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Desconsideração da Personalidade Jurídica e a Lei 13.874/19

O artigo analisa as mudanças no artigo 50 do Código Civil brasileiro, introduzidas pela Lei da Liberdade Econômica, que visam esclarecer e limitar as condições para a desconsideração da personalidade jurídica. As alterações buscam aumentar a segurança jurídica e proteger o patrimônio individual, ao mesmo tempo que definem melhor as situações que permitem a responsabilização dos sócios. O estudo também aborda as lacunas da redação anterior e os avanços esperados com as novas disposições legais.

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Marcela Marconi
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Desconsideração da Personalidade Jurídica e a Lei 13.874/19

O artigo analisa as mudanças no artigo 50 do Código Civil brasileiro, introduzidas pela Lei da Liberdade Econômica, que visam esclarecer e limitar as condições para a desconsideração da personalidade jurídica. As alterações buscam aumentar a segurança jurídica e proteger o patrimônio individual, ao mesmo tempo que definem melhor as situações que permitem a responsabilização dos sócios. O estudo também aborda as lacunas da redação anterior e os avanços esperados com as novas disposições legais.

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Requisitos da Desconsideração da Personalidade Jurídica decorrentes das

alterações promovidas pela Lei da Liberdade Econômica

Marcela Vieira Marconi1 - Fevereiro, 2022

Resumo: O presente artigo fará um apanhado das alterações promovidas no artigo


50 do Código Civil, que dispõe sobre a desconsideração da personalidade jurídica,
em razão da Lei n° 13.874/19 (“Lei da Liberdade Econômica”), indicando as lacunas
que eram vislumbradas na redação anterior, e quais avanços poderão ser
alcançados, ou não, a partir de tais alterações, levando em conta a interpretação
sistemática e as dificuldades anteriormente encontradas pela jurisprudência
nacional.

Palavras-chave: Lei da Liberdade Econômica. Pessoa Jurídica. Desconsideração


da Personalidade Jurídica. Artigo 50 do Código Civil.

Sumário: 1. Introdução. 2. Propósitos gerais da Lei da Liberdade Econômica e sua


relação com a Desconsideração da Personalidade Jurídica. 3. Alterações no caput
do artigo 50 do Código Civil. 4. Inserção do §1º do artigo 50 do Código Civil. 5.
Inserção do §2º do artigo 50 do Código Civil. 6. Inserção do §3º do artigo 50 do
Código Civil. 7. Inserção do §4º do artigo 50 do Código Civil. 8. Inserção do §5º do
artigo 50 do Código Civil. [Link]ções Finais. 10. Referências.

1. Introdução.

A despeito das discussões doutrinárias quanto à sua natureza, fato é que as


pessoas jurídicas devidamente constituídas adquirem personalidade jurídica própria
e, assim, se tornam titulares de direitos e obrigações, de forma separada e
independente de seus integrantes. Por conseguinte, em regra, a pessoa jurídica
responde com o seu próprio patrimônio pelas dívidas que constituir, resguardando-

1
Mestranda em Direito Comercial na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP,
ingresso em 2021), Especialista em Direito Societário (INSPER-SP, 2021) Especialista em Arbitragem
(PUC-SP, 2020), Advogada associada do BVZ Advogados da área de contencioso, arbitragem e
insolvências. E-mail para contato [Link]@[Link].
se o patrimônio de seus sócios, conforme preceitua o chamado princípio da
autonomia patrimonial.2
O instituto da desconsideração da personalidade jurídica surge, portanto,
como uma exceção ao princípio da autonomia, de modo que, frente a determinadas
condições, será desconsiderada a separação entre a pessoa jurídica e seus sócios,
de modo que o patrimônio ambos responderão pelas dívidas da pessoa jurídica.
Este instituto teve origem na Inglaterra, em 1929, quando foi previsto na
seção 279 do Companies Act, com aplicabilidade restrita às hipóteses de liquidação
de sociedades. Conforme a referida previsão, se restasse comprovado que a
liquidação da sociedade se deu com objetivo de fraudar credores ou terceiros, a
Corte, a pedidos, poderia determinar o alcance ilimitado ao patrimônio dos sócios
que estivessem envolvidos na fraude.
O precedente mais relevante que deu origem a essa previsão foi o do caso
Salomon V. Salomon Co., em 1897, no qual se discutiu a possibilidade de ser
alcançado o patrimônio dos sócios da companhia Aron Salomon Ltda., que teria sido
constituída e liquidada com fim de fraudar seus credores.
A análise do referido caso partiu da premissa de que a constituição da
sociedade importa a existência de um “véu da corporação” (“corporate veil”), o qual
poderia, em situações excepcionais, ser levantado (“lift of the corporate veil”).
A partir de então, o instituto foi desenvolvido pela jurisprudência e pela
legislação anglo-saxônicas e passou a ser adotado pelas cortes norte-americanas e
inglesas, que mencionam o “lifting of the corporate veil”, “piercing of the corporate
veil”, ou “disregard of the Legal Entity”, como sinônimos, quando há atuação
fraudulenta dos sócios na condução da sociedade, com prejuízo a terceiros, de
modo a possibilitar o alcance de seus patrimônios pessoais.
No Brasil, a desconsideração da personalidade jurídica foi mencionada pela
primeira vez em 1969, por Rubens Requião em uma conferência chamada “Abuso
de Direito e Fraude através da Personalidade Jurídica", na Faculdade de Direito da
Universidade Federal do Paraná. O doutrinador defendeu a tese de que os efeitos
da personalização deveriam ser relativos, de modo que, se a pessoa jurídica fosse

2
Em regra, os sócios não devem responder, com seu patrimônio pessoal, pelas dívidas da sociedade.
Esta, por ser pessoa jurídica a quem o ordenamento jurídico confere existência própria, possui, em
consequência, responsabilidade patrimonial própria. Trata-se do chamado princípio da autonomia
patrimonial das pessoas jurídicas. (SANTA CRUZ, André. DIREITO EMPRESARIAL: volume único. 9.
ed. Rio de Janeiro: 2019, p. 358).
utilizada com fraude ou abuso de direito, seria admissível desconsiderar a sua
autonomia patrimonial.3
A ideia foi desenvolvida, em seguida, por Lamartine Corrêa de Oliveira, um
dos principais juristas relacionados à temática. O autor defende que a realidade
deve prevalecer sobre a aparência da personalidade jurídica, sempre quando a
pessoa jurídica for utilizada de forma desviada de seu objetivo, para servir de
escudo aos seus sócios, em prejuízo a terceiros. 4
Até 1990, não havia, no Brasil, um dispositivo legal a esse respeito, de modo
que a desconsideração da personalidade jurídica se desenvolveu como um
desdobramento do conceito de abuso de direito. Naquele ano, o panorama foi
alterado pelo advento do Código do Consumidor, cujo artigo 28 permitiu a
desconsideração da personalidade jurídica, em relações consumeristas, sempre que
houvesse estado de insolvência da pessoa jurídica, de modo que o consumidor
encontre dificuldades para solver o seu crédito.5
Em 2002, a redação originária do artigo 50 do Código Civil6 esclareceu que
essa amplitude não deveria atingir as relações civis, nas quais, para que houvesse a
desconsideração da personalidade jurídica, deveria ser constatado abuso da
personalidade jurídica, caracterizado pelo seu desvio de finalidade ou confusão
patrimonial com os sócios.

3
REQUIÃO, Rubens. Abuso e fraude através da personalidade jurídica. In: Revista dos Tribunais.
São Paulo: RT, dez./1969, vol. 410, p. 15.
4
“Os problemas ditos de desconsideração envolvem frequentemente um problema de imputação. O
que importa basicamente é a verificação da resposta adequada à seguinte pergunta: no caso em
exame, foi realmente a pessoa jurídica que agiu, ou foi ela mero instrumento nas mãos de outras
pessoas, físicas ou jurídicas? É exatamente porque nossa conclusão quanto à essência da pessoa
jurídica se dirige a uma postura de realismo moderado – repudiados os normativismos, os
ficcionismos, os nominalismos – que essa pergunta tem sentido. Se é em verdade uma outra pessoa
que está a agir, utilizando a pessoa jurídica como escudo, e se é essa utilização da pessoa jurídica,
fora de sua função, que está tornando possível o resultado contrário à lei, ao contrato, ou às
coordenadas axiológicas fundamentais da ordem jurídica (bons costumes, ordem pública), é
necessário fazer com que a imputação se faça com o predomínio da realidade sobre a aparência”
(OLIVEIRA, José Lamartine Correia de. A dupla crise da pessoa jurídica. São Paulo: Saraiva. 1979, p.
613)
5
CDC, “Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em
detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato
ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando
houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados
por má administração.”
6
CC, “Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade,
ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público
quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de
obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa
jurídica." (redação original).
O que se verifica, de qualquer forma, é que o instituto da desconsideração da
personalidade jurídica não se opõe ao princípio da autonomia patrimonial, mas sim
busca garantir o devido cumprimento da autonomia da pessoa jurídica de forma
geral, posto que impede que esta seja utilizada de forma desvirtuada, como
instrumento para prática de atos em prejuízo a terceiros.
Em outras palavras, a desconsideração da personalidade jurídica, ao
estabelecer a possibilidade de ser excepcionada a autonomia patrimonial, se destina
a impedir que a pessoa jurídica seja utilizada de maneira disfuncional, como escudo
de proteção de seus sócios contra credores. Não se trata de uma despersonificação
ou despersonalização da pessoa jurídica, de forma definitiva, mas sim de um
afastamento dos efeitos da autonomia patrimonial, frente a certos requisitos, de
maneira específica e em uma relação jurídica pré-determinada.
A jurisprudência nacional, todavia, encontrou dificuldades para definir as
situações que autorizariam a desconsideração da personalidade jurídica nas
relações civis, ensejando interpretações diversas e decisões díspares para situações
equivalentes. Com intuito de sanar tais circunstância e prover maior segurança
jurídica, a Medida Provisória n° 881 de 2019 (“MP 881”) trouxe alterações na
redação do artigo 50 do Código Civil, cujo estudo se pretende no presente artigo.

2. Propósitos gerais da Lei da Liberdade Econômica e sua relação com a


Desconsideração da Personalidade Jurídica.

Em sua exposição de motivos, a MP 881, posteriormente convertida na Lei n°


13.874/19 (“Lei da Liberdade Econômica”), esclarece os seus objetivos principais de
instituir a Declaração de Direitos de Liberdade Econômica e estabelecer garantias
de livre mercado, bem como proporcionar maior segurança jurídica a partir da edição
de determinados dispositivos legais.7
7
“Excelentíssimo Senhor Presidente da República, 1. Submetemos à apreciação de Vossa
Excelência, proposta de Medida Provisória que visa instituir a Declaração de Direitos de Liberdade
Econômica e estabelecer garantias de livre mercado, conforme determina o art. 170 da Constituição
Federal. (...)
14. Nas Disposições Finais, esta proposta tomou uma série de edições com o intuito de, em caráter
emergencial, proporcionar um estado de maior segurança jurídica no País.
15. A mais prestigiada e segura conceituação dos requisitos de desconsideração da personalidade
jurídica, conforme amplo estudo da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, e em alinhamento
com pareceres da Receita Federal, é anotada em parágrafos no art. 50 do Código Civil, de maneira a
garantir que aqueles empreendedores que não possuem condições muitas vezes de litigar até as
instâncias superiores possam também estar protegidos contra decisões que não reflitam o mais
consolidado entendimento.” (Exm-MP-881-19. Disponível em:
A referida exposição também aponta o momento de crise econômica em que
o país se encontra, e destaca ter sido cientificamente possível concluir que a
liberdade econômica e a proteção ao patrimônio individual são fatores necessários e
preponderantes para o desenvolvimento e crescimento econômico de um país, bem
como para o bem-estar de sua população.8
Assim, como princípios norteadores da referida lei, seu artigo 2º elenca: (i) a
liberdade como garantia no exercício de atividades econômica; (ii) a presunção de
boa-fé do particular perante o poder público; (iii) o caráter excepcional da
intervenção do Estado sobre o exercício de atividades econômicas; e (iv) o
reconhecimento da vulnerabilidade do particular perante o Estado.9
Seguindo essas diretrizes, dentre outras edições, a Lei da Liberdade
Econômica, por meio de seu artigo 7º, alterou a redação do artigo 50 do Código
Civil, de modo a aprofundar as questões relacionadas à desconsideração da
personalidade jurídica nas relações civis, buscando conferir maior transparência,
exatidão e simetria na aplicação do instituto.
A nova redação, como analisar-se-á a seguir, privilegiou a proteção ao
patrimônio individual e a autonomia patrimonial das pessoas jurídicas, ao restringir e
especificar as hipóteses de desconsideração da personalidade jurídica, bem como
limitar a responsabilidade dos sócios ao seu efetivo benefício na desconformidade
de direcionamento da pessoa jurídica.
O que se buscou como consequência final, em consonância com o objetivo
geral das disposições da Lei da Liberdade Econômica, foi limitar as intervenções
estatais e uniformizar o entendimento jurisprudencial quanto à extensão da

[Link] Acesso em
09.09.2021, às 22h50.)
8
“Após a análise de dezenas de estudos empíricos, todos devidamente especificados nas Notas
Técnicas, incluindo os dedicados à América Latina, conclui-se que a liberdade econômica é
cientificamente um fator necessário e preponderante para o desenvolvimento e crescimento
econômico de um país. Mais do que isso, é uma medida efetiva, apoiada no mandato popular desta
gestão, para sairmos da grave crise em que o País se encontra. (...)
Um estudo específico, que reanalisou o histórico de várias pesquises empíricas realizadas desde a
década de 80, reconfirmou a conclusão científica de que a liberdade econômica, e especialmente
proteção à propriedade privada, é mais determinante para o bem-estar da população do que, por
exemplo, as características regionais e demográficas de um país.” (Exm-MP-881-19. Op. Cit).
9
“Art. 2º São princípios que norteiam o disposto nesta Lei:
I - a liberdade como uma garantia no exercício de atividades econômicas;
II - a boa-fé do particular perante o poder público;
III - a intervenção subsidiária e excepcional do Estado sobre o exercício de atividades econômicas; e
IV - o reconhecimento da vulnerabilidade do particular perante o Estado.”
autonomia patrimonial, de modo a garantir maior segurança jurídica às relações de
mercado que, dessa forma, tendem a se tornar mais livres e atrativas a investidores.

3. Alterações no caput do artigo 50 do Código Civil.

O caput do artigo 50 do Código Civil, em momento anterior à reforma


promovida pela Lei da Liberdade Econômica, determinava que os bens particulares
dos administradores ou sócios da pessoa jurídica poderiam ser alcançados, por
determinação judicial, para a satisfação de obrigações desta, “em caso de abuso de
personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão
patrimonial”.
A simplicidade da referida disposição, que não detém maiores
esclarecimentos quanto ao nexo causal que originaria a responsabilização dos
sócios, quanto à extensão do alcance do patrimônio pessoal, ou quanto aos
conceitos de desvio de finalidade ou confusão patrimonial, deu margem a
interpretações distintas e, por conseguinte, a aplicações diversificadas do instituto da
desconsideração da personalidade jurídica pela jurisprudência.
O artigo 7º da Lei da Liberdade Econômica, para além de inserir parágrafos
ao referido artigo 50, no intuito de melhor definir os conceitos e hipóteses de desvio
de finalidade e confusão patrimonial, também alterou a redação de seu caput, ao
inserir neste a expressão “beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso”, para
caracterizar os sócios ou administradores que poderão ter seus patrimônios
alcançados pela desconsideração:
CC, Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado
pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a
requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir
no processo, desconsiderá-la para que os efeitos de certas e determinadas
relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares de
administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou
indiretamente pelo abuso.
Por meio desta alteração, a desconsideração da personalidade jurídica foi
expressamente condicionada à existência (i) de um efetivo benefício, direto ou
indireto, auferido pelos seus sócios ou administradores, e (ii) de um nexo causal
entre o abuso da personalidade jurídica, causado pelo desvio de finalidade ou pela
confusão patrimonial, e tal benefício.
Positivou-se, assim, o entendimento já existente do Superior Tribunal de
Justiça, no sentido de que o afastamento da autonomia patrimonial da pessoa
jurídica é restrito às hipóteses de abuso em que houver benefício aos seus sócios ou
administradores, e de que somente devem ser alcançados os patrimônios das
pessoas físicas que efetivamente auferirem tal benefício (de forma direta ou
indireta).10
Apesar de não haver limitação expressa, fortaleceu-se, também, o
entendimento de que o alcance do patrimônio dos sócios ou administradores se
limita ao benefício auferido, sendo incabível a extensão ao seu patrimônio como um
todo. Assim demonstram trechos do recente acórdão do Agravo de Instrumento nº
2078990-10.2019.8.26.0000, da 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial, do
Tribunal de Justiça de São Paulo.11
A título de exemplo do avanço conquistado nesse sentido, um sócio detentor
de participação societária reduzida, que não tenha concorrido para o uso indevido da
personalidade jurídica da sociedade que integra, mas que tenha auferidos benefícios
indiretos mínimos inerentes ao aumento de seus dividendos, não correrá o risco de
ter todo o seu patrimônio alcançado por dívidas de grande monta da sociedade.
A alteração do caput do artigo do Código Civil, portanto, apesar de advir da
simples inclusão da expressão “beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso”,
configura a positivação e o fortalecimento de posicionamentos jurisprudenciais
restritivos já existentes, cuja aplicação correta e uniforme terá extrema relevância
para garantir maior segurança às relações de mercado.

10
“(...) mesmo nas situações em que se verifique o preenchimento desses requisitos legais [do art.
50, do CC], os efeitos da desconsideração deve[m] alcançar apenas aqueles sócios ou diretores que
efetivamente participaram ou se beneficiaram com o ato ilícito ou abusivo. Isso porque a teoria da
desconsideração da personalidade não é instituto que impõe a solidariedade do sócio em relação à
sociedade, tampouco o responsabiliza de forma objetiva por atos ilícitos.” (REsp n. 1.325.663/SP, 3ª
T., Rel. Min. Nancy Andrighi, j. em 11.06.2013, DJe de 24.06.2013) (g.m.).
“[A] desconsideração não é regra de responsabilidade civil, não depende de prova da culpa, deve ser
reconhecida nos autos da execução, individual ou coletiva, e, por fim, atinge aqueles indivíduos que
foram efetivamente beneficiados com o abuso da personalidade jurídica, sejam eles sócios ou
meramente administradores. [...] A desconsideração exige benefício daquele que será chamado a
responder.” (REsp n. 1.036.398/RS, Relatora: Min. Nancy Andrighi, 3ª Turma, Data de Julgamento:
16.12.2008) (g.m.).
11
“O atrelamento da desconsideração da personalidade jurídica ao benefício experimentado em
decorrência da confusão patrimonial e/ou do desvio de finalidade corrobora a tese de que a
responsabilização, nessa hipótese, está limitada ao benefício, direto ou indireto, comprovadamente
experimentado pelo sócio ou administrador a quem se dirige o pedido de desconsideração.” (TJ-SP -
AI: 2078990-10.2019.8.26.0000, Relator: Grava Brazil, 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial,
Data de Julgamento: 10/09/2019,) (g.m.).
4. Inserção do §1º do artigo 50 do Código Civil.

A inserção do parágrafo primeiro no artigo 50 do Código Civil se deu sob o


intuito de esclarecer o conceito do desvio de finalidade, apto a configurar o abuso da
personalidade jurídica. Nos termos do referido dispositivo, “desvio de finalidade é a
utilização da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de
atos ilícitos de qualquer natureza”:
“CC, Art. 50 § 1º Para os fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é
a utilização da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a
prática de atos ilícitos de qualquer natureza.”
Se, mesmo nas relações cíveis, já houve precedentes de aplicação do
instituto da desconsideração da personalidade jurídica para casos de simples
insuficiência de recursos frente a credores, ou encerramento irregular de pessoas
jurídicas, espera-se que a definição do conceito de desvio de finalidade oriente a
jurisprudência a consolidar-se em sentido inverso.
Conforme aduz o referido parágrafo, a desconsideração da personalidade
jurídica sob a alegação de abuso decorrente de desvio de finalidade somente poderá
ocorrer quando a pessoa jurídica for utilizada indevidamente, de forma desvirtuada
de suas funções sociais, como instrumento para viabilizar a prática de atos ilícitos,
ou com o propósito de lesar credores.
Apesar de ter sido alterada a redação inicialmente pretendida para o
dispositivo, segundo a qual o desvio de finalidade seria “a utilização dolosa da
pessoa jurídica (...)”, a manutenção da expressão “com o propósito” ainda deixa
evidente que a caracterização do desvio de finalidade depende de ato intencional
dos sócios ou administradores da pessoa jurídica, para lhe direcionar
indevidamente.
A inclusão do referido parágrafo primeiro também representou a positivação
de um entendimento já existente do Superior Tribunal de Justiça, no sentido de o
desvio de finalidade da pessoa jurídica se configurar apenas quando houver ação
dolosa de seus sócios ou administradores, com intuito de lesar credores ou
terceiros.12

12
“O encerramento das atividades da sociedade ou sua dissolução, ainda que irregulares, não são
causas, por si sós, para a desconsideração da personalidade jurídica a que se refere o art. 50 do CC.
Para a aplicação da teoria maior da desconsideração da personalidade social - adotada pelo CC -,
exige-se o dolo das pessoas naturais que estão por trás da sociedade, desvirtuando-lhe os fins
institucionais e servindo-se os sócios ou administradores desta para lesar credores ou terceiros.” (3
A aplicação desse entendimento, agora positivado, é de suma importância,
para que o desvio de finalidade deixe de ser utilizado em decisões judiciais como
fundamento genérico a permitir o afastamento da autonomia patrimonial da
personalidade jurídica, que deve ser compreendido como medida excepcional.
No recente acórdão do Agravo de Instrumento nº 2255086-
74.2019.8.26.0000, proferido pela 38ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de
Justiça de São Paulo, verifica-se a sua adequada aplicação, posto que foi indeferida
a desconsideração da personalidade jurídica pleiteada por suposto desvio de
finalidade, ante à inexistência de dolo dos acionistas da sociedade. No caso, ainda,
foi destacado que o ônus de provar a existência de dolo das pessoas físicas cujo
patrimônio se pretende alcançar é da parte autora, que pleiteia a concessão de tal
medida.13

5. Inserção do §2º do artigo 50 do Código Civil.

Em paralelo ao parágrafo primeiro, o parágrafo segundo foi inserido ao artigo


50 do Código Civil com o objetivo de conceituar a confusão patrimonial capaz de
configurar abuso de personalidade jurídica, a ensejar a sua desconsideração.
Segundo aduz o dispositivo, a confusão patrimonial se caracteriza pela “ausência de
separação de fato entre os patrimônios” da pessoa jurídica e das pessoas físicas
que a integram.
Os incisos I e II do dispositivo completam a previsão, elencando duas
situações em que essa ausência de separação patrimonial seria verificada, quais
sejam, o “cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do

STJ, Informativo nº 0554, Período: 25 de fevereiro de 2015.) (g.m.).


13
Trecho da ementa: “Inatividade ou eventual encerramento irregular das atividades, sem o prévio
procedimento de liquidação e de baixa na Junta Comercial, ou a não localização de bens penhoráveis
em seu nome, não são causas suficientes para a desconsideração da personalidade jurídica – Dolo
dos acionistas não demonstrado – Meras suposições desacompanhadas de evidências –
Precedentes do STJ e deste E. Tribunal – RATIFICAÇÃO DA DECISÃO – Hipótese em que a
interlocutória avaliou corretamente os elementos fáticos e jurídicos apresentados pela parte, dando ao
incidente o justo deslinde necessário – Aplicação do art. 252, do RITJSP – Decisão mantida –
RECURSO NÃO PROVIDO.” (g.m.)
Trecho do inteiro teor: “As demais alegações trazidas nas razões recursais, na verdade, podem ser
entendidas como reiteração daquelas matérias de direito e/ou de fato arguidas no incidente e já
resolvidas. Em verdade, a agravante não apresentou indícios suficientes para desconsiderar a
personalidade jurídica da devedora, baseando seu pleito em presunções, sem provar que houve dolo
dos acionistas.” (TJ-SP - AI: 2255086-74.2019.8.26.0000, Relator: Spencer Almeida Ferreira, 38ª
Câmara de Direito Privado, Data de Julgamento: 27/02/2020) (g.m.)
administrador ou vice-versa”, e a “transferência de ativos ou de passivos sem
efetivas contraprestações, exceto os de valor proporcionalmente insignificante”.
A exclusão de transferência de ativos ou passivos de valores
proporcionalmente insignificantes possui um caráter restritivo muito relevante, uma
vez que tais transferências, bastante comuns, por não serem capazes de reduzir a
pessoa jurídica à insolvência, também não poderão servir de argumento único capaz
de ensejar o excepcional alcance ao patrimônio de seus sócios ou administradores.
Apesar de as situações dos incisos I e II parecerem suficientemente definidas,
o inciso III do referido dispositivo as complementou com a afirmação genérica de
que também configurarão a confusão patrimonial “outros atos de descumprimento
da autonomia patrimonial”:
CC, Art. 50 § 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de
separação de fato entre os patrimônios, caracterizada por:
I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do
administrador ou vice-versa;
II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações,
exceto os de valor proporcionalmente insignificante; e
III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial.
Dessa forma, o rol dos incisos do parágrafo segundo assumiu um caráter
meramente exemplificativo, que pouco restringe a liberdade interpretativa da
jurisprudência.
Por óbvio, a inserção do parágrafo segundo conferiu algum suporte conceitual
à definição de confusão patrimonial, em avanço ao panorama anterior, onde este
conceito era absolutamente indefinido. Todavia, a redação do inciso III deixa aberta
a possibilidade de os magistrados utilizarem a sua liberdade criativa para
reconhecerem as mais diversas situações de suposta confusão patrimonial, de modo
que a segurança jurídica pretendida pela Lei da Liberdade Econômica, nesse ponto,
provavelmente não será alcançada.
Não obstante, as disposições dos incisos I e II têm sido devida e
beneficamente aplicadas pela jurisprudência, como demonstra o acórdão do Agravo
de Instrumento nº 2240254-36.2019.8.26.0000, da 19 ª Câmara de Direito Privado
do Tribunal de Justiça de São Paulo. No caso, além de ter sido corretamente
analisada a questão da insignificância de valores, também foi aplicada a restrição de
alcance somente aos patrimônios dos sócios e administradores beneficiados, em
acertada interpretação analógica ao parágrafo primeiro do mesmo artigo 50.14

6. Inserção do §3º do artigo 50 do Código Civil.

O Código de Processo Civil de 2015, em seu artigo 133, parágrafos primeiro e


segundo, possui previsões expressas que instrumentalizam a chamada
desconsideração inversa da personalidade jurídica, mediante a qual o patrimônio da
pessoa jurídica pode ser alcançado para cumprir as obrigações de seus sócios ou
administradores, em situações de abuso da personalidade jurídica.15
Antes mesmo da referida previsão processual, a desconsideração inversa da
personalidade jurídica já era um instrumento bastante utilizado, de forma
consolidada pela jurisprudência, sob a análise dos mesmos requisitos necessários
para a desconsideração “direta” ou “comum”.16
14
“Por sua vez, a confusão patrimonial vem tipificada no artigo § 2º do referido dispositivo [art. 50],
como sendo a ausência de separação dos bens, configurada, no inciso II, pela transferência de ativos
ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de valor proporcionalmente insignificante,
exatamente a conduta verificada nos autos. O agravante alega que a inadimplência desde 2013
decorre da absoluta falta de recurso, sendo que, em 2017, por falta de pagamento dos aluguéis, foi
decretado o despejo. Além disso, a pessoa jurídica não apresenta balanço patrimonial desde 2013.
Entretanto, em 2016, ou seja, muito tempo após o vencimento da dívida em discussão, quando a
executada sequer apresentava balanço patrimonial, ela repassou ao sócio, ora agravante, o valor de
R$ 51.000,00 a título de pró-labore (fl. 281), fato não impugnado nas razões recursais. Dessa forma,
restou nítida a confusão patrimonial com o repasse de valores quando o agravante alega que a
pessoa jurídica não estava atuando por falta de recursos, pois desde 2013 não mais apresentava
balanço patrimonial. Ainda que fosse considerado que em 2016 o valor repassado pela pessoa
jurídica seria para a subsistência do sócio, vez que o recebimento de sua aposentadoria se iniciou em
19/01/2017 (fl. 392), ainda assim o recebimento de valores em 2017 e 2018, quando a empresa alega
não possuir recursos desde 2013, evidencia a transferência irregular de valores ao sócio. Diante
desse cenário, ficou caracterizada a fraude decorrente do desvio de bens da executada diretamente
para seu sócio que continua a receber nos anos seguintes, 2017 e 2018, o valor de R$ 15.600,00 (fl.
285) e de R$ 12.000,00 (fl. 291), respectivamente. Assim, a declaração do sócio de que recebeu
valores quando a pessoa jurídica aparentava estar inativa, demonstra o nexo causal entre a conduta
fraudenta e seu favorecimento, liame necessário para a responsabilização do agravante. Nessa
direção, é possível a desconsideração da personalidade jurídica no caso concreto, pois há nítida
confusão entre o patrimônio dos envolvidos, ensejando a responsabilização do sócio que se
beneficiou do abuso” (TJSP- AI: 2240254-36.2019.8.26.0000; Relatora: Daniela Menegatti Milano; 19ª
Câmara de Direito Privado; Data do Julgamento: 17.2.2020) (g.m.).
15
CPC, Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido
da parte ou do Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo.
§ 1º O pedido de desconsideração da personalidade jurídica observará os pressupostos previstos em
lei.
§ 2º Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração inversa da personalidade
jurídica.
16
Vd. 1. “Presentes os elementos de convicção dos pressupostos do art. 28 do Código de Defesa do
Consumidor e do art. 50 do Código Civil de 2002, é aplicável a despersonalização da pessoa jurídica
inversa para alcançar os bens sociais ou particulares dos administradores ou sócios que a integram”
(TJ-SP - AI: 990100749242 SP, Relator: Norival Oliva, 26ª Câmara de Direito Privado, Data de
Julgamento: 10/08/2010) 2. “AGRAVO DE INSTRUMENTO. LOCAÇÃO, EXECUÇÃO DE TÍTULO
Nesse diapasão, a inclusão do parágrafo terceiro no artigo 50 do Código Civil
apenas positivou o entendimento jurisprudencial pacífico, no sentido de autorizar a
desconsideração inversa da personalidade jurídica, de modo que as dívidas dos
sócios podem alcançar os patrimônios de suas sociedades, se houver desvio de
finalidade dessas ou confusão patrimonial entre ambos:
“CC, Art. 50. § 3º O disposto no caput e nos §§ 1º e 2º deste artigo também
se aplica à extensão das obrigações de sócios ou de administradores à
pessoa jurídica.”
Positivou-se, portanto, mais uma forma de impedir que as pessoas físicas se
utilizem das pessoas jurídicas de maneira indevida, como instrumento de blindagem
ao seu patrimônio pessoal, visando inadimplir suas próprias obrigações, em
benefício próprio e em prejuízo a credores e terceiros.
A título de exemplo, um sócio que transmitir todo seu patrimônio pessoal para
a pessoa jurídica da qual faz parte, com objetivo de não ser atingido pelo seu credor,
de quem tomou crédito na pessoa física, poderá dar ensejo à desconsideração
inversa da personalidade jurídica, para que o patrimônio da sociedade também
responda por tais obrigações.
Todas as dúvidas aplicáveis aos conceitos de desvio de finalidade ou
confusão patrimonial, já analisados, aqui também se aplicam, haja vista a
aplicabilidade desses mesmos requisitos. Não há, contudo, novas controvérsias ou
questões que mereçam análise aprofundada.
Por tratar-se uma questão consolidada e pacífica perante a jurisprudência,
também não se acredita que serão promovidas alterações jurisprudenciais
significativas com base no parágrafo terceiro do artigo 50 do Código Civil.

7. Inserção do §4º do artigo 50 do Código Civil.

Enquanto os parágrafos primeiro e segundo conceituaram o desvio de


finalidade e a confusão patrimonial, e o parágrafo terceiro trouxe previsão material

EXTRAJUDICIAL. DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA.


POSSIBILIDADE. A desconsideração inversa da personalidade jurídica, medida excepcional que é,
tem cabimento quando o sócio administrador atuar com abuso, caracterizado pelo desvio da
finalidade, ou pela confusão patrimonial. Inteligência do art. 50 do Código Civil. Caso em que
demonstrada a ocorrência dos requisitos legais previstos, a possibilitar a inclusão das empresas
administradas pelos devedores, no pólo passivo da lide executiva. RECURSO PROVIDO. (TJRS- AI
Nº 70052162468, 16ª Câmara Cível, Relator: Catarina Rita Krieger Martins, Data de Julgamento:
21/12/2012)
quanto ao instrumento da desconsideração inversa da personalidade jurídica, os
parágrafos quarto e quinto, inseridos no artigo 50 do Código Civil pelo artigo 7º da
Lei da Liberdade Econômica, cuidaram de esclarecer hipóteses em que a
desconsideração da personalidade jurídica não será aplicável.
Conforme aduz o parágrafo quarto, o afastamento da autonomia patrimonial
não será autorizado pela mera existência de grupo econômico, sem que seja
constatado o abuso da personalidade jurídica, por meio de desvio de finalidade ou
confusão patrimonial:
“CC, Art. 50 § 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença
dos requisitos de que trata o caput deste artigo não autoriza a
desconsideração da personalidade da pessoa jurídica.”
Apesar de o dispositivo não distinguir, é cediço que os grupos econômicos se
diferenciam em grupos de direito e de fato, sendo estes últimos os que prevalecem
na prática econômica brasileira.
Os de direito são os grupos econômicos constituídos mediante convenção de
um grupo de sociedades e formalizados pela legislação societária, para consecução
de um objetivo único. E os de fato são os grupos econômicos decorrentes de uma
análise fática, da qual se verifique que o poder de decisão e o poder econômico de
várias sociedades está centralizado em apenas uma pessoa física ou jurídica.
Ambas as espécies de grupos econômicos são capazes de ensejar a
desconsideração da personalidade jurídica, mas não pela sua mera existência, e sim
desde que também sejam caracterizados o desvio de finalidade ou a confusão
patrimonial. Assim já entendia a jurisprudência brasileira, 17 de modo que o parágrafo

17
Vd. 1. Trecho da ementa: “Não configuração dos requisitos para desconsideração inversa da
personalidade jurídica. Inteligência do artigo 50 do Código Civil. Ausência de desvio de finalidade ou
de confusão patrimonial entre as empresas do mesmo grupo econômico. Desconsideração da
personalidade jurídica da ré afastada. Bem imóvel que já era do patrimônio da ré antes do crédito dos
autores. Ausência de confusão patrimonial entre a ré e a devedora dos autores que afasta a
possibilidade de fraude contra credores. Sentença reformada, pela improcedência dos pedidos dos
autores. Sucumbência integral dos autores. Recurso das rés provido e recurso dos autores
desprovido.(TJ-SP - 0021629-34.2004.8.26.0602, Relator: Carlos Alberto de Salles, 3ª Câmara de
Direito Privado, Data de Julgamento: 30/08/2016) (g.m.) 2. Trecho da ementa: “A desconsideração da
pessoa jurídica, mesmo no caso de grupos econômicos, deve ser procedida somente em situações
excepcionais, quando verificado que a empresa devedora pertence a grupo de sociedades sob o
mesmo controle e com estrutura meramente formal, o que ocorre quando diversas pessoas jurídicas
do grupo exercem suas atividades sob unidade gerencial, laboral e patrimonial, e, ainda, quando se
visualizar a confusão de patrimônio, fraudes, abuso de direito e má-fé com prejuízo a credores.
Ausente a presença de tais requisitos a manutenção da decisão que indeferiu a inclusão das demais
empresas é medida que se impera.” (TJ-MG - AI: 10024120902713001 MG, Relator: Otávio
Portes,16ª Câmara Cível, Data de Julgamento: 30/08/2017) (g.m.).
quarto também foi inserido no artigo 50 como forma de positivar um entendimento
jurisprudencial.
Todavia, observa-se que a jurisprudência sempre encontrou dificuldades em
diferenciar quais requisitos caracterizam um grupo econômico e quais são aptos a
caracterizar o efetivo abuso da personalidade jurídica, de modo que, por muitas
vezes, o mero reconhecimento da existência do grupo econômico, na prática, foi
suficiente para que houvesse o deferimento da desconsideração da personalidade
jurídica.
A título de exemplo, no julgamento do Agravo de Instrumento nº 906.667-7,
em 2012, o Tribunal de Justiça do Paraná reconheceu que a simples existência de
grupo econômico não seria apta a ensejar a desconsideração da personalidade
jurídica. Contudo, a medida excepcional foi deferida, com argumentos relacionados
apenas à própria existência do referido grupo, e não a um efetivo abuso, como a
similitude das atividades sociais, sócios, administradores e endereços.18
Outra dificuldade encontrada pela jurisprudência reside na confusão entre a
desconsideração da personalidade jurídica em grupos econômicos e a aplicação da
teoria da aparência, cujos efeitos são de extensão da responsabilização. A teoria da
aparência se aplica quando as pessoas jurídicas se apresentam a terceiros como se
uma só fossem, de modo a causar legítima dúvida, a justificar que a
responsabilidade de uma alcance as demais, de forma extensiva.
Essa imprecisão pode ser verificada, por exemplo, no julgamento do Recurso
Especial nº 1404366/RS, do ano de 2014, no qual o Superior Tribunal de Justiça,

18
Trecho de ementa: “De acordo com a teoria maior, adotada pelo ordenamento civil (art. 50), a
desconsideração da personalidade jurídica em desfavor do patrimônio dos sócios ou das sociedades
empresárias participantes do mesmo grupo econômico somente se mostra possível quando
vislumbrada a confusão patrimonial entre sócios e a empresa devedora ou entre estas e outras
conglomeradas; senão, quando a pessoa jurídica, mediante atos abusivos, se desvirtuar de suas
finalidades.”
Trecho do inteiro teor: “(...) Tais empresas possuem similitude quanto às suas atividades sociais,
relacionadas à construção de edifícios e à locação, incorporação e compra e venda de imóveis, além
da gestão e administração de propriedade imobiliária, tratando-se, ao que tudo indica, de empresas
pertencentes ao mesmo grupo econômico imobiliário, que exercem suas atividades sob unidade
gerencial. Verifica-se, a propósito, que o Sr. Nelson Batista Torres Galvão foi dotado de procuração
para gerir, administrar ou praticar atos, sozinho ou em conjunto, relativamente às seguintes pessoas
jurídicas: Comissária Galvão S/A, Galvão Administradora de Bens Ltda, Galvão Vendas de Imóveis
Ltda, Centro Século XXI S/A e Mercantil de Imóveis Ltda; sendo ademais investido em funções de
administração ou gerência na Comissária Galvão S/A, na Ródano Participações S/A e na Mercantil de
Imóveis Ltda. (...) No particular, como visto, há em relação à maioria das pessoas jurídicas
referenciadas, identidade de sócios, administrador, endereço e até mesmo de objetivos sociais, sem
contar a incorporação de uma das empresas coligadas por outra, estando configurada a confusão
entre os sujeitos de responsabilidade.” (TJ-PR - Agravo de Instrumento nº 906.667-7, Relator Lauri
Caetano da Silva, DJe: 5.12.2012)
apesar de afirmar que a desconsideração da personalidade jurídica não poderia
ocorrer com base na simples existência de grupo econômico, relaciona a aplicação
do instituto à teoria da aparência, como se fossem conceitos estritamente
relacionados.19
O que se entende, portanto, é que a inserção do parágrafo quarto fez bem em
consolidar o entendimento jurisprudencial quanto ao fato de a mera existência de
grupo econômico não ensejar a desconsideração da personalidade jurídica. Todavia,
como não houve maior profundidade da disposição quanto aos mencionados
aspectos controvertidos, não se espera que a orientação jurisprudencial seja
alterada significativamente a esse respeito.
Assim, ainda se faz necessário muito cuidado para que, na análise casuística
dos grupos econômicos, principalmente os de fato, não se considere que as suas
características já seriam suficientes a configurar a confusão patrimonial ou, ainda,
ensejar automaticamente a aplicação da teoria da aparência. Caso contrário, restará
esvaziada a previsão do parágrafo quarto.

8. Inserção do §5º do artigo 50 do Código Civil.

Na mesma linha do parágrafo quarto, o parágrafo quinto foi inserido ao artigo


50 do Código Civil com o intuito de esclarecer que uma hipótese específica, sobre a
qual pairavam dúvidas, não é capaz de caracterizar abuso da personalidade jurídica.
Nesse caso, restou definido que a mera alteração da finalidade original da atividade
econômica da pessoa jurídica não constitui desvio de sua finalidade:
“CC, Art. 50 § 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a
alteração da finalidade original da atividade econômica específica da pessoa
jurídica.”

19
Trecho da ementa: “2. As sociedades empresárias, ainda que integrantes de um mesmo grupo
econômico, quando não figurem como parte no título executivo extrajudicial, não estão legitimadas a
integrar o polo passivo da execução. 3. Tratando-se de sociedades distintas, com razões sociais,
objetos e patrimônios próprios, o simples fato de pertencerem ao mesmo grupo de empresas não as
torna solidárias nas respectivas obrigações, sendo descabida a aplicação da teoria da aparência
para, com isso, ampliar-se a legitimação no polo passivo de ação executiva. 4. Cada pessoa jurídica
tem personalidade e patrimônio próprios, distintos, justamente para assegurar-se a autonomia das
relações e atividades de cada sociedade empresária, ainda que integrantes de um mesmo grupo
econômico. Do contrário, a legislação faria a equivalência aplicada equivocadamente no v. acórdão
recorrido ou até vedaria a formação de grupos econômicos pela inutilidade da medida. Somente em
casos excepcionais essas distinções podem ser superadas, motivadamente (Código Civil, art. 50). 5.
Recurso especial conhecido e provido.” (STJ - REsp nº 1404366/RS; Relator: Min. Raul Araújo;
Quarta Turma; Data de Julgamento 23.10.2014( (g.m.)
Assim, se anteriormente houve decisões judiciais que permitiram a
desconsideração da personalidade jurídica apenas em razão da alteração do objeto
social da sociedade, o referido parágrafo trouxe uma restrição benéfica, ao pontuar
que esta alteração, sozinha, não tem o condão de configurar um desvio de
finalidade, apto a ensejar a aplicação de tal medida excepcional.
O doutrinador José Roberto de Castro Neves, todavia, aponta para a
necessidade de uma interpretação cuidadosa a esse respeito, à medida que a
alteração da finalidade da pessoa jurídica que modificar substancialmente o risco da
atividade não será uma “mera alteração”, pois terá desdobramentos sobre os
credores sociais anteriores.
Dessa maneira, segundo o referido doutrinador, o ideal seria aplicar a regra
literal do parágrafo quinto somente para as alterações que não modificassem
sobremaneira o risco da atividade, mas admitindo-se a possibilidade de
desconsideração com esse fundamento, quando houvesse aumento do risco
empresarial, que subvertesse as legítimas expectativas dos credores.20
Ilustrando esse argumento, se uma pessoa realizar investimentos em uma
sociedade cujo objeto social é a exploração de uma rede hoteleira mas, em
momento seguinte, esse objeto for radicalmente alterado para o ramo de floricultura,
Castro Neves afirma que seria justo que o investidor, se prejudicado, pudesse pedir
a desconsideração da personalidade jurídica, uma vez que foram assumidos riscos
totalmente diferentes daqueles com os quais ele havia concordado.
Esse parece um entendimento razoável, mas que também poderia conferir
uma margem indesejada à interpretação jurisprudencial, posto que os magistrados
poderiam livremente definir, sem quaisquer parâmetros legais objetivos, em quais
hipóteses teria havido, ou não, o efetivo aumento do risco empresarial da atividade,
em prejuízo aos credores.
De toda forma, a jurisprudência tem se utilizado corretamente da restrição
trazida pela inserção do parágrafo quinto ao artigo 50 do Código Civil, como se pode
observar do recente acórdão do Agravo de Instrumento nº 2164780-
59.2019.8.26.0000, no qual a 12ª Câmara de Direito Privado esclarece que a
simples alteração da atividade econômica não dá ensejo à desconsideração da

20
NEVES, José Roberto de Castro, A Desconsideração da Personalidade Jurídica - O Avesso do
Avesso. In: Lei da Liberdade Econômica e seus impactos no Direito brasileiro/Luis Felipe Salomão,
Ricardo Villas Bôas Cueva, Ana Frazão, coordenação., 1ª ed., São Paulo: Thomson Reuters Brasil,
2020, p. 461-462.
personalidade jurídica, principalmente no caso em questão, em que tal alteração não
causou nenhum impacto para a cobrança pretendida pelo credor. 21

9. Considerações finais.

A alteração do caput e a inserção dos parágrafos no artigo 50 do Código Civil,


pelo artigo 7º da Lei da Liberdade Econômica, foram bastante importantes para
esclarecer pontos de dúvida em aberto e para positivar posicionamentos
jurisprudenciais que já eram majoritários há muito tempo.
Nesse sentido, em consonância aos objetivos principais da Lei da Liberdade
Econômica, foram restringidas as hipóteses que permitem a desconsideração da
personalidade jurídica, em prol da autonomia patrimonial, e de forma a garantir
maior segurança jurídica às relações econômicas.
Acredita-se que, assim, serão (ao menos parcialmente) alcançados os
objetivos socioeconômicos da Lei da Liberdade Econômica, no sentido de criar-se
um cenário de maior liberdade e segurança, que incentive a atividade das pessoas
jurídicas e a realização de investimentos nacionais e internacionais na economia
brasileira.
Faz-se, contudo, a ressalva de que existem algumas pontas soltas, como: (i)
a indefinição dos casos de confusão patrimonial, decorrente da previsão genérica do
inciso III do parágrafo segundo; (ii) a ausência de maiores esclarecimentos quanto
às diferenças entre a caracterização de grupos econômicos e de efetiva confusão
patrimonial; e (iii) a não unificação dos requisitos da desconsideração da
21
“Ação monitória em fase de cumprimento de sentença. Pretensão de desconsideração da
personalidade jurídica da sociedade empresária devedora. Acolhimento do incidente. Reforma.
Ausência de elementos que demonstrem a utilização da pessoa jurídica como instrumento para a
realização de atos fraudulentos. No caso concreto, o pedido de desconsideração da personalidade
jurídica está lastreado na falta de localização de bens da sociedade coexecutada e na alteração do
seu objeto social, sem que antes a mesma tenha liquidado todas suas dívidas anteriores à referida
modificação. Ocorre que a mera ausência de bens passíveis de penhora não constitui motivo
suficiente para a desconsideração da personalidade jurídica. E não foi produzido nem um mínimo de
prova da suposta confusão patrimonial; nem, tampouco, de comportamento fraudulento dos
executados. Por outro lado, compete anotar que a mera alteração do objeto social da empresa
também não caracteriza desvio de sua finalidade, consistente na utilização da pessoa jurídica para
fins espúrios, como em casos de blindagem patrimonial de sócios, cabendo acrescentar que, no caso
concreto, a referida alteração não ocasionou nenhum impacto ao prosseguimento da cobrança do
título judicial e, tampouco, consistiu em qualquer causa modificativa ou extintiva do débito nele
estampado. Assim, sem a comprovação de que tais alterações foram feitas para permitir a prática de
atos ilícitos, não há que se falar, no presente caso, em desvio de finalidade, ainda que tal providência
tenha sido realizada sem o adimplemento das dívidas assumidas anteriormente ao referido ato.
Agravo provido.” (TJ-SP - AI: 2164780-59.2019.8.26.0000, Relator: Sandra Galhardo Esteves, 12ª
Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 24.10.2019) (g.m.).
personalidade jurídica para todos os sistemas, posto que as relações consumeristas,
trabalhistas e tributárias ainda permitem a aplicação do instituto mediante requisitos
muito mais simplificados.
Tais pontas soltas são capazes de criar insegurança quanto aos parâmetros
para a aplicação da desconsideração da personalidade jurídica, mas essa
insegurança é certamente reduzida em comparação àquela existente quando da
redação original do artigo 50 do Código Civil.
Em outras palavras, mesmo que permaneçam algumas brechas legislativas, o
contexto geral das alterações promovidas pelo artigo 7º da Lei da Liberdade
Econômica parece ter alcançado resultados muito benéficos para alterações que
eram necessárias no âmbito das relações econômicas.

10. Referências.

BLOK, Marcella. Desconsideração da personalidade jurídica: uma visão


contemporânea. Revista dos Tribunais. Vol. 59/2013.
COELHO, Fábio Ulhoa. Desconsideração da personalidade jurídica. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 1989.
FRAZÃO, Ana. Lei da Liberdade Econômica e seus Impactos sobre a
Desconsideração da Personalidade Jurídica. In: Lei da Liberdade Econômica e seus
impactos no Direito brasileiro/Luis Felipe Salomão, Ricardo Villas Bôas Cueva, Ana
Frazão, coordenação., 1ª ed., São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2020.
GAMA, Guilherme Calmon Nogueira da (Coord.). Desconsideração da
personalidade jurídica. Visão crítica da jurisprudência. São Paulo: Atlas, 2009.
NEVES, José Roberto de Castro, A Desconsideração da Personalidade
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Direito brasileiro/Luis Felipe Salomão, Ricardo Villas Bôas Cueva, Ana Frazão,
coordenação., 1ª ed., São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2020.
SALOMÃO FILHO, Calixto. A Teoria da Desconsideração da Personalidade
Jurídica, in: O Novo Direito Societário - Eficácia e Sustentabilidade. São Paulo:
Malheiros, 2011
ALVES, Alexandre Ferreira de Assumpção. A pessoa jurídica e os direitos de
personalidade. Rio de Janeiro: Renovar, 1998.
BRUSCHI, Gilberto Gomes. Aspectos processuais da desconsideração da
personalidade jurídica. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2004.
GAMA, Guilherme Calmon Nogueira. Incidente de desconsideração da
personalidade jurídica. São Paulo: Revista de Processo, ano 41, vol. 262, dezembro
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OLIVEIRA, José Lamartine Correia de. A dupla crise da pessoa jurídica. São
Paulo: Saraiva. 1979.
REQUIÃO, Rubens. Abuso e fraude através da personalidade jurídica. In:
Revista dos Tribunais. São Paulo: RT, dez./1969, vol. 410.
ROCHA, Edvaldo Pereira. A nova redação do artigo 50 do Código Civil, que
trata da Desconsideração da Personalidade Jurídica. Disponível em:
[Link]
trata-da-desconsideracao-da-personalidade-juridica
SILVA, Alexandre Couto. Aplicação da desconsideração da personalidade
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