4.
Conto — “O Relógio de Madeira”
Na parede da casa de meu avô havia um velho relógio de madeira, herdado do bisavô
dele. Nunca soube ao certo quantos anos tinha, mas ele era mais velho do que todos
os habitantes da rua. Dizia-se que aquele relógio nunca atrasava, nunca adiantava —
era tão preciso quanto o tempo das árvores.
Depois da morte do meu avô, a casa ficou vazia. Mas o relógio continuou
funcionando. Fui o único da família a insistir em não vendê-lo. Levei o relógio
comigo, pendurei-o na sala do meu apartamento. Era como ouvir o coração da memória
— tic, tac, tic, tac — mesmo quando tudo ao meu redor se modernizava.
Com o tempo, comecei a notar algo estranho. Sempre que eu pensava em alguém do
passado, o relógio parava. Se lembrava da minha avó, ele pausava às 17h — hora em
que ela me servia chá. Pensava no meu pai, e o ponteiro travava às 22h — hora do
beijo de boa noite. Como se o tempo, dentro daquele objeto, fosse capaz de sentir.
Fiquei obcecado. Testava. Pensava. Chorava. O relógio reagia. Não era só memória:
era conexão. Descobri, por fim, um pequeno compartimento escondido. Dentro, havia
cartas escritas por várias gerações da família — cada uma deixada ao passar o
relógio para a próxima geração. A última dizia: "O tempo, meu filho, não é o que
marca os ponteiros. É o que pulsa quando você sente."