Texto 7 = Máquina de Talentos: como construir a sua?
Estratégia e Gestão
Gestão de Pessoas
Artigos
Alexandre Bazzi
Alexandre Bazzi é Mentor Endeavor e CRO da Skore
Não há clientes mais importantes que seus colaboradores. Do recrutamento à remuneração,
entenda como criar processos para escalar os talentos do seu negócio.
Você tem uma demanda de habilidade na sua empresa. Você abre a vaga, chovem candidatos
qualificados, você seleciona um, ele começa a trabalhar e supera todas as suas expectativas.
E então você acorda, porque convenhamos, seria um sonho se fosse tão simples.
O mercado está aquecido e a concorrência não perdoa — há muita oferta de trabalho e é preciso
competir com empresas grandes e pequenas, brasileiras e internacionais, pelos melhores talentos. O
processo de encontrar, contratar e desenvolver um colaborador hoje se parece mais a um processo de
vendas. Só que, em vez de um produto, vendemos um sonho; em vez de investirem dinheiro, eles
investem o que eles têm de mais precioso: tempo.
Aqui na [Link], conseguimos um excelente ganho de escala ao criar nossa Máquina de
Clientes, mas percebemos que perderíamos em potência se não tivéssemos estruturas equivalentes para
construir times capazes de acompanhar esse crescimento.
Quando começamos a ver que muitas das barreiras criadas pela própria equipe eram relacionadas à
falta de gente, passamos a nos aprofundar no novo cenário de talentos, estudando formas de solucionar
esse desafio.
Foi quando começamos a desenvolver, nos mesmos moldes da Máquina de Clientes, nossa
Máquina de Pessoas. E a metodologia Scale-X se encaixou como uma luva no nosso propósito de fazer
nossos times crescerem, em todos os sentidos. Afinal, não há cliente mais importante que seu
colaborador.
Mais uma ampulheta
Na Máquina de Clientes, vimos que não basta trazer os clientes certos. É preciso mantê-los, ajudá-
los a crescer, e investir em todo o trabalho de pós-vendas e Customer Success com a mesma
intensidade, em um processo de ampulheta — aquela que substitui o funil e dá igual atenção ao Landing
e ao Expanding.
Pois o caminho de construção de um time também é uma venda: você vende seu sonho, engaja
candidatos para que doem seu tempo e esforço e, uma vez selecionados, trabalha em retenção e
treinamento para que eles evoluam com a empresa.
Nesse caso, o Landing consiste em recrutamento e seleção, enquanto o Expanding foca em
engajamento e desenvolvimento.
Da mesma forma que a primeira ampulheta introduzida, a Máquina de Pessoas também é composta por 6
etapas:
1. Awareness (Reconhecimento): É onde ocorre a divulgação das vagas, o esforço de employer
branding, e onde prospects ganham ciência do que a empresa pode oferecer a eles, sendo
convencidos a se tornarem candidatos.
2. Education (Educação): Eles passam a entender melhor o que a companhia faz e a acreditar na
missão, avançando na triagem até serem confirmados como candidatos qualificados.
3. Selection (Seleção): Aumenta a vontade de trabalhar para a empresa — candidatos qualificados
torcem para serem escolhidos e passam por avaliações adicionais até serem finalmente
selecionados.
4. Onboarding: Esse é o momento de alinhar as expectativas, ambientá-lo ao modo de trabalho e
colocá-lo em sintonia com o resto do time.
5. Ramp-up (Adaptação): Sabe-se que o potencial do colaborador é alto, mas é chegada a hora de
vê-lo em ação. Após aproximadamente 3 meses de experiência, é possível definir se a escolha foi
acertada ou não.
6. Growth (Crescimento): Temos o colaborador que aqui chamamos de #OWNER: integrado, com
cabeça de dono e preparado para crescer enquanto agrega ainda mais valor à empresa. É preciso
investir em seu desenvolvimento pessoal e profissional para aumentar seu #TLTV — Talent
Lifetime Value.
E novamente, no esquema, somos guiados pelo pensamento do cliente — ou melhor, talento. Para
definir o perfil ideal que ele deve ter, ou seu Ideal Talent Profile (ITP), o processo também não é muito
diferente da construção do seu Ideal Customer Profile.
O Perfil do Talento Ideal é o que vai conduzir decisões sobre o que fazer em cada uma das 6 etapas
listadas. Ele deve agregar uma série de valores, comportamentos, habilidades, backgrounds e outros
critérios desejados para cada tipo de vaga.
As soft skills que compõem o ITP são as mesmas para toda empresa, o que muda são as hard skills
exigidas por cada vaga.
Para desenhar esse perfil, primeiro é preciso analisar sua própria cultura, os padrões encontrados
entre seus colaboradores de maior performance, e separá-los por área e nível de senioridade.
Fazendo uma comparação, portanto, uma contratação de líderes mais sênior é equivalente a uma
venda para clientes Enterprise, enquanto coordenadores podem ser equivalentes a clientes middle
market, e analistas e outros cargos mais juniores a pequenas e médias empresas. Essas camadas podem
ser cruzadas com padrões de habilidades mais técnicas ou comerciais e, dessa forma, você tem perfis
distintos de colaboradores para os quais o processo pode ser customizado, cada um com um playbook
diferente.
Aplicando o Framework da Pirâmide
Nossa estrutura de pirâmide invertida aparece de novo para iniciarmos a montagem da Máquina de
Pessoas. Por meio dela, fazemos uma análise do que temos e onde queremos chegar quanto a
processos, indicadores, tecnologia, aceleradores e skill set necessários, o que também servirá de base
para ajustar sua estrutura organizacional.
1. Processos
Mapeie os fluxos de trabalho e tarefas que estão envolvidas em cada etapa da nossa metodologia,
focando sempre no seu ITP.
Por exemplo: na etapa de Awareness, quais são os canais de divulgação de vagas possíveis?
Dentre estratégias como inbound, outbound e headhunter, quais serão utilizadas para cada tipo de cargo?
Durante as fases de Education e Selection, quais os meios de informar sobre a missão e cultura da
empresa e quais os métodos graduais de avaliação? Qual o passo a passo para lidar com candidatos
desengajados? E com os eliminados do processo seletivo?
Não se esqueça de usar o Process Model Canvas para documentar suas definições, indicando:
Nome da etapa
Objetivos da etapa
Ações da etapa
Triggers (indício de que o candidato ou colaborador entrou e que saiu daquela etapa)
2. Indicadores
O estilo de metrificar seu sucesso, aqui, é essencialmente igual ao da Máquina de Clientes.
Utilizamos as mesmas três dimensões:
Taxa de Conversão (CR): que porcentagem de talentos passam de uma etapa à seguinte; Tempo
(T): o número de dias que leva cada ciclo; Volume: a quantidade de talentos presente em cada etapa —
apesar de relevante, é bastante variável e por isso não estamos considerando esta dimensão em nosso
esquema.
Quando otimizamos cada um dos CRs e Ts representados em nosso esquema de forma gradual e
em pequena escala, olhando para uma engrenagem da máquina por vez, os incrementos, somados,
resultam em um ganho de escala exponencial.
Isso quer dizer que, para dobrar de tamanho ao final de um ano, podemos focar em melhorar de
12% a 13% cada uma das 6 etapas da sua máquina (Awareness, Education, Selection, Onboarding,
Ramp-up e Growth).
Ao melhorar 13% seis vezes, por exemplo, temos 1,13 elevado à sexta potência, que é igual a 2,08.
E aumentar sua taxa de conversão e reduzir o tempo dela em 13% parece mais simples que dobrar
de tamanho em um ano, não?
Além disso, outros indicadores gerais de sustentabilidade devem estar no radar. Entre eles, o
turnover e o faturamento da empresa dividido pelo número de colaboradores, assim como benchmarks
comparativos de mercado, ajudam a manter a saúde financeira da sua máquina.
3. Tecnologia
Nesta etapa, você deve escolher a tecnologia que servirá às seguintes funções, em ordem de
prioridade:
Permitir o tracking de processos para conseguir monitorar indicadores
Melhoria de performance dos colaboradores
Automatizar processos
Por exemplo, na etapa de Awareness, podemos utilizar ferramentas como LinkedIn Recruiter,
Catho, Wall Jobs e Infojobs, entre outras HR techs que tenham o objetivo de facilitar a divulgação de
vagas e os esforços de employer branding da companhia.
Em Education e Selection, plataformas variadas, entre elas a Gupy e a Kenoby, ajudam a
organizar seu processo de recrutamento em etapas, monitorar candidaturas e organizar a documentação
de cada uma, utilizar inteligência artificial para otimizar a triagem, automatizar o fluxo de ligações e e-
mails, além de outros detalhes que permitem uma gestão mais data driven — que é essencial para o bom
funcionamento da máquina.
Já em Onboarding, Ramp-up e Growth, temos plataformas como a [Link], a Appus e
outras, que dão suporte à definição de OKRs, avaliações de desempenho, processos de feedback,
acompanhamento do desenvolvimento dos colaboradores, pesquisas internas, entre outras análises
relevantes para a adaptação e crescimento dos colaboradores.
4. Aceleradores
Os aceleradores são as ferramentas que você e seu time utilizarão em determinados momentos do
processo para torná-lo mais eficiente, e elas também devem ser divididas por etapas.
Em Awareness e Education, por exemplo, podemos usar vídeos institucionais, vídeos mostrando o
dia a dia na empresa, declaração do CEO, depoimentos de colaboradores, papers sobre a cultura da
empresa e mais.
Em Selection, uma ideia é ter prontos formulários e dinâmicas para otimizar testes e avaliações,
scorecards, templates de e-mails ou de ligações, além de outros materiais.
Para Onboarding, cabe ter treinamentos pré-preparados, ou apresentações sobre a empresa.
Enquanto isso, em Impact e Growth, você pode ter scripts para falar sobre crescimento profissional,
templates de 1-a-1 para gestores, documentos de feedback e avaliação padronizados, bem como
materiais explicativos para conduzir esses processos.
5. Skill set
Da mesma forma que diferentes etapas da Máquina de Clientes exigem habilidades e
especializações diferentes, essa segmentação também facilita a escala dos times para a Máquina de
Pessoas.
Em vez de um BDR (Business Development Representative), como seria na de clientes, passamos
a ter uma pessoa responsável por divulgação de vagas, na etapa de Awareness — alguém com
conhecimentos de marketing e facilidade para realizar parcerias.
Em Education e Selection, precisamos de gente com boa percepção e olhar analítico; recrutadores
que irão conduzir o processo seletivo com os líderes técnicos das áreas com oportunidades abertas.
Em Onboarding, alguém com boa comunicação e alta motivação para cuidar da experiência dos
novos colaboradores, engajá-los e fidelizá-los. Em Ramp-up e Growth, um responsável com perfil de
coach, que facilite caminhos para o desenvolvimento de cada funcionário.
6. Estrutura Organizacional
Assim como na Máquina de Clientes, também podemos montar nosso time de Gente com base em
estruturas ágeis, em particular nos PODs: unidades independentes, compostas por colaboradores
especializados em uma parte da jornada do talento e que têm uma performance consistente ao mirar em
um alvo ou etapa particular.
Na Máquina de Pessoas, um desenho que funciona bem aqui na [Link] é o seguinte:
Talent development rep
Recrutadores
Talent Experience (como se fosse um CS)
Coach (pode ser seu líder)
Com essa estrutura e responsabilidades bem definidas, um POD consegue dar conta de
aproximadamente 8 a 10 novas contratações por mês. Isso se traduz em até 120 novos colaboradores em
um ano, que, lembre-se, devem ter suas jornadas acompanhadas de perto, inclusive em uma eventual
promoção ou demissão.
Fine-tuning
Não podemos esquecer nunca de uma máquina precisa de óleo em suas engrenagens. O fine-
tuning é essa checagem constante, em um ciclo PDCA, mirando nos dados, para avaliar pontos que
merecem atenção e gerar melhorias contínuas.
Nesse processo, o output de uma fase é o input da próxima. A conversão baixa em uma das etapas
pode prejudicar toda a performance da sua Máquina de Pessoas — e ela é a base para as outras
máquinas que compõem sua empresa.
Um empreendedor contrata pessoas, essas pessoas criam bons processos e esses processos
permitem a escala do produto. Não há outra ordem possível; o crescimento do seu negócio depende dos
seus colaboradores, assim como eles devem crescer no ritmo do seu negócio.