SEÇÃO XII ► CAPÍTULO 134
Problemas da mama
Monique Marie Marthe Bourget
Grasiela Benini dos Santos Cardoso
Aspectos-chave
► O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais comum entre as
mulheres no mundo e no Brasil, depois do câncer de pele não
melanoma, respondendo por em torno de 28% dos casos novos a
cada ano. Em 2016, foram estimados 57.960 casos novos.1
► O exame clínico das mamas faz parte da consulta médica e de
enfermagem quando a mulher se apresenta com queixas nessa parte
do corpo.
► O rastreamento em mulheres assintomáticas deve ser oferecido
conforme as recomendações do Ministério da Saúde/Instituto
Nacional do Câncer (MS/INCA).1
► Estimular hábitos saudáveis, como dieta, atividade física e não
consumo de bebidas alcoólicas, evitando-se, assim, a obesidade e o
alcoolismo como fatores de risco para câncer de mama.
► É importante estar atento aos sinais de alerta para câncer de mama, a
fim de diagnosticar e iniciar o tratamento o mais rápido possível.
Caso clínico
Melissa, 32 anos, enfermeira, trabalha em um hospital público à
tarde. Refere sentir uma dor (incômodo) há alguns dias e, ao fazer o
autoexame no chuveiro antes de ir trabalhar, descobriu um nódulo
na mama direita. Nega patologias anteriores. Tem uma filha, Priscila,
de 5 anos, que amamentou durante 6 meses. Não deseja mais filhos
e como método utiliza anticoncepcional oral. Nega história de câncer
na família. Diz que uma colega do trabalho faleceu recentemente de
um câncer de mama localmente avançado e deixou dois filhos e
marido. Ela está muito abalada e tem medo que seu nódulo seja um
câncer. O marido, Marcelo, engenheiro, é muito presente, mas
também ficou apavorado, pois conhecia a amiga de Melissa que
morreu tão nova, com 34 anos.
Teste seu conhecimento
1. Com base no Caso clínico, qual é o melhor exame para fazer o
diagnóstico desse nódulo?
a. A mamografia é o exame mais recomendado
b. A ultrassonografia de mama, neste caso, antecede a
mamografia
c. Biópsia como primeira opção
d. Exame clínico e ultrassonografia
2. Qual é a principal hipótese diagnóstica quanto a esse nódulo de
mama?
a. Cistos mamários
b. Nódulo sólido benigno (fibroadenoma)
c. Carcinoma de mama
d. Abscesso
3. Atendendo esta paciente na Unidade Básica de Saúde, qual é a
melhor conduta a ser tomada?
a. Consulta direto com especialista
b. Exame clínico, ultrassonografia de mamas e, após
diagnóstico de nódulo confirmado, considerar
referenciamento ao especialista
c. Apenas mamografia
d. Nada a ser feito
4. As doenças da mama preocupam muito as mulheres
atualmente. Quais são as principais queixas referidas por elas?
a. Dor, mamilo invertido e descarga papilar
b. Dor, nódulo e medo do câncer
c. Nódulo, medo do câncer e descarga papilar
d. Dor, nódulo, descarga papilar e medo do câncer
Respostas: 1D, 2B, 3B, 4D
Do que se trata
As doenças da mama englobam uma ampla variedade de patologias, benignas e
malignas. A principal queixa da mulher em consulta médica é a dor mamária
(mastalgia) seguida de achado de nódulo. Hoje, é bastante comum a paciente
procurar o médico para prevenir o câncer de mama ou com muitas dúvidas sobre
o assunto (“cancerofobia”).
O que pode ocasionar
As doenças da mama são classificadas da seguinte forma:
● Doenças benignas da mama:
■ Anomalias do desenvolvimento.
■ Alterações funcionais benignas da mama.
■ Mastites.
■ Tumores benignos da mama.
● Câncer de mama.
● Tumores filoides e sarcomas.
O que fazer
Anamnese
A anamnese é a primeira oportunidade de contato interpessoal da relação
médico-paciente, tornando-se a primeira ocasião para estabelecer uma relação de
confiança e cumplicidade, coletar informações relevantes e também para
tranquilizar a pessoa e solicitar os exames complementares necessários. É
importante anotar dados sobre identificação, antecedentes pessoais e familiares.
Além desses, devem ser destacados:
● Faixa etária.
● História familiar de câncer.
● História ginecológica e obstétrica.
● Doenças benignas prévias (cirurgias).
● Uso de hormônios.
● Nutrição, obesidade e fatores socioeconômicos.
Todas essas informações podem proporcionar subsídios relacionados com os
fatores de risco e proteção para o câncer de mama. É fundamental sempre
valorizar todas as queixas específicas das pessoas, caracterizando-as quanto ao
surgimento, à evolução, à duração e aos sintomas associados.
As principais queixas mamárias são dor, nódulos e derrames papilares. Além
dessas queixas, podem-se observar anormalidades do desenvolvimento mamário,
processos inflamatórios agudos ou crônicos, saída de secreção purulenta e
alterações de pele e mamilo.
Exame físico
Inspeção. As mulheres serão inicialmente submetidas às inspeções estática e
dinâmica das mamas, estando sentadas e despidas da cintura para cima (Figura
134.1).
▲ Figura 134.1
Inspeção estática.
Inspeção está[Link] o volume e a forma das mamas. Neste momento,
podem-se observar abaulamentos, retrações, lesões na pele e no mamilo
(Figuras 134.2 e 134.3).
▲ Figura 134.2
Assimetria e aspecto “casca de laranja”.
▲ Figura 134.3
Lesão em mamilo.
Inspeção dinâ[Link] etapa, serão feitas manobras para promover a
contração da musculatura peitoral (Figura 134.4), elevação dos membros
superiores (Figura 134.5) ou tração anterior do corpo (Figura 134.6), devendo-
se observar eventuais retrações da pele ou acentuação das alterações detectadas
na inspeção estática (ver Figura 134.1).
▲ Figura 134.4
Nodulação no QSE, mama esquerda.
▲ Figura 134.5
Retração de pele após inspeção dinâmica.
▲ Figura 134.6
Inspeção dinâmica.
Palpação. É a etapa mais importante da propedêutica clínica das mamas.
Apesar de ser um órgão superficial, a palpação das mamas não é sempre fácil em
decorrência de características específicas, com diferentes proporções de tecidos
glandulares e gordurosos. As mamas são divididas em quadrante superior-
externo (QSE), superior-interno (QSI), inferior-externo (QIE) e inferior-interno
(QII), além da região central e retroareolar.
Uma rotina de exame deve ser sistematizada. É importante examinar as
mamas por completo, avaliando-se superiormente até a clavícula, inferiormente
até o limite inferior da topografia das costelas, medialmente até o esterno e,
lateralmente, até a linha axilar média. A palpação deve ser feita com uma das
mãos, enquanto a outra estabiliza a mama, exercendo uma pressão variável, que
não cause desconforto às pacientes, buscando o conhecimento e a percepção da
textura glandular das mamas (Figuras 134.7 e 134.8). Ao se constatar a
presença de um nódulo mamário, deve-se avaliar a mama acometida e estudar
especificamente a lesão identificada, definindo sua localização, forma, tamanho,
consistência, mobilidade e sensibilidade. Anotar na ficha clínica.
▲ Figura 134.7
Exame das fossas axilares.
▲ Figura 134.8
Palpação bidigital.
A expressão papilar bilateral (Figura 134.9) também é uma etapa integrante
do exame clínico das mamas. Esse procedimento está indicado nos casos em que
há queixa de derrame papilar espontâneo, para se confirmar o problema citado e
verificar a origem ductal de que provém a secreção. A secreção papilar em
crianças, meninas e meninos, tem ocorrência baixa, mas precisa de atenção
especial, sendo, na maioria dos casos, benigna e ocasionada por infecção, ectasia
do ducto, ginecomastia ou mudanças fibrocísticas.2
▲ Figura 134.9
Descarga papilar uniductal.
Exames complementares
Mamografia
A mamografia (MMG) é o principal método de diagnóstico por imagem na
detecção, no diagnóstico e no planejamento terapêutico das doenças mamárias.
O rastreamento populacional do câncer de mama se baseia na realização
periódica da MMG, sendo poucas as situações em que ela não é o método
diagnóstico por imagem inicial para se investigar alterações clínicas mamárias.
A especificidade varia entre 94 e 97%, e a sensibilidade, entre 61 a 89%. A
sensibilidade e a especificidade da MMG no rastreamento podem ser
influenciadas por vários fatores ligados à paciente (idade, densidade radiológica
do parênquima mamário e uso de terapia hormonal), relacionados com o
imagenologista (especificidade – tempo de experiência), gravidez e lactação,
cirurgia mamária prévia e implantes mamários.
Ultrassonografia das mamas
A ultrassonografia (US) é o melhor método diagnóstico complementar à MMG,
pois uma das maiores limitações que ela enfrenta para o diagnóstico é a mama
densa, mesmo com a evolução tecnológica digital atual. A mama na mulher
jovem é densa e, à medida que os anos avançam, ela involui, ocorrendo a
substituição por tecido adiposo que a torna radiotransparente, facilitando, assim,
o diagnóstico mamográfico. Quando a MMG mostra corpos glandulares
radiotransparentes, a US não acrescenta dados ao diagnóstico. No entanto,
quando as mamas são densas, a US é uma ferramenta importante no diagnóstico,
embora seja um exame que dependa mais do operador do que os outros.
Não existem evidências na literatura que demonstrem redução da mortalidade
pelo câncer de mama com realização exclusiva de US como método de
rastreamento.
Recomendação: a US deve ser utilizada como método complementar à MMG
em mulheres de alto risco e em mamas densas, de jovens (em geral, menos de 35
anos), em grávidas e para diferenciar lesões sólidas de císticas.
Outros exames complementares e diagnósticos
Ressonância magnética (RM) de [Link] avaliar lesões que não são vistas
em MMG e US.
Tomossíntese, termografia, cintilografia mamária.
Punções e biópsias percutâneas. Punção aspirativa com agulha fina (PAAF-
citologia), core biópsia (histologia), mamotomia (histologia), marcação por fio
metálico pré-cirúrgica, marcação por radioisótopo.
Pet-scan (para seguimento de câncer de mama).
Sinais de alerta (ver Quadros 134.1 e 134.2).
Quadro 134.1 | Alertas vermelhos na avaliação de sinais e sintomas em
doenças de mama
Estratégia de
Achado Diagnóstico possível investigação
Câncer Infecção AFBM MMG US Especialista
Tumor
benigno
Nódulo X X X X X*
fibroelástico
e/ou móvel
Nódulo X X X X
endurecido
e/ou fixo
Hiperemia, X X
edema e dor
Dor na X X
menstruação
Lesões X X X X X
ulceradas
Retração de X X X X
pele
Mamografia X X
Birads® 5
Descarga X X X X X
papilar
uniductal e
unilateral
Descarga X X
papilar
multiductal e
bilateral
*Pode-se observar o quadro clínico e fazer uma avaliação individualizada do risco.
AFBM, alteração funcional benigna da mama; MMG, mamografia; US, ultrassonografia.
Quadro 134.2 | Alertas amarelos
Principais alertas amarelos
► História familiar de câncer de mama e/ou ovário em familiar de primeiro grau
► Queixa de nódulo de mama
► MMG com resultado Birads® 3
► US sugestiva de nódulo benigno
► Dor cíclica e/ou acíclica (acompanha ciclo menstrual)
Conduta proposta
Anomalias de desenvolvimento mamário. São diagnosticadas no exame físico.
Devem ser referenciadas ao especialista para tratamento – em sua maioria,
cirúrgico.
Tumores benignos. Incluem papilomatose juvenil, fibroadenoma (mais
comum), adenoma tubular, adenoma da lactação, adenoma papilar, tumor filoide,
papiloma intraductal, lipoma, tumor das células da granular, hamartoma,
leiomioma. A mama pode ser sede de vários tipos de tumores benignos, visto
que todos os tecidos que compõem a mama, ou que são adjacentes a ela, podem
gerar tumor benigno. Clinicamente, aparece como nódulo com características
benignas tanto no exame físico como no complementar. O tratamento consiste no
referenciamento ao especialista. Em alguns casos mais raros, o músculo esternal
pode simular o nódulo.3
A Sociedade Brasileira de Mastologia recomenda, desde 1994, após decisão
resultante de Reunião de Consenso, a utilização da expressão alteração
funcional benigna da mama (AFBM), chamada anteriormente de doença
fibromicrocística, displasia mamária e mastopatia fibrocística. A AFBM
manifesta-se, clinicamente, por mastalgia, adensamentos e presença de micro ou
macrocistos. Considerando as características do quadro, a sua elevada
prevalência e a ausência de associação a risco de câncer, o tratamento deve ser
orientado de acordo com a classificação do sintoma após a avaliação clínica do
caso. A orientação verbal é a conduta inicial, ou seja, deve-se esclarecer, de
forma precisa, que a sua condição é benigna e não há aumento de risco para o
desenvolvimento de câncer de mama. Muitas vezes, as mulheres possuem um
quadro de extrema ansiedade e angústia pela possibilidade daquele sintoma ser
uma lesão maligna. Dessa forma, a orientação verbal quanto à origem funcional
e sua evolução natural são suficientes para alívio sintomático, e o índice de
sucesso pode atingir até 85% nos casos mais leves. É o momento mais
importante da atuação do médico de família e comunidade, pois ele poderá evitar
consultas a especialistas e fortalecer o vínculo médico-paciente. Naquelas
mulheres com dor mamária moderada ou intensa que afeta sua qualidade de vida
ou naquelas refratárias à orientação verbal, a conduta medicamentosa deve ser
considerada (óleo de prímula, ácido gamalinoleico, tamoxifeno,
bromoergocriptina, lisurida, danazol, anti-inflamatório não esteroide), mas é
preciso alertar sobre os efeitos secundários que em várias ocasiões limitam o
uso.
O derrame papilar (Figura 134.9) pode ser definido como a eliminação de
secreções por meio do óstio ductal, sem estar relacionado com o ciclo gravídico
puerperal. Essa queixa representa a terceira causa de procura ao especialista e,
como motivo de consulta e/ou achado clínico, pode exprimir:
● Fenômeno fisiológico (secreção mamária neonatal, telarca, menacme,
climatério).
● Alterações iatrogênicas e patológicas do eixo neuroendócrino (medicações,
hiperprolactinemia).
● Patologia intraductal.
O conhecimento da fisiologia mamária é de fundamental importância para o
entendimento deste quadro. O derrame papilar suspeito tem como características
macroscópicas definidas: secreção sanguínea, serossanguínea ou cristalina “água
de rocha”, restrita a um único ducto e unilateral. Geralmente, é de manifestação
espontânea e sugere a presença de hiperplasia ductal atípica, papiloma,
carcinoma ou ectasia ductal. O tratamento se dá por meio de cirurgia, quando
suspeito, e a pedido da paciente, quando espontâneo e benigno, por incômodo à
sua qualidade de vida. Nos casos fisiológicos expectantes e iatrogênicos, é
necessário excluir a causa.
Dor mamária acíclica. É definida por dor com origem na mama, constante ou
intermitente, não relacionada com o ciclo menstrual. A terapia consiste em tratar
a origem da dor: a relacionada com o câncer de mama, por exemplo, é
classicamente unilateral, constante e intensa. A associação entre dor localizada e
câncer de mama subclínico tem sido estudada, mostrando que apenas 2 a 7% das
pacientes com câncer apresentam a dor como primeiro sintoma. Em recente
estudo de caso-controle, não houve diferença entre a frequência de malignidade
nos exames de MMG em mulheres com dor mamária e em pacientes submetidas
à MMG de rastreamento (ver Quadro 134.3).4
Quadro 134.3 | Causas e diagnóstico diferencial das mastalgias
► Dor de origem mamária: mastalgia ou mastodínia, mastites, trauma na
mama, tromboflebites, cistos, tumores benignos da mama, câncer de mama
► Musculesqueléticas: síndrome da dor da parede torácica,
costocondrites/Tietze, trauma de parede torácica/fratura de costela,
fibromialgia, radiculopatia cervical, dor no ombro, herpes-zóster
► Outras causas: doença coronariana/angina, pericardite, embolia pulmonar,
pleurite, refluxo gastresofágico, úlcera péptica, colelitíase/colecistite,
psicológica, medicamentosa
As mastites são definidas como os processos infecciosos que se instalam nos
tecidos mamários. As mastites agudas são mais comuns nas jovens e,
principalmente, na gravidez e no puerpério. O principal agente infeccioso é o
Staphylococcus aureus, que responde por 50% dos casos de mastite aguda
puerperal. As mastites estafilocócicas geralmente culminam com a formação de
abscessos, quase sempre multiloculados, que resultam na formação de grande
quantidade de pus. As mastites estreptocócicas em geral evoluem como celulites,
apresentando repercussões sistêmicas mais tardiamente. O diagnóstico quase
sempre é efetuado por meio da anamnese e do exame físico (mastalgia aguda,
calor local, aumento do volume mamário e febre elevada).
O tratamento consiste em combater a infecção e outras medidas anti-
inflamatórias. O antibiótico de primeira escolha é a cefalosporina de 1a geração
(cefalexina, 500 mg, via oral de 12/12 horas, por 7 dias). A suspensão da
amamentação não é necessária. Quando houver a formação de abscessos, é
mandatória a drenagem cirúrgica e a antibioticoterapia. As medidas anti-
inflamatórias têm finalidades analgésica e antitérmica.
As mastites crônicas são processos inflamatórios de evolução extremamente
lenta, que podem ou não ser percebidas por infecções agudas. Tendem a ser
recidivantes, com aparecimento de vários surtos. São classificadas em
infecciosas (abscesso subareolar recidivante, tuberculose, hanseníase,
micobactérias atípicas, fungos, actinomicose, viral, sífilis, gonocócica,
helmintos, cistos epidermoides infectados) e não infecciosas (mastite periductal,
granulomatosa, granuloma lipofágico, flebite superficial ou doença de Mondor,
sarcoidose, lúpus, linfocítica, actínica, óleo argânico, infarto espontâneo). O
tratamento consiste basicamente em tratar o agente etiológico quando
identificado e referenciar ao especialista, pois muitas vezes este tipo de mastite é
de difícil diagnóstico e de tratamento prolongado, necessitando de biópsias
cirúrgicas. Nesse caso, é sempre importante o diagnóstico diferencial para o
câncer de mama inflamatório.
O principal fator de risco para câncer de mama é a idade. Os demais fatores
têm peso inferior, estando descritos no Quadro 134.4.
Quadro 134.4 | Mulheres com risco elevado para desenvolvimento de
câncer de mama
► Mulheres com história familiar de, pelo menos, um familiar de primeiro grau
(mãe, irmã ou filha) com diagnóstico de câncer da mama, abaixo dos 50
anos de idade
► Mulheres com história familiar de, pelo menos, um familiar de primeiro grau
(mãe, irmã ou filha) com diagnóstico de câncer da mama bilateral ou câncer
de ovário, em qualquer faixa etária
► Mulheres com história familiar de câncer de mama masculino
► Mulheres com diagnóstico histopatológico de lesão mamária proliferativa
com atipia ou neoplasia lobular insitu
A maior dificuldade no câncer de mama é a determinação da rotina para
rastreamento. Existem várias controvérsias sobre a idade exata do uso da MMG
para o melhor custo-benefício, com estudos sendo realizados continuamente. As
diretrizes variam de país para país e de acordo com as sociedades médicas, sendo
que, quanto mais focal, maior a tendência de recomendar rastreamentos mais
intensivos, pela dificuldade de entender o tema rastreamento no seu contexto
amplo (não se trata de apenas um órgão) e também pela dificuldade de
individualizar os riscos, tentando traçar uma estratégia mais intensa para os
maiores riscos de cada pessoa (p. ex., a diretriz da Sociedade Brasileira de
Mastologia recomenda MMG anual em mulheres assintomáticas a partir dos 40
anos). Os principais pontos geradores de dúvidas são o risco de falso-positivo e
de diagnóstico em excesso para tumores que nunca iriam evoluir
(overdiagnose).5–8 Estudos demonstraram que aproximadamente 50% das
mulheres têm um falso-positivo após 10 MMGs.6 O melhor profissional para
traçar uma estratégia de rastreamento é o generalista, que não é focado em um
órgão apenas. O objetivo não é, por exemplo, a mulher seguir o programa de
rastreamento de câncer de mama e morrer de infarto agudo do miocárdio por
ausência de ações nesta área, ou seja, as recomendações de rastreamento devem
ser bem avaliadas, pois são de base populacional, e o médico de família deve
também atuar em estratégias de cuidado individual, sabendo priorizar as
necessidades em saúde de cada pessoa.
A recomendação que sugerimos utilizar é a do INCA, que é a mesma do
Departamento de Atenção Básica, e segue em consonância com as diretrizes do
US Preventive Services Task Force (USPSTF) e do National Institute for Health
and Clinical Excellence (NICE).9,10 É importante que o processo de oferta sobre
o rastreamento envolva a discussão sobre seus riscos e benefícios, para que a
mulher seja empoderada e tenha autonomia sobre sua decisão.
Rastreamento por mamografia1
Até 50 anos
O Ministério da Saúde (MS) recomenda contra o rastreamento com MMG em
mulheres com menos de 50 anos (recomendação contrária forte: os possíveis
danos claramente superam os possíveis benefícios).
De 50 a 59 anos
O MS recomenda o rastreamento com MMG em mulheres com idade entre 50 e
59 anos (recomendação favorável fraca: os possíveis benefícios e danos
provavelmente são semelhantes).
De 60 a 69 anos
O MS recomenda o rastreamento com MMG em mulheres com idade entre 60 e
69 anos (recomendação favorável fraca: os possíveis benefícios provavelmente
superam os possíveis danos).
De 70 a 74 anos
O MS recomenda contra o rastreamento com MMG em mulheres com idade
entre 70 e 74 anos (recomendação contrária fraca: o balanço entre possíveis
danos e benefícios é incerto).
75 anos ou mais
O MS recomenda contra o rastreamento com MMG em mulheres com 75 anos
ou mais (recomendação contrária forte: os possíveis danos provavelmente
superam os possíveis benefícios).
Periodicidade
O MS recomenda que a periodicidade do rastreamento com MMG nas faixas
etárias recomendadas seja a bienal (recomendação favorável forte: os possíveis
benefícios provavelmente superam os possíveis danos quando comparada às
periodicidades menores do que a bienal).
Exame clínico das mamas
Neste, há ausência de recomendação, o balanço entre possíveis danos e
benefícios é incerto.
Segundo a recomendação do USPSTF de 2013,11 as seguintes situações
devem ser referenciadas para investigação genética (BRCA-1, BRCA-2 e TP53):
● Familiares próximos (lado paterno ou materno) de mulheres com história
de câncer de mama ou de ovário com alguma mutação conhecida.
Para famílias de não judeus asquenazes (provenientes da Europa Central e
Oriental), que têm risco naturalmente aumentado, os critérios para
referenciamento à investigação genética são:
● Dois familiares de primeiro grau (mãe, irmã ou filha) com história de
câncer de mama, sendo que um recebeu o diagnóstico aos 50 anos ou
menos.
● Uma combinação de três ou mais familiares de primeiro ou segundo grau
(incluindo avós) com história de câncer de mama, independentemente da
idade do diagnóstico.
● Uma combinação de câncer de ovário e de mama entre familiares de
primeiro ou segundo grau.
● Um familiar de primeiro grau com câncer de mama bilateral.
● Uma combinação de dois ou mais familiares de primeiro ou segundo grau
com história de câncer de ovário, independentemente da idade do
diagnóstico.
● Um familiar de primeiro ou segundo grau com câncer de mama e ovário
em qualquer idade.
● História de câncer de mama em algum familiar do sexo masculino.
Nas lesões palpáveis de mama, as recomendações são as seguintes:
● Mulheres com menos de 35 anos de idade: a US é o método de escolha
para avaliação das lesões neste grupo etá[Link] com 35 anos de
idade ou mais: a MMG é o método recomendado. O exame mamográfico
pode ser complementado pela US em determinadas situações clínicas.1 A
US complementar não deve ser solicitada nas lesões categorias 2 e 5
(BIRADS®, do inglês Breast Imaging Reporting and Data System)
Nas lesões suspeitas palpáveis com imagem negativa (MMG e US), a
investigação é mandatória com PAAF, punção por agulha grossa (PAAG) ou
biópsia cirúrgica. Nas lesões não palpáveis, as recomendações do Controle do
Câncer de Mama: documento de consenso do INCA1 seguem a proposta do
BIRADS®, publicado pelo Colégio Americano de Radiologia (ACR) e
recomendado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia (CBR) (Quadro 134.5).
Quadro 134.5 | Categorias birads® e condutas
Categoria Interpretação VPP* Conduta
0 ► Incompleto 13% Avaliação adicional por
► Necessita avaliação imagem ou comparação
adicional com exames anteriores
1 ► Negativo – Rastreamento normal
► Não há nada a
comentar
2 ► Benigno 0% Rastreamento normal
3 ► Provavelmente benigno 2% Controle radiológico por 3
anos: semestralmente no
primeiro ano e anualmente
por 2 anos consecutivos**
4 (A,B,C)* ► Suspeito 30% Biópsia
5 ► Altamente sugestivo de 97% Biópsia
malignidade
6* ► Biópsia conhecida – Tratamento
► Malignidade
comprovada
*Na 4a edição do BIRADS®, foi criada a categoria 6, para lesões com diagnóstico de câncer prévio, e a
categoria 4 foi subdividida de acordo com o grau de suspeição em A (baixa), B (média) e C (alta).
**Histopatológico pode ser necessário se houver indicação de hormônio liberador de tireotrofina
(TRH), se uma lesão categoria 3 for encontrada junto com lesão suspeita ou altamente suspeita (homo
ou contralateral), ou se houver condição que impossibilite o controle.
VPP, valor preditivo positivo.
Fonte: Adaptado de Orel e colaboradores.13
O tratamento para o câncer de mama consiste basicamente em:
● Cirurgia (conservadora ou não e com ou sem reconstrução mamária), com
pesquisa do linfonodo sentinela.
● Quimioterapia (neoadjuvante ou adjuvante).
● Radioterapia e hormonioterapia.
Ele deve ser realizado por uma equipe multiprofissional, com médicos, conter
fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo, assistente social e enfermeiro. Em
grandes serviços de oncologia, também se pode contar com equipe de
voluntariado. É muito importante que o médico de família e comunidade e o
enfermeiro continuem com o seguimento dessa paciente ao longo da sua doença,
mesmo ela sendo acompanhada pelo centro especializado.
Erros mais frequentemente cometidos
► Subestimar as queixas das pacientes.
► Tratar infecção e, após tratamento, se não houve resposta,
mesmo assim não realizar diagnóstico diferencial para câncer de
mama.
► Não solicitar MMG quando indicada.
► Fazer biópsia de tumores de mama sem planejamento.
► Referenciar ao especialista pacientes com ou sem AFBM.
Prognóstico e complicações possíveis
As doenças da mama, quando benignas, possuem cura em quase sua totalidade.
As doenças malignas dependem do momento do diagnóstico e de seu
estadiamento: quanto mais precoce o diagnóstico, melhor a chance de cura e/ou
sobrevida livre de doença.
O tratamento cirúrgico do câncer de mama pode deixar sequelas, como
dificuldade nos movimentos e diminuição de força no lado acometido,
linfedema, problemas conjugais e medo de recidivas.
Atividades preventivas e de educação
Ações de diagnóstico precoce
● Estratégias de conscientização.
● Identificação de sinais e sintomas.
● Confirmação diagnóstica em um único serviço.
O MS recomenda contra o ensino do autoexame da mama como método de
rastreamento do câncer de mama (recomendação contrária fraca: os possíveis
danos provavelmente superam os possíveis benefícios).
Papel da equipe multiprofissional
Toda equipe da estratégia de saúde da família deve ter consciência e saber
informar sobre questões relacionadas à saúde da mulher: saúde reprodutiva,
sexualidade, medidas de rastreamento, direitos e empoderamento.
O papel do enfermeiro em apoio ao médico de família e comunidade será
importantíssimo para o fortalecimento das medidas de prevenção quaternária
frente às doenças mamárias, para explicar os riscos e benefícios do rastreamento
às mulheres desejam realizá-lo e para garantir a identificação e o
acompanhamento de mulheres com alto risco de câncer de mama ou naquelas
com alterações em exames de mamografia de rastreamento. A equipe de
enfermagem pode ser a responsável pelo programa de rastreamento de câncer de
mama.
REFERÊNCIAS
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2015 [capturado em 10 de dez. 2017] Disponível em: [Link]
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