Introdução
A crescente interconexão global e, em particular, a intensificação da mobilidade de
pessoas na África Austral, têm sublinhado a necessidade premente de uma cooperação
robusta entre os Estados no domínio da justiça. Cientes desta realidade, os países da
Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) têm vindo a edificar um
quadro legal e institucional que visa harmonizar e agilizar os mecanismos de auxílio
mútuo em matéria penal. Neste cenário, o Protocolo sobre a Transferência de Infratores
Condenados entre os Estados da SADC emerge como um pilar fundamental dessa
cooperação, refletindo o compromisso regional com a administração da justiça, a
proteção dos direitos humanos e a reinserção social de indivíduos privados de liberdade.
Objetivo Geral
Este relatório propõe-se a explorar os contornos deste importante instrumento jurídico
no âmbito da cadeira de Direito dos Contratos, que permite a condenados cumprirem as
suas penas nos seus países de origem ou residência. Abordaremos os princípios que
norteiam a transferência, as condições e os procedimentos exigidos, bem como os seus
efeitos jurídicos. De forma particular, dedicaremos atenção à aplicabilidade deste
protocolo no sistema jurídico moçambicano, analisando como Moçambique, enquanto
Estado Membro da SADC, tem vindo a incorporar e a operacionalizar estas disposições.
Serão destacados os marcos constitucionais e legais que regem a recepção do direito
internacional, bem como a relevância dos acordos bilaterais recentemente ratificados
com países como Zâmbia, Zimbabwe e Malawi, que servem como manifestação
concreta do espírito e dos objetivos do Protocolo da SADC.
Resumo do Protocolo Sobre a Transferência de Infratores Condenados entre os
Estados (SADC).
Este Protocolo visa reforçar a cooperação e integrações socioeconômicas, bem como
cooperação no domínio da justiça e do direito. Considera-se que esta cooperação deverá
contribuir para a reinserção social dos cidadãos que tenham sido condenados como
consequência de delitos.
O Protocolo foi assinado em Dar es Salam. Republica Tanzânia a 17-18 de Agosto de
2019, o mesmo foi aprovado pela 39 Simeira Ordinária em Agosto de 2019 pela
(SADC). A mesma foi ratificada pela a Assembleia da Republica de Moçambique.
Em julho de 2024 assembleia da Republica de Moçambique noticiou ter ratificado
acordos de transferência de condenados com três países membros do (SADC).
-Nomeadamente: Zâmbia, zimbabué e Malawi.
Importância do Protocolo
Promove a reinserção social dos condenados entre os Estados da (SADC), reforçando a
cooperação jurídica e a integração regional podendo contribuir para a eficiência dos
sistemas de justiça respeitando a soberania e a nacionalidade dos indivíduos. Ele
demonstra um compromisso de Estados membros em trabalhar em conjunto para
abordar questões de justiça penal de forma mais humana e eficaz.
Fundamentos da Transferência
O infrator condenado deve ser nacional do Estado de execução;
A sentença deve ter transitado em julgado no Estado de condenação e não ser
passível de recurso ou revisão;
O Estado de condenação pode solicitar um relatório especial sobre o
cumprimento da sentença ao Estado de execução;
Os Estados partes devem colaborar na concessão da passagem do infrator em
trânsito pelo seu território;
Ao Estados partes podem celebrar acordos bilaterais para garantir a
implementação efetiva do protocolo.
Desafios
Este protocolo enfrenta desafios sobre a ratificação e implementação, as disparidades
nos sistemas jurídicos dos Estados membros, a necessidade de consentimento do
infrator, as custas envolvidas e as complexidades administrativas, bem como a
consideração da soberania e a potencial falta de acordos bilaterais específicos. E
necessário ultrapassar essas problemáticas para se alcançar o pleno de seus objetivos.
Objetivos
Reforçar a Cooperação Jurídica;
Humanizar o Cumprimento das Penas;
Reduzir Encargos AdministrativosAplicação.
O Governo Moçambicano pode solicitar a transferência do seu nacional para cumprir o
restante da pena numa prisão em Moçambique perto de sua família ou comunidade.
Consentimento do Infrator e Bem-estar
Consentimento do Infrator: Um dos pilares do Protocolo é o consentimento livre e
voluntário do infrator condenado para a transferência. Este consentimento deve ser dado
por escrito e de forma consciente, após o condenado ter sido devidamente informado
sobre as consequências jurídicas da transferência, incluindo a continuação da execução
da pena no Estado de execução. Em casos de incapacidade (física ou mental), o
consentimento pode ser dado por um representante legal.
Tempo de Pena a Cumprir: Geralmente, exige-se que o condenado tenha ainda um
tempo considerável de pena a cumprir, tipicamente não inferior a seis meses, embora o
Protocolo possa permitir exceções em casos especiais mediante acordo entre as Partes.
Acordo entre os Estados: A transferência só pode ocorrer se houver um acordo mútuo
entre o Estado de condenação e o Estado de execução. Ambos os Estados devem
concordar com a transferência, considerando as leis, procedimentos e circunstâncias de
cada caso.
A Constituição da República de Moçambique e o Direito Internacional
A Constituição da República de Moçambique (CRM) de 2004 é a fonte primária que
rege a aplicabilidade do direito internacional. Os artigos mais relevantes são:
Artigo 17 (Relações Internacionais): Estabelece que Moçambique estabelece
relações de amizade e cooperação com outros Estados com base em princípios
como o respeito mútuo da soberania, igualdade e não interferência. Isso cria o
quadro para a cooperação jurídica como a transferência de condenados.
Artigo 18 (Direito Internacional): Este é o artigo fulcral.
N.º 1: "Os tratados e acordos internacionais, validamente aprovados e ratificados,
vigoram na ordem jurídica moçambicana após a sua publicação oficial e enquanto
vincularem internacionalmente o Estado de Moçambique.
O tratado só vigorará internamente enquanto Moçambique estiver internacionalmente
vinculado a ele. Se, por exemplo, Moçambique o denunciar ou ele caducar, deixa de ser
aplicável internamente.
N.º 2: "As normas de direito internacional têm na ordem jurídica interna o mesmo valor
que assumem os atos normativos infraconstitucionais emanados da Assembleia da
República e do Governo, consoante a sua respetiva forma de recepção.
Legislação Interna Relevante para a Aplicabilidade
Para operacionalizar a cooperação jurídica internacional, incluindo a transferência de
condenados, Moçambique tem legislação interna específica:
Lei n.º 21/2019, de 11 de Novembro (Lei de Cooperação Jurídica e
Judiciária Internacional em Matéria Penal Esta lei visa harmonizar as
práticas e garantir que as solicitações de e para Moçambique, bem como a
execução de decisões estrangeiras (como a continuação de uma pena), sigam um
quadro legal claro.
Código Penal (Lei n.º 24/2019, de 23 de Dezembro). O Código Penal, no
Artigo 42 (Reincidência), inclusive menciona que condenações proferidas por
tribunais estrangeiros contam para a reincidência, desde que o facto constitua
crime segundo a lei moçambicana.
Código de Processo Penal: Estabelece os procedimentos a seguir nos tribunais
moçambicanos para a execução de decisões penais.
Exemplo prático: Quando um cidadão moçambicano é condenado na Zâmbia e solicita
a transferência para Moçambique, ou quando a Zâmbia solicita a transferência de um
dos seus cidadãos condenados em Moçambique, o processo será regido pelo acordo
bilateral ratificado entre Moçambique e Zâmbia (aprovado em julho de 2024), que por
sua vez se baseia nos princípios do Protocolo da SADC. A aplicação prática envolve a
verificação das condições (consentimento, dupla incriminação, etc.) e a adaptação da
pena à legislação moçambicana, se necessário.
Conclusão
Em suma, o sistema jurídico moçambicano integra o direito internacional de forma
estruturada. Para que o Protocolo da SADC sobre a Transferência de Infratores
Condenados (e os acordos bilaterais derivados) seja plenamente aplicável e eficaz em
Moçambique, é imperativo que tenha sido validamente aprovado, ratificado e,
crucialmente, publicado no Boletim da República. Uma vez cumpridos estes requisitos,
ele adquire força de lei ordinária e os tribunais e autoridades moçambicanas têm o dever
de o aplicar, complementado pela Lei de Cooperação Jurídica e Judiciária Internacional
em Matéria Penal e outros diplomas relevantes. Isso garante a segurança jurídica e a
efetividade da cooperação na administração da justiça.