mamãe me contou depois.
Aparentemente, a mãe dele teve um aborto espontâneo tardio no segundo trimestre e ele
precisava ficar em casa para ajudar com os irmãos por uma ou duas semanas até ela se
recuperar.
Feio.
O ataque, pelas mãos do pai do Joey, durou no máximo noventa segundos, mas aqueles
noventa segundos foram os mais assustadores da minha vida. Teddy Lynch era o
homem mais assustador que eu já tinha encontrado, e a necessidade desesperada que eu
tive de me proteger para nunca mais encontrá-lo me levou a afastar a única pessoa que
sabia o que era ter medo daquele homem. Isso me deu um vislumbre do medo que Joey
e seus irmãos carregavam a vida toda, e meu coração se partiu por eles.
— Você precisa conversar com ele logo — mamãe me disse. — E seu pai e eu teremos
que sentar com os pais dele e ter uma conversa nossa.
— Eu sei que eu e o Joey temos que conversar, e vamos. Mas você e papai não precisam
conversar sobre nada com os pais dele, mamãe. A mãe dele está acabada, e o pai dele é
um completo —
— Idiota?
— Você não precisa me contar sobre o Teddy Lynch, querida — respondeu ela. — Eu
passei seis anos do ensino médio tolerando aquele bastardo insuportável.
— É, às vezes não tem outra palavra que caiba melhor na descrição — respondeu ela,
me dando um sorriso pequeno. — E quando se trata de descrever aquele homem,
bastardo é pouco.
— Ele vai reagir mal — me ouvi admitir, mordendo o lábio, enquanto uma onda de
ansiedade me invadia.
— Teddy? — ela riu. — Não se preocupe com ele, querida. Seu pai e eu somos mais do
que capazes de lidar com ele.
Balancei a cabeça.
Assenti nervosamente. — Ele odeia o pai dele, mamãe. Quero dizer, ele realmente,
realmente despreza aquele homem. É sério, mamãe. Ele é tão paranoico de virar igual
que isso bagunçou a cabeça dele enquanto crescia.
— Isso é tão triste — mamãe respondeu. — Joey não é nada como o pai dele.
— Eu sei. Mas quando eu contar que estou grávida — que vamos ter um bebê ainda na
escola — ele vai olhar para a nossa situação e comparar com os pais dele. — Encolhi os
ombros, impotente, antes de acrescentar: — Eu tenho muito medo que isso o faça
desabar.
Embora nunca tivéssemos falado abertamente sobre os problemas do Joey, minha mãe
não era boba. Por anos, antes de sermos um casal, Joey tinha trabalhado com meu pai e
ido à nossa casa inúmeras vezes. Se eu já percebia que ele estava acabado naquela
época, meus pais também podiam. Mesmo assim, papai nunca o mandou embora, e
mamãe nunca o expulsou da porta.
Eles continuaram a segurar a porta aberta para um garoto que nunca teve uma chance de
lutar.
— Eu o amo, mamãe — declarei, a voz embargada, fixando os olhos nos dela através da
mesa de café. — Eu amo. Eu o amo tanto que isso me cega.
— Claro que sei que nosso relacionamento não é perfeito. Longe disso. — Os ombros
caídos, balancei a mão enquanto continuava: — Estar com ele é bagunçado, cru e
complicado pra caralho, mas também é excitante, viciante e tão incrivelmente certo. —
Soltei um suspiro e dei de ombros, impotente. — Não tem ninguém mais pra mim,
mamãe. Eu sei disso. Sinto na pele.
— Ei!
— Deixa eu terminar.
— Tá, eu sou dramática — admiti, dispensando-a com a mão. — Mas o Kev é que está
morrendo por sua atenção.
— Coitado do Kev, uma ova — desafiei, revirando os olhos. — Você mimou ele, Mam,
e ele não sabe lidar com ninguém mais tendo sua atenção.
— É verdade. Você nunca precisou de mim do jeito que ele precisou. Você sempre foi
minha criança selvagem — ela continuou me dizendo. — Mais desafiadora que seu
irmão — e mais rebelde também. Enquanto o Kev sempre se escondeu na segurança da
sombra, incerto e inseguro de si mesmo, você, minha querida, se banhou no sol. Você se
recusa a se esconder do mundo, escolhendo, em vez disso, abraçar tudo que a vida tem a
oferecer.
— Não tenho certeza se você está dizendo que isso é bom ou ruim — admiti, olhando-a
com cautela.
— É bom — Mam riu. — Claro, você já me deu alguns fios de cabelo branco ao longo
dos anos, e eu tive que conter essa sua veia imprudente de vez em quando, mas você fez
um trabalho maravilhoso ao conseguir encontrar o equilíbrio entre aproveitar sua
adolescência e não se perder no processo. E estou tão orgulhosa de você por isso, minha
pequena querida.
— Por que você diz isso pra mim? — Mam gemeu, cobrindo o rosto com a mão. — Eu
sou sua mãe, Aoife. Jesus.
Dei de ombros. — Acho que é minha veia imprudente mostrando sua cara feia de novo,
né, Mam?
— Sim, bem, eu sou totalmente a favor de uma conversa aberta e honesta com minha
filha — ela disse com uma careta. — Mas, por favor, considere o fato de que eu te pari e
conheço o Joey desde que ele era um garoto de doze anos. Eu não preciso da imagem
mental de você se equilibrando no pinto dele, nem preciso que você entre em detalhes
íntimos. Guarde esse tipo de conversa para a Casey.
— Aoife!
— É, eu realmente acreditava.
— Isso me deixava triste, sabia? — Mam deu outro gole no latte antes de acrescentar:
— Ver você com o Paul, se forçando a sentir coisas que eu sabia que você não sentia,
enquanto carregava uma paixão tão forte por outra pessoa.
— Três anos e meio — corrigi, fazendo uma careta. — Eu sei que o Paul era estável,
Mam, e ele vem de uma família rica e tem um grande futuro pela frente, mas eu nunca
fui feliz com ele.
— Se você quer dinheiro, pode ganhar o seu — Mam respondeu. — Você não precisa
de um homem para isso.
— Você sabe tão bem quanto eu o tipo de lar de onde a Casey vem — Mam respondeu
gentilmente. — Você sabe como é a mãe dela, Aoife. Você viu o que aquela mulher
expôs a filha ao longo dos anos. O tipo de homens que ela arrastou pela porta da frente.
— E você também sabe como eles estão apertados financeiramente naquele pequeno
apartamento em Elk’s Terrace — Mam continuou. — Só posso presumir que quando a
Casey viu você jogar fora um garoto com futuro garantido, por um garoto com futuro
indefinido, ela entrou em pânico por você.
— O Paul não era nenhum grande prêmio — murmurei. — E nós também não estamos
exatamente nadando em dinheiro, Mam.
— Podemos não ter dinheiro, Aoife, mas sempre tivemos uma à outra — Mam
explicou. — Sempre tivemos nossa unidade familiar, e isso é uma forma de estabilidade
e conforto que, tanto você quanto eu sabemos, a jovem Casey nunca teve.
Ou o Joey.
— Sim, bem, tenho certeza que você vai pensar isso ainda mais daqui a seis meses —
ela riu. — Quando houver um bebê chorando sem parar e você estiver coberta de cocô e
vômito, gritando para sua mãe vir buscar o neto dela. — Claramente se divertindo, ela
acrescentou: — Pelo menos o seu parceiro no crime tem experiência com recém-
nascidos, porque você nunca segurou um bebê na vida.
— Eu já segurei o Sean.
— Há uma grande diferença entre um garotinho de dois anos que você pode devolver e
um bebê indefeso que depende inteiramente de você para suprir todas as necessidades
dele.
— Mam.
— Ele ou ela vai precisar que você alimente, faça arrotar, troque, vista, conforte, ame,
acalme — tudo isso e mais um pouco. Ele ou ela vai até depender de você para limpar
as vias respiratórias com um aspirador nasal pequenininho quando estiver resfriado,
porque não vai conseguir fazer isso sozinho. Esse bebê vai depender completamente da
mãe para sobreviver. E isso é só a fase de recém-nascido, que, acredite ou não, minha
querida, é a fase mais fácil da maternidade.
— Você consegue fazer isso — ela me garantiu. — Você vai ser uma boa mãe.
— Eu vou ser um desastre — murmurei, desanimada. — Mal sei fazer uma rabanada.
— Porque você é uma princesinha mimada acostumada a ter tudo feito para ela — Mam
riu. — Mas logo vamos te colocar em forma, querida. Quando meu neto chegar, você
vai estar cozinhando feito uma chef e pronta para conquistar o mundo.
— Você está presa a mim, receio — Mam riu, piscando. — Gostando ou não.
— Eu não vou me mudar — avisei, levantando um dedo trêmulo. — Nunca vou sair de
casa, Mam. Vou ficar aqui, onde tem uma veterana da maternidade na residência — e
uma veterana da tábua de passar.
Mam riu de novo. — Isso é outra coisa que vou ter que te ensinar.
— Vou sim — rebati. — Vou comprar só roupas sem necessidade de passar para o bebê
usar.
— Ah, Aoife, você me faz sorrir — Mam riu. — Você vai ficar bem, querida. De
verdade.
— Joey também vai ficar bem — ela acrescentou. — Vocês dois vão. — Mam me deu
mais um daqueles sorrisos perspicazes. — Quer saber como eu sei disso?
— Porque o pai do seu bebê pode ser tão teimoso e cabeça dura quanto você para
admitir o que sente, mas o coração dele nunca uma vez sequer se desviou de você.
— Eu sei sim — ela corrigiu, com um tom suave. — Além do fato de ter visto vocês
dois crescerem e ter experiência direta com as qualidades que vocês possuem, também
tenho meus próprios olhos — e ouvidos — em perfeito funcionamento.
— Quer dizer?
— Quer dizer que quando você tira todas as camadas do relacionamento de vocês,
tirando as provocações, os hormônios à flor da pele e o aspecto físico, existe uma base
sólida por baixo — ela me disse. — Uma base feita de amizade, respeito e confiança. —
Sorrindo carinhosamente, ela descruzou e cruzou os tornozelos de novo, inclinando-se
para frente no assento. — Ele é seu amigo, Aoife, e você é amiga dele. Esquece o amar
um ao outro, isso é a parte fácil, você e o Joey gostam um do outro. Vocês gostam da
companhia um do outro, e posso garantir que todos esses aspectos maravilhosos do
relacionamento de vocês, todas essas conversas fáceis que vocês têm, ou todos os
momentos confortáveis de silêncio que passam juntos, só vão fortalecer a capacidade de
vocês de resistirem ao teste do tempo. E, mais importante, ao teste da paternidade.
— Joey.
— Joey.
— Joey.
— Joey!
O peso continuou pulando para cima e para baixo nas minhas costas, e eu lentamente
reconheci o peso como sendo meu irmãozinho.
— O-ee. O-ee.
— Sean, desce e vai brincar com o Ollie — a voz familiar da Mam perfurou minha
mente, e eu me enrijeci, o corpo inteiro se tensionando. — Eu preciso conversar com
seu irmão.
Sean ainda deu mais três pulos bons nas minhas costas antes de obedecer nossa mãe e
sair cambaleando.
— Nem começa — resmunguei, rolando de costas. — Seja lá o que for, deixa pra lá.
— Eu não ia começar nada. — Fechando a porta do meu quarto, Mam veio até minha
cama e sentou ao meu lado. — Eu só queria saber se você tá bem.
Suspirando pesadamente, ela esticou a mão e tirou o cabelo do meu rosto, e aquele
pequeno gesto de afeto me fez me arrastar para o canto mais distante da cama, o mais
longe possível dela.
— Não, Joey — Mam suspirou, os olhos azuis cheios de tristeza enquanto me observava
com aquela desconfiança cautelosa. — Foi uma pergunta genuína.
— Você não foi pra escola essa semana — ela disse finalmente. — O Sr. Nyhan ligou
duas vezes.
— Sim — Mam concordou. — Mas a Shannon ficou em casa essa semana pra me
ajudar.
Mentira.
— Desde o que aconteceu no outro fim de semana — ela respondeu, com o tom
cansado.
— Ah, você quer dizer quando o meu pai tentou estuprar minha namorada? — soltei,
tremendo de raiva de novo. — Não, não, eu tô ótimo, Mam. Isso não bagunçou minha
cabeça nem um pouco.
— Joey.
— Ah, não, pera aí, é verdade — continuei. — Você não tentou comer a Aoife. Não,
você só levou o quase estuprador dela pra sua cama.
— Por quê?
— Porque ela não suporta olhar pra minha cara — falei. — Eu lembro ela demais do
meu pai, o estuprador desgraçado em pessoa.
— Porque ele botou um anel no seu dedo quando você ainda brincava de boneca, e isso
dá a ele domínio automático sobre seu corpo?
— Se você tá falando da fixação doentia que você tem por aquele homem, pode
esquecer — falei. — Porque eu nunca vou entender.
— Quem tá brigando?
— Você tá, Joey — ela disse com um suspiro. — Toda vez que eu tento me aproximar
de você, toda vez que tento te dar um pouco de atenção, você já parte pro ataque.
— Talvez eu não fizesse isso se a experiência não fosse tão estranha pra mim.
— Nem quero saber — dei de ombros. — Essa lista é tão grande que a gente ia passar
semanas aqui.
— Eu não entendo como um garoto que odeia tanto o pai quanto você odeia o seu,
consegue seguir exatamente os passos dele em direção ao vício.
— É sim — ela choramingou, tentando pegar minha mão. — Você tem um problema,
filho. — Soltando um suspiro trêmulo, ela completou: — Eu sei que você voltou com as
velhas manias. Eu achei os saquinhos vazios no bolso da sua calça.
— E?
— Então o que é isso? — ela exigiu, tirando do bolso a carcaça rachada de uma caneta.
Meu estômago afundou, mas mantive a expressão firme, com vergonha demais de mim
mesmo pra admitir qualquer coisa — ainda mais pra ela.
— Sério? Porque isso aqui parece mais um canudo improvisado! — Ela jogou o objeto
na cama. — E eu posso não ser a pessoa mais inteligente do mundo, mas sei muito bem
que não se usa isso pra maconha.
— Que tal começar explicando pra onde foi o meu remédio? — ela insistiu, os olhos se
enchendo de lágrimas. — Você tava indo tão bem. Meses, Joey, meses! E agora o quê?
Voltamos pra estaca zero? Por que você faz isso com você mesmo, Joey, por quê?
— Quando foi que eu botei um dedo em você? — exigi, o coração disparando no peito
enquanto puxava minha mão de volta. — Ou na Shannon? Ou nos meninos, pra falar a
verdade?
— O que você quer de mim, hein? — exigi, no limite. — Você deixou aquele
desgraçado ficar aqui, sabendo o que ele tentou fazer com a minha namorada, então eu
fui embora. Depois, três dias depois, você me manda mensagem, implorando pra eu
voltar e te salvar dele, então eu volto e faço exatamente isso. Agora você tá no meu
quarto, me cobrando porque faltei na escola, me acusando de ser frio contigo e me
chamando de viciado? — Balancei a cabeça. — Eu tô aqui, mesmo sem querer, mesmo
preferindo estar em qualquer outro lugar desse planeta — e isso inclui um caixão —
mas eu tô aqui porque você me chamou. Porque você precisa de mim. Porque eles
precisam de mim. Mesmo que estar dentro dessa casa me dê vontade de arrancar a
própria pele. Eu tô aqui. Se isso não te diz tudo o que você precisa saber, então eu não
sei mais o que dizer, de verdade.
— Como você espera que isso aconteça se a própria pessoa que me colocou no mundo
não consegue me amar?
Mam recuou como se eu tivesse dado um tapa nela — e talvez eu tenha, mas com a
verdade.
— Isso não é verdade — ela chorou, empurrando o cabelo pra trás. — Você não pode
acreditar nisso.
— Tanto faz. — Balançando a cabeça, me arrastei pra fora da cama e fui pegar minha
roupa. — Não vou discutir isso com você agora. Tenho lugar pra ir.
Fiquei em silêncio, de costas pra ela, vesti minha calça de moletom e coloquei um
moletom por cima.
— Tem sim.
— Não. — Balançando a cabeça, abri a porta com força. — Ele tirou ela de mim.
COM UM CIGARRO preso entre os lábios, passei um tempo absurdo largado nos
degraus em frente à delegacia, me forçando a simplesmente levantar e entrar.
Bastar meus pés me levarem lá pra dentro e dar meu depoimento pros Gards.
Meu pai deveria estar atrás das grades por ter colocado as mãos na Molloy, e o
ressentimento de estar, mais uma vez, de mãos atadas por causa de uma mulher que eu
amo e estou desesperado pra proteger, tava me destruindo mentalmente como nada mais
conseguia.
Eu cheguei ao limite naquela noite e vacilei, mas o arrependimento pelo uso não
chegava nem perto do arrependimento de ter ficado calado.
Mas a Molloy?
Quando ele colocou as mãos nela naquela noite, ele mirou direto no meu ponto fraco, e
quando ela me rejeitou, quando me comparou a ele, aquela flecha foi disparada e me
acertou em cheio no calcanhar.
Uma verdade que eu mesmo não tinha percebido, até ele me forçar a encarar.
Me abalou profundamente reconhecer isso, mas a verdade é que algo dentro de mim
mudou nesse último ano, minhas prioridades mudaram. Eu percebi que a Aoife Molloy
se tornou a pessoa mais importante do meu mundo.
Assustador admitir, mas não havia nada que eu não fizesse pra proteger ela. Mesmo que
isso significasse ir contra toda a minha família. Porque, independentemente das
consequências pro resto da família, eu tava disposto a ir contra tudo que fui programado
pra proteger, só pra proteger ela.
Mesmo que isso significasse ir contra cada fibra do meu ser e ficar calado sobre meu
pai, porque era isso que ela precisava de mim.
Conflituoso e furioso, fiquei ali mesmo, nos degraus da delegacia, até o céu escurecer e
minha raiva diminuir, dando lugar à depressão.
Morrendo por dentro e queimando por fora, olhei pras cicatrizes nos meus nós dos
dedos e me obriguei a fingir que tava tudo bem.
Finalmente, quando consegui controlar a dor, me levantei, limpei a poeira e fui embora,
sentindo o peso do mundo nos ombros a cada passo que me afastava de fazer a coisa
certa.
O QUE VOCÊ TOMOU?
AOIFE
— Também é bom te ver, Case — ri, passando a mão pelo meu cabelo, que agora ia só
até os ombros. — Respondendo sua primeira pergunta: eu estava em casa. Precisava de
uns dias pra colocar a cabeça no lugar. Quanto à segunda: eu precisava de uma
mudança.
Não, o que eu precisava era remover da minha memória as mãos daquele homem no
meu cabelo, e isso me custou oitenta euros, mas ela não precisava saber dos detalhes.
Ainda dava pra prender o cabelo num rabo de cavalo pequeno, mas não era mais longo
o suficiente pra me deixar vulnerável a um homem me segurar por ele.
— Você gostou?
— Ah, cala a boca, você continua sendo uma gata — ela retrucou, puxando uma mecha
solta do meu cabelo. — Eu só nunca te vi com o cabelo mais curto do que o meio das
costas, Aoif. Você tinha cabelo de Rapunzel desde a pré-escola. — Me lançando um
olhar de canto, ela acrescentou: — Eu tentei te ligar umas cem vezes, só pra constar.
— Fala mais alto, por que não? — sibilei, me virando pra fuzilar ela com o olhar
enquanto ela se sentava na carteira atrás da minha. — Jesus.
— Desculpa. — Ela fez uma careta, levantando as mãos. — Alguma novidade quanto a
isso, aliás?
— Sua data prevista? — Os olhos dela quase saltaram. — Isso é dois dias depois do seu
aniversário de dezenove anos.
— Pra quando?
— Sexta agora.
— Que horas? Porque a gente sai da escola meio-dia por causa do recesso da Páscoa, e
eu posso ir contigo se…
— Por quê?
— E ele, como reagiu? — ela perguntou, com os olhos cheios de compaixão. — Não
muito bem, eu imagino, considerando que ele também não veio pra escola a semana
toda.
— Eu sei, eu sei — resmunguei, sentindo minha garganta apertar só de pensar nele não
sabendo, quase tanto quanto pensar em contar. — Ugh.
— Quando vocês dois sumiram da escola, eu me convenci de que você tinha contado —
Casey comentou, franzindo a testa. — Achei que você não ia voltar até depois das férias
de Páscoa.
O sinal tocou alto naquele momento, interrompendo nossa conversa, e eu observei a sala
começar a encher aos poucos, revirando os olhos quando Danielle e Paul entraram se
exibindo, abraçados.
— Ugh — Casey resmungou, fingindo enfiar o dedo na garganta. — O que ela acha que
vai acontecer se não ficar grudada nele a aula inteira?
— Que ele vai ser roubado, pelo visto — comentei, me virando no assento e me
encostando na carteira dela. — Tanto faz. Ela que fique com ele.
Ela apontou pra porta da sala e eu me virei bem a tempo de ver o Joey entrando.
No instante em que meus olhos pousaram nele, meu coração disparou no peito,
reconhecendo na hora a pessoa que ele era pra mim.
O cabelo dele estava no estilo de sempre, raspado nas laterais e atrás, com um topete
bagunçado em cima.
Sem o suéter da escola, a camisa cinza estava desabotoada e caída fora do cós da calça,
a gravata jogada de qualquer jeito no pescoço. As mangas da camisa estavam dobradas
até o cotovelo, revelando as tatuagens pretas que ele vinha preenchendo desde o quarto
ano, agora cobrindo ambos os antebraços.
Com a expressão típica de “foda-se o mundo” gravada no rosto, ele foi até a mesa da
professora, entregando o que eu sabia ser o famoso caderninho vermelho — também
conhecido como o livro de comportamento.
Parecendo totalmente desinteressado com o que a Srta. Lane estava dizendo enquanto
apontava pro caderno vermelho na mesa, Joey só entregou a caneta pra ela e cruzou os
braços, esperando pela assinatura.
E foi exatamente nesse momento que ele varreu o olhar pela sala. Eu senti o peso do
olhar dele no segundo em que pousou em mim.
O ar ficou rarefeito ao meu redor, dificultando até respirar. Tremendo sob a intensidade
daquilo tudo, forcei um sorriso fraco e um aceno tímido.
De que outra forma você cumprimenta o garoto que você amou por anos?
Jesus.
Observei o Joey se enrijecer, os olhos intensos, completamente focados em mim.
Ele só me encarou.
Havia tantas palavras não ditas, tantas perguntas sem resposta pairando entre nós dois.
Ele estava mostrando tudo ali, cada gota de confusão, dor e irritação.
— Joey — chamei, com a voz fraca, observando ele com cautela, sem saber como reagir
depois de como deixamos as coisas.
— Camisa bonita — sussurrei, dando uma leve cutucada no ombro dele, prendendo a
respiração, esperando a resposta de sempre.
Diz isso.
Duas palavras.
O suspiro que ele soltou foi tão profundo que os ombros dele subiram e desceram
visivelmente antes dele balançar a cabeça, parecendo se render de má vontade.
— Pernas bonitas.
Obrigada, meu Deus.
Ele deu de ombros, sem compromisso, enfiou a mão no bolso da calça da escola e tirou
meu celular, colocando do meu lado da carteira.
— Eu deixei meu colar lá também — sussurrei. — No seu quarto. Aquele que você me
deu de aniversário ano passado.
— Eu te devolvo.
— E você?
— Que bom. — A mandíbula dele tensionou e eu vi ele engolir em seco. — Fico feliz.
Eu estava preocupado com você.
Em vez disso, ele se inclinou pra frente, apoiou os cotovelos na carteira, cobriu o rosto
com as mãos e murmurou algo inaudível.
Um silêncio horrível se instalou entre nós, e eu estava desesperada pra quebrar aquilo.
— Joe?
— Hm?
— Tenho que trabalhar. Já faltei uma semana. Não posso faltar mais.
— E amanhã?
— Eu queria saber se você tem planos na hora do almoço sexta-feira? — minha voz saiu
rouca, as palmas das mãos suando, o pânico crescendo. — Porque tem um lugar que eu
preciso ir e eu… eu queria muito que você fosse comigo.
Mais silêncio.
— Joe?
— Hm?
— Eu… ah, não sei — ele murmurou, a voz exausta. — Não tenho certeza.
— Tá ocupado no almoço hoje? — tentei outra abordagem. — Quero dizer, tem treino
ou algo assim? Porque eu preciso muito falar com você em particular.
— Eu não quero conversar em particular — ele respondeu baixo. — Não hoje, Molloy.
— Mas você nem sabe sobre o que eu quero falar com você — eu soltei. — É
importante.
— Por quê?
— Você tem que saber que eu não quis dizer aquilo — eu soltei, finalmente falando
sobre o elefante na sala. — Tudo aquilo que eu falei da última vez que a gente se viu?
Não era eu, Joe.
— Eu não quis dizer, tá? — Alcancei e coloquei uma mão nas costas dele, franzindo a
testa quando senti o calor que emanava do corpo dele. Jesus, ele tava pegando fogo. —
Eu juro, Joe. Nenhuma palavra daquilo.
— Quis sim — os músculos das costas dele se retesaram sob o meu toque. — E tá tudo
bem. Eu não te culpo.
— Eu não te culpo pelo que aconteceu, Joe — falei, me sentindo vulnerável até a alma
naquele momento. — E eu não quero espaço. Eu nunca quero espaço de você.
— Nem eu quero — ele respondeu baixinho. — Mas só porque a gente não quer algo
não significa que a gente não precise.
— Joe.
A sonolência.
A letargia.
— Nada.
Ele tentou virar o rosto, mas eu segurei o queixo dele entre os dedos e o obriguei a me
encarar.
— Ontem?
— E anteontem?
Outro aceno.
— Quando começou?
Silêncio.
— Quando começou?
— Por aí.
— Não é isso.
— Eu não perguntei o que você não tomou — sibilei, arrasada e furiosa. — Me diz o
que você tomou, caralho.
Os olhos dele grudaram nos meus, e ficaram lá, focados em mim o melhor que ele
podia, considerando que estava claramente sob efeito de alguma coisa.
— Umas paradas? — eu fuzilei ele com o olhar. — O que exatamente inclui nessas
“paradas”? Porque eu tô com você faz tempo o suficiente pra saber que quando você
fala “comprimidos e umas paradas”, o significado pode variar muito.
— Molloy…
— Então, estamos falando de quê aqui? Um baseado, uma carreira, ou uma porra de
uma agulha? — Me senti transportada de volta no tempo pra um lugar onde eu nunca
quis voltar. — Ah, meu Deus — minha respiração falhou. — Por quê, Joe, por quê?
— Por que você acha? — ele sussurrou, com a voz quebrada, ainda mantendo o contato
visual, enquanto eu segurava o queixo dele.
— A culpa é minha — ele desviou o olhar então, soltando o rosto das minhas mãos. —
O que aconteceu com você é culpa minha.
— Eu te levei praquela casa — ele sibilou, girando o rosto de volta pra me encarar, com
fúria nos olhos. — Eu te coloquei em perigo e o perigo te pegou.
— Eu tô bem — consegui dizer, com a voz embargada, alcançando o rosto dele, só pra
sentir a rejeição quando ele se afastou do meu toque. — Não faz isso. Não joga fora
tudo pelo que você lutou tanto.
— Eu não tenho nada, Molloy — a resposta dele foi vazia. — Nunca tive.
— Você me tem — eu respirei, sentindo o peito subir e descer rápido, enquanto lutava
pra manter a compostura naquela sala cheia de colegas de aula. — Você ainda me tem,
Joe. Eu não te culpo, tá? Eu não culpo.
— Eu sou ele.
— Eu não posso — vi outro arrepio percorrer o corpo dele. — Eu não consigo lidar com
isso agora, Aoife.
— Não consegue lidar com o quê? — minha voz saiu estrangulada, meu rosto
esquentando, enquanto meu coração disparava. — Não consegue falar comigo? Não
consegue me olhar? Não consegue ficar comigo? O quê?
— Eu não consigo lidar com isso — observei ele passar as mãos pelos cabelos,
frustrado. — É, definitivamente, eu não consigo lidar com isso — ele murmurou,
empurrando a cadeira pra trás, pegando a mochila do chão e se levantando. — Tô fora.
— Senta aí, Joseph — Miss Lane ordenou da mesa dela. — A aula tá começando agora.
— Nem pense em sair dessa sala — ela comandou, levantando a mão em advertência.
— Você já tá com um red book. Não piora as coisas.
— Tipo quando eu mandar você se foder e isso piorar? — ele zombou, batendo a palma
da mão contra a porta, fazendo ela se abrir com um estrondo. — Bom, parece que eu já
piorei, né?
— Joseph!
— Vai se foder, professora — ele gritou por cima do ombro, e então ele se foi, saindo
furioso.
— Ah, Deus — coloquei a cabeça entre as mãos, lutando contra o impulso de ir atrás
dele. Consegui resistir por exatos três minutos até ceder, me levantando e indo até a
porta como se minha vida dependesse disso.
— Acho que ela vai se foder, professora — Alec comentou com uma risadinha. — No
sentido literal dessa vez.
— Linguagem — Miss Lane advertiu Alec, antes de voltar o olhar pra mim. — Isso
aqui não é aula de teatro, Aoife. Não precisa encenar Bonnie e Clyde. Volte pro seu
lugar.
— Mas…
— Agora, Aoife.
— Ah, professora, não estraga o rolê — Alec provocou, incentivado pela sala cheia de
garotos rindo. — Tá vendo a cabeçona do Lynch? Cês só têm uma aula com ele; o resto
do dia somos nós levando patada. Deixa ela ir lá dar um jeito no cara. Ele vai tá bem
mais tranquilo depois.
— Pode sair da minha sala, Alec — Miss Lane mandou, furiosa. — Diretamente pro
diretor pegar um red book pra você também.
Meu plano era ir direto pros fundos do ginásio, já que esse era um dos cantos favoritos
do Joey, e se não o encontrasse lá, eu tentaria os depósitos da escola.
Mas tudo mudou quando cheguei na entrada principal da escola e vi ninguém menos
que Marie Lynch saindo da sala do diretor.
— Aoife — o rosto dela se iluminou ao me ver, e ela veio direto em minha direção,
bloqueando a saída que eu tanto queria alcançar. — Por favor, podemos conversar?
Meus pés vacilaram, parando bruscamente, enquanto minha cabeça me implorava pra
continuar andando.
— Eu tive uma reunião com o diretor — ela respondeu, diminuindo a distância entre
nós, me encontrando na porta. — Eu sei que sou a última pessoa com quem você quer
falar agora.
— A penúltima.
— Perdão?
— É… bem, você pode andar comigo um minuto pra gente conversar? — ela pediu,
apontando pras portas de saída. — Por favor. É importante.
Sabendo que fugir da mãe do Joey não era algo que eu conseguiria fazer pra sempre,
assenti, rígida, e a acompanhei pra fora, caminhando ao lado dela, com a expressão de
pedra.
— Tem certeza?
Ela percebeu que não ia conseguir nada me rodeando daquele jeito, então soltou um
suspiro pesado e passou a mão pela testa.
É, eu também.
— Por quê?
— Então ele tá aqui? — alívio encheu os olhos dela. — Ele veio pra escola?
— Ele tava aqui — corrigi, seca. — Saiu da sala praticamente assim que chegou.
— Ah, Deus, era disso que eu tinha medo — ela murmurou, aflita. — Eu não sei mais o
que fazer com ele, Aoife. Não sei como ajudar.
— Sem querer te ofender, mas fica meio impossível você ajudar ele sendo o motivo da
dor dele.
Porque sabia tão bem quanto eu que tinha grande parcela de culpa no descontrole do
filho.
De novo.
— Eu mereci isso.
— Ele me disse que você pediu espaço — ela arriscou, nervosa. — Que você não queria
mais vê-lo.
A dor me consumiu.
— Eu falei muita coisa que não queria ter dito pra ele.
Ah, Deus.
Só de ver o homem, um arrepio nojento percorreu minha espinha, e dei um passo pra
trás.
— O que eu te disse quando nos conhecemos — ela disparou, ficando entre mim e o
campo de visão dele, tentando me proteger, mesmo que pateticamente. — Sobre eu
achar que você precisava ficar longe do meu filho? Eu tava errada.
Franzi o cenho.
— Errada?
— O Joey precisa de você — ela insistiu, os olhos azuis cheios de sinceridade triste,
com urgência na voz. — Mais do que precisa de mim, ou de qualquer um. Ele passou a
vida toda tentando fugir da própria cabeça, sem se importar em se destruir no caminho.
Mas com você, desde que ele tá com você, ele mudou. Ele tá presente, ele quer estar
aqui. Você acalma algo dentro dele que eu e o pai dele destruímos, e eu não quero ver
isso ser tirado dele de novo.
— Por que você tá me dizendo isso? — minha voz falhou, meu olhar indo dela pro
carro. A ansiedade corroía meu estômago e eu me forçava a não correr.
— Porque eu errei, Aoife — ela disse, a voz trêmula. — Errei muito com meu filho,
mas esse erro eu quero consertar.
— Não desiste dele, Aoife. Por favor, não desiste do meu menino.
— Nada do que você disse sobre o Joey mudou alguma coisa pra mim — ouvi minha
própria voz afirmar. — Eu sei que seu filho vale a pena, vale ser amado, vale ser salvo
— mesmo que o resto do mundo não veja isso. — Eu sei quem ele é, Marie — o homem
que ele é — e sei o valor dele, então pode ter certeza que nada que você — lancei um
olhar de desprezo pro carro — seu marido, ou qualquer outro, disseram ou fizeram
chegou perto de abalar meus sentimentos por ele.
— Obrigada — ela sussurrou. — Por amar meu filho. Eu sei que não é fácil.
— Amar seu filho é a parte fácil — cortei, tirando o cabelo molhado dos olhos. —
Difícil é fazer ele se amar.
Claro que o marido dela escolheu esse momento pra abaixar o vidro e gritar:
— Me desculpa pelo que ele tentou fazer com você — ela sussurrou. — Desculpa
mesmo.
— Tá me ouvindo, mulher? — ele berrou. — Anda logo ou vai voltar a pé pra casa.
Foi nesse instante que o Joey apareceu, vindo dos fundos do ginásio, com o resto de um
baseado entre os lábios.
Ele tragou uma última vez, jogou o toco no chão e soltou uma nuvem de fumaça antes
de nos notar.
— Não.
— O quê? — ele sacudiu a cabeça, a chuva caía pesada. — Não, Molloy, a gente não
pode simplesmente…
Segurei a camisa dele com uma mão, e com a outra guiei as mãos dele pro meu quadril
e pra minha bunda.
Ele tava tenso, mas eu sabia que tava segura com ele.
Suspirei aliviada.
Joey tava ferido, e deixou isso claro num beijo brutal que bagunçou completamente
meus hormônios.
Flexionando a mão na minha bunda, ele apertou minha cintura com mais força, puxando
meu corpo bruscamente contra o dele, enquanto tirava de mim tudo o que precisava
naquele momento para se estabilizar e se manter no chão.
Precisando dele com a mesma urgência, me ergui na ponta dos pés, enrosquei os braços
ao redor do pescoço dele e retribuí com os lábios tudo o que ele estava me oferecendo.
Num momento ele estava ali, e no seguinte, tinha sumido; se afastando de mim como se
meu beijo tivesse causado algum tipo de dor física.
— Não faz isso comigo — Joey avisou, ofegante, enquanto limpava o resquício do meu
gloss da boca com o polegar e me lançava um olhar furioso. — Não fode com a minha
cabeça assim.
— Do que você tá falando? — arfei, totalmente confusa com a reação dele. — Eu não
tava tentando foder com a sua cabeça.
— Me beijando — ele disparou, dando alguns passos pra trás. — Me manipulando com
meus sentimentos, Molloy. Eu já tive disso o suficiente pra durar uma vida inteira.
— Não, eu tô me culpando por isso! — ele rugiu, furioso, passando a mão pelos
cabelos. — Eu me culpo por me importar demais com o que você quer, e deixar o que
eu sinto por você me cegar ao ponto de não fazer a coisa certa!
— E eu já te falei que faria o que você quiser que eu faça — a veia no pescoço dele
pulsava enquanto ele me observava. — Mas isso não significa que meu silêncio não
esteja me destruindo por dentro.
— Joey, não deixa ele fazer isso com a gente — dei um passo em direção a ele e tentei
segurar a mão dele. — Não deixa ele ganhar.
— Você não entende, Molloy? — Joey puxou a mão da minha e recuou. — Ele sempre
ganha.
Enquanto eu via o Joey se afastar, se fechar, percebi que alguma parte essencial dele
tinha sido apagada naquela noite, e que se eu deixasse ele ir agora, talvez não
conseguisse mais alcançá-lo.
Movida pelo instinto, fechei o espaço entre nós e agarrei a mão dele, sem permitir que
me deixasse pela segunda vez.
— Eu tô apaixonada por você — falei — e isso é algo que ele nunca vai conseguir tirar
de você.
— Molloy…
— Ele não ganhou, Joe — falei, só parando quando estava colada no peito dele, com as
mãos agarradas na frente da camisa da escola. Puxei o tecido com força, sorrindo por
dentro quando ele cedeu e baixou o rosto até o meu. — Você ganhou.
Soltando um gemido de dor quando meus lábios se chocaram contra os dele, ele não me
afastou dessa vez; preferiu me envolver com os braços e me puxar ainda mais pra perto.
Com nossos lábios fundidos, tropeçamos de lado até o canto do ginásio, escorregando
pelos fundos do prédio.
Minhas costas bateram na parede no momento seguinte, seguidas pelo corpo grande
dele colidindo contra o meu.
— Eu não sei mais onde eu tô com você — ele confessou contra meus lábios, enquanto
pressionava os quadris contra os meus e deixava os braços caírem ao lado do corpo. —
Suas mudanças de humor me deixam maluco.
— Eu sei, gostoso — sussurrei, alcançando o espaço entre nós para desabotoar o cinto
dele e abrir o botão da calça cinza da escola. — Eu sou uma bagunça.
— Seu cabelo — ele disse, ao invés de responder, me encarando com olhos tão
dilatados que estavam quase negros. — Você cortou.
Uma pontada de tristeza me atingiu, e eu imediatamente voltei a colar meus lábios nos
dele, desesperada pra fugir daquela conversa.
— Porra — ele gemeu de dor, agarrando a parte de trás das minhas coxas e me
levantando num só movimento.
Envolvi a cintura dele com as pernas e deslizei a mão entre nós, guiando a cabeça
grossa do pau dele pra dentro do meu corpo.
— Você vai me mandar embora de novo? — ele perguntou com um tom dolorosamente
vulnerável, se afundando dentro de mim. — Fala agora, pra eu já me preparar.
— Não, Joe — acariciando a bochecha áspera dele, me aproximei e roçei os lábios nos
dele. — Eu nunca mais vou te mandar embora.
TODO FODIDO DE NOVO
JOEY
— Eu não disse que não era uma boa música — ela retrucou, entregando o mp3 player
que eles estavam passando de mão em mão durante o almoço. — Eu disse que não era
uma música de amor. É muito depressiva.
Casey inclinou a cabeça para o lado, claramente pensando muito na resposta, antes de
pegar o mp3 player e apertar alguns botões.
Ele abriu um sorriso malicioso pra ela antes de começar a cantarolar o refrão.
Balancei a cabeça.
— Valeu.
Me recostando na cadeira, fiquei encarando sem foco as pessoas ao meu redor, com a
cabeça girando e o estômago em nós.
— Você tá bem? — Molloy perguntou, puxando a cadeira mais perto da minha
enquanto falava. — Você não comeu nada o dia todo. — Ela colocou a mão no meu
joelho, que tremia sem parar, tentando conter o tremor que percorria meu corpo. —
Você tá muito pálido, Joe.
O olhar que ela me lançou me garantiu que ela não acreditou em uma palavra do que eu
disse, mas ela não insistiu. Provavelmente porque ela já sabia o quão nada certo estava a
minha vida nesse momento.
Tudo parecia estar desmoronando de novo, e ao invés de manter ela segura, longe da
minha merda, eu, mais uma vez, arrastei ela de volta pro meu caos.
Hoje de manhã, quando fodi ela atrás do ginásio, logo ali, só provou que eu era tão
imprudente com o meu coração quanto com o meu corpo quando se tratava dessa
garota.
Saber que uma garota podia dobrar a minha vontade pra se adequar aos interesses dela
era um conceito que me deixava inquieto pra caralho.
Quando eu vi meu pai no estacionamento hoje de manhã, com aqueles olhos de rato
cravados nela, eu já tinha feito as pazes com o cara lá de cima.
De verdade.
Até ela se enfiar no meio do meu colapso pessoal e me puxar de volta. Usando o corpo
dela pra me manipular e me fazer ceder — jogada clássica de garota — e a minha
namorada tinha aperfeiçoado isso com maestria.
Ontem à noite, por exemplo, eu sabia que meu velho encostou as mãos na Shannon.
Eu sabia.
O jeito que minha irmã correu pro quarto dela e trancou a porta dizia tudo o que eu
precisava saber sobre o que rolou entre eles.
Bati na porta dela pra ver se ela tava bem quando ouvi a porta bater, mas ela me enrolou
com alguma desculpa esfarrapada.
Eu me sentia vazio.
Toda vez que fechava os olhos à noite, era assombrado pelo som dos gritos da minha
mãe e da minha irmã. E se não eram os gritos delas, era a imagem dele prendendo
minha namorada naquela mesa.
— A gente podia dar uma volta depois da escola? — Molloy perguntou, me puxando de
volta pra realidade. — Ou você podia ir lá pra casa. — Ela passou o polegar pelo roxo
no meu rosto e me deu um sorriso pequeno. — Eu não sou exigente, mas a gente
realmente precisa conversar.
Meu celular vibrou no bolso e eu me enrijeci, sem ousar tirar ele dali enquanto ela me
olhava tão de perto.
— Na real, eu tô meio ocupado hoje à noite com o trabalho — ouvi minha própria voz
dizer, e me senti um merda quando a expressão dela desmoronou de decepção.
Sabia que ela tinha coisas pra me falar, coisas presas na garganta. Nada tinha se
resolvido entre nós, a gente só caiu de novo no mesmo ciclo fodido de carinho físico,
mas eu não tinha energia pra discutir mais uma vez com ela.
Com ninguém.
Eu tava fodidamente exausto pra fazer qualquer coisa além de sobreviver agora.
O esforço monumental que foi andar de sala em sala o dia inteiro foi quase insuportável.
— Posso ir na sua casa amanhã à noite depois do trabalho — ofereci fraco, sabendo que
era a última coisa que eu precisava, mas dando pra ela o que ela queria de qualquer
jeito. — Se você estiver livre.
— Eu vou estar.
— O-quê? Por quê? — os olhos dela se encheram de ansiedade. — Onde você vai?
Mentiroso.
Mentiroso.
Mentiroso do caralho.
— Esqueci.
— Te vejo depois — murmurei, passando o nó dos dedos no queixo dela com carinho e
então me virando bruscamente e indo embora.
Esperei até estar fora do campo de visão e tirei o celular do bolso, verificando a
mensagem não lida.
— Ok, já faz três semanas — declarou Casey na manhã de terça-feira, durante a aula de
francês, quando o nosso professor, Sr. Brady, saiu da sala. Fechando o livro com um
estalo, ela se virou na cadeira para me encarar. — Me diz que hoje é o dia.
Ele estava sentado duas fileiras à minha frente com Neasa Murphy, largado na cadeira,
parecendo levemente divertido com o que quer que ela estivesse dizendo para ele.
— Dá pra parar de encarar ela como se ela tivesse mijado no seu cereal? — Casey
sussurrou entre os dentes, puxando minha atenção de volta para ela, enquanto tirava
meus dedos do lápis que eu estava espremendo. — Ele tem que sentar com ela. É lugar
marcado, gata.
— Eu odeio ela.
— Não, eu odeio mesmo. — Me virei para olhar minha melhor amiga. — Eu odeio
todas as garotas com quem ele já ficou.
— Então você odeia metade das meninas dessa sala — Casey riu.
— Engraçadinha.
— Ai, Jesus, momento tenso do caralho — ela sussurrou, quase sem ar. — Você já
preparou o discurso?
— É mais um ‘minha pílula falhou, você vai ser pai, por favor não me larga’ do que um
discurso — falei, gaguejando nervosa.
— Aoif — ela colocou a mão no meu braço. — Ele não vai te largar.
— O quê?
Casey e eu trocamos um olhar confuso antes de nos virarmos de volta para o Charlie.
— Eu não tô—
— Por que o Mack quer saber? — perguntei rápido, cobrindo a boca da minha melhor
amiga com a mão. — O que que importa pra ele com quem a Casey tá ficando?
— Por que você acha? — Charlie piscou. — Ele ainda tá caidinho por ela.
— É mesmo? — Ergui a sobrancelha para ela. — Ouviu isso, Case? Charlie disse que o
Mack ainda tá caidinho por você.
— Pois pode falar pro Mack que eu tô saindo com alguém — respondeu Casey, tirando
meus dedos da cara dela. — Então ele pode pegar esse sentimento e levar de volta pro
lado dele da cidade.
— O Alec?
— Não.
— Isso é pra eu saber e você descobrir — ela respondeu, batendo o dedo no nariz.
— Agora vai embora — falou, acenando para ele sair e me puxando de volta no assento.
— Eu não tô saindo com ninguém, mas ele não precisa saber disso.
— Meh.
— E do Alec?
— Tenho um amigo que ouviu um boato de que você e o Lynchy tão se separando —
disse ele, sorrindo de canto. — E meu amigo quer saber se isso é verdade.
— Porque meu amigo acha que você é, de longe, a garota mais bonita da escola.
— Pode falar pro seu amigo que eu tô lisonjeada, mas ainda sou muito comprometida.
— E pode falar pro seu amigo que o amigo dele tem uns culhões bem grandes pra tentar
roubar a namorada do Joey Lynch — Casey riu. — Sério mesmo.
— Valeu a tentativa.
DEMAORANDO o máximo que pude pra voltar pra minha última aula do dia, depois
de ser liberada pra ir ao banheiro, fiquei enrolando no corredor, admirando a mais
recente exposição de arte no hall principal, cortesia da turma de artes do último ano.
Relutante em voltar pra aula de negócios, porque eu entendia de ABQ’s tanto quanto
entendia da minha vida, arrastei os pés, parando a cada poucos passos para olhar os
quadros pendurados ou fingindo ler o último boletim.
Quando passei pelo banheiro masculino e ouvi uma tosse, parei de novo, mas dessa vez,
não tava enrolando à toa.
Cheia de malícia, entrei no banheiro masculino, andando na ponta dos pés pelas cabines
vazias. Ignorando o fedor de mijo vindo dos mictórios nojentos e amarelados, fui até a
cabine do fim, a que tinha acesso à janela.
Com um dos joelhos apoiado na tampa fechada do vaso, Joey estava inclinado na
direção da janela e, com uma nota enrolada na mão, cheirava uma carreira de pó branco.
Congelada de horror, incapaz de emitir um som, fiquei parada observando enquanto ele
apoiava os cotovelos na janela e abaixava a cabeça nas mãos, fungando e mexendo o
nariz, soltando um suspiro que soava terrivelmente como alívio.
Os minutos passaram e eu fiquei ali, parada, vendo a tensão dos ombros dele se desfazer
e o corpo começar a balançar.
Um gemido baixo escapou dos lábios dele, e ele se jogou mais perto da janela, apoiando
o peso ali.
Enquanto a onda da droga dominava ele e o corpo ficava mole, senti meu coração
murchar e morrer no peito.
Minha mão foi até o pequeno inchaço na minha barriga e, pela primeira vez desde que
percebi o tamanho da enrascada, senti algo estranho crescer dentro de mim.
Algo que parecia muito com proteção pelo bebê crescendo dentro de mim.
O instinto protetor era tão forte, tão dominante e potente, que parecia quase primitivo,
eclipsando o medo que me fez enterrar a cabeça na areia essas últimas semanas.
O bebê dele, minha cabeça repetiu, enquanto meus olhos, horrorizados, olhavam o
garoto dopado na cabine. Você tá esperando o bebê dele.
— Ah, claro — engasguei, gesticulando pro estado dele largado ali. — Com certeza
interpretei tudo errado. — Balancei a cabeça, sentindo as emoções borbulharem,
querendo explodir. — Eu não vou passar por isso de novo com você.
Doeu.
— Você tá me mandando ir embora quando nem consegue andar em linha reta — falei,
o encarando com nojo. — Olha o estado que você tá.
— Você disse que não aguenta mais isso comigo — ele murmurou, meio andando, meio
cambaleando pra fora da cabine, se apoiando na parede quando o equilíbrio falhou. —
Mas pra mim é a mesma coisa. — Ele franziu as sobrancelhas, balançando a cabeça,
completamente perdido, tentando focar no meu rosto. — Eu também não aguento isso
com você.
— Tô dizendo que devia ter ficado longe quando a gente terminou no Natal — ele
falou, as palavras vindo como balas no meu coração. — Ao invés de prolongar essa
merda por mais três meses.
— E presumo que essa merda seja eu? — Engoli o nó na garganta antes de sussurrar: —
Vai se foder, Joey Lynch.
Me virei pra sair, mas congelei quando o braço dele veio em volta da minha cintura, me
puxando contra o peito dele.
— Me desculpa — ele suspirou pesado, apertando o braço em volta de mim. — Eu
caguei tudo.
— Eu sei — um gemido de dor escapou dele e ele deixou a cabeça cair no meu ombro.
— Eu sei, baby.
— Você tá me machucando.
— Você se machuca, e isso é a mesma coisa — engasguei. — Porque quando você dói,
eu dói. Quando você queima, eu queimo junto. A gente tá entrelaçado, Joe. Somos
espelhos. Você ainda não entendeu?
— Ah, caralho — tremendo, ele me puxou mais forte. — Me desculpa por te machucar,
Molloy.
— Me escuta, Joe; você precisa se resolver, tá? — Arrepiando quando senti os lábios
dele no meu ouvido, fechei os olhos com força, tentando me acalmar. — Lembra
quando eu disse que não precisava de você antes? — Apertei os olhos, quase
implorando: — Eu definitivamente preciso de você agora, tá?
— Não, você não precisa — ele murmurou, a mão se movendo e se apoiando na minha
barriga, fazendo tudo dentro de mim se retorcer. — Eu sou a merda, Molloy. Eu sou
toda a merda desse relacionamento. Você traz tudo de bom, e eu trago tudo de ruim.
— É sim.
— Mesmo assim — forcei a voz. — Eu preciso que você dê um fim nessa porra toda e
volte pra mim, tá? Porque eu tô, ah… — Soltando o ar trêmulo, deixei a cabeça cair pra
trás, encarando o teto, tentando encontrar as palavras. — Eu tô tendo um… quer dizer, a
gente tá tendo um… — Arrepiei violentamente, praticamente cuspindo as palavras: —
Um bebê.
— Eu coloquei?
— Você tá bravo?
— Hm?
— Tá me ouvindo?
— Hm?
— Joe?
— Hm?
— Vai lembrar dessa conversa, né? — Me virei pra encará-lo, segurando o rosto dele
entre as mãos, forçando ele a me olhar. — Dessa conversa. — Reforcei quando ele não
respondeu, os olhos negros perdidos, olhando através de mim. — De mim?
— Claro — ele passou o braço na minha cintura e, de novo, escondeu o rosto no meu
pescoço, soltando um suspiro satisfeito. — Você cheira a lar.
Não adiantava.
— Achei que você tinha desistido de mim — ele respondeu, depositando o beijo mais
suave no meu pescoço. — Achei que ele tinha te tirado de mim. — Um gemido dolorido
escapou dele, enterrando o rosto no meu pescoço. — Eu caguei tudo de novo, Molloy.
— Eu não desisti de você, Joe — forcei as palavras, tremendo. — E tudo bem. Vai ficar
tudo bem.
— Você promete?
Ele assentiu.
— Eu prometo.
Perguntar ao ChatGPT
EU NÃO POSSO ENTRAR LÁ
JOEY
— Eu sei.
— Sério, o pai dele é mecânico e isso é o melhor que ele consegue arrumar?
— Tô calando agora.
— Shh, Joe, tá tudo bem — ela acalmou, acariciando minha bochecha com uma mão,
enquanto com a outra segurava minha cabeça no colo dela. — Só dorme, tá bom?
Obedecendo aquela voz maravilhosa que pertencia ao rosto mais lindo que eu já tinha
visto, deixei minhas pálpebras se fecharem e me aconcheguei no colo quentinho dela,
me sentindo mais seguro do que tinha me sentido em anos.
— Ah, Joe.
— Eu não vou, Joe. — A mão dela voltou pro meu cabelo. — Shh, agora. Só dorme,
amor.
— Oxi triturado?
— Verdade.
— Nem eu.
— Merda.
— Escuta, preciso que você faça uma coisa pra mim. Quero que revire o quarto dele.
Olha todos os bolsos de todas as calças jeans que encontrar. Revira o guarda-roupa. A
cômoda. O criado-mudo. Cada gaveta. Cada centímetro do quarto dele. A mochila da
escola. A bolsa de treino. Tem um buraco na lateral do colchão. Olha lá também. Ele tá
usando de novo, o que significa que tem um estoque escondido. O que você achar, joga
fora. Consegue fazer isso pra mim?
— Eu não posso entrar na casa dele e não posso levar ele pra minha casa assim. Não
com a minha mãe lá.
— Tá tranquilo, Aoife. Eu cuido dele. Você sabe como é. Ele só precisa dormir. Vai
ficar de boa depois de algumas horas de sono.
— Não deixa ele sozinho, tá? Por favor, Podge. Não quando ele tá assim.
— Eu não vou.
— Tô falando sério. Porque ele pode passar mal dormindo e se engasgar com o próprio
—
— E então? — ela perguntou, com o tom esperançoso, enquanto dava um passo para o
lado para me deixar entrar. — Você contou pra ele? Ele vem aqui?
Sim, eu contei, mas ele estava em outro planeta e não ouviu uma palavra do que eu
disse.
— Eu sei — cortei ela rapidamente, indo em direção à cozinha, com meu corpo
fervilhando de ansiedade. — Eu tentei. Ele estava ocupado.
— Todos nós estamos ocupados, Aoife — Mam argumentou, fechando a porta da frente
e vindo atrás de mim. — Nunca vai ter um momento certo pra ter essa conversa, mas ela
precisa acontecer.
— Eu tô tentando, Mam, mas isso não é algo que se fala assim fácil, tá? O que você
quer que eu faça, hein? Solte no meio da aula?
— Você devia ligar pra ele — Mam disse, colocando a mão no meu ombro de forma
reconfortante. — Se não consegue falar pessoalmente, então faz isso por telefone.
— Você precisa fazer isso, Aoife — ela insistiu. — Você tem o hospital na sexta e o
Joey precisa estar lá. Ele precisa saber que vai ser pai. Ele tem direitos, sabia?
— Pai? — Kev falou secamente, e eu me virei e encontrei ele parado na porta da
cozinha.
— Kev, você não devia ficar escutando conversa dos outros — Mam repreendeu,
levando a mão ao peito, enquanto ralhava com meu irmão. — Isso não é certo.
— Joey Lynch vai ser pai — ele repetiu, com os olhos travados nos meus. — O que
claramente significa que você vai ser mãe.
— Não, eu não vou — menti, com o rosto quente e sem saber onde me enfiar, enquanto
me esquivava da Mam e ia em direção à chaleira. — Não fala besteira.
— Para de falar isso — forcei a voz a sair, me sentindo fraca. — Não é verdade.
— Já chega, Kev — Mam avisou, falando por mim quando eu não consegui. — Você
precisa parar agora, rapazinho. Isso não te diz respeito, então fica quieto.
— Para com isso — implorei, sentindo o sangue sumir do meu rosto. — Só cala a boca,
Kev.
— No começo eu achei que você só tava engordando, mas agora faz sentido. Todos os
alimentos esquisitos que você anda comendo são desejos de grávida.
— Kevin!
— Você nem consegue negar, né? — ele continuou, ignorando a bronca da Mam e
mantendo os olhos furiosos em mim. — Não dá pra esconder essa barriga que você tá
tentando esconder.
— Eu tô vendo. Eu não sou cego, e muito menos burro — meu irmão zombou, me
encarando. — Diferente de você. A idiota que deitou de pernas abertas e deixou um
maluco como o Lynch te engravidar.
— Vai se foder — solucei, sentindo as lágrimas caírem, enquanto meu irmão me jogava
a realidade na cara com crueldade. — Você não faz ideia, Kev. Nenhuma porra de ideia.
— Eu falei que já chega, Kevin! — Mam gritou, abrindo o armário e batendo a porta
com força. Ela fez isso mais três vezes até o Kev prestar atenção. — Você — ela
apontou o dedo no rosto dele. — Nem mais uma palavra.
— Mas—
Mam bateu a porta de novo. — Nem mais uma porra de palavra, Kevin, ou a próxima
coisa que eu vou bater vai ser minha mão na tua cara.
— Então ela engravida e eu que levo ameaça de tapa? — meu irmão bufou, cruzando os
braços. — Isso que é favoritismo.
— Isso não tem nada a ver com favoritismo e tudo a ver com decência — Mam rosnou,
cutucando o peito dele. — E tô te avisando agora, rapazinho, é melhor você não abrir a
boca sobre isso. Tá me ouvindo, Kevin? Nem uma alma.
— Se você sabe o que é bom pra você, vai manter essa boca fechada — Mam avisou,
num tom raro e ameaçador. — Essa notícia não é sua pra contar, Kevin. Isso não tem a
ver com você. Tem a ver com sua irmã, e a Aoife tem o direito de contar pro seu pai e
pra todo mundo quando ela estiver pronta.
— Tá maluca? A gente tá falando da Aoife. Ela nunca vai estar pronta pra ser mãe —
ele disse, apontando um dos meus maiores medos. — Ela nem consegue cuidar do
Spud, e foi ela que implorou por aquele cachorro. Como você acha que ela vai cuidar de
um ser humano de verdade? — Ele olhou pra mim e disse: — Faz um favor pra você
mesma e tira isso. Conserta essa cagada enquanto ainda dá tempo.
— Vai se foder! — Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, empurrei meu irmão e saí
correndo escada acima.
— Você sabe que eu tô certo — Kev gritou atrás de mim. — Você não aguenta nem um
dia sendo mãe antes de enfiar o bebê no colo da Mam pra ela criar.
Na real, não tinha nada que minha mãe pudesse falar que deixasse essa situação pior.
A porta do meu quarto abriu e minha mãe apareceu, com o olhar cheio de preocupação.
— Tá tudo bem?
Dei de ombros.
— Nem um pouco.
— Eu conversei com teu irmão, e ele me prometeu que vai ficar quieto até você estar
pronta pra contar pras pessoas.
— E você não?
— Seu irmão foi um idiota — Mam sentou na beira da cama e pegou minha mão. —
Não dá ouvidos pro que ele falou, Aoife. Nem uma palavra.
— Eu não sabia que ele me odiava tanto assim, Mam — confessei, me sentindo chorosa
de novo, enquanto as palavras horríveis dele ecoavam na minha cabeça. — Eu entendo
ele estar chateado por causa do bebê, mas o que ele disse? Tinha ódio de verdade ali.
— Não era ódio que você ouviu, Aoife, era ciúme — Mam corrigiu, soltando um
suspiro triste. — E isso tem muito mais a ver com o teu pai do que com você.
— Papai?
— O teu pai e o Kev nunca tiveram conexão. Nunca tiveram. Tem amor, claro, mas não
tem sintonia.
— Porque, na cabeça do teu irmão, o garoto que te engravidou é o mesmo garoto que
representa a maior ameaça pro relacionamento dele com teu pai.
— O Joey?
— O Joey. — Ela me deu um sorriso triste antes de continuar: — Consegue imaginar
como foi nos últimos seis anos pro Kev? Ver teu pai criando laços com um garoto da
turma dele, enquanto mal reconhecia as conquistas do próprio filho?
— Não é culpa do Joey — Mam respondeu suavemente. — E nem tua. É culpa do teu
pai por não ter se esforçado mais com o Kev ao longo dos anos.
— Mam, eu sei que o Kev é teu preferido, mas não dá pra culpar os surtos dele em
trauma de pai — argumentei. Eu conheço trauma de pai de perto e isso não é o caso do
meu irmão. — Confia em mim, a gente tem um bom pai.
— É verdade, ele é um bom pai — Mam concordou. — Mas você precisa reconhecer
que falta sintonia entre ele e o Kev.
— Sendo sincera?
Ela assentiu.
— Não, Mam, não acho. — Peguei um fiapo do meu pijama e dei de ombros. — O Kev
sempre foi teu queridinho, enquanto eu sempre fui demais pra você lidar.
— É sim. — Sorri, triste. — Pra ser sincera, acho que a gente conversou mais na última
semana do que nos últimos três anos, e isso só porque agora temos algo em comum.
A dor tomou conta do rosto da minha mãe e eu me senti um lixo por ter causado aquilo.
— Não tô dizendo que não me sinto amada — me apressei em dizer, apertando a mão
dela. — Só sei como é se sentir fora de sintonia com um dos pais, mas ainda assim se
sentir apoiada e cuidada. Não guardo rancor, não tenho nenhum drama de mamãe.
— Eu sei disso — falei, e era verdade. — E também sei que tudo bem você se dar
melhor com o Kev. Isso não tem nada a ver com amor, Mam. É só que a personalidade
dele combina mais com a tua do que a minha, e eu tô de boa com isso. Juro.
— Tô falando sério.
— Vai sim — Mam insistiu. — Agora eu consigo enxergar tudo com muito mais
clareza.
— Enxergar o quê?
— Você — Mam respondeu. — A mulher que você tá se tornando. Essa espinha dorsal
de aço que carrega. O motivo dele ser tão atraído por você.
— Quem?
— O Joey.
— Ah?
— Obviamente.
— E modesta — Mam debochou antes de continuar. — Mas você é muito mais do que
um rostinho bonito. Você é calorosa, Aoife. Aquele pobre menino nunca teve chance
com você, né? Não com tudo que ele nunca recebeu fluindo de você como uma
cachoeira.
— Você é isso também — ela concordou, com um sorriso malicioso. — Mas meu Deus,
como esse calor brilha por trás do seu jeito travesso. É contagiante.
— Ah, isso deve ser o tal brilho de grávida, Mam.
— Você não tem problema nenhum em aceitar elogio quando é sobre o rosto.
— É, bom, eu posso olhar no espelho sempre que quiser uma validação física —
retruquei, sem o menor arrependimento. — Não dá exatamente pra me cortar e ver todo
esse calorzinho fofo e contagiante, dá?
— Bom, confia em mim, ele tá aí — ela respondeu, sorrindo. — E nem ouse perder isso
algum dia.
— COMO É QUE EU ACHEI ESSA PORRA?
JOEY
Entrando em pânico, me levantei rápido apoiando nos cotovelos e olhei pra baixo,
aliviado ao me ver totalmente vestido com o uniforme da escola — até com os sapatos
calçados.
Bati a cabeça numa barra da beliche familiar acima de mim e fui entendendo que estava
na minha própria cama, mas com os lençóis trocados — provavelmente pela Shannon.
— Então você vive pra contar outra história — Podge disse, seco, sentado na beirada do
colchão, segurando uma garrafa d’água vazia. — Que porra, Joey? Achei que você
tivesse controlado essa merda.
— Por que você tá aqui? — murmurei, me sentando devagar enquanto o quarto parecia
girar em volta. Afastei o cabelo molhado dos olhos e perguntei: — Por que eu tô aqui?
— Hoje à tarde? — a confusão tomou conta da minha mente e meu coração acelerou. —
Que horas são? — Neguei com a cabeça. — Onde tá a Aoife?
— Da tarde?
— Não, mano, da madrugada — Podge suspirou pesado. — Você ficou apagado por dez
horas, Joey. Então, mais uma vez e eu não vou cansar de dizer: que porra foi essa?
Jesus Cristo.
— Eu não sei — me levantei instável, empurrando o cabelo molhado do rosto outra vez.
— Por que meu cabelo tá molhado?
— Tive que te acordar de algum jeito — ele se defendeu, jogando a garrafa vazia na
minha cabeça. Não me esquivei, deixei o plástico me acertar. — Você ficou tanto tempo
apagado que comecei a achar que tinha morrido.
— Por enquanto — retrucou, passando a mão no cabelo. — Jesus Cristo, quanto tempo
isso tá acontecendo mesmo?
— Foi só uma vez.
— Mentira.
— Para com isso, Podge — murmurei. — Fodi tudo, beleza? Não preciso de sermão.
— Pelas lágrimas que vi na cara da Aoife e o tanto que ela chorou, você fodeu muito
mais que isso dessa vez.
— Como se você ligasse pra alguma coisa além do que vai direto pro seu nariz.
— Que você fodeu tudo com a sua namorada — ele falou baixinho, se levantando. —
Não sei o que você fez com ela ou o que disse, mas nunca vi alguém tão destruído
assim.
— Como assim? — em pânico, peguei meu celular e vi que não tinha nenhuma
notificação da Molloy. Liguei pra ela na pressa e só caiu na caixa postal. — Jesus
Cristo, o que foi que eu fiz?
— Você me diz.
— Não, Joe, você não machucou ela assim. Você nunca encostou um dedo nela, cara, e
nunca ia fazer isso, então relaxa.
— Porra.
— Você se importa com ela — Podge falou, me observando. — Mais do que com
qualquer coisa ou pessoa que você já tenha permitido se importar. Eu vi a mudança em
você, e o Alec também. A esperança que ela traz pra você. Porra, o mundo todo vê
como essa garota é boa pra você, cara. Mas você tá tão determinado a se autodestruir
que nem percebe o que tá fazendo com ela. — Ele balançou a cabeça, depois
completou: — Se você não se importa consigo mesmo, e tá bem claro que não se
importa, então pelo menos pense no que suas ações tão fazendo com ela. Porque sabe o
quê, filho da puta? A Aoife Molloy te ama. Me escuta, sortudo do caralho. A garota
mais gata da nossa escola — provavelmente de toda a cidade — com a melhor conversa
te ama.
— Sabe, não tenho certeza se gosto de onde essa conversa tá indo — avisei. — Porque
se essa for a parte em que você diz que é atraído pela minha namorada, vou ficar muito
puto, e se disser que é atraído por mim, vou ficar traumatizado pra caralho.
— Claro que sou atraído pela sua garota — Podge retrucou. — Como todo cara da
escola.
— É. — Assenti. — Tô puto.
— Vai lá, Joe, continua empurrando embora as pessoas que realmente te amam —
argumentou, com tom irritado e olhos cheios de decepção. — Continua expulsando a
gente da sua vida e vai acabar só com o Shane Holland e os vampiros sugando tua
energia.
— Já terminou com a palestra? — Fui até a porta do quarto, abri e olhei pra ele. —
Porque pode sair agora.
— Cara, você ainda tá pirado se acha que eu vou andar na sua rua cheia de marginais às
duas da manhã. — Jogando-se na minha cama, Podge ajeitou o travesseiro e se
acomodou. — Não, você vai me aguentar essa noite, então pode se acostumar com o
lugar de cachorro no chão — ofereceu, bocejando. — Tenho a sensação que é onde
você vai passar a maior parte do tempo daqui pra frente.
— Eu devia ir vê-la—
— Não, você devia se jogar na cama antes de arrumar mais confusão — meu amigo
ordenou, jogando um travesseiro em mim. — Deixa a pobre garota dormir. Você vai lá
primeiro horário da manhã.
— Porra.
— Que porra? — Tirei o braço do rosto e olhei surpreso pra ele. — Como você sabe
disso?
— Esse babaca.
— Segundo dizem, ele pegou pesado com ela — Podge riu. — Acho que você precisa
tirar a cabeça do buraco e melhorar seu jogo se quiser manter essa garota.
AOIFE
Com a camisa do meu uniforme escolar aberta, e só meu sutiã e calcinha cobrindo
minha dignidade, eu estava em pé na frente do espelho de corpo inteiro no meu quarto
na manhã de quarta-feira, estudando cada centímetro da minha pele, prestando atenção
especial nas partes do meu corpo onde havia mudanças óbvias.
Meus seios estavam enormes, e isso já dizia muito porque eu nunca tinha ficado sem
eles.
Sério, estavam tão cheios e pesados que parecia que eu estava carregando bolas de
boliche no sutiã.
Meus mamilos tinham escurecido cerca de dez tons, e eu tinha veias muito visíveis, bem
azuis, aparecendo nos dois seios.
Nojento.
E aquele pequeno inchaço na minha parte inferior da barriga, aquele que eu tinha
conseguido fingir que era só inchaço até agora, já não era tão pequeno assim. A área da
minha barriga abaixo do umbigo tinha se distendido num pequeno porém firme “pouch”
(pochete, barriguinha).
Eu chamava de “pouch” porque me recusava a usar a palavra com B que rimava com
“pump”.
As mudanças no meu corpo já tinham sido drásticas, e eu previ que ainda tinha mais um
mês, no máximo, antes do mundo inteiro saber.
A gente teria as férias de Páscoa na sexta-feira. Teríamos duas semanas de folga e uma
enorme parte de mim estava preocupada que eu explodisse nesse tempo e acabasse
voltando pra escola parecendo uma baleia encalhada.
Ugh.
Útero definitivamente era outra palavra que eu odiava, junto com placenta, ductos de
leite, parto, exames de membrana e, pior de todos, coroação.
Lutando com o conceito de um bebê crescendo dentro do meu corpo, e ainda mais com
a ideia dele entalando a cabeça grande e careca e os ombros do tamanho do Joey Lynch
para sair pela minha vagina, eu estremeci violentamente, fazendo uma pequena
dancinha nervosa no lugar, enquanto segurava uma onda de náusea.
Eu estava fuçando minha malinha de maquiagem ruim de reserva, aquela que guardava
todos os produtos rejeitados de kits de beleza que ganhei de aniversário e Natal,
procurando uma paleta de bronzeador, e mentalmente me xingando por não ter
comprado dois de cada produto que uso, quando um par de braços tatuados familiares
apareceu ao redor da minha cintura, me puxando de volta contra um peito ainda mais
familiar.
— Numa escala de um a dez, quão puta da vida você está comigo? — ele perguntou.
— Caralho, Joe — eu engasguei, quase chamando aquilo de mentira, porque quase pulei
da pele, — você não podia usar a porta da frente?
— Por que quebrar um hábito de uma vida? — os lábios dele roçaram meu ouvido
enquanto falava, olhos presos nos meus no espelho à nossa frente. — Eu diria “boas
pernas”, mas isso seria fazer um desserviço ao resto de você.
Liso como o pecado, ele deixou as mãos passearem da minha cintura para os quadris, os
dedos entrando por baixo do tecido de renda da minha calcinha por um instante antes de
deixar a cintura elástica voltar ao lugar, e as mãos retornaram para os quadris.
— Obrigada.
Minhas pálpebras fecharam sem querer; uma reação inevitável ao toque daquele garoto,
e soltei um suspiro trêmulo.
— Onze.
— É. — Os lábios dele roçaram meu pescoço e ele inspirou fundo antes de soltar um
suspiro pesado. — Eu imaginei.
Como um cordeiro indo para o matadouro, eu me apoiei pesado nele, enquanto meu
corpo se deleitava na sensação das mãos dele na minha pele.
— Você não se lembra de nada, né? — perguntei, me virando justo a tempo de receber
o beijo suave que ele deu no canto da minha boca. — O que falamos ontem?
Eu revirei os olhos.
— Ei. — Ele pegou meu rosto entre as mãos, se inclinou perto, olhos verdes claros
presos nos meus. — Eu falo sério. — Esfregando o nariz no meu, ele beijou a ponta e
suspirou. — Desculpa pelo ontem.
— Qual parte?
— É? — Odiando o quanto eu amava a atenção dele e sentindo a cabeça rodar por como
meu corpo desejava desesperadamente seu toque, me apoiei nas mãos dele, me sentindo
completamente fisgada. — Bem, se você vir aquele babaca por aí, diga pra ele que eu
não perdoo.
— Você não devia. — Ele acariciou meu nariz outra vez. — Ouvi dizer que ele é um
desastre.
— É mesmo?
— Então é sorte dele saber usar o pau, hein? — Ele provocou, lábios pairando perto dos
meus, enquanto me pressionava contra o corpo dele. — E os dedos dele. — Meu fôlego
falhou quando a mão dele deslizou por baixo da cintura da minha calcinha. — E a
língua dele.
E assim, eu derreti feito uma tola contra ele, lábios se movendo contra os dele num beijo
que disparou meus hormônios já em ebulição.
Sabendo perfeitamente que ele era tão perigoso para minha mente quanto as drogas
eram para ele, quebrei o beijo antes de me perder ainda mais nele.
Recuando antes de me perder por completo, coloquei as mãos no peito dele para me
equilibrar e disse:
— Por que você está aqui? Pensei que íamos nos encontrar na escola, como sempre.
— Porque eu precisava pedir desculpas — ele explicou, limpando o brilho labial usado
que tinha nos lábios com o polegar, antes de caminhar até a minha janela e escalar para
fora dela.
Alguns segundos se passaram antes que a mochila dele voasse pela janela, seguida do
hurley, capacete e da bolsa de viagem que eu tinha deixado na casa dele.
— Você trouxe meu colar? — perguntei, vendo-o escalar de volta pela janela. — Eu
sinto como se estivesse andando nua sem ele.
Atendendo, joguei o cabelo para cima do pescoço, enquanto ele fechava o fecho.
— Obrigada, stud.
— Hã?
— Você queria falar — ele se apoiou nos cotovelos, parecendo bem íntimo da minha
cama — e bem gostoso também. — Vamos falar.
— Acabar com isso? — Ouvi meu próprio suspiro afoito, incapaz de esconder a quase
histeria ameaçando me dominar.
Ao contrário de ontem, quando ele estava fora de si por sabe-se lá o quê, meu namorado
estava sentado na minha cama, sóbrio, me olhando esperando.
Puta merda.
— Pode esperar — tentei ganhar tempo. — Até o almoço ou depois da escola, talvez?
Depois do trabalho também serve. Ou amanhã. Merda, amanhã também é bom pra mim.
Não precisa ser agora.
— Escuta, eu já sei como essa conversa vai acabar — interrompeu Joey. — Você tem
coisas pra me falar, coisas que eu mereço ouvir, então manda logo.
— Mandar? — A confusão me invadiu. — Joe, acho que não estamos na mesma página.
Drogas.
E enquanto o comportamento dele ontem certamente precisava ser resolvido, não era o
problema mais fodido do dia.
Porque, por mais ridículo que parecesse, tínhamos um problema ainda maior.
— Quando você diz que está no controle — falei cautelosamente — o que você quer
dizer é que teve uma escorregada momentânea de sanidade por algumas semanas, mas
voltou a si, e nunca vai fazer isso de novo, certo?
Diz.
Eu tô no controle aqui.
Devastação me inundou.
— Tá tudo bem.
Dor.
— Diz que vai parar, Joe. Melhor ainda; diz que já parou.
— Já te disse que tô bem — respondeu, tom ríspido, levantando-se, indo para o outro
lado do quarto e fingindo inspecionar uma das portas do meu armário. — Para de se
preocupar, tá? Tá tudo bem.
— Molloy.
— Não. — Balancei a cabeça. — Não me chame de Molloy, idiota. Você não vai se
safar dessa com conversa fiada. Eu não estou bem com isso, nunca estive e nunca vou
estar.
— Que tal começar explicando o que te possuía a voltar pra esse caminho? — joguei,
amarga, machucada com as ações dele. — E nem pensa em culpar o que seu pai tentou
fazer comigo, porque eu achei seu estoque de drogas no dia antes disso até acontecer,
Joey.
Ele se tencionou.
— Eu não estava fuçando suas roupas. Estava procurando algo para vestir. Mas mais
importante, por que estavam lá no seu bolso, Joseph?
— Aquela onde eu finjo ser alguém que não sou — ele estalou. — Tudo o que fiz, todas
as mudanças que fiz, foram por você. E aí você se foi, então eu só... — Ele jogou as
mãos pro alto, derrotado. — Parei de lutar contra minha natureza.
— Então, porque estamos passando por uma fase difícil, você achou que podia jogar
fora os últimos três meses?
— Meu pai tentou me foder, Molloy — ele rosnou, voz rouca. — E aos seus olhos eu
pareço com ele, lembra? Eu diria que isso é mais que uma fase difícil.
E lá estava.
A razão por trás de cada decisão errada do meu namorado voltou à tona.
— Eu estava magoado — tentei raciocinar com a parte dele que queria se autodestruir.
— Eu estava com medo. Eu estava em choque. Eu estava fodidamente perdido, Joey. Eu
não quis dizer nada daquilo que falei naquela noite, e você sabe disso, então para de
tentar me fazer sentir mal por isso.
— Eu sei que você não faria — suspirei, passando a mão na testa, enquanto minhas
emoções continuavam a me derrubar. — Eu sei, Joe.
— Não estou tentando fazer você se sentir mal — continuou. — Mas você pediu uma
explicação e eu estou tentando te dar.
— Bem, claramente eu não terminei com você — disse, tentando que ele me ouvisse. —
Seu pai fez uma coisa terrível, isso é verdade, mas não é você. Nada mudou pra gente,
ok?
— Eu não sabia disso. — As palavras dele mal saíram enquanto engolia seco. — Eu não
sabia.
— Agora você sabe — insisti. — Então precisa parar com isso. Entendeu? Preciso que
você se reergue e continue tentando.
— Vê, isso não é suficiente pra mim, Joe — ouvi minha voz responder. — Eu não
quero sua garantia. Eu quero sua sobriedade.
— Quero agora.
Pânico me consumiu.
— Por quê?
— Porque eu não quero mentir pra você — ele rosnou. — Prometo que não vai ser
como antes.
— Sim, e quem você é é muito melhor do que o cara na minha frente, soltando
desculpas para fazer algo que quase o destruiu antes — estalei, mãos na cintura, olhando
para ele. — Você é um homem melhor que isso, Joey Lynch.
— Bem, você machucou — rebati, voz grossa. — Você está me machucando, Joe.
— Desculpa.
— Mas?
— Sim, Joey, é. — As lágrimas enchiam meus olhos. — E você está me pedindo pra
virar a cara de novo. — Minha voz quebrou e puxei um suspiro trêmulo. — Eu fiz isso
antes e quase te perdi e me quebrei.
OS PÁSSAROS, AS ABELHAS E O DUB
JOEY
— O QUE você está fazendo no meu quarto? — Shannon perguntou quando entrou no
quarto dela na hora do almoço, numa quarta-feira à tarde, quebrando o silêncio raro que
eu estava aproveitando, com todo mundo fora de casa.
— Ah. — Ela largou a bolsa escolar no chão do quarto, tirou os sapatos com o pé e foi
até a cama. — Dá uma encostada.
— Como você pode falar isso? — Ela me cutucou na lateral com o cotovelo magro,
imitando: — É hora do almoço, Joey. O que você está fazendo em casa?
— Com a Aoife?
— Isso.
— Isso é maconha?
— Não.
Puxando outra tragada profunda da fumaça, segurei um tempo antes de soltar devagar.
— Sim.
— Maconheiro.
— Preguiçoso.
— Então, o que você fez? — Ela perguntou, afastando a fumaça com a mão. — Pra ser
mandado pra pior?
Ela engoliu o ar antes que eu pudesse responder e sussurrou: — Por favor, me diz que
você não traiu ela? Porque aquela garota é incrível e você precisa casar com ela.
— Que porra? — Eu estreitei os olhos e soltei uma nuvem de fumaça. — Não, Jesus, eu
não traí ela. Eu não trairia, Shan.
— Desculpa. — Ela deu de ombros, meio sem graça. — É que, quando eu estava no
BCS, eu ouvia muito as meninas no banheiro falando sobre você e suas, uh, habilidades
no quarto.
— Sabe, dizem que os caras falam, mas é o contrário — reclamei. — As meninas falam.
— Sabe, a maior parte do que dizem é pura besteira — acrescentei, meio azedo. — Eu
só estive no quarto de uma garota.
— Como foi no quarto do Mister Rugby na outra semana? — Ela perguntou, com um
sorriso maroto. — Aposto que essa ida repentina pra casa tem a ver com ele.
— O quê?
Ela se enroscou no meu braço e suspirou pesadamente. — Eu não vim pra casa mais
cedo por causa do Johnny.
— Bella Wilkinson.
— Não.
— Chamou você de nomes ou algo assim?
Ela se enrijeceu.
Ela assentiu.
— Quais nomes?
— Puta que pariu — eu rosnei, dando outra tragada profunda antes de me sentar,
sentindo a raiva crescer. — Você sabe porque essas meninas te atacam, né?
— Porque elas se sentem ameaçadas por você — corrigi. — Porque a bondade brilha
em você, e elas jogam merda pra tentar apagar esse brilho. Não deixa elas vencerem,
Shan.
— Como tá o BCS pra você? — ela perguntou, claramente tentando tirar o foco dela e
jogar a conversa pra mim.
— Escola é escola, Shan — respondi, olhando pela janela. — Mesma merda, dia
diferente.
— Você sabe o motivo real de eu estar em casa no meio do dia — respondeu. — Qual é
o seu motivo real, Joe?
— Por que você não fala comigo, Joe? — ela perguntou, com um tom de tristeza. — Eu
sempre confio em você, mas você nunca faz o mesmo comigo.
— Você me conhece, garota — respondi, levantando da cama dela e indo até a janela.
Virei e sorri pra ela. — Eu sou à prova de balas.
— Depende.
— Promete, Joe.
— Tá, eu prometo.
Caralho.
— Ok — respondi devagar, tentando navegar por esse novo território que minha
irmãzinha tinha me jogado de supetão. Essa não era uma conversa que ela devia ter com
o irmão mais velho. Era conversa de irmã mais velha. Ou de mãe e filha. Em vez disso,
ela estava presa comigo. Foda. Minha. Vida. Senti meu barato indo embora
rapidamente. — Foi só isso que você fez com ele?
Por favor, que sim. Por favor, Jesus, não me conta mais nada.
— Quando?
— No quarto dele.
— Mas ele não me beijou de volta — ela disparou, torcendo as mãos. — E eu me sinto
tão envergonhada com tudo isso, Joe.
— Ele disse que não seria justo começar algo comigo porque ele vai embora em breve.
— Ela roeu o lábio, parecendo muito jovem e insegura. — Mas aí ele veio aqui depois
da escola ontem.
— Uh-huh.
Ela suspirou com saudade e segurou o peito. — Foi o melhor abraço que já tive.
Agora eu ri.
— Joey!
— Sim. — Ela deu outro aceno incerto e deu de ombros, meio sem jeito. — Mas eu
queria que fosse mais do que um abraço porque eu gosto muito dele, Joe. E aí, hoje no
almoço, ele literalmente socou o namorado da Bella na cara porque ela estava falando
aquelas coisas maldosas sobre mim. Mas isso me assusta porque você sabe como eu me
sinto sobre violência, mas eu não tenho medo dele assim, sabe? Ele é uma boa pessoa.
Quer dizer, ele é uma pessoa realmente, realmente boa. Excelente, na verdade. Eu
consigo perceber. E eu gosto dele, Joe. Eu gosto tanto que é difícil respirar quando ele
está perto. Mas eu só e ele não e eu não ah Deus, me ajuda!
Sacudindo a cabeça, eu me afundei na cama dela e suspirei. — Você tinha que escolher
o irlandês internacional?
— Não peça desculpas, Shan — ri, massageando o maxilar. — Você não pode controlar
quem você gosta. E, pra falar a verdade, acho que ele gosta de você também, garota.
— Você tá me perguntando?
— Só leva o tempo que precisar. Seja amigo dele e deixa acontecer naturalmente —
decidi finalmente, sabendo que era uma resposta muito clichê, mas sem vontade de dar
dicas pra minha irmãzinha sobre como seduzir um cara. — Se acontecer, aconteceu. Se
não, tudo bem também. E, por favor, pelo amor de Cristo, não peça conselho pra Aoife
— acrescentei, estremecendo só de pensar nas dicas que o Molloy daria pra ela. —
Você tem só dezesseis anos, Shan. Isso tudo é novo pra você. Você precisa lidar com
essa coisa com o Kavanagh no seu próprio ritmo e de ninguém mais.
— Eu consigo fazer isso — ela sussurrou, olhando pra mim como se eu tivesse dado um
conselho sagrado. — Obrigada, Joe.
— Sempre.
— O quê?
— Quantos anos você tinha? — Ela fez uma careta antes de acrescentar — Quando
você, sabe...
— Eu, ah...
— A mamãe já teve a conversa com você, né? — insisti, com as mãos suando.
— Mas não faça isso — acrescentei depois de uma pausa. — Não aprenda na marra.
— Na marra?
Jesus Cristo. — Então você sabe como tudo funciona, né? — perguntei, me mexendo
desconfortável. — Sexo, intimidade, anticoncepcional e toda essa merda?
— Uh, sim? — Ela exalou um suspiro trêmulo, assentindo incerta. — Eu sei o
suficiente.
— Sabe mesmo?
Ah, merda.
— Tipo o quê?
— Eu não sei, Shan — gaguejei. — Conselho? Você tem três minutos pra perguntar o
que quiser e aí eu vou embora e essa conversa nunca mais vai acontecer.
— Sim, a primeira vez pode doer para a garota — respondi, resistindo à vontade de me
encolher no canto do quarto dela e balançar. — Mas não deveria doer depois, e se doer,
é porque ele tá fazendo errado.
— Uh, sim, algumas meninas sangram na primeira vez, mas não acontece com todas.
— Por quê?
— A cabeça?
— Acaba?
— Ah. — As bochechas dela ficaram vermelhas. — E se o dele, sabe, for muito grande?
E não couber, tipo, sabe?
— Coube. — Deixei a cabeça cair nas mãos e gemi. — Sempre coube.
— Mas como?
— Mágica.
— Joey.
— Então tá. Que bom ouvir isso. — Reprimindo um arrepio, continuei rápido. — Jesus,
não acredito que tô dizendo isso, mas o preliminar ajuda muito.
— Preliminar?
— Sim, Shan.
— Tipo toque?
Bati as mãos nos joelhos, levantei e andei pelo quarto. — Fica no abraço mesmo.
Abraço é perfeito. Abraço já é mais que suficiente até você fazer vinte anos.
— Muito jovem.
— Quão jovem?
Os olhos azuis da minha irmã se abriram. — Então por que você foi até o fim?
Sacudindo a cabeça, tentei lembrar as palavras certas para responder, mas nada veio.
— Eu não sei, Shan. — Encolhido, sentei na cama ao lado dela e apoiei os cotovelos nas
coxas. — Acho que...
— Acho que eu estava — Soltei um suspiro forçado, lutando com as memórias turvas,
tentando entender uma noite que nunca fez sentido pra mim. — Acho que eu não estava
no meu próprio corpo, se é que isso faz sentido?
— De que jeito?
— Eu estava chapado pra caralho naquela noite, e quero dizer, eu até meio que lembro
que aconteceu — admiti, estalando os dedos juntos. — Mas não lembro como ou por
que aconteceu.
— Eu não entendo — ela sussurrou, virando o corpo para me encarar. — Você está
dizendo que...
Engolindo em seco, minha irmãzinha segurou minha mão e apertou. — Você não quis
que isso acontecesse, Joe?
— Eu não sei, Shan — me forcei a admitir em voz alta pela primeira vez. — Quero
dizer, eu sei que eu gostava da garota com quem aconteceu, e sei que eu não fiquei
chateado depois, mas eu simplesmente não lembro como aconteceu.
— Joe. — A mão dela apertou a minha. — Isso soa como se você não tivesse
consentido.
— Talvez — murmurei, coçando a cabeça. — Mas eu devia ter gostado porque eu voltei
lá com ela várias vezes ao longo dos anos. Ela era meio que uma amiga minha na época.
— Não importa se você fez isso mil vezes com mil garotas — Shan disse rouca. —
Vocês têm que consentir toda vez, Joe.
— Jesus — murmurei, balançando a cabeça. — Como essa conversa ficou tão pesada?
— A Aoife sabe?
— Sabe o quê?
— Sobre o que aconteceu na sua primeira vez?
— Não, porque nada aconteceu comigo, Shannon — fechei o assunto rapidamente antes
que fosse pra um lugar que minha mente não queria visitar. — Eu fiquei chapado, levei,
superei e quando fiquei chapado de novo, levei de novo. Rince and repeat. Esse era meu
mantra. Então sim, eu fui muito jovem e irresponsável com meu corpo — admiti,
lançando um olhar duro pra ela. — Não cometa meus erros, Shan. Não se entregue pra
primeira pessoa que te der um pouco de carinho. Vai com calma. Prometo que a pessoa
certa vale a espera, tá?
— Para, tá? — Irritado, levantei e fui até a porta dela. — Não me faça vítima, Shan.
Essa não é a narrativa da minha história.
— Você queria que a Aoife fosse sua primeira? — ela mudou o assunto agradecida.
— Todo dia — admiti com um encolher de ombros. — É uma merda saber que eu
desperdicei algo que significa tanto com a pessoa certa. É pior ainda saber que ela sabe
disso.
— Eu não estou falando da Aoife, Shan — respondi. — Um cara tem limites, sabe?
Pergunte o que quiser da minha vida sexual, mas não da minha namorada, tá?
— E compatibilidade.
— E amizade.
— E lealdade.
— Exatamente.
— Uau — Shannon suspirou. — Você é bem doce por baixo dessa casca cheia de
espinhos, não é?
— Eu tô com fome por baixo dessa casca cheia de espinhos — murmurei, desesperado
pra fugir do assunto dos pássaros e das abelhas. — Quer fazer algo pra seu irmão
favorito comer antes dele ir trabalhar?
— Ok. — Ela suspirou pesada, levantou da cama e veio até mim, envolvendo os braços
magros na minha cintura. — Mas só porque você é meu irmão favorito.
VOCÊ NÃO PODE ME DEIXAR
AOIFE
Eu sabia que ele estava à beira de um problema de novo, e me recusava a deixá-lo cair
daquela vez.
O fato de que ele não lembrava uma palavra da conversa que tivemos ontem, quando eu
me abri toda, era horrível.
Eu não conseguia explicar como foi difícil para mim falar aquilo, e ele simplesmente
não ouviu.
Saber que eu estava carregando o filho dele, enquanto ele brincava com a saúde, era
ainda mais assustador.
— Eu não vou fazer isso de novo, Joe — eu disse. — Eu não vou deixar você fazer isso
de novo.
— Deixar eu? — ele cuspiu as palavras como se fossem um insulto. — Você não tem o
direito de deixar eu fazer merda, Aoif. Eu faço o que eu quiser.
— Uh-huh, claro, babaca — eu zombei, aumentando o volume do controle da TV. —
Aliás, eu joguei seu estoque fora.
Ele estreitou os olhos pra mim. — Eu não tenho estoque.
— Não tem? — eu estreitei os olhos de volta. — Então aquelas pílulas na frente do
bolso da sua mochila são de quem?
— Você vasculhou minha mochila?
— Sim. — Sorri doce. — Com certeza vasculhei.
— Porra. — Ele murmurou, passando a mão no rosto. — Cadê o saquinho, Molloy?
— O saquinho está na minha lixeira. O conteúdo do saquinho está a caminho do mar.
— Você não jogou minhas pílulas fora, sério?
— Joguei, e com certeza, gostoso.
— Jesus Cristo. Você sabe quanto custam essas merdas pra mim? — Sentando direito,
ele caiu com a cabeça nas mãos e mordeu o grito que queria soltar. — Porra, Aoif, eu te
disse que eu tenho tudo sob controle.
— E eu te disse que não vou deixar você fazer isso de novo.
— Eu tô bem.
— E eu vou garantir que você fique bem.
— Isso é ridículo — ele resmungou, se virando pra me encarar. — Você sabe que
nenhum outro cara aceitaria isso da namorada dele.
— Que coisa exatamente? — Joguei o controle na cama e sentei direito, encarando ele.
— A parte onde eu tento manter você vivo?
— Eu não vou morrer.
— Você pode morrer— — Minha voz falhou e eu puxei um suspiro forte, tentando
controlar a expressão enquanto o encarava firme. — Eu te amo.
— Eu sei. — A emoção brilhou nos olhos dele e ele baixou a cabeça. — Eu também te
amo.
— Não. Você não entende. Você é o amor da minha vida — falei com firmeza,
segurando o queixo dele e forçando ele a me olhar. — O que eu sinto por você? O
quanto eu te amo profundamente? É uma loucura, Joe. Então, sim, eu vou fazer a coisa
certa por você toda vez, mesmo que isso te irrite, porque eu quero você aqui comigo. Na
Terra. Por muito tempo.
— Eu não vou a lugar nenhum — ele sussurrou, segurando minha mão na dele. — Eu
nunca vou te deixar, Molloy.
— Tá vendo? Eu sei que você acredita nisso — respondi, com a voz embargada. — Mas
toda vez que você cheirar uma linha ou tomar uma pílula, você está brincando de roleta
russa com a sua vida e com o meu coração.
FURACÃO MOLLOY
JOEY
A raiva que emanava da garota no banco do motorista me assegurava que eu não só
havia ganho residência permanente na sua “casinha de cachorro”, mas que também
havia conquistado o título de rei das merdas.
Quando chegamos à escola na manhã de quinta-feira, a tensão silenciosa que crescia
entre nós era insuportável.
Ambos sem vontade de ceder um centímetro, deixei que ela ficasse com a raiva dela,
enquanto ela me deixava cozinhar na minha culpa.
Depois da quarta tentativa patética dela de dar ré numa vaga apertada, dessa vez quase
arrancando o para-choque do carro ao lado, Molloy soltou um rosnado furioso. Ela
puxou o freio de mão, colocou a alavanca de câmbio no ponto morto e desceu do carro,
deixando-o no meio da faixa de trânsito.
Sem dizer uma palavra, saí do carro e fui para o lado do motorista, enquanto Molloy
cruzava os braços sobre o peito, batia o pé impacientemente e me lançava um olhar
carregado de tempestade.
Revertendo o carro para a vaga que ela queria, desliguei o motor, desci de novo e fui até
o porta-malas.
Puxando-o, peguei nossas duas mochilas e joguei-as sobre meus ombros antes de
alcançar meu bastão de hurling e capacete.
Fechando com força o porta-malas, tranquei o carro de novo e joguei as chaves para ela.
Pegando-as no ar, ela as guardou no bolso e, com o nariz empinado, caminhou até mim
e puxou a mochila do meu ombro.
— Beleza.
— Faça o que quiser.
Ergui uma sobrancelha e assisti enquanto Molloy pendurava a mochila no ombro e
desfilava em direção à entrada principal, mantendo pelo menos três metros de distância
entre nós e me presenteando com uma vista gloriosa de seu bumbum rosado, enquanto
seus quadris balançavam com raiva.
— Lynchy? — ouvi Rambo chamar, tirando minha atenção daquela bunda fantástica.
Virei para vê-lo acenando para que eu fosse até ele, ao lado do ginásio, com fumaça
subindo de dentro da manga do seu suéter escolar.
— Vai vir, cara?
Fiz um aceno curto com a cabeça e desviei do caminho, indo em direção ao meu amigo,
quando uma mão agarrou a minha e me fez parar.
Me virei para ver Molloy parada ali, com minha mão entre as dela, enquanto ela olhava
para mim com raiva e balançava a cabeça.
Ainda se recusando a falar comigo, mas sem vontade de ir embora, ficou ali me
encarando, me dando um ultimato com os olhos.
— Vai em frente — parecia desafiar mentalmente — vê o que acontece.
Irritado pra caralho, olhei para baixo para ela, igualmente relutante em ser o primeiro a
ceder e falar.
Soltando minha mão, ela me lançou um último olhar duro antes de recuar alguns passos,
e então, com o nariz empinado sexy pra caralho, virou nos calcanhares e se foi.
— Beleza.
Soltando um rosnado frustrado, virei nos calcanhares e caminhei em direção ao ginásio,
mas consegui andar só uns cinco passos antes de virar de novo.
— Maldição!
Ouvi Rambo e os caras rindo alto e fazendo aquele som obrigatório de “mimimi”
enquanto eu seguia atrás da minha namorada feito um cachorro.
— Jesus Cristo.
Quando a alcancei na porta, ela não olhou para trás, deslizou a mochila do ombro e
estendeu para mim.
Com a mandíbula trêmula, peguei a mochila a contragosto e joguei-a no meu ombro.
Ela limpou a garganta, cruzou os braços sobre o peito e inclinou o queixo para a porta.
Engolindo o rosnado, passei por ela e segurei a porta aberta.
— Hm — resmungou altiva antes de entrar com passo confiante.
Resistindo à vontade de bater a porta na cara dela, cerrei os dentes e segui a garota que
tinha firme controle sobre meu coração — e minhas bolas.
— Bem, se ele não for bom pra ela, vai ter fila esperando para tomar o lugar dele. —
Ele bateu uma mão no meu ombro. — Porque odeio te dizer isso, Lynchy, mas essa sua
irmã é um espetáculo.
— Jesus Cristo, — eu gemei, incapaz de parar o arrepio que me percorreu. — Por que
você tem que ferrar a minha vida dizendo essas merdas?
— O quê? — ele riu. — É verdade. Todos pensamos isso. Nenhum de nós jamais tentou
nada por respeito a você.
— Ela é minha irmãzinha, seu pervertido do caralho.
— Ela não é mais bebê, cara, — ele disse com um sorriso. — Shannon Lynch tem
dezesseis anos e parece um sonho molhado.
— Eu vou te matar.
— Só tô dizendo.
— Então não diga. — Eu tremi de novo. — Nem pense nisso. Jesus.
— Ela tem uns olhos azuis épicos.
— Eu tenho um gancho direito épico.
— Então guarda isso pro cara que realmente está pegando sua irmã, não pro cara que só
a admira de longe, — ele riu.
— Ele não tá pegando ela.
— Ainda não.
— Para com isso.
Enfrentando a tempestade que era o Furacão Molloy, consegui ficar fora do radar dela e
longe de encrenca nas primeiras quatro aulas. Até a dupla de matemática antes do
intervalo, quando não só tive que encarar a fúria dela, mas fazer isso sentado ao lado
dela.
Com cara de poucos amigos, Molloy entrou na aula com cinco minutos de atraso, o que
era estranho nela, enquanto contava uma história para a professora dizendo que
precisava ir ao banheiro.
Com todos os olhos nela, e suas pernas longas à mostra para todo babaca de olho nela,
que, sejamos honestos, era a maior parte da classe, minha namorada desfilou pelo
corredor até nossa carteira, com os peitos estufados e os quadris balançando.
Sabe, essa era a coisa sobre Molloy — e uma das primeiras coisas que aprendi sobre ela
— quando ela ficava puta, ela ficava sexy.
Isso não quer dizer que ela não fosse ridiculamente sexy todos os dias. Era só que ela
nunca estava mais consciente da sua supremacia feminina do que quando tinha algo a
provar.
Tipo agora, por exemplo, ela estava me deixando claro que eu estava no topo da lista
negra dela, e ela tinha muitas opções se eu não me mexesse e melhorasse meu jogo.
— Molloy, — decidi quebrar o silêncio dizendo quando ela sentou ao meu lado. —
Belo par de pernas.
Seus lábios se curvaram relutantemente para cima, mas ela rapidamente endureceu as
feições, segurando a carranca enquanto arrumava os livros e o estojo de lápis na nossa
carteira.
Se alguém tinha o direito de estar puto, esse alguém era eu, o desgraçado azarado cujo
estoque ela tinha jogado na privada na noite anterior.
Dando de ombros para a implicância dela, me recostei na carteira, lápis na mão, e olhei
pela janela, vendo a chuva de março bater contra o vidro.
Perdido em meus pensamentos, me deixei mergulhar na bagunça que era minha vida,
me perguntando como diabos a garota sentada ao meu lado ainda estava, bem, ao meu
lado.
Sim, deixando o lance do estoque de lado, eu sabia que eu estava errado.
E do lado errado.
De novo.
De novo.
Eu a tinha desapontado.
De novo.
Nada na nossa relação estava mais a meu favor, e honestamente, além da minha
habilidade em usar meu pau bem, eu não via motivo algum para estar comigo.
Mas lá estava ela, puta da vida, vestindo as luvas de boxe para mais uma rodada
comigo.
Eu não sabia como Molloy podia me amar depois do que ele fez com ela, muito menos
querer estar comigo. Eu certamente não suportava me olhar no espelho.
— Joseph, você precisa de ajuda com algo? — nossa professora perguntou, tirando
minha atenção da janela e focando na frente da sala.
— Página 457, — ela disse com um suspiro cansado. — Olhos no livro, por favor.
Revirando os olhos, voltei minha atenção para o livro da Molloy aberto na nossa
carteira, o mesmo que eu usava desde o começo do ano, e franzi a testa quando meu
olhar caiu num fone de ouvido solitário.
O fio conectado a ele ia até o MP3 que equilibrava no colo dela, debaixo da carteira,
enquanto o outro fone pendia da orelha direita dela.
Peguei o fone e discretamente coloquei no meu ouvido esquerdo, ouvindo “She Hates
Me” do Puddle of Mudd entrar no meu ouvido.
Lindo.
Virando a página do caderno, observei Molloy pairar sobre a folha e rabiscar algo antes
de empurrar o caderno para mim.
— Você é um babaca.
Soltando um suspiro pesado, peguei o lápis que estava atrás da minha orelha e
rapidamente escrevi uma resposta.
— Então, você está me escrevendo bilhetes e tocando músicas de amor pra mim. Isso
significa que eu saí da “casinha”?
Ela franziu as sobrancelhas lendo minha pergunta e rabiscar uma resposta furiosa.
— Não, idiota, você não saiu da casinha. Considere essa nota minha forma de te dar um
osso. Quanto a músicas de amor? Ha! Você devia ser tão sortudo.
— AOIFE! JOSEPH! — Uma mão apareceu entre nós e puxou o fio dos fones,
arrancando o MP3 player. A Srta. Murphy ficou na frente da nossa carteira, MP3 player
na mão. — O que eu já disse para vocês dois sobre se distraírem um com o outro na
minha sala?
— Fazer isso em silêncio? — Molloy respondeu com um daqueles sorrisos que ela
sempre usava para se safar. — O que a gente tava fazendo.
— Não fazer isso de jeito nenhum, — corrigiu a Srta. Murphy, com olhar severo. —
Sério, vocês dois já são grandes o bastante para saber que trazer música para a minha
aula não é permitido. Esse é o ano do certificado de conclusão de vocês, — ela suspirou
cansada. — Seus últimos meses para revisar o máximo que puderem e passar nas
provas.
O olhar dela se desviou para Casey, na carteira à nossa frente, que deu de ombros
confuso e fez um gesto com a boca dizendo ‘Juro que não fui eu’ para minha namorada.
— Kev? — ela disse, com dificuldade, a dor nos olhos dela me tocou. — O Kev contou
pra você?
— Não, — ela engasgou, balançando a cabeça. — Não, não, não, não. — Ela abaixou a
cabeça nas mãos. — Isso não tá acontecendo.
— Eu me livrei de você, não foi? Que clichê de merda você acabou sendo, — ele
zombou. — Mandou bem pra caralho em destruir sua vida, Aoife.
— Um clichê?
— Boa em multiplicar?
Senti o ar sair dos meus pulmões num suspiro. — Que. Porra. É essa?
— Eu não sei, eu, uh — exalando um suspiro áspero, Molloy engoliu um soluço. — Ai,
Jesus.
Meu coração bateu forte no peito enquanto olhava para a garota sentada do meu lado.
— Molloy.
— Molloy.
— Aoife!
— Parece que ele tá com dificuldade pra fazer a conta, — Danielle riu, entrando na
brincadeira. — Deixa eu ajudar você, Joe, — ela continuou, toda feliz em dar sua
opinião. — Seu pênis, mais a vagina dela, dá um bebê.
Com exceção de alguns suspiros, dava para ouvir uma agulha cair.
Enquanto isso, meu coração batia forte no peito, enquanto meu mundo inteiro
desmoronava ao meu redor.
— Eu te disse que você não chegaria na formatura sem um bebê na barriga, — Danielle
zombou. — Parece que eu tava certa.
— Ai, meu Deus. — Engasgando um soluço doloroso, Molloy empurrou a cadeira para
trás e saiu correndo da carteira, indo em direção à porta da sala mais rápido do que eu
conseguia entender o que estava acontecendo.
— Aoife! — A Srta. Murphy chamou atrás dela, antes de lançar um olhar horrorizado e
arregalado para mim. — Eu não sabia.
— Cala a boca, Paul! — A Srta. Murphy rosnou, com o rosto vermelho, enquanto
continuava me encarando, esperando uma resposta. — Joseph, me desculpe. Eu não
sabia.
Incapaz de entender uma palavra do que ela dizia, levantei e saí da sala, atônito por
ainda conseguir me manter em pé, ignorando os cochichos e rumores que certamente já
estavam começando a se espalhar.
Meu corpo todo estava em chamas, abalado por um tremor ansioso, quando cheguei no
corredor e meus olhos encontraram Molloy.
Meus pés vacilaram ao vê-la encostada na parede em frente à porta da sala, no corredor
vazio, claramente me esperando.
— Joe.
— O que tá acontecendo?
— Eu sinto muito — engolindo um soluço, ela olhou para mim com os olhos cheios de
lágrimas. — Desculpa.
— Desculpa por quê? — eu não reconhecia minha própria voz, enquanto a observava
me olhar, sentindo-me inquieto e tenso. — Que porra está acontecendo aqui? Do que
eles estão falando?
— Eu tenho tentado te contar, — ela falou com dificuldade, enquanto ajeitava o cabelo
atrás da orelha. — Eu te contei, mas você — sua voz quebrou — esqueceu. — Ela
puxou várias respirações trêmulas antes de tentar de novo — Eu sinto muito, Joe. —
Segurando o rosto entre as mãos, balançou a cabeça e engoliu um soluço. — Por favor,
não me odeie.
— Para de pedir desculpa, Molloy, — eu rebati, levantando a mão trêmula enquanto
resistia à vontade de gritar. — Eu não te odeio, mas você precisa simplesmente me
contar o que está acontecendo aqui.
— Eu estou grávida.
— Grávida. — Como eu consegui falar essa palavra, nunca saberei, mas falei, mantendo
o tom calmo. — Você está grávida.
— Grávida.
Jesus Cristo.
Franzi a testa enquanto uma onda de puro e cru terror percorria minhas veias. — Como?
Ela me olhou como quem diz “como você acha?”.
— Eu sei, e nunca pulei ou esqueci um dia, juro, — Molloy implorou, ainda com a mão
protegendo o rosto. — Mas foi naquela festa na casa. Aquela que aqueles caras do
Tommen fizeram. — Ela estremeceu violentamente antes de acrescentar: — Passei a
noite toda vomitando. E na noite seguinte também, lembra? Depois que pedimos comida
chinesa enquanto cuidávamos do Sean? Lembra que fiquei mal por horas? Deve ter
atrapalhado o controle de natalidade.
— A festa do Tommen? — Meu coração batia forte na caixa torácica. — Jesus Cristo,
Aoife. Isso foi meses atrás.
— Joe.
— Me fala.
— Uns três meses e meio.
— Três meses e meio! — Meus olhos se arregalaram, e o pânico que eu sentia
multiplicou em três meses e meio. — Três meses e meio de gravidez e eu só tô sabendo
agora?
— Eu tava com medo, tá? — ela chorou defensivamente. — E só descobri algumas
semanas atrás. Tentei te contar um milhão de vezes, juro, mas eu tava com muito medo,
Joe. Eu tava apavorada de te perder de novo. Você tava indo tão bem, e eu não queria
arriscar isso. Mas aí tudo o que aconteceu com seu pai aconteceu e você perdeu o
controle de novo—
— Ai, meu Deus. — Meu estômago revirou e precisei apertar a mão no peito para me
controlar. — Ele fez isso com você enquanto você tava grávida do meu bebê?
— Joe, é—
— Ele fez isso com você. — Coração martelando no peito, eu consegui dizer: — Ele te
machucou quando você estava... Jesus Cristo, você está...
— Quando eu finalmente tive coragem de te contar, você nem tava presente.
— O quê? — perguntei rouco. — Quando?
— Outro dia, — ela admitiu quebrada. — Mas você tava chapado.
Meu coração disparou no peito, enquanto tentava controlar meu pânico, e flashes de
uma conversa que não conseguia lembrar passaram pela minha mente.
Eu sabia que precisava ir atrás dela, mas meus pés não colaboraram.
Consegui dar dois passos na direção que ela foi e desabei sentado, completamente
abalado.
Grávida.
Ela estava grávida.
De um bebê.
Do meu bebê.
Levanta essa porra e cuida dela.
Para de pensar em você, seu covarde filho da puta.
Nem pense em fingir que você não se importa.
É seu e você se importa.
Ela é sua e você se importa.
Importa sim, e você se importa.