GUIMARÃES ROSA E A RENOVAÇÃO DA LINGUAGEM LITERÁRIA 1
Elisa Valente Cavalcante2
Jacyara Julyane Capela Lobato
Ivone Veloso dos Santos3
RESUMO
Este trabalho apresenta e analisa a obra “Primeiras Estórias” do autor João Guimarães Rosa,
destacando como o autor revolucionou a literatura brasileira com a sua linguagem inovadora.
Aqui abordaremos a riqueza estilística, a oralidade e os neologismos que marcam sua escrita.
Para esse estudo contamos com as contribuições teóricas de Machado (2011), Freitas et al.
(2021) e Monteiro (1964).
Palavras-chave: regionalismo; linguagem literária; oralidade.
1 INTRODUÇÃO
João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, na cidade de Cordisburgo em
Minas Gerais. A infância do autor se passou no Centro-Norte de Minas Gerais, devido às
atividades pecuárias que seu pai exercia. Guimarães Rosa cursou o secundário e a faculdade de
medicina em Belo Horizonte, após concluir seus estudos iniciou seus trabalhos como médico
em muitas cidades do interior de Minas Gerais, enquanto trabalhava como médico registrava o
que ouvia e via, essas anotações foram essenciais para a construção dos elementos em sua obra.
O autor falava vários idiomas e estudou sozinho alemão e russo. No ano de 1934, iniciou
sua carreira diplomática, prestando serviço para o Ministério do Exterior, servindo na Alemanha
durante a Segunda Guerra Mundial e posteriormente na Colômbia e França e em 1958, foi
nomeado ministro. Nesse período é reconhecida a genialidade deste autor com a publicação das
obras Corpo de Baile (1956) e Grande Sertão: Veredas (1956). Em 1962, publica a obra
Primeiras Estórias sua última publicação. No dia 16 de novembro de 1967, toma posse da
cadeira de nº 2 na Academia Brasileira de Letras, três dias depois, em 19 de novembro, morreu
vítima de um ataque cardíaco aos 59 anos na cidade do Rio de Janeiro.
Iremos ressaltar a obra Primeiras Estórias, publicada originalmente 1962, composta por
21 contos, foi seu primeiro livro de narrativas curtas, o que surpreendeu os críticos que diziam
que o autor não fosse tão bom em escrever narrativas curtas já que suas outras obras são
marcadas por narrativas longas. Em questão o título da obra, vale ressaltar que o termo
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Artigo produzido como pré-requisito avaliativo da disciplina Literatura Brasileira Contemporânea II.
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Graduandas do curso de Letras – Língua portuguesa, turma 2022 do Polo Universitário Sérgio Maneschy.
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Orientadora Profa. Dra. Ivone dos Santos Veloso.
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“Primeiras Estórias” está escrito propositalmente por se tratar de narrativas que se aproximam
de contos populares, a contação de causos.
A obra de Guimarães é inovadora, pois rompe com vários padrões da literatura, é
possível perceber também que o autor brinca com a oralidade, trazendo aspectos da fala para
dentro do texto e explora a subjetividade dos personagens, o universo sertanejo, que se faz
presente em quase todos os contos, aparece não apenas como um cenário físico, mas representa
um espaço simbólico de reflexão existencial e filosófica.
É interessante como o autor subverte as estruturas narrativas tradicionais, seus contos
misturam a realidade e chegam a beirar a fantasia. Nessa obra explora-se a psiqué humana e
desafiam o leitor a decifrar sentidos ocultos nas entrelinhas do texto, assim Rosa consolida sua
posição como um dos maiores escritores da literatura no Brasil.
2 O QUE É ESSA RENOVAÇÃO DA LINGUAGEM?
A literatura brasileira passou por muitas mudanças ao longo do século XX, mas poucos
escritores transformaram a linguagem de forma tão profunda quanto João Guimarães Rosa. Seu
trabalho com a língua portuguesa vai muito além de contar histórias; ele reinventou a maneira
de narrar, criando um universo próprio tanto na literatura quanto na forma de usar as palavras.
A inovação rosiana aparece de várias formas: na fusão entre o erudito e o popular, na criação
de novas palavras, na estrutura sintática ousada e na forma como a linguagem, por si só, constrói
os cenários de suas narrativas. Seu estilo singular quebra expectativas e desafia o leitor,
tornando a experiência de leitura única e, muitas vezes, surpreendente. Falar dos contos Irmãos
Dagobé e Terceira Margem
A grande revolução que Guimarães Rosa trouxe para a literatura brasileira não está
apenas nas histórias que ele conta, mas na maneira como ele as conta. Seu uso criativo da
oralidade, seus neologismos e suas inversões sintáticas dão aos personagens um tom autêntico,
aproximando a fala escrita do modo de expressão. Ao mesmo tempo, ele desafia o leitor, que
precisa se envolver com o texto para captar todas as nuances e significados.
Segundo Machado (2011, p. 233), Guimarães Rosa “fundou uma nova língua,
essencialmente rosiana, formada por neologismos, aglutinações de palavras e sentidos
conferidos pela homofonia”. Isso significa que ele não apenas escrevia sobre o sertão, mas
criava uma linguagem própria que refletia a sonoridade, a musicalidade e a riqueza cultural. O
autor não apenas descreve o sertão: ele o recria pela linguagem. Cada palavra, cada construção
sintática é escolhida para gerar uma atmosfera que transporta o leitor para aquele mundo sem
que seja necessário apontar um local exato. Dessa forma, a obra de Guimarães Rosa não se
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limita a um retrato regionalista; ela expande os limites do realismo e convida o leitor a construir,
em sua própria imaginação, a paisagem e a essência desse universo singular.
Um dos aspectos mais inovadores da obra de Guimarães Rosa é a forma como ele rompe
com as normas tradicionais da linguagem escrita. Enquanto a norma culta segue padrões
estabelecidos de gramática e sintaxe, a literatura rosiana experimenta novos formatos, criando
efeitos estéticos e simbólicos. Essa ruptura com a linguagem convencional pode ser observada
em diferentes contos. Em Os Irmãos Dagobé, por exemplo, a oralidade se destaca na fala do
personagem: “[...] — A gente, vamos’embora, morar em uma cidade grande” (Rosa, 2001, p.
66). Aqui, o escritor se apropria do jeito espontâneo do falar popular, trazendo uma estrutura
que foge da norma padrão, mas que reflete a linguagem regional interiorana. Esse tipo de
construção sintática aproxima o leitor da oralidade real e reforça a identidade cultural do enredo.
Já em Famigerado, o autor vai além e transforma a linguagem em um verdadeiro jogo
sonoro e semântico. No trecho a seguir, um dos personagens tenta compreender e repetir a
palavra "famigerado", mas acaba criando novas variações a partir da própria sonoridade do
termo: “[...] — Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é:
fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?” (Rosa, 2001, p.50). Aqui,
a linguagem ganha vida própria. O personagem se atrapalha, muda as sílabas de lugar, cria
novas palavras sem querer, e tudo isso acontece de forma natural, como na fala do povo.
Nesse fragmento, a palavra “famigerado", mostra como a linguagem pode ser flexível e
múltipla. O personagem tenta entender o significado do adjetivo, mas, ao longo da conversa, a
palavra vai sendo distorcida, adquirindo novas formas e possibilidades sonoras. Esse jogo
linguístico reflete exatamente o que Freitas et al (2021, p.93) destacam ao dizer que “a
linguagem literária é plurissignificativa, complexa e conotativa, expressando a capacidade
criativa do escritor”. Guimarães Rosa não apenas escreve, ele recria a língua, permitindo que
as palavras carreguem diferentes interpretações e camadas de sentido.
2.1 AS PARAVRAS COMO SUGESTÃO
Ao contrário de outros escritores regionalistas que buscavam retratar a sua região, a
localidade de forma documental, Guimarães Rosa transforma esse espaço em um território
mítico, universal e quase “fantástico”. Em seus contos não é citado um lugar fixo no mapa, mas
um cenário simbólico, sugerido, onde a linguagem, as palavras moldam a realidade.
No conto A terceira margem do rio, por exemplo, a própria ideia de uma “terceira
margem” desafia a lógica tradicional, sugerindo um espaço além do real, um lugar de transição
entre o concreto e o metafísico.
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Além disso, o regionalismo não se limita em apenas descrever os lugares, mas também
na forma como a história é contada. Diferente de muitos escritores que romantizavam sua região
através dos elementos, Guimarães Rosa traz um regionalismo mais crítico, que mostra tanto a
riqueza cultural quanto os desafios sociais do povo. Isso aparece na oralidade dos personagens,
no jeito como falam e até no próprio narrador, que muitas vezes assume esse tom de conversa
popular, cheio de expressões típicas.
Um bom exemplo disso está no conto Famigerado, onde o escritor toca em um problema
social sério: o analfabetismo. Um dos personagens se vê diante de uma palavra desconhecida
— “famigerado” — e, sem saber seu significado, começa a distorcê-la de várias formas,
tentando encontrar um sentido para algo que ele não compreende.
2.2 A ORALIDADE E A INOVAÇÃO SINTÁTICA: O som da escrita
A oralidade é um dos pontos principais da escrita de Guimarães Rosa. Ele não apenas
reproduz o jeito de falar, mas o recria, dando musicalidade e ritmo. Seu texto tem um compasso
próprio, marcado pela prosódia – ou seja, pelo som e pela cadência das palavras. O autor
trabalha com a entonação, os silêncios e a sonoridade da língua, transformando a escrita em
uma experiência quase oral.
Um exemplo dessa musicalidade aparece no uso de onomatopeias, que reproduzem sons
e reforçam a oralidade do texto. No conto Famigerado, vemos como ele brinca com a
sonoridade das palavras: “— Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é
mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?” (Rosa,
2001, p. 50). Aqui, Guimarães Rosa transforma um simples adjetivo (famigerado) em uma
sequência de sons que se repete na fala do personagem Damázio, onde a palavra ganha novas
formas de acordo com a pronúncia.
Além disso, a prosódia é um dos elementos mais marcantes na escrita de Guimarães
Rosa. Ele não apenas escolhe palavras pelo significado, mas também pela sonoridade, criando
efeitos rítmicos que aproximam a leitura da oralidade. Para isso, utiliza recursos como
reduplicação, aliterações e pausas estratégicas, trazendo musicalidade ao texto e reforçando a
identidade das falas de seus personagens.
A aliteração, por exemplo, contribui para criar um ritmo envolvente ou até mesmo
enfatizar sensações específicas. Um exemplo disso pode ser visto em expressões como:
“Miúdo, moído.”; “aquele doer, que põe e punge, de dó, desgosto e desengano”; “leigos,
ledos, lépidos”. Um bom exemplo desse uso da prosódia está no conto Famigerado: “— Pois...
e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de dia-de-semana?” (Rosa, 2001, p.51). Aqui, a
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repetição de “que é que é” não apenas enfatiza a dúvida do personagem, mas também imita o
jeito espontâneo da fala oral, especialmente do sertanejo. Guimarães Rosa emprega esse tipo
de construção para reforçar a autenticidade dos diálogos e aproximar o leitor do universo
retratado.
Outro exemplo interessante está na forma como ele representa a pronúncia das palavras,
sem se prender rigidamente à gramática normativa. No Fragmento a seguir, retirado do conto
Seqüência, a fala de um personagem é transcrita de maneira a reproduzir o som exato da
oralidade: “Tio Terêncio, o velho, à porta de casa, conversou com o outro: — ‘Meo fi’o, q’vaca
qu’é essa?’ — ‘Nho pai, e’a n’é nossa, não” (Rosa, 2001, p. 96). O uso de apóstrofos e
contrações na escrita simula a forma como as palavras são realmente ditas no sertão, algo que
um registro convencional dificilmente captaria. O leitor consegue ouvir a pronúncia das
personagens, criando uma experiência mais imersiva e sensorial.
Outro elemento marcante na linguagem de Rosa é o uso de neologismos, ou seja,
palavras inventadas a partir da fusão ou modificação de termos existentes como por exemplo:
engenhingonça,, funebrilho, sussurruído e dançandoar-se.
Além dos neologismos, o autor recorre a palavras arcaicas, muitas vezes em desuso na
norma culta, mas ainda vivas na oralidade do sertão. Essas palavras dão ao texto uma sensação
de intemporalidade, como se a história pudesse acontecer em qualquer época. Expressões como
“alembro” (para lembrar), “vosmecê” (variação de “vossa mercê”) e “arriégua” aparecem em
seus contos, reforçando uma ideia regionalista de seus personagens.
Outro traço da linguagem do escritor é a forma como ele utiliza-se de expressões típicas
do cotidiano do povo, dando um tom autêntico e expressivo às falas. Veja alguns exemplos
retirados do conto A terceira margem do rio: “Nosso pai nada não dizia.” “Do que eu mesmo
me alembro.” “Nossa casa, no tempo, era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua”
(Rosa, 2001, p. 67-68). Essas frases, simples à primeira vista, mostram como Rosa sabia
capturar a essência do falar popular.
2.3 PERSONAGENTES: Gente que é nome, nome que é história
Uma outra característica marcante da obra de Guimarães Rosa é o uso de nomes
incomuns. Ele criava apelidos e nomes próprios que pareciam carregar uma história dentro
deles. Em Primeiras Estórias, por exemplo, encontramos personagens como: Os irmãos
Dagobé (Damastor, Doricão, Dismundo e Derval), a benfazeja (Mula-Marmela, Mumbungo e
Retrupé), e outros nomes como: Nhinhinha, Nhatiaga, Vagalume (que na verdade se chamava
João Dosmeuspés Felizardo), Curucutu, Cheira-Céu, Jiló, Pé-de-Moleque, Barriga-Cheia,
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Corta-Pau, Rapa-pé, Tãozão, Mão-na-Lata e Zé Centeralfe. Esses nomes não são escolhidos ao
atoa. Eles carregam traços dos personagens, dão pistas sobre sua personalidade ou origem e,
muitas vezes, trazem humor e ironia para a narrativa.
No fim das contas, a escrita de Guimarães Rosa é muito mais do que contar histórias.
Ele cria um universo próprio onde a linguagem é viva, cheia de sons e significados. Seus
“contos” não apenas falam sobre “um lugar” (sertão), mas fazem o leitor sentir, viajar — ouvir
suas vozes, imaginar seus cenários. É isso que torna sua obra tão única e inesquecível.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao finalizar este estudo sobre a renovação da linguagem literária em Primeiras Estórias,
de Guimarães Rosa, fica claro que sua obra vai muito além de contar histórias. Ele não só
revolucionou a literatura brasileira, como também reinventou a própria linguagem. Rosa foge
das regras tradicionais, misturando o erudito e o popular, trazendo neologismos, oralidade e um
jeito próprio de narrar que desafia o leitor.
Além disso, sua forma de escrever rompe com o tempo linear e cria personagens
complexos, tornando a leitura uma experiência única. Primeiras Estórias não é só um livro
inovador em termos técnicos, mas também uma nova forma de olhar para o Brasil e contar suas
histórias. Sua influência se espalhou pela literatura contemporânea, mostrando que a linguagem
pode ser viva, surpreendente e cheia de possibilidades.
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REFERÊNCIAS
FREITAS, Luciana et al. A linguagem literária de João Guimarães Rosa: uma análise
literária do conto “A terceira margem do rio”. Cadernos da FUCAMP, v.20, n.48, p.92-
109, 2021.
MACHADO, Bruno Focas Vieira. João Guimarães Rosa: a invenção da linguagem.
Itinerários, Araraquara, n. 33, p. 233-242, jul./dez. 2011.
MONTEIRO, Adolfo Casais. “Guimarães Rosa, uma revolução no romance brasileiro”.
In: Romance. Teoria e crítica. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1964.
ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962.