Trauma e Amor: A Luta de Joey
Trauma e Amor: A Luta de Joey
APENAS RESPIRA
JOEY
— Joe? —
Eu sentia as mãos dela no meu rosto.
— Joey, bebê? —
O cheiro dela estava por toda parte.
— Respira, bebê. —
As mãos dela estavam no meu rosto.
— Apenas respira. —
Eu não sentia meu corpo.
Não sentia nada.
Sabia que estava tentando me sentar. Sentia minhas pernas chutando os cobertores longe da
cintura, mas minha cabeça não obedecia.
Meu cérebro não funcionava.
Tudo estava completamente fodido.
— Molloy. — Minha voz estava arrastada. Meus lábios roçaram o pescoço dela enquanto
falava. — Onde ela está?
— Ela está bem. — Ela me puxou mais para perto, me envolvendo num casulo apertado de
calor e aconchego. — Shannon está bem, Joe. Ela saiu da cirurgia e tudo correu ótimo. Os
meninos também estão bem. Está tudo bem, bebê.
Caindo para frente, deixei meu corpo se apoiar na minha namorada, sabendo que não devia
colocar meu peso nela, mas incapaz de me controlar.
— O bebê... —
— O bebê está bem. — Os lábios dela estavam na minha testa. — Nós duas estamos bem.
Ela era a única coisa que parecia real naquele momento.
Ela estava aqui e era real.
Eu podia sentir seu cheiro, tocar nela, sentir ela.
Só ela.
— Que horas são? —
— Deve ser umas seis e meia. —
— Que dia é? —
— É domingo de manhã, Joe.
— Minha cabeça... — gemei, enterrando o rosto no pescoço dela quando uma dor me
atravessou. — Meus olhos...
— Shh, está tudo bem. Não tente se levantar. — Senti os lábios dela na minha têmpora e
depois a mão no fundo da minha cabeça, dedos acariciando suavemente meu couro cabeludo.
— Apenas fique na maca. Eu estou com você, Joe.
A maca?
Eu não lembrava de ter entrado numa maca para começar.
— Onde eu estou?
— Você está numa cabine privada na emergência. — Outro beijo na têmpora. — Você está
inconstante há um tempo.
— Estou? —
— Uh-huh. Você fez vários exames. Uma tomografia, alguns raios-x e uma ressonância. — A
respiração dela falhou e pude ouvir o choro que tentava segurar. — Mas você vai ficar bem,
tá? Eu não vou deixar mais nada acontecer com você.
— Não chore, Molloy. — Enfiei o rosto no pescoço dela, tentei erguer as mãos para confortá-
la, mas elas estavam tão pesadas que só consegui passar vagamente em volta da cintura dela.
— Você sabe que me mata quando chora.
— Eu não estou chorando. — Fungando, ela deu outro beijo na minha cabeça antes de segurar
meu rosto contra o peito dela. — Está tudo bem, Joe.
— Shannon?
— Ela está bem — Molloy apressou-se em acalmar. — Já te disse isso, lembra?
Não.
Eu não lembrava de porra nenhuma.
— Eu te amo — arrastei as palavras. — Isso é tudo o que eu lembro.
— Eu também te amo — respondeu, a voz grossa de emoção. — Mais do que você jamais vai
saber.
— Porra, meus olhos — gemei, fazendo careta quando a claridade ao redor ficou forte demais.
— Cadê o Seany?
— Ele está em casa com a Vovó Murphy. — Outro beijo. — O Ollie e o Tadhg também. Todos
estão bem.
— O Tadhg estava, ah... — Balancei a cabeça, segurando a cintura dela, precisando me agarrar
nela naquele momento porque meu corpo parecia desmoronar. — Ele tinha uma faca.
— Ele não está machucado, Joe — ela sussurrou. — Shh, bebê. Não diga mais nada, tá? Espera
até você se sentir melhor. A gente conversa depois, tá?
Assentindo fraco, gemi quando a pressão na minha cabeça ficou insuportável. — Eu estou
usando calças?
— Não, bebê, não está. Você está só de cueca e com o avental do hospital. Eles tiveram que
tirar suas roupas para a ressonância.
— Ah, porra.
— Por quê?
— Eu tenho um pouco de maconha no bolso da calça — murmurei sonolento. — Eu podia
muito bem fumar um.
— Ah, Joe. — Uma risada quebrada escapou dela. — Só você para pensar em ficar chapado
nessa condição.
— Posso entrar? — uma voz estranha perguntou, e de repente fomos banhados por uma luz
anormal quando o som de uma cortina se movendo encheu meus ouvidos. — Você é parente
mais próximo?
— Sim, sou.
— A mãe dele ou um responsável está por perto?
— Não. Só eu.
— Posso voltar quando a mãe dele—
— Ele tem mais de dezoito — ouvi ela dizer. — Estou registrada como parente mais próximo
nos papéis dele. Ele é o pai do meu bebê. Somos uma família. — Segurando meu rosto com as
mãos, ela levantou meu rosto para o dela. — Você consegue me ver, Joe?
Piscando da dor que as luzes fortes me causavam, forcei minha atenção para o único rosto que
eu conseguia ver desde os doze anos.
— Molloy?
— O doutor está aqui, Joe. — Ela sorriu e minha visão ficou turva de um momento para o
outro antes de focar nos olhos verdes dela. — Vamos falar com o médico, tá?
— Tá. — Forcei um aceno e depois gemei de dor. — O que você mandar, rainha.
— Os resultados da ressonância mostram três fraturas lineares separadas no crânio — a voz
dizia para ela. — Ele tem fratura no nariz, fratura na órbita e uma fratura capilar no osso
zigomático esquerdo.
— Zi-go- quê? — ouvi Molloy engasgar. — Em português, doutor, por favor.
— Além das três fraturas capilares no crânio de Joseph, ele também tem a maçã do rosto
quebrada, o nariz quebrado, a órbita quebrada e uma concussão grau três — ouvi o homem
dizer. — A ressonância também revelou várias contusões antigas, danos extensos no úmero
dele, sem falar em múltiplas fraturas metafisárias-epifisárias que parecem ter cicatrizado
muito bem sem causar deformações ou debilitações graves no seu esqueleto.
— Não faço ideia do que isso significa — ouvi minha namorada sufocar. — O que quer dizer
com “cicatrizaram muito bem”?
— Posso ser franco?
— Sim, seja franco.
— Joseph, posso ser franco?
— Seja quem você quiser, doutor. Eu não sou seu guarda-costas — murmurei, gostando tanto
dos dedos de Molloy no meu cabelo que me aproximei e encostei o queixo no ombro dela. —
Você seja Frank e eu serei Joey.
— Não, Joe, ele quis dizer: “Deixa pra lá. Continue, doutor.”
— Em casos como o do Joseph —
— Joey — resmunguei. — É Joey, Frank.
— Em casos como o do Joey, quando pacientes apresentam esse tipo de quadro, geralmente
há um histórico longo de violência doméstica, e para simplificar, os exames do seu parceiro
revelam um padrão de abuso infantil que claramente remonta à infância.
Um soluço dolorido escapou da minha namorada. — Infância?
— Não, não, não — tentei acalmá-la, encostando no pescoço dela. — Não chore, Molloy.
— Estou bem, Joe — ela sussurrou, acariciando-me. — Como o senhor sabe, doutor?
— Os resultados mostram evidências claras de fraturas mal unidas que não foram tratadas
corretamente. Há provas muito claras de uma fratura mal cicatrizada no meio do úmero
direito dele.
Infelizmente, isso é algo comum em bebês com menos de dezoito meses expostos a abusos
físicos. No caso do seu parceiro, embora os ossos tenham cicatrizado com o tempo, muitas das
lesões deixaram marcas residuais. Ou manchas, se preferir.
— Está dizendo que isso vem acontecendo desde que ele era bebê?
— Estou dizendo que há evidências que me levam a crer que seu parceiro sofreu um nível
tremendo de abuso físico durante um longo período.
— Isso remonta à infância dele?
— É possível.
— Meu Deus. — Molloy soluçou e me puxou para mais perto. — Meu Deus!
— Para ser sincero, é um milagre ele estar sentado aqui.
PELO MELHOR OU PELO PIOR
AOIFE
VINTE E QUATRO HORAS TINHAM SE PASSADO desde que entramos correndo na emergência
com Joey carregando a irmã nos braços, enquanto eu gritava por ajuda.
Para ser justa, a ajuda chegou instantaneamente, mas assim que Shannon foi levada às pressas
numa maca, cercada por uma enxurrada de enfermeiros e médicos, Joey desabou sem
cerimônia no chão da sala de espera.
Cambaleando não chega nem perto do que eu sentia sentada ao lado da cama do meu
namorado, atrás de uma cortina azul clara, no meio de uma emergência lotada, enquanto
continuávamos esperando uma vaga em um leito se abrir. O que quer que tivessem dado para
a dor dele algumas horas antes o deixou completamente desacordado, e isso me deu um
alívio.
Quanto mais ele dormia, mais eu sabia que ele estava seguro.
Mais tempo protegido da dor que eu sabia que o engoliria.
Porque eu sabia, no fundo do meu coração, que quando os remédios passassem e seu pobre
cérebro maltratado voltasse a funcionar totalmente, ele iria se levantar e sair daqui. Não
importaria para ele que precisasse descansar, ou que seu corpo tivesse sido brutalmente
espancado. Joey iria direto para o lado da irmã, sem pensar nas consequências — ou em si
mesmo.
E depois que ele fosse visitar a irmã, eu não queria nem imaginar o que viria depois.
Descansando os cotovelos na cama dele, continuei a observá-lo dormir, e continuei a chorar.
O rosto dele mal podia ser reconhecido por baixo da gaze, fita adesiva e curativos. O olho
esquerdo estava coberto por um curativo branco, enquanto a ponte do nariz estava enfaixada.
Os hematomas e o inchaço ao redor do olho direito eram tão extensos que, mesmo acordado,
era difícil distinguir.
Mordendo o lábio, reprimi um soluço e estendi a mão para afastar o cabelo da testa dele, só
para expor mais hematomas.
Estavam por toda parte.
Cada centímetro da pele dele contava uma história de abuso brutal nas mãos de um monstro.
As marcas abertas nas costas que descobri quando o ajudei a tirar a roupa na noite passada
fizeram tudo dentro do meu estômago voltar a subir.
Não havia como esconder o que aconteceu com ele.
O cinto do pai tinha deixado marcas profundas na carne dele.
Forçando-me a ser forte para ele, permaneci ao lado dele, sem querer deixá-lo por mais tempo
do que demorava para pegar um chá na máquina de vending. Mam ligou inúmeras vezes,
implorando para que eu fosse para casa tomar banho e comer algo decente, mas eu não
conseguia.
Eu não podia deixá-lo.
Nunca deixaria.
A Garda Siochana veio e foi embora, procurando declarações do meu namorado que ele não
estava em condições de dar. Assistentes sociais, um oficial de serviço à vítima da Garda, sem
mencionar várias outras autoridades, também apareceram.
A vovó Murphy, de alguma forma, conseguiu meu número de telefone e ligou várias vezes para
saber do bisneto e passar recados para Joey, mas só isso.
Ela era a única.
Nem uma vez, desde que ele foi levado para triagem, eu tive um vislumbre de Marie Lynch.
Eu entendia que Shannon estava mal, a vovó tinha me dito que ela tinha um pulmão
colapsado, mas Joey também estava machucado, porra.
Ele tinha um crânio fraturado, pelo amor de Deus!
Era um milagre o cérebro dele não estar completamente destruído.
O próprio médico disse isso; era um milagre ele ainda estar aqui.
— Molloy. — Soltando um gemido dolorido, Joey cobriu minha mão com a dele e piscou o
único olho bom que tinha. — O que eu te falei sobre chorar?
Fungando, forcei um sorriso e sussurrei: — Ei, gostoso. —
— Ei, rainha. — A voz dele estava rouca e rasgada. — Pernas bonitas.
Engasguei com um soluço. — Tudo bonito. —
— Não chore por mim. —
— Não estou. — Forcei um sorriso mais animado. — Seu nariz está todo amassado de novo.
— Hm. — Ele soltou um resmungo. — E o que tem de novo?
— Acho sexy. — Fungando, levantei a mão dele até a boca e beijei todos os nós dos dedos
machucados. — Você tem o visual do bad boy machucado perfeito.
— Como está meu bebê?
— Ainda cozinhando?
— E meu outro bebê?
— Estou bem, Joe. — Respirei. — Estamos as duas bem.
— Que bom. — A pálpebra dele se fechou. — Preciso que você fique bem.
— Estou bem, Joe.
— Vocês duas.
— Nós duas estamos bem.
— Preciso que continue assim — ele sussurrou, apertando minha mão. — Isso é importante
para mim.
Lutando desesperadamente contra a vontade de pular na cama e abraçá-lo, levantei e fiquei
perto. — Você é importante para nós. —
Curvando-me, dei um beijo demorado na testa úmida dele. — Você é tudo para nós.
— Eu quero o bebê, rainha. —
Fungando, assenti. — Eu sei, gostoso. —
— Ouvi o coração batendo.
— É, ouviu mesmo.
— Ele está realmente lá dentro.
— Uh-huh.
— Fizemos um bebê.
— É, Joe, fizemos.
— Estou com medo.
— Eu sei que está. Está tudo bem.
— Quando posso sair daqui, Aoif?
— Os médicos querem te manter aqui por alguns dias para observação — expliquei, passando
os dedos pelo rosto inchado dele. — Estamos só esperando uma vaga lá em cima abrir.
— Não — ele gemeu, balançando a cabeça. — Não, não, foda-se isso. Quero ir para casa.
— Você vai ficar aqui — avisei, puxando a mão dele que tentava puxar o soro. — Você tem
uma concussão da porra, Joe. O médico explicou para mim. Você precisa estar aqui, tá?
— Preciso ver a Shannon.
Aí está.
— Shannon está bem — tentei acalmar, sentando na beira da cama dele e segurando as mãos
dele contra o peito para ele não se machucar. — Eles estão cuidando bem dela lá em cima, tá?
— Sim, mas ela precisa me ver — ele tentou argumentar, a voz rouca e áspera. — Você não
entende. Preciso estar lá quando ela acordar. Ela vai ter medo. Não vai saber o que dizer.
Preciso ver como ela está.
— Joe. — Segurando o rosto dele com as mãos, encostei perto e forcei ele a me olhar. — Eu
prometo que Shannon está bem. — Dei um beijo suave no canto da boca dele, evitando os
pontos no lábio inferior inchado, e mentalmente ordenei que ele parasse de pensar nos
outros. — Você confia em mim, não confia?
Ele assentiu lentamente.
— Que bom. — Afastei os cabelos dele e beijei de novo. — Então confie em mim quando digo
que o melhor que você pode fazer pela Shan é descansar e se curar.
— Joey? — A voz triste de Marie veio de trás da cortina, fazendo a gente ficar tenso. — Posso
falar com você?
— Não, não, não — ele disse rouco, segurando minha mão firme na dele. — Não aguento ela.
— Está tudo bem — sussurrei, encostando a bochecha boa dele na minha. — Eu estou aqui,
Joe. Eu cuido de você.
— Porra. — Soltando um suspiro dolorido, ele cedeu com um aceno rígido. — Tá.
— Pode entrar, Marie.
A cortina foi puxada para o lado e a mãe dele apareceu, parecendo tão pequena e frágil
quanto da última vez que a vi.
— Joey. — Os olhos dela estavam fundos na cabeça, claramente inchados de tanto chorar,
enquanto ela dava um passo incerto na nossa direção. — Aoife.
— Marie — respondi friamente. Olhei para o homem alto, de cabelos escuros, parado atrás
dela. O terno parecia muito chamativo para ser de um assistente social, então chutei que fosse
um advogado.
Deus sabia que ela precisava de um.
— Oh, Joey, bebê. — Fungando, a mãe se aproximou da cama, mas parou ao perceber que eu
não tinha intenção de sair do caminho.
Eu não poderia, mesmo se quisesse.
Joey tinha um aperto mortal na minha mão.
— Como você está se sentindo? — Marie perguntou. — Seu rosto coitado.
Meu namorado não respondeu.
Não mexeu um músculo.
O rosto dele estava vazio de qualquer emoção enquanto continuava olhando para o homem
atrás da mãe.
— Ei, garoto — o homem disse, a voz carregada de emoção, olhando além de mim, com
atenção fixa no meu namorado. — Faz tempo.
Faz tempo?
Franzi a testa, lançando um olhar para o homem e estudando seu rosto familiar.
Maçãs do rosto altas.
Cabelos castanhos escuros.
Lábios inchados e fofos.
Olhos da cor do azul meia-noite.
— Merda — eu engasguei, juntando as peças rápido e concluindo que era o grande Darren. —
É você.
Ele olhou para mim e vi um lampejo de reconhecimento nos olhos azuis dele. — E é você.
Franzi o cenho, sabendo muito bem que nunca tinha conhecido esse homem antes na vida. —
O quê?
— Então, você foi lá e se meteu no meio, Joe? — ele pensou alto, desta vez falando com meu
namorado. — Bem, ninguém pode te acusar de ser volúvel.
— Sério? — pisquei confusa. — O quê?
— Deixa pra lá — Darren respondeu balançando a cabeça. — Como você está, Joey?
— O que está fazendo aqui? — Joey respondeu, a voz fria e dura. — O que você quer?
— Mam me chamou.
— Como assim ela te chamou?
— Escuta, Joe, eu sei que tem muita—
— Como assim ela te chamou, Darren? — repetiu, com veneno na voz. — Que porra?
— Dá um passo atrás — avisei, tomando uma posição protetora na frente do meu namorado
quando o irmão dele tentou chegar mais perto. — Só dá um passo atrás, parceiro.
— Aoife, você precisa ficar fora disso.
— Como você sabe o nome dela? — Soltando minha mão, Joey se arrastou para sentar, o peito
subindo e descendo rápido, encarando a mãe e o irmão como se fossem o inimigo. — Como
diabos ele sabe o nome da minha namorada?
— Eu liguei para ele — a mãe disse, apertando a mão no peito.
— Você ligou para ele? — Joey falou seco. — Você simplesmente ligou para ele? Então você
tinha o número dele o tempo todo? — Ele engasgou, tremendo. — Por mais de cinco anos e
meio? Você estava em contato com ele e nunca me contou?
— Joey, me escuta—
— Nem fala comigo! — meu namorado rugiu, apontando o dedo para o irmão que estava
sumido. — Nem olhe para mim. — Virando para a mãe, ele sibilou: — Eu entendo por que você
não contou para o pai, e por que não contou para os meninos e para a Shannon. Mas para
mim? — O lábio dele tremia e meu coração quebrou quando ele perguntou: — Por que não
podia me contar?
— Desculpa por não ter contado — Marie tentou explicar, mas Joe não queria ouvir.
— Cala a porra da boca! — Colocando o braço em volta da minha cintura, ele me puxou para
perto, e eu senti o quanto o corpo dele tremia. — Sai daqui. Vocês duas.
— Joey, por favor—
— Você ouviu ele — cortei, estendendo a mão para afastar a mãe dele. — Saiam agora.
— Você precisa ficar na sua, Aoife — Darren disse, me olhando com frieza. — Eu sei que você
quer o melhor, mas isso é assunto de família.
— Nem fala assim com ela, babaca — Joey foi rápido em me defender. — Ela é minha família.
— Joey — Marie soluçou. — Eu sou sua mãe.
— E ela é a mãe do meu filho. Então nem pense em usar essa carta — ele zombou. — Porque
ela ganha. Toda vez.
— É. — Assenti vigorosamente, cruzando os braços no peito e dando um “ha” para a mãe dele.
— Isso não é competição, meninas — Darren arrastou as palavras. — Vocês podem sair por um
momento, enquanto nossa mãe fala com o filho dela?
— Nem fodendo que eu saio — cuspi, sentindo o sangue subir. — Eu que estou aqui ao lado
dele desde que ele foi internado. Eu que estou registrada como parente mais próximo porque
nenhum de vocês apareceu. Onde diabos vocês estavam?
— Isso não é justo — Marie choramingou. — A Shannon estava...
— Nem fala de justiça — quase gritei. — Olhe para o rosto dele.
— Aoife, por favor.
— Olhe para o rosto dele — repeti, a voz subindo junto com meu temperamento. — Olhe bem,
Marie. Porque esse é seu filho.
Furiosa, apontei para meu namorado. — Ele é tão seu filho quanto a Shannon, os meninos ou
ele.
— Eu sei que ele é meu filho.
— Então age como tal! — rosnei, estreitando os olhos com desgosto. — Para de tratá-lo como
uma segunda opção. Ele não é uma segunda opção, entendeu? Você não pode simplesmente
aparecer aqui e ditar regras depois de não ter dado notícia dele nenhuma vez! Isso não
funciona assim, e eu não vou ficar parada vendo você enfiar suas garras tortas ainda mais
fundo nele do que já fez—
— Molloy.
— Não, Joe, ela precisa ouvir isso. — Engolindo um grito, pisquei as lágrimas de raiva e apontei
para a mãe dele. — Ele é a melhor coisa que saiu do seu casamento e você é burra demais para
ver isso. Ele não é seu segurança. Não é sua conta bancária.
Não é sua babá. Não é seu marido. Ele é seu filho. Ele é seu menino! — Furiosa, voltei o olhar
para o irmão dele. — E quanto a você? Bem, eu não te conheço direito ainda, mas tô sentindo
que esse é um momento do tipo “vai tomar no cu”. Então, vai tomar no cu.
— Já terminou com seu surto? — a irmã mais velha dos Lynch perguntou calmamente,
arqueando a sobrancelha. — Porque eu não saio daqui até falar com meu irmão a sós.
— Então acho que vamos ficar todos aqui — respondi, firme.
— Molloy. — Senti a mão de Joey na minha cintura. — Tá tudo bem.
Com medo, virei para ele. — Você não precisa falar com eles, Joe. Me ouviu? Você não precisa
escutar mais uma palavra do que ela disser.
— Tá tudo bem — ele sussurrou, apertando o quadril dela para me confortar. — Vai para casa
comer alguma coisa. Eu fico bem aqui.
— Eu não vou te deixar.
— Eu vou ficar bem.
— Eu não vou, Joe.
— Eu vou ter que falar com eles em algum momento.
— Mas eu—
— Tá tudo bem, bebê. Só me dá algumas horas, tá? Eu fico bem.
Não, isso não estava nada bem.
Estava tudo errado.
Eu não queria essas pessoas perto dele.
— Joe. — Mordendo o lábio, pedi com os olhos para que ele não fizesse isso. — Tem certeza?
Ele não parecia certo.
Não parecia estar em condições de lidar com essas pessoas.
Ainda assim, ele assentiu duro e me soltou.
— Tá. Agora são três horas — disse, olhando rapidamente para a tela do celular antes de
guardar no bolso. — Vou para casa tomar um banho e volto às seis, tá?
— Vai com calma — ele respondeu. — Tá tudo bem.
Não estava.
Tudo dentro de mim gritava errado, errado, errado.
Mas o que eu podia fazer?
Eu não podia expulsar a mãe e o irmão dele do hospital, e se Joey queria falar com eles, eu não
podia impedir.
Mesmo que eu realmente, realmente não quisesse ele perto dessas pessoas.
— Eu te amo — disse, ignorando a família dele enquanto me inclinava para perto e dava um
beijo nos lábios dele. — Eu volto.
EU SOU SEU IRMÃO
JOEY
— Onde ele está? — perguntei assim que minha namorada saiu, com milhões de
pensamentos correndo na minha mente. Enquanto meu coração pedia respostas para
ainda mais perguntas, apenas uma questão se destacava nos meus pensamentos
confusos. — Onde está o pai?
— A Garda está vasculhando o interior procurando por ele. Ele não vai escapar dessa
vez. Não dessa vez.
— Não dessa vez — repeti devagar, com o olhar alternando entre Darren e mamãe. —
O que te faz pensar que dessa vez é diferente?
— Porque mamãe está pronta para deixá-lo — Darren disse com sinceridade, o que me
garantia que ele realmente acreditava na merda que estava falando. — Dessa vez ela
está mesmo pronta, Joe.
— Ela não está pronta — respondi seco, ignorando o jeito como minha mãe assentia
com a cabeça como um cachorro fiel. — Ela não vai deixá-lo até estar numa caixa, e
você é um idiota se acha o contrário.
— E você? — voltei meu foco para o bastardo traidor que eu não via desde que a
puberdade me atingiu. — Qual é a sua?
— Voltei para ajudar — ele disse, limpando a garganta com dificuldade. — Voltei para
a minha família, Joe.
— Sua família?
— Sim, minha família. — Lágrimas encheram seus olhos. — Eu senti muito a sua falta,
garoto.
Eu estava tão cheio de ressentimento que tinha medo de abrir a boca, com receio do que
poderia sair.
Ainda bem que eu estava muito medicado naquele momento, ou teria avançado no filho
da puta.
— Por quê?
— Porque acho que precisamos alinhar nossas histórias — Darren respondeu por ela.
Outro homem respondendo por ela. Outro chefe do caralho.
— Não há história para alinhar — respondi seco. — Eu não vou mentir para nenhum
dos dois. Nunca mais. Pelo que eu sei, ela é tão responsável pelo que aconteceu com a
Shannon quanto nosso velho. Então vocês dois podem inventar o que quiserem, mas me
deixem fora dessas merdas fabricadas.
— Vamos, Joey, eu sei que você está sofrendo agora, mas você não é a única vítima
aqui. Mamãe também é uma vítima.
Eu estava.
Falei sério.
Falei mesmo.
— Eu sei que você anda por um caminho ruim há muito tempo — Darren teve a ousadia
de dizer. — Também sei que você vai ser pai.
— Boas notícias se espalham rápido — respondi tranquilo. — Você pegou isso de uma
das ligações da mamãe com o filho?
— É a garota da parede, certo? Aquela que você estava de olho no primeiro ano?
— O que você sabe sobre isso? — rosnei, cerrando a mandíbula. — Você nem estava
por perto no meu primeiro ano. Você fugiu, seu babaca.
— Você engravidou a garota enquanto ainda está na escola, Joe? Sério? — a voz dele
pingava condescendência quando falou: — Parece que você está seguindo os passos do
velho e repetindo o ciclo!
— Nem pense em me dar lição de moral, babaca — rebati, recusando mostrar o quanto
aquelas palavras me cortaram. — Eu não sou o velho, e ela não é da sua conta!
— Merda, Dar, não lembro. — dei de ombros. — Quanto tempo faz que não falamos?
Cinco, seis anos?
— Não me venha com “Joey” — zuneei. — Você não pode entrar aqui e mandar. Você
não é o patriarca da família, babaca.
— E você é?
— Fiz o melhor que pude com as cartas que me deram — devolvi. — Então não me
olhe de cima por causa das minhas escolhas. Pelo menos eu fiquei.
— Por favor, não briguem — mamãe suplicou, colocando a mão no ombro de Darren.
— Somos todos família aqui.
— Não. Vocês dois são família — rosnei rouco. — A minha família me abandonou.
— Shannon — falei, procurando minhas roupas pelo cômodo. — Aoife disse que ela
está lá em cima. Em qual ala?
— Joey, pare — mamãe chorou quando eu arranquei a agulha do meu braço e fui pegar
a calça que estava pendurada na cadeira ao lado da cama. — Deite e descanse. Você não
deveria estar fora da cama.
— Jesus Cristo — ouvi Darren engasgar quando virei as costas. — O que o velho fez
com ele, mamãe?
Darren.
Maldito Darren.
— Vai se foder.
— Você tem que ser liberado por um médico e não está em condições de ir a lugar
algum.
— Onde está minha irmã? — a mente girando, tropecei para vestir a calça e puxei o
moletom manchado de sangue. — Onde está a Shannon?
Nem sabia onde estava minha camiseta, e naquele momento não me importava.
A única coisa que importava era sair dali e me afastar dessas pessoas.
— Você não vai sair. — Duas mãos pousaram nos meus ombros e quase perdi a
sanidade. — Deite e descanse, tá?
— Tira suas mãos de mim — rosnei, cambaleando longe do fantasma do meu passado.
— Nunca mais toque em mim!
— Você não é meu irmão — rosnei, levando uma careta quando uma dor cortante
passou pelos olhos. — Então mantenha suas mãos longe de mim. Porque eu não me
importo de quem você saiu, eu...
— Só me deixa em paz!
— O que está acontecendo aqui? — a enfermeira que cuidava de mim o dia todo
perguntou, abrindo a cortina. — Joseph, querido, precisa voltar para a cama.
— Não, você que precisa arrumar os papéis que eu preciso assinar, porque vou sair
daqui — respondi, me apoiando na parede e calçando meus tênis. — Merda, cadê
minhas meias?
— Já disse pra você se foder! — apertando a cabeça para tentar controlar o giro. —
Preciso ver minha irmã. Certificar que ela está bem.
— Não é uma boa ideia — disse a enfermeira num tom de coaxar, se aproximando.
— Eu vou sair — falei, estremecendo com o toque leve dela no meu cotovelo. —
Preciso assinar alta?
— Que tal mandarmos sua família pra casa e sentarmos para conversar só nós dois?
— Que tal darmos um tempo para o Joey? — ouvi a enfermeira ordenar. — Fique firme,
e você estará seguro.
— Meus olhos — gemei, piscando rápido enquanto a visão ficava turva e perdia o foco.
— Tem algo errado nos meus olhos.
— Você vai se sentir desorientado por alguns dias — ela falou, me guiando de volta à
“prisão”. — Por isso precisa descansar e deixar a gente cuidar de você, tá?
— Você não precisa — disse a enfermeira. — Falei com o gerente da ala 3, tem uma
cama vaga pra você lá em cima. O porteiro vai te buscar logo.
— Não quero ir lá pra cima — murmurei, afundando no leito. — Quero ir pra casa.
— Bom garoto — ela falou, ajeitando os travesseiros nas minhas costas. — O que você
fez no seu braço, hein?
— Não quero linha — murmurei, apertando os olhos quando o quarto começou a girar.
— Só quero algo pra dor.
— Tá bem, vou buscar algo para dor, Joseph — ouvi. — Onde dói mais? Na cabeça?
— Seu coração?
Assenti firme.
— Como você está se sentindo, amor? — mamãe perguntou quando entrei na cozinha
mais tarde naquela noite, fresca de um banho e me sentindo como se algo que o Spud
tinha cagado tivesse me acertado.
— Nem pergunte — resmunguei, indo até a máquina de lavar para depositar minha
toalha. — Acho que você não vai conseguir tirar as manchas dessas roupas —
acrescentei, segurando minhas calças jeans e moletom manchados de sangue. — Devo
simplesmente jogar fora?
— Oh, Jesus. — Deixando o ferro de passar, mamãe cobriu a boca com a mão, os olhos
enchendo de lágrimas. — Sim, joga fora, amor. Te levo para comprar roupas novas
semana que vem.
— Destruído. — Não consegui esconder a dor na minha voz. — Ele está quebrado física
e mentalmente.
— Nunca vou tirar da minha cabeça a imagem deles naquele chão da cozinha.
— Imagino.
— Não, mamãe — disse, balançando a cabeça. — Você não pode imaginar e ficar feliz
com isso.
— Como se meu coração tivesse sido espancado até virar polpa e estivesse deitado num
carrinho no pronto-socorro.
— Oh, amor.
— Eu odeio os pais dele, mamãe. — Sentindo meus olhos queimarem com lágrimas,
abaixei a cabeça nas mãos e reprimi um grito. — Eu odeio aqueles monstros de merda.
— Oh, amor, eu sei que você está chateada. — Ela se aproximou e colocou a mão no
meu ombro. — Mas você precisa se manter calma e cuidar de si. Você tem um bebê
crescendo na sua barriga. Não pode ficar tão nervosa assim.
— Nervosa? — engasguei, com a voz falhando. — Mamãe, eu estou completamente
devastada.
— Eu sei. — Ela me envolveu nos braços e me puxou para o peito. — Eu sei, Aoife,
querida.
— Ele é meu melhor amigo — chorei, virando de lado na cadeira para me agarrar nela.
— Esquece o lado romântico e toda aquela merda. Ele é meu amigo mais próximo no
mundo todo, e isso está me matando. — Fungando, agarrei sua blusa e me encostei nela.
— Você não entende o quanto dói. Ver ele passar por tudo isso e me sentir
completamente inútil.
— Sim, você é — ela insistiu. — Você tem mantido ele à tona por anos.
— Mas não é suficiente, mamãe — chorei rouca. — Eu não consigo continuar vendo ele
sofrer. Tenho tanto medo por ele. Você não entende. É paralisante. Eu estou tão
fudidamente apavorada por ele que mal consigo respirar. Um dia ele vai afundar e eu
não vou conseguir puxá-lo de volta.
Meu telefone tocou alto no bolso. Com um sobressalto me afastei da minha mãe, peguei
o aparelho e aceitei rapidamente, encostando-o no ouvido.
— Alô?
— Oi, Aoife, meu nome é Stephie Hubbard. Sou a enfermeira que está cuidando do
Joey esta noite.
— Ele está bem — ela me tranquilizou rápido. — Ficou um pouco desorientado depois
que a mãe e o irmão dele o visitaram, então disse que ligaria para você. Temos uma
cama para ele na enfermaria principal, mas ele está insistindo em se dar alta sozinho.
— Não, ele estava ficando cada vez mais angustiado, então pedi para que saíssem.
— Bom. — Meu coração batia forte e dolorido no peito. — Diga a ele que estou a
caminho, tá? Estou saindo agora. Estarei aí em meia hora.
— Oh, Aoife — mamãe chorou quando desliguei. — Sei que você está preocupada com
o Joey, todos nós estamos, mas eu também estou preocupada com você. Você pode
descansar um pouco antes de voltar ao hospital? Pelo bebê. Eu posso ir vê-lo lá.
— Então vou pedir para seu pai te levar — mamãe respondeu, com a voz abatida. —
Você não está em condições de dirigir para a cidade.
— Você tem crédito no celular para me ligar e me buscar depois? — papai perguntou
um pouco depois, quando entrou numa vaga no estacionamento do hospital. — Você
tem algum dinheiro na bolsa caso fique com fome ou queira um chá?
— Aoife, espera. — Papai se esticou pelo banco e fechou a porta do meu carro. — Só
senta e conversa comigo um minuto.
— Não. Não estou bem — engasguei. — Como eu poderia estar, se ele... — Um soluço
escapou do meu peito. — Ele podia ter morrido, papai.
— Jesus.
— O rosto dele — disse com dificuldade, sentindo o ardor familiar das lágrimas. — Ele
está quase irreconhecível.
— Coitado do rapaz.
— Não mais, papai. — Fungando, olhei para ele. — Eu sei que você está preocupado
com o bebê, mas não pode ser duro com ele. É demais. Ele tem muita merda na vida. Só
seja gentil com ele.
— Aoife. — Os olhos do meu pai estavam cheios de emoção quando ele sussurrou —
Estou preocupado com você.
Eu não esperei.
Não consegui.
Piscando para secar as lágrimas remanescentes, coloquei meu sorriso mais brilhante
quando atravessei a triagem e caminhei pelo corredor lotado até chegar às cabines de
internação, sem parar até achar a do Joey.
Meu sorriso permaneceu, mas meu coração afundou quando meus olhos caíram na maca
vazia.
O cobertor dele estava espalhado sobre a cama, enquanto as roupas e os sapatos haviam
desaparecido da cadeira ao lado.
O suporte de soro segurava uma bolsa cheia de líquido transparente, enquanto a linha
que deveria estar ligada ao braço do meu namorado estava no chão, pingando líquido
em uma pequena poça.
Depois de procurar Joey por todo o hospital, sem sucesso, liguei para nossos amigos
virem me buscar — precisávamos de gente no terreno para ajudar a farejá-lo antes que
ele se machucasse.
Diz que você está bem. Por favor. Estou ficando louca aqui.
ATENDA SEU TELEFONE, FILHO DA PUTA!!!
Como pôde simplesmente desaparecer assim? Que porra, Joe!
Me liga, caralho!
Onde você está? Por favor, Joey.
— Exato — concordaram Alec e Casey no banco de trás. — Ele não foi muito longe.
A irmã dele estava numa cama de hospital com um pulmão colapsado. Ele estava muito
machucado para andar pelas ruas, mas era exatamente isso que estava acontecendo. Eu
sabia, no fundo do meu coração, que havia noventa e nove por cento de chance de ele
ter pirado de vez. Queria com todas as forças que não tivesse acontecido, mas o medo só
crescia dentro de mim.
— E daí? O Lynchy nunca está em si — Alec opinou. — Passa uns oitenta por cento do
tempo chapado e isso nunca o impediu de se virar sozinho.
— Ele está com uma concussão — falei, tirando o cabelo do rosto. — Uma bem feia, e
a cabeça dele está toda quebrada. Ele não deveria estar fora da cama, muito menos
andando por aí sozinho.
— Não faça isso aqui — Casey cortou, e eu me virei para vê-la apagando um cigarro
não aceso da mão de Alec. — Ela está grávida, seu idiota.
— Puta merda, é mesmo — ele procurou o cigarro no chão do carro. — Foi mal, sexy-
legs.
— Pode me deixar na Elk’s Terrace? — pedi para Podge. — Vou checar a casa dele e
perguntar pros vizinhos.
— Sem problema — respondeu Podge. — Vou dar uma passada nos campos do GAA e
procurar por lá.
— Eu vou em Biddies — Casey ofereceu.
— Não, Al, você precisa ir na casa do Shane Holland — Podge interrompeu. — Ver se
ele esteve lá.
— Porque você é você — Podge explicou. — Vai, você sabe que o Lynchy faria o
mesmo por você.
— Tá bom — ele bufou. — Mas se alguma coisa acontecer comigo, a culpa é sua,
ruivão!
Ansiosa, digitei uma resposta de duas palavras e mandei antes de guardar o celular no
bolso.
— O que vocês fizeram? — exigi quando Darren finalmente abriu a porta para dentro.
— O que vocês disseram pra ele?
Furiosa, empurrei ele para o lado e entrei na casa, recusando-me a engolir qualquer
mentira, especialmente quando ele estava no limite, como eu sabia que estava.
— Você — cuspi quando entrei na cozinha e fui confrontada pela mulher que o gerou.
— É sempre você.
— Sim, ele saiu do hospital — respondi seca. — Ele se deu alta sozinho e eu quero
saber o que vocês filhos da puta disseram pra ele.
— Ele não deveria ter feito isso — Marie soluçou, afundando na cadeira que estava
fumando perto da mesa. — Oh, Darren.
— O que vocês disseram pra ele dessa vez, hein? — provoquei, com as mãos na cintura,
mirando ela. — E nem pense em me enrolar, porque eu sei que foi você que causou isso.
Seu teatro de “coitada de mim” pode funcionar pros seus filhos, mas eu enxergo através
de você, Marie.
— Olha, ele apareceu no quarto da Shannon mais cedo — Darren me olhou desconfiado
e acrescentou — Tivemos uma conversa, tivemos palavras, e ele saiu irritado. Presumi
que voltou pra cama.
— Vocês tiveram palavras? — rosnei, sentindo a temperatura subir junto com minha
ansiedade. — Que tipo de palavras?
— Claro que tem! — despejei com sarcasmo, jogando as mãos para o alto. — Como ele
deveria estar? Vocês não sabem o que ele enfrentou nesses últimos seis anos.
— O que vocês disseram pra ele? — pressionei. — Algo o empurrou para o limite e eu
quero saber o que foi!
— Eu sei que você quer o melhor, mas não preciso me justificar pra você.
— Ah, é? Então se explique pra sua consciência — devolvi tremendo. — Porque se algo
acontecer com ele, a culpa será sua!
— Vamos acabar com essa merda. Se Joey saiu do hospital sozinho, é por uma única
razão — Darren foi rápido em responder. — Ele está atrás da próxima dose.
— Não é tão simples assim, Darren — me ouvi engasgar. — Ele não nasceu viciado.
Isso não é quem ele é. Os problemas dele com dependência são resultado direto de
passar dezoito anos naquela casa infernal, com aquelas pessoas horríveis que vocês têm
a infelicidade de chamar de pais.
— Aoife, para!
— Nem me faça começar com você, Marie. Você não merece ser chamada de mãe dele
— rosnei, me virando para encarar a mãe dele. — Você nunca mereceu o amor dele e
nunca merecerá! — Piscando as lágrimas, descarreguei minha dor na mulher que causou
tanto caos no meu namorado. — Todo mundo acha que seu marido é o pai abusivo, mas
eu vejo o que você faz com seu filho. — Bati na minha cabeça, furiosa. — Eu sei o que
você é, Marie. Vejo através de você, sua filha da puta.
— Não fale assim da minha mãe — Darren avisou, ficando em posição defensiva na
frente dela. — Ou fala educadamente ou vai embora.
— Você é uma piada — continuei, apontando o dedo para ela. — Passou anos
invadindo a mente do Joey, distorcendo os pensamentos dele e fodendo com a confiança
dele. Convencendo-o de que ele é a reencarnação do pai. Que é perigoso, um problema,
uma decepção!
— Como ousa!
— Eu sei o que você fez com ele — disse, sem pedir desculpas. — Pode enterrar a
cabeça na areia o quanto quiser, mas você é a abusadora mental nesse caso. Você
quebrou ele, Marie. Você machucou o Joey mais fundo com suas palavras do que o pai
dele com os socos. Você é uma filha da puta manipuladora!
— Você não sabe do que está falando — engasguei, sentindo como se tivesse levado
uma barra de ferro quente no peito com aquelas palavras. — Ele quer o bebê.
— Ele quer te fazer feliz — ela gritou na minha cara. — Isso não é o mesmo que querer
ser pai.
— Me diz uma coisa — Darren resolveu intervir. — Se você sabia que meu irmão
estava tão mal, por que não fez nada para protegê-lo?
— Vai se foder, Darren — cuspi. — Você não sabe porra nenhuma sobre nenhum de
nós.
— Eu sei que meu irmão não está bem — respondeu calmo. — E você também sabe.
Então por que diabos você o prendeu à paternidade?
— Não foi?
Meu sangue gelou. — O que quer dizer com isso?
— Ah, para com isso, Aoife. — Ele me encarou sério e perguntou: — Ele é um garoto
bonito. Quantas vezes ele estava chapado quando você deixou ele entrar no seu corpo?
— Como?
— Ei — ele levantou as mãos. — Se quer invadir essa casa toda armada, jogando a
culpa no nosso colo pela queda do Joey, eu fico mais que feliz em apontar o espelho pra
você.
— Não, eu amo meu irmão, Aoife — ele rebateu quente. — Então não se engane
quando eu digo que vou fazer o que for para protegê-lo.
— Estou dizendo que se você ama meu irmão tanto quanto diz, vai fazer a coisa certa
por ele e acabar com isso.
— Não vamos ser dramáticos e começar a chamar um feto assim. — Ele respondeu
tranquilo. — Minha mãe já me disse que você não vem de família rica. Se for questão
de não poder pagar a viagem pra Inglaterra, eu estou mais que disposto a cuidar da parte
financeira.
— Pense bem, Aoife — Marie entrou na conversa, com voz desesperada, implorando.
— Se você não coloca o seu futuro em primeiro lugar, pelo menos pense no futuro do
meu filho.
— Eu não acredito nisso. — Soltando uma risada amarga, afastei uma lágrima bruta. —
Toda vez que acho que vocês não podem cair mais baixo, vocês superam.
— Não, nós decidimos — rebati, sem recuar nem me deixar comprar por aquele filho da
puta. — E não há nada que nenhum de vocês possa dizer para mudar isso. Não vão me
pagar nem me subornar porque eu não vou embora.
— Então pelo menos ele vai estar arruinado pelo amor e não pela dor.
DIAS TURVOS E NOITES DESPERDIÇADAS
JOEY
Com os olhos revirando pra trás e as pernas tremendo de vez em quando, eu me deitava
de lado, tentando focar na agulha no meu braço.
Devagar.
Devagar.
Não rápido demais.
Bem devagar.
Vazio.
Sem dor.
Vácuo.
AINDA TE AMO
AOIFE
— Joey, por favor. Já se passaram dois dias. Só me manda uma mensagem e me diz que
você está bem.
— Você pode só me dizer que está bem?
— Me desculpa.
— Joe? Oh, graças a Deus! Você está bem? Onde você está? Me manda uma mensagem
dizendo onde você está que eu vou te buscar.
— Eu estraguei tudo, amor.
— Isso não importa. Só me diga onde você está, e eu vou te buscar.
— Não estou bravo, Joe. Só quero te ver.
— Joey, por favor!
— Não sei, Molloy. Minha cabeça está... Ah, meu celular está quase sem bateria.
— Me desculpa. Eu te amo.
— Tudo bem, Joe. Está tudo bem. Eu também te amo. Só me diga onde você está, amor,
que eu vou te buscar.
— Você está bem?
— Se seu celular estiver sem bateria, pode pegar o de alguém e só me avisar?
— Joey!
— Quatro dias, Joe. Quatro dias pra caralho.
— O hospital ligou. Eu consegui aquela consulta.
— Preciso que você volte pra casa, Joey!
— Já se passaram cinco dias.
— Como você pôde fazer isso comigo?
— Tenho uma consulta no hospital na segunda. Você pretende ir?
— Todo mundo está perguntando por você, e eu estou cobrindo seu rabo, mesmo sem
saber se você está VIVO!!! Por favor, Joey. Já se passaram seis dias! Só me liga. POR
FAVOR!
— Sete dias. Suas mãos têm que estar quebradas, idiota, porque não tem desculpa pra
não me procurar.
— Por favor, volta pra mim, Joe.
— Oitavo dia e eu vou pro hospital. Tenho aquela consulta com a parteira. Você deveria
estar lá também, sabia?
— Estou com medo.
— Eu ainda te amo.
VOCÊ SE SENTE SEGURA?
AOIFE
O som do meu pulso retumbando nos meus ouvidos foi o primeiro sinal claro de que eu
não estava morto.
A voz da minha irmã foi o segundo.
— Shan?
Eu conseguia ouvi-la.
Sentia as mãos dela no meu rosto.
O sopro dela na minha bochecha.
Mas eu simplesmente não conseguia, porra, focar.
— O que você tomou? — a voz dela estava no meu ouvido de novo. — Eu sei que você
está bêbado, e sinto cheiro de maconha em você, mas tem mais, não tem? O que foi? O
que eles te deram?
Eu não conseguia responder.
Porque não lembrava o que tinha tomado.
Nem sabia onde eu estava.
Porra, meus lábios nem pareciam funcionar.
Eu estava caindo de uma viagem alta, despencando rápido e forte.
Tremendo violentamente, tentei me encolher e morrer.
Talvez se eu prendesse a respiração, a dor parasse.
Meu coração simplesmente desistiria.
— Desculpa — murmurei, fazendo careta quando a decepção dela caiu sobre mim como
balas verbais. — Por favor, não me odeie.
Vomitando e regurgitando, lutei contra o enjoo que atacava meus sentidos, enquanto
tentava desesperadamente sobreviver à sensação ardente e agonizante que me percorria.
Não me odeie.
Eu me odeio.
Eu me odeio.
Eu me odeio.
À medida que a névoa na minha mente se dissipava, e eu registrava lentamente onde
estava, percebi que estava completamente nu no banheiro do Johnny Kavanagh, com
aquele bastardo creepy do flanker me tirando do chuveiro.
— Não me toque, porra! — rosnei, cambaleando para longe dele, só para cair sentado
no chão.
Eles falavam comigo, gritavam pra mim, mas eu não conseguia entender uma palavra.
Sabia que estava respondendo porque meus lábios se mexiam, mas não fazia ideia do
que estava saindo da minha boca. Estar tão vulnerável, tão fora de si, incapaz de
controlar as palavras que saíam, era uma posição horrível.
Tudo era tão intenso.
Tudo doía.
Meu corpo tremia todo, tentei controlar a respiração, enquanto flashbacks das últimas
duas semanas voltavam aos poucos para mim.
Papai.
Shannon.
Molloy.
Mam.
Darren!
Shane.
Dor.
Dor.
Porra, dor.
Reprimindo o desejo de gritar, abracei minha cabeça com as mãos e tentei impedir a
sala de girar.
A dor entre meus olhos era tão forte que me fez sentir desmaiar.
Ouvi o Dub me esculachar, falando comigo como se eu fosse um lixo, e ele estava certo.
Eu absolutamente era.
Ele ama sua irmã — meu cérebro me dizia através da névoa e da abstinência. Ela não
está mais sozinha.
Com a mente confusa, tentei juntar tudo que ele dizia com os eventos que tinham
acontecido, mas minha mente ferrada não colaborava.
Minha língua despejava veneno, entregando segredos demais da família para aquele
cara, mas eu não tinha mais controle. Eu me perdi em algum ponto do caminho.
Tudo que eu conseguia lembrar era da Shannon caída naquele chão da cozinha e do
sangue saindo da boca dela.
Eu tinha sido inútil.
Porra, inútil.
Eu não fiz nada para protegê-la.
Eu a decepcionei.
De novo.
E então o rosto do Molloy brilhou como um letreiro de néon na minha mente.
A culpa e a dor que senti ao pensar nela afogavam tudo. A escuridão que eu sempre
sentia por dentro não era nada comparada ao poço eterno de noite em que me
encontrava.
Eu queria sair.
Eu precisava sair.
Eu não aguentava mais.
— Posso ajudar? — a voz do Kavanagh quebrou meus pensamentos em pânico.
— Pode, me emprestar umas roupas. — Eu precisava sair daquele lugar. Me segurando
na pia próxima, forcei meu corpo a levantar.
Sem dizer mais nada, Kavanagh saiu do banheiro, voltando alguns momentos depois
para jogar um monte de roupas pela porta. Me sentindo tonto, agarrei e vesti
rapidamente uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca por cima da cabeça.
As roupas dele me afundavam, mas eu não tava nem aí.
Eu estava com tanto frio.
Era frio na alma.
Tremendo, saí do banheiro para um quarto que poderia abrigar o andar inteiro da minha
casa.
— Valeu pelas roupas — consegui falar de forma coerente antes de perguntar: — Tem
um telefone que eu possa usar?
Ouvi hesitação na voz dele ao perguntar: — Por quê?
— Porque eu preciso ligar para minha namorada.
Descrença brilhou nos olhos dele. — Sua namorada?
— Sim, minha namorada — respondi firme, resistindo ao impulso de surtar com ele
quando ele tinha me feito um favor. — Posso usar seu telefone ou não?
— Você não precisa ir embora — Kavanagh disse, colocando um celular elegante nas
minhas mãos. — Pode ficar aqui, cara. O tempo que precisar.
Não, eu não podia.
Eu precisava sair dali.
Meu pai ainda estava lá fora.
E o Molloy?
Jesus Cristo, eu tinha desistido dela.
— Vai logo, porra — sussurrei quando minhas mãos não colaboravam.
Meus dedos não conseguiam apertar os botões.
— Qual o número dela? — ele perguntou, pegando o telefone de volta. — Diga o
número e eu ligo pra você.
Soltando um suspiro dolorido, forcei um olhar atento para o gigante que estava na
minha frente. Eu não confiava nele, mas a Shannon claramente confiava, o que me
deixou curioso. Me fez duvidar dos meus instintos.
Johnny Kavanagh estava aqui, no meio de toda a merda da minha família, e ele não
estava fugindo.
Algo nele me lembrava o Molloy e eu franzi a testa.
— Eu avisei ela pra ficar longe de você, sabia? — ouvi minha voz dizer, com a testa
franzida enquanto minha visão borrava e clareava. — Disse que você ia embora.
Senti uma dor forte na cabeça e balancei a cabeça, focando nele. — Disse para ela não
criar esperanças com você.
Ele não reagiu.
Também não pareceu surpreso.
Em vez disso, perguntou: — Qual o número dela?
Pressionando a palma da mão na testa, falei o número que decorava desde o primeiro
ano, o único que tinha guardado na mente, antes de dizer: — Não a decepcione.
Firmando o corpo para não balançar, olhei nos olhos dele e disse: — Seja lá o que você
esteja fazendo aqui, Kavanagh, não ferrar com a minha irmã.
Ele apertou os botões do celular antes de me devolver.
Com os olhos cheios de emoção sincera e a voz carregada de sinceridade dura, ele me
encarou e prometeu: — Não vou.
MENINO PERDIDO
AOIFE
— AOIFE, eu te prometo fielmente que ninguém vai tirar o seu bebê — disse minha
mãe pela milionésima vez quando entramos em casa, depois de passar a maior parte do
dia no hospital sendo cutucada, examinada, passando por swabs e interrogada. — Eles
já explicaram isso pra gente. Ninguém está te questionando. Eles só estão cuidando do
seu bem-estar, querida.
— Bom, eu não pedi isso — respondi com a voz estrangulada, mentalmente atordoada
pelas reviravoltas que o dia tinha tomado. — Eu estou claramente bem, Mamãe. Eu sou
saudável, cuido de mim mesma, venho de uma casa quente e segura, então não entendo
por que a minha vida precisa ser colocada sob um microscópio assim.
— Não é do seu estilo de vida que eles estão preocupados — ela respondeu, colocando
a bolsa em cima da mesa. — Jesus Cristo, Aoife, você devia ter vindo falar comigo.
— Sobre o quê?
— Sobre o Joey.
Meu coração afundou. — O Joey está bem — me ouvi defender. — Ele tá lidando com
muita coisa com a família agora, mas ele vai ficar bem, Mamãe.
— Aoife. — Ela se virou para me encarar. — Você não pode…?
— Não posso o quê?
— Não mentir pra mim.
— Eu não estou mentindo — levantei as mãos. — Ele tá bem!
Minha mãe suspirou, exausta. — Por que você não me contou que ele tá desaparecido?
— Ele não tá desaparecido — argumentei, fraca. — Ele só tá clareando a cabeça.
— Aoife!
— Talvez porque eu não queria que você pensasse mal dele — admiti, com a voz
partida. — Que é exatamente o que você tá fazendo agora.
— Eu não penso mal do garoto — ela rebateu. — Eu tô preocupada com ele. Eu tô
preocupada com você.
— O Joey nunca me machucaria.
— Não é isso que eu tô dizendo.
— Então o quê? — exigi. — O que tem pra se preocupar?
— Minha filha acabou de passar por testes rigorosos pra doenças que eu nunca nem
tinha ouvido falar antes de hoje — ela retrucou, indo até a chaleira. — É claro que eu tô
preocupada!
— Bom, você não foi quem levaram picada de agulha, e nem teve vários swabs enfiados
na sua va—
— Não usa essa palavra — ela me alertou, estremecendo. — Essa palavra é horrível.
— Vagina — mudei o rumo e disse. — Ou o seu cu, Mamãe, que, pra constar, não é
uma experiência agradável.
— Bom, a gente vai saber mais quando os seus resultados chegarem.
— A gente já sabe — rosnei, saindo da cozinha. — Eu tô limpa porque o Joey tá limpo!
— Aoife, espera, a gente precisa conversar sobre isso.
— Não, não precisa — gritei por cima do ombro enquanto subia a escada pisando forte.
— Eu preciso tomar banho.
— Essa conversa não acabou, mocinha.
— Quer apostar? — murmurei, entrando no meu quarto e batendo a porta atrás de mim.
Chutando os tênis longe, fui direto pra cama, querendo nada mais naquele momento do
que me encolher debaixo das cobertas e hibernar.
Porque era demais.
Era tudo demais, porra.
Deprimida e irritada, andei até o guarda-roupa e chutei a porta com frustração. —
Babacas.
Furiosa quando meu celular vibrou no bolso, puxei ele e encarei a tela, já pronta pra ver
o nome da minha mãe aparecendo.
O número que estava ligando não era salvo nos meus contatos.
Instantaneamente, fui tomada pelo pânico ao atender a chamada e colocar o telefone no
ouvido. — Alô?
— Aoife, sou eu.
Três palavras.
Três palavras que tiraram todo o ar dos meus pulmões e as forças das minhas pernas.
Cambaleando até a cama, me sentei e deixei o tsunami de alívio invadir meu corpo.
Oito dias de silêncio tinham me levado à beira de um colapso nervoso.
Ouvir a voz dele derreteu o gelo ao redor do meu pobre coração machucado.
— Seu desgraçado — engasguei quando finalmente consegui falar.
— Eu sei.
Tremendo violentamente, troquei o telefone pra minha mão esquerda e pressionei contra
o ouvido, enquanto lágrimas corriam pelas minhas bochechas. — Seu filho da puta!
— Eu sei, tá? — A voz dele estava partida, as palavras arrastadas, e eu não precisava
estar na frente dele pra saber que os olhos dele estavam negros como carvão.
— Maldito Joey — abaixei a cabeça, sentindo tanta coisa ao mesmo tempo que nem
tinha forças pra mantê-la erguida. — Você prometeu.
— Eu sei que prometi — veio a resposta partida dele. — Eu fodi tudo.
— Ah, você acha? — zombei, resistindo ao impulso de jogar meu telefone contra a
parede do quarto. — Eu tô grávida do seu bebê e você simplesmente some do mapa!
Qualquer coisa poderia ter acontecido com você, Joey. Qualquer coisa. Você não
entende isso? Não sabe o quanto eu estive apavorada?
— Eu sinto muito, baby.
Dor.
Alívio.
Fúria.
Devastação.
O medo me catapultou pra fora da cama e comecei a andar de um lado pro outro no
quarto.
— Joey, você precisa vir pra casa, tá bom? Você precisa vir pra minha casa agora.
— Não, não, não, eu não quero que você me veja assim — ele disse, a voz rouca. — Eu
não quero te machucar mais do que já machuquei.
— A única forma de me machucar é me evitando — insisti, apertando o telefone. — Até
o fim, lembra? Isso ainda vale, Joe. Eu te amo.
— Eu te amo tanto, porra — a voz dele falhou. — Eu nem sei como te explicar o quanto
porque não tenho palavras suficientes na cabeça pra isso.
— Eu sei que você ama — fechei os olhos com força e apertei o telefone ainda mais. —
Eu sei, Joe.
— Me desculpa — a voz dele estava arrastada e com aquele tom de sono. — Eu só
quero que você fique bem. Você e o bebê.
— A gente tá bem — tentei tranquilizar. — Mas a gente precisa de você.
— Ninguém precisa de mim.
— Isso não é verdade — rebati, sentindo meu coração se despedaçar no peito. — Volta
pra mim.
— Eu só preciso dormir — ele sussurrou, quebrado. — Eu tô tão cansado o tempo todo
e meus olhos doem pra caralho. Tá difícil ficar acordado.
— A Shannon tá com você? — pressionei a mão na testa e lutei contra a ansiedade. —
Na casa do Johnny? Foi ela que te levou aí?
— Acho que sim — ele respondeu, incerto. — Me desculpa tanto.
— Joey, escuta — funguei, limpei a garganta e tentei ser a voz da razão pra ele. — É,
você fodeu tudo, tá bom? Você ferrou tudo de vez. Você não pode voltar atrás, mas
pode seguir em frente. Você não precisa ficar preso nessa cabeça, baby. Eu posso te
ajudar. A gente pode te conseguir ajuda.
Houve uma longa pausa antes da voz dele, exausta e arrastada, sussurrar:
— Que tipo de ajuda?
— Do tipo profissional — sugeri. — Eles têm clínicas de reabilitação pra adolescentes
na sua situação. Tem que ter. Eu vou achar uma pra você, tá bom? A gente vai te
conseguir a ajuda que você precisa pra vencer isso, mas você precisa voltar pra mim. Só
volta pra mim, baby, e eu vou te ajudar…
— Ninguém pode me ajudar, Molloy.
— Isso não é verdade — rebati, com firmeza. — Você tem uma mente linda, Joey
Lynch, e um coração maravilhoso. Você pode vencer isso. Você só precisa querer. Isso
é metade da batalha. Você ainda pode consertar tudo. Você tem tempo. Você pode
melhorar. Só tenta, Joe. É só isso que você precisa fazer. Só tenta, baby. Eu te amo
tanto. Ver você se autodestruir assim tá me matando.
— Eu só quero você.
— E eu só quero você — engasguei. — Mas eu preciso de você saudável. Eu não vou
deixar você se destruir. A gente tem um bebê a caminho, Joey. Eu não vou deixar você
desistir agora.
— Já é tarde demais pra mim, Molloy.
— Não — balancei a cabeça. — Não diz isso.
— Eu tô fodido da cabeça.
— Eu tô indo te buscar — declarei, vasculhando o quarto em busca das chaves do carro.
— Só espera aí que eu já tô indo.
— Não, porra, não vem aqui — ele gemeu. — Eu não quero que você me veja assim.
— Joey, eu tô indo.
— Se você vier aqui, eu vou embora.
— Joey!
— Não, não vem aqui, tá? — ele gemeu do outro lado da linha antes de acrescentar: —
Me deixa me ajeitar e eu vou até você.
Arrastando as mãos pelos cabelos, resisti ao impulso de puxar as pontas e soltei uma
respiração estrangulada.
Eu não podia simplesmente deixar ele lá.
Não agora que eu finalmente sabia onde ele estava.
Ele tinha me feito passar pelo inferno nos últimos oito dias.
Eu sabia que ele estava chapado.
Eu sabia que ele estava se autodestruindo.
Eu sabia que eu não podia fazer porra nenhuma pra impedir, mas eu ainda queria tentar.
Eu ainda queria mergulhar de cabeça no mundo onde ele estava se afogando e puxá-lo
pra segurança — ou, pelo menos, manter a cabeça dele fora d’água.
Alguns momentos se passaram antes da porta se abrir, e eu ser recebida por uma mulher
de meia-idade vestindo roupas de hospital.
— Posso te ajudar?
— Oi, sim — soltei o ar, oferecendo um pequeno sorriso. — Então, eu sei que ele não
mora aqui, mas eu tô procurando, ah, o Gibsie?
— Se por acaso você encontrar a parceira dele de cabelo cacheado por aí, diz pra ela
que a mãe dela disse que ela tá de castigo — a Sra. Biggs gritou atrás de mim.
— Sim, claro, sem problema — respondi, nervosa demais pra registrar o que ela estava
dizendo, e fui apressada até a porta da frente, batendo várias vezes até que a luz do hall
se acendesse.
Dessa vez, quando a porta abriu, fui recebida por um Gibsie surpreso.
— Olha só quem tá aqui, a Sra. Joey o hurler.
— Eu preciso da sua ajuda.
— Ok — franzindo a testa, ele deu um passo pro lado, mas eu continuei parada onde
estava. — Mas se for conselho que você precisa, já vou avisando que sou a pior pessoa
pra isso.
— Eu não quero seu conselho, Gibsie.
— Que alívio — ele deu uma risada. — Porque eu sou péssimo nisso. E quando digo
péssimo, quero dizer terrível. Pergunta pra qualquer um dessa rua. Eu sou a última
pessoa que você deve procurar numa crise…
— Ah meu Deus, para de falar e começa a ouvir.
— Cala a boca agora.
— Eu preciso de direções pra casa do seu amigo Johnny Kavanagh — falei, sentindo
minha ansiedade aumentar a cada minuto. — Eu já estive lá antes, mas não lembro o
caminho e eu preciso chegar lá.
— Merda — a preocupação brilhou nos olhos cinzentos dele. — Você tá procurando o
Joey.
— Eu não sei. — Coçando o peito largo, Gibsie olhou ao redor, meio perdido. — Eu,
ah, eu não acho que seja uma boa ideia.
— Uma boa ideia? — Fuzilei ele com o olhar. — Eu não tô nem aí pro que você acha,
Gibbers, eu preciso ir até meu namorado, e tô te pedindo ajuda.
— Eu entendo — ele tentou me acalmar, levantando as mãos. — E eu quero ajudar
você. Juro que quero. Mas…
— Oito dias — soltei, sem me preocupar em mentir ou esconder minhas emoções. Se o
Gibsie tinha visto o Joey hoje, então ele sabia exatamente o que eu tava enfrentando. —
Eu não vejo ele há oito malditos dias.
— Ele tá seguro — ele respondeu, o tom assumindo sinceridade. — Eu prometo, tá? O
Kav tá cuidando de tudo. Teu garoto tá dormindo lá na casa dele. A Shannon tá lá com
ele. Você não tem com o que se preocupar.
— Você não entende — rosnei, reprimindo o impulso de gritar. — Eu preciso ver ele.
— Não vou mentir pra você. Teu namorado tá numa situação bem fodida — Gibsie
falou direto. — Mas ele tá seguro. Se você for lá e acordar ele, Deus sabe o que ele vai
fazer ou pra onde ele vai. — Ele balançou a cabeça e me lançou um olhar solidário. —
Não tô querendo me meter, mas eu realmente, realmente acho que você devia deixar ele
dormir…
— Oi — uma voz familiar interrompeu, segundos antes de uma cabeça loira cacheada
aparecer por baixo do braço do Gibsie. — É a Aoife, né? Da nossa festa dos anos 90? —
Vestindo uma camisa de rugby enorme e um pijama fofo rosa com chinelos de
coelhinho combinando, ela sorriu pra mim. — Você lembra de mim, né? Eu sou a Claire
Biggs.
— É, oi, eu lem… — Antes que eu terminasse de falar, ela estendeu a mão e segurou a
minha.
— Vamos entrar antes que você congele aí na porta — ela deu um tapa no peito do
amigo. — Sério, Gerard — ela repreendeu, me puxando pra dentro e me guiando por
um corredor mal iluminado, atravessando uma cozinha e entrando num jardim de
inverno espaçoso. — Onde estão seus modos? Não se deixa garotas na porta à noite.
— Eu não deixei — Gibsie se defendeu rápido, vindo atrás de nós. — Eu tava
segurando a porta pra ela, como um cavalheiro.
— Tá com fome? — Claire continuou, me levando até uma caixa de papelão em cima
da mesa de vidro no centro do cômodo. — Com sede?
— Não, tô bem — respondi, soltando minha mão da dela. — Eu só preciso muito… o
que diabos é isso? — Minha boca caiu aberta quando vi ela se ajoelhar na frente da
mesa, toda derretida pelo que tinha dentro da caixa. — Isso é um rato?
— O quê? Não — Claire respondeu, pegando uma luva de jardinagem ao lado da caixa
e calçando antes de enfiar a mão lá dentro e tirar de lá uma criatura espinhosa. — A
gente achou ele no meio da rua, voltando da casa do Johnny. Ele tava sozinho, no
escuro, e não podíamos deixar ele lá, podia ser atropelado, então trouxemos ele pra casa.
— Sorrindo toda encantada pro "bichinho" na mão dela, ela suspirou: — Não é a
bolinha de fofura mais adorável que você já viu?
— Eu, ah… — Balançando a cabeça, tentei pensar em algo lógico pra dizer, mas
parecia que eu tinha entrado na zona do crepúsculo. — Gente, isso é um ouriço.
— O nome dele é Reginald Gibson-Biggs — Gibsie corrigiu, sentando de pernas
cruzadas no tapete felpudo ao lado da amiga. — Anda, Claire-Bear. Não seja egoísta. É
minha vez. — Colocando um travesseiro no colo, ele deu tapinhas e chamou: — Vem
pro papai, Reggie.
— Cuidado, Gerard, ele tá bem magrinho.
— Eu sei o que tô fazendo, Claire-Bear.
— Eu sei que sabe, mas ele é tão pequenininho.
— Isso é porque ele acabou de sair da hibernação. Coitadinho tá morrendo de fome.
— Será que a gente devia pegar umas minhocas pra ele?
— Ouriços comem minhoca? — Ele franziu as sobrancelhas. — Achei que comiam
grama.
— Acho que lembro de ter aprendido sobre a dieta dos ouriços na aula de ciências.
— Merda, eu não fiz aula de ciências.
— Todo mundo na Irlanda faz aula de ciências no primário, Gerard.
— Eu não fiz.
— Fez sim.
— Quando?
— Lembra das caminhadas longas com os colegas e o professor?
— Lembro.
— Aquelas eram caminhadas de observação — ela explicou. — Da aula de ciências.
— Caralho — ele riu. — Achei que eram pausas pro corpo mexer.
Curiosa de forma mórbida, incline minha cabeça de lado, observando enquanto eles se
revezavam cuidando de um animal selvagem.
— Vocês deviam mesmo estar tocando nesse bicho?
— Reggie.
— Reggie — corrigi, me arrepiando toda quando o Gibsie fez cócegas na barriguinha
do bicho. — Animais selvagens podem carregar doenças, sabiam?
— Olha pra ele — Claire suspirou, segurando a criatura espinhosa perto de mim pra que
eu o acariciasse. — Como você pode pensar isso de algo tão precioso?
— É, super precioso — respondi, dolorosamente ciente de que eu também estava
cuidando de algo tão precioso quanto dentro da minha barriga. Dei um passo cauteloso
pra trás e dei de ombros. — Olha, tudo que eu preciso são as direções pra casa do
Johnny e já tô indo. — Fiz uma careta e acrescentei: — E vocês podem aproveitar todo
o tempo de qualidade com, ah, o Reggie.
VOANDO ALTO, CAINDO FUNDO
JOEY
Tremendo da cabeça aos pés, fiquei encarando o teto desconhecido, sentindo o frio se
infiltrar tão fundo nos meus ossos que, por um momento, me perguntei se estava à beira
da morte. Eu conseguia ouvir meu coração ainda martelando no peito, mas estava
dormente, e meus membros pareciam mortos.
Coberto pela escuridão, arranhei e rasguei meus próprios braços, desesperado para me
livrar da coceira insuportável logo abaixo da superfície da pele. Sabendo que a fome
que ameaçava me devorar por dentro não tinha nada a ver com comida, me virei de lado
e engoli um bocado de bile.
Dor.
Estava em todo lugar.
Nos meus braços.
Nos meus olhos.
Nas minhas costelas.
No meu coração.
Com as pernas bambas, me levantei e tateei o quarto às cegas até meus dedos
encontrarem o interruptor de luz. No minuto em que o quarto ficou iluminado, senti
vontade de desmaiar. A dor na minha cabeça era forte demais pra aguentar. Agarrado a
uma cômoda de madeira, tentei controlar a respiração e não desmaiar de dor, enquanto
apertava os olhos e forçava minha visão a focar devagar.
Com o rosto deformado de hematomas e inchaço, e semanas de barba por fazer, lutei
para me reconhecer.
Eu não parecia mais comigo.
Não parecia com ninguém que eu já tinha conhecido.
Com uma mão ainda segurando a cômoda para manter o equilíbrio, levantei a outra e
passei os dedos sobre os hematomas amarelados e inchados no meu rosto. Me inclinei
mais perto para ver melhor os estragos, forcei a visão e estudei meus olhos
avermelhados.
Levou um tempo ridículo pra eu achar meus tênis e ainda mais tempo pra conseguir
calçá-los e amarrar os cadarços.
Mas eu consegui.
Peguei um moletom aleatório pendurado nas costas de uma cadeira, vesti ele com
cuidado e puxei o capuz, antes de ir até a porta.
De alguma forma, consegui colocar um pé na frente do outro, sair do quarto onde, sem
querer, eu tinha me refugiado e encontrar o caminho até a escada.
Tropeçando degrau por degrau, me agarrei ao corrimão para me equilibrar, mal
conseguindo chegar até o final da escada sem quebrar o maldito pescoço.
Tremendo de frio, fui até a porta da frente e saí.
Me sentindo perdido e confuso, tentei me situar, tentei entender onde diabos eu estava e
para onde precisava ir para voltar até ela, mas isso não estava vindo fácil pra mim. Meus
pensamentos estavam todos embaralhados e meu senso de direção tinha me
abandonado.
Ele tá lá fora.
Ele tá voltando pra te pegar.
Vocês todos vão morrer.
Acha ela.
Volta pra mim, Joe.
Joey, não me deixa sozinha.
Balançando a cabeça, eu cambaleei, instável sobre os pés, enquanto seguia pela linha
das árvores descendo uma longa estrada, deixando minhas pernas me guiarem quando
meu cérebro se recusava a colaborar.
Continua andando.
Só volta pra ela.
Um pé na frente do outro.
Depois do que pareceu uma eternidade, um par de faróis surgiu à vista e eu,
desajeitadamente, levantei o braço, tentando conseguir uma carona.
— Joe!
— Joe!
— Molloy?
— É, amor, estou aqui. O portão está trancado e eu não consigo entrar. Estou aqui há
horas.
— Você tá?
— Tô, só continua andando até o portão.
Demorei um momento pra processar a voz dela, e um pouco mais pra entender o
significado das palavras que estavam saindo da boca dela, antes de conseguir mudar
minha atenção para o portão.
E lá estava ela.
Parada do outro lado do que parecia ser um portão de ferro fundido de uns quatro
metros e meio de altura.
— Molloy — cambaleando pra frente, fechei o espaço entre a gente, não parando até
alcançar o portão. — Molloy.
— Eu tô aqui, Joe — enfiando a mão entre as barras de metal, ela alcançou a parte de
trás da minha cabeça e se inclinou, chegando mais perto. — Eu tô bem aqui, amor.
— Me desculpa, rainha — eu consegui dizer, apoiando a testa contra as barras onde ela
também tinha encostado a dela. — Me desculpa tanto.
— Shh — as duas mãos dela estavam no meu rosto agora, os dedos traçando minhas
bochechas e afastando meu cabelo, enquanto ela cobria de beijos as partes do meu rosto
que conseguia alcançar. — Eu fiquei tão assustada com você.
— Eu sou um babaca.
— Eu também tô — tremendo, enfiei a mão entre as barras pra tocar nela, só pra sentir
ela, pra me assegurar de que ela era real de verdade. — Eu acho que tô quebrado.
— Você vai ficar bem — ela chorou, e as lágrimas que caíam das bochechas dela
molhavam as minhas. — Eu não vou deixar mais nada acontecer com você.
— Eu não posso, Joe — ela disse, com a voz estrangulada. — Eu não sei o código pra
abrir o portão e ele é alto demais pra escalar.
— Qual é?
— Eu, ah… — piscando rápido, vasculhei minha cabeça pela informação que eu sabia
que um dia já tive, antes de perceber que estava vazia. — Eu juro que tá aqui em algum
lugar na minha cabeça.
— Tá tudo bem — ela respondeu, fungando. — Não se preocupa com isso. Você pode
ficar aqui hoje à noite com a Shannon e o Johnny.
— Não, não, não, eu não quero ficar aqui — gemi, me agarrando nela com tudo o que
eu tinha dentro de mim. — Eu quero ir embora com você.
— Eu sei que você quer — ela disse, tentando me acalmar, mas soando com dor. —
Mas eu não consigo te tirar daqui, Joe.
— Eu consigo escalar—
— Não, amor, você não consegue — ela me cortou. — Você tá machucado demais.
— Eu sei que você ama, Joe. Deus, eu sei — a voz dela foi sumindo e um soluço
escapou. — Escuta, eu preciso que você me mostre os braços, tá?
— Meus braços?
— É — fungando, ela deu um passo pra trás e agarrou uma das minhas mãos nas dela.
— Tá tudo bem — ela me acalmou, levantando devagar a manga do meu moletom, só
pra começar a chorar de novo quando chegou até meu cotovelo. — Me desculpa.
— O outro — ela disse com dificuldade, pegando minha outra mão e fazendo a mesma
coisa.
— Me desculpa tanto.
— Eu não lembro.
— Não fala isso! — ela me advertiu, enfiando o braço de volta entre as barras e
puxando pelo meu pescoço. — Não ouse dizer isso de novo, tá me ouvindo?
— Eu só tô aqui por você — confessei, me aquecendo com o toque das mãos dela na
minha pele. Eu tava com tanto frio. Ela era a única coisa que conseguia me esquentar.
— Eu quero que isso acabe, Aoif. Quero que tudo isso vá embora—
— Não, amor, não — fungando, ela me puxou mais pra perto e selou a boca na minha.
— Eu não vou deixar você ir.
Tremendo quando o calor dos lábios e da língua dela derreteram o gelo dentro de mim,
tentei me aproximar mais, precisando estar com ela.
— Não foge, Molloy. Eu sei que não mereço você, mas, por favor, só não foge.
— Nunca.
— Não — balançando a cabeça, ela se afastou só o suficiente pra secar as lágrimas que
escorriam pelo meu rosto e depois encostou de novo o nariz no meu. — Você tem a
gente.
— Eu quero ser bom o bastante pra você — funguei, acariciando o pequeno volume da
barriga dela enquanto o vento cortava meu rosto. — Pra vocês dois.
Você é a única.
VOCÊ NÃO VAI LEVÁ-LO
AOIFE
EU TINHA PROBLEMAS.
Muitos deles.
O maior, além da maternidade iminente e da dependência química do meu namorado,
era minha incapacidade de recuar de uma briga.
Muitos diriam que minha habilidade de amar incondicionalmente era um traço positivo
de personalidade, mas quando isso me levava de volta à cova dos leões, eu sabia que era
um maldito hábito imprudente.
Ainda assim, estacionei meu carro do lado de fora da casa nojenta e cheia de pichações
e desci, pronta para a batalha.
Segurando as chaves do carro com força em uma mão, para me proteger, caminhei até a
casa e bati na porta com a outra. Quando a porta se abriu e o rosto grotesco do Shane
apareceu, senti o fogo de mil vulcões se acumular dentro de mim.
— Antes de começar, eu sei que ele esteve aqui com você. Então, quero o telefone dele,
a carteira e tudo o mais que você roubou dele — declarei friamente, olhando direto nos
olhos dele. — Se quiser brigar comigo por causa disso, eu vou trazer o inferno inteiro
pra cima de você.
— É mesmo?
Parecendo mais divertido do que irritado comigo essa noite, Shane balançou a cabeça e
deu uma risada.
— Quer as coisas do seu namorado? Entra e procura você mesma. Não sou a empregada
dele.
Meu coração afundou, mas mantive o rosto firme e passei pelo bandido drogado.
— Você sabe o quarto em que ele fica — Shane gritou por cima do ombro, enquanto
desaparecia na sala de estar, parecendo completamente divertido com a ruína do meu
namorado. — Fique à vontade, princesa.
Engolindo minha fúria, subi as escadas sem parar até ficar diante da porta do quarto
onde o encontrei no ano passado.
Respira fundo.
Você consegue.
Empurrando a porta para dentro, prendi a respiração e entrei. Reprimi o impulso de
estremecer quando meus olhos pousaram no colchão manchado de sangue onde eu sabia
que Joe tinha dormido, e pisei cuidadosamente sobre várias seringas descartadas e
pedaços aleatórios de papel alumínio, sentindo um pedaço de mim morrer a cada passo
que dava.
Chamar aquilo de imundo não chegava nem perto de descrever as condições deploráveis
daquele quarto, e saber que era para esse inferno que ele vinha buscar refúgio me
deixava enjoada.
Cuidadosa para não tocar em nada, por medo de doenças ou infecções — porque, quem
diabos sabia quem mais já tinha ficado nesse buraco? — alcancei um moletom jogado
no chão, que reconheci de imediato.
O moletom do Joey.
Eu tinha comprado para ele no ano passado.
— Pode dizer pro seu namorado que ele me deve dinheiro — Shane gritou da sala
quando eu estava na metade da escada. — Ele tem uma semana pra conseguir a grana
ou vai trabalhar pra mim.
Incapaz de conter minhas emoções por mais um segundo, desci a escada furiosa e entrei
tempestuosa na sala.
— Fica longe dele, Shane — rosnei, ignorando os quatro outros homens esparramados
nos sofás daquele buraco que ele chamava de casa. — Tô falando sério, babaca.
Mantém seus hábitos nojentos longe do meu namorado!
— Meus hábitos nojentos? — ele riu do sofá. — Não seria melhor dizer os hábitos
nojentos do Lynchy?
— Palavras — ele riu, zombando de mim com um gesto das mãos. — Cai fora daqui,
princesa, e diz pro Romeuzinho que eu já tenho um serviço alinhado pra ele.
O olhar dele percorreu meu corpo e, quando chegou à minha barriga, as sobrancelhas
dele se ergueram.
— Você não vai levar ele — sequei, me mantendo firme. — Eu não vou deixar você
tirar ele de nós.
— Ele já tá perdido, garota — disse outro homem. — Some daqui antes que ele te
arraste junto.
Eu não conseguia.
Esse era o problema.
Eu não conseguia deixar ele.
— Quanto ele te deve? — me ouvi perguntar, mantendo meus olhos colados no Shane.
— O Joey. Quanto ele te deve?
— Seiscentos — ele disse, arqueando uma sobrancelha. — Você tem esse tipo de
dinheiro, princesa?
Merda.
— Não preciso de direito — rebati, tremendo. — Eu conheço o Joey. Ele nunca vai
traficar.
Em pânico, revirei meu cérebro procurando uma saída para o desastre em que meu
namorado tinha se metido.
Os homens caíram na gargalhada, como se fosse a coisa mais engraçada que já tinham
ouvido.
— Não tô brincando — disparei. — Eu pago o que ele deve, mas você vai se afastar, me
ouviu?
— Você me traz o que ele deve, e a gente conversa — Shane respondeu, com os olhos
brilhando de diversão.
ALGUM TEMPO DEPOIS, um Ford Focus prata estacionou atrás do meu carro.
— Eu sei que não tenho o direito de te pedir nada — disparei assim que ele entrou no
banco ao meu lado. — A gente mal se conhece, você provavelmente acha que eu sou
uma maluca por ter aparecido na sua porta mais cedo e por te ligar, mas eu tô tão
desesperada, e ele tá—
— Relaxa, eu não ligo pra grana — ele me cortou, virando o corpo pra me encarar. — É
sua. Sem condições.
— Pode tentar, mas eu não vou aceitar — ele respondeu, calmo. — O fato de você ter
precisado disso a ponto de vir até mim já é o assustador.
— E o dinheiro?
— Merda.
— Porque a família toda trata ele como uma segunda opção — minha voz saiu
sufocada. — E não, não tô falando da Shan e dos pequenos. Tô falando da mãe dele, do
irmão dele, do— — Quebrando a frase no meio, antes de ter um colapso nervoso, puxei
várias respirações profundas antes de tentar de novo. — Eu só preciso que ele fique
bem, Gibs. Eu só… eu preciso daquele garoto.
— Ah, porra.
— Imagino que a Shannon não sabe? — ele deduziu. — O que significa que o Johnny
não sabe, porque se o Johnny soubesse, eu saberia.
Nojo não era suficiente pra explicar o que eu tava sentindo por mim mesmo. Ódio
também não era uma palavra forte o bastante.
Eu não podia me permitir pensar nisso, porque pensar nisso me fazia querer morrer.
Fazendo uma careta quando a dor ricocheteou na minha têmpora, reação direta da luz do
sol entrando pela janela, abri a porta do banheiro e saí pro corredor. Tinha uma visão
perfeita de quem eu presumia ser a mãe do Kavanagh, dando um sermão no filho.
Com as mãos nos quadris e as costas viradas pra mim, a loira de baixa estatura estava
parada na porta de mais um dos quartos desse castelo de gente rica.
Caindo no velho hábito de uma vida inteira, e tirando o foco de cima da minha irmã,
chamei:
— Valeu pela cama, Kavanagh, posso pegar um moletom emprestado?
Porque eu podia aguentar o que quer que essa mulher jogasse em cima da gente por
invadirmos a casa dela.
O desprezo dela.
A indignação.
As acusações.
Ela não podia me machucar, porque nada disso importava pra mim como importava pra
Shannon.
A mãe do Kavanagh me lançou um breve olhar antes de voltar pro filho e continuar o
sermão.
Justo.
Eu não podia exatamente culpar a mulher pela reação dela.
Quando ela terminou de dar a bronca no filho e virou a atenção de volta pra mim, me
preparei pro confronto, mas não foi raiva que vi nos olhos dela.
Também não era medo.
Era tristeza.
— Olá.
— Olá.
— Qual seu nome, amor?
— Joey — respondi, desconfiado, enquanto ela se aproximava. Dei um passo pro lado,
encostando na porta do banheiro. — Lynch.
— Joey Lynch — ela repetiu, parando bem na minha frente. — Eu sou a Edel. — Ela
estendeu a mão pra mim. — Edel Kavanagh.
— Tá. — Respondi, olhando pra mão estendida.
Eu não me mexi.
Apenas observei e esperei.
— Agora — disse ela, apertando minha mão de leve e sorrindo pra mim. — Você tá
com fome, Joey Lynch?
— Hã… — Confuso, olhei pra ela e balancei a cabeça devagar. — Não.
— Não? — Os olhos castanhos brilhavam pra mim e os lábios dela se curvaram num
sorriso. — Tá mentindo pra mim, amor?
Bom, merda.
— Parece que tem uma história aí.
— Você nem imagina. — Ela me lançou um sorriso travesso e saiu andando pelo
corredor. — Me segue, Joey, amor. Nenhuma criança sai da minha casa de barriga
vazia.
— Eu não sou uma criança — retruquei, seguindo ela, mesmo contrariado.
— Que tal então: nenhum amigo do meu filho sai daqui de estômago vazio? — ela
respondeu por cima do ombro. — Homem, mulher ou criança. Assim serve melhor?
Parado na porta da cozinha, observei enquanto ela começava a arrumar talheres na ilha
de mármore.
— Eu não sou amigo dele, também.
— Mas sua irmã com certeza é.
— É, bom… quando se trata da minha irmã e do seu filho, chamar eles de amigos é um
tanto ingênuo, sem falar em ultrapassado.
— Intuitivo — ela comentou. — Sabe de uma coisa, Joey, amor? Acho que você tem
razão.
— Seu filho poderia fazer coisa muito pior — ouvi a mim mesmo dizer, imediatamente
entrando no modo defensivo, enquanto via ela colocar uma pilha de scones num prato
de servir. Scones. Ela estava fazendo scones e chá numa chaleira de verdade. — Mas ele
não conseguiria fazer melhor do que minha irmã.
Os lábios dela se curvaram num sorriso.
— É mesmo?
— Só tô avisando. — Dei de ombros, cruzando os braços. — Não julgue o livro pela
capa.
— Eu podia dizer o mesmo pra você.
— Como assim?
— Bem, você não tá fazendo o mesmo comigo? — Ela sorriu por cima do ombro e foi
até o bule de chá.
— Com todo respeito, senhora—
— Edel.
— Edel — corrigi, contrariado. — Sem ofensa, mas você tem uma mansão. Acho que
dá pra dizer que sua história se explica sozinha.
— Você se surpreenderia, Joey, amor.
— É, bom, escuta, eu sei que você já sabe da nossa família. — Não adiantava negar
nossa situação pra essa mulher. O filho dela já sabia de tudo. Além disso, ela tinha
olhos. Dava pra ver as marcas na minha irmã. De qualquer jeito, eu tava de saco cheio
das mentiras. De saco cheio da enrolação. — Seu filho já tá rondando tempo suficiente
pra perceber que a gente tem merda demais pra lidar em casa, o que significa que você
também sabe. Só não quero que você julgue minha irmã por besteira que ela não pode
controlar. Ela não podia ser mais diferente do resto da nossa família.
— Parece que você tá se incluindo nessa afirmação.
— Porque eu tô. — Com a pele coçando e o corpo gelado até os ossos, forcei um aceno
de cabeça. — A Shannon é a melhor pessoa que eu conheço.
— Ah, Joey, amor. — Os olhos castanhos, cheios de compaixão, se fixaram nos meus.
— Por que eu tenho a sensação de que a Shannon diria exatamente a mesma coisa sobre
você?
Desestabilizado pelo jeito que ela me olhava, e com a pior dor de cabeça da história
atacando meus sentidos, apertei a ponte do nariz e me apoiei no batente da porta.
Eu não me mexi.
Não consegui.
Eu tava alerta, tenso.
Essa mulher?
Eu não conhecia essa mulher.
Não conseguia entender o que ela queria.
— Tá, eu… ah, vou aceitar uma xícara de chá… por favor.
Os olhos dela brilharam.
— Bom rapaz.
— E, se não for incômodo, será que você, ah, bem… será que você… — Soltei um
suspiro, cocei o queixo e forcei as palavras que me fizeram me odiar ainda mais do que
eu já me odiava. — Teria algo pra dor?
— Pro seu rosto, amor?
Não, pro meu coração.
— É — assenti. — Eu, ah… deixei meus remédios em casa.
— Vou pegar alguma coisa no armário de remédios — ela respondeu, indo até o canto
da cozinha. — Você tem alergia a alguma coisa?
— Não — respondi, me obrigando a ficar parado. — Posso tomar qualquer coisa.
— Vamos ver… tem ibuprofeno aqui?
Porra.
— É — estremeci, soltando um suspiro derrotado e assenti, cansado. — Isso tá ótimo,
obrigado.
— Ah, espera aí um segundo — ainda revirando o armário, ela pegou uma bandeja
plástica branca de remédios. — Sobrou um pouco de Solpadol da cirurgia do Johnny em
dezembro.
Bingo.
Um alívio repentino tomou conta de mim, e eu não consegui evitar que meus pés me
levassem até ela.
— Valeu — respondi, aceitando grato os comprimidos que ela deixou cair na palma da
minha mão antes de pegar o copo d’água que ela me ofereceu.
Não ia resolver muita coisa, mas ia aliviar um pouco até eu conseguir me ajeitar.
Se ajeitar.
Que piada do caralho.
Você é uma piada, idiota.
Você não é melhor do que ele.
— Hm?
— Sua namorada.
— Por quê?
— Você prefere que a gente fale sobre como você conseguiu esses hematomas? — veio
a resposta dela, seca. — Porque a gente pode ir por esse caminho, se você preferir.
— É mesmo?
— Qual oficina?
— Namoradinhos de colégio — ela sorriu, sabendo exatamente o que dizia. — Ah, ser
jovem de novo…
Ela me encarou por um longo momento antes de balançar a cabeça e me lançar mais um
daqueles sorrisos calorosos.
— Sabe, amor, acho que já ouvi falar dessa oficina. Vou levar o carro lá da próxima vez
que precisar de manutenção.
— Desde que eu tinha doze ou treze anos. — Dei outro de ombros. — Tô registrado
desde o terceiro ano.
— Precisava do dinheiro.
— E você gosta? — ela insistiu, ainda ocupada preparando comida e fazendo chá. —
Mecânica? É algo que você pensa em seguir depois da escola?
— O dinheiro é bom.
— Bom, eu acho que você é um orgulho pra si mesmo, Joey Lynch. — De algum jeito,
ganhei outro daqueles sorrisos radiantes da mãe do Mister Rugby. — Trabalhando todas
essas horas depois da escola. E no seu ano de Leaving Cert. Você devia ter orgulho de si
mesmo.
— Por quê?
— Nada. — Porra, eu precisava parar de deixar ela me puxar pra conversa e cair fora
dali. — Nem importa.
— Acho que importa sim. — Virando-se pra mim, ela me deu toda a atenção.
Era um conceito preocupante pra caralho, considerando que eu nem conhecia ela.
Ela estava.
Essa era a parte perturbadora.
Ela estava me ouvindo.
Porra.
— Eu, ah…
A porta da cozinha se abriu nesse momento, e meus olhos pousaram na minha irmã e no
Kavanagh.
— E aí, Shan? — Minha voz saiu rouca e carregada de emoção, impossível de esconder.
— Como você tá?
— Tá tudo bem, Joe. — Os olhos azuis dela se fixaram nos meus, e eu pude sentir a dor
emanando dela.
Com um sorriso pequeno, ela assentiu e apertou a mão do garoto a quem ela se
agarrava.
E com esse gesto pequeno e sutil, ela me mostrou que tava tudo bem, que a gente podia
confiar nessas pessoas.
— E você?
— Kavanagh — reconheci então, voltando minha atenção pro garoto que ela tava
colada. — Valeu de novo.
Por segurar ela.
Por cuidar dela quando eu não consegui.
Eu tava vazio.
Eu tava acabado.
NÃO DESISTA DO MEU IRMÃO
AOIFE
— Julie, juro por Deus, se você sequer pensar em me deixar na mão durante o pico do
almoço, eu vou te fazer descer o inferno — rosnei, olhando para a ruiva que estava
pegando o maço de cigarros embaixo do balcão.
— Inferno, te digo.
— Ah, se acalma, princesa — ela resmungou, enquanto pegava o maço e se dirigia para
a abertura do outro lado do bar. — Não fumei nada a manhã toda. Já volto, cinco
minutinhos.
— Vadia — rosnei, e não baixinho — enquanto mais uma vez eu cobria o trabalho dela.
Depois de anotar e entregar todos os pedidos da minha parte do bar, eu relutante fui para
o lado da Julie e comecei a servir as cervejas e matar a sede da galera. Foi só quando
cheguei no fim do balcão que reconheci um par de olhos castanhos familiares me
encarando.
— Tadhg. — Meu coração disparou no peito. — O que você está fazendo aqui?
— Preciso falar com você — respondeu, tom duro, sentando num banco alto do bar e
me encarando firme, sem ceder. — É importante.
Sim, eu imaginei que tinha que ser, se ele tinha vindo até aqui me procurar.
— Tadhg, você sabe que não pode entrar no bar sem um adulto com você.
— Ele voltou.
— Joe?
O Lynch mais novo fez um aceno firme com a cabeça, e eu soltei um suspiro enorme de
alívio.
Deixar Joey naquela noite, nos portões, foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na
vida, mas fiz com a certeza de que, se eu não podia chegar até ele, Shane Holland
também não podia. Temporariamente satisfeito com o maço de dinheiro que peguei
emprestado de um garoto que mal conhecia, eu não era tola o bastante para acreditar que
Shane tinha ido embora para sempre.
— Não.
— Não?
— Teve uma briga grande entre a mamãe e aquela loira com o carro chique que trouxe
Joey e Shannon pra casa — o pequeno alfa foi direto ao ponto, como sempre. — A
Shannon tava chorando pelo filho daquela mulher chique, a mamãe pirou, e o Darren
saiu batendo a porta.
— E o Joe?
Jesus.
Com o coração batendo descontrolado no peito, olhei ao redor do bar, desesperada para
largar tudo e ir até ele, mesmo sabendo que ainda tinha quatro horas de turno. Mas aí
pensei na falta de dinheiro na minha conta e no invasor crescendo na minha barriga, e
parei. Eu não podia perder esse emprego. Se saísse, me demitiriam, e ninguém ia me
contratar grávida.
— Quem te contou?
— Então, sua mãe sabe que você está aqui? — perguntei, sentando num barril velho na
área para fumantes. — Porque, vou te falar, Tadhg, sua mãe não é minha fã número um.
Acho que ela não ia gostar de saber que você está aqui comigo.
— Eu pareço dar a mínima pro que ela pensa? Além disso, já te falei que ela voltou pra
cama — respondeu seco, sentando no barril vazio do outro lado e acabando seu quarto
pacote de salgadinho. — Eu tô aqui pelo meu irmão.
Suspirei fundo.
— Vamos lá, Tadhg, nós dois sabemos que o Joe não te mandou aqui.
É, ele sabia mesmo. Sabia coisas que nenhum garoto da idade dele devia saber ou
passar.
— Eu tô aqui pelo Joe porque sei que ele tá ferrado na cabeça agora — continuou
Tadhg, tomando outro gole da Coca. — Eu vi nos olhos dele naquele dia na cozinha. Vi
que ele desligou. Sei que ele não tá mais aqui. O pai quebrou os pulmões da Shannon,
mas quebrou a mente do Joey, e a mamãe ajudou ele a fazer isso.
— Ele ainda está aqui, Tadhg — respondi, tentando reprimir um arrepio diante da
precisão com que o garoto avaliou o irmão.
— Não, não está — o pequeno desafiou. — Ele se foi, e você sabe disso também. — Ele
me lançou um olhar duro e disse: — Mas meu irmão pode melhorar. Eu sei que pode, e
você precisa parar de desistir dele.
— Bom. Porque você não vai encontrar ninguém melhor do que ele.
— Eu sei.
— Eu tô falando sério — ele insistiu, tom defensivo. — O Joe é o único pai que eu
lembro ter tido, então confia em mim quando eu digo que seu filho — fez um gesto para
minha barriga antes de completar — vai ter um pai do caralho.
Absorvi as palavras dele como um viciado absorveria crack, porque naquele momento,
querendo ou não, Tadhg Lynch me dava tudo que eu precisava. Ele acreditava no irmão
tanto quanto eu. Não importava que ele ainda não tivesse doze anos, o fato é que ele
entendia. Ele via a mesma pessoa que eu via e estava pronto pra lutar por ele. Isso me
deu esperança. Isso me confortou.
— Vou passar aí assim que acabar meu turno — falei, sem conseguir esconder a
emoção na voz.
— Eles vão tentar te forçar a sair — disse Tadhg, levantando-se, parecendo ter
terminado nossa conversa. — Mamãe e o Darren. — Ele me lançou outro olhar duro e
completou: — Não deixa. Não desiste do meu irmão.
— Bom.
— Quer ficar aqui até eu terminar? — perguntei, vendo ele se mover para a parede da
área para fumantes. — Eu te levo pra casa.
— Meu pai pode ir se foder — o pequeno alfa chamou por cima do ombro, enquanto
pulava num lixo com rodinhas e saltava com facilidade para o muro de pedra que
cercava a área para fumantes. — Se ele tiver sorte, é melhor torcer para não me
encontrar.
— Tadhg, espera—
— Até mais — ele gritou, me dando uma espécie de saudação de marinheiro antes de
sumir por cima do muro.
A LINHA DA FAMÍLIA
JOEY
Só havia um estuprador entre nós, estatutário ou não, e era o homem com quem ela se
enroscava na cama todas as noites nos últimos vinte e quatro anos ou mais.
Hipócrita de merda.
Ver a mãe do Kavanagh partir pra cima da minha na frente da minha casa mais cedo foi
uma visão estranha pra mim.
Nunca tinha visto uma mãe se jogar assim por seu filho. Mas Edel Kavanagh tinha — e,
lá no fundo da minha mente, tive a sensação distinta de que a Molloy faria exatamente o
mesmo pelo nosso filho.
Jesus.
Querendo estar em qualquer lugar, menos nessa casa, fiquei olhando enquanto Shannon
e mamãe disputavam o título de gritaria mais alta de Ballylaggin. Enquanto Darren, o
idiota, tentava colocar uma bandeira branca entre elas.
Idiota de merda.
Tomar partido da mamãe não ia lhe garantir nenhuma simpatia. Ele estava do lado da
pessoa errada. Cristo, até o Seany-boo, que tem só três anos, sabia que o Darren estava
tentando fazer algo inútil com nossa mãe.
Posso estar fodido na cabeça, mas eu quis dizer o que disse quando falei que tinha
acabado com ela. Eu não tinha mais força para perdoá-la de novo, não depois daquela
noite na cozinha. Não com a lembrança do corpo quase sem vida da minha irmã ainda
me assombrando.
Quis até bater palmas devagar, agradecido que alguém via o que eu via.
— Então para de ficar aí sentado e faz alguma coisa — minha irmãzinha cuspiu de
volta. Lutando e querendo que nosso irmão mais velho fizesse algo que ele nunca faria
por ela. Ajudá-la. — Você sabe que isso está errado. Você sabe que o que ela fez foi
horrível, e você só está deixando ela sair impune.
A merda que a mamãe falou pros Kavanaghs foi horrenda, e ele só alimentava essa
merda dela, cedendo ao colapso mental dela.
Eu posso precisar ser trancado, mas ela com certeza precisava da cela acolchoada ao
lado da minha.
— Não, não estou — Darren tentou apaziguar. — Ela sabe que errou, não sabe, mamãe?
Se ele esperava uma resposta coerente da mulher que nos gerou, ia se decepcionar
muito. Ela não tinha condições. Era incapaz de pensar além da versão dela de catorze
anos que foi forçada a ser mãe. O cérebro dela parou de crescer naquela idade.
Igual a mim.
— Mamãe, diga pra Shannon que sabe que errou. — Se eu fosse uma pessoa melhor,
teria sentido pena do cara. Ele ainda achava que a mãe que deixou mais de cinco anos
atrás ainda estava ali, sentada na mesa da cozinha. — Mamãe. Responde pra gente.
Parecendo exausta, Shannon balançou a cabeça e virou de costas pra mamãe. Darren,
porém, continuou a olhar para nossa mãe como se esperasse uma intervenção divina.
— Não perca seu tempo — ouvi dizer para o garoto dourado. — Porque ela está
quebrada. Você vai perceber isso logo.
— Joe. — Correndo até mim como um potro cambaleante, nossa irmã jogou os braços
no meu pescoço e se agarrou em mim. — Faz isso parar.
Eu queria.
Ainda havia uma parte viva em mim que queria consertar isso pela minha irmã.
Pelos meninos.
Mas eu estava tão fodidamente exausto.
Minha cabeça não parecia mais funcionar direito. O que quer que o velho tivesse feito
comigo naquela noite na cozinha me quebrou. O cordão que ligava meu coração à
minha cabeça foi cortado.
— Foi isso que você quis, Darren. Você quis ela em casa com a gente — disse para
nosso irmão. — Uma grande família feliz. — Envolvendo um braço em volta da garota
que tremia nos meus braços, encarei o homem que se achava mais esperto do que nós.
— Espero que tenhamos correspondido às suas expectativas.
Ele não respondeu. Em vez disso, empurrou a cadeira para trás e se levantou.
Dando uma última olhada para nossa mãe, virou-se e foi embora.
O som da porta da frente se fechando atrás dele foi a única confirmação que eu
precisava de que eu estava certo.
Tremendo nas mãos, preparei uma panela de macarrão e coloquei no fogo para ferver,
antes de voltar minha atenção para a mulher no canto.
Não me surpreendeu.
Colocando o cinzeiro e a xícara de café manchada na pia, voltei para o lado dela.
— Levanta.
— Joey. — Foi o primeiro sinal de vida nela, e fez algo morrer dentro de mim. — Joey.
— Ela alcançou minha mão e a agarrou com as duas, soluçando. — Joey.
Whisky.
Reprimindo um arrepio, ajudei minha mãe a se levantar. Precisava tirá-la da vista antes
que os meninos voltassem de brincar e ela fizesse a cabeça deles piorar ainda mais.
— Fica de olho no jantar, Shan — chamei por cima do ombro enquanto ajudava mamãe
a sair da cozinha e subir as escadas até o quarto dela.
A vontade de atravessar as paredes dessa casa e fugir era tão forte que eu praticamente
conseguia sentir o gosto disso.
A essas crianças.
A essa mulher.
— Vamos, mamãe — murmurei, sentindo o peso do corpo dela contra mim enquanto
tentava levá-la escada acima. — Você precisa me ajudar aqui.
Não podia.
Porque minha mãe estava tão morta por dentro quanto eu.
Exausto além do limite, quando chegamos ao topo do patamar, a peguei nos braços e
carreguei o resto do caminho até o quarto dela.
O quarto deles.
Filho da puta.
Ignorando todos os músculos do meu corpo que gritavam protesto, consegui chegar até
a cama dela sem desabar. Coloquei-a no colchão, ajoelhei ao lado da cama e tirei seus
chinelos antes de virá-la de lado, olhando para a janela.
Eu ouvi a palavra, tive a sensação que ela talvez estivesse falando sério dessa vez, mas
não senti nada.
— Você precisa segurar a onda — respondi num tom frio enquanto me sentava na
beirada da cama ao lado dela e fuçava na gaveta do criado-mudo. — Você pode estar
toda fodida na cabeça, mas esses meninos não precisam ver isso.
— E se ele voltar?
— O Darren?
— Não — ela murmurou, engolindo os comprimidos que eu tinha dado. — Seu pai.
— Você sabe o que vai acontecer, mamãe — murmurei, relaxando mentalmente quando
encontrei um frasco cheio de Clonazepam. — Você vai aceitá-lo de volta —
acrescentei, colocando o frasco no bolso. — E tudo vai estar bem no mundo de Marie
Lynch de novo.
— Eu sou sua mãe — ela soluçou, voz enrolada. — Por que você me odeia tanto?
— Eu sou seu filho — respondi, devolvendo as palavras. — Por que você me odeia
tanto?
— É — disse sem emoção, levantando e sem sentir nada. — Eu sou ele, e você é pior.
— Dorme pra passar, mamãe — falei seco, sem vontade de ficar ali sendo o saco de
pancadas dela até ela desmaiar. — Eu tenho merda pra limpar e seus filhos pra
alimentar.
ENCONTRAMOS AMOR EM UM LUGAR SEM ESPERANÇA
AOIFE
Com Somewhere Only We Know, do Keane, explodindo no som do carro, e meus nervos
em frangalhos, estacionei em frente ao número 95 da Elk’s Terrace e desliguei o motor.
Tirando alguns minutos para me recompor, abaixei o para-sol e conferi minha aparência
no espelhinho.
Reaplicando meus lábios com uma nova camada de Black Cherry, pressionei os lábios e
ensaiei meu melhor sorriso antes de soltar um suspiro trêmulo e fechar a tampa do
batom.
Soltando meu cabelo do rabo de cavalo, joguei-o sobre os ombros e joguei o elástico no
banco do passageiro, e então saí do carro.
Preparada para o pior, contornei o muro pichado que cercava o jardim da frente deles,
ignorando o mato e as ervas daninhas que cresciam desordenadamente, enquanto seguia
para a porta da frente com o punho levantado para bater. No entanto, a porta se abriu
antes que eu tivesse chance de bater, e fui recebida por Shannon.
— Meu Deus. — Alívio brilhou nos olhos dela, e ela rapidamente agarrou minha mão e
me puxou para dentro. — Aoif.
— Muito obrigada pelo que você fez por mim — ela sussurrou, me abraçando de volta.
— Me levar tão rápido pro hospital? Os médicos disseram que vocês salvaram minha
vida. Eu não teria aguentado se tivesse chegado mais tarde.
— Foi tudo seu irmão — expliquei rápido. — Joe foi quem fez a ligação.
É, eu também.
— E o Joe?
Graças a Deus.
Ele ainda tá aqui.
Ele ainda tá seguro.
— E como ele tava? — perguntei, seguindo-a até a cozinha, que felizmente estava
vazia. — Quando você levou ele pra casa do Johnny?
— Shan, vamos — falei com um tom cansado. Já passamos da fase das aparências. —
Sou eu.
Drogas.
Ela quis dizer drogas.
— Quando encontrei ele, ele tinha saído cambaleando do carro do Shane Holland e tava
caído na estrada — acrescentou, indo até a chaleira. — Ele não tava, ah, ele não tava ele
mesmo.
Sem dúvidas.
Aquele desgraçado cravou as garras num garoto vulnerável, com uma concussão de
grau 3, três fraturas no crânio e uma vida inteira de abuso nas costas.
— Chá?
Depois de uma longa pausa, Shannon jogou o saquinho de chá encharcado na pia e
soltou um suspiro tenso.
Eu já sabia, mas, de alguma forma, ouvir ela admitir isso fez tudo piorar um milhão de
vezes. Porque o Joey era mestre em esconder as coisas. Ele enterrava tudo dos irmãos, o
medo, a dor, o sofrimento, desesperado pra proteger eles. Mas se Shannon e Tadhg
estavam enxergando as rachaduras no mundo meticulosamente camuflado do Joey,
então essas rachaduras eram tão largas quanto o Grand Canyon.
Merda.
— Espera. — Correndo até mim com o que parecia ser um sanduíche de presunto num
pratinho, Shannon enfiou ele nas minhas mãos. — Você pode dar isso pra ele? — Com
os olhos cheios de pânico descontrolado, ela deu de ombros, impotente. — Ele jantou
um pouco mais cedo, mas ele tá tão magro.
Eu não tinha palavras pra fazer ela se sentir melhor, Joe era o único que eu já vi
conseguir acalmar a ansiedade da irmã, então ofereci a ela um meio sorriso sem muita
convicção e fui em direção à escada.
Ignorando meu coração batendo forte nos ouvidos, subi as escadas e caminhei até a
porta dele.
O quarto dele estava escuro, com as cortinas fechadas e roupas jogadas por todo lado, o
que não era típico dele. O Joey mantinha o quarto incrivelmente limpo, dadas as
circunstâncias, mas agora, parecia um chiqueiro.
— Joe? — minha voz saiu rouca, meu coração disparou quando meus olhos
encontraram ele de bruços na beliche de baixo. Usando apenas uma cueca boxer preta,
cada hematoma, cicatriz e marca no corpo dele estavam à mostra. — Joe?
Eu não era ingênua a ponto de acreditar que era cansaço que tinha mergulhado ele nesse
sono profundo.
Com meu coração em pedaços e minha esperança por um fio, fechei a porta atrás de
mim, deixei o prato em cima da cômoda e tirei o celular e a carteira dele da minha
bolsa. Colocando o celular e a carteira na cômoda, conectei o carregador do telefone
antes de ir até a cama.
Tirando meus saltos, tirei o casaco e o avental, deixando-os cair no chão, antes de me
arrastar para a cama. Reprimindo um arrepio quando o cheiro forte de vinagre e
maconha invadiu minhas narinas, me deitei de lado, virada pra ele.
— Volta pra mim, Joe — sussurrei, estendendo a mão pra acariciar a bochecha
machucada dele. — Eu sei que você ainda tá aí dentro.
O corpo dele enrijeceu no segundo que minha mão tocou a pele dele, e eu assisti um
arrepio percorrer todo o corpo dele.
Um gemido horrível de dor escapou dos lábios partidos e inchados dele, e ele gemeu
sonolento no colchão, enquanto o corpo dele se enrijecia e se contraía a cada carinho
suave do meu polegar na bochecha dele.
Malditos monstros.
Os dois.
Estávamos tão distantes um do outro, mesmo deitados lado a lado, com um bebê que
fizemos juntos crescendo na minha barriga. Ele nunca pareceu tão distante de mim.
O meu Joey ainda estava dentro da pessoa destruída que estava deitada ao meu lado.
— Mol... — Com muito esforço, ele se virou de lado para me encarar e abriu um dos
olhos. — loy.
Sorri tristemente.
— Oi, gato.
— Eu sei, Joe. — Chegando mais perto, segurei o rosto machucado dele com a palma
da mão e me aproximei. — Eu sei.
— O bebê.
— Eu preciso que você se levante de novo, Joe. — Chorando baixinho, afastei o cabelo
do rosto dele e pressionei um beijo na testa. — Eu tô aqui, amor, lutando por nós dois,
mas eu preciso que você volte a ficar de pé.
— Eu só tô tão cansado.
— Eu sei que tá. — Concordei, sentindo minha alma se partir. — Mas eu preciso que
você continue lutando.
— Tem sim, Joe. — Sussurrei, agarrada ao corpo dele, que tremia. — Você só precisa
lembrar quem você é.
— Eu tentei te avisar. — Ele falou, arrastado. — Você não me ouviu e agora nós dois
estamos fodidos.