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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
século xx.
Randolpho Lamonier. A casa de dois andares sonhada por minha mãe no início dos anos 90. Costura, bordado, botões e lã sobre tecido, 2019.
Reminiscences of the Future in the Past: a historical analysis of
hypothetical futures in dystopias and classic science fictions of the 20th
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
século xx.
AS REMINISCÊNCIAS
DO FUTURO NO
PASSADO:
UMA ANÁLISE HISTÓRICA DE FUTUROS HIPOTÉTICOS EM
DISTOPIAS E FICÇÕES CIENTÍFICAS CLÁSSICAS DO SÉCULO XX.
Lucas Henrique Martins Petronilho*
DOI: [Link]
Resumo: O seguinte artigo aborda questões históricas do século XX por uma análise de ficções espe-
culativas publicadas nesse período. É aproximado, assim, uma definição mais específica desse gênero
literário e feito um diálogo com obras de ficção científica e distopias clássicas do século passado.
Com o apoio de elementos da Teoria da História, busca-se analisar o passado pelas lentes de autores
como Margaret Atwood, Ursula Le Guin, Anthony Burgess, que imaginavam e transcreviam sobre um
futuro ou realidades que são, em simultâneo, distantes e próximas de seu tempo. Por conseguinte,
o objetivo sumário deste pequeno trabalho escrito é tentar entender questões sociais e culturais do
Passado, pela imagem de possíveis Futuros frutos de seu período.
Palavras-chave: Ficção Especulativa, Narrativas Históricas, Memória.
Abstract: The following article addresses historical questions over the twentieth century, through an
analysis of speculative fictions published in this century. In that way, it’s approached a more speci-
fic definition of this literary genre, done by a dialogue with sci-fi literary works and classic dystopias
from the past century. With the support of elements from Theory of History, we try to analyze the past
through the lens of authors as Margaret Atwood, Ursula Le Guin, Anthony Burgess, which imagined
and transcribed about a future or realities who are, at the same time, close and far away from their
time. Therefore, the summary objective of the paper is to try to comprehend social and cultural ques-
tions of the Past, within the image of feasible Futures, products of their own time.
Keywords: Speculative Fiction, Historical Narratives, Memory.
* Graduando em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, com interesse em História da Cultura.
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
século xx.
Introdução: A Ficção e o Século XX
N uma edição em comemoração aos cinquenta anos da obra de ficção científica,
“A mão esquerda da escuridão” da célebre Ursula K. Le Guin, nos deparamos
com um prefácio que dialoga de maneira graciosa com o processo e os elementos por
trás do fazer do escritor, bem como também lidamos com as variáveis e nuances por
trás da construção de romances e de escritas especulativas. A autora dita a importância
da visão do escritor numa citação que acabará por ser uma inspiração direta para a
produção deste artigo. Através do que foi explicitado por Le Guin, começamos a enten-
der a importância do romance na análise histórica e trilhamos o alcance das palavras
de autores na nossa compreensão do passado, frente, também, à construção ou uma
concretização nas facetas da memória. Ela, num discurso, afirma que as vivências des-
ses homens e mulheres estão diretamente incluídas em seus mundos imaginários,
distantes e futurísticos:
Espera-se que o escritor de ficção científica tome uma tendência ou fenômeno do presen-
te, purifique-o, intensifique-o para efeito dramático e estenda-o ao futuro. […] Felizmen-
te, embora a extrapolação seja um elemento da ficção científica, não se trata, de forma
alguma, da sua essência. […] A ficção científica não prevê; descreve. Previsões são o tra-
balho de profetas, videntes e futurólogos. Não são o trabalho de romancistas. O trabalho
do romancista é mentir. […] Tudo o que podem dizer é o que viram e ouviram durante sua
vida neste mundo, um terço dela dormindo e sonhando e, outro terço, contando mentiras.
(LE GUIN, 2019, p. 16–17).
Atribuímos uma significação dos imaginados futuros inscritos nas clássicas dis-
topias do século XX, como Admirável Mundo Novo e o Conto da Aia de Aldous Huxley,
escritor inglês, e Margaret Atwood romancista, poetisa nascida no Canadá, respectiva-
mente; e também de ficções-científicas que se tornaram mais presentes neste período
e se propunham a imaginar um futuro mais distante, mais caótico ou afastado de nós.
O que este artigo se propõe a fazer é, por conseguinte, buscar entender como o contex-
to político, social, cultural e histórico, no momento de produção dessas e de mais algu-
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século xx.
mas obras, influenciaram na construção desses mundos fictícios. Como, por exemplo,
a emergência de discussões sobre o gênero influenciaram na construção de Gilead e
como a desigualdade racial e o movimento Negro são pertinentes ao Afrofuturismo e
suas expressões culturais.
Começamos a tratar o discurso sob embasamento enquadrado nos preceitos e estu-
dos de Teoria da História, pontuando conceituações de memória e narrativa, buscando
compreender, de fato, a leitura do tempo e sua relação com o presente. A importância
da literatura para a construção do discurso histórico é material de estudo de nomes
como o de Roger Chartier, especialista em história da leitura, cujos estudos foram e
ainda são de grande contribuição para as reflexões da história cultural.
Através de definições mais profundas sobre o que seriam necessariamente a fic-
ção científica, a distopia literária e a ficção especulativa, esse artigo investirá em tentar
entender o contexto histórico e as suas reflexões nos títulos de Atwood e Le Guin, ana-
lisando o gênero; a violência e o autoritarismo em Burgess e Huxley e o Afrofuturismo
com Octavia Butler. É claro que, dentro dessas estigmatizações, governos autoritários
são muito pungentes e, arrisco dizer, se imbricam diretamente com as incertezas polí-
ticas e as violências do que fora o transformador, caótico e mutável século XX.
Como entender, então, a literatura especulativa, sua ligação com a história — mais
especificamente com o passado e com a memória — e suas subjetividades? É neces-
sário relacionar esses tópicos e demonstrar a transmutação entre os ares culturais da
disciplina histórica e de momentos específicos como objetos de análise primordiais do
historiador.
A ficção especulativa (principalmente quando analisamos seu maior alcance
e interesse popular), é pouco analisada e até mesmo esnobada entre acadêmicos e por
uma elite intelectual (COSTA, 2004). Tal posicionamento de característica desatenção
é cabível, visto que quando tratamos de temáticas fantasiosas e distantes da realidade
vivida e material, nos afastamos do que é, essencialmente, o foco de estudo das Ciên-
cias Humanas. Contudo, como abordaremos nos próximos parágrafos, entenderemos
o papel dessas facetas de produções literárias, e, acima disso, a origem — ou, ao me-
nos, o porquê — dessa invalidação da ficção. Partindo desse pressuposto, devemos
melhor definir o que é essa ficção especulativa, por conseguinte, analisar mais pro-
fundamente as distopias e a ficção científica que são abarcadas dentro desse grande
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gênero literário. De maneira complementar, delinearemos melhor o que engloba essas
obras, utilizando das teorizações de Iser Wolfgang que, nas limitações deste artigo, são
deveras pontuais no que desenvolvemos aqui: entender a realidade histórica, o passa-
do, as impressões dele e dessa memória na construção criativa por trás de um processo
unicamente humano e criativo, que se tem como um principal extrato, o Imaginário.
Discursos sobre Ficções Especulativas,
científicas e Distopias
Para melhor compreensão e entendimento do que é, necessariamente, a ficção
especulativa, nos baseamos nos estudos de Marek Oziewicz, professor na University
of Minnesota. Especialista em literatura infanto-juvenil e jovem-adulta, o estudioso se
aprofunda muito nos ramos da ficção especulativa e tem como um de seus principais
interesses a abordagem de uma literatura enquanto resistência e objeto modificador
social.
Em um artigo bastante explicativo, ele busca se aprofundar sobre o que seria
essa ficção especulativa, os empregos históricos desse gênero e o porquê da realização
identitária desse movimento como um alvo para grande parte dos acadêmicos mais
tradicionais. Primeiro, entendemos o viés cultural por trás da ficção especulativa sob
as lentes de Oziewicz. Analisando os empregos passados, temos três grandes soluções
para a “Ficção Especulativa” (OZIEWICZ, 2017).
A primeira compreensão surge inicialmente quando, ao longo do século XIX —
com ênfase no contexto europeu — temos novas e emergentes formas de se escrever
textos literários, se afastando de uma narrativa “mimética” da experiência humana.
Essa tradição, onde a literatura incorpora características materiais e empíricas em seus
enxertos, isto é, que tende a reproduzir de maneira mais fundada e correlata à realida-
de sua estrutura narrativa, nos é perpetuada e transpassada desde a Antiguidade, com
Platão e Aristóteles, clássicos filósofos trabalhados ao longo dos séculos na história
ocidental. Todavia, é válido ressaltar que houve transmutações conforme o homem
interagia com a natureza e o mundo ao seu redor. Essa tradição literária ocidentaliza-
da tende a ser muito congruente com o plano de fundo social e cultural em que está
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século xx.
inserida. Como exemplo, ressaltamos a clássica Divina Comédia de Dante Alighieri,
escritor humanista florentino, e o forte teor religioso presente na obra que nos indica,
com muita clareza, essa grande força e influência no período de produção da obra. Da
mesma maneira que, conforme uma relação mais racional, estrutural e antropocêntri-
ca se estabelece na compreensão de mundo, o advento das ciências como conhecemos
hoje acaba por estabelecer barreiras no ramo cultural e as obras literárias tendem a ser
mais teóricas e relacionadas com a vivência humana, pautada puramente na realidade,
palpável e vivida, expressando essas tendências emergentes.
E aqui nos encontramos com o primeiro momento da ficção especulativa: a partir
do instante que começam a surgir novos tipos de narrativa, na contemporaneidade
industrial do XIX, nos pegamos cercados por criações que não necessariamente estão
apegadas estritamente ao modo de se contar histórias perpetuado por estigmas sociais
de homens brancos — nesse sentido, nos referindo à flexão de gênero que a palavra
“homem” pode abarcar, não apenas ao pressuposto de espécie humana. Histórias de
ficção científica — hoje assim denominadas — horror e distopias começam a tomar
espaço. Mary Shelley, conhecida como a primeira autora da ficção científica, e criadora
do clássico Dr. Frankenstein, no Prometeu Moderno, Bram Stoker, escritor de Drácula
e contemporâneo a Shelley, dentre outros nessa mesma linha reinventam a realidade
e quebram com as estilizações e convenções que definiram um jeito de se fazer litera-
tura (AUERBACH, 1971). No século XX, quando essas criações literárias podem tomar
mais liberdade e começam a se popularizar por romances de pulp — chamado assim
dado o material distribuído, um papel de má qualidade (COSTA, 2004) — surge, en-
tão, a ficção especulativa. Alcunhado em 1941 por Robert Heinlein, escritor estadu-
nidense, e popularizado a partir de 1947 com o artigo On the Writing of Speculative
Fiction do mesmo autor, esse gênero literário é definido como uma variação, um setor,
da ficção científica. Sendo mais específico, a ficção especulativa, num primeiro mo-
mento, surge enquanto um conceito para definir narrativas com enfoques políticos
e culturais nas consequências da tecnologia, e não na existência dela em si. Ou seja,
são muito mais presentes questões que tangem à sociedade enquanto um conjunto de
relações complexas entre elementos internos e externos ao ser humano.
Uma segunda utilização do termo foi empregada, por volta dos anos 60, quan-
do as barreiras mais definidas entre as várias produções literárias começam a se tornar
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
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mais difusas entre si. Um gênero literário e seus elementos começam a se relacionar
e se tornar mais amplos, principalmente com a movimentação New Wave, e a emer-
gência de pautas sociais desse período. Em especial, o Movimento Feminista é muito
influente na produção de ficções científicas agora e, dentro dessas novas concepções,
temos a própria Atwood, que emerge nessa estruturação “borrada” entre ficção cientí-
fica, fantasia e horror, principalmente. Num longo processo de reformulação e adap-
tação dessas novas formas de se escrever ficção, desenrola-se, já na década de 1980,
uma definição muito interessante para “ficção especulativa” definida pela autora de O
Conto da Aia (1985). Ela trata seus romances como ficções especulativas ao passo que
são futuros distópicos e possíveis. O interessante a se ver, nessa concepção, é a pro-
babilidade; a possibilidade que, de maneira quase incisiva, separaria, assim, a ficção
especulativa da científica. Nesse sentido, a definição de Atwood é quase dicotômica
e diferenciava completamente esses dois modos de se fazer narração. A especulação
prevê ou aposta numa possível realização caótica, próxima a nós, o que a garante sua
natureza assustadora, incômoda e tão sensível ao leitor ou leitora que a consome.
Com uma intensificação dessas mudanças das décadas mais tardias do século
XX, nos deparamos por fim com a última e principal definição da “Ficção Especulati-
va”. A intensa hibridização e volubilidade das barreiras de gêneros literários, a emer-
gência de movimentos sociais, o destaque às narrativas históricas e vozes decoloniais
e a ampliação do entretenimento de massas conduzem a um cenário completamente
diferente do modo de se fazer histórias fictícias, que iam além, até mesmo, da litera-
tura. Aqui encontramos a definição final e principal de Oziewicz, que se trata de va-
lores muito mais amplos e abertos. A ficção especulativa tem como especialidade, nos
pormenores do final do século XX e início do XXI, a sua condição de “termo guarda-
-chuva”. Nesse sentido, ela enquadra essas diversas intersecções que foram surgindo
nos últimos anos, e também de novos espaços de consumo. Cinema, televisão e teatro
entram na ficção especulativa: a arte do “E se?”. Toda a moral e o desenvolvimento da
história que se baseia nesse questionamento para se afastar da realidade material en-
traria, então, nessa definição.
Teorizada mais como um campo de produções culturais do que como um gênero,
a ficção literária não é limitada por nenhuma técnica literária. Nem pode ser desenvol-
vida ou traçada por uma cronologia linear. A atual compreensão de ficção especulativa
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
século xx.
reflete o pulo quântico que conectou diversas tradições, emergentes e já estabelecidas.
Algumas das forças que contribuíram para essa mudança cultural incluem a acelera-
ção da hibridização de gêneros que balcanizou um campo, anteriormente mapeado
em poucas e grandes categorias de gênero; a expansão da literatura global traga pela
crescente recepção de fantasia, ficção científica e horror pela cultura mainstream; a
proliferação de formas narrativas indígenas, de minorias e pós-coloniais que subver-
tem noções ocidentais dominantes sobre a realidade ou empregam elementos não-
-miméticos em diferentes configurações diferentes das tradicionais nos gêneros Oci-
dentais; e finalmente a necessidade de novas e conceituais categorias para acomodar
os diversos e híbridos tipos modos de se fazer a história, que se opõem à uma visão
inflexível da realidade — relacionada à verdade, fatos, poder e outros — impostos por
um capitalismo global que explora. Uma categoria hereditariamente plural, a ficção
especulativa é um modo de pensamento-experimento que abarca uma visão ampla do
real1 (OZIEWICZ, 2017, p. 3)
Se tal definição é tão intricada a uma oposição para com valores patriarcais e
etnocêntricos, frutos de uma formação histórica globalizada pautada no imperialismo
branco, começamos a entender melhor o porquê dessa descredibilidade as obras —
não só literárias — fictícias num geral. A própria Ursula Le Guin em um artigo de
1974, Why Are Americans Afraid of Dragons, ou em tradução livre, Porque America-
nos têm medo de Dragões, reconhece essa tendência e identifica a fonte desse medo,
1 Traduzido do inglês: Theorized as a field of cultural production rather than a genre, speculative fiction
is not limited to any specific literary techniques. Nor can its development be traced through a linear chronology.
The current understanding of speculative fiction reflects a quantum jump that connected several established and
emerging traditions. Some of the forces that contributed to this cultural shift include accelerating genre hybridiza-
tion that balkanized the field previously mapped with a few large generic categories; the expansion of the global
literary landscape brought about by mainstream culture’s increasing acceptance of fantasy, science fiction, and
horror; the proliferation of indigenous, minority, and postcolonial narrative forms that subvert dominant Western
notions of reality or employ non-mimetic elements in different configurations than traditional Western genres; and
finally the need for new conceptual categories to accommodate diverse and hybrid types of modern storytelling
that oppose a stifling vision of reality—with its correlates of “truth,”“facts,”“power,” and others—imposed by exploi-
tative global capitalism. An inherently plural category, speculative fiction is a mode of thought-experimenting that
embraces an open-ended vision of the real.
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século xx.
desse menosprezo impresso sobre a ficção científica, a fantasia e o horror. Para ela,
essa rejeição está diretamente relacionada — especificamente no seu país natal —
às origens políticas e sociais dos Estados Unidos: o puritanismo, a ética de trabalho
protestante, assim como o lucro e até mesmo a moral sexual (1974, p.35). Não se pode,
numa estratificação liberal e patriarcal, por assim dizer, “perder tempo” com leituras
e atividades que não vão conceder sucesso financeiro ou similar. O ponto principal
para Le Guin, é justamente essa perpetuação ao masculino, que trabalha, gera renda
e provê ao lar, enquanto a mulher, o feminino, estaria voltada às atividades de casa e,
assim, aos entretenimentos inócuos, que seriam, dentro dessa moral, as ficções.
Então, indagamos, porque não utilizar de ficções científicas e distópicas para aná-
lise e compreensão da História? Como o próprio Oziewicz afirma, essa negação, prin-
cipalmente dada por acadêmicos mais tradicionais, é bastante usual e eu proponho,
dentro dos meus limites dentro na academia, uma quebra para com esses estigmas.
Numa leitura anti-imperialista, tentando nos afastar dessas tradicionalidades incabí-
veis à atualidade, é válido, senão frutífero, expandir os horizontes de análise para uma
melhor compreensão de paradigmas culturais de raça, gênero, etc. A essencialidade da
ficção é muito discutida por Chartier em um livro recente, seu intitulado A História
ou a Leitura do Tempo (2009). Em um capítulo muito interessante em que ele melhor
analisa a relação entre memória e a literatura, afirma:
As obras de ficção, ao menos algumas delas, e a memória, seja de coletiva ou indi-
vidual, também conferem uma presença ao passado, às vezes ou amiúde mais podero-
sa a que se estabelecem os livros de história (CHARTIER, 2009, p. 21).
A partir disso podemos concluir que, a memória (definida de melhor manei-
ra mais a frente nesses escritos), enquanto tendo uma parte partilhada, estabelecida
e perpetuada na literatura, deve ser considerada. Como bem sabemos, sua análise,
para o historiador, é o centro de todos os afazeres históricos. Para confirmarmos a
importância dessa relação e o plano de fundo antecessor a essas conclusões, sabendo
que essas experiências ficcionais computam o “encontro com o passado” (CHARTIER,
2009, p. 25), devemos nos atrelar às práticas e Teoria da História, de modo a argumen-
tar, dentro de uma discussão um tanto complexa, a linearidade historiográfica e sua
tradição literária: até que ponto uma interfere na outra?
Conceitos de Teoria da História: utilizando da literatura e da ficção para entender
o Passado.
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
século xx.
Para melhor aplicar e entender a essencialidade da narrativa, do romance e da
ficção na prática histórica, é necessário e fundamental que se compreenda, ou melhor,
que se defina alguns termos essenciais no campo da disciplina: o passado, a narrativa,
a memória e como o historiador, no cerne das suas ações, abarca tudo isso nos moldes
atuais de historiografia. São muitas visões estabelecidas desde o início desse campo
de estudo. Com o avançar dos anos e das diferentes mutações sobre a visão humana
de mundo (em especial através das grandes mudanças do século XX), temos uma
diferenciação sobre o que é, de fato, o estudo histórico. Tendo como base os clássicos
e conhecidos dos Annales, a escola historiográfica no começo do século XX, voltada
a uma reinterpretação dos estudos de história dita positivista, em vigência no século
XIX, com seus fundadores e principais nomes, os historiadores Marc Bloch e Lucien
Febvre, dissecamos, para um pontapé inicial nas discussões sobre historiografia, a
importância das subjetividades que foram sendo adicionadas a tais tópicos da história.
A máxima e clássica frase de Bloch enquadra a história como a ciência “dos ho-
mens no tempo” (BLOCH, 2001, p.50) e estabelece parâmetros de origem que podem
nos ser fundamentais à discussão central deste artigo. A partir disso, pontua-se que
Bloch, entendendo o tempo como algo inegável e existente, têm suas marcas e a inte-
ração dessas com o homem, como principal material de estudo do historiador. A partir
de que, então, devemos categorizar e estamentar melhor essa relação com o tempo?
E com o passado? Até quando teremos o passado, e, a partir do que vem o presente?
Tais questionamentos são pertinentes e muito pontuados conforme são transmu-
tadas as suas proporções e barreiras. Como contundente a isso, podemos traçar uma
linearidade histórica da própria historiografia. A dialética materialista e os conceitos
de Annales, simultâneos a uma história científica, concebem a história
“como um processo contínuo, retilíneo, linear, causal, inteligível por um modo racional”
(PESAVENTO, 2012, p. 7).
Assim, na última década do século passado, lida-se com a Crise dos Paradigmas,
que atinge todas essas correntes teóricas. A autora brasileira Sandra Pesavento, estu-
diosa da história cultural, sugere que, em resposta a isso, o atuante da área teve que
buscar novos horizontes de análise. Para ela, essa nova História, entendida como Cul-
tural, se opõe, além das correntes historiográficas analistas, também ao pensamento
marxista, com seu materialismo histórico, que enxerga a cultura como integrante da
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superestrutura, sendo mero reflexo da infraestrutura ou como manifestação do espíri-
to humano, sendo assim um instrumento de criação epistemológica que servia “como
domínio das elites” (PESAVENTO, 2012, p.9). Esses encargos anteriores à História
Cultural, ao entender da autora, foram sendo repensados para que não houvesse, nesse
sentido, um desencontro e um desgaste das Ciências Humanas. Assim, a nova história
cultural tenta
“pensar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos ho-
mens para explicar o mundo”. (Ibid., p. 9).
A partir dessas novas interpretações, constatamos o quão volátil é a natureza dessa
relação com o tempo, e com o passado, ao percebermos a mutabilidade de termos e
conceitos que constroem o discurso histórico. A literatura, como um caso mais espe-
cífico, é, então, útil para nós, visto que a especulação, responde a isso. Ela, abarcando
traços daquilo que foi vivido, e pensado pela humanidade, passa a ser, não só uma
fonte de entretenimento, mas um elemento histórico.
Com uma visão um tanto pertinente para o que planeja-se fazer neste artigo, Julio
Bentivoglio, professor e autor do livro Distopia, Literatura & História (2017), discorre
justamente sobre o teor caótico e precisamente distópico do passado para o historiador,
entendido para ele como o “deslugar”. A distopia, para ele, é essencial no entendimen-
to histórico, principalmente quando encaramos o que ele chama de Crise Historiográ-
fica. Os cenários distópicos, definidos sumariamente em duas frentes por Bentivo-
glio, se transpassam enquanto 1) um lugar no passado e 2) uma forma da imaginação
histórica em nosso tempo (BENTIVOGLIO, 2017). Se encontra, nessas concepções, a
questão quanto ao passado: ele enxerga as barreiras entre esse e o presente como orgâ-
nicas, estando constantemente em deslocamento. A especulação, assim, rompe com
um paradigma de realismo, principalmente no século XX, quando aquilo que não se é
vivido, não é impresso empiricamente, começa a tomar espaço. Assim novas narrativas
surgem para repensar essa crise da história tradicional. De tal forma, a distopia conota
grande importância, ao passo que, tanto na literatura — que acaba por transparecer
na história — quanto na análise do passado, imprime conceitualizações radicais e mu-
táveis, características não só da vivência antropocênica no globo, mas também da es-
sência do tempo, na essência de nossa relação com o tempo — na essência da história.
A experiência humana no tempo, por mais volátil que possa parecer, ainda é
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transpassada por concepções singulares e próprias. A narrativa por trás do discurso
histórico torna-se algo muito importante e, em determinadas vivências, pela análise
e questionamento de resquícios de memória, nos aproximamos de uma relação dua-
lística entre o Real e o Fictício. Entretanto, como chave central para entendermos o
porquê da ficção ser importante para o historiador, apontamos a aproximação dessa
noção dicotômica, que transpassa as barreiras, segundo Wolfgang Iser, para englobar
também, o Imaginário. Estabelecemos assim, uma associação entre esses três. Con-
forme suas naturezas distintas se complementam e se incorporam, o historiador deve,
dessa maneira, interpretar o ficcional como algo representacional, um dos vários e já
mencionados, resquícios da memória (CHARBEL, 2015).
O que Iser se propõe a fazer é analisar de maneira mais precisa, como funcionam
as barreiras entre o Imaginário, o Fictício e a Realidade. É importante que entendamos
essas estruturações no texto literário para que, dessa maneira, pensemos, também, as
concepções da memória na literatura e, para o interesse específico deste artigo, da fic-
ção. Partindo de um distanciamento do “saber-tácito” que coloca o fictício como oposi-
tor ao imaginário, ele cria um sentimento de aproximação entre esses dois através do
Imaginário (CASTRO, 2007). Se tratando de transgressões de barreiras entre esses, a
ficção se dá através de uma seleção dentro de um complexo processo. Definindo-se de
maneira sumária, a seleção, partido da separação de alguns elementos da referência
(no caso, a Realidade), é unicamente dirigida pelos “sistemas contextuais, através do
seu [do autor] ato de tematização do mundo” (ISER, 2002, p. 962). Dessa maneira, ele
conclui que essa seleção, essa separação de elementos da realidade a serem impressas
no texto vêm necessariamente da escolha do autor ou da autora; da sua intencionali-
dade. (ISER, 2002).
Quando trazemos essa discussão para a história, entendemos que esse pressupos-
to de autonomia do autor, pode trazer também, resquícios que nos auxiliam na análise
do passado. Ao tratarmos desses temas da Teoria da Literatura, buscamos, em suma,
analisar como a memória, dentro de todas suas complexidades, é transmitida através
da ficção. E aqui, retomando todo o debate da contribuição da ficção, da literatura e de
romances para a análise histórica, e as polêmicas acerca do uso de ficções especulati-
vas em ambientes acadêmicos, afirmamos que, ao menos nas limitações dos debates
deste artigo que, sim, a ficção especulativa é uma fonte válida a ser explorada. Se a
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
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memória é subjetiva (CATROGA, 2001), nos permitimos assim, ao menos interpretar
as mais variadas, únicas e singulares interpretações do futuro dentro das distopias
clássicas e ficções científicas do século XX. O ponto de vista sobre o passado, ou me-
lhor, dizendo, a narrativa, é direcionada e conduz um paralelo, no mínimo coerente,
com o que Iser retrata na sua intencionalidade. De forma que, podemos nos pegar
conduzindo questionamentos sobre o porquê de mulheres como Atwood e Le Guin
escreveram sobre gênero num momento onde isso começa a ser questionado; o porquê
do grande número de Distopias do século XX tratarem da violência e da autoridade; de
vozes negras e femininas protagonizarem movimentos como o Afrofuturismo, dentre
outros. O que veremos ao longo do texto, é, então, essa relação entre um passado vivido
com as pautas levantadas em ficções especulativas. O século XX, frutífero ao debate
social e quadro de grandes movimentações inéditas na história da humanidade, se faz
visto dentro de vários romances, cujos conteúdos serão, aqui, alvos de análise.
Gênero em O Conto da Aia e A Mão Esquerda
da Escuridão
As discussões sobre gênero e os respectivos papéis sociais atribuídos ao mas-
culino e ao feminino tomaram forma nos finais do século XIX e no início do século
XX. Hoje são muitas as diversas correntes e manifestações do movimento feminista e
esse, ao longo dos últimos anos, transgrediu e se configurou em diferentes facetas e va-
riantes. É interessante se pensar na ficção científica e no diálogo dela com o feminino,
visto que uma das obras clássicas e inauguradoras desse gênero literário, Frankenstein
ou o Prometeu Moderno de Mary Shelley, fora escrito por uma mulher, num momento
tão reprimido para manifestações culturais partida de mulheres. Decerto, mesmo que
majoritariamente dominada por homens, a literatura está se expandindo para públicos
mais expressivos e possibilitando mais abertamente escritoras a tomarem os holofotes.
Trazendo dois livros para uma discussão essencial, temos Margaret Atwood e Ursula
Le Guin com seus respectivos romances O Conto da Aia (1985) e A Mão Esquerda da
Escuridão (1969). Apesar de certa distância temporal entre os lançamentos, ambos são
publicados em momentos de muita relevância ao feminismo.
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A segunda onda do movimento, surgida justamente entre o lançamento des-
sas obras, não é uma simples coincidência. Seria esse o ponto este que o gênero come-
ça a ser tratado como algo além do sexo feminino, mas precisamente como algo fruto
de estigmações culturais pontuadas pelo masculino: o gênero em seu cerne, seria
descrito como algo além do biológico, mas em limitações e estigmas que podem, por
vezes, limitar, oprimir e violentar um indivíduo (PEDRO, 2005). Essas discussões so-
bre os papéis de gênero que vieram a surgir, justamente nessa época acabaram por in-
fluenciar diretamente às duas autoras, como vemos na análise crítica de Paula Lima,
e na tese de doutorado de Anna Rüsche, publicadas em 2017 e 2015 respectivamente.
No entanto, ao passo que Atwood tende a ter uma visão pessimista sobre o fu-
turo e as possíveis configurações sociais acima do gênero, Le Guin explora as barreiras
do gênero e, como ela mesma afirma, o que resta da humanidade sem o gênero: “Eu
eliminei o gênero para descobrir o que sobrava. O que quer que tenha sobrado seria,
presumivelmente, simplesmente humano” (LE GUIN, 1992, p.160)2. Portanto, iremos
nos aprofundar agora, na construção de uma sociedade distópica que nos assusta pela
proximidade da realidade, Gilead, e por um planeta, completamente fantasioso que
tem como uma de suas maiores características a ausência de papéis e funções deter-
minadas pelo gênero, ou por características físicas.
Primeiro, foquemos no Conto da Aia, lançado na década de 1980, se propondo
a transcrever uma sociedade teocrática que emergiu e se consolidou por um golpe à
presidência dos EUA e ao congresso do país. Enfrentando grandes problemas, a prin-
cipal preocupação deste novo governo completamente embasado numa moral cristã
distorcida, é a baixa taxa de natalidade do país. Atwood constrói esse mundo pensando
muito nas desigualdades de gênero e de classe, podemos dizer, pela representação de
castas nesse novo país, denominado Gilead. Os Comandantes e as Esposas se encon-
tram num alto de uma hierarquia política, social e econômica. Estão logo depois as
“econopessoas” que no contexto, fazem um paralelo a uma classe trabalhadora. Logo
depois, vêm as Aias e, por fim, as “não-mulheres” (as que não podem engravidar,
adúlteras, viúvas, homossexuais e feministas). Válido ressaltar que a divisão de gênero
é muito marcante em todas essas castas e influem diretamente na grande violência
2 Traduzido do Inglês: I eliminated gender to find out what was left. Whatever was left would be, presu-
mably, simplyhuman
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impressa pelo governo autoritário do país.
A narrativa se desenvolve em torno de uma Aia, que tem seu nome tomado e é
designada como Offred (junção de of Fred, em inglês, “de Fred”). Assim são nomeadas
todas as aias de acordo com seus respectivos “donos”: Ofglen, Ofjohn, etc. Se fazendo
utilizar de trechos distorcidos da bíblia, o governo submete as mulheres supostamente
férteis restantes e as enquadram como “aias”, submetidas a chamada “Cerimônia” —
que consiste, basicamente numa tentativa de fecundação através de relações sexuais
forçadas, estupro, praticado pelos Generais, no topo da hierarquia política e econômica
do país. A imagem da mulher nesta sociedade, como afirma Paula Lima, se resume
muito nos papéis impostos ao feminino no nosso dia-a-dia: à mãe, à gestora de vida, à
dona de casa. Essas “funções” ao longo de todo o livro são claramente reforçados por
um governo totalitário e firme.
Frente a isso, traça-se um paralelo direto ao plano de fundo histórico-social
onde Atwood vivenciava na época de produção da obra.
“[…] a contextualização do gênero literário da obra se faz importante, visto que afeta dire-
tamente a narrativa em que as personagens femininas estão inseridas e, por consequên-
cia, como cada uma será representada” (LIMA, 2017, p.7).
A distopia da autora surge justamente para representar uma intensificação da de-
sigualdade de gênero, ao invés de uma melhora. Seu olhar mais negativo e pessimista
nos debates sobre sexismo e opressão fazem com que enxerguemos as proximidades
daquela sociedade sobre a nossa, que acaba por tratar de temas muito comuns à segun-
da onda do movimento feminista: aborto, diretos sobre o corpo, slutshaming, inde-
pendência financeira e violência patriarcal. Margaret Atwood, enquanto uma escritora
nos limiares de seu tempo, apenas intensifica as relações desiguais presenciadas por
ela, enquanto uma mulher numa sociedade patriarcal. As mulheres que no livro são
símbolos de resistência (a mãe de Offred, Oflgen e Moira) acabam por ter desfechos
infelizes e sofridos (LIMA, 2017). Seria um temor de Atwood em relação ao futuro?
A ideia dela, ao retratar algo tão próximo e, ao mesmo tempo, tão tortuoso. E por essa
perspectiva mais pessimista e assustadora — essencialmente distópica — mostrar,
quase que em um tom de alerta, à leitora ou ao leitor, a proximidade de tais eventos a
nós.
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O pessimismo, também, através do olhar da autora de Conto da Aia, se faz
muito presente por elementos externos à narração. Se inspirando em ditaduras e go-
vernos autoritários, como os de Hitler e Ceausescu, e grupos de resistência da Segun-
da Guerra Mundial3, nos transportamos às tensões do século XX, com um agravante
de questões sobre sexismo. São várias as impressões e alusões da realidade caótica
dos anos em que foi escrito o livro: a Cortina de Ferro, as simbologias nazistas para
se referir às minorias reutilizadas na narrativa, etc. São perceptíveis — talvez não de
maneira explícita — as particularidades, anseios e temores de seu tempo na obra.
Essas inquietações, contudo, devemos ser lembrados, são representadas por recortes
específicos: pela perspectiva de uma mulher branca, cisgênero e heterosseuxal.
Já Ursula K. Le Guin, com a Mão Esquerda da Escuridão, escreve de uma ma-
neira muito mais distante da nossa realidade e decide experimentar de maneira muito
mais fluida. A autora, inspirada pelos debates de gênero de seu período (justamente a
definição da palavra, a relação dessa opressão pelo patriarcado e o que ela representa),
transcorre sobre um planeta fictício com vida e sociedade semelhante à nossa. O pla-
neta, chamado Gethen, é habitado por humanoides que passam por uma Era do Gelo.
Apesar de não tratar de debates raciais — o que foi na época, e ainda é hoje alvo de
críticas — a população getheniana é não branca. Além disso, os gethenianos, copulam
e se reproduzem de maneira distinta da humana: a genitália e o sistema reprodutor
como um todo é gerado em resposta a interações sugestivas com aqueles indivíduos ao
redor. São muitas as críticas apontadas visto que, ao longo do livro, a autora, intentan-
do-se tratar de androginia e do espectro do gênero, acaba por generalizar de maneira
quase que frustrante, aqueles seres no masculino. É um tanto quanto incoerente se
analisarmos o fato de que, numa literatura que busca justamente quebrar com os mol-
des de gênero, este se torne uma coisa que acaba por cercear aquilo que não deveria se
encontrar barreiras ou limitações no feminino nem no masculino.
Contudo, não cabe nesse momento, nos aprofundar em críticas diretas à obra e
sim analisarmos o reflexo histórico por sobre a narrativa de Le Guin: ela, mesmo que
3 Evento ocorrido entre 1939-1945, consiste basicamente entre o embate entre o Eixo e os Aliados. Partin-
do de um longo processo que corroborou nos eventos violentos desse período, podemos observar a emergência
de governos totalitários e violentos de cunho fascista, com enorme quantidade de similaridades entre a realidade
e o universo criado por Atwood.
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
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com algumas delimitações, analisa uma sociedade nova, aberta e livre das correntes
de gênero. Esse pode até ter existência e se enquadrar como um espectro mais am-
plo; contudo, numa visão um tanto diferente de Atwood, ela vê algo frutífero neste
espectro. O personagem principal, um ser-humano de gênero masculino chamado
Genly Ai, é encaminhado para Gethen numa missão diplomática. Ao passar a conviver
naquele ambiente tão diferente do seu, Genly Ai começa, aos poucos, dialogar com a
androginia e agregar mais aspectos deste novo mundo ao passo que se distancia dos
estigmas mais imutáveis de suas origens. Le Guin encara o novo como uma possibili-
dade, nos faz pensar num futuro onde não tenhamos que nos retrair com normas de
gênero: pelo contrário, poderíamos, talvez, fluir e interagir com as nuances e flexibi-
lidades do gênero. É muito interessante pensarmos nessa visão proposta por ela em
meados do século XX, uma vez que hoje, somos apresentados a muitos pontos de uma
nova teoria queer, ou LGBTQIA+, que desafia justamente esse binarismo de gênero.
Exemplos de novos estudiosos no assunto como Tamsin Spargo, que representam ou
dissertam sobre pessoas que, se identificando enquanto não-binárias, não se sentem
representadas no puro masculino ou feminino, desenvolvendo todo um espectro mui-
to amplo entre esses dois extremos, e uma discussão, sem dúvidas, pertinente para
outras possíveis análises.
Violência e autoridade em Burgess e Huxley
Os governos autoritários, as diversas correntes ideológicas e políticas e o aflo-
ramento de movimentos sociais partidos de minorias, fizeram do século XX um ver-
dadeiro fenômeno inédito. Na cultura, a liberdade de expressão artística, que vinha
surgindo desde o final do século XIX, se manifesta numa variedade de meios e lin-
guagens: a música torna-se muito mais ampla, a pintura e as artes plásticas, o teatro,
o cinema e, claro, a literatura. Como dito previamente, as distopias foram expressões
muito constantes e regulares na literatura do século XX e têm, como seus principais
elementos governos autoritários, uma perda de liberdade individual, o medo e a violên-
cia como principais chaves reguladoras (LIMA, 2017).
Os livros Laranja Mecânica (1962) e Admirável Mundo Novo (1932) são dois dos
exemplos mais clássicos e renomados deste tipo de literatura e nos podem ser muito
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úteis para análise e compreensão da influência das instabilidades e ameaças de autori-
tarismos no século XX: o primeiro, de Anthony Burgess se relaciona muito mais com
a violência e traz profundas contestações sobre ela e sua relação com o Estado em si. Já
Aldous Huxley, em seu livro, se preocupa muito mais com a iminência de um Governo
autoritário no dia-a-dia de uma sociedade; dialogando diretamente com o Fordismo de
seu tempo, direcionando à ameaça de uma perda de sentido individual, que teria como
uma das suas principais causadoras, a ciência.
A violência é muito mais explícita, direta e de certa forma, representada de
uma maneira com a qual já estamos mais “familiarizados” em Laranja Mecânica. Ape-
sar disso, não é mais fácil digeri-la. Burgess traz um amplo debate sobre agressões,
violência e o ímpeto humano em sua distopia e causou discussões acaloradas, fazendo
com que o livro recebesse muitas críticas e elogios desde o seu lançamento. A marca de
seu tempo é muito contundente ao longo do desenvolvimento do personagem princi-
pal e narrador Alex, menino de 15 anos com tendências extremamente agressivas, que
a noite, com seu grupo de amigos, ronda pelas ruas procurando vítimas para espancar,
roubar ou estuprar. Os fatos se dão numa linguagem muito particular do universo da
história, visto que o vocabulário em si possui gírias do que o autor alcunha como “Na-
dsat”. Unindo componentes lexicais de palavras em russo, da antiga União Soviética
e de traços e jargões da classe proletária inglesa da época, ele incorpora nas palavras
e nas descrições de Alex e dos personagens que o rodeiam, expressões e termos que
causam, ao primeiro impacto, estranhamento ao leitor (NOLETTO; COSTA, 2017).
Os elementos narrativos, dentre eles, esse linguajar desconhecido e peculiar,
usados por Burgess, nos transportam a um Futuro que é, ao mesmo tempo, estranho,
e próximo, característico das distopias, como já citamos aqui. Tudo no livro leva ao
desconforto, à incerteza, ao medo, ao imprevisível, o que ironicamente não se espera
em governos totalitários. A interposição com um passado, um presente e um futuro é
muito subjetiva e, como diz Paulo Menezes:
Aqui o passado está presente em todos os lugares, a marcar com a sua cara um futuro
que o incorpora e que não o destrói. As diferenças parecem mantidas, imiscuídas nas
entranhas das coisas e em seus lugares, nas pessoas e em suas vidas. […] Este tempo é um
tempo mais complexo, onde a criação do novo é também ao mesmo tempo a recriação do
velho, rompendo com o que se poderia pensar a partir da noção de progresso (1997, p.55).
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É no mínimo peculiar como essas volubilidades temporais impressas na lite-
ratura distópica, mais precisamente, na literatura distópica de Burgess, nos trazem,
mesmo que indiretamente a uma Inglaterra pós Segunda Guerra e os problemas sen-
do enfrentados por ela (WAGNER, 2016, p. 432-433). As oscilações econômicas e po-
líticas enfrentadas pelo país nas décadas de 50 e 60 e o aumento da criminalidade
entre jovens (em especial a formação de pequenas gangues) parecem ser espelhadas
no caótico universo de Laranja Mecânica que tem, além disso, a direção autoritária de
um governo que, não por acaso, se faz utilizar da violência para perpetuação de seu
poder.
Como percebemos a violência como uma peça centralizadora aqui, entende-
mos duas ironias que são de natureza bastante relacionáveis à realidade: a primeira
seria o fato de que Alex, tentando ser rebelde contra um governo opressor, violento
e autoritário, acaba por reproduzir esse mesmo tipo de comportamento (WAGNER,
2016). Não entre estranhos, visto que essas posturas já estão claras, mas entre seu gru-
po de amigos, que aceitam suas ordens e imposições enquanto um líder que deve ser
respeitado. Ele acaba interiorizando em si, as regras e morais que o Estado controlador
por trás a ele impõe. A segunda ironia, em Burgess, é mais lidando com a questão da
legitimidade da violência. Em dado momento do livro, os amigos de Alex o traem, ele
é preso e passa por todo um processo de “reinserção” no sistema carcerário. A partir
deste ponto da narrativa, a personagem começa a sofrer as violências que antes haviam
partido dele, passando por processos de tortura — no livro, a chamada “técnica Ludo-
vico” — para ser reinserido em sua comunidade como um indivíduo “sociável”. A ser
visto aqui, a forma como a violência, quando feita de forma “legítima”, passa por acei-
tável, não é condenável. Ademais, dois de seus antigos amigos são apresentados como
policiais perpetuando o mesmo tipo de violência que antes faziam à luz do dia, sem
serem perseguidos ou acusados: a realidade de Burgess, pelas presenças dos governos
autoritários em seu período se fazem extremamente cirúrgicas em Laranja Mecânica.
Dando continuidade com Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, pon-
tua-se uma violência muito mais implícita. A realidade distópica e futurística apresen-
tada nesta narrativa é consideravelmente mais afastada da nossa vivência imediata, e
principalmente das sociedades ocidentais do início do século XX, no sentido de que
não há uma similaridade escancarada entre o mundo fictício de Huxley e o nosso.
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século xx.
No entanto, a especulação demasiada, ou um maior distanciamento da realidade do
homem contemporâneo não faz com que o romance seja livre de impressões do autor.
Pelo contrário, Admirável Mundo Novo é carregado de críticas sociais e levanta proble-
máticas de muita pertinência. Novamente nos deparamos com um quadro de narra-
tivas que transpassam os limites do tempo e são inseridos diretamente na literatura.
Devemos ter em conta que, no plano de fundo de Huxley, nos deparamos com a visão
de um homem branco, de classe média alta, que teve, apesar de problemas de saúde,
um contato de privilégio tanto com a ciência quanto com os estudos em geral. Optando
por escrever, Huxley se mostrara já muito opinado quanto às questões econômicas,
sociais e de consumo de seu tempo. Ao se dedicar ao romance, o autor põe em xeque
toda uma organização fabril e industrial: o Fordismo.
Os paradigmas sociais no entre-guerras foram de grande influência para a
obra, que retrata uma sociedade 600 anos após o advento e disseminação dos mo-
delos industriais de Henry Ford, que nessa realidade é percebido e compreendido de
maneira quase divina. Os ideais dele e do fordismo em si, muito marcantes nos EUA
no momento de produção da obra, se baseiam num modelo de produção em massa,
no qual o trabalhador inserido no processo, estaria apenas agindo numa única etapa.
Dessa maneira, também, ele, além de não ter autonomia sobre o que produz, perde ou
não toma consciência sobre a amplitude de seu trabalho.
Essa obra, então, é uma tentativa de previsão de um futuro dominado pela ex-
pressividade da ideia de progresso implementada pela produção em série – quase in-
tegralmente pelas técnicas e pelo saber científico –, que resulta em uma sociedade
absolutamente mecânica, autoritária e desumanizada. (SANTOS; AMORIM NETO;
GOES, 2013, p. 567).
Além das questões econômicas, os arquétipos históricos também fundaram o
que seria uma influência direta para o autoritarismo e o controle no livro. A Inglaterra
e outros países da Europa já lidavam e buscavam evitar colapsos e emergências de ten-
dências extremas do nazifascismo que começava a dar sinais e tomar espaço nos meios
políticos na Alemanha e na Itália. Frente a isso, Aldous Huxley fala de uma violação
da liberdade num cerne liberal mais profundo e complexo da palavra: o que o autor
descreve é um governo que não só controla a população por vias políticas e culturais,
mas também por vias biológicas e físicas.
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Há, deste modo, um direcionamento social onde ocorre por completo uma disso-
lução da individualidade, para se evitar, de acordo com os governantes do admirável
mundo novo, o caos. Desta maneira, através de um restrito sistema de castas e de
contenção popular através da coação do uso de drogas, esses governantes promovem e
buscam perpetuar o que no livro é definido em “Comunidade, Identidade e Estabilida-
de”. Todos esses três estão muito voltados a essa perda de noção do individual, e dessa
maneira, numa comunidade onde “Comum” era o mais importante, manteria-se uma
ordem que, de acordo com o livro, começou a surgir e se estabelecer justamente após
a crise de 1929.
Em Admirável Mundo Novo não só tem-se uma influência do passado para
a construção de um imagético sobre o futuro, mas também uma relação canônica e
direta com nossa história. Huxley, criticando Ford de modo quase irônico, especula na
possibilidade, o mais assustador que poderia vir a acontecer num sistema de produção
em massa: e se essa produção não se limitasse ao material? e se ela fosse direcionada,
também, ao orgânico?
Tentando imaginar a relação disso, com as conjecturas políticas de sua época (seja
o autoritarismo soviético, ou o emergente nazi-fascismo) o autor cria, de maneira bri-
lhante, um universo que causa assombro, apatia e, num primeiro momento, estra-
nhamento, tão característico dessas distopias. Ele, em seu discurso, reage ao supos-
to progressismo industrial a aponta as possíveis falhas por trás desse consumismo
exacerbado. Podemos distinguir tais questões como presentes na atualidade de um
capitalismo tardio, entendendo a obra de Huxley como um alerta a iminência de uma
mecanização que praticamente deflagra a figura do ser-humano em si, e que passa, ou
melhor dizendo, passou, a não ser mais um agente de seu próprio destino.
Afrofuturismo
Ao longo deste artigo, percebe-se uma majoritária presença branca, tanto de
autores e autoras, quanto de temáticas, nas obras de ficção especulativa. Dos exemplos
retratados nesta redação, o único que sequer traz personagens não brancos como ati-
vos e funcionais à trama é o núcleo desenvolvido por Ursula Le Guin, e mesmo assim,
a autora se limita a isso, sem trazer discussões sobre raça ou racismo no texto. Tal fato
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não nos vem ao acaso, pelo contrário, podemos pontuar toda uma construção histórica
e social que leva a essa marginalização e exclusão de narrativas não-brancas no meio
cultural; principalmente na literatura. Como característico das conclusões de Fanon,
entendemos que a civilização branca, partida da cultura europeia impôs à pessoas
racializadas, especialmente pretos e pretas, um desvio existencial (FANON, 2008).
Quando dissecamos um passado no qual comunidades e pessoas eram força-
damente afastadas e retiradas de sua terra natal e culturas de origem, para serem obri-
gadas a se submeterem à novos moldes sociais, trabalho forçado, tortura e agressão,
começamos a entender essa auxência de protagonismo negro, que grande parte das
vezes, se faz tão presente na contemporaneidade. Kellen Silva e Jaqueline Quadrado,
trabalhando idiossincrasias culturais, e a questão de identidade e representatividade,
recorrem justamente ao espectro histórico para pontuar esse apagamento que ocorre
desde os anos de escravização africana. Alcançamos a ideia de que, a partir do momen-
to que uma cultura se impõe sobre a outra como superior — no caso dos contextos
colonialistas e imperialistas, com a Europa e sua afirmação etnocêntrica — temos,
também, uma sobreposição e uma espécie de aglutinação, ao passo que há, de fato,
uma resistência da cultura local, mas também uma subordinação desta (SILVA; QUA-
DRADO, 2016, p.2). Para que se ocorra um desdobramento e um avanço de uma dada
cultura, é necessário que se tenha, acima de tudo, uma identidade por trás dela, é ne-
cessário que os integrantes se enxerguem e compartilhem dos simbolismos, ideários
e subjetividades entre si. Portanto, podemos assinalar a manutenção da identidade
como algo fundamental para o entendimento de um grupo étnico ou social. A grande
problemática encontra-se quando essa identidade cultural, que torna-se existente a
partir dessa afluência de culturas, em comunidades diásporas, se encontra borrada,
indefinida.
Portanto, notamos a relação intrínseca entre a representação cultural e a identi-
dade individual (FANON, 2008). Na medida em que o racismo, enquanto um meca-
nismo “ideológico e discursivo” (FANON, 2008, p.4) de opressão por raça permeia as
representações, vemos uma marginalização do negro na literatura, na arte, e na cultu-
ra no geral. O fato de, numa análise histórica, termos uma imposição eurocêntrica de
cultura sobre africanos escravizados, e mais posteriormente, uma perpetuação dessa
opressão através de um apagamento cultural, acabou por levar homens e mulheres
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negros e negras a lutarem por um espaço a fim de se representarem, se identificarem
e se enxergarem na ficção especulativa.
O afrofuturismo surge, assim, como uma das expressões dessa busca por uma
identidade, e acaba por compreender também o tempo distópico de Bentivóglio: é uma
recorrência do passado, mesmo que doloroso, para se formar um futuro e uma identi-
dade. Há uma transmutação dos mitos e contos das mais diversas nações, etnicidades
e culturas africanas, transpassadas numa nova realidade. É um diálogo direto do pas-
sado, com o presente e o futuro pelas perspectivas de pessoas negras. Ao se reconhecer
sua identidade, se entende a sua história (FANON, 2008,). Essa identidade, reforçada
pela representação, se manifesta através de arquétipos literários que podemos con-
ceber como associações subjetivas a símbolos e imagéticos humanos, como define
Luciane Ernesto. Um Arquétipo Personificado, nas palavras da estudiosa, é definido
como um
wNuma literatura, onde se perpetua e institucionaliza o racismo constantemente,
o Afrofuturismo surge, desta maneira, justamente com ideais de quebra, de mudança.
Assim fica explícito que a intenção do afrofuturismo é curar e/ou dar contexto à
sensação de ser um “estranho numa terra estranha”, o eterno “abduzido” que negros
e negras experimentam constantemente no cotidiano de suas vidas onde são insisten-
temente intimados a se “formatar” sob signos eurocêntricos para fazer parte da socie-
dade, o que não passa de um embuste, uma domesticação psicológica que visa anular
a existência negra, imbuindo em sua existência a crença de descrença em tudo que lhe
é associado como produção de conhecimento. (ERNESTO, 2019, p.6)
Desta maneira, vemos o Afrofuturismo como um movimento de resistência que
acaba por englobar elementos tecnológicos, futurísticos ou fantasiosos à narrativas
que passam a discutir, diretamente, raça e racismo. São vários os arquétipos comuns
nesse tipo de literatura que são essencialmente associáveis ao cotidiano de pessoas
negras.
Mas, no fim das contas, como surgiu e o que é o Afrofuturismo?
O movimento, definido primeiramente nos anos 1990, por Mark Dery, é usado
para rebuscar as obras culturais surgidas ao longo do século XX que exploram elemen-
tos da história e do passado negro e africano, e os incorporam à sonoridades, descri-
ções, e elementos futurísticos, inovadores e, no caso da ficção especulativa, científicos.
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as reminiscências do futuro no passado: uma análise histórica de futuros hipotéticos em distopias e ficções científicas clássicas do
século xx.
Trazendo dois exemplos, falamos de Sun Rá, compositor de jazz, que na década de
1960 começa a incorporar nas suas músicas
“elementos que remetiam ao espaço e ao futuro e ao mesmo tempo à ancestralidade afri-
cana” (SILVA; QUADRADO, 2014, p. 7).
Outra personalidade, no entanto, mais próxima à investigação do passado na lite-
ratura, e consagrada como uma das maiores autoras do afrofuturismo, uma das pri-
meiras, senão a primeira, mulher negra a escrever ficção científica, temos Octavia
Butler. Nascida em 1947, ela vivenciou as dificuldades de uma vigente segregação nos
EUA e os impactos dela na vida de sua família, principalmente de sua mãe. Sempre
muito afeiçoada à histórias e contos, quando garota tinha costume de escrever ela
mesma suas próprias narrativas. Num certo momento, ela assiste o filme de ficção
científica A Garota Diabólica de Marte (1954) e entende que aquele tipo de história não
era contada para ela. Num período onde a ficção científica era estreitamente resumida
a homens brancos como figuras principais e heroicas, Octavia decide, assim, escre-
ver histórias especulativas cabíveis a sua visão (JAMIESON; BAILEY, 2019). A autora,
cujas obras sempre contam com protagonistas negras, dialoga com enxertos cruciais
do passado escravocrata, e tramita entre temáticas decoloniais enquanto agrega em
duas descrições e enredos, elementos que remetem ao futuro ou à ficção científica em
si. Ama Mazama, em 2009, reconhece essas referências essenciais ao afrofuturismo
que põem em pauta, estigmas previamente impostos por uma história racista, escra-
vocrata e violenta: visão de mundo, cosmologia, axiologia, estética e epistemologia.
O que Butler faz é, justamente, se colocar como protagonista, e abrindo espaço,
justamente, para a emancipação de sua identidade histórica enquanto mulher preta.
Ela, bem como muitos outros artistas afrofuturistas, constroem uma resistência no
próprio encontro. É aqui onde a ficção especulativa se torna tão inerente aos estudos
históricos enquanto formação do Movimento Negro. Sabendo de todo um passado vio-
lento e incapaz de ser justificado ou compensado, o olhar a um futuro, que, recorrido
à ancestralidade, seja, ao menos, capaz de ressignificar os anos de abuso e opressão,
encontrando, ali, a voz e força de homens e mulheres negros e negras.
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século xx.
Conclusão
Finalizando essa pequena redação, retomamos alguns pontos importantes no
que tange à essa análise histórica em distopias e ficções científicas. Apesar de parecer
um pouco contraditório, o historiador, quando deparado com análises do que pode vir
a ser, e não com o que foi, encontra-se num espectro de subjetividades cabíveis à reali-
dade e à vivência do autor ou autora de determinada obra, e as possíveis composições
políticas, econômicas, culturais e sociais de seu tempo.
Sumariamente, compreendemos como que as impressões temporais nesses auto-
res fizeram surgir futuros hipotéticos que, por mais distorcidos e distantes que pos-
sam parecer, ainda são pertinentes no período em que foram imaginados — todos os
citados aqui, ao longo do século XX. Contudo, e, como um questionamento e indaga-
ção final, eu proponho que pensemos no quão relacionáveis ou aplicáveis eles ainda
são hoje, na nossa realidade material.
Se é assustador pensar que essas ameaças, que pareciam tão distantes, agora se as-
semelham tanto a emergentes correntes e pensamentos ideológicos, bem como líderes
por trás desses. A onda reacionária com figuras políticas, como o ex presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, o atual presidente da república, Jair Bolsonaro, Viktor
Orbán, primeiro ministro da Hungria, Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia
ou Narendra Modi, primeiro ministro na Índia. Além de partidos de direita e extrema
direita em emergência, como o Vox, na Espanha, e o Alternative für Deutschland na
Alemanha, que se instauram como um somatório de vozes que clamam pelos “bons
tempos” e/ou pelo retorno do autoritarismo, são exemplos dessas ameaças totalitárias
ou próximas a realidades distópicas dos livros aqui tratados.
Esse contexto político social nos faz pensar sobre as especulações de Burgess e Hu-
xley. Além disso, podemos pensar na pertinência dessas obras e movimentos citados
ao longo destes escritos em debates que nunca foram tão presentes e atuais: gênero,
sexualidade, raça e violência são dispensáveis de comentários em relação à sua pre-
sença. O modo com o qual, por exemplo, Laranja Mecânica retrata a interiorização da
violência, e a validação dela quando institucionalizada, pode ser reverberado nos cons-
tantes assassinatos de civis e inocentes por mãos policiais; o Conto da Aia trazendo
objetos que em tese, já deveriam ser simples na atualidade, como direito e autonomia
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de mulheres sobre seu próprio corpo e culpabilidade ao feminino por crimes e violên-
cias como estupro e agressões, ainda são exaustivos e recebem pouco avanço nas tra-
mitações do Congresso Nacional. Essas e outras questões, reforçando o que Margaret
Atwood transpassa, podem nos servir como um aviso, um “sinal amarelo”. Que nos
atentemos e resistimos com força, após perceber a proximidade do caos distópico em
nossas vidas.
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