TEMA: Conceito e Espécies de Ação Penal
1. Conceitos Fundamentais e Evolução Histórica
● Conceito Fundamental de Ação Penal: A ação penal é o direito (e, em alguns casos, o
dever) de provocar o Estado-Juiz para que aplique o direito penal objetivo a um caso
concreto, ou seja, para que se inicie a persecução penal em juízo visando à apuração de
um crime e à eventual punição do responsável. Trata-se do instrumento pelo qual se deduz
em juízo uma pretensão punitiva. É o direito público subjetivo de pedir ao Estado a
prestação jurisdicional em matéria criminal.
2. Espécies de Ação Penal: Tratamento Legal, Titularidade e Necessidade de Representação
A legislação fundamental que trata do tema é o Código de Processo Penal (CPP), especialmente
nos artigos 24 a 62, e o Código Penal (CP), que indica em cada tipo penal qual a espécie de ação
penal correspondente (geralmente no último parágrafo do artigo do crime ou em disposições
gerais). A Constituição Federal, em seu art. 129, I, é o pilar da titularidade da ação penal pública.
● A. Ação Penal Pública: É aquela cujo titular é o Ministério Público (MP). O MP tem o
dever de promovê-la quando houver elementos que indiquem a prática de um crime e sua
autoria.
○ A.1. Ação Penal Pública Incondicionada:
■ Conceito: É a regra no sistema processual penal brasileiro. O Ministério
Público deve promover a ação penal independentemente de qualquer
manifestação de vontade da vítima ou de qualquer outra pessoa. Basta a
existência de prova da materialidade do crime e indícios suficientes de
autoria.
■ Titularidade: Exclusiva do Ministério Público (Art. 129, I, CF/88 e Art. 24,
CPP).
■ Necessidade de Representação: Nenhuma. A atuação do MP é
obrigatória (princípio da obrigatoriedade ou legalidade).
■ Exemplos: Homicídio (Art. 121, CP), Roubo (Art. 157, CP), Tráfico de
Drogas (Lei 11.343/06). O Código Penal, ao descrever o crime, se silenciar
sobre a espécie de ação, ela será pública incondicionada.
○ A.2. Ação Penal Pública Condicionada à Representação:
■ Conceito: Embora a titularidade continue sendo do Ministério Público, a sua
atuação para iniciar a ação penal depende de uma condição de
procedibilidade específica: a representação do ofendido ou de seu
representante legal. A representação é uma manifestação de vontade da
vítima no sentido de autorizar o MP a processar o autor do fato. Sem ela, o
MP não pode agir, mesmo que haja justa causa.
■ Titularidade: Ministério Público.
■ Necessidade de Representação: Sim, do ofendido ou de quem legalmente
o represente (ex: pais, tutor, curador). A ausência de representação acarreta
a impossibilidade de o MP oferecer a denúncia e, caso oferecida, leva à
rejeição da peça acusatória ou à declaração de nulidade do processo por
falta de condição de procedibilidade.
■ Prazo para Representação: O direito de representação deverá ser
exercido, salvo disposição em contrário, no prazo decadencial de 6 (seis)
meses, contado do dia em que se soube quem é o autor do crime (Art. 38,
CPP).
■ Retratação da Representação: A representação será irretratável depois de
oferecida a denúncia (Art. 25, CPP, e Art. 102, CP). Antes disso, a vítima
pode se retratar.
■ Exemplos: Ameaça (Art. 147, parágrafo único, CP), Perigo de Contágio
Venéreo (Art. 130, §2º, CP), Lesão Corporal Leve e Lesão Culposa (Art. 88
da Lei 9.099/95, salvo exceções da Lei Maria da Penha). Crimes contra a
dignidade sexual, em regra, são de ação penal pública condicionada à
representação (Art. 225, CP, com redação dada pela Lei 13.718/2018), salvo
exceções como vítima menor de 18 anos ou vulnerável, casos em que a
ação será pública incondicionada.
○ A.3. Ação Penal Pública Condicionada à Requisição do Ministro da Justiça:
■ Conceito: Modalidade mais rara, onde a atuação do MP também depende
de uma condição de procedibilidade, que é a requisição do Ministro da
Justiça.
■ Titularidade: Ministério Público.
■ Necessidade de Requisição: Sim, do Ministro da Justiça.
■ Exemplos: Crimes cometidos por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil
(Art. 7º, §3º, "b", CP), crimes contra a honra cometidos contra Presidente da
República ou chefe de governo estrangeiro (Art. 145, parágrafo único, CP).
● B. Ação Penal Privada:
○ Conceito: É aquela em que o Estado transfere a legitimidade para iniciar o
processo penal ao particular (o ofendido ou seu representante legal). Ocorre em
crimes que atingem de forma mais direta a esfera íntima da vítima, e o legislador
entende que cabe a ela decidir sobre a conveniência de levar o caso a juízo. A
peça inicial é a queixa-crime.
○ Titularidade: Do ofendido (querelante) ou de seu representante legal (cônjuge,
ascendente, descendente ou irmão - CADI, conforme Art. 31, CPP, em caso de
morte ou ausência do ofendido).
○ Necessidade de Representação (no sentido técnico): Não se fala em
"representação" como na ação pública condicionada, mas sim na própria iniciativa
do particular em promover a ação mediante queixa-crime.
○ Espécies de Ação Penal Privada:
■ Ação Penal Exclusivamente Privada (ou propriamente dita): A
titularidade é unicamente do ofendido. O MP atua como fiscal da lei . Ex:
Crimes contra a honra – Calúnia, Difamação, Injúria (Art. 145, caput, CP),
Dano Simples (Art. 163, caput, CP, se não houver as qualificadoras do §
único que o tornam de ação pública).
■ Ação Penal Privada Personalíssima: A titularidade é exclusivíssima do
ofendido, não se transmitindo a seus sucessores em caso de morte ou
ausência. O único exemplo no CP é o crime de induzimento a erro essencial
ou ocultação de impedimento para o casamento (Art. 236, CP).
■ Ação Penal Privada Subsidiária da Pública: Prevista no Art. 5º, LIX,
CF/88 e Art. 29, CPP. Ocorre quando o Ministério Público, titular da ação
penal pública (incondicionada ou condicionada, uma vez satisfeita a
condição), não oferece a denúncia no prazo legal (inércia do MP). Nesse
caso, o ofendido pode intentar a ação penal privada, substituindo o MP. O
MP pode, a qualquer tempo, retomar a titularidade da ação como parte
principal (aditando a queixa, repudiando-a e oferecendo denúncia
substitutiva, intervindo em todos os termos do processo, fornecendo
elementos de prova, interpondo recurso).
● Prazos para Oferecimento da Denúncia ou Queixa:
○ Denúncia (Ação Penal Pública):
■ Réu Preso: 5 (cinco) dias, contados da data em que o órgão do Ministério
Público receber os autos do inquérito policial (Art. 46, CPP).
■ Réu Solto ou Afiançado: 15 (quinze) dias, contados da data em que o
órgão do Ministério Público receber os autos do inquérito policial (Art. 46,
CPP).
■ Se o MP dispensar o inquérito (com base em peças de informação), o prazo
conta-se da data em que receber tais peças.
■ Esses prazos podem ser diferentes em legislações especiais (ex: Lei de
Drogas – 10 dias para réu preso ou solto).
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○ Queixa-Crime (Ação Penal Privada):
■ O ofendido ou seu representante legal decairá do direito de queixa (ou de
representação) se não o exercer dentro do prazo de 6 (seis) meses,
contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso da
ação penal privada subsidiária da pública, do dia em que se esgota o prazo
para o oferecimento da denúncia pelo MP (Art. 38, CPP e Art. 103, CP).
Este é um prazo decadencial.
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3. Princípios que Regem a Ação Penal
● Princípios da Ação Penal Pública:
○ Princípio da Obrigatoriedade (ou Legalidade): O Ministério Público é obrigado a
oferecer a denúncia sempre que houver elementos suficientes de autoria e
materialidade (justa causa) para crimes de ação penal pública (incondicionada ou
condicionada, cumprida a condição). Não há discricionariedade quanto à
propositura da ação.
■ Mitigação: Este princípio é mitigado por institutos como a transação penal
(Art. 76, Lei 9.099/95), a suspensão condicional do processo (Art. 89, Lei
9.099/95) e, mais recentemente, o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP
- Art. 28-A, CPP, introduzido pela Lei 13.964/2019 – "Pacote Anticrime"),
que permitem ao MP, sob certas condições, deixar de oferecer a denúncia.
○ Princípio da Indisponibilidade: Uma vez iniciada a ação penal pública pelo MP,
este não pode desistir dela nem do recurso que houver interposto (Art. 42 e 576,
CPP). O processo deve seguir até uma decisão final.
○ Princípio da Oficialidade: A ação penal pública é exercida por um órgão oficial do
Estado, o Ministério Público.
○ Princípio da Divisibilidade (ou Indivisibilidade Mitigada): Na ação penal pública,
o MP pode oferecer denúncia contra alguns dos investigados e pedir o
arquivamento em relação a outros, ou prosseguir com investigações se não houver
elementos suficientes contra todos de imediato. Contudo, se houver elementos
contra todos, deve denunciar todos (em respeito à obrigatoriedade). A
indivisibilidade é mais estrita na ação penal privada.
○ Princípio da Intranscendência (ou Pessoalidade): A ação penal e a eventual
sanção não podem passar da pessoa do delinquente.
● Princípios da Ação Penal Privada:
○ Princípio da Oportunidade (ou Conveniência): O ofendido tem a faculdade de
decidir se propõe ou não a ação penal. Ele avalia a conveniência e a oportunidade
de levar o caso a juízo, mesmo que haja justa causa.
○ Princípio da Disponibilidade: O querelante (ofendido) pode dispor da ação penal
a qualquer momento, através do perdão do ofendido (aceito pelo querelado), da
perempção ou da renúncia ao direito de queixa.
○ Princípio da Indivisibilidade: A queixa contra qualquer dos autores do crime
obrigará ao processo de todos, e o Ministério Público velará pela sua
indivisibilidade (Art. 48, CPP). Se o querelante processar apenas um dos
coautores, entende-se que renunciou tacitamente ao direito de processar os
demais, e essa renúncia se estende a todos (Art. 49, CPP).
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○ Princípio da Intranscendência (ou Pessoalidade): Aplica-se aqui também.
4. Principais Entendimentos Doutrinários
● Guilherme de Souza Nucci: Um dos mais prolíficos autores de Direito Penal e Processual
Penal, Nucci aborda extensamente as espécies de ação penal, os prazos e os princípios
em seus manuais e códigos comentados. Enfatiza a importância do MP como titular da
ação pública e analisa as mitigações ao princípio da obrigatoriedade.
● Aury Lopes Jr.: Com uma visão mais crítica e garantista, discute a fundo a estrutura
acusatória do processo penal e o papel das partes, incluindo a vítima e o MP. Analisa os
impactos dos novos institutos (como o ANPP) nos princípios tradicionais.
● Eugênio Pacelli de Oliveira: Trata com profundidade das condições da ação penal, da
legitimidade e dos princípios, oferecendo uma análise equilibrada entre eficiência e
garantias.
● Fernando Capez: Didático, explora as diferenças entre as espécies de ação penal e os
requisitos para o seu exercício, sendo uma referência comum em concursos.
● Renato Brasileiro de Lima: Em seu manual de processo penal, oferece um panorama
completo e atualizado sobre o tema, incorporando as mais recentes alterações legislativas
e jurisprudenciais.
Divergências Doutrinárias Comuns:
● Natureza Jurídica da Representação: Se é mera condição de procedibilidade ou se
integra a tipicidade em alguns casos.
● Alcance da Mitigação do Princípio da Obrigatoriedade: O quanto institutos como o
ANPP de fato transformam a ação penal pública em um sistema mais regido pela
oportunidade.
● Intervenção do Assistente de Acusação na Ação Penal Privada Subsidiária da
Pública: Se o ofendido, ao propor a ação subsidiária, pode habilitar assistente.
5. Jurisprudência Dominante ou Controvérsia Jurisprudencial
● Titularidade da Ação Penal Pública (STF e STJ): Jurisprudência pacífica quanto à
titularidade exclusiva do Ministério Público (Art. 129, I, CF/88).
● Prazo Decadencial para Representação e Queixa (STJ): O prazo de 6 meses é
decadencial e contado a partir do conhecimento da autoria do crime. Não se suspende
nem se interrompe. A contagem inclui o dia do começo (interpretação do Art. 10, CP).
● Retratação da Representação (STJ): Consolidado que a retratação só é válida se feita
antes do oferecimento da denúncia. Em casos de violência doméstica (Lei Maria da
Penha), a retratação da representação só pode ocorrer em audiência especialmente
designada para tal fim, perante o juiz e ouvido o MP (Art. 16, Lei 11.340/06).
● Ação Penal nos Crimes contra a Dignidade Sexual (STF e STJ): Após a Lei
13.718/2018, a regra é a ação penal pública condicionada à representação. Se a vítima for
menor de 18 anos ou vulnerável, a ação é pública incondicionada. O STF (ADPF 291 e
ADC 12) já havia firmado entendimento sobre a natureza pública incondicionada da ação
penal em crimes de lesão corporal leve cometidos no âmbito da violência doméstica,
afastando a aplicação da Lei 9.099/95.
● Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) (STJ): Há diversas discussões sobre a
natureza jurídica do acordo, a possibilidade de sua aplicação a fatos anteriores à Lei
13.964/2019 (tese da retroatividade da lei penal mais benéfica), e os requisitos para sua
homologação. O STJ tem se posicionado no sentido de que o ANPP é um direito subjetivo
do investigado se preenchidos os requisitos legais, cabendo ao MP fundamentar a recusa.
● Indivisibilidade na Ação Penal Privada (STJ): A não inclusão de um coautor na
queixa-crime, quando conhecida a sua participação, implica renúncia tácita ao direito de
processá-lo, que se estende aos demais.
● Inércia do MP e Ação Penal Privada Subsidiária da Pública (STJ): Para caracterizar a
inércia do MP que autoriza a ação subsidiária, não basta o mero decurso do prazo legal
para o oferecimento da denúncia. É preciso que haja uma omissão qualificada, ou seja,
uma inércia injustificada e constatada. O pedido de arquivamento pelo MP, mesmo que não
acolhido pelo juiz, não configura inércia para fins de ação subsidiária.
6. Análise Crítica: Lacunas, Divergências e Perspectivas Atuais ou Tendências
● Lacunas:
○ Vitimologia e Protagonismo da Vítima: Apesar dos avanços, o sistema
processual penal ainda é criticado por dar pouco espaço e voz à vítima,
especialmente em crimes de ação penal pública incondicionada. A representação e
a ação privada são exceções.
○ Critérios para Definição da Espécie de Ação: Os critérios utilizados pelo
legislador para definir se um crime é de ação pública ou privada, ou se exige
representação, nem sempre são claros ou consistentes, parecendo, por vezes,
mais fruto de política criminal momentânea do que de uma lógica sistemática.
● Divergências:
○ O "Fim" do Princípio da Obrigatoriedade: A expansão dos espaços de consenso
no processo penal (transação, suspensão condicional, ANPP) levanta o debate se
o princípio da obrigatoriedade ainda é a regra ou se estamos caminhando para um
sistema de oportunidade temperada/controlada para a ação penal pública.
○ Justiça Negocial vs. Devido Processo Legal: A expansão da justiça negociada
(ANPP, colaboração premiada) gera tensões com o modelo tradicional de devido
processo legal, especialmente no que tange a garantias e ao papel do juiz.
○ Legitimidade do MP para celebrar acordos que limitam a pretensão punitiva:
Qual o grau de discricionariedade do MP nesses casos.
● Perspectivas Atuais ou Tendências:
○ Expansão da Justiça Penal Consensual: A tendência é de ampliação dos
mecanismos de negociação e acordo no processo penal, visando maior celeridade,
eficiência e a possibilidade de soluções alternativas ao encarceramento para
infrações de menor e médio potencial ofensivo.
○ Maior Participação da Vítima: Busca por mecanismos que confiram maior
protagonismo à vítima, não apenas como fonte de prova, mas com possibilidade de
influenciar os rumos do processo e obter reparação (justiça restaurativa).
○ Filtros Processuais Mais Efetivos: A necessidade de aprimorar os filtros para que
apenas casos com viabilidade probatória e relevância penal cheguem à fase de
julgamento, desafogando o sistema.
○ Revisão Crítica da Titularidade e das Condições de Procedibilidade: Debate
contínuo sobre quais crimes deveriam depender da vontade da vítima para serem
processados, buscando um equilíbrio entre o interesse público e o privado.
○ Impacto da Tecnologia: Uso de inteligência artificial na análise de casos para
auxiliar o MP na decisão de denunciar ou propor acordos, e as implicações éticas e
garantistas disso.