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Candomblé: Tipos, Hierarquia e Orixás

O documento explora as origens e características do Candomblé no Brasil, destacando suas quatro principais vertentes: Queto, Xangô, Batuque e Angola. Ele diferencia o Candomblé da Umbanda, descreve a hierarquia e os rituais de iniciação, além de apresentar os doze orixás mais cultuados e suas particularidades. O texto também aborda os rituais de sacrifício e oferenda, essenciais para a prática religiosa.

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Edson Rocha
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Candomblé: Tipos, Hierarquia e Orixás

O documento explora as origens e características do Candomblé no Brasil, destacando suas quatro principais vertentes: Queto, Xangô, Batuque e Angola. Ele diferencia o Candomblé da Umbanda, descreve a hierarquia e os rituais de iniciação, além de apresentar os doze orixás mais cultuados e suas particularidades. O texto também aborda os rituais de sacrifício e oferenda, essenciais para a prática religiosa.

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CANDOMBLÉ, DA ÁFRICA AO BRASIL.

A principal diferença entre os vários tipos de candomblé é a origem étnica.

Há quatro tipos de candomblé: o Queto, da Bahia, o Xangô, de Pernambuco, o Batuque, do Rio


Grande do Sul, e o Angola, da Bahia e São Paulo. O Queto chegou com os povos nagôs, que
falam a língua iorubá. Saídos das regiões que hoje correspondem ao Sudão, Nigéria e Benin,
eles vieram para o Nordeste. Os bantos saíram das regiões de Moçambique, Angola e Congo
para Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro e São Paulo. Criaram o culto ao caboclo,
representante das entidades da mata.

Candomblé não é umbanda, as duas são religiões afro-brasileiras. Umbanda é a mistura do


candomblé com espiritismo

Candomblé

Deuses: Orixás de origem africana. Nenhum santo é superior ou inferior a outro. Não existe o
Bem e o Mal, isoladamente.

Culto: Louvação aos orixás que “incorporam” nos fiéis, para fortalecer o axé (energia vital) que
protege o terreiro e seus membros.

Iniciação: Condição essencial para participar do culto. O recolhimento dura de sete a 21 dias. O
ritual envolve o sacrifício de animais, a oferenda de alimentos e a obediência a rígidos
preceitos.

Música: Cânticos em língua africana, acompanhados por três atabaques tocados por iniciados
do sexo masculino.

Umbanda

Deuses: As entidades são agrupadas em hierarquia, que vai dos espíritos mais “baixos” (maus)
aos mais “evoluídos” (bons).

Culto: Desenvolvimento espiritual dos médiuns que, quando “incorporam”, dão passes e
consultas.

Iniciação: Não é necessária. O recolhimento é de apenas um ou dois dias. O sacrifício de


animais não é obrigatório. O batismo é feito com água do mar ou de cachoeira.

Música: Cânticos em português, acompanhados por palmas e atabaques, tocados por fiéis de
qualquer sexo.

Quem é quem (e quem faz o quê) na hierarquia de uma casa-de-santo

Cada iniciado tem uma função dentro do terreiro. Nem todos “recebem” santo.
Abiã

Noviço, primeiro degrau da hierarquia. Após iniciado, será filho-de-santo.

Iaô

Filho-de-santo, segundo degrau na hierarquia. Podem ou não “receber” santo.

Ebômi

Terceiro degrau. Iaô que cumpriu as obrigações de sete anos. “Recebe” santo.

Iabassê

Quarto degrau. Não “recebe”. É a responsável pela cozinha do terreiro.

Agibonã

Mãe criadeira. Também quarto degrau. Cuida dos iaôs durante o ritual de iniciação. Não
“recebe” santo.

Ialaxé

Quinto degrau. Zela pelas oferendas e objetos de culto aos orixás. Não “recebe” santo.

Baba-quequerê e Iaquequerê

Sexto degrau. Pai ou mãe-pequena. “Recebe”. Ajuda o pai ou mãe-de-santo no comando do


terreiro.

Baba-lorixá e Ialorixá

Pai ou mãe-de-santo, chefe do terreiro, último degrau da hierarquia. “Recebe” santo e joga
búzios.

Ajudantes sagrados

Pais e mães “terrenos” dos orixás ficam fora da hierarquia.

Ogã

Filho-de-santo que não “recebe”. O Ogã pode ser Axogum ou Alabê, conforme sua tarefa.

Axogum

Ogã responsável pelo sacrifício de animais a serem ofertados aos orixás. Não “recebe” santo.

Alabê

Ogã tocador dos atabaques e instrumentos rituais. Não “recebe” santo.


Equede

Paralela ao Ogã. Não “recebe”. Cuida dos orixás “incorporados” e de seus objetos.

As diversas fases da iniciação

Primeiro, o santo indica a pessoa a ser iniciada.

Depois, é preciso cumprir outros três passos:

Bolar no santo

É o mesmo que cair no santo. Este é o sinal que indica a necessidade de iniciação de uma
pessoa no candomblé. Acontece sem previsão, normalmente numa festa: durante a dança e os
cânticos o orixá se “manifesta” no futuro filho-de-santo, que é agitado por tremores e
sobressaltos violentos. Quem já “bolou” conta que sentiu arrepios, calor, fraqueza e sensação
de desmaio. Quando acorda no roncó (o quarto do terreiro reservado à pessoa que “bolou”), o
abiã não consegue se lembrar de nada do que aconteceu.

O bori

É a cerimônia que reforça a ligação entre o orixá e o iniciado. O abiã se senta numa esteira,
rodeado de alimentos secos, aves, velas e objetos de seu orixá. Ajudado pelos filhos já feitos, o
pai ou a mãe-de-santo sacrifica aves. O sangue é usado para marcar o corpo do noviço e para
banhar as oferendas ao orixá.

A cerimônia só termina quando as aves são servidas aos membros da família-de-santo. Depois
do bori, o futuro filho-de-santo passa a assistir às cerimônias e a preparar o enxoval (a roupa e
os adereços de seu orixá) para terminar a iniciação, com as saídas de iaô.

Orô

Confinado ao quarto de recolhimento (roncó), por 21 dias, o noviço conhece a hierarquia da


casa, os preceitos, as orações, os cânticos, a dança de seu orixá, os mitos e suas obrigações.
Durante esse tempo ele toma infusões de ervas, que o deixam num estado de entorpecimento
e “abrem espaço” na sua mente para o orixá. A cabeça é raspada e o crânio marcado com
navalha: é por esses cortes que o orixá vai “entrar”, quando for “incorporado”. No final, o
iniciado é “batizado” com sangue de um animal quadrúpede, sacrificado.

Os iaôs são apresentados à comunidade, como num baile de debutante


Na primeira saída, os iaôs vestem branco em homenagem a Oxalá, pai de todos. Saúdam o pai-
de-santo, os atabaques e os pontos principais do barracão e vão-se embora. Na segunda saída,
os iaôs voltam com roupas coloridas e a cabeça pintada, segundo seus orixás. Dançam e
deixam o barracão, em seguida.

Na terceira saída, os orixás anunciam oficialmente seus nomes. Os iaôs entram em transe e se
retiram para vestir as roupas do santo “incorporado”.

Os doze orixás mais cultuados no Brasil

Cada um deles tem o seu símbolo, o seu dia da semana, suas vestimentas e cores próprias.
Como os homens, são temperamentais.

Exu

Orixá mensageiro entre os homens e os deuses, guardião da porta da rua e das encruzilhadas.
Só através dele é possível invocar os orixás. Elemento: fogo

Personalidade: atrevido e agressivo

Símbolo: ogó (um bastão adornado com cabaças e búzios)

Dia da semana: segunda-feira

Colar: vermelho e preto

Roupa: vermelha e preta

Sacrifício: bode e galo preto

Oferendas: farofa com dendê, feijão, inhame, água,mel e aguardente

Ogum

Deus da guerra, do fogo e da tecnologia. No Brasil é conhecido como deus guerreiro. Sabe
trabalhar com metal e, sem sua proteção, o trabalho não pode ser proveitoso.

Elemento: ferro

Símbolo: espada

Personalidade: impaciente e obstinado

Dia da semana: terça-feira

Colar: azul-marinho
Roupa: azul, verde escuro, vermelho ou amarelo

Sacrifício: galo e bode avermelhados

Oferendas: feijoada, xinxim, inhame

Oxóssi

Deus da caça. É o grande patrono do candomblé brasileiro.

Elemento: florestas Personalidade: intuitivo e emotivo

Símbolo: rabo de cavalo e chifre de boi

Dia da semana: quinta-feira

Colar: azul claro

Roupa: azul ou verde claro

Sacrifício: galo e bode avermelhados e porco

Oferendas: milho branco e amarelo, peixe de escamas, arroz, feijão e abóbora

Obaluaiê

Deus da peste, das doenças da pele e, atualmente, da AIDS. É o médico dos pobres.

Elemento: terra

Personalidade: tímido e vingativo

Símbolo: xaxará (feixe de palha e búzios)

Dia da semana: segunda-feira

Colar: preto e vermelho, ou vermelho, branco e preto

Roupa: vermelha e preta, coberta por palha

Sacrifício: galo, pato,bode e porco

Oferendas: pipoca, feijão preto, farofa e milho, com muito dendê

Oxum
Deusa das águas doces (rios, fontes e lagos). É também deusa do ouro, da fecundidade, do
jogo de búzios e do amor.

Elemento: água

Personalidade: maternal e tranqüila

Símbolo: abebê (leque espelhado)

Dia da semana: sábado

Colar: amarelo ouro

Roupa: amarelo ouro

Sacrifício: cabra, galinha, pomba

Oferendas: milho branco, xinxim de galinha, ovos, peixes de água doce

Iansã

Deusa dos ventos e das tempestades. É a senhora dos raios e dona da alma dos mortos.

Elemento: fogo

Personalidade: impulsiva e imprevisível

Símbolo: espada e rabo de cavalo (representando a realeza)

Dia da semana: quarta-feira

Colar: vermelho ou marrom escuro

Roupa: vermelha

Sacrifício: cabra e galinha

Oferendas: milho branco, arroz, feijão e acarajé

Ossaim

Deus das folhas e ervas medicinais. Conhece seus usos e as palavras mágicas (ofós) que
despertam seus poderes.

Elemento: matas
Personalidade: instável e emotivo

Símbolo: lança com pássaros na forma de leque e feixe de folhas

Dia da semana: quinta-feira

Colar: branco rajado de verde

Roupa: branco e verde claro

Sacrifício: galo e carneiro

Oferendas: feijão, arroz, milho vermelho e farofa de dendê

Nanã

Deusa da lama e do fundo dos rios, associada à fertilidade, à doença e à morte. É a orixá mais
velha de todos e, por isso, muito respeitada.

Elemento: terra

Personalidade: vingativa e mascarada

Símbolo: ibiri (cetro de palha e búzios)

Dia da semana: sábado

Colar: branco, azul e vermelho

Roupa: branca e azul

Sacrifício: cabra e galinha

Oferendas: milho branco, arroz, feijão, mel e dendê

Oxumaré

Deus da chuva e do arco-íris. É, ao mesmo tempo, de natureza masculina e feminina.


Transporta a água entre o céu e a terra.

Elemento: água

Personalidade: sensível e tranqüilo

Símbolo: cobra de metal


Dia da semana: quinta-feira

Colar: amarelo e verde

Roupa: azul claro e verde claro

Sacrifício: bode, galo e tatu

Oferendas: milho branco, acarajé, coco, mel, inhame e feijão com ovos

Iemanjá

Considerada deusa dos mares e oceanos. É a mãe de todos os orixás e representada com seios
volumosos, simbolizando a maternidade e a fecundidade.

Elemento: água

Personalidade: maternal e tranqüila

Símbolo: leque e espada

Dia da semana: sábado

Colar: transparente, verde ou azul claro

Roupa: branco e azul

Sacrifício: porco, cabra e galinha

Oferendas: peixes do mar, arroz, milho, camarão com coco

Xangô

Deus do fogo e do trovão. Diz a tradição que foi rei de Oyó, cidade da Nigéria. É viril, violento e
justiceiro. Castiga os mentirosos e protege advogados e juízes.

Elemento: fogo

Personalidade: atrevido e prepotente

Símbolo: machado duplo (oxé)

Dia da semana: quarta-feira

Colar: branco e vermelho

Roupa: branca e vermelha, com coroa de latão


Sacrifício: galo, pato, carneiro e cágado

Oferendas: amalá (quiabo com camarão seco e dendê)

Oxalá

Deus da criação. É o orixá que criou os homens. Obstinado e independente, é representado de


duas maneiras: Oxaguiã, jovem, e Oxalufã, velho.

Elemento: ar

Personalidade: equilibrado e tolerante

Símbolo: oparoxó (cajado de alumínio com adornos)

Dia da semana: sexta-feira

Colar: branco

Roupa: branca

Sacrifício: cabra, galinha, pomba, pata e caracol

Oferendas: arroz, milho branco e massa de inhame

O toque

É o mesmo que festa e se refere à batida dos atabaques, que convoca os orixás. A estrutura da
cerimônia, chamada “ordem do xirê” (brincadeira, na língua iorubá), divide a festa em três
partes. A primeira acontece à tarde, com o sacrifício, a oferenda e o padê de Exu. A segunda é
a festa em si, à noite, na presença do público, quando os filhos-de-santo “incorporam” os
orixás. E a terceira fase, o encerramento, com a roda de Oxalá, o deus criador do homem.

O sacrifício

Acontece apenas diante dos membros da comunidade de santo e envolve no mínimo dois
animais: um, de duas patas, para Exu, e outro, de quatro patas, macho ou fêmea, dependendo
do sexo do orixá a ser homenageado. Quem realiza o sacrifício é o ogã axogum, um iniciado no
candomblé especialmente preparado para isso. Os bichos são mortos com um golpe na nuca.
Depois, a cabeça e os membros são cortados fora e o animal sacrificado vai sangrar até a
última gota antes de ser destinado à oferenda.
A oferenda

Depois do sacrifício, a moela, o fígado, o coração, os pés, as asas e a cabeça são separados e
oferecidos ao orixá homenageado num vaso de barro, chamado alguidar. O sangue, recolhido
numa quartinha de cerâmica (espécie de moringa), é derramado sobre o assentamento do
santo, ou seja, o local onde ficam seus objetos e símbolos. As partes restantes são destinadas
ao jantar oferecido aos orixás, ainda à tarde, e aos participantes, ao final da festa pública, à
noite.

O padê de Exu

Este é também um ritual fechado ao público. Significa despacho de Exu. É ele quem faz a ponte
entre o mundo natural e o sobrenatural. Portanto, é ele quem convoca os orixás para a festa
dos humanos. Para isso, é preciso agradá-lo, oferecendo comida (farofa com dendê, feijão ou
inhame) e bebida (água, cachaça ou mel). As oferendas são levadas para fora do barracão e a
porta de entrada é batizada com a bebida, já que Exu é o guardião da entrada e das
encruzilhadas (por isso é comum ver oferendas em esquinas nas ruas e em encruzilhadas nas
estradas).

Trecho da matéria da revista Super Interessante.

janeiro
1995

Candomblé no Brasil: orixás, tradições, festas e costumes por Sílvia Campolim

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