Estudos Históricos e Documentos Raros
Estudos Históricos e Documentos Raros
FICHA TÉCNICA
Título
Fragmenta Historica – História, Paleografia e Diplomática
ISSN
1647‐6344
Editor
Centro de Estudos Históricos
Director
João José Alves Dias
Conselho Editorial
João Costa: Licenciado em História pela FCSH/NOVA. Mestre em História Medieval pela FCSH/NOVA.
Doutor em História Medieval na FCSH/NOVA
José Jorge Gonçalves: Licenciado em História pela FCSH‐NOVA. Mestre em História Moderna pela FCSH/
NOVA. Doutor em História Moderna pela FCSH/NOVA
Pedro Pinto: Licenciado em História pela FCSH/NOVA
Conselho Científico
Fernando Augusto de Figueiredo (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
Gerhard Sailler (Diplomatische Akademie Wien)
Helga Maria Jüsten (CEH‐NOVA)
Helmut Siepmann (U. Köln)
Iria Vicente Gonçalves (CEH‐NOVA; IEM – FCSH/NOVA)
João Costa (CEH‐NOVA; IEM – FCSH/NOVA)
João José Alves Dias (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
João Paulo Oliveira e Costa (CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
Jorge Pereira de Sampaio (CEH-NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
José Jorge Gonçalves (CEH-NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
Julián Martín Abad (Biblioteca Nacional de España)
Maria Ângela Godinho Vieira Rocha Beirante (CEH-NOVA)
Maria de Fátima Mendes Vieira Botão Salvador (CEH-NOVA; IEM – FCSH/NOVA)
Design Gráfico
João Timóteo
Índices
João Costa
Imagem de capa
Alvará régio de D. Manuel I, Sintra, 1505.08.12 (ANTT, Corpo Cronológico, Parte I, Maço 5, nº 35; PT/TT/
CC/1/5/35). Imagem cedida pelo ANTT
4
SUMÁRIO
Imagem da capa: Rey - a assinatura não autografa, p. 7
João Alves Dias
ESTUDOS
Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e das origens das Casas da Atouguia e da
Castanheira (séculos XV-XVI), p. 13
Nuno Vila-Santa
Em torno do foral medieval da almotaçaria de Lisboa, p. 47
Sandra M. G. Pinto
A diplomacia de D. Manuel I segundo um manuscrito da Biblioteca Britânica, p. 111
Diogo Faria
O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A atuação de D. Francisco de Lemos no seu
primeiro reitorado (1770-1779), p. 141
Carlos F. T. Alves
Raimundo da Cunha Matos, um português viajando pelo sertão do Brasil, p. 179
Rita de Cássia Guimarães Melo
MONUMENTA HISTORICA
Marta Páscoa, Miguel Portela
LISBOA
2016
Registo de uma ordem para se fabricar na fábrica da Machuca uma trempe para a cozinha das
religiosas do Convento de Santa Teresa de Aveiro (1744), p. 209
Contrato de obrigação entre os elementos da Companhia Cómica (1839), p. 211
ÍNDICES
Índice cronológico dos documentos publicados neste número, p. 216
Índice antroponímico e toponímico deste número, p. 217
EDITORIAL
A dedicação e o empenho de três dedicados e jovens historiadores – João Costa, José Jorge Gonçalves e
Pedro Pinto – permitem que hoje tenha de escrever a apresentação de mais um número da Fragmenta
Historica. É evidente que tal também se fica a dever à colaboração de todos aqueles que deram o
fruto do seu trabalho para neste volume serem publicados. Para todos se aplica a famosa expressão
portuguesa: Bem hajam!
O grande puzzle da História que esta Revista ajuda a construir resulta do convívio da publicação de
fontes em que umas se encontram estudadas, outras em processo de estudo e outras apenas como
subsídios de futuros trabalhos que a todos pode aproveitar. Sabemos que a História pode ser, assim
como a verdade, uma construção do momento. Nem sempre se conhecem todas as premissas que,
com segurança, nos permitem precisar o ou os acontecimento(s). Sem documentos não se pode
alicerçar o edifício seguro que resulta do labor daqueles que querem narrar o passado. O documento,
verdadeiro, constitui a grande diferença e a segurança de quem lê.
Um conjunto de cinco documentos, entre 1497 e 1839, tão variegados – quer no assunto quer nos
arquivos de origem – torna difícil a tarefa de distinguir aqueles sobre os quais se devem falar, sem
correr risco de salientar uns, esquecendo outros que são igualmente únicos pelas informações que
prestam.
Os estudos encontram-se em igual pé: é difícil distinguir os que se devem destacar sem novamente
ser injusto:
- A origem das casas de Atouguia e Castanheira na linhagem dos Ataídes – com especial ênfase sobre
a primeira ainda no século XV – é o estudo de Nuno Vila-Santa.
- Da datação do foral medieval da almotaçaria de Lisboa – em que a data de 1444 é, sem sombra de
dúvida, a mais sustentável e que se pode enquadrar na legislação produzida na subsequência das
cortes de Évora, desse mesmo ano – ocupou-se Sandra Pinto.
- O modo como se investigava na primeira metade do século XVIII (1721) encontra-se patente no
trabalho de Diogo Faria sobre «a diplomacia de D. Manuel I» e os apontamentos da investigação sobre
o assunto elaborada por Francisco Dionísio de Almeida, para a Academia Real da História.
- Carlos Alves leva-nos para a reforma da Universidade de Coimbra e a ação de D. Francisco de Lemos,
como seu reitor, numa aventura iluminada sobre aplicar o que a época desejava e impunha.
- O Brasil, em especial o Brasil sertaneiro, e o fascínio que exerceu nas viagens científicas no século
XIX, com especial enfoque na vida e na obra de Raimundo da Cunha Matos, é estudado por Rita de
Cássia Guimarães Melo.
Esperamos que todos os leitores encontrem utilidade neste número.
A assinatura da documentação régia tem sido o leitmotif das últimas capas da revista Fragmenta
Historica. Voltamos hoje ao assunto. A análise da documentação original produzida na Corte Portuguesa
revelou duas formas de validação régia: uma dizendo «El Rey» (apresentando-se invariavelmente
com guarda) e outra dizendo apenas «Rey» (esta sem guarda, invariavelmente também); ambas, por
norma, são acompanhadas por cinco pontos colocados em forma de cruz. Sem hesitação foram por
todos tomados como assinaturas régias que neles estavam per manu escrita.
1499-I-29
PT/TT/CC/1/2/125
1505-IX-3
PT/TT/CC/1/5/37
1510-IX-20
PT/TT/OSCP/A/002/00062
8
1512-VII-1
PT/TT/=OSCP/A/002/00068
1516-III-20
PT/TT/FC/001/414
1519-XII-20
PT/TT/FC/001/344
Mas ao observarmos o ductus da assinatura «Rey» igualmente espaçadas ao longo do tempo do
reinado de D. Manuel verificamos diferentes formas de traçar as mesmas letras, como facilmente se
pode comprovar nas reproduções seguintes
9
1499-IX-29
PT/TT/CC/1/2/131
1507-V-14
PT/TT/CC/1/6/27
1507-V-31
PT/TT/CC/1/6/32
1511-V-10
PT/TT/CC/1/10/32
1512-VI-23
PT/TT/CC/1/11/99
10
1512-VII-4
PT/TT/CC/1/11/101
1512-10-18
PT/TT/CC/1/12/08
1515-X-24
PT/TT/CC/1/19/25
E o mais curioso é que se encontrou um documento, com um pequeno aditamento que foi feito em
um momento posterior à primeira assinatura. E estamos perante duas mãos diferentes a assinar a
palavra «Rey».
11
PT/TT/CC/1/5/35
Podemos então afirmar, com segurança, que a assinatura Rey não é um autógrafo régio, sendo
possivelmente feito pelos diferentes escrivães da puridade de cada um dos Reis. A mesma afirmação é
válida para os reinados dos séculos XV e XVI, pois para todos eles fizemos o mesmo ensaio.
12
UMA LINHAGEM, DUAS CASAS: EM TORNO DOS ATAÍDES E DAS
ORIGENS DAS CASAS DA ATOUGUIA E DA CASTANHEIRA
(SÉCULOS XV-XVI)
Nuno Vila-Santa
CHAM – FCSH/Nova-UAç
Resumo Abstract
Palavras-chave Keywords
Nobreza titulada, Linhagem, Ataídes, Corte, Entitled Nobility, Lineage, Ataídes, Court, House
Casa da Atouguia, Casa da Castanheira of Atouguia, House of Castanheira
Artigo recebido em: 16.09.2016 | Artigo aceite para publicação em: 26.01.2017
14
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
de Coimbra/Aveiro (Lencastres)13. No entanto, até de Casas que não alcançaram, com os Avis,
também para este século permanecem o título condal, apesar das suas claras ambições
em falta estudos sobre Casas condais de nesse sentido, de que o exemplo da Casa dos
preponderância cortesã saliente de que são barões do Alvito (Lobos)19 é elucidativo.
exemplo as Casas de Vimioso (Portugais)14, de Tendo presente que a realidade historiográfica
Odemira (Noronhas)15, de Portalegre (Silvas)16, descrita para o século XVI se ancora
de Sortelha (Silveiras)17, da Feira (Pereiras)18 ou primordialmente na falta de estudos para o
período de nascimento das Casas de diversas
dissertação de doutoramento policopiada apresentada
linhagens, o qual na maioria dos casos se situa
à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 2016. precisamente no século XV, propusemos a
13
Cristóvão da Mata tem em preparação uma dissertação reedição deste estudo sobre a Casa de Atouguia
de doutoramento na Universidade de Coimbra sobre no século XV, o qual já tinha sido realizado
esta Casa cujo título é A Casa de Aveiro na constelação
no âmbito da tese de doutoramento. Para
dos poderes senhoriais: estruturas de domínio e redes
clientelares. tal concorreu não apenas a necessidade de
14
Relembre-se a titulação de D. Francisco de Portugal, responder à falta de estudos de Casas tituladas
1º conde de Vimioso, por D. Manuel I, o seu peso para o século XV, mas também o imperativo
cultural na sua época e a sua rivalidade cortesã com D.
de aprofundar as origens quatrocentistas da
António de Ataíde, 1º conde da Castanheira, a partir do
exercício consecutivo do cargo de vedor da fazenda de conhecida ascensão, em tempo de D. João
D. Francisco e dos seus descendentes. Outro aspecto III, de D. António de Ataíde e da sua Casa da
interessante a estudar nesta Casa é o seu alinhamento, Castanheira.
em 1580, a favor das pretensões de D. António, Prior
do Crato, apesar do parentesco estreito com a Casa de Assim, este artigo, referindo as origens da
Bragança (Cf. Joaquim Veríssimo Serrão, O Reinado de linhagem dos Ataídes, estudará o processo de
D. António, Prior do Crato, vol. I, Coimbra, Instituto de
formação da Casa de Atouguia, detalhando
Alta Cultura, 1956, p. 97).
15
Apesar de nascida no século XV, esta Casa, tal todas as questões relacionadas com
como a Casa de Atouguia, também viu o seu título património, casamentos e trajectórias dos
interrompido, o qual foi recuperado, em 1556, mercê diferentes membros da Casa, dando especial
da trajectória de D. Sancho de Noronha, mordomo-mor
destaque aos seus titulares. Após estudar o
da rainha D. Catarina (Cf. D. António Caetano de Sousa,
História Genealógica da Casa Real Portugueza, tomo IX, processo que desembocou na titulação de
Lisboa, Régia Oficina Sylviana, 1742, p. 569). Álvaro Gonçalves de Ataíde como 1º conde
16
Desde o reinado de D. Manuel I ao de D. Henrique, de Atouguia, analisar-se-á a sua sucessão e a
cabendo destacar que a Casa foi herdada, em 1581,
evolução da Casa em tempo de D. Martinho
por D. Juan da Silva, embaixador de Filipe II e um dos
mentores do Portugal filipino (Cf. Mafalda Soares da de Ataíde, 2º conde de Atouguia, bem como a
Cunha, «Títulos portugueses y matrimónios mixtos en origem do processo de autonomização da Casa
la Monarquía Católica», in Las Redes del Imperio. Élites da Castanheira20.
Sociales en la articulación de la Monarquia Hispánica,
1492-1714, org. Bartolomé Yun Casalilla. Madrid: Neste processo será relevante relembrar que
Marcial Pons Historia/Universidad Pablo de Olavide, os arquivos originais da Casa de Atouguia foram
2009, p. 218).
17
Mencione-se a falta de estudos sobre esta Casa com
origem em D. Luís da Silveira e que, mesmo após o na encruzilhada da expansão” in A Alta Nobreza e
precoce falecimento deste e apesar das dificuldades a Fundação do Estado da Índia. Actas do Colóquio
subsequentes manteve capacidade de influência Internacional, coordenação de João Paulo Oliveira e
cortesã a ponto de D. Sebastião ter restaurado o título Costa e Vítor Rodrigues, Lisboa, CHAM/IICT, 2004, pp.
de 2º conde Sortelha em D. Diogo da Silveira. 191-198.
18
Anote-se como esta Casa não viu o título não 19
Esta Casa foi já estudada até ao período manuelino
confirmado a nenhum dos seus titulares durante a por Alexandra Pelúcia, “A baronia do Alvito e a expansão
dinastia de Avis, um facto que nem sempre se registou manuelina no Oriente ou a reacção organizada à política
para outras Casas. Cf. Miguel Rodrigues Jasmins, Luís imperialista” in Idem, pp. 529-545 e por António João
Filipe Oliveira, “Um processo de reestruturação do Feio Valério, Subsídios para o estudo dos Lobos da
domínio social da nobreza. A titulação na segunda Silveira, senhores de Alvito (1383-1488), Alvito, Câmara
dinastia”, s.d., separata da Revista Económica e Social, Municipal, 1992.
1988, p. 106. Esta casa foi já estudada até D. Manuel 20
A posterior evolução da Casa de Atouguia até 1588
I por Ana Manuel Guerreiro, “Os condes da Feira encontra-se disponível em Nuno Vila-Santa, Op. Cit.
15
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
directamente afectados pela extinção da Casa, dos Riba-Douro23, as armas dos Ataídes
ordenada por D. José I (1750-1777), no âmbito encontravam-se, desde o século XV, ligadas à
das conjuras dos marqueses de Távora e duques tomada de Santarém24, na qual teria participado
de Aveiro, então aparentados com o 11º conde Martim Viegas de Ataíde, filho de Egas Moniz,
de Atouguia21. Tal acontecimento afectou aio do monarca D. Afonso Henriques (r. 1128-
directamente a documentação disponível para 1185). O apelido da linhagem derivava da torre
historiar a evolução da Casa de Atouguia nos e quinta de Ataíde, na freguesia de São Pedro
séculos XV e XVI. Facto contrário registou- de Ataíde, no actual conselho de Amarante25,
se relativamente à Casa da Castanheira. onde tinham recebido as primeiras doações.
A documentação para esta no século XVI
A maior ligação dos Ataídes à corte régia
encontra-se disponível na Torre do Tombo
registou-se posteriormente quando, nos
no fundo relativo a esta Casa. Esta situação
reinados de D. Sancho II (r. 1223-1248) e de
explica a razão de ao longo deste trabalho
D. Afonso III (r. 1248-1279), o representante
muitas das questões relacionadas com a Casa
da linhagem foi nomeado mordomo-mor de
de Atouguia terem de ser necessariamente
ambos os monarcas, tendo a maioria dos
colocadas mais como hipóteses de trabalho do
Ataídes, no âmbito da guerra civil de 1245-
que como certezas. Ainda assim, a comparação
1248, apoiado o partido do Bolonhês26. Já
com a evolução da Casa da Castanheira parece-
durante o reinado de D. Afonso IV (r. 1325-
nos fortalecer os argumentos defendidos em
1357), a influência da linhagem cresceu na
relação à Casa de Atouguia.
sombra dos Teles, a ponto de, no reinado de D.
Fernando (r. 1367-1383) serem protegidos da
1. Origens de uma linhagem (Século XII-1402) rainha D. Leonor Teles27 (1350-1386) e estarem
em condições de consolidar a sua ascensão
Quando, no último quartel do século XVI, D.
social, a par com a linhagem dos Coutinhos28.
João Ribeiro Gaio22 escrevia os versos iniciais,
com o intuito de elogiar a ascendência de D. Era então representante da linhagem Martim
Luís de Ataíde, nomeado por D. Sebastião como Gonçalves de Ataíde, quarto neto de Martim
vice-rei da Índia em duas ocasiões distintas Viegas de Ataíde e figura destacada do reinado
(1568-1571; 1578-1581), general indigitado fernandino. Bisneto de Gonçalo Viegas que,
para a expedição a Marrocos e 3º conde em 1290, possuía a Quinta do Pinheiro, na
restaurado de Atouguia, em 1577, pretendia
dessa forma captar a atenção para o facto
da carreira de sucesso de D. Luís ter ficado a 23
Assim o referem João Bernardo Galvão-Telles, Miguel
dever muito à Casa de onde este provinha. Metelo de Seixas, “Em redor das armas dos Ataídes:
problemática da “família heráldica” das bandas”,
Na realidade, à data da sua escrita, a Casa da separata Armas e Troféus, IX série, Janeiro-Dezembro
Atouguia e a linhagem dos Ataídes eram, de de 2008, p. 61, apesar da opinião contrária de D. Luiz
facto, conceituadas e antigas. Embora a Casa Lencastre e Távora, Dicionário das famílias portuguesas,
só tivesse nascido no século XV, a linhagem Lisboa, Quetzal Editores, 1989, p. 85 e de José Augusto
de Sotto Mayor Pizarro, “Os de Ataíde. De Santa Cruz
remontava ao período da fundação do Reino. do Tâmega à Corte Régia (Séculos XII a XV)”, separata
Pela sua ligação à influente nobreza medieval Armas e Troféus, IX série, Janeiro-Dezembro de 2008,
p. 32.
24
Cf. João Bernardo Galvão-Telles, Miguel Metelo de
Seixas, “Em redor…”, p. 91.
21
Cf. Nuno Gonçalo Monteiro, D. José. Na Sombra de 25
Cf. António Machado Faria, Op. Cit., p. 64.
Pombal, Mem Martins, Círculo de Leitores, 2006, pp. 26
Cf. José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, “Os de
108-133. Ataíde…”, pp. 36-37.
22
Bispo de Malaca entre 1578 e 1601, deverá 27
Cf. Rita Costa Gomes, A Corte dos Reis de Portugal no
ter conhecido D. Luís de Ataíde aquando do seu final da Idade Média, s.l., Difel, 1995, p. 92-93.
segundo governo asiático e sido um adepto da acção 28
Cf. Mafalda Soares da Cunha, “A nobreza portuguesa
reformadora seguida pelo vice-rei, razão pela qual, em no início do século XV: renovação e continuidade”,
data não referida por António Machado de Faria (Cf. Op. Revista Portuguesa de História, vol. XXXI-2, 1996, p.
Cit.), deverá ter composto a referida quintanilha. 224.
16
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
17
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
realeza de D. João I, desde que este era mestre Ataíde, Vasco Fernandes de Ataíde, D. Isabel de
de Avis, combatente em Aljubarrota e figura, Ataíde, D. Helena de Ataíde, D. Filipa de Ataíde
naqueles anos, em processo de ascensão e D. Catarina de Ataíde55. Ainda antes do seu
político-militar, que o levaria a alcançar a regresso, recebeu do rei e da rainha os bens
prestigiante nomeação de marechal do Reino, que tinham pertencido ao marido56 e a quinta
em 139747. Tendo Mécia Vasques e seus filhos de Randufe, no termo de Chaves, pelo serviço
acompanhado o marido durante o cerco, em de “criar nossos filhos”57. Estes bens, à data
atenção ao seu parentesco e por provável incerta da sua morte, devem ter revertido para
intercessão de Gonçalo Vasques Coutinho, os Coutinhos por não existir referência deles
D. João I já lhe concedera o privilégio de um na Casa de Atouguia. Tendo sido nomeada
cântaro de água por dia48. Na altura, muito aia dos quatros primeiros infantes (D. Duarte,
provavelmente Álvaro Gonçalves de Ataíde, D. Pedro, D. Henrique e D. Isabel), em data
primogénito do casal, deverá ter sido o filho desconhecida58, Mécia Vasques teve ocasião
escolhido como penhor entregue a D. João I, não só de reforçar os serviços da linhagem
aquando da negociação da rendição. dos Coutinhos, mas também de reabilitar e
relançar a linhagem dos Ataídes por ser mãe do
Perante a autorização do monarca castelhano,
representante da linhagem: Álvaro Gonçalves
que lhe agradeceu os serviços e lhe prometeu
de Ataíde.
mercês do lado de lá da fronteira, Martim
Gonçalves de Ataíde entregou Chaves49.
Tendo partido para Castela com a esposa e 2. Álvaro Gonçalves de Ataíde e o nascimento
seus filhos, os seus bens foram entregues a da Casa de Atouguia (1402-1452)
Gonçalo Vasques Coutinho50, com excepção da
A decisão joanina de aceitar o retorno de Mécia
cidade de Chaves, a qual foi doada a D. Nuno
Vasques e dos seus descendentes inseriu-se na
Álvares Pereira51, integrando futuramente
sua política nobiliárquica de continuidade de
o património da Casa de Bragança. Martim
serviço e de influência das principais linhagens
Gonçalves deverá ter vivido até 1392, pois
do reinado fernandino, alterando-se apenas
ainda matou um português com uma lança em
o seu peso correlativo59. São conhecidos
Villalobos52, aquando da incursão portuguesa
vários outros casos de reabilitação política e
em Castela.
social, sendo o mais destacado o de D. Pedro
Provavelmente a propósito do seu falecimento de Meneses, 1º capitão de Ceuta e fundador
e ainda durante a invasão portuguesa a
Castela53, é possível, contudo, que D. João I
tenha decidido autorizar o regresso a Portugal 55
Cf. Genealogia 1: Ascendência e Descendência dos
de Mécia Vasques Coutinho e dos seus filhos Ataíde nos séculos XIV e XV, na qual se exclui a análise
do ramo de Nuno Gonçalves de Ataíde, senhor de
e criados. Por intercessão de Gonçalo Vasques Gaião, e irmão de Martim Gonçalves de Ataíde, cuja
Coutinho e de Beatriz Gonçalves de Moura, descendência no século XVI viria a recair no conhecido
que devia servir na Casa da rainha D. Filipa capitão de Safim, Nuno Fernandes de Ataíde. Sobre esta
(r. 1387-1415) desde o seu casamento com figura e a sua ascendência veja-se o estudo de André
Teixeira, “Nuno Fernandes de Ataíde, o nunca está
D. João I54, Mécia Vasques regressou com quedo, capitão de Safim” in A Nobreza e a Expansão.
os seus descendentes: Álvaro Gonçalves de Estudos Biográficos, Cascais, Patrimonia, 2000, pp. 159-
207.
47
Cf. Ibidem, p. 60; João Paulo Oliveira e Costa, Henrique, 56
Cf. Arquivo Nacional Torre do Tombo [ANTT],
o Infante, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2009, p. 40. Chancelaria de D. João I [CDJI], livro 2, fl. 148, Viseu,
48
Cf. Fernão Lopes, Op. Cit., vol. II, cap. LXIII. [Link].1389 – PUB. Chancelarias Portuguesas: D. João
49
Cf. Ibidem, cap. LXVIII. I, tomo 3, Lisboa, Centro de Estudos Históricos da
50
Cf. Luís Filipe Oliveira, Op. Cit., p. 37. Universidade Nova de Lisboa, doc. 535,
51
Cf. Fernão Lopes, Op. Cit., vol. II, cap. CVII. 57
Cf. ANTT, CDJI, livro 2, fl. 180, Porto, 16.X.1386 – PUB.
52
Cf. Ibidem, cap. CVII. Ibidem, tomo 3, doc. 1455, p. 218.
53
Cf. Maria Helena da Cruz Coelho, Op. Cit., pp. 97-103. 58
Cf. João Paulo Oliveira e Costa, Op. Cit., p. 40.
54
Visto ser aia da rainha (Cf. Maria Helena da Cruz 59
Cf. Mafalda Soares da Cunha, “A nobreza
Coelho, Op. Cit., p. 143). portuguesa…”, p. 227.
18
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
19
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
encontrasse uma esposa. No entanto, Ataíde A ideia de que terá acompanhado o infante
não foi capaz de encontrar a desejada noiva75. D. Pedro na sua viagem pela Europa torna-
No seguimento do encerramento do Concílio, se ainda mais crível, tendo em conta que
em 1418, Ataíde não só apoiou a ideia do seu Álvaro Gonçalves só ressurge em 1428 como
tio Gonçalo Vasques Coutinho de promover testemunha dos casamentos aprazados do
Luís Coutinho ao bispado de Coimbra76, como infante D. Pedro com D. Isabel de Aragão84,
recebeu, em nome do infante D. Pedro, a condessa de Urgel (v. 1409-1443), e do infante
marca de Treviso77, na Hungria, ficando o D. Duarte com a infanta D. Leonor de Aragão
fidalgo como administrador da mesma. Esta (v. ?-1445)85. Em 1429, foi enviado a Castela
fora doada ao infante por Sigismundo (v. por D. João I, conjuntamente com Nuno
1368-1437), rei da Hungria e Imperador do Martins da Silveira, para conciliar o monarca
Sacro Império Romano-Germânico, de quem castelhano com os reis de Navarra e de Aragão
Álvaro Gonçalves fora companheiro de armas e os infantes D. Pedro e D. Henrique86, sendo
na Bósnia78. Em seguida, Ataíde rumou em mencionado que já então era homem “de
peregrinação à Terra Santa79. De regresso ao quien el Rey de Portugal mucho fiaba”87. Ainda
Reino e após ter participado no socorro a Ceuta nessa sequência, veio a ser testemunha pelo
em 141980, poderá ter influenciado o infante infante D. Pedro da paz de Segura de 143288,
D. Pedro a partir no seu périplo europeu81, a qual selava definitivamente quase cinquenta
ficando em dúvida se teria ou não partido com anos de guerra entre Portugal e Castela.
o infante, então desapontado com a sua falta
Durante aqueles anos, Álvaro Gonçalves
de espaço político82. Este aspecto em particular
ganhara não apenas a consideração do infante
e a possibilidade de envolvimento de Álvaro
D. Pedro, mas também o respeito de D. João
Gonçalves de Ataíde na referida viagem carece
I, como as nomeações mencionadas e as
ainda de aprofundamento no quadro dos
primeiras doações e privilégios concedidos à sua
estudos sobre o infante D. Pedro83.
Casa confirmam. Importa realçar que a maioria
das doações e privilégios foram concedidos a
75
Por carta de 8 de Janeiro de 1417, escrita em Arraiolos, partir dos bens da Casa de Coimbra, dirigida
e dirigida ao fidalgo. Cf. Francis M. Rogers, The Travels pelo infante e duque D. Pedro, sendo muitas
of the Infante Dom Pedro of Portugal, Cambridge,
Harvard University Press, 1961, p. 13.
delas sujeitas a confirmações posteriores.
76
Cf. Luís Filipe Oliveira, Op. Cit., pp. 63-64. Malogradamente, não se conhecem diversos
77
Cf. MH, vol. II, doc. 139. originais, quer na Chancelaria de D. João I89,
78
Como é relembrado no epitáfio da sepultura de Álvaro quer nas Confirmações da Casa de Atouguia90.
Gonçalves de Ataíde publicado em Luís Filipe Matança
da Costa Monteiro Pontes, Do mundo da corte ao mundo Entre as iniciais doações joaninas conhecidas
da memória: subsídios para o estudo da mentalidade contam-se: o privilégio para ter em Monforte
cavaleiresca da nobreza portuguesa, 1400-1521,
dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de
de Rio Livre, antiga freguesia do arcebispado
Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa, 2008, p. 160
79
Cf. Francis M., Rogers Op. Cit., p. 24. 84
Cf. MH, vol. III, doc. 121.
80
Cf. Anselmo Braamcamp Freire, Op. Cit., vol. I, p. 81. 85
Cf. MH, vol. III, docs. 128 e 129.
81
Cf. Margarida Sérvulo Correia, As Viagens do Infante 86
Cf. Humberto Baquero Moreno, A Batalha de
D. Pedro, Lisboa, Gradiva, 2000, pp. 44-45. Alfarrobeira. Antecedentes e significado histórico, vol.
82
Devido ao facto da preferência joanina pelo infante D. II, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1979-1980, p.
Henrique se ter revelado claramente em 1416 (Cf. João 721.
Paulo Oliveira e Costa, Op. Cit., p. 117). 87
Cf. MH, vol. III, doc. 146, p. 309.
83
Ainda está por realizar, sobretudo na sequência da 88
Cf. MH, vol. IV, doc. 43.
publicação da biografia do infante D. Henrique, de 89
É possível que entre os documentos perdidos ao longo
João Paulo Oliveira e Costa, a biografia deste infante. do tempo na Chancelaria de D. João I se encontrassem
Esta importante lacuna historiográfica foi já notada por algumas das doações originais à Casa.
Humberto Baquero Moreno em 1997 (Cf. Humberto 90
Pedidas por Simão da Cunha de Ataíde a D. Filipe III,
Baquero Moreno, O Infante D. Pedro, Duque de Coimbra em 1621, a propósito de uma disputa de bens entre a
– Itinerários e Ensaios Históricos, Porto, Universidade Casa de Atouguia e a Casa de Povolide. Cf. ANTT, Casa
Portucalense, 1997, p. 7). de Povolide, maço 21, doc. 5.
20
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
21
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
Deverá ter sido pouco depois do falecimento D. Joana de Castro, D. Filipa de Castro, D. Mécia
de D. Duarte, em 1438, que Álvaro Gonçalves, de Castro e D. Leonor de Meneses. Em data
após acompanhar a saída do infante D. Pedro incerta, teve Álvaro Gonçalves ainda D. Pedro
de Coimbra108 a fim de participar nas Cortes de Ataíde, abade de Penalva, e Gil Vasques114.
de Torres Novas de 1438, nas quais prestou
Desta fase deve também datar o casamento de
juramento109, concretizou o seu enlace com
D. Helena de Ataíde com D. Pedro Vaz da Cunha,
D. Guiomar de Castro. Já desde o tempo de D.
senhor de Angeja, cuja descendência viria
João I se dizia que o fidalgo estava apaixonado
a estar associada a D. Lopo de Albuquerque,
por D. Guiomar e que inclusivamente jogara
titulado por D. Afonso V, em 1475, como 1º
aos dados com o seu falecido irmão Vasco
conde de Penamacor. Igualmente daquele
Fernandes para saber quem casaria com ela110.
momento datará o consórcio de D. Filipa de
A concretização do enlace, que aparentemente
Ataíde que, como mencionado, fora dama da
já fora proposto pelo infante D. Pedro a D.
rainha D. Filipa, com Gonçalo Anes Chichorro,
João I e à rainha D. Filipa111, realizou-se com o
3º senhor de Mortágua, cuja descendência
devido aval régio, confirmado por documento
estaria associada a D. Sancho de Noronha,
de chancelaria112, em finais de 1438.
também titulado pelo Africano, em 1446,
Esta união não deverá, contudo, ser desligada como 1º conde de Odemira. Apenas da irmã
do consórcio da irmã de Álvaro Gonçalves, D. mais nova de Álvaro Gonçalves, D. Catarina de
Isabel de Ataíde, com D. Fernando de Castro, Ataíde, se desconhece o percurso sem geração.
o qual julgamos deverá ter ocorrido nesta
A ocorrência destes enlaces no contexto do
altura também, visto D. Guiomar ser irmã de
precoce falecimento de D. Duarte e das tensões
D. Fernando de Castro. Tendo já sido anotado
políticas a propósito da co-regência do Reino,
o conhecimento e semelhança de perfil
entre o infante D. Pedro e a rainha D. Leonor115,
pessoal e cortesão entre ambos, é notório
visava conferir estabilidade à Casa e garantir
que o duplo enlace endogâmico procurava
apoios políticos face à luta política seguinte.
consolidar a ascensão política das duas
Nessa mesma lógica se pode compreender que
linhagens, reforçando socialmente uma aliança
tendo D. Duarte escolhido Nuno Martins da
política anterior. Dessa aliança seriam, assim,
Silveira e a sua esposa para os cargos de aios
esperadas novas benesses como uma possível
do príncipe D. Afonso e da infanta D. Leonor116,
titulação de ambas as Casas.
tenha sido por decisão das Cortes de Lisboa de
Da união entre Álvaro Gonçalves e D. Guiomar 1439 que ambos foram afastados dos cargos
nasceram113: D. Martinho de Ataíde, D. João de em prol de Álvaro Gonçalves e D. Guiomar117.
Ataíde, D. Vasco de Ataíde, D. Álvaro de Ataíde,
Na qualidade de conselheiro do período da
co-regência118, Ataíde foi mandatado pelo
108
Cf. Rui de Pina, Chronica de D. Afonso V, vol. I, edição infante D. Pedro para informar a rainha D.
de G. Pereira, Lisboa, Escriptorio, 1901, cap. CLV; Gaspar Leonor da deliberação das Cortes pela qual
Dias Landim, O Infante D. Pedro. Chronica Inedita, vol.
I, edição de Luciano Cordeiro, Lisboa, Bibliotheca de esta era constrangida a entregar D. Afonso
Classicos Portuguezes, 1892, cap, XXIX.
109
Para jurar rei D. Afonso V. Cf. MH, vol. IV, doc. 96.
110
Cf. Inventários e Sequestros das Casas de Távora e 114 Fora do casamento. Para Gil Vasques apenas se
Atouguia em 1759, edição de Luiz de Bivar Guerra, conhece a carta régia, na qual surge identificado como
Lisboa, Edições do Arquivo do Tribunal de Contas, 1954, filho de Álvaro Gonçalves e escrivão das carnes e caça
p. 278. da cidade de Lisboa (Cf. ANTT, CDAV, livro 19, fl. 25,
111
Cf. ANTT, Casa de Povolide, Maço 21, doc. 5. s.l., [Link].1439), desconhecendo-se o seu posterior
112
Para a primeira carta de confirmação de casamento percurso.
de D. Guiomar veja-se: ANTT, CDAV, livro 34, fl. 74, 115
Cf. Saul António Gomes, D. Afonso V O Africano, s.d.,
s.l., 1.X.1438. Já para a segunda e definitiva carta de Círculo de Leitores, 2006, pp. 44.
contrato de casamento de Álvaro Gonçalves veja-se 116
Cf. Gaspar Landim, Op. Cit., vol. I, cap. IX.
Idem, livro 18, fl. 44, s.l., 24.I.1439. 117
Cf. João Silva de Sousa, D. Duarte, Infante e Rei, e as
113
Cf. Genealogia 2: Descendência de D. Álvaro de Casas Senhoriais, Lisboa, SHIP, 1991, p. 17.
Ataíde, 1º conde de Atouguia (Século XV). 118
Cf. Rita Costa Gomes, Op. Cit., p. 229.
22
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
V119. Tal sucedeu não apenas por ser “homem dos infantes de Aragão126. Despontando já
prudente e bem razoado, e de que muito nesse episódio de 1440 bem como noutro
fiava”120 o infante D. Pedro, mas também da mesma época a veia militar do jovem D.
pelos contactos anteriores que já tivera com Afonso V127, e por consequência iniciando-se as
esta, que assinara, em seu nome e no da sua tensões que viriam a opor o rei e o regente nos
esposa121, confirmações de bens da Casa. anos seguintes, o infante D. Pedro não deixou
Tendo Álvaro Gonçalves falhado na sua missão, de reconhecer a importância dos serviços
coube ao infante D. Henrique convencer a prestados por Ataíde, fazendo-lhe um conjunto
rainha a entregar D. Afonso V122. de importantes mercês.
A partir desse momento, e posteriormente, Entre elas merece destaque o apoio à
aquando da fuga da rainha para o Crato e da concessão, em 1443, do Priorado do Crato a
entrega da infanta D. Leonor (v. 1434-1467) D. Henrique de Castro128, o qual era sobrinho
a D. Guiomar de Castro até à sua partida de D. Guiomar de Castro, e por falecimento
para a Alemanha123, de quem seria aia até deste, novo apoio à entrega, já com D. Afonso
ao casamento da infanta com o Imperador V em finais de 1448, do Priorado a D. João de
Frederico III (v. 1415-1493), Álvaro Gonçalves Ataíde129, secundogénito de Álvaro Gonçalves
passava a acumular dois dos mais importantes e de D. Guiomar. A D. João de Ataíde, pela sua
cargos da corte: aio do jovem monarca e proximidade pessoal, concedera já o regente
governador da Casa do infante D. Pedro, então a alcaidaria-mor de Amieira130, tendo em
regente do Reino. Isto é, Ataíde tornou-se conta os serviços do fidalgo no cerco de Rodes
numa figura incontornável de toda a política da de 1444131. Ao próprio Álvaro Gonçalves, o
época e foi um privilegiado agente mediador regente D. Pedro confirmou todas as anteriores
entre o jovem monarca e o regente, o que lhe mercês de D. João I e D. Duarte com direito
conferiu um indiscutível poder de intervenção de transmissão ao seu primogénito132 e fez-
política e lhe abriu o caminho para a titulação. lhe, em data desconhecida, uma importante
doação: a alcaidaria-mor de Coimbra133.
É neste quadro que, logo em 1439, se entende
que o infante D. Pedro o tenha nomeado Esta doação assumia um significado especial
coudel-mor de Tavira124 e lhe tenha confiado em duas vertentes. Em primeiro lugar, por
a guarda do jovem D. Afonso V enquanto se revelar o grau de confiança e de cumplicidade
iniciava a guerra contra o Prior do Hospital, entre o infante e o seu criado, a ponto do
que decidira apoiar as pretensões da rainha D. infante lhe conceder o comando militar da
Leonor. Enquanto decorria a investida, Álvaro sede do seu ducado. Em segundo, dado
Gonçalves de Ataíde procurou, sem sucesso, o capital simbólico associado à posse da
convencer o jovem monarca dos motivos do
infante D. Pedro para guerrear os partidários 126
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., pp. 51 e seguintes.
da sua mãe125, uma vez que esta pretendia que 127
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. I, cap. LXXI.
Portugal se envolvesse nas lutas peninsulares 128
Cf. MH, vol. VIII, doc. 8.
129
Cf. Ibidem, vol. IX, docs. 201 e 202.
119
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. I, cap. XLVII; Duarte 130
Cf. Humberto Baquero Moreno, Op. Cit., vol. I, p. 408.
Nunes Leão, Cronicas e vidas dos reys de Portugal, D. 131
Cf. Cristóvão Alão Moraes, Pedatura Lusitana, vol. IV,
Duarte, undecimo, e D. Affonso V, duodecimo, Lisboa, Braga, Edições Carvalho de Basto, 1998, pp. 280-281.
Officina de Joze de Aquino Bulhoes, 1780, cap. VII. 132
De Cernache e dos casais de Chança e Carvalhal (Cf.
120
Cf. Gaspar Landim, Op. Cit., vol. I, cap. XXX, p. 30. ANTT, CDAV, livro 20, fl. 4, s.l., [Link].1439), dos castelos
121
Da doação de Cernache e dos casais de Chança e vilas de Monforte de Rio Livre e Vinhais e das terras
e Carvalhal (Cf. ANTT, CDAV, livro 34, fl. 104, s.l., de Vilar Seco de Lomba e Vale de Paçó (Cf. Idem, livro
[Link].1438). 9, fl. 86v, s.l., [Link].1439), do privilégio para seus amos
122
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. I, cap. VII. e caseiros (Cf. Idem, livro 12, fl. 84, s.l., 24.X.1440) e da
123
Cf. Gaspar Landim, Op. Cit., vol. II, cap. XII; Duarte carta de coutada à Quinta da Foz (Cf. Idem, livro 25, fl.
Nunes Leão, Op. Cit., cap. IX; Rui de Pina, Op. Cit., vol. 3, s.l., [Link].1444).
I, cap. LXVI. 133
Apenas se conhece a confirmação do período de
124
Cf. ANTT, CDAV, livro 20, fl. 67, s.l., [Link].1439. governo de D. Afonso V (Cf. ANTT, Místicos, livro 3, fl.
125
Cf. Gaspar Landim, Op. Cit., vol. II, cap. XVIII. 117, s.l., [Link].1449).
23
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
alcaidaria-mor de Coimbra, enquanto cidade infante D. Fernando, de casar o seu herdeiro
de grande importância em vários momentos com uma filha do infante142. É provável que
capitais da história da Monarquia Portuguesa. Álvaro Gonçalves não tenha sido alheio a esta
Por estes motivos, a alcaidaria-mor de Coimbra promessa. A sua ligação aos Castros permitia
foi, sem dúvida, umas das jóias zelosamente ainda a Ataíde assegurar e manter junto de D.
mantidas pela Casa de Atouguia e que muito Pedro o decisivo apoio político do infante D.
a prestigiavam. Henrique à sua conturbada regência.
A esta última mercê acresceram outras: As ligações de Ataíde ao infante D. Henrique
doações de propriedades em Loulé134 e no surgem também atestadas pelo facto de, em
Porto135, e da Quinta do Judeu136, em Porto de 1447, ter armado uma nau para a Guiné143,
Mugém, e ainda privilégios para os moradores cujo comando atribuiu a João de Castilha144,
de Monforte de Rio Livre137. No mesmo sentido, e até por existir referência de que teria
foram as doações a D. Guiomar, a qual também estado nas Canárias em data incerta145.
recebeu do regente confirmações em nome Ambas apontam não só para a comunhão de
do casal138 e viu confirmada a posse da Quinta interesses com D. Henrique, mas também
do Reguengo de Chantas139 e o aforamento para a percepção de que a Expansão poderia
do paul do Feijoal140, ambos no termo de trazer proventos económicos vantajosos, o
Santarém. Todas estas mercês traduziam o que poderá explicar os desentendimentos que
reconhecimento do regente, da valia do seu fiel Castilha teve com o infante D. Henrique146.
servidor, colocando-o em posição de poder vir Ainda neste plano se poderá enquadrar o que
a receber um título. Inserem-se ainda na sua parece ter sido o interesse pela dilatação da fé
política de rodear D. Afonso V de apaniguados fortemente evidenciado pela Casa de Atouguia
seus como forma de garantir a sua influência em períodos posteriores. Os dois projectos
no período pós-regência141. ajudavam Álvaro Gonçalves de Ataíde a
alicerçar o seu poder. A questão da dilatação
A aliança política com os Castros durante estes
da fé foi, aliás, um dos elementos integrados
anos manteve-se, como elucida a nomeação
na heráldica da Casa de Atouguia em inícios do
de D. Henrique de Castro e a promessa feita
século XVI147, vindo a constituir-se como um
pelo infante D. Pedro, aquando da nomeação
dos elementos para a afirmação dos membros
de D. Fernando de Castro, em 1440, para a
da Casa em diversos contextos. Este último
devolução de Ceuta a troco da libertação do
aspecto não deve também ser desligado do
interesse evidenciado por membros da Casa
134
Cf. ANTT, CDAV, livro 20, fl. 9v., s.l., 9.I.1440.
135
Cf. ANTT, CDAV, livro 25, fl. 68v., 21.I.1445.
na participação activa na reforma das ordens
136
Tratando-se da primeira confirmação, por parte religiosas, como adiante se constatará.
da Coroa, de anterior compra da Quinta a D. Maria
da Cunha (Cf. ANTT, CDAV, livro 25, fl. 141, s.l.,
Quando o infante D. Pedro abandonou a
[Link].1443), a qual foi novamente rectificada em 1444 regência, Ataíde permaneceu na corte como
(Cf. Idem, livro 25, fl. 1, s.l., [Link].1444). conselheiro ao lado de D. Afonso V148. Tendo
137
Isentando-os do pagamento de diversos impostos e
da obrigação de irem à guerra (Cf. ANTT, CDAV, livro 27, 142
Cf. João Paulo Oliveira e Costa, Op. Cit., pp. 261-262.
fl. 110v., s.l., 21.X.1440). 143
Cf. Gomes Eanes Zurara, Crónica do Descobrimento e
138
Como da doação de Cernache e dos casais de Chança Conquista da Guiné, introdução, actualização de texto e
e Carvalhal (Cf. ANTT, CDAV, livro 34, fl. 104v., s.l., notas de Reis Brasil, Mem Martins, Publicações Europa-
[Link].1439) ou da Quinta do Judeu, em Porto de Mugém América, s.d., cap. LI.
(Cf. Idem, livro 25, fl. 141v.). 144
Cf. Ibidem, cap. LXVIII.
139
Também doada a Álvaro Gonçalves. Cf. ANTT, CDAV, 145
Cf. Afonso Zúquete, Nobreza de Portugal e do Brasil,
livro 25, fl. 18v., 28.I.1442. Lisboa, Editorial Enciclopédia, 1960, p. 331.
140
Igualmente a favor de Álvaro Gonçalves. Cf. ANTT, 146
Cf. Gomes Eanes Zurara, Op. Cit.,cap. LXIX.
CDAV, livro 25, fl. 20, s.l., 10.I.1444. 147
Sobre a problemática da heráldica dos Ataídes e da
141
Nessa mesma lógica promovera, logo nas Cortes de Casa de Atouguia veja-se: João Bernardo Galvão-Telles,
Torres Vedras de 1441, a ideia de casar a sua filha D. Miguel Metelo de Seixas, “Em redor…”, p. 94.
Isabel com D. Afonso V, vindo o consórcio a realizar-se 148
Cf. Humberto Baquero Moreno, Op. Cit., vol. II, p.
em Maio de 1447. 723.
24
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
o monarca consciência da importância do seu teria contribuído para fazer desleal o infante
apoio político perante o agravamento das D. Pedro ainda antes deste efectivamente o
relações com o antigo regente e sabendo que ser154, é possível relativizar essa afirmação.
Álvaro Gonçalves gozava de grande confiança Na verdade, Ataíde começara por juntar-se a
e influência junto de D. Pedro, decidiu, ainda D. Pedro155 e só o abandonou quando este se
antes de Alfarrobeira, premiá-lo. Por este recusou a dar passagem a D. Afonso (v. 1377-
motivo, em Dezembro de 1448, fez-lhe doação 1461), 1º duque de Bragança156, tornando
da Atouguia e do padroado da sua Igreja, inevitável o conflito com o rei. Ou seja, tudo
associando título condal149. aponta para que a participação de Álvaro
Gonçalves e do seu herdeiro D. Martinho na
Se de um ponto de vista mais geral, as titulações
batalha de Alfarrobeira, ao lado do rei157, não
que foram atribuídas antes e pouco depois de
tenha decorrido de uma simples traição de
Alfarrobeira se justificam pela necessidade de
Ataíde ao infante D. Pedro. Ter-se-á tratado,
premiar os indivíduos das linhagens do tempo
antes, da constatação de que não seria possível
de D. João I, nos quais também se conta a mais
convencer o infante a adoptar outra atitude e
tardia titulação, em 1460, dos Castros como
que, nesse cenário, tal como as fontes referem,
condes de Monsanto, cuja fidelidade D. Afonso
seria preferível não arriscar o adquirido do
V necessitava de assegurar, também se constata
lado do provável derrotado158.
que muitos dos títulos criados decorreram das
ligações ao infante D. Pedro150. Nesse sentido, Neste sentido, a sua aposta foi certeira,
apesar dos títulos criados pretenderem na medida em que daquela forma não só
configurar uma nova nobreza da dinastia, eles assegurou o futuro da sua Casa, através da
corresponderam, nesta fase, à consolidação confirmação, posterior a Alfarrobeira, de todas
de uma nobreza tardo-medieval151, a qual só as doações da Casa159, como ainda alcançou
foi plenamente substituída pela segunda vaga uma nova concessão: o campo do Lobão,
de titulações afonsinas da década de 1470152. no termo de Coimbra160. Porém, as mercês
Nessa óptica, a atribuição do título condal a estenderam-se ainda a D. Guiomar, que
Álvaro Gonçalves de Ataíde, o qual é lembrado
como “feitura do infante”153 D. Pedro, é uma
154
Cf. Duarte Nunes Leão, Op. Cit., vol. I; cap. XVII; PINA,
Rui de, Op. Cit., vol. II, cap. XCVI.
decorrência da referida política nobiliárquica. 155
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., p. 72; Francis M.
Apesar da maioria das fontes afirmar que Álvaro Rogers, Op. Cit., p. 62.
156
Cf. Francis M. Rogers, Op. Cit., p. 62.
Gonçalves teve ordem de prisão de D. Afonso V 157
Cf. Humberto Baquero Moreno, Op. Cit., vol. I, p. 525.
antes de Alfarrobeira, e que se deixara prender 158
É o próprio cronista de D. Pedro que sai em defesa
manhosamente, com seus filhos e criados, de Álvaro Gonçalves: “e algumas pessoas contra razão
temendo o muito que teria a perder, o que murmuraram d´elles, dando-lhe em culpa que o Conde
procurou sua prisão por se não entender d´elle que fazia
falta ao Infante, por sua vontade, como se não fora mais
149
Cf. ANTT, Místicos, livro 3, fl. 110. obrigado a ser leal a seu rei, que deixar de lhe obedecer
150
Cf. Mafalda Soares da Cunha, “A nobreza portuguesa…”, pelo Infante, e o que peior é, arriscando não sómente
p. 245. o condado, mas ainda a honra e vida, como arriscaram
151
Cf. Mafalda Soares da Cunha, Nuno Gonçalo Monteiro, os que se foram para elle e os mais que o seguiram”. Cf.
“Jerarquía nobiliaria y corte en Portugal (Siglo XV-1832)” Gaspar Landim, Op. Cit., vol. III, pp. 38-39.
in Poder y Movilidad Social. Cortesanos, Religiosos 159
Começando pela alcaidaria-mor de Coimbra (Cf.
y Oligarquías en la Península Ibérica (Siglos XV-XIX), ANTT, Místicos, livro 3, fl. 117, s.l., [Link].1449), seguida
edição de F. Chacón Jiménez e Nuno Gonçalo Monteiro, da carta de coutada à mata da Azenha (Cf. Idem, livro 4,
Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas/ fl. 22, s.l., [Link].1449) e à Quinta da Foz (Cf. ANTT, CDAV,
Universidade de Murcia, 2006, p. 194. livro 34, fl. 103), passando pelo privilégio a seus amos
152
Cf. João Cordeiro Pereira, “A Estrutura Social e o e caseiros (Cf. Idem, livro 34, fl. 103, [Link].1449) e pelas
seu Devir” in Nova História de Portugal – Portugal do doações dos castelos e vilas de Monforte de Rio Livre
Renascimento à Crise Dinástica, direcção de Joel Serrão e Vinhais e das terras de Vilar Seco de Lomba e Vale
e A. H. de Oliveira Marques, coordenação de João Alves de Paçó (Cf. Idem, livro 9, fl. 86v., s.l., [Link].1449) e de
Dias, vol. V, Lisboa, Editorial Presença, 1998, p. 290. Cernache e dos casais de Chança e Carvalhal (Cf. Idem,
153
Cf. Gaspar Landim, Op. Cit., vol. III, cap. IX, pp. 176- livro 34, fl. 104v., s.l., 26.I.1450).
177; Duarte Nunes Leão, Op. Cit., vol. I, cap. XVII, p. 47. 160
Cf. ANTT, Místicos, livro 4, fl. 22, s.l., [Link].1449.
25
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
recebeu diversas confirmações161, os bens de havia sido uma inegável carreira de sucesso,
Vasco Fernandes, criado do infante D. Pedro162, explicada pela elevada ascendência paterna
e uma tença de 71 428 reais pelos serviços do fundador da Casa: Martim Gonçalves de
prestados à infanta D. Leonor163. Ataíde168.
Mais relevante que estas doações foi o facto
do 1º conde de Atouguia, que em 1450 era 3. A sucessão da Casa: inícios do condado de
identificado como rico-homem, membro D. Martinho (1452-1470)
do Conselho Real, escrivão da puridade e
A estratégia de manutenção de serviços, tão
coudel-mor do Reino164, ter assegurado ao seu
característica da nobreza cortesã de D. Afonso
herdeiro a continuidade de serviço na corte.
V169 e de que o caso em análise é exemplar,
Sob este prisma, a bem sucedida trajectória
enquanto forma de ascensão social, veio a
de Álvaro Gonçalves é paradigmática de
conhecer novos desenvolvimentos após o
como os três elementos definidores da
falecimento do 1º conde de Atouguia, em
nobreza (terra, guerra e jurisdição165), quando
Fevereiro de 1452. Nessa data, tudo indica que
conjugados com uma estratégia de êxito na
o casamento de D. Martinho de Ataíde com D.
manutenção de poder, característica de elites
Catarina de Castro, última filha de D. Fernando
de governo166, permitiam, na primeira metade
de Castro e então viúva de Álvaro Vaz de
de Quatrocentos, confirmar ascensões sociais
Almada, 1º conde de Avranches170, conhecido
impensáveis em conjunturas posteriores167.
apoiante do infante D. Pedro, falecido em
A lógica do processo de progressão social Alfarrobeira, já estivesse preparado171. O
de Álvaro Gonçalves encontra-se, aliás, no enlace com uma Castro, patrocinado por
epitáfio da sua sepultura, mandada construir Álvaro Gonçalves e D. Guiomar de Castro,
por D. Guiomar, na Igreja de São Leonardo, sobretudo na conjuntura em que ocorreu,
na Atouguia da Baleia. Neste são exaltados reforça a ideia da dificuldade em encontrar, no
para a posteridade os marcos principais da mercado matrimonial da época, uma esposa à
sua trajectória: os guerreiros, através da altura da condição assumida pelo herdeiro da
sua participação na conquista de Ceuta e Casa de Atouguia172.
nas guerras do Imperador Sigismundo, e os
Tendo o casamento sido apoiado por D. Afonso
políticos por via da sua peregrinação à Terra
V173 e tendo D. Martinho recebido confirmação
Santa e da sua participação no Concílio de
Constança, cumulada pela sua nomeação para 168
O qual, a propósito da crise de 1383-85, sofrera
aio de D. Afonso V. Todos se consideravam de “hũa mancidão mesturada com muita prodencia e
ancorados no que, para a memória posterior, convercação gracioza”. Cf. Luís Filipe Matança da Costa
Monteiro Pontes, Op. Cit., p. 160.
169
Tal como a define Rita Costa Gomes, “A curialização
161
Como do aforamento do paul do Feijoal (Cf. ANTT, da nobreza” in O Tempo de Vasco da Gama, direcção
CDAV, livro 34, fl. 104, s.l., [Link].1449), do seu contrato de Diogo Ramada Curto, Lisboa, CNCDP/Difel, 1998, p.
de casamento com Álvaro Gonçalves (Cf. Idem, livro 34, 182-183.
fl. 74, s.l., [Link].1450) e em nome do casal das doações 170
Cf. Affonso de Dornellas, Op. Cit., vol. I, p. 117.
de Cernache e casais de Chança e Carvalhal (Cf. Idem, 171
Assim o indica a data do contrato de casamento,
livro 34, fl. 104v., s.l., 26.I.1450) e da Quinta do Judeu 22 de Setembro de 1451, rectificado pela Coroa a 28
(Cf. Idem, livro 34, fl. 104, [Link].1450). de Janeiro de 1452. Cf. ANTT, CDAV, livro 12, fl. 7, s.l.,
162
Cf. ANTT, Estremadura, livro 8, fl. 294v., [Link].1450. 28.I.1452.
163
Cf. ANTT, CDAV, livro 34, fl. 67v., s.l., [Link].1450. 172
Sendo esta uma dificuldade habitual pois como
164
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., p. 55. relembra Rudolph Braun (Cf. Rudolph Braun,
165
Cf. Henry Kamen, Early Modern European Society, “Staying….”, p. 252), quanto mais elevado é o grau de
Nova Iorque, Routledge, 2000, p. 71. nobreza, mais difícil se torna encontrar um casamento
166
Cf. Rudolph Braun, “Staying on Top: Socio-Cultural adequado.
reproduction of European Power Elites” in Power Elites 173
A este propósito recebera já D. Martinho uma tença
and State Building, edição de Wolfgang Reinhard, s.d., de 40 mil reais brancos como parte das 4000 coroas de
Clarendon Press, 1996, pp. 235-259. ouro de França que D. Afonso V prometera aquando do
167
Cf. Mafalda Soares da Cunha, Nuno Gonçalo casamento do fidalgo. Cf. ANTT, CDAV, livro 11, fl. 141,
Monteiro, “Jerarquía nobiliaria…”, p. 204. s.l., [Link].1451.
26
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
imediata do título174, doações e privilégios apenas secundariamente uma Ataíde por via
da Casa175, tudo aponta para que apesar de do seu casamento.
ser D. Martinho o titular da Casa, nos anos
No cerne de todas estas doações e da sua gestão
seguintes, tenha sido D. Guiomar quem a geriu
da Casa durante este período parecem estar
efectivamente. Tal é sugerido por um conjunto
dois factores. Por um lado, ao partir a infanta
de documentos de chancelaria e pelo facto
D. Leonor para a Alemanha, extinguindo-se
da condessa viúva só ter falecido em 1473.
concomitantemente o seu cargo de aia da
Na realidade, até morrer, D. Guiomar não só
mesma, D. Guiomar terá passado a dispor de
recebeu diversas confirmações na qualidade
condições para abandonar a corte, mormente
ainda de esposa de Álvaro Gonçalves e de
tendo em conta a sua avançada idade e o seu
mãe de D. Martinho176, como alcançou da
mecenato religioso. Essa saída não colocava
Coroa novas e relevantes doações: a doação
em causa a ligação da Casa à corte, pois era
da Quinta do Çeiçal e Juncal, junto à Quinta
compensada pela presença constante de D.
de Arzila, com direito de a transmitir a D.
Martinho de Ataíde. Por outro lado, e apesar
Martinho177, o privilégio de coutar as suas
de não marcar presença física na corte, excepto
terras na Azambuja178, o privilégio para os
aquando da partida da infanta D. Joana (v.
seus besteiros andarem em besta muar179,
1439-1475) para se casar com o monarca
a isenção para os moradores de Cernache
castelhano Henrique IV (r. 1454-1474) em
não servirem de besteiros180, o privilégio
1455183, D. Guiomar não perdeu a ligação ao
de colocar coimeiros nas suas terras da
mundo palatino, devido aos empréstimos que
Azambuja181 e ainda o privilégio de ser tida por
concedia ao Africano. Dos muitos empréstimos
vizinha de Santarém182. Porém, apenas parte
que já antes fizera, em seu nome e no da Casa
do património de D. Guiomar reverteu para
de Atouguia, ao infante D. Pedro veio, aliás, a
membros da Casa de Atouguia, suspeitando-se,
ser devidamente ressarcida com “condições
tal como já apontado anteriormente para o caso
leoninas”, por parte de D. Afonso V e dos
Mécia Vasques Coutinho, que o restante tenha
herdeiros do infante184, como refere Sousa
integrado o património da Casa de Monsanto,
Viterbo185.
sobretudo tendo em conta a ausência posterior
de diversos bens de D. Guiomar no património Numa segunda vertente, pelo apoio financeiro
da Casa de Atouguia. Em causa poderá ter que D. Guiomar concedeu, em 1452, à
estado o facto de D. Guiomar ser, pelo seu fundação do que veio a ser o convento de São
nascimento, primordialmente uma Castro e Bernardino da Atouguia186, então conhecido
apenas como Oratório da Fontinha, onde fez
174
No documento no qual era confirmado a D.
Martinho o título de conde de Atouguia, eram-lhe ainda 183
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. II, cap. CXXXV.
confirmadas as doações da Atouguia e do Campo do 184
Em 1454, D. Afonso mandara suspender um processo
Lobão. Cf. ANTT, CDAV, livro 12, fl. 7, s.l., [Link].1452. de quitação de bens a D. Guiomar, ainda ligados com o
175
Da doação da alcaidaria-mor de Coimbra (Cf. ANTT, seu cargo de aia da infanta D. Leonor, atendendo aos seus
CDAV, livro 12, fl. 4, s.l., [Link].1452) e da doação de serviços (Cf. ANTT, Livro de Extras, fl. 65v, s.l., 4.X.1454).
Monforte de Rio Livre, do castelo de Vinhais e terras de Posteriormente, D. Afonso V voltou a retomar o mesmo
Vilar Seco de Lomba e Vale de Paçó (Cf. Idem, livro 12, processo, alegando dívidas de D. Guiomar (Cf. ANTT,
fl. 16, s.l., [Link].1452). CDAV, livro 16, fl. 106v., s.l., [Link].1471) mas mediante a
176
Como a carta de coutada ao termo da vila de Cernache apresentação de documentos comprovativos de dívidas
(Cf. ANTT, Místicos, livro 3, s.l., fl. 102, 7.X.1450) e a anteriores do rei, D. Guiomar recebeu no mesmo ano
confirmação da doação de Cernache e dos casais de 190 mil reais brancos (Cf. Idem, livro 16, fl. 135v., s.l.,
Chança de Carvalhal (Cf. ANTT, CDMI, livro 19, fl. 16v., [Link].1471). Desde 1462 recebia ainda um padrão de
s.l., 8.X.1455) que recebeu no lugar de D. Martinho. juro de 1372 reais brancos devido a dívidas antigas do
177
Cf. ANTT, CDAV, livro 4, fl. 65, s.l., 18.X.1453. Não foi infante D. Pedro (Cf. Idem, livro 1, fl. 36v., s.l., 4.V.1462).
possível apurar a sua localização geográfica. 185
Cf. Sousa Viterbo, “A avó materna de Afonso de
178
Cf. ANTT, CDAV, livro 10, fl. 98, s.l., [Link].1454. Albuquerque (os penhoristas do século XV)” in Archivo
179
Cf. ANTT, CDAV, livro 1, fl. 20v., s.l., [Link].1461. Historico Portuguez, vol. 1, nº 12, Dezembro de 1903,
180
Cf. ANTT, CDAV, livro 1, fl. 63, s.l., [Link].1462. pp. 412-413.
181
Cf. ANTT, CDAV, livro 8, fl. 60, s.l., 1.X.1464. 186
Cf. Manuel Ferreira da Silva, Os Conventos também
182
Cf. ANTT, CDAV, livro 38, fl. 31v., s.l., [Link].1467. se convertem, Lisboa, Edições Asa, 1995, p. 28.
27
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
sepultar o guarda-mor e camareiro-mor do do Algarve193. A sua nomeação para o cargo de
infante D. Pedro, D. Vasco de Vila Lobos187. Nesta mordomo-mor do infante D. Fernando, o qual,
área inserem-se ainda as obras que mandou relembre-se, foi por esta época, o herdeiro da
realizar na Graça de Santarém, na qualidade Coroa, em caso de falecimento de D. Afonso
de única parente viva de D. Pedro de Meneses, V194, garantiu a Álvaro Gonçalves de Ataíde a
1º conde de Vila Real, de quem era tia188, ou continuidade de serviços da sua linhagem à
ainda a relevante fundação, devidamente Coroa. Esta, sempre difícil de assegurar num
solicitada e autorizada pela Coroa189, do momento sucessório, permitia antever que a
mosteiro franciscano de Xabregas. Estas capacidade de influência da Casa na corte iria
evidenciam como D. Guiomar provavelmente manter-se. Na verdade, a nomeação relembra
terá permanecido fora na corte de D. Afonso a do próprio Álvaro Gonçalves, em 1438, para
V. O que não implica, como referido, que não aio de D. Afonso V, a qual, como se viu, lhe
continuasse a deter uma palavra fundamental permitiu uma ascensão rápida. Assim, tudo
na gestão da Casa de Atouguia e possivelmente levava a crer que existiriam condições para que
nas negociações para os consórcios dos seus o mesmo pudesse acontecer com a nomeação
filhos e filhas, como seria de esperar da sua de D. Martinho.
condição de condessa viúva190.
Em 1452, assim que recebeu a confirmação dos
Na realidade, o papel de medrança na corte bens da Casa e do seu título, o novo conde teve
foi desempenhado por D. Martinho de Ataíde. que superar uma importante prova. Perante a
Tendo sido, muito provavelmente após inesperada partida do infante D. Fernando para
Alfarrobeira, nomeado por D. Afonso V para Ceuta, onde tencionava ficar como fronteiro, o
mordomo-mor do infante D. Fernando191, Africano nomeou D. Martinho para convencer
D. Martinho surgia, no seguimento do seu o infante a regressar195. O retorno afigurava-se
consórcio com D. Catarina de Castro, e logo difícil pois D. Fernando ficara desagradado com
em 1451, identificado como conselheiro régio o monarca por este se ter recusado a permitir-
e capitão do mar192. Esta referência não se lhe acompanhar a sua irmã, a infanta D.
coaduna com a alusão, não datada, de que Leonor, quando esta partiu para a Alemanha196.
teria sido capitão-mor dos Reinos de Portugal e Colocando-se ainda a hipótese, depois não
confirmada, de vir a ser herdeiro de Afonso
V de Aragão (r. 1418-1458)197, percebe-se
187
Cf. Ibidem, pp. 36-37. que o que estava em jogo na nomeação de D.
188
Cf. Maria de Lurdes Rosa, “Entre a corte e o ermo: Martinho era demasiado importante para que
reformismo e radicalismo religiosos (fins do século XIV-
século XV)” in História Religiosa de Portugal, direcção
este pudesse concretizar sozinho a missão. Por
de Carlos Moreira de Azevedo, vol. I, coordenação de este motivo o Africano mandatou também D.
Ana Maria C. M. Jorge e Ana Maria S. A. Rodrigues, s.l., Fernando (v. 1403-1478), então 4º conde de
Círculo de Leitores, 2000, p. 492. Arraiolos198 e futuro 2º duque de Bragança199,
189
Para a doação dos Paços e horta do Laranjal na vila
de Xabregas tendo em vista a fundação do convento
veja-se: ANTT, CDAV, livro 15, fl. 16, s.l., 17.X.1455. Para 193
Cf. Nobreza de Portugal…, vol. II, p. 331. Fica por
sustento deste recebeu ainda, em 1463, a doação de esclarecer se o cargo de capitão-mor, aparentemente,
um poço, nora, vinhos e terra (Cf. Idem, livro 9, fl. 110v., com jurisdição em terra, se aplicava igualmente à
s.l., [Link].1463). A inauguração do convento contou vertente marítima.
com a presença do rei e da corte (Cf. Sousa Viterbo, “A 194
Até ao nascimento do príncipe D. João, futuro D. João
avó…”, p. 411). II, em 1455.
190
Também característica da época. Cf. Ricardo Cordoba 195
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. II, cap. CXXXIV.
de la Llave, Isabel Beceira Pita, Op. Cit., pp. 245-246. 196
Cf. Sebastiana Pereira Lopes, O Infante D. Fernando
191
Desconhece-se a data exacta da nomeação mas e a nobreza fundiária de Serpa e Moura (1453-1470),
deduz-se que seria após Alfarrobeira por antes não se dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de
conhecer intervenção determinante de D. Martinho, Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa,
independentemente da influência de seu pai, que 1997, pp. 32-36.
pudesse justificar a atribuição do cargo. Cf. Affonso de 197
Cf. Ibidem.
Dornellas, Op. Cit., vol. I, p. 117. 198
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. II, cap. CXXXIV.
192
Cf. ANTT, CDAV, livro 12, fl. 7, s.l., [Link].1451. 199
Sobre esta figura veja-se o trabalho de Maria Barreto
28
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
29
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
com um membro da geração do 1º conde de respectivamente, com Fernão de Sousa
Atouguia, contribuindo para reforçar os laços Chichorro, 1º senhor de Gouveia e fidalgo da
cortesãos com os membros dessa geração que Casa do duque de Bragança, e com Gonçalo
tão premiada fora na sequência de Alfarrobeira. de Albuquerque, 3º senhor de Vila Verde de
Por outro lado, o casamento do titular da Casa Francos, contando-se na sua descendência
nesta linhagem menos prestigiada, parece Afonso de Albuquerque, governador da Índia
encontrar justificação tendo em conta as (1509-1515).
dificuldades de financiamento dos elevados
Por comparação com a renovação da anterior
dotes das quatros irmãs de D. Martinho, cujos
aliança com as linhagens dos Coutinhos e dos
relevantes consórcios parecem ter ocorrido
Sousas216 e da celebração de uma nova aliança
nas décadas de 1440-50212.
com a linhagem dos Noronhas, aparentada com
A irmã mais velha, D. Joana de Castro, a Casa de Vila Real e com os Albuquerques, há
casou-se ainda na década de 1440213 com D. indícios de que D. Guiomar e D. Martinho terão
Fernando Coutinho, 4º marechal de Portugal, decidido sacrificar socialmente o casamento
com descendência associada aos condes de do titular da Casa. A contrapartida dessa
Redondo. Já D. Filipa de Castro consorciou- escolha seria a recepção de um elevado dote,
se, em data incerta214, com D. João de o qual ajudaria a mitigar os efeitos financeiros
Noronha, “O Velho”, alcaide-mor de Óbidos do pagamento dos dotes das irmãs de D.
e descendente do influente bispo de Évora e Martinho, que Luís Gonçalves Malafaia estaria
arcebispo de Lisboa, D. Pedro de Noronha (v. em condições de oferecer pelo casamento
1382-1452). D. Mécia de Castro e D. Leonor de da sua filha, D. Filipa de Azevedo217, com um
Meneses casaram-se ambas, cerca de 1451215, conde.
30
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
Casa de Viseu, quando foram adquiridas pelo Apesar de D. Martinho e D. Vasco de Ataíde
infante D. Fernando em 1466-67220. Em causa terem marcado presença na assinatura do
terá estado um renovado interesse, devido contrato nupcial de D. Afonso V com D. Joana,
a dificuldades financeiras, pelos proventos “A Beltraneja” (v. 1462-1530)224, que espoletou
económicos que a Expansão poderia induzir, e a referida guerra de sucessão a Henrique
que a Casa já evidenciara em 1447. IV de Castela, e de D. Martinho ter estado
presente, depois da abdicação de D. Afonso
V, no juramento do príncipe D. Afonso como
4. Tensões familiares e declínio da Casa: o
herdeiro do Reino, em 1476225, ou até de D.
legado de D. Martinho (1470-1498)
Vasco ter participado na batalha de Toro ao
Nos anos seguintes, até ao falecimento do lado monarca226 e por este ter sido encarregue
infante D. Fernando, em 1470, D. Martinho de preparar a armada com que se deslocaria
terá permanecido na corte, embora tudo a França227, tudo indicia que ao declínio
aponte para um crescente distanciamento em financeiro da Casa, tenha vindo a associar-se
relação a D. Afonso V visto que, na sequência um certo declínio da sua influência política.
da embaixada de 1455, apenas é anotada a
Este terá sido assaz acentuado a partir do
presença do 2º conde de Atouguia ao lado do
falecimento do infante D. Fernando, em 1470,
monarca por ocasião da fracassada jornada de
e nem a influência atestada de D. Vasco de
Tânger e do subsequente encontro do Africano
Ataíde junto de D. Afonso V e de D. João II228,
com o monarca castelhano em Gibraltar, durante
parece ter sido capaz de o inverter. Não sendo
o ano de 1463221. As dificuldades financeiras da
conhecida nova nomeação para D. Martinho na
Casa já evidentes a propósito dos casamentos
sequência daquele falecimento e, sobretudo,
das irmãs de D. Martinho tinham esboçado
tendo em conta a trajectória ascensional
já uma tendência para um crescente declínio
de seu irmão D. Álvaro de Ataíde, pai de D.
financeiro da Casa. Este tornou-se mais visível
António de Ataíde (v. 1500-1563), 1º conde
em 1470 quando o assentamento da Casa de
da Castanheira, tudo indica que o processo
Atouguia, de 102 mil reais anuais, passou a ser
de espartilho interno da Casa de Atouguia se
inferior ao das Casas de Marialva (Coutinhos),
tenha acentuado extraordinariamente durante
Monsanto (Castros) e Atalaia (Melos)222, todas
esta década.
linhagens directamente ligadas aos Ataídes da
Atouguia. Esta situação tornou-se ainda mais Tal é confirmado pelo protagonismo de D.
visível com a nova vaga de titulações afonsinas Álvaro de Ataíde junto de D. Afonso V na década
da década de 1470, ocasionada pela guerra de 1470, o qual decorreu exactamente quando
luso-castelhana de 1475-1479, visto as mercês a influência do titular da Casa começava
recebidas por D. Martinho nesta fase serem de 28, fl. 65v., s.l., [Link].1468) e da Quinta do Judeu (Cf.
pouco relevo quando comparadas com as que Idem, livro 31, fl. 26, s.l., [Link].1469). Para a década
recebera até então223. de 1470 apenas se conhece o privilégio para confirmar
juízes na Atouguia (Cf. ANTT, Místicos, livro 3, fl. 258,
vendidas em 1463. s.l., [Link].1473) e um alvará para poder recrutar mão-
220
Cf. João Paulo Oliveira e Costa, D. Manuel I…, p. 35. de-obra para a construção do castelo de Vinhais (Cf.
221
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. III, cap. CLIV. Há ANTT, Chancelaria de D. João II [CDJII], livro 18, fl. 33,
possibilidade de ter estado em África em 1459 (Cf. Abel s.l., [Link].1479).
dos Santos Cruz, Op. Cit., p. 217). 224
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., p. 200.
222
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., p. 133. 225
Cf. Humberto Baquero Moreno, A Batalha de
223
As principais mercês de D. Martinho datam da década Alfarrobeira…, vol. II, p. 728.
de 1460 e foram as seguintes: a doação do serviço 226
Cf. Ditos…, p. 197.
velho e novos dos judeus de Castelo Branco (Cf. ANTT, 227
Cf. Paula Maria de Carvalho Pinto Costa, Op. Cit., p.
CDAV, livro 8, fl. 137, s.l., [Link].1464), o direito do seu 218.
primogénito, D. João de Ataíde, herdar a Atouguia e seu 228
Como anota Paula Maria de Carvalho Pinto Costa,
termo (Cf. ANTT, Místicos, livro 3, fl. 187), autorização a capacidade de D. Vasco de Ataíde inflectir decisões
régia para construir um castelo em Vinhais (Cf. ANTT, desfavoráveis ao futuro da Ordem acentuou-se com a
CDAV, livro 28, fl. 47v.), e as confirmações das doações realeza de D. João II, nem para isso valendo o facto de D.
de Cernache, casal de Chança e Carvalhal (Cf. Idem, livro Vasco ser padrinho do rei (Cf. Ibidem, p. 223).
31
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
a esmorecer. Importa por isso analisar o Tal sucedeu no contexto dos problemas
processo de ascensão social e as ambições mentais do herdeiro de D. Pedro de Melo que
de D. Álvaro de Ataíde, que acabaram por o implicaram a sua inabilidade jurídica e devido
colocar em concorrência com o seu irmão 2º ao facto deste ter doado a Casa a D. Leonor
conde de Atouguia. de Melo241 e, por conseguinte, também a D.
Álvaro de Ataíde por ser seu marido, abrindo
Casado, em 1455229, com D. Leonor de Melo,
um processo que terminou na plena posse por
filha de D. Pedro de Melo, 1º conde de
D. Álvaro de todos os bens da Casa da Atalaia,
Atalaia, e na qualidade de quarto filho de
o qual se encerrou plenamente em 1481242.
Álvaro Gonçalves de Ataíde e de D. Guiomar
Já antes, em 1480, D. Afonso V concedera a
de Castro, D. Álvaro de Ataíde iniciou a
D. Álvaro uma tença de 100 mil reais brancos
sua carreira de serviço ao Africano com a
por não o ter provido como regedor da Casa do
participação na conquista de Alcácer-Ceguer,
Cível como lhe prometera243.
em 1457230 e, posteriormente, na ida a Tânger,
em 1461231. Fruto desses serviços, o monarca No contexto do crescente declínio da influência
concedeu-lhe, em Fevereiro de 1464, carta política e financeira da Casa de Atouguia
de moradia que começou a ser paga no ano no seio da corte e nobreza do seu tempo, e
seguinte232. Através do importante casamento utilizando eficazmente o seu parentesco como
que realizara na linhagem dos Melos, D. Álvaro membro desta Casa, D. Álvaro de Ataíde criou
ganhou acesso a um importante dote da Casa condições para formar uma nova Casa, a qual,
da Atalaia que lhe permitiu complementar pelas ambições evidenciadas pelo próprio de
a sua medrança cortesã com investimento se pretender assenhorear de uma Casa com
em terras233, rendas234 e negócios235. Foi em rendimentos superiores à Casa de Atouguia,
1476, no exacto momento em que D. Álvaro não poderia deixar de nascer em processo de
regressava da sua fracassada embaixada cisão com a sua Casa de origem. Sob o prisma
a França236, ordenada por D. Afonso V na de D. Álvaro, a efectivação do corte estava
tentativa de convencer Luís XI (r. 1461-1483) já realizada, faltando apenas recuperar o
a intervir na guerra luso-castelhana com o elemento decisivo do qual o fidalgo não fora
pretexto do condado do Rossilhão em disputa capaz de se apropriar: o título condal da Casa
com Aragão237, da sua participação na batalha da Atalaia, que o colocaria, inclusivamente, no
de Toro238 e da posterior partida do seu interior da nobreza titulada, numa posição, de
herdeiro D. Pedro de Ataíde com D. Afonso V superioridade face à Casa de Atouguia.
para França239, que o fidalgo viu confirmado o
Esta situação explica o motivo pelo qual D.
seu direito a herdar a Casa da Atalaia240.
Martinho de Ataíde e a sua esposa D. Filipa
de Azevedo, bem como os seus filhos D. João
229
Cf. ANTT, CDAV, livro 15, fl. 33v., s.l., [Link].1455.
de Ataíde e D. Isabel da Silva, não tenham
230
Cf. Abel dos Santos Cruz, Op. Cit., p. 188. alinhado nas conjuras de 1483 contra D. João
231
Cf. Ibidem, p. 210. II (r. 1481-1495), ao contrário do que sucedeu
232
Cf. ANTT, CDAV, livro 8, fl. 164, s.l., [Link].1464. com D. Álvaro de Ataíde e o seu herdeiro D.
233
Assim trocou com o irmão D. Martinho certos casais
em Vasqueiros, termo de Santarém, pela Quinta do
Pedro de Ataíde. Apesar de já se ter anotado
Judeu (Cf. ANTT, CDAV, livro 31, fl. 75, [Link].1469).
234
Solicitando ao rei arrendamento das suas rendas (Cf. 241
Cf. Ibidem; Maria Paula Carvalho, Op. Cit., p. 17.
ANTT, CDAV, livro 30, fl. 133, s.l., [Link].1475). 242
Primeiro através da abdicação de D. Maria de
235
Investindo no negócio dos couros e alcançando para Noronha, condessa de Atalaia, dos direitos de sucessão
tal autorização de D. Afonso V. Cf. ANTT, CDAV, livro 30, em D. Leonor de Melo e D. Álvaro de Ataíde (Cf. ANTT,
fl. 140, s.l., 1475? Estremadura, livro 7, fl. 16, s.l., [Link].1481) e depois
236
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. III, cap. CXCIII. com o aval régio para o casal ficar em posse dos bens
237
Cf. Damião de Góis, Op. Cit., cap. xlviii. da Casa (Cf. ANTT, CDAV, livro 26, fl. 35v., s.l., [Link].1481).
238
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., p. 218. Aparentemente, devido à inabilidade do herdeiro do
239
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., vol. III, cap. CLXIV; GOMES, conde D. Pedro de Melo, D. Afonso V já prometera tal ao
Saul António, Op. Cit., p. 219. fidalgo anteriormente (Cf. ANTT, CSV, livro 12, fl. 1).
240
Cf. ANTT, Estremadura, livro 2, fl. 47, s.l., [Link].1476. 243
Cf. ANTT, CDAV, livro 32, fl. 41v., s.l., [Link].1480.
32
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
contactos anteriores de D. Martinho de Ataíde reconhecida por D. João II já depois da sua fuga,
com a Casa de Bragança244, e mesmo de, em anos mais tarde, quando em conversa com
1483, ter enviado uma carta ao duque de amigos à mesa, terá afirmado que D. Álvaro era
Bragança245, queixando-se da morosidade do “muy principal sempre nos taes dias leuaua os
processo de casamento do seu herdeiro, não Reys pollas redeas, e era tão sabedor, cortesão,
foi encontrada qualquer prova incriminatória gracioso, que elle por si fazia festa”250.
de D. Martinho nas conjuras de 1483-84246.
Já D. Martinho tinha em mãos um outro
Na verdade, a política de controlo da nobreza problema mais grave: o desentendimento com
seguida por D. João II, desde o início do seu o herdeiro D. João de Ataíde. Moço-fidalgo de
reinado, ameaçava mais as pretensões de D. Afonso V com 2600 reis de moradia desde
D. Álvaro ao título condal do que as do já 1469251, D. João de Ataíde, provavelmente
conde D. Martinho, como aliás ressalta das fruto da influência do reformismo religioso
confirmações joaninas a este último247. Para da avó D. Guiomar de Castro, e possivelmente
confirmar socialmente a sua emancipação da por ter assistido ao momento do ingresso da
Casa de Atouguia, D. Álvaro necessitava de infanta D. Joana (v. 1452-1490) no mosteiro
recuperar o título de conde da Atalaia, o que de Aveiro, em 1469252, quis abandonar a vida
o tornou próximo do duque D. Diogo, a quem secular e seguir vida religiosa, tomando voto
procurou, conjuntamente com o seu herdeiro de noviço aos 16 anos253. Mercê da situação
D. Pedro, convencer à conjura contra D. João II familiar descrita e devido ao facto de D. João
que mais dificilmente lhe daria aquele título248. ser o único filho varão de D. Martinho, este e
Segundo uma das versões, os preparativos de a sua esposa, vendo ameaçada a sucessão da
D. Álvaro chegaram ao ponto de ter preparada sua Casa, forçaram-no a abandonar a condição
D. Joana, “A Beltraneja” e de manter os Reis clerical. Começaram por casá-lo, em nova
Católicos informados, na eventualidade do aliança cortesã, em 1481, com D. Violante de
que sucedesse com a conjura249. A influência Castelo Branco, filha de D. Gonçalo de Castelo
de D. Álvaro naqueles anos veio aliás a ser Branco, primeiro governador da Casa do Cível254
e irmã de D. Martinho de Castelo Branco, futuro
244
Apesar de ter sido interceptada uma carta do duque 1º conde de Vila Nova de Portimão. Já perante
de Bragança a D. Martinho relativa às terçarias de
Moura. Cf. Mafalda Soares da Cunha, Linhagem…., p.
o precoce falecimento de D. Violante, D. João
168. de Ataíde casou com D. Brites da Silva, filha
245
A referida carta ao duque de Bragança encontra-se do 1º conde de Penela255 e camareira-mor da
em BA, cod. 50-V-22, fl. 417v. infanta D. Joana256, de quem teve finalmente a
246
Não foi encontrado qualquer documento (Cf. BNP,
cod. 7638 ou em BPE, cod. CIII/2-20) nem existe
sucessão desejada257: D. Afonso de Ataíde, D.
referência a tal (Cf. Humberto Baquero Moreno, “A
conspiração contra D. João II: o julgamento do duque 250
Cf. Garcia de Resende, Op. Cit., cap. LVI, pp. 87-88.
de Bragança” in Arquivos do Centro Cultural Português, 251
Trata-se da primeira referência conhecida enquanto
vol. II, FCG, 1970, pp. 47-103). filho do 2º conde de Atouguia. Cf. Provas, tomo II, parte
247
O título de conde e a doação da Atouguia foram I, p. 51.
confirmadas ainda antes das conjuras (Cf. ANTT, CDJII, 252
Por este ter sido presenciado por todos os titulares
livro 7, fl. 74, s.l., 31.V.1482), sendo as restantes que da corte. Cf. João Gonçalves Gaspar, A Princesa Santa
se conhecem posteriores como é o caso do privilégio Joana e a sua Época (1452-1490), Aveiro, Câmara
ao concelho de Monforte de Rio Livre (Cf. ANTT, CDMI, Municipal de Aveiro, 1981, p. 94.
livro 27, fl. 25), da doação de Monforte de Rio Livre e 253
Cf. Fernando da Soledade, História Seráfica
Vinhais e das terras de Vilar Seco de Lomba e Vale de Cronológica da Ordem de São Francisco, Parte IV, livro
Paçó (Cf. ANTT, Além-Douro, livro 1, fl. 1, s.l., 9.V.1487), I, cap. XVII, Lisboa, Officina António Pedrozo Gabram,
da doação do Campo do Lobão (Cf. ANTT, CDMI, livro 1736.
30, fl. 33, s.l., 9.V.1487) e do alvará para seu filho herdar 254
Cf. Cristóvão Alão Moraes, Op. Cit., vol. IV, p. 281;
a vila de Atouguia (Cf. ANTT, Místicos, livro 3, fl. 187, Felgueiras Gayo, Nobiliário de famílias de Portugal, vol.
s.l., [Link].1487). I, Braga, edição de Carvalhos de Basto, 1992, p. 504.
248
Cf. Garcia de Resende, Op. Cit., cap. LII. 255
Cf. Nobreza de Portugal…, vol. II, p. 331.
249
Cf. Rui de Pina, Crónica de D. João II, comentário de 256
Cf. Saul António Gomes, Op. Cit., p. 242.
Luís de Albuquerque, Lisboa, Publicações Alfa, 1989, cap. 257
Cf. Genealogia 3: Descendência de D. Álvaro de
XVIII. Ataíde e D. Martinho de Ataíde, 1º e 2º condes de
33
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
Jorge de Ataíde, D. Isabel da Silva de Ataíde e decidiu, já depois de assegurada a sucessão
D. Brites da Silva. na Casa de Atouguia, partir para Castela para
tomar novos votos eclesiásticos e não mais
Possivelmente na sequência da concretização
voltar, foi D. João II quem o fez regressar265.
do seu primeiro casamento, D. João de Ataíde
recusara a oferta de D. João II para ser regedor Como bem relembra Maria de Lurdes Rosa,
da Casa da Suplicação, por falecimento de D. João de Ataíde, a par com a infanta D.
Fernão da Silva258, “sendo dom Ioam homem Joana, parece ter sido uma referência moral
mancebo”, acrescentando o cronista Garcia de numa corte saturada de palacianismo266 e de
Resende, que o conheceu pessoalmente, que uma moda europeia, com expressão também
“apertando elRey com elle muytas vezes que o em Portugal, de “retiro de corte” e titulares
fosse, nunca o quis aceitar” 259. D. João de Ataíde devotos em final de vida267. Nesse sentido se
apenas aceitou a nomeação, em 1487, para, no compreendem os versos dedicados a D. João
ataque a Anafé, ser sucessor do comandante por Garcia de Resende268:
indigitado pelo rei, D. Diogo Fernandes de
Almeida, caso este falecesse260, existindo ainda “Para que se algum cuide
notícia de que teria combatido em Arzila, em de vãa gloria, se ha tem,
data incerta, com D. João de Meneses, futuro Lembre lhe que vimos bem
1º conde de Tarouca e sucessor de Almeida no a frey Ioam Datayde
Priorado do Crato261. mais humilde que ninguem:
que viueo tam sanctamente,
Apesar dos contactos que realizou em favor
que era julgado da gente
da Casa propiciados pelos casamentos, por
sendo cortesam por sancto:
imposição de seus pais, e recusando sempre
fez se frade, foy o tanto
interceder por quem quer que fosse, D. João
que fez milagre euidente.
de Ataíde permaneceu fiel à sua decisão de
seguir vida religiosa e, mesmo casado, era
Deixou Conde Datouguia,
conhecido por parecer mais frade do que
e não quis ser Regedor,
homem casado e com filhos262. A sua opção
deixou rendas, fidalguia,
justifica ainda diversos milagres que lhe são
honras, priuança, valia,
atribuídos, bem como o facto de ter sido o
por seruir nosso Senhor;
único capaz de consolar D. João II, aquando
e quem bem quiser olhar,
do falecimento do príncipe herdeiro D. Afonso
he muyto pouco deixar
(v. 1475-1491)263, uma vez que “El Rey D.
por Deos quãto ca se alcãça,
João II que era grande venerador da virtude,
pois a bem auenturança
o estimava com particulares honras, & muyto
com isso pode alcançar”.
estreyta familiaridade”264. Quando o fidalgo
Atouguia – Divisão das Casas de Atouguia e Castanheira Sendo não raras vezes característico da
(Séculos XV-XVI). nobreza, o conflito entre pai e filho, a
258
Cf. Affonso de Dornellas, Op. Cit., vol. I, p. 117;
História Genealógica, tomo XII, parte I, p. 13.
259
Cf. Garcia de Resende, Op. Cit., cap. CLXXVIII, p. 253.
260
Cf. Rui de Pina, Op. Cit., cap. XXVII.
261
Cf. Frei Jerónimo Belém, Chronica Serafica da Santa 265
Escrevendo aos Reis Católicos a solicitar o seu
Provincia dos Algarves, Lisboa, Mosteiro de S. Vicente regresso. Cf. Ibidem.
de Fora, 1753, parte II, livro VI, cap. XXV 266
Cf. Maria de Lurdes Rosa, “Entre a corte e o ermo…”,
262
Cf. Fernando da Soledade, Op. Cit., parte IV, livro I, p. 94.
cap. XVII. 267
Cf. Joaquim Romero Magalhães, “A Sociedade” in
263
Proferindo a célebre frase: “Console-se V. Magestade História de Portugal. No Alvorecer da Modernidade
com a vontade de Deos, que tudo faz por melhor”. Cf. (1480-1620), vol. III, direcção de José Mattoso e
Frei Jerónimo Belém, Op. Cit., livro VI, cap. XXV, p. 89. coordenação de Joaquim Romero de Magalhães, s.d.,
264
Cf. Fernando da Soledade, Op. Cit., parte IV, livro I, Círculo de Leitores, 1993, p. 493.
cap. XVII, p. 58. 268
Cf. Garcia de Resende, Op. Cit., p. 364.
34
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
35
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
Conclusão D. Álvaro de Ataíde, legitimando assim as suas
Sob o espartilho da ascensão de D. Álvaro de ambições a alcançar um título para a sua Casa.
Ataíde e dos conflitos com D. João de Ataíde, Foi, precisamente, contra a concretização da
preparava-se para a Casa de Atouguia um inevitabilidade de perda definitiva do título
cenário semelhante ao que veio a verificar- condal que D. Afonso de Ataíde, 3º senhor da
se com a Casa de Vila Real no início do Casa de Atouguia (1498-1555), lutou durante
reinado manuelino. Se neste último caso a os reinados de D. Manuel I (r. 1495-1521) e
restauração plena dos Braganças acarretou o de D. João III (r. 1521-1557), defrontando-se
fim da expectativa de se manter como o maior com as consequências da derrota dos planos
representante da aristocracia portuguesa, do seu avô D. Martinho. Para tal, D. Afonso de
como acontecera durante parte do reinado Ataíde teve também, como o avô, de sacrificar
joanino281, no caso da Casa da Atouguia, o socialmente o seu casamento de forma a
novo reinado prefigurava o que parecia ser garantir uma melhor situação financeira da
uma inevitabilidade: a perda do título condal sua Casa que lhe permitisse sustentar a sua
como reflexo da fraca ligação ao rei e à corte, vasta descendência. Só em momento posterior
dos conflitos intestinos e do declínio financeiro e coincidindo com a titulação, por D. João III,
da Casa. de D. António de Ataíde, em 1532, como 1º
conde da Castanheira, teve condições para
Este desenlace, no que ao condado de D.
colocar os seus descendentes ao serviço da
Martinho diz respeito, é de alguma forma
Coroa282. Porém, à data da titulação do seu
surpreendente tendo em conta o contexto em
primo D. António de Ataíde, D. Afonso de
que assumira a Casa de Atouguia e que não
Ataíde já perdera as hipóteses de recuperar
fazia, à data, prever que tal pudesse ocorrer.
o título para a sua Casa na sua figura, tendo
Tal encontra-se directamente relacionado com
presente a política joanina de titulações283.
a carreira bem-sucedida de Álvaro Gonçalves
Dessa forma, D. Afonso de Ataíde foi a partir
de Ataíde mas também com a estratégia
de então forçado a apostar numa recuperação
seguida por D. Martinho de Ataíde até 1470.
do mesmo pelos seus descendentes.
No entanto, a emergência simultânea das
ambições de D. Álvaro de Ataíde e do conflito Em todo o caso, foi este contexto particular na
com o herdeiro D. João de Ataíde, quando Casa de Atouguia que criou a margem necessária
conjugados com a mudança de reinado, para que as circunstâncias particulares da
criaram um contexto mais difícil a D. Martinho. ascensão cortesã de D. António de Ataíde,
Mesmo após a conjura de D. Álvaro de Ataíde, pudessem redundar naquilo que seu pai, D.
o enfraquecimento político e social da Casa Álvaro de Ataíde, não alcançara em vida: a
de Atouguia devido ao conflito com D. João concessão de um título condal. Sucedeu, então
de Ataíde, foi uma realidade que D. Martinho o paradoxo de a representação da linhagem
não conseguiu inflectir até ao seu falecimento. 282
Sobre a estratégia seguida por D. Afonso de Ataíde
Este, naturalmente ameaçou a manutenção do durante os reinados de D. Manuel I e D. João III veja-se
Nuno Vila-Santa, Entre o Reino…., p. 49 e seguintes.
título condal, sobretudo a partir do momento 283
Cf. Jean Aubin, «La noblesse titrée sous D. João
em que D. Manuel I autorizou o regresso de III. Inflation ou fermeture?», in Le latin et l’astrolabe.
Recherches sur le Portugal de la Renaissance, son
281
Cf. Nuno Vila-Santa, D. Afonso de Noronha, vice-rei expansion en Asie et les relationsinternationeles, vol. I,
da Índia: Perspectivas Políticas do Reino e do Império Paris, Centre Culturel Calouste Gulbenkian, 1996, 371-
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36
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
dos Ataídes continuar a pertencer à Casa de D. Afonso de Ataíde, permitiu que a Casa de
Atouguia, apesar da figura mais destacada da Atouguia recuperasse o título perdido, em
linhagem ser inequivocamente o favorito de D. 1498. Tal recuperação ocorreu em 1577 num
João III. Apenas o falecimento deste em 1563 e contexto bem distinto do anterior e próximo
o consequente enfraquecimento da influência da ocorrência da batalha de Alcácer-Quibir,
social e política da Casa da Castanheira junto quando D. Sebastião (r. 1557-1578) restaurou
da Coroa a partir de então, assim como a em D. Luís de Ataíde o título de 3º conde de
trajectória social com difícil paralelo no Atouguia.
século XVI de D. Luís de Ataíde, herdeiro de
37
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
Genealogia 1: Ascendência e descendência dos Ataídes (Séculos XIV-XV)
Gil Teresa
Martins Vasques
Resende
38
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
D. Álvaro de D. Guiomar
Ataíde, 1º de Castro
Conde de (?-1473)
Atouguia
(?-1452)
D. Pedro de D. Álvaro de
Ataíde, Ataíde
† Setúbal S. G.
1483
39
FRAGMENTA HISTORICA Uma linhagem, duas Casas: em torno dos Ataídes e
das origens das Casas da Atouguia e da Castanheira
(séculos XV-XVI)
Genealogia 3: Descendência de D. Álvaro de Ataíde e D. Martinho de Ataíde, 1º e 2º condes de
Atouguia - Divisão das Casas de Atouguia e Castanheira (Séculos XV-XVI)
D. Álvaro de D. Guiomar
Ataíde, 1º de Castro
Conde de (?-1473)
Atouguia
(?-1452)
40
Nuno Vila-Santa FRAGMENTA HISTORICA
41
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45
EM TORNO DO FORAL MEDIEVAL DA ALMOTAÇARIA DE LISBOA
Sandra M. G. Pinto
CHAM – FCSH/Nova - UAç
Resumo Abstract
Este artigo pretende analisar um diploma This article aims to analyse a medieval legal text
jurídico medieval de Lisboa: o foral da of Lisbon: the almotaçaria regulation. In order
almotaçaria. Com objetivo de aclarar to clarify missing or contradictory information
informações omissas ou contraditórias, são documentary sources are crossed, questions
cruzadas fontes documentais, levantadas are raised, and hypotheses are suggested. The
questões e sugeridas hipóteses. O foral da regulation is presented and compared to other
almotaçaria é apresentado e comparado com legal provisions, also proving its coeval legal
outros dipositivos jurídicos, comprovando-se validity. The study also refers the transmission
ainda a sua vigência legal coeva. O estudo of this regulation to other towns, and verifies
também refere a transmissão deste foral para which of its rules were afterwards adopted as
outras povoações e afere quais as suas regras general law for the whole kingdom.
que posteriormente foram adotadas como lei
geral para todo o reino.
Palavras-chave Keywords
Lisboa; direito local; foral da almotaçaria; finais Lisbon; local law; almotaçaria regulation; late
da Idade Média. Middle-Ages.
Artigo recebido em: 28.07.2016 | Artigo aceite para publicação em: 21.09.2016
Em torno do foral medieval da almotaçaria de específico com cerca de quarenta e oito itens.
Lisboa1 Trata-se do “Forall da muy nobre e sempre leall
çidade de Lixboa que mandou fazer. Joham
estevez correa escudeiro almotaçee moor da
Do foral
çidade era de mjll iiijº Riiijº anos”6. O objeto
O Livro das Posturas Antigas, à guarda do central deste estudo é, portanto, este foral.
Arquivo Municipal de Lisboa, reúne antigas
De acordo com o assento de abertura, o Livro
posturas camarárias e diplomas régios do
das Posturas Antigas foi iniciado a 16 de julho
concelho de Lisboa2. A relevância deste
de 1477 e inclui uma série de normas jurídicas
códice para o conhecimento da cidade foi
emanadas pela autoridade concelhia, “pera
já amplamente manifestada, quer pela sua
boom rregimento politico”, trasladadas dos
transcrição integral a cargo de Maria Teresa
“liuros per que see reegem os almotaçees”. Com
Campos Rodrigues e consequente publicação
efeito, até ao fólio 48 o Livro corresponde a um
impressa pela Câmara Municipal em 19743,
códice factício, ao qual foram acrescentados
quer pelos muitos estudos que o utilizam como
muitos outros diplomas até ao século XVI7.
fonte principal4. No seu interior, encontra-se um
Assim, por estar compreendido entre os fólios
conjunto de normas jurídicas ou regulamento5
37 a 41-verso, o regulamento em apreço neste
1
Este trabalho encontra-se inserido no projeto estudo faz, por isso, parte dos documentos
de investigação de pós-doutoramento da autora, antigos copiados no último quartel do século
financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia XV.
(SFRH/BPD/84349/2012).
2
Arquivo Municipal de Lisboa – Núcleo Histórico [AML- Porém, os referidos “liuros per que see
AH], Chancelaria da Cidade, Livro das Posturas Antigas. reegem os almotaçees” encontram-se hoje
3
Cf. Livro das Posturas Antigas, leit. paleog. e transc.
Maria Teresa Campos Rodrigues, Lisboa, Câmara
desaparecidos, dado não existir nenhum deles
Municipal, 1974. Já antes, este códice tinha merecido no Arquivo Municipal de Lisboa8. A exceção
destaque na coleção Documentos para a História da parece ser o volume que compreende as mais
Arte em Portugal (vol. 2) – Posturas diversas dos séculos antigas posturas do concelho conhecidas.
XIV a XVIII, Arquivo Histórico da Câmara Municipal de
Lisboa, org. Maria Teresa Campos Rodrigues, Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, 1969. a própria ação ou modo de governo, administração,
4
Entre muitos outros, desde os mais antigos: Maria organização ou ordem. No entanto, no século XVI, para
Teresa Campos Rodrigues, Aspectos da administração este mesmo sentido passou a ser empregue a palavra
municipal de Lisboa no século XV, Separata da Revista regime ou regímen, já que o termo regimento, desde o
Municipal (vol. 101-109), Lisboa, Câmara Municipal, século XV, mas com maior incidência a partir do reinado
1968; Iria Gonçalves, “Posturas Municipais e vida de D. Manuel I, ganhou o significado de instrução ou
urbana na baixa Idade Média: o exemplo de Lisboa”, in conjunto de normas emanadas pelo poder régio – para
Estudos Medievais, vol. 7, Lisboa, 1986, pp. 155-172; Iria isso concorrendo também a presença do antepositivo
Gonçalves, “Defesa do consumidor na cidade medieval: regi-, que traduz a ideia de rei. Ora, como a origem do
os produtos alimentares (Lisboa – séculos XIV-XV)”, in foral em causa é concelhia pareceu mais apropriado
Arquipélago – História, série 2, vol. 1-1, Ponta Delgada, utilizar um termo que neste âmbito fosse neutro.
1995, pp. 29-48; até aos mais recentes: Maria Manuela 6
Cf. Livro das Posturas Antigas…, pp. 98-113.
Purificação, A vivência do tempo na Idade Média, no 7
Maria Teresa Campos Rodrigues, “Nota Prévia”, em
Livro das Posturas Antigas de Lisboa, Dissertação de Livro das Posturas Antigas, pp. VII-X.
Mestrado apresentada à Universidade do Porto, 2009. 8
Neste arquivo, para além do Livro das Posturas
5
Optou-se por usar o termo regulamento e não Antigas, os códices existentes, contendo posturas,
regimento, não só devido ao primeiro significar, são mais recentes. O chamado Prólogo de Posturas
inequivocamente, um conjunto de regras ou normas Antigas foi compilado por um dos vereadores da
jurídicas – ainda que tenha uma origem mais recente cidade, o doutor Cristóvão de Faria, depois do ano de
(século XIX) –, mas sobretudo porque o segundo parece 1519 e compreende apenas matérias relacionadas com
ter tido outras aceções, ainda que relacionadas, durante produtos consumíveis e transacionáveis (pão, farinha,
o medievo e início do período moderno. Com efeito, carne, peixe, fruta, hortaliça, queijo e leite, vinho,
segundo José Pedro Machado, Dicionário etimológico azeite, regataria, barcas, fornos, lenha, carvão). Já o
da língua portuguesa, 5 vol.s, 3ª edição, Lisboa, Livros Livro 1º de Posturas é composto sobretudo de cartas
Horizonte, 1977, vol. 5, pp. 64-65, o termo regimento, régias, reportando-se sobretudo ao período moderno.
com origem no latim, regista uma primeira utilização Cf. AML-AH, Chancelaria da Cidade, Prólogo de Posturas
em 1361, significando, não um conjunto de regras, mas Antigas; Livro 1º de Posturas.
48
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
Este encontra-se à guarda do Archivo Real y destes vocábulos fixou-se mais recentemente,
General de Navarra, está datado do século XIV pois enquanto os diplomas tiveram o latim
e foi publicado em 19749. De facto, o título que como língua oficial os termos empregues foram
encabeça as normas deste último volume assim forum e foro. Estes derivaram do vocábulo
mesmo o relaciona: “estas son as pusturas que latino forum, que na sua aceção original
se husarom no feyto daalmotacaria de Lixbõa e (clássica) representava o espaço do tribunal,
ussam oie dia”10. passando posteriormente a ser utilizado com
sentido de jurisdição, convertendo-se mais
Mas antes de se proceder à análise do foral
tarde para significante de norma ou de regime
da almotaçaria de Lisboa e à sua relação
jurídico13. Depois, em língua vulgar e até
com outros documentos normativos, atente-
ao século XVI, por foral podia-se designar a
se brevemente aos informes dados no seu
carta de povoação ou de privilégio, o diploma
título. Chamado de foral, o conjunto de regras
regulador dos direitos e deveres coletivos das
foi mandado fazer pelo almotacé-mor da
comunidades14, mas também os regulamentos
cidade, de seu nome João Esteves Correia,
de determinadas atividades ou serviços com
que era escudeiro, na era ou no ano de 1444.
carácter público, como é o caso do “foral
Sobre estes dados importa, pois, sintetizar
da portagem” outorgado por D. Fernando à
o conhecimento disponível e tecer algumas
cidade de Lisboa em 137715.
considerações.
Foi, então, com o último sentido – de conjunto
É comum designar os diplomas constitutivos dos
de normas jurídicas sobre uma atividade
concelhos e os documentos da sua jurisdição
pública concreta – que o termo foral aparece a
através de dois termos específicos: foral e foros.
designar o regulamento de almotaçaria no Livro
O primeiro compreendia as normas de direito
das Posturas Antigas16, sendo assim mesmo
público, que regulavam as relações jurídicas
sintetizado em nota: “foral per que se am de
entre os habitantes e vizinhos dos concelhos
ordenar e Julgar as cousas dalmotaçaria”17.
com a entidade outorgante (rei ou senhor).
Na folha seguinte do Livro, aparece o “forall
O segundo compreendia as normas de direito
dos fornos”, composto por dois itens, o qual
privado – englobando costumes e posturas11 –,
que regulavam as relações jurídicas entre os Monumenta Historica, a saeculo octavo post christum
habitantes e vizinhos dos concelhos com eles ad quintumdecimum, Leges et Consuetudines, 2 vol.s,
próprios ou com os poderes concelhios. No ed. Alexandre Herculano, Lisboa, Olisipone Typis
Academicis, 1856-1868, vol. 1, pp. 739-742. Forais e
entanto, é preciso ter em conta que, e como foros podem também ser referidos, respetivamente,
afirmou Alexandre Herculano, os limites entre como foros breves e foros extensos, seguindo a
um e de outro eram incertos, até porque “não designação castelhana. José Domingues, Pedro Pinto,
era um methodo, um systema de antemão “Os foros extensos na Idade Média em Portugal”,
in Revista de Estudios Histórico-Jurídicos, vol. 37,
concebido que os separava: separava-os a Valparaíso, 2015, pp. 154-155.
natureza das cousas”12. Todavia, o valor preciso 13
Paulo Merêa, “Em torno da palavra «fórum», (Notas
de semântica jurídica)”, in Revista Portuguesa de
9
Cf. Posturas do Concelho de Lisboa (século XIV), apres. Filologia, vol. 1-2, Coimbra, 1947, pp. 485-494.
Francisco José Veloso; leit. paleog., nótula e vocabulário 14
Alexandre Herculano, História de Portugal – Desde
José Pedro Machado, Lisboa, Sociedade de Língua o começo da monarquia até ao fim do reinado de D.
Portuguesa, 1974. Afonso III, vol. 4, ed. crítica de José Mattoso, Lisboa,
10
Cf. Posturas do Concelho de Lisboa..., p. 45. Livraria Bertrand, 1981, pp. 87-89.
11
Sobre a evolução do conceito de postura no período 15
Cf. doc. 42 e doc. 205 e 206, em Descobrimentos
medieval até significar a norma jurídico-administrativa Portugueses, Documentos para a sua história, 3 vol.s,
de polícia municipal e de regulamentação das pub. e pref. João Martins da Silva Martins, Lisboa, Instituto
atividades económicas (matérias inicialmente reguladas para a Alta Cultura, 1944-1971, vol. 1 (suplemento), pp.
nos costumes e depois nos degredos) ver, Franz-Paul 51-60, 323-324.
de Almeida Langhans, Estudos de direito municipal. 16
Já as posturas estabelecidas pelo concelho aparecem,
As posturas, Lisboa, Instituto Jurídico da Faculdade de neste volume, quase sempre com o nome de ordenaçom,
Direito de Lisboa, 1938, pp. 15-24. como se pode verificar, pelos títulos transcritos infra,
12
Alexandre Herculano, “Costumes e Foros ou notas 85 e 86. Cf. Livro das Posturas Antigas…, pp. 1-128.
Direito Consuetudinario Municipal”, in Portugaliae 17
Cf. Livro das Posturas Antigas…, p. 99.
49
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
deveria ser posto “no cabo do foral e pustura das cartas de 1204 e 1210, concedeu ao
dalmotaçaria na folha preçedente”18. Além concelho lisboeta o privilégio de dispor da
destes, registam-se ainda no mesmo volume almotaçaria como quisesse, ordenando que
mais dois regulamentos com nome de foral: o fosse sempre do concelho27. No entanto, o
“da rrenda das varas que pertençe aa çidade”19 anterior preceito da escolha conjunta dos
e o “da casa do auer do peso”20. oficiais da almotaçaria foi mantido, tal como
se depreende das posturas mais antigas do
Relativamente à almotaçaria, esta foi uma
concelho. Nestas surge também a indicação de
instituição concelhia, a cargo do oficial que
que, à época, havia duas classes de almotacés:
lhe deu o nome, o almotacé, que, por sua vez,
os “grandes” (ou maiores) e os “meores” (ou
correspondia à versão cristianizada de um
pequenos). Os primeiros eram aqueles que os
funcionário islâmico: al-muḥtasib21. No foral
elementos do concelho e o alcaide elegiam,
afonsino de 1179, e conforme notou Marcello
sendo selecionadas vinte e quatro pessoas,
Caetano22, a única menção ao concelho de
um par para cada mês do ano, devendo ainda
Lisboa, enquanto assembleia de homens-bons,
cada par ser composto por um cavaleiro e um
surge na frase que regulava precisamente a
cidadão, ou na sua falta, por dois cidadãos.
escolha daqueles oficiais: “De almutazaria. Et
Já os segundos, igualmente em número de
almutazaria sit de concilio, et mittatur almutaze
dois por cada mês, eram escolhidos pelos
per alcaidem et per concilium uille”23.
primeiros28.
Ora, e contrariamente ao que acontecia nos
Depois, D. Afonso IV, entre 1340 e 134829,
concelhos pertencentes à tradição foraleira
instituiu o sistema dos doze pares para todo o
da área de Coimbra, que seguiam o foral dado
território, determinando ainda que as pessoas
a esta cidade em 111124 e cuja jurisdição da
que ocupassem o cargo de almotacé deveriam
almotaçaria pertencia exclusivamente ao
ser “dos melhores, e mais honrrados, que ouver
concelho25, em Lisboa a escolha dos almotacés
na Villa, e mais seem cobiica pera aguardarem
foi dividida entre o concelho e o delegado do
o que deuem, e que possam cumprir as
poder régio: o alcaide26. D. Sancho I, através
Ordenações, que por ElRey e pelo Concelho, ou
per aquelles, que por ElRey ouverem de veer, e
18
Cf. Livro das Posturas Antigas…, pp. 116-117.
19
Cf. Livro das Posturas Antigas…, pp. 140-142.
de Reger na dita Villa forem estabellecidos”30.
20
Cf. Livro das Posturas Antigas…, pp. 175-177.
21
Cf. entrada Almotacel, em João de Sousa, Vestigios propagado a outras vilas do reino, primeiro a sul do rio
da Lingua Arabica em Portugal, Lisboa, Na Officina da Mondego e depois a sul do rio Tejo. Concretamente,
Academia Real das Sciencias, 1789, p. 51. nos forais de Povos e de Leiria de 1195, de Alcobaça
22
Marcelo Caetano, A administração municipal de de 1210, de Montemor-o-Velho, de Alenquer e de Vila
Lisboa durante a 1ª dinastia (1179-1383), Lisboa, Franca de Xira de 1212, de Torres Vedras de 1250, de
Academia Portuguesa da História, 1981, p. 17. Beja de 1254, de Estremoz de 1258, de Silves de 1266,
23
Cf. foral de Lisboa de 1179, em Portugaliae de Aguiar de 1269 e de Castro Marim de 1277, a escolha
Monumenta Historica…, vol. 1, pp. 411-415. do almotacé estava a cargo do alcaide e do concelho,
24
Concretamente, foral de Tomar de 1174, e seus estando a cargo do pretor e do concelho nos forais de
derivados, caso dos forais de Castelo do Zêzere de Odemira de 1255, de Monforte de 1257, de Vila Viçosa
1174, de Pombal de 1176, de Ourém de 1180 e de de 1270 e de Evoramonte de 1271. Cf. Portugaliae
Torres Novas (versão latina) de 1190. Cf. Portugaliae Monumenta Historica…, vol. 1, pp. 491-723. Ver,
Monumenta Historica…, vol. 1, pp. 399-403, 404-405, também, António Matos Reis, Origens dos municípios
420-421, 477-481. Ver, também, António Matos Reis, portugueses…, pp. 172-174.
Origens dos municípios portugueses, Lisboa, Livros 27
Cf. cartas régias de agosto de 1204 e de 7 de dezembro
Horizonte, 2002, pp. 143-151. de 1210, em Marcelo Caetano, A administração
25
Nos forais referidos na nota anterior aparece somente municipal de Lisboa…, pp. 124-126 e 127-129.
“almotace sit de concilio”, não sendo, por isso, regulada 28
Cf. § 2, em Posturas do Concelho de Lisboa…, p. 45
a forma de escolha dos oficiais, o que leva a pensar que (ver a primeira coluna da tabela anexa).
seria incumbência apenas do concelho. 29
Intervalo cronológico avançado por Marcelo Caetano,
26
Na verdade, também Santarém e Coimbra ao A administração municipal de Lisboa…, p. 77.
receberem um novo foral em 1179, com o mesmo 30
Cf. título “Como se devem fazer os Almotaçees nas
modelo do de Lisboa, instituíram este sistema na Villas, assy os mayores, como os meores”, em Livro das
escolha dos almotacés. Além disso, tal sistema foi ainda Leis e Posturas, pref. Nuno Espinosa Gomes da Silva;
50
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
Assim, quem mandou fazer o foral da fazer a conversão34. Todavia, a verdade é que
almotaçaria de Lisboa foi um dos dois até ao novo sistema ficar estabilizado não
almotacés grandes, maiores ou mores31, da deixou de haver alguma confusão, colocando-
cidade, que durante um mês andou no ofício. se nas escrituras “juntamente com o anno de
Mas sobre ele, para além do nome e do título Cristo a Era de Cesar, ou se equivocava a mesma
nobiliárquico, pouco mais se pode saber Era com o anno, pondose muitas vezes o anno
com certeza, agravado pela circunstância pela Era; e assim mesmo ao contrario, servindo
de se terem perdido os primeiros livros das esta palavra a ambos os cômputos”35. Ora,
vereações da cidade32, os quais poderiam é precisamente esta a dúvida que o foral da
conter ou esclarecer outras informações, como almotaçaria de Lisboa coloca, pois nele surge
a própria razão da compilação do conjunto a expressão “era de mjll iiijº Riiijº anos”, o que
normativo. permite extrair duas datas: ou o ano de 1406
(era de 1444), ou o ano de 1444. Isto significa
Acresce ainda a esta dificuldade a dúvida
que o foral, ou foi produzido no reinado D.
subjacente à própria data. Como se sabe, D.
João I, ou no reinado de D. Afonso V durante
João I alterou a contagem do calendário juliano,
a regência de seu tio D. Pedro, Duque de
ou era de César, para o calendário gregoriano,
Coimbra. Com efeito, se Maria Teresa Campos
ou ano do nascimento de Jesus Cristo, o qual
Rodrigues ao organizar o índice do Livro das
diferia do primeiro em menos 38 anos. Assim, a
Posturas Antigas alertou para este problema36,
partir de 22 de agosto33 de 1422 (era de 1460),
não deixou contudo de considerar como data
os tabeliães e escrivães ficaram obrigados a
provável para o regulamento em apreço o ano
mais recente37.
leit. paleog. e transc. Maria Teresa Campos Rodrigues,
Lisboa, Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, 34
Cf. Título LXVI, Livro 4, das Ordenações Afonsinas,
1971, pp. 275-276; também em Ordenações Del-Rei D. 5 vol.s, fac-símile da edição da Real Imprensa da
Duarte, apres. Mário Júlio de Almeida Costa, Lisboa, Universidade, Coimbra, 1792, apres. Mário Júlio de
Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, p. 366. Almeida Costa, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,
31
Convém, contudo, não confundir os almotacés-mores 1984, pp. 233-234.
das estruturas administrativas locais com o ofício 35
José Soares da Silva, “Dissertaçaõ sobre o numero
régio de almotacé-mor, cuja função era controlar o Era”, in Collecçam dos documentos, com que se
abastecimento dos géneros alimentícios da corte e da authorizam as memorias para a vida delRey D. Joaõ o I.
limpeza dos caminhos por onde esta passasse, tendo Tomo Quarto, Lisboa, Na Officina de Joseph Antonio da
para o efeito regulamentação específica. Deste ofício Sylva, 1734, p. 140.
régio, e não obstante a sua criação andar atribuída 36
De acordo com as palavras de Maria Teresa Campos
a D. Afonso V (Ruy d’Abreu Torres, “Almotaçaria”; Rodrigues, “Índice dos documentos”, em Livro das
“Almotacé”, in Dicionário de História de Portugal, dir. Posturas Antigas…, p. 459 (nota): “A datação dos
Joel Serrão, vol. 1, Porto, Livraria Figueirinhas, 1981, documentos de, grosso modo, o primeiro quarto do
p. 121), as Cortes de Lisboa de 1439 esclarecem que códice é um tanto aleatória. Verificamos através de
foi D. Duarte quem ordenou “Allmotaçe moor nom elementos que possuímos que a designação de era
por neçesydade mais por comprir vomtade mostrando nalgumas datas não correspondia à realidade e que
que se fazia por boom Regymento”; ofício que nestas não era pois lícito fazer a redução de 38 anos na data
mesmas Cortes acabou por ser abolido. Cf. Cortes apresentada. Outras vezes através desses mesmos
Portuguesas, Reinado de D. Afonso V (Cortes de 1439), elementos foi-nos possível com confiança reduzir as
org. João José Alves Dias, Pedro Pinto, Lisboa, Centro eras a anos”.
de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 37
Maria Teresa Campos Rodrigues, “Índice dos
2016, p. 97. documentos”, em Livro das Posturas Antigas…, p. 465.
32
Maria Teresa Campos Rodrigues, Aspectos da Também Iria Gonçalves, “Posturas Municipais”…, p.
administração municipal de Lisboa…, p. 38. Mário 167, considerou estas posturas do ano de 1444. Um
Farelo, A oligarquia camarária de Lisboa (1325-1433), problema similar encontra-se no Livro da Repartiçom
Tese de Doutoramento apresentada à Universidade de da Fruita do concelho de Loulé, pois nele se apresenta
Lisboa, 2008, pp. 13-15. a expressão “Era de 1450 anos”. Se Alberto Iria propôs
33
Ou, 14 de agosto, já que de acordo com José a conversão para o ano de 1412, Maria Valentina Garcia
Domingues, As Ordenações Afonsinas, Três Séculos de Ferreira mostrou, através de factos históricos, que não
Direito Medieval (1211-1512), Sintra, Zéfiro, p. 393: era possível atribuir tal data, considerando, então, o ano
“A data, nas Afonsinas, de 22 de Agosto é a data da de 1450 como “única data historicamente aceitável”.
publicação em Lisboa, porque a lei é, com certeza, de Maria Valentina Garcia Ferreira, “O documento
14 de Agosto”. medieval português Livro da Repartiçom da Fruita e a
51
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
Assim sendo, e usando este intervalo (é que, mesmo estando na frontaria alentejana
cronológico como referência, ao cruzar nos últimos anos do século XIV, as tréguas
outras fontes, encontra-se um escudeiro – ou ocorridas de 1389 a 139540 permitiriam ao
como Fernão Lopes o qualificou: “um bom criado do Condestável, durante o ano de 1393-
escudeiro” – também ele chamado de “Joham 1394, estar em Lisboa a desempenhar cargos
Estevez Correa”, ou referido apenas como João camarários). E finalmente: poderá ainda ser
Esteves, casado e morador em Lisboa. Sobre o almotacé-mor da cidade que compilou o
ele sabe-se que ajudou o Mestre de Avis na foral da almotaçaria? Ou, pelo contrário, eram
defesa do reino antes da sua aclamação como pessoas diferentes?
rei; participou ao lado de Nuno Álvares Pereira
na batalha de Valverde (1385), seguindo depois Neste ponto e antes de avançar, importa
com Antão Vasques numa outra incursão considerar uma outra informação. Tal como
contra Castela, tendo, aliás, sido peça decisiva veio a ficar regimentado para Évora41 e, por
na localização das tropas inimigas; e ainda, cópia adaptada, para Arraiolos42, é bem possível
enquanto “vassallo d’el-rei de Portugal e creado que nesta época em Lisboa os indivíduos que
do Condestrabre” – conforme a descrição do desempenhavam os mais elevados cargos
próprio –, foi enviado ao castelo da Feria, em camarários eletivos – isto é, juízes, vereadores
território inimigo, no início de junho de 1398, e procuradores – depois de deixarem estas
com a mensagem que estabelecia o dia e o
lugar da eminente batalha, que, todavia, não 40
Manuel Maria Wermers, Nun’Alvares Pereira, A sua
chegou a acontecer por falta de comparência cronologia…, pp. 7-99.
dos castelhanos38.
41
O Regimento de Évora definia que os lugares de
almotacé nos primeiros meses do ano deveriam ser
Por outro lado, em estudo recente, Mário Farelo ocupados por oficiais do ano transato. Assim, ocupavam
inventariou no corpo dos oficiais concelhios no primeiro e segundo meses do ano os juízes, no
terceiro e quarto meses dois pares de vereadores,
lisboetas desta época três homónimos. Um e no quinto mês os procuradores. Para os restantes
primeiro João Esteves foi juiz do cível no ano sete meses escolhia-se gente nova entre os homens-
camarário de 1393-1394; um segundo João bons. Cf. Título V do “Regimento da cidade de Évora”,
Esteves, escudeiro, foi procurador do concelho em Documentos históricos da cidade de Évora, pub.
Gabriel Pereira, fac-símile da edição da Évora, 1885-
nos anos de 1404-1405 e 1405-1406; e um 1891, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda,
terceiro João Esteves foi também procurador 1998, p. (parte I) 164, ou no “Livro do Regimento de
do concelho em 1412 e no ano de 1417-141839. Évora”, em Os regimentos de Évora e de Arraiolos do
século XV, int. e ver. Hermínia Vasconcelos Vilar e leit.
Os informes anteriores permitem levantar e transc. Sandra Paulo, Évora, CIDEHUS-UE, 2012, p. 24.
uma série de questões. Poderão todos os Este regimento foi datado criticamente, por Hermínia
Vilar, da “segunda metade da década de dez ou nos
oficiais homónimos ser o mesmo indivíduo?
primeiros anos da década de vinte do século XV”, ou,
Mais: poderá este indivíduo ser também o mais precisamente, segundo proposta recente de
escudeiro que combateu ao lado de D. João I? José Domingues, de 1421. Hermínia Vasconcelos Vilar,
“Entre Évora e Arraiolos: o percurso de um documento”,
sua datação (Análise de dados internos e externos)”, em Os regimentos de Évora e de Arraiolos do século
in Actas do VIII Encontro da Associação Portuguesa de XV…, p. 13; José Domingues, “Ordenações portuguesas
Linguística, Lisboa, Colibri, 1993, pp. 171-184. desaparecidas e duvidosas”, in e-SLegal History Review,
38
Cf. Fernão Lopes, Chronica d’El-Rei D. João I, 7 vol.s, vol. 17, 2014.
Lisboa, Escriptorio, 1897-1898, vol. 3, pp. 98-103; 42
O Regimento de Arraiolos definia que os lugares de
vol. 5, pp. 20-27, vol. 6, pp. 140-143; Estoria de Dom almotacé deveriam ser cumpridos no primeiro mês
Nuno Alvrez Pereyra. Edição crítica da «Coronica do pelos juízes, no segundo mês por um par de vereadores
Condestabre», intr., notas e glos. Adelino de Almeida e no terceiro mês por um vereador e pelo procurador,
Calado, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1991, todos do ano transato, escolhendo-se gente nova entre
pp. 167-175. Ver também, Manuel Maria Wermers, os homens-bons para os restantes nove meses do ano.
“Nun’Alvares Pereira, A sua cronologia e o seu Cf. “Livro do Regimento de Arraiolos”, em Os regimentos
itinerário”, in Lusitana Sacra, vol. 5, Lisboa, 1960, pp. de Évora e de Arraiolos do século XV…, p. 81. José
7-99. Domingues data este regimento de 1 de junho de 1423
39
Mário Farelo, A oligarquia camarária de Lisboa…, pp. ou ano posterior, de 1424 até 1429. José Domingues,
488-489. Ordenações portuguesas desaparecidas…, p. 11.
52
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
funções, que eram anuais, ficassem obrigados pouco tempo depois, por ficar fixado como lei
a servir no cargo de almotacé durante um geral nas Ordenações Afonsinas48.
mês no ano camarário subsequente, o qual
Assim, e tomando como condição a efetiva
se iniciava em abril43. Afinal, em Lisboa, parte
transmissão de cargos concelhios em Lisboa,
desta praxe encontra-se comprovada desde
torna-se possível sugerir que o escudeiro
1299 para os alvazis (ou juízes), sabendo-se
João Esteves, que foi procurador do concelho
deste preceito por uma carta de D. Dinis que
em 1405-1406, tenha sido designado
ao instituir os dois lugares de juízes dos órfãos
automaticamente como almotacé no ano
definia que fossem ocupados pelos “Alvaziis
camarário seguinte (que englobava os restantes
que ora ssom. pois sayren do alvaziado e de
meses de 1406), podendo-se, então, pensar
mes da almotaçaria segundo vosso custume.
que este indivíduo possa ser o mesmo João
nos onze meses depois”44. Aliás, se se aceitar
Esteves Correia, escudeiro, que na era de 1444
que os regimentos de Évora e de Arraiolos
– e, portanto, no ano de 1406 – mandou fazer
tiveram “por base um manuscrito jurídico-
o foral da almotaçaria durante o desempenho
legislativo comum, que poderá ser identificado
das suas tarefas.
com o Caderno de Justiça do infante D. Duarte”,
de 1418, conforme hipótese desenvolvida Pese embora a coincidência encontrada no
por José Domingues45, será que o preceito nome, no título nobiliárquico e no ano de
da transmissão dos magistrados camarários 1406, em bom rigor, a hipótese de o foral da
do ano anterior para o lugar da almotaçaria almotaçaria ter sido produzido no ano de 1444
não poderia ter sido resultado de práticas não pode ainda ser totalmente descartada.
instituídas na capital do reino? Mesmo admitindo que o escudeiro que
mandou fazer este regulamento fosse o
Com efeito, se a falta dos livros de registos
referido por Fernão Lopes – pela menção
dos nomes dos almotacés e mais oficiais
camarários – que deveriam existir desde a lei desta praxe devido à falta de muitos dados, em especial
imposta por D. Afonso IV46, – não permite a para o cargo de almotacé. Ainda assim, alguns casos
verificação desta praxe na transição do século esporádicos testemunham-na: Gil Peres e Pedro Esteves
XIV para o XV47, certo é que o sistema acabou, foram alvazis em 1331-1332 e almotacés em abril de
1332; Pedro Eanes de Alfama foi alvazil dos ovençais em
43
Maria Teresa Campos Rodrigues, Aspectos da 1341-1342 e almotacé em maio/junho de 1342; Fernão
administração municipal de Lisboa…, p. 37. Mário Álvares da Escada de Pedra foi vereador em 1417-1418
Farelo, A oligarquia camarária de Lisboa…, p. 37. e almotacé em janeiro de 1419.
44
Cf. carta régia de 28 de janeiro de 1299, em Marcelo 48
Conforme as conclusões de José Domingues, As
Caetano, A administração municipal de Lisboa…, p. 133. Ordenações Afonsinas, Três Séculos…, pp. 117-118,
45
José Domingues, Ordenações portuguesas embora tenha havido fases compilatórias preliminares
desaparecidas…, pp. 6-12. ao tempo de D. João I, a tarefa derradeira que deu
46
Cf. com “Ley, como os Almutacees devem fazer origem aos cinco livros das Ordenações Afonsinas teve
em seus Officios”, em Livro das Leis e Posturas…, início no reinado de D. Duarte e foi terminada em 1446,
pp. 259-261: “Porque ElRey hé certo, que em feito ainda na menoridade de D. Afonso V. Nestas estava
da Almoteçaria nom se faz, o que deve com mingua estabelecido que os oficiais concelhios do ano anterior
d’escarmento de Justiça […] que daqui adeante se faça serviam como almotacés apenas nos três primeiros
per esta guisa, convem a saber, que logo seja feito meses do ano, ou seja, colocavam-se, respetivamente,
hũu livro em cada Villa, que tenha o Procurador do dois juízes ordinários no primeiro mês, dois vereadores
Concelho, e em no começo desse livro sejam escriptos no segundo mês e um vereador com o procurador no
os Juizes, ou Alvaziis de cada Villa, ou lugar, que em terceiro mês. Cf. prol., §§ 1 e 2, do Título XXVIII, Livro
esse anno forem, e o Procurador desse Concelho, e os 1, das Ordenações Afonsinas…, pp. 179-181. Assim,
Almotacees de cada hũu mez […] E os almotacees, que percebe-se que, no preceito da transmissão de oficiais
assy forem ordenados sejam escritos polos Escrivam do camarários para o lugar da almotaçaria, as Ordenações
Concelho em hũu Livro, que tenham pera esto, e pera Afonsinas seguiram não o sistema de Évora (ver supra,
as outras cousas de Vereamento da Villa”; também em nota 41), mas o adotado para Arraiolos (ver supra, nota
Ordenações Del-Rei D. Duarte…, p. 351-352. 42), pois nem todos os concelhos do reino deveriam ter
47
Também, as listas dos oficiais e do elenco camarário no corpo dos oficiais camarários quatro juízes, quatro
coligidas por Mário Farelo, A oligarquia camarária vereadores e dois procuradores. A redução referida
de Lisboa…, pp. 315-675, 711-731, não devolvem permitiu, portanto, generalizar a norma a todas as
nenhuma certeza (de comprovação ou de refutação) realidades locais.
53
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
ao título e ao último nome (Correia) de João pelos almotacés ou pelo concelho. Todos
Esteves –, hipótese que lhe concederia uma os almotacés juravam antes de iniciarem
idade avançada, muito acima da média49, o funções.
conhecimento adquirido ao longo do tempo
§2 Provimento dos oficiais: Os advogados
pode também concorrer para o argumento,
da cidade não podiam ser almotacés
já que à falta de estudos específicos era ao
enquanto tivessem pleitos em curso.
saber da experiência que se iam buscar as
competências necessárias. Mas uma outra §3 Renda da almotaçaria: A renda da
circunstância que impele considerar como almotaçaria era propriedade do concelho
mais provável o ano de 1444 deriva do facto de que dispunha dela como entendesse.
só se encontrarem documentos com menção §4 Âmbito jurisdicional: Julgar as demandas
ao próprio foral no reinado de D. Afonso V e sobre paredes e portais, sobre sujidades
seguintes – os quais serão tratados com maior ou escoamento de águas, sobre ruas,
pormenor adiante –, mas nenhum para os dois frestas, azinhagas, pardieiros e janelas,
reinados anteriores. sobre madeiramento de paredes, sobre
Em todo o caso, convém deixar claro, que edificação ou levantamento de casas,
como alguns dos dados encontrados são sobre enxurros (águas correntes), canos,
circunstanciais e como os argumentos balcões, tabuados ou sobre feitos nas
desenvolvidos são sobretudo interpretativos, ruas; fazer carreiras e calçadas, limpar
não sendo, por isso, suficientes para comprovar monturos (esterqueiras) e fontes;
ou refutar, quer a identificação ou relação fiscalizar o vinho de fora e todas as coisas
entre os indivíduos homónimos, quer a data compradas e vendidas.
do foral da almotaçaria de Lisboa – ainda que §5 Alcance jurisdicional: Os clérigos, frades,
o ano de 1444 seja, em nossa opinião, mais fregueses e todos os vizinhos da cidade
sustentável –, as questões levantadas manter- tinham de responder aos almotacés e
se-ão abertas ou, pelo menos, sem respostas acatar a sua decisão.
definitivas.
§6 Impostos: A venda da carne de vaca, de
cervo e de zebro, do carrego e da barca
de pescado, e o juízo dos almotacés
Do conteúdo
pagavam taxa de 1 dinheiro.
O foral mandado fazer pelo almotacé-mor
§7 Limitações ao juízo: As demandas não
da cidade de Lisboa compreende, portanto,
podiam ser julgadas à revelia das partes,
um conjunto de normas jurídicas próprias da
mas as coisas em causa podiam ser
almotaçaria com os seguintes conteúdos50:
embargadas nessa situação.
§ 1 Provimento dos oficiais: Os dois almotacés
§8 Recursos: As decisões dos almotacés
maiores eram escolhidos pelo concelho
davam lugar a recurso, por agravo, não
e alcaide, no primeiro dia do mês,
devendo a parte que agravar pagar
devendo um deles ser cavaleiro e outro
custas.
cidadão ou, então, dois cidadãos. Os
almotacés pequenos eram escolhidos §9 Trâmites do recurso: O agravo era
julgado pelos alvazis, devendo ser posto
49
Se o escudeiro em 1383 tivesse, suponha-se, cerca de até três dias da decisão dos almotacés.
18 anos, em 1444 teria cerca de 79 anos; algo que não Da decisão dos alvazis não havia mais
sendo impossível seria, contudo, invulgar.
recurso.
50
Os itens do foral da almotaçaria de Lisboa no Livro
das Posturas Antigas não se encontram originalmente § 10 Formalidades no recurso: No agravo,
numerados. Porém, para facilitar a sua identificação,
os almotacés explicitavam aos alvazis a
optou por ordená-los, dando a todos os itens, com
exceção do título, uma numeração sequencial (ver a demanda e a sua decisão por viva voz e
terceira coluna da tabela anexa). não através de documentos escritos.
54
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
55
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
56
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
a 6 arráteis e quarta). A carne devia ser seria posta pelos almotacés com o
bem pesada sob sanção pecuniária de 5 alcaide por mandado dos alvazis que
soldos para os infratores na primeira e deviam ainda mandar cumprir a decisão
segunda transgressão, sendo a terceira do almotacé.
punida com a mesma coima e com a
§ 40 Regras para o juízo sobre obras: Não se
colocação do infrator no pelourinho.
podiam abrir vãos alinhados com os vãos
No açougue do pescado, cada cesto de
do edifício fronteiro do outro lado da
pescado pagava taxa de 1 dinheiro pelo
rua, com exceção dos vãos já existentes,
vendedor, mas se fosse o pescador a
podendo os vãos ficarem desalinhados.
vender o pescado a taxa seria devida ao
comprador. Aplicava-se ainda o imposto § 41 Regras para o juízo sobre obras: Não
chamado de foro estabelecido na carta se podiam construir escadas na rua em
de foro53. frente à porta do edifício vizinho.
57
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
§ 46 Regras para o juízo sobre obras: Podia-se diferentes donos por piso, o dono do piso
utilizar o muro da cerca da cidade para superior não podia abrir vãos alinhados
encostar edifícios, os quais podiam ser com os vãos do piso inferior.
demolidos em tempo de guerra e de
Deste elenco distinguem-se, então, regras
cerco.
genéricas da instituição da almotaçaria (§§ 3
§ 47 Regras para o juízo sobre obras: Não a 5); regras específicas dirigidas aos oficiais
se podiam fazer vãos em paredes de da almotaçaria – seja para o provimento dos
edifícios contíguos ao quintal ou campo oficiais (§§ 1, 2, 45), seja para a atuação dos
de outrem. Porém, se alguém os abrisse oficiais nas ações de juízo (§§ 7 a 11, 20, 33,
e os vãos existissem por mais de um 39), seja ainda para a atuação dos oficiais na
ano e um dia, então, não se podia tapar execução ou manutenção das obras públicas (§
esses vãos, aquando da construção no 36) – mas, também, regras específicas dirigidas
quintal ou campo, devendo-se deixar às relações dos almotacés com os particulares
uma azinhaga de cinco pés, segundo – seja na tributação e na fiscalização das
direito comum55, entre os vãos vizinhos atividades comerciais (§§ 6, 12 a 19, 34, 35),
e a parede nova. seja no ajuizamento das demandas originadas
pela atividade construtiva (§§ 21 a 32, 37 a 44,
§ 48 Regras para o juízo sobre obras: Num
46 a 48).
edifício com mais de um piso com
Todavia, se se comparar o foral da almotaçaria
Esteves Correia apenas mencionaria o antigo costume com o referido códice do Archivo Real y
local, relatado na carta régia de 28 de janeiro de 1299 General de Navarra percebe-se que algumas
(ver supra, nota 44). das normas devem ter tido origem neste
55
O direito comum ou ius commune suportava-se
fundamentalmente nas fontes do direito romano
volume, ou, então, em normas idênticas
justinianeu, assim chamado por derivar da compilação que estariam nos outros “liuros per que see
legislativa (composta por quatro volumes) efetuada reegem os almotaçees”, por não se saber nem
na época do imperador Justiniano I do oriente, no como, nem quando este códice foi levado
século VI. Redescobertos em Bolonha, no século XII,
estes volumes (ainda que com uma sistematização
para tão longínquas paragens. Aliás, sobre
diversa da original) depressa se propagaram pelos este último documento importa ainda referir
reinos europeus, quer através da sua receção no direito que também ele é uma coletânea de normas
canónico, quer através do seu estudo nos novos Estudos jurídicas de almotaçaria, já que todos os fólios
Gerais, para o qual concorreram ainda as interpretações
e as sistematizações dos textos doutrinais. Guilherme
foram escritos pela mesma mão no século
Braga da Cruz, “O direito subsidiário na história do XIV, apesar de conter posturas com datas
direito português”, in Revista Portuguesa de História, diferentes. Com efeito, ao título seguem-se 15
vol. 14, Coimbra, 1975, pp. 181-191. Mais complexa de itens aparecendo depois a primeira postura
esclarecer é a fonte jurídica do direito comum utilizada
para prescrever os cinco pés. Por esta razão, deixaremos
datada de julho de 128156. Por isso, Francisco
para outra oportunidade tal temática. Não obstante, José Veloso, no seu breve estudo introdutório,
o facto de parte desta norma derivar do direito considerou os primeiros itens como os mais
comum parece ajudar ao argumento de datar o foral antigos e necessariamente anteriores àquele
da almotaçaria de 1444. Apesar de existirem oficiais
formados ou habilitados em direito civil na estrutura
ano. Encontram-se ainda datadas mais
concelhia, com maior incidência a partir da década de quatro posturas, sequencialmente, de 1314,
1370 (Mário Farelo, A oligarquia camarária de Lisboa…, 1324, 1316 e 1322 – o que permite situar a
pp. 197-206), só a partir de 1426 (ou seja, depois de compilação no reinado de D. Dinis –, além de
1406), é que a câmara de Lisboa passou a deter dois
volumes contendo “um extracto em vulgar do código
ter também sido inscrita, na capa do volume, a
de Justiniano, acompanhado das glosas de Accursio e data de 1380 (era de 1418)57.
dos comentários de Bartholo”, os quais tinham sido
enviados pelo próprio rei, para por eles se passarem a 56
Cf. § 17, nas Posturas do Concelho de Lisboa…, p. 47.
emitir as sentenças (Henrique da Gama Barros, História 57
Francisco José Veloso, “Apresentação”, em Posturas
da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a do Concelho de Lisboa…, pp. 7-10. Por lapso de
XV, 4 vol.s, Lisboa, Typographia da Academia Real das leitura da notação do valor de “x” nas datas de “mill
Sciencias, Lisboa, 1885-1922, vol. 1, p. 67). [Link]” e “mill e ccc Lx”, Francisco José Veloso fê-las
58
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
59
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
60
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
Naturalmente, a hipótese mais imediata foi nome, em concreto, “ssa” – sendo este um
supor que o conjunto normativo plasmado dos marcadores importantes e balizadores
neste fólio seria uma cópia do foral da da distinção linguística do português da fase
almotaçaria de Lisboa ou, até mesmo, o próprio arcaica (séculos XIII a XIV) para a fase arcaica
documento coligido por João Esteves Correia, média (século XV até à primeira metade do
pois, como se disse, apenas se conhece o seu século XVI) –, por oposição à chamada forma
traslado no Livro das Posturas Antigas. Todavia, tónica, “ssua”, que estaria já generalizada a
a análise aprofundada ao texto do fólio em partir de 1380, pelo menos na documentação
causa releva que ele é anterior a qualquer das régia76.
datas possíveis do foral (1406 ou 1444), o que
As considerações expostas são ainda
por si só elimina as conjeturas sugeridas. Por
confirmadas por um outro dado que deriva
um lado, o tipo de letra parece ser de meados
da coincidência de este fólio conter um item
do século XIV, não indo além do último quartel
comum quer ao códice do Archivo Real y
desse século73 – sendo, aliás, muito similar à
General de Navarra (§ 15), quer ao foral da
letra do códice do Archivo Real y General de
almotaçaria de Lisboa (§ 39). A comparação
Navarra. Por outro lado, a linguagem utilizada
textual entre eles permite, pois, posicionar
é claramente mais antiga do que a do foral74.
cronologicamente o regulamento do fragmento
E isto percebe-se não só pela presença de
entre aqueles dispositivos normativos, já que
palavras portuguesas na sua forma mais arcaica
se a linguagem é mais próxima ao documento
– caso de “ergo”, “erel”, “meyadade”, “logar”,
do século XIV (inclusivamente até na notação
mais próximas, portanto, dos respetivos termos
dos números), o conteúdo apresenta-se
latinos75, ao contrário dos que aparecem no
semelhante ao do século XV. Aliás, a posição
foral, tendo a primeira sido substituída por
relativa considerada também ajuda a explicar
“saluo” e as restantes surgem com a forma
o facto de se encontrarem ausentes neste
de “ereo”, “lugar”, “metade” –, como também
fólio os dois últimos itens do foral (§§ 47 e
pelo uso reiterado da forma átona no pronome
48), não obstante haver espaço suficiente no
possessivo feminino em posição anteposta ao
pergaminho para os registar.
73
Esta informação deve-se à preciosa ajuda dada pela É, então, plausível admitir que o regulamento
Doutora Susana Tavares Pedro, também por intermédio fixado no fragmento corresponda a uma
do Dr. Pedro Pinto, a quem manifestamos o nosso primeira coleção das normas para o
profundo reconhecimento.
74
Naturalmente que, por não dominarmos a linguística
ajuizamento das contendas de obras na cidade
portuguesa histórica, todas as induções seguintes serão de Lisboa77 – no seguimento da compilação do
provisórias e passíveis de revisão.
75
De acordo com João pedro Machado, Dicionário 76
Sobre estas características ver Clarinda de Azevedo
etimológico…, vol. 2, p. 429; vol. 3, pp. 213-214 e 448; Maia, “O Tratado de Tordesilhas: algumas observações
vol. 4, pp. 117-118, o termo “ergo” derivava do latim sobre o estado do Língua Portuguesa em finais do
ergo e tinha no português mais antigo o sentido de século XV”, in Biblos, vol. 70, Coimbra, 1994, pp. 54-
exceto (salvo); o termo “erel” provinha do latim hērēde 58 ou da mesma autora, “A abordagem os textos
(herdeiro) e correspondia à variação de “(h)eree” medievais (reflexões sobre alguns fragmentos das
enquanto singular de “(h)erees”, por analogia às formas Partidas de Afonso X)”, in Actas do XII Encontro
antigas da flexão gramatical de palavras terminadas em Nacional da Associação Portuguesa de Linguística,
-l; o termo “meyadade” com origem no latim medietāte Lisboa, Associação Portuguesa de Linguística, 1997, vol.
era a forma mais antiga, tendo a palavra “metade” 2, pp. 160-161. Especificamente sobre os pronomes
derivado da mesma origem mas numa outra série, com possessivos femininos ver, ainda, Maria José Simões
tratamento semiculto do -t-; já o termo “logar” do latim Pereira de Carvalho, Do português arcaico…, pp. 103-
lŏcāle correspondia à grafia com maior frequência no 122.
português arcaico pelo menos até ao século XV. Sobre a 77
Não nos parece credível que o regulamento deste
evolução das formas de plural das palavras em singular fragmento pudesse pertencer a outra povoação – como
terminadas em -l, ver Maria José Simões Pereira de Vale de Cambra ou Oliveira de Azeméis (ver supra, nota
Carvalho, Do português arcaico ao português moderno, 71) – pela razão de este conter a cópia do § 15 das
Contributos para uma nova proposta de periodização, antigas posturas de Lisboa, bem como a norma sobre
Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade a transmissão do cargo de alvazil para almotacé, a qual
de Coimbra, 1996, pp. 123-140. só está documentalmente comprovada para Lisboa (ver
61
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
códice do Archivo Real y General de Navarra existindo a necessidade de coligir estas regras
–, o qual foi depois copiado com a mesma durante esse período –, permite ponderar que
organização normativa e aumentado em dois este regulamento ou foi compilado durante o
itens, por João Esteves Correia78. Ora, como reinado de D. Afonso IV (até 1348), ou, então,
a postura mais recente do códice de Navarra depois, no reinado de D. Fernando, quando o
reporta-se a 1324, torna-se possível admitir número da população recuperou o suficiente
esta data como o limite ad quo do regulamento para justificar um novo surto edificatório, o
do fragmento, enquanto o ad quem não qual também é evidenciado pela construção
deverá ultrapassar, como se viu, a década de da nova muralha. Assim sendo, poderá este
80 do século XIV. Mas, a circunstância de no documento derivar da averiguação proposta
intervalo proposto ter ocorrido a peste negra79, por D. Afonso IV, nas referidas Cortes de 1331,
levando à morte de uma grande parte da pois na resposta o rei disse que iria saber,
população e consequentemente à quebra da sobre a matéria de obras de janelas e balcões,
pressão imobiliária na cidade80 – e por isso não “como sse en esto deue guardar o dereyto. da
supra, nota 44). É certo que esta última norma não
almotaçarya. e fara que sse guarde”, e sobre
está completa pela referida deterioração, no entanto, os alugueres, “que se guarde hi o dereyto. e
a coincidência textual em todas os restantes itens ouçam no os almotaçees ou os aluazijs. cuia
e a presença do início da frase que descreve aquela for a Jurisdiçom”81? Ou, por sua vez, poderá
praxe, permite-nos avançar, com alguma segurança, na
atribuição proposta.
este documento ser contemporâneo de um
78
Algo que se apresenta em linha com o esclarecimento costume lisboeta, firmado em 20 de outubro
de Franz-Paul de Almeida Langhans, Estudos de direito de 1373, justamente sobre os alugueres das
municipal…, p. 50, sobre as primeiras compilações casas82? Novamente, estas questões ficam sem
das normas jurídico-administrativas municipais:
“Organizavam-se cadernos de posturas, extraindo-
resposta até que novos dados permitam um
as dos livros das vereações e de outras colectâneas melhor balizamento cronológico.
antigas, com o fim utilitário de não deixar perder,
pelo esquecimento ou pelo desgaste do tempo, regras
Certo é que nenhuma outra fonte normativa
indispensáveis ao convívio social elaboradas em épocas medieval de Lisboa contém regras específicas
anteriores”. Porém, também o conhecimento deste sobre o assunto83, seja no restante códice do
fragmento não ajuda ao esclarecimento da data do foral
da almotaçaria. Sem dúvida que o fragmento demonstra chegados fossem ocupar os imóveis que entretanto
que no século XIV se tinha feito o registo escrito das ficaram vazios, não surgindo qualquer surto construtivo
normas jurídicas utilizadas para o ajuizamento das que justificasse o registo da sua regulação jurídica.
contendas de obras na cidade de Lisboa. Mas será que 81
Ver supra, nota 67.
em 1406 o caderno a que pertenceria o fragmento 82
Cf. §§ 1 a 5 no Título LXXIII, Livro 4, das Ordenações
estaria já fisicamente deteriorado para justificar um Afonsinas…, pp. 258-260. Este costume, do qual não
novo traslado? Ou, segundo este raciocínio não fará se encontra testemunho documental sobrevivente no
mais sentido considerar o ano de 1444, porque mais Arquivo Municipal de Lisboa, ficou registado por ter sido
distante? Além disso, é nas normas acrescentadas que adaptado como lei geral nas Ordenações Afonsinas (José
se encontra o item que refere o direito comum (ver Domingues, As Ordenações Afonsinas, Três Séculos…,
supra, parte final da nota 55). Já o traslado do foral pp. 211 e 546) sob o título: “Dos Allugures das Casas, e
para o Livro das Posturas Antigas, de 1477, parece ter da maneira que se deve teer acerca delles”. O prólogo
tido como propósito a reunião num único volume de assim mesmo o menciona: “Na Camara da nossa sempre
todas as normas jurídico-administrativas relacionadas Leal Cidade de Lixboa foi achado huũ Custume escripto,
com a almotaçaria da cidade, tal como se constituiu e geralmente usado per muito longo tempo, em esta
o Livro de Posturas da cidade de Évora, compilado forma que se segue…”; concluindo, depois, com: “E com
por Fernão Lopes de Carvalho, em 1466 (O Livro das esta declaraçom mandamos e poemos por Ley que se
Posturas Antigas da Cidade de Évora, introd. e rev. guarde geralmente o dito Custume por todo o Regno,
Maria Filomena Lopes de Barros e Maria Leonor F. O. segundo em elle he contheudo, e per nos declarado
Silva Santos, Évora, CIDEHUS, 2014, pp. 2-3). como dito he”.
79
Entre outros, A. H. de Oliveira Marques, Portugal na 83
De referir que existe ainda uma lei geral, outorgada
Crise dos séculos XIV e XV, vol. 4 da Nova História de por D. Afonso III em 26 de dezembro de 1253, chamada
Portugal, dir. Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, de “Lei de Almotaçaria”, que se reporta apenas a
Lisboa, Editorial Presença, 1987, pp. 20-21. matérias do domínio do mercado (abastecimento, taxas
80
Mesmo considerando que parte do contingente sobre os produtos transacionados, tabelamento de
populacional de Lisboa possa ter recuperado por via salários), surgida pela necessidade da desvalorização
da migração interna, é lógico supor que os recém- monetária. Cf. Portugaliae Monumenta Historica…, vol.
62
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
Archivo Real y General de Navarra, seja nos muitas normas avulsas sobre o domínio da
fólios iniciais do Livro das Posturas Antigas. limpeza urbana, domínio que, até então,
Se no primeiro documento ficaram registadas, também sofria de falta de regulação86.
fundamentalmente, normas relativas ao
domínio do mercado84, no segundo documento “dos lagares do vynho”; “das peles dos carneyros”;
para além desta matéria85 ficaram arroladas “que nam mesturem huu vynho com outro”; “dos tones
e pipas”; “dos vinhos que se vendem ao torno”; “dos
tones e pipas de bordos sarrados”; “dos especieiros e
1, pp. 191-196, ou, na versão traduzida e atualizada, em cyrieiros”; “do carvam”; “dos ganhadynheyros”; “da
Lei de Almotaçaria 26 de Dezembro de 1253, int. trad. e telha e teJello”; “da pregadura”; “dos ouryvezes”;
notas Aristides Pinheiro, Abílio Rita, Lisboa, Banco Pinto “dos Corretores estaleJadeyros E ouriuezes E armeiros
& Sotto Mayor, 1988. Sobre esta lei ver Mário Viana, e açacaladores E pregoeiros e porteiros e tosadores”;
“A lei de almotaçaria e a política económica de Afonso “dos arcos que lancom em molho”; “das balanças”;
III”, in Abordagens à História Rural continental e insular “dos lagares do mell”; “que nom morem sapateiros na
portuguesa, séculos XIII-XVIII, ed. Rute Gias Gregório, rrua nova”; “dos capateiros que fazem calçadura de
Ponta Delgada, Centro de História de Além-Mar, 2013, carneyro”; “declaraçom da dicta pustura”; “das cordas
pp. 45-71. e soltas e sobrecarregas”; “da Roupa do pano da cor;
84
Ver a nota 62. dos ouriuezes e cambadores; dos lagareyros do azeite”;
85
Cf. “Ordenaçom que nam comprem panos nem “dos panos da coor”; “dos que cozem call com bagaço”;
coussas de pesso ssenom per medidas e pessos da “dos CoRetores que nam sejam estalajadeiros”; “das
terra”; “Ordenaçom da sardinha perdida”; “Ordenaçom porcas”; “do afinador das medidas”; “dos tonoeiros”;
das barcas do carreto”; “Ordenaçom dos pessos que “das midydeiras do pom”; “dos que Regatam pam na
nam sam marcados da marca nova e sejam de ferro çidade e termo”; “dos azeites de seujlha”; “da lenha e
ou darame”; “Ordenaçom das marysqueiras que nam choças e bastidas”; “da lenha”; “dos que trazem pom”;
vendam fora dos poyaes das verçeiras”; “Ordenaçom “dos CoRetores”; “dos que CaRegam vinho nem vinagre
que nam Conprem rregatãaes nem regateiras nenhũa nem azeite nem mell”; “dos vinhos e azeites e meles”;
coussa ataa terça”; “Ordenaçom do pesso dos figos “das medydas e varas e pesas”; “dos que caRegam
e vuas”; “Ordenaçom da louça que se a de vender vinho azeyte ou vinagre”; “dos mercadores do rregno”;
na ferraria nos lugares que lhe sam deuysados”; “da enxerqua”; “dos mercadores estrangeiros”; “dos
“Ordenacom das pescadas da Rede”; “Ordenaçom que feRadores”; “das linhas e fitas”; “que nenhũ mercador
nam vendam Sall fora dos muros”; “Ordenaçom que estranJeiro nem estante na çidade que conpre na
nenhũu rregatam nem rregateira nam conpre na feira çidade e termo vinhos nem sall nem azeites”; “dos
nem fora ataa que dem as badaladas”; “Ordenaçom que CoRetores”; “dos fornos da call”; “dos CoRetores”; “dos
nam vendam pano emteyro”; “Ordenacom que nam mercadores”; “que os ferradores lancem ferraduras
cortem ovelhas a enxerqua”; “Ordenacom que nenhũu e craueJar aos dyas santos”; “que nemhũu Mercador
nam mate gado saluo nos curraaes”; “Ordenaçom nam compre sem corretor”; “dos corretores que nom
dos marinheiros e barqueiros que nam carregem averbem sem mercador”; “que os CoRetores venham
pom senom no lugar acustumado”; “Ordenacom dos estpriuer as conpras que fezerem aos estpriuam da
encordoadores E mercadores E medidas acostumadas”; camara”; “que nenhũus nam caRegem vynhos pera
“aluara per que foy pna posta aos teçelaaes e teçedeiras seujlha sse os carregarem que os leue sem marca”; “dos
que entregasem os pesos de seus ofiçyos”; posturas ouriuezes”; “hordenacom dos aRumadores”; “pustura
sobre carne e velas; “ordenaçom que nam vendam do preço das sardinhas e comtadeiras que sejam
nenhũu pescado saluo per o lauadeiro da marca da casasdas e nom solteiras”; “hordenacom das Janellas
çidade”; “trelado de hũ aluara delRey”; “que dem que estem abertas de couçe”; “dos fornos”, no Livro das
pessa as padeiras”; “Ordenacom que os senhorios das Posturas Antigas…, pp. 3, 7-8, 10-17, 19-22, 25, 33-93.
atafanas nem atafaneiros nom leue majs de moenda 86
Cf. “Ordenaçom que nam lançem azeuell nem esterco
que tras rreaes por alqueire de trigo”; “ordenaçom que na rrua do ouro que he a betesgua”; “Ohordenaçom
nam conprem nem vendam huvas”; “Ordenacom per que nam lançem esterco nem outra çuJidade nos
que nam husem de ofiçios de corretores nem fretadores canos da porta de sam viçente”; “Ordenaçom que
senam aquelles que tem cartas da çidade”; posturas nam lançem lixo no camjnho que vay de sam mateus
sobre pão e cal; “que nam vendam ovelha mesturada pera sam domjngos”; “Ordenaçom do chafariz de
com carneiro”; postura sobre carne; “Carta Sobre as santa maria doliueira na Rua Noua”; “Ordenaçom das
atafanas”; “carta dos corretores”; “Ordenacom das galinhas que andam na barroca de sam françisco e da
huvas”; postura sobre carne; “do rrabysco dazeytona”; rroupa que lançam na dicta barroca”; “Ordenaçom
“Das regateyras que dem o terço da mercadaria ao que nam tirem area a rredor dos muros”; “Ordenaçom
poboo”; “que nenhũa molher solteira nam sseJa que nam lançem rroupa com pedra sobre o muro e
rregateira”; “Carta per que rregataees nom conprem ameas do furadoyro e adro da sse”; “Ordenaçom que
pera rregatar atee ora de terça carne nem pexe”; “Dos nam lançem esterco antre as torres da porta doura”;
mercadores temdeiros que ponham dous sellos nos “Ordenaçom que nam lançem lixo Na rribeira des em
cabos do pano”; “Dos mestres e marinheiros dos nauyos dereito da fomte da froll ataa ho cano das priuadas”;
E arrumadores”; “das castanhas e fauas E herujlhas”; “Ordenaçom que nam lançem azeuell no barreiro a
63
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
64
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
pois, a contenda para uma instância superior, da çidade que falla sobre os trauessadoyros”,
pese embora os corregedores e os ouvidores pois, considerava que tal “ho auemos em este
estarem proibidos de se intrometerem nos caso por escusado”. O rei referia-se, portanto,
feitos da almotaçaria, pelo menos desde o ao item 43 do foral da almotaçaria de Lisboa,
reinado de D. Afonso IV – ordem estabelecida o qual, contudo, continha já a determinação
nas Cortes de Santarém de 133189 –, assim de que “pode o desfazer ho comçelho cada
mesmo confirmado nas Cortes de Elvas de uez que quiser ou algũu que seJa vezinho
136190 e noutras seguintes91. da ujlla quallquer o pode acussar que sse
desfaça”92. No fim da carta, o rei determinou
Uma segunda menção ao foral da almotaçaria
ainda que, para o futuro, nas ruas principais e
de Lisboa está também contida numa
públicas, em travessas ou becos da cidade não
outra carta do mesmo rei, datada de 12 de
fossem feitos mais nenhuns atravessadouros,
setembro de 1474, tendo como destinatário
permitindo apenas aqueles que tivessem
o próprio concelho. D. Afonso V, tomando em
licença dada pelos vereadores e procurador
consideração “os muytos litigios e demandas
da cidade e gozassem ainda do consentimento
que sse faziam ẽ esta nossa muy nobre e leall
da vizinhança próxima ao local a ser ocupado
çidade de lixboa sobre os atrauessadoyros dos
pelas estruturas aéreas93.
balcoões que sam feytos e que sse fazem pollas
Ruas e travessas e becos della”, determinou a Se a primeira carta mostra que D. Afonso V
demolição de muitas destas estruturas aéreas tinha conhecimento de que o foral continha
que estorvavam a passagem da procissão do regras específicas que regulavam o juízo dos
Corpo de Deus durante a festa dos pescadores almotacés nas contendas de obras, da segunda
nas imediações da Porta da Cruz, Porta da comprova-se que, por extensão jurídica, as
Alfândega e Porta da Oura. Todos os restantes mesmas regras restringiam ou autorizavam as
atravessadouros da cidade mantinham-se a próprias ações construtivas dos particulares e
salvo, com exceção daqueles que, com razão, que estes conheciam-nas e serviam-se delas na
o concelho julgasse que se deviam tirar, dando defesa dos seus direitos.
o rei a autorização necessária para esse efeito,
Ora, é precisamente este conhecimento que
ao mesmo tempo que retirava dos particulares
se encontra registado numa sentença de
a capacidade de se valerem das normas
apelação a uma decisão dos almotacés, datada
jurídicas em vigor para impugnar tal decisão,
de 4 de abril de 1499, e na qual se acha a
ou seja, “nom sse alegamdo em ello o forall
terceira menção do regulamento em estudo.
89
Cf. artigo 29.º dos Capítulos Gerais das Cortes de A contenda, que envolvia o comendador
Santarém de 1331, em Cortes Portuguesas, Reinado de da igreja de São Martinho de Lisboa, Antão
D. Afonso IV (1325-1357)…, p. 38. Gonçalves, e seu vizinho João Garcês, foi
90
Cf. artigo 6.º dos Capítulos Gerais do Povo, em Cortes
Portuguesas, Reinado de D. Pedro I (1357-1367), ed. A.
desencadeada pelo abate de um pessegueiro
H. de Oliveira Marques, Nuno José Pizarro Pinto Dias, daquele por este, na noite de 11 de junho de
Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1498, ainda que o verdadeiro motivo da queixa
1986, pp. 33-34. se relacionasse com as paredes que separavam
91
Cf. artigo 31.º dos Capítulos Gerais das Cortes de
Lisboa de 1371, em Cortes Portuguesas, Reinado de
as propriedades de ambos. Quatro dias
D. Fernando I (1367-1383), Volume I (1367-1380), org. depois, os almotacés daquele mês (Pero de
A. H. de Oliveira Marques, Lisboa, Instituto Nacional Lisboa e Diogo Peres) deslocaram-se ao local
de Investigação Científica, 1990, p. 29; artigo 5.º dos da contenda a pedido de Antão Gonçalves.
Capítulos Gerais das Cortes de Coimbra de 1394-1395
e artigo 80.º dos Capítulos Gerais das Cortes de Leiria-
Segundo este, o seu vizinho tinha madeirado
Santarém de 1433, em Armindo de Sousa, As cortes numa sua parede que dividia o seu quintal do
medievais portuguesas (1385-1490), 2 vol.s, Porto, curral dele, era responsável pelo derrube de
Instituto Nacional de Investigação Científica – Centro de
História da Universidade do Porto, 1990, vol. 2, pp. 245 Cf. Livro das Posturas Antigas…, p. 112.
92
e 303; e artigo 45.º dos Capítulos Gerais das Cortes de Cf. Arquivo Nacional – Torre do Tombo [ANTT], Leitura
93
Lisboa de 1439, em Cortes Portuguesas, Reinado de D. Nova, Livro 4 da Estremadura, fl.s 10 a 10v. Ver Apêndice
Afonso V (Cortes de 1439)…, p. 109. Documental, Doc. 3.
65
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
uma outra sua parede e possuía, no topo da correspondem textualmente aos itens do
sua azinhaga, uma parede demasiado baixa. regulamento mandado fazer por João Esteves
Tudo isto provocava dano e prejuízo a Antão Correia, algo que pode dever-se ao facto de
Gonçalves, pois permitia que João Garcês ou terem sido “concertados com os publicos”. Já
os servidores dele devassassem visualmente, a citação das normas jurídicas pelas partes
lançassem sujidades e entrassem na sua envolvidas permite supor que estas estavam
propriedade. Se na petição o autor da ação bem informadas sobre os seus direitos nesta
justificava a queixa afirmando que “o forall matéria.
da dita çidade mandava que as paredes dos
Uma quarta menção relaciona-se também
eyrados quando quer que sse aujam de fazer
com as referidas alterações promovidas
aujam de sser tam altas que nom descobrissem
por D. Afonso V. Se a disposição da carta de
sseus vezinhos nem que sse podesse njmgem
1474 tinha como fim os atravessadouros,
lançar ssobre ellas nem tam pouco se possa
uma ordem similar de D. Manuel I teve como
fazer fresta em parede senom mujto pequena
desígnio as restantes estruturas salientes sobre
e estreyta per que sse nom podesse descobrir
as ruas. De facto, a 17 de junho de 1499, este
o uezinho”, no auto judicial que se seguiu,
rei enviou uma provisão ao concelho lisboeta
Antão Gonçalves chegou mesmo a citar “dous
estabelecendo “que daquy em dijamte se nom
foraes” (na verdade, três), correspondendo,
huse do foral e capitollo que fala nas sacadas
portanto, aos itens 21, 22 e 23 do foral da
que se fazem nas cassas que posam tomar
almotaçaria de Lisboa, justamente aqueles
a terça parte da Rua”, proibindo, assim, a
que diziam respeito às paredes meeiras. Como
construção de novas sacadas e a reconstrução
o caso não ficou logo resolvido, fez-se uma
das existentes, devendo todos aqueles que
nova audiência, na qual o réu, em sua defesa,
quisessem corrigir as sacadas existentes fazer
acabou também por invocar um dos itens do
parede direita95. O “capitollo” em causa era,
foral, concretamente o 33.º sobre a prescrição
então, o item 28 do foral da almotaçaria de
das queixas, na tentativa de anular a ação.
Lisboa. Aliás, o processo de supressão dos
Seguiu-se, então, uma discussão sobre as
elementos salientes sobre as ruas estava no
normas, o que levou os almotacés a pedirem
seu início, o qual, depois, foi mesmo estendido
pareceres exteriores a dois pedreiros. Na
a “todolos balcoens e sacadas de todolas
sessão que resolveu a contenda, conduzida
ruas” da cidade96, eliminando-se assim uma
já por um outro par de almotacés (Diogo
das estruturas construídas mais expressivas e
Gomes e Lourenço Mendes), foi dada razão
representativas dos edifícios medievais.
ao autor, cuja fundamentação se apoiou nas
normas dos “foraaes dalmotaçaria e o dereyto Uma quinta menção encontra-se também
comuum que sobre ello falla”. Não agradado, numa outra carta de D. Manuel I para a câmara
o réu apelou para os vereadores, conforme de Lisboa. Se este, em 31 de março de 1519,
o direito lhe permitia, ainda que a sentença apenas mandou o concelho fazer “dous livros
de apelação dada pelo juiz do cível Francisco de purgamiinho todos e bem emcadarnados
Pestana confirmasse a decisão dos almotacés, em tauoas”, sendo “tall huum como outro”, nos
alterando apenas a responsabilidade do quais deveria estar assentado “o regimento do
pagamento das custas do processo ao dividi- oficio dos ditos almotaçes e todalas pusturas
las pelas partes94. que a dita almotaçarya toquarem”, para serem
entregues aos oficiais quando entrassem no
Os “foraes” compilados nesta sentença
95
Cf. doc. 38 do Livro primeiro del-Rei D. Manuel I, em
94
Cf. ANTT, Colegiada de Santiago e São Martinho de Documentos do Arquivo Histórico da Câmara…, vol. 4,
Lisboa, Maço 2, doc. 10. Ver Apêndice Documental, p. 53; Livro das Posturas Antigas…, p. 238. Ver Apêndice
Doc. 4. Um agradecimento é, novamente, devido ao Documental, Doc. 5.
Dr. Pedro Pinto, não só por nos ter alertado para a 96
Cf. doc. 75 e doc. 82 do Livro primeiro del-Rei D.
existência deste documento, como também pela sua Manuel I, em Documentos do Arquivo Histórico da
preciosa ajuda na transcrição e sua correção final. Câmara..., vol. 4, pp. 91 e 98.
66
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
cargo e devolvidos à câmara quando dele fornos” inserto no Livro das Posturas Antigas101.
saíssem97, em 3 de novembro seguinte, o rei Do mais, a generalização dos usos locais de
já solicitava o envio do “trellado de quallquer Lisboa foi um processo muito utilizado pelos
Regimemto dallmotacaria que teuerdes e reis portugueses102.
ouuer Na camara desa çydade”, especificando
Também a vila do Funchal na ilha da Madeira
em seguida o que tinha em mente: “e assy o
recebeu vários regimentos lisboetas,
fforall ou quaesquer Capitollos ou pusturas per
alguns dos quais solicitados pelo próprio
homde se jullgão as cousas dallmotaçaria e das
concelho: em 17 de maio de 1483 os oficiais
sseruemtias”98. Também neste caso não restam
funchalenses receberam o traslado de um
dúvidas que o foral aludido era o regulamento
“Regimento E ordenamca” tirados do “liuro
em apreço. Deixa-se, contudo, a análise desta
do tombo dos p[ri]ujlegios” de Lisboa, que
carta para a última parte deste estudo.
estipulava a sequência e modo que os oficiais
Se estes cinco documentos mencionam deviam usar na procissão do Corpo de Deus;
nominalmente o foral da almotaçaria de Lisboa, em 21 de dezembro de 1483 o duque D. Diogo
não é absurdo pensar que também outros deu, a pedido dos homens bons e mesteres,
documentos a ele lhe possam aludir, ainda que autorização para se formar uma Casa dos Vinte
de forma genérica, por se referirem ao corpo e Quatro, dizendo ainda que iria escrever ao
de direito local no seu todo. Nesse sentido, a escrivão da câmara de Lisboa para lhes enviar
carta de 22 de agosto de 1493, através da qual o traslado de “todo ho rregimento que os
D. João II solicitou que o concelho de Lisboa dos mesteres tinham na dita çidade”103. Já D.
enviasse “todo o regimento e hordenanças” Manuel, ainda enquanto duque e senhor da
dessa cidade a Álvaro de Caminha, capitão da Madeira, em 22 de março de 1485, concordou
ilha de S. Tomé99 – para através deles governar com a colocação de uma imposição sobre o
a ilha que estava em fase de povoamento – vinho para suprir as despesas do concelho
podia, muito bem, incluir o foral em causa. “pella maneyra E modo que Se faz em lixboa”;
Afinal, quando o mesmo rei enviou a carta confirmou os preceitos a usar na festa do Corpo
de foral e privilégios para essa ilha, em 16 de de Deus, “Segumdo ordenamça de lixbooa”; e
dezembro de 1485, tinha já incluído o preceito estabeleceu, quanto ao selo do concelho, uma
para a construção de fornos, segundo “forall prática idêntica a outras câmaras do reino “E
e custume da dicta nossa çidade de lixboa”100, pera yso leuem ade [sic] lixboa”104. Em 1489
que correspondia, portanto, ao “forall dos questionou o facto de as arrobas da ilha não
serem “do pesso Das De lixboa”, acabando por
97
Cf. doc. 99 do Livro 4º. del Rey D. Manuel I, em
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara…, vol. 5, p. 101
Ver supra, nota 18.
100; AML-AH, Chancelaria Régia, Livro 4º de D. Manuel, 102
Marcelo Caetano, A administração municipal de
fl.s 114 e 114v. Não se encontrou no Arquivo Municipal Lisboa…, p. 51.
de Lisboa nenhum volume que correspondesse a esta 103
Cf. doc. 83 e doc. 86, em “Tombo 1.º do registo geral
descrição, ainda que o volume intitulado como Prólogo da Câmara Municipal do Funchal, 1ª Parte”, trans. Luís
de Posturas Antigas (ver supra, nota 8) possa ser visto Francisco Cardoso de Sousa Melo, in Arquivo Histórico
como uma versão alternativa ao pedido régio. Note- da Madeira – Boletim do Arquivo Distrital do Funchal.
se, todavia, que este volume é em papel e está escrito (Série Documental), vol. 15-18, Funchal, 1972-1974, vol.
numa única coluna, mas que, por ter menor dimensão, 15, pp. 120-121 e 134-135.
seria facilmente transportável. 104
Cf. doc. 95, em Tombo 1.º do registo geral da Câmara
98
Cf. doc. 113 do Livro 4º. del Rey D. Manuel I, em Municipal…, vol. 15, pp. 147-156. O regimento lisboeta
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara…, vol. 5, p. para a imposição do vinho foi dias depois enviado para
114; AML-AH, Chancelaria Régia, Livro 4º de D. Manuel, o concelho do Funchal, sendo fixada na sessão de
fl. 131. Ver Apêndice Documental, Doc. 7. vereação de 11 de julho de 1485. Cf. doc. 99, Tombo
99
Cf. doc. 58 do Livro terceiro de D. João II, em 1.º do registo geral da Câmara Municipal…, vol. 15, pp.
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara…, vol. 159-161 e Vereações da Câmara Municipal do Funchal,
3, p. 330; também em doc. 276, em Descobrimentos século XV, pref. e transc. José Pereira da Costa, Funchal,
Portugueses…, vol. 3, p. 409. Centro de Estudos de História do Atlântico, Secretaria
100
Cf. doc. 200 e doc. 385, em Descobrimentos Regional de Turismo e Cultura, Região Autónoma da
Portugueses…, vol. 3, pp. 297-299, 645-651. Madeira, 1995, pp. 96-99.
67
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
estabelecer, por carta de 1490, que os pesos e nova decisão. Mas o vão acabou mesmo por
as medidas fossem “afinados E marcados” pelos ser fechado porque “a dicta janella era ffecta
da capital, devendo ainda aplicar-se as “penas em lugar oudioso por bem do quintal”, além
comthiudas no Regimento da camara de lixboa de que “em como o rregimento tal janella
q[ue] ho dito garçia dauella lleuara”105. nom da lugar que sse em semelhante lugar
se ffaça”. Permitiram, contudo, que em vez
No ano seguinte, a propósito do custo das
da janela se fizesse uma “lucerna” (ou fresta)
escrituras dos tabeliães funchalenses serem
alta com cerca de dois a três dedos de largura,
maiores do que se praticava em Lisboa, o
apenas para iluminar o compartimento108. Ora,
duque acabou mesmo por afirmar que “todas
as regras aludidas pelos oficiais funchalenses
has cousas dessa ylha ham de ser rregidas
lembram, claramente, os itens 21 e 29 do
p[e]llas desta çidade”106. Estaria a almotaçaria
foral da almotaçaria de Lisboa, podendo-
contida nas “cousas” aludidas? Ainda que para
se, presumivelmente, pensar que este
tal resposta não existam provas irrefutáveis,
regulamento possa ter sido transmitido à vila
do que se sabe é que no ano camarário de
do Funchal, dentro do novo quadro regimentar
1495-1496 os oficiais da câmara já se regiam
enviado pelo duque D. Manuel. Afinal, este
por um “rregimento que o senhor duque nosso
mesmo D. Manuel, já como rei de Portugal,
senhor ora aquj enuyou”, cabendo ao escrivão
considerava que de Lisboa, por ser a cabeça
da câmara dar os traslados dos títulos do
do reino, devia “sair todo boom emxenpro
regimento aos vereadores, procuradores, juízes
pera toda llas çidades E villas dos ditos nossos
do crime e do cível, tesoureiro, carcereiro,
Regnos e Senhorios”109.
escrivão da almotaçaria e da câmara, e claro,
também aos almotacés. Estes últimos, como os Também, por isso, uma grande parte da prática
outros, receberam, então, “o sseu rregimento governativa lisboeta foi transmitida a Goa, na
esprito em porcamjnho”107, e dias depois, Índia. De facto, pelo “Tombo dos preuilegios
este regimento chegou mesmo a ser utilizado, da cidade de Goa cabeça do staado da India,
justamente, num litígio de casas. a qual foi tomada aos mouros por Affonso
D’Alboqverq[ue] no anno de M.D.X.”, quase
A contenda decorria por causa de uma janela
todo ele escrito entre 1570 e 1580110, entre
que Fernando Álvares tinha feito numa sua
as várias cartas régias destaca-se a de 29 de
parede sobre o limite do quintal de João
novembro de 1519, que continha o “Regimento
Gonçalves. Os almotacés tinham já mandado
da gouernança dessa camara”. Este era
tapar a janela, mas o primeiro recorreu e, por
composto essencialmente pelo traslado de
isso, todos os oficiais da vereação deslocaram-
vários conjuntos jurídicos em uso em Lisboa,
se ao local da contenda para proferir uma
ou melhor, conforme resumiu o escrivão
105
Cf. doc. 134 e doc. 145, em Tombo 1.º do registo Nuno Fernandes que o fez: “estromento cõ os
geral da Câmara Municipal…, vol. 16, pp. 225-226, 240- trelados do Regimento da mesa e avereaçaõ
244. Já antes, na sessão de vereação referida na nota
anterior, os oficiais da câmara tinham acordado em prol
[sic], e Regimento dos tres vereadores, e como
do comum que todas as medidas de pão, vinho, azeite,
mel, panos de linho e de cor, e pesos fossem feitos pela 108
Cf. Vereações da Câmara Municipal do Funchal,
“ordenança da çydade de Lixboa”, tendo os padrões século XV…, pp. 371-372.
sido enviados pelos oficiais lisboetas. 109
Cf. prólogo do “Regimento de Vereadores e Oficiais
106
Cf. doc. 158, em Tombo 1.º do registo geral da da Câmara de Lisboa”, 1502, em A evolução municipal
Câmara Municipal…, vol. 16, pp. 257-260. de Lisboa, Pelouros e Vereações, coord. Maria do
107
Cf. Vereações da Câmara Municipal do Funchal, Rosário Santos; Inês Morais Viegas, Lisboa, Pelouro da
século XV…, pp. 349-355. A 3 de setembro de 1496, Cultura, Divisão de Arquivos, Câmara Municipal, 1996,
os próprios oficiais acordaram “por boa ordenaça p. 147.
ssegundo o rregimento de Lixboa que os jujzes do cjuel 110
Cf. Archivo Portuguez-Oriental, Fasciculo 2.º -
e os jujzes do crime e os vereadores e os almotaces” Livro dos privilégios da cidade de Goa, Nova-Goa, Na
trouxessem varas vermelhas com as quinas do rei, Imprensa Nacional, 1857, p. 3. Nesta publicação, o
sendo as dos almotacés mais curtas que as outras. Cf. investigador não transcreveu os documentos tal qual
Vereações da Câmara Municipal do Funchal, século aparecem no Tombo, alterando-lhe a organização para
XV…, p. 532. seguir a ordem cronológica.
68
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
se hade fazer thesoureiro, e da fiança que hade foram integralmente copiados, não obstante
dar, e Regimento dos almotacés, e da maneira ténues diferenças ortográficas. Assim, e
que os vereadores haõ dir na festa do Corpo de sintetizando, os itens 1, 2, 3, 4 a 15, 16 a 29,
Deos, e do Regimento dos Vereadores e cousas 30 a 43 do traslado de Goa correspondem,
que a seus ofícios pertencẽ, e do Regimento respetivamente, aos itens 4, 5, 9, 7 a 18, 20 a
outrosy dos almotacés, e do priuilegio que 33, 35 a 48 do foral da almotaçaria de Lisboa116.
tem os cidadaõs, e de hũ aluará de El-Rey A vigência normativa do foral coligido pelo
nosso Senhor do mantimento que aueraõ os almotacé-mor da cidade de Lisboa estendeu-
almotaces das execuçõis, e d’outro aluará se pois, e inequivocamente, àquela que se
de S. A. sobre o mantimento que aueraõ os viria a tornar a capital do Estado Português
almotaces das propriedades, e o trelado doutro na Índia. Por outro lado, a própria designação
aluará do dito Senhor per que os cidadaõs nam dada ao regimento de Goa converge, também,
podẽ ser presos ẽ ferros”111. para a suspeita levantada sobre o regimento
do Funchal.
Se o primeiro dispositivo jurídico referido
correspondia ao Regimento de Vereadores e
Officiais da Câmara de Lisboa112 – livro que a Do legado
câmara de Lisboa elaborou por mandado régio
Pouco tempo depois de ser aclamado rei, em
e foi finalizado a 30 de agosto de 1502113 –, e se
22 de novembro de 1497, D. Manuel I solicitou
os alvarás sobre os mantimentos dos almotacés
a todas as cidades, vilas e lugares do reino o
das execuções e das propriedades confirmam a
envio dos documentos originais dos forais ou
divisão da almotaçaria goesa em alçadas – tal
quaisquer outros tombos ou escrituras que
como tinha sido instituído pelo Venturoso em
se relacionassem com os direitos reais. Deu-
1500 para Lisboa114 –, salta, porém, à vista o
se, então, início à tão solicitada e esperada
denominado “Regimento dos almotacés”. Este
pelos povos reforma dos forais, cuja tarefa foi
mais não era do que uma cópia ligeiramente
cometida ao chanceler-mor doutor Rui Boto,
adaptada do foral em estudo115.
ao desembargador régio João Façanha e ao
Com efeito, confirma-se a concordância cavaleiro da casa real Fernão de Pina117.
normativa entre os dois documentos, ainda
À reforma do direito local público seguiu-
que o último fosse composto apenas por 43
se a renovação do direito local privado. Com
itens, dada a supressão dos itens 1, 2, 3, 6
efeito, foram também enviadas aos concelhos
e 34 do foral da almotaçaria de Lisboa, por
outras cartas régias a solicitar que fossem
estas matérias terem ficado reguladas nas
revistas, emendadas e renovadas as posturas,
Ordenações Afonsinas. Como diferenças,
para depois serem remetidas à Corte para
verifica-se a mudança de lugar do item 19,
confirmação118. Para Lisboa, D. Manuel I,
o qual passou a ocupar a terceira posição
no treslado, e a inclusão, no final do texto 116
Ver a terceira e a quarta colunas da tabela anexa.
relativo ao item sobre o pão cozido, da frase: 117
Francisco Nunes Franklin, Memoria para servir de
“que todo seja de hũ peso, o da padeira, e índice dos Forais das terras do Reino de Portugal e
seus Dominios, Lisboa, Na Typografia da Academia
caseiro, e da forneira”. Todos os restantes itens Real das Sciencias, 1825, pp. I-VII. Sobre o processo da
reforma dos forais ver o estudo recente de Pedro Pinto,
111
Cf. Archivo Portuguez-Oriental…, pp. 18-38. “Dos manuscritos à personagem: o percurso de Álvaro
112
Enviado novamente para Goa em 1542. Cf. Archivo Fragoso, procurador de Évora e da comarca de Entre-
Portuguez-Oriental…, pp. 85-111. Tejo-e-Odiana para os feitos dos forais (revisitando
113
Cf. Regimento de Vereadores e Oficiais da Câmara de a reforma dos forais de D. João II e D. Manuel I)”, in
Lisboa, em A evolução municipal de Lisboa…, pp. 147- eHumanista, vol. 31, 2015, pp. 80-153, [Consultado em
170. 24/11/2015]. Disponível em [Link]
114
Ver supra, nota 64. [Link]/volumes/volume_31/eHumanista%2031/1/
115
Cf. Archivo Portuguez-Oriental…, pp. 27-35. Também PDF/[Link].
neste caso, os itens não se encontram numerados, 118
Um exemplo desta reforma pode ser visto para
tendo-se dado a cada parágrafo uma numeração Abrantes. D. Manuel I não tendo ficado satisfeito pelo
sequencial (ver a quarta coluna da tabela anexa). trabalho de revisão realizado pelo corregedor, juízes
69
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
70
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
ou em continuação aos itens, aparecem normas de índole técnica, como aquelas que
ainda indicações onde se especificavam ficaram registadas no foral da almotaçaria de
as alterações jurídicas entretanto surgidas Lisboa127. Não obstante, em várias sentenças
nalgumas normas124, bem como um outro tipo de apelação sobre questões de obras – estas,
de notas que indicia claramente um processo sim, registadas por escrito, contrariamente
de recompilação125. às do almotacé que obrigatoriamente tinham
de ser orais – observa-se que os juízos eram
Em todo o caso, deve ter sido provavelmente
fundamentados por um conjunto de regras
durante a fase de confirmação do direito
específicas128.
local que o rei ou os oficiais encarregados
desta tarefa devem ter dado conta da quase Talvez por isso, D. Manuel I achasse por bem
completa ausência de normas para o controlo incluir esta matéria na legislação geral129 –
da atividade construtiva no corpo legal dos o que acabou efetivamente por acontecer
restantes concelhos. Realmente, nas posturas –, respondendo aos anseios dos povos em
e costumes do século XV que chegaram ter o direito consuetudinário tradicional
até hoje126 não se encontram registadas consolidado e registado por escrito, evitando
desta forma as alterações normativas sempre
17: “nam se costuma”; § 19: “prouijdo acima”; § 28:
“prouijdo”; § 29: “duujdoso”; § 30: “ja esta”; § 34: “Ja
potenciadas pela volubilidade da memória
acima provuijdo”; “escusado”; § 39: “como se costuma”; e pela fluidez da oralidade. Além do mais,
§ 43: “ja se nom fazem balcõees porem guarde sse pera para bem arbitrar e resolver as demandas
os que sam fectas e pera se os alguem de … fazer”; § 44: vicinais derivadas da atividade construtiva os
“sem preiuizo do parceiro”; § 46: “que se nam façam”.
124
Cf. título: “ver o aluara delrrey do tempo que cada
almotacés deveriam cingir-se a um conjunto
almotace ha de serujr”; § 2: “das propriedades sera hũu de normas jurídicas fixas, pois só assim seriam
deles leterado aJnda que seja auogado o qual Julgara os devidamente aplicáveis e entendidas quer
fectos per sy soo e nam daqueles per cujo procurador pelos oficiais, quer pelos particulares130.
for”; § 4: “cumprir sse a o rregimento delrrey dado aos
almotaçes”; § 6: “os das propriedade entenderam nas int., transc. e notas José Manuel Vargas, Alcochete,
cousas em seu Regimento conteudas e os das execuções Câmara Municipal, 2005.
no que lhe he comjtido”; § 28: “ver a proujsam que 127
Não se pode, contudo, deixar de colocar a
elrrey te[m] dada sobre os balcões”; “este capitollo possibilidade que possa ter existido outras posturas que
quanto ao fazer das sacadas e tomar o terço da Rua he por algum motivo não sobreviveram. Um desses casos
anullado per elRej nosso Senhor em todo”; § 30: “que parece ser a “Ordinhaçom almotaçarias” portuense,
se nom faça onde nunca esteue sem autoridade da diploma entregue em 1393 a um dos almotacés da
camara a qual lhe sera dada quando aos que hy genelas cidade quando entrou no cargo para por ele orientar
ou portaes teuerem nom trouxer perJuizo”; § 36: “E o a sua conduta, o qual tinha já sido referido numa
veedor das obras tem o cargo de as fazer fazer”; § 39: escritura de 1391, onde a câmara proibia a construção
“a ualia que he decrarada per elrrej”; § 42: “e sendo de sobrados salientes virados para a rua pública da
em terreiro ou rrua muito larga poderam pidir licenca Lada, precisamente, segundo “he hordinhaçom da villa”.
aos vereadores e elles lha daram quando a seruentia Cf. Vereaçoens, Anos de 1390-1395. O mais antigo dos
publica nom fezer prejuizo”. Livros de Vereações do Município do Porto existentes no
125
Cf. § 5: “aquy se pora o capitulo da ordenacam que seu Arquivo, coment. e notas Artur de Magalhães Basto,
vay adiante as 48 folhas de como per ordenacam no Porto, Câmara Municipal, 1937, pp. 214-215 e 81-87.
3º todos os priujligiados deuem Responder perante 128
Algumas destas sentenças encontram-se referidas
os almotaces…”;§ 15: “ponha sse aqui a proujsam em Sandra M. G. Pinto, As interacções no sistema…, pp.
que atras as .5. folhas e 6. e xix e adiante as 55”; § 35: 320-324.
“ponha sse a ordenaçam dos que mal pesam no…”; “isto 129
Presunção que encaixa no relato de Damião de Góis:
he .. e mais .. das pusturas”; “pola primeira vez que mal “Mandou per homẽs doctos do seu cõselho visitar, &
pesar iijc rreaes E pela sª bjc pola 3ª posto no pelourinho reuer hos çinquo liuros das ordenações […] nas q[ua]
e pague …”;§ 47: “no cabo deste foral dalmotaçaria se es mãdou deminuir, & acreçentar aquillo q[ue] pareçeo
pora a pustura e custume dos fornos que anda abaixo as necessario pera bõ regimẽto do regno, & ordẽ da justiça
42 folhas na folha segujnte”. […]”. Cf. Damião de Góis, Chronica do felicissimo rei
126
Caso, por exemplo, das posturas de Évora, cuja Dom Emanvel, composta per Damiam de Goes, dividida
primeira compilação data de 1466, ainda que, várias em Qvatro partes…, Lisboa, Casa de Francisco Correa,
posturas remontem ao século XIV, ou das de Santa 1566-1567, Parte 4, Capítulo LXXXVI, fl. 111v.
Maria de Sabonha, de 1421. Cf. respetivamente, O Livro 130
Por todos, ver António Manuel Hespanha, Cultura
das Posturas Antigas da Cidade de Évora…, e em Livro jurídica europeia, síntese de um milénio, Coimbra,
da Vereação de Alcochete e Aldeia Galega (1421-1422), Almedina 2012, pp. 232-239.
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
do legado deixado nas Ordenações, o “Forall da versão e ampliação daquele (pese embora não
muy nobre e sempre leall çidade de Lixboa que se ter conseguido aferir cabalmente as datações
mandou fazer. Joham estevez correa escudeiro absolutas de ambos os regulamentos). No
almotaçee moor da çidade era de mjll iiijº Riiijº entanto, esta informação é relevante pois
anos” acabou, também ele, por perdurar no recua em quase um século o conhecimento
tempo e no espaço. da passagem a escrito de um tipo de regras
condicionadoras da forma construída de
Daqui, conclui-se que a pertinência do objeto
Lisboa. Talvez outros fragmentos ou até os
central deste estudo extravasa em muito a
documentos que constituíam os “liuros per
história medieval da cidade de Lisboa ou do
que see reegem os almotaçees” possam ainda
direito português. O estudo comparado, item
ser descobertos e esclarecer algumas das
por item, dos vários conjuntos normativos
questões deixadas em aberto neste estudo.
analisados neste estudo, permitiu verificar
a posição de charneira tida pelo foral da
almotaçaria de Lisboa. Mas, constituindo-
se como o antecedente direto das normas
reguladoras da construção do período
moderno, presentes na legislação do reino, o
entendimento deste foral torna-se essencial
para a correta compreensão, não só da própria
atividade construtiva de todo o universo
português desta época, como também da sua
regulação. Isto permite, por exemplo, contestar
a visão dos jurisconsultos portugueses, do final
de setecentos e início de oitocentos151, que
filiavam a origem das normas da almotaçaria
das Ordenações modernas apenas no direito
romano justinianeu.
Todavia, e ao contrário do que até então
pensávamos, o foral da almotaçaria de
Lisboa não é a mais antiga coletânea de
normas específicas utilizadas na resolução
das demandas vicinais derivadas da atividade
construtiva em Portugal. O confronto destas
normas com as do regulamento presente
no fragmento, recentemente encontrado,
permitiu deduzir que o foral foi uma nova
75
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
villa pode sse acostar a ell e fazer cassa sobrel Nos ElRey fazemos saber A vos doutor Lopo
sometendo sse a pea do custume da villa que vaasquez do nosso desenbargo que ora per
he tal sse guerra ou çerquo vyer que ha derribe nosso espeçiall mandado teendes carrego
ou dee per ella corredoyra e seruentya] de Corregedor da nossa corte que a nos
praz que a contenda que he antre fernam
daluarez escudeiro nosso vassalo morador em
Reprodução do fragmento
a çidade de lixboa E Joham aluarez calafate
morador em ella per Razom de hũas cassas
que o dito fernam daluarez faz. que alem do
que vos ja per nossa carta teemos mandamo
açerca da dita contenda. vos mandamos que
façaaes vijr o feito perante nos que sobresto
he ja ordenado E o leueeo a camara da dita
çidade E façaaes vijr o forall della. E algũus
mesteiraaes asy carpenteiros como pedreiros
os mais antigos que hi ouuer e que em a
dita obra mais entendam E lhe mandaay que
vaaom veer a dita obra e contenda E segundo
o que uos pareçer E uos elles diserem que se
deue fazer e que ja outras obras semelhantes
foram desenbargadas que se fizessem asy
e despachaay e desenbargaay per sentença
como achardes que he direito dando apelaçom
e agrauo as partes sse o casso o rrequerer. sem
poerdes a ello outro embargo algũu Fecto em
Sintra xxb dias dagosto lopo fernandez fez ano
de nosso Senhor Jhú xpo de mil E iiijc l bij Rey
Doc. 3
1474, Lisboa, setembro, 12
D. Afonso V determina na cidade de Lisboa o
Documento cedido pelo ANTT
derrube de alguns atravessadouros de balcões
Cota: Juízo dos Órfãos de Macieira de Cambra, e sacadas existentes e proíbe a construção de
liv. 6 novas estruturas semelhantes.
77
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
que veendo nos os muytos litigios e demandas Rua. ¶ Determinamos que tiradas casinhas e
que sse faziam ẽ esta nossa muy nobre e leall cozinhas que sam feytas de baixo dos dytos
çidade de lixboa sobre os atrauessadoyros dos arcos. Nas quaaes seiam logo 153 derribadas e
balcoões que sam feytos e que sse fazem pollas a Janella que feyta tem no dito muro que sse
Ruas e travessas e becos della. queremdo çarre logo. ou se faça em ella freesta pera lume
aello proueer com alguũs do nosso conselho. da Rua de baixo dos ditos arcos. E as casas que
e com ho corregedor e offiçiaaes da dita estam sobre os ditos arcos fiquem assy como
cidade. ¶ Determinamos segundo se ssegue. ora estam. visto como nom fazem perJuyzo
Primeyramente que todos os atruessadoyros aadita Rua. E as outras casas baixas que estam
que estam des aporta da cruz atee assee pella da parte de çima aa quem dos ditos arcos que
Rua dereyta. por omde vem ho corpo de deus sam de lianor estevẽz. Determinamos que sse
pella festa dos pescadores que sam tres .silicet. cortem e tyrem nam lhe ficamdo moor sacada
huum que esta ha sam Joham da praça que sse de çimquo palmos segundo a ordenaçam das
madeyra na parede da dita ygreia. E outro que outras casas daalẽ dos ditos arcos. ¶ E quanto
esta açerqua das casas de pero botelho e outro he aas casas de gill vaaz daltaro. visto como as
aas casas que foram de pero rois de castro. que outras casas daçerqua dellas tem muy gramdes
estes seiam logo derribados e tyrados e fiquem sacadas sobre esteeos. ¶ Determinamos que
as Ruas despeJadas e descubertas e serventia sse cortem pella grandura das outras sacadas
comuũa. E por quanto os arcos que que estam emguisa que fiquem yguaaes com ellas e
ante aporta dalfamdega nom sam menos dellas atee o muro fique / [B] despachado e
oudiosos aa seruemtia comuũa que os sobre descuberto aservemtya comuũa. E quanto
dytos peroo vista aemformaçam que sobre elles he atodos os outros atravessadoyros que
ouuemos que foram feytos primeyramente de fora estam pollas Ruas e becos e travessas
ponto altos e per tall maneyra que nom faziam da dita çidade esteem pello presente como
peruiyzo atoda seruẽtya. ¶ Determinamos que ora estam salvo chegando alguum alguũa tall
os ditos arcos se façam de ponto de tall altura rrazom por que deuom ser tyrados nom sse
que tirados os sobrados que ora estam assy alegamdo em ello o forall da çidade que falla
yguaaes cõ os ditos arcos pera parte de bayxo sobre os trauessadoyros por que ho auemos
que fique tal altura e despachada per que assy em este caso por escusado. ¶ E determinamos
aarca do corpo de deus e procissõoes e cruzes e mandamos que daquy em diante em as
possam liuremente passar sem sse abaixarem Ruas prinçipaaes e pubricas nom se façam
em averem por ello algũa comtradiçam. ¶ atrauessadoyros alguũs em algũa maneyra. E
E comfijrando nos com os sobre ditos a muy esso mesmo em as outras trauessas e becos da
gramde fealdade e muy maa e perygosa çidade. salvo se for per liçemça dos vereadores
seruemtya da Rua cuberta que vem de cata e procurador e por comsemtimento da
que faraas // [fol. 10v] peraa porta doura ¶ vizinhamça omdesse tall atrauessadoyro ouuer
Determinamos que a dita Rua se corregua per de fazer. ¶ Porem mandamos ao corregedor
esta guysa Primeyramente que as casas que da dita çidade ou aoutro quallquer que seu
estam açerqua da porta que saae pera cata carrego teuer e esta carta for mostrada que a
que faraz lhe seja corta tanta parte da sacada cumpram e guardem e façam dar aexecuçam
que nom fique moor que de çimquo palmos. como em ella he comtheudo. por que assy ho
E per adita grandura se cortará as outras duas avemos por nosso serviço e boa ordenamça e
casas que sam Junto com esta hũas de sua nobreza da dita çidade. Dada em a dita çidade
may de martinhanes boom viagem. E outras de lyxboa ha doze dias de setembro duarte de
de pero anes da carualhosa que estam atee os carualho afez. Anno de nosso senhor Jhú xpo
arcos de fernam carreyro. Por quanto os ditos de mill e quatroçemtos e seteemta e quatro.
arcos com os de martinhanes boom viagem
que sam parede meos com elles. sõtam altos
que nom empedem seruemtia e lume da dita
153
Riscado: “seiam”.
78
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
rreçebesse mais dapno do que ja rrecebydo pera todos os autos judiciaes etc sendo o rreo
tynha e que assy o costrangessem que 155 pera ello citado segundo esta por termo que
leuantasse lloguo hũa parede bayxa que tem elle conferiou ser citado e fez procurador per
de hũa cassa antigua que lleyxaua cair que era seu asynado e ante de sse a outra coussa
denpena toda çarrada da parte delle autor que proçeder foy mandado pollos ditos almotaces
hia ter sobre hũa azinhaguaa delle autor aa que a molher do dito Joham garçes rreo fosse
quall elle rreeo primeyro mandara tirar o citada pera falar ao dito feito a quall foy citada
telhado della çarrando toda da parte delle per nuno martjz tabaliam do ciuell e ella fez
autor como sohia destar a quall parede pendia seu procurador e o dito autor apresentou dous
toda sobre as cassas que sam da dita Igreja e foraes que sse seguem ¶ nenhuũ nom pode
que cayndo elle antom gonçalluez autor fazer fresta nem janella nem eyrado com beyra
rreçeberia grande dano e perda e correria sobre cassa doutro nem sobre quintall per que
rrisco que lhas poderia danjficar E que aallem o descobra pero se pasar per anno e dia que hi
de lhas mandar desleuantar e çarrar a dita seja feito ante em façe do que o demanda e
cassa da sua parte e assegurasse em tall ssendo na terra nom lho pode despois tolher
maneyra a cassa delle autor que por a cassa que hi nom seja mais pero pode fazer ho que
delle rreo lhe nom podesse vyr dano e assy lhe fezer a casa eyrado sem beyra sobre a cassa do
mandassem Eelles almotaçes que outro seu uezinho em tall maneira que a
alleuantassem mais hũa pequena parede com parede delle seja tam alta que nenhuũ se nom
que tem çarrado huũ sseu qujntaall da parte da possa jeytar sobre ella nem per que o descobra
azinhaguaa delle autor a quall hera tam bayxa per ella ||. ¶ quem quer podesse alçar pollo
de que de hũa e da outra poderia ligeyramente seu quanto qujsser que nom tolha lume ao
deçer aa dita azinhaguaa e rreçeber elle .autor. outro seu ve- // [fol.3] -zinho ¶ nenhuũ nom
mujto dapno e perda em sseu qujntaall e pode poer madeira em na parede em que nom
parreyras e cassas como aguora e outras ha qujnham posto que nom aja parede da
mujtas vezes ja rreçebydo tynha e ao diante outra parte na casa e se hi algũa madeira teuer
rreçeber poderia se a estes malles lhe nom e disser que a metade da parede he sua aJa a
fosse rremedeado com tall pena que alguũ mea da parede dessu tiuer a madeira ajusso e
nem algũa da cassa dello rreo nom teuesse meta hi quanta madeira qujser || mas sse sse
atreujmento pera mais fazer o que ata aquj alçar qujsser nom possa meter madeira na
fizerom que pois que pois [sic] elles ditos parede mais de susso adiante se lhe ante nom
almotaçes sabyam que o forall da dita çidade comprar a metade da parede ou sse aujer com
mandava que as paredes dos eyrados quando elle etc os quaees foraes forom concertados
quer que sse aujam // [fol.2v] de fazer aujam com os publicos E foy mandado ao autor que
de sser tam altas que nom descobrissem sseus fezesse çerto da dita parede como era sua e se
vezinhos nem que sse podesse njmgem lançar a fez era aa sua custa etc pera o quall lhe foy
ssobre ellas nem tam pouco se possa fazer asynado termo atee segunda audiencia e foy
fresta em parede senom mujto pequena e satisfeito ao mandado dos ditos almotaçes e
estreyta per que sse nom podesse descobrir o sendo presente o dito Joham garçes rreo o
uezinho etc pois como podia Joham garçes rreo autor deu sua jnqujriçam de testemunha e o
nem os seus lançarensse sobre a parede delle rreo veo com huũ forall que se segue sse algem
autor e descobrirem lhe e fazerem lhe dano sse aqueyxar aos almotaces sobre preyto de
nom sendo ssua e que ajnda que sua publica cassas ou doutra coussa qualquer que deuam
fora o que nom era como dito tijnha quanto jegar [sic] os almotaçes ou por rrezam que
mais nom ser sua protestava elle autor pollas pertençam almotaçaria e se lleyxar depois do
custas e despesas que sobre o dito casso lhe queyxume que fez em gujsa tall que passa por
fezesse fazer pedindo elle autor aos ditos tres pares dalmotaçes e chega aos quatro
almotaçees que ouuessem por citado o rreto pares que nom fez queyxume depois se o fezer
em tempo destes quatro nom lhe rrespondera
155
Riscado: “este”.
80
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
ho outro sobre aquella cousa de que fezera Ja pois descobre as cassas e quintall da dita IgreJa
dante queyxume delle e sse lleyxou de o fazer e lhe fazem delle dapno e portanto mandamos
como dito he e o faz depois aquelle que sse e julgamos // [fol.4] que ssem embargo da
aqueixar de tres em tres messes aos almotaçes perespriçam allegada pollo rreo vysto como
daquella coussa sobre que lhe fazem mall ou nom pode auer lugar contra Igreja que o dito
força ou torto nom perdera por tras tempo || Joham garçes tire loguo dalli os ditos paaos e
outrosy nom perdera por tras tempo se lhe madeyra e esto sob pena de dous || mjll rreaes
algem fezer algũa coussa etc o quall forall foy pera as obras desta cidade em que o auemos
outrosy conçertado e as partes rrezoarom por condenado se o assy nom comprir e per
sobre os ditos foraes e jnquiricam tanto || que esta mesma mandamos e damos lugar ao dito
foy mandado pellos ditos almotaçes que a dita comendador autor que sse alleuante com o
parede fosse medida pollo medidor da dita muro do qujntall da dita Igreja quanto quiser
cidade e dissesse as braças que nella auja e se lhe aprouuer per tall gujsa que suas casas e
bem assy se era de // [fol.3v] pedra e call ou quintall nom fiquem descubertas segundo
taypa e que a esto satisfeito decrarado todo manda o forall etc ¶ a ssegunda coussa de que
per sseu asynado fosse vysta per elle mesmo sse o dito comendador agraua e que pede que
medidor com outro pedreiro os quaees lhe sseja emmendada he que o dito rreo
dissessem per juramento o que poderia ao dito alleuante a empena que derribou da cassa que
tempo valler a braça da dita parede e com a ante era terrea do quall deribamento he do
dita deligencia se tornasse o dito feito logo dito buraco que na dita parede fez contra as
conclusso a elles almotaçes pera sse nelle dar cassas da dita Igreja de que sse segue grande
finall despacho etc E estando os ditos autos dapno e perda nas cassas da dita Igreja e que
neste ponto diogo gomez e lourenço mendez aalleuante no modo que dantes estaua e çarre
cidadaaos almotaçes forom uer a dita contenda o dito buraco que nouamente fez porquanto
a quall vysta per elles posserom no dito feito por a dita parede e empena seer derribada e o
esta Sentença que sse ssegue ¶ pareçe nos que dito buraco feito lhe emtram ao dito qujntaall
o comendador de sam martinho desta cidade da dita Igreja e lhe quebram e destruuy aruores
sse agraua de Joham garçes sseu uezinho de do dito qujntall da dita Igreja . silicet. huũ
tres agrauos que diz delle rreçeber e de ssua pessegueiro que lhe cortarom e destroyrom e
cassa e dos seus o primeiro he porque diz que mais lhe derribarom as huuas de hũas parreyras
o dito Joham garçes lhe tem metidos paaos da forra as que hi tem o que foy jso mesmo por
parte de sseu currall que tem o dito Joham nos e ssegundo deus e nossas conciencias e
garçes 156 na parede do qujntall delle autor que segundo querem os foraes dalmotacaria
he da ssua Igreja sobre os quaees paaos tem julgamos e mandamos que o dito Joham garçes
lancadas tauoas per que sse seruem os alleuante a dita parede dempena como
sserujdores do dito Joham garçes e lhe antijguamente estaua e çarre o dito buraco por
descobrem as cassas e qujntaall da dita Igreja e tall ma- // [fol.4v] -neyra que o dito autor nom
lhe llançam em as suas cassas mujta cugidade rreçeba detrimento alguũ e esto cunpra asy
o que ssegundo forall nom pode hi ter nem sob a dita pena como dito he ¶ o terçeyro
fazer pois que he do dito muro e parede he da agrauo de que sse agraua o dito commendador
dita IgreJa etc E que por sser coussa e possysam he de hũa paredinha pequena e byxa que esta
da IgreJa que nom abasta ao dito Joham garçes no topo da azinhaguaa com que esta carrado o
ter posse dano e dia etc e quanto he a esta dito quintall do dito Joham garçes por sser
primeyra duujda vysta e conssyrada vystur[i]a bayxa deçem por ella ao dito quintall da Igreja
do dito agrauo que por olho fomos ver com os e lhe andam pollos telhados da ca [sic] cassas
foraaes dalmotaçaria e o dereyto comuum que da dita Igreja do que rreçebe dapno e perda a
sobre ello falla o dito Joham garçes nom pode quall cousa foy tambem vysta por nos e
ali teer tall madeira metida nem deue estar ali achamos que ssegundo os foraaes dalmotaçaria
o dito Joham garçes he teudo daleuantar a dita
156
Riscado: “que”.
81
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
parede da dita azinhagua tam alta que tolha feito e aqui meu publico synall fiz que tall he
nom sse fazer dapno nos telhados e cassas e [sinal de tabelião]
quintall da dita Igreja e porem determjnamos e
mandamos e jullgamos que o dito Joham garçes Doc. 5
alleuante a dita parede tam alta que sse nom 1499, Lisboa, junho 17
possa fazer dano nas ditas cassas e quintall da D. Manuel I proíbe em Lisboa a construção de
dita Igreja e quanto he aa terra que esta novas sacadas
acostada ao muro das ditas cassas que nos por
nosso holho vymos de que o autor sse mujto AML-AH, Chancelaria da Cidade, Livro das
aqueyxa por sser coussa mujto perigosa as Posturas Antigas, fl. 84v (publicado em Livro
ditas cassas do dito autor por que pode tanto das Posturas Antigas…, p. 238); também
carregar sobre o dito muro se chouer que o em AML-AH, Chancelaria Régia, Livro 1º de
pode deribar e mandamos ao dito rreo que a D. Manuel I, fl. 44 (parcialmente publicado
mande loguo tirar dalli sob a dita pena e seja em Documentos do Arquivo Histórico da
causa de bem ujzinharem e de tirarem odeos e Câmara…, vol. 4, p. 53).
mall querenças dantre sy vysto as pessoas que
anbos sam e per aqui auemos este foy por Nos ElRey fazemo saber A vos vereadores
findo e acabado e condenamos o dito rreo nas procurador e ofiçiaaes desta nosa çidade
custas ||. da quall Sentença o rreo apellou de lixboa. que a nos praz aveendo o asi por
pera os vereadores e foy lhe rrecebyda e mais nosso seruiço E nobreza da çidade que
atempada que a possesse pressente os Jujzes daquy em dijamte se nom huse do forall e
do // [fol.5] ciuell a que taaes apellaçõees capitollo que fala nas sacadas que se fazem
pertençem e a dita apellaçam foy apresentada nas cassas que posam tomar a terça parte da
por parte do dito rreo perante os ditos Jujzes Rua E aveemos por bem que se nom façam
ao termo que lhe foy dado e as ditas partes no mais sacadas nouas. saluo per nosso espiçiall
ditos Jujzes fezerom fezerom [sic] sseus mamdado. E que as velhas que sam feitas
procuradores e rrezoarom tanto do sseu querendo as correger seus donos ho nam
derreito que o 157 foy em vereaçam conclusso o posam fazer e amte se desfaçam de todo E
quall vysto per os ditos uereadores posserom se faça parede dereita sob pena de quem ho
no dito feito este acordo que tall he ¶ ssem contrairo fezer emcorrer em pena de vijmte
embargo dos embarguos passe a Sentença que cruzados pera as obrras da çidade. Porem vo
per esta uereaçam foy dada e quanto aa llo noteficamos asy E vos mandamos que asy
Sentença que em este feito foy dada pollos se cunpra e guarde stprito em lixboa a xbij
almotaçes acordam que bem Julgarom e porem dias de Junho amtoneo carneiro o fez anno
comfirmam sua Sentença somente nas custas de mill e iiijc e nouemta e noue. E esto se nom
158
mandam que cada huũ fique com ellas vysto entendera nas sacadas da Rua noua. nem em
como as partes tynham rrezam de litigar || etc allguũas outras em que conheçidamente sse
foy proujcada a Sentença e acordo susso veJa que nom fazem nojo.
esprito aos quatro dias do mes dabrill de mjll e
quatroçentos e nouenta e noue annos na
cidade de lixboa naudiencia do ciuell per
Frrancisco pestana caualleyro cidadaao Jujz do
ciuell aa vista das partes testemunhas que
pressentes forom fernand afomso e diogo
coelho tabalianes e outros e eu nuno martjnz
tabaliam do ciuell que este estormento de
Sentença spreuj por lujs perdigam e elle tem o
157
Riscado: “foy”.
158
Riscado: “E que”.
82
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
Doc. 6 Doc. 7
1519, Évora, setembro, 22 1519, Évora, novembro, 3
D. Manuel I escreve à câmara de Lisboa sobre o D. Manuel I solicita à cidade de Lisboa o envio
Livro de Posturas do treslado do Foral da almotaçaria
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
Anexo
Tabela – Relação das normas jurídicas entre os documentos analisados, tomando como referência a
coluna do meio correspondente ao Foral da almotaçaria de Lisboa.
84
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
§7 §4
E em toda demanda E em toda demanda
dalmotaçaria nam dalmotaçaria
Jugarom nenhũu naõ jugaraõ nhũ
por rreuell nem por reuel, nem
Emtregaram entregaraaõ a nhũ
nenhũu de nhũua dene huã cousa por
coussa per rrezam rrezaõ da reuelia,
da rreuelia nem nem purgará
purgara rreuelia reuelia, mas pagará
mas pagara a a testaçõ que for
testaçom que posta sobre a
for posta sobre a cousa.
coussa.
§8 §5
E pode sse agrauar E podese agrauar
do Juizo que derem do juizo que derom
os almotaçees os almotacés,
E aquell que sse e aquel que se
mal agrauar dos mal agrauar dos
almotaçees nam almotocés naõ
deue dar as custas deue dar as custas
aa outra parte. a outra parte.
§9 §6
E deuem os alvazijs E deuem os aluazis
atender a parte atender a parte
que sse agrauar que sse agrauar
ataa tres dias sse ataa tres dias, se
lhe nam foy dado lhe naõ foy dado
dia asynado dos dia asinado dos
almotaçees em almotacés, em que
que pareçesse parecesse ante os
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
§ 10 §7
E os almotaçees E os almotaçees
nam daram as naõ daraaõ as
rrezõoes nem o rezõoes nem
grauo em estprito agrauo em escrito
aa parte mas aa parte, mas
elles vijnrom per elles virom per sy
ssy rrecontar aos recontar aos aluazis
aluazijs as rrezõoes as rezões em como
em como forom forom baralhadas e
barelhadas E rezoadas ante elles,
rrezoadas ante elles e o juizo outrosy
E o Juizo Outrosy que derom, e
que derom E sse se pola ventura
pella ventura as partes dizem
as partes dizem alguãs rezões,
algũuas rrezõoes em que se cõ os
em que sse Com almotacés naõ
os almotaçees nam acordaõ ambos
acordom ambos ou hũ delles, e as
ou hũu delles E as partes o quiserem
partes o quiserem provar, deuelhes a
provar deue lhes a valler.
valer.
§ 11 §8
E os almotaçees E os almotacees
mayores deuem maiores deuem
ambos em sembra ambos emsembra
ouujr os preitos e ouuir os preiteiros,
darem os Juizos e daraõ os juizos
que ouuerem a dar que ouuerem a dar,
e em outra maneira e em outra maneira
nam deuem de naõ deuem de
valler E podem valler. E podem
dar o Juizo Em dar o juizo em
andando E estando andando e estando
caualgados e de caualgados e de
pee Ou ssendo em pee, ou sendo em
quallquer lugar ou qualquer lugar, ou
a que oras quiseer a que oras quizer
do dia. do dia.
§4 § 12 §9
Os Almotacéés E os almotaçees E os almotacés
grandes e gramdes E os grandes E os
pequenos pequenos em pequenos
enssembra cada ssembra e cada emsembra, e cada
hũu per ssy deuem huu per ssy deuem hũs per sy deuem
seer teudos de seer theudos de ser theudos de uer
ueer e guaradar os uer e de guardar e de goardar as
pesos e as medidas as pessas e as pesas e as medidas,
per que vendem e medidas per per que compraõ e
conpram tanben que compram e vendem tambem
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
§7 § 14 § 11
Todalas pesas e as E todalas pessas E todalas pesas
medidas da uilla E medidas da e medidas da
e as de ffora da ujlla E as de vila, e as de fora
villa que seiam fora da ujlla que da villa, que
eno termho seJam no termo sejão no termo,
deuem nas a dar deuem nas dar deuem nas dar
aos Almotaçees aos almotaçees aos almotacés,
tanben As da tambem as da tambem as da
carne come carne como carne, como
do pam coyto do pom cozido do paõ cosido,
como das outras Como das outras como das outras
cousas que per coussas que per cousas, que por
peso deuem pesso deuem peso deuem
pesar. E outrossy pessar E outrossy pesar; e outrosy
as medidas do as medidas do as medidas do
uynho e as do vinho E as do pom vinho, e as do
pam e do azeyte E as do azeite E paõ, e as do
e As outras as do ssal E as azeite, e as do sal,
cousas per que da call E as das e as da cal, e as
deuem a medir outras coussas das outras cousas,
E quem teuer que per medida que per medida
outras medidas deuem a medyr deuem medir;
meores se nom E quem teuer e quem tiuer
as que derem outras medidas outras medidas
os Almotaçees meores ssenom meores, senõ
açouta lo am toda as que derem as que derem
a uilla. e depois Os almotaçees os almotacés,
poerem no no azorraga lo am azorragaloaõ
pelourinho e per toda a villa E per toda a villa,
porram no fora da depoys po llo hom e depois pôloaõ
villa por hũu Ano no pelourinho E ao pelourinho,
e dia. po llo hom fora da e pôloaõ fora da
ujlla por hũu anno villa per hũ anno
e por hũ dia. e por hũ dia.
§9 § 16 § 13
Todalas cousas que Todalas Coussas E todalas cousas
conpradas forem que Conpradas que compradas
se as quiserem forem sse as forem se as
depoys uender quiserem depoys quizerem depois
en como lhas vender deuem de vender, deuem
mandarem vender nas vender nas vender
os Almotaçees e as em como lhas em como lhas
assy non uenderem mandarem vender mandarem vender
peytaran enna os almotaçees os almotacés; e
primeyra uez v. e quallquer que qualquer que as
ssoldos. e na ijª. v. asy nam vender asy naõ vender,
e na iijª vez porran peitaraa polla peitaraa pela
no no pelourinho e primeira vez primeira vez
pagara d ala suso v. çinquo soldos E cinquo soldos, e
ssoldos. na segumda vez na segunda vez
çinquo soldos E na cinquo soldos, e
terceira po llo ham na terceira pôloaõ
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Lisboa
§ 25 § 21 § 41
Se pella ventura E se polla ventura E se alguem teuer
alguem ha parede alguem ha parede parede de permeo
de permeyo com de per meyo cõ com outro seu
outro sseu vizinho outro seu vezinho, vezinho, e a casa
E a casa de hũu e a casa de hũ he de huũ he mais alta
he mays alçada mais alçada que a que a do outro, e
que a do outro E do outro, e tem a tem a cal por que
tem a call em esta cal em esta parede verte a aguoa do
parede per que que verte agoa do seu telhado na dita
verte agoa do sseu seu telhado, e o parede, e o que tem
telhado E o que que tem a casa mais a casa mais baixa
tem a cassa mays baixa querse alçar quer-se aleuantar
baixa quer sse alçar pela parede mais pola parede mais
polla parede mays alta que estoutro, alto que o outro,
alto que este outro podese alçar per poder-se-ha alçar
pode sse alçar per toda a parede em por toda a parede,
toda a parede em tal guissa que lhe em tal guisa, que
tall guissa que lhe leixe tamanho lhe leixe tamanho
leixe tamanho lugar da parede luguar de parede,
lugar da parede per que colha per que colha a
per que colha agoa do telhado aguoa do telhado
agoa do telhado daquelle, que ante d’aquelle, que ante
daquelle que ante hy auia a cal per hi tinha a cal, porque
hi auja a call per que a recebia, em recebia a aguoa, em
que a rreçebia Em guisa tal que lhe modo que lhe nom
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Lisboa
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
¶ § 43 § 38 § 34
Se alguũ homem Se algũu homem Itẽ. se algum Outro si se algũa
ouuer duas cassas ouuer duas cassas homem ouuer pessoa ouuer duas
que sejam] de hũa que seJam hũa de duas casas que casas, que sejam
parte da rrua e a hũua parte da rrua sejaõ huã de huã hũa de hũa parte,
ou[tra da outra E a outra da outra parte da rua, e e outra da outra
parte] [da rrua e parte da rrua e a outra da outra parte da rua, e hi
deitar traues per deitar traues per parte da rua, e teuer lançadas
çima da rrua da çima da rrua da deitar traues per traues por cima
hũa parte a outra hũa parte a outra cima da rua da da dita rua de hũa
e fezer] hy per çima e fezer hy per çima huã parte á outra, parte pera outra, e
da rrua balcom da rrua balcom e fiser hy per cima teuer hi feito balcam
com sobrado e com sobrado E da rrua balcõ cõ com sobrado, ou
depois aqueçe que depoys acomteçe sobrado, e depois abobada, e despois
a hũa casa da hũa que a hũa cassa acontecer que a acontecer que hũa
parte da rrua he de da parte da rrua huã casa da parte casa da parte he de
hũ erel. e a outra he de hũu hereo da rua he de hũ huũ hereo, e a outra
casa doutro erel. E a outra cassa he eréo, e a outra casa casa da outra parte
com no balcom ou doutro hereo com he doutro eréo he d’outro hereo
com a meyadade o balcom ou com com o balcõ, ou com o balcam,
dos [....] outro com a metade delle cõ ametade delle, ou abobada, ou
a outra meyadade porque o partirom porque a partiraõ ametade della, e
por que partirom ambos per meyo ambos per meio; e ambos, ou cada
anbos per meyo e hũu delles ou hũ delles ou ambos huũ delles se quiser
e huũ delles ou ambos se quiserem se quiserem alçar, alçar, podem-no
anbos se quiser alçar podem no podemno fazer, e fazer, e huũ, e o
erger poden no fazer e farom hũu faraõ hũ e outro outro, e cada huũ
fazer e farom huũ e outro Janellas janellas e frestas por si poderam
e o outro Janelas e frestas sobre sobre aquelle fazer janelas,
e freestas sobre aquelle balcom balcom, ou o hũ se e frestas sobre
aquel balcom ou ho ou ho hũu se sse alçar, e aynda que aquelle balcam; por
huũ se o faz ainda alçar E aJnda que todo o sobrado quanto posto que
que todo o sobrado todo o sobrado do balcõ seja do o dito balcam, ou
do balcom seia do do balcom seJa do outro, e aynda que abobada estee nas
outro E ainda que outro E aJnda que tenha as traues na paredes, sempre
tenha as trasues na tenha as traues na parede metidas, assi o debaixo do
parede metudas parede metudas naõ se pode balcam, como o
nom se pode nam sse pode porem chamar á aar d’emcima fica
porem chamar a porem chamar a posisõ della por do Concelho; e por
posissom dela per possisom della por tempo nhũ; e a tanto cada vez que
tenpo nenhuũ ca tempo nenhũu pois vay a rua o Concelho quiser,
pois uay a rrua Ca poys vay a rrua per fundo rossio vindo a causa pera
per fondo rrecio per fumdo rrossio do concelho he ello, o pode fazer
do conçelho he do conçelho he tambem em cima derribar, porque por
tanbem em cima tambem em çima como em fundo, tempo alguũ nunca
come em fondo E como em fumdo e podeo desfazer poderá aquirir posse
pode o desfazer o E pode o desfazer o concelho cada em o dito balcam
103
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
¶ § 44 § 39 (continuação do §
Se dous uertem Se dous vertem Itẽ. se dous vertem 40)
agua do sseu agoa dos sseus aguoa dos seus […]
telhado em hũa telhados em hũua telhados em huã e quanto se assi
parede per caal e parede per call parede per cal, e alçar, tomar-lhe-ha
alguũ deles se quer e algũu delles se algũ delles se quer as aguoas, e dará
alçar nom se pode quer alçar nam sse alçar, naõ se pode seruentia pera ellas,
alçar per toda ergo pode alçar per toda alçar per toda, em tal maneira, que
per quanto he sa saluo per quanto saluo per quanto o dito seu vezinho
meyadade pero he a ssua metade he a sua metade; nom receba dãno.
pode sse erger per peroo pode sse peró podese
toda per aueença herJer per avença erger per auença
danbos danbos per toda. dambos per toda.
§ 45 § 40
Se os Almotaçees OS almotaçees Itẽ. Os almotacés
da villa deuem a da ujlla deuem a da villa devem a
meter almotaçees poer almotaçees poer almotaçaria
no termho Da no termo da ujlla no termo da
uila arredor e arredor nos lugares villa arredor
nos logares das das vendas E nos lugares das
uendas em aquelas aquellas coussas vendas, e aquellas
cousas que ala que alla ganharem cousas que la
guaanharem per per rrezam ganharem per
rrazom da dalmotaçaria razaõ dalmotaçaria
almotaçaria deuem devem hende devem ende alla
ende ala fazer as alla mandar fazer mandar fazer
calçadas e as fontes as calçadas E as calçadas e as
cada huũ do que as fomtes cada fontes, cada hũ do
for guaanhando hũu do que for que for ganhado
em seus logares ganhado em sseus em seus lugares,
e o al que ficar lugares E o all que e o al que fiquar
do mais da lo ficar de mays da llo de mais daloaõ
am ao Conçelho ham ao comçelho ao Concelho que
que o guarde que o guarde com o goarde cõ ho
com o al que for ho all que ganhado al que ganhado
guaanhando da da ujlla per rrezom da villa por razaõ
villa per rrazom dalmotaçaria E dalmotaçaria. E
da almotaçaria E os aluazijs ambos os aluasis ambos
os aluazijs [ambos quando ssairem do quando sairem do
quando ssairem do aluazilado deuem aluasilado deuem
aluazilado deuem de ser almotaçees de ser almotacés
de ser almotaçees no mes dabrill no mes dabril
no mes dabril]
§ 46 § 41 § 43
[todo homem que todo homem que Itẽ. todo homem E toda pessoa que
ouuer canpo ou ouuer canpo ou que houuer campo teuer campo, ou
pardieiro a par do pardieiro a par do ou pardieiro a pardieiro a par do
muro da vila pode muro da villa pode par do muro da muro da Vila, pode-
sse acostar a el e sse acostar a ell e villa podesse se acostar a elle, e
fazer cassa sobrel fazer cassa sobrell acostar a el, e fazer casa sobre elle,
sometendo sse a sometendo sse a fazer casa sobre porem fica sempre
pea do custume pena do custume el, sometendose á obriguado, se vier
104
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
§ 47 § 42 § 35
Jtem Se alguem Jtẽ. se alguem Item se alguũ teuer
teuer Janella sobre tiuer janella sobre janela sobre alguũ
quintall ou ssobre quintal, ou sobre quintal, ou campo
canpo doutrem e campo doutrem, e d’outrem, e aquelle
aquelle cuJo he o aquelle cujo he o cujo for o quintal,
quintall ou canpo quintal ou campo, ou campo, quiser
quer hi fazer cassa quer hy fazer casa, hi fazer casa, nom
nam pode fazer nõ pode fazer poderá fazer parede
parede tamanha parede tamanha tam alta, que tape
per que tape a per que tape a a janela que ante hi
Janella do outro janella do outro, se era feita, se passar
sse passou Ja anno passou ja anno e de anno e dia que
e dia que a Janella dia que a janella hy era feita; porem se
hy ante avya mays ante auia, mas peró o que quiser fazer
peroo Se aquell se aquel quer fazer a dita casa quiser
que quer fazer a a casa no quintal leixar azinhagua de
cassa no quintall ou ou no campo, hũa vara e quarta
no canpo e quiser e quiser deixar de medir pano, em
leixar aazinhagua asinhaga tamanha larguo, bem poderá
tamanha ou ou espaço em que fazer a dita casa,
espaço em que aja cinquo pés e alçar-se quanto
aJa çinquo pees segundo direito quiser.
segumdo direito comũ, per que
comuum per que a janella receba
a Janella rreçeba lume per ella, bem
lume per ella bem o pode fazer.
o pode fazer.
§ 48 § 43 § 36
Jtem sse hũua Jtẽ. se huã casa Item se hũa casa for
cassa he de dous he de dous donos de dous senhorios,
donos de guissa tall de guisa tal de hũ de guisa, que de huũ
de hũ delles he ho delles he ho sotom, delles seja o sotam,
ssotom e do outro e do outro he o e d’outro o sobrado,
he o ssobrado sobrado, nõ pode nom poderá aquelle
nam pode fazer fazer aquel cujo he cujo for o sobrado
aquell cuJo he ho o sobrado janella fazer janela sobre o
sobrrado Janella sobre o portal portal d’aquelle cujo
sobre o portall daquelle cujo he o for o sotam, nem
daquelle cuJo he sotõ, nem quanto, outro edificio alguũ.
o ssotom nem nem outro nhũ.
quanto nem outro
nenhũu.
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
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Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
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FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
séculos XII a XV, 4 vol.s, Lisboa, Typographia Revista de Estudios Histórico-Jurídicos, vol.
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História, 1981
FARELO, Mário, A oligarquia camarária de
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Lisboa (1325-1433), Tese de Doutoramento
Portugal, contendo tres livros: I. das
apresentada à Universidade de Lisboa,
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1826-1828 FERREIRA, Maria Valentina Garcia, “O
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Particular” (trad. Miguel Pinto de Menezes
1975, pp. 177-316
da edição em latim de 1789-1795), in
DIAS, João José Alves, Ordenações Manuelinas Boletim do Ministério da Justiça, vol. 161,
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de D. Manuel I”, in e-SLegal History Review, (Lisboa – séculos XIV-XV)”, in Arquipélago
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DOMINGUES, José; PINTO, Pedro, “Os foros 1995, pp. 29-48
extensos na Idade Média em Portugal”, in HERCULANO, Alexandre, História de Portugal
108
Sandra M. G. Pinto FRAGMENTA HISTORICA
109
FRAGMENTA HISTORICA Em torno do foral medieval da almotaçaria de
Lisboa
110
A DIPLOMACIA DE D. MANUEL I
SEGUNDO UM MANUSCRITO DA BIBLIOTECA BRITÂNICA
Diogo Faria
Universidade do Porto,
CEPESE, bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Resumo Abstract
Palavras-chave Keywords
Palavras-chave: Diplomacia, D. Manuel I, Diplomacy, King Manuel I, Embassies,
Embaixadas, Embaixadores, Academia Real da Ambassadors, Academia Real da História,
História, Historiografia Historiography.
Artigo recebido em: 30.06.2016 | Artigo aceite para publicação em: 27.09.2016
112
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
“Memoria dos embaixadores que El Rei D. com o objetivo de verificar se algum académico
Manuel mandou a diversos principes da foi incumbido de estudar a política externa de
Europa”7, “Catalogo dos embaixadores que D. Manuel I.
diversos reys da Europa mandarão a el Rey
Consultando a História da Academia Real
Dom Manoel”8, “Menistros que de diversos
da História Portuguesa13, composta pelo
reynos vierão a Portugal dos quais ou se ignora
Marquês de Alegrete – que talvez se trate do
o carater ou vierão sem elle”9, “Menistros
primeiro trabalho de história da historiografia
que forão mandados por el rey Dom Manoel
realizado em Portugal –, constata-se que, uma
a diversos reynos da Europa alguns dos quais
vez selecionados os académicos, os trabalhos
forão sem caráter e outros se ignora”10. A
da Academia arrancaram com a distribuição
fechá-las, sempre uma mensagem de conteúdo
de tarefas entre todos os seus membros. Os
muito próximo: “Pedesse ingenuamente toda
encargos dividiram-se entre três domínios: a
a noticia do tempo em que sahirão estes
história eclesiástica, prevendo-se a elaboração
menistros de Portugal e voltarão ao Reyno e
de memórias sobre cada uma das dioceses do
tambem a confirmação se forão ou não, seus
reino, tanto em português como em latim; a
nomes, titullos e carater ou alguma noticia da
história secular, que enquadrava os estudos
sua geneologia, a forma como tratarão as suas
sobre o território português desde tempos pré-
negociações, defficuldades e sucesos, com
romanos e a vida de cada um dos monarcas; e
quem conferirão as repostas que se lhe derão, e
os “empregos diversos”, que incluíam a história
merces que lhe forão feitas e finalmente tudo o
da inquisição e das ordens militares, assim
que for util a compozição das memorias”11. Em
como os “pontos geográficos” e os “pontos
grande medida, foi a partir desses elementos
jurídicos”14.
que se conseguiu chegar à identificação do
autor. Dada a inexistência de referências a trabalhos
específicos sobre política externa, focou-se
a atenção no responsável pela composição
2. Identificação do autor
das memórias sobre o reinado de D. Manuel
I: Francisco Dionísio de Almeida15. Após a
A frequente referência a “memórias”, a sua identificação, consultou-se a Coleção dos
composição do texto num registo de recolha Documentos e Memórias da Academia Real da
e ordenação de dados factuais (ou seja, de História16, em busca de elementos sobre o seu
lista ou catálogo)12, e o tipo de caligrafia que envolvimento nas atividades da instituição.
remete para o século XVIII fizeram supor que
a elaboração deste documento se poderia 13
Manuel Teles da Silva (Marquês de Alegrete), Historia
enquadrar na produção memorialística de da Academia Real da Historia Portugueza, Lisboa, 1727.
duas das principais associações científicas 14
Manuel Teles da Silva, Historia da Academia…, pp. 60-
fundadas em Portugal no século das Luzes: a 66. Estes empreendimentos, ainda que frustrados em
Academia Real da História Portuguesa (1720) e relação à maior parte dos objetivos, corresponderam à
autonomização do “campo historiográfico” em Portugal,
a Academia Real das Ciências de Lisboa (1779). com regras discursivas próprias e definidas, associado
Tendo isso em conta, optou-se por iniciar uma a uma função de “autor-historiador”, enquadrado
pesquisa nos registos da primeira instituição, pelos movimentos culturais do Iluminismo. Estes
aspetos foram estudados em: Isabel Ferreira da Mota,
observações e referências do autor das listas.” Conde A Academia Real da História. Os intelectuais, o poder
de Tovar, Catálogo de manuscritos…, p. 139. cultural, e o poder monárquico no séc. XVIII, Coimbra,
7
BL, Additional Manuscripts, ms. 20958, fl. 17. Minerva, 2003; Luís Reis Torgal, “Antes de Herculano…”,
8
BL, Additional Manuscripts, ms. 20958, fl. 19. in Luís Reis Torgal, José Amado Mendes e Fernando
9
BL, Additional Manuscripts, ms. 20958, fl. 22. Catroga, História da História em Portugal, vol. 1, Lisboa,
10
BL, Additional Manuscripts, ms. 20958, fl. 23. Temas e Debates, 1998, pp. 23-42, maxime pp. 24-27.
11
BL, Additional Manuscripts, ms. 20958, fl. 24v. 15
Manuel Teles da Silva, Historia da Academia…, p. 66.
12
Aspeto tratado por José Mattoso em José Mattoso, A 16
Collecçam dos documentos, e memorias da Academia
escrita da História, teoria e métodos, 2ª edição, Lisboa, Real da Historia Portugueza, ed. Manuel Teles da Silva,
Editorial Estampa, 1997, pp. 106-107. Lisboa, 1722.
113
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
114
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
24
António José Saraiva e Óscar Lopes referem um
“estilo incolor”. A. J. Saraiva, Óscar Lopes, História da
II. A diplomacia de D. Manuel I Literatura Portuguesa, 17ª edição, Porto, Porto Editora,
1996, p. 283.
25
João Paulo Oliveira e Costa calcula que apenas 25,4%
1. As fontes do manuscrito dos capítulos desta crónica sejam dedicados à ação
política de D. Manuel no reino. João Paulo Oliveira e
Costa, D. Manuel I…, p. 24. Este e outros aspetos sobre
Antes de olhar às embaixadas enviadas e a vida e obra de Damião de Góis são sucintamente
recebidas por D. Manuel e ao perfil dos seus tratados em: Ana Isabel Buescu, “Damião de Góis, in
Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa, coord.
Alexandra Pelúcia, Lisboa, Centro de História de Além-
22
Segundo o Conde da Ericeira, a sua predileção por Mar, 2005. [Consultado em 5/06/2016] Disponível
este reinado devia-se ao facto de D. Manuel I ter sido em:[Link]
generoso para com alguns dos seus antepassados. php?printconceito=792; Rui Manuel Loureiro, “Góis,
Colleçam dos documentos e memorias…, doc. 3. Damião de”, in Dicionário da Expansão Portuguesa
23
Summario da Bibliotheca Lusitana, vol. II, Lisboa, 1415-1600, dir. Francisco Contente Domingues, vol. I,
1786, p. 68. Lisboa, Círculo de Leitores, 2016, pp. 451-454.
115
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
portanto perante uma fonte pertinente para seja, situações em que o autor teve dúvidas
o apuramento dos dados sobre as relações quanto à natureza (mais ou menos formal) da
diplomáticas no tempo de D. Manuel I, ainda missão. Parece-me que, na maior parte dos
que insuficiente. casos, o que fez o compilador duvidar foi o
facto de as fontes consultadas (quase sempre
Os restantes testemunhos consultados e
a crónica de Damião de Góis) não incluírem
citados por Francisco Dionísio de Almeida,
explicitamente os termos “embaixador” ou
tendo em conta a reduzida quantidade de
“embaixada”, o que levava Francisco Dionísio,
dados que permitiram apurar, assumem
numa atitude cautelosa, a colocar em causa o
um caráter complementar face à crónica de
caráter da missão, que teria de ser confirmado
Damião de Góis. Isso torna-se particularmente
com recurso a outras fontes. Possivelmente,
evidente se olharmos às escassas quatro cartas
nem sempre se justificaria uma atitude tão
originais que são referidas, que indiciam que
prudente, uma vez que o perfil do agente
nenhum fundo de documentação manuscrita
(aspeto abordado mais à frente) e o objetivo
deve ter sido investigado de forma sistemática
que o levava ao estrangeiro poderiam por si só
pelo autor. Não podemos esquecer, contudo,
indiciar com um grau de probabilidade elevado
que os catálogos de que dispomos eram um
que se tratava de um embaixador e de uma
trabalho em curso que Francisco Dionísio
embaixada, mesmo que o cronista não se
pretendia completar e aprofundar, como dão
lhe referisse assim. Por exemplo, quando
conta quer as suas declarações na sessão de 18
Álvaro de Bragança é enviado a Castela, entre
de dezembro de 1721 da Academia da História,
1496 e 1497, para tratar do casamento de D.
quer o incitamento à contribuição dos seus
Manuel com a princesa D. Isabel, filha dos Reis
pares expresso no final de cada uma das partes
Católicos, não há grande margem para duvidar
do manuscrito.
de que esta missão foi, formalmente, uma
Em síntese: as listas de missões diplomáticas embaixada. Tendo isto em conta, na análise
do reinado de D. Manuel I elaboradas por que se segue optou-se por, com algumas
Francisco Dionísio de Almeida baseiam-se exceções, associar a primeira e a última das listas
maioritariamente na Crónica do Felicíssimo elaboradas por Francisco Dionísio de Almeida26.
Rei D. Manuel, de Damião de Góis, Não tendo havido a possibilidade de confirmar,
complementada, em alguns pontos, por outros caso a caso, a natureza formal de cada uma
registos cronísticos e por pouca documentação das missões, é certo que em quase todas elas foi
original avulsa (no próximo ponto, verificar- enviado ao estrangeiro um ou mais agentes da
se-á que o autor trabalhou estes testemunhos Coroa portuguesa para tratar de negócios do
com enorme prudência e respeito pela letra do reino com representantes de outras entidades
que estava escrito). Trata-se de um conjunto políticas27.
de fontes pertinentes e representativas face ao
objeto de estudo, ainda que insuficientes tendo 26
Pelas mesmas razões, procedeu-se de igual forma em
em conta a exaustividade que se pretenderia relação às embaixadas recebidas.
alcançar.
27
Veja-se em anexo o quadro das missões enviadas ao
estrangeiro. Nem todas as referências efetuadas por
Francisco Dionísio de Almeida nos dois catálogos foram
incluídas, pois algumas dizem respeito a uma única
2. Embaixadas enviadas missão ou não parecem sequer constituir uma missão
diplomática. São os casos: da presença de Pero Correia
na Flandres em 1518, que tudo indica fazer ainda parte
Ao abordar as missões diplomáticas enviadas da embaixada por si liderada que foi enviada ao Império
por D. Manuel I ao estrangeiro, há que ter em 1516 (fl. 18); do envio de Francisco Fernandes a
em conta a distinção que Francisco Dionísio Roma em 1495 para entregar uma procuração de D.
Manuel ao cardeal D. Jorge da Costa (fl. 23); do envio
de Almeida efetuou entre as que foram de Pero Correia a Roma em 1496 para transmitir
efetivamente embaixadas e os agentes que informações a D. Jorge da Costa (fl. 23); do envio a
foram “sem caráter e outros se ignora”, ou Roma de João Subtil, para se juntar a Duarte Galvão
no pedido ao papa de que promovesse uma cruzada
116
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
Conforme se poderá verificar no quadro 1 valor histórico desigual (desde logo, deve ter-
do apêndice, o texto que aqui se analisa se em conta a já apontada a exiguidade dos
permite identificar 24 missões diplomáticas testemunhos em que se baseia o catálogo que
enviadas por D. Manuel I ao estrangeiro, a aqui se trata).
um ritmo médio de quase uma missão por
No que toca aos destinos, apenas são
ano de reinado (0,9). Não abundam dados
identificados três: Castela (12 missões, 50%
seguros para efetuar comparações com outros
do total), Santa Sé (oito missões, 33,3% do
reinados28, mas é possível tentar algumas
total) e Império (quatro missões, 16,6% do
aproximações. Alice Santos, estudando a
total)31. Um dado que não pode deixar de
longa governação de D. João I, identificou 55
causar alguma estranheza. É certo que desde
missões (1,15 por ano)29. As listas de despesas
a fundação da nacionalidade os reinos ibéricos
com embaixadas publicadas por Jorge Faro
e o Papado eram os principais interlocutores
apontam cinco missões enviadas por D. Duarte
de Portugal em matérias de política externa,
(uma por ano) e 77 por D. Afonso V até 1473
mas nunca, nos reinados anteriores ao de D.
(2,2 por ano)30. Ou seja, segundo o catálogo de
Manuel I, o quadro diplomático terá sido tão
Francisco Dionísio, o Venturoso, no que toca ao
restrito, encontrando-se documentado o envio
envio de diplomatas ao estrangeiro, aproxima-
de embaixadas a potências como a Borgonha,
se do ritmo do rei de Boa Memória e do seu
a França, a Inglaterra, Veneza e o reino de Fez.
sucessor, mas não atinge sequer metade
Uma vez mais, há que ter em conta que este
dos valores médios do reinado do Africano.
catálogo se baseia quase exclusivamente na
Estas conclusões, contudo, são meramente
crónica que Damião de Góis escreveu sobre
indicativas e têm de ser encaradas com muita
o Venturoso e que a maior parte dessa obra
cautela, pois baseiam-se num estudo e em
é dedicada aos feitos do Oriente – é natural,
fontes que não são diretamente comparáveis,
portanto, que o autor, no escasso espaço que
com graus distintos de exaustividade e de
reservou para as questões internas e para as
(fl. 23v); da cimeira para ajuste de limites de conquista relações europeias, tenha dado primazia às
em África entre D. António de Noronha, escrivão da entidades políticas com quem as relações
puridade, e o corregedor de Jaen, em 1508 (fl. 23v); eram, sem dúvida, mais intensas: Castela e o
do pedido de desculpas que D. Manuel solicitou que
Cristóvão Correia, que estava em Castela, apresentasse
Papado32.
a Fernando o Católico por ter recebido em Évora dois Os objetivos das missões podem dizer-nos
nobres castelhanos que estavam desavindos com ele
(fl. 24); do pedido de informações a Rui Fernandes
tanto sobre os móbeis da diplomacia como
de Almada, que se encontrava na Flandres, sobre sobre o que Damião de Góis julgou mais
a situação política daquela região após a morte de interessante registar. No caso das relações
Fernando o Católico (fl. 24; nesta altura, Rui Fernandes com Castela e o Império, predominam as
de Almada não se encontrava em missão diplomática,
cf.: Maria do Rosário de Sampaio Themudo Barata, Rui
embaixadas destinadas a tratar de negócios
Fernandes de Almada, diplomata português do século matrimoniais (nas suas diversas vertentes:
XVI, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1971, pp. 8-9); da negociar acordos, concluí-los, acompanhar a
missão secreta de obtenção informações (poder-se-á noiva na viagem para o reino). Segue-se um
falar de espionagem?) de Silvestre Nunes ao ducado da
Saboia, em 1520 ou 1521 (fl. 24).
conjunto de missões realizadas em tempos de
28
Um dos objetivos da tese de doutoramento que estou transição de reinados, com o intuito de felicitar
a desenvolver é o estabelecimento de um quadro das os novos monarcas e de apresentar pêsames
missões promovidas por D. Duarte, D. Afonso V e D.
João II tão rigoroso quanto possível.
29
Maria Alice Pereira Santos, A sociologia da 31
Poder-se-ia acrescentar o ducado da Saboia, se se
representação político-diplomática no Portugal de D. tivesse em conta a missão de ‘espionagem’ para lá
João I. Lisboa, Tese de doutoramento apresentada à enviada.
Universidade Aberta, 2015. pp. 537-541. 32
Neste caso, mesmo as embaixadas enviadas ao
30
Jorge Faro, Receitas e despesas da fazenda real Império são dedicadas a negociações de âmbito
de 1384 a 1481 (subsídios documentais), Lisboa, peninsular, refletindo a união dinástica entre os
Publicações do Centro de Estudos Económicos, 1965. Trastâmara castelhano-aragoneses e os Habsburgo
pp. 77-82. austríacos.
117
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
pelos falecidos, o que eventualmente seria aspetos: por um lado, confirmam a tendência
tão motivado por uma necessidade de manter para o alargamento do quadro diplomático
relações cordiais com o reino de quem Portugal que se verificava desde o advento da dinastia
era mais próximo (desde logo a nível familiar) de Avis; por outro, espelham circunstâncias
como pela vontade de estar presente e específicas do reinado do Venturoso, como
acompanhar de perto momentos políticos que o acentuar de uma rivalidade entre Portugal
podem ser delicados. O ajuste de fronteiras e e Veneza pelo comércio de produtos
de espaços de conquista também era tratado ultramarinos (ao mesmo tempo que os dois
pela diplomacia destas potências. Os motivos estados eram aliados no combate ao Turco)
das embaixadas enviadas a Roma eram mais e o estabelecimento de uma nova aliança
diversificados, mas talvez se possa distinguir matrimonial com o ducado da Saboia.
três tipos de objetivos: prestar obediência aos
Os motivos destas missões são muito
pontífices (no início do reinado e no princípio
diversificados, mas há dois tipos que se
de novos pontificados); incentivar os papas à
destacam: as embaixadas relacionadas com
promoção de novas cruzadas (retomando uma
a participação portuguesa em alianças ou
prática do tempo de D. Afonso V); tratar de
operações de natureza militar (especialmente
negócios eclesiásticos diversos.
contra o Turco, mas também no quadro da
Em síntese, os catálogos de missões enviadas rivalidade entre Castela e a França); e as
de Francisco Dionísio de Almeida dão-nos conta demonstrações de amizade e cortesia por
da expedição média anual de uma embaixada potências estrangeiras, através da felicitação
ao estrangeiro, sendo os principais destinos do monarca pelo acesso ao trono ou da
Castela e o Papado e as maiores motivações apresentação de condolências na sequência
a negociação de alianças matrimoniais, a da morte das rainhas (com Castela e Veneza
demonstração de cortesia e acompanhamento como principais interlocutores). Houve ainda
da situação política peninsular, a prestação vários assuntos de natureza eclesiástica
de obediência aos pontífices e o incentivo à tratados com Roma. Face aos objetivos das
realização de novas cruzadas. embaixadas enviadas por D. Manuel ao
estrangeiro, assinala-se um peso muito menor
dos negócios matrimoniais, que é fácil de
3. Embaixadas recebidas
entender: normalmente, as alianças deste tipo
forjavam-se no local de origem da potencial
Porventura, o panorama das missões acolhidas noiva; durante o reinado do Venturoso,
por Portugal durante o reinado de D. Manuel Portugal só teve duas infantas para ‘colocar’
é mais representativo da diversidade de no mercado matrimonial; uma delas, Isabel,
potências com quem o reino se relacionava do só viria a casar quando o Piedoso já se sentava
que o das embaixadas enviadas. Curiosamente, no trono, e apesar de se ter começado a tratar
o número de missões que tiveram Portugal do seu casamento ainda em vida do pai, essa
como destino é o mesmo das de movimento união esteve sempre associada à do príncipe
inverso: 24 (média de 0,9 por ano). Os D. João com a irmã de Carlos V, pelo que as
interlocutores é que são diferentes. Na linha negociações decorreram essencialmente em
da frente mantêm-se, como seria de esperar, Castela; a outra, Beatriz, viria a ligar-se ao
Castela e o Papado, com sete embaixadas cada. duque de Saboia, e foi esse matrimónio que
Seguem-se as ‘novidades’, que são Veneza motivou as três embaixadas enviadas pelo
(quatro missões), Saboia (três), Inglaterra e do que este documento dá a entender. D. Manuel terá
França (uma cada)33. Estes dados refletem dois recebido, por exemplo, pelo menos uma embaixada
oriunda do Império, em 1514, de que dá conta o relato
33
Regista-se também a receção de uma embaixada da estadia em Lisboa de Jan Taccoen van Zillebeke. Cf.
enviada pelas Comunidades de Castela, à revelia das Lisboa em 1514. O relato de Jan Taccoen van Zillebeke,
autoridades oficiais do reino. O alargamento do quadro coord. Jorge Fonseca, Lisboa, Edições Húmus, 2014, p.
diplomático foi, na realidade, ainda mais expressivo 124.
118
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
Ao longo do século XV, o perfil social do Em linhas gerais, verifica-se que predominam
pessoal diplomático, pelo menos nos reinos os nobres, que representam mais de 40% do
peninsulares, parece ter evoluído no sentido de total de diplomatas, seguidos dos clérigos e
incorporar cada vez menos clérigos e cada vez dos letrados, com valores idênticos (20,8%).
mais letrados, como reflexo da composição dos Estes dados, à primeira vista, são pouco
respetivos Conselhos régios, principal ‘campo conclusivos. De uma análise mais fina
de recrutamento’ de diplomatas35. O objetivo ressaltam os seguintes factos:
deste ponto é verificar qual era o cenário no 1. Os nobres que participaram em
reinado de D. Manuel I, mesmo tendo em missões diplomáticas pertenciam
conta as insuficiências desta tripartição entre maioritariamente a círculos próximos dos
nobres, clérigos e letrados – porque houve monarcas (de D. Manuel mas também de
embaixadores que se enquadraram em mais D. João II), tendo desempenhado cargos
do que uma dessas categorias e porque não é nas suas casas ou na administração.
evidente que a inclusão num desses estatutos, Apenas um foi detentor de um título, D.
por si só, constituísse um critério fundamental Diogo Lobo, segundo barão de Alvito, mas
na seleção dos agentes. outros dois eram filhos de titulares: D.
João de Castelo Branco, provavelmente
34
Miguel Ángel Ochoa Brun, Historia de la diplomacia
española, vol. IV, Madrid, Ministerio de Asuntos filho do conde de Portimão, e D. Rodrigo
Exteriores, 1995, pp. 23-26. de Castro, filho do conde de Monsanto.
35
Isabel Beceiro Pita, “La consolidación del personal Destes aristocratas, seis participaram
diplomático entre Castilla y Portugal (1392-1455)”, in
em missões enviadas a Castela e quatro
La Península Ibérica en la Era dos los Descubrimientos.
Actas, III Jornadas Hispano-Portuguesas de Historia integraram embaixadas a Roma.
Medieval, vol. II, Sevilha, Consejería de Cultura de la
2. Os clérigos identificados só foram
Junta de Andalucía, 1997, pp. 1735-1744; Isabel Beceiro
Pita, “La tendência a la especialización de funciones encarregados de missões junto dos
en los agentes diplomáticos entre Portugal y Aragón pontífices e todos se destacaram pelas
(1412-1465)”, XV Congreso de Historia de la Corona de importantes posições que ocuparam na
Aragon. Actas, vol. II, Saragoça, Gobierno de Aragon,
hierarquia da Igreja (bispos, arcebispos,
1997, pp. 443-455.
119
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
cardeais, um prior de Guimarães). Um A experiência prévia poderia ser útil, mas não
deles, D. Henrique Coutinho, também era fundamental, por isso tanto deparamos
serviu D. Manuel como Desembargador com indivíduos que desempenharam diversas
do Paço e das Petições. missões (e que seriam, de algum modo,
especialistas em funções dessa natureza) como
3. Dos cinco letrados, quatro integraram o
com outros que as executaram pontualmente.
desembargo do Venturoso e detinham
Certo é que a existência de carreiras
graus académicos: três doutores e um
exclusivamente diplomáticas era ainda uma
licenciado. A esses juntava-se Duarte
realidade distante.
Galvão, que foi secretário de D. Afonso
V e cronista-mor do reino. Os destinos
das suas missões eram diversificados: 5. Caminhos a prosseguir
Castela, Roma, Aragão, Império.
4. Em relação aos embaixadores cujo perfil Os dados aqui apresentados sobre a diplomacia
está insuficientemente documentado e/ de D. Manuel I são, como já foi referido,
ou que é impossível enquadrar num dos condicionados pela natureza e limitações da
três perfis gerais, destacam-se as ligações fonte em que se baseia este estudo. Por isso,
de Cristóvão Barroso, Pero Correia e mais do que constituírem um quadro seguro,
Tomé Lopes à Flandres e o papel que as informações avançadas podem servir
a feitoria portuguesa em Antuérpia sobretudo como indiciadoras de linhas gerais
teria no relacionamento político entre e de tendências que só trabalhos muito mais
Portugal e o Império36. aprofundados poderão confirmar ou infirmar.
Quer porque os catálogos aqui analisados Os caminhos a prosseguir poderão passar por:
não são exaustivos em relação ao reinado 1. Exame mais pormenorizado dos factos
de D. Manuel I, quer porque as notícias sumariados por Francisco Dionísio de
biográficas que acompanham este estudo Almeida. Isso implicaria que em relação
não são absolutamente esclarecedoras, não é a cada embaixada enviada e recebida
possível apresentar conclusões taxativas sobre pelo Venturoso se tentasse apurar
o perfil dos embaixadores do Venturoso. Os ao certo em que datas decorreu, que
indícios apurados apontam para uma escolha itinerários seguiu, que agentes envolveu,
ad hoc dos diplomatas em função da natureza a que documentos deu origem, etc. Para
da missão e do destino. Mais do que o perfil além disso, também poderia ser útil um
social, a proximidade pessoal e política ao inquérito mais aprofundado sobre o
monarca pesariam no processo de seleção37. perfil dos embaixadores, que se poderia
concretizar através da elaboração de um
36
O perfil, as funções e o papel político dos feitores
catálogo prosopográfico.
portugueses em Antuérpia são analisados (e
comparados com os dos feitores em Bruges) em: A. H. 2. Alargamento do corpus documental. Para
de Oliveira Marques, “Notas para a história da feitoria
portuguesa na Flandres, no século XV”, in Ensaios de
além da monumental crónica de Damião
História Medieval Portuguesa, Lisboa, Vega, 1980, pp. de Góis, outras fontes narrativas podem
159-193, maxime pp. 192-193. ser consultadas, tanto portuguesas
37
Num estudo mais aprofundado, impor-se-ia uma como estrangeiras. A essas deve juntar-
análise detalhada dos vínculos entre estes indivíduos e D.
Manuel I, olhando sobretudo às funções que exerceram
se o exame da diversa documentação
na casa do monarca e à integração e participação no diplomática que se encontra disponível
Conselho Real. Alguns desses aspetos têm sido tratados
em trabalhos de Susannah Humble Ferreira: Susannah portuguese Royal Council in the reign of Manuel I (1495-
Charlton Humble, From royal household to royal court: 1521)”, in Portuguese Studies Review, n.º 12, 2004,
a comparison of the development of the courts of Henry pp. 1-17; Susannah Humble Ferreira, “Os castelos e o
VII of England and D. Manuel of Portugal, Tese de Conselho Real: patrocínio político em Portugal (1495-
doutoramento apresentada à John Hopkins University, 1521)”, Revista de História da Sociedade e da Cultura,
2003; S.C. Humble Ferreira, “The development of the n.º 10, tomo I, 2010, pp. 121-139.
120
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
em fundos da Torre do Tombo, como as labor dos primeiros anos da Academia Real
Gavetas ou o Corpo Cronológico, e em da História. Por outro lado, constituem uma
arquivos estrangeiros. Diversos volumes base que, se lida criticamente, pode contribuir
do Quadro Elementar… do Visconde para o esboço de algumas das linhas de força
de Santarém poderão constituir uma da diplomacia portuguesa no reinado de D.
espécie de guia numa primeira fase Manuel I. Com este estudo, pretendeu-se abrir
dessa pesquisa. esse caminho através da disponibilização do
texto e da sistematização e análise sumária
3. Alargamento da perspetiva geográfica.
dos dados que contém. De alguma forma,
Os catálogos de Francisco Dionísio
resgatou-se também a memória de Francisco
de Almeida são eminentemente
Dionísio de Almeida da Silva Oliveira, um
eurocêntricos, mas a verdade é que D.
jovem historiador desaparecido em 1722,
Manuel I também recorreu à diplomacia
cujo trabalho se encontrava ‘sepultado’
para estabelecer relações políticas em
num manuscrito britânico. Que o que fez há
África e no Oriente.
quase trezentos anos ainda possa ter alguma
4. Alargamento do questionário e do âmbito utilidade é o que mais se deseja.
temático do estudo, tendo em conta
as mais recentes perspetivas sobre a
história da diplomacia da Idade Média
e do Renascimento38. Vários aspetos
poderão ser abordados: a tipologia da
documentação diplomática; a diversidade
de agentes; o financiamento das missões;
os rituais e a etiqueta; as viagens e
os aspetos logísticos das missões,
entre outros. As origens do processo
de estabelecimento de embaixadas
permanentes no estrangeiro (em Castela
e em Roma fundamentalmente) são um
assunto que, remontando ao reinado
de D. Manuel, continua a necessitar de
cabal esclarecimento.
***
121
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
Apêndice I - Quadros
Quadro 1 – Missões enviadas por D. Manuel I ao estrangeiro, segundo Francisco Dionísio de Almeida
39
Na verdade, a ter sido mesmo D. João Manuel a do Venturoso. Anselmo Braamcamp Freire, Brasões
protagonizar esta embaixada, esta missão deve ter da Sala de Sintra, vol. III, Lisboa, Imprensa Nacional
decorrido nos últimos meses de 1498 ou primeiros de Casa da Moeda, 1996, pp. 28-29 (este documento é
1499, após a morte da rainha Isabel em agosto daquele incorretamente datado por Braamcamp Freire, que
ano, uma vez que o embaixador já tinha falecido em situa a sua emissão em 4 de abril de 1499; cf. ANTT,
4 de setembro de 1499, quando o seu filho Bernardo Chancelaria de D. Manuel I, liv. 35, fl. 19v).
foi provido como seu substituto como camareiro-mor 40
Juntou-se mais tarde.
122
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
1516 Império Cristóvão Barroso Tratar dos negócios que Pero Correia não 24
tivera oportunidade de concluir
Quadro 2 – Missões diplomáticas recebidas por D. Manuel I, segundo Francisco Dionísio de Almeida
1502 Veneza Pedro Pascalligo Agradecer o apoio militar português contra 19v
os Turcos
123
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
1505 Roma Fr. Mauro Hispano Apresentar cartas do papa sobre queixas do 22
sultão a propósito da guerra no Oriente
1511 Castela Lopo Furtado de Acertar a posição dos dois reinos no Concílio 22
Mendonça de Latrão
1511 Roma Fr. Vicente Entregar breve que suspendia a elevação de 22v
D. Martinho da Costa a cardeal
Assegurar a execução das bulas concedidas
1514 Roma Antonio Piscio aquando da embaixada de Tristão da Cunha 19v
a Roma
124
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
125
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
11. João
11. João de
de Faria
Faria 15. Jorge
15. Jorge da
da Costa
Costa
embaixador de D. Manuel
Doutor. Foi embaixador Manuel I em Foi confessor de D. Afonso V, bispo de Évora
Castela em 1508 e em Roma entre 1512 e (1464-1501)
(1463-1464), arcebispo de Lisboa (1464-1501)
1514. Em 1521, substituiu Rui da Grã como Braga (1501-1508). Elevado a cardeal em
e de Braga
Chanceler-mor. No
Chanceler-mor. Noreinado
reinadode D.
deJoão
D. III,
Joãovoltou
III, 1476. Representou D. Manuel I em Roma em
a desempenhar
voltou missões diplomáticas
a desempenhar em Roma
missões diplomáticas 149656.
e naRoma
em corte edenaCarlos
corteVde
52
. Carlos V52.
16. Henrique
16. Henrique Coutinho
Coutinho
12. João Manuel
12. João Manuel Filho de
de [Link]
FernandoCoutinho,
Coutinho,marechal do rei-
marechal do
Filho de
Filho de D.
D. João
JoãoManuel,
Manuel,que
quefoi
foibispo
bispodedeCeuta
Ceutae no. FoiFoi
reino. prior
priorda da
Colegiada de Guimarães
Colegiada de Guimarãese De-
e
da Guarda, e de Justa Rodrigues, que foi ama
e da Guarda, e de Justa Rodrigues, que foi ama de sembargador do Paço
Desembargador e dase Petições.
do Paço Foi envia-
das Petições. Foi
de D. Manuel I. D. João II fez-lhe mercê do título do comocomo
enviado embaixador ao papa
embaixador ao Alexandre VI em
papa Alexandre
1498
VI
57
.
em 1498 57
.
48
48 Diogo Faria,
Diogo Faria, A A Chancelaria
Chancelaria dede D.
D. Manuel
Manuel I…,
I…, pp.
pp. 215-
215-
217.
217.
49 Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Anselmo Braamcamp
Braamcamp Freire, Brasões da
Freire, Brasões da Sala
Sala dede
49 53
Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de 53
Anselmo
Sintra, vol.
Sintra, vol. I,I, pp.
pp. 386-388.
386-388. Sintra, vol.
Sintra, vol. III,
III, pp.
pp. 28-29.
28-29. António
António Caetano
Caetano de
de Sousa,
Sousa,
50
50 Nãofoi possível
Não foi possívelapurarapurar
qualquerqualquer
informação informação
adicional História Genealógica
História Genealógica da da Casa
Casa Real
Real Portuguesa,
Portuguesa, vol.
vol. XI,
XI,
adicional
sobre sobre a embaixada
a embaixada que Francisco
que Francisco Dionísio
Dionísio de de
Almeida Coimbra, Atlântida,
Coimbra, Atlântida, 1953,
1953, pp.
pp. 235-237.
235-237.
Almeida
situa em situa
Romaemem Roma
1520,emprotagonizada
1520, protagonizada
por umporD.
54
54 Luís Fardilha,
Luís Fardilha, “João
“João Rodrigues
Rodrigues dede Sá
Sá de
de Meneses
Meneses na na
um [Link]
João João de Castelo
Castelo Branco.
Branco. TendoTendo
issoisso
emem conta,
conta, nãonãoé corte de
corte de D.
D. Manuel”, Revista da
Manuel”, Revista da Faculdade
Faculdade de
de Letras,
Letras,
é absolutamente
absolutamente segura
segura a identificação
a identificação dodo diplomata.
diplomata. Línguas ee Literaturas,
Línguas Literaturas, n.ºn.º 20,
20, 2003,
2003, pp.
pp. 305-316;
305-316;
Livro de Linhagens do Século XVI, ed. António Damião de de Góis, Crónica do Felicíssimo…,
Góis, Crónica Felicíssimo…, vol. IV, cap.
51
51
Damião
Machado de Faria, Lisboa, Academia Portuguesa da
Machado XXXVIII ,, p.
XXXVIII p. 94.
94.
1956, pp.
História, 1956, pp. 282-283.
282-283. 55
55
José Pedro Paiva, Os bispos de Portugal e do Império
52
52
Ana Isabel Buescu, D. João III, 1502-1557, Lisboa, (1495-1777), Coimbra,
(1495-1777), Coimbra, Imprensa
Imprensa da Universidade de
Temas e Debates, 2008, pp. 164-191; Visconde de Coimbra, 2006,
Coimbra, 2006, pp.
pp. 300,
300, 596.
596.
Santarém, Luís Augusto Rebelo da Silva, Quadro
Santarém, Quadro 56
56 Manuela Mendonça,
Manuela Mendonça, D. D. Jorge
Jorge da Costa, Cardeal de
Elementar das Relações Políticas e Diplomáticas de
Elementar Alpedrinha, Lisboa,
Alpedrinha, Lisboa, Colibri,
Colibri, 1991.
1991.
Portugal com as Diversas Potências do Mundo, vol. X,
Portugal 57
57
António Caetano de Sousa, História Genealógica…,
Lisboa, Academia
Academia Real das Ciências, 1866, pp. 170-186. vol. XII, pp. 220-221.
220-221.
126
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
17. Miguel da
da Silva
Silva 21
[Link]
Ruide
deSande
Sande
Filho de D. Diogo da Silva de Meneses,
Meneses, Foi
Foi moço
moço de câmara
câmara de D. João II. Durante o
primeiro conde de Portalegre. Estudou nasnas reinado
reinado do Príncipe
Príncipe Perfeito,
Perfeito, participou em
universidades de Lisboa, Paris e Siena. Em
Em várias
várias missões
missões de
de entrega
entrega de
de correspondência
correspondência
1514, foi nomeado representante permanente
permanente aos
aos Reis
Reis Católicos.
Católicos. No reinado de D. Manuel I
de D. Manuel em Roma, em substituição de de foi-lhe
foi-lhe atribuído o título de Dom. Foi enviado
João de Faria, onde se manteve até 1525. Foi
Foi como
como embaixador aa Castela
Castelaemem1500
15006262. .
bispo de Viseu entre 1526 e 1547 e, em 1539,
1539,
foi elevado a cardeal58
58.
22. Tomé Lopes
22. Tomé Lopes
Feitor de Portugal em Antuérpia. Representou
18. Pero Correia Feitor de Portugal em Antuérpia. Representou
18. Pero Correia várias vezes D. Manuel I na corte do imperador
várias vezes 63
D. Manuel I na corte do imperador
Criado de D. Manuel I residente na Flandres, Maximiliano63 .
Criado de D. Manuel I residente na Flandres, Maximiliano .
enviado como embaixador ao imperador em
enviado como embaixador ao imperador em
1516. Integrou o Conselho de D. João III, ao
1516. Integrou o Conselho de D. João III, ao 23. Tristão da Cunha
serviço de quem desempenhou outras missões
serviço de quem desempenhou outras missões 23. Tristão da Cunha
diplomáticas em Castela5959. Filho de Nuno da Cunha, camareiro-mor do
diplomáticas em Castela .
Filho [Link]
infante da Cunha,
Fernando, camareiro-mor
foi fidalgo da casa realdo
infante
pelo D. Fernando,
menos a partir defoi 1490.
fidalgo Participou
da casa realna
19. Pero de Gouveia pelo menos a partir de Mazalquibir
1490. Participou na
tentativa de conquista em 1501
19. Pero de Gouveia
Licenciado. Membro do Desembargo, pelo etentativa de conquista
foi capitão-mor de Mazalquibir
da armada em 1501
que partiu para
Licenciado.
menos, Membro
entre 1498 e do Desembargo,
1520, como Juiz pelo
dos ae Índia
foi capitão-mor da armada
em 1506. Durante essaque partiuforam
viagem, para
menos,do
Feitos entre
Rei e1498 e 1520, comodos
Desembargador JuizAgravos
dos Feitos
da a Índia em 1506.
descobertos Durante essa
o arquipélago a queviagem, foram
foi atribuído
do ReidaeSuplicação.
Casa Desembargador doscomo
Enviado Agravos da Casa
embaixador odescobertos
seu nomeo arquipélago
e a ilha de a que foi atribuído
Ascensão, o
e foi
da Império
ao Suplicação. Enviado
em 1505 60
. como embaixador ao seu nome e a ailha
conquistada de de
ilha Ascensão, e foiDesenvolveu
Socotorá. conquistada
Império em 1505 . 60
a ilha deprivados
negócios Socotorá.em Desenvolveu
Lisboa e no negócios
Oriente.
privados em
Participou naLisboa e no Oriente.
embaixada enviadaParticipou
a Roma em na
20. Rodrigo de Castro embaixada
1514 64
. enviada a Roma em 151464.
20.
Filho Rodrigode
bastardo deD.
Castro
Álvaro de Castro, primeiro
conde de Monsanto.
Filho bastardo de D. ÁlvaroCavaleiro-fidalgo,
de Castro, primeirofoi
capitão-mor de Arzila e deCavaleiro-fidalgo,
conde de Monsanto. Tânger (1501-1502), foi
senhor de Valhelhas,
capitão-mor de Arzila e Famalicão e Almendra
de Tânger (1501-1502),
esenhor
alcaide-mor da Covilhã. Foi enviado como
62
Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de
de Valhelhas, Famalicão e Almendra 62
Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de
Sintra, vol. III, p. 152 Garcia de Resende, Crónica de D.
embaixador
e alcaide-morao da
papa Alexandre
Covilhã. Foi VI em 1498
enviado 61
como . Sintra, vol. III, p. 152 Garcia de Resende, Crónica de D.
João IIIIeeMiscelânea,
Miscelânea,Lisboa,
Lisboa, Imprensa Nacional Casa
João Imprensa Nacional Casa da
embaixador ao papa Alexandre VI em 1498 . 61
da Moeda, 1991, p. 107.
Moeda, 1991, p. 107.
63
63 Jürgen Pohle,
Jürgen Pohle, “Maximiliano
“Maximiliano II ee Portugal”,
Portugal”, in
in
Enciclopédia Virtual
Enciclopédia Virtual da da Expansão
Expansão Portuguesa,
Portuguesa, coord.
coord.
Alexandra Pelúcia,
Alexandra Pelúcia, Lisboa,
Lisboa, Centro
Centro de
de História
História de
de Além-
Além-
Mar, 2005.
Mar, 2005.[Consultado
[Consultadoemem 17/06/2016]
17/06/2016] Disponível em:
Disponível
[Link]
em: php?print
[Link]
conceito=1265.
php?printconceito=1265.
64 António Alberto Banha de Andrade, História de um
64
58
58 Ana
Ana Isabel
Isabel Buescu,
Buescu, “D.“D. João
João III
III ee D.
D. Miguel
Miguel da
da Silva,
Silva, António Alberto Banha de Andrade, História de um
bispo de Viseu: novas razões para um um ódio
ódio velho”,
velho”, fidalgo quinhentista
fidalgo quinhentista português,
português, Tristão
Tristão da
da Cunha,
Cunha,
Revista de História da Sociedade e da Cultura, Cultura, n.º
n.º 10,10, Lisboa, Faculdade
Lisboa, Faculdade de de Letras
Letras da
da Universidade
Universidade de de Lisboa,
Lisboa,
tomo I, 2010, pp. 141-168. Instituto Histórico
Instituto Histórico Infante
Infante D.D. Henrique,
Henrique, 1974;
1974; Jean
Jean
59
59 Ana Isabel Buescu, D. João III…, pp. 72, 164-191, 241. Aubin, “Pour
Aubin, “Pour une
une biographie
biographie de Tristão da Cunha [ca.
60
ANTT, Chancelaria de D. Manuel I, livro 14, 14, fl.
fl. 83v,
83v, 1460-1539]”, in
1460-1539]”, Le Latin et l’Astrolabe, recherches sur
in Le
livro 28, fl. 83, livro 36, fl. 64v; Corpo
fl. 64v; Corpo Cronológico,
Cronológico, parte
parte le Portugal
le Portugal de de la Renaissance, son expansion et les
I, maço 5, n.º 38. relations internationales,
relations internationales, vol.
vol. II, Lisboa, Paris, Centre
61
Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala Sala de de Culturel Calouste
Culturel Calouste Gulbenkian,
Gulbenkian, Comission pour les
Sintra, vol. III, p. 147.147. António
António Caetano
Caetano dede Sousa,
Sousa, Commémorations des
Commémorations des Découvertes
Découvertes Portugaises, 2000,
História Genealógica…, vol. XI, pp. 497-498.497-498. pp. 557-562.
pp. 557-562.
127
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
Dom Rodrigo de Castro Alcayde Mor da Dom Diogo de Souza Bispo do Porto e o Dom
Covilhãa e senhor de Valhelhas e Dom Diogo Pacheco Embaixadores del Rey Dom
Hemriques Coutinho filho do Marichal Dom Manoel que por elles mandou dar obediencia
Fernando Coutinho Dezembargadores do ao Papa Jullio 2º que neste tempo era Pontifice
Paço forão mandados por el Rey Dom Manoel e lhe mandou requerer a confirmação da
65
Os critérios de transcrição adotados são os sugeridos
Ordem de Cristo alem de que lhe mandou pedir
em Avelino de Jesus da Costa, Normas Gerais de Cruzada para ajuda da despeza que fazia em
Transcrição e Publicação de Documentos Medievais e
Modernos, 3ª edição, Coimbra, Faculdade de Letras da 67
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. I, cap.
Universidade de Coimbra, 1993. XXXIII, pp. 64-65.
66
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. I, cap. 68
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. I, cap.
XVII, pp. 34-35. XLVI, pp. 101-104.
128
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
Africa o qual Bispo do Porto o Papa confirmou 10274 – foi no fim do Anno de 1513.
no Arcebispado por aprezentação e suplicação
del Rey e voltou ao Reyno neste mesmo anno.
Pero Correa foi por Embaixador a Maximiliano
Goes, parte 1ª, capítulo 93, fl. 9370 – forão no
1º e o negocio de sua Embaixada era ajustar o
Anno de 1505, veyo em setembro do mesmo
cazamento do Archiduque Dom Carlos com a
anno.
Infanta Dona Izabel e tãobem o casamento do
Principe Dom João com a Infanta Dona Leonor
Dom Diogo Lobo barão de Alvito foi por irmãa do dito Dom Carlos o que antão não teve
Embaixador a Phellipe 1º quando veyo a tomar effeito e foi mandado vir para o Reyno Pero
posse do Reino de Castela offerecendolhe Correa. Goes, parte 4ª, cap. 1º, fl. 175 – foi no
da parte del Rey Dom Manoel sua amizade e Anno de 1516.
obras de bom Parente e Amigo. Foi muy bem
Pero Correa estava por Embaixador em Flandes
recebido destes Principes que lhe fizerão
o anno de 1518. Não sei se com 2ª Embaixada
algumas merces e responderão a El Rey com
ou com a mesma. Goes, parte 4ª, cap. 33, fl.
reciprocos cumprimentos. Goes, parte 2ª,
3976.
capítulo 13, fl. 2171 – foy no Anno de 1506,
veyo.
Dom Miguel da Silva Embaixador del Rey Dom
Manoel na corte de Roma por quem mandou
Estavão embaixadores de Portugal em Roma.
pedir ao Papa exhortase aos Principes christãos
Goes, parte 3ª, capítulo 23, fl. 4872 – nos Annos
fazerem guerra ao Turco, que neste tempo
digo73 <no Anno de> 1511.
estava mui poderoso porque tinha vencido e
morto o soldão e tambem suplicou ao Papa que
[fl. 18] El Rey Dom Manoel mandou seus a Ladrões nem falçarios não valesem ordens e
Embaixadores ao Concilio Lataranense que trabalhou tãobem no negocio das comendas,
convocara o Papa Julio 2º. Carta original del Terças, Disimas Ecleziasticas cuja concepção
Rey Dom Manoel. Suponho que entre elles impugnavão os Prellados do Reyno e tinha la
seria Francisco Soares de Mello Porque diz a seus Procuradores. Goes, parte 4ª, cap. 20, fl.
Choronica dos Agostinhos que foi Embaixador 2777 – estava em Roma o anno de 1517, veyo.
a Roma com Tristão da Cunha o que não pode
ser e poderia nacer a equivocação de ter ydo
[fl. 18v] D om A lvaro d a C osta c amariscão d el
no mesmo Anno – no principio do Anno de
Rey foi por Embaixador a Castela dar a boa
1513.
vinda a el Rey Carlos e tratar o cazamento da
Infanta Dona Leonor com El rey Dom Manoel
Tristão da Cunha Embaixador a Roma e por fingindo que a procurava para o Principe e
socesores os Dom Dom [sic] Diogo Pacheco para tratar o da Infanta Dona Izabel com El Rey
e João de Faria e por secretario Gracia de Dom Carlos o qual não teve effeito. O
Rezende. Esta Embaixada como foi tão primeiro se concluiu e o Embaixador recebeu a
cellebre tras Damião de Goes com bastante Infanta com Procuração. Goes, parte 4ª, cap. 33,
individuação. Parte 3ª, cap. 55-56, fl. 99 ate fl. 3978 onde se trata com bastante individuação
74
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. III, cap.
LV-LVI, pp. 185-190.
70
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. I, cap. 75
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. IV, cap.
XCIII, p. 201. I, pp. 1-2.
71
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. II, cap. 76
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. IV, cap.
XIII, pp. 39-40. XXXIII, pp. 72-74.
72
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. III, cap. 77
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. IV, cap.
XIII, pp. 87-89. XX, pp. 50-51.
73
Riscado: “no principio do Anno de 1519”. 78
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. IV, cap.
129
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
esta Embaixada – foi no Anno de 151[17], veyo deficuldades e serviço e com quem conferirão
no de 151[18]. as respostas que se lhe derão e merces que
lhes forão feitas e finalmente tudo o que
parecer util para a composição das Memorias.
Dom João de Castelo Branco Embaixador de
Portugal na corte de Roma negociou que o
Bispo do Porto e alguns Dom Abades e Priores [fl. 19] Catalogo dos Embaixadores que
não alcançasem a izempção que pertendião diversos Reys da Europa mandarão a El Rey
no Arcebispado de Braga. Cara original del rey Dom Manoel
Dom Manoel – foi, Estava em Roma no anno
de 1519, veyo.
Dom Alonço da Silva Embaixador dos Reys Dom
Fernando e Dona Izabel para dar o parabem a
Joanne Mendes do Esporão Embaixador de El Rey de ter sucedido na Coroa de Portugal –
Portugal na corte de Castela ao Emperador veyo a Montemor-o-Novo em 1495.
Carlos 5º que pedio a El Rey Dom Manoel o
E para lhe oferecer o cazamento da Infanta
deixase pasar com elle a Flandes por ser Pessoa
Dona Maria o que antão não teve effeito.
de que gostava muito do que El Rey se escusou.
Goes, 4ª parte, cap. 58 [sic], fl. 6379 – foi, estava E para pedir a el Rey que restituyse ao Reino
em Castela em 152[0], veyo no mesmo anno. os filhos do Duque de Bragança e assim Dom
Alvaro sentio o que logo se fez. Goes, 1ª
parte, cap. 11, fl. 9 da Choronica del Rey Dom
Francisco de Mello Soares chanceler mor del Manoel82, Zurita, Annales de Aragon, tomo 5º,
Rey Dom Manoel Diz a Choronica dos Conegos n.º 2, cap. 17, fl. 81. Difere em dizer que Alonço
Regrantes de Santo Agostinho, 2ª parte, n.º 12, da Silva estava em Portugal ao tempo que El
cap. 16, n.º 15, fl. 57380 que fora por Embaixador Rey Dom Manoel foy chamado – Despediose.
del Rey Dom Manoel ao Emperador Carlos 5º.
Não sei o tempo nem o negocio81.
Hum Embaixador de Veneza recebeu El Rey em
Torres Vedras que lhe vinha dar o parabem da
Pedesse ingenuamente toda a noticia do tempo parte da Republica de ter sucedido na Coroa –
em que sahirão estes embaixadores de Portugal veyo em janeiro de 1496.
e voltaram ao reino e tãobem a confirmação se
forão ou não os seus nomes, titulos ou officios El Rey o armou cavaleiro e lhe fez muitas
e alguma noticia da sua genealogia, forma merces pellas quais elle voltando a Veneza
em que derão suas Embaixadas que negocios disse no senado muitos louvores del Rey.
tratarão alem dos que se apontão com que Goes, parte 1ª, cap. 16, fl. 1283 – Despediose.
130
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
1ª, cap. 19, fl. 1484. Zurita não fas memoria El Rey lhe fez merce de 200 Cruzados e huma
de tal embaixada. O Padre Mariana falla em mulla bem guarnecida de seda e deulhe o
que os Reys Cattolicos pertenderão esta liga previlegio ainda que fosse ele extrangeiro
porem no anno antecedente – veyo em 1497, que pudese ter Benefficios no Reyno que não
despediose. excedesem o numero de 300 cruzados de
renda. Carta del rey Dom Manoel – Despedio-
se.
[fl. 19v] D ous E mbaixadores d a R epublica d e
Veneza vierão pedir a El Rey Dom Manoel
quizesse socorrer com a Armada em que Antonio Piscio Nuncio de Sua Santidade trouxe a
intentava passar a Africa. El Rey os recebeu El Rey a concepção das terças e Dizimas das
em Lisboa nos Paços de Santos o Velho e lhe Igrejas e os Mosteiros para as comendas na
concedião o que pedião. Goes, parte 1ª, cap. execução deste negocio não lhe faltarão
47, fl. 4585 – vierão em 1501, Despedirão-se. deficuldades. Goes, 3ª parte, cap. 56, fl. 1189. El
Rey lhe fez muitas merces – veyo em 1514,
Despedio-se em 1515.
Hum Nuncio de Sua Santidade juntamente com
os Embaixadores de Veneza pedio a El Rey
este socorro. Goes, parte 1ª, fl.86 – veyo, [fl. 20] O senhor de Lanjaque Governador de
Estava em Portugal em 1501, Despedio-se. Avinhão foi mandado por el Rey Francisco de
França 1º a persuadir a El Rey Dom Manoel
na liga que antão se fazia na cidade de Noyon
Pedro Pascalligo Embaixador da Republica de
entre elle e o Archiduque Dom Carlos do que
Veneza veyo a este Reino agradecer a El Rey
El Rey se escuzou conhecendo que aquella liga
o socorro que lhe mandara contra os Turcos –
havia ser pouco duravel – veyo em 1516.
veyo, Estava em Portugal em Junho de 1502,
Despedio-se. Deu a sua Embaixada em Almeyrim fazendo
huma oração latina muito elegante. Goes,
E estando em Portugal foi Padrinho do Principe
parte 4ª, cap. 4, fl. 490 – Despediose.
Dom João e el Rey o armou Cavaleiro e lhe deu
licença para que pudese trazer no Escudo de
suas Armas a Esphera doirada e lhe fez outras O senhor de Confinhão e Pedro Cayz
muitas merces que elle fez publicas no senado Embaixadores do Duque de Saboya Dom Carlos
de Veneza e juntamente disse muitos louvores vierão a Portugal para tratarem o cazamento
del Rey. Goes, parte 1ª, cap. 62, fl. 6287. do dito Duque com a Infanta Dona Beatriz que
por antão não teve effeyto e não sei porque.
Goes, parte 4ª, cap. 70, fl. 8691 – veyo em
Guilhelmo Casador Nuncio de Sua Santidade
1516, Despediose.
veyo a convocar a El Rey Dom Manoel e aos
Prellados deste Reyno onde se havia de tratar
a expedição contra os Turcos e outras materias O cardeal Egidio tenho por certo que veyo a
– veyo no fim do Anno de 151188. Portugal para persuadir a El Rey da parte de
Sua Santidade a entrar na liga contra os Turcos
– veyo em 1517.
84 Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. I, cap.
131
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
que fizese esta convocação geral aos Principes chamava Norato Cayz e me parece que este
Cattolicos. era o nome proprio e o outro titulo porque
concorda no tempo e na negociação. Parte 4ª,
2ª porque na repartição das terras que se havião
cap. 70, fl. 8694 – veyo em 1520, Despediose.
de conquistar se limitava lugar a El Rey Dom
Manoel e por estas rezões se vê claramente
que não havia o Papa deixar de lhe mandar O Deão da Sé d’Avilla veyo por Embaixador a
seu Embaixador e não se sabendo quem fosse Portugal mandado pellas communidades de
e vindo o Cardeal Egidio a Hespanha parece Castela offerecendo lhe os Reynos de Castela
certo que tambem viria a Portugal como ja e Leão se os quizese aceitar, porem elle lhe
tinha sucedido e se tinha praticado em algumas respondeo aconcelhandoos e presuadindoos
ocasiões. E no tempo do mesmo rey Dom que obedecessem e fossem leais ao seu Rey.
Manoel fez estas duas Embaixadas por cauza Goes, parte 4ª, cap. 55, fl. 7195. Annales de
comũa Guilhelmo Cassador – Despediose. Aragon, livro 1º del Rey Carlos, cap. 119, fl.
1092. Tras a copia da carta que as comunidades
escreveram a El Rey Dom Manoel mas não
Fernão da Ayalla estava por Embaixador em
chega a dizer que lhe oferecerão os Reynos de
Portugal depois veyo digo em Portugal depois
Castela e Leão – veyo em 1520, Despediose.
da morte del Rey Cattolico governando Castella
o cardeal Ximenes Gomez. Na vida do mesmo
Cardeal na Hespanha Illustrada, n.º 6, fl.1088, Monseyeur de Balsisão trez vezes Barão
parte 33 – veyo, Despediose. camareiro mor do Duque de Saboya e Jofre
de Paceris Doutor em Leys e Dezembargador
do Paço e por secretario Chatil [sic] acabarão
[fl. 20v] Frei Miguel de Sallamanca e Misser
de ajustar o cazamento do Duque Carlos com
Paulo de Armaynhor vierão por embaixadores
a infanta Dona Beatriz com quem recebeu
da parte del Rey Carlos para dar o pezame a
o senhor de Balsisão e fizerão toda a função
El Rey Dom Manoel da morte da Raynha Dona
com muita grandeza e cerimonia e forão com
Maria. Carta del rey Dom Manoel – vierão em
a Infanta para a Saboya a 10 dias do mes de
1517, Despedirãose.
agosto de – 1521 – vierão em 1521.
132
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
133
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
Pedessse ingenuamente toda a noticia do O senhor Dom Alvaro foi a Castela tratar o
tempo em que vierão estes Menistros a Portugal cazamento del Rey Dom Manoel com a
ou se despedirão e tambem a confirmação Princeza Dona Izabel. Goes, parte 1ª, cap. 22,
se vierão ou não, os seus nomes, titulos, a fl. 17106, alcançou a segurança de que se havia
forma em que tratarão as suas negociações, de fazer este Cazamento com alguma
defficuldades e sucesos, com quem conferirão deficuldade – foi em 1496, voltou em 1497.
as Respostas que se lhe derão e merces que lhe
forão feitas e finalmente tudo o que parecer
O senhor Dom Alvaro estando em Castela
util para a compozição das Memorias.
facillitou que a vinda da Raynha Princeza se
fezesse no tempo em que estava asignado sem
[fl. 23] Menistros que forão mandados por El embargo das novas defficuldades que havia e
Rey Dom Manoel a diversos Reynos da Europa acompanhou a Princeza a Portugal. Goes,
alguns dos quais forão sem carater e outros parte 1ª, cap. 24, fl. 18107 – sucedeo isto em
se ignora 1497, voltou em Janeiro do mesmo anno.
Gonçallo de Azevedo do Conselho del Rey e [fl. 23v] Francisco Lopes era agente de Portugal
seu Dezembargador do Paço foi mandado aos na Corte de Roma e tratou o negocio a que o
Reys Cattolicos a fazer lhes saber a Sucessão Papa desse o Capello de Cardeal a Dom João
del Rey Dom Manoel na Coroa de Portugal e de Noronha Prior de Santa Cruz de Coimbra o
tambem levou ordem para dizer aos filhos que não teve effeito. Choronica dos Conegos
do Duque de Bargança que podião vir para o Regrantes de Santo Augostinho, 2ª parte, cap.
Reyno e a seu tio Dom Alvaro e a Dom Alvaro 30, n.º 1 athe o fim do capitulo 34, n.º 8, fl.
de Atayde. Goes, parte 1ª, cap. 8, fl. 7103 – foi 284108 – foi, estava em 150[0].
em 1495, veyo.
Pero Correa Fidalgo da Caza Real foi a Roma Thome Lopes que era Feytor del Rey Dom
para vir acompanhando athe ao Reino o Manoel em Flandes foi mandado ao Emperador
Cardeal Dom Jorge da Costa quando por depois do Licenciado Pero de Govea a tratar
rogos del Rey Dom Manoel queria voltar para o mesmo negocio, não sey o tempo nem o
Portugal o que não teve effeyto e tambem para carater.
commonicar lhe alguns negocios que o Cardeal
Acho o Emperador em Inspurg porem no
havia de fazer não se declarão quais fossem.
negocio não concluhio couza alguma – foi.
Goes, parte 1ª, cap. 15, fl. 12105 – foi em 1496.
106 Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. I, cap.
134
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
Goes, ibidem115.
Duarte Galvão do Conselho del Rey foi mandado
ao Papa Julio 2º suplicando a Sua Santidade que Joanne Mendes de Vasconcellos foi mandado
exhortase aos Principes christãos para fazerem a Castela por El Rey Dom Manoel para tomar
guerra aos Inimigos da Fée e cobrarem a Caza Assento acerca dos negocios que se havião
Santa de Hjeruzalem para o que offerecia El de tratar no Concillio Latheranense e assim
Rey a sua Pessoa e Reyno. Goes, parte 2ª, cap. sobre algumas praticas que soube se tratavão
13, fl. 21110 – foi em 1506. entre El Rey Fernando e El Rey de Fez e Mulley
Alcoarraxa que podião ser de muito prejuizo a
estes Reynos porque el rey Cattolico pertendia
João Sutil Cappellão del Rey que depois foi
envadir o Reyno de Fez que he da conquista de
Bispo de Çafim foi tambem a Roma estando
Portugal. O modo com que esta expedição
ainda la Duarte Galvão tratar o mesmo negocio,
se tratava tras Goes, 3ª parte, cap. 23, fl. 47116
porem ambos com pouco effeito. Goes idem111
– foi em 1511.
– foi em 150[…].
135
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
120
Damião de Góis, Crónica do Felicíssimo…, vol. IV, cap.
LXX, pp. 162-167.
136
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
FARO, Jorge, Receitas e despesas da fazenda real BARATA, Maria do Rosário de Sampaio
de 1384 a 1481 (subsídios documentais), Themudo, Rui Fernandes de Almada,
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137
FRAGMENTA HISTORICA A diplomacia de D. Manuel I segundo um
manuscrito da Biblioteca Britânica
138
Diogo Faria FRAGMENTA HISTORICA
139
O INTERMEDIÁRIO ENTRE O ARQUITETO E A SUA OBRA. A
ATUAÇÃO DE D. FRANCISCO DE LEMOS NO SEU PRIMEIRO
REITORADO (1770-1779)
Carlos F. T. Alves
PIUDHIST-ICS-UL
FCT (PD/BD/128127/2016)
CHSC-UL
Resumo Abstract
O estudo que pretendo apresentar terá The study that I intend to present focuses in
como objetivo analisar a ação do Reitor da a detailed analysis on the action of the Rector
Universidade durante a Reforma Pombalina. of the University in the Pombaline Reform. D.
D. Francisco de Lemos foi peça essencial Francisco de Lemos was an essential part at
na aplicação da Reforma mas com isto não implementing this reform, but with this we
podemos compreender que este tenha sido cannot understand that he has been a mere
um mero agente passivo. Toda a sua ação foi passive agent. All this action it was marked by a
pautada por uma grande iniciativa que nasceu major initiative that was born of a trust by the
da confiança depositada pelo Ministro e por Minister and also the freedom throughout his
uma liberdade muito evidente durante todo o rectorship.
seu reitorado.
Palavras-chave Keywords
D. Francisco de Lemos, Reitor, Universidade D. Francisco de Lemos, Rector, University of
de Coimbra, Pombal, Reforma Pombalina, Coimbra, Pombal, Pombaline Reform, 1772
Estatutos de 1772. Statutes.
Artigo recebido em: 13.03.2016 | Artigo aceite para publicação em: 24.09.2016
142
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
Gráfico 1
Legenda: Quantidade de referências encontradas sobre cada assunto (para um total de 131 missivas).
5
5
Fernando Taveira da Fonseca, “Comunicações
institucionais: A Universidade de Coimbra.” in As Sobral Neto, Lisboa, Fundação Portuguesa das
Comunicações na Idade Moderna, coord. Margarida Comunicações, 2005, p. 227.
143
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
Se atentarmos ao Gráfico 2 podemos ver que o esboçar um quadro breve donde constem as
assunto mais discutido entre ambos foi mesmo linhas gerais da Reforma de 1772.
as Obras que a nova Reforma exigiu (com 47
referências) e, por isso mesmo, decidi criar
2. Linhas gerais da Reforma de 1772
um único grupo para esse assunto (Os novos
estabelecimentos universitários). Neste, não A reforma surgida pelas mãos de Pombal e
sobressai apenas o diálogo sobre a construção dos seus, foi acima de tudo uma necessidade
dos novos estabelecimentos, mas também caracterizada por um objetivo final bem maior
sobre as várias aquisições de terrenos, do que a própria instituição reformada. Ana
instrumentos e contratação da mão-de-obra. Cristina Araújo define esse mesmo propósito
da seguinte maneira, “É sob o signo da reforma
De seguida, e já num segundo grupo (A
intelectual e moral da sociedade, eixo de bem
questão do ensino) a divisão é bem maior.
estar, progresso e felicidade, que o Marquês
Neste conjunto é possível ver uma considerável
de Pombal, à semelhança de outros déspotas
preocupação quanto às Aulas (com 37
esclarecidos europeus, intenta secularizar as
referências), Lentes (36) e Compêndios (34).
instituições de ensino, submetendo-as à tutela
Os restantes assuntos que completam este
do Estado. […] A educação encarada como
grupo têm uma representação bem menor,
um dever público, destinava-se a instaurar
destacando-se em primeiro lugar a Disciplina
a crença numa ordem universal de valores
e os Estudos Menores (8 e 7 referências
que compatibilizasse o progresso do género
respetivamente) e o Desenvolvimento Científico
humano, no respeito pela matriz cristã, com
(2). Quanto à primeira, foi evidente a ação de
a finalidade técnica decorrente da utilidade
D. Francisco de Lemos que intervinha em todas
social da ciência.”6. Esta necessidade cuja
as questões de indisciplina relativas aos Lentes,
resposta foi a reforma de 1772, inspirou um
estudantes e funcionários da Universidade.
clima de mudança que se deteta já a partir
E quanto aos estudos menores, é necessário
década de 407. Na década seguinte, no início
esclarecer que as respetivas referências têm
do seu governo, contudo, a preocupação de
que ser entendidas num contexto não nacional
Pombal não recaiu nos estudos superiores
mas local, respeitante ao Colégio das Artes em
mas sim no ensino primário e secundário,
Coimbra.
ou seja os estudos menores. O cuidado com
Já os restantes assuntos foram incorporados a Universidade de Coimbra começa a ser
num terceiro grupo (A importância da evidente na década de setenta, embora o
administração). Neste destacam-se claramente esboço de um plano de reforma já há muito
a Administração (com 13 referências), estivesse a ser delineado8.
Cerimonial (10), Funcionários (9) e Confiscos
Desta forma importa então perguntar o que
(1). Se o primeiro tema é óbvio, no que respeita
ao segundo, o maior problema foi mesmo a 6
Ana Cristina Araújo, “Dirigismo cultural e formação
ausência de esclarecimentos nos Estatutos, das elites no Pombalismo” in O Marquês de Pombal e
o que suscitou várias dúvidas por parte do a Universidade, coord. Ana Cristina Araújo, Coimbra,
Imprensa da Universidade de Coimbra, 2000, pp. 9 e 10.
Reitor. Relativamente aos Funcionários, trata- 7
Luís Mota, “A Reforma da Universidade enquanto
se de contratações para a parte administrativa projeto pedagógico (e social) de formação de elites”,
da Universidade. in Revista de História das Ideias, Vol. 22, Coimbra,
Faculdade de Letras, 2001, p. 504.
Se a fonte analisada é capaz de nos fornecer 8
Rómulo de Carvalho, História do ensino em Portugal …,
informações importantes tem, contudo, pp. 461 e 462. E não nos podemos esquecer que João
carências que se devem, segundo creio, a Pereira Ramos já estaria até a preparar os Estatutos
em segredo - ver Francisco António Lourenço Vaz, D.
correspondência ainda por encontrar. O que Manuel do Cenáculo. Instruções pastorais, projetos de
possuímos permite, mesmo assim, traçar um bibliotecas e diário, Porto, Porto Editora, 2009, pp. 109-
quadro coerente. Antes, porém, de passar a 137; João Palma-Ferreira, “Excertos do «diário» de D. Fr.
uma análise mais pormenorizada, importa Manuel do Cenáculo Vilas Boas”, in Revista da Biblioteca
Nacional, nº 1, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1982.
144
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
145
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
3. Os novos estabelecimentos universitários De todas as missivas atrás referidas que
foram analisadas, a temática Obras sobressai
Com as novas exigências trazidas pela
pela frequência, o que por sua vez logo nos
Reforma a Universidade passou a organizar-
leva a concluir que foi, senão a maior, uma
se em torno de seis faculdades – Matemática,
das maiores preocupações de ambos os
Filosofia, Teologia, Cânones, Leis e Medicina.
interlocutores. Este tema prolonga-se de 1772
A reestruturação da Faculdade de Medicina e
até 1775, período de maior intensidade quanto
as novas Faculdades de Matemática e Filosofia
às construções exigidas.
levou a que fosse necessário criar um vasto
número de equipamentos que até então O ano que menos informação nos deu quanto
não existiam. Foi construído o Observatório à ação de D. Francisco de Lemos relativamente
Astronómico no caso de Matemática e o às construções foi mesmo o primeiro, 1772,
Gabinete de História Natural, o Jardim Botânico, o que é compreensível por a reforma se ter
o Laboratório Químico e o Gabinete de Física iniciado, na prática, apenas em outubro. Mas
Experimental para Filosofia. Já para Medicina esta realidade muda drasticamente em 1773,
foi criado o Hospital Escolar, o Dispensatório onde através das muitas cartas já é possível
Farmacêutico e o Teatro Anatómico16. A juntar detetar um interessante padrão.
a estes é necessário fazer também referência
às intervenções no Paço das Escolas, no
3.1. O Regimento das obras da
Colégio das Artes e na criação da Imprensa.
Universidade
Estas mudanças, para além do seu lado mais
prático, têm também que ser entendidas como Um documento já transcrito por Pedro Dias
uma rutura ideológica com o passado: “Estes merece figurar como reflexão inicial: “Trata-
novos estabelecimentos deveriam alargar os se de um pormenorizado rol de princípios
horizontes da cultura científica portuguesa, que deveriam ser seguidos nos estaleiros
retirando-a da situação considerada deplorável conimbricenses que haviam sido montados
em que se encontrava, e aproximá-la dos com o fim de reconstituir, adaptar ou fazer
padrões dos países avançados.”17. desde os fundamentos os edifícios que
deveriam acolher as renovadas instituições de
Assim ao procurarmos definir a ação de D.
investigação e ensino.”19.
Francisco de Lemos, deveremos ter em conta
também este último aspeto: na Relação A primeira referência aparece-nos logo no início
esclarece-nos que a sua atuação consistiu no de 1773, mais precisamente a 18 de janeiro:
cumprimento dos Estatutos e “em fazer fabricar o Reitor mostra-se deveras preocupado com
os Edificios para os Estabelecimentos Literarios a administração das muitas obras que então
das Tres Faculdades […] e em arranjar, e decorar se realizavam e procede a um registo escrito
o Grande Edificio dos Paços Reaes das Escolas que lhe permitisse um melhor conhecimento
[...] e de obras para o uzo, e comunicação e que depois foi enviado para Pombal20. Este
interior das suas Officinas.”18. E desta forma responde, no dia 12 de fevereiro, referindo
ficamos com uma breve introdução dada pelo que o Regimento organizado pelo Reitor “...o
próprio e que procurarei agora explanar. Regimento que V. S.ª minutou com grande
acerto” fora por si confirmado e de novo
16
Rómulo de Carvalho, História do ensino em Portugal
…, p. 466. 19
Pedro Dias, “O Regimento das Obras da Universidade
17
Décio Ruivo Martins, “A Faculdade de Filosofia de Coimbra ao tempo da Reforma Pombalina” in
Natural da Universidade de Coimbra de 1772 a 1911”, Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra, Vol.
p.3, [Consultado em 22/04/2015]. Disponível em VI, Coimbra Publicações do Arquivo da Universidade de
[Link] Coimbra, 1983, p. 335.
facfilonatural/afac 20
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra.
18
D. Francisco de Lemos, Relação Geral do estado Nas suas relações com a Instrucção Publica Portugueza,
da Universidade (1777), Coimbra, Por ordem da Tomo III, Lisboa, Por Ordem e na Typographia da
Universidade, 1980, p. 8. Academia Real das Sciencias, 1898, p. 489.
146
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
enviado21. E só a 2 de março é que o ministro forma importante que leva o Reitor a tomar
volta a referir-se ao Regimento tornando assim uma outra medida em 1774, que consistia no
a autoria do mesmo bem mais clara: “A Carta registo de uma relação da despesa mensal que
de V. S.ª, que trouxe data de 22 de fevereiro posteriormente seria enviada para Pombal27.
accuza estar já V. S.ª entregue do Regimento E não podemos esquecer que foi D. Francisco
[…]; e contém hum louvavel testemunho do de Lemos que supervisionou pessoalmente as
vigilante cuidado, com que V. S.ª se emprega muitas obras realizadas no âmbito da Reforma
na honrosa execução dos Estabelecimentos e que a ele se deve a fábrica de telha criada
Literarios”22. Os termos utilizados por Pombal em Coimbra. Portanto, entender que não teria
nestas missivas dão a entender que a autoria conhecimentos na matéria não me parece de
do Regimento foi do Reitor. Para Pedro Dias, todo correto. E também não nos podemos
contudo, D. Francisco de Lemos não teria sido esquecer que nas suas sucessivas deslocações
o autor por não ter conhecimentos suficientes sempre se fez acompanhar por lentes e outras
nesta matéria23. O mesmo autor aponta mais pessoas entendidas.
duas hipóteses quanto à autoria: a primeira,
que ele teria sido elaborado em conjunto com
3.2. A nova Imprensa
o arquiteto Elsden; uma segunda, em que
o Regimento de Coimbra teve como base o Manuel Augusto Rodrigues entende a
desaparecido Regimento das Obras de Lisboa24. Imprensa como uma das marcas mais notáveis
As razões expostas têm, sem dúvida, um da Reforma28; já para Teófilo Braga a criação
peso importante mas nas missivas analisadas deste equipamento universitário tinha
sobressai a conclusão de que o Reitor teria sido também uma importante vertente financeira já
o autor25. que se esperava que em pleno funcionamento
pudesse ser uma fonte de rendimento29. Mas
Que este poderia ter sido auxiliado ou que a sua
como o título indica, a Imprensa, a nova, vinha
estadia em Lisboa poderia ter sido decisiva para
substituir uma outra já existente.
a elaboração do documento, não deve ser posto
de lado. Mas se analisarmos o Regimento26, Mesmo antes da extinção da ordem jesuítica
podemos ver que o que se pretende é criar deu-se a apreensão dos seus bens, estando
uma estrutura hierárquica, delineadora de entre estes os pertences da imprensa do Real
funções, e que tinha como preocupação o Colégio das Artes que foram logo aproveitados
rendimento dos trabalhadores, os custos e o para uma tipografia universitária que durou
cuidado com os instrumentos e materiais de até 177230. Mas Sebastião José de Carvalho
trabalho. E esta preocupação com o controlo, e Melo não ficou por aqui e pouco depois
principalmente com as despesas, era de tal volta a ver uma oportunidade para garantir
um importante auxílio para a futura imprensa
21
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Pombalina, Vol. I (1771-1782), Coimbra, Por Ordem da 27
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
Universidade de Coimbra, 1937, p. 70. pp. 559 e 560.
22
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 28
Manuel Augusto Rodrigues, “Alguns aspectos da
…, p. 80. Reforma …”, p. 218.
23
Pedro Dias, “O Regimento das Obras da 29
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
Universidade…”, p. 336. p. 556.
24
Pedro Dias, “O Regimento das Obras da Universidade…”, 30
José Antunes, “Notas sobre o sentido ideológico da
p. 337. Reforma Pombalina. A propósito de alguns documentos
25
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 120. da Imprensa da Universidade de Coimbra.” in O
26
O Regimento foi transcrito por dois autores, Pedro Marquês de Pombal e o seu tempo, Tomo II, Coimbra,
Dias, “O Regimento das Obras da Universidade…”, pp. Revista de História das Ideias, 1982, p. 147. Mas para
339 a 348 e, também, por Genoveva Marques Proença, saber mais sobre a vida desta imprensa antes da
D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho. Reitor Reforma ver Fernando Taveira da Fonseca, “A Imprensa
da Universidade de Coimbra, Coimbra, Dissertação da Universidade no período de 1537 a 1772” in
para a Licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas Imprensa da Universidade de Coimbra. Uma história
apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de dentro da história, Coimbra, Imprensa da Universidade
Coimbra, 1955, pp. I a XXIII. de Coimbra, 2001.
147
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
com a extinção da Academia Litúrgica em que Pombal felicita a sua criatura pela decisão.
176731. Desta forma podemos ver que Pombal
O que daqui podemos concluir é que D.
começou desde cedo a preocupar-se com a
Francisco de Lemos tinha uma grande liberdade
Imprensa.
de decisão. Neste caso toma a deliberação,
A ordem do ministro, ainda em 1772, impunha executa-a e só depois informa Pombal. O que
a mudança para o Claustro da Sé Velha 32 e, nos prova também a grande dose de confiança
logo depois, para um alargamento necessário, que foi depositada na sua pessoa.
ordena a aquisição de algumas casas e quintais
adjacentes ao edifício destinado à Imprensa33.
3.3. A remodelada Faculdade de Medicina
A estas tarefas dedicou-se logo o Reitor e, em
18 de janeiro de 1773, indica a Pombal que a Como vimos, a Faculdade de Medicina viu-se
mudança e as aquisições se tinham realizado34. enriquecida com três novos estabelecimentos,
De seguida, em 12 de fevereiro, o mesmo o Hospital, o Teatro Anatómico e o
responde a D. Francisco de Lemos e felicita-o Dispensatório Farmacêutico. Tudo isto
pela sua ação e pelo negócio realizado na representava também uma nova forma de
aquisição das casas e terrenos que, segundo entender a ciência em questão, onde se
o mesmo, foram relativamente baratas35. Mas incluía uma vertente baseada na observação
ao contrário do que possa parecer, a ação do e na experimentação39. O Hospital teria como
Reitor não foi a de mero cumpridor de ordens. função uma vertente de cariz pedagógico e
As restantes missivas são bem claras quanto às prático, já o Teatro seria o palco da experiência
suas movimentações. anatómica. E o Dispensatório forneceria os
remédios e formaria alunos em farmácia;
A 24 de junho D. Francisco de Lemos informa
em todos triunfava assim também uma
que as obras na Imprensa estão praticamente
responsabilidade pública40.
concluídas e que apenas restaria finalizar o
interior do edifício36. Mas ao Reitor ainda coube Embora nesta altura a cidade já tivesse
ordenar aquilo que Teófilo Braga entendeu instituições hospitalares nenhuma delas
como “totalmente privado do sentimento da estava direcionada para o ensino, nenhuma
arte e do bello”37, referindo-se à decisão de delas teria as condições que a Reforma
mandar demolir a Torre da Sé, já que o Reitor exigia definindo-se então que a necessidade
entendia que tirava a comunicação, o sossego levaria à criação de uma nova instituição41.
e a luminosidade à nova Imprensa38. E é só no Assim ficou decidido que este Novo Hospital
ano seguinte, em 30 de junho, data da última seria albergado pelo Colégio que pertenceu
missiva sobre as obras no edifício da Imprensa, aos Jesuítas. No período de 1772 a 1775 é
percetível que o hospital foi uma preocupação
31
José Antunes, “Notas sobre o sentido ideológico da
evidente. Em 21 de outubro de 1772 é visível
Reforma…”, p. 147. a primeira tarefa incumbida ao Reitor: que
32
José Antunes, “A Imprensa da Universidade na consistia na passagem do Hospital Real para o
Reforma Pombalina” in Imprensa da Universidade de
Coimbra. Uma história dentro da história, Coimbra,
Imprensa da Universidade de Coimbra, 2001, p. 59. 39
João Pedro Miller Guerra, “A Reforma Pombalina dos
33
José Antunes, “Notas sobre o sentido ideológico da Estudos Médicos” in Pombal Revisitado, Comunicações
Reforma…”, p. 150. ao Colóquio Internacional organizada pela Comissão
34
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, das Comemorações do 2º Centenário da Morte do
pp. 467 e 468. Marquês de Pombal, Vol. 1, nº 34, Lisboa, Editorial
35
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma Estampa, 1984, p. 205.
…, p. 70. 40
João Rui Pita, “Medicina, cirurgia e arte farmacêutica
36
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, na Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra”
p. 493. in O Marquês de Pombal e a Universidade, coord. Ana
37
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, Cristina Araújo, Coimbra, Imprensa da Universidade de
p. 493. Coimbra, 2000, pp. 134 e 135.
38
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, 41
João Rui Pita, “Medicina, cirurgia e arte
p. 507. farmacêutica…”, p. 138.
148
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
Novo Hospital, e também para tratar da venda de Pombal que em 9 de maio refere ter de
do estabelecimento que então vagava42. E é facto ordenado tal mudança48. Mas as razões
logo na sua resposta, a 23 de novembro, que é de tal união são mais complexas e referem-
possível ver a ação do prelado. D. Francisco de se à uma tendência europeia, aglutinadora
Lemos mostra-se preocupado com o estado do de unidades mais pequenas em unidades
local que iria receber as enfermarias, e nesse maiores, a necessidade de ter vários doentes
sentido entende que era necessário proceder com maleitas variadas, e razões financeiras49.
a algumas demolições no interior permitindo
O que mais incomodava o ministro de D.
assim uma melhor circulação; refere ainda
José era a conclusão das obras neste edifício,
que, devido a essa alteração, seria impossível
de tal forma que é com agrado que recebe a
lecionar no edifício e muda as aulas para o
informação de que o hospital se concluíra,
Hospital Velho43.
podendo assim iniciar-se as lições para aí
No dia 27 chega a resposta de Pombal, destinadas50. Mas apesar desta boa nova, as
aceitando o sugerido e avisando o Reitor de restantes dependências do Hospital só ficaram
que as plantas do edifício estariam quase completas em 1779, atrasando a plena entrada
concluídas e que prontamente seriam em funções do estabelecimento.
enviadas para Coimbra44. Mas para auxiliar
O edifício do antigo Colégio de Jesus foi
não importavam apenas as plantas: o ano de
também o escolhido para acolher o Teatro
1773 fica marcado pela chegada de Elsden
Anatómico. Em 1772, o Marquês delimita o
a Coimbra, iniciando assim uma importante
local e o que nele se há-de fazer para receber
cooperação entre ambos que se estendeu a
o novo estabelecimento51. A concretização
todos os edifícios. A colaboração é visível logo
de mais este equipamento vinha acima de
no dia 9 de julho quando o Reitor informa o
tudo brindar a união entre duas práticas
Marquês de que foi decidido passar o Hospital
distantes, a cirurgia e a anatomia, que a partir
para a parte superior do Colégio45, mudança
de 1772 se congraçavam representando assim
bem aceite por Pombal46.
mais uma importante inovação da Reforma
Outro auxílio importante foi também a Pombalina52. Mas nas missivas analisadas as
Congregação de Medicina: não só o Reitor informações quanto ao Teatro não abundam,
trabalhou em conjunto com este corpo como ficando-se apenas pelas referências a alguns
também funcionou como um intermediário instrumentos anatómicos. Pese embora a falta
deste e das suas decisões com o Marquês. de dados, continua a ser possível ver a ação
Nesse sentido vai a missiva de 6 de abril de do Reformador. Em 22 de fevereiro de 1773
1774 onde o Reitor indica que ainda não seria surge uma primeira informação, quando, para
possível transferir os doentes para as novas obviar à dificuldade que lhe fora assinalada por
instalações e propõe que para o Novo Hospital Luís Cecchi (não ter instrumentos para fazer
passe a total administração dos restantes dissecções), pede a Pombal que envie para
estabelecimentos hospitalares47. Esta ideia, a Universidade os instrumentos anatómicos
já estipulada nos Estatutos, caiu nas graças e cirúrgicos já prontos, cuja ausência
impossibilitava o início das demonstrações53. E
42
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, p. 28. 48
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
43
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, p. 554.
p. 460. 49
João Rui Pita, “Medicina, cirurgia e arte
44
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma farmacêutica…”, p. 139.
…, p. 62. 50
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
45
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, …, p. 214.
pp. 494 e 495. 51
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
46
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma p. 438.
…, pp. 94 e 95. 52
João Pedro Miller Guerra, “A Reforma Pombalina …,
47
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra p. 195.
…, p. 553. 53
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
149
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
numa outra já é possível aprofundar um pouco de julho, aceita as indicações para a melhor
mais a liberdade do Reitor, que propôs a Pombal serventia, prova de que as opiniões do Reitor
que as aulas de anatomia, devido ao decorrer tinham um peso determinante e assim foi
das obras, passassem para o Colégio das principalmente após a chegada de Elsden.
Artes54. Não foi possível determinar a resposta
Quanto ao andamento das obras não foi
de Pombal mas, a julgar pelas palavras de D.
possível tirar mais informações, apenas
Francisco de Lemos na Relação, ela foi positiva
uma outra missiva tem referências a essa
pois é o próprio que refere que a transferência
continuação e data já de 1774. Aí se refere que
se deu de facto55. Quanto aos instrumentos por
o Marquês teria sido anteriormente informado
si pedidos não foi possível conhecer o dia exato
que as obras ainda não tinham cessado61.
da chegada, apenas se sabe que em 18 de maio
Terminaram apenas em 1779 e, para além do
de 1773 já se encontravam em Coimbra e,
Colégio, incluíram também um importante
segundo o Reitor, as demonstrações já teriam
acrescento, os edifícios contíguos à Igreja62.
até começado56.
Mas a cuidar pelas palavras do próprio Reitor,
Mas se esta mudança solucionou o problema, mesmo antes do fim das obras começaram a
uma outra consequência poderia ter criado ser realizadas as demonstrações práticas63.
como refere João Rui Pita: esta instabilidade
O que daqui podemos concluir é que o Reitor
poderia ter gerado a saída precoce do mesmo
se mostrou ativo: não só tomou decisões como
Lente acima referido, Luís Cecchi57.
também se preocupou em sempre dar a sua
Quanto ao Dispensatório, que também teve opinião. E se para isso teve liberdade, também
como sede o Colégio, as informações não é certo que teve consigo um importante
abundam. A primeira referência data já de 1773, conselheiro, chegado em 1773 e assim em
altura em que o Reitor já se fazia acompanhar melhor posição ficou para facilmente alcançar
pelo arquiteto Guilherme Elsden. No dia 9 de a concordância de Pombal quanto ao que se
julho escreve D. Francisco de Lemos a Pombal devia fazer.
informando-o do envio das plantas de alguns
estabelecimentos, incluindo do Dispensatório,
3.4. O novo estabelecimento da Faculdade
e apresenta-lhe algumas alterações pensadas
de Matemática
em conjunto com o arquiteto58. Entende
assim que seria mais conveniente colocar o A Faculdade de Matemática foi também
Dispensatório no plano inferior do Colégio e invadida pelo experimentalismo e, nesse
que para o seu bom funcionamento se devia sentido, viu-se então apetrechada com o
demolir a capela, para assim nascer a entrada Observatório Astronómico. As expectativas
principal59. Em resposta60, o Marquês, a 15 que recaíam sobre este estabelecimento eram
elevadas e é o próprio D. Francisco de Lemos
p. 479. que enfatiza a sua necessidade, ao assinalar
54
Carta de 1 de março de 1773, Arquivo Nacional da “a perfeição particular da Geographia, e
Torre do Tombo [ANTT], Ministério do Reino, Maço 609, Navegação, que tem merecido em toda a
Caixa 711.
55
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 124.
parte a attenção dos Soberanos, fazendo
56
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, edificar Observatorios Magnificos destinados
p. 483. ao progresso da Astronomia, como Sciencia
57
João Rui Pita, “Medicina, cirurgia e arte necessária para se conseguir o Conhecimento
farmacêutica…”, p. 144.
58
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
do Globo Terrestre, e se terem nas mãos as
pp. 494 e 495.
59
A ideia da demolição vai ao encontro do já estipulado
por Pombal, mas ao Reitor e ao arquiteto coube 61
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
aproveitar o novo espaço que então se abria com a p. 559.
demolição. 62
João Rui Pita, “Medicina, cirurgia e arte
60
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma farmacêutica…”, pp. 147 e 149.
…, pp. 94 e 95. 63
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 125.
150
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
151
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
Não se limitou, contudo, D. Francisco de Lemos terreno fora cedido pelos padres Bentos, como
a informar. Voltando à Relação, podemos ver é referido na Relação, e aqui começa a ação
que, devido ao evidente atraso, o próprio do Reitor num caminho que não foi fácil79. A
Reitor teve que tomar a decisão de mandar 7 de novembro de 1772 Pombal dirige-se a D.
construir um Observatório bem mais modesto Francisco de Lemos incumbindo-o de analisar
no terreiro do Paço das Escolas para que as o terreno cedido80. Nesta missiva sobressaem
demonstrações não se atrasassem, um sinal também aqueles que de perto trabalharam
claro de que, face às dificuldades, o Reitor não com o Reitor: um deles, já mencionado, Ciera
deixou de procurar soluções para permitir o e também Vandelli que, em conjunto com
bom andamento das aulas75. o primeiro, ficaram de avaliar e demarcar o
local destinado ao Jardim. O cumprimento de
tal tarefa foi demorado, aconteceu só depois
3.5. Os novos estabelecimentos da
de 3 de fevereiro de 1773 e a razão é simples,
Faculdade de Filosofia
os lentes incumbidos de acompanhar o Reitor
A Faculdade de Filosofia foi definitivamente tinham entretanto chegado a Coimbra e a estes
uma das mais apetrechadas pela Reforma de juntaram-se, por ordem do prelado, Dallabella
1772. Como vimos, quatro novos edifícios e outros81.
passaram a enriquecer a recém-criada
A tarefa deste grupo foi de grande utilidade,
Faculdade. Mas entre estes e a julgar pelas
como ficou visível na resposta do Marquês.
referências encontradas é possível definir
Não só avaliaram o terreno como também
desde logo uma hierarquia. O Jardim Botânico,
realizaram apontamentos para Elsden que
“no qual se mostrem as Plantas vivas úteis
estaria a chegar à cidade82. E o que estas
às Artes em geral”76, foi claramente a
anotações deveriam referir seriam mesmo as
maior preocupação de ambos77. A sua
contrariedades do local proposto. A carta de
proximidade relativamente à Universidade
22 de fevereiro, do Reitor, é bem clara quanto
era uma obrigação imposta nos Estatutos,
à preocupação que atormentaria o prelado.
mas este tinha não só a função de servir a
Depois da análise e da deliberação com os
Filosofia como a Medicina78. Inicialmente o
seus conselheiros, decidiu que esse local não
75
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 127.
seria propício por ser demasiado íngreme e
76
A. M. Amorim da Costa, “As ciências naturais na que qualquer intervenção de correção seria
Reforma Pombalina da Universidade «Estudo de demasiado dispendiosa83. De forma a resolver o
rapazes, não ostentação de príncipes».” in O Marquês problema continua à procura e acaba por achar
de Pombal e a Universidade, coord. Ana Cristina Araújo,
Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2000,
um terreno mais propício às necessidades
p. 169. exigidas. Próximo do proposto, este novo local
77
Esta ideia da criação de um jardim Botânico não era achava-se nas imediações da Universidade
nova. Ainda antes da Reforma, em 1731, já teria sido como era requerido, do aqueduto da cidade
apresentado um plano, para o mesmo fim, da autoria
de Jacob de Castro Sarmento, ao então reitor Francisco
e, para além disso, era de forma regular e
Carneiro de Figueiroa - ver Joana Brites, “Jardim abastecido de água, tornando assim a despesa
Botânico da Universidade de Coimbra: contraponto de adaptação menos elevada84. Tal ideia é,
entre a Arte e Ciência” in Transnatural, Coimbra,
Artez, 2006, p. 31, e também, Joana Brites, “Jardim 266.
Botânico da Universidade de Coimbra: de Vandelli a 79
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 132.
Júlio Henriques (1772 - 1873).” in Arquivo Coimbrão: 80
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Boletim da Biblioteca Municipal, Vol. 39, Coimbra, …, pp. 52 e 53.
Câmara Municipal de Coimbra, 2006, pp. 12 e 13. Neste 81
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
sentido ver também Fernando Taveira da Fonseca, “ O p. 470.
Jardim Botânico no contexto da Reforma Pombalina 82
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
da Universidade de Coimbra (1772) ” in Século das …, p. 69.
Luzes. Portugal e Espanha, o Brasil e a Região da Prata, 83
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
Frankfurt/Maine, TFM – Teo Ferrer de Mesquita, 2006. pp. 479.
78
[s. a.], Estatutos da Universidade de Coimbra (1772), 84
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Livro III, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1972, p. …, p. 80.
152
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
153
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
No início de 1773, mais precisamente a 3 de escolha do Reitor.
fevereiro, acusa o Reitor a chegada das ditas
A 10 de março reporta o Reitor que as
máquinas para o gabinete98. Mas inicialmente
máquinas já se encontram praticamente
D. Francisco de Lemos não as alberga no local
instaladas na sala provisoriamente definida
definido porque este não tinha condições.
por si105. Mas o local que iria servir de sede
Decide assim que temporariamente seria
definitiva estava também na mente do Reitor.
melhor abrigá-las numa sala do Colégio das
Depressa se procura inteirar do andamento
Artes, o que, por seu lado, pode desde logo
das obras e logo começa a atuar. Em conjunto
elucidar-nos também sobre o andamento das
com Elsden ordena algumas demolições, sendo
obras. E tal ideia acaba por ser confirmada
a primeira uma das paredes do Colégio106. Na
pelo mesmo quando em 22 de fevereiro
mesma missiva D. Francisco de Lemos informa
refere que o estabelecimento ainda estaria a
Pombal sobre uma outra demolição que, aos
sofrer as intervenções necessárias99. O Reitor
seus olhos, seria uma necessidade urgente, a
vê-se então com liberdade para tomar nova
Capela de S. Borja107. A justificação prendia-se
decisão: tendo os instrumentos chegado
não apenas com o Gabinete mas também com
ilesos e estando já a ser montados, decide
o Teatro da Natureza, que passariam assim a
que temporariamente se deveriam dar as
beneficiar de uma entrada mais propícia e,
aulas no Colégio das Artes superando assim as
para além disso, ficavam “todos estes edifícios
inconveniências do atraso das obras100.
desabafados; e com huma vista grandiosa, e
Tal ação foi bem acolhida pelo Marquês que, mto agradável.”108. Mas a decisão sobre esta
a 2 de março de 1773, felicitava o Reitor ideia foi demorada: a 18 de maio o prelado,
pelas soluções arranjadas101; não sem antes depois de avisar que teria ordenado uma
ordenar que, para a proteção das máquinas, outra demolição, volta a insistir na urgência da
estas se deveriam recolher no lugar que seria opinião sobre a dita Capela109. E esta surge só
o dormitório, indicando, de acordo com o seu no final do mês seguinte quando o Marquês
espírito de minúcia102, todas as alterações concorda com a ideia proposta110.
que se deviam fazer no edifício definitivo103.
A demolição foi demorada e no início de
Esta mesma carta terá gerado alguma
julho ainda não estaria terminada, mas por
confusão, pois vinha contrariar as decisões
esta altura o prelado tinha já novo pedido a
acima indicadas, tomadas por D. Francisco de
fazer111. Na mesma carta fica também visível
Lemos, funcionando como um travão à sua
que Pombal já estaria na posse das plantas
ação. Assim, o Reitor procura criar um tempo
para o estabelecimento; o Reitor volta a pedir
de espera até que se alcance uma decisão104.
uma célere decisão sobre as mesmas. E assim
Desta forma o prelado prefere então não
aconteceu: o ministro responde a 15 de julho
avançar em nenhuma das direções acabando
aprovando os planos e ordenando que logo se
por esperar por uma resolução do valido que,
como vimos a 2 de março, surge favorável à
105
Carta de 10 de março de 1773, ANTT, Ministério do
98
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, Reino, Maço 609, Caixa 711.
p. 470. 106
Carta de 9 de abril de 1773, ANTT, Ministério do
99
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, Reino, Maço 609, Caixa 711.
p. 478. 107
Carta de 9 de abril de 1773, ANTT, Ministério do Reino,
100
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra Maço 609, Caixa 711. Na mesma missiva é possível ver
…, p. 478. que o arquiteto tinha já feito também o mesmo pedido.
101
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 108
Carta de 9 de abril de 1773, ANTT, Ministério do
…, p. 81. Reino, Maço 609, Caixa 711.
102
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 109
Teófilo Braga, História da Universidade de Coimbra
…, p. 178. …, pp. 483 e 484.
103
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 110
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, pp. 77 e 78. …, p. 86.
104
Carta de 1 de março de 1773, ANTT, Ministério do 111
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
Reino, Maço 609, Caixa 711. …, p. 495.
154
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
155
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
informações dizem respeito apenas a próprio Reitor que, dois anos depois, refere
intervenções no edifício mas numa fase já que já estaria a funcionar em pleno130.
relativamente adiantada: “e tudo fica muito
O que daqui podemos concluir é que de novo
capaz de poder ser já visto por qualquer
o Reitor volta a ter um papel ativo. Não como
curioso, q venha a esta Universidade.”125.
mero executante mas também como decisor.
Quanto à ação do prelado não se afasta muito Mesmo que, para a decisão final tenha sempre
do que já ficou exposto. O edifício escolhido que haver consonância entre os dois polos
não estava de forma alguma preparado para decisórios, Lisboa e Coimbra.
nenhum dos estabelecimentos que lhe foram
destinados e daí a ação de D. Francisco de 3.6. O Colégio das Artes e o Paço das
Lemos ser mesmo a adaptação, o que por sua Escolas
vez exigiu diversas demolições e reconstruções.
Não foram apenas as Faculdades, novas
Tal ideia é clara logo em 30 de março de 1773, e restauradas, que exigiram reparações e
quando refere que se demoliram algumas adaptações: outros edifícios foram também
paredes e, também, a 9 de abril do mesmo intervencionados e de novo o Reitor foi
ano, quando pede a demolição da Capela de S. decisivo.
Borja já que também ia beneficiar o Gabinete
Na Relação, D. Francisco de Lemos reporta
de História Natural126. Em 18 de maio as obras
tudo o que se fez tanto no edifício do Colégio
ainda decorriam mas surge então a informação
das Artes como no Paço das Escolas. E desde
de que as aulas tinham passado para um local
logo se percebe que tiveram que sofrer várias
temporário127. Embora não fosse possível
e profundas alterações. E sinal disso mesmo
definir quem ordenou tal mudança, será muito
é a frequência com que ambos são citados
provável que esta se tenha devido ao Reitor.
nas missivas, principalmente no ano de 1773.
Não só por que ficou evidente a pressa com
Contudo, de entre os dois, sobressai o Colégio
que este laborou para garantir que o início
e nesse sentido seguirá esta exposição. Na obra
das aulas se dava a tempo, como também já
referida, o Reitor é claro quando diz que teve
teria tomado a mesma resolução em situações
que tratar da intervenção a dois níveis, interno
semelhantes. E tudo isto, mais uma vez, não
e externo131. Mas prestemos um pouco mais de
foi contestado pelo valido. Como exemplo
atenção à sua ação usando a correspondência
fica a missiva de 30 de junho de 1773, onde o
analisada. A nível interno o Reitor demonstrou
mesmo reage positivamente a tudo o que fora
bem cedo uma preocupação diferente daquilo
feito128.
que se poderia pensar. Decide então, como
Após estas missivas, poucas se seguem sobre já vimos, usar o Colégio das Artes de forma
o mesmo assunto e nada de novo trazem, parcial e temporária para acolher as aulas
levando assim a que se torne necessário dos estabelecimentos que então ainda não
destacar a última: data de 23 de novembro se tinham terminado132. De seguida começa
de 1775, ficando então já o Marquês com a a tratar da organização interna do edifício e
informação de que as obras tinham terminado das suas funcionalidades, sugerindo assim
e que o Gabinete estaria pronto para as suas uma mudança que consistia na trasladação do
funções129. Esta informação é confirmada pelo refeitório e restantes oficinas para o andar de
baixo, já que na altura o Colégio teria várias
125
Carta de 10 de março de 1773, ANTT, Ministério do salas não utilizadas133. A esta ideia, que data
Reino, Maço 609, Caixa 711.
126
Cartas de 30 de março e de 9 de abril de 1773, ANTT, …, p. 214.
Ministério do Reino, Maço 609, Caixa 711. 130
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 130.
127
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 131
D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 135.
…, p. 482. 132
Como foi o caso das aulas de Filosofia - ver Teófilo
128
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, p. 478.
…, p. 85. 133
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
129
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, p. 493.
156
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
157
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
quanto à própria personalidade de D. Francisco tijolos147. A nomenclatura foi diversa, Nova
de Lemos, demonstrando a sua vertente mais Fábrica de telha vidrada, Fábrica da Rua João
controladora, mas não só: também podemos Cabreira, Fábrica das telhas ou até Fábrica de
entender o que para ele significava o cargo telha148, e foi sugerida ao Marquês a 9 de julho
de Reitor, que deveria ser, para todo o corpo de 1773. O Reitor ficou impressionado com a
académico, omnipresente. Assim, entende que durabilidade da telha vidrada que então cobria
seria necessário “levantar o tecto das Varandas a Sala Grande e a Livraria e que se mantinha
dos Geraes; e se formarem Corredores, que sem qualquer intervenção de manutenção149.
circulem todas as Aulas, e dão tribunas para Encontrada esta alternativa, depressa tratou de
ellas; das quaes pode o Reytor ver, e observar, procurar saber os preços do material, chegando
o que se passa nas ditas Aulas.”145. à conclusão de que para além de conseguir
poupar na manutenção pouparia também nos
O que mais uma vez fica claro é a autonomia e a
custos de fabrico150. Tendo tudo isto em conta
muito considerável liberdade que acompanhou
decidiu então iniciar a construção da fábrica,
o prelado nesta sua cruzada. E como tem vindo
arrendando uma casa pelo preço de 25 mil reis
a ficar exposto, não foi apenas nas soluções
anuais e mandando fazer aí os fornos para o
de menor dimensão, pelo contrário, a sua
fabrico dos materiais.
iniciativa foi uma presença, ou uma marcada
omnipresença, como neste último caso. A tudo isto respondeu Pombal, no dia 15 de
julho de 1773, felicitando o prelado pela sua
ideia. E de tal forma se mostrou empolgado
3.7. A Fábrica de Telha de vidro, demais
com a nova fábrica, que refere que até os
matérias e a mão-de-obra
edifícios da capital iriam beneficiar com ela151.
Mas o trabalho do Reitor não foi apenas a nível E embora não fosse possível encontrar mais
dos edifícios, isto porque não nos podemos nenhuma referência, sabemos que a dita
esquecer que esta fase representa apenas um fábrica se manteve em atividade até 1777 e,
estádio dos muitos necessários para que as segundo Matilde Franco, a julgar pela despesa,
construções se fizessem. E uma dessas etapas teve uma atividade bastante intensa152.
consiste mesmo na necessidade de garantir a
Como não foram apenas necessárias telhas e
obtenção dos materiais a um preço acessível e
cerâmicas mas muitos outros materiais como
com uma assiduidade eficaz para o sucesso da
madeiras, pedra, cal e ferragens, foi essencial
empreitada. Neste domínio, o prelado esteve
procurar que estes também se garantissem.
incansável, segundo Teófilo Braga146. E não nos
Quanto às primeiras, em 1773, o Reitor ordena
podemos olvidar que a necessidade de mão-
que os cortes das madeiras se vão fazendo
de-obra também tem um peso decisivo.
no pinhal da Universidade, para assim não se
Para resolver o primeiro dos problemas o perder mais tempo, e que se proceda também
Reitor criou uma fábrica de telha de vidro, o ao transporte das mesmas153. Mas, como
que na prática pode também ser entendido
como uma importante inovação técnica. Nesta
147
Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco, «Riscos
das obras da Universidade de Coimbra» o valioso álbum
não se produziram apenas, como o próprio da Reforma Pombalina, Coimbra, Museu Nacional de
nome indica, telhas mas também azulejos e Machado de Castro, 1983, p. 6.
148
Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco, «Riscos
das obras da Universidade de Coimbra» …, p. 6.
149
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
145
Para além do referido mandou também construir …, p. 496.
umas escadas no interior para facilitar o acesso, 150
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
melhorou a Reitoria, formou novas aulas e mandou …, p. 496.
preparar tudo o necessário para as salas de aula. Ver D. 151
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Francisco de Lemos, Relação Geral..., p. 137 e Genoveva …, p. 95.
Marques Proença, D. Francisco de Lemos…, p. 70. 152
Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco, «Riscos
146
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra das obras da Universidade de Coimbra» …, p. 6.
…, p. 541. 153
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
158
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
fica explícito, eram necessários vários tipos Quanto à mão-de-obra as informações são
de madeiras para diferentes funções, como parcas. Apenas algumas missivas merecem
por exemplo para caibros. E como estas não ser destacadas e todas pertencem a Pombal.
estariam disponíveis no dito pinhal, mas sim Mas mesmo assim foi possível adiantar
na mata de Coja, o prelado pede ao Marquês algumas conclusões. O problema que
que autorize o seu corte, visto que esta estaria atormentava ambos era mesmo a falta de
na posse da coroa154. Quanto à pedra e cal o trabalhadores devidamente qualificados, o
seu fornecimento também foi assegurado. que por sua vez não só trazia atrasos como
No caso da cal, o prelado apenas refere que também flutuações nos orçamentos. E quanto
esta ficaria à conta da Universidade, sem com à escolha e contratação de operários, parece
isto aprofundar o seu significado. Mas o que que foi feita em dois sentidos. Ou seria o
podemos deduzir é que seria aí produzida e Reitor a pedi-los, sendo Pombal a enviá-los
depois transportada para os locais onde fosse desde Lisboa, ou este enviaria quem achasse
necessário. Para a pedra, o Reitor não teve necessário, segundo o andamento das obras
que procurar muito longe: como ele próprio que lhe era reportado pelo prelado.
ordenou várias demolições, decidiu assim
Isso mesmo nos mostra a missiva de 2 de
aproveitar a pedra daí resultante para as novas
março de 1773, quando o Marquês questiona
construções155. Para as ferragens decidiu que
sobre a necessidade de estucadores, e se assim
devido a razões financeiras e de qualidade do
fosse bastaria ao Reitor pedir que estes seriam
material, estas deveriam vir de fora.
enviados de Lisboa159. Ou outra, de 20 de
Assim, a 2 de maio de 1773, surge a resposta julho do mesmo ano160, onde Pombal decide
a tudo o que até aqui se apresentou: esta é enviar o Mestre pedreiro Eusébio Vicente para
claramente positiva e Pombal não só aprova Coimbra para aí auxiliar Elsden161. No mesmo
como também acede ao que lhe fora pedido, ano, a 2 de outubro, o Marquês volta a enviar
indicando que no caso das ferragens, seria especialistas para a cidade coimbrã, mas desta
melhor tratar de as adquirir na cidade do vez carpinteiros162. E se na missiva não são
Porto e que logo disso se cuidasse156. Mas referidos os nomes dos enviados, apenas que
nesta carta, o ministro demonstra uma seriam seis, Maria de Lurdes Craveiro entende
outra preocupação transversal a todas estas que entre estes se encontraria o Mestre
tarefas, a necessidade de arranjar pessoas de carpinteiro Manuel Alves Macomboa163. O
confiança para a supervisão de tudo o que foi que também podemos concluir é que estes
referido. Tal pensamento também preocupava especialistas podiam até ter sido pedidos pelo
o Reitor que, em 22 de fevereiro de 1773, Reitor e se não temos o pedido, temos uma
já tinha dado ordens nesse sentido157. E a 2
de março do mesmo ano, mas numa missiva em falta para assim garantir o andamento das aulas de
do prelado, dá novas ordens e indica ao Gramática.
159
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
professor de Gramática, Manoel de Paiva, que …, p. 78.
supervisionasse os cortes da madeira158. 160
Mas ainda antes desta data, em 15 de julho, Pombal
avisa que estaria já a caminho o Mestre Alvíneo, embora
…, p. 477. não especificasse qual a sua especialidade - ver Manuel
154
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, p. 95.
…, p. 477 e 478. 161
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
155
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, p. 96. Este acaba por permanecer em Coimbra até
…, p. 478. 1777 data em que perece. Ver Maria de Lurdes dos
156
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma Anjos Craveiro, Manuel Alves Macomboa: arquiteto
…, p. 80 e 81. da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra,
157
Teófilo Braga, História da Universidade de Coimbra Coimbra, Instituto de História de Arte da Faculdade de
…, p. 477. Letras da Universidade, 1990, p. 11.
158
Carta de 10 de março de 1773, ANTT, Ministério do 162
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Reino, Maço 609, Caixa 711. E como as aulas foram …, pp. 99 e 100.
sempre uma preocupação constante na mente do 163
Maria de Lurdes dos Anjos Craveiro, Manuel Alves
Reitor, trata logo de arranjar substituto para o lente Macomboa…, p. 11.
159
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
citação que em muito nos pode esclarecer: “E abertura das aulas, do andamento das
sendo precisos mais alguns destes, como dos mesmas e, também, das avaliações. Quanto às
outros Officios respectivos a essas obras, com matrículas, teve desde o início a preocupação
avizo de V. S. ª seraõ logo mandados.”164. Os de enviar ao Marquês os Mapas dos Estudantes
carpinteiros enviados não foram suficientes, Matriculados anualmente, oferecendo-lhe
pois, logo a 18 de outubro, o Reitor pedia a assim uma clara e pormenorizada imagem do
Pombal que enviasse mais operários peritos número de estudantes.
e que estes fossem trabalhadores eficazes e
Mas a sua ação foi bem mais específica e
rápidos165.
é logo visível em finais de 1772, inícios de
Quanto ao problema atrás referido, a falta 1773. Adepto de uma disciplina rígida e de
de produtividade resultante da mão-de-obra um controlo apertado, decide aplicar tais
ineficaz, foi decidido pelo Reitor, após consulta premissas à assiduidade dos estudantes.
com Elsden e os mestres-de-obras, que seria Esta ideia, que para Teófilo Braga teve mais
conveniente “de se darem de empreitada de negativo do que positivo, consistia em
de maons por braças”166, procurando assim que o estudante fosse também Apontador,
controlar melhor o trabalho e a produtividade tomando assim conta das faltas dos outros
que carecia de eficácia. Mas na mesma missiva estudantes167. A juntar a esta ideia surge outra
é também visível um outro problema: o facto iniciativa que teria como objetivo a verificação
de alguns oficiais conseguirem escapar à do aproveitamento dos alunos. Assim, manda
supervisão dos inspetores. que os Catálogos e os Livros de Apontadores
tenham espaço para que cada Lente registe
E de novo podemos ver que D. Francisco de
o progresso individual de cada aluno168. Estes
Lemos se mostrou bastante ativo mas, acima
dados deveriam depois ser discutidos nas
de tudo, continuou a demonstrar que os seus
reuniões da respetiva congregação169.
conhecimentos na área em questão não seriam
em nada rudimentares. De seguida (em termos de número de
referências) vêm os preparatórios, antes do
ingresso, e aqui o prelado volta a deixar a sua
4. A questão do ensino
marca. Para que tudo se desse conforme o
4.1. Novos métodos, novas ideias e novas desejado, decide passar o exame dos estudos
caras preparatórios para a Casa dos Exames Privados
e como supervisor, em seu lugar, escolhe o
4.1.1. As aulas
Lente Tomás Pedro da Rocha170. A abertura
A temática Aulas foi a segunda mais encontrada das aulas, mais célere possível, sempre foi um
nas cartas com 37 referências em 131 missivas dos objetivos do Reitor e, prova disso mesmo,
(Gráfico 2). Mas, apesar disso, não se fez sentir foi a sua decisão quanto às aulas de Medicina
em todos os anos estudados, apenas marca
presença nos três primeiros. 167
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
p. 467. Esta prática não seria nova, portanto estaremos
Podemos afirmar que durante este período a falar de uma reintrodução da mesma. A resposta a
o Reitor foi incansável na transmissão de esta ação foi positiva por parte de Pombal - ver Manuel
informações acerca das matrículas, da Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, p. 70.
168
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 517 e 518.
164
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 169
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 99 e 100. …, p. 518. Pombal responde a esta proposta em 15 de
165
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra fevereiro de 1774 felicitando o prelado pela sua ação –
…, pp. 516 e 517. O pedido foi rapidamente atendido ver Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
e, no final do mesmo mês, Pombal trata de enviar …, p. 123.
mais carpinteiros para Coimbra – ver Manuel Lopes d´ 170
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
Almeida, Documentos da Reforma …, pp. 113 e 114. …, pp. 447 e 448. Esta ideia foi bem aceite por Pombal.
166
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma Ver Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, p. 163. …, p. 55.
160
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
em 1772. O problema estaria então nos académico, chega a altura das avaliações de
compêndios que ainda não tinham chegado conhecimentos, os exames ou atos. E quanto
mas, mesmo assim, opta por manter a abertura à ação do Reitor, a primeira informação que
das lições171. sobressai vem-nos das palavras do Marquês
que suprime uma das dúvidas do prelado,
D. Francisco de Lemos acabou por não ter
indicando-lhe que à sua pessoa cabia a
uma vida fácil e, mesmo durante o andamento
atribuição dos graus de Cânones e Leis e
das aulas, foi várias vezes chamado a intervir.
mais ninguém o podia substituir176. Mas
Exemplo disso foram as alterações que teve
chega também a intervir nos exames. Como
que fazer, mudando algumas aulas mais
considerava que a forma usada, que consistia
numerosas para salas mais amplas, a supressão
em examinar duas turmas diariamente, era
de algumas cadeiras devido à falta de alunos e,
demasiado demorada, prefere optar pelo
em sentido oposto, a divisão de aulas em mais
exame de uma turma, seis alunos por dia, o
do que uma turma devido ao número elevado
que por sua vez não só seria menos demorado
de inscritos172. Mas os problemas no decorrer
como poderia também ter alguns benefícios,
das aulas foram ainda mais complicados,
já que menos alunos podiam significar mais
chegando mesmo a causar algum desconforto
tempo para cada examinado177.
entre alguns Lentes. Desta forma o Reitor
decide fazer algumas modificações internas e
Outro problema resultou de algumas lacunas
passa as aulas ordinárias das Faculdades para
dos Estatutos relativamente a esta fase. Para
o interior do pátio das escolas, vagando assim
suprimir as falhas, que seriam o termo a
outras salas para outras aulas, terminado de
usar aquando da atribuição dos graus e o
vez com todas as confusões e desagrados173.
pagamento das propinas no ato do exame, o
A sua atenção ao estipulado nos Estatutos Reitor sugere duas soluções. À primeira, onde
também foi evidente. Em 1773, quase no final se debatia o uso do Auctoritate Apostolica
do ano e talvez já com algum atraso, trata de ou do Auctoritate Regia, digna da nova
acrescentar a cadeira de Geometria ao plano mentalidade dos reformadores e daquilo que
de estudos dos teólogos e dos juristas174. Mas se queria implementar a nível universitário e
esta alteração, no início, não teve a frequência nacional, responde o Reitor com uma solução
desejada, a falta de alunos foi uma constante temporária, que seria o uso de Auctoritate
na generalidade, por isso o Reitor ordena que o qua fungor, poupando assim desavenças
controlo de faltas seja bem mais apertado para desnecessárias178. Quanto à propina dos atos,
assim não só registar mas, também, procurar o Reitor entende que esta se deveria pagar
averiguar o porquê do problema, para depois aquando do dito, mas não adiantou nenhum
agir em conformidade175. valor, preferindo aguardar por novas ordens179.
Por fim, como acontece em qualquer percurso O que acabou por não acontecer: em vez
disso o Marquês pede ao prelado que reúna
171
Esta decisão foi bem acolhida por Pombal, também
ele muito interessado no início das aulas. Ver Manuel 176
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, p. 62. …, p. 90.
172
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 177
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 466, 482 e 522. …, p. 488. Vd. Também Genoveva Marques Proença, D.
173
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra Francisco de Lemos…, p. 46.
…, pp. 506 e 507. E em outubro de 1773 o Marquês 178
Mas esta decisão que seria provisória, representativa
responde aceitando a alteração - ver Manuel Lopes d´ do embate entre o Império e o sacerdócio segundo
Almeida, Documentos da Reforma …, p. 102. Teófilo Braga, acabou por se tornar permanente
174
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra apesar da vontade inicial do valido. Ver Teófilo Braga,
…, p. 522. Esta ação acabou por ser aceite pouco depois. Historia da Universidade de Coimbra …, pp. 487 e 488,
Ver Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma e também, Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da
…, pp. 121 e 122. Reforma …, pp. 92 e 93.
175
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 179
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, p. 548. …, p. 490.
161
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
informações que possam auxiliar a resolução inventor, como acima vimos. Outra inovação
do problema180. está também no aparecimento de uma nova
categoria, a de substituto184. Passaram também
Mas a ação do Reitor foi ainda mais longe,
a existir as Congregações nas várias faculdades,
chegando mesmo a intervir em algumas
organizando desta forma o respetivo corpo
avaliações. Como foi o caso do quinto ano
docente185. Mas inicialmente a preocupação
de Medicina, em 1773, onde o prelado após
foi outra e consistia na procura dos lentes com
visualizar a prestação dos estudantes nos atos,
capacidade, para se manterem, e na promoção
entendeu que deveriam ser “retardados” para
da saída daqueles que não tinham capacidade
voltarem a frequentar as aulas desse ano181.
de aplicar o que então de novo se passou a
Mas, para além de tudo o que ficou exposto, exigir. No caso dos últimos, o Marquês opta
importa ainda realçar uma outra preocupação pela jubilação embora houvesse outros casos,
do Reitor, a falta de interessados em Teologia poucos, onde se concede a benesse de uma
que então teria algumas cadeiras sem alunos. conezia doutoral186. Mas antes de se proceder
Assim entende que deve colocar o problema a ao afastamento, era necessário conhecer
Pombal, sugerindo também que este trate de quem devia ou não sair e é aqui que começa a
conseguir trazer os clérigos seculares para o ação de D. Francisco de Lemos na questão dos
percurso académico182. O Marquês responde a lentes.
15 de dezembro referindo que a questão dos
A correspondência analisada já não nos dá essa
seculares brevemente estaria resolvida183.
imagem, pois começa bem mais tarde mas,
Esta liberdade pode muito bem ter a sua razão segundo Teófilo Braga, foi por volta de setembro
não só na confiança depositada mas, também, de 1772 que o prelado foi incumbido de realizar
no facto de o Reitor ter uma posição ímpar. as listas de dispensas e permanências187. Para
O facto de ser uma presença constante em a realização da mesma o Reitor obteve uma
todas as fases do percurso académico, desde autorização para supervisionar as aulas de
as matrículas às avaliações, tornava-o um forma a avaliar os lentes para a elaboração
interlocutor privilegiado, a ponto de todas as das listas, para de seguida os eleitos tomarem
suas sugestões serem aceites pelo Marquês. posse e começarem as suas funções.188
E, para além disso, era ele que estava em
E é logo pouco depois que começa a fonte aqui
constante contacto com as Congregações,
em análise e já nos traz outras informações.
podendo assim não só influir nas suas decisões
Se atentarmos ao Gráfico 2 podemos ver
como aconselhar-se com os Lentes que
que a questão dos Lentes teve uma presença
diretamente trabalhavam com os estudantes.
importante, com 36 referências nas 131
162
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
missivas analisadas. Mas este assunto foi uma tem que ser entendida, para além de uma
preocupação constante pois manteve-se de consequência do seu cargo, como uma forma
1772 até 1774, desaparecendo em 1775, para de preparar tudo o mais rápido possível para o
surgir logo no ano seguinte. E depois da análise bom funcionamento das aulas195.
mais aprofundada podemos chegar a uma
Mas houve outros casos que pediram a
conclusão evidente, a contratação de Lentes e
intervenção do Reitor, como as vagas na
substitutos foi, ao longo do período estudado,
Congregação de Medicina, e este opta então
uma tarefa partilhada.
por preencher certas falhas direcionando
E mesmo quando estes foram escolhidos alguns Lentes para os lugares vagos. Isso
pelo valido, o Reitor tinha outras tarefas a mesmo aconteceu em 1774, quando a
desempenhar e estas não menos importantes. Congregação de Medicina não conseguiu
Os eleitos do Marquês como foi o caso de reunir o número suficiente de Lentes para as
Domingos Vandelli189, José Francisco Leal190, votações. Para resolver o problema, o Reitor,
António Dallabella191, Paulo Hodar192, José com a sua lucidez de sempre segundo Teófilo
Anastácio da Cunha entre outros193, depois Braga, propõe que tais faltas se suprimissem
de se terem apresentado ao Marquês para com a entrada de três lentes de Filosofia na
tomarem posse, como foi hábito, coube a dita congregação196.
D. Francisco de Lemos direcioná-los para as
Outra tarefa que foi da responsabilidade do
suas novas funções194. Esta tarefa do Reitor
prelado foi a de tratar do alojamento para os
189
Este chega a Portugal pelas mãos de Pombal, novos docentes. E se só foi possível encontrar
inicialmente para dirigir o Real Jardim Botânico da um exemplo disso, não nos podemos esquecer
Ajuda e só posteriormente é que chega à Universidade. que vários foram os Lentes que chegaram
Quanto a este Lente e o seu percurso - ver Eduardo
Proença-Mamede, “Domingos Vandelli - uma biografia
de fora e que também necessitavam de
transnatural”, [Consultado em 27/04/2015]. Disponível alojamento. O que me leva a crer que tal
em [Link] tarefa foi bem mais rotineira do que aquilo
[Link] e, também, A. M. Amorim da Costa, “As que as missivas indicam. Quanto ao único caso
ciências naturais…”, p. 170.
190
Décio Ruivo Martins, “Brasileiros na Reforma
encontrado, data de 1772 e diz respeito ao
Pombalina: criando novos caminhos da ciência entre Lente Miguel António Ciera e à sua família, que
Portugal e o Brasil” in Exposição A Universidade de então estariam para chegar à cidade e, nesse
Coimbra e o Brasil: Percurso iconobibliográfico, Coimbra, sentido, Pombal incumbe o prelado de lhes
Imprensa da Universidade, 2012, pp. 4 a 6, [Consultado
em 23/04/2015]. Disponível em [Link]
proporcionar alojamento197.
historia_ciencia_na_uc/Textos/brasileiros/bras. Mas como se disse, o Reitor não foi apenas
191
Décio Ruivo Martins, “A Faculdade de Filosofia
Natural da Universidade de Coimbra …”, p. 3, e também, um executor, a sua liberdade volta a ser visível
A. M. Amorim da Costa, “As ciências naturais…”, p. 170. na escolha de docentes (Lentes, substitutos
192
Carta de 10 de março de 1773, ANTT, Ministério do e auxiliares). Esta fica logo visível em 1772,
Reino, Maço 609, Caixa 711. quando Pombal se mostra claro quanto a
193
A nomeação deste último foi bastante discutida entre
os dois reformistas. O Reitor mostrou-se preocupado esta questão, “Deixando contudo ao Arbitrio
pelo facto de este não ter ainda o Doutoramento. Tais de V S.ª substituir nos Cursos Mathematicos,
dúvidas precisaram ser apaziguadas pelo Marquês que, e Filosoficos os Professores, que achar mais
por sua vez, não hesita em arranjar solução para o habeis, e mais expeditos; e tambem dar
problema, referindo que outros se fizeram da mesma
maneira e que depois se iria promover o grau. Ver
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, …, p. 54.
pp. 107 e 108. O assunto reaparece em 12 de outubro 195
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
de 1773, onde o Reitor já tinha superado o problema …, p. 85.
inicial, embora este pudesse ter ficado a dever-se à 196
Os Lentes em questão foram, Domingos Vandelli,
intervenção de um terceiro, José Monteiro da Rocha, António Dalla Bella e Miguel Franzini. Ver Teófilo Braga,
que não simpatizava com o Lente proposto. Ver Teófilo Historia da Universidade de Coimbra …, pp. 551 e 552
Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, pp. 513 (nota 1).
e 514. 197
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
194
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, p. 65.
163
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
substitutos a todos os que fôrem impedidos se ainda mais claro quando refere que o mérito
por quaesquer Accidentes: De sorte que a deveria sobrepor-se, e que mais ninguém para
Obra naõ páre, antes seja concluída com toda além do Reitor estaria em melhor posição
a brevidade possível.”198. O mesmo acontece de garantir que assim acontecia. Ao prelado
após a nomeação do Dr. José Marcelino dos deveria caber a função de supervisionar e
Santos para Bispo de Angra. A vaga então avaliar os escolhidos e, depois da escolha
deixada por este foi preenchida pelo Reitor, dos melhores, deveria propô-los ao Marquês
que teve que encontrar o seu sucessor199. para que tomassem posse206. Com isto, a
responsabilidade maior iria recair sobre Reitor,
Outra situação que necessitou da intervenção
o que por sua vez é bem demonstrativo da
do prelado estava ligada com o preenchimento
confiança no seu trabalho. Quanto à questão
de vagas resultantes das aposentações, como
das vagas nas faculdades referidas, acabaram
foi o caso do Lente Simão Gould200. Mas por
por ser lentamente ocupadas.
esta altura começam a surgir vários problemas
com as vagas ainda por resolver. Medicina, Mas a necessidade de tratar das vagas
Matemática, Leis e Cânones tinham, em 1773, também poderia ter como origem outro tipo
falta de Lentes. Quanto à primeira faculdade, de acontecimentos, como o falecimento
o prelado consegue arranjar uma solução dos Lentes, possível de ver em dois casos. O
provisória distribuindo as cadeiras vagas pelos primeiro foi o de D. Bernardo da Encarnação
outros Lentes201. Para as restantes o problema (1773) e o segundo, o do Dr. Manuel José
nasceu das várias promoções a Bispos por Álvares de Carvalho (1776) e, mais uma vez,
parte de alguns dos Lentes202. Tudo isto veio coube a D. Francisco de Lemos propor quem
dificultar bastante a tarefa do Reitor que, os rendesse207.
em 18 de outubro de 1773, ainda não tinha
O trabalho do prelado foi também visível numa
conseguido encontrar indivíduos capazes para
outra vacatura, a da recém-criada cadeira de
as vagas em questão203.
desenho e arquitetura. Nesta, o problema
O que na altura perturbava o prelado seria residia no facto de, em Coimbra, não existir
mesmo a forma de provimento das cadeiras ninguém com conhecimentos para reger a dita
vagas, a que se dava o nome de ascenso. Este cadeira. Assim opta por propor um italiano
sistema, segundo ele, pecava por não colocar que se encontrava em Lisboa, V. Stopani, e um
as qualidades dos candidatos como atributo português, cujo nome não foi mencionado,
principal para ocupar o lugar vago204. Mas esta que estaria a estudar em Bolonha e que já
preocupação também já tinha sido apontada tinha dado provas de grande competência208.
pelo ministro que, algum tempo antes, teria A estas sugestões dá Pombal a sua opinião
até já referido que o provimento se deveria em 15 de dezembro de 1773, mostrando-se
fazer pelo mérito205. A 15 de dezembro torna- irreversivelmente adepto do dito português, a
tal ponto de suspender a abertura da cadeira
198
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma até que este estivesse em condições de a
…, p. 52. reger209.
199
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, p. 68. Mas a ação do Reitor vê-se também de uma
200
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra outra forma, a sua atenção para com aquilo
…, p. 509.
201
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra que podemos chamar de novos talentos. O
…, p. 511.
202
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 206
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, p. 514. …, p. 530.
203
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 207
Ver respetivamente, Manuel Lopes d´ Almeida,
…, p. 516. Documentos da Reforma …, pp. 112 e 227.
204
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 208
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, p. 529. …, p. 541.
205
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 209
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, pp. 116 e 117. …, pp. 119 e 120.
164
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
primeiro exemplo disso foi Francisco Tavares, seguinte o problema estaria no vencimento,
estudante em Medicina, que foi proposto após aposentadoria, de Simão Gould. Antes de
pelo Reitor para o cargo de Demonstrador de adiantar qualquer quantia, opta primeiro por
Matéria Médica em 1773210. Mas este não foi questionar Pombal devido à rápida passagem
caso único, ainda no mesmo ano, um outro do Lente pela instituição215.
aluno, António Caetano, acaba também por
Antes de terminar referirei outra ação do
se destacar e o prelado não perde tempo e
Reitor neste domínio. O que foi possível
referencia-o ao valido. Este deveria ter-se
identificar é que foi pedido ao prelado que
destacado de forma impressionante, já que D.
indicasse alguns Lentes para outras funções
Francisco de Lemos indica que tudo se devia
externas à instituição. O primeiro exemplo foi
fazer para garantir que o estudante seguisse
em 1774 quando sugere, a pedido de Pombal,
a vida académica211. No ano seguinte nova
José Monteiro da Rocha216 para uma conezia
descoberta do Reitor: Caetano Rosado, que foi
magistral na Sé de Leiria217. Dois anos depois o
por si indigitado para Demonstrador em Física
mesmo sucede e o bafejado é o mesmo. Tratava-
Experimental212.
se, em 1776, de indicar o Principal do Real
Mas para o bom andamento das aulas era Colégio dos Nobres das Três Províncias. Desta
também necessário outro tipo de ajudantes. feita o Reitor entende que tal cargo deveria
Em 1773 colocou-se o problema de que certas ser ocupado por um Lente da Universidade e
aulas teriam excesso de alunos e alguns propõe de novo o matemático218.
professores queixaram-se disso mesmo.
Embora não haja mais referências podemos
Assim, Pombal encarrega o Reitor de tratar de
questionar até que ponto o Reitor não
arranjar alguns ajudantes ou de promover um
influenciou também a escolha de João
maior número de substitutos213.
Marcelino dos Santos para Bispo de Angra, em
A questão dos vencimentos, apesar de breve, 1774. Se atentarmos ao agradecimento de tal
também se fez sentir nas cartas analisadas. benesse podemos ficar com essa impressão,
A maior preocupação do Reitor esteve na “E como tambem tenho tantos motivos p.ª
atribuição de determinados ordenados estimar a nomeação que S. Mag.e foi servido
que porventura pudessem causar algum fazer do Provisor deste Bispado p.ª Bispo da
descontentamento entre o corpo docente. Cathedral de Angra; beijo igualmte por ella as
Assim aconteceu com o vencimento de Luís Maos de V. Ex.ª; reconhecendo neste benef.º
Cecchi, para o qual o prelado, tendo em da Lembr.ª e da Protecção de V. Ex.ª”219.
conta as suas competências, estabelece um Retomando a conclusão anterior, de que esta
valor que apresenta ao Marquês214. No ano tarefa foi conjunta, podemos categoricamente
afirmar que nesta questão continuamos a ter
210
Viria a prosseguir a carreira académica chegando
a Lente em 1783. Ver Teófilo Braga, Historia da
Universidade de Coimbra …, p. 511. de 7 de novembro de 1772 - Manuel Lopes d´ Almeida,
211
António Caetano do Amaral acaba por se destacar na Documentos da Reforma …, p. 51.
Academia Real das Ciências. Ver Teófilo Braga, Historia 215
Pombal sugere que lhe seja dada metade do
da Universidade de Coimbra …, pp. 518 e 519. vencimento devido a esse mesmo facto. Ver Teófilo
212
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, pp. 511
…, pp. 552 e 553. Na resposta a esta nomeação o e 512.
valido refere que o eleito não iria apenas servir como 216
Este já antes teria sido beneficiado pelo Reitor:
Demonstrador mas, também, de Substituto e, nesse em 1772 o prelado trata de apontar o matemático
sentido, entende que seria necessário questionar de ao Marquês e, pouco depois, entra na docência na
novo o Reitor sobre a sua nomeação. Quanto à decisão Faculdade de Matemática - ver Décio Ruivo Martins, “As
final não foi possível encontrar mais nenhuma missiva - ciências físico-matemáticas…”, p. 219.
ver Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 217
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 144 e 145. …, pp. 543 e 544.
213
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 218
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, p. 108. …, p. 238.
214
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra 219
Carta de 18 de janeiro de 1773, ANTT, Ministério do
…, pp. 443 e 444. A proposta foi aceite conforme carta Reino, Maço 609, Caixa 711.
165
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
dois polos decisórios. necessidade levou a que muitas das obras
fossem de autores não nacionais; para Manuel
A este assunto, dos Lentes, é ainda possível
Augusto Rodrigues foi a ausência de obras de
associar um outro, o do desenvolvimento
qualidade de autores portugueses que levou a
científico. Isto porque as poucas referências
tais escolhas225. Na fonte analisada isso mesmo
encontradas (2 em 131, Gráfico 2) dizem
é visível, os compêndios referenciados são
respeito a alguns lentes e à Congregação de
todos de autores estrangeiros.
Medicina220.
Passando então à análise, o tema dos
Em 1773 o Reitor reporta ao ministro o sucesso
Compêndios esteve muito próximo dos
que foi a ida do lente Vandelli às minas de
já analisados com 34 referências em 131
carvão da Figueira da Foz, referindo que se
missivas (Gráfico 2). A sua presença foi
tratou de um achado. Desta resultou a ida
bastante vincada, acabando por se fazer sentir
de várias amostras para o museu para serem
interruptamente de 1772 a 1775. Tal como já
analisadas pelos restantes lentes221.
anteriormente concluímos para outros temas,
No caso que envolveu a Congregação de o que aqui também ficou evidente é que este
Medicina, estamos perante a resposta a uma assunto foi uma tarefa conjunta. Mas mais do
preocupação do Marquês. O mal de S. Lázaro que isso, nesta tarefa participou ainda uma
(lepra), que ainda não teria cura, atormentava terceira parte, a Real Mesa Censória, o que por
a colónia brasileira: para tentar resolver o sua vez não seria do agrado do Reitor, levando
problema o Marquês solicitou que ele fosse assim a uma breve tensão. Esta submissão
examinado pela dita congregação, em conjunto que representava um controlo ideológico
com João Francisco Ravin, médico que durante não se deu apenas na Universidade, mas foi
muitos anos trabalhara no Brasil, no sentido transversal a todos os domínios do Reino226.
de se encontrar um melhor tratamento222. E a tensão já se tinha feito sentir ainda antes
Assim deveria a congregação manter uma ativa da aplicação da Reforma: em julho de 1772 já
correspondência com Ravin mesmo quando Fr. Manuel do Cenáculo se opunha a qualquer
este fosse para o Rio de Janeiro e, por sua vez, ideia de isenção da Universidade quanto à
deveria ser realizada uma constante atualização questão dos compêndios227.
do assunto. E em todos estes passos, deveria
No final do ano o problema ainda se
então intervir o Reitor assegurando-se que
mantinha e o prelado teve que se dirigir
tudo corria conforme o estipulado.
ao ministro para dissipar algumas dúvidas.
Assim, pouco contente com esta situação de
4.1.3. Compêndios dependência, dirige-se a Pombal apontando
certas contradições com o estipulado nos
Como se disse, uma das inovações da Reforma
Estatutos228. Na resposta, de forma esquiva
foi a adoção dos Compêndios que passaram
segundo Teófilo Braga, o ministro aponta a
então a substituir as postilas223. Seria necessário
superioridade da vontade Régia para assim não
que estes fossem não só atualizados, no que
diz respeito aos progressos da época, mas
também que fossem claros e breves224. A
em Portugal (1772-1902), Lisboa, Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, 2005, p. 16.
220
Quanto aos anos encontrados foram apenas dois, 225
Manuel Augusto Rodrigues, “Alguns aspectos da
1773 e 1774.
Reforma …”, p. 214. Para saber mais sobre alguns dos
221
Este produto foi considerado de altíssima qualidade.
autores escolhidos, ver, Manuel Augusto Rodrigues, A
Ver Carta de 10 de março de 1773, ANTT, Ministério do
Universidade de Coimbra…, p. 42.
Reino, Maço 609, Caixa 711. 226
Rómulo de Carvalho, História do ensino em Portugal
222
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, pp. 467 e 468.
…, pp. 150 a 153. 227
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
223
Genoveva Marques Proença, D. Francisco de Lemos…,
…, p. 451.
p. 24. 228
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …,
224
Paulo Merêa, Estudos de história do ensino jurídico pp. 451 e 452.
166
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
incomodar nenhuma das partes229. Nas suas também procurar preencher algumas lacunas
palavras fica visível que a situação não se iria de determinados compêndios a usar nas aulas.
alterar e que a sua preocupação seria mesmo Muitas das obras utilizadas foram estipuladas
o controlo ideológico, “O Tribunal da Meza pela Junta de Providência Literária, mas não
Censoria he mais antigo do que os Estatutos. foi possível tratar de tudo e foi esta falha
[…] E a Universidade, e as suas Congregaçoens; que os reformadores tiveram de suprir233.
posto que sejam de tanta autoridade; nem Assim, o método de escolha foi o seguinte: o
são Tribunaes Regios, como os dous asima Reitor reunia a respetiva Congregação e, em
referidos; nem estamparam nunca as suas conjunto, seria escolhido o autor e a obra
mesmas Concluzoens, sem pedirem Licenças. e logo depois cabia ao prelado indicá-lo ao
[…] seria isto o mesmo que abrir huma valido para a respetiva aprovação, embora
Palestra para Gladiadores futuros. […] E daqui fosse também necessário passar pelo crivo da
viria a resultar huma guerra de penna entre Real Mesa Censória. Isso mesmo aconteceu
Censores Regios, e Academicos, que nunca se com os livros de Logica e Metafisica de António
acabasse”230. Genovese em 1773234. E, no mesmo ano, foram
também indicadas as obras de M. Bézout
Outro dos problemas patentes na
para Matemática235. Outro caso idêntico data
correspondência foi mesmo o atraso dos livros
já de 1775 e diz respeito à obra de Heinécio,
para as aulas. Como a tipografia universitária
Elementos de Filosofia Racional e Moral236
ainda estaria em construção, coube à
tipografia régia tratar das impressões que 233
Segundo Ana Cristina Araújo, parte considerável
posteriormente seriam enviadas, por mar (pelo desses manuais já estariam na livraria pública do
porto da Figueira) ou por terra (através de Paço das Escolas – ver Ana Cristina Araújo, “Dirigismo
carroças), para a Universidade. Tudo isto vem cultural …”, pp. 32. A ação de D. Francisco de Lemos
gerar o inconveniente dos atrasos na entrega quanto à questão dos Compêndios começa nesta fase:
antes da Reforma a ele coube escolher os compêndios
dos livros para as aulas, o que ficou visível para Teologia - ver Genoveva Marques Proença, D.
na correspondência do Reitor, que por várias Francisco de Lemos…, p. 16. Para o mesmo curso é
vezes solicitou que o envio se apressasse. possível ver as obras por si escolhidas em D. Francisco
Esta situação chegou mesmo a gerar alguns de Lemos, Relação Geral..., pp. 22 a 24. Já quanto aos
restantes cursos, o Reitor fornece a mesma informação
extremos como foi o caso do adiamento da - D. Francisco de Lemos, Relação Geral..., pp. 56 a 58, 69
abertura de algumas Faculdades em 1772231. e 70, 82 e 83 e 103.
Nesta fase em que a dependência de Lisboa 234
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
era uma evidência clara, a ação do Reitor não …, pp. 473 e 474. O mesmo já foi evidenciado por
Genoveva Marques Proença, D. Francisco de Lemos…,
envolveu apenas o Marquês mas, também, p. 25. A resposta do Ministro é bem clara quanto ao
Nicolao Pagliarini232. Pombal refere que o Reitor processo então utilizado - Manuel Lopes d´ Almeida,
deveria dirigir-se a este, um dos Diretores da Documentos da Reforma …, p. 75. Já após a aprovação,
Imprensa Régia, para assim participar quais as o Reitor foi rápido em ordenar a impressão devido à
necessidade que das obras se fazia sentir. Ver Carta de
necessidades mais urgentes mas, apesar disso, 1 de março de 1773, ANTT, Ministério do Reino, Maço
Pombal nunca se afastou desta tarefa. 609, Caixa 711. Quanto aos autores dos compêndios
ver José Antunes, “Notas sobre o sentido ideológico da
Mas não foram apenas as impressões que Reforma…”, p. 188.
requereram a atenção de ambos, era necessário 235
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 515. Em 21 de outubro do mesmo ano, as obras
229
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra recomendadas acabaram por ser aceites - Manuel
…, p. 451. Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, pp. 113
230
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma e 114. Uma das primeiras atividades de José Monteiro
…, p. 58. A resposta, esclarecedora, acabou por ter o da Rocha, Lente de Matemática, foi mesmo a tradução
efeito pretendido, pois o prelado não voltou a referir o de algumas obras e nestas se incluem as de Bézout - ver
assunto apesar de esta situação não ser a ideal para ele. Décio Ruivo Martins, “A Faculdade de Filosofia Natural
231
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra da Universidade de Coimbra…”, p. 6.
…, p. 546. 236
Foi aprovado em fevereiro do mesmo ano, Manuel
232
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, pp. 165
…, p. 60. e 167.
167
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
e, também, às obras do Abade Bossuet237. pelo próprio Pombal. E, mais uma vez, quem
Mas as escolhas que tiveram a mão do Reitor tratou de aplicar essa censura foi o prelado.
não foram apenas as expostas238. O prelado Mas a sua ação foi ainda mais complexa: a este
fazia questão de incutir nos alunos um certo cabia também assegurar que as Congregações
sentimento anti-jesuítico e, nesse sentido, em nada se afastassem das novas correções. O
sugere ao valido que aprove a impressão de primeiro exemplo disso mesmo data de 1773
dois discursos onde se evidenciam os estragos e diz respeito à obra de Genovese à qual o
perpetrados pela ordem239. Marquês aplica uma profunda revisão 241. O
mesmo se passou com Heinécio e a sua obra
Os livros usados durante este período não
os Elementos, já atrás referida242. O grande
foram apenas impressos em Lisboa: a nova
problema em ambas era mesmo a referência
Imprensa da Universidade também conseguiu
a Aristóteles e à sua obra, perigo a que logo o
aprontar alguns manuais, embora em menor
Reitor acudiu243.
número. Ainda antes do término das obras e,
muito provavelmente, devido à necessidade de Mas é necessário também destacar outra
imprimir mais livros, o Reitor opta por ordenar das ações do Reitor, que consistia naquilo
que se iniciem as impressões ainda em 1773240. que podemos chamar de monopólio das
impressões e vendas. Quanto às vendas, o
Para além do que ficou exposto, a fonte
prelado, em 1 de março de 1773, pede ao
analisada foi capaz de nos oferecer mais
Marquês que intervenha proibindo os livreiros
informações e uma delas foi a aplicação da
de mandar vir de fora os compêndios usados
censura nas obras escolhidas. O que podemos
na instituição, tornando assim necessário aos
concluir é que os manuais não só foram revistos
alunos adquirir os manuais na Universidade244.
pela Real Mesa Censória mas também o foram
A outra preocupação estaria relacionada com o
monopólio das impressões de algumas obras.
237
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, p. 166.
Nesse sentido, pede a Pombal que cedesse o
238
Para além dos referidos e, apesar da fonte não nos dar privilégio das impressões da obra Elementos
essa informação, sabemos que já em 1776 o Reitor opta (de Euclides) e, também, das Ordenações do
por propor um compêndio para as faculdades jurídicas. Reino, estando estas últimas nas mãos do
Este seria de Selvaggio, Institutiones Canonicae, e viria
substituir as Instituitiones Ecclesiasticae de Fleury - ver
Mosteiro de S. Vicente245 e as primeiras no
Paulo Merêa, Estudos de história do ensino jurídico em
Portugal …, pp. 22 e 23. 241
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
239
Carta de 1 de março de 1773, ANTT, Ministério do …, p. 76. O Reitor responde a 1 de março do mesmo
Reino, Maço 609, Caixa 711. ano, referindo que depressa se cumpriram as alterações
240
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra - ANTT, Ministério do Reino, Maço 609, Caixa 711. As
…, p. 484. José Antunes aponta 1774 como o ano das mesmas alterações foram já evidenciadas por Genoveva
primeiras impressões na tipografia académica, mas Marques Proença, D. Francisco de Lemos…, pp. 25 e
se analisarmos a missiva a que atrás se fez referência também por Teófilo Braga, Dom Francisco de Lemos
podemos ver que estas poderão ter começado ainda e a Reforma da Universidade de Coimbra. Lisboa:
antes dessa data - José Antunes, “Notas sobre o sentido Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894. p.
ideológico da Reforma…”, pp. 152. Em junho de 1773 XXXVIII.
o Reitor refere que estaria prestes a colocar os prelos 242
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
para se começarem as impressões e se esta ação logo …, pp. 167 e 168.
se deu então estas poderiam ter começado antes de 243
Esta reação a obra de Aristóteles deve-se,
1774. Quanto às primeiras obras impressas parece principalmente, a sua natureza especulativa e
não haver dúvidas que foram as de Bézout, Genovese pela vontade de a substituir pelos novos métodos
e Van Espen - José Antunes, “Notas sobre o sentido experimentalistas.
ideológico da Reforma…”, p. 152; e também, Manuel 244
Carta de 1 de março de 1773, ANTT, Ministério do
Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, pp. 148 Reino, Maço 609, Caixa 711. Não foi possível encontrar
e 149. Quanto a Van Espen é necessário referir que a a resposta ao pedido mas se tivermos em conta que
adoção do seu Comentário apenas se deu por não ter Pombal pretendia fazer dos ganhos da imprensa um
sido possível encontrar nenhum melhor e de tal forma rendimento para a Universidade, então a pretensão do
não agradava que acabou por ser abandonado - Paulo Reitor poderia ter sido aceite.
Merêa, Estudos de história do ensino jurídico em 245
A mesma ideia foi já referida por Teófilo Braga,
Portugal…, p. 23. Historia da Universidade de Coimbra …, pp. 520 e 521
168
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
169
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
age mandando prender o infrator e entregá-lo que o objetivo seria mesmo fazer deste caso
ao Reitor para este proceder à sua expulsão252. um exemplo. Pombal decide então não só
aplicar castigos aos infratores, como também
No caso dos estudantes as informações são mais
ao Reitor do dito colégio e, obviamente, a
numerosas. Em 1774 D. Francisco de Lemos foi
mão disciplinadora de Carvalho e Melo foi o
encarregado de resolver um caso que envolvia
prelado.
um ilustre, um filho do Morgado de Mateus.
Chegou ao conhecimento do Marquês que o
estudante, no colégio de S. Jerónimo, estaria a 4.1.5. Os Estudos Menores no Colégio das
ser vítima de uma companhia pouco benéfica, Artes de Coimbra
o seu criado, e que o seu comportamento
A questão dos Estudos Menores e da
incorreto era uma consequência dessa
reatualização que este grau de ensino sofreu
influência. Foi então ordenado ao prelado que
é bastante complexa257. Esta temática está
interviesse e que despedisse o dito criado e
dividida em dois momentos, a primeira que
advertisse o estudante das suas faltas253.
se inicia em 1759 com a expulsão dos jesuítas
E logo no mesmo ano surgiram mais problemas. e a criação da Diretoria Geral dos Estudos e
Nesta altura alguns estudantes estariam a ser um segundo momento, onde esta passa para
desencaminhados por um forasteiro para o controlo da Real Mesa Censória, no início
interesses que não eram os estudos. Perante da década de setenta258. Como é óbvio, o que
isto, o Reitor não perde tempo e manda para esta exposição importa é apenas essa
encerrar os focos de distração e ordena a segunda fase e, mais precisamente, a realidade
expulsão do dito desencaminhador254. No coimbrã. Não foi dos temas mais tratados,
ano seguinte novo problema se dá, desta foi referenciado por 7 vezes nas missivas
vez com alguns infratores que se faziam analisadas e apenas foi possível encontrar
passar por estudantes da Universidade. Este informações para os anos de 1773 e 1774.
grave inconveniente leva Pombal a ordenar a
Mas também nesta matéria o Reitor foi
expulsão dos patrocinadores dos distúrbios, e
capaz de deixar a sua marca. Neste segundo
por sua vez, indica o Reitor como responsável
para o cumprimento da tarefa255. Em 1776 257
Rómulo de Carvalho, História do ensino em Portugal
surge então a última informação sobre atos de …, p. 430.
indisciplina. Dois porcionistas do Colégio de S.
258
António Alberto Banha de Andrade, “A Reforma
Pombalina dos Estudos Menores em Portugal e no
Paulo, na sequência de desordens havidas no Brasil (linhas gerais de um livro que importa escrever).”
mesmo Colégio, teriam fugido durante a noite, in Revista de História, nº 112, São Paulo, [s.n.], 1977,
e o Reitor depressa atua e manda prendê- p. 459. O mesmo autor desenvolveu a sua ideia em A
los ficando à espera da decisão do Marquês Reforma Pombalina dos estudos secundários (1759-
1771). Contribuição para a história da pedagogia em
sobre ulteriores procedimentos a adotar256. Portugal, 3 vols, Coimbra, Universidade de Coimbra,
Esta também não se fez esperar e ficou claro 1981-1984; António Cruz, “Nota sobre os Estudos
Menores na Reforma Pombalina” in Pombal Revisitado.
252
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma Comunicações ao Colóquio Internacional organizada
…, pp. 144 e 145. pela Comissão das Comemorações do 2º Centenário
253
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma da Morte do Marquês de Pombal, Vol. 1, nº 34, Lisboa,
…, p. 132. Editorial Estampa, 1984; Rómulo de Carvalho, História
254
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra do ensino em Portugal …, pp. 429 a 437 e 452 a 457;
…, pp. 547 e 548. O Marquês felicitou, em carta de Joaquim Ferreira Gomes, “O Marquês de Pombal
fevereiro de 1774, “o Louvável cuidado de cortar pela criador do ensino primário oficial” in Revista de História
raiz tudo o que pode servir-lhes [aos estudantes] de das Ideias (O Marquês de Pombal e o seu tempo), Tomo
distração nociva” - ver Manuel Lopes d´ Almeida, I, 1982; Jacques Marcadé, “Pombal et l´enseignement:
Documentos da Reforma …, pp. 138 e 139. quelques notes sur la reforme des Estudos Menores”
255
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma in Revista de História das Ideias (O Marquês de Pombal
…, pp. 209 e 210 e também, Genoveva Marques e o seu tempo), Tomo II, 1982 e, também, Américo da
Proença, D. Francisco de Lemos…, pp. 45 e 46. Costa Ramalho, “Um programa de exame de Grego da
256
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, Reforma Pombalina” in Revista de História das Ideias (O
pp. 230 a 232. Marquês de Pombal e o seu tempo), Tomo II, 1982.
170
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
171
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
oficiais e professores267. Em matéria de informações, contudo, é
necessário referir ainda outros aspetos: o
Mas a sua ação não fica por aqui, a ele também
Reitor, a pedido do Marquês, tratou de remeter
se deve a ideia de criar o que Teófilo Braga
vários documentos sobre o período anterior
chamou uma Faculdade de Letras268. Para isso
à Reforma. Para o ano de 1772 existem duas
pretendia reaproveitar a Faculdade de Artes
referências nesse sentido271. E como exemplo
para aí se começarem a lecionar a gramática,
do tipo de documentação enviada, podemos
retórica e poética, propondo que “podiam as
referir os Estatutos originais de D. Manuel I272.
Letras humanas substituir n’esta Universidade
No ano seguinte volta a expedir documentação,
o lugar que tinha usurpado aquella tenebrosa
desta feita, uma relação da vida económica da
e vã metaphysica [arabigo-peripathetica]” e
Universidade antes de 1772273.
que o corpo de professores destas disciplinas
se organizasse em congregação como nas Merecem ainda uma referência, no domínio
faculdades maiores269. Apesar de esta ideia ser administrativo, as duas incorporações de bens
aceite, e de Pombal pedir que logo se traçasse (do Colégio da Madre de Deus de Évora e das
o plano para que a realização do projeto se igrejas de Alcafache e da Cumieira) no colégio
concretizasse270, não foi possível encontrar das Artes274, assim como o envio para Lisboa
mais nenhuma informação sobre o assunto na da prata confiscada ao Colégio dos Jesuítas
fonte analisada. (1773)275, a pedido do Marquês.
Como se disse, a questão administrativa está
5. A importância da administração ligada ao tema dos funcionários. Mais uma
vez não foi dos assuntos mais discutidos, 9 em
5.1. A preocupação com a boa
131 missivas. Mas apesar disso foi um assunto
administração da Universidade
transversal aos anos estudados. Por outro
A questão administrativa diz respeito, como lado, as poucas referências podem muito bem
é óbvio, a algumas decisões de âmbito ser entendidas como uma consequência da
administrativo mas também engloba a questão liberdade dada ao Reitor nesta matéria, pois a
dos funcionários e dos confiscos. Quanto ao ele coube a escolha de uma parte considerável
primeiro assunto as referências não foram dos funcionários.
muitas, 13 em 131 mas, apesar disso, manteve-
As escolhas começam logo em 1772: o Reitor
se presente em todo o período estudado. Mais
organiza as congregações das faculdades de
uma vez foi possível ver uma preocupação já
Teologia e Cânones e preside à designação dos
presente em outros assuntos, a necessidade
que deveriam exercer as funções de Diretor,
de manter Pombal sempre informado sobre
Fiscal e Censores; promove ainda a eleição
as questões da vida universitária. Prova clara
do Secretário da de Teologia, que recai no
foi mesmo o Balanço Geral da Universidade,
Dr. Manuel Pacheco de Resende (que não
realizado anualmente, e que o prelado fazia
era lente)276. Mas é no ano seguinte, e pelas
questão de lhe enviar. Desta forma, podia ele
palavras de Pombal, que se tornam claras
aceder a um variado leque de informações não
as competências do Reitor neste domínio:
só administrativas mas, também, entre outras,
sobre o progresso dos alunos. 271
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 459 e 465.
272
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
267
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma …, p. 465.
…, p. 226. 273
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
268
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra …, p. 485.
…, p. 542. 274
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
269
Pretendia também promover os respetivos …, pp. 224 a 226.
professores das ditas matérias - ver Teófilo Braga, 275
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
Historia da Universidade de Coimbra …, p. 543. …, pp. 72 a 74.
270
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma 276
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, pp. 137 e 138. …, p. 448.
172
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
173
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
reitorado (1770-1779).
que consistia na comemoração da nova contratar, já que poderia atestar pessoalmente
fundação da Universidade287. No ano seguinte as qualidades dos recrutados.
continua a agir com alguma liberdade. Escolhe
Mas não só: dois aspetos essenciais passaram
o local, a Sala Grande do Paço das Escolas,
também pelo seu escrutínio, a escolha das
para a recitação da oração latina em honra do
várias obras adotadas para o ensino e a
aniversário do Rei D. José I288.
disciplina aplicada a todo o corpo académico.
Relativamente ao que se deveria fazer no caso
Outra conclusão importante é a de que todo
de uma visita ilustre, encontramos um único
o período de 1772 a 1776 só foi possível e
caso em 1776, respeitante à visita do príncipe
frutífero através da constante interação entre
russo Yossopof. O Reitor questiona o ministro
dois polos decisórios, Lisboa e Coimbra. E
quanto à forma de receber o ilustre e a resposta
assim aconteceu, independentemente de
foi clara. Este refere que não seria de preparar
quem tomava a iniciativa (o Reitor ou o
qualquer cerimónia, mas arranjar uma visita
Ministro de D. José). Até nos momentos de
guiada a toda a Universidade e que deveria
alguma divergência, os problemas só ficaram
ser acompanhado pelos representantes que
resolvidos por uma atuação conjunta.
melhor se conseguissem expressar em francês.
O tom geral era dado pela recomendação de
que o Reitor teria de o “tratar com toda a
atenção”289.
Conclusão
O que ficou evidente é que o Reitor teve uma
muito considerável liberdade de ação e esta foi
transversal à maioria dos assuntos expostos
neste trabalho. No seu primeiro reitorado
esta liberdade não só traduziu a confiança
depositada pelo Marquês mas, também, a
posição privilegiada do Reitor em relação à
Universidade. Tratou-se então de uma ação de
proximidade e presença constante, o que lhe
trouxe a vantagem de intervir prontamente
sem mais demoras. Assim se passou com
as várias obras realizadas no âmbito da
Reforma: muitas foram as decisões imediatas
que careceram de uma intervenção rápida,
visto que qualquer demora podia significar
mais custos. Esta forma de atuar manteve-se
também noutras questões. O recrutamento
de lentes, substitutos, auxiliares e demais
funcionários foi, na sua maioria, obra de
Francisco de Lemos. Isto porque estava em
melhores condições de garantir quem se devia
287
Teófilo Braga, Historia da Universidade de Coimbra
…, p. 514.
288
Mudança aceite pelo valido - Manuel Lopes d´
Almeida, Documentos da Reforma …, p. 154.
289
Manuel Lopes d´ Almeida, Documentos da Reforma
…, p. 242.
174
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
175
FRAGMENTA HISTORICA O intermediário entre o arquiteto e a sua obra. A
atuação de D. Francisco de Lemos no seu primeiro
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176
Carlos F. T. Alves FRAGMENTA HISTORICA
177
RAIMUNDO DA CUNHA MATOS,
UM PORTUGUÊS VIAJANDO PELO SERTÃO DO BRASIL
Resumo Abstract
Este artigo faz parte de um projeto sobre This paper belongs to a major project on the
a ocupação do Sertão brasileiro no século exploration and colonization of the Brazilian
XIX. Discute o papel dos viajantes cientistas hinterlands, the so-called Sertões in the
e militares na internalização do Império nineteenth century. The paper focuses on
do Brasil, enfocando a vida profissional e a the figure of Raimundo da Cunha Matos,
construção intelectual de Raimundo da Cunha a Portuguese Brazilian Intelectual, Military
Matos, português naturalizado brasileiro, Officer, Provincial Deputy and Governor of
membro fundador do Instituto Histórico the Goias Province, founding member of the
Geográfico Brasileiro (IHGB), governador de Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
armas e deputado pela Província de Goiás. Na (IHGB). Matos undertook several travels in
transição do Reino para o Império do Brasil, ele the Brazilian hinterlands during the time of
empreendeu viagens ao hinterland do território, the political shifts experienced by the her
oportunidade em que descreveu e localizou independence from Portugal. In his travels he
fronteiras naturais, fauna e flora, rios, gentes took notes and classified the natural borders,
e terras, problemas nas áreas de mineração, unknown rivers, new vegetal and animal
destruição da natureza, abandono das regiões species and mining and productive issues in the
auríferas na província de Goiás. Contribuiu gold region of Goiás Province, besides its notes
para as soluções em face das dificuldades de on the local people and their culture. His main
povoamento, produção e mercantilização do goal was to propose solutions on how to tackle
vasto território pouco conhecido. colonization and production problems and how
to develop commercially this huge unknown
and underexplored region.
Palavras-chave Keywords
Viajantes, Império do Brasil, Raimundo da Travelers, Empire of Brazil, Raimundo da Cunha
Cunha Matos, Província de Goiás, Sertão. Matos, Province of Goiás, Sertão.
Artigo recebido em: 18.07.2016 | Artigo aceite para publicação em: 02.09.2016
1
província na Assembleia Legislativa do Rio de
Raimundo da Cunha Matos, um português em Janeiro, capital do Império. O roteiro de viagem
viagem pelo Sertão do Brasil do Rio de Janeiro ao Pará e As memórias da
Mattos (1776–1839), nascido no Faro, região campanha do Sr. D. Pedro de Alcântara, ex-
do Algarve, muito cedo sentou praça na imperador do Brasil no reino de Portugal,
Companhia de Artífices do Regimento de com algumas notícias anteriores ao dia do
Artilharia. Serviu ao Império luso por dezoito desembarque, publicadas em 1823 e 1833,
anos na costa da África até alcançar o posto respectivamente, foram consideradas por seus
de tenente-coronel, quando “faria o roteiro contemporâneos “o tratado mais completo e
dos administradores coloniais atravessando exato” dos acontecimentos entre 1822 e 1824
o Atlântico”, a fim de continuar a prestar (Barbosa, 1903: 108). Acompanhante da volta
serviços militares ao Império do Brasil. Chegou do imperador D. Pedro I e de sua família para
ao Brasil designado a combater a Revolução Portugal, Cunha Matos deixou registrados os
Pernambucana de 1817, em cuja província últimos dias da corte entre a saída do Brasil
permaneceu durante dois anos organizando e e a chegada a Portugal, em plena revolução
instruindo tropas. A lealdade manteve-se até constitucionalista na cidade do Porto.
a precipitação dos eventos que levaram ao Este estudo alude brevemente a
rompimento do Brasil com Portugal em 1822. representações do sertão e do sertanejo
Cunha Matos manteve-se “colado ao ideal da presentes na Corografia histórica da Província
grande nação portuguesa”, identidade que de Goyaz (1824), de Raymundo José da Cunha
“seria igualmente repassada como um marco Mattos (1874: 5–150), em Barbosa (1903:
distintivo em seu legado escrito.2 Porém, soube 83), Brasil (1924: 177) e Rodrigues (2010:
penetrar no movimento de independência, 34), protótipos de narrativas de experiência.
contrário aos militares portugueses que Nelas, os autores procuram fixar em linguagem
resistiam em aceitá-lo e lutavam pela textual os elementos da cultura sertaneja, as
restauração da colônia do Império português. características espaçotemporais, registros
Em 1823, foi promovido a brigadeiro e geográficos e eventos históricos. Após a
despachado governador das armas para a Independência do Brasil (1822), as viagens
longínqua província de Goiás, nomeação essa etnográficas adquiriram sentido específico e
provavelmente motivada pelo acirramento passaram a responder pelos princípios liberais
dos conflitos entre portugueses e “brasileiros”, do século XIX – formar a nação, defender a
no momento mais tenso pós-independência unidade territorial e construir uma identidade
do Brasil. Entre 1826 a 1833, representou a nacional –, pilares sobre os quais forjaram uma
historiografia legitimadora da nascente naçao
1
Professora pesquisadora da Universidade Federal do brasileira.
Tocantis, UFT, Doutorado pela Universidade de São
Paulo, USP. Pós-doutorado, Centro de Estudos Sociais,
Com a independência, proclamada em
CES, Dr. Miguel Cardina (supervisor) Universidade de 1822, o território brasileiro manteve-
Coimbra, UC e Universidade Federal do Rio de Janeiro, se integrado, apesar das revoltas locais
UFRJ, Dr. Marcos Bretas (supervisor). que agitaram os primeiros tempos de
2
“Eu sou Europeu tão honrado como o melhor nossa autonomia política. Mantinha-
de nascimento em Portugal: sou Brasileiro, e de se ainda, no entanto, um enorme
sentimentos tão puros como o melhor Português desconhecimento do verdadeiro
nascido no Brasil: não faço distinção entre um, e outro
Reino; protesto viver, e morrer por ambos, e também
tamanho do território brasileiro, de
protesto à face do Céu, e da Terra que serei implacável suas riquezas e de sua história. Com o
e eterno adversário de todos os adversários do Brasil e objetivo de dar sustentação ao projeto
de todos os inimigos de Portugal, que quiserem atacar de construção do novo Estado que se
a honra, a dignidade, e os interesses do Brasil Pátria formava, foi criado o Instituto Histórico
minha cuja sagrada Égide me ampara, cuja substância e Geográfico Brasileiro – IHGB, em
me alimenta, cujos habitantes me honram, e cujo 1838. O IHGB tinha, dentre as temáticas
Governo me encaminha a uma feliz tranquilidade”
(Kodama, 2008: 392).
pesquisadas, uma dedicada às viagens
180
Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
181
FRAGMENTA HISTORICA Raimundo da Cunha Matos,
um português viajando pelo Sertão do Brasil
literário, uma produção intelectual de relatos negras e as índias que existiam eram os únicos
que ensejam temas de análise e interpretação objetos de ternura dos aventureiros”, que
histórica no campo das ciências humanas mantiveram o costume de comprar escravos
em geral. A produção dos viajantes durante homens e “quase nunca mulheres [...] raras
os séculos XIX e XX – escrita e iconográfica – vezes entrou na província alguma mulher da
consolidou-se objeto de estudos e debates sua cor”.
historiográficos em vertentes e conteúdos
Observados sob um mesmo prisma o espaço
diversos, delimitados pelas abordagens
físico e os habitantes, Cunha Matos credita que
teórico-metodológicas das relações entre
somente um “poderoso braço” conseguiria tirar
história e literatura. A expressão “literatura de
o “povo da apatia em que se conservava”. Ao
viagem” data das últimas décadas do século XX
longo do itinerário relaciona as necessidades
e identifica “como literatura autónoma, como
da província, construindo o que se denomina
subgénero, um espólio literário (e também
“geografia da falta”:
cartográfico e iconográfico) [...], um corpus
(...) falta restabelecer e restaurar a
de textos cujas balizas cronológicas situam-se
boa-fé nos comerciantes; falta obrigar
entre os séculos XV e XIX, cuja natureza é em si
os homens ao trabalho da agricultura;
compósita e interdisciplinar e cuja actividade é falta compeli-los a empregarem-se
compartida pela Antropologia, pela Geografia na navegação; falta dar nova vida
e pela História” (Berlinck, 2007, 11). às construções de grandes barcas
A Corografia é uma compilação histórica chatas; falta consertar e desobstruir
estradas e abrir outras mais direitas
do período de descobrimento e declínio
e mais cômodas; falta reformar as
das minas de ouro (1726–1732) em Goiás.
pontes arruinadas; falta dar prêmio
Cunha Matos descreve a província de Goiás, aos maiores exportadores e tirar todos
descoberta e povoada “por aventureiros, que os embaraços aos importadores; falta
só procuravam riquezas [...] ouro, só ouro”, e abolir o direito do quinto, acabar com
as ruínas deixadas por eles após o término do as alfândegas ou registros internos;
ciclo aurífero. Apesar de condenar e registrar o repelir os índios ferozes; estabelecer
estado ruinoso da província, ocasionado pela postos militares, fortes sobre os rios e
dedicação exclusiva à exploração do ouro,6 abrir canais (Cunha Mattos, 1874, 195).
Cunha Matos avalia aquele período como o A única maneira de a província sair do estado
início de um processo civilizatório, uma vez de ruína e pôr-se nos trilhos do “progresso”
que a província foi povoada inicialmente por esbarrava na falta de infraestrutura. Os
“gente rica”, paulistas e mineiros, seguidos por caminhos ainda existentes remontavam ao
“portugueses toscos, mas industriosos”. Como século XVIII.
o objetivo dos aventureiros do ouro era “chegar,
[...] criados sobre as picadas deixadas
trabalhar, enriquecer e retornar à pátria”, não pelos índios, reaproveitadas pelos
se devam o trabalho de construir casas nem pioneiros, quase sempre sob estímulo
de estabelecer vínculos familiares. “As poucas das autoridades. Outras vezes, e contra
6
a lei, diversas trilhas marginais foram
Em Caminhos de Goiás, Chaul considera que o estigma abertas, fosse para encurtar caminhos,
da “decadência” da província atravessou o século XIX até
abreviar distâncias, fosse para fugir
o limiar da “modernidade” no Brasil: “tudo começa com
o ouro [...] tudo acaba também com o ouro” [...]. De Silva à ação opressora dos Registros e
e Souza (1812) a Cunha Mattos (1823), do Doutor Pohl Passagens, que cobravam pesados
(1810) a Saint-Hilaire (1816), passando por D’Alincourt impostos sobre as mercadorias e
(1818), Burchel (1827), Gardner (1836) e Castelnau metais preciosos que por aí veiculavam.
(1843) e chegando aos historiadores contemporâneos Desde 1733 atuava uma lei que impedia
que tratam o período da mineração e da agropecuária a abertura de estradas justamente para
em Goiás, além de intelectuais de outras cepas e
combater o contrabando (Lenharo,
anônimos da escrita, a aceitação da decadência da
sociedade goiana no período pós-minerador é unânime 1993: 48).
(Chaul, 1997: 34).
182
Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
À falta de comunicação via estradas somava- de ouro que tiram (Cunha Mattos,
se o “pouco pendor” dos habitantes para o 1874, 173).
trabalho efetivo, pois “os braços são poucos Pelo olhar dos descendentes da bastardia, os
e os homens não aproveitam as vantagens da homens livres, registra sua impressão num
natureza”. O problema demográfico dificultava misto de condescendência e reprovação. De
a ocupação produtiva da terra e gerava o passagem por uma vila, encontrou um fundidor
desinteresse da população em produzir de “fenomenal habilidade” que, no entanto,
excedentes, única forma de criar riquezas e “era um poço de preguiça”. (...) “o povo de
obter receitas fiscais graças à circulação de Goiás é dotado de grandes talentos para todas
mercadorias. Um círculo no qual os analistas as artes: a preguiça, o contentarem-se com
do período perdiam-se em conjecturas que o pouco, a lembrança da nobreza e riqueza
solucionassem os entraves econômicos em dos seus maiores, faz que tão extraordinários
uma província extensa, habitada por quase benefícios da natureza sejam por eles
150 mil almas espalhadas em um território de desprezados”.
617 mil km2, com menos de três habitantes por
quilômetro. No itinerário, Cunha Matos extraía dos
moradores as memórias dos tempos de
Goyaz não tem população para bem
povoar uma zona sequer de seu imenso “abundância”, bem como registrava seus
território; não tem hábitos de trabalho clamores por melhorias das estradas por onde
constante, pois não vê a retribuição pudessem comerciar os gêneros produzidos
imediata do labor; não sente em si nas roças e fazendas. Sem pejo, considera
a evolução do progresso; vive vida que os habitantes inventavam tais “pretextos
languida e desanimada e, prostrados frívolos”, com o objetivo de encobrir a
sobre minas riquíssimas de ouro, não “preguiça” de trabalhar a terra: “contentam-
possui um real de seu (Taunay, 1876: se com a mendicância, com o roubo, com a
45). caça dos bosques, frutos das árvores e raízes
Segundo Cunha Matos, os homens e mulheres da terra”.
brancos habitantes da província de Goiás Ao ressaltar os prodígios da natureza em
descendiam dos primeiros povoadores e detrimento dos meios de trabalho e do
constituíam uma casta de “descendentes desenvolvimento das forças produtivas, o
bastardos”. Temendo serem confundidos com pensamento de Cunha Matos é consoante aos
os pretos, os livres e pobres, recusavam-se a dos viajantes franceses, alemães e ingleses,
trabalhar. que creditavam à terra (natureza) mais valor
Os homens livres não querem trabalhar que aos homens produtores do espaço.
para não se parecerem ou para não se Ambição e trabalho, produção e mercado são
confundirem. Lembrados das antigas conceitos balizares para comparar o mundo
riquezas de seus maiores, sabendo
“civilizado”, o qual acreditavam representar, e
que eles possuíam e trabalhavam
o distante sertão.7
com escravos, e que os homens livres
não se ocupavam no duro serviço da O olhar do viajante oitocentista, no entanto,
mineração, conservam-se em apatia
e ociosidade. Há bem poucos homens 7
“Destacava-se, nessas expedições, um olhar
livres de nascimento, que trabalhem instrumentalizado e enciclopédico a recortar, classificar,
em lavras secas ou nos rios: os escravos, nomear a natureza brasílica, tornando-a específica,
ou algum preto ou pardo liberto, são irredutível a si mesma e, ao mesmo tempo, capaz
os que por ventura e, em número mui de ser inserida quer numa geografia do mundo, nos
diminuto, extraem em o pouco metal quadros e vistas. Esse investimento em dissecar a
que ainda aparece; e é tão desgraçada natureza (re)nomeava suas formas, matizava suas
utilidades e acabava por singularizá-la perante as outras
esta gente, que para dar pasto à sua
conhecidas, sem que isso implicasse a presença de um
moleza, ou ociosidade, não trabalham olhar homogêneo, monolítico ou único” (Schiavinatto,
enquanto lhe duram algumas oitavas 2003: 617).
183
FRAGMENTA HISTORICA Raimundo da Cunha Matos,
um português viajando pelo Sertão do Brasil
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Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
185
FRAGMENTA HISTORICA Raimundo da Cunha Matos,
um português viajando pelo Sertão do Brasil
que implique uma noção de civilização mercado, que detinham o poder de registrar
demasiado vaga e pobre, em relação os descontentamentos e as ansiedades
aos conceitos de “sociedade global” ou do presente no futuro, obscureceu aquela
“formação história” (Le Goff, 1990: 65). economia de subsistência.
Mas a incorporação justifica-se pela recorrência Tal decadência significa produção incompatível
dos termos ruína, decadência, insulamento, com os moldes impostos pela economia de
nas narrativas do Oitocentos, tanto para mercado. Imputadas por juízos externos,
enunciar a degradação do espaço como para as categorias decadência e isolamento são
qualificar os moradores. Em 1819, Saint-Hilare referências dos emissários, regularmente
registrava o estado de desalento em que se externos e opõem-se diametralmente às
encontrava a província: dos habitantes. Voltados tão somente para
Minas de ouro descobertas por alguns o movimento progressivo e linear, aqueles
homens audazes e empreendedores;
julgavam a decadência como contraponto de
uma multidão de aventureiros
civilização e progresso; as populações, por sua
precipitando-se sobre riquezas
anunciadas com a exageração da avidez vez, viviam determinadas pelo tempo cíclico e
e da esperança; uma sociedade que pelo ir e vir das chuvas e das secas.
ganha hábitos de ordem sob o rigor Os aspectos do trabalho agrícola e de criação
da disciplina militar e cujos costumes voltados para a subsistência foram registrados
foram se abrandando pela influência
por viajantes dos séculos XVIII e XIX,
de clima abrasador e mole ociosidade;
representantes do Estado – administradores
curtos instantes de esplendor e
prodigalidade; ruínas e contristador e engenheiros –, cujos julgamentos tendiam
decaimento; tal é em poucas palavras a a desconsiderar as particularidades da região
história da província de Goyaz. e dos habitantes. Eram “emissários” oficiais,
cujos modos de ver e pensar as práticas de
Acrescenta o viajante que o decaimento da
trabalho e de vida não se coadunavam com a
província era “mais ou menos a [situação]
“imobilidade” espaçotemporal experimentada
de todas as regiões auríferas”. Os registros
pelos habitantes das regiões remotas.
do século XVIII e final do XIX reafirmam
Portanto, é à luz de matrizes recortadas das
incessantemente o estado de “aniquilamento
teorias econômicas vigentes no século XIX
total” da região (Saint-Hilaire, 1975: 15). Na
que é possível compreender os vereditos
tentativa de caracterizar o estado de ânimo
“pessimistas” acerca dos sertanejos.
da população, impressões de viajantes
registradas nos relatórios dos presidentes da
província – “entorpecimento”, “prostração” Trabalho e mercado, subsistência e ociosidade
“decadência”, “população desacorçoada”,
Com o fim da atividade mineradora, criou-se
convivem com sobejos louvores e promessas
a ideia de um lugar vazio – “no melhor dos
de enriquecimento, desde que os recursos
casos, o espaço passava por um meio vazio,
naturais fossem devidamente aproveitados
recipiente indiferente ao conteúdo” (Lefebvre,
por diligentes trabalhadores.
2006: 18), preenchido por discursos acerca das
Quem adotou essa categoria explicativa faltas, das carências impeditivas do progresso
para o atraso da região Norte escolheu não e da civilização, temperados com registros
valorizar a produção agrícola voltada para de potencialidades futuras. Sem um produto
a subsistência praticada por indígenas e que a distinguisse das outras “irmãs”, a região
homens livres e pobres. À luz de tal conceito, permaneceu “isolada” numa angustiante
o historiador abstrai o “real” para privilegiar procura de identidade econômica.11 A falta de
as ausências e descurar o que existe de fato. 11
A historiografia produzida sobre a região no período
O desejo dos que pensavam exclusivamente de 1970-1980 está referenciada no pensamento
numa produção agrícola direcionada para o econômico de Roberto Simonsen. que afirma:
“somente a economia de exportação é geradora de
186
Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
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um português viajando pelo Sertão do Brasil
Administradores e viajantes do XIX não viam do Estado contra a resistência dos súditos,
com bons olhos as regiões onde os modos que se descobrem como tais [...] descobrindo-
de produção cujos fins não fossem abastecer se como pagadores, como contribuintes”.12
o mercado com mercadorias agrícolas e/ No entanto, os comerciantes resistiam,
ou industriais. À agricultura de subsistência recusavam-se a reconhecer a legislação que
praticada pelos moradores associava-se a estabelecia o pagamento de taxas e impostos.
incapacidade e a falta de iniciativa para explorar
O comércio era praticado sem o
o meio natural “abundante”. Nos Oitocentos,
constrangimento dos impostos cobrados pelas
os escritos produzidos pelos estudiosos
coletorias, cuja estrutura física e de pessoal
legitimavam suas análises interpretativas sobre
era insuficiente para impedir a traficância do
as regiões afastadas do centro propulsor das
gado e dos produtos derivados que saíam da
atividades voltadas para o mercado. Em razão
província em direção ao Norte.13 Em relatório
disso, a parte Norte da província de Goiás ficou
de 1862, o presidente José Martins Pereira de
encerrada em si mesma, um centro econômico
Alencastre afirmava ser impossível estancar
alhures, que lamentava as distâncias e as
o “contrabando”, uma vez que as fronteiras
consequentes dificuldades de comunicação
abertas da província – limitadas com seis
com o “centro” político-administrativo.
outras vizinhas – exigiam policiamento
Se o declínio for associado à economia da diuturno, que não contava com recursos
província – cuja riqueza era proveniente da materiais e humanos para proceder a tamanha
produção e arrecadação de impostos –, vale vigilância. Eram recorrentes as solicitações
lembrar que o contrabando do gado cavalar dos administradores da província de Goiás por
era prática corriqueira. As coletorias eram mais polícia para dar cabo não só do tráfico de
insuficientes para coibir as saídas e entradas produtos, mas também para coibir as invasões
de mercadorias, e a grandeza territorial fazia de fazendas e arraiais, roubos de gados e
desaparecer os parcos recursos provinciais e assassinatos de autoridades, juízes, delegados.
os investimentos do governo central. Era um
A traficância entre fronteiras, comum na
território “difícil de ser policiado, os hábitos
província de Goiás do século XIX, continuou
e costumes de certas classes, e muito o uso
ao longo do XX. Desde os tempos coloniais,
de armas de defesa, tão arraigado desde
mercadorias saíam da província à revelia do
os primeiros anos” (Alencastre, 1862: 234).
fisco, mesmo quando o governo central era
Por conseguinte, a força pública nunca era
o primeiro interessado em coibir o “tráfico”
suficiente para dar cabo às contravenções. Os
de diamantes, pedras preciosas, ouro.
sonegadores e criminosos eram acobertados
Posteriormente, a traficância continuou em
contra as diligências das instituições e as
pequenos bocados, acrescida dos frutos
cadeias eram ponto de fuga de criminosos.
nativos, como coco babaçu, cera de carnaúba
A “integração” da região dependia da e castanhas. Não à toa o “contrabando” foi
construção de estradas, sem as quais a elevado a “princípio administrativo”, visto que
produção e o comércio permaneceriam a sistemática da prática venceu as leis e os
internalizados, dificultando o povoamento e regulamentos.
a integração dos moradores (Lenharo, 1993:
23). Clara demonstração de que dominar o 12
“Só progressivamente se passa a ver no imposto um
espaço territorial da região foi um processo tributo necessário às necessidades de um destinatário
que transcende a pessoa do rei, isto, esse ‘corpo fictício’
custoso, que exigiu empenho do Estado para que é o Estado” (Bourdieu, 1996: 95).
estabelecer e legitimar os dispositivos de 13
O hábito da sonegação vinha dos tempos do tráfico
coerção fiscal. Historicamente, naquela região, de escravos. “Na década de 1760, por exemplo, os
percebe-se a validade da afirmação de que “a requerentes das sesmarias nunca citavam o número
de seus escravos, conforme demonstram as duzentas
instituição do imposto foi o resultado de uma petições consultadas. O contrabando campeava”.
verdadeira guerra interna, feita pelos agentes Evitava-se a todo custo o pagamento do “imposto de
capitação e os dízimos” (Salles, 1992: 229).
188
Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
189
FRAGMENTA HISTORICA Raimundo da Cunha Matos,
um português viajando pelo Sertão do Brasil
190
Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
levara a herança colonial” (Sodré, 1967: 168). aos habitantes sobreviverem apesar do
isolamento. Se houve um desequilíbrio social
A história providencialista creditava
a partir do fim das minas de ouro, consoante
aos infortúnios estruturais um desígnio
à historiografia produzida, compreendê-lo
irremediável da falta de sorte. Nas palavras de
significa buscar seus efeitos sobre a história da
um bispo, a província de “Goiás era composta de
região. O que significa descobrir as soluções
uma população pouco favorecida da fortuna”;
atinadas para restabelecer o equilíbrio entre o
nem os “melhores desejos” seriam capazes de
meio físico e formação social do sertanejo (Cf.
tirá-la dessa situação. Um homem de formação
Candido, 1970: 29).
religiosa, cujo espírito se supõe voltado para o
plano do etéreo, mostra-se desacorçoado da Desde o início da colonização, a condição
terra onde não via esperança de melhorias, periférica do Brasil dificultava a participação
apesar da abundância da natureza, cujos nos mercados europeus, que determinavam
habitantes eram desacreditados pela falta de o produto a ser cultivado. Da mesma forma as
iniciativa e dominados pela preguiça. condições geopolíticas e as particularidades
da região Norte (séculos XVIII–XX, até mais
Em 1875, Visconde de Taunay escreveu em seu
ou menos a década de 1950) permaneceram
relatório que:
abertas aos estudiosos interessados no duplo:
Goiás, essa região favorecida, é o
história regional e totalidade histórica. Para a
centro do Brasil, cuja maior vitalidade
região é pertinente a observação de Marc Bloch
e civilização concentram-se, como é
sabido, na orla marítima, embora se ao chamar a atenção para o campo aberto das
alargue de dia para dia; Goiás não tem estruturas agrárias para o conhecimento da
população para bem povoar uma zona terra e seus habitantes.
sequer de seu imenso território; não A pesquisa sobre a história das regiões
tem hábitos de trabalho constante,
“fronteiriças e remotas do século XIX no
pois não vê a retribuição imediata
Brasil apresenta dificuldades estruturais”.19
do labor; não sente em si a evolução
do progresso; vive vida lânguida e A desproporção entre a vastidão territorial
desanimada e, prostrado sobre minas e a escassez de homens e mulheres era de
riquíssimas de ouro, não possui um real somenos importância para a cultura letrada.
de seu (Taunay, 1876: 56). Em razão disso, as experiências históricas
desse período ficaram registradas pelos
A mudança do regime de trabalho em 1889
representantes do Estado que constituíam
e a proclamação da República, afirmam
evidências indiretas do mundo sertanejo.
os historiadores locais, não modificaram
No caso específico da região Norte de Goiás,
a “situação de crescente isolamento e
grande parte dos registros referidos aos
empobrecimento”. Nota-se na história de Goiás
Oitocentos foi enviada a Goiânia, quando da
um fundo de continuidade em todos os níveis:
fundação do estado do Tocantins, em 1988.
“em Goiás, a população rural permaneceu
Os documentos que permaneceram no recém-
alheia a essas crises”, que somente ressoaram
fundado estado encontram-se em péssimo
nos “elementos ligados à administração, ao
estado de conservação, acondicionados em
exército, ao clero e a algumas famílias ricas e
caixas de papelão em lugares inapropriados.
poderosas, insatisfeitos com a administração”.
Os registros de batizados, casamentos, óbitos,
Mas mesmo esses rompantes circunscritos
crisma, livros de tombo, livros de contabilidade
a grupos pequenos não são considerados
significativos, pois não ressoaram numa
19
O conceito de fronteira é polissêmico, razão pela
população majoritariamente analfabeta e
qual é impossível elencar neste espaço a diversidade
alheia às crises nacionais. de estudos que recorrem a ele. No Brasil, Holanda
(1994) e Wegner (2000) apresentam e aprofundam-no;
A população reside majoritariamente na zona
Santos (1993) orienta uma abordagem ampla sobre ele:
rural. A pecuária extensiva e a agricultura de Velho (1976) compara a fronteira Oeste do Brasil com a
subsistência foram as atividades que permitiram “moving frontier” de Turner (1921).
191
FRAGMENTA HISTORICA Raimundo da Cunha Matos,
um português viajando pelo Sertão do Brasil
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um português viajando pelo Sertão do Brasil
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Rita de Cássia Guimarães Melo FRAGMENTA HISTORICA
195
CARTA DE ARREMATAÇÃO E VENDA DA SINAGOGA E AÇOUGUE DA
JUDIARIA DE SERPA (1497-1502)
Resumo Abstract
Pergaminho composto por duas cartas: a Parchment with two letters. The first is the
primeira (Serpa, 27/06/1497) relata a venda da contract for the selling of the Jewish synagogue
sinagoga da judiaria de Serpa a Gaspar Vaz, que and butchery of the village of Serpa to Gaspar
por eles licitou. A segunda (Lisboa, 18/04/1502) Vaz (27/06/1497). The second (18/04/1502) is
confirma, por tabelião, que Gaspar Vaz the acknowledgment, confirmed by a notary, of
comprou a sinagoga referida a mando de Lopo Gaspar Vaz that he bought those on behalf of
da Cunha, comendador da Ordem de Avis e Lopo da Cunha, for whom he worked for. The
seu patrão. A primeira carta tem inserto o Regi‐ first letter contains a Regiment given to João de
mento (27/04/1497) dado a João de Andrade, Andrade with the instructions on how he would
encarregado pelo rei de proceder à venda dos sell the parts of the extinguished Jewish and
bens dos judeus e mouros no Muslim quarters of the almoxarifado de Beja.
almoxarifado de Beja.
Arquivo Nacional/ Torre do Tombo, Fundo Ordem de Avis e Convento de S. Bento de Avis, mç. 10, doc.
896 [disponível on-line: [Link] img. 0230]
1
Documento
[Fl. 1]
Saybham os que Esta carta de venda E aRemata/ çam vjrem que no ano do naçymento de nosso Senhor/
Jesus Christo de mjll E iiijc LRbij anos xxbij dyas do mes de/ Junho Em a ujlla de Serpa nas cassas de
mim thabeliam e Em mj/ nha prressença E das testemunhas ao dyamte nomeadas/ pareçeo Joham
dandrrade Escudeiro da cassa del Rey nosso Senhor/ Estante Em a dicta vjlla e aprressemtou per amte
mjm thabeliam hum Regymento/ del Rey nosso Senhor Escprjto Em papell ssob assynado pollo Senhor
dom/ pedrro de castrro veedor da fazenda del Rey nosso Senhor segundo por elle parecya do quall
Regy/ mento o theor he Este que sse ao dyante ssegue:
Item a maneyra que vos Joham dandrrade aues de teer no Reco/ lhymento das coussas das ssynogas
E mjzquytas na comarqua do allmoxaryfado de beja onde vos ora el Rey/ nosso Senhor Emvja hee a
ssegujnte: Item porquanto o dicto Senhor tem Escprjto ao comtador dessa comarqua que/ fyzesse
Escprever E ssocrrestar todallas coussas moves das dictas Esnogas E mjzquytas E emtrregallas per
Emventay/ ro allguã pessoa que dellas desse conta. Requereras ao dicto comtador que llogo vos mostrre
o dicto Emventayro E uos de/ o trrellado assynado por elle E pello dicto Emuentayro Requereras a
quallquer pessoa que as dictas coussas teuer Reçebydas/ que uollas Emtrregue todas E as que forem
de vallja .ss. prrata brrocado sseda E quaeesquer outrras joyas Estas trrares comvosco/ a esta corte e
as Emtrregares a gonçalo uelho que de as Reçeber tem carrego. E todallas outrras coussas que fycarem
que forem de calljda/ de venderes no mjlhor prreço que poderdes a quem por ellas mays deer perante o
escpryuão do nosso carrego pera as assemtar ssobrre/ vos em Reçepta a quall venda fares Em prregão.
E sse allguãs coussas das ssobrredictas que aves de vender não achardes quem as/ comprre Estas
Emujares a cabeça desse allmoxeryfado Emtrregar a quem o comtador hordenar per ahy sse venderem/
porque pareçe que com Rezão sse poderão hy mjlhor desbaratar e assy fares qua saber ao dicto Senhor
quejandas E de que calljdade ssão/ [as que assy uenderes]2 E Jsso mesmo venderes os portaes de
pedrrarya das dictas judaryas E não as portas dellas por que Estas tem/ o dicto Senhor dadas. E das
mouraryas venderes tambem os portaes E assy as portas ferrolhos E toda ferramenta dellas Escprevendo
/ Em uosso lljvrro o que vos dão por cada coussa. E Jsso mesmo venderes as pedrras dos jazjgos dos
dictos judeus E mouros com tall/ comdyção que elles dictos judeus E mouros see possão lançar nelles
atee o tempo da sua partyda E os que os assy comprrarem lhe aga/ dem atee o dicto tempo.
Item meteres llogo Em prregão as cassas das dictas Esnogas E mjzquytas e assy quaeesquer outrros
beens de/ Rayz que teverem E a elles forem aprropjados E assy os chãaos dos dictos jazjgos E depouys
de amdarem Em prregão pellas Ruas E prraças/ E llugares prruuicos de cada llugar per Espaço de dez
ou quynze dyas E foor a ssolenydade que deue E de vos sse confya Emtaão venderees/ E Rematares as
dictas cassas E cada hũa dellas a quem vos mays por ellas deer. outrrossy venderes as dictas mjzquytas
com tall com/dyção que os dictos mouros Rezem E sse sirvão delaas atee o tenpo de ssua yda E allem
do Emventayro que o dicto comtador auja de fazer das ssobrre/ dictas coussas vos Emformares sse ahy
allguãs outrras que fycassem de fora que sse não levassem ao dicto Emuentayro E Recadallas/ es.
Item o djnheiro que Reçeberdes das ssobrredictas coussas Emtrregares jsso mesmo ao dicto gonçallo
velho. item pera ssegurança das pessoas que com/ prrarem os dictos beens de rrajz E moues das dictas
Esnogas E mjzquytas poderão dello tyrar ssuas cartas de uenda nas quãaes sera/ trelladado
1
Regras de transcrição adicionais: Tendo em conta a extensão das linhas optámos por separá-las por traço oblíquo, para
facilitar a comparação do texto. Os traços oblíquos que se encontravam no texto original foram transcritos com pontos
finais. O texto apresentava-se em contínuo pelo que abrimos alguns parágrafos.
2
Pergaminho dobrado no início da linha. Tentativa de reconstituição das palavras omissas na dobra.
200
Transcrição de Marta Páscoa FRAGMENTA HISTORICA
Este Regymento pera o quaall Em nome do dicto Senhor vos dou poder E autorydade pera todo assy
poderdes vender polla maneyra/ E com a ssolenjdade que Em cyma he decrrarada porem mando
ao dicto comtador E as pessoas Em cujo poder as dictas coussas E cada/ huã dellas forem que mos
Emtrregem E fação todo Emtrregar e cumprrão E gardem Este Regymento como Em elle he comtheudo/
E o dicto comtador tera grrande cuydado de fazer Recolher e por Em Recado as coussas que assy lhe
Emvyardes a cabeça do dicto/ allmoxeryfado E as fação uender E Emvyem llogo o dinheiro de todo ao
dicto gonçallo velho E vos fares destes hum lljurro decrrarando/ nelle as que assy trrazes a corte E as
que lhe vendestes E por que prreço E as que Emuyastes ao dicto comtador E pera de todo dardes boa
conta E Recado/ ssegundo comprre a sserujço do dicto Senhor. E outrrossy todas Estas coussas que
assy fezerdes uender dellas como do Reçebymento do que por ellas/ ouuerdes fazer hum lljurro Em
que por vos ora nam ser hordenado escprjvão assemtara tudo muj decrraradamente ho escprjvão das
ssyssas/ dos dictos llugares onde a dicta venda E Reçebymento fezerdes per ante o jujz dellas e ambos
elles assynarão no dicto lljurro E per ante elles venderes/ as dictas coussas na maneyra que dicto hee.
E per Este mando da parte do dicto Senhor aos dictos juyzes E justyças onde chegardes ou Estever/des
que uos dem poussadas E estrrebaryas E camas de grraça Em quanto nesto llaa amdardes ocupado
fecto Em Evora quynze/ dyas dabrryll vyçente carneyro o fez [era] de mjll E iiijc LRbij. Per poder do quall
Regymento E mandado del Rey nosso Senhor o dicto Joam/ dandrrade mandou meter Em prregão de
uenda pella dicta vjlla E prraças della per martym fernandez porteyro E prregoeyro do/ comceelho da
dicta ujlla as cassas da ssynoga dos judeus da dicta ujlla as quaaes o dicto porteyro aprregoou E foy
llançado lamço nellas/ [...]3 ...tocemtos Reaes no quall llamço as dictas cassas E ssynoga amdarão per
espaço de douus messes ssem mengua nenhũa/ pessoa na dicta sy/ [...]4 ouver fazer outrro nenhum
llanço.
E depouys desto nos vynte E trres dyas do mes de Junho da sso/ brre dicta Era de iiijc LR bij anos na
prraça da dicta ujlla Estando hy o dicto Joam dandrrade Escudeiro da cassa del Rey nosso Senhor/ que
ora per sseu Espjcyall mandado trraz carrego de vender as cassas das ssynogas deste allmoxeryfado
de beja Estando hy Esteuão bocarro ca/ ualleyro da cassa do dicto Senhor Rey E jujz das ssyssas na
dicta ujlla Em prressença de mjm duarte barreto Escprjuão das ssyssas na dicta/ ujlla pareçeo martym
fernandez porteyro do comceelho E aprregoou pella dicta ujlla E prraças della huãs cassas E ssynoga
dos Judeus/ da dicta ujlla E hum pardyeyro que foy carneçarya que Estão dentrro na judarya da dicta
ujlla que partem as dictas cassas E ssynoga da hũa/ parte com cassas de yocee mocatell E da outrra com
cassas de belhamim mollfo emtestam de trras com cassas de mosse allvalhã/cee E per rrua pubrica. E a
dicta cassa da carneçearya parte com curral da molher d’abrraão çarralluo çapateyro E da outrra parte
com/ cassas de quadrrado Emtesta de trras no muro E per Rua puprica as quaaes cassas E ssynoga E
carneçearya E amdauão Em lanço de/ de dez mjll E duzentos rreaaes o quall llanço da dicta compra
fez gaspar vaaz Escudeiro do Senhor llopo da cunha comedador da dicta/ ujlla que nas dictas cassas
E ssynoga E pardyeyro da carneçarya da dicta cumuna llançou Em ssaluo pera el Rey nosso Senhor
E porquanto sse/nãm achou quem mays nem tanto llançasse ssobrre as dictas cassas E ssynoga E
pardyeyro que o dicto gaspar vaaz, o dicto joam dandrra/da ujsta a fee do dicto porteyro que as em
prregaão trrazja que dysse E deu fee que nam achaua quem mays nem tanto nellas cassas E ssy/ noga
E pardyeyro llançasse que o dicto gaspar que por todas as dictas cassas e pardyeyro daua os dictos dez
mjll E duzentos Reaaes lhe mandou/ aRematar as dictas cassas de ssynoga E pardyeyro de carneçarya
ao dicto gaspar vaaz pellos dictos dez mjll E duzentos Reaes a quall/ aRemataçam o dicto porteyro
fez Em prressença do dicto Estevam bocarro jujz das ssyssas na dicta ujlla E de mjm Escprjvão pera
mandado do dicto joam/ dandrrade na prraça da dicta ujlla E lhe meteo o rramo na mão.
3
Dobra no pergaminho – várias palavras ilegíveis.
4
Dobra no pergaminho – várias palavras ilegíveis.
201
FRAGMENTA HISTORICA Carta de arrematação e venda da sinagoga e
açougue da judiaria de Serpa (1497-1502)
E o dicto gaspar tomou o dicto rramo E Reçebeo Em ssy a dicta aRematação/ das dictas cassas E ssynoga
E pardyeyro pollos dictos dez mjll E duzentos rreaaes E o dicto joam dandrrade outorgou E mandou
dello/ ser fecto ao dicto gaspar vaz Esta carta de uenda E aRematação das dictas cassas E ssynoga E
pardyeyro de carneçarya testemunhas que pressentes/ Erão felljpe dyaz E pedrrallvarez de mertolla E
outrros Em joam de jueyros puprico tabeliam del Rey nosso Senhor Em a dicta vjlla que per mandado
e/ E [sic] outorgamento do dicto joam dandrrade Esta carta Escprevy E em ella meu ssynall fyz que tal
he [sinal do tabelião]
Pagou com nota lxxb rreaes
[Fl. 1v.]
Ano do naçimento de Nosso Senhor Jesuu Christo de mjll e quinhentos e dous anos xbiij dias do mes d
abrjll na çidade de lixboa/ em a mha [sic] per ante ho bacharell Joham cotrim do dessenbarguo del Rey
nosso Senhor e corregedor de ssua corte dos ffectos çivys pareceu um lopo da/ cunha ffidalguo da cassa
del Rey nosso Senhor e comendador da ordem d avys E gaspaar vaaz sseu criado E loguo pello dicto/
lopo da cunha ffoy apressentada ao dicto corregedor esta carta de venda desta outra parte estprita E
apressentada como dicto he elle/ dicto lopo da cunha disse ao dicto corregedor que por canto o dicto
gaspar vaaz conprara as cassas contheudas nesta dicta outra/ pera elle lopo da cunha e de sseu djnheiro
delle lopo da cunha he que na dicta carta num fazia delle menção somente/ dezia que a elle gaspar
vaaz fforam arrematadas E [...] lhe pedio que lhe ffezesse pregunta ao dicto gaspar/ vaaz que de cujo
dynheiro conprara elle as ditas cassas e que pera quem as comprara e que ho que dissesse lhe pedya/
que ho mandasse espreuer por canto elle o trazia em demanda a elle lopo da cunha. E vysto per o dicto
corregedor sseu Requerimento/ mandava dar juramento ao dito gaspar vaz e per elle foy dito que pera
ello no avya mester juramento que não avya/ de dizer senam a verdade. e dizendo loguo elle dicto
gaspar vaaz que era verdade que as cassas todas contheudas nesta/ carta de venda elle as comprara em
nome delle lopo da cunha e pera elle lopo da cunha e do sseu dynheiro delle/ lopo da cunha estando
por seu ffeytor na dicta vylla e que as dictas cassas ssam ssuas delle dicto lopo da cunha/ E o dicto
corregedor mandou que assy se espreuese nas costas desta dicta carta E eu bertulameu rrodrigues
escpreui dante os corregedores da corte do dicto Senhor que nesto estava pressentes e isto escpreui e
asynei do meu ssynall acostumado.
[assinatura]
Bertolameu Rodriges
202
LICENÇA PARA QUE O COLÉGIO DE S. JOSÉ DOS CARMELITAS
DESCALÇOS EM COIMBRA PUDESSE COMPRAR UMA
PROPRIEDADE (1618)
Resumo Abstract
1618, Junho, 30, Cidade e Universidade de 1618, June, 30th, Cidade e Universidade de
Lérida Lérida
Licença para que o Colégio de S. José dos License for the College of St. Joseph of the
Carmelitas Descalços em Coimbra pudessem Discalced Carmelites in Coimbra could buy a
comprar uma propriedade. property.
Coimbra, Arquivo da Universidade de Coimbra, Colégio de S. José dos Marianos, Dep. V-2.ªE-2-6-6, Caixa
5, Documento avulso, fl.1
[fl. 1]
Jhesus Maria
Fray Joseph de Jesús Maria General de la Orden de los Descalços Carmelitas por quanto se nos à hecho
relación que nuestro Collegio de San Joseph de la Ciudad e Universidad de Coimbra tiene necesidad
para su mayor comodidad y clausura de comprar y haver una heredad que alinda con las cercas del
dicho Colegio laqual es del Padre Juan Pires da Veiga vezino de la dicha ciudad y es tributaria de por
vidas al muy Reverendo Cabildo de la See della y senos a pedido licencia para comprarla por lo que justo
fuere con atención a satisfazer al dicho Cabildo conviniéndose con los señores del sobre el dicho tributo
por tanto attendiendo a la utilidad y comodidad de dicho Colegio por el tener delas presentes damos
licencia al padre Retor y capitulares del dicho ñso Colegio de San Joseph para que puedan effectuar y
efectúen la compra de la dicha heredad por el justo precio según se convinieren y concertaren con el
dicho Padre Pirez da Veiga y así mesmo para que se compongan con las muy Reverendos Señores Dean
Chantre y demás Capitulares dela dicha See para que tengan por bien y den su permisso y licencia para
que se pueda effectuar la dicha venta y hacer la dicha heredad libre de la dicha obligación, o emfiteusim
perpetua mudando el tributo y fuero que tiene en obligación que contraygan nuestros Religiosos de
hacer decir por algún capellán secular las misas en que se convinieren con los dichos señores en la dicha
See e a quanto no se subrrogare esta carga en dar y entregar a su señoría otra heredad que les sea
igualmente util y equivalente a la heredad vendida para todo lo que y para contratar y otorgar escritura
del venta real con todas las condiciones clausulas y solenidades que el derecho dispone y que fueren
necesarias así para la dicha compra y posesión de la dicha heredad como para seguridad a contento del
dicho Cabildo de quien se adesacar el dicho permisso y licencia para su traspaso damos esta licencia y
poder al dicho Padre Retor y Religiosos capitulares para obligar los bienes raízes posesiones y hacienda
del dicho colegio para mayor firmeza de lo contrato y haciéndose así como queda dicho desde luego
lo aprobamos y damos por bueno interponiéndola autoridad de ñso officio en fé de lo qual mandamos
dar las presentes que van firmadas de ñso nombre selladas com el sello de ñso officio y preferendadas
por ñso secretario en este Colegio de San Joseph de la Ciudad y Universidad de Lerida a treinta de Junio
de mil seiscientos y deciocho.
Selo
(assinaturas)
1
Os critérios de transcrição adoptados seguem as propostas por Avelino de Jesus da Costa (Normas gerais de transcrição
e publicação de documentos e textos medievais e modernos, Coimbra: FLUC/IPD, 3ª ed., 1993). Entre outros: transcrição
do texto em linha contínua; desdobraram-se as abreviaturas sem assinalar as letras que lhes correspondem; atualizou-se o
uso de maiúsculas e minúsculas, do i e do j, do u e do v, conforme eram vogais ou consoantes; ignoraram-se alguns sinais
de pontuação colocados no texto, e inseriram-se outros para tornar o documento mais compreensível; os acentos foram
introduzidos apenas para evitar erros de pronúncia ou interpretação; separaram-se as palavras incorrectamente juntas e
uniram-se os elementos dispersos da mesma palavra; mantiveram-se as consoantes e vogais duplas insertas no meio do
vocábulo, reduzindo-as a uma só quando no início da palavra; as palavras proclíticas e aglutinadas foram separadas por
apóstrofo.
204
PRIVILÉGIO DO TABACO PASSADO A SEBASTIÃO MARTINS DA
MARINHA (1733)
Resumo Abstract
Privilégio do tabaco passado a Sebastião Martins Tobacco privilege past Sebastião Martins da
da Marinha [Pedrógão Grande] com início Marinha [Pedrógão Grande] beginning on 1
a 1 de Janeiro de 1734 e términus a 31 de January 1734 and the terminus December 31,
Dezembro de 1737. 1737.
Pedrógão Grande, Arquivo Municipal de Pedrógão Grande, Livro de Registos da Câmara de Pedrógão
Grande [1736-1741], fls. 19-22
1
Documento
[fl. 19]
Privilégio do tabaco a favor de Sebastião Martins do lugar da Marinha deste termo da villa do Pedrogão
Grande
Dom Joam por Graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves d’aquém e além Mar em Africa Senhor da
Guiné e da Conquista Navegação Comércio da Ethiopia Arábia Pérsia e da Índia etc: Fasso saber aos que
esta minha carta de privilégio virem que por parte da Caixa e Admenistrador Geral Manoel Monteyro
da Rocha e seus sócios Contratadores do Tabaco deste Reyno e Ilhas Adjaçentes a elles e portos
prometidos por quatro annos que hamde principiar no primeyro de janeyro de mil e setesentos e trinta
e quatro e acabara no ultimo de dezembro de mil e setesentos e trinta e sete me fes presente que eu
fora servido pellas condisoins do dito contrato conseder a elles contratador e mais pessoas as izençoins
privilegios liberdades e perogativas que se contém nas = seguintes condisois com condição que elles
contratadores e seus estanqueiros feytores adeministradores e criados serão escuzados de todos os
emcargos do conselho e lhes não serão lançados alogamentos em suas cazas nem serão obrigados a
prisidios nem lhe serão tomadas suas cavalgaduras anttes // [fl. 20v] Antes sendolhes nasesarios para
serviço do mesmo tabaco se lhe daram por seo dinheyro e as justiças lhas mandarão dar sob a pena
de se proçeder contra elles e de se haver Sua Magestade por mal servido = Com condição querendo
elles contratadores arendar outras pasou algumas das Comarquas deste Reyno sidades villas lugares
separadamente pera lhes darem tabaco de estanque para provimento dellas e poderão fazer sem que
Sua Magestade de lho impida nem nenhum menistro seo e nam pagarão antes digo as tais peçoas
nem elles contratadores que fizerem os tais arendamentos sizas nem outra alguma imposição ou
portagens ou portos secos = Com condição que em quanto durar o arendamento delles contratadores
ou dispois de acabado puderão cobrar tudo o que se lhe ficar a dever porsedido do dito tabaco de seus
estanqueyros feytores e adiministradores ou quaisquer pecçoas via executiva e da cadeya asim e da
maneyra que se cobrão e executão as dívidas que se devem a Fazenda de Sua Magestade e se lhes nam
lançaram cavallos nem para serem obrigadas as companhias nem para a criação delles e de tudo serão
imzentos e se lhe pasaram as ordens e provizois nesezarias = Com condição que elles contratadores
seus estanqueiros feytores adeministradores e criados poderão tomar carros e cavalgaduras em todas
as // [fl. 20v] em todas as partes do Reyno aonde se acharam que lhes forem naseçareas para as
condiçois do tabaco as justiças lhes mandaram dar pagando tudo pello seo dinheiro pello justo preço;
e se lhes daram alojamento sendolhes nasesarios e se lhes dará pellas justiças do Reyno toda ajuda e
favor que por elles for pedido e requerido para boa adiminstração de seus arendamentos para o que se
lhes pasarão as ordens e privilégios digo provizois nasecarias = Com condição que os supertendentes
[sic] ou conservadores provedores corregedores ouvidores juízes de fora e todas as mais justiças deste
Reyno e Ilhas seram obrigados a dar varejos em quaisquer outras partes digo cazas barcos quintas
navios os ou quaisquer outras partes aonde ouver noticia ou suspeyta que se vende ou piza ou semeya
ou recebe tabaco sem ser de estanque de Sua Magestade e prosederão contra os culpados na forma da
Ley e as culpas e autos que se fizerem se remeteram ao juiz conservador do tabaco desta Corte ou ao
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Os critérios de transcrição adoptados seguem as propostas por Avelino de Jesus da Costa (Normas gerais de transcrição
e publicação de documentos e textos medievais e modernos, Coimbra: FLUC/IPD, 3ª ed., 1993). Entre outros: transcrição
do texto em linha contínua; desdobraram-se as abreviaturas sem assinalar as letras que lhes correspondem; atualizou-se o
uso de maiúsculas e minúsculas, do i e do j, do u e do v, conforme eram vogais ou consoantes; ignoraram-se alguns sinais
de pontuação colocados no texto, e inseriram-se outros para tornar o documento mais compreensível; os acentos foram
introduzidos apenas para evitar erros de pronúncia ou interpretação; separaram-se as palavras incorrectamente juntas e
uniram-se os elementos dispersos da mesma palavra; mantiveram-se as consoantes e vogais duplas insertas no meio do
vocábulo, reduzindo-as a uma só quando no início da palavra; as palavras proclíticas e aglutinadas foram separadas por
apóstrofo.
206
Transcrição de Miguel Portela FRAGMENTA HISTORICA
supertendente [sic] das províncias ou ministros que tiverem este cargo dito negoçio a seu cargo no distrito
em que se acharem os tais descaminhos = Com condição que a elles contratadores seus estanqueiros
administradores feytores se lhe não puderão tomar cazas por apozentadoria antes se lhes puderam
dar nesta sidade pella parte a que toqua na forma custumada e nas Comarquas e Ilhas os corregedores
e provedores dellas e nas villas ou juizes de fora ou outras quaisquer justiças lhes mandaram as ditas
cazas = // [fl. 21] Com condição que elles contratadores seus estanqueyros e adeministradores e
feytores puderão trazer armas ofençivas o defensivas por todo este Reyno sem lhes serem thomadas
salvo se forem achadas que com ellas fazem o que não devem adeministração dos ditos estanques
= Com condiçam que os filhos daquellas pecçoas que tiverem tenda de tabaco na provincia de Entre
Douro e Minho sejam inzentos de os fazerem soldados como também ou será obrigado daquella peçoa
que lhe vender tabaco na tenda não tendo filho que lhe pocça vender e da mesma sorte lograram
este privilégio aquellas pecçoas que tiverem tenda de tabaco na província da Beyra Tras os Montes
e Comarquas da Estremadura por lhes haver consedido e estendido as ditas províncias e Comarquas
e referido o privilégio pella condição de digo vinte e hum de contrato o dito privilégio gozarão dous
estanqueiros em cada freguezia grande e hum nas piquenas = pedindome os ditos contratadores que
por quanto de se lhes não guardarem as ditas condiçoins rezulta grande prejuízo ao dito contrato lhes
fizesse mercê de lhes mandar pasar as cartas de privilégios que fossem nasseçarias para as pessoas
que crerem com administração do dito contrato do tabaco e condusao de dinheyro prosedido delle //
[fl. 21v] delle que se remete a esta Corte requerem as justiças o comprimento das dittas condiçois nas
partes que a cada hum tocar e nasesario for por bem do qual foi servido mandar paçar a prezente com
o theor das mesmas condiçois pella qual mandoa o dezembargador e conservador do meo tribunal
da Junta d’Adiministração do tabaco e bem asim aos supertendentes [sic] e conservadores delle das
províncias e comarcas do Reyno a todos os dezembargadores provedores corregedores ouvidores juízes
de fora e ordinários e mais ministros e oficiais pessoas a que esta for apresentada e conhecimento della
pretender cumpram e guardem aos ditos contratadores e seus estanqueyros feytores e adeministradores
e mais pessoas nomiadas nas ditas condicoins todos os privilégios liberdades e inzençois que por ella
lhe sam conseridadas sem contradiçam alguma por ser muito conveniente ao meo serviço cede a ellas
enteyro comprimento com declaração que as armas ofensivas e defençivas que se permetem aos ditos
contratadores e seus estanqueyros adeministradores e mais pecçoas pera segurança do dinheyro e mais
efeitos do dito contracto e boa adiministração della se entende espingardas e clavinas e as mais armas
permitidas e não porhibidas o que asim comprirão sem duvida alguma sob pena de mandar proseder
contra qualquer o contrario fizer com toda adiministração ElRey Nosso Senhor o mandou por Francisco
Nunes Cardial e Luís de França Pimentel e João Cabral de Barros Jozeph Pereyra Corte Rial a fez // [fl. 22]
A fez em Lisboa Oriental em dazesete de dezembro de mil e setesentos e trinta e tres Lourenço Cosme
de Araújo a fez escrever = Francisco Nunes Cardial = Luís da Franca Pimentel Joam Cabral de Barros =
por nomiação camara da villa do Pedroguão Grande se fez ileyção pera os estanqueiros no lugar da
Marinha a Sebastiam Martĩns o qual emquanto vender o dito tabaco gozara deste privilégio como
nelle se contem = Thomar dazasete de abril de mil e setesentos e trinta e quatro Fr. Manoel Ferreira
cumpraçe a nomeação supra Doutor Peri. Cumprasa e rizistese Pedrogão Grande em camara em doze
de mayo de mil e setesentos e trinta e seis Torres «Ferreira» Simois Simois procurador Fereyra = e não
se continha mais em o dito privilégio que o relatado que todo eu Jozeph Antunes escrivão da camara
que sirvo por provimento do Doutor Corregedor desta Comarqua de Thomar aqui fiz tresladar bem
fielmente na verdade sem levar couza que dúvida faça do próprio que torney a emtregar ao sobredito
Sebastião Monteiro do lugar da Marinha que voltou a resebeu asignou aqui comigo leu Jozeph Antunes
escrivão da camara que o fiz escrever o sobescrevi e asiney.
(assinatura)
a) Jozeph Antunes
207
REGISTO DE UMA ORDEM PARA SE FABRICAR NA FÁBRICA DA
MACHUCA UMA TREMPE PARA A COZINHA DAS RELIGIOSAS DO
CONVENTO DE SANTA TERESA DE AVEIRO (1744)
Resumo Abstract
Lisboa, Arquivo Histórico do Ministério de Obra Públicas, Superintendência das Ferrarias de Tomar e
Figueiró, Registo de correspondência recebida, 1655-1761, fl. 66-66v
[fl. 66]
Rezisto de hum mandado do Comselho da Fazenda a favor das Religiozas de Santa Thereza da vila de
Aveiro.
Os do Comselho de Sua Magestade e do de sua Real Fazenda em falta devedores desta etc.ª Mandamos
a vós Superintendente das Ferrarias da Comarca de Thomar mandeis fabricar na Fábrica da Machuca
huma trenpe de ferro para a cozinha das Religiozas de Santa Thereza da villa de Aveiro por reprezentarem
a Sua Magestade a sua pobreza pelo seo Comselho da Fazenda e se não vier ofereser duvida de al //
[fl. 66v] alguma na informasam que destes no seu requerimento o que asim comprireis e fareis comprir
com arecadasam nesesaria. Manoel de Matos Felgueiras do Laguo o fes em Lisboa a vinte e oito de abril
de mil e setesentos e corenta e coatro annos. Francisco Pais de Vascomsellos o fes escrever.
(assinaturas)
(assinatura)
a) Moura
(assinatura)
a) Moura
E não continha mais o dito mandado que aqui fis estraladar [sic] por mim fiel bem na verdade no
proprio tornei a entreguar ao feitor das Ferrarias Manoel Lopes Barreto de como o resebeo e asinou
aqui comiguo escrevi aos vinte e sinco dias do mes de aguosto de mil e setesentos e corenta e sete
annos e eu Antonio de Passos Ribeiro sobrescrevi.
(assinaturas)
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Os critérios de transcrição adoptados seguem as propostas por Avelino de Jesus da Costa (Normas gerais de transcrição
e publicação de documentos e textos medievais e modernos, Coimbra: FLUC/IPD, 3ª ed., 1993). Entre outros: transcrição
do texto em linha contínua; desdobraram-se as abreviaturas sem assinalar as letras que lhes correspondem; atualizou-se o
uso de maiúsculas e minúsculas, do i e do j, do u e do v, conforme eram vogais ou consoantes; ignoraram-se alguns sinais
de pontuação colocados no texto, e inseriram-se outros para tornar o documento mais compreensível; os acentos foram
introduzidos apenas para evitar erros de pronúncia ou interpretação; separaram-se as palavras incorrectamente juntas e
uniram-se os elementos dispersos da mesma palavra; mantiveram-se as consoantes e vogais duplas insertas no meio do
vocábulo, reduzindo-as a uma só quando no início da palavra; as palavras proclíticas e aglutinadas foram separadas por
apóstrofo.
210
CONTRATO DE OBRIGAÇÃO ENTRE OS ELEMENTOS DA
COMPANHIA CÓMICA (1839)
Resumo Abstract
Santarém, Arquivo Distrital de Santarém, Livro Notarial de Tomar, Livro 3 [1837-1839], Notário Daniel
Pereira Mendes, fls. 91v-92
1
Documento
[fl. 91v]
Escriptura de convenção, sociedade, e obrigação, que assignão os que compõem a Companhia Cómica
que ao prezente rezide nesta villa, Francisco Joze da Costa, e outros declarados no corpo da escriptura
que se segue:
Em Nome de Deos Amem. Saibão quantos este publico instromento de escriptura de convenção,
sociedade, e obrigação ou como em direito melhor lugar tenha; e dizer se possa virem, que sendo no
anno do nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil oitocentos trinta e nove annos, aos oito
dias do mês de março do dito anno, nesta Notável villa de Thomar, e meu escriptorio sendo prezentes,
Theotonio dos Santos Rodrigues; = Felicianno Maria d’Oliveira = Salustiano Pereira Xavier = Joaquim
Ignacio Pereira = Vicente Fellipe Romano = Francisco Jozé da Costa = João Jozé da Silva, e sua mulher,
Candida Carolina Arcejes = Maria Joanna do Carmo; = e Maria do Carmo da Encarnação; que compõe-
em a Companhia Cómica que se acha nesta villa, e todos pessoas reconhecidas de mim tabelião, e das
testemunhas ao diante nomeadas, e no fim desta notta assignadas, que de serem todos os próprios
dou minha fé. E por todos uniformemente foi dito em prezença de mim // [fl. 92] de mim tabelião,
e das mesmas testemunhas, que se achão convencionados, e contractados, a fim de se conservarem
reunidos todos athé ao fim do mes de setembro do corrente anno de mil oitosentos trinta e nove,
obrigando-se a Companhia toda em geral, a representar em todos os domingos, e mais dias que possa
ser, sem que haja da parte de nenhum dos contraentes dúvida alguma, salvo por motivo de moléstia. E
bem assim a continuarem na representação do Theatro desta villa, emquanto durar a concordata que
com os habitantes desta fizerão, seguindo depois o tranzito que melhor convier á Companhia, e que
for decedido pella maioria da mesma, sem que nenhum delles sócios se possa retirar da Companhia,
emquanto não findar o tempo acima convencionado; sugeitando-se todos, e cada hum de per si,
a cumprir á risca o prezente contracto, com a penna de poder ser prezo, e judicialmente obrigado,
aquelle que faltar ás condições acima ditas; Assim o dicerão e outhorgarão, e mandarão fazer a prezente
escriptura o qual eu fis em virtude da cotta da distribuição, que hé do theor seguinte = A. Pereira, Livro
folhas cincoenta e seis; Thomar sette de março de mil oitosentos trinta e nove. Martins; Nada mais se
continha em a dita cotta de distribuição, que para aqui copiei da propria a que me reporto, e fica em
meo poder e cartorio; E forão testemunhas prezentes que assignárão com elles outhorgamtes, depois
desta lhes ser por tab. digo por mim tabelião lida, e dezeram que estava conforme, de que dou minha
fé; João Tamagnini d’Abreu, proprietario, e Jozé d’Almeida, sapateiro, ambos desta villa; E eu Daniel
Pereira Mendes, tabelião da notta, a escrevi, e com razo me assignei.
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Os critérios de transcrição adoptados seguem as propostas por Avelino de Jesus da Costa (Normas gerais de transcrição
e publicação de documentos e textos medievais e modernos, Coimbra: FLUC/IPD, 3ª ed., 1993). Entre outros: transcrição
do texto em linha contínua; desdobraram-se as abreviaturas sem assinalar as letras que lhes correspondem; atualizou-se o
uso de maiúsculas e minúsculas, do i e do j, do u e do v, conforme eram vogais ou consoantes; ignoraram-se alguns sinais
de pontuação colocados no texto, e inseriram-se outros para tornar o documento mais compreensível; os acentos foram
introduzidos apenas para evitar erros de pronúncia ou interpretação; separaram-se as palavras incorrectamente juntas e
uniram-se os elementos dispersos da mesma palavra; mantiveram-se as consoantes e vogais duplas insertas no meio do
vocábulo, reduzindo-as a uma só quando no início da palavra; as palavras proclíticas e aglutinadas foram separadas por
apóstrofo.
212
Transcrição de Miguel Portela FRAGMENTA HISTORICA
(assinaturas)
a) Daniel Pereira Mendes
a) Theotonio dos Santos Rodriguez
a) Feliciano Maria de Oliveira
a) Salustiano Pereira Xavier
a) Joaquim Ignacio Pereira
a) Vicente Felippe Romano
a) Francisco Jozé da Costa
a) João Tamagnini d’Abreu
a) João Jozé da Silva
a) Candida Carolina Arcejas
a) Joze d’Almeida
a) Maria Joanna
a) Maria do Carmo da Encarnasão
213
ÍNDICES
Por João Costa
FRAGMENTA HISTORICA Índice cronológico dos documentos publicados
neste número
1
Os números dizem respeito à numeração das páginas.
216
Por João Costa
218
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
Ataíde (Álvaro de), cf. Álvaro de Ataíde (D.) Ayala (Fernão de), cf. Fernão de Ayala
Ataíde (Álvaro Gonçalves de), cf. Álvaro Azambuja – 27
Gonçalves de Ataíde
Azenha (Benavente) – 21, 25
Ataíde (António de), cf. António de Ataíde (D.)
Azevedo (Filipa de), cf. Filipa de Azevedo (D.)
Ataíde (Catarina de), cf. Catarina de Ataíde (D.)
Azevedo (Gonçalo de), cf. Gonçalo de Azevedo
Ataíde (Fernando de), cf. Fernando de Ataíde (D.)
Ataíde (Filipa de), cf. Filipa de Ataíde (D.) B
Ataíde (Helena de), cf. Helena de Ataíde (D.)
Ataíde (Isabel de), cf. Isabel de Ataíde (D.) Balsisão – 124, 132
Ataíde (Isabel da Silva de), cf. Isabel da Silva de Barreto (Duarte), cf. Duarte Barreto
Ataíde Barreto (Manuel Lopes), cf. Manuel Lopes
Ataíde (João de), cf. João de Ataíde (D.) Barreto
Ataíde (Jorge de), cf. Jorge de Ataíde (D.) Barros (João Cabral de), cf. João Cabral de Barros
Ataíde (Luís de), cf. Luís de Ataíde (D.) Barroso (Cristóvão), cf. Cristóvão Barroso
Ataídes – 14, 15, 16, 31, 37, 38 Bézout (M.), cf. M. Bézout
Atouguia da Baleia – 13-16, 18, 20, 22, 24-40 Boquilobo (paúl de) – 38
219
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Caix (Honorato de), cf. Honorato de Caix Castelo Branco (Gonçalo de), cf. Gonçalo de
Castelo Branco (D.)
Caix (Pedro), cf. Pedro Caix
Castelo Branco (João de), cf. João de Castelo
Câmara (Simão Gonçalves da), cf. Simão Branco (D.)
Gonçalves da Câmara
Castelo Branco (Martinho de), cf. Martinho de
Caminha (Álvaro de), cf. Álvaro de Caminha Castelo Branco
Campo do Lobão – 27, 33 Castelo Branco (Violante de), cf. Violante de
Canárias – 24, 30 Castelo Branco (D.)
Cândida Carolina Arcejes – 212, 213 Castilha (João de), cf. João de Castilha
Cardial (Francisco Nunes), cf. Francisco Nunes Castro (Álvaro de), cf. Álvaro de Castro (D.)
Cardial Castro (Catarina de), cf. Catarina de Castro (D.)
Carlos (D. rei) – 132 Castro (Fernando de), cf. Fernando de Castro (D.)
Carlos (D., arquiduque) – 123-125, 129, 131- Castro (Filipa de), cf. Filipa de Castro (D.)
133, 135
Castro (Guiomar de), cf. Guiomar de Castro (D.)
Carlos (D., príncipe) – 122, 123, 134
Castro (Henrique de), cf. Henrique de Castro (D.)
Carlos V (imperador) – 118, 125, 126, 129, 130
Castro (Isabel de), cf. Isabel de Castro (D.)
Carmo (Maria Joana do), cf. Maria Joana do
Carmo Castro (Joana de), cf. Joana de Castro (D.)
Carmo da Encarnação (Maria do), cf. Maria do Castro (Mécia de), cf. Mécia de Castro (D.)
Castro (Pedro de), cf. Pedro de Castro (D.)
220
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
Castro (Pero Rodrigues de), cf. Pero Rodrigues Correia (Cristóvão), cf. Cristóvão Correia
de Castro
Correia (João Esteves), cf. João Esteves Correia
Castro (Rodrigo de), cf. Rodrigo de Castro (D.)
Correia (Pero), cf. Pero Correia
Castro Marim – 50
Correia de Azevedo Morato (Bernardo), cf.
Castro Sarmento (Jacob de), cf. Jacob de Castro Bernardo Correia de Azevedo Morato
Sarmento
Corte-Real (Diogo de Mendonça), cf. Diogo de
Castros – 19, 21, 24, 25, 31 Mendonça Corte-Real
Catarina (D., rainha) – 15 Corte-Real (José Pereira), cf. José Pereira Corte-
Real
Catarina de Ataíde (D.) – 18, 22, 38
Cosme de Araújo (Lourenço), cf. Lourenço
Catarina de Castro (D.) – 26, 28, 29, 39, 40
Comes de Araújo
Catarina de Faria (D.) – 130
Costa (Álvaro da), cf. Álvaro da Costa
Cays (Pedro), cf. Pedro Cays
Costa (Francisco José da), cf. Francisco José da
Cecchi (Luís), cf. Luís Cecchi Costa
Cenáculo (Manuel do), cf. Manuel do Cenáculo Costa (Jorge da), cf. Jorge da Costa (D., cardeal)
(Fr.)
Costa (Martinho da), c. Martinho da Costa (D.,
Cernache – 21, 23-27, 31 cardeal)
Ceuta – 18-20, 24, 26, 28, 38, 126 Cotrim (João), cf. João Cotrim
Chança (Penela) – 21, 23-27, 31 Coutinho (Fernando), cf. Fernando Coutinho
(D., marechal)
Chaves – 17, 18, 21, 38
Coutinho (Gonçalo Vasques), cf. Gonçalo
Cheleiros – 39, 40
Vasques Coutinho
Chichorro (Fernão de Sousa), cf. Fernão de
Coutinho (Henrique), cf. Henrique Coutinho (D.)
Sousa Chichorro
Coutinho (Luís), cf. Luís Coutinho
Chichorro (Gonçalo Anes), cf. Gonçalo Anes
Chichorro Coutinho (Mécia Vasques), cf. Mécia Vasques
Coutinho
Cid da Silva e Oliveira (Luís), cf. Luís Cid da Silva
e Oliveira Coutinhos – 14, 16, 18, 21, 30, 31
Ciera (Miguel António), cf. Miguel António Ciera Covilhã – 127, 128
Clemente VII (papa) – 17 Crato – 15, 23, 29, 34, 39
Coelho (Diogo), cf. Diogo Coelho Cristóvão Barroso – 120, 123, 125, 135
Coimbra – 15, 20-25, 27, 50, 51, 122, 134, 141, Cristóvão Correia – 117, 135
142, 144, 147, 149, 150, 156, 159, 164, 173,
Cristóvão Esteves – 72
174, 203, 204
Cristóvão de Faria – 48
Coja (mata) – 159
Cunha (José Anastácio da), cf. José Anastácio da
Confinhão (senhor de) – 131
Cunha
Consinham – 124
Cunha (Lopo da), cf. Lopo da Cunha
Constança (concílio de) – 19, 26
221
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Cunha (Maria da), cf. Maria da Cunha (D.) Duarte (D., infante) – 18-20, 53
Cunha (Martim Vasques da), cf. Martim Vasques Duarte (D., rei) – 21-23, 53, 57, 72, 117
da Cunha
Duarte Barreto – 201
Cunha (Nuno da), cf. Nuno da Cunha
Duarte de Carvalho – 78
Cunha (Pedro Vaz da), cf. Pedro Vaz da Cunha (D.)
Duarte Galvão – 116, 120, 122, 125, 135
Cunha (Tristão da), cf. Tristão da Cunha
Cunha de Ataíde (Simão da), cf. Simão da Cunha E
de Ataíde
Cunha Matos (Raimundo da), cf. Raimundo da Eanes de Alfama (Pedro), cf. Pedro Eanes de
Cunha Matos Alfama
Egas Moniz – 16
D
Egídio (cardeal) – 124, 131, 132
Elsden (Guilherme), cf. Guilherme Elsden
Dallabella (António), cf. António Dallabella
Elvas – 65
Damião de Góis – 115-117, 120, 129
Encarnação (Bernardo da), cf. Bernardo da
Daniel Pereira Mendes – 212, 213
Encarnação (D.)
Dias (Filipe), cf. Filipe Dias
Encarnação (Maria do Carmo da), cf. Maria do
Dias (Gonçalves), cf. Gonçalves Dias Carmo da Encarnação
Dinis (D., rei) – 53, 58 Entre-Douro-e-Minho – 207
Diogo (D., duque) – 33, 67 Escada de Pedra (Fernão Álvares da), cf. Fernão
Álvares da Escada de Pedra
Diogo Coelho – 82
Espanha – 132, 133
Diogo Fernandes de Almeida – 34
Esporão – 126
Diogo Gomes – 66, 81
Esporão (Joane Mendes do), cf. Joane Mendes
Diogo Lobo (D.) – 119, 122, 125, 129
do Esporão
Diogo de Mendonça Corte-Real – 210
Estêvão Bocarro – 201
Diogo Pacheco – 122, 123, 125, 128, 129
Esteves (Cristóvão), cf. Cristóvão Esteves
Diogo Peres – 65, 79
Esteves (João), cf. João Esteves
Diogo da Silva de Meneses (D.) – 127
Esteves (Leonor), cf. Leonor Esteves
Diogo da Silveira (D.) – 15
Esteves (Pedro), cf. Pedro Esteves
Diogo de Sousa – 122, 125, 128
Esteves Correia (João), cf. João Esteves Correia
Diogo de Sousa Mexia – 210
Estremadura – 207
Dionísio de Almeida (Francisco), cf. Francisco
Estremoz – 50
Dionísio de Almeida
Etiópia – 125
Domingos Vandelli – 152, 153, 163, 166
Euclides – 168
Douro – 14
222
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
Eugénia da Silva e Sousa (Mariana), cf. Mariana Fernando (D., infante) – 24, 28, 29, 31, 35, 39,
Eugénia da Silva e Sousa 127, 135
Europa – 133, 134 Fernando (D., rei de Castela) – 130, 135
Eusébio Vicente – 159 Fernando (D., rei) – 16, 17, 49, 62
Évora – 30, 52, 53, 71, 72, 126, 201 Fernando III (rei, de Aragão) – 119
Évoramonte – 50 Fernando, o Católico – 117, 123, 124
Fernando Afonso – 82
F Fernando Álvares – 64, 68, 77
Fernando Álvares de Almeida – 70
Façanha (João), cf. João Façanha
Fernando de Ataíde (D.) – 39, 40
Famalicão – 127
Fernando de Castro (D.) – 19, 22, 24, 26, 38, 39
Faria (Catarina de), cf. Catarina de Faria (D.)
Fernando Coutinho (D., marechal) – 30, 39, 128
Faria (Cristóvão de), cf. Cristóvão de Faria
Fernando de Noronha (D.) – 29, 30
Faria (João de), cf. João de Faria
Fernão Álvares da Escada de Pedra – 53
Faro – 180
Fernão de Ayala – 119, 124, 132
Feijoal (Santarém) – 24, 26, 27
Fernão Carreiro – 78
Feliciano Maria de Oliveira – 212, 213
Fernão Lopes – 53
Feria (castelo de) – 52
Fernão Lourenço – 40
Fernandes (Francisco), cf. Francisco Fernandes
Fernão de Pina – 69
Fernandes (Lopo), cf. Lopo Fernandes
Fernão da Silva – 34
Fernandes (Luís), cf. Luís Fernandes
Fernão de Sousa Chichorro – 30, 39
Fernandes (Martim), cf. Martim Fernandes
Ferreira (Manuel), cf. Manuel Ferreira (Fr.)
Fernandes (Nuno), cf. Nuno Fernandes
Ferreira Simões (Torres), cf. Torres Ferreira
Fernandes de Almada (Rui), cf. Rui Fernandes Simões
de Almada
Fez – 117, 134, 135
Fernandes de Almeida (Diogo), cf. Diogo
Fernandes de Almeida (D.) Figueira da Foz – 151, 166, 167
Fernandes Andeiro (João), cf. João Fernandes Figueiroa (Francisco Carneiro de), cf. Francisco
Andeiro (D.) Carneiro de Figueiroa
Fernandes de Ataíde (Nuno), cf. Nuno Filipa (D., rainha) – 18, 19, 22, 38
Fernandes de Ataíde Filipa de Ataíde (D.) – 18, 19, 22, 38
Fernandes de Ataíde (Vasco), cf. Vasco Filipa de Azevedo (D.) – 29, 30, 32, 40
Fernandes de Ataíde
Filipa de Castro (D.) – 30, 39
Fernandes da Silveira (João), cf. João Fernandes
da Silveira Filipa de Lencastre (D., rainha) – 19
223
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Filipe II (rei) – 15 Gaio (João Ribeiro), cf. João Ribeiro Gaio (D.)
Filipe III (rei) – 20 Galiza – 17
Filipe Dias – 202 Galvão (Duarte), cf. Duarte Galvão
Filipe Romano (Vicente), cf. Vicente Filipe Garcês (João), cf. João Garcês
Romano
Garcia de Resende – 34, 115, 129
Flandres – 116, 117, 120, 124, 127, 129, 130,
Gaspar Vaz – 199, 201, 202
132, 134, 135
Genovese (António), cf. António Genovese
França – 26, 30, 32, 117, 118, 123-125, 130
Gibraltar – 31
França Pimentel (Luís de), cf. Luís de França
Pimentel Gil Martins – 38
Francisco Carneiro de Figueiroa – 152 Gil Peres – 53
Francisco Dionísio de Almeida – 113-116, 118, Gil Vasques – 22, 39
121, 123, 125, 128
Gil Vasques de Altaro – 78
Francisco Fernandes – 116, 134
Girão (Pedro), cf. Pedro Girão (D.)
Francisco José da Costa – 212, 213
Goa – 68, 69, 84-105
Francisco Leal (José), cf. José Francisco Leal
Goiás (Brasil) – 179-183, 185, 186, 188, 190-
Francisco de Lemos (D.) – 141, 142, 144-158, 192
160-165, 167, 170, 171, 174
Góis (Damião de), cf. Damião de Góis
Francisco Lopes – 122, 125, 134
Gomes (Diogo), cf. Diogo Gomes
Francisco de Melo Soares – 130
Gomes (Ximenes), cf. Ximenes Gomes (cardeal)
Francisco Nunes Cardial – 207
Gomes de Santilhana – 135
Francisco Pais de Vasconcelos – 210
Gonçalo de Albuquerque – 30, 39
Francisco Pestana – 66, 82
Gonçalo Anes Chichorro – 22, 38
Francisco de Portugal (D.) – 15
Gonçalo de Azevedo – 122, 125, 134
Francisco Ravin (João), cf. João Francisco Ravin
Gonçalo de Castelo Branco (D.) – 33
Francisco Soares de Melo – 129
Gonçalo Vasques Coutinho – 17-20, 38
Francisco Tavares – 165
Gonçalo Velho – 200, 201
Frederico III (imperador da Alemanha) – 23
Gonçalo Viegas – 16
Fronteira (marquês de) – 114
Gonçalves (Antão), cf. Antão Gonçalves
Funchal – 40, 67, 69
Gonçalves (João), cf. João Gonçalves
Furtado de Mendonça (Lopo), cf. Lopo Furtado
Gonçalves de Ataíde (Álvaro), cf. Álvaro
de Mendonça
Gonçalves de Ataíde
Gonçalves de Ataíde (Martim), cf. Martim
G
Gonçalves de Ataíde
Gonçalves de Ataíde (Nuno), cf. Nuno Gonçalves
Gaião – 18, 38
224
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
Guilhermo Casador – 124, 131, 132 Isabel (D., rainha) – 122, 130
Guiomar de Castro (D.) – 21-30, 32, 33, 38-40 Isabel de Castro (D.) – 21
Isabel da Silva de Ataíde (D.) – 32, 34, 35, 40
H
J
Habsburgos – 117
Heinécio (indivíduo) – 167 Jacob de Castro Sarmento – 152
Henrique (D., infante) – 18-21, 23, 24, 30, 38 Jerónimo Zurita – 115
Henrique de Castro (D.) – 23, 24 Jesus Maria (José de), cf. José de Jesus Maria (Fr.)
225
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
226
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
José Pereira Corte-Real – 207 Lisboa – 22, 30, 35, 39, 47-54, 57-62, 64, 66-
69, 71-73, 75, 77-79, 82, 84-105, 114, 115, 118,
José da Silva (João), cf. João José da Silva
126, 127, 131, 133, 147, 151, 153, 156, 159,
Juan Pires da Veiga (P.e) – 204 164, 167, 168, 172, 174, 199, 202, 205, 207,
209, 210
Juan da Silva (D.) – 15
Lisboa (Pero de), cf. Pero de Lisboa
Jueiros (João de), cf. João de Jueiros
Lobão (Coimbra) – 25
Júlio II (papa) – 122, 128, 129, 133, 135
Lobo (Diogo), cf. Diogo Lobo (D.)
Júlio Mattiazzi – 153, 173
Lobos – 15
Justa Rodrigues – 126
Londres – 112
Justiniano I – 58
Lopes (Fernão), cf. Fernão Lopes
227
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Macomboa (Manuel Alves), cf. Manuel Alves Mariana Eugénia da Silva e Sousa – 114
Madeira (rio, Brasil) – 184 Marinha (Sebastião Martins da), cf. Sebastião
Martins da Marinha
Magalhães (Maria de), cf. Maria de Magalhães
(D.) Marrocos – 16
Malafaia (Luís Gonçalves), cf. Luís Gonçalves Martim Gonçalves de Ataíde – 16-18, 26, 38
Malafaia Martim Vasques da Cunha – 17
Manuel (João), cf. João Manuel (D.) Martim Viegas de Ataíde – 16
Manuel I (D.) – 8, 9, 14, 15, 35, 36, 48, 66-69, Martinho de Ataíde (D.) – 13, 15, 22, 25-31, 33,
71, 82, 111-113, 115-136, 172 35, 36, 39, 40
Manuel Alves Macomboa – 159 Martinho de Castelo Branco (D.) – 33, 40, 126
Manuel do Cenáculo (Fr.) – 166, 171 Martinho da Costa (D., cardeal) – 124, 133
Manuel Ferreira (Fr.) – 207 Martins (Gil), cf. Gil Martins
Manuel José Álvares de Carvalho (Dr.) – 164 Martins (Nuno), cf. Nuno Martins
Manuel Lopes Barreto – 210 Martins da Marinha (Sebastião), cf. Sebastião
Manuel de Matos Felgueiras do Lago – 210 Martins da Marinha
Manuel Monteiro da Rocha – 206 Martins Pereira de Alencastre (José), cf. José
Martins Pereira de Alencastre
Manuel Pacheco de Resende (Dr.) – 172
Martins da Silveira (Nuno), cf. Nuno Martins da
Manuel de Paiva – 159 Silveira
Marcelino dos Santos (João), cf. João Marcelino Matos (Raimundo da Cunha), cf. Raimundo da
dos Santos Cunha Matos
Marcelino dos Santos (José), cf. José Marcelino Matos Felgueiras do Lago (Manuel de), cf.
dos Santos (Dr.) Manuel de Matos Felgueiras do Lago
Maria (D., infanta) – 122, 123, 128, 130 Mattiazzi (Júlio), cf. Júlio Mattiazzi
Maria (D., rainha) – 124, 132 Mauá (Brasil) – 190
Maria (José de Jesus), cf. José de Jesus Maria (Fr.) Mauro Hispano (fr.) – 124, 133
Maria do Carmo da Encarnação – 212, 213 Maximiliano (imperador) – 125, 127, 129, 134
Maria da Cunha (D.) – 24 Mazalquibir – 127
Maria Joana do Carmo – 212, 213 Mécia de Castro (D.) – 22, 30, 39
Maria de Magalhães (D.) – 40 Mécia Vasques Coutinho – 17-19, 27, 38
228
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
229
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Noronha (Maria de), cf. Maria de Noronha (D.) Pará (Brasil) – 180
Noronha (Pedro de), cf. Pedro de Noronha (D.) Paraguai – 189
Noronha (Sancho de), cf. Sancho de Noronha (D.) Paris – 125, 127
Noronhas – 14, 15, 30 Pascalligo (Pedro), cf. Pedro Pascalligo
Noyon – 124, 131 Passos Ribeiro (António de), cf. António de
Passos Ribeiro
Nunes (Silvestre), cf. Silvestre Nunes
Paulo de Armanhor – 124, 132
Nunes Cardial (Francisco), cf. Francisco Nunes
Cardial Paulo Hodar – 163
Nuno Álvares Pereira (D.) – 17, 18, 52 Pedro (D., infante) – 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24,
25, 26, 27, 28, 33, 38
Nuno da Cunha – 127
Pedro (D., regente) – 51
Nuno Fernandes – 68
Pedro I (D., imperador) – 180
Nuno Fernandes de Ataíde – 18, 38
Pedro II (D., rei) – 112
Nuno Gonçalves de Ataíde – 18, 38
Pedro de Alcântara (D.) – 180
Nuno Martins – 82
Pedro Álvares de Mértola – 202
Nuno Martins da Silveira – 20, 22
Pedro de Ataíde (D.) – 22, 32, 39, 40
Paceris (Jofre de), cf. Jofre de Paceris Pedro da Rocha (Tomás), cf. Tomás Pedro da
Rocha
Pacheco (Diogo), cf. Diogo Pacheco
Pedro Vaz da Cunha (D.) – 22, 38
Pacheco de Resende (Manuel), cf. Manuel
Pacheco de Resende (Dr.) Pedrógão Grande – 205, 206, 207
230
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
Pero Correia – 116, 120, 123, 127, 129, 134, 135 Quinta do Reguengo das Chantas (Santarém) –
24
Pero de Gouveia – 122, 127, 134
Pero de Lisboa – 65, 79
R
Pero Rodrigues de Castro – 78
Pestana (Francisco), cf. Francisco Pestana Raimundo da Cunha Matos – 179-185, 189
Pezaro (Alexandre), cf. Alexandre Pezaro Ramos (João Pereira), cf. João Pereira Ramos
Pimentel (Luís de França), cf. Luís de França Ravin (João Francisco), cf. João Francisco Ravin
Pimentel
Redondo – 14, 30, 39
Pina (Fernão de), cf. Fernão de Pina
Resende (Garcia de), cf. Garcia de Resende
Pires (Juan Pires da), cf. Juan Pires da Veiga (P.e)
Resende (Manuel Pacheco de), cf. Manuel
Pisa – 125, 133 Pacheco de Resende (Dr.)
Piscio (António), cf. António Piscio Resende (Teresa Vasques), cf. Teresa Vasques
Pombal – 50 Resende
231
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Rocha (José Monteiro da), cf. José Monteiro da Salamanca (Miguel de), cf. Miguel de Salamanca
Rocha (fr.)
Rocha (Manuel Monteiro da), cf. Manuel Salustiano Pereira Xavier – 212, 213
Monteiro da Rocha
Sancho I (D.) – 50
Rocha (Tomás Pedro da), cf. Tomás Pedro da
Sancho II (D.) – 16
Rocha
Sancho de Noronha (D.) – 15, 22, 38
Rodes – 23
Sande (Rui de), cf. Rui de Sande
Rodrigo de Castro (D.) – 119, 122, 127, 128
Santa Maria (Nicolau de), cf. Nicolau de Santa
Rodrigues (Bartolomeu), cf. Bartolomeu
Maria (fr.)
Rodrigues
Santa Maria da Feira – 15
Rodrigues (João Luís), cf. João Luís Rodrigues
Santarém – 16, 24, 28, 30, 32, 60, 65, 126
Rodrigues (Justa), cf. Justa Rodrigues
Santilhana (Gomes de), cf. Gomes de Santilhana
Rodrigues (Teotónio dos Santos), cf. Teotónio
dos Santos Rodrigues Santos (João Marcelino dos), cf. João Marcelino
dos Santos
Rodrigues de Castro (Pero), cf. Pero Rodrigues
de Castro Santos (José Marcelino dos), cf. José Marcelino
dos Santos (Dr.)
Rodrigues de Sá de Meneses (João), cf. João
Rodrigues de Sá de Meneses Santos Rodrigues (Teotónio dos), cf. Teotónio
dos Santos Rodrigues
Roma – 116, 118-130, 134, 135
São Ângelo (João de), cf. João de São Ângelo (Fr.)
Romano (Vicente Filipe), cf. Vicente Filipe
Romano São Pedro de Ataíde (freguesia, Amarante) – 16,
17
Rosado (Caetano), cf. Caetano Rosado
São Tomé (ilha) – 67
Rossilhão – 32
Saralvo (Abraão), cf. Abraão Saralvo
Rui Aguiar da Grã – 72
Schott (Andrea), cf. Andrea Schott
Rui Boto – 69, 72
Sebastião (D.) – 14, 15, 16, 37
Rui Fernandes de Almada – 117, 135
Sebastião José de Carvalho e Melo – 141, 142,
Rui da Grã – 126
144, 147-174
Rui de Sande – 122, 127, 128
Sebastião Martins da Marinha – 205, 206
Sebastião Monteiro – 207
S
Segura – 20
Sabóia (ducado de) – 117, 118, 124, 125, 131- Selvaggio (indivíduo) – 168
133 Serpa – 199, 200
Safim – 18, 38, 126, 135 Setúbal – 39, 40
Saint-Hilare (indivíduo) – 186 Sever – 126
Salamanca – 125 Siena – 127
232
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
Silveira (Luís da), cf. Luís da Silveira (D.) Taunay (visconde de) – 191
Silveira (Nuno Martins da), cf. Nuno Martins da Tavares (Francisco), cf. Francisco Tavares
Silveira Tavira – 23
Silveiras – 15 Távora – 16
Silves – 50 Távora (Violante de), cf. Violante de Távora (D.)
Silvestre Nunes – 117, 136 Teles – 16
Simão da Cunha de Ataíde – 20 Teles (Leonor), cf. Leonor Teles (D.)
Simão Gonçalves da Câmara – 40 Teotónio dos Santos Rodrigues – 212, 213
Simão Gould – 164, 165 Teresa Vasques Resende – 38
Simões (Torres Ferreira), cf. Torres Ferreira Terra Santa – 20, 26
Simões
Tocantins (estado, Brasil) – 191, 192
Sintra – 77, 126
Tocantins (rio, Brasil) – 190
Soares (Francisco de Melo), cf. Francisco de
Melo Soares Tomar – 50, 207, 210-212
Soares de Melo (Francisco), cf. Francisco Soares Tomás Pedro da Rocha – 160, 171
de Melo Tomé Lopes – 120, 122, 127, 134
233
FRAGMENTA HISTORICA Índice antroponímico e toponímico
Vasques (Antão), cf. Antão Vasques Violante de Castelo Branco (D.) – 33, 40
234
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA
X Z
235