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Limpeza e Desprezo na Casa dos Nobres

O documento narra a experiência de Opal, uma jovem empregada, que enfrenta hostilidade e desdém ao limpar a casa da família Roberts em 1876. Ela lida com a opressão e o desprezo dos patrões, especialmente do filho e da senhora Roberts, enquanto busca escapar para a biblioteca e se refugiar em seus livros. A história destaca as tensões sociais da época e a luta interna de Opal contra a discriminação e a violência.

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Limpeza e Desprezo na Casa dos Nobres

O documento narra a experiência de Opal, uma jovem empregada, que enfrenta hostilidade e desdém ao limpar a casa da família Roberts em 1876. Ela lida com a opressão e o desprezo dos patrões, especialmente do filho e da senhora Roberts, enquanto busca escapar para a biblioteca e se refugiar em seus livros. A história destaca as tensões sociais da época e a luta interna de Opal contra a discriminação e a violência.

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O ano era 1876, eu caminhava pelas ruas movimentadas, carruagens corriam apressadas.

As
manhãs pela cidade sempre eram assim, homens iam para seus trabalhos e mulheres iam às
compras. Eu estava a caminho da casa de um nobre ao qual fui contratada para limpar a casa. Eu
tentei me limpar o máximo que pude, retirando toda a terra e escolhendo o vestido mais limpo
que possuía. Eu me apresso pelas ruas, olhando para a torre do relógio. Eu não queria me
atrasar, sabia muito bem o quanto atrasos não eram tolerados por aquela família.
Chego em frente a casa, bato a poeira de minhas vestes e ajeito os detalhes do vestido. Eu
subo os degraus e bato à porta. Ouço passos se aproximarem da porta e ela lentamente é aberta,
revelando uma senhora com uma expressão nada contente. Eu me curvo em sinal de respeito e
para cumprimentá-la.
— Bom dia, senhora Roberts. Fui contratada por seu marido para limpar a casa por hoje. Me
permitiria entrar para realizar este trabalho? — Falo o mais educadamente possível, evitando
olhar para o rosto dela.
— Certo... Senhorita Hanz, eu suponho... — A senhora Roberts não perde tempo disfarçando o
desgosto no tom dela.
— Exatamente, senhora. — Mantenho o respeito, não querendo me envolver em mais
problemas.
Ela dá espaço para que eu entre na casa, eu peço licença e entro calmamente.
— Se alguma coisa dessa casa sumir, você vai sumir igualmente. — A senhora Roberts ameaça
e sai, me deixando para me virar e limpar a casa sozinha.
Procuro pela casa em lugares possíveis que possam conter os equipamentos necessários para a
limpeza, eventualmente encontrando e começando a limpar a casa. Eu começo pela cozinha e
pela sala, já que eram os lugares mais públicos da casa e que ficavam mais sujos por conta das
visitas.
— Espero que limpe esta casa antes do pôr do sol. Vamos receber visitas essa noite e eu não
quero que vejam…Você…Trabalhando aqui. — Senhora Roberts aparece na porta da cozinha
de repente, ainda me olhando com desgosto e suspeita. Ela provavelmente estava me vigiando,
achando que irei roubar alguma coisa.
— Sim, senhora. Irei limpar a casa o mais rápido possível e sairei antes do pôr do sol. — Não
me viro para ela, continuando a limpar a cozinha, o que dá mais impacto às minhas palavras
quando começo a esfregar o chão mais rápido.
— Ótimo. — E ela some novamente no corredor.
Solto um suspiro e apresso meu trabalho. Tenho que falar com o senhor Franklin para ver se
ele me emprestaria mais livros. Tenho que ser cuidadosa, se me verem mais uma vez me
encontrando com ele podem me forçar a casar com ele ou descobrir que estou lendo livros.
Termino de limpar a cozinha depois de algumas horas e começo a limpar a sala de estar. A
senhora Roberts passa por mim algumas vezes, olhando o que eu fazia como uma coruja,
desconfiada que eu iria a roubar.

Me apresso para terminar de limpar o último quarto. Ouço o som da porta do quarto abrir e
fechar, porém continuo meu trabalho, imaginando ser a senhora Roberts novamente.
— O que está fazendo? — Uma voz ríspida fala atrás de mim.
— Estou limpando seu quarto, jovem senhor. — Respondo sem parar de limpar o chão do
quarto.
— Quem deixou alguém como você entrar nesta casa?! — A raiva na voz dele não me assusta,
já ouvi tanto a mesma que me acostumei.
— O senhor Roberts, jovem senhor. — Falo educadamente.
— Pois saia! Não quero alguém sujo como você tocando em minhas coisas! Se alguma coisa
tiver sumido, eu terei sua cabeça na manhã seguinte! — Ele bate o pé e aponta para a porta.
Eu termino de limpar uma mancha no chão e junto os produtos de limpeza para sair.
— Com licença. — Eu passo por ele rapidamente, sem olhar nos olhos dele e mantendo a
cabeça baixa.
Assim que tomo distância do local, solto um suspiro aliviada. Por ter feito meu
trabalho rapidamente, eu havia conseguido terminar de limpar o quarto e poderia
finalmente ir para a biblioteca. Eu só preciso guardar...
Ouço sons de risadas e vozes no andar debaixo, o que faz com que eu prenda a
respiração. Olho para o relógio no corredor e noto o quão tarde realmente era. Os
convidados de senhora Roberts haviam chegado. Respiro fundo e meu aperto no cabo de
vassoura em minha mão aumenta. Tento pensar em alguma solução para não ser vista
por aquele bando de fanfarrões e fariseus.
— O que está fazendo parada aí? Eu já não mandei você sair dessa residência?! — Ouço
a voz revoltada do rapaz novamente.
Ele se aproxima de mim pisando forte, então puxa meu ombro para que eu olhasse
para ele. Sinto a raiva borbulhar dentro de mim, olhando nos olhos dele dessa vez.
— Você é surda por um acaso?! Ou não consegue entender uma ordem tão simples
como essa?! — Ele esbraveja, cuspindo em minha face.
Pelo canto do olho, vejo as mãos do maior se fecharem em punhos e respiro fundo.
Fecho os olhos, já prevendo o que viria à seguir.
— Você está ne ouvindo?! — É a última coisa que ouço antes de sentir o impacto do
punho dele em meu rosto.
Eu caio no chão, esbarrando nos produtos de limpeza que acabam por cair junto à
mim. A dor aguda em minha bochecha e o zunido em meu ouvido me deixam fraca e
desorientada, enquanto ouço a voz daquele estulto estando distante. Me recuso a olhar
para cima, sabendo que seria pior se o fizesse.
— Mas que barulheira é essa?! Mark, não vê que estamos com visitas?! — Senhor
Roberts esbraveja com seu único filho, não se importando com minha situação atual,
apenas com o que seus queridos convidados iram pensar de sua família.
— Pai! Por que o senhor chamou essa coisa para nossos lar de respeito? Olhe a bagunça
que ela fez! — Mark corre para perto de seu pai, apontando para mim como se eu fosse
um animal perigoso e nojento.
Mantenho a cabeça baixa, cobrindo minha bochecha com minha mão. Lentamente me
levanto enquanto eles conversam, tentando não chamar mais atenção para mim. Pego os
produtos de limpeza, sentindo o gosto metálico do sangue em minha boca.
Passo por eles, carregando as vassouras e o sabão e desço o lance de escadas da casa.
Ouço as vozes e risadas ficando mais altas conforme me aproximo da porta do salão da
senhora Roberts. Eu paro antes de passar em frente a porta de entrada do local, prendo a
respiração e dou uma pequena corrida para passar rapidamente. Solto a um suspiro
aliviado quando as risadas apenas continuam.
— Pensei ter sido clara quando disse que não queria ver você nessa casa após o pôr-do-
sol. Não sabe ler as entrelinhas? — A voz arrogante da senhora Roberts faz com que eu
feche os olhos e respire fundo.
— Perdão, senhora. A limpeza tomou mais tempo do que planejei. — Mantenho minha
cabeça baixa para esconder o sangue, não que ela se importaria se o visse de qualquer
forma.
Ela estala a língua, suspirando irritada.
— Não consegue cumprir uma simples ordem...Onde foi que ele estava com a cabeça?
Trouxe alguém da sua laia para dentro de nossa residência... — Resmunga, me olhando
de cima à baixo com desgosto.
Eu apenas permaneço em silêncio, não querendo piorar minha situação. Mas parece
que minha falta de resposta apenas enfurece mais a grisalha.
— Vocês, ratos imundos, deveriam ter continuado nos campos de concentração. Lá era
o melhor lugar para vocês... — Essa frase foi a gota d’água para mim.
Eu finalmente ergo a cabeça e olho nos olhos dela, sem me importar mais com o
sangue em meu rosto. A fulmino com o olhar, fechando os punhos.
Mas, bastou um pequeno movimento de levantar a sobrancelha dela que toda a minha
raiva se transformou em medo e eu abaixo a cabeça novamente. Mordo o lábio,
segurando as lágrimas que queimam para cair.
— ...Estúpida. — A mais velha resmunga e pega o balde de água suja que eu carregava
para jogar na pia.
Eu sinto a água fria escorrer por meu rosto, se misturando com o sangue em meu rosto
e aumentando a ardência em minha bochecha. Lentamente olho com os olhos castanhos
arregalados para a mulher com vestidos de grife e milhares de joias caras.
— Limpe essa bagunça e suma dessa casa. — Ela se retira, se juntando as risadas no
salão.

Eu paro em frente a biblioteca, minhas vestes molhadas e encardidas. As pessoas que


passavam pelas calçadas de ladrilhos me olhavam e cochichavam umas para as outras.
Observo a entrada com uma expressão cansada, as grandes estátuas de anjos que
guardavam as portas do local pareciam rir de mim. Eu ouvia as vozes, as risadas...Mas
eu sabia que elas não estavam nos inocentes anjos, elas estavam naquela casa. Elas
pertenciam àquela mulher, aquele monstro.
Começo a arrastar meus pés em direção à biblioteca, finalmente adentrando meu lar.
Vejo senhor Franklin conversando com um estudante que frequentemente estava
estudando na perto dos livros de teologia. Eu não conseguia colocar em palavras o
tamanho da inveja que eu tinha daquele homem. Ele podia se sentar e estudar à vista de
todos, andar por entre essas imensas estantes carregadas de conhecimento sem ser
chamado de bruxo por saber ler uma placa.
Subo o lance de escadas em espiral, observando as pinturas de santos nas janelas e os
quadros de grandes figuras da história dessa vila. Paro frente à uma fotografia do campo
de concentração, tirada antes da lei que abolia a criação desses campos chegasse até
esse inferno que chamam de vila. Vejo as pequenas crianças de pijamas listrados,
olhando com confusão na direção da câmera. Adultos de cabeça baixa ou tentando
esconder suas crianças da lente do fotógrafo. As cicatrizes nos rostos e a tatuagem de
identificação no pulso deles era algo notável.
Minha mão vai até meu pulso instintivamente, apertando o local.
— Opal? É você que está aí? — Uma voz dócil e gentil soa do final do corredor,
fazendo um pequeno sorriso cansado surgir em meus lábios.
— Sou eu, sim, Mia. — A mais velha se aproxima de mim, segurando um castiçal. O
sorriso doce e alegre dela me faz sentir o arder das lágrimas em meus olhos, porém,
respiro fundo para não permitir que elas caem.
— Como foi o trabalho hoje? Você respeitou eles, certo? — Os cabelos ruivos de Mia
estavam presos em um coque, algumas mechas cacheadas rebeldes escapavam e
deixavam a aparência dela mais acolhedora.
A vontade de apenas correr e abraçá-la, dizendo o quão cansada eu estava era grande,
mas a necessidade de proteger ela e impedir que ela acabe em problemas por minha
culpa era maior do que meu desejo por poder ser vulnerável.
— Foi tudo bem. Eu tropecei enquanto limpava a casa e acabei me machucando um
pouco, mas eles foram bem gentis e se ofereceram para me ajudar. Eu não queria
incomodá-los com isso, então dispensei... — Aponto para minha bochecha que
começará a inchar.
— De novo, Opal! Você tem que tomar cuidado fazendo essas suas limpezas! Você é
tão desastrada. Se continuar assim, vai acabar se matando. — A ruiva esbraveja,
soltando um suspiro. — Vamos. Vou ver o que posso fazer...

Mia termina de por um curativo em minha bochecha e dá um beijo para “sarar mais
rápido”.
— Agora descanse um pouco. Está tarde. — Ela se levanta, fechando a pequena maleta
de primeiros-socorros do senhor Franklin. — Se precisar de mim, estarei no andar de
baixo.
Sigo ela até a porta do meu quarto, agradecendo e desejando uma boa noite. Após
trancar a porta e escorar minhas costas contra ela, observo as pilhas de livros.
É sempre a mesma coisa. Por que ainda acho que essas pessoas iriam mudar? A
ganância e egoísmo deles me enoja. Como podem agir de tal forma e se considerarem
tão superiores. Nojento. E patético, totalmente patético.
Me levanto e pego um livro de uma das pilhas. Eu gostaria de poder dizer tudo o que
penso e contar minhas ideias para ajudar o meu povo...Mas eu seria só mais uma bruxa
para ir à fogueira.
Respiro fundo e decido dar uma caminhada pelas ruas. A luz angelical da lua sempre
me ajudou a manter a calma nesse mundo imundo. Depois de esfriar a cabeça, eu volto a
estudar. Não consigo absorver nada se minha cabeça já estiver cheia.
Descendo mais uma vez o lance de escadas da biblioteca, ouço a voz indignada de
senhor Franklin conversando com Mia:
— Se ela continuar com essa ideia de revolução, não vai ser só um aviso que irá bater
em nossa porta! Vai ser um batalhão com tochas e tudo mais! — O mais velho
esbraveja.
— Pai, o senhor sabe que Opal nunca faria nada para nos prejudicar. Tenho certeza que
foi só mais uma armação para cima dela! — O tom de súplica na voz de Mia deixa
óbvio que ela estava tentando convencer não somente o senhor Franklin, mas à si
mesma também.
Apenas abaixo a cabeça e saio silenciosamente da construção.

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