Filosofia política na época contemporânea
Hegel e o hegelianismo
Falar de Filosofia política contemporânea sem referir Hegel é procurar
dificultar a compreensão da filosofia política da nossa época.
A Filosofia do Estado de Hegel resume-se a subordinação do indivíduo
ao Estado, no qual este se dissolve em nome de uma ordem suprema,
a ideia absoluta que norteia as outras inteligên-cias e vontades,
legitimando-se, desta maneira, o regime ditatorial. Quer dizer, para
Hegel, o individuo, no Estado, é um simples objecto e não o sujeito do
seu destino. A sua vontade é sufocada pela vontade do Estado e o
individuo perde a sua liberdade.
É este factor que será contestado pelos liberais. Quando Hegel morre,
em 1831, os seus discípulos começaram a discutir se o Estado
prussiano de então, com as suas instituições e as suas FIG. 18: Hegel.
Realizações económicas e sociais, deveria ser considerado o
momento da sintese dialéctica, como a realização máxima da
racionalidade do espírito.
Acredita-se que os regimes ditatoriais que proliferaram no século XIX
sejam fruto desta visão hegellana sobre o Estado.
Filosofia politica
Uns afirmavam, enquanto outros negavam. Estes últimos invocavam
a teoria da dialéctica para sustentar que não era possível deter-se
naquela configuração política e que a dialéctica histórica deveria
negá-la para a superar e realizar uma racionalidade mais elevada (de
acordo com o método dialéctico de Hegel).
O alemão David Strauss designou estas duas alas por esquerda e
direita hegelianas, em 1837, termos usados no parlamento francês
para referir o espírito reformista e o espírito reformista
conservadorista defendido por cada uma das alas, respectivamente. A
esquerda e a direita políticas constituem, respectivamente, os
partidos socialistas ou comunistas e os partidos capitalistas (liberais).
Analisaremos, na Filosofia contemporânea, dois autores,
nomeadamente John Rawls e Karl Popper, ambos liberais, apesar de
haver certas particularidades que levam alguns estudiosos a negar
este atributo ao primeiro.
John Rawls
O pensamento político do filósofo norte-americano John Rawls
encontra-se patente nas obras Uma Teoria de fustiça, de 1971, e O
Liberalismo Politico, resultando esta última da revisão do pensamento
expresso na primeira, devido às inúmeras críticas feitas por libertários
e comunitários. A obra Uma Teoria de Justiça está dividida em três
partes. A primeira parte trata das teorias, a segunda das instituições
e a terceira dos fins. Na primeira parte, Rawls apresenta as ideias
principais a desenvolver ao longo da obra; na segunda, a necessidade
de uma democracia constitucional como pano de fundo para a
aplicação das ideias referidas na primeira; e, na terceira, descreve o
estabelecimento da relação entre a teoria da justiça e os valores da
sociedade e o bem comum.
Como citámos anteriormente, para Rawls, a justiça é a estrutura de
base da sociedade e a primeira virtude das instituições sociais. Esta
concretiza-se na efectivação das liberdades indi-viduais e na sua não
restrição para o benefício de outrem. Uma sociedade justa, defende
Rawls, deve fundar-se na igualdade de direitos. A justiça não pode ser
deduzida a partir das concepções de bem difundidas na sociedade,
porque se aliam ao utilitarismo.
Assim, a justiça deve ser encarada como a capacidade concedida à
pessoa para escolher os seus próprios fins. Portanto, a justiça diz
respeito a uma estrutura de base que congrega as instituições sociais
mais importantes, a constituição, as principais estruturas económicas,
bem como a maneira através da qual estas representam os direitos e
os deveres fundamentais e determinam a repartição dos benefícios
extraídos da cooperação social.
Rawls sabe que, na estrutura de base, os homens ocupam posições
diferentes, o que origina desigualdade em termos de posição social.
Por isso, a justiça tem de corrigir estas desigualdades.
Indivíduos que não admitem quaisquer restrições as liberdades
individuais.
O artigo 35.” Da nossa. Constituição (de 2004) refere esta igualdade
de todos os cidadãos perante a lei.
Unidade 2
Daí a necessidade de um novo contrato social que defina os princípios
da justiça identifi-cando regras que, pessoas livres e racionais,
colocadas numa «posição inicial de igualdade», escolheriam para
formar a sua sociedade. A definição dos princípios da nova
organização social deve ser feita á luz do véu de ignorância, para que
ninguém efectue escolhas em função da sua situação pessoal de
desigualdade. Portanto, a justiça em Rawls deve ser entendida como
equidade.
Como defende Rawls, os princípios da justiça devem ser classificados
por ordem lexical e, por consequência, a liberdade não se pode limitar
senão em nome da própria liberdade. Há dois casos a referir: a) uma
redução da liberdade deve reforçar o sistema total da liberdade que
todos partilham; b) uma desigualdade só deve ser aceitá-vel se servir
para beneficiar os cidadãos menos favorecidos.
Surge, então, o principio da diferença, com a finalidade de limar as
desigualdades, organi-zando-as, na condição de todos beneficiarem,
principalmente os desfavorecidos. Para isso, o Estado deve dividir-se
em quatro departa-mentos:
Departamento das atribuições – tem a missão de velar pela
manutenção de um sistema de preços e impedir a formação de
posições domi-nantes excessivas no mercado..
Departamento da estabilização tem como objectivo proporcionar
pleno emprego.
Departamento das transferências sociai
Tem como função velar pelas necessidades sociais e intervir para
assegurar o mínimo social (Estado de providência).
Departamento para a repartição tem como fim preservar uma certa
justiça neste domínio graças à fiscalidade e aos ajustamentos
necessários do direito de propriedade.
Indivíduos que não admitem quaisquer restrições às liberdades
individuais.
O artigo 35.” Da nossa Constituição (de 2004) refere esta igualdade
de todos os cidadãos perante a lei.
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Daí a necessidade de um novo contrato social que defina os princípios
da justiça identifi-cando regras que, pessoas livres e racionais,
colocadas numa «posição inicial de igualdade», escolheriam para
formar a sua sociedade. A definição dos princípios da nova
organização social deve ser feita à luz do véu de ignorância, para que
ninguém efectue escolhas em função da sua situação pessoal de
desigualdade. Portanto, a justiça em Rawls deve ser entendida como
equidade.
Como defende Rawls, os princípios da justiça devem ser classificados
por ordem lexical e, por consequência, a liberdade não se pode limitar
senão em nome da própria liberdade. Há dois casos a referir: a) uma
redução da liberdade deve reforçar o sistema total da liberdade que
todos partilham; b) uma desigualdade só deve ser aceitá-vel se servir
para beneficiar os cidadãos menos favorecidos.
Surge, então, o principio da diferença, com a finalidade de «limar as
desigualdades, organi-zando-as, na condição de todos beneficiarem,
principalmente os desfavorecidos. Para isso, o Estado deve dividir-se
em quatro departa-mentos:
Departamento das atribuições-tem a missão de velar pela
manutenção de um sistema de preços e impedir a formação de
posições domi-nantes excessivas no mercado.
Departamento da estabilização – tem como objectivo proporcionar
pleno emprego.
Departamento das transferências sociais
Tem como função velar pelas necessidades sociais e intervir para
assegurar o mínimo social (Estado de providência).
Departamento para a repartição – tem como fim preservar uma certa
justiça neste domínio graças à fiscalidade e aos ajustamentos
necessários do direito de propriedade.
Críticas a Uma Teoria de Justiça
Robert Nozick concorda com Rawls em considerar a necessidade de
determinar o justo inde-pendentemente do bem. Todavia, nota uma
certa contradição nos dois princípios de justiça de Rawls. Para este
crítico, a questão de saber se uma distribuição é justa depende do
modo como esta nasceu, o que implica a sua análise histórica. Por
exemplo, alguns espectadores, tendo ficado deleitados com a
habilidade profissional de um jogador, decidem doar uma soma em
dinheiro a esse mesmo jogador (além do salário mensal que este já
recebe) e ele enriquece. Obviamente, este jogador assumirá uma
posição de desigualdade em relação aos seus colegas, que não
impres-sionaram o público da mesma maneira que ele. Apesar desta
desigualdade, parece ser justo o seu enriquecimento. Nestes casos,
portanto, a justiça como equidade revela-se impossível de aplicar ou
injusta. Nozick questiona-se: por que processo uma tal transferência
entre duas pessoas poderia dar origem a uma reivindicação de justiça
distributiva sobre uma porção do que fora transferido por uma
terceira pessoa que não tinha qualquer direito de justiça sobre a
menor fruição das outras antes da transferência?
Filosaba politica
A partir desta análise, Nozick conclui que nenhum princípio de justiça
final (que siga um modelo) se pode realizar de maneira contínua sem
interferência contínua na vida das pessoas.
Outra crítica que o libertário Nozick faz a Rawls deriva do facto de
este ter postulado que os dons pessoais dos indivíduos devem ser
usados em benefício dos menos dotados, como mostra o seguinte
trecho: os que foram favorecidos pela natureza […] podem tirar
beneficio da sua sorte somente na condição de esta melhorar os
menos bem dotados. Para Nozick, esta atitude legitimaria o uso de
indivíduos como meios, entrando em contradição com o seu próprio
princípio, posição partilhada pelos comunitários Sandel e van Parijs,
este último asseverando que a proprie-dade plena de cada um é
incompatível por si mesma com a propriedade comum dos talentos
pressupostos no segundo princípio.
No geral, os comunitários consideram contestável o pressuposto da
possibilidade de escolhas racionais feitas de maneira isenta à
distância das práticas colectivas. De acordo com Michael Walser,
nenhuma abstracção pode ser feita sem considerar as circunstâncias
sócio-históricas e a significação simbólica dos bens, cuja repartição
deve obedecer aos princípios da justiça.
O liberalismo político de Rawls
Depois das críticas feitas a Uma Teoria de Justiça, Rawls reconheceu-
as e escreveu um artigo intitulado A Prioridade do Direito e Ideias do
Bem» (The Priority of Right and Ideas of the Good), em 1988. Neste
artigo, defende que a unidade política de uma sociedade não é
exequível se os seus membros não partilharem uma certa concepção
de bem, sem, no entanto, revogar a primazia do justo sobre o bem.
Esta visão foi desenvolvida na obra O Liberalismo Politico, onde
reconhece igualmente que a justiça como equidade é um projecto
irrealista. Porém, assevera que a nova teoria do liberal-ismo deve
estabelecer uma base sobre a qual se possam erguer instituições
políticas liberais, o que implica a identificação de um substrato
comum das ideias aceitáveis e aceites pela comuni-dade pública e,
em seguida, considerar os termos de coexistência entre estas ideias e
uma concepção política da justiça, que deverá estar de acordo com as
convicções bem pesadas dos indivíduos, a todos os níveis de
generalidade ou, pelo menos, em equilíbrio com as mesmas.
Texto 15
Princípios de justiça
Uma vez garantidas as liberdades individuais e, portanto, toleradas as
diferentes concepções de vida, deve buscar-se o máximo de
igualdade possível, por meio de arranjos institucionais. De entre os
factores que geram desigualdade e os seus respectivos remédios,
podemos mencionar os que se seguem: a) os chamados factores
adscritícios, como a discriminação em razão do sexo ou da cor, por
exemplo, são combatidos pelo sistema de liberdade natural, que
serve justamente para impedir discriminações desse tipo; b) os
factores ambientais, derivados de diferenças culturais, de origem
familiar e de renda, devem ser mitigados pela igualdade equitativa de
oportunidades, o que significa proporcionar as mesmas igualdades
aos que têm os mesmos talentos; c) os factores pessoais, referentes à
fortuna genética de cada indivíduo, sofrem a acção do princípio de
diferença, aplicável a uma sociedade bem ordenada, jå livre de
desigualdades derivadas de factores adscritícios e ambientais.
Através deste princípio de diferença, permitem-se desigualdades
ainda remanescentes, desde que beneficiem os menos privilegiados.
Dessa brevíssima análise já se vê que a teoria rawlsiana tem fortes
características igualitárias. Mesmo os Estados social-democratas
europeus parecem estar distantes de tamanha igualdade. Portanto,
em tempos de economia de mercado e de meritocracia (com as
carreiras abertas aos talentos), é importante analisar como Rawls
explica a motivação dos indivíduos para instituir e seguir os seus
princípios de justiça.
Bertin de Almeida, Gabriel, Os Principios de Justiça de John Rawls: O
Que Nos Faria Segui-los?,
USP, Brasil, sd., p. 9 (adaptado)
Texto 16
A necessidade de uma teoria do bem
Até agora pouco se disse sobre o conceito de bem, que foi
rapidamente mencionado antes, quando eu sugeria que o bem de
uma pessoa é determinado pelo que é para ela o mais racional plano
de vida, dadas as circunstâncias razoavelmente favoráveis (§15).
Durante toda a exposição, parti da hipótese de que numa sociedade
bem-ordenada, as concepções que os cidadãos têm acerca do seu
bem estão de acordo com os princípios de justiça que são
publicamente reconhecidos e incluem um lugar apropriado para
vários bens primários. Mas o conceito de bem foi usado apenas num
sentido muito restrito. E, na verdade, devo fazer uma distinção entre
duas teorias do bem. A razão para proceder assim é que, na justiça
como equidade, o conceito de justo é anterior ao conceito que define
o que é o bom. Contrariamente ao que ocorre com as teorias
teleológicas, algo é bom apenas se se adequar aos modos de vida
que são consistentes com os da justiça já disponíveis. Mas, para
estabe-lecer esses princípios, é necessário o apoio de alguma noção
de bem, pois precisamos de suposições sobre os motivos das partes
na posição original. Como essas posições não devem colocar em risco
o lugar prioritário do conceito de justo, a teoria do bem usada na
argu-mentação a favor dos dois princípios da justiça fica-se apenas
pelos pontos essenciais. Refiro-me a essa explicação do bem como a
teoria restrita: o seu propósito é assegurar as premissas acerca dos
bens primários, necessários para que cheguemos aos principios
Da justiça. Uma vez elaborada essa teoria e analisados os bens
primários, podemos usar os princípios da justiça no desenvolvimento
posterior daquilo a que chamarei teoria plena do bem. A fim de
esclarecer esses pontos, recordemos onde foi que a teoria do bem já
desempenhou um papel. Em primeiro lugar, ela é usada para definir
os membros menos privilegiados da sociedade. O princípio da
diferença supõe que isso possa ser feito. […]
Karl Popper (1902-1994)
Karl Raimund Popper nasceu em 1902, em Viena, na Áustria. Estudou
Matemática, Física, Filosofia, Psicologia e História da Música. Deu
aulas no ensino secundário e participou nos encontros de café do
Círculo de Viena, apesar de nunca ter sido convidado para o efeito.
Escreveu A Lógica da Descoberta Científica, em 1934, obra que o
tornou célebre. Por ser de descendência judaica, foi vítima da
perseguição nazi e viu-se obrigado a encontrar um refúgio. Em 1937,
fugiu para a Gra-Bretanha. Entre 1938 e 1946, deu aulas de Filosofia
na Universidade da Nova Zelândia, tendo escrito, nesse período, as
suas obras políticas Pobreza do Historicismo e A Sociedade Aberta e
Os Seus Inimigos. Depois, regressou à Grä-Bretanha e manteve a sua
carreira universitária. Em 1969, passou a dedicar a sua vida ao estudo
e às conferências.
FIG. 21: Karl Popper.
As principais obras de Popper são as seguintes:
Lógica da Descoberta Científica (1934);
A Sociedade Aberta e os seus Inimigos (1943);
Pobreza do Historicismo (1944);
Conjecturas e Refutações; O Crescimento do Conhecimento Científico
(1963);
Conhecimento Científico; Um Enfoque Evolucionário (1973);
Sociedade Aberta. Universo Aberto (1982);
Para um Mundo Melhor (1989), entre outras.
Pensamento político
Condicionado pelo terror nazi, de que foi vítima, Popper reflectiu
sobre a génese e fundamen-tação ideológica dos regimes totalitários.
Devido às suas investigações, chegou à conclusão que tais regimes
(totalitários) foram idealizados por Platão, Hegel e Marx, baseando-se
na visão destes filósofos sobre o historicismo.
Unidade 2
95
O historicismo concebera um método dialéc-tico que foi aplicado ao
estudo da sociedade. O método dialéctico hegeliano, patente no
historicismo, segue a ordem triádica de tese, antítese e sintese. O
historicismo centra-se na fé em leis férreas de desenvolvimento da
história humana na sua inteireza, leis essas que não permitem ao
homem sonhos utópicos, nem planos racionais de construção social.
Para Popper, as teses metodológicas do historicismo constituem o
suporte teórico mais válido das ideologias totalitárias.
Na obra A Sociedade Aberta e os seus Inimigos, Popper critica o
método dialéctico e ataca a ideologia historicista que defendia o
totalitarismo. A sociedade aberta opõe-se à sociedade fechada, que é
uma sociedade totalitária, concebida organicamente e organizada
tribalmente segundo normas não modificáveis.
A sociedade aberta, em contrapartida, baseia-se no exercício crítico
da razão humana, como sociedade que não apenas tolera como
também estimula no seu interior e por meio de institui-ções
democráticas a liberdade dos indivíduos e dos grupos, tendo em vista
a solução dos problemas sociais, ou seja, as reformas contínuas.
Nesta, os governados têm a possibilidade efectiva de criticar os seus
governantes e de os substi-tuir sem derramamento de sangue e sem
que isso signifique que o democrata deva aceitar a ascensão do
totalitário ao poder. Popper admite a possibilidade da revolução
violenta, a qual só é justificada se for para derrubar um tirano.
Principais ideias de Popper:
1. «A história da humanidade não tem um sentido concreto que
antecipadamente possa ser conhecido; o único sentido que
possui é aquele que os homens lhe dão.
2. O progresso da humanidade é possível e não carece de um
critério último de verdade.
3. «A razão humana é essencialmente falível, o dogmatismo não
tem pois qualquer fundamento. A única atitude justificável para
atingir a verdade é através do diálogo, o confronto de ideias por
meios não violentos. Na ciência, significa aceitar o risco de
formular hipóteses que venham depois a ser refutadas pela
experiência. Na política, essa atitude significa que cada um
deve aceitar o risco de ver as suas propostas serem recusadas
por outros no confronto de ideias ou projectos.»
Texto 17
A sociedade aberta
A violência gera sempre mais violência. E as revoluções violentas
matam os revolucionários e corrompem os seus ideais. Os
sobreviventes são apenas os mais hábeis especialistas na arte de
sobreviver […].
Eu considero que somente na democracia, na sociedade aberta, é que
temos a possibilidade de eliminar qualquer inconveniente. Se
destruirmos esse ordenamento social com a revolução violenta, não
somente seremos responsáveis pelos pesados sacrifícios da própria
revolução, mas também criaremos uma situação que tornará
impossível a eliminação dos problemas sociais, da injustiça e da
opressão. Eu sou pela liberdade individual e odeio como poucos o
excesso do poder do Estado e a arrogância das burocracias. Mas,
infelizmente, o Estado é um mal necessário: é impossível prescindir
completamente dele. E, lamentavelmente, é verdade que quanto
mais numerosos são os homens, mais necessário se torna o Estado,
Através da violência pode aniquilar-se facilmente a humanidade.
O que se faz necessário é trabalhar por uma sociedade mais racional,
na qual os conflitos sejam resolvidos racionalmente em proporção
sempre maior. Eu disse uma sociedade mais racional. Na verdade,
nenhuma sociedade é racional, mas existe uma sociedade que é mais
racional do que a existente e em cuja direcção nós temos o dever de
caminhar. Esta é a aspiração realista e não utopia.
2.3 Formas de sistemas políticos
Sistema político é a maneira como uma comunidade política se
estrutura e exerce o poder político. A estrutura do poder da
comunidade política é feita de duas formas: como regime político e
como sistema de governo.
O regime politico refere-se às relações que se estabelecem entre o
indivíduo e a sociedade política, cuja ideologia o poder politico tem a
missão de implementar no âmbito jurídico.
O sistema de governo concerne à titularidade e à estruturação do
poder político, com a finali-dade de determinar os seus titulares e os
órgãos estabelecidos para o seu exercício.
Os critérios são variados, nomeadamente: o elenco dos órgãos de
soberania, a sua composição, o modo de designação dos seus
titulares, as competências, as respectivas interdependências e o
controlo do exercicio das funções do Estado.
2.3.1 Regimes políticos
O pensamento político clássico opõe a monarquia à república.
Monarquia-governo de um só homem; República governo de um
colégio ou assembleia.
Actualmente, a distinção entre monarquia e república baseia-se no
modo como é designado o chefe de Estado.
Monarquia é o regime politico em que a designação do chefe de
Estado se faz por herança.
República é o regime político em que a designação do chefe de
Estado se faz por formas diversas, por eleição directa dos cidadãos ou
pelos seus representantes, por golpe de estado, por legislação, etc,
mas não por herança.
Os regimes políticos classificam-se em ditatoriais ou democráticos.
O regime é ditatorial quando:
Há uma ideologia exclusiva ou liderante;
Há um aparelho para impor a ideologia;
Não há uma efectiva garantia dos direitos pessoais dos cidadãos;
Não existe livre participação na designação dos governantes:
Não existe um controlo do exercício dos governantes.
O regime é democrático quando:
Não existe uma ideologia dominante ou liderante;
Não existe um aparelho para impor a ideologia;
Existe uma efectiva garantia dos direitos pessoais dos cidadãos;
Existe livre participação na designação dos governantes;
Existe um controlo do exercício das funções dos governantes.
Por sua vez, os regimes ditatoriais subdividem-se em autoritários e
totalitários.
O regime é ditatorial autoritário quando o poder politico exerce um
certo controlo sobre a sociedade civil, sendo, no entanto, possível
manter um determinado grau de autonomia.
O regime é ditatorial totalitário quando o controlo do poder político
subjuga a sociedade civil
2.3.2 Sistemas de governo
Existem governos com concentração de poderes e existem outros
com desconcentração de poderes. Para a análise de um sistema de
governo, há que ter em conta a separação de poderes, a
dependência, a independência ou a interdependência dos órgãos e a
responsabilidade política
De um órgão perante outro. Os sistemas de governo também se
dividem em ditatoriais e democráticos:
Governo ditatorial-o poder politico é detido por uma pessoa ou por
um conjunto de pessoas que o exercem por direito próprio, sem que
haja participação ou representação da pluralidade dos governados.
O sistema de governo ditatorial subdivide-se em monocrático e
autocrático.
O sistema é monocrático quando o poder é exercido por um órgão
singular (por exemplo, a monarquia absoluta de César).
O sistema é autocrático quando o poder é exercido por um órgão
colegial, por um grupo ou por um partido politico.
O sistema de governo democrático classifica-se em directo,
semidirecto e representativo, de acordo com a participação dos
governados no exercício do poder politico.
Democrático directo-a assembleia-geral dos cidadãos exerce
integralmente as suas funções (este sistema só é aplicável em
pequenos Estados-Cidades-Estado).
Democrático semidirecto a constituição prevé a existência de órgãos
representativos da soberania popular através de um referendo
(consulta ao povo através da votação de alguma ideia em discussão).
Democrático representativo o poder político pertence à colectividade,
mas é exercido por órgãos que actuam por autoridade em nome dele
e tendo por titulares individuos esco-Ihidos com intervenção dos
cidadãos que a compõem.
Sistemas de governo democráticos representativos de concentração
de poderes e de divisão de poderes
a) Governos democráticos representativos de concentração de
poderes
Convencionais existe uma assembleia representativa em que se
concentram todos os poderes soberanos, por delegação do povo,
rejeitando-se formalmente o princípio de separação de poderes.
Representativos simples-o poder concentra-se no chefe de Estado.
b) Sistemas de governo democráticos representativos de divisão
de poderes
Estes dividem-se em parlamentaristas, presidencialistas e
semipresidencialistas.
O critério baseia-se na posição relativa do chefe de Estado no
conjunto do sistema e na relação entre o governo e o parlamento.
Sistema parlamentar- o chefe de Estado é um órgão politicamente
irrelevante no que respeita à possibilidade de exercer o poder
efectivamente e o governo é politicamente responsável perante o
parlamento. O parlamento pode demitir o governo.
Sistema de governo presidencial o órgão decisivo do governo é o
chefe de Estado. O parlamento não pode demitir o governo.
Sistema de governo semipresidencial-o chefe de Estado tem a
possibilidade de exercer poderes significativos e o governo responde
politicamente ao parlamento
O objectivo que impulsionou originalmente a Filosofia de Hegel foi a
reconstituição de um ideial cristalizado na imagem da antiga Grécia.
Esse ideal personificava a busca da liberdade subjectiva e privada
que esse ideal personificava era uma nação de liberdade completa
sem a presença da alternidade e da diferença. Uma liberdade
portanto, que pelas suas próprias características implicava uma
consumação ligada ao infinito sua realização deveria eliminar toda a
espécie entra as dimensões da vida, assim encontra a posição a um
presente caracterizado pela cisão entre governados e governantes.
Entre politica e religião, a Grécia antiga representava para Hegel e
muitos da sua geração um ideal da harmonia e de identidade entre
esses vários aspectos. Liberdade então significa uma vida plena ou
restabelecimento da juventude perdida da civilização ocidental.
2.1. Obras
➤
Fenomenologia do espirito;
Enciclopédia das ciências filosóficas;
Ciência da lógica:
Principios (elemento da) filosofia do direito;, etc.
2.2. Fenomenologia do espírito A fenomenologia do espirito é uma
obra, por tantos titulos original e mesmo único dentro da
Tradição do espírito filosófico, que assinala em 1807 a aparição de
Hegel no primeiro plano de cena filosófica alemă. Tendo publicado ate
então artigos ou pequenos escritos mas tendo, por outro lado,
amadurecendo durante os anos da seu ensinamento na universidade
de jena 1801-1806, as grandes linhas do seu sistema no confronto
com os seus grandes mestres do idealismo alemão, sobre tudo Kant,
Fichte e Schellilg. Hegel pretende fazer da fenomenologia o pórtico
grandioso desse sistema que se apresenta orgulhosamente como
sistema da ciência. No entanto, a arquitectura e a escritura desse
texto surpreende. Não é uma meditação no estilo cartesiano, nem
uma pura construção medida e rigoroso como a critica da razão pura,
nem um tratado didáctico com a doutrina de Fichte. Sendo tudo isto,
è sobretudo a descrição de um caminho que pode ser levado acabo
por quem chegou ao seu termo e é capaz de rememorar os passos
percorridos; o próprio filosofo na hora e no lugar da escritura do texto
filosófico, Hegel no seu tempo histórico na Jena de 1806. Esse
caminho é um caminho de experiências e o frio que as une é o próprio
discurso dialéctica que mostra a necessidade de se passar de uma
estacão par a outra, ate que o fim se alcance no desenvolvimento
total do sentido do caminho ou na recuperação dos seu passos na
articulação de um saber que o funda que o justifica. Quem fala de
experiência fala do sujeito e significação de sujeito e objecto
4. Filosofia na época contemporânca
Filosofia contemporânea é aquela desenvolvida a partir do século
XVIII que tem como marco a revolução francesa, em 1789, ate os dias
actuais. São suas principais caracteristicas no mundo ocidental:
consolidação do captalismo como sistema económico, consolidação
do regime democrático após meados do século XIX, neologismo e
imperialismo (disputa de territórios, mercados consumidores e fontes
de matéria prima pelas potencias europeias), amplo desenvolvimento
tecnológico a partir de meados do século XX, entre outros
3.1. Hegel & Hegelianismo
Hegelismo é uma corrente filosófica fundada por Georg Hegel, filosofo
alemão e é um dos primeiros pensadores a se preocupar com a
“modernidade” como base dos estudos sociológicos.
Pode ser sintetizado pela frase do próprio filosofo: o racional por se só
é real”, que significa que a realidade é a paz de ser expressa em
categorias reais. O objectivo de Hegel era reduzir a realidade a uma
unidade sintética dentro de um sistema denominado idealismo
transcendental.
Falar de filosofia contemporânea sem referir Hegel é procurar
dificultar a compressão da Filosofia politica da nossa época.
A Filosofia do estado de Hegel resume se a subordinação do individuo
ao estado, no qual este se dissolve em nome de uma ordem suprema,
a ideia absoluta que norteia as outras inteligências e vontades,
legitimando se desta maneira, o regime ditatorial. Que dizer, para
Hegel, o individuo, no estado é um simples objecto e não o sujeito do
seu destino. A sua vontade é sufocada pela vontade do estado e o
individuo perde a sua liberdade.
É este factor que será contestado pelos liberais. Quando Hegel more,
1831, os seus discipulos começaram a discutir se o estado prussiano
de então, com as suas instituições e as suas realizações económicas e
sociais, deveria ser considerado o momento de sintese dialéctica,
com a realização máxima da racionalidade do espírito.
Acredita se que os regimes ditatoriais que proliferaram no século XX
sejam fruto desta visão Hegeliana sobre o estado.
Uns afirmavam, enquanto outros negavam. Estes últimos invocavam
a teoria da dialéctica para sustentar que não era possível deter se
naquela configuração politica e que a dialéctica historia deveria nega-
la para a superar e realizar uma racionalidade mais elevada (de
acordo com o modo dialéctico de Hegel).
O alemão David Strauss designou estas duas alas por esquerda e
direita hegelianas, em 1837, termos usados no parlamento francês
para referir o espirito reformista e o espirito reformista
conservadorista defendido por cada uma das alas respectivamente. A
esquerda e a direita politicas constituem, respectivamente, os
partidos Socialistas ou Comunistas e os partidos Captalistas (liberais).