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Psicologia Comunitária e Direitos Humanos

Este documento explora a interseção entre psicologia comunitária e direitos humanos, enfatizando a importância da mobilização social para promover justiça social e igualdade. Através das ideias de Martín-Baró, destaca-se a conscientização crítica e a ação coletiva como ferramentas essenciais para a transformação social e empoderamento das comunidades. O texto também aborda a relação entre direitos humanos e a luta contra opressões, ressaltando a necessidade de advocacy para influenciar políticas públicas.

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Mariana Oliveira
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Psicologia Comunitária e Direitos Humanos

Este documento explora a interseção entre psicologia comunitária e direitos humanos, enfatizando a importância da mobilização social para promover justiça social e igualdade. Através das ideias de Martín-Baró, destaca-se a conscientização crítica e a ação coletiva como ferramentas essenciais para a transformação social e empoderamento das comunidades. O texto também aborda a relação entre direitos humanos e a luta contra opressões, ressaltando a necessidade de advocacy para influenciar políticas públicas.

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PSICOLOGIA

COMUNITÁRIA
UNIDADE III
Psicologia Comunitária
e Direitos Humanos
Amaxwell Davi Barros de Souza
Psicologia Comunitária
e Direitos Humanos

Introdução
Nesta unidade, exploraremos a relação entre psicologia comunitária e direitos
humanos, destacando a importância de promover a justiça social por meio da
conscientização e ação comunitária, com base nas ideias de Martín-Baró (1996).

Entenderemos que a psicologia comunitária, ao atuar em prol da defesa dos direitos


humanos, incentiva a mobilização de indivíduos e grupos vulneráveis para lutar por
igualdade e melhores condições de vida.

Discutiremos também sobre a importância da transformação social ocorrer por meio


da participação da comunidade, promovendo mudanças estruturais que combatam
opressões e desigualdades na sociedade.

Objetivos da Aprendizagem
Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de:

• Explorar a dinâmica entre psicologia comunitária e direitos humanos.


• Fornecer meios para os sujeitos atuarem em prol da defesa dos direitos humanos.

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Psicologia e Justiça Social
O conceito de “justiça social”, ao longo das épocas, foi se transformando de acordo
com o movimento histórico da luta de classes global. Silva e Sarriera (2015) trazem
que, conforme o modelo de sociedade prevalece, a promoção da justiça social é
dificultada por diversos entraves profissionais e políticos, pois ela afeta diretamente
aqueles modelos de sociedade que protegem o status quo.

A justiça social

Fonte: Freepik (2024).


#pratodosverem: a foto mostra vários punhos cerrados
para cima, como símbolo de protesto e resistência.

Estudar tais relações e o modo como afetam o estado de bem-estar social em um


determinado contexto traz possibilidades viáveis à psicologia comunitária hodierna,
tendo em vista o império do modelo neoliberal que promove o individualismo, a
competição e uma falsa liberdade.

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Conceituando Justiça Social

Na esteira de discutir definições, podemos entender que a justiça social se relaciona


a uma equitativa distribuição de recursos, fontes externas, deveres e oportunidades
na sociedade, sendo um construto relacional. Segundo Silva e Sarriera (2015), as
relações na justiça social podem ser:

As relações na justiça social

Associação
Comunidade solidária Cidadania
instrumental

Envolve a família e as associações Surge principalmente Refere-se às relações entre


de vizinhos ou membros de uma das relações membros de uma etnia política,
comunidade próxima. de trabalho. como uma cidade ou nação.
Fonte: adaptado de Silva e Sarriera (2015, p. 381).

Além disso, os autores destacam que a justiça social também envolve outros aspectos
como o poder, que se refere à capacidade de influenciar eventos e à interação entre
habilidades pessoais e oportunidades sociais e históricas para promover mudanças.

Um dos exemplos que demarcam tal perspectiva é quando movimento social luta
por melhores condições de trabalho, utilizando do poder coletivo para pressionar
o governo e empresas a implementarem políticas de salário justo e segurança no
trabalho. O poder fica nítido quando esses trabalhadores exercem influência por
meio da organização e das oportunidades históricas, como eleições ou mudanças
políticas, para alcançar mudanças sociais.

Outro aspecto imprescindível apontado por Silva e Sarriera (2015) no debate sobre
justiça social é a oportunidade. Eles salientam que esta envolve os recursos externos
disponíveis para o indivíduo, que afetam sua mobilidade social, acesso à educação
e inserção no mercado de trabalho. Esses autores focam as desigualdades sociais,
principalmente as vividas pela população negra no Brasil.

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Mobilização social

Fonte: Freepik (2024).


#pratodosverem: a foto mostra um protesto urbano com quatro pessoas,
três delas seguram cartazes e uma delas está falando em um megafone.

A história do Brasil, em relação a essa população, é permeada por um longo período de


violação de direitos, desumanização e precarização de vidas desde a escravização.
Após a abolição, a população negra brasileira permaneceu à margem da sociedade,
e, mesmo com significativos avanços em torno dessa discussão, não é incomum que,
no mercado de trabalho, essa parte da população enfrente extensas desigualdades.

Em muitos casos, mesmo com qualificação similar, pessoas negras podem ter menos
chances de serem contratadas ou de receber promoções devido à discriminação
racial, revelando a falta de justiça social nas oportunidades que são oferecidas para
o desenvolvimento socioeconômico.

Transformação Social e Ação Comunitária

A transformação social é um conceito que admite diversas interpretações. Na


psicologia social e comunitária, um dos grandes nomes é Ignacio Martín-Baró (1942-
1989), psicólogo com um extenso legado de estudos sobre a questão da consciência,
resultado de seus debates sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. Ele
contribui significativamente para pensarmos sobre a transformação social por meio
da ação comunitária.

6
Saiba mais
Saiba mais sobre Martín-Baró e sua importância para a discussão
sobre o papel do psicólogo, clicando aqui.

Segundo o autor, a transformação social está intrinsecamente ligada ao processo de


conscientização e à ação humana sobre a realidade (Martín-Baró, 1996). Ele defende
que o trabalho, mais do que a aplicação de habilidades para suprir necessidades, é
um meio de autoconstrução e de transformação do ambiente.

Por isso, nesse processo, podemos tanto nos encontrar quanto nos alienar,
dependendo das relações interpessoais e intergrupais em que estamos inseridos.
Dessarte, Martín-Baró (1996) vê a conscientização como um aspecto central da
Psicologia, destacando que ela é dialética e acontece por meio da modificação da
realidade pelo sujeito e não pela imposição.

A coletividade humana

Fonte: Freepik (2024).


#pratodosverem: a foto mostra várias mãos de diferentes tons de pele
unidas em um círculo, como símbolo de união e solidariedade.

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Isso significa que, ao transformar o mundo ao nosso redor, transformamos a nós
mesmos, passando a compreender nosso papel ativo nas relações e no nosso
domínio sobre a natureza. As contribuições de Martín-Baró (1996) nos ajudam a
entender não apenas nossas raízes, mas também a vislumbrar novas possibilidades
de ser, fundamentando uma construção mais autônoma do futuro com base em
nossa memória histórica.

Portanto, para tal autor, a transformação social está associada à emancipação do


indivíduo por meio da conscientização crítica e da ação transformadora sobre a
realidade comunitária.

Direitos Humanos Aplicados


Os direitos humanos são um conjunto de vários princípios fundamentais que objetivam a
garantia legal da dignidade, igualdade e proteção a todas as pessoas, independentemente
de origem, condição social ou outras características (Rosato, 2011).

Esses direitos abrangem áreas como a civil, a política, a econômica, a social e a


cultural e visam assegurar que todos os seres humanos vivam com dignidade e em
condições justas.

Atenção
Em 1945 foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU), com
o objetivo de proteger os direitos humanos e manter a paz e a
segurança mundial.

Nesse sentido, o papel da psicologia comunitária perante tais direitos é intervir em


comunidades e buscar promover o bem-estar social, combatendo as desigualdades
e opressões que violam os direitos humanos.

Rosato (2011) discute a relação entre a Psicologia e os direitos humanos. Ele


destaca que ambas as áreas compartilham o mesmo objeto de trabalho: o ser
humano. Especialmente a psicologia comunitária, que catalisa a participação e o
empoderamento das comunidades, possibilitando que indivíduos marginalizados
e vulneráveis possam se organizar para reivindicar seus direitos e melhorar suas
condições de vida.

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Princípios de Direitos Humanos

Em 1948, a ONU criou a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) (ONU,
[1948]) em resposta ao período da Segunda Guerra Mundial, em que o mundo clamava
por paz e segurança. Embora haja 30 artigos nesse documento, abordaremos alguns
em consonância às ideias de Martín-Baró (1996), particularmente em sua defesa pela
conscientização, emancipação e transformação social.

Saiba mais
Confira na íntegra a Declaração Universal dos Direitos Humanos,
clicando aqui.

O referido documento traz, em seu artigo 1, o princípio da igualdade e dignidade humana,


em que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”,
referenciado, inclusive em nossa Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988). Percebemos
que na prática há contradições nesse trecho, apesar de extremamente importante.

Rosato (2011) frisa que, no contexto atual, há uma parcela significativa da população
mundial que não têm seus direitos respeitados, por exemplo, se nos voltarmos à
população negra brasileira ou mesmo às mulheres, aos LGBTQIA +, às pessoas com
deficiência etc.

No artigo 3, em que é destacado o princípio da liberdade e da justiça, a declaração


garante o direito à vida, liberdade e segurança pessoal, o que ressoa com a crítica de
Martín-Baró (1996) às condições sociais que negam esses direitos fundamentais às
populações marginalizadas, especialmente na América Latina. Ele argumentava que
as psicologias hegemônicas muitas vezes legitimavam a desigualdade e a opressão.

Um outro princípio estabelecido no documento e que podemos tecer relações com


as ideias do autor supracitado é o direito à participação na vida política e social, nos
artigos 21 e 23, trazendo o pleno reconhecimento do direito de todos à participação
política e ao trabalho digno. Martín-Baró (1996), ao enfatizar a conscientização e a
crítica social, aponta-nos a importância de entender as pessoas enquanto agentes
ativos na transformação de suas condições, sendo necessária a reivindicação de
seus direitos.

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Por fim, a Psicologia não deve estar aquém dos direitos humanos, necessitando ater-
se ao que diz Martín-Baró (1996) quando defende a ideia de que a transformação social
deve promover a igualdade e combater as estruturas de opressão que desumanizam e
marginalizam grupos vulneráveis, questionando, refletindo e reivindicando o sistema
neoliberal capitalista que promove a desigualdade.

Dimensões dos Direitos Humanos

Os 30 direitos humanos destacados na DUDH são geralmente organizados em três


grandes dimensões, também chamadas de “gerações”, que, independentemente de
nomenclatura, refletem, cada uma, diferentes tipos de direitos e momentos históricos
de sua afirmação (Júnior; Nogueira, 2012).

A legislação e a justiça

Fonte: Freepik (2024).


#pratodosverem: a foto mostra um martelo de juiz sobre uma mesa de
madeira, ao lado de um documento legal, sugerindo um ambiente jurídico.

Curiosidade
Júnior e Nogueira (2012) argumentam que o termo “dimensão”
é mais adequado para a evolução dos direitos fundamentais,
pois as novas dimensões não anulam as anteriores, mas se
complementam, ao contrário da ideia de “gerações”, que poderia
sugerir exclusão entre elas.

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A primeira dimensão (direitos civis e políticos) destaca os direitos que garantem a
liberdade individual e a participação política, protegendo os indivíduos de abusos
do Estado (Júnior; Nogueira, 2012). Assim, está relacionada à defesa da liberdade
e igualdade perante a lei do direito à vida, à liberdade de expressão, ao voto, à
privacidade e a um julgamento justo.

Na segunda dimensão (direitos econômicos, sociais e culturais) são salientados


direitos que garantem condições de vida digna, igualdade material e bem-estar social,
além de garantir equidade social e justiça econômica. Exemplos incluem os direitos à
saúde, à educação, ao trabalho, à moradia, à seguridade social.

Já a terceira dimensão (direitos coletivos ou difusos) vai além do indivíduo e se


refere à solidariedade e à cooperação internacional, abordando questões que afetam
comunidades ou povos e populações inteiras (Júnior; Nogueira, 2012), como os
direitos ao desenvolvimento, ao meio ambiente saudável, à paz e à autodeterminação
dos povos.

Mobilização Comunitária e Advocacy

A visão de Martín-Baró (1996) sobre a transformação social pressupõe uma


mobilização da comunidade, pois dá luz à conscientização crítica como base para a
ação coletiva.

A psicologia comunitária busca capacitar indivíduos e grupos a entenderem


as estruturas de opressão que afetam suas vidas, para que seja promovida a
conscientização por meio de iniciativas grupais ou mesmo individuais por meio de
questionamentos e reflexões. Os psicólogos contribuem para o reconhecimento dos
sujeitos de suas realidades sociais, que são moldadas por sistemas de poder.

Isso é essencial para que as comunidades se organizem, lutem pelos seus direitos,
fortaleçam-se e adquiram autonomia para transformar suas condições. Para Martín-
Baró (1996), o novo saber que os indivíduos adquirem sobre si mesmos e sobre sua
realidade os posiciona como agentes ativos no enfrentamento de injustiças.

Seguindo as ideias do autor, o advocacy é tanto uma ação prática quanto uma
extensão da conscientização crítica, em que os indivíduos e grupos pressionam por
mudanças estruturais nas políticas públicas, promovendo a justiça social.

O advocacy também envolve a defesa de direitos e a promoção de mudanças


estruturais. Segundo Montero (2004), o caminho para essa transformação deve partir
da própria comunidade, que conhece e reflete sobre sua situação.

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Martín-Baró (1996) complementa tal visão, destacando que, por meio da
conscientização, as comunidades ganham poder para decodificar sua realidade
opressora, abrindo-se para novas possibilidades de ação.

Saiba mais
Para saber mais sobre esse tema, acesse este link e leia o artigo
A “Visão Histórica da Psicologia Social” de Ignacio Martín-Baró.

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Conclusão
Ao longo desta unidade, vimos que a psicologia comunitária desempenha um papel
fundamental na promoção da justiça social e na transformação das condições de
vida das comunidades.

Baseando-se em conceitos como conscientização crítica e ação coletiva, por


Martín-Baró (1996), entendemos que a mobilização comunitária se torna um meio
significativo de empoderamento social, permitindo que as comunidades reconheçam
e enfrentem estruturas opressoras.

Ao reivindicarem seus direitos por meio do advocacy, essas comunidades podem


influenciar políticas públicas e promover mudanças estruturais que favoreçam uma
sociedade mais equitativa e justa.

13
Referências
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de
1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2020]. Disponível em: [Link]
[Link]/ccivil_03/Constituicao/[Link]. Acesso em: 3 out. 2024.

DIÓGENES JÚNIOR, J, E. N. Gerações ou dimensões dos direitos fundamentais.


Âmbito Jurídico, Rio Grande, v. 100, n. 15, p. 571-572, 2012.

MARTÍN-BARÓ, I. O papel do psicólogo. Estudos de Psicologia, [S. l.],


v. 2, n. 1, p. 7-2, 1996. Disponível em: [Link]
T997nnKHfd3FwVQnWYYGdqj/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 3 out. 2024.

MONTERO, M. Introducción a la psicología comunitaria. Desarrollo, conceptos y


procesos. Editorial Paidós: Buenos Aires, 2004. Disponível em: [Link]
org/sites/default/files/sites/[Link]/files/Introducci%C3%B3n%20a%20
la%20psicolog%C3%ADa%20comunitaria.%20Desarrollo,%20conceptos%20y%20
procesos..pdf. Acesso em: 3 out. 2024.

ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. UNICEF, [1948]. Disponível em:
[Link]
Acesso em 3 out. 2024.

ROSATO, C. M. Psicologia e direitos humanos: cursos e percursos comuns.


Psic. Rev., São Paulo, v. 20, n. 1, p. 11-27, 2011. Disponível em: [Link]
[Link]/psicorevista/article/download/6790/4913/0. Acesso em: 3 out. 2024.

SILVA, C. L.; SARRIERA, J. C. Promover a justiça social: compromisso ético para


relações comunitárias. Psicologia & Sociedade, [S. l.], v. 28, n. 2, p. 380-386, 2015.
Disponível em: [Link]
at=pdf&lang=pt. Acesso em: 3 out. 2024.

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