É possível conciliar desenvolvimento agrícola com preservação
Ambiental?
Amabílio J. Aires de Camargo1
Produzir grande quantidade de alimentos para suprir uma população cada
vez maior, implantar infra-estrutura de produção, escoamento e armazenamento,
usar máquinas pesadas, pesticidas, adubos químicos e desmatamentos, são
alguns dos fatores que vêm contribuindo para a redução da biodiversidade.
Diante dessas circunstâncias, o que fazer para conciliar a necessidade de
desenvolvimento com preservação ambiental? Como garantir pelo menos uma
razoável qualidade de vida no futuro? Este é um dos maiores desafios da
pesquisa agropecuária atualmente. A busca de práticas que favoreçam a alta
produtividade, mas que também levem em consideração a sobrevivência do maior
número de espécies de plantas e animais deve fazer parte do esforço de todos.
Entre os vários problemas ambientais causados pela implantação de
lavouras destaca-se o uso indiscriminado de pesticidas. Os ecossistemas
simplificados e intensamente manejados das lavouras reduzem a diversidade
ambiental e favorecem o desenvolvimento de pragas.
A compreensão do efeito das atividades humanas nas populações de
animais de uma maneira geral é ainda bastante superficial. Extensas áreas com
monoculturas aumentam muito a oferta de alimento para os insetos, beneficiando
certas espécies que acabam sendo consideradas pragas a serem combatidas.
Em condições naturais, todos os insetos possuem algum tipo de controle
biológico. Todavia, devido ao aumento no número de indivíduos dessas pragas,
torna-se improvável que seus inimigos naturais consigam novamente trazer a
população a níveis aceitáveis, exigindo, assim, o uso de controles artificiais,
químicos ou biológicos. As populações de pragas normalmente voltam ao estado
de equilíbrio somente quando cessa a oferta de alimentos fornecidos pelos
plantios.
O aumento do número de pragas deve-se, entre outros fatores, ao uso
continuado de defensivos, o que pode ocasionar uma resistência cada vez maior
dos insetos. Aliado a isto, temos a redução de áreas com vegetação nativa e a
1
Amabílio J. Aires de Camargo é biólogo, entomologista ([Link]) da unidade Cerrados, em
Planaltina (DF), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Fone: (61) 388.9917,
e-mail: amabilio@cp [Link].
redução dos inimigos naturais. De qualquer modo, a necessidade da produção de
alimentos será sempre crescente e as pragas terão que ser combatidas.
A busca de práticas agrícolas que proporcionem alta produtividade, mas
que também levem em consideração os diversos aspectos relativos à qualidade
ambiental tem se constituído em objeto de preocupação da pesquisa nos últimos
anos.
A demanda mundial por alimentos será cada vez maior e a expansão da
fronteira agrícola possivelmente será inevitável. Resolver a equação - alta
produção com baixo custo ambiental - é tarefa complexa, mas, espera-se que isso
seja possível a médio ou longo prazo.
No estágio atual do conhecimento, existem mais perguntas do que
respostas. Um dos fatos que merecem atenção, por exemplo, é a fragmentação de
áreas nativas de Cerrado, processo recente e acelerado na região cujos efeitos
são ainda desconhecidos. Legalmente, 20% das propriedades devem estar
preservadas, o que concede ao Cerrado o aspecto de um grande mosaico com
pequenas "ilhas" de vegetação nativa no meio de extensas áreas agrícolas. Serão
esses fragmentos capazes de preservar uma parcela significativa da
biodiversidade? A diversidade de espécies pode mudar ao longo do tempo nessas
áreas? É possível apontar, com segurança, espécies indicadoras de Impacto
Ambiental? Existem alternativas de uso da terra capazes de minimizar os efeitos
negativos ao meio ambiente sem afetar a produção de alimentos?
As áreas remanescentes de Cerrado nativo apresentam extensas bordas
com áreas de cultivo, especialmente monoculturas. O impacto do uso agrícola
adjacente às áreas de Cerrado da reserva legal é praticamente desconhecido, e
necessita ser mensurado para que se confirme a destinação dessas áreas, qual
seja a manutenção da biodiversidade do Cerrado.
O que fazer
Algumas providências podem ser tomadas com a finalidade de controlar a
perda acelerada da diversidade biológica, contaminação dos recursos hídricos e
assoreamento de rios. A rotação de cultura, pluricultura, curvas de níveis, uso do
controle biológico quando possível, observação de épocas, procedimentos
adequados e recomendações para aplicação de pesticidas, podem ajudar na
preservação ambiental.
Durante estudos em projetos agrícolas na região do Cerrado, observou-se
que a percentagem de espécies que apresentam algum tipo de dano econômico,
podendo ser consideradas pragas de plantas cultivadas, é pequena, variando
entre 5 e 8,5% apenas. Algumas dessas espécies estão ainda em equilíbrio na
comunidade, apresentando poucos indivíduos. Caso haja a introdução da cultura
hospedeira nessas áreas, é provável que haja também um significativo aumento
de exemplares dessas espécies, fato que deve merecer atenção dos agricultores.
A manutenção da alta diversidade biológica em áreas agrícolas deve ser de
interesse geral, especialmente dos próprios agricultores. Isso pode manter as
populações de insetos em equilíbrio e facilitar a ação de controles naturais.
Atualmente, nas áreas onde se emprega tecnologia mais avançada, a
pulverização aérea de defensivos agrícolas é o meio mais utilizado para o controle
de pragas. É desejável que medidas sejam tomadas para diminuir as
pulverizações.
O uso do manejo integrado de pragas (MIP) e manejo ecológico de pragas
(MEP), com a introdução de controles biológicos sempre que possível, o uso de
inseticidas mais específicos, o uso alternado de inseticidas com princípio ativo
diferente, a determinação correta do melhor momento de aplicação, observando
não só o estágio de desenvolvimento dos insetos, mas também as condições
atmosféricas, são algumas providências que podem reduzir muito o efeito nocivo
dos inseticidas.
A compreensão dos agricultores sobre a importância da manutenção de
áreas de reserva, seu significado e utilidades são fundamentais. Existe uma
concepção errônea e generalizada de que as áreas com vegetação nativa
constituem-se em custo adicional sem nenhum retorno, e que servem de foco para
proliferação de pragas. Na verdade, essas áreas preservadas devem ser vistas
como um estoque de inimigos naturais, onde ainda existe um certo equilíbrio
possibilitando a sustentabilidade do empreendimento. Só um esforço adicional,
que utilize a educação ambiental efetiva, poderá mudar essa concepção.
Outro fato já constatado sobre os efeitos do uso indiscriminado de
inseticidas é o aparecimento de pragas cada vez mais resistentes, o que
certamente favorece o estabelecimento de um circulo vicioso em que, a cada ano,
são necessários produtos mais fortes e em doses maiores. A conscientização da
necessidade de preservar a biodiversidade nem sempre é tarefa fácil entre os
agricultores brasileiros, no entanto, é possível, a médio prazo, mostrar por meio de
diversas formas as vantagens da preservação ambiental nas propriedades rurais.
A manutenção de propriedades produtivas, mas que permitam a
coexistência harmoniosa de diversas espécies de organismos vivos pode ser algo
extremamente vantajoso. Quando o ecossistema está equilibrado, com alta
diversidade, ocorrem interações complexas entre as espécies, e muitos inimigos
naturais agem como fator de controle das populações. Isso pode minimizar os
problemas com pragas.
A determinação dos fatores que afetam direta ou indiretamente o tamanho
das populações, principalmente das pragas, é fundamental para a agricultura, já
que esse conhecimento poderá facilitar o controle racional dos insetos.
Sabemos que vários fatores podem influenciar a ocorrência e o potencial de
dano das pragas, inclusive o modo de preparo do solo. Em áreas de plantio direto
na região Centro-Oeste, onde essa prática é mais recente do que nas regiões Sul
e Sudeste, vêm ocorrendo problemas com pragas de solo com maior intensidade
do que em lavouras onde se utiliza o plantio convencional. As pragas, de maneira
geral, além de representarem um fator limitante da produção, aumentam os custos
das lavouras devido ao uso de inseticidas, os quais agridem o meio ambiente e a
saúde humana.
A identificação correta das pragas, com o conhecimento dos seus ciclos
biológicos, são fundamentais para a escolha mais adequada das medidas de
controle de forma racional. Recomenda-se que os agricultores estejam sempre
atentos em relação aos cuidados fitossanitários, visto que, para todas as culturas,
as pragas se sucedem de acordo com a fase de desenvolvimento da planta.
Dessa maneira, o monitoramento deve ser iniciado antes do plantio, pois, durante
o preparo do solo, já é possível detectar a presença de algumas delas.
De maneira geral, as principais pragas que atacam as culturas na sua fase
inicial são aquelas presentes no solo antes mesmo do plantio. As larvas de
besouros, entre os quais a larva alfinete (fase juvenil da vaquinha- Diabrotica
speciosa); coró ou bicho bolo, que é a denominação popular para a fase larval de
várias espécies de besouros, como Diloboderus sp.; Euetheola sp.; Phytalus sp.;
Phyllophaga sp.; Liogenys sp. entre outros. A identificação correta da espécie,
como para qualquer outro inseto, é feita na fase adulta. Essas espécies atacam
diversas culturas, com sintomas semelhantes ao de outras pragas do solo, tais
como murchamento e secamento das plantas. O processo de definhamento, no
entanto, é em geral mais rápido do que quando causado por outras pragas.
Outros insetos freqüentes, e causadores de grandes prejuízos são duas
espécies de percevejo castanho (Scaptocoris castanea e Atarsocoris brachiariae).
Podem ser facilmente detectados durante o preparo do solo pelo odor
característico que exalam. Atacam uma gama enorme de plantas e, em certos
casos, podem inviabilizar totalmente lavouras e pastagens.
Os cupins e as formigas (várias espécies), além de atacarem durante as
primeiras fases de desenvolvimento das plantas, podem continuar atuando
durante as demais fases. O ideal é fazer uma inspeção minuciosa das áreas antes
mesmo do preparo para o plantio.
A lagarta elasmo (Elasmopalpus lignosellus) é outra que deve ser
monitorada. Ela é uma pequena mariposa da família Pyralidae, cujas lagartas
perfuram o colmo de plantas novas, provocando sua morte. Outras mariposas que
são pragas importantes a serem monitoradas são: lagarta do cartucho
(Helycoverpa zea) e lagarta rosca (Agrotis ipsilon e Spodoptera frugiperda).
Além das que aparecem nos estágios iniciais de desenvolvimento das
culturas, outras pragas são muito freqüentes durante a fase vegetativa. Os
agricultores, de maneira geral, devem ficar atentos, informando-se sobre as
pragas mais constantes para a sua cultura.
Os cuidados maiores devem estar concentrados na lagarta do cartucho, já
citada, lagarta da soja (Anticarsia gemmatalis), percevejo verde da soja (Nezara
viridula), lagarta da cana (Diatraea saccharalis), lagarta do algodão (Alabama
argilacea), bicudo do algodão (Anthonomus grandis), pulgões, cigarrinha das
pastagens (Deois flavopicta), lagarta dos capinzais (Mocis latipes), lagarta
enroladeira (Edylepta indicata) e mosca das frutas (Tephritidae spp, com dois
gêneros mais freqüentes). Uma infinidade de outras pragas são conhecidas,
variando de acordo com a região, tipo de lavoura, época do ano e até com o tipo
de preparo do solo, no entanto, muitas delas, são consideradas secundárias, sem
grande importância econômica.
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