Prólogo
Um sino tilintou, claro e distinto. A jovem que desceu da carruagem tinha os mesmos cabelos ruivos
de Gyokuyou. Um véu bordado em prata escondia seu rosto, e ela usava um manto de seda maravilhosa e
brilhante. Gyokuyou se perguntou quantos anos ela teria. A garota supostamente era sua sobrinha, mas ela
não se lembrava de ter parentes tão jovens e núbeis. Todos os seus sobrinhos e sobrinhas eram mais velhos
do que ela e, portanto, muito mesquinhos. No entanto, seu próprio irmão, Gyoku-ou, jurou que aquela garota
era sua filha, então devia ser assim. Ela tinha que concordar.
— Lady Gyokuyou — disse alguém atrás dela. Era Koku-u, a do meio de um trio de irmãs que
serviam como suas damas de companhia. Ela lançou um olhar preocupado para sua senhora.
— Não se preocupe, querida. Estamos preparados para recebê-la?
— Sim, senhora.
Gyokuyou estava em uma das vilas do Imperador. Ela recebera permissão especial para encontrar a
sobrinha ali, do lado de fora da corte propriamente dita. Nenhuma consorte tinha permissão para sair do
Palácio Interno, mas Gyokuyou era a Imperatriz. Ela tinha certos direitos. A jovem de belo manto
aproximou-se com passos graciosos e ajoelhou-se diante de Gyokuyou.
— Senhora Gyokuyou, creio que esta é a primeira vez que nos encontramos. Meu nome é Yaqin.
— Levante a cabeça. Você deve estar cansado de uma viagem tão longa. Por hoje, descanse e
recupere suas forças aqui nesta vila. — Gyokuyou sorriu para Yaqin.
Ela podia ver os olhos da garota por trás do véu, verde-escuros como os dela. Tudo, desde a cor da
pele até o tom do rosto, revelava uma proeminente linhagem estrangeira. Ela era bastante charmosa à
primeira vista, de fato. Havia uma inocência nela — ainda com espaço para crescer e amadurecer —
acompanhada pela ansiedade de alguém se aventurando em um mundo que mal conhecia. No fundo daqueles
olhos esmeralda, porém, podia-se ver uma determinação trabalhando para se afirmar. Eram muito parecidas.
Sim, Gyokuyou parecia muito parecida quando chegara à capital, ao Palácio Interno. Será que essa garota
também nutria alguma resolução particular? Que assim fosse. Gyokuyou cuidaria de seus próprios negócios.
— Como você gostaria da sua refeição? Podemos prepará-la no estilo da capital ocidental para você.
Ou prefere experimentar a culinária local? — Gyokuyou lançou um sorriso provocador para Yaqin; ele
envolveu a garota, que sorriu de volta, constrangida.
Sua sobrinha viera do oeste, mas por quê? Tentaria conquistar a afeição imperial de Sua Majestade
agora que o antigo cargo de Gyokuyou estava vago? Ou estaria de olho no irmão mais novo do Imperador?
Para os propósitos de Gyokuyou, não importava. Ela pegou a mão de Yaqin e sentiu a sobrinha enrijecer.
— Você está com tanto frio e sua pele está tão seca — ela disse.
— Deixa eu te dar um hidratante. O ar do mar é simplesmente horrível para a pele.
A garota desconfiava abertamente de Gyokuyou. Se aquilo era uma encenação, era soberba. Se não,
apenas demonstrava que não haviam passado muito tempo ensinando-lhe os truques para conquistar o
coração e a mente de uma pessoa. Nunca havia tempo suficiente para ensinar a uma futura consorte tudo o
que ela deveria saber, como dança, canto e política. Gyokuyou pegou o hidratante de Koku-u e passou um
pouco na própria mão para demonstrar que era seguro. Sua sobrinha ainda parecia desconfiada; talvez
estivesse apenas ansiosa. Para Gyokuyou, tudo bem. Que ela desconfiasse o quanto quisesse. Gyokuyou a
envolveu em um sorriso suave como seda. Ela a envolveria em camadas e mais camadas de sorrisos, até que
cada espinho, cada agulha que ela pudesse ter fosse coberto. Ela pegaria a criança em seu colo e a abraçaria
gentilmente. Gyokuyou acariciou a mão da sobrinha. Alguns poderiam considerar isso impróprio, mas o
calor retornou aos dedos de Yaqin. Koku-u franziu a testa, mas não discutiu com Gyokuyou. Gyokuyou ficou
feliz por Hongniang, que era sua principal dama de companhia e, por direito, deveria estar ali, não estar
presente. Gyokuyou havia pedido que ela cuidasse de outros assuntos. Ela se sentia um pouco culpada, mas
isso seria mais fácil sem ela. A função de Gyokuyou era sorrir. Nunca deixar aquele sorriso sumir ou
desaparecer. Essa era sua única arma. Seu pai, Gyokuen, a encontrara e a ensinara a empunhá-la.
Capítulo 1: Retorno à Capital Ocidental
Maomao enxugou a testa enquanto olhava para fora da carruagem. O sol batia forte, queimando a
terra. As pessoas que seguiam atrás do veículo a pé usavam chapéus de viagem cônicos, mas isso não as
protegeria da luz refletida, que ainda seria forte o suficiente para bronzear a pele. Então, um ano depois, e
estou de volta, pensou Maomao. A última vez que ela viera, fora um pouco mais cedo no ano, e não tão
quente. Pelo menos não havia umidade — o suor que ela enxugou secou rapidamente —, mas ainda estava
escaldante. O médico charlatão sucumbira prontamente ao calor e estava encolhido em um canto da
carruagem.
— O que este lugar precisa é de um pouco de verde! Isso tornaria as coisas melhores — observou
Chue.
Ela estendeu uma bolsa de couro com água aromatizada com a casca de algum tipo de fruta cítrica.
Mesmo a bebida morna era melhor do que nada na garganta seca de Maomao.
— Você já esteve aqui antes, certo, Srta. Maomao?
— Sim, ano passado.
Ela certamente não esperava voltar naquele ano. A maioria dos plebeus nunca fazia uma viagem tão
longa em toda a vida.
— Mas você não ficou aqui por muito tempo, né? Deixe a Srta. Chue te mostrar o lugar dessa vez!
Você pode ver os pontos turísticos! Divirta-se! — Havia um brilho nos olhos dela.
Quanto menos algo tinha a ver com trabalho, mais ansiosa ela ficava para fazê-lo.
— Não, obrigado, tenho um trabalho a fazer.
Maomao adoraria passear, finalmente conhecer a cidade inteira e provar todas as ervas medicinais e
outras plantas à venda naquele ponto de comércio. Mas havia uma pessoa que ela precisava ficar de olho o
tempo todo. Jinshi. Aquele filho da...! Mesmo agora, a lembrança a fazia ferver, e ela suspeitava que isso
sempre aconteceria.
— Senhorita Maomao! Senhorita Maomao! Você parece tensa — disse Chue e começou a massagear
as bochechas de Maomao.
Parecia que, de alguma forma, alguém sempre acabava fazendo isso.
— O-Oh, eu faço?
— Tenho certeza de que eles ficariam perfeitamente felizes se você saísse o dia todo se dissesse que
era para inspecionar os arredores. Só não esqueça de me ligar quando fizer isso! — Ela só quer que eu seja a
desculpa dela!
Era fácil conversar com Chue, e melhor do que qualquer outro possível supervisor que pudesse ser
designado a ela, mas ainda assim ...
— Ai, ai, meu Deus! A gente conversou tanto que chegou!
Uma cidade de pedra e tijolo surgiu à vista. Era pontilhada de árvores verdes, e um lago cintilava ao
longe. Toldos esvoaçavam aqui e ali para proteger do sol. A carruagem seguiu em frente, em direção a uma
grande mansão. Por um momento, Maomao pensou que estavam indo para a mesma casa que ela havia
visitado no ano passado, mas então percebeu que era a casa ao lado.
— Então este é o escritório administrativo! — disse Chue, olhando para uma placa de pedra na frente
do prédio.
A carruagem parou no portão. Os outros médicos já esperavam lá dentro.
— Ah, são todos? — disse o Dr. You, de pele escura, acenando para eles.
— Certo, Srta. Maomao, a Srta. Chue tem outras coisas para fazer. Então!
— Certo. Muito obrigado.
— Nem mencione isso! — Chue falou baixinho, entrando no prédio administrativo.
— Aqui! — Doutor. Você ligou.
Ele estava com Tianyu e um dos outros médicos. Maomao e o charlatão foram até ele, com Lihaku
seguindo-o a uma distância discreta.
— O senhor já esteve aqui antes, Dr. You? — Tianyu perguntou lentamente.
— Sim, muitas vezes. Mas isso foi antes de este ser um escritório burocrático. Eu sou da capital
ocidental, sabe? Sou filho da província de I-sei. Sei mais ou menos onde fica a vila oriental.
— Huh! — disse Tianyu, que não parecia muito interessado na resposta, apesar de ter feito a
pergunta .
Antes era um escritório, né?, pensou Maomao. Enquanto entravam, ela se perguntou para que aquilo
poderia ter sido usado antes. De fato, parecia mais a casa de uma pessoa rica do que um prédio
administrativo propriamente dito. Talvez fosse uma mansão que confiscaram de alguém que não estava
pagando impostos? Era só imaginação dela, mas foi o suficiente para passar o tempo até chegarem à vila. Os
suprimentos médicos já estavam lá.
— O que devemos fazer agora? — perguntou o médico de aparência séria ao Dr. You.
— Vejamos. O plano é nos dividirmos em três grupos, assim como fizemos nas naves. O Príncipe da
Lua ficará no anexo do Lorde Gyoku-ou, o Grande Comandante Kan estará aqui no escritório administrativo,
e nosso homem Lu, do Conselho de Ritos, estará na casa principal do Lorde Gyoku-ou .
O bom doutor parecia se referir a um daqueles homens de forma bem diferente dos demais. Talvez
fossem próximos pessoalmente, ou talvez em posição hierárquica?
— Então, devemos nos dividir nos mesmos grupos que fizemos nos barcos? — perguntou o outro
médico.
— Hum. Acho que algo um pouco diferente hoje — disse o Dr. You. Ele agarrou Tianyu e o
empurrou na direção de Maomao e do charlatão.
— Hein? Estou com eles, senhor? — perguntou Tianyu.
— Eu tinha certeza de que estaria com o Dr. Li novamente. — Maomao concordou.
Li era evidentemente o médico restante. O nome também era extremamente comum — tanto que não
ajudava a diferenciar as pessoas, e aqueles com sobrenome Li frequentemente eram chamados pelo nome
completo. Lihaku era um exemplo prático desse fenômeno.
— Tentamos levar todos os fatores possíveis em consideração quando tomamos essa decisão. Você
pode ficar com o Dr. Li , desde que tenha cuidado com o que diz. Ouvi falar das suas gafes no navio.
Evidentemente Tianyu havia falado mal de alguns altos funcionários.
— Mas eu poderia ser tão grosseiro em qualquer outro lugar! Hum... Aonde eu vou?
— Para o anexo. Vou ficar no escritório administrativo aqui, e o Dr. Li ficará na residência principal.
— Isso significaria que eu estaria no mesmo prédio que o irmão mais novo Imperial, não é? Isso não só teria
o potencial de piorar as coisas?
Isso implicava que Maomao também estaria no prédio de Jinshi. Ela provavelmente já tinha
imaginado isso.
— Hah! Esperando ter a chance de fazer um exame no Príncipe da Lua? Boa sorte. Duvido que você
o veja muito. — Doutor. Você deu um tapinha no ombro de Tianyu.
Tianyu esfregou-o dolorosamente. O Dr. You continuou :
— Vocês formarão o grupo perfeito. Niangniang é boa em misturar remédios, o que é exatamente o
que você não é, Tianyu. Mas você é o melhor cirurgião entre a nova geração. Esta será a oportunidade
perfeita para vocês aprenderem uns com os outros.
Seria ótimo se Niangniang estivesse aqui, pensou Maomao, mas não se deu ao trabalho de corrigi-lo.
Ela havia decidido que, se não a machucasse ativamente, poderia conviver com isso. Olhou para o médico
charlatão. Ele nem parecia estar na lista. E também não parecia perceber.
— Só espero ser um bom professor — disse o charlatão, inquieto. Maomao desviou o olhar.
— Estou ansioso por isso, parceiro! — disse Tianyu, dando um tapinha nas costas de Maomao.
— Não somos parceiros .
Maomao ficou diante do médico charlatão, que ficou vermelho de vergonha e se escondeu atrás dela.
— Estou ansioso para trabalhar com você, grandão! — disse Tianyu.
— S-Sim, será um prazer — disse o charlatão.
Tianyu evidentemente não o levou muito a sério.
— Você pode estar em um novo grupo, mas seu trabalho não mudou. Os médicos cuidam de seus
pacientes. E nada mais! Cada grupo terá um oficial subalterno designado para atuar como mensageiro caso
algo aconteça. Não hesite em usá-los.
Foi bom trabalhar com o Dr. You; ele simplificou as coisas. Maomao sabia que o pessoal desta
viagem havia sido selecionado por sua capacidade de adaptação a uma situação em rápida mudança, mas ele
tinha uma facilidade especial que devia advir de estar em sua terra natal.
— Você ouviu. Vamos andando? — perguntou Tianyu, pegando suas coisas.
Escritório administrativo, prédio principal e anexo: dois dos três pertenciam diretamente a Gyoku-ou,
o que demonstrava o quão poderoso ele era. O escritório e a casa principal ficavam bem próximos um do
outro; o anexo ficava a cinco minutos de caminhada. Ambos davam para a rua principal, mas dentro do
prédio administrativo o burburinho lá fora era quase inaudível. Era simplesmente enorme. Os muros e as
árvores lá fora provavelmente também ajudavam a bloquear o barulho. Maomao e seus três companheiros
foram acompanhados pelo oficial subalterno que serviria como mensageiro, e os cinco foram conduzidos ao
prédio por um homem que parecia ser um morador local. Ao saírem pelo portão, tiveram uma boa visão da
cidade. Lihaku mais uma vez manteve uma distância respeitosa, mas Tianyu o olhava de relance. Acho que
parece meio estranho, pensou Maomao — alguns médicos comuns recebendo guarda-costas? Sem falar no
fato de que o próprio charlatão era pessoalmente responsável pelos cuidados de Jinshi. Tianyu era esperta
demais para não se perguntar por que Maomao e o charlatão estavam sendo encarregados do irmão mais
novo Imperial. Ela se preocupava com a possibilidade de ele começar a fazer perguntas, mas, por enquanto,
tentava agir como se tudo estivesse normal. Podia pelo menos se fazer de inocente até que ele a pressionasse
especificamente.
— Nossa! Que emocionante!
Se o charlatão ainda estivesse de bigode, tudo teria tremido. Ele não era um eunuco particularmente
corajoso, mas naquele momento sua timidez parecia ser superada pela excitação em ver a capital ocidental.
Tianyu também olhava para todos os lados ao mesmo tempo. Sua expressão, porém, não mudava, e ele
parecia menos se divertir e mais como se estivesse analisando tudo cuidadosamente. Nunca sei bem o que
fazer com esse cara. Maomao nunca conseguia dizer o que ele estava pensando. Ela havia percebido, porém,
que ele era rápido em se agarrar a qualquer coisa que despertasse sua curiosidade. Se soubesse o que era,
talvez pudesse prever como ele reagiria — mas ainda não sabia o que ele achava interessante.
— Hm? — disse Tianyu, inclinando a cabeça com curiosidade enquanto saíam do escritório.
Maomao se perguntou o que estava acontecendo , e então viu um rosto familiar. O dono do rosto
pareceu reconhecê-los também, pois trotou até lá.
— Já faz muito tempo — disse ele com uma reverência respeitosa à cabeça e um sorriso gentil.
Era o bonitão, Rikuson. O ex-assessor do estrategista esquisito. Isso mesmo. Ouvi dizer que ele foi
transferido para a capital ocidental. Estava mais bronzeado do que da última vez que Maomao o vira, sem
dúvida devido à forte luz do sol daquela região. Dois assistentes caminhavam atrás dele.
— Sim, senhor — disse Maomao.
— É, faz um tempo que não te vejo — disse Tianyu quase ao mesmo tempo.
Só o charlatão ficou de fora. Ele olhou para Maomao como se perguntasse quem era aquela pessoa.
— Vocês dois se conhecem? — perguntou Maomao, olhando de Rikuson para Tianyu e vice-versa.
— Sim, porque eu nunca esqueço alguém que conheci. — Rikuson sorriu.
Maomao sentiu um certo cansaço na expressão dele. Ela também notou que suas roupas estavam
empoeiradas e que havia lama em seus sapatos.
— A primeira coisa que nos disseram quando começamos na corte foi para descobrir a aparência do
ajudante do estrategista — disse Tianyu.
— Ahh. Entendo — disse Maomao.
Tianyu pode ter cumprimentado Rikuson familiarmente, mas na verdade não o conhecia nem se
importava muito com ele. O charlatão, por sua vez, se mexia desconfortavelmente, sentindo-se tímido perto
daquele estranho. Pela primeira vez, Maomao não podia simplesmente deixar que todos os outros falassem.
— Este é o médico-chefe. Vim à capital ocidental para ajudá-lo — disse ela.
— Mestre médico? — Rikuson perguntou com um olhar confuso para o charlatão.
Ah! O nome dele. O nome dele é... uh... Droga! Ela quase tinha esquecido de novo. Ela achou que
era Gu... Guen? Mas decidiu não dizer em voz alta. Em vez disso, disse :
— Se eu lhe disser que ele é o médico que serviu muitos anos no Palácio Interno, você saberia de
quem estou falando?
Ah. Bem feito. Rikuson bateu palmas.
— Sim! É ele?
Essa foi por pouco. Quase me esqueci. O charlatão era um dublê de seu próprio pai, Luomen, e ele
estava sendo tratado como se fosse seu equivalente mais augusto. Rikuson, por sua vez, certamente conhecia
Luomen, que era tio do estrategista esquisito. Ele provavelmente também entenderia que o charlatão era o
único médico nos Palácio Interno. Nunca se sabe se as muralhas teriam olhos ou ouvidos. Eles ainda estavam
tecnicamente em Li, mas a capital ocidental era tão boa quanto território estrangeiro. Mais precisamente, os
dois assistentes de Rikuson pareciam ser locais – Maomao não podia se dar ao luxo de dizer nada
descuidado. Ela teria que tomar cuidado com o que falava. Maomao não tinha nada em particular para
conversar com Rikuson e estava ansiosa para sair dali antes que alguém entregasse o jogo.
— Tenho certeza de que está ocupado, Mestre Rikuson. Peço desculpas por tomar seu tempo — disse
ela.
— De jeito nenhum. Acabei de voltar de uma viagem a trabalho. Levei um bom tempo, mas sabia
que vocês chegariam em breve, então voltei correndo. Nunca imaginei que meu timing seria tão perfeito.
Ele abriu um largo sorriso, mas não conseguiu esconder a lama na bainha do manto. Estava seco
agora, mas era óbvio que originalmente era solo bem escuro e rico. Estaria ele no campo por algum motivo?
A capital ocidental era um lugar seco; poças d'água não eram comuns nas estradas ali. Mesmo que fossem, a
poeira seria mais branca, carente de nutrientes. O único lugar onde ele poderia ter encontrado terra fértil
como a que estava grudada em sua roupa era em um campo que tivesse sido regado. Talvez ele estivesse
voltando de alguma vila mais próxima da água. Apressando-se para voltar, ele não teve tempo de se
preocupar com sua aparência. Então ninguém lhe disse quando exatamente chegaríamos? Viagem longa ou
não, ela esperaria que Rikuson soubesse pelo menos isso.
— Preciso ir. Tenho medo de que, se eu ficar parado conversando por muito tempo, meu antigo chefe
possa me notar. Até breve — disse Rikuson.
Parecia que ele queria dizer algo mais, mas devia estar muito ocupado. Tianyu, que sabia a quem ele
se referia por " ex-chefe ", riu baixinho. Apenas o médico charlatão ficou completamente no escuro, e passou
a conversa inteira com uma expressão triste. Maomao teria que lhe explicar quem era Rikuson enquanto
seguiam para o seu destino. Ela se viu com muito em que pensar, mas também se lembrou do que o Dr. You
lhes dissera. Médicos cuidam de seus pacientes — e nada mais. Maomao era apotecária. Então, ela faria o
trabalho de uma apotecária — e nada mais.
Capítulo 2: Chefe e Ex-Chefe
Rikuson soltou um suspiro enquanto retornava para seu quarto, que no momento era um cômodo do
prédio administrativo que ele havia apropriado como seu alojamento.
— Isso é só para dificultar minha vida? — ele murmurou, tirando a areia. e lama roupa coberta.
Já fazia algum tempo que Rikuson sugerira um passeio pelas aldeias agrícolas, mas Gyoku-ou só
aprovara a ideia alguns dias antes. Rikuson havia ido, mas uma premonição inquietante o fez voltar correndo.
e agora aqui estava ele.
— Quando parti para as aldeias, todos me disseram que chegariam substancialmente mais tarde do
que o esperado.
Eram os visitantes da capital que ele encontrara momentos antes. Ele tinha que admitir que nunca
imaginara que a estimada filha de seu antigo superior estivesse entre a comitiva.
— Claro que Mestre Lakan veio — Rikuson refletiu.
Nem mesmo a perspectiva enjoativa de viajar de navio o teria impedido de embarcar nessa viagem.
Com todo o respeito à estimada filha, Maomao, Rikuson achou a ideia um tanto divertida. Quando lhe
disseram que seu antigo chefe chegaria em cerca de dez dias, ele reservou os cinco dias anteriores para sua
viagem às aldeias agrícolas. Mas então... Rikuson limpou o robe, espalhando areia por todo lado. Ele
adoraria ter se lavado direito, mas não havia tempo. Mal havia um momento para se limpar. Sua única opção
era pegar um bolo de incenso e passar um pouco no pescoço. Por aquelas bandas, " incenso " geralmente
significava perfume ou um bolo como aquele, e Rikuson tinha apenas um de cada à mão. Um era um
perfume que Gyoku-ou lhe dera de brincadeira, enquanto o bolo era um que ele havia conquistado a duras
penas enquanto caminhava pela cidade. Esse era o incenso de sua escolha hoje. Um produto barato como
aquele era perfeito — o incenso na capital ocidental costumava ter fragrâncias fortes, então algo barato e
com menos cheiro era o ideal. Ele esfregou apenas o suficiente para mascarar o cheiro de suor e, como toque
final, colou um sorriso no rosto. Um sorriso era essencial para fazer negócios, sua mãe lhe dissera. Nunca o
deixe escapar na frente de um cliente. Rikuson se perguntou o que Gyoku-ou pensaria ao vê-lo de volta tão
cedo. As coisas poderiam ficar um pouco estranhas se seu antigo chefe estivesse lá, mas foi o que aconteceu.
Ele apertou o cinto e saiu da sala.
— Já faz algum tempo, senhor — disse Rikuson, forçando-se a agir com total naturalidade ao entrar
no salão.
Gyoku-ou e seus subordinados estavam lá, junto com os convidados, desfrutando de uma refeição
leve. Os criados entravam e saíam apressados com a comida. Era cedo demais para o jantar, mas as oferendas
pareciam suntuosas mesmo assim. Rikuson reconheceu todos os convidados. Naturalmente. Ele não os
esqueceria. O homem barbudo de monóculo era Lakan. Seu antigo superior; ele o reconheceria em qualquer
lugar. Ao lado de Lakan, sentava-se seu ajudante, Onsou. Ele já estava por ali desde antes de Rikuson servir
Lakan; quando Rikuson assumiu, lembrava-se distintamente de Onsou vindo até ele com lágrimas de
gratidão nos olhos. Onsou era um homem capaz, mas tinha uma tendência infeliz de tirar as coisas do
caminho mais curto da vida. uma tendência à qual ele poderia muito bem ter se resignado no momento em
que encontrou seu caminho para a órbita de Lakan. Onsou viu Rikuson entrar; ele fez uma leve reverência e
sussurrou para Lakan. Lakan olhou para Rikuson com a mesma expressão vaga de sempre. Se Onsou não
tivesse dito nada, provavelmente nunca teria percebido que Rikuson estava lá. Rikuson às vezes ficava
curioso para saber exatamente como ele parecia para o estrategista. Lakan acenou para Rikuson, mas não
tinha certeza se deveria se aproximar do estrategista do nada. Ele olhou para Gyoku-ou. O governante
interino da capital ocidental acenou para ele de seu lugar de honra à mesa para que fosse prestar suas
homenagens. Rikuson se sentiu realmente muito constrangido. Onsou estava olhando para ele com uma
expressão difícil de descrever. Ele parecia estar se perguntando de que lado Rikuson estava. Entre seu chefe
atual e seu ex-chefe, Onsou deveria ter entendido a quem a posição atual de Rikuson o fazia dever. Lakan,
enquanto isso, mastigava um pouco de comida frita, aparentemente indiferente à situação. A comida passou
primeiro pelas mãos de uma dama de companhia que Rikuson não reconheceu, que deixou apenas os
mínimos restos para o consumo de Lakan. Rikuson poderia ter presumido que ela era sua provadora de
comida, mas se fosse, ela estava guardando a maior parte da refeição para si. Lakan simplesmente pegou as
sobras. Ele ouvira dizer que o irmão mais novo Imperial viria à cidade, mas no momento não o viu. Este não
parecia ser um banquete público; Lakan provavelmente aceitou o convite sem pensar em nada, mas os olhos
marejados de Onsou deixaram claro que ele deveria ter recusado educadamente.
— Ahem, ah...Rikuson, eu quero comer aquele pãozinho — disse Lakan.
A princípio, Rikuson teve certeza de que Lakan havia esquecido seu nome, mas descobriu-se que não
era verdade. Quanto a " aquele pãozinho " , ele acrescentou:
— Onsou disse que não sabe de qual pãozinho estou falando, mas eu contei! Aquele pãozinho!
Rikuson concordou com Onsou: aquilo não era suficiente. Teria sido por isso que Lakan o chamara?
Porque ele queria um pãozinho? Rikuson vasculhou a memória.
— O senhor está falando de algo doce, não é?
— Claro que sim .
— Tem algum recheio?
- Eu não acho.
Então não foi o recheio de feijão vermelho que tornou este pão doce.
— É coberto com molho ou você mergulha em alguma coisa?
— Ah, o molho! Sim, tinha molho! Aquela coisa branca , eu adoro!
Rikuson finalmente conectou os pontos.
— Mestre Lakan. O senhor está falando dos pãezinhos fritos do Liuliu Fandian?
O nome significava " O Restaurante Double Six " ; era um lugar onde Lakan tinha ido uma vez e,
várias vezes depois disso, ele havia enviado Rikuson para comprar os pães.
— Senhor Onsou. Frite um pãozinho de tangerina e cubra com leite condensado — disse ele.
— Estou cuidando disso.
Já havia um pãozinho de tangerina na frente de Lakan; deve ter sido isso que o fez lembrar da criação
de Liuliu.
— Pão frito com leite condensado? Parece uma delícia! — disse a mulher que parecia ser a
provadora de Lakan, com os olhos brilhando.
Ela não parecia muito com uma dama de companhia comum — talvez outra das " descobertas " de
Lakan .
— Senhorita Chue, talvez a senhora possa ser gentil e provar um pouco menos da comida para ver se
há veneno — disse Onsou.
Então o nome dela era Chue. O toque de deferência de Onsou sugeria que ela não era a dama de
companhia de Lakan, mas sim alguém que havia sido emprestada de outro lugar para desempenhar esse
papel.
— Ops! Foi mal — disse Chue.
No mínimo, essa conversa provou a Rikuson que Lakan ainda era Lakan.
— Posso preparar os pãezinhos para o seu lanche amanhã, senhor — disse Onsou.
— Quero eles para o jantar hoje à noite!
— Por favor, senhor, seja razoável. Já estamos num banquete! — A voz de Onsou saiu esganiçada;
ele não parecia conseguir dizer muito mais.
Rikuson observava, compreensivo, ciente de quão exigente Lakan podia ser quando estava de mau
humor. Onsou lançou um olhar fulminante ao ex-assessor.
— Vejo que algumas coisas nunca mudam — disse Rikuson a Onsou, numa tentativa de recuperar
seu humor.
— De fato, não. E você parece ter se sentido em casa aqui no oeste.
Onsou notou o bronzeado de Rikuson e sentiu o cheiro do incenso que exalava dele. Ele nunca fora o
tipo de pessoa que usava incenso na capital. Só o fazia ali para disfarçar o cheiro de suor, mas se conteve;
achou que soaria como desculpa.
— Perdoe o Rikuson. Ele acabou de voltar de uma viagem bem longa — disse Gyoku-ou enquanto
dava uma mordida na carne.
Evidentemente ele estava ouvindo a conversa deles.
— O-Oh, entendi — disse Onsou, empalidecendo por ter sido abordado tão repentinamente pelo
próprio Gyoku-ou.
Sem dúvida ele não esperava que a conversa do grande homem se voltasse para ele.
— A comida está do seu agrado? Se quiser alguma coisa, posso pedir ao meu chef para preparar
imediatamente.
— Você conhece a massa frita do Liuliu Fandian?
Lakan, que nunca precisava ser perguntado duas vezes, interrompeu. O povo da capital ocidental, é
claro, não conhecia o pão frito da cidade real.
— Hoh. Por favor, me conte sobre isso — disse Gyoku-ou.
Agora que ele havia demonstrado disposição para ouvir, caberia a Rikuson explicar. Ele sentiu um
frio na barriga. Esse parecia ser o seu destino num futuro próximo — uma perspectiva nada feliz para o
sempre ansioso Rikuson.
Capítulo 3: O Anexo e o Homem Esquecido
O anexo de Gyoku-ou parecia um lugar bastante confortável, graças à sua abundância de vegetação.
Quando se pensava na Província de I-sei, onde ficava a capital ocidental, pensava-se no deserto, mas, na
verdade, havia muitas planícies gramadas. Era seco, sim, mas havia mais do que areia ali; havia água
suficiente para, pelo menos, as plantas herbáceas crescerem. O que não significava que a água não fosse
preciosa ali. Seria aquela a casa principal em que nos hospedamos da última vez?, perguntou-se Maomao.
Havia muito verde lá também. Só a presença de todas aquelas árvores no jardim da mansão já bastava para
dar a impressão de riqueza. É claro que, para o povo da capital — acostumado a viver perto do grande rio,
com o mar não tão distante —, talvez faltasse algo. Mas era o suficiente para ser refrescante. O jardim ali era
feito aproximadamente no estilo da região central, mas estava repleto de plantas que ela nunca tinha visto
antes. Seu primeiro pensamento foi que ela adoraria testar seus efeitos medicinais - mas, bem, esse era o
Maomao.
— Mocinha! Vamos deixar a bagagem no chão primeiro. Foi uma viagem tão longa, e estou tão
cansado — disse ele, parecendo tão exausto quanto soava.
— Boa ideia — disse Tianyu.
— Ei, Niangniang, quando chegarmos ao nosso quarto, talvez possamos jogar pedra, papel e tesoura
para ver quem consegue explorar a mansão.
Lihaku caminhava alguns passos atrás dos três, vigiando-os. O consultório médico ficava em um
prédio separado da mansão. Eles não podiam reclamar exatamente da localização; afinal, doenças eram
consideradas impureza. Se o consultório fosse um lugar muito movimentado, eles só teriam que se preocupar
com infecções sempre que um paciente aparecesse .
— Este é um lugar estranho — disse o charlatão, olhando para o prédio, perplexo.
— Pensei a mesma coisa no consultório médico do prédio administrativo .
Certamente não era o que estavam acostumados em Li, e embora a capital ocidental tivesse seu
próprio estilo arquitetônico, o prédio também não parecia pertencer a ele. Quase parecia ...
— Isto é uma capela? — perguntou Tianyu, roçando os tijolos com a mão.
— Capela? O que é isso? — perguntou o charlatão.
Não é de se espantar que ele não conhecesse a palavra; não havia muitas capelas em Li, e o charlatão
dificilmente seria considerado cosmopolita.
— Pense nisso como um santuário — sugeriu Maomao.
— Ah! Um lugar para rezar .
— Sim. Há muitas religiões diferentes nesta cidade — disse Tianyu.
Entraram no prédio e encontraram uma sala com abóbadas altas. Não parecia haver nenhum objeto
de culto lá dentro; os únicos vestígios de alguma fé praticada ali eram algumas decorações nas paredes.
Talvez alguma pessoa piedosa tenha morado ali. Quando o local passou para as mãos de Gyoku-ou, ele não
chegou a demoli-lo, mas não era mais um local de culto.
— É do tamanho perfeito. Ah, e olha só! O resto dos nossos pertences já chegou. Hmm, é muita
coisa mesmo. Vai dar trabalho organizar tudo. Que tal deixarmos tudo nas caixas? — disse o charlatão.
— Boa ideia. Vamos nos apressar e jogar pedra-papel-tesoura! Quem vai explorar?
Não muito tempo atrás, Maomao teria aceitado a sugestão de Tianyu com entusiasmo. Pensando
bem, porém, ela se perguntou: mesmo que ganhasse o jogo, os outros dois realmente fariam seu trabalho ali?
Ao mesmo tempo, ela sabia que ficaria irritada se Tianyu vencesse – e se o médico charlatão ganhasse a
chance de explorar, bem, essa ideia também era um pouco estressante. No final, Maomao escolheu a solução
mais tediosa. Ela arregaçou as mangas, amarrou um lenço sobre a boca e disse :
— Certo, explorar vem depois! Primeiro precisamos resolver isso!
— Ah. Você parecia todo animado para olhar ao redor mais cedo .
— Estou muito cansada da viagem, mocinha. Não podemos ir mais devagar?
— Não, não podemos! — disse Maomao, repelindo os dois.
Seus suprimentos médicos poderiam ter apodrecido durante a longa viagem marítima; eles
precisavam saber o que ainda era utilizável e o que não era, para que pudessem estocar tudo o que
precisassem.
— Ninguém sai desta sala até que tudo isso esteja organizado.
— Ah, não — O charlatão esticou o lábio inferior e pareceu profundamente abatido.
Tianyu não pareceu feliz com isso, mas foi até os suprimentos e começou a trabalhar.
— O que você gostaria que eu fizesse, mocinha? — perguntou o grande vira-lata, Lihaku.
Parecia que ele iria simplesmente se jogar no chão e começar a fazer flexões para passar o tempo se
ela não tivesse nada para ele fazer, então ela decidiu submetê-lo a trabalhos físicos.
— Você poderia pegar a caixa que está perto da porta e trazê-la aqui? — perguntou Maomao.
— Claro! Ufa! Isso é pesado!
Acabou sendo um pouco demais até para Lihaku. Maomao foi até a caixa, abriu a tampa e espiou.
Estava cheia de cascas de arroz e batata-doce. Não era de se admirar que fosse tão pesada. Nem Lihaku
conseguiria levantá-la sozinho.
— Não acho que isso seja nosso — ela disse.
— O que você acha? A gente pega uma carroça emprestada e leva isso para algum lugar? —
perguntou Lihaku.
— Não, acho que podemos simplesmente avisar alguém responsável e eles podem lidar com isso —
respondeu Maomao, pensando a quem deveriam contar.
Naquele exato momento, alguém veio da direção do jardim, acenando com urgência.
— Ei! Acho que parte da minha carga se misturou com a sua — gritou o recém-chegado.
Era um homem sem características distintivas específicas — a única coisa notável nele era o quão
discreto ele era. Tinha uma aparência impecável e provavelmente tinha vinte anos. três ou vinte Quatro anos.
"Sinto como se já o tivesse visto em algum lugar antes", pensou Maomao, refletindo mais. Quando o
recém-chegado viu Maomao, parou de repente.
— É você ! — disse ele, apontando dramaticamente para ela.
— Não sei dizer quem pode ser irmã de Lahan ou não!
— A resposta é não.
Agora ela tinha certeza: já tivera essa conversa antes. Mas quem é esse cara? Seus olhos se voltaram
para a caixa cheia de batatas-doces. A menção do nome de Lahan reacendeu uma lembrança.
— Você é irmão de Lahan, não é?
A lembrança que ela tinha dele era nebulosa, mas ela achava que era quem ele era.
— Lahan é mais novo que eu! Por que eu deveria ser definida pelos termos dele?!
Sim, aquele era o irmão de Lahan, com suas reações deliciosas. Ela já o conhecera antes e se
lembrava dele principalmente por ser muito normal e oferecer muitas oportunidades para interjeições
espirituosas. Seu rosto, porém , ela havia esquecido completamente.
— Bem, eu não sei seu nome — ela ressaltou.
- Meu nome é .
— Aquilo não foi um convite . — Ela só recentemente, e finalmente, se lembrou do nome do médico
charlatão.
Ela não precisava aprender mais nada.
— Escute! Deixe-me dizer meu nome! — Maomao, porém, não estava com vontade de ouvir.
— Mais importante: O que você está fazendo aqui?
Esse cara normalmente passava o tempo todo cuidando de plantações de batata na região central. O
irmão de Lahan pareceu escandalizado com a pergunta de Maomao. Lihaku, tendo decidido que não era uma
ameaça, observou em silêncio.
— Estou aqui porque me arrastaram para cá! Trouxeram-me em vez do meu pai, com ordens de
ensinar o povo da capital ocidental a cultivar estas coisas! — Maomao sentiu um certo ressentimento.
— Essas coisas — referia-se às batatas-doces.
— Imagino que Lahan tenha enganado você para fazer isso.
— HH-Ele não fez isso! — O irmão de Lahan era fácil de ler. E Lahan continuou implacável como
sempre.
— Por que ele não perguntou ao pai? — perguntou Maomao.
O pai de Lahan, La... hum, sei lá o quê, amava a agricultura e parecia que iria até os confins da Terra
se houvesse um campo para ser cultivado lá. O irmão de Lahan fez uma pausa.
— Depois que seu experimento com o cultivo de batata-doce no norte veio à tona, ele não consegue
escapar.
— Experimento?
— A batata-doce rende muito mais que uma safra de arroz, então ele pensou que seria perfeita para a
província de Shihoku, onde há muitas pessoas e espaço.
- Certo.
Jinshi estava tentando de tudo para garantir o suprimento de comida, e ela parecia se lembrar de
Lahan sendo muito otimista em relação às batatas também.
— O problema é que a batata-doce vem do sul, então não cresce bem no norte. Na verdade, duvido
que cresçam, mas meu pai diz que vale a pena tentar descobrir qual é o limite norte, então eu simplesmente o
deixo fazer isso.
— Não tenho certeza se este é o momento …
Até Maomao percebeu que era uma ideia perigosa. Uma fome se aproximava; eles não podiam
dispensar pessoas e terras para satisfazer a curiosidade de um fazendeiro. E ele tinha um olhar tão
simpático...
O homem a lembrava de Luomen e, evidentemente, quando algo o interessava, ele ficava
completamente absorto naquilo, excluindo todo o resto.
— Seria muito arriscado se todos os campos fossem de batata-doce, então eu trouxe estas também.
Dê uma olhada. — O irmão de Lahan jogou algo para ela da caixa ao lado da caixa de batata-doce.
— Batata comum? Esta é uma batata branca, certo?
Era uma batata grande, robusta e redonda. Batatas eram um alimento relativamente novo; a matrona
da Casa Verdete havia dito a Maomao que elas ainda não eram muito consumidas quando ela era jovem.
— Isso mesmo. Um tubérculo como este pode crescer até no frio, mesmo que o solo não seja muito
fértil, então ele me fez trazer isso. Lahan só conhece o Pai Legal, mas ele pode ser um personagem
formidável quando quer.
O pai de Lahan, chamado La-alguma-coisa, era evidentemente um membro legítimo do clã La. Até
Maomao quase se deixou seduzir por seu semblante agradável.
— Batatas podem ser colhidas duas vezes por ano, então meu pai está determinado a plantá-las.
Receio que ele esteja tentando usá-las para falsificar seus números de colheita.
— Você parece saber muito sobre batatas — observou Maomao.
Ela achava que o irmão de Lahan era uma pessoa completamente normal, sem nenhuma qualidade
especial além de sua vulnerabilidade a uma boa piada, mas descobriu que ele tinha algo a oferecer.
— Nossa, você é um fazendeiro de verdade! — disse Lihaku, dando um tapinha nas costas do irmão
de Lahan.
Ele não acompanhou a conversa inteira, mas mesmo assim ficou impressionado.
— F-Fazendeiro?! — O irmão de Lahan engasgou.
Ele parecia querer revidar, mas estava furioso demais para dizer mais alguma coisa. O médico
charlatão, aparentemente intimidado pela fúria do Irmão de Lahan, manteve-se à distância. Tianyu parecia
julgar o homem simplesmente normal demais para ser interessante.
— Então o que você quer dizer é que essas batatas não são comida, são sementes? — disse Maomao.
— Sim, são! Eu tenho que mostrar às pessoas como criá-los. Ele e o meu irmão mais velho não
podem passar a vida inteira presos a um só lugar! Como é que uma área é tão diferente da outra, afinal?!
Em suma, essa pessoa normal havia demonstrado um interesse normal pelo mundo exterior e havia
sido enganada por isso. O fato de ter caçado aquela caixa de batatas-semente, porém, demonstrava que ele
era de fato um fazendeiro dedicado. Maomao suspeitava que ele produziria uma colheita excelente, mesmo
reclamando o tempo todo. Ensinando-os a cultivar novas plantações, hein? Isso presumivelmente significava
que o irmão de Lahan passaria seu tempo nas aldeias agrícolas.
— Quando vocês forem às aldeias, levem-me com vocês — disse Maomao .
— Por que eu faria isso?
— Tem algo que eu quero investigar.
Era um presente dos céus. Ela presumira que teria que pedir a Rikuson ou a alguém — até o irmão de
Lahan aparecer. Vi a roupa de Rikuson. As roupas manchadas de lama sugeriam que ele estivera
inspecionando uma fazenda em algum lugar. Mas o que um homem enviado da capital estava fazendo
relegado à periferia de seu novo lar? Talvez estivesse verificando as colheitas para garantir que ninguém
estivesse sonegando impostos. Ou talvez... Talvez ele saiba sobre a praga de insetos. Uma praga de insetos
havia atingido a oeste da capital real, o que significava que havia uma boa chance de os gafanhotos terem
vindo de mais a oeste do que isso. Seria sempre mais fácil lidar com um enxame de gafanhotos quando não
houvesse tantos. Não me interesso muito por insetos, mas acho que não consigo me safar dessa. Por um
segundo, Maomao se viu pensando em outra jovem, uma que gostava muito mais de insetos do que ela.
— Claro, confio em seus serviços hoje, Mestre Médico. Como sempre. — Jinshi sorriu ao recebê-los.
Estavam no quarto de hóspedes mais suntuoso do anexo. Havia um rico, grosso e delicadamente
bordado tapete de lã de ovelha, e as cortinas pareciam ser de seda; cintilavam e reluziam cada vez que o
vento as agitava. Maomao não conseguia deixar de se perguntar sobre o valor de mercado das acomodações
de Jinshi. "Parece bom", pensou ela, avistando um prato de frutas na mesa. Havia uvas deliciosas, tão
recentemente resfriadas que ainda transpiravam. Prometiam um suco doce enchendo a boca ao estourar entre
os dentes. Será que ele precisa que elas sejam examinadas para ver se há veneno? Infelizmente, Maomao não
estava lá naquele momento para provar a comida de Jinshi. Essa tarefa coube à dama de companhia de Jinshi,
Taomei. A barulhenta Chue estava desaparecida naquele dia, e Maomao também não viu Baryou, embora
tivesse suas suspeitas sobre o que havia do outro lado das cortinas que farfalhavam suavemente. Suiren e
Gaoshun estavam junto à parede. O médico charlatão permaneceu intimidado na presença de Jinshi.
— Eep! V-Vamos começar então …
Como sempre, ele mal conseguia pronunciar as palavras e, como sempre, sua prova foi, na melhor
das hipóteses, pro forma. Tianyu também estava ausente daquela cena. Ele se mostrara muito propenso a
ofender alguém importante para ser convidado para uma visita como aquela. Tianyu era perspicaz o
suficiente para olhar de soslaio para Maomao e o charlatão que faria a prova, mas se tinha alguma dúvida,
guardou-a para si por enquanto. Seria porque ele sabia como entender uma indireta ou alguém do lado de
Jinshi o ajudara a entender? Maomao preferia não pensar nisso. Eu também não me importo de qualquer
maneira. Ela tinha coisas para fazer. Por enquanto, deixaria de lado a questão de por que Jinshi havia sido
confinado na vila. O estrategista esquisito não estava no mesmo prédio; era isso que realmente importava.
— Tudo bem, mocinha, já estou voltando — disse o charlatão.
— Sim, senhor — respondeu Maomao.
O charlatão foi embora sem hesitar. Seu guarda-costas, Lihaku, foi com ele. Jinshi diminuiu um
pouco o brilho.
— Chá, se você quiser — ele disse.
— Claro, senhor — respondeu Taomei, e foi prepará-lo.
- Aqui você vai.
Suiren, pensativa, trouxe uma cadeira, então Maomao sentou-se. Ela não foi rude o suficiente para
pegar uvas naquele momento, mas tentou enviar uma mensagem telepática a Suiren dizendo que gostaria de
algumas como lembrança.
— Como você está se adaptando ao seu novo local de trabalho? — perguntou Jinshi.
— Fácil, senhor. O pessoal não mudou, então é só uma questão de se acostumar com o novo
ambiente.
Essa era a resposta honesta. O que ela realmente queria agora era descobrir que tipos de remédios
estavam disponíveis na capital ocidental. Quando fizeram um balanço do que havia sido usado durante a
viagem de navio, descobriram que eram principalmente remédios para náusea e antitérmicos. A rota ao sul
que haviam tomado estava tão quente quanto o auge do verão e, combinada com a má circulação de ar no
navio, eles tiveram muitos casos de tontura. Insolação era melhor curada com água, não com remédios, mas
Maomao suspeitava que, enquanto ela estava fora, o charlatão havia diagnosticado muitos dos casos como
resfriados e distribuído antitérmicos. Isso explicaria. Curiosamente, tinha dado certo: o remédio que o
charlatão havia prescrito tinha um gosto tão ruim que os pacientes tinham que tomá-lo com bastante água de
qualquer maneira, então, no final, curou a insolação. Ele certamente tinha sorte do lado dele, ela se
maravilhou. Melhor ainda, ela ouvira dizer que eles receberiam novos suprimentos comprados na capital
ocidental para compensar a escassez em seu estoque. Gostaria de ter ido às compras junto. Ela estava tão
curiosa para saber exatamente que tipo de droga era vendida ali. Maomao, no entanto, tinha outras coisas
para resolver. Ela olhou ao redor e então olhou de relance para Jinshi. Não sabia como abordar o assunto,
então decidiu mudar completamente de assunto.
— Imagino que tenhamos um produtor de batatas entre nós, graças aos contatos de Lahan.
Era de Lahan que estavam falando; se conseguissem cultivar batatas na província de I-sei, ela tinha
certeza de que ele pretendia exportá-las direto para Shaoh ou algo assim. Ficava bem ao lado de I-sei, o que
minimizaria os custos de envio. Jinshi a encarou.
— Um plantador de batatas? Ele é seu primo, foi o que ouvi.
— Não há parentesco — disse ela com firmeza, para que não houvesse engano.
— Mas ouvi dizer que ele era o irmão mais velho de Lahan.
— Sim, mas Lahan e eu somos completos estranhos.
Jinshi lançou-lhe um olhar mais severo, mas ele concordou.
— De qualquer forma, sim, temos um produtor de batatas aqui. Quando soube que ele era do clã La,
esperava alguém... sei lá. Mais distinto.
— O senhor já o conheceu?
— Só o vi de passagem. Vi-o quando Lahan o estava a ajudar a embarcar.
Em outras palavras, ele os viu bem no meio da farsa.
— Ele é uma pessoa muito normal, senhor.
— Sim. Muito normal.
Parecia que Jinshi compartilhava da avaliação de Maomao , mas, de qualquer forma, se ele já
soubesse sobre ele, isso tornaria tudo mais fácil.
— Gostaria de acompanhá-lo até as aldeias agrícolas. Você acha que poderia me dar permissão?
— As aldeias agrícolas? Seria bom se você pudesse ir, mas como você lidaria com suas obrigações
médicas?
Jinshi deu um tapinha no flanco dele, incisivo. Você fez isso consigo mesmo, pensou Maomao. Ele já
sabia trocar os curativos, então ela não precisava ficar examinando o tempo todo.
— Um jovem chamado Tianyu foi designado para o nosso grupo. Acho que ele pode cuidar das
coisas, senhor — disse ela, ignorando o ferimento de Jinshi por um momento.
Ela pode se opor a Tianyu como pessoa, mas seu trabalho real parecia confiável.
— Hmm... Muito bem — Jinshi parecia ter que engolir alguma objeção, mas concordou mesmo
assim.
— Eu já estava planejando mandar alguém dar uma olhada nas fazendas. Já existem problemas
suficientes com as aldeias por causa da praga iminente. Isso pode ser perfeito.
— Que tipo de problemas?
Maomao inclinou a cabeça. Jinshi tinha tantos problemas diferentes para lidar que ela nem sabia a
qual deles ele se referia. Jinshi olhou para Gaoshun, e o outro homem desenrolou um mapa da Província de
I-sei sobre a mesa. Ele tinha vários círculos em tinta.
— O que é isso? — perguntou Maomao.
— As localizações das aldeias agrícolas.
— Não há tantos quanto eu esperava, considerando o tamanho da província de I-sei.
— Há um bom número de terrenos agrícolas individuais, mas surge um problema quando eles
atingem um certo tamanho. Fora da capital ocidental, a população aqui nunca foi muito grande e, com todo o
comércio que existe, muitas pessoas simplesmente importam seus alimentos.
Naquela terra, solo seco era a norma e as fontes de água eram limitadas. Maomao talvez só
conseguisse ir até a aldeia mais próxima. Seria o mesmo lugar para onde Rikuson foi? Ele parecia muito
ocupado — ela duvidava que estivesse visitando as fazendas só para passar o tempo. Ele devia ter ido para o
lugar mais próximo.
— E estas — disse Jinshi, pegando um pincel que Gaoshun lhe ofereceu e desenhando um círculo
maior no mapa — são terras de pastagem.
— Pastagens, senhor ?
Em outras palavras, um lugar onde o gado pudesse se alimentar. Provavelmente não vacas aqui na
capital ocidental – cabras e ovelhas, mais provavelmente.
— Algumas delas são usadas por fazendeiros, mas algumas são áreas por onde passam tribos
nômades. Grupos que não têm assentamentos permanentes.
- Eu vejo.
Jinshi não parecia estar explicando pelo bem de Maomao, mas sim tentando organizar seus próprios
pensamentos.
— Você se lembra das ordens que dei para tentar combater os gafanhotos? — ele perguntou.
— Sim. Você proibiu a matança de pássaros nocivos, promoveu o consumo de insetos e disse que as
aldeias agrícolas deveriam aprender a fazer inseticidas.
Maomao também participou do projeto do inseticida. Ela desenvolveu diversas fórmulas que
utilizavam principalmente ingredientes locais.
— Certo. Essas ordens foram enviadas para toda Li, incluindo a Província de I-sei, é claro. No
entanto ...
Ele parou de falar. Maomao achou que podia perceber o erro de cálculo que Jinshi havia cometido.
— Mesmo que os agricultores usem inseticidas, eles só os usam em seus campos — disse ela.
- Exatamente.
E a província de I-sei tinha alguns campos pequenos e muitas planícies enormes. Os fazendeiros não
matariam os insetos nas áreas gramadas. Sem mencionar que havia uma grande chance de os nômades nunca
terem recebido as ordens. Mesmo que tivessem... Eles não iriam querer espalhar produtos químicos agrícolas
em algo que seus rebanhos iriam comer, e também não iriam por aí matando gafanhotos um por um. Jinshi e
Maomao ficaram em silêncio. Os gafanhotos que tivessem escapado do extermínio produziriam uma nova
geração muitas vezes maior que a deles. Maomao, porém, estava perplexo.
— Com licença, senhor, mas já não houve uma pequena praga de insetos no oeste de Li no ano
passado? Isso incluiu a capital ocidental?
— Não houve nenhum relato de qualquer praga vindo da província de I-sei — disse Jinshi,
parecendo igualmente perplexo.
— É verdade que esta área sobrevive principalmente do comércio e não faz muitas plantações
próprias, então qualquer dano agrícola seria modesto ...
— Mas deveria ter havido alguma.
Ela se lembrou do outono anterior. Jinshi lhe enviara uma caixa de gafanhotos — quase considerado
assédio — e ela havia medido centenas deles. Na época, Lahan especulou que eles poderiam ter vindo de
Hokuaren, guiados pelos ventos sazonais. E qual área era mais próxima de Hokuaren? Província de I-sei.
Será que os gafanhotos não os encontraram por pura sorte? Ou... essas pessoas estão escondendo algo?
Maomao examinou o rosto de Jinshi. Ele não parecia muito preocupado, mas calmo, como se estivesse
simplesmente confirmando algo que já sabia. Informações que ele já tinha. Ela tentou olhar para os outros na
sala em busca de uma pista, mas Suiren, Taomei e Gaoshun não revelaram nada. A província de I-sei está
tentando esconder uma colheita ruim?, ela se perguntou. Então, gemeu para si mesma. Talvez seja o irmão da
Imperatriz Gyokuyou. Gyoku-ou, o homem que agora estava no comando da capital ocidental em nome de
seu pai. Ele parecia ter algum tipo de história com a Imperatriz Gyokuyou, mas Maomao a ignorara por
completo, considerando-a algo que não envolvia uma simples apotecária. Teria tudo isso a ver com o motivo
de Rikuson estar na aldeia, se sujando? Maomao começou a se sentir impaciente e inquieta. Pensar na
pergunta só a deixava confusa, mas odiava a sensação de deixá-la sem resposta. Melhor agir rápido, então.
— Sei que é um pouco repentino, mas talvez o senhor me permita partir para as aldeias agrícolas
amanhã?
— Por mais que eu quisesse que você começasse o mais rápido possível, isso pode ser um pouco
cedo demais — disse Jinshi.
— Hmm … — Gaoshun interveio naquele momento.
— Príncipe da Lua — ele disse.
— O que foi, Gaoshun?
— Se Xiaomao for embora, é melhor esperar alguns dias primeiro.
— Por quê? Para que tudo fique pronto?
— Não, senhor. Porque Basen deve chegar daqui a alguns dias.
Maomao sentiu como se não ouvisse esse nome há muito tempo. Basen, ela se lembrava, estava
viajando por terra para chegar à capital ocidental.
— Acho que ele seria um guarda-costas ideal para Xiaomao — disse Gaoshun.
— Tudo bem. Vamos usar esse tempo para nos preparar — respondeu Jinshi, e com isso, estava
decidido.
Maomao soltou um suspiro de alívio e estava prestes a voltar para o consultório médico onde o
charlatão e Tianyu esperavam, mas Jinshi falou novamente.
- Um momento.
— Sim, senhor?
— Meu estômago está me incomodando. Talvez você pudesse examiná-lo. — Ele sorriu para ela. Eu
devia ter percebido.
— Estarei esperando na sala ao lado — disse ele. Então ele saiu e, talvez avisados com antecedência,
Suiren e os outros ficaram para trás.
- Muito bem .
Maomao disse depois de um momento. Ela pegou bandagens novas. No íntimo, porém, ela desejava
que Basen se apressasse e chegasse ali.
Capítulo 4: A primavera chega a Basen (parte 1)
— Quack, quack! — disse uma voz.
Basen olhou para o pato branco, de bico amarelo, olhos úmidos e penas fofas, à sua frente.
— Acho que isso é um adeus, meu amor.
Basen recebera várias ordens secretas do Príncipe da Lua nos últimos meses. Uma delas dizia
respeito a um tipo de pato branco doméstico. Era um animal clássico: fácil de criar e botava ovos com
frequência. Aliás, criar patos era a missão em questão. A princípio, Basen pensara que o Príncipe da Lua
estivesse zombando dele. Apesar de todas as suas falhas, ele vinha de um clã historicamente encarregado de
proteger a família Imperial — e agora ele deveria cuidar de algumas aves aquáticas? Começou a se perguntar
se o Príncipe da Lua o havia abandonado. Mas não era o caso.
— A criação de gado salvará este país de muita infelicidade, e estou confiante de que você cumprirá
esse dever diligentemente — disseram a Basen.
Se o Príncipe da Lua estivesse disposto a lhe dar tal voto de confiança, dificilmente poderia recusar.
Isso acontecera quase no final do ano anterior. Assim que soube qual seria sua missão, soube que a primeira
coisa a fazer era buscar o conselho de alguém que entendesse mais de criação de patos do que ele. Assim, no
início do ano, ele se viu passando muito tempo visitando um lugar específico...
A noroeste da capital, havia um lugar chamado Vilarejo da Ameixa Vermelha. Era um refúgio para
aqueles que haviam deixado seus lares e famílias na esperança de se tornarem viajantes. Viajantes:
geralmente, essa palavra evocava imagens de monges submetidos a um treinamento rigoroso, mas ali as
coisas eram um pouco diferentes. Muitos ali pareciam acreditar sinceramente que sua prática poderia
torná-los verdadeiros imortais. Criar animais era uma faceta de sua prática. Quando Basen ouviu falar dela
pela primeira vez, duvidou de seus ouvidos.
— Eu pensei que monges e freiras fossem todos vegetarianos — ele disse.
— Imortais têm vida longa, até a eternidade. Uma pessoa não pode viver só de vegetais — foi a
resposta rápida e indiferente.
O lugar era administrado por um velho, como Basen ouvira, e se você ignorasse o fato de que suas
roupas estavam sujas e cobertas de penas, você poderia ver que, na verdade, ele tinha pele saudável e uma
postura muito ereta. Sua vida poderia ou não ser infinita, mas ele claramente tinha experiência em como ter
uma vida longa. O velho Basen poderia ter discutido o assunto, mas gostava de pensar que havia aprendido
uma coisa ou duas nos últimos anos. Decidiu considerar o velho na mesma categoria daquele apotecário
excêntrico e deixou por isso mesmo. Acontece que ele tinha a ideia certa. Treinar viajantes era um pretexto
para a Vila da Ameixa Vermelha; na realidade, era um grupo de pesquisadores. Grande parte de suas práticas
contrariava os preceitos normalmente observados por monges e freiras, mas a pesquisa era tão valiosa que
todos acima deles pareciam fazer vista grossa.
— Patos podem botar até 150 ovos por ano. São onívoros, então comem de tudo, e podem começar a
botar ovos já seis meses após a eclosão. Eles não são tão diferentes das galinhas, mas se você pretende
alimentá-los com gafanhotos, acho que seria melhor optar por patos – eles são fisicamente maiores. Se você
os alimentar com um único tipo de alimento desde a infância, eles passarão a comer exclusivamente esse
alimento, mas isso traz o risco de afetar negativamente o crescimento deles, então eu não recomendo. O
único problema possível com patos é que eles não chocam seus ovos tão facilmente quanto as galinhas, então
...
Basen se perguntava por que as pessoas que pesquisavam uma área específica eram sempre tão
tagarelas. Até mesmo aquela apotecária, Maomao, conseguia ser bastante tagarela quando se interessava pelo
assunto, e a burocrata Lahan era igual. A Vila da Ameixa Vermelha se estendia por uma área considerável,
grande parte da qual era dedicada a campos agrícolas. Nenhum dos " viajantes " usava trajes religiosos; todos
estavam vestidos para trabalhar ao ar livre. Sua respiração embaçava enquanto trabalhavam nos campos :
— E como você pode ver, estou terrivelmente ocupado com minha pesquisa, então receio não poder
atender ao seu pedido — disse o velho, finalmente chegando ao fim de seu discurso.
— Desculpe. Não entendi direito — disse Basen.
— Estou dizendo que não posso te ensinar, mas minha discípula, a quem atualmente confio o
trabalho, pode. Você a encontrará naquele galpão. Adeus .
— E-Ei, espere!
O velho saiu correndo com uma rapidez que desmentia sua idade. Sem escolha, Basen foi em direção
ao galpão, que soltava vapor periodicamente.
— Como? — disse ele.
— Gostaria de aprender sobre criação de patos …
A porta parecia estar quase intacta e, quando ele a abriu, um ar fétido atingiu seu rosto.
— S-Sim, claro. Laoshi me contou — disse uma voz nervosa.
Basen conseguia ver uma pequena figura na névoa.
— E-É você! — exclamou Basen.
A pequena figura era uma mulher jovem, vestida com simplicidade. O tecido de sua roupa não era
nem tingido, muito menos bordado, e seu cabelo, preso com um simples pedaço de barbante, não tinha
grampos ou enfeites. No entanto, mesmo sem um pingo de ruge ou pó clareador, ela parecia muito mais cheia
de vida do que da última vez que ele a vira.
– Consorte Lishu?
— Eu... Eu não sou mais uma consorte, M-Mestre Basen.
Diante dele estava uma princesa efêmera. Membro do clã U, que havia entrado duas vezes no Palácio
Interno como consorte de um imperador.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Basen.
Ele imediatamente desejou poder ter dito algo mais ponderado. Sua irmã Maamei teria lhe dito
algumas palavras se soubesse. Lishu já fora uma consorte superior, mas fora banida do Palácio Interno. É
verdade que fora manipulada pela mulher que as pessoas chamavam de Dama Branca, mas isso não mudava
o fato de que ela causara uma grande comoção na corte. Lishu fora obrigada a se aposentar do mundo.
Ninguém havia contado a Basen nada além de para onde ela fora ou o que estava fazendo; o Imperador disse
apenas que, se quisesse vê-la, deveria se concentrar em realizar grandes feitos. Sem saber o que fazer, Basen
fizera recentemente doações em dinheiro e em gentilezas para vários templos na esperança de se sentir um
pouco melhor — eles nem sequer lhe disseram em qual templo ela poderia estar escondida. Ele estava tão
estupefato com aquele reencontro inesperado que mal conseguia pensar.
— B-Bem, como você sabe, fui banida do Palácio Interno. Não pude voltar para minha família, nem
para meu último templo. Sua Majestade interveio em meu favor para que eu pudesse vir para a Vila da
Ameixa Vermelha — disse ela.
— Sim, mas... De todos os lugares …
A roupa de Lishu estava imunda em alguns pontos, manchada não apenas de lama, mas também de
esterco animal. Pior de tudo, não havia ninguém naquele galpão além de Basen e Lishu, e Basen se
perguntava se era apropriado ficar sozinho com uma jovem.
— Você não tem acompanhantes? O que aconteceu com aquela dama de companhia que costumava
atendê-lo?
Basen perguntou, abalado ao ver a situação precária de Lishu — quase tão abalado quanto estava por
ter Lishu ali na frente dele.
— Você quer dizer Kanan? Eu a liberei do meu serviço. Ela tem todo o futuro pela frente; não
deveria desperdiçá-lo aqui comigo. Pedi a Sua Majestade que arranjasse um bom partido para ela.
Lishu sorriu e olhou para baixo, seus longos cílios tremulando. Basen cerrou o punho.
— Então você... Você está aqui sozinho?
— Não precisa se preocupar. Tenho uma senhora para cuidar de mim.
— Só uma?
— Sim. Afinal, não preciso mais de roupas pesadas nem de enfeites de cabelo elaborados.
Para Basen, as palavras de Lishu carregavam um ar de autorecriminação — e, no entanto, sua
expressão era tão clara quanto um céu sem nuvens. Basen nunca fora muito bom em adivinhar o que uma
mulher poderia estar pensando, e naquele momento não tinha ideia do que dizer ou fazer. Lishu estava tão
reservada e charmosa como sempre, e parecia estar trabalhando duro, apesar das circunstâncias muito abaixo
de sua posição. Seus dedos finos estavam cobertos de lama.
— Este não é lugar para alguém como você, Senhora Lishu. Vou falar com eles, convencê-los a lhe
dar um trabalho melhor! — disse Basen.
Foi a coisa mais útil que ele conseguiu pensar. Lishu, no entanto, balançou a cabeça.
— N-Não, obrigada. Sou grata pela ideia, m-mas essas circunstâncias ...
— Sim? E eles?
A pergunta de Basen foi praticamente interrompida por um grasnido. Ele se virou e se viu diante de
várias dezenas de patos.
— Nossa?!
Os pássaros cercaram Basen, observando-o com as cabeças erguidas, perplexos. Ele não conseguia se
livrar da sensação de que estavam observando-o. Então, os patos se aproximaram de Lishu, aconchegando-se
nela. Ela afagou suas asas.
— A-No começo, eu tinha certeza de que não conseguiria criar patos — ela disse a ele.
— Mas eu cuidei desses amores desde que nasceram, e eles me consideram a mãe deles. Laoshi me
disse que é assim que os patos são... Quando ouviu as palavras patos, nascidos e Laoshi, finalmente percebeu
que Lishu era o discípulo de quem o velho estava falando!
— Senhora Lishu... Você quer dizer, você...?
— Sim. Me pediram para te ensinar sobre chocar patos.
Sua gagueira havia desaparecido; talvez ela se sentisse mais confortável cercada pelos animais.
— Ahem... Mestre Basen? — ela disse.
— S-Sim? O que foi? — perguntou ele, endireitando-se inconscientemente, como se estivesse se
dirigindo a um de seus superiores.
Lishu olhou para ele e então pegou um pedaço da saia.
— Eu sei que é um pouco tarde para perguntar isso, mas como estão seus ferimentos? — Basen tinha
esquecido completamente que a última vez que Lishu o vira, ele era uma grande pilha de cortes, hematomas
e ossos quebrados.
— Ah, eu estou acostumado a me machucar um pouco. Você não precisa se preocupar comigo —
disse ele.
Em particular, ele estava radiante por ela se preocupar com ele (mesmo que essa preocupação fosse
natural), mas também estava um pouco envergonhado. Percebeu que Lishu nunca o vira exatamente em sua
melhor forma.
— Mas você sofreu tudo isso por mim... E eu nem cheguei a lhe agradecer ...
— Senhora Lishu …
Basen sentiu-se estranho, mas ao mesmo tempo relaxado e ansioso por estar com aquela jovem.
Balançou a cabeça: não, isso não ia dar certo! Ele tinha negócios a tratar.
— Bem, Senhora Lishu. Se você pudesse ter a gentileza de me instruir.
— S-Sim, claro — ela disse, mas parecia quase decepcionada.
Havia uma história contada que, muito tempo atrás, quando houve uma praga de gafanhotos, os patos
a combateram comendo todos os insetos. Era uma lenda, é claro, não um modelo sério de política, mas, ao
mesmo tempo, as lendas frequentemente contêm uma semente de verdade. Os patos comiam insetos. Como
onívoros, frequentemente comiam restos de comida dos humanos, mas durante pragas de gafanhotos,
também podiam comê-los. Alguns até preferiam comer insetos e os procuravam. Além disso, ter mais gado
só beneficiaria os fazendeiros. Portanto, havia sido decidido que os patos seriam distribuídos para as aldeias
agrícolas — mas aí residia um problema. Como eles conseguiriam esses patos que iriam distribuir? Patos
eram seres vivos; não se pode simplesmente estalar os dedos e fazer mais deles.
— Aqui, assim. Os ovos devem ser mantidos sempre um pouco mais quentes que a temperatura do
corpo humano. Você também não pode simplesmente deixá-los ali; é preciso virá-los de vez em quando.
Lishu virou delicadamente um dos ovos para demonstrar. Ele estava sobre uma camada de palha, sob
a qual havia terra macia como cobertura morta.
v Os ovos não chocam se ficarem muito quentes ou muito frios, então Laoshi me disse que eu
deveria aprender a temperatura apenas pelo toque.
— Só pelo toque?
— S-Sim. Eles também precisam de um pouco de umidade.
— Umidade?
Estava úmido como o verão no galpão, embora lá fora estivesse frio o suficiente para embaçar a
respiração. O galpão estava tão cheio de vapor que era quase difícil enxergar.
— Há uma fonte termal aqui perto, então n-nós obtemos nossa água quente lá
Lishu enrolou a esteira de junco no chão do galpão e revelou um canal com água, sem dúvida muito
quente, fluindo por ele.
— Se ficar muito frio, acendemos o forno. Temos que monitorar os ovos constantemente, então três
de nós trabalhamos em turnos.
Certamente parecia demais para uma pessoa lidar sozinha. Mesmo com outras duas pessoas para
ajudar, Basen temia que fosse demais para Lishu, que passara grande parte de sua vida como uma princesa
protegida.
— Tem certeza de que está tudo bem aqui, Lady Lishu? — ele perguntou.
— A-Tudo bem, como?
— Bem, uma jovem da sua posição não deveria estar aqui. Você poderia estar em algum lugar com
damas de companhia te acompanhando. Você pode ser uma viajante, mas isso não muda o fato de que você é
uma princesa do clã U.
Basen ouvira dizer que o Imperador adorava Lishu como se fosse sua própria filha. E, de qualquer
forma, tendo sido apanhada nos planos da Dama Branca, ela própria era uma vítima. Na opinião dele, ela
merecia mais do que isso.
— Mestre Basen...você está preocupado comigo?
— P-Preocupada?! Não! É simplesmente seu direito, milady …
— O-Ah. N-Não, claro. Eu não devia ter imaginado que você se preocuparia com gente como eu ...
— Não foi isso que eu quis dizer!
Basen xingou a própria boca, que parecia incapaz de articular duas palavras coerentes. Se o Príncipe
da Lua estivesse ali, saberia o que dizer. Basen, no entanto, só conseguia olhar para a parede do galpão e se
sentir miserável.
— Mestre Basen, o senhor está bem? — Lishu olhou para ele com preocupação.
Não, não, Basen era quem estava preocupado.
— Senhora Lishu ... — ele começou — Você já sofreu o suficiente. Pode seguir em frente e viver a
vida que quiser agora.
Nem Basen tinha certeza do que estava dizendo. A vida que ela queria? O que era isso? A vida de
Basen era um dever para com a família imperial, proteger o Príncipe da Lua. O que ele queria não importava.
E ele teve a ousadia de dar um sermão em Lishu sobre escolher a própria vida? As palavras soaram vazias
em seus ouvidos.
— Mestre Basen …
Lishu parecia mal conseguir falar. Claro que não. Ela devia estar muito escandalizada.
Profundamente ofendida pelo " conselho " que Basen lhe dera de forma tão leviana. Ele resolveu aprender o
que viera ali o mais rápido possível e depois voltar para casa.
— Eu... eu ainda não sei o que quero. O que eu quero nunca importou. Nunca me permitiram
escolher a minha própria vida.
— Então comece agora.
— Eu vou. E o que eu quero é... continuar fazendo isso por mais um tempo.
Ela se agachou e virou outro ovo. Suas roupas estavam imundas, o cabelo liso e ela não usava
maquiagem nenhuma. No entanto, em seu rosto havia algo que Basen nunca vira antes: um pequeno sorriso.
Capítulo 5: A primavera chega a Basen (parte 2)
Ele imaginara a jovem como uma florzinha, fina e delicada. Temera que ela se quebrasse se a
tocasse. Agora, enquanto Basen cavalgava, olhava para a beira da estrada, onde uma pequena flor azul
desabrochava. Sempre pensara nas flores como coisas a serem apreciadas e amadas, mas agora via que elas
cresciam sozinhas, com ou sem alguém para mimá-las. Virou-se para a aldeia agrícola, com a respiração
branca no ar. Uma carroça carregada de patos em gaiolas passava ruidosamente ao seu lado. Quando os ovos
chocaram, ele criou os patinhos até que estivessem grandes o suficiente e agora os levaria para as aldeias.
Quantas vezes já fizera isso?
— Distribuir patos é coisa do seu feitio, senhor — disse um soldado.
Não era a primeira vez que um de seus subordinados se opunha a essas viagens. Eles poderiam até
achar que era um desperdício — como o Príncipe da Lua o avisara. Basen sabia muito bem como eles se
sentiam.
— Me deram uma tarefa e vou cumpri-la. Se você não gosta desta tarefa, talvez eu possa encontrar
outra para você.
— N-Não, senhor — disse o soldado, e nem ele nem os outros falaram mais nada — embora
continuassem a trocar olhares pesarosos.
Até Basen, por mais alheio que fosse, conseguia imaginar o que diziam dele pelas costas. Era o
segundo filho mimado do clã Ma. O arrogante de uma família secundária. Filho de um eunuco. E mais ainda.
Sim, seu pai, Gaoshun, vinha de uma família secundária do clã — e, para servir ao Príncipe da Lua,
abandonara o nome Ma e passara quase sete anos fingindo ser eunuco. Basen odiava a ideia de seu pai ser
menosprezado, mas de que lhe adiantaria aplicar punição ali? O clã Ma era confidente da família Imperial, e
ele só seria acusado de abuso de posição. Basen já cometera o erro de se emocionar mais de uma vez. Em
certa ocasião, um soldado mais velho de sua divisão reclamou que não estava sendo tratado tão bem quanto
Basen e alegou que o mais jovem estava sendo tratado com favoritismo. Basen perdera a paciência e lutara
contra o homem em uma " partida de treino " que não passava de um duelo. Seu oponente acabara com três
costelas e um braço direito quebrados. Felizmente, nenhuma das costelas havia perfurado um pulmão, e o
braço havia se quebrado perfeitamente e se curaria. Mesmo assim, o homem havia deixado o exército. Talvez
estivesse humilhado por ter sido espancado pelo Basen mais jovem e menos experiente — ou talvez
simplesmente nunca tivesse se envolvido em um treinamento feroz o suficiente para quebrar ossos. O
Príncipe da Lua nunca era menos do que comprometido, mesmo durante o treinamento. Ele conseguia
desviar os golpes de espada de Basen com sua lâmina. E Gaoshun, ele revidava impiedosamente sempre que
via uma brecha na guarda de Basen. Quando Basen era mais jovem, até sua irmã mais velha era melhor em
esgrima do que ele. Ele era fisicamente forte, mas nunca se considerou um grande espadachim. Ele fora bom
o suficiente, porém, para derrubar aquele soldado, que se orgulhava muito de sua própria força. Ele já sabia,
naquele momento, que precisava ter cuidado com a quantidade de sua força que usava ao lidar com mulheres
— mas naquele dia aprendeu que o mesmo se aplicava quando enfrentava homens. Ele descobriu que seus
oponentes eram bastante frágeis. Nunca se esqueceu da lição: não importa o que lhe digam ou digam sobre
ele, nunca deveria reagir com muita pressa.
— Não posso sair por aí espancando as pessoas ... e eu as espancaria num piscar de olhos —
murmurou para si mesmo enquanto tirava um pato da carroça e o entregava a um fazendeiro, junto com um
severo aviso para não matar o animal.
— Estamos dando a vocês esses patos em pares. Compraremos os ovos por um preço alto e
recomendamos que vocês criem mais patos também, mas matá-los imediatamente para comer seria um erro.
Estão me ouvindo?
Alguns desses fazendeiros já criavam patos, ou criavam no passado, então, felizmente, Basen não
precisou ensinar a todos como criar os animais do zero. Ele garantiu que soubessem que os patos comeriam
insetos e que essa deveria ser sua dieta principal, mas também que, se não houvesse muitos deles, os patos
poderiam comer sobras, restos de vegetais ou até mesmo grama. Ele podia dar às pessoas todos os avisos e
conselhos que quisesse, mas não tinha como saber se elas ouviriam. Elas poderiam ter pensado que ele
próprio era um charlatão. Assim que ele fez a ronda pelas aldeias e pensou que tinha terminado de distribuir
os animais, ouviu um grasnar barulhento vindo da carroça. Ele descobriu que um filhote ainda estava com
ele.
— Skwak!
— Você de novo, Jofu?
Basen lançou ao filhote um olhar de aborrecimento. Este pássaro em particular tinha uma mancha
preta no bico e parecia pensar que Basen era sua mãe, um erro profundo, se é que existe algum.
Evidentemente, este pato havia chocado no dia de seu reencontro com Lishu, e Basen foi a primeira coisa
que ela viu. Ela o seguia aonde quer que ele fosse sempre que aparecia na Vila da Ameixa Vermelha, então
ele passou a chamá-la de Jofu, como se esse fosse o nome dela — embora, na verdade, significasse apenas "
pato " . Então, ele disse ao pato :
— Você sabe o que tem que acontecer, né, Jofu? Você vai para uma vila rural, onde vai poder dar um
golpe esmagador naqueles gafanhotos horríveis! Você não pode me seguir para sempre. Agora é sua chance
de desenvolver o corpo que um bom soldado precisa. Coma grãos, coma grama, coma insetos e cresça
bastante!
— Pipi! — disse Jofu e abriu suas asas.
Ela quase parecia estar ouvindo-o, mas um pato é, bem, um pato. Eventualmente, ela esqueceria que
conhecera Basen. Ou assim ele presumira. Enquanto continuava a levar seus filhotes para as aldeias agrícolas
e depois a criar outro grupo de filhotes, Jofu estava sempre com ele, nunca ficando para trás nas aldeias.
Basen e Jofu saíam juntos e, inevitavelmente, voltavam juntos. Mais de uma vez Basen tentou deixar seu
filhote em uma das aldeias agrícolas, mas todas as vezes Jofu mordia os fazendeiros e subia na cabeça do
cavalo de Basen, onde ela batia as asas para ser levada para casa. Jofu também levou um golpe nas mãos de
vários soldados que tentaram maltratá-la. A situação ficou tão ruim que alguns soldados começaram a se
referir à pata com o mesmo respeito que qualquer oficial superior. As penas de Jofu passaram de amarelas
para brancas, mas a mancha preta em seu bico permaneceu, assim como sua tendência a atacar estranhos
como um cão selvagem enquanto seguia Basen como um cão leal. Hoje, Basen também retornou com Jofu
montado em seu ombro. Ele teria que ir até a Vila da Ameixa Vermelha para deixar o pássaro.
- Isso mesmo …
Basen olhou para o oeste, onde o sol se punha, avermelhando o céu. A data da partida do Príncipe da
Lua para a capital ocidental já estava marcada. A próxima visita de Basen à Vila da Ameixa Vermelha
provavelmente seria a última. Ele partiria com mais uma safra de patos e os distribuiria para mais vilas em
sua jornada para o oeste. Dizia-se que a expedição para o oeste provavelmente seria longa desta vez. Alguns
meses, pelo menos, provavelmente a maior parte de um ano.
— Seis meses ou mais — ele murmurou com um suspiro.
Desmontou do cavalo ao passar pelos portões da Vila da Ameixa Vermelha. Estar ali sempre o
deixava nervoso. Seu coração disparava, apesar das cenas idílicas de gado pastando nos campos. Ordenou
aos subordinados que cuidassem da carroça e seguiu em direção ao estábulo dos patos. Parecia andar mais
rápido à medida que se aproximava. Não conseguia parar de procurar Lishu, mesmo sabendo que ela nem
sempre estava lá quando ele chegava. Cada vez que a via, tão pequena e delicada, mas resolutamente de pé
sobre os próprios pés, sentia algo muito estranho, uma onda simultânea de alívio e ansiedade. E hoje? Será
que ela estaria lá hoje?
— M-Mestre Basen?
Seu coração disparou. Lá estava Lishu, em suas roupas comuns, segurando uma cesta. Jofu pulou do
seu ombro e caminhou bamboleante em direção ao galpão. Basen pressionou a mão contra o peito e tentou
ordenar que seu coração palpitante se acalmasse.
— Senhora Lishu. Gostaria de lhe fazer meu relatório, se me permite.
Ele pegou um mapa e circulou as aldeias que havia visitado naquele dia. Com isso, havia explorado
quase todas as aldeias agrícolas da fronteira. Red Plum Village não era o único lugar onde se criavam patos;
havia outros também. O trabalho teria que continuar depois que Basen fosse embora.
— Parece que você os levou para todos os lugares onde poderiam ser necessários. O que fará agora?
— perguntou Lishu, lançando um olhar para Basen.
— Minha senhora. Pretendo levar o próximo grupo comigo e seguir para o oeste. Imagino que esta
seja minha última visita aqui .
Lishu piscou.
- O que?
— Meu dever oficial é servir como guarda-costas do Príncipe da Lua. Ele está indo para a capital
ocidental, então devo ir com ele .
— Ele vai de novo?
A jornada do Príncipe da Lua para o oeste já havia sido tornada pública naquele momento, mas a
notícia parecia não ter chegado a Lishu, em sua reclusão ali. Ela sabia, porém, da primeira viagem dele à
capital ocidental, que acontecera por volta desta época no ano passado, quando ela ainda era consorte.
— Eu me lembro... Foi lá que eu te conheci — disse Basen, embora lhe doesse imaginar como ele
devia ter parecido para ela na época.
— Me encontrou e me salvou — pela primeira vez, mas não pela última.
Houve um banquete na capital ocidental. Um leão trazido para entretenimento atacou Lishu. Basen
se lembrava dela encolhida debaixo de uma mesa. Rumores a chamavam de mulher vil, desavergonhada e
sem castidade, mas tudo o que ele vira era uma garota assustada e solitária que o mundo nunca tratara bem.
Basen se preocupava com o futuro dela. Sua mãe estava morta, enquanto seu pai a via apenas como um peão
político — e ele havia sido destituído de seu posto na mesma época em que Lishu chegara àquela vila. Ela
ficaria bem? Essa preocupação atormentava Basen desde que Lishu deixara a corte. Conhecê-la ali só
aumentara seus medos. ' ...comigo? ' Ele estava tão absorto em pensamentos que quase não ouviu as palavras
saindo de sua própria boca.
- O que?
— Você consideraria deixar Red Plum Village comigo? — ele repetiu.
Nem ele sabia o que pensava estar dizendo. Seu rosto estava vermelho como uma beterraba, e ele não
conseguia olhar para Lishu. Lishu, por sua vez, olhava atentamente para o chão. E também estava corando.
Devia ser culpa dele ter dito algo tão ultrajante. Seria possível que o tempo voltasse para ele, apenas alguns
minutos? Basen sentiu a respiração ficar ofegante.
— N-Deixa pra lá! Não foi nada!
- Nada?
Lishu lançou-lhe um olhar inquisitivo, e o rubor em suas bochechas começou a diminuir.
— D-De qualquer forma, tenho mais relatórios para fazer! Com licença!
Com isso, Basen foi embora. Ele nem olhou para o rosto de Lishu. Assim que Basen chegou em casa,
trancou-se no quarto e baixou a cabeça.
— O que estou fazendo? — ele gemeu, jogando-se sobre a mesa e alternando entre segurar a cabeça
entre as mãos e puxar os cabelos.
A porta se abriu com um estrondo.
- O que você está fazendo?
- Irmã?!
Era a irmã mais velha de Basen, Maamei. Ela já era casada, mas ainda morava na casa principal dos
Ma. Seu marido, cunhado de Basen, também tinha sangue Ma e, juntamente com o pai de Basen, era
responsável pela segurança de Sua Majestade. Se fosse decidido que Basen não era adequado para a chefia
da família, o cargo provavelmente passaria para seu cunhado. Basen, de fato, estava perfeitamente feliz por
poder concentrar toda a sua atenção na proteção do Príncipe da Lua, mas não podia deixar isso transparecer.
Atualmente, o avô de Basen era o chefe nominal da família, mas, na prática, a maior parte do trabalho de
administrar o clã era assumido pela mãe de Basen, Taomei. Era tudo bastante complicado, mas, em essência,
o sucessor da casa principal havia sido deserdado, e Gaoshun havia sido adotado pela família principal a
partir da casa secundária. Taomei já havia sido prometida em casamento ao sucessor renegado e já estava
bem entrincheirada nos negócios cotidianos do clã, então simplesmente se casou com o pai de Basen. Daí o
motivo de ser seis anos mais velha que Gaoshun. Taomei então ensinou a Maamei os princípios básicos dos
negócios do clã, e a irmã mais velha de Basen presumivelmente assumiria o lugar de Taomei algum dia. O
clã Ma era a guarda-costas da família Imperial, o que significava que eles podiam morrer a qualquer
momento — então o clã adotava uma abordagem pragmática em relação à sucessão. Se Basen morresse,
outra pessoa tomaria seu lugar. Como guarda do Príncipe da Lua, Basen raramente voltava para casa como
tal. A tarefa pouco ortodoxa que recebera recentemente, no entanto, significava que ele via Maamei com
muito mais frequência, o que podia ser um pouco constrangedor.
— O que te traz aqui? — ele perguntou.
— Agora, isso é jeito de falar com uma irmã mais velha gentil que só quer ver como seu irmãozinho
está?
Basen e Maamei pareciam ter ideias muito diferentes sobre o que significava ser gentil.
— Sobre esse assunto, sou só eu ou você meio que... fede?
Maamei apertou o nariz deliberadamente. Isso não era novidade para Basen; ela sempre reclamava
quando ele cheirava a suor, mas ultimamente ele suspeitava que fosse outra coisa.
— Acho que seriam os patos — disse ele.
Passei bastante tempo com as aves e foi difícil não começar a cheirar como elas.
— Patos? Ah, sim, uma daquelas medidas contra gafanhotos, não é? Você acha que vai mesmo
ajudar ?
— Irmã, estamos tateando no escuro. Agradeço se não menosprezar nossos esforços.
— Meu Deus, me desculpe — disse ela, embora não parecesse se sentir muito culpada.
Ela começou a olhar ao redor do quarto de Basen.
— Irmã, se você não precisa de nada, você poderia, por favor, sair?
— Bem! Quando foi que você ganhou uma língua dessas?
Maamei sentou-se na cama, evidentemente relutante em ouvi-lo. A cama era um dos poucos móveis
em seu quarto; ele mantinha os móveis no mínimo, pois também treinava ali.
— Você poderia ter um pouco mais de... coisas aqui — comentou Maamei.
— Não. Isso só atrapalharia.
— Hmm. Sim... Este é o quarto de um solteiro, se é que já vi um.
As palavras de sua irmã eram sempre afiadas como uma espada.
— O que a vida amorosa de um homem tem a ver com seu quarto? — Basen disse com uma
carranca.
— Tudo. Além disso, você certamente tem a idade certa para pensar em uma esposa. Não tem
nenhuma boa perspectiva?
— E-Irmã! Você não pode simplesmente me mandar esse assunto!
Ele pulou da cadeira tão rápido que ela caiu.
— Devo ressaltar que, pelo menos por enquanto, espera-se que você se torne o próximo chefe do clã.
Nosso tio levantou a possibilidade de você se casar, pelo menos por uma questão de formalidade. Não há
como prever quando você pode morrer, então seria bom se deixasse alguns filhos.
— C-C-Crianças! Mas i-isso significaria ...
— Ah, sim. Não se preocupe, ninguém espera muito de você. Você sabe que foi por isso que tivemos
que pressionar Baryou e Chue para assumirem a responsabilidade. Eu gostaria de ver pelo menos mais três
possíveis sucessores, mas... talvez seja pedir demais. Mas não é uma boa ideia para você ficar sentado e
deixar seus parentes fazerem todo o trabalho. Você precisa de uma esposa, mesmo que seja só para enfeitar.
Senão, ninguém vai te levar a sério — essa é a avaliação do tio.
— Eu entendo o que você está dizendo...
O assunto fez a cabeça de Basen doer.
— Você quer que eu me apresse e me case, não é? Igualzinho aos outros.
- De jeito nenhum!
- O que?
Basen olhou para ela, sem entender o que mais ela poderia querer dizer.
— Acho que você é como eu. Você não conseguiria aceitar um parceiro que fosse escolhido para
você, como mamãe, papai e Baryou. O que estou dizendo é que, se você ama alguém, agora é a hora de dizer
isso, antes que seu tio ou alguém decida por você.
— Apaixonada por?!
— Eu sabia! Vou interpretar isso como um sim.
Ela lhe deu um sorriso muito desagradável.
— S-desculpe, S-irmã, mas não sei o que você quer dizer ...
— Não, claro que não. Não precisa dizer; está escrito na sua cara.
Basen inconscientemente levou as mãos às bochechas e descobriu que estavam quentes. Maamei se
esticou na cama.
— Eu não vim aqui hoje só para te provocar.
Basen permaneceu em silêncio. Maamei sorriu ainda mais irônico.
— Como eu disse, nem a mãe, nem o pai, nem o Baryou escolheram seus próprios parceiros. Não há
nada de errado nisso, mas eles são do tipo que consegue lidar com qualquer um com quem acabem. Eu não.
Eu jamais suportaria alguém que meus pais ou familiares escolhessem para mim. Então, nunca lhes dei a
chance — eu decidi por mim mesma!
Basen pensou no marido de Maamei: ele era doze anos mais velho que ela. Basen se lembrou dela
dizendo que se casaria com ele quando tinha apenas oito anos. Todos riram bastante, mas oito anos depois,
sua declaração se tornou realidade. Toda vez que encontrava o cunhado, Basen se sentia um fracasso.
Maamei apontava diretamente para ele.
— Você e eu somos iguais. Jamais poderíamos consentir em casamentos políticos.
— E-eu gostaria de pensar .
— Se você concordasse com tal união, ela permaneceria para sempre uma farsa. Mamãe e papai
aprenderam gradualmente a se amar, e Baryou e Chue encontraram seus lugares no relacionamento, mas
você não seria capaz de fazer nenhuma dessas coisas. Mesmo que você aceitasse a situação, eu lhe digo, sua
esposa jamais seria feliz.
— Eu... eu acho ...
Ele descobriu que não podia contradizê-la diretamente. Tinha certeza de que, independentemente de
quem sua família escolhesse como esposa, ela não seria uma má pessoa. Da mesma forma, estava confiante
de que se importaria com ela. No fundo de sua mente, porém, flutuava a imagem de uma garota como uma
flor à beira da estrada.
— Pronto. Você acabou de pensar em alguém, não é?
— Eu ... eu não! — exclamou ele, ficando vermelho de vergonha. O sorriso de Maamei se alargou.
— Não que isso me importe, mas deixe-me dar um conselho de irmã. Se você tem sentimentos por
alguém, precisa contar a ela. Se ela te rejeitar, que assim seja — pelo menos você saberá qual é a sua
posição. Eu te conheço, e sem isso, você passaria a vida inteira ansiando por ela.
Basen ficou em silêncio: isso também ele não podia negar.
— Você pode não ter nada além de força bruta para te recomendar, pode ser um idiota que sempre sai
atacando , mas ainda é meu irmãozinho. Faça sua escolha, e faça-a com sinceridade.
— Você nunca disse nada parecido ao Baryou …
— Baryou se comprometeu com suas escolhas à sua maneira, sabia?
Basen não entendeu bem o que aquilo significava. Maamei, parecendo se sentir mais leve agora que
tinha dito o que queria dizer, levantou-se da cama.
— Então já vou indo.
A boca de Basen se moveu, mas nenhuma palavra saiu enquanto sua irmã se preparava para sair da
sala. Então ela se virou.
— Ah. Mais uma coisa da qual eu gostaria de ter certeza.
— Sim? O quê?
— Ela não é casada, é?
Basen congelou no lugar, mas desviou o olhar.
— Não! Bem... Não mais!
— O quê? — respondeu Maamei, com uma teatralidade que deixou Basen furioso.
Os patos cercaram Basen, grasnando ruidosamente. Jofu, ainda com a mancha preta no bico, estava
lá com ele. Jofu era visivelmente maior do que os outros pássaros — só ela permanecera com ele enquanto os
outros patos iam, um a um, para as aldeias agrícolas. Basen usava uma roupa novinha em folha. Talvez fosse
melhor escolher algo bem usado, já que só iria se sujar de qualquer maneira, mas roupas novas eram uma
chance de se recompor e se refrescar. Jofu conduziu Basen, balançando o rabo. Ela sabia para onde ele estava
indo. Vapor subia da incubadora, aquecida como sempre pelas fontes termais e pelo fogo no forno. A pedido
de Basen, eles estavam chocando várias vezes mais patos do que antes. Basen se preparou quando alguém
emergiu do galpão. Ele pensou que pudesse ser Lishu, mas depois de um segundo percebeu seu erro. Era uma
das outras viajantes responsáveis pela incubadora, uma mulher de meia-idade que ele já conhecera várias
vezes antes.
— Mestre Basen! Está tudo pronto — disse ela.
Ela tinha gaiolas, cada uma delas com um pato cacarejando.
— Disseram-me que esta seria sua última visita. Espero que cuide bem destes docinhos.
Ela curvou-se profundamente diante dele. Alguns dos viajantes eram apenas pesquisadores, mas
outros tratavam os patos como se fossem seus próprios filhos. Basen tinha fé que uma freira que sentia amor
até mesmo por aves aquáticas jamais maltrataria Lishu. Com todo o respeito e desculpas à freira, porém,
havia apenas uma coisa na mente de Basen: decepção. Ele havia dito a Lishu que sua próxima visita seria a
última, mas não disse quando viria. De qualquer forma, ela não tinha nenhuma obrigação de se adequar à sua
agenda. Ele cerrou os punhos. Desanimado com sua própria inépcia, pegou as gaiolas e as colocou na
carroça. O condutor da carroça ajudou, e os três carregaram as gaiolas. Jofu havia se afastado, evidentemente
cansado da cena.
— Preciso me desculpar com você por estar de plantão hoje — disse a freira.
— E-eu tenho certeza de que não sei o que a senhora quer dizer! — disse Basen.
— Hee hee! Tenho certeza de que você preferiria passar o tempo com uma jovem doce como a Lishu
do que com uma tia madura como eu. Embora possa ser complicado conversar com aquela garota , ela não é
a melhor conversadora do mundo.
— C-Céus!
— Sabe, você parece muito com ela.
A freira riu alto, mas havia um refinamento nisso; isso falava da educação que ela devia ter tido antes
de se tornar uma viajante.
— Lishu é, bem, tímido. Se eu fosse um pouco mais jovem, é o tipo de coisa que poderia me irritar.
- O que?
— Agora tudo o que sinto é simpatia . Ela me lembra eu mesmo quando tinha a idade dela!
A freira deu um tapinha nos patos nas gaiolas.
— Ninguém lhe dá trabalho, claro. Tirando alguns estranhos que gostam desse estilo de vida, a
maioria de nós que vem para a Vila da Ameixa Vermelha tem suas histórias. Deixei o mundo profano há mais
de vinte anos, então não tenho ideia de quem ou o que Lishu possa ser. E não tenho interesse em descobrir.
Só queria que ela parasse de tropeçar e quebrar os ovos!
A freira colocou uma gaiola na carroça.
— Pronto, esse é o último. Onde será que esses patos vão parar?
— Estamos indo para o oeste — disse Basen.
Ele seguiria por terra em direção à capital ocidental, distribuindo os patos pelo caminho.
— Bem , tenham uma viagem segura — disse a freira aos pássaros.
— Coma muitos insetos, ponha muitos ovos bons e viva o máximo que puder.
Os patos grasnaram para a freira quase como se estivessem respondendo. Ela sabia que, se não
conseguissem se tornar úteis, seriam transformados em jantar. Basen não podia pedir aos fazendeiros que
criassem animais de estimação. Basen se perguntou quem era aquela mulher e por que ela tinha vindo para a
Vila da Ameixa Vermelha, mas não perguntou. Só podia presumir que ela também tinha uma história própria.
— Quack! — Jofu grasnou, bicando os dedos dos pés de Basen.
— O que foi? Onde você estava? — perguntou Basen.
Em resposta, o pato agarrou um pedaço do seu manto e puxou.
— Parece que ela quer te levar a algum lugar. Por que não vai ver onde? Eu cuido do resto aqui.
— Tem certeza? — Basen olhou para o motorista, que assentiu.
Jofu galopava à frente de Basen, batendo as asas e olhando para trás de vez em quando para se
certificar de que ele ainda o seguia. Os patos eram evidentemente mais espertos do que ele imaginava. Jofu o
conduziu a um pequeno lago, um lugar margeado pelo verde em meio à paisagem desolada. Uma jovem
vestida de branco estava sentada à beira do lago.
— Senhora Lishu? — disse Basen, e a jovem olhou para cima.
Ela estava segurando uma folha de grama nova.
— Mestre Basen!
Lishu ficou tão surpresa ao vê-lo que deixou cair a grama. Jofu imediatamente começou a bicá-la —
parecia ser o petisco favorito dos patos.
— Então hoje é sua última visita?
Confrontado com Lishu, a quem já havia perdido a esperança de ver, Basen congelou. Estava
radiante de alegria em vê-la, mas não fazia ideia de como falar com ela. E depois de todo o treino que fizera
na noite anterior!
— Senhora Lishu! — disse ele.
- Sim?
— Q-Que clima maravilhoso estamos tendo, não é mesmo!
— É, é?
Lishu pareceu confuso. O céu estava nublado e, embora não estivesse chovendo, também não estava
ensolarado e alegre. Lishu não sabia mais o que dizer do que Basen. Por um momento, o silêncio reinou entre
eles. Jofu ficou parado bem entre os dois e olhou de um para o outro.
— U-hum!
Por coincidência, eles falaram exatamente ao mesmo tempo.
— V-Vá em frente, Lady Lishu.
— O quê? Não, por favor, fale primeiro, Mestre Basen.
Mais uma vez, nenhum dos dois disse nada. A situação permaneceu em um impasse, embora Jofu
continuasse a bicar a grama. Basen cerrou os punhos, cerrou os dentes, franziu a testa e finalmente conseguiu
abrir a boca.
— Senhora Lishu. A senhora me daria a honra de ir à capital ocidental comigo?
Suas roupas, as que ele havia escolhido frescas, estavam imundas de carregar patos na carroça. Ele
não tinha nada nas mãos para oferecer — nem um acessório sofisticado, nem mesmo uma flor. Maamei não
exigira saber exatamente por quem ele nutria sentimentos — mas, se o tivesse visto assim, jamais o teria
deixado esquecer. Mesmo assim, por esse único ato, ela teria sido elogiada. Basen perguntaria ao Imperador
e ao Príncipe da Lua. Ele sabia que o Imperador estava preocupado com Lishu. Iria até ele, com o espírito
fervoroso e a cabeça baixa. O coração de Basen batia forte no peito. Sua respiração era áspera, pairando no ar
à sua frente. Ele mal conseguia olhar para Lishu, com medo de como ela o estaria encarando. Quando o fez,
porém, encontrou-a com o rosto vermelho e mordendo o lábio. Ela ergueu as saias com os dedos manchados
de grama.
— Senhora Lishu? — ele disse.
— Mestre Basen …
Lishu finalmente conseguiu abrir a boca, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela fungou
enquanto falava.
— Eu... Eu n-não posso ir com você!
— Como assim, não pode? — Basen perguntou, tentando não deixar o rosto ficar sombrio.
Ele sabia muito bem que ela poderia rejeitá-lo. Praticamente implorara por isso, fazendo-lhe aquela
pergunta como sempre fizera. Lishu se esforçava tanto quanto ele para esconder suas emoções, e encontrava
o mesmo sucesso misto. Lágrimas se acumulavam em seus olhos e sua boca estava tensa. Ela cerrava os
punhos com tanta força que suas unhas cravavam nas palmas das mãos. Maamei lhe dissera para contar. Para
deixar claro como se sentia. Talvez tivesse sido um erro. As ações de Basen só trouxeram mais dor a Lishu.
— Senhora Lishu, por favor, apenas t.
Ele estava prestes a dizer esqueça o que eu disse, mas ela explodiu:
— Eu q-queria poder! Queria poder ir com você!
Ela olhou diretamente para o rosto dele, conseguindo conter as lágrimas.
— M-Mas agora, eu sei muito bem. Sou uma garota tola que não sabe nada do mundo, e alguém vai
tentar me usar onde quer que eu vá. Sei que eles estavam tentando me manter segura me enviando para a Vila
da Ameixa Vermelha.
Basen sabia que era verdade: todos os habitantes da Vila da Ameixa Vermelha eram excêntricos,
libertos dos grilhões do mundo secular. Muitos deles nem sequer se interessavam por outras pessoas, então
não atormentariam Lishu nem tentariam usá-la para seus próprios fins, como seu pai fizera.
— Se eu fosse com você para a capital ocidental, Mestre Basen, eu seria apenas um fardo para você.
— Senhora Lishu, não ...
— Cumpra seu dever para com Ji — quero dizer, o Príncipe da Lua, Mestre Basen. Eu seria apenas
bagagem. Já tenho uma noção de como as pessoas me veem.
As lágrimas continuaram a se acumular nos olhos de Lishu enquanto ela olhava para Basen, mas não
caíram. Ela piscou furiosamente, contendo-as.
— O que você disse quando me pegou me deu forças para continuar. Até hoje, me mantém de pé.
Jofu acariciou os pés de Lishu, preocupada com ela. Lishu afagou a cabeça do pato. Ela olhou para
baixo e, quando olhou para cima novamente, não havia mais lágrimas em seus olhos.
— Não sou apenas uma ferramenta. Quero aprender a pensar por mim mesmo e escolher meu próprio
caminho.
Basen pensou ter percebido o brilho nos olhos de Lishu. Ainda estava fraco e opaco, mas ele viu a
determinação de fazê-lo brilhar mais.
— Sei que há muitas pessoas que se importam comigo. Kanan e minha dama de companhia , Sua
Majestade e Lady Ah-Duo. O Príncipe da Lua. E você, Mestre Basen. Junto com muitos outros. Mas estive
tão envolvido na minha própria desgraça que nunca sequer lhe agradeci.
Lishu era tão delicada e efêmera quanto uma flor. Como se poderia esperar que ela se preocupasse
com alguém além de si mesma?
— Você não pode se culpar por isso. Qualquer pessoa na sua posição teria feito o mesmo ...
— Não me trate como um bebê. Por favor. Tenho pensado muito, tanto quanto posso, e esta é a
minha escolha. Se eu dissesse a mim mesmo que não poderia ter feito diferente, que qualquer um teria feito a
mesma coisa , isso não seria um tapa na sua cara também, Mestre Basen?
Basen prendeu a respiração. Proteger a família imperial significava colocar sua vida em risco — algo
que ele não poderia fazer facilmente enquanto tentava manter Lishu segura.
— Não posso ir para a capital ocidental — disse Lishu, dando um tapinha na cabeça de Jofu.
— Mas … talvez, quando eu ganhar um pouco mais de confiança em mim mesmo …
Então ela desviou o olhar dele novamente.
— Talvez você possa voltar para Red Plum Village?
Seu rosto estava vermelho. Parecia que ela queria dizer mais alguma coisa, mas nada veio. Basen
estava corando tanto quanto ela; sua boca estava aberta, mas ele também não conseguia dizer nada. À medida
que Lishu se dava conta do que estava dizendo, sentiu o sangue ferver de excitação.
— C-Claramente! — disse ele.
Sem querer, ele se lançou para a frente; Jofu gritou e saiu do caminho.
— Quando eu te ver de novo, prometo que serei um homem mais digno. Você disse que só teria um
peso a mais, mas eu consigo levantar facilmente cem ou duzentos quilos! Se ainda acha que não será o
suficiente, continuarei trabalhando até conseguir levantar duas ... não, três vezes mais!
Ele trabalharia para que Lishu nunca precisasse temer ser apenas " bagagem " . Para que ela soubesse
que ele não cambalearia, não importa o quão forte ela se apoiasse nele. A superfície do lago ondulava
suavemente, refletindo a luz. Jofu bicava a grama ao longo da margem, onde havia pequenos brotos entre os
caules. A primavera chegaria em breve, mas o frio do inverno ainda não havia partido. Lishu estava em seu
próprio inverno agora. Mas, embora fosse pisoteada, embora fosse colhida, embora fosse bicada, ela estava
tentando dar uma bela flor. Não cabia a Basen interferir. Ele simplesmente esperaria, antecipando o dia da
primavera em que aquela flor desabrocharia. Ele faria o que tivesse que fazer até o dia em que pudesse ir até
aquela flor.
— Vou para a capital ocidental, mas voltarei. Protegerei o Príncipe da Lua, ajudarei a proteger esta
nação e protegerei você. Me tornarei um homem capaz de apoiar qualquer pessoa e qualquer coisa que
precise dele.
Lishu sorriu.
— Eu sei que sim. Só rezo pelo seu sucesso e segurança.
Era só ele, ou havia um aroma de flores no ar? Estranho; nenhum dos brotos na grama parecia estar
aberto ainda. Havia apenas Lishu, com um sorriso no rosto que parecia o primeiro sinal da primavera.
Capítulo 6: A Vila da Fazenda (Parte 1)
Basen chegou à capital ocidental três dias depois de Maomao e os outros. Ela esperou na entrada do
anexo, sentindo que seria educado ao menos cumprimentá-lo. Quando ele apareceu, porém, ela explodiu :
- O que é aquilo?
Eis o cumprimento amigável.
— O quê? Aqui é o Jofu .
— Jofu. Como em "pato"? Dá para ver. E parece delicioso.
Basen estava coberto de areia e poeira, e empoleirado em seu ombro, por razões desconhecidas,
estava um pato. Um pato doméstico perfeitamente comum, com penas brancas e bico amarelo. A única coisa
distintiva era uma única mancha preta no bico.
— Oh-ho! Que presente lindo você me trouxe, pelo que vejo! Sente-se, querido cunhado mais novo ,
e deixe sua irmã preparar o jantar!
Chue estava pronto para arrancar o pássaro do ombro.
— Este pato não é para comer! — disse Basen, interrompendo-a.
Ah, sim, eles são parentes, não são?, pensou Maomao. Ela tinha a impressão de que Chue provocava
Basen com frequência.
— Se não é comida, então o que é? Seu bichinho de estimação? — perguntou Chue.
O pato parecia visivelmente apegado a Basen : segurava sua cabeça com suas asas e alisava seu
cabelo.
— Tenho chocado patos e os distribuído para aldeias agrícolas sob as ordens do Príncipe da Lua. Eu
ia deixar Jofu em uma das aldeias, mas ela gostou demais de mim e não quer ir embora.
— Ah, entendi — disse Chue.
Considerando que Basen havia dado um nome à pata, ele evidentemente também se interessou por
ela. A pata, demonstrando sua inteligência inata, pulou do ombro de Basen e defecou no chão. Esperta.
— Preciso ir ver o Príncipe da Lua. Tem alguém que possa cuidar do Jofu para mim?
— Ah! Vou sim! — disse Chue, levantando a mão.
— Tem mais alguém?
— Não tenho certeza se ficaria muito melhor — disse Maomao.
Ela já estava babando. Lembro-me do pato que En'en preparou lá na casa de Lahan. Nossa, que bom!
Ela não confiava em si mesma para não ser superada pelo próprio apetite. Talvez pudéssemos pedir ao
charlatão para cuidar dela? Não, não, havia alguém ainda mais apropriado.
— Conheço um fazendeiro que seria perfeito. Vou perguntar a ele — disse ela.
— Um fazendeiro? Espere, você tem conhecidos na capital ocidental?
— Não, ele foi enviado para cá da região central.
Basen permaneceu perplexo, mas não havia muito mais que Maomao pudesse dizer. Era a verdade.
De qualquer forma, eles poderiam confiar o pato ao irmão de Lahan. Basen estava na capital ocidental há
dois dias inteiros quando Maomao finalmente obteve permissão para visitar uma vila agrícola.
— Pode ficar à vontade, mocinha. Ainda temos remédios de sobra. Não precisa sair correndo para os
arredores de um lugar que ainda mal conhecemos — disse o médico charlatão, que aceitou a desculpa dela
sem hesitar.
Afinal, tinha que haver algum motivo para uma dama da corte que trabalhava como assistente
médica deixar seu posto e fazer uma viagem de inspeção.
— Está tudo bem, senhor. Quem sabe? Posso até encontrar alguma droga desconhecida.
Isso era verdade. A província de I-sei abrigava uma flora e fauna diferentes das de Kaou. Não havia
como prever quais plantas ou animais ela poderia encontrar, e quais seriam suas potenciais propriedades
medicinais. Maomao estava, na verdade, um pouco animada – esperava encontrar remédios interessantes.
Trouxe o mínimo possível de pertences, apenas o que coubesse em uma bolsa. Pediu que algumas pepitas de
ouro ou pedaços de prata fossem preparadas para ela, caso precisasse de dinheiro em espécie para alguma
coisa – metais preciosos não processados seriam as formas de pagamento mais versáteis e eficazes na
província de I-sei, que negociava intensamente com outras nações.
— Hã. Eles costumam mandar damas da corte para trabalhos como esse? — perguntou Tianyu com
um olhar cético.
— Acho que não? Mas fui contratado mais como apotecária do que como médica, então sempre foi
possível que me mandassem para esse tipo de missão.
Para criar um pesticida.
— Hã. Uma apotecária. Eu aqui achando que foi puro nepotismo que te levou aonde você chegou,
Niangniang.
Tianyu realmente sabia como provocar uma pessoa.
— Ah, vamos lá, não seja assim. Não precisa ficar tão desconfiado, meu rapaz.
Ah, meu pobre charlatão. Você é quem precisa desconfiar mais. Poucas pessoas no mundo eram tão
desinteressadas que não valia a pena fazer perguntas sobre elas.
— Se você diz, senhor. Divirta-se, Niangniang.
Parecia que era só isso que Tianyu pretendia contribuir para a conversa, pois se jogou em uma das
camas dos pacientes e acenou por cima do ombro. O charlatão entregou a Maomao um pacote de salgadinhos
e acenou também.
- Vejo você em breve!
— Não se preocupe, vou ficar de olho em tudo enquanto você estiver fora! — disse Lihaku.
Sim, com ele lá, pelo menos ela não teria que se preocupar com o médico charlatão.
— Demorou bastante.
— Ela chegou na hora certa!
Basen e Chue a aguardavam na entrada do anexo. Maomao fora instruído a esperar até que Basen
chegasse à capital ocidental para que pudesse acompanhá-la como guarda-costas, e Lihaku poderia ficar ali.
Maomao olhou ao redor. Não deveria haver mais alguém?
— É isso aí? Achei que a gente ia levar batata-semente.
Junto com o irmão de Lahan, aliás, mas ela só viu alguns cavalos.
— Onde está o carrinho com as batatas? — Chue levantou a mão no ar.
— Eu vou colher esta! As batatas-semente estão indo de carroça, mas a carroça é tão mais lenta que
demos a eles uma vantagem! Foi ideia do outro cara — o cara que dirigia a carroça. Não sei como
descrevê-lo. Não é muito memorável. E quanto ao motivo de eu estar aqui, é porque você já é uma amiga tão
querida, Srta. Maomao! A Srta. Chue implorou para ir com você, ou passaria o tempo todo se preocupando
com você em terras desconhecidas!
— O que estou ouvindo é que parecia divertido, então você decidiu vir junto.
O esquecível condutor da carroça devia ser irmão de Lahan. Maomao percebeu que Chue ainda não o
conhecia oficialmente. Em vez de dizer que Maomao estava certo, Chue mostrou uma série de bandeirinhas.
— E o que o leva a passear pelas aldeias agrícolas, Mestre Basen? — perguntou Maomao, só para ser
educado.
— Ordens do Príncipe da Lua. Ele me disse para protegê-la com a minha vida. Ele não quer que o
Mestre Lakan faça um ataque de fúria na capital ocidental.
Não havia nada que Maomao pudesse dizer sobre isso. Ela, principalmente, não podia dizer que
achava que Lihaku poderia ter sido uma escolha melhor para o trabalho. Parecia que Basen tinha alguma
ideia da ligação dela com o velhote, mas como ele ainda a tratava do mesmo jeito de sempre, ela decidiu
deixar para lá. Parece que praticamente todo mundo que conheço hoje em dia sabe. Ela estava descobrindo
que todos ao seu redor pareciam cientes de algo que ela mesma preferia não admitir. O comportamento do
estrategista esquisito não podia ser varrido para debaixo do tapete ali. Mas o que eu posso fazer? Não somos
parentes, então... Maomao decidiu que agora não era hora de repensar sua atitude.
— Meu pai está aqui como guarda do Príncipe da Lua. Tenho certeza de que vai ficar tudo bem —
disse Basen, embora parecesse estar apenas tentando se convencer.
Ele devia estar começando a se perguntar por que Jinshi parecia estar mantendo-o à distância
ultimamente. Espero que ele não esteja ficando frustrado, pensou Maomao. Ela estava preocupada com o
estado psicológico de Basen, mas ele parecia surpreendentemente estável. Um pouco mais calmo e maduro
do que antes, na verdade.
— Sou só eu, irmãozinho, ou você virou uma nova página? — disse Chue, cutucando-o.
Ela parecia compartilhar a intuição de Maomao.
— O-O quê? Por que você pergunta isso?
De qualquer forma, era verdade que Gaoshun estava ali para servir como guarda-costas de Jinshi.
Jinshi podia muito bem ter alguns inimigos na capital ocidental, mas não era provável que tentassem lhe dar
um golpe. Se alguém importante é assassinado no meio de uma longa jornada, é o governante local que tem
que arcar com as consequências. Maomao não sabia muito sobre Gyoku-ou, mas gostava de acreditar que ele
não permitiria que seu visitante mais importante se encontrasse em perigo. Chue sorriu, montou em seu
cavalo e colocou os pés nos estribos. Ela não estava usando uma saia, mas sim uma calça comprida.
— Tudo bem. A vila fica a uns quarenta quilômetros daqui. Devemos chegar lá em umas quatro
horas — disse Basen.
— Parece que ainda vamos pegar aquela carroça! Que tal darmos uma voltinha? — sugeriu Chue.
— Infelizmente, esta não é a capital, e não há muitas casas de chá por aqui. Você pode compartilhar
um pouco de grama com seu cavalo, se quiser — disse Basen, sem se incomodar com o puxão de Chue.
Ela é a esposa do irmão mais velho dele, até onde se sabe. Basen parecia demonstrar certo respeito
por ela, embora Chue o tratasse da mesma forma que tratava a todos.
— Em qual você gostaria de andar, Srta. Maomao? — perguntou Chue.
— Não tenho certeza se tenho uma boa resposta para isso.
Havia dois cavalos, e Maomao não sabia cavalgar sozinha, então teria que cavalgar com um dos
outros. Não importava quem.
— Certo, então pode ficar atrás da Srta. Chue! A sela do Sr. Basen é dura — dura para o traseiro! A
sela da Srta. Chue é bem curtida, altamente amortecedora e fácil de sentar por longas horas na trilha!
Diga-me, qual você prefere? — Nem preciso dizer, Maomao apontou para Chue.
— Só um segundo, onde você conseguiu uma sela tão bonita? Pensei que a gente ia pegar esses
cavalos emprestados.
— Sim, mas o Príncipe da Lua é um homem muito atencioso. Ele faz um bom trabalho, de vez em
quando.
— E o que você quer dizer com isso? — Basen retrucou, descontente com o elogio indireto.
Pelo menos nesse sentido ele ainda era Basen.
— O que eu quero dizer? No momento em que o Príncipe da Lua disse que estava te designando para
o serviço de guarda, eu disse que não deveria haver outra mulher para acompanhá-la, e ele pareceu ter visto a
luz! Não se preocupe, Srta. Maomao, a sempre atenciosa Srta. Chue está te apoiando. Seu espírito pode ser
mais forte que um tronco, mas seu corpo é tão delicado que você provavelmente morreria se alguém te desse
um soco. A Srta. Chue sabia que você não podia ser confiada a Basen sozinha — ele não conhece a própria
força! Você deveria me ser grata.
Eu provavelmente morreria se alguém me desse um soco. Maomao não era exatamente do tipo
musculoso. Ela suportava venenos de todos os tipos, mas agressões físicas logo a destruiriam.
— Você também deveria ser grato, irmãozinho. Pode me chamar de Srta. Chue — ou Honrada Irmã
Mais Velha, se preferir.
— Hngh … — Basen nunca iria falar mais alto que Chue.
Ele só conseguia abaixar a cabeça. Com o vencedor da conversa decidido, os três partiram. Não
havia nada de particularmente notável na jornada. Da cidade, seguiram para o oeste, atravessando planícies
desertas, aderindo a uma faixa de terra nua que parecia passar por uma estrada. Uma ou duas vezes cruzaram
com caravanas que vinham na direção oposta. Às vezes, viam tendas pertencentes a nômades, os filhos das
famílias cuidando das cabras ou ovelhas. Seria aquilo o horizonte?, perguntou-se Maomao. Seu velho,
Luomen, explicara que havia uma teoria de que o mundo era esférico, e que isso era evidenciado pelo fato de
que, em terra aberta, era possível ver uma ligeira curvatura ao longo do horizonte à distância. Maomao achou
que de fato via uma curva. Ela não sabia ao certo se era verdade que o mundo era redondo, mas, se fosse,
isso explicaria por que as estrelas se moviam. Ou pelo menos, foi o que Luomen dissera. Agora, ela desejava
ter prestado mais atenção, mas, infelizmente, a maior parte da explicação dele não a havia absorvido. Ela
percebeu, com desgosto, que devia ser uma das coisas que ele aprendera enquanto estudava em uma terra
estrangeira, e ali ela a ignorara. Estava surpreendentemente frio nas planícies, embora fosse primavera. Havia
bastante sol, mas também um vento que sugava o calor do corpo. Além disso, o ar estava muito seco — e um
pouco rarefeito. Estavam bem acima do nível do mar.
— Aqui está, Srta. Maomao — disse Chue, passando-lhe uma capa.
Era feito de lã que bloqueava o vento e era trabalhado com bordados tão finos que teria parecido
distinto até mesmo na capital. Chue também usava uma capa. Parecia igualmente quente, mas era um pouco
mais simples do que a que ela havia dado a Maomao - estranhamente discreta para Chue, que normalmente
gostava de ser o centro das atenções. A capa de Basen era simples, mas prática. Ele também, notavelmente,
usava luvas para manter as mãos aquecidas nas rédeas. Pressionada contra Chue e com a capa nas costas,
Maomao conseguia se manter aquecida, mas o vento e o sol ainda a atingiam em todas as partes expostas.
Gostaria de ter alguns dos bálsamos das minhas irmãs agora. Entre o sol forte e o ar seco, ela estava
preocupada com o bronzeamento. Ela havia aplicado uma pomada bloqueadora solar, mas e Chue? Sua pele
era mais escura que a de Maomao, mas parecia perfeitamente saudável.
— Senhorita Chue, tenho algo para evitar o bronzeamento. Quer um pouco? Também vai evitar que
sua pele resseque.
Valia a pena perguntar, ela pensou. Se acabasse, poderia simplesmente fazer mais com os
componentes que tinham na capital ocidental.
— Ah, posso? A Srta. Chue sempre foi um pouco mais morena, então o bronzeado não fica tão
evidente, mas ela adoraria experimentar!
— Claro. Te dou um pouco quando fizermos uma pausa.
Basen os informou que não havia nenhum lugar ao longo da estrada para qualquer diversão
agradável, mas que eles teriam que descansar os cavalos em algum momento. Havia bastante grama por toda
parte para os animais comerem, mas se pudessem parar em algum lugar onde houvesse água, tanto melhor. E
naquele exato momento, um rio surgiu à vista.
— Vamos fazer uma pequena pausa lá — gritou Basen.
— Sim! — disse Chue.
— Tudo bem — disse Maomao.
Quando chegaram à água, Maomao descobriu que não era bem um rio, mas sim uma poça enorme. A
água era rasa e não havia correnteza. Provavelmente havia sido formada por uma tempestade e logo secaria
novamente. Havia árvores crescendo por perto, sombreando grandes rochas com desenhos esculpidos nelas.
Placas de sinalização para aqui, ali e para todos os lugares, Maomao supôs. Ela olhou para as árvores que
cresciam ao redor do poço. Seriam romãzeiras? As folhas pareciam ser, de alguma forma. Alguns galhos
balançavam suavemente. Talvez houvesse pássaros pousados neles. Ela podia ver alguns na água, junto com
um grupo de cavalos selvagens bebendo água.
— Pode haver cobras por aí — disse Chue.
— Ooh, você acha? — Maomao e Chue procuraram, mas não encontraram nada.
Havia um buraco no chão que parecia uma toca, mas quando cavaram, um rato saiu. Eles trouxeram
provisões, então deixaram o roedor escapar. Grama alta crescia perto da beira da água. Maomao sabia, por
suas pesquisas, que o pau-rosa e o alcaçuz eram endêmicos naquela área, mas não viu nenhum. Não que ela
esperasse encontrar quantidades significativas em um só lugar. Acho que era muita coisa para se esperar. Ela,
no entanto, encontrou uma grama com um aroma único. Era mais alta do que a grama comum, mas não tão
alta quanto uma árvore, e parecia artemísia. Se suas propriedades medicinais fossem parecidas com as da
artemísia, poderia ser útil para exterminar insetos. Maomao colheu uma amostra na esperança de descobrir e
coletou algumas outras plantas intrigantes também. Chue bateu palmas e gritou:
— Senhorita Maomao! O almoço está pronto!
Maomao e seus companheiros sentaram-se sobre um cobertor, comendo carne e legumes em
conserva entre fatias de pão. Maomao percebeu que suava profusamente, apesar de estar apenas cavalgando;
seu corpo ansiava por água e sal. Isso tornava os legumes em conserva realmente saborosos. Assim que
terminou de comer, Basen começou a estudar um mapa. Tirou uma bússola flutuante da bolsa e a deixou
flutuar na água. Maomao e Chue o observavam. Maomao fez a pergunta óbvia.
— De que serve um mapa em planícies abertas?
— É melhor que nada, mas você está certo de que não há muitos pontos turísticos por aqui — Chue
comentou.
— Considerando a bússola e a posição do sol, acho que deveríamos nos mover um pouco para o
norte. Contanto que não haja nada bloqueando a visão, conseguiremos ver as casas — esse será o nosso
destino.
Ela podia parecer leviana, mas era surpreendentemente capaz. Evidentemente, até conseguia fazer
navegação terrestre. Basen desviou o olhar, parecendo um pouco constrangido.
— Posso perguntar mais uma coisa? — disse Maomao.
— O que você quiser, Srta. Maomao.
— Por que não temos um guia local?
Francamente, ela se arrependeu de ter perguntado antes. Imaginara que iriam apenas para uma vila
próxima – não deixariam Li nem nada – e que um guia não seria necessário, mas a viagem estava se tornando
mais elaborada do que ela esperava. Uma viagem longa nunca era exatamente segura, mesmo dentro de
fronteiras nacionais. Era melhor ter alguém que conhecesse o território de cabo a rabo.
— Engraçado você perguntar isso — disse Chue, olhando ao redor.
Basen também estava olhando, com o olhar duro. Sua mão segurava o cabo da espada e ele estava
obviamente pronto para entrar em combate. Não estou gostando do rumo que isso está tomando. Chue ficou
na frente de Maomao.
— Certo! Fique aí, Srta. Maomao; não se mova um centímetro.
Maomao descobriu que estavam cercadas por homens estranhos; ela quase não os viu emergir. Eram
tipos de aparência desleixada que falavam linenês com um sotaque forte. Quanto ao que diziam, eram
ameaças comuns, exigências de ganhar dinheiro e coisas do tipo. E, claro, queriam ficar com as mulheres.
Eram bandidos, se Maomao já os tivesse visto. Será que tenho algum valor especial como mulher? Nem
Maomao nem Chue eram especialmente atraentes; ela duvidava que alcançassem um preço alto se os
bandidos tentassem vendê-los. Não era um pensamento particularmente feliz, e seu coração começou a
disparar. Ela respirou lenta e profundamente algumas vezes para tentar se acalmar.
— Senhorita Maomao, fique à vontade para fechar os olhos. Se tentarem alguma coisa, a Senhorita
Chue usará seu apelo de mulher casada para nos tirar dessa!
Ela parecia muito confiante. Na verdade, parecia estar olhando para eles com desdém. Maomao, no
entanto, não estava ansiosa para fechar os olhos. Ela enfiou a mão na bolsa e encontrou uma agulha de
costura e um repelente de insetos. Não seriam suficientes para causar danos sérios, mas poderiam desanimar
os agressores por um instante. Acontece que eles não precisavam do charme de Chue nem da agulha de
costura de Maomao. Houve um estalo audível, e então o Bandido nº 1 passou voando por Maomao. Houve
um estalo perceptível, e o Bandido nº 2 caiu no chão, segurando o braço e se contorcendo. Houve um estalo
distinto, e o Bandido nº 3 caiu, cuspindo uma mistura de saliva, sangue e dentes. Não houve contenção. Uma
luta em uma peça de teatro teria durado mais. Francamente, quase parecia pouco para descrever. Basen havia
pegado sua espada — mas isso não significava que ele iria usá-la. Ele acabou com todos eles com as próprias
mãos!, pensou Maomao, estupefata. Ela respirou fundo mais algumas vezes, depois voltou a si e correu até
Basen.
— Deixe-me ver sua mão!
— É, sim …
Basen, parecendo um pouco surpreso, tirou a luva e estendeu a mão. Os dedos não pareciam
quebrados, e o pulso parecia intacto. Além de ser sobrenaturalmente forte, Basen, segundo Maomao ouvira,
era menos suscetível à dor do que a maioria das pessoas. Isso significava que ele às vezes podia se machucar
com suas demonstrações de força. Eu não entendo. Depois de todos aqueles barulhos terríveis, ela esperaria
que a pessoa que administrava as surras tivesse pelo menos machucado a mão. Devia haver algum motivo
para Basen estar completamente ileso. Ela pegou a luva dele e logo descobriu a explicação. Externamente,
era feita de lã e parecia bem macia, mas parecia pesada. Havia algum tipo de metal dentro. A força bruta de
Basen combinada com uma luva pesada? Era quase o suficiente para fazê-la sentir pena dos bandidos.
Falando nos bandidos, Chue estava voando de um para o outro, amarrando-os. Então ela amarrou os três
juntos antes de levantar os pés e enxugar o suor da testa com um suspiro.
— O que vamos fazer com eles? — perguntou Maomao.
A pergunta dela era inocente, mas Chue respondeu :
— O que vamos fazer com eles? Não podemos levá-los conosco. Vamos deixá-los aqui. Quando
chegarmos à aldeia, podemos pedir para alguém vir buscá-los.
Ela não parecia se importar muito.
— Mas eu não gosto disso — disse Basen, cruzando os braços e franzindo a testa.
— Eu sei o que você quer dizer — disse Maomao, pela primeira vez se sentindo da mesma forma
que ele.
E se os homens fossem comidos por um lobo ou algo assim enquanto os viajantes estivessem a
caminho da aldeia? Era quase impossível. Acho que não dormiria bem sabendo que fiz parte disso, mesmo
que eles sejam bandidos. Basen caminhou até os bandidos e pegou um deles pelo braço. Então, ouviu-se
outro estalo desagradável. Oof... Aparentemente, o que Basen não gostou foi da possibilidade de os bandidos
escaparem. Alguns deles se molharam enquanto ele impiedosamente quebrava os braços de cada um deles.
Ele provavelmente havia escolhido os braços e não as pernas para que pudessem andar quando fossem
levados para a prisão. Nunca percebi que eu era a boazinha, pensou Maomao. Ela olhou para os bandidos e
mentalmente os incentivou a desistir da vida de crime. A jornada deles foi tranquila depois disso. Achei que
pudesse haver mais insetos. Ah, que bom. Havia alguns; afinal, eles estavam viajando pelas planícies. Mas
não era um enxame; Ela apenas avistava um gafanhoto saltando pela grama de vez em quando. Talvez não
precisássemos nos preocupar com uma praga, afinal? Se não houvesse toneladas de gafanhotos na capital
ocidental, bem, nada poderia ser melhor. Quando chegaram ao próximo ponto de descanso, encontraram o
irmão de Lahan e suas batatas. Por motivos que Maomao não conseguia adivinhar, havia um pato em cima do
cavalo puxando a carroça, grasnando ordens.
— Jofu! Você também está aqui?
— Quack!
No momento em que a pata viu Basen, ela desceu voando da cabeça do cavalo. Seus olhos pareciam
brilhar, e Maomao poderia jurar que viu uma tempestade de pétalas de flores atrás dela.
— Tentei deixá-la na mansão, mas ela insistiu em vir comigo — disse o irmão de Lahan.
Maomao foi quem originalmente lhe empurrou o pato, então ela não podia reclamar.
— Tenho que admitir, fiquei bastante apegado a ela — disse o irmão de Lahan, claramente
apaixonado.
— Ela é muito inteligente e muito prestativa. Ela come insetos com prazer.
— Parece que você teve uma viagem agradável e tranquila — disse Maomao.
Algumas pessoas obviamente não encontraram nenhum bandido.
— O quê? Você sempre foi rabugento, mas agora está completamente irritadiço.
Ela não gostou do tom do irmão de Lahan, mas mesmo assim decidiu lhe dar uma explicação sobre o
que tinha acontecido.
— Fomos atacados por bandidos.
— Eles realmente têm isso aqui? — perguntou o irmão de Lahan, com o sangue fugindo do rosto.
Ahh! É assim que uma pessoa normal reagiria. Enquanto saboreava a resposta do Irmão de Lahan,
olhou para Chue, que não se preocupara com o ataque. Chue parecia completamente acostumada a ser
ameaçada por criminosos, ou pelo menos não se surpreendera. Como se tudo aquilo fizesse parte do plano. O
grupo do Irmão de Lahan consistia em uma carroça cheia de carga, o próprio Irmão de Lahan, dois soldados
de aparência robusta como guardas, três fazendeiros provavelmente ali para ajudar, além de dois guias locais.
E um pato. Maomao não era especialista em logística, mas dois guias pareciam ser mais um do que
precisavam. Talvez um deles devesse estar conosco? Pensando bem, Chue havia se esquivado da pergunta
sobre ter um guia local. Eles partiram novamente após esse segundo intervalo. Acontece que a vila era muito
próxima. Casas modestas estavam dispostas em ambas as margens de um rio, a área ao redor salpicada de
árvores e campos agrícolas. Atrás da aldeia, havia uma montanha suavemente inclinada, mas, ao contrário
das montanhas que Maomao conhecia, parecia que a planície gramada simplesmente se erguera em uma
colina. Os pontinhos brancos que ela viu provavelmente eram ovelhas. Os pretos, talvez bois. A julgar pelo
número de casas, não podia haver mais de trezentas pessoas naquela aldeia. Ao se aproximarem, foram
recebidos por bois mugindo. Algumas ovelhas ainda estavam fofinhas, enquanto outras tinham sido
tosquiadas recentemente. Era bem no meio da época da tosquia. As crianças da aldeia, aparentemente
familiarizadas com o trabalho braçal, estavam recolhendo fezes de ovelha em cestos.
— O que é isso? — perguntou Basen, lançando um olhar estranho para as crianças.
Maomao sentiu que eles poderiam lhe fazer a mesma pergunta, considerando que ele tinha um pato
na cabeça.
— Eles usam o esterco de ovelha como combustível, eu acho. E se você colocar debaixo da cama,
supostamente te mantém aquecido — explicou ela.
— Debaixo da sua cama?!
— Claro! Você não sabia? Irmãozinho bobo — Chue falou lentamente, sem perder a oportunidade de
provocá-lo.
— Irmãozinho — parecia ser o nome padrão que ela dava a ele quando o estava provocando.
A aldeia era cercada por um fosso e um muro de tijolos. Talvez os bandidos não se limitassem a
atacar os viajantes. Basen conversou com alguém na entrada, e eles foram rapidamente autorizados a entrar
— talvez um mensageiro os tivesse precedido. O pato saltou de sua cabeça e trotou atrás dele. Uma pessoa
de aparência importante que Maomao supôs ser o chefe da aldeia saiu para cumprimentá-los.
— Ah! Com licença!
Antes que Basen pudesse dizer qualquer coisa, Chue começou a conversar animadamente com o
chefe. Os olhos do chefe brilharam e ele gritou para um dos guias. Chue sorria abertamente sobre alguma
coisa, enquanto o guia ficava cada vez mais pálido. Era impossível não notar a investida no ar. Um dos
soldados-guardas do grupo dos Irmãos de Lahan estava de prontidão atrás de Chue. Ela ainda sorria e o guia
ainda parecia calmo, mas era óbvio que o homem estava sendo levado embora. Ahh, agora entendi. Maomao
cruzou os braços e os observou levar o guia para algum lugar.
— Ei, o que está acontecendo? — perguntou o irmão de Lahan, sempre honesto.
— Suspeito que queiram pedir um desconto a ele. Ele nos prometeu uma rota segura, e mesmo assim
fomos atacados por bandidos.
— Certo, mas é realmente justo descontar nele?
— Boa pergunta, mas parece que essa era a estrada especial do guia. Garantidamente segura. Eles até
pagaram um extra para aprender sobre ela.
— Que bobagem. Só tem grama em todas as direções. Não é culpa do guia se eles deixaram ele
enganá-los.
Ele tinha razão. Maomao estava inventando tudo, na verdade, dizendo o que lhe vinha à cabeça.
Falar de bandidos era estimulante demais para o irmão de Lahan, então ela mudou de assunto. Enquanto
conversavam, Basen foi até o chefe. Seu pato, como um cão fiel, o seguiu. Depois de conversarem um pouco,
Basen se aproximou de Maomao.
— O chefe vai nos mostrar um lugar onde podemos ficar esta noite.
- Tudo bem.
— Agradeço sua ajuda — disse o irmão de Lahan educadamente para Basen.
Ele era filho de uma família distinta, por mais que parecesse, e fora criado com boas maneiras. Se
Lakan não tivesse traído a própria família, o Irmão de Lahan poderia ter se tornado um soldado agora.
— Claro. Aliás … — Basen olhou para o irmão de Lahan.
— Como devo chamá-lo? — Basen também não sabia o nome do irmão de Lahan.
— Ah!
Os olhos do irmão de Lahan se encheram de esperança. Este era o momento que ele tanto esperava.
— Acho que você pode simplesmente chamá-lo de Irmão de Lahan — disse Maomao.
— Ei! — disse o irmão de Lahan, batendo a mão no ombro de Maomao.
— Tudo bem. Irmão do Lahan. Fácil de lembrar. Gostei.
— Escute, você!
Esquecendo suas maneiras, o irmão de Lahan se virou para Basen.
— Então é isso. Ele é irmão do Lahan. É assim que ele se chama, e é isso que ele é. Acho que você
conhece o Lahan, não é? O irmão do Lahan não é tão peculiar quanto o irmão; o irmão dele é uma pessoa
normal e inofensiva. Ele também é um plantador profissional de batatas, então podemos deixar isso com ele.
— Quem é normal?! E quem é fazendeiro?!
O irmão de Lahan perguntou: "Mas se ele não era fazendeiro, então o que era?". Ela o vira cuidando
daqueles campos extensos — ele podia se dar ao luxo de se orgulhar um pouco mais do seu trabalho.
— Entendo. Se ele é parente do Mestre Lakan, merece ser tratado com respeito.
Maomao teve a nítida sensação de que Basen a olhou de relance ao dizer isso, mas decidiu ignorar.
Ele não parecia considerá-la como pertencente à mesma categoria. Francamente, eu quase gostava disso nele.
Basen nem sempre a tratava " com respeito " — para usar uma expressão emprestada —, mas era fácil
trabalhar com ele.
— Ahem … — disse o homem que parecia o chefe da aldeia.
Aparentemente era isso que ele realmente era.
— Posso lhe mostrar seus aposentos?
— Ah, sim, claro. Se você quiser?
Aliviado, o chefe os conduziu até um espaço aberto no meio da aldeia.
— Você pode usar isso — disse ele, apontando para uma barraca portátil como as que os nômades
usavam.
— Esta barraca pertenceu a alguém que se estabeleceu aqui anos atrás e ainda serve ao seu propósito.
Nós também a mantemos aquecida por dentro. As mulheres podem ficar na pequena barraca ao lado.
Maomao enfiou a cabeça para dentro e descobriu que era realmente quente, feito de uma estrutura
que parecia uma rede coberta de feltro. Havia um tapete no chão e uma lareira no meio. Dada a falta de
janelas, era de se esperar que isso resultasse em má qualidade do ar, mas uma chaminé se estendia da lareira
para permitir que a fumaça escapasse. Havia uma pilha de coisas marrons ao lado da lareira — talvez os
bolos de ovelha que as crianças estavam colecionando. O tapete era trabalhado com algum tipo de padrão.
Podia não ser grande coisa, mas a aldeia estava claramente tentando oferecer a melhor hospitalidade
possível.
— Que momento bom , estávamos prestes a desmontá-lo — disse o chefe.
— Desmembrar? — perguntou Maomao.
— Sim; veja, nós tivemos uma visita outro dia também.
— O nome dele era Rikuson?
— S-Sim. Ele é seu conhecido? — Maomao assentiu: ela sabia.
O que ela ainda não sabia era por que ele viera ali. Ela não via Rikuson desde o primeiro dia, então
não tivera a chance de perguntar a ele.
— Já está tarde, então acho que hoje devemos comer e depois descansar um pouco. Vou colocar um
guarda do lado de fora da sua barraca. Parece bom? — perguntou Basen.
— Sim, obrigado, está bem — disse Maomao.
Ela pegou seus pertences e os levou para a barraca menor. Tirou os sapatos ao entrar, sentindo o
carpete felpudo saudar seus pés. Havia várias camadas de feltro por baixo. Tirou a capa e a pendurou em algo
que se projetava da parede. Então se jogou de pernas abertas no carpete. Ops, é melhor parecer viva. Deu um
tapinha rápido na bochecha — a barraca estava tão quente lá dentro, e o carpete tão macio, que ela sentiu que
ia cochilar imediatamente. Assim que se sentou, Chue entrou.
— Parece ótimo, Srta. Maomao. Acho que vou me juntar a você!
Ela se jogou no tapete e sorriu, feliz.
— Antes que você durma, Srta. Chue, posso lhe perguntar uma coisa?
Maomao tentou organizar os pensamentos que lhe turvavam a cabeça o dia todo. Enquanto refletia,
viu-se sentada numa posição formal, com os pés dobrados sob o corpo. Chue imitou a postura dela.
— Sim, claro. O que é?
Ela parecia exatamente como sempre.
— Aqueles bandidos... Você estava por trás disso, não estava, Srta. Chue?
Chue nem piscou diante da pergunta.
— O que você quer dizer, Srta. Maomao? — Ela inclinou a cabeça.
— Desculpe. Isso soou pior do que eu queria dizer. O que eu estava tentando dizer é que você
esperava que os bandidos atacassem e nos colocou em segundo lugar, como isca, para minimizar o dano que
eles causariam.
Ainda assim, Chue parecia imperturbável.
— O que te deu essa ideia?
Ela não parecia estar perguntando apenas para despistar Maomao. Ela gostou de ouvir a resposta.
— Bem, primeiro, eu me perguntei por que fomos divididos em dois grupos. A princípio, pensei que
talvez você estivesse apenas tentando ser gentil comigo e garantir que eu chegasse o mais rápido possível. Eu
conseguia ver o mesmo impulso por trás da maneira como Ji... quer dizer, o Príncipe da Lua nos conseguiu
aquela sela confortável. Mas eu não conseguia me livrar da pergunta: se íamos nos dividir em dois grupos,
por que os dois guias iriam com apenas um deles? Não fazia sentido.
— Ah! Hum!
Chue parecia uma boa leitora de mapas, mas mesmo para ela, um guia seria indispensável em
território desconhecido. Era quase como se ela tivesse se esforçado para não ter um.
— Segundo, aquela capa — disse Maomao, apontando para a vestimenta pendurada na parede.
— Ah, você não gostou?
— Gostei muito. Me manteve bem aquecido. O que me impressionou, porém, foi como é lindo.
— Lindo? — Maomao olhou para a capa que Chue estava usando.
— Eu sei que você gosta de se exibir, Srta. Chue, então, se tivesse duas capas, eu esperaria que
escolhesse a mais elaborada. Mas, em vez disso, você usou a mais simples.
— Bem, sim, mas a Srta. Chue sabe como se comportar perto de seus superiores.
Seu tom sugeria o contrário.
— Sim, e o fato de você ter me dado a capa mais bonita implicava que ela era do Príncipe da Lua.
Você reforçou essa impressão ao falar sobre como ele lhe dera a sela. Você praticamente me convenceu de
que a capa também era dele — mas não era, era?
O manto de Maomao era agradável ao toque. Coberto de bordados delicados, seria óbvio que era
uma peça de roupa refinada, mesmo à distância.
— Uma capa dessas é como dizer aos bandidos: 'Por favor! Roubem-me!' E, usando uma roupa um
pouco mais simples, você se faz parecer a dama de companhia do alvo .
— Hee hee hee! A Srta. Chue é praticamente sua dama de companhia, Srta. Maomao. Então o que
você está dizendo é que eu nos separei em dois grupos e, de propósito, te dei uma capa melhor para que eles
te atacassem?
— Não tanto para me atacar especificamente. É mais como se você quisesse colocar todos os
melhores alvos em um só lugar.
Desta vez Chue piscou
— Se todos tivéssemos viajado na carroça, teria sido uma grande produção. Ter alguns soldados por
perto nos daria uma vantagem na batalha, mas também estaríamos com pessoas que não estavam
acostumadas a ser atacadas. Se os deixássemos ficar traumatizados, isso poderia ter um impacto negativo em
nosso trabalho — sem mencionar a clara possibilidade de que fossem feitos reféns.
O implacavelmente comum Irmão de Lahan era um sujeito perfeitamente forte e saudável, mas não
parecia um lutador experiente. Maomao suspeitava que ele tivesse tanto medo de briga quanto qualquer
pessoa.
— Se, em vez disso, fôssemos em dois grupos, um dos quais não só fosse menor, mas incluísse
alguém que obviamente parecesse rico, os bandidos teriam mais probabilidade de atacar esse grupo. Duas
mulheres, um homem — o homem sendo o Mestre Basen, que, apesar de sua força absurda, ainda tem aquele
rosto de bebê e um porte relativamente pequeno para um soldado. Quando disseram para deixarmos as
mulheres, não estavam pensando em nos vender, estavam? Era sobre a possibilidade de resgate.
Os bandidos jamais imaginariam que Basen se revelaria um urso em pele de homem. Mas ele era um
matador de leões, afinal.
— Isso é muito inteligente, Srta. Maomao, mas se for verdade, como a Srta. Chue atraiu aqueles
bandidos exatamente no momento certo? Você pode usar todas as capas bonitas que quiser, mas eles estavam
obviamente esperando por nós. Eles apareceram na hora certa, pode-se dizer.
— Isso explicaria por que você estava falando com um dos guias antes. Eis a terceira coisa que me
deixou desconfiado: você falou com um dos guias assim que chegamos à vila. Acho razoável presumir que
você achava que um deles era corrupto antes mesmo de contratá-lo.
Ela pensou em como o homem empalideceu quando Chue falou.
— Antes do primeiro grupo partir, você contou coisas diferentes para cada guia, não foi? Como qual
bar o segundo grupo usaria. Você pega um mapa e diz que quer ter certeza de onde pode descansar. Uma
maneira conveniente de avisá-los onde você vai ficar, não é?
Havia inúmeras maneiras pelas quais o guia poderia ter passado informações aos bandidos, mesmo
que Maomao não soubesse exatamente qual delas ele havia usado. Quem sabe. Poderiam ter sido pombos,
como a Dama Branca.
— Você contratou deliberadamente um guia suspeito, alguém que você pensou estar em conluio com
bandidos. Então, você disse a cada um deles que descansaria em um local diferente, para saber onde poderia
ser atacado. Seria para ter certeza de qual dos guias estava limpo? E se ambos estivessem sujos? — Chue
ergueu as mãos em um gesto de rendição.
— Era só um deles! — ela disse alegremente.
— Eu sabia exatamente quem era o outro.
— Isso foi por ordem do Príncipe da Lua? — Maomao implorou a Jinshi para usá-la como uma
ferramenta, então uma situação como essa não era completamente inesperada. Mas era fora do comum para
ele.
— Não, não foi. Você acertou; eu comprei a capa para você.
- É assim mesmo?
Então provavelmente não era Jinshi. Chue pertencia a alguma cadeia de comando que não o incluía?
— Você dificulta muito a vida da Srta. Chue, Srta. Maomao, sendo tão esperta. Sabia disso?
— Você não facilita a minha vida, Srta. Chue, com o jeito que eu nunca sei o que você está
pensando.
Ambos suspiraram.
— Senhorita Maomao, tenho dois pedidos.
- Sim?
— A Srta. Chue é sempre a mesma pessoa alegre e tranquila que ela, então, por favor, sempre trate a
Srta. Chue como você trataria a Srta. Chue.
Ela puxou um cordão de bandeirinhas. Shoop.
— Eu ... não tenho certeza do que isso significa, mas tudo bem.
Maomao pegou a corda e a deixou pendurada em seus dedos, sem saber o que mais fazer com ela.
— Nesse caso, Srta. Maomao, a Srta. Chue tem mais um pedido para você. E vem acompanhado de
uma pergunta.
- Sim?
— O que fez você pensar que aquela capa linda e cara não poderia ter vindo do Príncipe da Lua? —
Ela parecia genuinamente curiosa.
— Eu só pensei que se ele me desse algo assim, seria de boa qualidade, mas mais discreto. Mais
prático.
— É só isso?
— É onde estamos agora.
Jinshi começou a entender as preferências de Maomao. Chue estreitou os olhos e olhou para a
entrada da tenda.
— Sinto muito incomodá-lo — disse uma mulher do lado de fora.
— Sim? Entre — disse Maomao, e ouviu-se um farfalhar de feltro.
— Com licença — disse uma mulher de meia-idade, olhando para dentro.
Ela estava segurando as rédeas.
— Trouxe três cabras, como você pediu. O que você quer que eu faça com elas?
— Ótimo! Obrigado. Aqui está o pagamento.
Chue colocou algumas moedas na mão da mulher. Ela devia ter pedido por aqueles animais antes de
vir à tenda. Será que ela planejava levar aquelas cabras para casa? Se ela só quisesse comê-las, seria mais
barato comprar algumas que já tivessem sido mortas e abatidas – e ela não precisaria de três delas. Entre as
cabras e o pato, eles estavam a caminho de ter sua própria fazenda. Chue pegou as rédeas das cabras e
vasculhou sua bagagem até encontrar uma bolsa que parecia pesada.
— O que é isso?
— É sal! Não estamos perto do oceano, e não se encontra sal grosso por aqui, então o sal é um bem
precioso. Um que nossas amigas cabras adoram!
— E para que serve esse sal?
Maomao não conseguia imaginar aonde Chue queria chegar com aquilo. Chue sorriu.
— Negociando! Com as cabras e o sal. A Srta. Chue é pacifista, sabe? Ela gosta de fazer as coisas
discretamente quando pode. Estou com sono, mas preciso resolver um assunto. Descanse sua pobre e cansada
pessoa, Srta. Maomao.
Chue girou de volta para a entrada da tenda e então ela desapareceu, com cabras e tudo.
Capítulo 7: A Vila da Fazenda (Parte 2)
O irmão de Lahan olhou fixamente para a terra. Ele se abaixou para verificar como era, e até colocou
um pouco na boca, depois cuspiu novamente.
— O que você acha? — perguntou Maomao, observando-o trabalhar.
O dia de um fazendeiro começava cedo. O sol mal começava a despontar no horizonte, mas o irmão
de Lahan já estava de pé e andando. Maomao estava tão cansada que não conseguia dormir direito, e então
ouviu os sons dos fazendeiros acordando logo de manhã. Eles estavam nos campos da aldeia agrícola onde
haviam chegado no dia anterior. Na noite anterior, haviam pedido permissão ao chefe para vir até ali, então lá
estava o irmão de Lahan sem mais delongas. O trigo começava a brotar no campo. Maomao se perguntava se
as ovelhas e cabras o comeriam, mas, exceto quando eram colocadas no pasto, os animais estavam em
segurança dentro de uma cerca, então talvez tivesse dado certo.
— Acho que o solo está bom, e eles o mantêm bem irrigado. Na verdade, seria de se desejar um solo
um pouco mais pobre por aqui .
— É melhor se o solo não for tão nutritivo? — perguntou Chue, colocando a cabeça para fora.
E pensar que ela não pode ter ido dormir mais cedo do que eu ontem à noite. Ela havia retornado em
algum momento da madrugada — suas negociações devem ter sido longas. Apesar disso, ela parecia
perfeitamente enérgica. Maomao achou melhor não perguntar sobre o que exatamente ela estava negociando.
Chue insistira que Maomao a tratasse como sempre, então Maomao ficou quieta. O irmão de Lahan se
levantou e observou o campo.
— Ao contrário da maioria dos vegetais, as batatas crescem melhor se o solo não for muito rico. As
plantas de batata-doce, se houver muitos nutrientes no solo, só produzem um monte de folhas, e nada de
batata. As batatas brancas ficam propensas a doenças .
— Ah, sim, claro. Aliás, pão sozinho não é lá grande coisa para um café da manhã, então vou fazer
um mingau também.
— Por favor, faça isso, seria maravilhoso — Chue estava descascando uma batata-doce.
— O que você pensa que está fazendo?! — perguntou o irmão de Lahan, arrancando-o dela mais
rápido que um raio.
— Awww — disse Chue, girando teatralmente.
— Isto é estoque de sementes! Para plantar! Não para comer!
— É, mas aqui só tem trigo! Quase não tem arroz. Achei que uma batata daria uma forcinha.
— Mingau de batata parece uma boa opção.
Maomao percebeu que seu estômago estava roncando. Um mingau gostoso e consistente seria
melhor do que pão para começar o dia.
— Vamos plantar isso! Você não pode comer! — disse o irmão de Lahan, como se estivesse
repreendendo uma criança.
Ele soava estranhamente como o Frizzy-Glasses. Talvez fosse porque eram irmãos. Uma ovelha
próxima olhou para cima e lançou um olhar de reprovação.
— Baa! — como se dissesse — Fale baixo!
— Argh... Não vou mais poder usar isso como caldo — gemeu o irmão de Lahan, olhando
miseravelmente para a batata meio descascada.
— Então será um café da manhã delicioso!
— Suspiro... Acho que é melhor assim.
— Mas não sozinho! Vou precisar de pelo menos mais três!
— Não! De jeito nenhum!
O Irmão de Lahan disparou, parando Chue antes que ela pudesse fazer mais alguma travessura. Os
punhos de Maomao se cerraram. De fato, ela viu, aquele homem tão comum tinha seu lugar para brilhar: era
quando zombava de alguém que o Irmão de Lahan se destacava.
— Certo, vamos esquecer o café da manhã por um segundo. Você acha que podemos cultivar aqui?
Pessoalmente, Maomao gostaria de ter observado um pouco mais dessa troca de farpas, mas se não
mantivesse as coisas em andamento, elas nunca chegariam a lugar nenhum. O irmão de Lahan cruzou os
braços.
— Este lugar é muito parecido com a província de Shihoku. Não tão ao norte, mas, em termos de
clima, é mais propício para batatas brancas do que para batatas-doces. É mais frio que a província de Kaou.
— Acho que está frio mesmo. Engraçado, achei que estava bem quente na capital ocidental.
Na verdade, meus ouvidos doem um pouco, pensou Maomao, apertando o nariz e assoando para
acalmar.
— Estamos muito mais acima do nível do mar aqui do que na capital ocidental.
- Eu acho que sim.
— É mesmo? — Chue tirou um mapa das dobras do seu manto.
— A Srta. Chue lê muito bem mapas, mas este não lista as elevações. Não é de se admirar que o ar
pareça tão rarefeito aqui!
— Eu sei porque meu pai me contou tudo — disse a pessoa normal, estufando o peito.
— A temperatura permanece alta na capital ocidental porque o deserto é muito próximo. Por aqui, é
um pouco frio mesmo durante o dia — disse Chue.
Maomao estava apenas agora começando a perceber, em um nível visceral, quão diferente o clima
poderia ser, mesmo dentro de uma única província.
— Você realmente acha que as batatas não vão crescer?
— Não tenho certeza. Para batata-doce, temperaturas como as da província de Kaou na primavera e
no início do verão são ideais, e não há nada parecido aqui, nem no deserto nem nas montanhas. Talvez valha
a pena plantar algumas só para ver, mas acho que batatas comuns podem ser mais fáceis de cultivar. Só tem
um problema ... — O irmão de Lahan parecia completamente irritado.
Havia claramente algo naquela situação que o desagradava. De repente, ele se lançou em direção ao
meio do campo e começou a pisar no trigo, que ainda era pouco mais alto que grama — talvez os fazendeiros
tivessem se atrasado no plantio.
— O que você está fazendo? Acho que eles vão ficar muito bravos com você! — disse Chue, embora
só ficasse parada, observando.
— Eu é que estou bravo! Olha só quantos brotos tem neste trigo! Eles não pisaram nada!
— Pisou nele?
Maomao inclinou a cabeça, confusa, enquanto observava o irmão de Lahan cruzar o campo como um
caranguejo com inclinação para a agricultura.
— É preciso pisar no trigo para estimular os perfilhos. Isso também torna as raízes mais fortes e o
trigo mais resistente. Mas olhem para este campo! Eles não estiveram aqui nenhuma vez! E nem em nenhum
outro campo! Mais perfilhos significam mais espigas! Mais espigas significam mais colheita! Mas olhem
para estas plantações patéticas!
— Uau. Aí está um verdadeiro fazendeiro para você.
— Quem é fazendeiro?!
Hum... Quem mais? O irmão de Lahan continuou sua ridícula caminhada de caranguejo pelo trigal.
Ele podia não saber, não gostar ou não querer admitir, mas era um fazendeiro de corpo e alma. Chue deve ter
achado que pisar no trigo parecia divertido, porque se juntou ao irmão de Lahan para andar de um lado para
o outro pelo trigal. Nesse momento, ficou claro que, se Maomao não se juntasse a eles, aquilo nunca
acabaria. Eles ainda estavam caminhando de caranguejo quando os aldeões começaram a acordar e, em
seguida, começaram a se aglomerar e a olhar boquiabertos, observando o comportamento bizarro dos
visitantes a uma distância segura. Basen surgiu do meio da multidão.
— O que você está...fazendo? — ele perguntou.
Pessoalmente, Maomao não queria ser interrogado sobre comportamento estranho por um homem
com um pato no ombro.
— Não se pode chamar o que fazem aqui de agricultura!
O irmão de Lahan exclamou de seu lugar no tapete.
— Por favor, fale baixo durante as refeições, ok? — disse Chue.
Ela estava enfiando pão nas bochechas como um esquilo. Maomao e os outros tinham voltado para a
barraca e decidiram começar tomando café da manhã. Havia pão achatado com espetinhos de carne de ovelha
e baozi. Na lareira, havia uma panela fervendo com uma sopa de trigo e carne de ovelha. Eles supostamente
estavam bebendo chá, mas não era como nenhum chá que Maomao já tivesse tomado. A cor era mais clara
do que a maioria e era feito com leite de cabra em vez de água quente. Parece que laticínios e carne animal
são os alimentos básicos aqui. Não há muitos vegetais. Provavelmente haveria ainda menos se esta não fosse
uma vila agrícola. Todos comeram juntos na grande barraca. O mingau de Chue não ficou pronto a tempo,
então seria o jantar. A batata descascada tinha sido cortada finamente e estava cozinhando na lareira. Basen
sentou-se em frente à lareira, então Chue, Maomao e o irmão de Lahan puderam sentar-se em algum lugar
aquecido. Os outros que os acompanhavam, incluindo os soldados que os guardavam, sentaram-se ao redor
deles em uma espécie de círculo. A sopa estava quente, mas tinha um gosto fraco; Maomao pediu um pouco
de sal a Chue e colocou uma pitada em sua tigela. Os espetinhos eram muito mais saborosos do que qualquer
coisa que se pudesse comprar em uma barraca de rua na capital imperial. O pão que servia de bandeja era
duro; era preciso quebrar pedaços dele e mergulhá-los na sopa. Colocava-se um pouco de queijo aquecido
por cima, e ficava delicioso. Quanto aos vegetais, havia alguns na sopa e embalados no baozi, mas a
quantidade deixava a desejar.
— Por que eles não sabem cultivar o trigo? Estou te dizendo, essa é a questão! Você tem noção de
como a colheita seria melhor se eles pisassem na plantação?
— Tenho certeza de que você tem toda a razão. Se você não vai comer seu queijo, posso ficar com
ele?
— Ei! Eu nem respondi e você já está comendo — Chue pegou o queijo do prato do irmão de Lahan
num único movimento rápido.
Ela não precisa fazer isso. Queijo era uma das coisas que havia em abundância. Ela parecia estar
tirando do irmão de Lahan só para irritá-lo. Enquanto Maomao e os outros comiam, conversavam sobre o
que havia acontecido nos campos mais cedo naquele dia.
— Deveríamos estar aqui para uma inspeção nas fazendas. Então, o que você viu, Irmão de Lahan ?
— perguntou Basen, que já parecia estar observando .
— Irmão de Lahan — como seu nome.
Normalmente, ele poderia ter sido mais meticuloso ao perguntar seu verdadeiro nome — era quase
como se houvesse alguma força sobrenatural em ação.
— Eu não sou... Eu te disse, meu nome é.
— Você trouxe aquelas batatas-semente. Provavelmente pretende plantá-las — interrompeu
Maomao.
— Eu te disse, Lahan disse para plantá-los se houvesse algum lugar bom. E já que ele me pediu,
sinto que tenho que atender ao seu pedido, mesmo que ele seja meu irmão mais novo, sem importância ...
Ele é um cara surpreendentemente honesto para alguém com uma família tão terrível. Mesmo assim,
o irmão de Lahan exalava algo que dava vontade de mexer com ele.
— Certo, então você mencionou os campos de trigo. Há algum problema?
— Grandes! Essas pessoas aqui realmente acreditam que montaram esses campos corretamente?
O irmão de Lahan tomou um gole de sopa.
— Admito que não sou especialista, mas eles realmente merecem ser falados desse jeito só porque
não pisaram no trigo ou algo assim? — perguntou Basen.
Maomao concordou com ele. A pisada do trigo melhorava a colheita, sem dúvida, mas não era como
se o trigo não crescesse sem ela. Talvez essas pessoas estivessem ocupadas com outras coisas, e a pisada do
trigo simplesmente tenha ficado em segundo plano. De qualquer forma, a criação de gado era mais
importante na Província de I-sei.
— Não é só a pisada. Os métodos de plantio deles são muito diferentes. Eu sei que eles fizeram
semeadura direta, mas é preciso pelo menos espaçar as sementes uniformemente! Isso sem falar que eles
começaram a plantar tarde demais na estação. E precisam de mais fertilizante — muito mais! A cor do solo
estava tão irregular!
— Nossa, você realmente entende do assunto. Batata?
— Eu não entendo nada! E estou farto de comer batatas!
Maomao não tinha tais objeções; ela ficou feliz em aceitar a batata-doce assada de Chue. Era
perfeitamente doce e deliciosa por si só – mas, ao espalhar um pouco de manteiga, ela ganhou uma dimensão
extra de riqueza. Chue evidentemente compartilhava da apreciação de Maomao, pois discretamente pegou
algumas delas, cortou-as e começou a cozinhá-las. Maomao entendeu o que o irmão de Lahan queria dizer,
mas até ela conseguia pensar em uma possível resposta.
— Os métodos de cultivo não variam de região para região? Talvez, com a criação de tanto gado
aqui, o trigo não seja considerado tão importante. Por que desenvolver técnicas refinadas para trabalhar com
uma cultura secundária?
— Você não está errado. Estou dizendo que o problema aqui não é ignorância, é indiferença. Eles
nunca vão conseguir uma colheita considerável com o que estão fazendo agora. Essas pessoas conhecem as
técnicas, só não se preocupam em usá-las.
— Porque eles têm outras fontes de renda, certo? É algo tão grande assim? — perguntou Basen,
tomando um chá com leite.
— É isso que eu estou dizendo!
— Você quer dizer, por que eles se esforçariam para fazer uma agricultura ruim quando podem
ganhar dinheiro de outras maneiras, é isso? — disse Maomao.
Ela achou que tinha entendido o que o irmão de Lahan queria dizer.
— S...Sim. É isso que eu quero dizer — disse o irmão de Lahan, relaxando um pouco agora que
finalmente sentia que alguém o entendia.
— Não entendi — disse Basen.
— Isso também não faz sentido para a Srta. Chue. Explique de um jeito que ela entenda — disse
Chue.
— Se eles podem se alimentar apenas com pastoreio nômade, por que não fazer isso? — disse
Maomao.
— Estabelecer-se em um lugar para plantar só torna a criação de gado muito mais difícil. O que
implica que havia alguma vantagem em viver sedentariamente que justificava a troca.
— É. Você ficaria exausto tentando fazer esse tipo de coisa enquanto viaja — observou Basen.
— Isso mesmo. Não é incomum que pastores nômades se estabeleçam e se tornem agricultores —
incluindo, ao que parece, o dono desta tenda. Então, eles se tornaram agricultores porque não tinham outra
escolha ou porque acreditavam que havia algum benefício específico nisso? Se o fizeram voluntariamente,
pelas vantagens, você não esperaria que estivessem mais interessados em melhorar suas colheitas? — O
irmão de Lahan assentiu assiduamente à explicação de Maomao, embora os outros dois continuassem
perplexos.
— Acho que não sou muito de explicar. Isso faz algum sentido? — ela perguntou.
— Quer dizer... eu entendo que tem algo errado aqui — disse Basen.
— É difícil colocar em palavras, não é? — disse Chue.
Maomao gemeu e deu uma mordida na batata, que havia esfriado. Não havia nada remotamente doce
por ali, então a doçura da batata era ainda mais pronunciada. Nesse momento, Maomao olhou para a entrada
da tenda. Duas crianças observavam os visitantes com interesse. Um menino e uma menina de cerca de dez
anos, provavelmente irmãos.
— Quer um pouco? — perguntou Maomao.
As crianças pareceram um pouco intimidadas, mas estenderam a mão para pegar a batata-doce, que
nunca tinham visto antes. Cada uma deu uma mordida e seus olhos se arregalaram.
— Podemos ter mais? — eles perguntaram.
— Pode. Mas talvez você possa me responder algumas perguntas primeiro — disse Maomao.
Como as crianças tinham vindo direto até eles, esta seria a oportunidade perfeita para obter algumas
informações. Depois do café da manhã, eles passearam pela vila com as crianças.
— Suas famílias estão cuidando dos campos como deveriam? Eles não estão economizando, estão?
— Chue perguntou aos irmãos, sem rodeios.
O irmão e a irmã trocaram um olhar.
— Mas não dá para economizar em um campo, né?
— Sim, você pode?
— Não acho que crianças tão novas vão entender o que você quer dizer, Srta. Chue.
— Você acha que não, Srta. Maomao? — Ela deu outra batata cozida para as crianças.
— Os adultos dizem que podem ganhar dinheiro para começar os campos. Mas não sei se é isso que
significa economizar.
— Dinheiro? Você quer dizer da venda do trigo? — O irmão mais velho balançou a cabeça.
— Não, não. Hum... Dizem que você ganha o dinheiro mesmo sem plantar, então a vida é fácil...
— Ei! Crianças! Nós avisamos para vocês ficarem longe dos convidados!
Um dos adultos rugiu, e os irmãos saíram correndo, assustados , mas não o suficiente para derrubar
suas batatas.
— Não! Esperem! — Maomao gritou para eles, mas era tarde demais.
Eles já tinham ido embora. Então, eles recebem mesmo que não cultivem nada? Isso soou suspeito.
Se fosse verdade, explicaria por que eles não sentiam nenhuma obrigação de cuidar das plantações.
— Desculpe. Essas crianças fizeram alguma coisa errada? — perguntou Maomao.
— Não, nada — disse o aldeão, embora continuasse a lançar um olhar de desculpas a Maomao e aos
outros.
Nesse caso, Maomao desejou não ter gritado. Ele havia afugentado dois jovens informantes muito
dóceis. Maomao gostaria de ter perguntado um pouco mais sobre o dinheiro supostamente naqueles campos.
Não parece que estejam escondendo nada, pensou ela enquanto continuavam a caminhar pela aldeia. Ao que
tudo indicava, era tranquilo, pacífico. Nada de extraordinário. Não havia lojas comerciais dignas de nota; as
pessoas, em sua maioria, se sustentavam. Disseram que um comerciante aparecia a cada dez dias. Os aldeões
se mostraram gentis e amigáveis. Era difícil imaginar que estivessem fazendo algo errado. Talvez as crianças
tenham entendido mal alguma coisa, e agora estamos pensando demais. Havia um homem, no entanto, que
parecia estar levando isso muito mais a sério do que Maomao.
— Pobre Gege! Você parece prestes a destruir alguma coisa. Tente sorrir! — disse Chue, sempre
pronto para dar trabalho ao Irmão de Lahan.
O irmão de Lahan franziu a testa e olhou para os campos da aldeia. Ele carregava um saco cheio de
batatas-semente. Nominalmente, eles estavam ali em uma excursão de inspeção, mas ele viera em busca de
uma boa oportunidade para introduzir essa nova safra — e se ele ia dar às pessoas algo novo para cultivar,
sem dúvida gostaria que elas se interessassem um pouco mais por isso. O irmão de Lahan sempre negou
veementemente ser agricultor, mas era profundamente devotado às artes agrícolas. Ele era um homem
comum, bom e paradoxal. Ele também poderia ter negado ser comum, mas o princípio que motivava seu
comportamento parecia tão normal quanto o de qualquer outra pessoa. O mundo está cheio de filhos mais
velhos que não estão realmente interessados em herdar a chefia da família, pensou Maomao, mas imaginou
que, se apontasse isso para o irmão de Lahan, ele só ficaria bravo. A coisa mais eficiente poderia ter sido se
separarem e cada um começar a fazer suas próprias perguntas, mas eles não podiam fazer muito alarde de
marchar por aí. O espírito patriarcal estava vivo e bem na província de I-sei, e uma mulher estranha andando
sozinha de um lado para o outro dificilmente seria bem recebida. Eles poderiam designar um guarda-costas,
mas seria Maomao quem falaria mais, então isso não resolveria o problema. Chue não parece ter problema
em cuidar de suas próprias coisas, no entanto. Ela alegou ter negócios a tratar e desapareceu em algum lugar.
Ela podia ser estranha, mas Suiren a aceitou, então provavelmente estava segura. A melhor aposta de
Maomao seria convencer o irmão de Lahan ou Basen a fazer perguntas em seu nome. Se tivesse que escolher
um deles, escolheria o irmão de Lahan — Basen estava sendo seguido por um pato, e os aldeões o olhavam
de forma estranha. Felizmente, Maomao não precisou convencer o irmão de Lahan a fazer nada — ele já
estava fazendo o que ela queria. Ou seja, perguntar aos aldeões se houve algum dano causado por insetos
ultimamente.
— Insetos, hein? — disse um dos moradores.
— Sim. Os insetos não estavam especialmente ruins no ano passado?
— Hmmm... Bem, tem pragas que aparecem todo ano. Ano passado, como em todos os outros. Elas
causaram muitos estragos, claro, mas de alguma forma conseguimos sobreviver. Podemos agradecer ao
governador por termos comida para colocar na mesa.
O governador. Seria Gyoku-ou? Então os gafanhotos eram ruins, mas não o suficiente para consumir
toda a plantação?
— Hum. Tudo bem. Mais uma coisa, então. Aquele campo ali ... de quem é? Gostaria de
conhecê-los.
O irmão de Lahan apontou para um dos campos de trigo.
— O quê, aquilo? Ah, aquele é o campo do Nianzhen. Ele é um senhor idoso, mora nos arredores da
cidade. É impossível não notar a casa dele — tem um santuário bem ao lado.
— Obrigado. Vou dar uma olhada.
— Você não pretende mesmo ir vê-lo, pretende?
O aldeão parecia visivelmente desconfortável.
— Sim. Algum problema com isso?
— Olha, eu não vou te impedir. É que... O velho às vezes te pega de surpresa. Mas ele não é má
pessoa. Se isso não te incomoda, acho que está tudo bem.
Havia algo de engraçado no tom do aldeão. Na verdade, isso os deixou ainda mais curiosos. Maomao
e os outros seguiram para os limites da cidade, como o aldeão lhes havia dito.
— Com licença — disse Maomao, puxando o manto do irmão de Lahan.
- Sim?
— O que faz você se interessar tanto por esse campo específico?
— Não percebe? É a única bonita que existe.
- Bonito?
Talvez houvesse melhores descrições para um campo, ou talvez coisas melhores para descrever como
bonito, mas o irmão de Lahan estava falando sério.
— Os outros campos estão dispersos, mal distribuídos — só aquele está bem dividido em seções.
Também foi pisoteado — há trigo bom e forte crescendo lá.
— Se você diz.
Quando ele mencionou isso, ela pensou que talvez pudesse ver, mas, infelizmente, Maomao não
tinha muito interesse em trigo. Parece que não há capim-mondo por aqui... Pensar em trigo a levou
naturalmente a pensar em plantas medicinais. A planta que ela tinha em mente, porém, às vezes chamada de
barba-de-cobra, na verdade não tinha nada a ver com trigo. Especificamente, ela pensou nas raízes. Trigo
com ergot poderia ser usado medicinalmente, embora suas propriedades tóxicas tendessem a receber mais
atenção. Como ainda não havia espigas, era difícil para ela demonstrar muito interesse. Não há plantas boas
em lugar nenhum por aqui! Maomao estava à beira de sofrer de uma falta crônica de ervas medicinais, uma
condição agravada pela grande variedade de remédios que ela conseguia encontrar desde que se tornara
assistente médica. Medicamentos! Quero ver alguns remédios... Só de pensar nisso, ela teve um ataque
repentino, sua respiração ficando ofegante. Não havia nenhum remédio bom sequer à beira da estrada no
caminho para cá.
— E-Ei, você está bem? Você não parece muito bem — disse o irmão de Lahan, preocupado.
— P-Desculpe. Não é nada ...
Fácil de dizer, mas ela queria ver algumas drogas. Cheirá-las. Ela tomaria qualquer coisa, mesmo que
fosse venenosa. O que havia por perto que pudesse servir de remédio? Talvez as ovelhas pastando
preguiçosamente nos campos. Você pode usar os chifres delas como remédio? Não me lembro bem... Ela
pensou que se chamava ling yang jiao, e yang significava " ovelha ". No entanto, aquelas deviam ser de um
tipo diferente de ovelha, porque seus chifres não se pareciam em nada com os medicinais que Maomao vira.
Talvez ainda tivessem um efeito semelhante... Com os braços estendidos como um ghoul faminto, Maomao
estendeu a mão para a ovelha mais próxima da cerca.
— Uau! Ei! Eu sabia que tinha algo errado com você! — O irmão de Lahan prendeu as mãos dela
atrás das costas.
Maomao tinha plena consciência de que seu comportamento era errático, mas seu corpo parecia agir
por conta própria. Ela só precisava de remédio — qualquer remédio!
— M...Medicamento — ela sussurrou, tentando persuadir o irmão de Lahan a lhe trazer algum tipo
de droga, qualquer coisa.
— Remédio? Você está doente?
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Basen, aproximando-se com seu pato.
— Ela diz que precisa de remédio.
— Ela tem? Pensando bem, Lady Suiren me deu uma coisa antes de partirmos.
Basen tirou um objeto envolto em pano das dobras de seu manto.
— Ela disse que se o 'gato' começasse a agir de forma estranha, eu deveria mostrar isso a ela.
O pacote estava marcado com "Um". Ele o desembrulhou lentamente: continha algo seco.
— C-Cavalo-marinho!
Talvez mais conhecido pelo nome de bastardo do dragão. Formas de vida subaquáticas bizarras, nem
tão peixes nem tão insetos. Basen prontamente escondeu a criatura seca novamente.
- Não!
— Hmm, vamos ver aqui — disse Basen, examinando um bilhete que estava dentro do pacote.
— Quack! — grasnou o pato, lendo por cima do ombro.
— Se Maomao começar a agir de forma estranha, mostre a ela o conteúdo deste pacote. No entanto,
você não deve deixá-la ficar com ele imediatamente. Assim que o trabalho estiver concluído, ela poderá ficar
com um deles.
Era Basen quem lia o bilhete, mas de alguma forma Maomao ouviu a voz de Suiren. É ela e aquela
velha bruxa... Suiren não lidava com Maomao da mesma forma que a madame da Casa Verdete , mas tinha
seus métodos — e eles funcionavam. Ela já vira Jinshi balançar prêmios medicinais na frente da apotecária
tantas vezes que sabia o que funcionava com Maomao. O fato de ter dado aquilo a Basen, até o bilhete,
provava que ela ainda o via como um garotinho dócil que precisava de uma babá para lhe mostrar como fazer
Maomao fazer o que ele queria.
— Você ouviu a moça — disse Basen.
— Você se recuperou do seu pequeno ataque?
— Sim, senhor! Melhorou bastante!
Ela levantou as mãos no ar para demonstrar.
— Como pode ser? Quem já ouviu falar de um remédio que funciona só de olhar?! — perguntou o
Irmão de Lahan, sem deixar de interromper.
— Dizem que a doença começa no espírito. De qualquer forma, não se preocupe com isso.
Precisamos nos apressar e fazer o nosso trabalho — disse Maomao.
E pegue aquele cavalo-marinho! Diziam que cavalos-marinhos aumentavam a vitalidade.
— Não, pare. Isso não faz sentido. Tem alguma coisa errada aqui. Tem alguma coisa errada aqui!
— Não sei, irmão do Lahan. O jeito como você se repete me lembra alguém ...
Mais especificamente, alguém com cabelo despenteado e óculos.
— Eu já disse, meu nome não é Irmão do Lahan! É ...
— Bem, é melhor irmos. O tempo está passando — disse Basen, interrompendo o Irmão de Lahan
antes que ele pudesse dizer seu nome — já era praticamente uma piada recorrente. Eles teriam que tomar
cuidado para que não se prolongasse demais. O fazendeiro falara de um santuário, mas não se parecia muito
com os santuários aos quais Maomao estava acostumado. Era feito de tijolos e não tinha janelas. Dentro,
havia um pano pendurado e, no lugar de uma estátua, uma pintura dos deuses na parede. Ao lado do
santuário havia uma cabana, aparentemente a casa que o aldeão mencionara.
— Tudo bem, vamos lá — disse o irmão de Lahan, que ainda não parecia achar que aquilo era uma
boa ideia.
Ele bateu na porta. Depois esperou. Não houve resposta.
— Talvez ele esteja fora?
— Você acha que ele está no trabalho? Tenho certeza de que ele tem que cuidar de alguma ovelha, do
campo ou algo assim.
Já era quase hora do almoço, então esperava-se que ele voltasse logo. Nesse momento, uma voz
baixa e rouca veio de trás deles.
- Posso ajudar?
Maomao e os outros se viraram e encontraram um homem mais velho, de pele bronzeada, parado ali.
Ele tinha uma enxada nas mãos e um pano enrolado no pescoço — a própria imagem de um fazendeiro. Suas
roupas, remendadas em alguns lugares, estavam manchadas de terra escura. Sim, ele era um fazendeiro, sim
— mas a mão de Basen imediatamente foi até a espada e ele assumiu uma posição de combate. Maomao
entendeu o porquê.
— Ei, o que você pensa que está fazendo? Vai agredir um simples fazendeiro?
A pele bronzeada do homem estava coberta de descolorações, algumas pela idade, outras pelas
longas horas passadas sob o sol escaldante. Não foram essas, no entanto, que assustaram Basen. Não, seria a
falta do olho esquerdo do homem. A cavidade se abria em seu rosto, o globo ocular simplesmente ausente.
Sua mão direita, agarrada à enxada, estava sem o dedo indicador, e sua pele exposta estava coberta de
cicatrizes de espadas e flechas. Maomao viu por que o aldeão pareceu tão intimidado e por que Basen reagiu
instintivamente. Este homem não tinha o ar de um fazendeiro, mas de um soldado.
— O senhor serviu no exército? — perguntou Basen, com cuidado para parecer educado.
— Nada tão especial assim. Eu era só um gafanhoto causando problemas nas planícies.
Gafanhoto... Uma escolha de palavras impressionante. E havia algo mais que incomodava Maomao.
— Você andou trabalhando no campo? — perguntou ela, sem conseguir se conter. Havia a enxada
nas mãos dele e a lama na camisa — ela reconheceu as manchas.
O que mais você acha que eu estaria fazendo? — perguntou o homem, embora não parecesse
particularmente incomodado.
A pergunta de Maomao parecia, de fato, óbvia, mas algo lhe ocorreu enquanto olhava para os
campos da vila.
— Eu simplesmente não imaginava que alguém normalmente se sujasse tanto fazendo trabalho de
campo.
Você não ficaria tão sujo assim nem cuidando do trigo, não nesta época do ano. A poeira dos campos
estava seca; contanto que não se esforçasse para usar terra úmida, não deveria ter grudado assim.
— Diga-me, um homem chamado Rikuson passou por aqui?
— Hrm... Vocês são amigos dele?
O fazendeiro piscou para eles com um olho e então abriu a porta do galpão.
— Entre. Posso te oferecer leite de cabra, pelo menos.
Ele encostou a enxada na parede e os fez entrar. O velho era de fato Nianzhen, e sua casa era tão
simples por dentro quanto por fora. É muito parecida com a minha casa, na verdade, pensou Maomao,
imaginando sua cabana no bairro de lazer. Nianzhen tinha uma lareira, uma cama dobrável e uma mesa bem
modesta; era só isso, tirando os implementos agrícolas. Sua casa parecia ser dedicada à agricultura, assim
como a de Maomao era à medicina. A julgar pelo cômodo, ele parece um homem bem simples. Aquelas
cicatrizes por todo o corpo, porém, não pareciam as marcas de um homem que ganhava a vida como um
fazendeiro honesto. Havia três cadeiras lá dentro. Nianzhen deixou os convidados sentarem, enquanto ele
permanecia de pé e servia leite de cabra em xícaras de chá lascadas. O pato ciscava o chão de terra. Algum
grão devia ter caído ali.
— Você tem razão — um homem chamado Rikuson passou por aqui. Deve ter sido há uns dez dias.
Apenas um dia antes de Maomao e os outros o encontrarem na capital ocidental.
— Você sabe por que ele veio aqui? — perguntou Maomao.
Ela havia planejado originalmente deixar Basen ou o irmão de Lahan falarem, mas como ela havia
mencionado Rikuson, ela cuidaria da conversa.
— O que ele veio fazer aqui? Ele só pegou uma enxada e me ajudou a arar.
— Arar? Quer dizer, para se preparar para o plantio da primavera?
O trigo podia ser cultivado em duas estações. As sementes plantadas no inverno podiam ser colhidas
na primavera ou no início do verão, enquanto as sementes plantadas na primavera podiam ser colhidas no
outono.
— Não, não. Preciso fazer o plantio da primavera, mas não era disso que se tratava.
Nianzhen colocou o leite de cabra na mesa e deslizou as xícaras para Maomao e os outros. Basen
parecia não ter muita certeza sobre aquela bebida desconhecida, mas Maomao ficou grata pela oportunidade
de molhar a garganta. Era leite de cabra normal – morno, mas sem nada de estranho.
— Pode parecer um pouco exagerado, mas pedi que ele me ajudasse com o ritual.
— Ritual? — perguntou Maomao.
Basen e o irmão de Lahan trocaram olhares, tão confusos quanto ela.
— Você quer dizer algum tipo de cerimônia para rezar por uma boa colheita?
— Mais como para evitar algo ruim .
— Desculpe... Está um pouco difícil para mim entender. Você poderia explicar melhor?
Em resposta, Nianzhen sentou-se na cama, com a língua para fora. Seus modos nada refinados
estavam à mostra.
— Vocês estão dispostos a ouvir um velho tagarelar um pouco? Os aldeões com certeza não.
— Escute, senhor, não temos muito tempo a perder — disse Basen, ficando irritado.
— Ah, bem, com licença.
Nianzhen deitou-se e rolou na cama. Maomao levantou-se e ergueu a mão para impedir Basen.
— Senhor, desculpe. Por favor, diga-nos o que tem a dizer.
Ela baixou a cabeça. Desculpas eram de graça, afinal. Se ele ia ficar tão irritado com isso, ela podia
muito bem pedir desculpas.
— Hrrm, não sei — disse Nianzhen.
Vindo de outra pessoa, poderia ter soado brincalhão. Vindo dele, soou sádico.
— Acho que não tenho mais vontade.
— Cuidado com a sua atitude!
Basen estava prestes a avançar, mas Maomao o deteve novamente. O irmão de Lahan,
desacostumado a conflitos, tornara-se um espectador. Sei que ele é cabeça-quente, mas gostaria que parasse
de provocar brigas. Ela conhecia a força de Basen e duvidava muito que um velho tivesse chance contra ele.
Mas quem sabe? Às vezes, esses velhos teimosos se mostram mais durões do que se imagina. Talvez Basen
pudesse superar o velho fisicamente, mas e se ele simplesmente se recusasse a admitir a derrota e se calasse?
Isso seria ruim para nós. Ela tinha a sensação de que Nianzhen estava apenas sendo teimoso. Ele os deixara
entrar em sua casa quando mencionaram Rikuson — ela suspeitava que havia algo que ele realmente queria
desabafar.
— O que podemos fazer para que você fale conosco? — disse Maomao, o mais humilde que pôde.
— Hum. Que tal um joguinho de adivinhação?
— Senhor? O que exatamente devemos adivinhar?
— Simples. O que eu costumava ser.
Sim, simples. Se eu soubesse o que ele quis dizer. Basen e o irmão de Lahan ainda se entreolhavam.
O pato fez o que Basen não conseguiu e bicou os pés do velho.
— Tudo bem, vou tentar — disse Basen, mas Nianzhen acenou com a mão com poucos dedos.
— Não estou perguntando, garoto. Estou falando com a garota ali.
— K-Criança?
Basen se forçou a se controlar. Para um homem velho e cheio de cicatrizes como aquele, ele não
passava de um jovem impetuoso. Então, apenas Maomao tinha o direito de responder. A questão era: o que
ela deveria dizer? Nianzhen... É um nome bom e forte. Significava " intuir a verdade ". Espero que ele seja
tão honesto quanto seu nome sugere e que tudo o que ele nos disse seja verdade, pensou ela, revendo
mentalmente o que ele havia dito. Nianzhen se autodenominava gafanhoto — um inseto nada favorável para
um fazendeiro. Então ele devasta plantações? Nianzhen não tinha o dedo indicador nem o olho esquerdo.
Normalmente, um fazendeiro não se machuca tanto assim. Mas ele diz que nunca esteve no exército. Deve
ter pelo menos participado de algum tipo de batalha. Várias, a julgar pela extensão de seus ferimentos. Sem o
dedo, ele não seria capaz de usar uma arma. Principalmente um arco... Maomao se viu pensando nos
bandidos que os atacaram no dia anterior. Eles e seus braços quebrados provavelmente já estavam nas mãos
das autoridades. Só alguns resultados para ladrões como eles. Enforcamento, por exemplo. O melhor que
podem esperar é mutilação... Então ela se lembrou de Nianzhen dizendo que Rikuson o ajudara com uma
cerimônia qualquer.
— Nianzhen — ela disse.
- Sim?
A atitude dele a desafiava a adivinhar. O irmão de Lahan olhava para Maomao com o que parecia ser
indignação, embora isso não importasse para ela. Talvez ele não gostasse que ela já soubesse o nome daquele
velho aleatório, mesmo tendo se conhecido apenas alguns minutos antes. Não era o problema agora. Maomao
respirou fundo e soltou as palavras apressadamente:
— O senhor foi um sacrifício humano?
Todos congelaram.
— Que tipo de resposta é essa?! — perguntou Basen.
— Você não conhece a expressão? É quando alguém é sacrificado ainda vivo.
— Claro que sei! O que eu não sei é por que você acha que tem alguma coisa a ver com esse velho.
Ele obviamente ainda está vivo!
Enquanto sacrifícios adequados tendiam a resultar em morte, Maomao, no entanto, manteve sua
resposta.
— Ele não perguntou por quê. Só o quê.
Ela olhou para Nianzhen, que não demonstrava a descrença ou aborrecimento de Basen. Em vez
disso, parecia de alguma forma satisfeito.
— Sim — disse ele — Entendo. Um sacrifício. Talvez fosse isso que eu era.
Nianzhen soltou um longo suspiro e estreitou seu único olho restante.
— Vocês três seriam gentis o suficiente para ouvir os devaneios de um velho tolo?
Seu tom era leve, mas havia profunda emoção em seus olhos.
— Se você pudesse ter a gentileza de nos deixar — respondeu Maomao.
Desta vez, Basen e o irmão de Lahan, atentos para não aborrecer Nianzhen novamente, curvaram
suas cabeças respeitosamente.
Capítulo 8: As divagações de um velho REcomeçar
Já faz mais de cinquenta anos e havia o dobro de nômades do que hoje. Talvez mais. Eu era um
deles, nascido em uma tribo que era ... bem, pode-se dizer, mais guerreira do que muitas outras. Ter espírito
marcial parece bom, mas na verdade éramos pouco mais que bandidos. Criávamos principalmente gado, mas
se um de nós quisesse uma esposa, ele ia para uma das tribos vizinhas ou uma aldeia estabelecida e
simplesmente pegava uma. Roubo e até mesmo a venda de pessoas eram apenas negócios secundários
comuns para nós. Ah, não me olhe assim. Eu sei que era errado. Mas na época, eu não questionei — eu
achava que era assim que a vida funcionava. Meu avô tinha feito isso, e seu pai. Minha avó e minha mãe
foram mulheres sequestradas. Tudo parecia perfeitamente natural para mim. Mas eu sei melhor do que
ninguém o quão ruim era. Seguindo em frente. Eu era um jovem na época, apenas na adolescência, mas até o
chefe confiava no meu arco. Ele sempre me queria em grupos de ataque. Eu sabia que, se vencêssemos
nossas batalhas, comeríamos bem, ganharíamos mais coisas. Se os perdedores não gostassem, bem, a culpa
era deles por nos deixarem vencê-los. Um orgulho fácil de se reunir quando você nunca experimentou o
gosto da derrota. Esse orgulho se espalhou, até infectar a tribo inteira. Então, um dia, o filho do chefe disse
que queria uma garota Leitora do Vento. A tribo Leitora do Vento, eles eram... Hmm. Algo como sacerdotes,
eu acho. Eles eram encarregados de rituais para todos nas planícies. Eles se moviam pela terra, criando
pássaros e lendo o vento. Havia muitas pessoas muito inteligentes naquela tribo - eles podiam dizer como
estaria o tempo a cada ano, e nunca se enganavam. Havia muitas pessoas difíceis entre nossos clãs. Pessoas
violentas. Mas havia um acordo tácito - ninguém tocava na tribo Leitora do Vento. Até quebrarmos essa
regra. Atacamos a tribo Leitora do Vento para conseguir uma esposa para nosso futuro chefe. Os Leitores do
Vento estavam bem no meio de um de seus rituais, quase sem arco ou espada entre eles. O que eles tinham?
Coisas estranhas. Parece que o ritual envolvia pássaros domesticados e enxadas. As mulheres seguiam os
pássaros, enquanto os homens trabalhavam a terra com suas enxadas. Engraçado, né? Mas esse era o ritual,
eu acho. Lembro-me do filho do chefe rindo. Como ele zombou :
— Eles parecem um bando de fazendeiros — E então ele disse — Fogo.
Lembro-me de como meu arco rangeu pouco antes de eu disparar a flecha. O jeito como vibrou, o
arco que a flecha percorreu. O baque quando atingiu o alvo na cabeça de um dos Leitores do Vento. Esse foi
o sinal para atacar. Eles estavam indefesos como bebês. Não tinham armas; estavam apenas trabalhando a
terra. Não era preciso habilidade para matá-los — era tão fácil quanto encurralar um veado ferido. A
pilhagem que ocorreu naquele dia foi a pior que eu já tinha visto na minha vida, embora só tenha me dado
conta mais tarde. Não hesitamos em matar aqueles que nos serviam como sacerdotes. Na verdade, isso
piorou tudo. Talvez fosse o medo de assassiná-los — o medo de que, se deixássemos algum deles vivo,
pudessem contar aos deuses o que tínhamos feito. Matamos todos os homens adultos e as mulheres mais
velhas também. Deixamos apenas as jovens vivas. As crianças mais novas, vendemos como escravas, e os
pássaros da tribo? Esses se tornaram nosso jantar. História repugnante, não é? Mas conseguimos. De certa
forma, foi até emocionante. É por isso que não percebemos, não naquele momento — mesmo durante o
saque, um pássaro particularmente estúpido continuou bicando o chão. Lembro-me de vê-lo, mas
simplesmente apontei a criatura com uma lança. Só mais tarde descobri que ele poderia ter sido a única coisa
entre nós e o desastre. Depois disso, deixamos nossos apetites correrem ainda mais soltos do que antes. O
filho do chefe levou a garota Leitora do Vento contra a vontade dela, e ela engravidou. Mais ou menos na
época em que ela deu à luz seu segundo filho, foi quando a catástrofe aconteceu. Havia uma grande sombra
escura sobre toda a planície, como uma mancha de carvão contra o céu. A princípio, pensamos que fosse
uma tempestade fora de época. Então ouvimos o que pareceu um zumbido em nossos ouvidos. O gado estava
inquieto. As crianças se agarravam a nós com medo, e as mulheres as seguravam perto. Um homem partiu
em seu cavalo, dizendo que ia investigar, mas logo voltou, quase correndo em nossa direção. Suas roupas
estavam em farrapos — mas também seu cabelo, até mesmo sua pele. O cavalo dele estava quase louco de
medo; eu te digo, foi um trabalho acalmá-la. Ela parecia ter sido mordida por alguma coisa. Perguntamos ao
homem se ele tinha sido atacado. Parece que você já tem uma boa ideia do que ele encontrou, mas deixe um
velho lhe explicar. Os aldeões não acreditam nem um pouco nessa história. Não há nada desse tamanho por
aqui há décadas, eles me dizem. De qualquer forma, o batedor não precisou nos dizer o que tinha encontrado
, porque um momento depois, nos encontrou. Insetos. Insetos por todo o acampamento, mais do que você
poderia contar. Gafanhotos. Eles eram uma nuvem negra que atacava nossas barracas. O bater de suas asas
era ensurdecedor, e a única coisa pior era o som deles mastigando. As ovelhas pastando nos campos saíram
correndo, apavoradas, e os cães uivavam como feras possuídas. Os homens brandiam suas espadas
descontroladamente, mas o que eles iriam fazer, derrubar aquelas coisas do céu? Tentamos balançar tochas,
mas não poderíamos ter tido uma ideia pior. Gafanhotos em chamas rastejavam por tudo e todos, e a tragédia
só piorou. Comecei a pisar nos insetos no chão; foi a única coisa que me ocorreu fazer. Nenhum deles era
maior do que alguns raios de sol, mas era como se estivéssemos na barriga de um gafanhoto gigante. As
mulheres tentaram se esconder nas barracas, mas os insetos entraram pelas frestas. Eu podia ouvir as crianças
chorando lá dentro. Eu podia ouvir suas mães gritando; elas nem pararam para confortar os filhos. Elas
insultaram seus maridos, os homens que não conseguiram proteger suas próprias famílias dos insetos. Essas
eram mulheres que haviam sido arrancadas de suas próprias casas para se casarem, e agora elas liberavam
tudo o que haviam armazenado até aquele momento. A grama não era suficiente para as criaturas; elas
atacaram nossos estoques de alimentos também. Trigo, feijão e vegetais, claro; mas eles até atacaram nossa
carne seca. Eles roeram buracos em nossas barracas. Quando finalmente partiram, as únicas coisas que
deixaram para trás foram pessoas exaustas de tanto gritar e inúmeros gafanhotos mortos. Eles tinham comido
tudo, e nosso gado tinha fugido. De alguma forma, conseguimos encontrar um cavalo e fomos até uma aldeia
para tentar conseguir algum tipo de comida. Sabíamos que éramos apenas bandidos para eles, então tentamos
escolher alguém que eles não reconheceriam. Mas não foi o suficiente. Assim que ele se aproximou, atiraram
nele. Nunca imaginamos que atirariam em alguém sem nem tentar descobrir quem era primeiro. Corremos.
Ele não conseguiu nos acompanhar, mas corremos mesmo assim. Lembro-me dele estendendo a mão para
nós, implorando por ajuda, mas não havia nada que pudéssemos fazer por ele. Em vez disso, simplesmente o
deixamos lá. Olhei para trás, apenas uma vez. Os aldeões haviam arrastado nosso amigo e seu cavalo para a
aldeia. Acho que deveríamos ter percebido. Não era como se fôssemos os únicos devastados e deixados
famintos pelos gafanhotos. Eu só rezava para que o homem que tínhamos abandonado não sofresse antes de
morrer. Eu sei. Engraçado, né? Oração daqueles que assassinaram seus sacerdotes. Não tínhamos mais nada
para comer, então matamos os poucos animais que nos restavam. Fizemos sopa, tentando completá-la com
um pouco de capim, mas tudo o que conseguimos foi nos deixar doentes. Algumas crianças estavam com
tanta fome que começaram a comer os gafanhotos no chão, e então um deles morreu. Talvez os gafanhotos
fossem venenosos, ou talvez comessem as coisas sem arrancar as pernas primeiro; não sei. Eles definharam
por falta de nutrição e começaram a morrer, ficando fracos demais para continuar. Depois, havia as mulheres
grávidas — elas precisavam do dobro de nutrição que o resto de nós, então é claro que elas também ficaram
fracas. Seus corpos definharam, mas suas barrigas continuaram crescendo. A esposa do próximo chefe era
assim — não havia comida para ela depois da tragédia. Seu primeiro filho se agarrou a ela, chupando o dedo
para tentar se distrair da fome. Você não ficará surpreso ao saber que o segundo nasceu morto. A morte de
seu filho quase destruiu o filho do chefe. e ele sofreu outro golpe quando sua esposa morreu logo após o
parto.
Com as últimas forças, ela disse :
— Vocês, seus desgraçados, profanaram o ritual, e agora não há mais Leitores do Vento para fazer os
ofícios por vocês! Os insetos ameaçarão o povo das planícies pelo resto dos tempos!
Ela devia ter guardado essas palavras dentro de si há anos, desde que matamos seu povo e a
sequestramos. Ela riu alto e morreu agarrando seu filho murcho ao corpo debilitado. As pessoas começaram
a concordar que era como ela disse: nós éramos a causa daquele desastre, por termos interrompido a
observância ritual. Todos nas planícies nos consideravam seus inimigos. Não vou fingir que não merecíamos,
mas, mesmo assim, queríamos sobreviver. Comíamos grama, comíamos insetos, matávamos e éramos
mortos, e continuávamos fugindo. Um homem faminto recorreu a comer a carne de seu amigo morto.
Quando isso não foi suficiente, ele começou a tentar matar os vivos para se alimentar. Meu olho esquerdo?
Perdi-o para uma flecha disparada por alguém que queria me comer. Puxei-o para fora e atirei nele de volta.
Eu não queria comer nem ser comido, então fugi. Não havia para onde correr, no entanto, e me vi faminto,
com a garganta seca. Incapaz de suportar a fome por mais tempo, segui o cheiro de mingau até uma cidade.
Estavam distribuindo comida por graça do governador local. O mingau que distribuíram era uma gosma sem
gosto, dificilmente própria para gado, mas para mim foi a coisa mais maravilhosa que já comi. Eu ainda
estava irritado e chorando quando os guardas me prenderam. Parece que alguém na cidade me reconheceu de
algum ato de banditismo. Não resisti. Eu já tinha acabado de lutar — só esperava que me alimentassem na
prisão. A ideia de algumas refeições fartas antes de ser enforcado trouxe alegria ao meu coração. Nunca fui
enforcado. Em vez disso, como punição, cortaram meu dedo para que eu nunca mais pudesse usar um arco.
Então me fizeram fazendeiro. Até hoje, acho que me perdoaram facilmente, considerando o que fiz. O
governador, como se viu, sabia sobre os Leitores do Vento e sua cerimônia. Eles foram autorizados a
continuar com o misterioso ritual para sua comida porque estavam sob a proteção do governador. Talvez não
soubéssemos o significado do ritual, me disseram, mas significava alguma coisa. O quê? Quem era esse
governador? Ele se foi agora — com o resto do clã Yi, como tenho certeza de que você sabe. Isso foi antes
daquele Gyokuen arrogante fazer seu nome. O clã Yi sabia sobre a cerimônia dos Leitores do Vento, e é por
isso que nos espalharam pela terra como servos — para substituí-los. Infelizmente, tudo o que um servo pode
fazer é trabalhar a terra. Os Yi não sabiam o que os Leitores do Vento estavam fazendo com seus pássaros e,
de qualquer forma, galinhas eram praticamente tudo o que tínhamos por perto. Então, continuamos com o
ritual, mas de forma incompleta. Então você está certo. Me permitiram viver puramente para que o ritual
continuasse. Sou um sacrifício humano que eles chamam de servo. Esta vila foi fundada por sacrifícios como
eu. Construímos aquele santuário em memória dos Leitores do Vento que matamos. Paguei com a minha
vida, uma ninharia comparada a assassinar nossos sacerdotes e trazer o desastre sobre nós. Tenho certeza de
que ninguém que prestasse atenção em nós acreditaria que o negócio valesse a pena. Isso tudo nos leva a
dezessete anos atrás. Quando o clã Yi foi exterminado, os fazendeiros desapareceram para onde queriam.
Alguns tolos, homens que sempre foram do tipo rude, voltaram para o banditismo. Ahh, eu conheço esse
olhar. Você já conheceu alguns salteadores. Quem sabe? Talvez eu os reconhecesse se os visse. Quer saber
por que fiquei aqui? Simples - porque nunca mais quero gafanhotos me atacando. Não, nunca mais... Tudo
bem, chega de divagações. Tem alguma pergunta para mim?
Capítulo 9: Rito e Ritual
Nianzhen tomou um gole de leite de cabra morno para molhar a garganta ressecada. Maomao, Basen
e o irmão de Lahan esperaram em silêncio. Eu não esperava arrancar tanta informação dele, pensou Maomao.
Ela teria que tentar entender tudo o que ele lhes contara. Cruzou os braços. Então, mais de cinquenta anos
antes, Nianzhen e sua tribo destruíram os Leitores do Vento, e vários anos depois disso, uma grande praga de
insetos ocorreu. Nianzhen acreditava que a praga havia sido causada pela perda do ritual. Ele havia se
tornado um servo, destinado a passar o resto da vida realizando aquele ritual. Parecia um resumo justo. Acho
que o ritual envolve cultivar a terra? Ainda não fazia muito sentido para Maomao — mas fazia para outra
pessoa.
— Nianzhen? É Nianzhen, certo? Você está falando de aração de outono, então?
Maomao e Basen olharam para o irmão de Lahan com curiosidade — eles não reconheceram aquela
expressão.
— É exatamente o que diz arar depois da colheita no outono — ele explicou.
— E isso é... bom? Não seria mais eficiente arar logo antes de plantar? — perguntou Basen.
Maomao concordou com ele.
— Estou ciente de algumas vantagens. Primeiro, você pode melhorar o solo revolvendo-o e
colocando cogumelos de palha de arroz ou algum outro fertilizante, e segundo, ajuda a eliminar os ovos
depositados no solo por insetos nocivos.
As orelhas de Maomao se contraíram e ela agarrou o irmão de Lahan pelo colarinho.
— Diga isso de novo!
— É, você pode colocar palha de arroz...
— Não, o outro!
— Eliminar insetos nocivos?
— Sim, isso mesmo! — Maomao o sacudiu violentamente.
— Ei, pare com isso — disse Basen, segurando-a.
— Você está sufocando ele! — Maomao soltou o irmão de Lahan.
— Ai! Nossa! É tão emocionante assim? É uma atividade agrícola bem comum — disse ele, com a
clara convicção de que aquilo era de conhecimento geral.
— Não sei se há muitos fazendeiros por aí tão diligentes quanto você! — Maomao respondeu.
— É... Ah. É, você acha?
O irmão de Lahan estava claramente com sentimentos conflitantes. Ele apreciou o elogio, mas era
difícil para ele aceitar.
— Sim, é exatamente isso que estou fazendo — interrompeu Nianzhen.
— Uma rápida olhada ao redor desta vila provavelmente lhe disse Não importa se as pessoas aqui
sabem o que fazer ou não; a maioria delas simplesmente não se importa em fazer. E se o conhecimento não
for utilizado, ele se perde.
Maomao sentiu uma pontada.
O irmão de Lahan disse que o velho era o único na cidade tentando manter um campo decente.
— Posso te perguntar uma coisa? As pessoas aqui estão mesmo se esforçando para cultivar trigo?
Parece que eles não estão, bem, se esforçando muito — disse Maomao, plagiando descaradamente o Irmão
de Lahan.
— Então — disse Nianzhen — é óbvio até para os visitantes, não é?
— Sim, senhor. Seu campo era muito mais bonito que os outros.
De qualquer forma, foi isso que um fazendeiro profissional me disse.
— Não estou tentando ser bonita. Só estou tentando ter uma colheita melhor, e o campo está se
saindo assim. Posso te dizer, nunca pensei que seria a única a me esforçar ao máximo aqui.
— Engraçado como a vida funciona.
A escavação de Basen devia doer. Ele era um militar sério e dedicado. Maomao conseguia entender
por que ele tinha uma visão negativa de alguém que fizera coisas que o colocaram no fundo do poço de
esterco humano, mesmo que isso tivesse acontecido há mais de cinquenta anos. Ele podia até estar se
perguntando por que o homem não havia recebido uma punição mais severa. Maomao tinha que admitir, ela
não conseguia deixar de se perguntar a mesma coisa. Ela sabia, porém, que executar Nianzhen não mudaria
nada. Como ele havia sido deixado vivo, pelo menos eles poderiam conversar com ele e descobrir o que ele
sabia. Eu me pergunto como Rikuson descobriu sobre ele. Talvez, como Maomao, ele simplesmente tivesse
caminhado por esta aldeia, e talvez, como o irmão de Lahan, tivesse notado a qualidade dos campos. Ou
talvez ele tivesse ouvido falar de Nianzhen por alguém na capital ocidental. Eles estavam falando sobre
criminosos que haviam se tornado servos cinquenta anos ou mais antes, e que haviam sido libertados dessa
condição há muito tempo. Rikuson ainda era um rosto novo naquela área; Maomao duvidava que tivesse
vindo aqui sabendo da existência deles. Bem, perguntar era mais rápido do que ponderar.
— Você sabe se Rikuson veio para esta vila porque descobriu sobre o ritual?
— É, é isso mesmo. Eu não achava que ainda havia alguém que soubesse do ritual. Nem o
governador parece ter ouvido falar dele. Rikuson disse algo sobre um conhecido ter mencionado isso.
Nianzhen largou o copo de leite, agora vazio, e se mexeu na cama de aparência dura.
— O governador não sabe? O senhor está falando do Mestre Gyokuen?
Em sua história, Nianzhen descreveu Gyokuen como um governador arrogante.
— Ah, desculpe, péssima escolha de palavras. Ele não. É, o Mestre Gyokuen é o governante da
Província de I-sei, mas é o filhote dele que está no comando ultimamente.
— Você quer dizer o filho dele?
— É, qual é o nome dele? Gyoku-ou.
Parecia que um ex-bandido e ex-servo não estava inclinado a demonstrar respeito indevido pelo
governador. Não que Maomao se importasse, mas Basen parecia se opor à atitude de Nianzhen. Pelo menos,
ela disse a si mesma, ele resistiu à agressão física com o sujeito.
— Tenho a impressão de que o Mestre Gyoku-ou é muito respeitado nesta vila. O que há por trás
disso? Tem algo a ver com o ritual? — perguntou Maomao.
— Dificilmente. Ele é popular, pura e simplesmente. Ele nunca pune os fazendeiros, mesmo que a
colheita seja ruim. Aliás, ele é tão generoso que, se não tivermos o suficiente para comer, ele nos dá comida
dos armazéns. Ora, você quase consegue mais assim do que se fizesse um trabalho decente.
— Nossa, queria poder dizer isso — disse o irmão de Lahan.
— Sim, ele é um cara muito compassivo. Muitos nômades estão se estabelecendo. Dizem que serão
melhores agricultores.
Por trás das palavras de Nianzhen, Maomao pensou ter percebido um tom de desprezo.
— Você pensaria que um líder tão compassivo iria querer continuar o ritual — disse o irmão de
Lahan, pousando sua xícara vazia com um tilintar.
— Como eu disse, ele não conhece o ritual. Ele não entende. Nem mesmo o clã Yi sabia exatamente
o que era o ritual ou como funcionava. O que me obrigam a fazer hoje em dia é apenas uma imitação pálida,
baseada no melhor do conhecimento deles.
— Então esse ritual não era uma forma de fazer uma petição aos deuses — era realmente uma forma
de prevenir pragas de insetos — disse Maomao.
— É o que eu acho. É o trabalho que eu e os outros servos fomos obrigados a fazer em troca de
nossas vidas. Se não quiséssemos fazer, azar. Eles nos forçaram. Alguns caras não aguentaram e tentaram
fugir, e outros simplesmente relaxaram, mas as autoridades os pegaram e os enforcaram. O que eles
esperavam, se desperdiçaram a chance de escapar impunes? Quando te dizem que você ara os campos ou
morre, então você ara como se sua vida dependesse disso.
O que Nianzhen fez nunca seria simplesmente perdoado ou esquecido, então o que mais havia para
ele fazer?
— Depois de uma década, eles começaram a nos dar um troco com base no tamanho da colheita. Não
era muito, mas significava que podíamos começar a economizar, e isso era tudo. Estamos perto da capital do
oeste aqui — acho que a proximidade aumentou a renda da colheita. Era algo tão simples, mas nos envolveu,
nos fez começar a pensar em como poderíamos melhorar a produtividade, evitar que as plantações
adoecessem ou manter os insetos longe. Parte do motivo pelo qual começamos a criar galinhas era para que
elas pudessem comer qualquer inseto que aparecesse quando arávamos os campos.
— Quack — grasnou o pato, não que isso fosse relevante.
— Então os pássaros que os Leitores do Vento usaram não eram galinhas? — perguntou Maomao.
— Não, não eram. Galinhas não são adaptadas à vida nômade.
— Mas se não fossem galinhas, então … — Basen parecia muito sério.
— Deviam ser patos!
— Não, não eram patos! O que houve com você? — explodiu o irmão de Lahan.
Basen franziu a testa diante dessa resposta instantânea.
— Patos comem insetos. E eles são maiores que galinhas, o que significa que podem comer mais
insetos ... Certo?
— Patos gostam de água. Isto é um deserto. Ninguém vai criar patos!
— Tenho provas positivas de que você está errado — disse Basen, indicando seu pato.
— Até as aves aquáticas podem crescer grandes e fortes aqui se elas se dedicarem a isso.
— Quem já ouviu falar de um pato que se dedica a alguma coisa?! — perguntou o irmão de Lahan,
mas era inútil: Basen era um completo fã de patos.
O animal a seus pés parecia estufar o peito.
— Odeio dizer isso, mas eles não eram... patos, foi assim que você os chamou? Nunca vi um desses
antes — disse Nianzhen.
O irmão de Lahan sorriu para Basen, que ficou de mau humor e deu um tapinha na cabeça do pato.
— Os pássaros são exatamente o que nos falta para realizar o ritual dos Leitores do Vento. Esses
pássaros não serviam para comer insetos — eles os encontravam. Ninguém consegue adivinhar onde haverá
insetos em todas as vastas planícies, não é? Eu diria que foi porque os Leitores do Vento sabiam fazer isso,
que o clã Yi lhes deu proteção.
E agora ali estava um servo, um sobrevivente de uma tribo dizimada que acreditava que os Leitores
do Vento e seus ritos não passavam de superstição.
— Tudo bem, posso voltar ao trabalho? Ainda tem tanta coisa pra fazer.
Nianzhen se levantou com dificuldade.
— Claro, senhor. Seja lá o que for que o senhor ainda tenha que fazer, talvez nos deixe ajudar? —
perguntou Maomao, antes de olhar para Basen ou para o Irmão de Lahan em busca de aprovação.
— Vocês, visitantes da capital ocidental, têm hobbies engraçados. Seu Rikuson — ele disse a mesma
coisa. — Claro, eu agradeceria. Sou o único ex-servo por aqui. Todos os outros vieram para esta vila depois;
eles não se importam com as terras de ninguém além das suas. Sou só eu cuidando das terras dos caras que se
foram, e fica mais difícil a cada ano ... — Nianzhen devia ter quase setenta anos agora.
Velho o suficiente para morrer a qualquer momento, ele continuou trabalhando duro. Não consigo
imaginar o que ele fez, mas ainda assim... Enquanto Nianzhen se afastava arrastando os pés, Maomao sentiu
como se pudesse ver algemas em seus tornozelos. Pelos próximos dois dias, Maomao e os outros ajudaram
Nianzhen com seu trabalho. Eles reviraram a terra com implementos agrícolas, encontrando formigas,
minhocas e pequenos besouros no solo úmido. e algo mais: bolhas longas e finas que, em uma inspeção mais
detalhada, continham pequenos ovos dentro. As galinhas começaram com as minhocas, mas quando estas
acabaram, passaram para esses feixes de ovos. O pato de Basen juntou-se a elas, bicando o chão. Ovos de
gafanhoto? Maomao gostaria de calcular quantos provavelmente haveria em um campo de uma só camada,
mas não tinha tempo. Sempre que encontrava um feixe de ovos que os pássaros não tinham visto, ela o
arrancava do chão e o colocava em um jarro. Estes são provavelmente os maiores, pensou ela. Era o tipo de
trabalho que deixaria louco alguém com medo de insetos. Até mesmo Maomao, que tinha bastante
experiência com dissecação de gafanhotos, não gostava de olhar para os pequenos feixes de ovos. O irmão de
Lahan e Basen araram várias vezes mais solo do que Maomao conseguia. O irmão de Lahan mostrou suas
habilidades como um verdadeiro fazendeiro — a maneira como segurava e usava a enxada era simplesmente
diferente — enquanto a força absurda de Basen, pela primeira vez, lhe serviu bem. Fico feliz que Basen
tenha se disposto a se juntar a nós aqui. Ele poderia ter recusado, alegando que aquilo não era trabalho de
soldado; não haveria muito que ela pudesse fazer naquele momento. Ele pareceu levar a sério a preocupação
de Jinshi com os gafanhotos e se juntou a eles sem reclamar. Provavelmente parecia fácil comparado a criar
patos. A disposição de Basen em participar convenceu os guardas e fazendeiros que eles trouxeram da capital
ocidental a ajudar também. Parecia que eles iriam arar o campo inteiro em um dia. Até Chue estava lá,
correndo pela terra arada, catando os ovos de gafanhoto perdidos. Duas crianças a seguiam de perto — o
irmão e a irmã a quem ela dera a batata. Eles pareciam ter a impressão de que, se ajudassem, poderiam
ganhar outra batata.
— Senhorita Maomao! Senhorita Maomao! Tenho várias! Quer ver?
— Senhorita Chue! Senhorita Chue! Eu não quero vê-los. Mas se você tiver uma ooteca de
louva-a-deus, eu aceito com prazer.
Os ovos de louva-a-deus podiam ser transformados em um remédio chamado sang piao shao, ou
caixa de ovos de louva-a-deus, que era muito valioso, pois era difícil de obter em grandes quantidades.
— Estes ovos estão chocando — tem uns carinhas saindo deles! Tem certeza que não quer ver, Srta.
Maomao?
— Bem, é primavera. E sim, tenho certeza. Eles são nojentos; por favor, não os mostre para mim.
Na enciclopédia de insetos da fortaleza do clã Shi, Maomao aprendera que os gafanhotos viviam
cerca de três meses e podiam botar mais de cem ovos por vez. Os ovos eclodiam na primavera, e a nova
geração botava mais ovos no verão. Eu deveria ter pedido a eles que trouxessem o livro do clã Shi sobre
insetos — e, já agora, o livro sobre ervas medicinais. Quanto mais informações tivessem, melhor seria. Não
era como se os gafanhotos se reproduzissem o ano todo. Naquele momento, os ovos postos no outono
anterior estavam começando a eclodir.
' Arar no outono ' era uma boa ideia - isso revelaria os ovos que estavam escondidos na terra, que se
tornariam alimento para pássaros ou pequenos animais. Acho que me lembro de Lahan falando sobre isso.
Como ele chamava isso? Multiplicação como ratos? Digamos que um único par de ratos teve doze filhos,
para um total de quatorze ratos. Suponha que houvesse seis fêmeas entre as crianças - ou seja, sete no total,
incluindo a mãe. Cada uma delas poderia ter outros doze bebês. Isso era basicamente uma proposição
acadêmica, é claro; nem todos os ratos sobreviveriam até a idade adulta. Mas os gafanhotos se multiplicavam
da mesma maneira, o que significa que era crucial reduzir seus números o mais cedo possível no ciclo. Se um
aglomerado de ovos é cem, então dez são mil, e cem seriam dez mil. Eles poderiam reduzir o número de
gafanhotos com os quais teriam que lidar no futuro em ordens de magnitude se pudessem cuidar dos ovos
agora. Os gafanhotos gostavam de depositar seus ovos em solo um pouco úmido. Imagino que, com o rio
bem perto e bastante capim para comer, este seja o lugar perfeito para eles. Talvez parte da terra tenha sido
deixada deliberadamente sem cultivo, especificamente para atrair os gafanhotos. Supostamente, havia várias
outras aldeias como esta espalhadas pela província de I-sei — mas quantas delas ainda estavam
funcionando? Nianzhen se aproximou de Maomao carregando um pote de ovos de gafanhoto.
— Agora só precisamos queimá-los.
— Parece bom para mim.
— Mm. Ano passado eu me atrasei com isso, e muitos gafanhotos escaparam de mim.
Ela se lembra dos fazendeiros da vila dizendo que o ano passado tinha sido ruim em termos de danos
causados por insetos.
— Então a colheita foi ruim? — ela perguntou. Nianzhen assentiu.
— Só havia o suficiente para comermos, e não tínhamos provisões. Se tivéssemos que pagar
impostos além disso, provavelmente teríamos morrido de fome. Então, não teríamos o suficiente para
comprar as necessidades diárias dos comerciantes, então teríamos que vender nosso gado.
— Mas o governador isentou vocês de impostos, né? Aliás, ele até mandou apoio.
— É verdade. Aquele governador é gente boa — disse Nianzhen —, mas, mais uma vez, parecia que
estava falando com os dentes cerrados. Maomao decidiu não enrolar.
— O senhor não parece estar falando sério. Posso perguntar o que tanto o incomoda nele?
— Sei que um ex-bandido não está em posição de criticar, mas essa gente aceita qualquer coisa que
consiga. Eles imploram, bajulam e imploram por cada pedacinho — são como gafanhotos. Se estão tão
ansiosos para não morrer de fome, talvez devessem tentar cultivar alguma coisa! Mas eles não precisam se
preocupar, porque têm uma "safra ruim" e aí vem o dinheiro. O que você faria se pudesse ganhar tanto ou
mais se esbanjando do que se esfalfando no campo?
— É por isso que nenhum dos campos desta aldeia parece bem cuidado?
— É isso aí. Foi a mesma coisa com os gafanhotos no ano passado. Todo mundo ficou parado,
observando os insetos devastarem seus campos. O chefe da aldeia só pensava em como dar um toque
especial na carta para conseguir a maior simpatia do governador. Enquanto isso, eu ia de planta em planta,
arrancando os gafanhotos das folhas, um de cada vez. Eles achavam que eu era um idiota!
Não pareciam as ações de alguém que um dia fora o mais vil dos bandidos. O terror da praga anterior
parecia ter deixado uma marca permanente em Nianzhen. Não... Talvez eu esteja enganado. Talvez Nianzhen
sempre tivesse tido uma veia diligente. Nascido e criado para o banditismo, aprendera a atirar com arco e
flecha e se destacara naquilo que lhe diziam ser importante: matar. Afinal, lógica não era algo com que se
nasce.
— A julgar pela aparência atual da vila, eles devem ter arrecadado bastante dinheiro no ano passado
— disse Maomao.
— Com certeza. É assim há mais de uma década. Sempre a mesma coisa. Se a safra deles quebrar, o
governador salva a pele deles. Um governador bom e gentil.
Bom e gentil, hein... Ela se perguntou de onde vinha todo esse dinheiro para sustentar os fazendeiros.
Talvez fosse o excesso do comércio? Ela tinha visto como a capital ocidental era um lugar próspero – parecia
haver dinheiro mais do que suficiente circulando para poupar algumas moedinhas para uma vila agrícola.
— Se eles vão gastar todo esse dinheiro aqui, parece que um ou dois canais de irrigação seriam uma
boa ideia — disse Maomao.
Quando as pessoas passaram a ter menos trabalho físico para transportar água, novas formas de
trabalho surgiram. Mais campos puderam ser desenvolvidos. Teria sido um investimento sábio, aos olhos de
Maomao.
— Aquele homem, Rikuson, disse a mesma coisa — disse Nianzhen.
— Ele fez isso?
Quando voltassem para a capital, ela teria que descobrir como Rikuson havia descoberto sobre esse
antigo servo.
— Acho que devo me desculpar por fazer você gastar todo seu tempo me ajudando aqui — disse
Nianzhen.
— Precisava de mais alguma coisa nesta vila?
— Mais alguma coisa … — Maomao apoiou o queixo no cabo da enxada e fechou os olhos.
- Oh!
Ela foi até o irmão de Lahan, que não estava apenas revirando a terra, mas também começando a
construir sulcos.
— Você está planejando fazer um campo aqui? — ela perguntou.
— Aff!
A cara dele diz: Droga! Eu sempre faço isso! O irmão de Lahan podia negar o quanto quisesse, mas
ele era um fazendeiro de corpo e alma.
— Você não vai contar para ninguém sobre as suas batatas? Foi para isso que você as trouxe, certo?
— Sim, bem, você pensaria, não é? — resmungou o irmão de Lahan.
— Mas você viu essas pessoas ? Elas não estão realmente interessadas em trabalho de campo. Você
acha que elas se dariam ao trabalho de cultivar batatas se eu as desse? Duvido que usariam seus campos já
estabelecidos para cultivar novas culturas, mas também não parecem estar dispostas a se dar ao trabalho de
desbravar novos territórios.
— Entendido — disse Maomao.
— É por isso que eu estava tão ansioso para conhecer a única pessoa por aqui com um campo
decente!
- Oh?
— É, mas não adianta dar as batatas para o velho.
— Acho que não.
Como o último dos antigos servos daquela aldeia, Nianzhen tinha que cuidar de seu próprio campo,
além de arar a terra para o chamado ritual. Normalmente, a aração teria terminado no outono, e ali estava ela
se arrastando até a primavera — um sinal claro de quão carente de ajuda ele estava.
— Vocês não acham que poderíamos deixar alguém aqui para ajudar? — perguntou Maomao,
olhando para os fazendeiros que eles trouxeram da região central.
O irmão de Lahan quase pensou nisso, mas então disse :
— Eles só vieram da região central por minha causa. Não posso simplesmente deixá-los trabalhar a
terra numa terra que mal conhecem. Seria trágico demais, não acha?
— Sim, é justo.
A fraternidade do irmão de Lahan podia vir à tona nos momentos mais estranhos. Ele poderia ter sido
um ótimo filho mais velho, se tivesse nascido em uma família normal.
— Ainda bem que meu pai não está aqui. Ele juraria que os faria entender a beleza das batatas, e aí
quem sabe o que ele faria!
— Se me permite dizer isso, não consigo imaginar o pai de Lahan resolvendo a situação sozinho
desse jeito.
Na mente de Maomao, ele era uma figura tranquila, quase Luomen.
— E também... A glória das batatas?
— Ah, ele descreveria a beleza das flores, o formato das folhas, as raízes graciosas e flexíveis …
— São batatas. Ele poderia pelo menos se concentrar na delícia delas.
Maomao olhou para os irmãos que seguiam Chue. Ela pousou o pote e foi até eles.
— Ei, você gostaria de mais uma dessas batatas? — ela perguntou, agachando-se para ficar na altura
dos olhos deles.
— Sim, faríamos!
— Quero batatas!
Os olhos das crianças brilharam.
— Nunca comemos algo tão doce antes! Era mais doce que passas!
— Passas? — disse Maomao.
— Doces são valiosos por aqui — Chue interrompeu.
— Eles não têm mel, e o açúcar não é barato.
Ela colocou o grande pote na cabeça e girou. Então, os doces valem mais aqui do que na região
central.
— Acho que podemos usar isso.
Maomao voltou para a casa do Irmão de Lahan, sorrindo. Havia um grande buraco cavado atrás da
casa de Nianzhen. Estava coberto de marcas de queimadura — talvez fosse normalmente usado para queimar
lixo ou algo assim.
— É aqui que você queima os ovos de gafanhoto? — perguntou Maomao.
— Certo. Eles não queimam facilmente, então você tem que adicionar combustível.
Provavelmente significando óleo ou esterco animal. A lenha e o carvão que Maomao e os outros
consideravam comuns seriam quase considerados produtos de luxo por aqui.
— Já que temos todos esses ovos para queimar, eu não me importaria de tentar algo diferente —
sugeriu Maomao.
Nianzhen olhou para ela.
— O que quer que funcione. O que você tinha em mente?
— Talvez eu possa pegar isso emprestado.
Ela tocou em um grande vaso que estava do lado de fora. Era velho, mas resistente; se tirassem a
ferrugem, parecia que seria perfeitamente utilizável. A grama seca e os insetos mortos lá dentro atestavam há
quanto tempo ele estava ali.
— Claro. Divirta-se.
Maomao prontamente virou a panela e começou a esfregá-la com uma escova de junco.
— Aqui está, Senhorita Maomao! — disse Chue.
Ela havia pegado água do rio, que Maomao usou com prazer.
— Que panela e tanto você tem aí! Grande o suficiente para fazer qingjiao rousi para trinta pessoas!
— Será que eles usavam para cozinhar ? — disse Maomao enquanto ela e Chue se encaravam sobre
a panela, esfregando.
— Era para fazer o arroz dos servos. Eles cozinhavam o suficiente para um dia inteiro de uma só vez
— disse Nianzhen.
— Hã! Então havia muitos servos — disse Chue.
Maomao lhe contara a história de Nianzhen, mas a incomum dama de companhia não parecia muito
incomodada. Era como se pouco lhe importasse se estava lidando com um ex-bandido ou mesmo com um
assassino.
— Então isso era um prato de servir? — Chue pegou um prato redondo de metal.
— É um espelho. Costumava ficar no santuário.
Espelhos às vezes eram usados para fins rituais. Este pode ter sido polido até brilhar antigamente,
mas agora estava manchado de ferrugem e não refletia quase nada.
— Já que estamos polindo as coisas, você quer que a gente polisse isso aqui? — disse Chue,
esfregando o braço.
— Claro, se você quiser. Eu mesmo não tive tempo.
Talvez os servos tivessem compartilhado a tarefa de poli-lo, mais uma vez em algum tempo, mas era
simplesmente demais para Nianzhen fazer sozinho. O quanto os aldeões realmente sabem?, perguntou-se
Maomao. Pareciam tratar Nianzhen como um excêntrico, mas não eram abertamente hostis a ele. Nem
pareciam particularmente preocupados com uma praga de insetos. Seria possível que os aldeões fossem tão
tranquilos? Maomao não conseguiu se conter e refletiu :
— Imagino se esta vila sobreviveria se fosse atacada por bandidos.
Ela estava falando quase para si mesma, mas Chue disse :
— Ah, eles ficariam ótimos! Podem estar assentados agora, mas costumavam ser nômades. Eles têm
arcos e espadas em suas cabanas, todos encordoados, afiados e prontos para usar. Além disso, eles conhecem
o terreno — você teria que ser um bandido muito corajoso para atacar este lugar!
— Isso explica por que eles vão atrás dos viajantes — disse Maomao.
O que aconteceu com aquela nossa guia? Parecia que era melhor deixar para lá, mas havia algo que
ela precisava perguntar.
— Por que decidiu nos usar como isca, Srta. Chue? O Mestre Basen não parecia saber o que você
estava planejando, e seria impróprio do Príncipe da Lua nos ordenar algo assim.
Jinshi parecia bastante atento à segurança de Maomao ultimamente — até mesmo a presença de
Basen como guarda-costas parecia um ato de consideração da parte dele. Chue estreitou seus olhos já
pequenos, tornando-os ainda menores.
— Minhas ordens eram para minimizar os riscos. E não é mais seguro saber quando e onde você será
atacado, em vez de não ter ideia de quando o inimigo atacará? — Então Chue também estava pensando em
segurança, à sua maneira.
— Tudo bem, mas acho que normalmente você tenta esconder o perigo que as pessoas correm. Isso
as deixa menos nervosas.
— Eu sei que você tem muita coragem, Srta. Maomao. Enfim, pensei que talvez você apreciasse uma
abordagem mais lógica.
— Só quero deixar registrado que se alguém me desse um soco, eu morreria.
— Entendido e devidamente anotado! Mas se precisarmos que alguém sobreviva a qualquer veneno,
você estará de pé!
Chue certamente sabia quem servia para quê. Enquanto conversavam, a panela ficava cada vez mais
limpa. Nianzhen estava fazendo outro trabalho por perto.
— O que você quer que a gente faça com isso? Quer dizer, com essa panela? — perguntou Chue.
— Coloque os ovos de gafanhoto lá dentro — ele respondeu.
Chue recuou com uma intensidade quase cômica :
— Senhorita Maomao …
— Não, não, Srta. Chue, não se preocupe. Não vamos comê-los. Eu prometo.
— Você promete, promete? — Chue ainda parecia não acreditar nela.
— Sim. Não parecem muito saborosos, não é? E são nojentos. A gente devia saber, nós os colhemos.
Ela comeu insetos adultos, mas até ela disse não aos ovos de insetos.
— Vamos derramar óleo sobre estes …
— E fritá-los?
— E queimá-los.
— Queimá-los? — Maomao pegou a panela e foi em direção ao santuário.
Era uma construção modesta de tijolos, mas se fosse limpa e decorada, seria adequadamente
imponente.
— Acho que devemos acender uma fogueira aqui. Parece um ritual, não é? — perguntou Maomao.
— Oh-ho — disse Chue.
— E um ritual precisa de um banquete, certo? — Maomao olhou para as crianças da aldeia, que
ainda estavam por ali.
A notícia sobre as batatas deve ter se espalhado, porque havia uma pequena multidão além do irmão
e da irmã.
— Entendo onde você quer chegar. — Chue riu.
Ela viu onde Maomao queria chegar com isso: bom.
— Deixe a decoração comigo!
Ela puxou um pedaço de fita vermelha da gola.
— Vamos precisar de uma plataforma para o nosso lindo vaso. Vou pedir ajuda ao irmão do Lahan e
ao meu cunhado!
Aparentemente, Chue agora também o chamava de :
— Irmão de Lahan.
Chue se concentrou na construção da plataforma, então Maomao ficou responsável por preparar a
refeição. Ela pegou emprestado o forno da casa de Nianzhen para preparar algo. Maomao às vezes se sentia
como se estivesse na sombra de En'en, uma chef profissional, mas a verdade era que ela própria não era uma
cozinheira nada ruim. Cozinhar é basicamente como misturar remédios, mas com comida. Você junta os
ingredientes e os acompanhamentos para fazer algo saboroso.
— O que você está fazendo? — N ianzhen perguntou, estreitando o olho restante.
— Ritual.
— Como é isso de novo?
— Rituais são supostamente celebrações alegres, não é mesmo, senhor? E para isso, o senhor precisa
de um banquete.
— Acho que você me pegou …
Ele parecia inquieto; seu olhar pousou no irmão de Lahan.
— Pare! Não use todos! Eu só trouxe alguns, sabia!
O que eram " eles " ? As batatas-semente, é claro. Eles decidiram fazer deste festival um grande
acontecimento.
— Eu sei, eu sei. Menos choramingos, mais vapor!
— Você não pode falar com as pessoas assim , Grr!
O irmão de Lahan resmungou com raiva para si mesmo, mas colocou mais lenha no fogão. Ele estava
usando dois gravetos para pegá-la — talvez sentisse uma resistência instintiva a manusear esterco de ovelha
com as mãos nuas, mesmo que estivesse seco.
— Você pode usar qualquer ferramenta que eu tiver em casa. Se você usar a minha comida, eu
agradeceria se pudesse me dar algumas moedas. Eu vivo no limite — disse Nianzhen.
— Obrigado, senhor — disse Maomao.
— Vou dormir um pouco — disse Nianzhen, deitando-se na cama rústica. Parecia robusto, mas era
um homem velho, e dias seguidos de trabalho no campo cobravam seu preço.
— Batatas-doces ficam mais doces quando cozidas lentamente, certo? — perguntou Maomao.
— Sim! Você não pode simplesmente assá-los em uma chama grande e quente!
Então, não é só no cultivo de batatas que ele é tão versado. É também no preparo de batatas. Parecia
que Lahan vinha confiando, em grande medida, no irmão de Lahan para inventar maneiras de usar
batata-doce. O irmão de Lahan podia ser duro com o irmão mais novo, mas era, no fundo, uma pessoa
decente — decente demais. A maneira como ele fazia questão de resistir a tudo sugeria uma fase rebelde
comum, porém tardia.
— Não sou uma cozinheira muito versátil. O que você acha que podemos fazer com os ingredientes
que temos aqui? — perguntou Maomao.
— Por que você está me perguntando?
— Porque a Srta. Chue é mais do tipo comilona, e o Mestre Basen não vai ajudar em nada.
Chue parecia capaz de fazer mingau, se realmente precisasse, mas quando se tratava de pratos mais
elaborados, ela se concentrava no consumo e não na produção.
— Bem, eu não sei — disse o irmão de Lahan categoricamente.
Ele desviou o olhar dela, mas estava obviamente mentindo.
— Entendo — disse Maomao.
— Desculpe... Eu só esperava presenteá-los com algo que eles realmente gostassem.
Ela olhou para trás, em direção à porta, onde as crianças espiavam. A multidão de crianças que
acompanhava o irmão e a irmã havia crescido consideravelmente.
— Ah, olhem todos os seus amigos — disse ela, falando diretamente com as crianças, o que não é
comum.
— Aposto que todos vocês estavam torcendo para poder comer algo especial. Algo delicioso.
— O quê? — perguntou a irmã, à beira das lágrimas.
— Você quer dizer... Você quer dizer que não podemos comer batatas?
— Ah, vai sim, vai sim. É que... me desculpe. Não vou conseguir fazer com que fiquem muito
gostosos sozinha.
— Por quê? Você cozinha mal? — perguntou outro garoto.
— Ah, queria ter batatas. Parece que não vamos ter nenhuma — disse uma terceira criança,
tristemente.
O irmão de Lahan parecia cada vez mais desconfortável. Ele se curvou, ficou de costas para eles —
mas apenas por um instante. Então, deu um longo suspiro, virou-se e levantou um dedo.
— Escutem, pirralhos. Se querem comida, ajudem a cozinhar. Quem não trabalha, não come. Mas
quem trabalha , eu vou lhes dar a melhor comida que já comeram!
As crianças aplaudiram, e o irmão de Lahan provou que era o filho mais velho por excelência. Que
toque suave!, pensou Maomao enquanto espetava uma batata no vapor com seus hashis. Quando Maomao e
sua equipe terminaram de cozinhar, o santuário estava completamente decorado. Chue havia colocado a
panela cheia de ovos de gafanhoto bem no meio, sobre uma pequena, mas bem construída, pilha de tijolos
que servia como uma plataforma improvisada. O modesto santuário estava enfeitado com bandeiras
vermelhas, e lamparinas de banha de animal brilhavam aqui e ali. Ouviu-se um tilintar de metal; Maomao
olhou na direção do som e descobriu que duas placas de metal haviam sido amarradas para formar um
badalo. Quando o vento soprava, fazia os címbalos chacoalharem e as bandeiras tremulavam. A cadeira e as
mesas, tal como estavam, consistiam em barris cobertos de feltro. A " mesa " estava empilhada com a comida
que Maomao e os outros haviam feito. Quando tudo ficou pronto, o sol já estava roçando o horizonte
ocidental.
— O que está acontecendo aqui? — alguém perguntou.
Não eram mais apenas crianças – os adultos também começaram a aparecer. Assim que todos
estavam lá, Maomao despejou óleo na enorme panela. Então, acenderam uma fogueira, usando capim seco
para acendê-la. Havia um aroma que poderia ser agradável ou de embrulhar o estômago; era difícil dizer. A
panela começou a queimar intensamente, acentuada pela escuridão que se aproximava.
— O que vocês, estimados visitantes, estão fazendo? — perguntou o chefe da aldeia, perplexo.
Vários outros moradores estavam com ele.
— Deixe-me explicar — disse Basen, dando um passo à frente.
Chue aproximou-se dele e mostrou-lhe brevemente um pedaço de papel. Cartões de sinalização!
Felizmente, os aldeões não perceberam.
— Esta vila foi fundada há muito tempo para realizar um ritual — disse Basen.
— Sim, ouvimos falar disso — disse o chefe.
— Você quer dizer o "ritual" de revirar a terra que ninguém entende. Só Nianzhen faz isso agora.
— Isso mesmo. E eu sei muito bem que você não entende. A razão pela qual viemos até você hoje é
para lhe trazer a forma completa e adequada do ritual, que você conhecia apenas em parte, mas que agora lhe
damos integralmente.
Muito profundo. Basen estava recitando um roteiro, e parecia que sim, mas, iluminado pelo fogo,
ainda conseguia parecer importante, talvez até sagrado. Chue estava bem preparada; tinha um maço inteiro
de papel, do qual selecionava as falas apropriadas com base nas reações dos aldeões. Ela realmente sabe
como lidar com o irmãozinho. O irmão de Lahan segurava o pato nos braços: tê-lo gingando atrás de Basen
poderia estragar a imagem reverente que tentavam criar. O irmão de Lahan cutucou Maomao.
— É verdade? — sibilou ele.
O momento foi tão convincentemente fabricado que ele foi levado junto com o público.
— É agora. Tente entrar na brincadeira.
— Espera... Não é verdade?
Ele pareceu escandalizado. Enquanto isso, Basen continuou a falar com os aldeões.
— Sério? Vejo que está preparado para conduzir o ritual agora mesmo... mas posso lhe fazer uma
pergunta primeiro? — arriscou o chefe.
— O que você gostaria de saber?
— Só Nianzhen foi incumbida dessa tarefa, não é? O resto de nós foi convocado aqui pelo
governador como colonos — não nos foi dito nenhum ritual.
Ouviu-se um grande estalo vindo de dentro da panela. O chefe parecia estar dizendo que os visitantes
eram mais do que bem-vindos para conduzir o rito, mas os aldeões não tinham intenção de participar. Pela
expressão em seu rosto, ficou claro que ele achava que Basen estava tentando lhe impor algo, e ele não
queria. Chue parou de pular por um segundo pensativo e então mostrou a Basen outro cartão de sinalização.
— Entendo sua objeção. Não precisa ser você quem conduz o ritual.
Basen olhou para Maomao. Atrás dele, Chue lhe deu uma piscadela.
— Mas posso entender então que você não se importa com o que acontece como resultado?
Basen apontou diretamente para Maomao. (Isso também foi uma ordem de Chue.) Eles estão
tentando me passar a responsabilidade! Ele parecia estar indicando que deixariam o ritual para Maomao, mas
isso era mais do que ela havia planejado. Que diabos eles querem que eu faça?! Mesmo assim, ela teve que
se conformar. Ela caminhou para frente, um passo lento e solene de cada vez, em direção à panela grande.
Tem que haver algo que eu possa tentar. Algum pequeno blefe, algo para enganá-los... Maomao colocou as
mãos na frente do peito, o que lhe deu a chance de vasculhar as dobras de suas vestes. Ela não guardava tanta
coisa lá quanto Chue, mas tinha algumas ervas e ferramentas de costura. Ela caminhou o mais devagar que
pôde e tentou elaborar um roteiro. Finalmente, ela chegou em frente ao caldeirão, onde curvou a cabeça.
— Este fogo carrega nossas oferendas aos deuses. Houve um tempo, uma vez, em que outros
humanos eram nossos sacrifícios, mas os deuses nos falaram e revelaram que essa não era a forma de
sacrifício que desejavam.
Ela havia copiado as palavras de um romance popular no Palácio Interno. O original soava ainda
mais ambicioso, mas ela não conseguia se lembrar de todas as palavras.
— O deus desta terra assume a forma de um pássaro; portanto, foi decretado que a divindade deveria
receber uma oferenda de acordo com o sustento preferido de sua manifestação.
Ela viu uma das galinhas dormindo no galpão.
— Uma divindade ave? Mas nós adoramos um deus do pasto ...
— O quê? Quer dizer que depois de todo esse tempo como fazendeiros, vocês ainda adoram o seu
antigo deus? — perguntou Chue, fazendo questão de exagerar.
— Isso explicaria! Agora entendo por que seu trigo cresce tão mal. Deixa eu adivinhar : piora a cada
ano, não é? Bem, quem pode culpar, se as pessoas que vivem aqui nem adoram o deus daqui?
Isso fez os aldeões resmungarem entre si. Era verdade, suspeitava Maomao, que a colheita piorava
cada vez mais — com um cultivo tão descuidado, a própria terra declinaria. Ao contrário do cultivo de arroz
irrigado, o grão precisava de solo bem cuidado, ou a colheita murcharia. "Acho que está indo bem?", parecia
bastante promissor. Até que:
— Isso é muita bobagem. Acho que a terra está simplesmente esgotada. Toda essa conversa sobre
deuses... quem sabe se eles existem mesmo? — gritou um dos jovens da aldeia.
Vamos lá, tenha um pouco de fé!, pensou Maomao — não importa a sua própria atitude. Outros
aldeões começaram a falar:
— Estamos aqui há tanto tempo. Por que falar em deuses e rituais agora?
— É, de qualquer forma, não precisamos de uma boa colheita — não com um governador tão
compassivo e generoso cuidando de nós!
— Ele tem razão! Não sabemos se os deuses existem , mas sabemos que o governador existe, e
sabemos que ele cuidará de nós!
Houve um murmúrio geral de concordância. Acredite apenas no que você pode ver. Uh-huh. Justo.
Maomao simpatizou; ela não poderia dizer que teria feito diferente no lugar deles. Mas ela tinha um trabalho
a fazer. Maomao abaixou a cabeça e riu.
— Hehehe!
— O que é tão engraçado? — perguntou um dos moradores.
— Ora, nada. Só que vocês parecem estar sofrendo com um mal-entendido. Permitam-me reiterar:
não precisa ser você quem conduz o ritual — disse ela, repetindo as palavras de Basen.
Então, ela se virou de costas para os aldeões, aproveitando a oportunidade para vasculhar as dobras
de seu manto. Tomou cuidado para que ninguém a visse. Vamos ver. O que precisamos é... Ela fez um grande
gesto com as mãos, e a chama no caldeirão sibilou e dançou.
— Olha! O fogo! — exclamou alguém. As chamas estavam amareladas.
— O que é isso?!
Maomao tinha mais do que apenas ervas medicinais escondidas em suas vestes — ela também
carregava álcool desinfetante. Sem mencionar que ainda tinha uma pitada de sal da comida de antes. Chue
guardava um pouco consigo — ela havia explicado que era um item de luxo por ali. Ah, isso me traz de volta
ao passado. A mesma coisa já estivera por trás de um mistério nos Palácio Interno: sal queimado e amarelo.
— Você não consegue ver a vontade de Deus? — Maomao pegou o espelho guardado no santuário.
Chue o poliu um pouco, mas apenas o suficiente para remover a maior parte da ferrugem. Mas está
perfeito. Ela pingou um pouco de álcool no espelho e transferiu um pouco do fogo da panela para a
superfície. Agora o fogo queimava em um tom azul-esverdeado. Maomao se virou e exibiu seu sorriso "
profissional " .
— Parece que o deus está bravo e triste.
O espelho de bronze estava esquentando bastante com o fogo, então ela o colocou ao lado da panela.
Um burburinho começou entre os aldeões quando viram as chamas mudando de cor.
— Agora, percebo que você não participará do ritual.
Ela olhou para a refeição disposta no barril.
— Mas parece que fizemos comida demais esta noite. Vocês não querem comer um pouco antes que
esfrie?
— Eba! — disseram as crianças, jogando as mãos para o alto.
Não seria justo obrigá-los a ajudar o dia todo e depois não lhes dar comida. Os adultos estavam mais
hesitantes, intimidados pelo fogo colorido , mas inegavelmente atraídos pela comida incomum, como nunca
tinham visto antes. Quando todos olhavam para a mesa, Maomao cutucou Chue.
— Não me coloque em uma situação dessas de novo — ela murmurou.
Francamente, ela começou a suar frio.
— Eu tinha fé que você conseguiria, Srta. Maomao — disse Chue inocentemente, e então, com um
sorriso, pulou para se juntar à confusão geral em torno do banquete. Espero mesmo que funcione.
Maomao estava exausta. Decidiu deixar Chue e os outros cuidarem de tudo dali — ela voltaria para a
barraca para descansar um pouco.
Capítulo 10: Resultados relatados
O ar estava impregnado do aroma de chá e doces. A anfitriã deste chá tinha a pele macia como a de
um bebê, e o salão estava tomado por conversas agradáveis. Por esta descrição, talvez você esteja
imaginando um chá cheio de jovens vibrantes – mas você estaria enganado.
— Olá, mocinha! Bem-vinda ao lar!
O anfitrião da reunião era um homem mais velho — um eunuco, aliás. Ou seja, era o médico
charlatão. Ele conversava com Tianyu, colocando jujubas secas na boca entre as conversas. Lihaku estava
junto à parede, observando, mas devia estar bem quieto, porque ele tinha algumas nozes e as quebrava
discretamente quando tinha a chance. "São essas as nossas nozes medicinais?", pensou Maomao, mas decidiu
começar cumprimentando o médico.
— Obrigada. Acabei de voltar. Vejo que aqui está começando a parecer um consultório médico de
verdade.
O consultório, na verdade um prédio reformado no anexo de Gyokuen, tinha mais prateleiras e camas
do que antes, e até biombos. Maomao estivera ausente do consultório médico por uns bons dez dias,
visitando a vila, e ficou feliz ao descobrir que os outros pareciam estar trabalhando de verdade enquanto ela
estivera fora.
— Também temos mais móveis para o seu quarto, mocinha. Não se preocupe, estão exatamente onde
você deixou.
— Tudo bem, obrigado.
Dez dias antes, seus aposentos não continham nada além de uma cama de lona. Ela esperava que pelo
menos tivessem encontrado uma escrivaninha e uma estante para ela.
— Não se preocupe, não tocamos em nenhum dos seus pertences — disse o charlatão.
— Eu só me endireitei um pouco. Seu quarto parecia tão triste e vazio. Acho que deveria ser muito
mais agradável estar aqui agora!
Ele parecia excepcionalmente motivado. A mensagem que Maomao recebeu foi que ele tinha tempo
suficiente para redecorar.
— A maravilha com cara de bebê aqui realmente fez com que o lugar parecesse um lar — disse
Tianyu, não mais reverente do que o normal.
Maomao estava com um péssimo pressentimento sobre isso.
— Entendo que isso significa que não houve problemas sérios? — ela perguntou enquanto colocava
sua bagagem no chão e começava a vasculhar as gavetas do novo armário de remédios.
Alegrou-lhe o coração sentir o cheiro de um remédio que realmente cheirava a remédio pela primeira
vez em tanto tempo. Ela também havia obtido com sucesso o cavalo-marinho de Basen; teria que processá-lo
mais tarde.
— Hmm, não, nem pensar — disse o charlatão.
— Continuamos realizando os exames do Príncipe da Lua. Víamos um paciente de vez em quando ...
— Principalmente resfriados comuns. As oscilações de temperatura no navio deixaram algumas
pessoas fracas.
Tianyu, frustrada com o jeito relaxado e indireto de falar do charlatão, interrompeu. Maomao estava
feliz em contar a história da forma mais direta possível, então seu olhar variou entre Tianyu e o armário de
remédios enquanto ela continuava a verificar o inventário deles.
— Tivemos uma pessoa que foi picada por um escorpião, mas ele passou bem. Um cara que estava
com ele o tratou logo após a picada, então parece que ele não ia morrer, mesmo agindo como se estivesse.
Tianyu contou isso como se fosse uma história de segunda mão, provavelmente porque essa área não
era sua especialidade. Certamente o charlatão não havia tratado o homem — então quem o fizera? Seria
alguém que sabia algo sobre veneno de escorpião?
— Temos alguém conosco que saiba sobre veneno de escorpião?
Maomao tirou um pouco de swertia de uma gaveta, arrancou um pedaço e lambeu. Ela se arrependeu
imediatamente: era amargamente amargo, embora o sabor certamente indicasse remédio.
— Lidam com veneno de escorpião o tempo todo por aqui. Uma das moças do refeitório nos
explicou como tratá-lo. E, devo acrescentar, perguntou em voz alta se éramos mesmo médicos.
— Você sabia que aqui eles fritam escorpiões e os comem? — disse o charlatão.
— Que ideia assustadora! — Sua testa franziu.
— Temos que ter certeza de que tentaremos isso! — disse Maomao, com o moral às alturas.
Ela guardou as ervas secas de volta na gaveta. Estava ansiosa para descobrir se a erva que havia
coletado na viagem tinha alguma propriedade medicinal.
— O quê? Não, não! — disse o charlatão, tremendo.
A julgar pelos dois médicos, Maomao decidiu que tudo parecia bem. Ela queria passar um tempo de
qualidade com os remédios, mas uma dúvida persistente a levou a ir para o quarto.
— Vou deixar minhas coisas lá — ela disse.
O quarto dela ficava bem no topo da escada e, assim que ela entrou, entendeu por que Tianyu estava
rindo baixinho.
— O que em nome de …
Seu quarto, antes simples e sem adornos, agora ostentava um dossel rosa-cereja sobre a cama. Era
fofo demais para ser mosquiteiro, além de ser bordado aqui e ali. Sua mesa estava coberta com uma toalha de
mesa (também bordada) e sua cadeira tinha uma almofada de renda vazada em estilo ocidental. Cortinas no
mesmo estilo pendiam na janela, e uma tapeçaria com estampa floral decorava a parede. Ela também sentiu
cheiro de incenso, uma fragrância floral feminina demais para ela. Para completar, flores secas estavam
espalhadas aqui e ali pelo quarto. Por um segundo, ela ficou em silêncio absoluto, então começou a tremer.
Ela gostaria de ter derrubado a decoração ali mesmo, mas o charlatão havia se aproximado por trás dela e a
olhava com expectativa.
— Ah! Você está gostando do bordado, não é? O comerciante me prometeu que ficaria perfeito para
uma jovem — disse ele.
E talvez fosse. Mas era de Maomao que estavam falando. Que, por sinal, era praticamente uma
solteirona.
— O que você acha, senhorita? Gostou?
O charlatão aproximou-se dela, com os olhos brilhando de esperança. Maomao emitiu um leve som
de engasgo. Franziu a testa fortemente e então seus ombros caíram. Atrás deles, Lihaku observava com
simpatia, enquanto Tianyu sorria. Maomao resolveu colocar swertia em seu chá naquela noite. Depois do
jantar, Maomao retornou ao seu quarto, sentindo-se um pouco melhor desde que conseguira trazer Tianyu de
volta em perfeitas condições. O jeito como seu rosto se enrugava quando ele bebia o chá de swertia — bem,
não se via isso todo dia. Por que ele estava tão chateado? É medicinal! No Distrito do Prazer, misturavam
swertia ao preto para sobrancelhas; dizia-se que prevenia o afinamento capilar. Também era eficaz contra
indigestão, diarreia e dores de estômago, mas era tão amargo que raramente era usado no consultório médico
da corte. Por que o tinham consigo, então? Tinha menos a ver com o lado gástrico e mais com a prevenção da
queda de cabelo. As pessoas gostaram dessa parte. Recebemos pessoas que vêm aqui por causa de problemas
capilares de vez em quando. É claro que Maomao não fornecia informações pessoais, ao contrário do
charlatão, mas não hesitava em aproveitar a oportunidade para pedir um favor a um paciente em troca.
Maomao só conseguia suspirar diante do quarto predominantemente feminino. Se ela simplesmente
colocasse tudo de volta como antes, o charlatão ficaria triste. Ela teria que mudar as coisas aos poucos para
que ele não percebesse. Talvez começasse amanhã, no entanto. Parecia muito trabalho agora. Ela estava
trocando de roupa e vestindo o pijama quando ouviu uma batida na porta.
— Entra? — ela disse.
— E uma ótima noite para você!
Chue apareceu, agora vestida com uma roupa comum de dama de companhia, em vez das calças que
ela havia usado na viagem.
— Nosso querido charlatão fez seu exame, e agora as damas de companhia querem o deles!
Em outras palavras, Jinshi estava invocando Maomao. Chue ofereceu seu pretexto sem pestanejar. Já
se passaram dez dias... Maomao se perguntou como estava o ferimento de Jinshi. Deveria estar tudo bem sem
ela, contanto que ele não estivesse se coçando.
— Ele está muito interessado em como as coisas aconteceram na vila agrícola — disse Chue.
— Eu presumi que você já o tivesse informado — disse Maomao.
Entre Chue e Basen, certamente não havia muito que ela pudesse acrescentar.
— Ah, mas o Príncipe da Lua gosta de ter todos os tipos de perspectivas. Pontos de vista diferentes
trazem pontos de vista diferentes!
— Suponho que você não esteja errado …
Era uma boa filosofia, mas, nesse caso, Maomao achou que seria melhor convocar o Irmão de Lahan.
Por outro lado, ao contrário dos demais, Maomao suspeitava que Jinshi não o toleraria. Provavelmente teriam
uma conversa inteira e nunca conseguiriam dizer nada. De qualquer forma, se fosse uma ordem direta,
Maomao não tinha escolha a não ser ir. Parecia que ela teria que trocar de roupa novamente. Chue saltou à
frente de Maomao com uma lamparina, a luz balançando junto com ela, iluminando o espaço ao redor em
ângulos estranhos.
— Que lugar assustador, hein! Nada como uma mansão grande e antiga no meio da noite!
— É verdade …
Maomao relembrou seus dias no Palácio Interno, as histórias assustadoras e a consorte que dançava
na muralha externa. Aliás, ela se pegava saindo bastante à noite.
— Sabe, dizem que tem uma aparição nesta casa — disse Chue, segurando a lanterna na frente do
rosto.
— Uma aparição? Ah — foi tudo o que Maomao disse.
Chue fez um gesto com o lábio inferior.
— Ah, você não está nem um pouco assustada, Srta. Maomao?
— Já ouvi muitas histórias desse tipo .
Não adiantava ter medo agora. Chue, porém, ainda parecia que Maomao tinha estragado sua
diversão.
Então Maomao disse :
— Só para minha referência, que tipo de aparições são essas?
— Ooh! Gostaria de saber? Gostaria de saber, Srta. Maomao? — Os olhos de Chue começaram a
brilhar.
— Aparece aqui mesmo, diz-se!
— O que aparece?
— Uma cabeça voadora!
— Hein? — Isso não fez sentido.
Uma cabeça era, sabe, uma cabeça. Elas não voavam.
— Tem um feitouman por aqui!
Um feitoumano — ok, sim, Maomao já tinha ouvido falar deles. Era uma espécie de monstro
sobrenatural que se dizia parecer uma cabeça que voava por conta própria.
— Ah, Senhorita Maomao. Parece que você não acredita em mim.
— É porque acho que não tem nenhum feitouman por aqui. Mas você estava meio que torcendo, não
é, Srta. Chue?
Eles logo chegaram em segurança aos aposentos de Jinshi, sem nenhum monstro à vista.
— Buu. Chato — disse Chue.
— Eu sei, eu sei. Vamos fazer o que viemos fazer aqui.
Eles se curvaram diante do guarda da porta, cujo nome Maomao desconhecia, e entraram no quarto.
A essa altura, a suntuosidade das acomodações já era evidente. Suiren e Gaoshun estavam lá dentro.
— Boa noite — disse Maomao com outra reverência.
Ela olhou ao redor da sala. Meio solitário ali, pensou. Não havia muita gente por perto. Presumiu que
Jinshi estivesse lá dentro, mas não viu Taomei nem Basen. Baryou podia estar lá ou não. Chue estava
cutucando uma cortina próxima, então talvez ele estivesse lá.
— Taomei está ocupada dando uma bronca em Basen — disse Suiren, respondendo à pergunta de
Maomao enquanto preparava o chá.
Eu nem perguntei! A velha dama de companhia era esperta mesmo. Ela sabia exatamente o que
Maomao estava pensando. Mas não acho que ele tenha se atrapalhado visivelmente na aldeia. Na verdade,
ela achou que Basen parecia mais maduro do que antes. Ele parecia ter desenvolvido um certo nervosismo,
mas ela presumiu que ele tinha muita coisa para fazer.
— Fofo ou não, ele simplesmente não pode ter um pato no quarto — acrescentou Suiren.
O pato? É disso que se trata? Pelo menos ela sabia o que estava acontecendo agora. Parecia que
Basen não conseguira deixar o pássaro com o irmão de Lahan, que ficara na aldeia agrícola para lhes ensinar
algumas técnicas agrícolas de verdade.
— Agora, Xiaomao, você poderia fazer a gentileza de levar isso ao Príncipe da Lua? — perguntou
Suiren, entregando-lhe a bandeja de chá com um sorriso brilhante.
— Se estiver tudo bem — ela disse.
Gaoshun assentiu, indicando que não havia problema. O assistente de Jinshi, que estava sendo
pressionado, segurava uma única pena branca na mão. Gaoshun sempre gostou de coisas adoráveis. O pato
deve ter tido um efeito restaurador nele. Todas as pessoas na sala naquele momento sabiam, basicamente, o
que estava acontecendo com Jinshi — exceto a indiferente Chue. Ela estava se comportando da melhor
maneira possível naquele momento, provavelmente porque Suiren estava lá.
— Muito bem, então.
Maomao virou-se para a câmara interna. Ao abrir a porta, o ar carregava um aroma revigorante de
incenso que lhe agradou as narinas. Jinshi costumava preferir sândalo, mas hoje estava usando aloés. Tenho
certeza de que ele tem o melhor que o dinheiro pode comprar. Aloés tinha propriedades medicinais e
Maomao adoraria ter um pouco, mas o incenso que Jinshi estava usando provavelmente era absurdamente
caro. Ela não podia simplesmente implorar para que ele compartilhasse um pouco.
— É você, Maomao?
Jinshi estava curvado sobre a mesa, escrevendo algo. Estava cercado de papéis.
— Sim, senhor.
Maomao colocou a bandeja na mesa e serviu o chá. Suiren havia usado água fervente, então, quando
Maomao se acomodou, o chá já estava perfeitamente infundido. Ela serviu duas xícaras igualmente cheias e
pegou uma para si.
— Se me permite.
Ela tomou um gole. Não imaginava que Suiren tivesse preparado chá envenenado, mas protocolo é
protocolo. Ela descobriu um chá preto ricamente fermentado que não só molhava a garganta como também
promovia o fluxo sanguíneo.
- Olha Você aqui.
— Obrigado. — Jinshi largou o pincel e se espreguiçou bastante.
— Como tem passado sua saúde, senhor?
— Vamos direto ao ponto, não é? Ah, tudo bem. Você pode me contar sobre a viagem enquanto faz a
prova.
Jinshi tirou a parte de cima do manto. Maomao sentia que costumava ser um pouco mais lento para
fazer isso, mas, tendo sido submetido a tantos testes, não hesitou mais. Ela também não podia se dar ao luxo
de fazer cerimônia, então removeu sumariamente o curativo.
— Vejo que você ficou bom em trocar os curativos — ela disse.
— Bem, faça alguma coisa todos os dias …
Uma flor carmesim perfeita floresceu no flanco de Jinshi. Uma nova pele se formava sobre a
queimadura, deixando-a com um tom vermelho vivo, como uma rosa ou uma peônia. Maomao poderia até ter
admirado a beleza daquilo, se não soubesse que era politicamente motivada. Eu diria que está melhor. A
cicatriz provavelmente nunca cicatrizaria completamente — passaria de vermelho para rosa, mas
provavelmente não muito mais que isso. Nossa. Quem me dera poder tirar um pouco de pele do traseiro dele
e colar nessa coisa. Ela lançou um olhar para as ancas de Jinshi.
— Sabe, não consigo parar de pensar que ultimamente você parece olhar tanto para as minhas costas
quanto para a minha frente durante os nossos exames — disse Jinshi.
— É a sua imaginação, senhor.
Maomao aplicou uma pomada fresca no flanco de Jinshi, menos para tratar a queimadura do que para
evitar que a pele ressecasse. Eventualmente, ela planejou começar a adicionar algumas ervas para remover
manchas.
— Pronto, tudo pronto.
Ela aplicou um novo curativo, e esse foi o tratamento de Jinshi. Terminou tão rápido que o chá ainda
fumegava. Maomao se serviu de um gole.
— Acontece muito mais rápido quando você faz isso — disse Jinshi.
Ele vestiu o robe novamente e bebeu o chá que estava sobre a mesa. Quando Maomao se moveu para
lhe servir uma segunda xícara, ele fez um gesto para que ela não se incomodasse. Em vez disso, pegou um
livro da escrivaninha e sentou-se na cama.
— Você parece muito ocupado — ela observou.
— Principalmente porque ainda estou descobrindo o que estou fazendo aqui. Uma nova terra
significa muito para aprender.
Então era o estudo e não o trabalho que o mantinha ocupado.
— Passe-me seu relatório — disse ele.
Aparentemente, ele pretendia ouvir enquanto lia o livro. Um mal necessário para quem tem pouco
tempo.
— Quantos detalhes o senhor quer?
— Quero todas as opiniões e observações que você puder me dar. Não economize nos detalhes só
porque já ouvi falar de Basen e Chue.
— Sim, senhor. Nesse caso, eu ...
Jinshi a interrompeu, dando um tapinha na cama ao lado. Maomao não disse nada.
— Seria cansativo para você ficar aí parado o tempo todo enquanto conversamos. Sente-se.
— Claro. Vou buscar uma cadeira …
Ela estava prestes a fazer exatamente isso, mas Jinshi agarrou seu pulso. Ele estava lhe dando aquele
sorriso que faria o país ficar de joelhos.
— Sente-se.
Justo quando ela pensava que ele estava se comportando bem hoje, Maomao não teve outra escolha a
não ser sentar-se ao lado de Jinshi. Lá, ela começou a contar a história da visita deles à aldeia. Contar a
alguém sobre isso lhe deu a chance de organizar as coisas em sua própria mente. Ela descreveu como os
bandidos os atacaram na estrada. Falou sobre os fazendeiros que não demonstraram nenhum desejo particular
de trabalhar. Explicou a tribo dos Leitores do Vento e os servos. Ela até mencionou o clã Yi. Jinshi parecia
estar comparando mentalmente o que ela disse com o que ouvira dos outros dois. Frequentemente, ele
assentia; às vezes, inclinava a cabeça, como se algo lhe parecesse estranho.
— Acho que é tudo o que posso lhe dizer, senhor. Tem alguma pergunta?
— Hum. Acho que o que mais me incomoda é a tribo dos Leitores do Vento.
— Eu sei o que você quer dizer. Uma tribo de celebrantes de rituais que vagam pelas planícies,
controlando pássaros e arando a terra?
— Controlando pássaros …
Jinshi parecia obcecado pela mesma coisa que havia chamado a atenção de Maomao.
— Temos certeza de que os pássaros em questão não são patos, senhor? — perguntou Maomao.
— Sim. Me sinto um pouco mal, fazendo isso com Basen …
Basen estava atualmente na lista negra de sua mãe, Taomei, por causa daquele pato. Como fora Jinshi
quem o ordenara originalmente a criar os animais, ele sentia um certo sentimento de culpa. Além disso,
parecia ter instruído Taomei a cutucar o filho de vez em quando para que ele se mantivesse distante durante
os exames de Jinshi. Todos temiam que, se Basen, um homem nada sutil, descobrisse a marca, ele não
conseguisse guardar segredo.
— Que tipo de pássaro você acha que eles usaram? — perguntou Jinshi.
Basen estava convencido de que deviam ser patos, mas Maomao tinha outra ideia.
— Talvez pombos — ela disse.
Maomao já estivera na capital ocidental antes, um ano antes. Naquela viagem, a ex-consorte Lishu
fora atacada, e o meio de coordenar o ataque fora pombos-correio. Foi assim que a Dama de Branco fez. Ela
não pôde deixar de se perguntar se havia alguma conexão.
— Sim, pombos. Pensei o mesmo.
Jinshi se levantou da cama e desapareceu atrás de uma divisória, de onde saiu carregando uma gaiola
com um pássaro dormindo dentro.
— Você tem um pombo aqui — observou Maomao.
— Sim, eu uso. Comecei a usá-los para comunicações simples.
Jinshi parecia ter mais do que seus 21 anos, mas ainda era jovem o suficiente para ter um pensamento
adaptável; ele assimilava coisas novas rapidamente.
— Já faz uns vinte dias desde que chegamos aqui, e não fiz nada além de comparecer a banquetes e
fazer cumprimentos oficiais. Mas isso me proporcionou oportunidades de coletar informações.
Jinshi começou a contar a Maomao o que ele andara fazendo enquanto ela estivera fora. O pássaro
dormia profundamente, ignorando o milhete em sua tigela de comida. Jinshi contou a ela sobre todos os seus
jantares com a alta cúpula da capital ocidental, como lhe haviam mostrado todos os pontos turísticos
importantes da região e até como algum VIP ocasionalmente o abordara em nome de sua filha ou de um
parente.
— Perdemos por pouco a filha do Sir Gyoku-ou , ela estava partindo para a capital quando nosso
grupo chegou — disse ele.
— Ah, sim.
— Ele perguntou se eu a queria como esposa, mas fingiu estar brincando.
— Claro, senhor. — Maomao cuidadosamente manteve qualquer emoção longe de sua voz.
Jinshi respondeu puxando suas bochechas.
— Eu quero dizer, traça descarada, essa.
- Concordo.
Ele a soltou e Maomao esfregou as bochechas.
— O que você pretende fazer? — ela perguntou.
— Comecei enviando uma carta à Imperatriz Gyokuyou imediatamente. Tenho a resposta dela aqui.
— Já, senhor? Pensei que a viagem de ida e volta levasse pelo menos um mês.
Jinshi pegou uma carta e mostrou a ela. Estava em um estado bem lamentável para uma missiva da
Imperatriz.
— Você usou um pombo — disse Maomao.
— Só há um caminho.
Parecia que Jinshi estava disposta a deixá-la ler a carta, então Maomao deu uma olhada.
— Ela diz para deixá-la resolver as coisas com a sobrinha.
Pelo menos era esse o ponto principal. Se Gyoku-ou fosse de fato meio-irmão da Imperatriz
Gyokuyou, então sua filha seria sobrinha dela. O que ela planeja fazer, eu me pergunto... A Imperatriz não
parecia estar exatamente em boas relações com o meio-irmão. Ela tinha seus próprios planos, Maomao tinha
certeza. Enquanto isso, Maomao e os outros tinham que enfrentar o problema que os aguardava.
— Se os Leitores do Vento estivessem usando pombos, isso daria credibilidade à história daquele
homem, Nianzhen — disse Jinshi.
— Você acha que os Leitores do Vento conseguiram compartilhar informações sobre as planícies?
— Teriam que ser. Pragas de insetos são como incêndios — o problema é chegar até elas no
momento em que começam.
Jinshi jogou para Maomao o livro que ele estava lendo e ela descobriu que não era texto, mas
continha colunas de números. Registros de algum tipo.
— Essas são as pragas que ocorreram nas últimas décadas. Lahan teria calculado os números num
instante, mas tem sido mais difícil para mim.
Os registros indicavam as localizações, seguidas de números relativos aos enxames. Era o suficiente
para dar dor de cabeça a qualquer um que não fosse especialista.
— O senhor acha que há algum tipo de padrão? Algo insidioso?
— Eu não tinha certeza apenas pelos registros da colheita, mas graças à sua inspeção, agora sei. A
província de I-sei está divulgando falsamente números de colheita inflacionados.
— Inflado? Não entendo. Por que fariam isso?
Normalmente, números mais altos significariam apenas impostos mais altos. Se eles estivessem
subnotificando suas colheitas isso ela teria entendido.
— Ainda não sei. Mas se desastres naturais estão ocorrendo em lugares não mencionados nos
registros, então todas estas páginas são inúteis.
Jinshi balançou a cabeça, sem esperança.
— A única maneira de ter certeza é ir ver com os próprios olhos. Não apenas a vila que você visitou;
outras também.
No entanto, não foi fácil para o irmão mais novo do Império. Embora ainda estivesse dentro de suas
próprias fronteiras, naquela terra distante ele era menos poderoso do que em casa, e havia menos pessoas à
sua disposição.
— Mais alguma coisa chamou sua atenção? — ele perguntou.
— Talvez uma coisa …
— Sim? O quê?
— Não há muitas ervas medicinais por aqui, senhor.
Ela olhou diretamente para Jinshi, até mesmo permitindo que um pouco de sua irritação
transparecesse em seu rosto.
— Gostaria de uma enciclopédia de plantas locais. Haverá um limite para a quantidade de remédios
que posso fazer usando apenas o que trouxemos de casa.
O mais fácil seria Maomao ir pessoalmente a uma livraria, mas parecia que ela não teria essa
oportunidade. Certamente ela não se meteria em encrenca por pedir que ele cuidasse de uma pequena tarefa.
— Muito bem. Mais alguma pergunta?
— Posso perguntar algo de natureza pessoal?
- Vá em frente.
— Quem era o clã Yi?
Era pura curiosidade da parte de Maomao. Ela sabia que os Yi haviam sido aniquilados dezessete
anos antes por ordem da imperatriz reinante, mas não sabia o que eles haviam feito.
— O clã Yi... Hmm — Jinshi murmurou.
— O que foi, senhor? É algo sobre o qual o senhor não pode falar?
— Não é bem isso. Eu mesmo não tenho certeza. Sei que eles serviram ao trono ao lado do clã Shi
desde os tempos da Mãe Real. E ouvi dizer que seguiam um sistema de descendência matrilinear.
— A Mãe Real — Wang Mu foi a mulher que fundou Li, segundo a lenda. Às vezes, dizia-se que ela
era a mãe do primeiro imperador.
— Matrilinear, senhor? — Maomao ficou surpreso.
O patriarcalismo tendia a ser a ordem do dia em Li, e ela esperava que essa tendência fosse ainda
mais forte na província de I-sei, que abrigava muitas tribos nômades.
— Sim, é isso mesmo. Um informante revelou a traição dos Yi, e por isso eles foram destruídos.
Uma teoria diz que eles influenciaram indevidamente a família imperial... mas Gaoshun me disse que nem
ele sabe ao certo.
— Nem o Mestre Gaoshun sabe?
— Não. Tentei procurar discos daquela época, mas eles eram tão comprimidos e superficiais que não
fazia sentido.
Aquilo pareceu estranho. Desleixado, até. A recusa de Jinshi em ser definitiva talvez sugerisse o
quanto de boatos e boatos havia no que ele estava lhe contando.
— Entendo, senhor.
Ela limpou a pomada e juntou as bandagens usadas.
— Você já vai? — Jinshi cerrou os punhos e olhou para ela como um cachorrinho triste.
— Sim, senhor. Eu mesmo vim quase direto da viagem e estou muito cansado. Gostaria que me
deixasse dormir um pouco.
— Nesse caso … — Jinshi começou, mas então balançou a cabeça.
— O que foi, senhor?
Maomao tinha uma boa ideia do que era, mas fingiu não saber.
— Não, melhor não. Após uma violação grave das regras, até mesmo uma pequena transgressão é
vista com severidade.
Uma violação das regras, hein? Maomao olhou para Jinshi. Talvez eu não esteja sendo muito justo.
Jinshi era um homem que poderia ter tudo o que desejasse. E, no entanto, ele era tão direto que o fazia ficar
enrolando assim. Ele não queria pegar o caminho mais curto para o que queria, mas sim o que fosse melhor
para a outra pessoa. Pena que isso não existe aqui. Então Maomao fingiu não saber, mesmo sabendo. Nada
justo da parte dela.
— Nesse caso, eu vou, senhor.
Ela tentou sorrir um pouco, para amenizar a injustiça. O braço de Jinshi ainda estava estendido, mas
ele não saiu da cama. Chue acompanhou Maomao de volta ao seu quarto. Ela não contou nenhuma história
de fantasma dessa vez; em vez disso, reclamou da conversa séria que Suiren lhe dera enquanto Maomao
estava ocupada com Jinshi.
— Ufa! Quem limpa no meio da noite? Ninguém, só isso! O que você acha, Srta. Maomao? — Chue,
Maomao descobriu, tinha sido obrigada a polir o chão.
Desculpe, Srta. Chue... Provavelmente tinha sido uma maneira conveniente de evitar que Chue
invadisse o quarto de Jinshi. Suiren era, como sempre, aliada de Jinshi. Chue era respeitosa o suficiente para
não fazer perguntas sobre o que acontecera enquanto Maomao e Jinshi estavam sozinhos, então,
aparentemente, ela sabia alguma coisa sobre onde ficava a fila para uma dama de companhia. Mesmo que
sua aparência e comportamento sugerissem exatamente o oposto.
— Assim que eu a deixar, Srta. Maomao, voltarei para o meu quarto. A brincadeira com meu marido
pode ficar para outro dia.
— Senhorita Chue, não compartilhamos detalhes íntimos de nossa vida conjugal com outras pessoas.
— Mas isso não é nenhuma novidade para você, é?
— Não é; isso é verdade.
Maomao teve que ficar de guarda durante o reinado do Imperador e da Imperatriz
— trapaças — sem mencionar tudo o que as moças do Distrito do Prazer aprontavam com seus
clientes. Francamente, ela estava mais acostumada com trapaças humanas do que com cópula de insetos.
— Então por que se preocupar com .
Chue e Maomao estavam virando a esquina do corredor quando o que parecia uma máscara branca
surgiu na frente deles.
— O quê?!
O cérebro de Maomao não processou a princípio. Parecia um rosto flutuante e sorridente.
— Senhorita Maomao? — perguntou Chue, que estava virado para ela.
Ela rapidamente percebeu que algo estava errado e se virou, acendendo a lanterna. Então, saiu
correndo atrás da máscara branca, com Maomao logo atrás. Quando Maomao alcançou Chue, ela estava
pendurada nos galhos da grande árvore no pátio central.
— Sinto muito mesmo! Perdi a noção! — ela disse lentamente.
Então ela pulou, com o cabelo cheio de folhas.
— Nossa! Quem diria que realmente havia fantasmas aqui?
Ela parecia realmente intrigada.
— Então isso é um feitouman.
Maomao certamente nunca imaginou ver uma, mas, com base em todas as descrições, era certamente
o que pareciam ter em mãos. Uma cabeça voadora de verdade.
Capítulo 11: O Feitouman (Parte 1)
O feitoumano, a cabeça voadora, aparecera pela primeira vez há cerca de dois meses. A primeira
pessoa a vê-lo foi um criado. Ele havia terminado seu trabalho e caminhava sob o luar quando viu algo
pálido flutuar à sua vista. Olhou mais de perto e descobriu que era uma máscara branca. O homem presumiu
que fosse alguém pregando uma peça, mas estava cansado demais para brincadeiras naquele momento.
Estava prestes a passar por ali — quando a máscara se virou e olhou para ele. Assustado, depois apavorado, o
homem fugiu. Na manhã seguinte, quando se sentiu mais calmo, percebeu que devia estar apenas vendo
coisas. Mas quando foi até onde vira a máscara na noite anterior, não encontrou nenhum vestígio de nada.
Depois disso, outras pessoas também começaram a relatar a misteriosa máscara. Algumas disseram que se
viraram em direção a um barulho estranho e encontraram a máscara sorrindo para elas; outras, que ela estava
flutuando no ar. Finalmente, mais recentemente, começaram a circular histórias sobre a cabeça desencarnada
de uma mulher voando pela mansão — o que inspirou alguns a dizer que devia ser um feitoumano.
— Então você também viu, mocinha? — Lihaku perguntou com a boca cheia de mingau.
Maomao estava no consultório médico jantando com os outros e, durante o café da manhã, ela
contou a eles o que tinha visto na noite anterior.
— Hein! O que você estava fazendo vagando pela casa no meio da noite, Niangniang?
Tianyu, por sua vez, estragava uma conversa perfeitamente agradável. Sua refeição consistia apenas
de suco; parecia que ele não era uma pessoa matinal.
— Sim! Quem sabe o que pode estar à espreita lá fora à noite? Se não consegue dormir, pelo menos
fique no seu quarto — disse o médico charlatão, que havia preparado um farto café da manhã com mingau,
leite de cabra e pão frito.
— Desculpe. Foi meio que... de improviso. A Srta. Chue me convidou.
O pedido de desculpas de Maomao não soou especialmente apologético. Ela ainda estava cansada da
viagem e, além disso, havia chegado tarde da excursão noturna e presenciado aquela " cabeça voadora ". No
fim, mal conseguiu dormir. Não tinha muito apetite e teria ficado feliz com um café da manhã com suco,
assim como Tianyu, mas o charlatão insistiu que ela comesse pelo menos um pouco de mingau, então ela
tentou engolir um pouco. O que ele era, sua mãe?
— A propósito, Mestre Lihaku, o que quer dizer com "eu também"?
— Ah, alguém veio até mim perguntando sobre o feitouman.
— Eca! Ninguém me contou!
O grasnado estremeceu. Se ainda tivesse o bigode, ele estaria tremendo como os bigodes de uma
botia.
— Achei que seria melhor não te contar. Fantasmas não são seu assunto favorito, né? — disse
Lihaku.
Ele conhecia bem o charlatão.
— Quem foi que te perguntou sobre isso?
Agora Maomao estava curiosa. Tudo tinha acontecido tão tarde na noite anterior que ela resolveu se
preocupar com isso no dia seguinte e se despediu rapidamente de Chue.
— Um dos filhos dos criados. Dei uns doces para eles e agora somos amigos.
Ele os faz soar como um cachorro ou um gato! As repetidas visitas de Lihaku à Casa Verdete o
ensinaram a se dar bem com as crianças. Se os aprendizes não gostarem dele, nunca levarão suas mensagens
a Pairin, afinal. Por que se dar ao trabalho de demonstrar seu novo talento ali na capital ocidental? Era isso
que Maomao queria saber. Talvez ficar com o charlatão só lhe desse tempo de sobra.
— Não estou dizendo que acredito em espíritos ou algo assim — acrescentou Lihaku.
— Quando perguntei se você tinha visto, não quis dizer... Bem, eu sei que você nunca leva esse tipo
de coisa a sério.
— Agora que vi, estou ansioso para descobrir o que realmente é.
— Ficarei feliz em ajudar — disse Lihaku.
— Mas estou de folga por hoje. Se acontecer alguma coisa, me acorde.
Ele limpou a tigela e foi para o seu quarto no primeiro andar dormir. Até homens de resistência
aparentemente infinita precisavam descansar. Dormir bem depois de uma noite de vigia fazia parte do
trabalho de Lihaku. Um guarda reserva estava do lado de fora do consultório médico. Quando Lihaku estava
saindo, uma criança pequena se aproximou do quarto.
— Onde está o senhor Soljer? — perguntou ela, olhando ao redor, com o rosto pálido.
Aparentemente, o militar de guarda na porta não contava. Maomao logo percebeu o que ela queria
dizer.
— Se você está procurando o Mestre Lihaku, ele está de folga — ela disse.
Essa garota devia ser a serva que Lihaku mencionou. Ela parecia ter uns dez anos.
— O-Oh …
A garota pareceu decepcionada e se recusou a olhar nos olhos de Maomao. Maomao olhou para
Tianyu e o charlatão.
— Você gostaria que eu o chamasse? — ela perguntou.
— Você incomodaria um soldado de folga?
Tianyu explodiu. Ele era irritante, mas tinha razão. Não seria nada bom se o guarda deles estivesse
sem dormir quando algo acontecesse — mas Lihaku havia dito para acordá-lo se fosse necessário. Lihaku
estava acordado e deve ter ouvido a conversa barulhenta, pois saiu direto do quarto.
— Olá! — disse ele.
— Senhor Soljer!
A menina foi direto até ele.
— Vimos de novo!
— Ah, você viu? O que você viu?
— Uma cabeça! Uma cabeça de mulher!
De alguma forma, tudo continuava voltando para essa história de fantasma.
— Onde você viu isso? — perguntou Lihaku.
— Lá fora! O zelador, ele mal conseguia ficar de pé, estava com tanto medo
— Certo, entendi. Onde está o zelador agora?
— Ele está trabalhando no jardim. Mas está branco como papel!
— Bom saber. Aqui tem um doce para você.
— Eba!
A menina saiu correndo do consultório médico. Maomao olhou para Lihaku.
— Posso lhe perguntar uma coisa, Mestre Lihaku?
— É? O que é isso?
— Você não está fazendo isso por curiosidade pessoal, está? Esta é uma investigação oficial.
— Eu sabia que você era esperto .
Lihaku não fez nenhum esforço para esconder. Ele acreditava que havia uma chance de que essa "
cabeça voadora " fosse realmente alguém que pudesse causar danos. Se ele estava investigando,
presumivelmente era por ordem de outra pessoa.
— Esse Tianyu é um problema — Lihaku murmurou para Maomao.
Era raro o soldado alegre e radiante reclamar daquele jeito. O charlatão cantarolava uma melodia
enquanto lavava a louça. Tianyu havia terminado o café da manhã e estava escovando os dentes — um
médico superior havia ordenado que a equipe médica não deveria ter dentes podres; não ficaria bem. Esse
médico era, não por acaso, o Dr. Liu. Parece que Lihaku e Tianyu não se dão bem. Maomao meio que
suspeitava disso.
— Vocês dois não combinam? — ela perguntou.
— Acho que sim. Tianyu e eu... talvez sejamos feitos de tecidos diferentes. Não é como se fôssemos
brigar, mas não sei bem como falar com ele. Entende o que quero dizer?
Maomao, de fato, sabia o que queria dizer. Normalmente, era possível resolver esses problemas
mantendo distância da pessoa em questão, mas isso não era uma opção ali.
— Você está dizendo que normalmente não seria um problema, mas estamos tão próximos que isso
dificulta as coisas. E talvez não fosse tão ruim se fosse alguém com quem você pudesse resolver as coisas
brigando, mas Tianyu obviamente não é esse tipo de pessoa. Estou certo?
— Eu sabia que você era esperto! Não é que eu não consiga lidar com ele, mas... não sei o que se
passa na sua essência. É como se eu conseguisse ver os galhos, mas não o tronco.
Lihaku parecia ter imobilizado Tianyu por puro instinto.
— Já você, mocinha, tem uma lógica no seu comportamento. Seja lá o que for que você faça, pode
apostar que há veneno ou drogas por trás disso.
— Você poderia pelo menos dizer 'drogas ou veneno', por favor — respondeu Maomao.
— Quanto ao Tianyu, você está certo de que a personalidade dele tem algumas rugas, mas não acho
que seja algo para se preocupar muito.
Afinal, ele conseguiu se tornar médico e, com ou sem falta de pessoal, eles nunca o teriam trazido
para a capital ocidental se não tivessem investigado minuciosamente seus antecedentes.
— Claro, eu entendo. Desculpe. Sou um soldado . Acho que estou sempre pensando em termos de
batalha.
— Batalha? Como assim?
— A única coisa que sei com certeza é que eu nunca poderia confiar nele para me apoiar.
Puro instinto. Não havia nada que Maomao pudesse dizer sobre isso. Ela decidiu deixar o assunto
Tianyu de lado.
— De qualquer forma, posso perguntar: as ordens para investigar o feitoumano vieram do Príncipe
da Lua?
— É isso mesmo. O Mestre Jinshi me mandou.
Havia um nome que Maomao não ouvia muito de outras pessoas ultimamente. Gostaria que ele
tivesse me dito algo. Mas, por outro lado, Maomao preferia fazer as coisas com o mínimo de conversa
possível.
— Desculpe, eu deveria ter te contado? Eu te conheço — se algo te interessa, você se esforça tanto
que esquece de comer ou dormir. E minhas ordens incluem não deixar você se acabar.
Maomao pensou que estava mantendo seu monólogo interno, mas aparentemente as palavras saíram
de sua boca, e agora Lihaku se desculpava em nome de Jinshi. Não me deixar me exaurir, hein? Nesse caso,
ela poderia desejar que ele não a chamasse para o quarto. Para alguém que nunca parava de lhe fazer novas
exigências, Jinshi às vezes tentava ser atencioso das maneiras mais estranhas. E agora havia uma cabeça
flutuante envolvida. Ele sempre vinha até ela com problemas que pareciam saídos de uma história de
fantasma.
— É estranho, no entanto — disse Lihaku.
— O que é estranho? — perguntou Maomao.
— Além da cabeça voadora, quero dizer.
— É exatamente isso. Quando ouvi a história pela primeira vez, as pessoas falavam de uma máscara
flutuante. Mas, nos últimos vinte dias, mais ou menos, muita gente parece estar relatando uma cabeça
voadora.
— Ponto interessante. O que vi parecia mais uma máscara do que uma cabeça.
Ela só tinha visto de relance, então não tinha certeza, mas essa foi sua impressão inicial.
— É isso que a gente estava falando no café da manhã? Difícil de ignorar, né?
Maomao se virou ao ouvir a voz atrás deles. Era Tianyu, que havia acabado de escovar os dentes. Ele
estava sorrindo. Lihaku não pareceu muito surpreso – parecia ter adivinhado que Tianyu estava ali .
— Escutar conversas é falta de educação, sabia? — disse ele.
— Espionando? Eu? Não, não. Só fiquei curioso para saber por quanto tempo vocês dois
continuariam conversando. Um homem e uma mulher solteiros!
— Acredite, não é nada disso! — Maomao e Lihaku responderam em uníssono.
— Acredite, não creio que seja.
Quanto Tianyu ouviu?
— Então, essa cabeça voadora. Que história, hein? O que você acha? Quer me contar?
— De jeito nenhum — Maomao retrucou. O rosto de Tianyu ficou sombrio.
— Ah, por que não?
— Porque você vai contar.
- Eu não vou.
— Porque você vai ficar entediado no meio disso e desistir.
— Isso eu posso fazer.
Lihaku ficou quieto, deixando Maomao lidar com Tianyu. Ele realmente não gostava de lidar com o
sujeito.
— Posso ser útil! — disse Tianyu.
— Se você acha que eu não consigo, ou se acha que eu sou um risco ou algo assim, é só porque você
não sabe como me usar. Você também se recusa a usar tesouras porque pode se cortar com elas?
Maomao olhou para Lihaku. Ele retribuiu o olhar como se dissesse que a decisão cabia a ela. Após
um longo momento, Maomao disse :
— Só não fique no nosso caminho.
- Sim!
Havia um brilho tênue nos olhos de Tianyu. Maomao e Tianyu saíram para o pátio onde Maomao
vira o feitouman na noite anterior.
— Então! O que acontece agora? — perguntou Tianyu, embora parecesse não se importar muito.
— O que acontece agora é que você nos mostra o quão útil você pode ser, Senhor Tesoura — disse
Maomao, olhando ao redor do pátio.
Ela disse a Lihaku para dormir um pouco, já que ele estava de serviço na noite anterior, mas o
convenceu a deixar o mapa da mansão com ela. Enquanto isso, eles disseram ao charlatão que iriam apenas
resolver uma pequena tarefa, então a investigação precisava ser rápida.
— Você tem que dizer à tesoura qual papel você quer que ela corte. Embora você possa furar
qualquer coisa pelas costas com ela.
Maomao não respondeu. Parecia que Tianyu estava irritada por ela e Lihaku não confiarem nele. Mas
ele é quem é. Seu compromisso com a ética parecia, bem, pouco entusiasmado.
— Que tal começarmos olhando todas as áreas onde o espírito supostamente apareceu? — sugeriu
Maomao.
— Sim, claro.
O pátio era onde a máscara misteriosa era mais frequentemente avistada.
— A maioria dos relatórios coloca-o perto daquela árvore ou no topo daquele edifício — disse
Maomao, olhando para suas plantas.
Para um anexo — este lugar era bem grande.
— Hoh! — disse Tianyu, olhando da árvore para o prédio e de volta.
Era a mesma árvore em que Chue estava pendurado na noite anterior. Ainda havia um monte de
folhas embaixo dela, sugerindo que o jardineiro ainda não tinha limpado.
— Alguma coisa chamou sua atenção? — perguntou Maomao.
— Não. E você, Niangniang?
Era assim que ele sempre a chamava. Ela tinha desistido de tentar corrigi-lo, mas ultimamente até os
outros médicos estavam começando a fazer isso. Era muito frustrante.
— Algumas coisas.
Primeiro ela olhou para a árvore.
— Esta árvore não é exatamente como as outras que vi crescendo na capital ocidental. É maior e
mais alta.
— É? E daí?
— Não te deixa curioso? Diferentes tipos de plantas significam diferentes remédios que você pode
fazer com elas! Precisamos nos aproximar um pouco mais para ter certeza do que estamos lidando.
— Certo. E isso tem a ver com o motivo de estarmos aqui?
Aquele Tianyu ... se não estivesse especificamente interessado em algo, não dava para fazer com que
ele mexesse um dedo. Ele não era nada divertido, concluiu Maomao, lançando-lhe um olhar azedo.
— Qual é a outra coisa? — perguntou Tianyu.
— A outra coisa é que o feitoumano relatado dentro da casa parece ter a forma de uma máscara ou de
um rosto. Do lado de fora, porém, as pessoas afirmam ver uma cabeça.
— Desculpe, qual a diferença entre uma cabeça e um rosto? O que você viu, Niangniang?
— Uma máscara, eu diria. Eu a vi assim que ela desapareceu na esquina daquele corredor em direção
a este pátio.
Ela apontou para o lugar.
— Uma máscara... Então não parecia uma cabeça para você?
— Não, definitivamente uma máscara ou um rosto. Mas alguns relatos descrevem como uma cabeça.
A discrepância irritou Maomao.
— Uma cabeça é basicamente a versão tridimensional de uma máscara, certo? — disse Tianyu.
Ele era inteligente e imediatamente percebeu algo importante.
— Não tenho certeza se podemos colocar dessa forma, mas não pude deixar de me perguntar. Estava
pensando em investigar aquela árvore.
— Pode falar. Precisa de alguma coisa?
A tesoura cega finalmente decidiu ficar mais afiada.
— Se você puder ser gentil, então.
Maomao tirou um lenço das dobras de seu manto e o enrolou em uma pedra que encontrou no chão.
— Jogue isso nos galhos para mim.
— Sim, claro. Você faz parecer tão fácil.
Apesar de resmungar, Tianyu jogou a pedra com maestria, prendendo o pano em um galho. Não era
exatamente um comportamento adequado para uma dama da corte subir em uma árvore. Um lenço que
tivesse sido levado pelo vento seria uma desculpa conveniente. Maomao correu até o tronco da árvore. A
planta era uma planta de folhas largas, com quase seis metros de altura.
— Osmanthus — ela observou.
Uma árvore que produzia uma profusão de pequenas flores de aroma forte, que podiam ser usadas
para fazer vinho de osmanthus ou chá floral. Maomao agarrou-se ao tronco e mal tinha se levantado do chão
quando exclamou:
— Eca!
A mão dela estava coberta de fezes de pássaro meio secas. A coisa estava espalhada por toda a
árvore.
— Nojento — Tianyu ofereceu.
— Guarde isso para você, por favor — disse Maomao.
Ela estudou a sujeira em sua mão e então a cheirou vigorosamente.
— Você está, uh, sentindo o cheiro disso? — Tianyu perguntou, incapaz de ignorar o que estava
vendo.
Maomao, no entanto, apenas olhou para o chão e então cutucou algo que viu lá com um pedaço de
pau.
— Ei, o que você está fazendo? — Tianyu perguntou, mais confuso do que nunca.
Maomao pegou dois pequenos galhos e os segurou como se fossem hashis.
— Hein? Você está catando? Você está... tirando algo do cocô, usando pauzinhos.
Ele recuou um passo, lançando-lhe um olhar profundamente desconfiado. Maomao não estava
exatamente entusiasmado com aquilo, mas havia muita coisa que se podia aprender com esterco animal.
Além dos excrementos de pássaros não tão secos, o espaço sob a árvore abrigava algo que parecia bolas de
pelo. Elas vinham de tipos específicos de pássaros — alguns deles regurgitavam coisas que não conseguiam
digerir.
— Este pássaro parece comer principalmente insetos — disse Maomao, dissecando a bola de pelos
com um pedaço de pau.
Lá dentro, ela descobriu asas e pernas de insetos.
— Pois é. Os pássaros costumam fazer isso, certo?
— Tem um pouco de pelo aqui também. Provavelmente de um rato ou algo assim.
Ela também avistou alguns ossos junto com pelos e pedaços de insetos.
— Então ele come ratos? Provavelmente de um falcão ou de alguma outra ave de rapina.
Insetos eram uma coisa, mas se esse pássaro estava comendo ratos, então ele tinha que ter um certo
tamanho.
— Sim. No entanto … — Maomao olhou ao redor.
A abundância de água e vegetação naquela casa atraía um bom número de pássaros, mas ela não viu
nada que parecesse grande o suficiente para comer ratos, pelo menos não naquele momento. Um pássaro
como aquele teria assustado seus primos menores, de qualquer forma. Maomao pensou por mais um
momento e então olhou para o prédio.
— Não é possível subir naquele telhado, não é? — ela disse.
— Não sei. Quer que eu jogue outro lenço aí em cima?
— Você acha que conseguiria chegar tão longe?
— Duvido.
Isso não parecia levá-los a lugar nenhum. Maomao estava pensando que era hora de voltar quando
algo se moveu no limite de sua visão. Ela olhou em sua direção e viu uma decoração de treliça sob o beiral.
— Mudei de ideia. Quero subir até o telhado.
— O quê? Mas não tem como subir!
— Tem que ter alguma coisa. Vamos encontrar uma escada.
— Fácil para você falar. Provavelmente teremos que perguntar ao zelador ...
O que Tianyu não parecia disposto a fazer. Seu interesse parecia estar diminuindo. O zelador? Era o
velho que dissera ter visto a cabeça ontem, não era? Maomao foi em direção ao local onde o zelador estava
limpando.
— Com licença! Pode nos emprestar uma escada?
— O quê? Você acha que pode simplesmente chegar e exigir uma coisa dessas?
O zelador parecia muito incomodado. Parecia completamente deprimido, talvez por causa do
estranho encontro do dia anterior.
— Eles nos disseram para sermos educados com os visitantes, mas nunca disseram que tínhamos que
ajudar vocês a subir e brincar nos telhados!
— E eles estavam certos — disse Tianyu.
De que lado ele está?! Tianyu obviamente não seria de grande ajuda. Maomao teria que persuadir o
homem sozinha.
— Acho que tem um passarinho fazendo ninho embaixo do telhado — ela disse.
— Aninhamento? Sabe, agora que você mencionou, tem havido muitos excrementos por aí
ultimamente.
— Sim, senhor. Ter ninhos de pássaros por aí só pode significar mais trabalho, então pensei em
limpá-los. Eu ficaria muito feliz se pudesse ficar com os ovos que encontrasse — eles são um ingrediente
medicinal, sabia?
— Medicinal? Você nem sabe que tipo de pássaro é esse aí em cima.
— Verdade, senhor, mas a maioria dos ovos é muito nutritiva, independentemente da espécie.
Maomao estava meio que inventando coisas à medida que avançava. A maioria dos ovos era
comestível, pelo menos, se você os cozinhasse. Então, ela deu um último empurrãozinho.
— Acho que sei o que está por trás do fantasma que anda aterrorizando todo mundo ultimamente.
— V-Você tem?! Sério?! — disse o zelador.
— Sim, senhor — ela respondeu, confiante de que conseguiria resolver pelo menos metade do
enigma.
O zelador encontrou uma escada para eles rapidamente, mas ela era velha, frágil e balançava quando
a colocavam no chão.
— Deixa eu adivinhar. Você quer que eu suba no telhado? — disse Tianyu.
— Você diz isso quase como se não quisesse.
- Eu não.
Nem mesmo Maomao achou que conseguiria forçar o velho zelador a subir até o telhado, então
resolveu fazê-lo sozinha. O único problema era o grupo de criados e burocratas que começara a se formar
assim que a grande escada foi colocada no pátio. (Será que eles não tinham nada melhor para fazer?)
Infelizmente, nenhum deles se ofereceu para subir no lugar de Maomao; eles apenas ficaram parados,
olhando. Um deles, aliás, era o funcionário original com muito tempo livre: Jinshi estava lá. Todos os outros
recuaram alguns passos com a chegada deste VIP. Jinshi olhou para o que estava acontecendo, horrorizado, e
então disse algo a Basen. Basen assentiu e foi até Maomao, seu pato o seguindo educadamente.
— Parece que você vai subir aquela escada. Deixa que eu subo. O que você precisa aí em cima?
— Você vai subir lá para mim, Mestre Basen?
Francamente, se essa fosse a escolha, Maomao preferiria ir sozinha. A destreza atlética de Basen não
estava em questão, mas ela temia que ele não... improvisasse rápido o suficiente. Além disso, quem sabe o
que ele poderia fazer com sua força absurda? O pato bateu as asas como se estivesse torcendo por ele. A
inquietação de Maomao só aumentou.
— Não precisa se preocupar. Eu consigo — disse ela com firmeza, mas Basen não se deixou abater.
— Eu disse, vou lá em cima. O que você quer que eu faça? — Basen estava claramente aqui
presumindo que ia lidar com essa tarefa.
Maomao teria que se curvar.
— Acho , acho, agora — que um pássaro fez um ninho nas vigas do telhado. Se você o encontrar,
acha que pode pegar o pássaro para mim?
— Um pássaro? Ah, pássaros, eu sei como lidar — disse ele, olhando para o pato.
Os patos domésticos, no entanto, não voavam.
— Suspeito que este pássaro seja noturno, então provavelmente está dormindo agora. Se você puder
se esgueirar até lá bem quietinho, para que ele não acorde, por favor. Se conseguir alcançá-lo, agarre-o.
- Entendido.
Basen estava ansioso para ir. Maomao sentia-se cada vez menos seguro disso.
— Mestre Basen, não se pode entrar no Paraíso se se tira uma vida desnecessariamente, lembre-se.
Tente não estrangular o pobrezinho.
— Tente não estrangulá-lo …
Basen imediatamente pareceu, bem, menor. Isso é ruim, ruim, ruim. Ela definitivamente sentiu uma
onda sinistra de presságio. Considerou seriamente acordar Lihaku e pedir que ele cuidasse disso, mas então
olhou para as vigas novamente. Ele nunca conseguiria passar entre elas.
— Sabe, considerando o tamanho do espaço lá em cima, eu definitivamente acho que deveria fazer
isso — ela disse.
— N-Não, não, eu vou. Pode contar comigo! — respondeu Basen.
Então ele subiu a escada, a ansiedade de Maomao aumentando a cada passo. Se havia um lado bom
nisso, era que Basen era tão robusto que não se machucaria se caísse. Basen chegou ao topo da escada e
espiou através da treliça ao longo da linha do telhado. Ele lançou a Maomao um gesto de "tudo bem". Acho
que isso significa que há um ninho lá em cima. A treliça foi projetada para ser removível, e Basen a
arrancou. Ele passou uma corda por ela e a abaixou até o chão, então se enfiou no vão do telhado. Toda a
multidão reunida, Maomao incluído, engoliu em seco. Todos pareciam estranhamente silenciosos - então
Maomao percebeu que Chue havia se aproximado em algum momento e estava segurando uma placa na qual
ela havia escrito "Silêncio, por favor". Por um longo momento, nada aconteceu, e então houve um estrondo
alto.
— Atire! Ele escapou! — exclamou Basen.
Ah, qual é! Maomao estava fora de si , mas Chue largou a prancha e subiu a escada aos trancos e
barrancos. O que ela estava fazendo? Ela se posicionou em frente ao espaço aberto no terraço e, quando um
pequeno objeto surgiu, ela o prendeu em uma rede. Todos, mais uma vez incluindo Maomao, ficaram em
silêncio, atônitos, diante da demonstração de destreza de Chue. De onde ela tirou aquela rede?, perguntou-se
Maomao.
— Peguei você! — Chue gritou e ergueu a rede.
Ela parecia tão orgulhosa de si mesma que era difícil não ficar um pouco irritada. Ela sempre gostou
de ser o centro das atenções e havia encontrado uma oportunidade perfeita. Uma confusão se espalhou pelo
pátio, mas quando Jinshi, a pessoa mais importante ali, disse a todos para voltarem ao trabalho, eles se
dispersaram prontamente. Assim que os curiosos se afastaram, o restante pôde ver exatamente o que estava
na rede de Chue.
— O que é isso? — perguntou Jinshi.
Ele e Basen pareciam igualmente atônitos. A julgar pela reação de Basen, o pássaro havia escapado
antes que ele visse exatamente como era. Chue havia capturado uma coruja, com cerca de trinta centímetros
de tamanho. Mas não parecia uma coruja comum — o que mais chamava a atenção era seu rosto, que era
sinistro e estranho, redondo e branco. As penas que circundavam seu rosto eram pretas, e se estivesse em
algum lugar escuro e a coruja estivesse com as asas dobradas, poderia muito bem parecer uma máscara
branca. Contudo...
— Não é meio pequeno? — Tianyu perguntou, nada impressionado.
Ele não hesitou em se envolver na conversa, apesar da presença de Jinshi — o próprio Príncipe da
Lua. Maomao o cutucou com o cotovelo.
— Opa! Príncipe da Lua, senhor. Não percebi que o senhor estava aqui. Sinto muito.
Maomao estava começando a pensar que Tianyu não se importava muito com etiqueta. Não que ela
estivesse em posição de julgar. A expressão de Jinshi era um tanto dura, mas superficialmente, ele exibia um
sorriso digno de alguém que " vivia acima das nuvens " — um nobre.
— Considerando a comoção, seria difícil não notar. Mas o que exatamente você estava fazendo? —
perguntou ele.
Estamos nos fazendo de inocentes, não é?, pensou Maomao. Ele até mandou Basen fazer o trabalho
sujo. Maomao, preocupado com o que Tianyu diria se deixado por conta própria, deu um passo à frente antes
que ele pudesse falar.
— Senhor. Há rumores de que uma aparição foi vista dentro e ao redor desta casa ultimamente. O
soldado encarregado dos médicos me disse que ouviu falar dela por um criado e que está investigando o caso
em suas patrulhas pela mansão. O mesmo criado veio até ele novamente esta manhã, mas como nosso
soldado estava de guarda ontem à noite, hesitei em deixá-lo lidar com isso sozinho.
Maomao presumiu que Chue teria contado a Jinshi sobre as experiências da noite anterior.
— Na verdade, eu mesmo encontrei o que acredito ser esse espírito ontem à noite, então queria
ajudar a descobrir o que estava acontecendo.
— Hum. E o médico aí com você? Presumivelmente, ele tem deveres médicos para atender.
Jinshi olhou friamente para Tianyu. Droga. Ela sabia que não tinha sido uma boa ideia deixar Tianyu
se envolver. Ela o encarou. Ele, no entanto, deu um passo à frente com um olhar inocente.
— Minhas humildes desculpas — ele disse da forma mais elaborada possível.
— Implorei que me deixasse acompanhá-la. Maomao aqui é muito mais habilidosa na mistura de
remédios do que eu, que sou tão deficiente, e tem me ensinado muito, gentilmente. Quando ela disse que
queria examinar o pátio, simplesmente presumi que ela queria dizer que ia procurar ervas e outros
ingredientes, e a segui.
Ora, seu pequeno... Ele estava agindo de forma excepcionalmente educada e nem errou o nome dela!
Maomao achou que os olhos de Jinshi brilharam ainda mais.
— Ah, entendi. Acho que entendi o que está acontecendo aqui. Você acredita que esse pássaro é o
suposto espírito?
— Sim, senhor. De qualquer forma, essa é metade da resposta.
Maomao olhou para a coruja.
— Este lugar é muito público — disse Jinshi.
— Talvez eu possa lhe fazer mais algumas perguntas em outro lugar.
— Claro, senhor — disse Maomao, e lá se foram eles.
Capítulo 12: O Feitouman (Parte 2)
Jinshi estudou o animal na gaiola.
— Nunca vi um pássaro com um rosto assim antes. Nunca imaginei.
Eles se dirigiram aos aposentos de Jinshi, onde ele se sentou no lugar de honra, com Suiren, Taomei
e Chue ao seu redor, além de Basen como guarda-costas. Maomao suspeitava que o irmão mais velho de
Basen, Baryou, também estivesse por perto, mas não esperava vê-lo em nenhum momento. Gaoshun estava
ausente; se estava de folga ou em alguma outra missão, ela não sabia. Por algum motivo, Tianyu também
estava lá, sorrindo. Finja que tem trabalho ou algo assim e saia daqui!, pensou Maomao, mas se parecesse
que algo interessante estava acontecendo, Tianyu se encarregaria de participar.
— O que fez você pensar que um pássaro como esse poderia ser a verdadeira identidade do nosso
feitouman ? — perguntou Jinshi.
Maomao fechou os olhos. Ela teria que tomar cuidado para não dar a Tianyu nenhuma informação
que pudesse denunciá-lo.
— Senhor. A primeira coisa que me pareceu estranha foi a palavra "máscara". As pessoas diziam
tê-la visto perto da árvore ou no telhado do prédio, então meu primeiro pensamento foi olhar perto da árvore.
Meu encontro com o suposto espírito também assumiu a forma de uma máscara.
Chue também notou a árvore. A investigação de Maomao revelou excrementos de pássaros — e não
de um pássaro pequeno, mas sim de um pássaro carnívoro, bem grande.
— Eu vi passarinhos voando pela casa durante o dia, então me ocorreu que, se houvesse um predador
por perto, ele poderia ser noturno.
— Hum. Então foi aí que o senhor percebeu que havia um pássaro por trás dessas aparições. Como o
senhor provou ? Quando soube desse pássaro, senhor, foi um palpite bem simples. Eu nunca tinha visto um,
mas já tinha ouvido falar de pássaros com rostos que pareciam máscaras. Havia uma ilustração de um na
enciclopédia de animais que consegui na loja onde eu trabalhava. Embora eu admita que não dei muita
atenção na primeira vez que o vi.
Ela confiava que Jinshi saberia a qual enciclopédia ela se referia — um dos livros trazidos da
fortaleza do clã Shi. Estava sob a guarda de Jinshi no momento; se ele o tivesse levado para a capital
ocidental, talvez pudesse dar uma olhada.
— Uma enciclopédia ? — Jinshi disse com um olhar para Taomei.
Ela trouxe uma braçada de livros, e Chue ajudou a carregar aqueles que não cabiam nos braços. Os
livros incluíam a enciclopédia de ervas medicinais, além de livros sobre insetos e animais. Eram livros do clã
Shi, mas havia vários outros que Maomao nunca tinha visto. Imagino que ele não tenha perdido tempo
desenterrando-os depois do dia anterior. Ela ficou impressionada com a rapidez com que ele trabalhava.
— Isso é o que chamaríamos, apropriadamente, de coruja mascarada — ela disse.
— Nenhuma coruja normal daria a impressão de ter uma máscara voadora — e esta tem uma
coloração incomum.
Esta coruja ostentava penas tão escuras que eram quase pretas. Normalmente, mesmo pássaros com
corpos escuros tinham penas brancas na barriga, mas, além do rosto, esta era de um marrom escuro uniforme.
Seria fácil não a ver à noite.
— Uma coruja mascarada? É isso, não é ? — perguntou Jinshi, abrindo a página correspondente da
enciclopédia do clã Shi.
Deixando de lado a coloração, o rosto inquietante e semelhante a uma máscara certamente
combinava com o pássaro na gaiola. Tianyu ergueu a mão.
— Posso perguntar uma coisa ?
— Vá em frente — Jinshi parecia um pouco mais autoritário do que o normal.
— Concordo que parece que está usando uma máscara, mas não parece um pouco pequeno? É um
pouco pequeno demais para ser o rosto de uma pessoa.
Tianyu olhou para o pássaro dentro da gaiola. O animal não estava lutando; na verdade, parecia
sonolento. Se colocassem algum material para fazer ninho junto, talvez ele cochilasse.
— O olho humano não é confiável — respondeu Maomao.
— Pode ser apenas a parte branca que você vê flutuando no ar, mas acho que pareceria maior do que
é.
Então Maomao tirou um pedaço de papel das dobras de seu manto. Ela estava justamente procurando
utensílios de escrita quando Chue tirou alguns e os ofereceu a ela. Ela era ágil, isso era certo. Aliás, ela não
poupou olhares irritados para Basen, que quase deixara o pássaro escapar. Maomao fez quatro pontos no
papel, exatamente onde ficariam os olhos, a boca e o nariz de uma pessoa, e o ergueu para Jinshi e Tianyu.
— As pessoas percebem qualquer coisa como um rosto humano, desde que os pontos estejam no
lugar certo. É como às vezes vemos rostos nos nós de pilares de madeira.
— Então agora sabemos o que era a máscara misteriosa — disse Tianyu.
Ele enfiou a mão na gaiola e cutucou a coruja, que não reagiu particularmente. Taomei apareceu
carregando um pequeno prato de carne de frango crua. Parecia ser mais generosa com corujas do que com
patos. Talvez dois predadores se conhecessem. Então, o pássaro ganha carne? Taomei pegou um pedaço de
frango com um par de hashis e o estendeu; a coruja prontamente o pegou. Não demonstrou aversão à comida
oferecida por humanos.
— E a cabeça? Você disse que resolveu metade do enigma. Isso significa que você acha que a cabeça
é outra coisa ? — Tianyu não era bobo; lembrava-se exatamente do que Maomao havia dito.
— Uma máscara e uma cabeça? O que isso significa ? — perguntou Jinshi.
Maomao começou a explicar, aproveitando a oportunidade para rever tudo o que sabia.
— Testemunhas começaram a relatar o ocorrido há cerca de dois meses. Na época, algumas pessoas
relataram uma máscara e outras disseram ter visto uma cabeça, mas nos últimos vinte dias, mais ou menos, a
maioria das testemunhas relatou uma cabeça. Além disso, elas relataram o ocorrido do lado de fora da
mansão. No meu caso, vi a máscara, mas não vi a cabeça.
— Então você acha que a máscara e a cabeça são coisas diferentes. Se este pássaro representa a
máscara, então o que é a cabeça ? — perguntou Jinshi.
— Sobre isso … — Maomao olhou para Chue.
— Sim? O que você precisa? Tem algo que você queira da Srta. Chue ?
— Não é você, é, Srta. Chue ? — Maomao considerou a linha do tempo.
A cabeça havia sido vista partindo cerca de vinte dias antes, ou seja, bem na época em que Maomao
e os outros chegaram à capital ocidental. E havia um membro do grupo que parecia especialmente propenso a
fazer coisas incomuns.
— Como pôde, Srta. Maomao? A Srta. Chue não esteve com você nos últimos dias ? — Maomao
teve que admitir que era verdade.
Eles estavam trabalhando juntos no campo.
— Era só uma hipótese — disse ela.
— Mas sinto que esta coruja me deu uma grande peça do quebra-cabeça.
Enquanto a coruja comia seu frango, ela olhou para sua perna. Lá, ela avistou um pequeno anel de
metal bem-feito.
— Acho que não vai demorar muito para descobrirmos a verdade sobre a cabeça. Só precisamos
armar uma pequena armadilha.
Ela sorriu para a coruja com a cara inquieta e lhe deu um tapinha na cabeça. No dia seguinte, Chue
apareceu no consultório médico. Maomao havia limpado a louça depois do café da manhã e estava ajudando
o charlatão a preparar alguns remédios. Uma olhada na enciclopédia de ervas de Jinshi lhe dera uma ideia de
quais espécimes coletados poderiam ser úteis, e eles estavam fazendo experimentos.
— Você é uma profetisa, Srta. Maomao ? — Chue perguntou, piscando.
— Imagino que você tenha pego o culpado. Não foi muito rude com eles, foi ?
— Do que vocês dois estão falando? Estou tão confuso — disse o charlatão, que não participava da
conversa.
Parecia muito trabalhoso explicar as coisas a ele, então Maomao decidiu deixá-lo continuar
trabalhando nos remédios. Quando ele terminou, ela suspeitou que ele faria chá para eles. Chue não precisou
de convite para se sentir em casa; sentou-se em uma cadeira e esperou que o charlatão lhe trouxesse alguns
doces. A conversa com Maomao quase parecia complementar ao seu objetivo de guloseimas.
— Não se preocupe. Foi exatamente como você disse, Srta. Maomao. Vigiamos a gaiola da coruja a
noite toda e, quando o pássaro de repente começou a fazer barulho, vasculhamos o local. Foi a coisa mais
estranha! Encontramos uma mulher toda vestida de preto e usando uma máscara bizarra.
Chue relatou tudo isso com grande alegria, enquanto tomava um gole do chá que o médico charlatão
educadamente lhe ofereceu. O petisco que acompanhava eram frutas secas, uma iguaria bem ocidental.
— Sério? Nossa, quem diria ? — disse Maomao, um pouco surpresa ao descobrir que sua previsão
estava tão correta.
— Então, era essa a pessoa que estava guardando a coruja ?
— Bingo!
Chue formou um grande círculo com os dois braços, um gesto de confirmação. Maomao pensou na
coruja que haviam capturado.
— Era bem óbvio que era um pássaro doméstico. Pelo jeito, tinha algo na perna e não se importava
em ficar preso numa gaiola ou comer frango que já tinha sido cortado para ele. Não acho que seja um animal
que ela estava mantendo apenas temporariamente. Ela o tem há muito tempo.
— Hoh, hoh.
— Além disso, tem algo que está me incomodando no depoimento da testemunha.
Especificamente, uma semelhança entre os relatos da máscara, que começaram dois meses antes, e os
relatos da cabeça, que datavam de vinte dias atrás.
— Dois meses atrás... Não seria mais ou menos nessa época que a infame sobrinha da Imperatriz
Gyokuyou estaria prestes a partir para a capital ?
— Ah! — disse Chue, evidentemente entendendo o que Maomao queria dizer.
— Suponha que a coruja deveria ser uma das oferendas a serem levadas para a Cidade Imperial, mas
de alguma forma ela escapou — disse Maomao.
— Hoh, hoh! Quer dizer que talvez ela estivesse tentando pegá-lo para ter outra chance de oferecê-lo
à família Imperial, agora que um membro veio até aqui? Tudo bem, mas por que a máscara? Tentando
esconder sua identidade ? — Maomao tinha uma ideia sobre isso, embora não fosse uma resposta clara ou
certa — apenas um de seus palpites.
— Senhorita Maomao — disse Chue.
— A Srta. Chue pode agir de forma tola, mas não é boba. Ela entenderia que sua opinião é apenas
uma possibilidade e jamais a aceitaria sem crítica.
Era a maneira indireta de Chue dizer "Desembucha logo". Maomao não viu outra escolha a não ser
obedecer.
— Suspeito que a máscara e a roupa preta sejam para fazer essa pessoa parecer mais com a mãe da
coruja.
Chue inclinou a cabeça ao ouvir isso.
— Você conhece a técnica de impressão ? — perguntou Maomao.
— Ah, sim, a Srta. Chue sabe tudo sobre isso. Significa que, quando um pássaro sai do ovo, ele
pensa que a primeira coisa que vê é a mãe. Da mesma forma que aquele pato pensa em relação ao meu
cunhado.
— Sim, exatamente. Acho que talvez quem criou a coruja tivesse a intenção de devolvê-la à natureza
e quisesse ter certeza de que ela não se identificaria com um rosto humano.
— Ah …
A julgar pelos excrementos da coruja, ela estava pegando sua própria comida, o que significava que
ela sabia caçar.
— No entanto, ele pode e aceitará carne de uma mão humana — disse Maomao.
— Se você domesticar um pássaro de aparência interessante como esse, uma pessoa rica poderá
comprá-lo como curiosidade, ou ele poderá ser dado como oferenda à nobreza.
— Mas a tratadora não queria que ele acabasse daquele jeito, então ela o deixou ir — ou talvez ele
tenha escapado ?
— Isso é apenas uma hipótese, lembre-se.
Maomao se recusou a falar com certeza.
— Mas foi um azar dela que a coruja se instalou bem no anexo do Mestre Gyoku-ou! E quando um
membro da família imperial chegou para ficar lá — ora, que horror!
— Hipótese! — repetiu Maomao.
— Ela percebeu que a coruja viria mais rápido se ela se vestisse como se vestia enquanto a criava.
Então, quando a pegasse, planejou soltá-la em algum lugar bem distante, onde as pessoas nunca a
encontrariam.
— Hipótese...suspiro.
— Não se preocupe, eu sei!
Talvez o guarda tivesse usado algum tipo de apito para pássaros. A coruja respondeu, mas não saiu.
Independentemente de o palpite de Maomao estar correto ou não, isso lhes rendeu uma coisa.
— A pessoa de preto é a guardiã da coruja, certo ? — perguntou Maomao.
— Sim, é verdade! — exclamou Chue. Eles sorriram um para o outro.
O charlatão, ainda por fora, estava visivelmente intimidado por duas pessoas que lhe pareciam estar
tramando algo ruim. Se Maomao estivesse certo de que essa pessoa havia criado o pássaro desde filhote, isso
os deixaria perto de resolver um problema específico. Nianzhen, o antigo servo, falara da tribo dos Leitores
do Vento e de como o clã Yi havia garantido proteção à tribo. Mas aposto que eles não conquistaram a
proteção de um clã importante apenas por escavarem a terra ritualmente. Havia também a questão de como
eles haviam se livrado dos insetos que encontraram. Maomao sentiu-se levada a uma conclusão: os Leitores
do Vento tinham pássaros. Como sugerira a Jinshi, eles poderiam muito bem ter usado as criaturas para se
comunicar. Um meio rápido e confiável de transmitir mensagens teria sido muito valioso. Para começar,
Maomao decidiu que queria conhecer aquele estranho mascarado.
Capítulo 13: A Tribo dos Leitores do Vento
Chue levou Maomao até onde o suspeito estava preso. Maomao ouviu alguém gritando :
— Eu já te disse! Isso tudo é um grande mal-entendido!
A voz parecia um pouco estridente demais para ser de uma mulher, mas quando Maomao viu o
suspeito, ela entendeu.
— É uma criança — ela disse.
A criança tinha talvez dez anos, olhos estreitos e pele mais clara, mais característicos de uma
moradora da província de Kaou do que de alguém da capital ocidental. E embora suas feições parecessem
infantis, o cabelo comprido preso atrás da cabeça sugeria que se tratava de uma menina. Em geral, os homens
da capital ocidental, mesmo os meninos, usavam lenços na cabeça ou prendiam os cabelos em longas tranças.
Provavelmente, a máscara e o cabelo comprido a levaram a ser confundida com uma mulher adulta.
— Eu não sou uma criança qualquer ! — ela disse, estufando as bochechas, o que não ajudou em
nada.
Lá no quarto com a criança suspeita estavam Gaoshun, Taomei, Basen e outro guarda que Maomao
via com frequência, mas cujo nome ela não sabia.
— Maomao — Taomei a chamou, estreitando seus olhos de cores diferentes.
— Senhora Taomei? Por que você está aqui ? — perguntou Maomao.
Ela não parecia o tipo de pessoa que normalmente estaria presente em um interrogatório — o que não
queria dizer que ela não parecesse ser muito boa nisso.
— Primeiro, pensaram que ela era uma mulher, depois decidiram que era um menino, e então meu
segundo filho anunciou que conduziria o interrogatório. Imagine o que aconteceu quando ele percebeu que
estava lidando com uma menina.
— Ah — disse Maomao.
Ela podia imaginar.
— Por que o Mestre Gaoshun está aqui, então ? — Basen não era muito bom em lidar com mulheres.
Quão ruim ele era? Tão ruim que havia o temor de que nunca conseguiria deixar filhos para a
posteridade.
— Se você não se importa em ficar sozinho com Taomei e Basen, Xiaomao, eu posso ir embora —
disse Gaoshun, embora a ruga em sua testa estivesse mais profunda do que o normal.
Maomao decidiu seguir em frente.
— Mãe … — Basen gemeu.
Ali estava ele, realizando um interrogatório sob o olhar atento dos pais. Que superprotetor! A menina
era só uma criança. Será que ainda era demais para Basen lidar? Ele parece lidar bem comigo e com a Srta.
Chue. Ela conseguia entender quando se tratava de Chue; ela era uma espécie de bicho raro. Talvez Basen
achasse que Maomao se enquadrava na mesma categoria. Isso a fez franzir um pouco a testa.
— O interrogatório não está indo bem? Quer que a Srta. Chue cuide das coisas ? — perguntou Chue,
aproximando-se com um sorriso radiante.
— Não, Srta. Chue, sua ajuda não será necessária — disse Taomei.
— Ah, mas eu sou tão boa com crianças.
Chue desenrolou uma série de bandeiras da manga.
— Desculpe, mas se me permite perguntar, até onde chegou o questionamento ? — disse Maomao,
interrompendo a nora e a sogra.
Os membros do clã Ma eram todos muito característicos, e Maomao temia ser deixada para trás se
não tomasse a iniciativa de se intrometer na conversa. O pato de Basen podia ser visto enfiando o bico na
sala para dar uma olhada no que estava acontecendo, mas ela não entrou. Estava com medo de Taomei.
— Com licença. No momento, esta criança o nome dela é Kulumu.
— Ku...Kulumu ?
— Está escrito assim — disse Taomei, esboçando os caracteres na mesa.
— Entendo, obrigado — disse Maomao.
O nome não lembrava muito algo da região da capital imperial. Na verdade, lembrava algo de Shaoh,
ou até mesmo de um lugar mais a oeste.
— Diga a ela! Diga a ela que sou apenas uma linda jovem cujo único crime foi tentar recuperar o
pássaro que criei ! — Linda jovem?
Todos olharam para Kulumu. Seja lá o que fosse, ela certamente tinha uma opinião muito alta sobre
si mesma. No momento, porém, dizer isso só parecia desviá-los ainda mais do assunto.
— Ela afirma que a única coisa que quer é seu pássaro de volta e que não tem nenhuma intenção
maliciosa, e nos informou em termos inequívocos que, sendo assim, devemos devolver o animal a ela e
deixá-la ir — explicou Taomei.
— Um sujeito bem exigente — disse Chue. Exatamente o que Maomao pensava.
— Quem se importa?! Eu criei aquele pássaro! Olha só! Dá para ver que ele gosta de mim !
— Não tenho certeza se consigo.
O pássaro se recusou a olhar para Kulumu. Mesmo tão perto, a criatura parecia usar uma máscara
estranha.
— Eu disse, preciso disso ! — Kulumu colocou uma máscara para complementar sua roupa preta.
Finalmente, a coruja se virou na direção dela.
— Heh, viu? Eu o criei desde pequeno. E fiquei vestido assim o tempo todo.
— O que significa que responderia a qualquer pessoa vestida assim. Não apenas a você — observou
Maomao.
O queixo de Kulumu praticamente caiu no chão.
— Não, é verdade! Você tem que acreditar em mim! Como você pode não confiar numa criança tão
doce e inocente? !
Parecia que ela ia cair em lágrimas.
— Eu até sei a comida preferida dele !
— Nossa, como você é bonitinho. É frango — disse Taomei, pegando um pedaço de carne com seus
hashis e oferecendo-o à coruja, que pulou e o bicou avidamente.
Kulumu pareceu ainda mais escandalizado.
— Acontece que você não precisa de pijama preto, contanto que tenha comida.
Por trás da máscara, Kulumu soltou o que soou como um soluço engasgado. Basen, por sua vez,
estava parado ali, sem dizer uma palavra. Sua mãe estava no controle da situação. Na verdade, ele se parecia
muito com Gaoshun, que estava ao lado dele, obviamente rezando para que nada acontecesse.
— N-Não... Eu... Eu criei! É meu ! — Kulumu insistiu.
— E você pode provar isso para nós ? — perguntou Maomao.
— Eu q-queria poder …
— Nossa, Srta. Maomao, você é tão implacável com crianças quanto com todo mundo — disse
Chue, com uma expressão de quem não entende nada, enquanto Taomei estendia mais frango.
Chue, ao que parecia, estava sendo respeitosa com a sogra, apesar das liberdades que parecia tomar
com o sogro e o cunhado.
— É fácil criticar, mas até crianças podem começar um incêndio. Quando você se esgueira pela casa
de uma pessoa poderosa, você vai se meter em encrenca, mesmo sendo criança, certo ? — disse Maomao.
- Justo.
Chue pegou o frango e estava prestes a colocá-lo na boca.
— Ah, Srta. Chue, frango cru é perigoso. Cozinhe-o primeiro se for comê-lo.
— Ops! Erro meu.
Chue pode ter sido uma gourmet com estômago de ferro, mas até ela provavelmente deveria ficar
longe de carne de porco e frango crus.
— É sério... Eu o criei! Eu choquei o ovo sozinha — disse Kulumu.
— É mesmo? E onde você conseguiu o ovo? Como você o chocou? E como a coruja escapou?
Conte-nos ? — perguntou Maomao.
Kulumu deu outra boa fungada e começou a falar.
— O e-ovo, eu... eu ganhei de alguém. Um caçador que era amigo do meu pai. Ele disse que não
precisava, mas meu pai não quis comprar.
— Um caçador ?
— É. Ele estava caçando e encontrou o ovo neste ninho, então o trouxe de volta. Ele achou que meu
pai poderia chocá-lo e criá-lo para vender para algum cara rico.
— Ah … — E esse pássaro foi o que surgiu.
— Como você chocou o ovo então ?
— D - Papai sempre mantém o quarto quentinho e quentinho. Ele usa bastante combustível, e se
esquentar demais, abrimos a janela, e umas cinco vezes por dia ele vira os ovos. Eu não podia usar
combustível, então o mantinha bem perto de mim. Sabe, como uma mãe passarinho faria. Chocou depois de
uns cinco dias.
- Hum …
— Tenho certeza de que ela está certa. Ovos de pata chocam do mesmo jeito — Basen se ofereceu.
Ele devia saber; já cuidava daqueles patos há tempo suficiente. Maomao tinha apenas uma vaga
familiaridade com métodos de chocar ovos, mas parecia correto. Desta vez, Basen se voltou para Maomao.
— E então? O que você acha ?
— Acho que parece plausível. Detalhado demais para ser uma história que ela inventou na hora.
— Concordo. Interessante descobrir que patos e corujas nascem da mesma maneira.
Interessante, mas, infelizmente para Basen, irrelevante. Por que ele estava tão apaixonado por patos
ultimamente? Sim, é basicamente tudo plausível... Mas algo ainda a incomodava.
— Então você criou essa coruja com a intenção de vendê-la ?
— N-Não, eu não fiz !
— Pensei que não.
Maomao arrancou um punhado da roupa preta de Kulumu.
— Você esperava devolvê-lo à natureza, não é ?
Depois de um segundo, Kulumu respondeu :
— É... Eu até o ensinei a pegar ratos e insetos para que ele pudesse caçar sozinho.
— Mas aí foi vendido sem você.
— É! Pelo meu pai idiota ! — Ela cerrou os punhos.
— Quando ele viu o rosto incomum e a cor estranha, esperou até que eu estivesse em algum lugar e o
vendeu. Ele nem me perguntou! Eu não tinha uma companheira para ele, então ia deixá-lo voltar para a
floresta. Era esse o propósito daquela fantasia sufocante ! — Kulumu estava obviamente furioso, mas não era
uma história incomum.
Em Li, o chefe da família geralmente tinha o direito de fazer o que quisesse com os bens das
mulheres e crianças. "Acho que talvez fosse mais surpreendente se você vivesse em algum lugar onde as
mulheres estivessem em posição de poder", pensou Maomao. As filhas eram comumente tratadas como
instrumentos para casamentos políticos ou como forma de obter um dote. Vender uma menina para o Distrito
do Prazer era, em essência, a mesma coisa.
— Entendo. Talvez eu possa lhe fazer algumas perguntas enquanto organizo meus pensamentos?
Essas perguntas são baseadas inteiramente em minhas suposições, então, por favor, me corrija se eu estiver
errado.
- OK.
Kulumu fungou e assentiu.
— Seu pai não é falcoeiro, mas ganha dinheiro domesticando gaviões e outras aves incomuns e
vendendo-as para pessoas ricas, certo ? — Kulumu assentiu.
— Ele também caça. Mas animais de estimação são vendidos por mais.
— E para quem ele vendeu a coruja? Foi para a filha do Mestre Gyoku-ou, o dono desta casa ?
— Não! Ela é filha adotiva dele. O Rei Rouxinol não tem uma filha de verdade dessa idade.
Kulumu parou de fungar; sua voz soou surpreendentemente clara e forte.
— O Rei Rouxinol ? — perguntou Maomao.
Ela nunca tinha ouvido aquela expressão antes. Filhas adotivas não eram nada incomuns, de qualquer
forma. Ela não esperava que esse fosse o motivo que deixaria Kulumu irritado.
— É o nome do personagem principal desta peça. Ele resolve os problemas mais difíceis com rapidez
e elegância! A história é inspirada em um velho duque. Alguém deu esse apelido a Gyoku-ou porque o nome
dele significa Rouxinol de Jade.
Kulumu podia parecer jovem, mas Maomao estava começando a perceber que ela era uma garota
muito esperta, com um vocabulário altamente desenvolvido para alguém de sua idade.
— O Mestre Gyoku-ou certamente parece popular na capital ocidental.
— Acho que sim. Ajuda o fato de ele ser o filho mais velho do Mestre Gyokuen, que fez esta cidade
ser o que é, mas ele é muito simpático. Ele até conversa com plebeus.
— É isso mesmo ? — Maomao descobriu que este homem,
Gyoku-ou não fazia muito sentido para ela. Agora, porém, havia perguntas mais importantes a serem
feitas.
— Então sua coruja foi vendida para a filha do Mestre Gyoku-ou, mas depois ela escapou e começou
a viver aqui nesta casa, certo ?
— Mais ou menos.
— Como você soube que a coruja tinha saído ?
— Ah, bem, o culpado veio até mim e pediu desculpas.
— O culpado ? — Maomao olhou para Chue.
Taomei e Basen pareciam igualmente surpresos.
— Posso não parecer grande coisa, mas tenho conexões com a família Gyoku. Eles até me ensinaram
a escrever.
— Nossa! E você aqui parecendo uma criancinha imunda — murmurou Chue.
— Quem você está chamando de imunda?! Eu sou uma mulher linda, como eu disse ! — Kulumu
disparou.
Aparentemente ela havia superado o ataque de choro.
— Eu ficaria muito interessado se você pudesse explicar. Se me permite dizer, você não parece
alguém cuja posição normalmente permitiria acesso a esta mansão.
Taomei havia se expressado de forma diferente, mas estava essencialmente dizendo a mesma coisa
que Chue. Gaoshun só conseguia olhar suplicante para a esposa e a nora, implorando silenciosamente que
não fossem tão rudes.
— Eu era muito próximo da mãe do Gyoku-ou, esposa do Mestre Gyokuen. Ela é parente do meu
pai. Foi assim que começamos a vender pássaros para gente rica. Eu até vi a filha do Gyoku-ou, ou quem
quer que seja, quando entregamos o pássaro. Tentei pedir para ela devolver, mas era como se ela não
soubesse o que fazer. Acho que ela não pode simplesmente doar algo que ganhou do meu pai.
— Então foi a filha que deixou o pássaro ir — sugeriu Maomao.
Ela teve que admitir que não nutria os melhores sentimentos pela jovem, que fora enviada à capital
imperial como parte de uma manobra política, mas não era culpa dela. Aliás, ela não parecia ser uma má
pessoa.
— Não sei te dizer. Só recebi uma mensagem: Ele escapou. Desculpe. Eu sabia que o que eles
queriam dizer era que queriam que eu o pegasse. Como eu disse. Inocente.
— Não sei. Você deu um susto enorme nos moradores desta casa — disse Maomao.
— Grr — Kulumu rosnou, parecendo um cão selvagem.
— Acho que agora entendemos a ideia, Srta. Maomao — disse Chue.
— Sim. Até onde vai …
— Mas isso não é longe o suficiente para você, não é, Srta. Maomao? Tem mais uma coisa que você
quer perguntar.
Chue estava certo. Maomao não estava interessado principalmente no motivo pelo qual Kulumu
estava espreitando pela mansão.
— Tudo bem. Talvez você possa nos compensar pelo incômodo que causou respondendo a algumas
perguntas.
— Sim, acho que é uma boa ideia — disse não Kulumu, mas Taomei.
Maomao manteve um olho em Taomei enquanto dizia:
— Sua família cria pássaros. Vocês os usam como meio de comunicação ?
— Hoje em dia, não. Acho que fazíamos isso antigamente, e conhecemos essas pessoas que criam
pombos.
Maomao cruzou os braços, pensativa.
— Você já praticou falcoaria então ?
— Sim, fizemos. Papai simplesmente desistiu porque achou que ganharia mais vendendo coisas para
os ricos. Costumávamos caçar coelhos, às vezes até raposas. É por isso que ele não queria este ovo — você
precisa de falcões ou gaviões para caçar animais grandes o suficiente para valer a pena. O que é melhor ter
por perto, certo? Um animal de estimação ou algo que possa caçar? Mas animais de estimação são mais
fáceis de criar.
Ela estava certa; uma coruja só seria capaz de caçar ratos ou, na melhor das hipóteses, coelhos
pequenos.
— Nesse caso, você poderia treinar os pássaros que você criou para caçar apenas animais específicos
?
Kulumu franziu a testa ao ouvir isso.
— Nunca fizemos isso, mas acho que não é impossível. Às vezes, as pessoas alimentam os pássaros
com uma coisa específica desde o dia em que nascem, para influenciar a dieta deles dessa forma. Ou você
pode dar a eles recompensas específicas com base no que eles caçam para você. Veja, na falcoaria, quando o
pássaro traz uma presa, você a troca por comida. Eles podem aprender o que lhes rende suas guloseimas
favoritas e, então, podem começar a procurar mais por essas coisas.
Sim, Kulumu era esperta, sem dúvida. Apesar da voz estridente, ela era muito mais adulta do que sua
contemporânea Chou-u.
— Isso significa que talvez você possa ensinar os pássaros a caçar gafanhotos — ponderou Maomao.
— Gafanhotos ? — Basen disse imediatamente.
O que quer que ele estivesse pensando que estava acontecendo o fez se virar na direção do pato, cujo
bico ainda estava aparecendo pela fresta da porta.
— Gafanhotos ? — repetiu Kulumu.
— Você precisaria de um pássaro que não fosse muito grande, como esse cara. E eles gostam mais de
carne, então seria mais prático ensiná-los a trocar gafanhotos por comida.
— Entendo. Mais uma pergunta, então — disse Maomao.
Ela respirou fundo e então deixou as palavras saírem todas de uma vez.
— Você é um membro da tribo Windreader ?
Isso fez Kulumu recuar por um momento.
— Como você conhece esse nome ? — Maomao cerrou o punho.
— Então você sabe sobre eles ! — Kulumu, a autoproclamada mulher bonita, cruzou os braços e
disse — Hrm …
Então ela disse :
— Não tenho certeza se eu chegaria a esse ponto. Ouvi dizer que meu bisavô usava esse nome
quando todo mundo ainda morava nas planícies. Minha avó me mencionou algumas vezes, mas eu não diria
que sei muito sobre eles.
— Você poderia nos contar o que sabe ?
— Hmm. Não sei …
Kulumu ficou muito satisfeita ao descobrir que tinha algo que Maomao queria.
— Não posso te dizer de graça …
Ela deu um sorriso irônico. Ela queria dinheiro! Um par de olhos predadores brilhou atrás dela.
— Falando em liberdade, talvez você prefira ser entregue às autoridades ? — Taomei estava
sorrindo.
Por algum motivo, Basen, que nem sequer estava envolvido, recuou, e até a coruja bateu as asas e
estremeceu. Gaoshun exibia a expressão impassível de um monge contemplando o Vazio, enquanto Chue
parecia fingir ser uma árvore. Kulumu fez uma careta. Não era de se admirar que até Gaoshun vivesse em
admiração pela esposa. Maomao tossiu intencionalmente.
— A negociação já terminou. Você responde às nossas perguntas, e nós não o entregamos à lei. Há
também a questão de certos tratamentos futuros ...
— Sim, por exemplo, ainda estamos considerando o que vai acontecer com essa coruja — disse
Taomei, retomando o tema.
— Tudo bem, entendi... Minha avó me contou que, antigamente, uma das tribos nômades foi atacada
e a maioria foi morta. Ela disse que as mulheres foram tomadas como noivas e as crianças foram vendidas
como escravas.
Isso estava de acordo com o que Maomao havia aprendido. Mas algo a incomodava.
— Ouvi dizer que os Leitores do Vento usavam pássaros. Isso significaria que seu método de chocar
e criar esses animais não morreu com eles ?
— Desculpe, acho que não me expressei bem. Os Leitores do Vento foram exterminados. Pelo menos
metade deles.
— E-Essa metade ? — Maomao e os outros olharam para Kulumu, boquiabertos.
— Sim, claro. Os Leitores do Vento estavam sempre vagando pelas planícies, fazendo algum tipo de
ritual ou algo assim. Então por que eles iriam todos juntos para todos os lugares, em um grande grupo? É
melhor se separarem, certo? Principalmente porque eles podiam usar pássaros para se comunicar e coisas
assim. Certo, então não sei ao certo se era exatamente a metade. Talvez fosse um terço, até um quarto. Meu
bisavô estava com um deles.
— O que aconteceu com o resto deles ? — perguntou Maomao.
— Todos tratam os Leitores do Vento como se tivessem ido embora. E o ritual não pôde continuar,
não é ?
— Hmm... Preciso dizer que não sei bem. Meu bisavô era da parte da tribo que sobreviveu, eu acho,
mas ele morreu quando minha avó tinha uns dez anos. Ela disse que ele lhe ensinou um monte de coisas
sobre pássaros, mas que naquela época eles não eram mais nômades. Ele já morava na cidade. Ela disse que
eles nunca precisaram se preocupar com comida, porque ele tinha um cliente regular que comprava os
pombos que ele criava.
— Um cliente regular ?
— Acho que sim. Provavelmente algum VIP de algum lugar, ela disse, mas foi só isso que me
contou. Acho que ela mesma não sabia muito sobre o assunto.
Todos ficaram em silêncio absoluto.
— Hein? Ei, uh... Eu disse alguma coisa errada ?
— Não — disse Maomao lentamente.
— Não, na verdade, muito obrigado.
Pela primeira vez, ela realmente entendeu o que significava " um raio do nada ". Não, isso não era
bem verdade — ela imaginara que Kulumu pudesse ter alguma ligação tangencial com a tribo dos Leitores
do Vento, mas nunca imaginara chegar tão perto do cerne da questão.
— Então, posso levar meu amigo aqui para casa ou não? Encontrei o lugar perfeito para deixá-lo ir.
— Você finalmente o recuperou e vai liberá-lo ? — perguntou Maomao.
— Esse sempre foi o plano. Foi o que minha avó me ensinou.
Maomao cruzou o olhar com Taomei. Ela assentiu com um único aceno, e Maomao entregou o
pássaro engaiolado a Kulumu, que abriu um largo sorriso.
— Talvez você possa me responder uma última pergunta ?
— É? O quê ?
Kulumu estava animada agora que tinha sua coruja de volta; Maomao conseguia ver seus dentes da
frente enquanto ela falava.
— Você disse que seu pai era parente da mãe do Mestre Gyoku-ou. Posso presumir que a mãe dele
também era membro da tribo dos Leitores do Vento ?
— Não tinha certeza. Mas ela parecia gostar muito de pássaros e definitivamente sabia como lidar
com eles.
Se a mãe de Gyoku-ou fosse uma Leitora do Vento, muitas peças desse quebra-cabeça começariam a
se encaixar. Esta é uma informação valiosa... Mas se Maomao acreditasse no que Kulumu lhe dissera, isso
também produziria várias contradições. Por exemplo, se a tribo Leitora do Vento não foi completamente
aniquilada, por que não continuaram o ritual após o ataque? Isso colocaria em questão o sentido do que
Nianzhen, o servo, estava fazendo. Depois, havia a questão de por que os Leitores do Vento sobreviventes
haviam desaparecido. Sim, muitas perguntas. Consigo pensar em uma possibilidade. Suponha que alguém
deixasse as pessoas pensarem que os Leitores do Vento haviam sido destruídos e, em seguida, usasse seus
talentos para outros fins. Pessoas que pudessem comunicar informações rapidamente teriam uma vantagem
tática. Se fosse possível encurralar um povo que havia sido " exterminado " e mantê-lo em um só lugar,
haveria inúmeras utilidades para ele. Isso fazia sentido quando Maomao pensava no bisavô de Kulumu, que
já morava na cidade. Também explicaria sua morte bastante prematura. Uma vez que o conhecimento
necessário fosse transmitido, as pessoas que se lembrassem do passado seriam apenas um obstáculo.
— Ei! Ei! Senhorita? Posso ir para casa agora ? — Maomao acordou de seu devaneio quando
Kulumu a cutucou.
Ela deve ter se perdido em pensamentos.
— Desculpe. Pode nos dizer como entrar em contato com você? Talvez eu possa lhe apresentar um
cliente que estaria muito interessado em suas aves.
— Nossa... Por que você parece tão assustador ? — Aparentemente Kulumu não se deixou enganar
pela tentativa de sorriso de Maomao.
Ela tentava parecer amigável, mas em vez disso seu rosto dizia: Eu não vou deixar essa preciosa
fonte de informação escapar por entre meus dedos.
— Ho ho. Não se preocupe, nós jamais maltrataríamos uma criança. Vamos lá, você não quer nos
apresentar ao seu pai ? — perguntou Taomei, com os olhos brilhando.
Kulumu estremeceu e assentiu. Taomei é forte demais, pensou Maomao. Ela era uma obra-prima de
mulher, diferente de Suiren ou da madame. O silêncio era terrível. Chue se controlava, e Basen adotara a
expressão pensativa e contemplativa do pai. Maomao se perguntou se fora assim que Gaoshun se tornara o
homem que era hoje. Logo ele ficou ali, fazendo o que parecia ser sua melhor imitação de uma muralha.
Mandaram Kulumu para casa com um dos criados, e então Taomei chamou Maomao.
— Há algo que você ainda não nos contou ? — ela perguntou.
O tom dela era educado, mas a mensagem era inconfundível: se você sabe de alguma coisa, diga
logo.
— Tenho minhas suspeitas, senhora, mas não passam disso. Suposições, cheias de conjecturas
absurdas. Hesito até em expressá-las.
Luomen havia ensinado Maomao que ela precisava assumir a responsabilidade por suas palavras. Ela
não estava disposta a tirar conclusões concretas com base apenas na força de suposições não comprovadas.
— Talvez, mas meu — nosso — mestre não busca conclusões precipitadas. É da natureza dele
absorver tudo o que pode. Talvez você possa compartilhar suas ideias conosco para ajudá-lo a pensar em
como se preparar para o que vai acontecer.
Ela voltou aqueles olhos predadores para Maomao.
— Fala logo! — disseram eles .
— Muito bem, senhora.
Ela sabia que Taomei levaria tudo o que ela dissesse a sério. seu mestre — Jinshi.
— Não me diga. Acho que você deveria falar com ele diretamente.
— Eu realmente não acho que seria um problema para nós simplesmente conversarmos aqui.
Ela estava confiante de que Taomei não distorceria suas palavras ao contar a Jinshi sobre eles.
— De jeito nenhum. Meu marido só estava dizendo que o Príncipe da Lua precisa de uma chance
para relaxar um pouco.
— Como ? — O sorriso de Taomei era quase travesso.
Maomao olhou feio para ela, mas ela não pôde fazer mais nada.
Capítulo 14: O Passado e o Possível
O belo salão estava impregnado do rico aroma de chá. O chá, servido (ploop-ploop-ploop) em um
bule de chá de estilo estrangeiro, era vermelho como uma rosa. Era chá escuro no sentido mais literal,
observou Maomao enquanto saboreava o aroma. Às vezes, as pessoas tomavam esse tipo de chá com açúcar
ou leite de vaca, mas Maomao os recusava — ela não suportava chá adoçado.
— Então, o que você acha do assunto ? — perguntou Jinshi, que conseguiu parecer elegante apenas
misturando um pouco de leite em sua bebida com uma colher.
Era a maneira certa de fazer isso para não passar mal do estômago. Suiren havia aquecido o leite para
facilitar a digestão. Maomao sentou-se à mesa, em frente a ele, e tomou seu próprio chá. Temos certeza
disso? Este é o cenário certo para esta conversa? Taomei havia levado Maomao diretamente aos aposentos de
Jinshi, mas, não importava como se analisasse, ela se encontrava em uma festa do chá. Suiren não pareceu se
opor, o que significava que tinham sua aprovação tácita, mas Maomao não conseguia deixar de se perguntar.
— Aqui, para você — disse a velha senhora com um sorriso enquanto empurrava o chá para
Maomao.
Ela sentiu que não podia recusar, então decidiu aproveitar apenas um gole enquanto falava com
Jinshi.
— Devo avisá-lo, senhor, minha opinião
— É apenas especulação e pode não corresponder totalmente à realidade. Sim, sim. Garanto que terei
uma visão objetiva das coisas e não aceitarei tudo o que você disser sem críticas. Isso te faz sentir melhor ?
— Sim, senhor — disse Maomao. Foi tudo o que conseguiu dizer.
Jinshi olhou para Taomei. Seu tom diligentemente formal seria em deferência à presença dela?
— Por onde você gostaria que eu começasse ?
— Com a tribo dos Leitores do Vento. Conte tudo para mim, até as coisas que já ouvi antes.
— Muito bem, senhor.
Isso pelo menos tornaria as coisas mais fáceis : ela seria poupada do esforço de tentar não se repetir.
— Ouvimos falar dos Leitores do Vento pela primeira vez por meio de Nianzhen, o antigo servo da
aldeia agrícola que visitamos. Ele disse que a tribo havia sido destruída em um ataque que visava obter
esposas e escravos para seu povo. A tribo dos Leitores do Vento era responsável por algum tipo de ritual e,
segundo Nianzhen, estava sob a proteção do clã Yi.
Ela já havia contado isso a Jinshi, então ele continuou a bebericar seu chá e a mastigar um lanche
enquanto ouvia. O lanche, aliás, era um biscoito de estilo estrangeiro que combinava perfeitamente com o
chá exótico.
— Podemos especular que, qualquer que fosse o ritual, ele de alguma forma ajudava a impedir
pragas de insetos antes que elas acontecessem. Pode ter sido uma prática chamada aração de outono, que
envolve revolver a terra não só para melhorar a qualidade do solo, mas também para destruir os ovos de
insetos nocivos. Acho que o irmão mais velho de Lahan saberia os detalhes.
— Você quer dizer o irmão de Lahan. O clã La é cheio de indivíduos altamente qualificados, não é?
E pensar que eles têm dois fazendeiros praticamente profissionais.
Então chegou a este ponto: até Jinshi o chamava de Irmão de Lahan. Mas tenho a impressão de que o
Irmão de Lahan aprendeu a cultivar sob coação. Com sua característica diligência, ela sabia que ele devia ter
se dedicado a aprender os costumes da terra. Se tivesse nascido em uma família comum, poderia ter se
tornado um superdotado mais comum.
— Onde está o irmão de Lahan ? — perguntou Jinshi.
— Recebemos uma mensagem de que ele deve retornar à capital ocidental amanhã. Ele já está quase
terminando de ensinar os aldeões a cultivar — relatou Basen.
Ah, sim. Nós o deixamos lá, não foi?, pensou Maomao. Ela se perguntou se ele teria tido sucesso em
ensiná-los a cultivar batatas.
— Quando ele voltar, diga para ele vir falar comigo.
— Sim, senhor.
Asen recuou. Havia uma pena de pato solta em suas costas. Maomao olhou para Jinshi para ver se
podia continuar.
— Vá em frente — disse ele.
— Sim, senhor. A tribo dos Leitores do Vento usava pássaros de alguma forma, mas o antigo servo
não sabia exatamente como. O sujeito suspeito que pegamos hoje — Kulumu —, no entanto, afirma que os
Leitores do Vento não foram exterminados e que eles transmitiram o segredo de seus pássaros, que é como
seus descendentes agora ganham a vida. Como você suspeitava, eles parecem criar pombos-correio. Eles
também podem ter criado outros tipos de pássaros.
Kulumu parecia acreditar que o talento para criar pássaros era basicamente criar animais de
estimação para vender para pessoas ricas, mas isso não era verdade.
— Dependendo de como os pássaros são criados, acredito que eles podem ser usados para ajudar a
encontrar insetos. Mas acho que pássaros mensageiros são o principal recurso do clã.
Essa era simplesmente a resposta à qual Jinshi já havia chegado.
— Acho que a maior força dos Leitores do Vento era a capacidade de usar pássaros para se
comunicar. Embora eu deva enfatizar que isso é apenas um palpite meu, não ficaria surpreso se eles
estivessem servindo como uma rede de informações.
Jinshi nem sequer se encolheu.
— E os sobreviventes da tribo ?
— Novamente, isso é apenas especulação — mas acho que eles podem ter sido protegidos por
aqueles que viam valor em suas habilidades.
Maomao falou lentamente, escolhendo as palavras com cuidado.
— E quem você acha que os protegeu ?
Depois de um momento ela disse :
— Não tenho certeza. O clã Yi, talvez, ou talvez alguma outra força .
— Por que Yi faria isso ? — Maomao sabia tão bem quanto Jinshi que sua resposta criaria algumas
inconsistências.
Se os Yi tivessem protegido seriamente os Leitores do Vento, a tragédia de cinquenta anos antes
nunca teria ocorrido.
— Ouso referir-me à mãe do antigo imperador, a imperatriz reinante, senhor.
— Você tem minha permissão.
— É porque ela destruiu o clã Yi.
- Hum.
Maomao percebeu que fazia sentido para Jinshi. A imperatriz reinante governava o país por
procuração, controlando o filho como uma marionete. Ela parecia ser uma pessoa ponderada e lógica; havia
razões óbvias para expandir o Palácio Interno e proibir a exploração madeireira nas florestas. Mas, quando se
tratava da aniquilação do clã Yi, havia muita coisa que permanecia obscura.
— Você está sugerindo que o clã Yi tentou manter os Leitores do Vento para si, não deixando a
família Imperial saber sobre eles, e quando descobriu-se que eles eram, na verdade, uma rede de espionagem
privada, o clã foi punido por isso.
— Acho que é uma possibilidade, senhor.
Era apenas a hipótese de Maomao. Ela a ofereceu a Jinshi meramente como algo a ser considerado
em seus julgamentos.
— Entendido. E quanto à possibilidade de alguém além do clã Yi estar abrigando esta tribo ?
- EU Lembrou-se de que a Dama Branca usava pombos para se comunicar. Ela pode ter aprendido
isso em Shaoh — e não é impossível que isso tenha chegado até ela, ou a Shaoh, através dos Leitores do
Vento.
— Então a arte dos Leitores do Vento encontrou um lar em Shaoh. O que nos deixa com a pergunta:
ela chegou lá antes da tribo ser destruída ou depois ?
Bem, essa não foi uma pergunta muito simpática.
— Na minha opinião, teria que ter sido antes da destruição deles — disse Maomao.
— Então foi traição ?
— Sim, senhor. Eles cometeram subterfúgio.
Maomao pensou mais uma vez no motivo da destruição dos Leitores do Vento. A tribo era composta
por algum tipo de sacerdote, sim, mas suponha que também fossem espiões a serviço do clã Yi. Se os
Leitores do Vento tivessem traído seus mestres, faria sentido que os Yi optassem por simplesmente ficar
parados enquanto outra tribo os massacrava. Então, eles reuniram os últimos Leitores do Vento nas cidades,
onde poderiam vigiá-los e garantir que suas artes fossem passadas para a próxima geração — e então os
eliminaram. As respostas de Kulumu haviam colocado a ideia na cabeça de Maomao e ela não conseguia
tirá-la de lá. Seria fácil justificar a mudança dos Leitores do Vento para a cidade: os Yi queriam apenas
protegê-los. Quando, na verdade, queriam mantê-los por perto. Jinshi pareceu concordar com ela; ele
concordava com a cabeça e tomava seu chá. Maomao tomou um gole; sua garganta estava seca.
— Então os Yi estão envolvidos, e Shaoh também. É só isso ? — perguntou Jinshi.
— Não , há mais um grupo.
Kulumu disse outra coisa que chamou a atenção de Maomao.
— Kulumu disse algo que implicava que a esposa do Mestre Gyokuen, mãe do Mestre Gyoku-ou, era
de origem Leitora do Vento.
Jinshi não mediu palavras.
- Isso mesmo.
Então ele já investigou. Por que se dar ao trabalho de perguntar sobre as especulações dela? Atrás de
Jinshi, Chue ergueu dois dedos e sorriu. Ela deve ter sido quem conseguiu a informação.
— Parece que a esposa do Sir Gyokuen desempenhou um papel substancial em ajudar seus negócios
a prosperarem. Afinal, informação vale ouro nos negócios. Para ele ter acumulado tantos recursos ao longo
dessas décadas, ele deve possuir um poder que os outros não possuem.
E agora seu neto era o próximo na linha de sucessão ao trono imperial. Se Gyokuen fosse um homem
que se fez sozinho, ele se tornara melhor do que qualquer outro homem na nação.
— Ninguém tem nada de ruim a dizer sobre a esposa dele. Todos dizem que ela era inteligente e
afetuosa.
Isso fazia sentido; Kulumu dissera que ela também era gentil. Engraçado, considerando que ela tinha
um filho um tanto suspeito. Era só isso que Maomao precisava se aprofundar, na opinião dela — mas havia
mais uma coisa que ela precisava perguntar.
— Posso falar um pouco sobre o assunto da tribo Windreader ?
- O que é ?
— É sobre a vila agrícola que visitamos. O Mestre Rikuson esteve lá pouco antes de nós.
— Ah, isso.
Jinshi desviou o olhar dela por um momento, aparentemente pensando.
— Também investiguei o Rikuson. Sei que ele foi inspecionar a agricultura local. Embora pareça ter
sido bastante difícil para ele, ele tem estado muito ocupado aqui na capital ocidental. A visita, porém, serviu
para confirmar algo que suspeitávamos desde os tempos dele na região central.
— Desde sempre, senhor ?
— Sim. Os relatórios da província de I-sei não mostraram grandes danos à colheita do ano passado,
mas era difícil ter certeza sem ver com os próprios olhos. Então, Rikuson encontrou o problema em sua
mesa. Ou melhor, eu o coloquei lá.
— Sim, senhor ? Duvida de mim ?
— Não exatamente. Só curiosidade.
Rikuson não estava com a melhor aparência quando chegaram à capital ocidental. Era difícil para
Maomao não se perguntar o que ele andava aprontando. Talvez ela estivesse apenas paranoica?
— Deixe a Srta. Chue explicar por que ele não estava com a melhor aparência ! — disse Chue, dando
um passo à frente com um bufo entusiasmado.
Aparentemente, " Senhorita Chue " serviu como seu pronome de primeira pessoa, mesmo na
presença de Jinshi.
— Chue — disse Taomei, uma ave de rapina observando um pardal presunçoso. Nossa, Taomei é
assustador...
— Está tudo bem. Deixe-a falar — disse Jinshi.
Com sua permissão obtida com segurança, Chue soltou um longo suspiro.
— A Srta. Chue já investigou. No caminho de volta da aldeia, o Sr. Rikuson foi atacado por
bandidos! Você sabe quais são, Srta. Maomao. Aqueles coitados que tiveram os braços quebrados pelo Sr.
Basen.
— Sim, lembro-me, obrigado. Lembro-me que a ' Senhorita Chue ' me usou como isca!
— Claro que sim. Bem, você também se lembra que os bandidos que atacaram a Srta. Chue e seus
amigos foram presos e levados para a prisão. Mais tarde, os líderes dos bandidos também foram presos —
um de nossos informantes gentilmente nos contou o que queríamos saber. Também soubemos que um de
nossos guias havia levado o Sr. Rikuson à aldeia agrícola alguns dias antes.
Resumindo, o guia passou informações sobre seus clientes aos bandidos, que atacaram pessoas
desacostumadas a viajar pelas planícies. O mesmo guia havia sido responsável pelos ataques a Maomao e
Rikuson. Chue, antecipando a conexão com os bandidos, havia montado um pequeno espetáculo para ele.
— Foi realmente uma coincidência completa que a Srta. Chue e suas amigas tenham sido atacadas
Ei, não minta para nós! Maomao teve que apertar os lábios com força para garantir que essa resposta
não saísse da sua boca.
— mas no caso do Senhor Rikuson, parece que havia alguém além do guia puxando os cordões.
— Alguém que queria interferir na visita dele à aldeia ? — perguntou Jinshi.
— É possível. Ou pode ter sido só a intimidação de sempre. A outra possibilidade que a Srta. Chue
consegue pensar é que foi o contrário, e o Sr. Rikuson queria parecer uma vítima. Mas, claro, talvez tenha
sido só um ataque de bandidos comum. Se preferir.
Chue tinha um talento surpreendente para impor limites. Ela falava apenas de fatos, sem interferir em
suas próprias opiniões. Mesmo que me usasse como isca. Será que Maomao guardava rancor dela por isso?
Talvez um pouquinho.
— Entendido — disse Jinshi, e gesticulou para Chue recuar.
Ela se endireitou e fez uma reverência perfeita. Pelo que acabei de ver, quase parecia... Quase parecia
que o próprio Jinshi não tinha certeza absoluta de quem Rikuson realmente era. Tudo o que Maomao ouvira,
porém, a fazia pensar que ele era pelo menos um homem leal ao seu trabalho. Jinshi tomou um gole de chá,
refletindo sobre tudo o que acabara de ouvir. Maomao também tomou um gole, embora seu chá já estivesse
frio. O sabor deste chá deveria me fazer querer algo doce, mas... O que ela realmente queria era algo salgado.
Assim que o pensamento lhe passou pela cabeça, uma bandeja de salgadinhos apareceu à sua frente, entregue
por Suiren, que chamou a atenção de Maomao ao colocá-la na mesa. Trazia uma pilha de biscoitos de arroz
simples.
— Junte-se a mim — disse Jinshi, pegando um dos biscoitos.
— Não seria apropriado que eu comesse tudo isso sozinho.
— Se você não se importa, então — disse Maomao, com um dos biscoitos praticamente já na boca.
Ouviu-se um estalo barulhento quando ela o mordeu. Não parecia ser um rótulo particularmente
refinado, mas o biscoito salgado era tão bom. Vou conseguir levar alguns desses comigo, não é?, pensou ela.
Uns biscoitos para levar de lembrança para o médico charlatão também seriam legais. Ahh, mas ainda tinha
Tianyu para se preocupar. Ela poderia despistar o charlatão facilmente, mas enganar Tianyu seria mais difícil.
Melhor ter certeza primeiro.
— Príncipe da Lua. Posso lhe fazer uma pergunta ?
— Sim? O que foi ? — Jinshi ergueu uma sobrancelha .
Ela usou o nome " Príncipe da Lua " porque Taomei e os outros estavam lá, mas ele não pareceu
gostar muito.
— O que devo fazer em relação à minha posição em relação a um dos novos médicos, Tianyu? Ao
contrário do qu... quer dizer, do médico-chefe, se eu vier aqui com muita frequência, será difícil impedi-lo de
conectar os pontos.
— Essa é uma boa ideia. Vamos ver — disse Jinshi, mas então fez uma pausa. Foi Suiren quem
continuou, com um sorriso.
— Ele foi informado de que você conhece o Príncipe da Lua há algum tempo, desde que você estava
treinando etiqueta em seus aposentos. Fique tranquilo.
— Treinamento em etiqueta ?
— Sim. Não é mentira.
— Suponho que não …
A descrição, francamente, deixou Maomao um pouco enjoado. " Treinar em etiqueta " servindo um
homem elegante normalmente significava se preparar para ser sua esposa.
— Não é mentira — reiterou Suiren, ainda sorrindo.
Maomao deu outra mordida no biscoito de arroz, sem se sentir nem um pouco tranquilo com a
explicação de Suiren. Jinshi parecia estar pensando em algo enquanto comia.
— Talvez devêssemos ir mais rápido — ele refletiu.
Perguntar o que ele achava que deveria ser apressado parecia levar a uma conversa muito longa,
então Maomao decidiu não perguntar.
Capítulo 15: A palha curta
O irmão de Lahan logo retornou ao anexo, exatamente como Basen havia relatado que faria.
— Nossa! Que viagem difícil ! — disse ele enquanto largava suas ferramentas do lado de fora do
consultório médico.
Ele tinha um monte de coisas — batatas, implementos agrícolas e sabe-se lá o que mais — , então
estava usando um depósito atrás do consultório médico. Ele havia chegado ontem, mas desabou
imediatamente na cama e só agora estava conseguindo arrumar suas ferramentas.
— Sinto muito por isso — disse Maomao.
Como não havia pacientes para falar, ela estava lá para recebê-lo. Por algum motivo, o charlatão
também estava – talvez ele tivesse tempo de sobra. Tianyu supostamente estava vigiando o consultório, mas
era apenas uma desculpa para um cochilo à tarde. O irmão de Lahan provavelmente era comum demais para
atrair a atenção de Tianyu.
— Sim, deve ter sido muito difícil para você. Olha, você está realmente bronzeado ! — disse o
charlatão, parecendo um tio solícito ou algo assim.
Parecia que a qualquer momento ele poderia decidir convidar o irmão de Lahan para um lanche.
— É você quem está me dizendo. Não chove quase nada, só tem sol batendo o tempo todo. Pelo
menos não está úmido.
O irmão de Lahan encostou uma enxada na parede.
— Ah, sim, claro. Quer um suco bem gelado? Usamos água especialmente armazenada no subsolo.
Ah, que maravilha ! — Essa água não é, uh, valiosa? Maomao não tinha certeza se o charlatão deveria estar
se servindo. De repente, porém, o irmão de Lahan foi convidado para um chá.
— Eu adoraria — disse o irmão de Lahan, mas então ele parou.
Ou, mais apropriadamente, congelou. Maomao deu-lhe uma cutucada, perguntando-se o que havia de
errado. De perto, ela podia ver o irmão de Lahan tremendo. Ela seguiu seu olhar e descobriu um nobre e
magnífico nobre.
— Eep! Lua PPP — gritou o charlatão.
Jinshi estava ali, sorrindo como se pétalas de rosas estivessem se espalhando atrás dele.
— Você seria, bom senhor, irmão de Lahan ? — Mesmo jade marcado ainda era jade.
Jinshi se aproximou do irmão de Lahan, seu cabelo brilhante ondulando como seda.
— É, hum, sim. Sim, eu sou — disse o irmão de Lahan, obviamente com dificuldade para responder.
Ele não parecia disposto a responder a perguntas mais complexas do que aquela. Ah, sim. Acho que
essa é a reação normal. Maomao já havia se esquecido de quão sobrenaturalmente belo Jinshi era. Ele
possuía uma beleza como a de uma imortal, o tipo de coisa capaz de cativar os corações das criadas no
Palácio Interno e fazer seus eunucos tremerem de medo. Sua mera presença seria naturalmente inebriante
para uma pessoa comum como o irmão de Lahan.
— Preciso me desculpar com você — disse Jinshi.
— Aqui, eu obriguei você a nos acompanhar nesta jornada, mas ainda não me apresentei
adequadamente. Talvez você me reconheça como o irmão mais novo Imperial? As pessoas me chamam de
Príncipe da Lua ou Príncipe da Noite.
Apenas pouquíssimas pessoas, principalmente o Imperador, podiam chamar Jinshi pelo seu nome.
Como tal, Maomao descobrira, ele não o usava nem mesmo ao se apresentar. Isso já era uma gentileza: se ele
desse seu nome a alguém e essa pessoa o usasse inadvertidamente, poderia ser punida por desrespeito. "Acho
que não é fácil estar na família imperial", pensou ela, e falava sério.
— OO-Claro. É uma u-honra acompanhá-lo nesta... nesta viagem, senhor ...
Engraçado. Outro dia ele estava reclamando que tinha sido enganado. O irmão de Lahan, uma pessoa
comum certificada, estava tão nervoso quanto qualquer um na presença de Jinshi. Aliás, o charlatão não
tirava os olhos de Jinshi. Os olhos brilhavam intensamente. Pétalas de rosa flutuavam atrás dele. Jinshi disse:
— Lahan me contou muito sobre você. Ele disse que seu pai biológico, sendo membro do clã La, tem
um talento considerável para a agricultura e que, como assistente de seu pai, seu irmão mais velho possui um
conhecimento de agricultura inigualável por qualquer agricultor comum.
Em outras palavras, ele é um profissional. O irmão de Lahan parecia muito, muito em conflito,
visivelmente infeliz, apesar dos elogios de Jinshi. Nenhuma pessoa comum, no entanto, conseguia resistir à
aura cintilante de Jinshi. Em outras palavras, o irmão de Lahan foi levado pela correnteza. Jinshi o tinha na
palma da mão. Ah, agora vale a pena ver, pensou Maomao enquanto observava o espetáculo de Jinshi
brandindo seu brilho como um espadachim experiente contra uma pessoa que, por pura normalidade,
simplesmente não conseguia resistir.
— Você tem feito algo chamado aração de outono para reduzir o número de insetos nocivos, não é?
Eu nunca tinha ouvido falar disso antes. Pedi a um dos meus subordinados que investigasse e descobri que,
em algum momento no passado, os governantes desta região garantiram que os fazendeiros realizassem essa
tarefa. Infelizmente, as pessoas agora veem a engorda do gado como mais importante do que revirar a terra
no outono, e essa prática desapareceu. A política é realmente um negócio difícil.
— S-Sim, senhor.
— Também me foi dado a entender que você é tão versado no cultivo de trigo quanto no cultivo de
batatas. Quem imaginaria que pisar no trigo o torna mais forte? Outro fato que era novo para mim. De fato, a
cada dia me lembro do quanto não sei. Espero sinceramente que você continue me ajudando a corrigir minha
ignorância.
— S-Só com sua graciosa licença, senhor — disse o irmão de Lahan, que ora ficava vermelho ora
empalidecia.
O charlatão, por sua vez, ainda parecia agitado e olhava para o irmão de Lahan, com quem Jinshi
conversara exclusivamente até então, com certa inveja. Na verdade, ele parecia ter superado a inveja e ido
direto para o ciúme.
— Por mais que me doa, há algo que eu gostaria de lhe perguntar imediatamente. Se me permite, não
é ? — disse Jinshi, misturando habilmente um leve toque de pesar em sua expressão.
As bochechas do irmão de Lahan ficaram vermelhas, e até o charlatão ficou atordoado – um efeito
colateral. Na verdade, ele literalmente desmaiou, e Maomao o segurou, colocando-o delicadamente no chão.
Nossa! Percebendo que Jinshi estava tão brutal como sempre, Maomao, mesmo assim, manteve os olhos
fixos na cena. Ela pegou o resto dos implementos agrícolas que o irmão de Lahan ainda não tinha terminado
de guardar e os encostou na parede para ele.
- Se Quer dizer, se me permite, senhor. Se houver algo que eu possa fazer por você, é só pedir.
— Maravilha ! — Jinshi ficou radiante com isso, e até mesmo o médico charlatão, supostamente não
envolvido na discussão, ficou sentado ali, com a boca aberta e fechada como uma carpa em uma tábua de
corte.
— Talvez possamos entrar, então. Eu explico tudo — disse Jinshi. Ele estalou os dedos, e
imediatamente Basen e Chue apareceram, o primeiro carregando um grande rolo de papel. Aqueles dois
realmente se dão muito bem, não é? Atrás da dupla estava Gaoshun, que obviamente sabia o que ia
acontecer. Suas mãos estavam pressionadas uma contra a outra e ele tinha uma expressão de bodhisattva.
Jinshi entrou no consultório médico como se fosse o dono do lugar. Ao entrar, Tianyu sentou-se grogue de
onde estivera cochilando no sofá. Lihaku, de guarda, lançou a Maomao um olhar de "O que é isso?".
— O que está acontecendo ? — perguntou Tianyu.
— Ah, você sabe. Coisas — disse Maomao, que achou que daria muito trabalho explicar.
— Huh — foi tudo o que Tianyu disse, embora parecesse interessado.
O rolo de papel que Basen carregava era um mapa, que ele desenrolou sobre a mesa do escritório.
— Este é um mapa da província de I-sei — disse ele.
Continha planícies, montanhas e deserto. Parecia bastante vazio comparado à Província de Kaou,
mas havia uma estrada que a cortava pelo meio, uma rota comercial que conectava o leste e o oeste.
— Tem um monte de círculos — observou Tianyu, inserindo-se na conversa como se fosse a coisa
mais natural do mundo.
O charlatão conseguiu se levantar e estava preparando chá. Basen, enquanto isso, parecia
visivelmente descontente. Se Jinshi não o tivesse impedido, ele poderia ter expulsado Tianyu da sala.
Estamos muito perto. Muito perto de um membro da família imperial. Isso era permitido? Talvez durante seu
tempo como eunuco — mas e agora? Maomao estava preocupada. Ela suspeitava, no entanto, que tudo isso
fosse parte dos cálculos de Jinshi.
— Irmão de Lahan — disse Jinshi. O outro homem ficou em posição de sentido.
— Sim, senhor ! — Nenhuma objeção sobre o nome dele desta vez?
— Os círculos marcam áreas com vilas agrícolas. Espero sinceramente que você possa ajudá-los a
aprender como arar a terra no outono e cultivar batatas.
Jinshi tinha um sorriso que poderia matar um homem.
— Eu ... O quê ? — O irmão de Lahan tinha acabado de voltar de uma vila agrícola.
Ele nem tinha guardado suas ferramentas!
— Sim, o mais rápido possível. Talvez você possa ir amanhã.
O irmão de Lahan fechou os olhos, como se o sorriso de Jinshi fosse ofuscante demais para ser visto.
Não havia nada que ele pudesse dizer em resposta. Agora eu entendi.
— Talvez devêssemos ir mais rápido — disse Jinshi.
Agora ela entendia o que ele queria dizer. Fora ela quem lhe dissera para usar aqueles que pudesse
usar, mas não conseguia evitar sentir uma pontada de pena por aqueles que se tornavam ferramentas nas
mãos de Jinshi. Era um mapa muito grande e representava uma extensão considerável de território.
— Qual a distância até a vila mais distante da capital ocidental neste mapa ? — ela perguntou a
Chue, que parecia não ter nada de especial para fazer.
Talvez ela só tivesse vindo por diversão hoje. Não parecia ser necessária ali, mas provavelmente
estava procurando uma desculpa para fugir da sua sogra predadora.
— Ah, uns quatrocentos quilômetros, eu diria — ela respondeu.
— Quatrocentos …
O irmão de Lahan estava branco como papel.
— Gostaria que você começasse pela vila mais próxima e depois fosse para a próxima mais próxima.
Se não se sentir confortável em ir tão longe, posso mandar preparar uma carruagem boa e confortável para
você.
Jinshi aceitou a concordância do irmão de Lahan como certa.
— Se possível, gostaria que você terminasse de ensinar todas as aldeias sobre a aração de outono nos
próximos dois meses. Quanto antes, melhor. As batatas podem vir depois disso, com o tempo.
Na verdade, tratava-se menos de práticas agrícolas e mais de prevenir pragas de insetos. Como não
sabiam o que seria mais eficaz, precisavam fazer tudo o que pudessem — e Jinshi pretendia usar tudo e todos
que pudesse. Maomao sentiu pena do irmão de Lahan, mas ele teria que assumir essa responsabilidade pela
equipe. Quanto ao que ela poderia fazer... Maomao foi até o armário de remédios e pegou algumas ervas, que
misturou com mel. Diluiu a mistura com água e colocou em um recipiente de vidro, que ofereceu ao irmão
de Lahan junto com o chá do charlatão.
— Para você — ela disse.
— O que é isso ?
— Uma bebida para repor as energias. Vou preparar uma solução que deve durar bastante, então
tome um pouco quando se sentir muito cansado na estrada.
— Por que você está presumindo que eu vou fazer isso? !
— Você pode dizer não ? — perguntou Maomao.
— Você acredita que pode dizer não ? — Jinshi perguntou quase no mesmo momento.
Maomao certamente não acreditava que conseguiria — era por isso que preparara a bebida. Também
prepararia cataplasmas para aliviar dores musculares. O irmão de Lahan, uma pessoa comum extraordinária,
viu-se confrontado à queima-roupa com o pedido de um homem cuja beleza poderia ter deixado um país de
joelhos. Ele não poderia recusar. Jinshi contava com isso. Que nojo, pensou Maomao. O irmão de Lahan
podia ser comum, mas, no que diz respeito a pessoas comuns, era muito bom nisso.
— Por favor, por favor? Por mim ? — Jinshi sorriu como se dissesse o quanto isso seria de grande
ajuda para ele.
O Irmão de Lahan só pôde se render, derrotado. Tianyu, que não tinha nada a perder, descobriu que
tinha a liberdade de rir sozinho da infelicidade alheia, então Maomao lhe deu um chute no calcanhar. O
Irmão de Lahan era tão lamentável que até ela teve que simpatizar com ele. Na política, porém, perder a
iniciativa era perder tudo. Um líder tinha que se antecipar ao que acontecia em seu país e eliminar todas as
possíveis fontes de problemas. Se falhasse, a culpa recairia sobre ele — e se conseguisse, a indiferença
também, pois as pessoas simplesmente presumiriam que era seu trabalho. Não é fácil, né? Por mais que
sentisse pelo Irmão de Lahan, Maomao sabia que Jinshi não estava errado em fazer o que fez.
Capítulo 16: Um Momento de Paz
Por um tempo depois disso, os dias de Maomao foram tranquilos. Isso não quer dizer que não
houvesse trabalho. Os remédios no consultório médico tiveram que ser reabastecidos com ingredientes
encontrados na capital ocidental, e ela precisava garantir que funcionassem como esperado. Ela também
tentou reunir alguns instrumentos médicos para compensar a escassez. O estrategista esquisito apareceu no
anexo mais de uma vez. Maomao vinha tentando evitá-lo e evitar os problemas que ele causaria, mas antes
que ela percebesse o que estava acontecendo, o charlatão o estava fazendo entrar e o convidando para um
chá. Ela só conseguia colocar a cabeça entre as mãos. O único outro evento notável foi que o pato de Basen
começou a botar ovos. Ele ficou muito chateado com Maomao quando ela tentou comer um — ele insistiu
que criaria o filhote, mas como era um ovo não fertilizado, nenhum filhote apareceria. Quando Maomao lhe
disse isso (com nuances de suas palestras no Palácio Interno), ele ficou vermelho de vergonha. E este era um
macho adulto? Uau. Ela levou um susto quando viu Gaoshun e Taomei caminhando de braços dados no
pátio. Ela deixou seu olhar se demorar por um momento a mais, surpresa e se perguntando se eles se davam
melhor do que ela imaginava, quando os olhos do predador brilharam. Gaoshun foi abruptamente empurrado
pela esposa, que continuou a caminhar como se nada tivesse acontecido. Ser tímido era uma coisa, mas o
marido mais jovem acabou jogado em uma piscina. Uma tragédia. Os dias se transformaram em semanas, e
logo já fazia um mês inteiro desde que o irmão de Lahan partira em sua jornada. Maomao continuou
inspecionando a queimadura de Jinshi, mas achou cada vez mais difícil ignorar o desejo de arrancar um
pouco de pele de seu traseiro.
— Parece que as coisas estão indo bem — disse Jinshi um dia.
Ele segurava uma carta amassada que, quando ele mostrou a ela, continha um relatório detalhado
sobre o estado de algumas terras agrícolas.
— Com o irmão de Lahan, você quer dizer? — perguntou Maomao, inspecionando a caligrafia, que
era limpa e cuidadosa, embora tendesse a se inclinar um pouco para a direita.
A carta precisava ser transportada por pombo, então, infelizmente, relatar a situação atual consumia
todo o escasso espaço disponível. O irmão de Lahan nem sequer tinha espaço para assinar. A carta terminava
com o nome da aldeia onde estivera quando a escreveu, e só. É uma pena que ele não tenha espaço para
assinar, pensou Maomao. Ela conseguia imaginá-lo em alguma planície distante, com os dentes cerrados em
torno de um lenço enquanto tentava suportar a agonia. Chegaria o dia em que descobririam seu verdadeiro
nome? Ninguém sabia. Ninguém sabia.
— Sim, é isso mesmo. Eu sabia que isso seria útil.
Jinshi olhou para dentro da gaiola e sorriu. O pombo arrulhou.
— Eles podem trabalhar apenas em uma direção, mas ser capaz de comunicar informações tão
rapidamente é uma vantagem.
Ele também os usava em suas comunicações com a Imperatriz Gyokuyou. Como não havia tocado no
assunto da sobrinha dela ultimamente, Maomao presumiu que a Imperatriz estivesse no controle. Ela olhou
para o pombo, que bicou um pouco de painço e borbulhou novamente.
— Então você enviou alguns desses pássaros com o irmão de Lahan ?
— Sim. Consegui pegar vários emprestados por meio daquela garota — Kulumu, era esse o nome
dela ?
— Quantos você enviou com ele ? — perguntou Maomao, displicentemente.
— Três. Ele parecia capaz de cuidar deles. Podemos fornecer mais se enviarmos um cavaleiro rápido
até sua última localização.
Jinshi abriu um mapa da província de I-sei. Suiren apareceu e desenhou círculos ao redor das aldeias
de onde as cartas haviam sido recebidas. O irmão de Lahan tem trabalhado muito, pensou Maomao. Jinshi
lhe dera a tarefa aparentemente impossível de alcançar todas as aldeias em dois meses, mas o irmão de Lahan
estava quase voltando da viagem. Aquele cara sabe mesmo como fazer um trabalho. Ele também, ela
suspeitava, não percebia que era justamente sua capacidade de fazer um trabalho que fazia com que as
pessoas o impusessem tantas cartas. Se fosse esperto, teria diminuído a velocidade em uns vinte por cento,
em vez de se esforçar ao máximo todas as vezes.
— Maomao.
— Sim, senhor ? — Jinshi parecia ter se acostumado a usar o nome dela.
Ela se lembrou de como por muito tempo ele se dirigiu a ela apenas como " você ".
— Eu... Hmm. Parece que sua carga de trabalho diminuiu recentemente.
— Sim, eu diria que sim.
As tarefas mais urgentes já haviam sido cumpridas. Eles haviam preparado remédios suficientes para
aguentá-los por um tempo e até conseguido as ferramentas necessárias.
— Talvez você possa se dedicar a outras coisas.
— Oh ! — Maomao bateu palmas, lembrando-se.
— A colheita do trigo está chegando. O senhor acha que eu poderia ajudar com isso ? — Não parecia
ser o que Jinshi esperava.
— A colheita do trigo? Por quê ?
— Senhor! Estou muito curioso para saber se alguma cravagem cresceu.
— Ergot ? — Parecia que ele não reconhecia a palavra.
— É um tipo de doença em que o trigo fica preto. Em termos simples, é tóxico para comer.
— Sim, isso parece bem simples.
— Quando o trigo estiver moído, será tarde demais para dizer, então gostaria de dar uma olhada
agora.
O ergot podia ser usado para induzir abortos, e geralmente havia uma grande quantidade dele em
farinhas de baixa qualidade, então era melhor ter certeza. Ela podia ver exatamente o tamanho da colheita ao
mesmo tempo.
— Entendo. Muito bem. Vou preparar uma carruagem para você.
— Não será necessário, senhor. Um passarinho me contou que o Mestre Rikuson fará uma inspeção
em breve, e pensei que talvez pudesse viajar com ele.
A espécie específica do passarinho? O médico charlatão, que por acaso ouviu de algum lugar.
Maomao confirmou a veracidade do boato com Chue.
— Rikuson …
— Sim, senhor. Há muita coisa que eu gostaria de conversar com ele. Achei que seria uma boa
oportunidade.
Ela acabou não vendo Rikuson novamente depois daquele primeiro dia na capital ocidental.
Precisava falar com ele pessoalmente. Jinshi pareceu brevemente em conflito, mas então disse :
— Tudo bem. Vou avisar o Rikuson que você virá.
— Muito obrigado, senhor.
Havia outra coisa que ela queria fazer naquela viagem : coletar ervas medicinais das planícies ao
longo do caminho. Alguns dos espécimes da viagem anterior haviam produzido resultados promissores. Era
melhor se apressar e ir buscar uma cesta para colocá-los.
— Se não se importa, então, Mestre Jinshi, preciso ir !
- Ei !
Jinshi parecia querer dizer mais alguma coisa, mas Maomao o ignorou. Ela saiu trotando,
praticamente pulando, para preparar tudo. Alguns dias depois, Maomao partiu para a aldeia agrícola.
— Nossa, que clima maravilhoso estamos tendo — disse Chue se espreguiçando bastante.
Ultimamente parecia que Chue acompanhava Maomao onde quer que ele fosse.
— Acho que não precisei me preocupar com chuva, afinal !
Ela se inclinou para fora da carruagem para dar uma boa olhada: o tempo estava realmente agradável.
Maomao sentiu o cheiro de grama na brisa enquanto se deixava levar pela carruagem barulhenta.
— O tempo ainda deve ficar bom por um tempo. Fora da estação chuvosa, a província de I-sei não
recebe nenhuma precipitação digna de nota — disse Rikuson, que estava sentado no assento em frente a eles.
Ele usava uma roupa que permitia movimentos fáceis, apropriada para visitar uma vila rural.
— Parece perfeito para uma colheita de trigo — disse Chue.
Se chovesse durante a colheita, o trigo poderia começar a brotar, o que o tornaria de qualidade
inferior. E se não pudesse ser seco adequadamente, poderia simplesmente apodrecer.
— É sim. Mas o clima pode ser instável. Já ouvi falar até de tempestades de granizo na época da
colheita.
— Pode ser muito difícil prever granizo, não é ? — disse Maomao.
Ela não era especialista em agricultura; tais interjeições simpáticas, porém inócuas, eram o máximo
que ela podia esperar oferecer. Se o irmão de Lahan estivesse ali, provavelmente estaria cerrando o punho e
discorrendo sobre os múltiplos trabalhos da época da colheita. Maomao olhou para o banco do cocheiro:
Basen segurava as rédeas. Lihaku teria sido igualmente bom para um guarda, mas como Basen os
acompanhara da última vez, agora o fazia novamente. Seu pato também estava lá. Ela era praticamente o
mascote deles naquele momento. Maomao olhou para Rikuson.
— O que fez você querer pesquisar as aldeias agrícolas, Rikuson ? — ela perguntou.
Esta era a pergunta que ela queria lhe fazer pessoalmente. Ela suspeitava que Jinshi já lhe tivesse
dado a resposta indiretamente, mas queria ouvir da própria boca de Rikuson. Rikuson olhou ao redor, com o
que pareceu a Maomao um olhar particularmente longo para seus subordinados que seguiam atrás da
carruagem. Então, disse :
— Há vários motivos. Qual você gostaria de ouvir, Maomao ?
Como ela havia pedido, ele se dirigiu a ela sem nenhum título ou título honorífico — no passado, ele
fora respeitoso demais com ela. Chue pareceu intrigado, porém, por eles falarem em termos tão familiares.
— Todos eles — ela disse firmemente.
— Muito bem. A primeira tem a ver com pragas de insetos. Por acaso, mantenho contato com Sir
Lahan e frequentemente confio em seu conhecimento e experiência. Ele me avisou que, se houvesse uma
praga em Li, provavelmente viria do norte ou do celeiro a oeste.
De fato, uma pequena praga de gafanhotos havia se espalhado nas regiões férteis a noroeste no ano
anterior. O mais assustador sobre esses insetos era que, se deixados sozinhos, eles causariam ainda mais
destruição.
— Por razões que não pretendo saber, tive a honra de ser destacado para cá, na capital ocidental,
onde sou tratado essencialmente como um burocrata. O termo educado para o que faço pode ser trabalho de
secretária, mas, de forma menos favorável, poderia ser chamado de menino de recados. Parte da papelada
com a qual lido é sobre colheitas, então me interessei incidentalmente pela disponibilidade de suprimentos e
provisões.
— Mas você realmente precisa ir visitá-lo pessoalmente ?
— Essa é a segunda razão.
Rikuson levantou dois dedos. Os olhos de Maomao se arregalaram. Ela não tinha certeza do que ele
queria dizer. Rikuson sorriu, quase se desculpando.
— Acho que você já deve estar ciente disso : os números nos relatórios frequentemente não
correspondem aos valores reais ?
Estaria ele falando das tentativas de fraudar os volumes de produção? Coisas assim pareciam de fato
estar acontecendo nas aldeias agrícolas.
— Qual é o terceiro motivo, então ? — Rikuson disse que tinha vários motivos, e Maomao não
achava que apenas dois seriam considerados vários.
— A terceira razão ?
Sua boca ficou aberta por um instante. Então ele disse :
— Há muito tempo, ouvi dizer que havia uma forma especial de cultivo. Algo que diminuiria o
número de insetos nocivos.
— Você quer dizer arar a terra no outono. Então foi por isso que você falou com a Nianzhen.
— Isso mesmo. Você vê agora ?
O sorriso de Rikuson era gentil. Maomao achou que ele parecia mais magro do que da última vez que
o vira.
— Quem te contou sobre a aração de outono ? — perguntou Maomao.
— Minha mãe e minha irmã mais velha. Minha mãe era uma comerciante que negociava em todo
lugar, e minha irmã a ajudava. Aprendi bastante com elas na minha juventude.
Rikuson olhou pela janela da carruagem, mas não parecia estar absorvendo a paisagem.
— Isso faz sentido — disse Maomao.
O que mais preciso perguntar? Ela pensou tanto que chegaram à aldeia, com a carruagem a
chacoalhar ao abrandar. Maomao pôs a cabeça para fora da janela. O trigo brilhava dourado nos campos —
parecia uma colheita abundante. Viu também folhas verdes, sugerindo que os aldeões tinham plantado
batatas. Tudo bem. Vamos dedicar-nos ao trabalho agrícola por um tempo? A colheita de ervas pode ser útil
no caminho de casa. Maomao tinha acabado de saltar da carruagem, animada e pronta para partir, quando viu
um cavaleiro veloz a aproximar-se atrás. Isso não era assim tão notável por si só — mas, pelo olhar do
homem, algo estava claramente errado. Talvez tivesse sido atacado por bandidos? Não, não era isso. O
cavalo parou à frente de Maomao e do seu grupo, com a língua para fora da boca enquanto se inclinava para
um lado. O seu cavaleiro usava o uniforme de um soldado. Acho que o reconheço. Era um dos guardas que
frequentemente serviam Jinshi. Isso sugeriria que ele tinha uma classificação justa — então o que ele estava
fazendo correndo para alcançá-los?
— O que está acontecendo ? — perguntou Maomao.
Ela estendeu a água, mas o homem balançou a cabeça. Sua boca se abriu e fechou; ele não disse uma
palavra, mas lhe entregou um pedaço de papel. Que diabos? O papel, dobrado o menor possível, parecia ser
uma carta do irmão de Lahan.
— O Príncipe...da Lua... Ele disse que se você visse isso...você entenderia ...
Entender o quê?, perguntou-se Maomao. Perplexa, abriu a carta. Uma única linha corria pela página.
Nem sequer fora desenhada com pincel; parecia desorganizada, como se o irmão de Lahan tivesse usado um
pedaço de carvão como instrumento improvisado de escrita. Mas não era só isso — a linha fora riscada
violentamente de novo. A carta nem sequer dizia de onde era, mas não havia dúvidas sobre quem a enviara.
O irmão de Lahan precisava tanto lhes dizer algo que, em meio a uma espécie de caos, encontrou tempo para
enviar um pombo com esta mensagem. Eu sei o que é isto, pensou Maomao. Percebeu que reconhecia os
rabiscos escuros. Assemelhavam-se à gravura que a jovem Jazgul lhe dera no ano anterior, após a visita da
sacerdotisa de Shaohnese. Maomao não entendera o que significava na época. Mas agora entendo. A linha
era o horizonte que se estendia à sua frente. E a mancha era uma nuvem escura. Olhou para o céu, ainda claro
e azul, e disse :
— Eles estão vindo.
Capítulo 17: Desastre (Parte 1)
— O quê? Uma praga de insetos ? — disse um aldeão, exasperado.
Maomao imediatamente pediu ao chefe que reunisse os agricultores. Havia tanta gente aglomerada
no local onde se reuniam que era quase difícil respirar.
— Sim! Chegará em breve — dentro de alguns dias ! — disse Maomao, desesperado.
Os moradores apenas riram.
— É, tá, teve uns bugs ano passado, mas olha só a sorte grande deste ano! Está tudo bem !
— Ele tem razão. O tempo vai ficar bom por um tempo ainda. Não precisamos nos esforçar para
colher os frutos — disse outra pessoa.
Então, porém, alguém no grupo rosnou :
— Seus preguiçosos! Nunca chegaremos a tempo com essa atitude !
— Nianzhen … — disse Maomao.
Era o velho caolho que sobrevivera a uma praga de insetos tão terrível que as pessoas recorreram ao
canibalismo. Ele não fez a mínima tentativa de esconder sua raiva dos aldeões e sua atitude indiferente.
Bateu na mesa com a mão direita, a que não tinha o dedo indicador.
— Vocês não saberiam, porque não querem ouvir! Nada pode salvá-los agora. Eu vou lá e vou
começar a colheita agora mesmo.
— Não é tão importante assim, Nianzhen ? — perguntou o chefe.
Numa aldeia repleta de agricultores recém-formados, o ex-servo era o mais velho e experiente de
todos. Nem mesmo o chefe conseguiu dispensá-lo de imediato.
— Ainda não almocei, chefe. Acha que posso ir comer alguma coisa ? — perguntou um dos aldeões,
parecendo totalmente despreocupado.
Graças a Deus, Basen não está aqui. Fizeram-no esperar do lado de fora, sabendo que aonde quer que
Basen fosse, seu pato certamente o seguiria. Uma rápida olhada confirmou que o pato estava lá, brincando
com as crianças locais. Maomao estava convencida de que conversar era inútil. Eles deveriam estar
aproveitando esse tempo para começar a colheita. Justamente quando ela estava começando a se preocupar
com o que fazer, Rikuson deu um passo à frente.
— Talvez você ajudasse se achasse que há algo a ganhar com isso ?
Ele deu a eles aquele sorriso de menino bonito.
— Nós compramos seus grãos. Pelo dobro do preço de mercado.
Ouviu-se um baque pesado e estridente quando Rikuson deixou cair uma sacola sobre a mesa. Estava
obviamente abarrotada de dinheiro, facilmente mais do que um fazendeiro ganharia em um ano. Os aldeões
ficaram imediatamente fascinados por ela.
— Você... Você fala sério ?
— Nós vamos cobrar isso de você, sabia?
Seus olhos eram selvagens.
— Sim, mas apenas o que exceder seus impostos. Além disso, só se aplica ao que você conseguir
arrecadar nos próximos três dias.
O tom gentil de Rikuson nunca vacilou, mas o que ele pedia era impossível. E, no entanto, o fogo
que brilhava nos olhos dos aldeões nunca se apagou. Esse é o poder do dinheiro vivo e frio, pensou Maomao.
Os aldeões saíram do local de reunião e começaram a trabalhar. Voltaram para casa e deram foices para suas
esposas, filhos e familiares idosos. Assim que ficaram sozinhos no salão, Maomao se virou para Rikuson.
— Tem certeza disso? Você tem mesmo liberdade para fazer uma promessa dessas ?
— Se houver uma praga de gafanhotos, os grãos custarão muito mais que o dobro do preço médio, e
sairemos ganhando. Se não houver praga, bem, não terei do que reclamar. Há algum problema aqui ?
— Não, nenhuma.
Ela deveria ter esperado que ele fosse rápido em cálculos como esse. Ele dissera que sua mãe era
comerciante e, ainda mais revelador, mantinha boas relações com Lahan. Chue, aparentemente inspirado pelo
que Rikuson havia feito, parecia bastante motivado.
— Vamos trabalhar também? Acho que vou ajudar na área do Sr. Nianzhen. E você, Srta. Maomao ?
— Eu... Acho que vou me preparar para ajudar a fazer comida. E vou fazer pesticida também.
Ela folheou a enciclopédia de ervas que Jinshi lhe dera, procurando por qualquer coisa que pudesse
ajudar a matar insetos. Tinha algumas dúvidas sobre produzir pesticidas bem ao lado da comida que iriam
distribuir para as pessoas comerem, mas tempos desesperados exigiam medidas desesperadas. Maomao tinha
praticamente certeza de que a praga ocorreria. A única questão era quando. Onde estivera o Irmão de Lahan
pela última vez? Ele estava prestes a iniciar a viagem de volta para a capital ocidental, mas ainda estava bem
no oeste da Província de I-sei. Encontrara um enxame de gafanhotos lá e conseguira enviar sua mensagem e
fazer o pombo voar antes que os insetos os atacassem. Mas não tivera tempo de encontrar utensílios de
escrita adequados. A situação obviamente era desesperadora. Os gafanhotos já começavam a abrir caminho
para a destruição. Com toda a probabilidade, começariam a se mover para o leste, em direção à capital
ocidental, devorando tudo em seu caminho. Começou agora. Não há mais como adiar. As únicas questões
eram como acabar com aquilo e o que isso implicaria. Primeiro, precisavam salvar o máximo possível dos
grãos dos insetos vorazes — colhê-los, levá-los para dentro e garantir que os armazéns estivessem bem
fechados para que nenhum gafanhoto pudesse entrar. Agora o desafio começava. Ela não precisava encontrar
a melhor solução, apenas continuar procurando por uma melhor. Os aldeões estavam nos campos, colhendo
grãos o mais rápido possível. Eu me preocupo se eles vão apodrecer. Normalmente, os grãos ficariam do lado
de fora por vários dias para secar — mas o que eles deveriam fazer ali? Mais do que tudo, precisavam de
lugares para armazenar a colheita. Tudo bem, chega. Se vou pensar, preciso trabalhar enquanto faço isso.
Maomao pegou um fogão emprestado e começou a preparar uma panela enorme de sopa. Ela gostaria de
poder fazer com uma pasta de soja boa e adstringente — sua preferência pessoal —, mas suspeitava que
talvez não fosse do gosto dos aldeões. Em vez disso, ela fritou alguns vegetais em óleo, colocou bastante sal
para dar sabor e os adicionou a um ensopado de leite e carne-seca. O irônico é que as pessoas da região
central torciam o nariz para leite em excesso. Ela adicionou algumas ervas aromáticas para torná-lo menos
picante. Um pouco de farinha para engrossar e começou a pensar que poderia ter uma receita vencedora.
Gostaria de poder fazer alguns bolinhos, mas acho melhor não. Em vez disso, ela pediu pão frito como prato
principal. Maomao serviu a sopa em tigelas e as colocou em uma bandeja, depois saiu rapidamente
distribuindo-as aos trabalhadores.
— Senhorita Maomao, Senhorita Maomao! Um para a Senhorita Chue, por favor !
Chue correu até ela. Ela praticamente se transformara em uma das aldeãs, carregando uma faca na
mão direita e um saco na esquerda. O saco estava cheio de espigas de grãos. Maomao deu um pouco de
ensopado para Chue.
— Você está levando apenas as espigas de grãos ? — ela perguntou.
— Foi ideia do Sr. Nianzhen! Ele disse que se a colheita fosse a única coisa importante, seria mais
rápido coletar apenas as espigas.
Sim, certamente seria mais rápido do que ter que se curvar e cortar cada talo. Maomao e Chue
sentaram-se em uma cerca próxima para saborear a refeição. Maomao já havia comido seu ensopado, então
mastigou um pouco de pão.
— Não vai dar tempo de secar tudo, e não vai caber dentro se os talos ainda estiverem lá dentro —
disse Chue.
— Boa observação.
A palha de trigo era usada como ração para o gado e para necessidades diárias, como esteiras de
junco. Era um produto secundário importante, mas naquele momento havia coisas mais importantes em que
se concentrar.
— Ai, ai, meu Deus, mas dinheiro é uma coisa poderosa, não é? Tudo o que precisávamos fazer era
sussurrar no ouvido deles: "A palha pode vir depois", e vejam só !
Os aldeões imediatamente trocaram suas foices por pequenas facas. As crianças iam de campo em
casa arrastando sacos cheios de espigas de grãos.
— Agora eles estão secando-as lá dentro porque as espigas voariam com o vento aqui fora.
— Você é muito boa em conseguir o que quer, não é, Srta. Chue ?
— Ah, sim. Você precisava ver como eu motivo meu marido nas noites em que ele não está a fim !
Maomao teve uma ideia: talvez seu humor de bordel, que tantas vezes não dava certo, caísse nas
graças de Chue. Infelizmente, nenhuma piada realmente boa lhe veio à mente naquele momento. Ela
terminou sua modesta refeição, prometendo criar uma rotina que pudesse compartilhar. Rikuson estava
absolutamente certo ao dizer às pessoas que elas tinham três dias para coletar os grãos: com um prazo firme,
todos se ocuparam pensando em maneiras de colher com mais eficiência. No segundo dia, mais da metade
dos grãos havia sido colhida. Basen, com sua imensa força, provou seu valor agora. Ele conseguia carregar
um saco cheio de grãos em cada mão, fazendo o que, de outra forma, exigiria vários adultos. No entanto,
trabalhos mais delicados, como sempre, lhe escapavam.
— Ah, não! O que você está fazendo? Você não tem jeito, cunhadinho ! — gritou Chue.
Basen, tentando consertar uma casa, só acabou causando mais danos, tornando-se alvo de mais
provocações de Chue. Não podemos ter os armazéns cheios de buracos, pensou Maomao. Ela estava
remendando uma casa com lama e argila — madeira era preciosa naquela região do país, então terra teria que
servir.
— Acho que chegamos bem na hora — disse Rikuson, olhando para o céu.
Maomao também olhou e viu uma pequena nuvem negra além das colinas.
— Não é um pouco cedo para a estação chuvosa ? — ela perguntou.
— Sim... Sim, é.
Rikuson pareceu magoado.
— Uma nuvem nesta época do ano é bastante preocupante.
Isso soou muito ameaçador, mas Maomao não tinha certeza do que ele queria dizer.
— O que é isso sobre as nuvens ? — Basen perguntou enquanto passava, carregando alguns sacos de
grãos abarrotados como se não pesassem nada.
— Eu só quis dizer que não é bom ver uma nuvem de chuva nesta época do ano — disse Rikuson,
apontando para o céu a leste.
— Estou ouvindo. Tem outra nuvem ali. Isso também é um mau sinal ?
- Lá ?
Rikuson olhou. Basen apontava na direção oposta.
— Receio não ver nada.
— Hee hee! Os olhos do meu irmãozinho são irremediavelmente bons — interrompeu Chue.
— Pessoas comuns talvez queiram ter um telescópio à mão.
Nem mesmo Chue parecia carregar um desses, pois se inclinou para a frente e apertou os olhos.
Maomao se juntou a ela, estreitando os olhos e mirando o céu a oeste.
— Nuvens, nuvens …
Ela achou ter ouvido um zumbido fraco. Então, viu alguns pontos pretos flutuando no ar. Não se
pareciam com nenhuma nuvem de chuva que ela já tivesse visto.
— Senhorita Maomao, senhorita Maomao !
— Senhorita Chue, Senhorita Chue !
Os dois se entreolharam e assentiram. Maomao pegou a panela de sopa e o pilão que estavam ali
perto e os bateu. Ela correu pela aldeia, chorando,
— Gafanhotos! Os insetos estão a caminho ! — Chue encontrou alguns homens sentados tomando
chá e deu um tapa em cada um deles.
— Você ouviu! Gafanhotos, chegando !
Eles tiveram que fazer de tudo para atiçar a ira daqueles aldeões. O pânico não resolveria nada, mas
naquele momento, eles precisavam que todos dessem tudo o que tinham.
Capítulo 18: Desastre (Parte 2)
O primeiro veio quando cerca de setenta por cento da colheita já havia sido trazida. Mais escuro que
um gafanhoto comum, com pernas mais longas. Alguém o esmagou e matou. Alguém gritou para não se
incomodarem — que precisavam continuar colhendo. Tochas foram acesas. Seria apenas uma gota naquele
oceano, mas já era alguma coisa. As mulheres e crianças entraram nas casas e tentaram cobrir quaisquer
rachaduras com lama ou pano. As casas estavam escuras por dentro, mas foram severamente avisadas para
não acenderem fogueiras e também para terem comida pronta para ser consumida como estava. Receberam
ordens de matar quaisquer insetos que entrassem pelas rachaduras. Na casa de Nianzhen, havia muita coisa
para caber, então começaram a armazenar grãos no santuário. Lá, as rachaduras estavam tão cheias de terra
que quase não entrava ar. Todas as casas dignas desse nome foram borrifadas com pesticida, sem que
soubessem se adiantaria. As tendas tinham muitas aberturas para servir como áreas de armazenamento. Em
vez disso, seriam pontos de evacuação temporários para os aldeões. Basen carregava uma rede enorme.
Talvez tivesse sido usado para pegar peixes, mas ele o girou sobre a cabeça com tremenda velocidade,
recolhendo gafanhotos dentro dele. Então, ele os jogou em um enorme balde de água, matando-os. Chue
distribuiu bolsas de couro. Em vez de comida, elas continham leite de cabra adoçado. Ela estava se
preparando para uma longa batalha. Nianzhen usava várias camisas, e os outros aldeões o imitavam. Rikuson
ia de casa em casa, tranquilizando os aldeões cujas vozes ansiosas ele podia ouvir através dos buracos de
ventilação. Sempre que encontrava insetos entrando por uma abertura, ele os esmagava e preenchia a
abertura. O pato bicou os gafanhotos e depois os cuspiu novamente. Incomestíveis, talvez. Então os aldeões
começaram a gritar. Tudo pareceu escurecer, passando de brilhante e claro para cinzas, e então para um cinza
que lembrou Maomao de um rato, até que tudo ficou praticamente preto. Era impossível abrir os olhos,
quanto mais andar. Insetos esbarravam nas pessoas, as mordiam e as rasgavam. As pessoas não conseguiam
abrir a boca; tudo o que podiam fazer era cobri-las com trapos. Suas camisas estavam rasgadas e rasgadas, e
o bater de asas abafava qualquer outro som. Um zumbido abafava tudo, de modo que era impossível entender
o que alguém estava dizendo. Logo, nem mesmo os gritos podiam mais ser ouvidos. Maomao cobriu o rosto
com as mãos e abriu os olhos um pouco. Ela podia ver Basen, ainda balançando a rede sobre a cabeça. Ela se
encheu quase instantaneamente, e então ele a jogou no chão. O balde havia transbordado de gafanhotos há
muito tempo. Um homem enlouquecera com as picadas de insetos. Ele uivou a plenos pulmões e balançou
uma tocha em uma mão e uma foice na outra. Não adiantou; os gafanhotos sobreviveram ao seu
contra-ataque e continuaram a atacar os aldeões. Chue se aproximou sorrateiramente do homem
enlouquecido e o afastou com um golpe. No momento em que ele caiu no chão, ela o amarrou com uma
corda. Rikuson ainda corria de casa em casa, gritando. Algumas pessoas ficaram loucas com o
desaparecimento da luz. Outras, sãs, simplesmente não conseguiam ouvi-lo. O fogo irrompeu de uma das
casas, e uma idosa e algumas crianças saíram correndo da estrutura, que de outra forma seria selada. Uma
das crianças segurava uma pederneira. O trigo recém-colhido na casa era o combustível perfeito, e o fogo
queimava com facilidade. O ar seco da estação seca tornou as condições ainda melhores para as chamas.
Basen reagiu imediatamente, dando um chute em um dos pilares da casa. O lugar era pouco mais que um
barraco para começar, e desabou imediatamente. Maomao podia ouvir Basen gritando, embora não
conseguisse entender as palavras. Talvez ele estivesse dizendo que a fonte de água estava muito longe para
combater as chamas e que precisavam destruir a casa. Ele estava em seu elemento em momentos de crise. Ele
já havia praticamente derrubado o lugar sozinho; Agora ele correu com o balde cheio de gafanhotos
flutuantes e o esvaziou sobre a casa. Chue levou as crianças ranhosas e a velha para a barraca. Estava
infestada de gafanhotos, como em todos os lugares, mas era melhor do que estar do lado de fora. Quanto
tempo havia se passado? Maomao não sabia. Podiam ter sido trinta minutos. Podiam ter sido horas. Todos na
aldeia tremeram com os insetos, como nunca tinham visto antes; insultaram as criaturas e
— Maomao !
Ela pensou ter sentido alguém lhe dar um tapinha no ombro. Virou-se e encontrou Rikuson.
Gafanhotos roíam seus cabelos e suas roupas. Ela estendeu a mão, pensando em afastá-los.
— Por favor, pare de fazer pesticidas. Sua mão será inútil !
Ela olhou para a mão que havia levantado; estava vermelha e inchada. Oh... Sua mistura não
conseguia aliviar aquele enxame. Ela vinha misturando pesticida e espalhando o mais rápido que podia,
espalhando em todos os lugares que conseguia pensar, mas nunca era o suficiente; os gafanhotos
continuavam vindo. Por quê? Por que não funcionava? Funcionou. Havia simplesmente muitos deles. Os
insetos famintos até comiam as ervas venenosas. Picavam pessoas, mastigavam roupas e até tentavam
consumir postes de casas. Como se não bastasse, os insetos que haviam caído no chão começaram a comer
uns aos outros. Eram muitos, e isso os deixou em frenesi. Maomao também estava bem fora de si, agarrando
desesperadamente todas as ervas que pudessem ajudar a combater os insetos e cozinhando-os. Gafanhotos
flutuavam na enorme panela. Maomao arrancou as plantas, com raízes e tudo, e jogou-as na água. Será que a
mão dela estava inchada por ter arrancado as plantas do chão sem luvas ou pelas qualidades tóxicas do
pesticida? Rikuson olhou para o céu, ainda escuro com o enxame. Os insetos estavam por toda parte, mas ele
parecia estar olhando para algum lugar além deles, acima deles.
— Dizem que o desastre atrai o desastre... Deveríamos ter essa sorte.
Maomao não sabia o que ele queria dizer, mas ela mesma olhou para a escuridão.
— Ai ! — ela exclamou.
Algo duro a atingiu. Ela olhou para o chão, imaginando o que poderia ter sido, e encontrou um
pedaço de gelo. A dor voltou, desta vez nas costas, depois no ombro. Thock, thock, thock. O ar estava muito
frio.
— Granizo ? — ela disse.
Entre os grandes pedaços de gelo e o ar congelante, os gafanhotos começaram a se mover
visivelmente mais devagar.
— O desastre expulsa o desastre, não é ? — disse Maomao.
Não, não foi um desastre. Foi uma dádiva dos céus — não uma conclusão a que Maomao
normalmente chegaria.
— Sim! Caia! Que caia granizo ! — Agora sua loucura acelerava em outra direção. Ela se inclinou
para a frente, enquanto o granizo caía entre o enxame. Não uma dança da chuva, por assim dizer, mas uma
dança do granizo. Ela não sentia a dor dos insetos a picando, nem do granizo a atingindo. Estava cheia de
desejo, de esperança, de que algo, qualquer coisa, pudesse acontecer para ajudá-los com aquele enxame
inumerável de insetos. Thock! Ela sentiu um golpe especialmente forte, direto na cabeça desta vez.
— Maomao ! — Ela se lembrou de Rikuson correndo até ela, mas então tudo ficou escuro.
Capítulo 19: Arranhões
Sua visão voltou, mas estava turva. Hein? O que eu estava fazendo mesmo? Maomao sentou-se
lentamente; seu corpo estava pesado.
— Olá! Você está acordado ? — disse uma voz otimista.
Estava acompanhado de um rosto familiar.
— M-Mestre Lihaku ?
Era um soldado vira-lata grande e amigável. Maomao olhou ao redor, tentando fazer seu cérebro
funcionar. Ela não estava em um quarto, mas em uma tenda. Ao lado, ela podia ver Chue cozinhando algo
em uma panela. Tudo estava ótimo — mas então ela viu um inseto no canto da visão. Ela se levantou de um
salto.
— Gafanhoto ! — ela gritou, esmagando-o imediatamente com os pés.
No entanto, ela tinha acabado de acordar e o movimento quase a fez cair.
— Uau! Ei, mocinha. Matar um gafanhoto não vai fazer diferença nenhuma, tá? E você tem que ir
devagar — disse Lihaku.
— Ele tem toda a razão, Srta. Maomao. Aqui, coma isso.
Chue a sentou de volta na cama e lhe ofereceu uma tigela com alguma coisa. Ela pegou e comeu um
pouco. Era um arroz-doce, levemente salgado. Assim que Maomao comeu um pouco de comida quente, as
memórias começaram a voltar. Houve um enxame de gafanhotos, depois uma chuva de granizo, e então...
— Quanto tempo fiquei desmaiada ? — ela perguntou.
— Um dia inteiro — respondeu Chue.
— Você levou uma pancada forte na cabeça com um pedaço grande de granizo. Fiquei com medo de
que fosse perigoso te mover, então te colocamos aqui nesta barraca.
Maomao achou que tinha feito a escolha certa. Ela também se sentiu completamente patética,
desmaiando justamente quando mais precisavam dela. Parece que eu estava em péssimo estado. Maomao era
apenas humana. Ninguém a culparia se a situação sem precedentes a tivesse levado ao limite. Mas ainda era
verdade que, ao sucumbir, ela tornara a vida mais difícil para os outros. E pensar que o taibon não me
incomodava. A sala trancada cheia de cobras e insetos venenosos na fortaleza do clã Shi não tinha sido
problema algum.
— Não precisa se deprimir, Srta. Maomao. Você só se confundiu um pouco e passou dos limites com
a matança de insetos. Seu pesticida da marca Cat é forte demais. Pode envenenar a Terra, sabia? Mas
funcionou! Nós o diluímos e agora eles estão usando para matar o resto dos insetos.
— O resto deles ?
— Resumindo, estamos do outro lado disso. Ajudou muito a chegada do granizo e a queda da
temperatura. Mas alguns desses gafanhotos são resistentes e fedorentos, então eles estão lá fora lidando com
eles.
— Estou ajudando com isso .
Lihaku se intrometeu, levantando a mão. Por que ele estava ali?
— Um enxame de gafanhotos também apareceu na capital ocidental. Não tantos quanto aqui, mas
tem sido horrível. Nosso bom amigo Jinshi está fora de si — ele me mandou ir imediatamente para a aldeia
onde você estava, mocinha. Cheguei aqui há cerca de meio dia.
— Enquanto isso, meu irmãozinho bobo voltou para atender o Príncipe da Lua. Este foi o seu
relatório sobre a situação !
Provavelmente, isso era o máximo que Jinshi conseguia fazer. Basen, por sua vez, provavelmente
ainda estaria cheio de energia e vigor, mesmo depois de uma rápida cavalgada de volta.
— Cara, foi incrível ! — disse Lihaku.
— Aqueles caras na capital ocidental pareciam nunca ter visto uma praga de insetos antes. Quer
dizer, eu também não, né? Mas eles nos avisaram que algo estava por vir. Eles nos avisaram várias e várias
vezes !
Lihaku era, como sua aparência sugeria, um homem de coragem inabalável. Ele tinha sido uma
excelente escolha para esta expedição.
— Ah, certo ! — ele acrescentou.
— O velhote também estava lá, ele estava todo, 'Maomaoooo! Cadê minha Maomaaaoooo?!' Nossa,
como ele ficou louco! O pobre médico estava encolhido no consultório !
- Eca …
Maomao conseguia imaginar muito bem a reação do estrategista maluco.
— Nosso camarada Jinshi, ele realmente pensou rápido, eu acho, porque ele disse para não se
preocupar, porque ele tinha te mandado para um lugar onde não há peste. A maior mentira que já ouvi !
— Quando eu estava literalmente na linha de frente …
É verdade que Maomao se voluntariou para isso, mas a mentira era conveniente, sem dúvida.
— O velhote organizou um esquadrão de extermínio de gafanhotos. Ele também ajudou a controlar o
caos na cidade.
Maomao não respondeu imediatamente. Parecia que as coisas estavam mais ou menos sob controle
na capital ocidental. Eram as outras aldeias agrícolas que a preocupavam. Falando nisso...
— O irmão de Lahan está bem ? — ela se perguntou em voz alta.
— Ah, você quer dizer o Cara da Batata ?
— Se ele não enviou nenhuma carta, provavelmente são boas notícias, certo ? — disse Chue.
— Não sei. A última coisa que ele mandou parecia bem ruim, e agora estamos aqui com gafanhotos
por todo lado ...
Como fazendeiro comum, ele era bastante distinto, mas fora convocado para servir naquela
expedição e, em seguida, enviado para enfrentar o enxame que se aproximava. Obrigada, Irmão de Lahan...
Maomao olhou para o teto da tenda. Tentou visualizar o rosto sorridente do Irmão de Lahan, mas então
percebeu que não tinha certeza se já o vira sorrir. Geralmente, ele estava bravo, ou no limite, ou zombando
de alguém. Será que ele ainda está vivo? Ela sabia que ele fora enviado com guarda-costas de confiança,
então queria acreditar que ele sobrevivera a tudo aquilo.
— Você por acaso sabe a extensão dos danos, não é ? — ela perguntou.
O enxame já tinha vindo e ido embora; isso não podia ser mudado agora. A questão era como eles
reagiriam.
— Cerca de oitenta por cento da colheita de trigo estava pronta — Chue a informou.
— O trigo não colhido foi destruído, mas foi uma safra excepcional este ano, maior que a média.
Subtraia o trigo da única casa que pegou fogo e a colheita será de cerca de setenta por cento de um ano
normal.
— Setenta por cento ?
Considerando a escala da destruição, isso soou quase milagroso para Maomao. Talvez o Irmão de
Lahan fosse realmente um bom professor e guia. Mas eles não conseguiam pensar exclusivamente em termos
de trigo.
— E quanto a outros danos ? — ela perguntou.
— A maior parte da palha foi comida, assim como a maior parte do pasto para os animais. Os
campos de batata foram praticamente reduzidos a caules, mas achamos que eles podem crescer novamente.
Chue fez parecer tão simples, mas ela devia estar desconfortável com a gravidade da situação, pois
flores e bandeiras não paravam de entrar e sair de suas mãos. Lihaku a observava com atenção, parecendo
nunca se cansar da demonstração.
— Vamos ser honestos , as outras vilas agrícolas provavelmente foram praticamente aniquiladas —
disse Chue.
— O bom e velho Jinshi continua enviando cavalos de correio para a vila mais próxima toda vez que
recebe uma carta do irmão de Lahan, mas aposto que a maioria dos lugares não estava tão bem preparada
quanto este — acrescentou Lihaku.
— Boa observação. As coisas não ficaram tão caóticas por aqui — disse Chue.
Então, " não foi tão caótico — hein? " , Maomao achava que estava acostumada a um certo
pandemônio, mas Chue parecia ainda mais serena do que ela. E ainda havia a questão da pessoa que havia
feito mais do que qualquer outra nesta ocasião ...
—Onde está Rikuson ?
— Lá fora, eu acho. Quer vê-lo ? — perguntou Chue.
Em meio ao tumulto, Rikuson permaneceu completamente calmo. Na verdade, parecia
completamente acostumado a isso. Ele fizera mais do que simplesmente manter a calma e matar gafanhotos
— parecia entender profundamente como as pessoas em pânico agiriam. O que ele fizera, correndo de uma
casa para outra e conversando com os aldeões, talvez não parecesse grande coisa, mas sem isso, era possível
que muito mais grãos tivessem queimado. Mesmo após os severos avisos de Maomao para não usar fogo, os
aldeões ainda o fizeram. Presos em casas sufocantes e sem luz, com vozes frenéticas gritando do lado de
fora, qualquer um teria sido empurrado para a beira do abismo. Maomao via agora como era importante ter
uma voz calma vinda de fora. Qual é a história dele?, ela se perguntou ao sair da tenda. Chue a seguiu, talvez
para ficar de olho nela. Estava frio lá fora, um efeito persistente da tempestade de granizo. Gafanhotos ainda
rastejavam pelo chão, e algumas pessoas tentavam pegar os que ainda estavam no ar. No centro da aldeia,
havia uma pilha negra e hedionda do que Maomao supôs serem insetos coletados. Parecia se contorcer
levemente, e ela não queria se aproximar demais. Os aldeões, que haviam sido confinados em suas casas,
saíam para as ruas, atordoados. Quando deixaram os campos de trigo, levando as espigas para casa, elas
estavam cheias de talos — mas agora estavam devastadas e sem valor. Mesmo tendo ouvido o relato de Chue
sobre os danos, Maomao lutava para compreender a realidade diante de seus olhos. Ela passou pelos campos
de batata, reduzidos a talos, e viu com seus próprios olhos os pastos vazios. Os campos de grama estavam
menos completamente destruídos do que o trigo, mas era uma questão de grau. Os animais haviam sido
soltos nos campos, mas pareciam inquietos e inquietos. Galinhas bicavam os gafanhotos aqui e ali no chão.
Será que eles têm um gosto bom? Maomao, aliás, já tinha experimentado alguns uma vez, mas não conseguia
se conformar com a aparência – simplesmente não pareciam saborosos. O pato olhava para todos os lados,
observando a área. Talvez procurando por Basen.
— Você não está curiosa para saber o gosto dos gafanhotos, Srta. Maomao ?
— Desculpe, Srta. Chue ? — Maomao tinha um mau pressentimento sobre isso.
— Eu preparei isso — só para ver se era comestível !
Ela preparou uma espécie de refogado. Era bem típico de Chue, inventado assim do nada, e ela
parecia ter lido a mente de Maomao. Maomao não disse nada.
— Livrei-me das cabeças, carapaças e pernas — não pareceu bom para a digestão. Joguei fora as
entranhas também — nunca se sabe o que andaram comendo.
Não precisamos explicar o que era esse alimento , embora Chue tenha conseguido disfarçá-lo
completamente.
— Você fez a escolha certa, tirando as entranhas. Eles comiam ervas venenosas e até uns aos outros.
Mas depois que você tira tudo isso, não sei o que resta.
— Você tem toda a razão — tem tão pouco deles que dá para comer! Enfim, coma !
Maomao deu uma mordida sem entusiasmo.
- O que você acha ?
— Hmm... Bem, não é fisicamente intragável ...
— Mas, dada a quantidade de trabalho envolvida na preparação, você sugeriria outra coisa.
— Sim, eu diria que sim.
Esta era a comida de Chue, então certamente tinha alguns temperos bem bons. O fato de, apesar
disso, ainda atingir apenas o nível de " não intragável " não demonstrava os méritos do prato. Nem era
provável que as pessoas paradas, olhando distraidamente para os campos devastados pelos gafanhotos,
quisessem se virar e comê-los. A nutrição que eles ofereciam seria uma pequena compensação pelo dano que
haviam causado. O resto do prato de Chue desapareceu no ar, então ela puxou a manga de Maomao como se
tivesse notado algo.
— Por aqui, por favor ! — ela disse.
Maomao a seguiu até pararem em frente a uma das casas devastadas. Ela ouvia vozes lá dentro. Ao
olhar para dentro, encontrou Rikuson conversando com alguns moradores.
— Eu entendo — ele estava dizendo.
— Vamos fingir que isso nunca aconteceu.
— Sinto muito. Detesto quebrar uma promessa, mesmo que seja informal.
Vários moradores, junto com o próprio chefe, curvaram suas cabeças para Rikuson.
— Não, eu entendo. Considerando a escala da destruição, não posso culpá-lo. Na verdade, considero
que tivemos sorte que os danos não foram piores.
Uma olhada na sacola sobre a mesa entre os grupos foi suficiente para explicar o que estavam
falando. Era a mesma que Rikuson usara para motivar os aldeões complacentes antes da chegada do enxame.
a sacola cheia de dinheiro. Ele havia prometido comprar o trigo deles pelo dobro do preço de mercado. Esta
não pode ser a única aldeia que sofreu esse tipo de destruição. E imagino que eles não tenham condições de
vender o excedente.
— Bom dia, senhor.
Rikuson guardou a bolsa nas dobras do manto e saiu de casa. Ao sair, viu Maomao.
— Maomao, você acordou? Está tudo bem ?
Ela mostrou a cabeça e as palmas das mãos. Sua cabeça estava bem, mas a mão ainda latejava. Chue
havia cuidado dela enquanto ela estava inconsciente, aplicando uma pomada e enfaixando-a, então estava
melhor do que poderia estar. Chue cutucou Rikuson.
— Você tem muita coragem de carregar essa coisa por aí, Senhor Saco de Dinheiro! Sabe que pode
ter bandidos por aqui, né ?
— Oh, céus. Sou apenas um burocrata medíocre. Não tenho dinheiro para comprar o suprimento de
trigo de uma aldeia inteira.
Ele mostrou a língua, brincando, e então tirou a sacola. Estava cheia de pedras de Go.
— Bem, bem ! — disse Chue.
— Eu os carrego comigo para todo lugar. Um hábito do meu último emprego.
Isso, é claro, teria sido um auxílio para o estrategista excêntrico. Rikuson, pensou Maomao, havia
provado ser um vigarista de primeira classe.
— Desculpe. Precisa de alguma coisa comigo ? — perguntou ele.
Precisa de alguma coisa? Hmm. Ela basicamente seguiu Chue. Chue e Lihaku, juntos, lhe deram uma
boa ideia de como as coisas estavam, então não havia necessidade real de perguntar a Rikuson sobre isso. Ela
achava, porém, que Rikuson provavelmente fora o mais chocado quando ela foi deixada inconsciente. Sentiu
que deveria se desculpar.
— Sinto muito por ter sido nocauteado daquele jeito. Eu era mais um problema quando você já tinha
problemas demais para lidar.
Ela também se curvou para Chue, só por precaução.
— De jeito nenhum. Só estou feliz que você não esteja gravemente ferido.
— Tudo bem, então. Até mais.
— O quê? É só isso ?
— Só isso ? — Bem, havia outras coisas que ela queria perguntar a Rikuson, mas não havia
necessidade de pressa. Ainda havia muitos gafanhotos por perto, e ela achou que deveria ficar longe. Talvez
Rikuson estivesse cansado de pensar em gafanhotos e quisesse mudar de assunto. Infelizmente, Maomao não
estava em melhor posição do que ele para inventar algo que o distraísse. Em vez disso, ela disse:
— Você parece ter uma ótima ideia do que está fazendo aqui, Rikuson. Você tem alguma experiência
com esse tipo de coisa ?
A maneira como ele manteve a cabeça o tempo todo Mesmo sendo o ex-assessor do estrategista
esquisito, isso não lhe daria esse tipo de compostura. Rikuson lhe deu um sorriso gentil.
— Aprendi com a minha mãe. Você nunca deve se perder de vista, não importa a situação, ela disse.
Então, por um segundo, sua expressão vacilou.
— Suas últimas palavras para mim foram: 'Quando você mais quer desmoronar, é quando você deve
estar mais calmo.
— Suas últimas palavras ?
— Sim... Nossa casa foi atacada por bandidos. Minha mãe e minha irmã mais velha me esconderam
onde eu não seria encontrado... e então foram mortas diante dos meus olhos.
De repente, essa conversa ficou muito mais sombria do que Maomao esperava.
— Se eu fizesse um som, eu também teria morrido. Mas eu não podia — não podia gritar, não podia
berrar. Minha mãe, sabendo muito bem que eu teria gritado de raiva e tentado pular em cima dos assassinos,
enfiou uma mordaça na minha boca e me amarrou de pés e mãos. E foi assim que, incapaz de fazer qualquer
coisa, vi minha mãe e minha irmã morrerem — mas, por causa disso, sobrevivi.
Não foi uma história fácil de responder. Maomao respondeu da única maneira que lhe ocorreu.
— Porque você sobreviveu, esta vila também sobreviveu.
O que quer que tivesse acontecido no passado não lhe dizia respeito — mas se, como resultado de
suas experiências, Rikuson conseguiu salvar esta vila, então ela tinha que ser grata por essas experiências. E,
também, tinha que reconhecer sua coragem incomum.
— Eu aprecio isso, Maomao , essa maneira de encarar as coisas.
- Oh ?
Ela não era Rikuson. Não tinha como saber como ele teria reagido se ela tivesse reagido com excesso
de emoção. Ele era um homem adulto, não uma adolescente mal-humorada, então ela imaginou que não
havia necessidade de enchê-lo de compaixão. Rikuson sorriu novamente.
— Acho que você e eu nos damos muito bem, Maomao. Acha que eu poderia pedir sua mão em
casamento ?
— Certamente você está brincando — ela disse.
Ela não estava disposta a levar a sério suas brincadeiras educadas.
— Sim, claro. Com certeza — disse Rikuson, e riu.
Não sei se percebi que ele era do tipo que fazia esse tipo de piada, pensou Maomao, surpreso. Por
outro lado, ele havia dito algo parecido no ano passado, na última vez em que estiveram na capital ocidental.
Talvez fosse apenas um outro lado dele. Chue se intrometeu na conversa.
— Uau! Você vai deixar a Srta. Chue de fora? Tem espaço para mais uma no seu dramazinho de
relacionamento ?
— A Srta. Chue é uma mulher casada — disse Rikuson suavemente.
— Sim! Casada e com filho! Mas todo mundo diz que eu não pareço. Como você sabia ?
Chue inclinou a cabeça, confusa. Ela realmente não parecia. Chue estava muito, muito distante da
ideia que Maomao tinha de uma dona de casa comum.
— Bem, veja bem, o filho mais velho do clã Ma é famoso em certos círculos.
— Ah, sim! Meu marido passou no concurso público quando era adolescente , o suficiente para
tornar qualquer um famoso. Infelizmente, ele desistiu bem rápido. Graças a ele, a Srta. Chue teve que voltar
a trabalhar logo depois do parto !
Ela juntou as mãos.
— E o que aconteceu com seu filho? Ele não deve estar muito velho ainda, não é ? — perguntou
Rikuson.
— Minha cunhada está cuidando muito bem dele !
Maomao sabia da existência da criança, em termos gerais, mas agora percebia que Chue não parecia
nem um pouco preocupada com sua prole. Maomao percebeu que não só nunca ouvira o nome da criança,
como também não sabia se era menino ou menina. Mesmo sabendo que a cunhada de Chue, Maamei, sem
dúvida faria um excelente trabalho na criação da criança, sua abordagem parecia laissez-faire ao extremo.
— Tudo bem, preciso voltar a ajudar com os gafanhotos — disse Rikuson com uma educada
reverência de cabeça.
— Certo. Eu vou ...
No momento em que Maomao estava se perguntando o que, de fato, ela faria, uma voz surgiu atrás
dela.
— Ei !
Ela se virou e encontrou Nianzhen acenando para ela. O que o velho caolho queria?
— Você tem mais desse veneno ?
- Tóxico ?
Maomao lançou-lhe um olhar interrogativo.
— Aquele que mata insetos! Aquele que você ferveu naquela panela grande. Não vou a lugar
nenhum esmagando insetos um de cada vez. Quero espalhar essa coisa em tudo e acabar com eles.
— Ah! Você quer dizer o pesticida.
Maomao tinha uma vaga lembrança de sua busca desesperada para fazer aquela coisa.
— Certo! O veneno !
- Tóxico …
Maomao queria ressaltar que não era exatamente isso, mas Rikuson o interrompeu quando ele estava
saindo para dizer :
— Sim, aquele veneno foi surpreendentemente eficaz.
— Tudo bem, espere um pouco …
— Oh! É a Senhora Venenosa ! — disse um dos aldeões que avistou Maomao.
— Você acha que poderia preparar mais veneno para nós ?
— Sim, preciso de um pouco de veneno, por favor. Do tipo que você precisa diluir para não matar
ninguém ! — disse outro aldeão.
— Aquele veneno funcionou como nada que eu já tenha visto. O que tinha nele ?
Os aldeões se aglomeraram ao redor dela. Não é ppp... Antes que Maomao pudesse dizer as palavras,
Chue lhe deu um tapinha no ombro. Ela lhe lançou um olhar compreensivo e balançou a cabeça. Maomao
engoliu em seco.
— Por favor, use-o somente conforme as instruções — disse ela.
E assim Maomao se viu reunindo ervas tóxicas mais uma vez. Mais ou menos na hora em que
Maomao havia preparado uma quantidade generosa de pesticida, Lihaku chamou :
— Ei, mocinha !
— Sim? O que houve ?
— Parece que você já está pronto para preparar o seu veneno. Pensei que, em vez de ficarmos por
aqui, talvez devêssemos voltar para a capital ocidental para nos reportar. Posso deixar os soldados que
vieram comigo para ajudar a eliminar o resto dos insetos. Parece bom ?
— Sim, pode ser uma boa ideia... E, a propósito, isso não é veneno, é pesticida.
Maomao olhou para a aldeia. Ela mostrou aos agricultores como fazer o pesticida e até escreveu
instruções simples para eles.
— Se não voltarmos logo, aquele velhote vai perceber que foi enganado — disse Lihaku.
— Ah, é verdade. Disseram a ele que eu estava em algum lugar onde não havia peste, não foi? Estou
impressionado que ele tenha acreditado .
Por mais enlouquecido que estivesse, o inexplicável sexto sentido do estrategista excêntrico parecia
estar sempre aguçado. Estranho pensar que alguém havia mentido para ele com sucesso.
— Nosso camarada Jinshi não é um estrategista ruim. Ele usou o velho doutor.
O velho médico. Em outras palavras, o charlatão. Maomao sabia que Jinshi andava sendo gentil com
o médico ultimamente. Ela se perguntava como ele o havia usado.
— Ele explicou ao velho doutor o que estava acontecendo com você e deixou que ele contasse ao
velhote. Sabe, ele contou indiretamente !
Maomao ficou quieto: aquela era realmente uma boa ideia. Além disso, o velho doutor isso e o
velhote aquilo pareciam confusos. O médico charlatão era um homem atarracado de meia-idade, mas em
termos zoológicos ele estava na mesma categoria que ratos ou esquilos. Ele ocupava praticamente o mesmo
lugar na hierarquia que o pato de Basen.
— Assim que as coisas se acalmarem, precisamos aparecer rápido, senão o velho vai começar a
sentir um cheiro estranho.
Maomao olhou para a palma da mão. Ela ainda estava visivelmente marcada pela aplicação do
pesticida.
— O que faremos sobre isso ? — ela perguntou.
— Tenho uma pequena muda de roupa para você ! — disse Chue, prontamente as pegando.
— Só diga a todos que algo deu errado, sabe? Você já tem tudo isso no seu braço esquerdo — disse
Lihaku, gesticulando para o membro afetado, coberto de cicatrizes da Maomao usando a si mesma como
cobaia para seus remédios.
Ela nunca mencionou isso especificamente, mas aparentemente ele já tinha descoberto. Pensando
bem... Por mais superprotetor que o estrategista esquisito pudesse parecer, ele nunca se opôs a que ela fosse
uma provadora de comida, verificando se havia veneno. Ele imediatamente puniria qualquer um que
ameaçasse Maomao, mesmo que fosse minimamente — mas talvez ele optasse por não interferir quando se
tratava de ameaças que Maomao escolhia para si mesma. Ela se perguntou se Lihaku tinha uma de suas
leituras instintivas desse lado do estrategista.
— Boa observação — disse ela.
Ela imaginou que ele estava certo: ninguém questionaria um pequeno ferimento em suas mãos
naquele momento.
— Tudo bem. Vamos para casa ?
Então ela deixou a vila devastada para trás.
Capítulo 20: Confirmação
Ao retornar à capital ocidental, encontrou-a em péssimo estado. As coisas realmente eram piores ali,
pensou. Observou a cidade com indiferença. Ainda havia gafanhotos nas ruas e rastejando pelas paredes dos
prédios. Às vezes, via aglomerados negros se contorcendo, mas preferia não olhar muito de perto. Suspeitava
que o número real de gafanhotos fosse menor do que na vila, mas via barracas de rua destruídas e frutas
roídas no chão por toda parte. Os moradores da cidade não lidam bem com insetos. As pessoas ali
provavelmente reagiram ao enxame de forma muito diferente dos moradores da vila. Ela quase não viu
ninguém do lado de fora. Os fazendeiros tinham suas plantações para cuidar, então tentaram exterminar os
insetos para manter as plantas seguras, mas o medo puro e simples dominava os habitantes da capital
ocidental.
— Quão ruim era o caos ? — ela perguntou a Lihaku, que estava sentado no banco do motorista.
Rikuson havia dito que ficaria na aldeia por mais alguns dias. Isso era ótimo para os moradores, mas
Maomao ficou surpreso por ele não achar que deveria retornar à capital ocidental para lidar com aquela
emergência.
— Era um caos. Chuva e granizo !
— Ninguém os avisou que o enxame estava chegando ?
Se Jinshi tivesse conseguido mandar uma mensagem até mesmo para ela, ele devia ter algum plano
em andamento na capital. Lihaku, no entanto, disse :
— Esta é a capital ocidental. As coisas têm uma ordem, sabe ?
- Eu vejo …
Jinshi mal conseguia correr pelas ruas gritando a plenos pulmões. Ao contrário de Maomao, ele tinha
sua posição para definir. Não podia fazer nada a menos que o fizesse por meio das autoridades da cidade.
— Parece que ele fez melhor do que nada — disse Lihaku.
Em uma grande praça da cidade, havia o que parecia ser uma distribuição de alimentos acontecendo.
Maomao ficou surpresa - os insetos realmente causaram tanto dano e exaustão? Mas já haviam se passado
vários dias. Nem todas as famílias teriam provisões abundantes à mão. Muitas famílias pobres vivem de mão
em boca, para começar. Muitas vezes, o melhor que conseguiam fazer era ganhar o salário de um dia e
gastá-lo em uma barraca para o jantar naquela noite. Alguns lugares para comer ainda estavam abertos, mas
no caos, as redes de distribuição haviam secado e eles não tinham muito o que servir. Maomao conseguia
sentir o cheiro do mingau sendo distribuído mesmo de onde estava. O cheiro a fez pensar: Irmão de Lahan.
Era o cheiro de batata-doce, talvez do enorme suprimento que viera com ela e os outros nos navios. As
batatas estavam sendo cozidas e servidas para encher as barrigas dos moradores famintos da cidade.
— Então eles estão usando todas as batatas dessa distribuição — observou Maomao.
— Oh, irmão de Lahan, mal o conhecemos... Dói tanto perdê-lo ...
Os olhos de Chue se encheram de lágrimas. Ela o estava tratando como se ele estivesse morto?
— Eu diria que se eles forem úteis, tudo bem, não é? Tenho certeza de que o Cara da Batata está por
aí em algum lugar, sorrindo — disse Lihaku.
Lá fora? Onde seria? Pelo jeito como Lihaku falava, era difícil dizer se ele achava que o irmão de
Lahan estava vivo ou morto. A carruagem chegou ao anexo. As pessoas se aglomeraram no portão ao ouvir o
relinchar dos cavalos. Especificamente, as pessoas eram o charlatão e Tianyu.
— Mocinha! Você voltou !
Um homem exausto e abatido correu até Maomao. Lihaku o agarrou pelo pescoço antes que ele
pudesse colidir com ela. O rapazinho se debateu e se debateu. era o médico charlatão.
— Mestre Médico, você está bem ? — disse Maomao, curvando-se. Lihaku colocou o charlatão de
volta no chão.
— E você, mocinha? Está bem, não está? Eu sei que estava em algum lugar seguro, mas devia estar
com muito medo! Eu estava mesmo! Eu juraria que o mundo estava acabando !
— Sim, senhor. Eu sei que o senhor desmaia ao ver uma barata.
Mais de uma vez, ele a procurara pálido como um lençol freático depois de encontrar um inseto
particularmente feroz durante a limpeza. Um enxame de gafanhotos deve ter sido um verdadeiro inferno para
ele.
— Não é justo, Niangniang. Por que você teve que evacuar? Cara, deve ser ótimo ter conexões de
verdade !
Tianyu estava tão cheio de sarcasmo como sempre, embora Maomao não tivesse certeza de até que
ponto ele realmente acreditava no que Jinshi havia dito.
— Tem certeza de que não há problema em deixar o consultório médico vazio ? — perguntou
Maomao.
Essa foi, verdadeira e sinceramente, a primeira coisa que passou pela sua cabeça quando ela os viu.
— Ahh, não estamos tão ocupados — disse Tianyu.
— Talvez porque a gente deva cuidar principalmente do Príncipe da Lua. Dr. Você e os outros, agora,
têm muito o que fazer !
Os dois têm tempo de sobra porque estão no comando de Jinshi? Algo estranho nisso.
— Isso me lembra, mocinha! O Mestre Lakan estava tão preocupado com você !
- Oh.
Essa não foi uma informação especialmente útil.
— Ele parece ter uma queda por doces. Você devia levar uns petiscos de purê de batata-doce e ir
cumprimentá-lo. Ele estava morrendo de vontade de comer outro dia !
Ela desejou poder ignorar a sugestão do bom doutor, mas, se o fizesse, suspeitava que a outra parte
viria visitá-la. De qualquer forma, ela tinha um problema maior: o charlatão estava se aproveitando da
ausência do irmão de Lahan para cozinhar suas batatas-semente.
— Nossa, mocinha, você está machucada! O que aconteceu com a sua mão ?
— Ah, não precisa se preocupar. Eu estava fazendo pesticida. É de experimentos com isso.
— Experimentos? Você não é um inseto, mocinha !
O charlatão pareceu genuinamente perplexo.
— Se pode matar um gato, com certeza funcionará com um inseto — interrompeu Tianyu.
— Tudo bem, vocês dois, chega de conversa — disse Chue ao entrar na sala.
— Temos muitas coisas que queremos lhe contar !
— Conte-nos ? — disse o charlatão.
— Sobre essa mistura para matar insetos.
— Ah, sim, claro. Desculpe, desculpe.
O charlatão educadamente abriu caminho. Tianyu não parecia que seria um problema Ele só
aparecera para fazer comentários inteligentes. Muitas pessoas importantes, não apenas Gyokuen, moravam
em casas excessivamente grandes, mas os aposentos de Jinshi ficavam no santuário mais interno desta. Tudo
isso era muito respeitoso para ele como hóspede, mas, francamente, era uma verdadeira caminhada.
— Tudo bem, as roupas de ninguém estão amassadas? Ótimo — disse Chue, inspecionando as
roupas de Maomao e Lihaku.
Maomao viu um ou dois fios de cabelo soltos na cabeça de Chue, então ela os afagou.
— Com licença, somos nós — disse Maomao, mas foi interrompida por um estrondo tremendo no
momento em que entraram.
Jinshi estava sentado em uma postura um tanto quanto despretensiosa. Suiren e Taomei o
acompanhavam como de costume, enquanto Gaoshun e Basen também estavam lá, ambos parecendo um
pouco desconfortáveis.
— Quack ! — grasnou o pato ao lado deles.
Seria melhor dizer algo espirituoso sobre o pássaro, ou não? Basen havia deixado o pato para trás e
ela retornara com Maomao e os outros. Do jeito que ela voltara direto para Basen no momento em que
chegaram ao anexo — ela parecia mais um cachorro do que um pato. Parece o tipo de coisa de Gaoshun,
pensou Maomao. Ao contrário das aparências, ele tinha uma queda por doces e pequenos animais.
Provavelmente achava a presença do pato curadora. Ok, não posso passar o tempo todo olhando para o pato.
Ela olhou para Lihaku para perguntar como lidariam com o relatório. Ele deu meio passo para trás —
aparentemente, queria que ela falasse. Chue também recuou.
— Acabamos de voltar, senhor — disse Maomao, ficando um pouco mais ereto e falando um pouco
mais apropriadamente porque Taomei estava lá.
Se fosse apenas Gaoshun ou Suiren, isso seria uma coisa...
— Muito bom — disse Jinshi com um ar de autoridade imparcial.
Ele parecia sentir o mesmo que Maomao, pois seu rosto ostentava a proverbial máscara de "Príncipe
da Lua" . Taomei fora uma das babás de Jinshi, Maomao deduziu, mas sua abordagem à criação dos filhos
era bem diferente da de Suiren.
— E como foi ? — perguntou ele.
Uma pergunta justa, mas tudo o que Maomao pôde fazer foi repetir o que ouviu de Chue.
— A colheita foi severamente afetada, mas não aniquilada. Quanto ao trigo, achamos que ainda
restam cerca de setenta por cento da colheita normal de um ano.
— Então a mensagem do irmão de Lahan chegou até você a tempo.
Ele até o chama assim em reuniões oficiais? Talvez nem Jinshi soubesse o nome do homem. Se ele
nunca mais voltasse, Maomao se perguntava o que colocariam em sua lápide.
— Enviamos mensageiros para as outras aldeias, mas, segundo todos os relatos, salvamos menos da
metade da colheita. E há alguns lugares de onde os mensageiros ainda não voltaram — só posso presumir
que as coisas estejam piores lá.
Por mais que tivesse se esforçado, o Irmão de Lahan simplesmente não conseguia alcançar todos a
tempo. Pior ainda, por mais que tivesse sofrido pelo bem das aldeias que alcançou, os demais simplesmente
presumiam que os superiores os haviam ignorado e abandonado. Por mais que lutasse, o Irmão de Lahan
jamais alcançaria a linha de chegada.
— Lihaku. Quantas pessoas você acha que precisamos enviar para cada vila ? — perguntou Jinshi.
— Eu diria pelo menos dez, senhor. Precisaremos de alguns para cuidar dos insetos e de outros para
ajudar a reconstruir as casas, mas o que mais me preocupa é ...
— Violência? Ou banditismo ?
— Ambos, na verdade.
Desastres naturais como esse viravam a vida das pessoas de cabeça para baixo — e isso tendia a
fazer o mesmo com o coração humano. Um coração devastado logo poderia se voltar para o roubo ou a
violência. Jinshi já estava pensando no que viria depois dos gafanhotos. Poinck!, fez o cabelo rebelde de
Chue. ela parecia pensar que Jinshi poderia pedir sua opinião, mas ela nunca teve a chance de falar.
— Muito bem. Você fez um bom trabalho, Lihaku. Pode voltar ao seu posto — disse Jinshi.
— Senhor — respondeu Lihaku rapidamente e saiu da sala.
A pata, por razões desconhecidas, o seguiu. Seu traseiro tremia enquanto ela andava — talvez ela
precisasse fazer cocô. Patos podem ser adestrados? Maomao teria presumido que isso era impossível, mas,
por outro lado, se o animal profanasse os aposentos de Jinshi, Taomei provavelmente a assaria na hora.
Talvez a pata, pressentindo perigo mortal, tivesse decidido sair. Se fosse esse o caso, era um truque
impressionante. Maomao se virou para segui-los, mas imediatamente encontrou Suiren bloqueando sua saída.
— Posso ajudar ? — perguntou Maomao.
— Ho ho ho. Talvez você possa nos poupar um pouquinho mais do seu tempo.
Quando ela disse isso, Maomao não teve escolha a não ser mudar de ideia. Jinshi não exibia mais a
expressão de Príncipe da Lua.
— Sua cabeça está bem ? — ele perguntou.
Basen deve ter lhe contado sobre o granizo rebelde e a subsequente inconsciência de Maomao. Ao
olhar mais de perto, ela pôde ver olheiras sob os olhos de Jinshi, e seus lábios estavam secos.
— Não tenho certeza, senhor. Às vezes, uma pessoa morre do nada alguns dias depois de levar uma
pancada na cabeça.
Mesmo que não houvesse ferimentos externos, o sangramento dentro da cabeça poderia,
aparentemente, causar a morte.
— Então você precisa estar deitado !
— Não, senhor. Minha hora vai chegar quando chegar, e a única pessoa que poderia fazer algo a
respeito seria meu pai.
Ele, ou talvez o Dr. Liu, mas nenhum dos dois estava aqui na capital ocidental.
— Então prefiro fazer o que posso, enquanto posso.
— Explique então essa mão direita.
Ele pareceu ter notado as bandagens de Maomao.
— Cicatrizes de um experimento — ela disse lentamente.
— Pensei que você não usasse a mão dominante para isso.
Ele lançou-lhe um olhar longo e severo — o inverso de suas posições habituais. Por fim, disse :
— Hum. Tudo bem. Mais importante... você está bem. É isso que importa.
Ah... Ela viu como a mão dele se abria e fechava, e percebeu que o "Príncipe da Lua" havia se
transformado completamente em Jinshi. Era quase infantil — e, de fato, angustiantemente humano.
— Você deve estar cansado. Deve voltar para o seu quarto e descansar um pouco.
Agora, Maomao ficou grata por ouvir isso. Chue ergueu as mãos em comemoração, até ver a
expressão no rosto da sogra e abaixá-las novamente. Maomao estava ansiosa para voltar para o quarto, mas
havia uma coisa que ela precisava saber.
— Mestre Jinshi, o senhor não está fazendo nada em relação ao enxame ?
Talvez não parecesse uma pergunta muito respeitosa — e não ajudaria em nada que ela tivesse
voltado a chamá-lo de Jinshi em vez de " Príncipe da Lua ". Mas, depois de todo o planejamento e
preparação para lidar com a praga de insetos, ele certamente não deveria estar descansando em sua suíte de
hóspedes naquele momento. Maomao insistiu:
— Nestes tempos sem precedentes, certamente há muita coisa que o senhor ainda poderia estar
fazendo, não é mesmo ?
O ponto dela pareceu ter sido compreendido.
— Como você sabe, sou um convidado aqui — disse Jinshi, retornando ao seu tom oficial.
— O que eu posso fazer pessoalmente em terra é limitado. Então, preparei um presente para aqueles
que podem fazer o que quiserem.
Maomao lembrou-se do mingau de batata-doce distribuído no mercado.
— Vi mingau de batata-doce sendo distribuído — ela disse.
— É bom saber que eles estão usando conforme o esperado.
— Usando ? — Jinshi já havia entregue as provisões para a capital ocidental.
Seria o governante da capital quem receberia a boa vontade por distribuí-los. A gratidão dos
habitantes da cidade seria direcionada a quem os tivesse fornecido. Ele arrancou este momento das mãos de
Jinshi! Jinshi fizera todo o trabalho, mas Gyoku-ou levaria todo o crédito.
— Também está claro o motivo pelo qual me permitiram enviar mensageiros às aldeias quando eu
quisesse. Se nada acontecesse, eles teriam que culpar o irmão mais novo do Império por tentar incitar o povo.
E se algo acontecesse, a capital ocidental ainda seria vista como tendo enviado a mensagem.
Jinshi era uma pessoa muito mais direta do que parecia à primeira vista, e colocava a nação em
primeiro lugar, sem levar em conta facções ou alianças. Ele poderia ser um peão terrivelmente útil se alguém
soubesse como manipulá-lo. Então, esta catástrofe conveniente chegou.
— Esses ocidentais parecem ter planejado o tempo todo nos usar, visitantes do centro, como seus
mensageiros. Pelo menos fomos poupados do pior, pois o honrado estrategista tomou a dianteira.
— M-Mas …
Houve pessoas que acharam isso mais doloroso do que Maomao. Basen permaneceu resolutamente
inexpressivo, enquanto Suiren e Taomei pareciam nada animados. Gaoshun, por sua vez, franzia a testa
profundamente.
— Essa parece ser a verdadeira razão pela qual fui convocado aqui , para servir como um
conveniente contraponto — disse Jinshi.
Surpreendentemente, o governante interino da capital ocidental, Gyoku-ou, tentava usar o irmão mais
novo do Império como seu próprio coadjuvante. Estaria ele tentando se tornar o herói desta história?
Maomao cerrou o punho ao perceber o que estava acontecendo. Eles ficariam na capital ocidental por um
tempo. Gyoku-ou podia ser irmão da Imperatriz Gyokuyou, mas mesmo assim, Maomao tinha a sensação de
que ela nunca aprenderia a gostar muito dele. Enquanto isso, Jinshi, que parecia continuar em desvantagem,
não conseguia esconder seu crescente cansaço daqueles mais próximos. Ele precisa dormir um pouco, e logo.
Maomao estava prestes a tentar encerrar a conversa quando Suiren chamou :
— Basen, seu pato está fazendo barulho lá fora !
— Jofu? Aconteceu alguma coisa ?
— Aquela coruja mascarada voltou. Talvez devolvê-la à natureza não tenha sido tão fácil...
— Já está acostumado com humanos — disse Taomei, abrindo um sorriso ao ouvir a menção da
coruja.
Maomao agora tinha certeza: Taomei apreciava o pássaro como um companheiro predador.
— Você acha que poderia dar uma olhada? Você sabe como lidar com essa coisa, não é ? — disse
Suiren.
— Quando você coloca dessa forma, eu suponho ...
Por mais que fosse uma obra-prima de mulher, até Taomei teve que ceder diante de uma dama de
companhia veterana como Suiren. Basen, preocupado com seu pato, correu para fora também. Já estava
escuro, então Chue acendeu uma lanterna. O doce aroma de mel pairava no ar.
— Senhorita Chue, talvez você possa me ajudar com os preparativos do jantar ? — disse Suiren.
— Ah, sim, certamente ! — respondeu Chue, de forma um tanto teatral.
Suiren piscou para Maomao. Entendi. Muito gentil. Sem pedir permissão, Gaoshun correu atrás
deles. Ele estaria por perto, para vir rapidamente se fosse necessário. Assim que os dois ficaram sozinhos no
quarto, Maomao respirou fundo e soltou um suspiro.
— Mestre Jinshi.
- Sim ?
— Você não acha que está se esforçando demais ?
Os últimos vestígios do Príncipe da Lua desapareceram.
— Existe algum momento em que eu não estou ?
Desde o momento em que nasceu como membro da família imperial, liberdade não fazia parte do seu
vocabulário. Maomao percebeu que havia simplesmente perguntado o óbvio.
— Até que ponto você pode se esforçar mais, então ?
Tinha que haver um limite para o quanto Jinshi podia aguentar.
— Você faz perguntas difíceis. Não sabemos onde está o limite até encontrá-lo, não é ?
— A maioria das pessoas que se arruínam irreparavelmente fazem isso no trabalho, enquanto juram
continuamente que conseguirão seguir em frente.
Isso deixou Jinshi quieto por um momento, mas seu rosto escureceu.
— Não é para isso que serve uma apotecária? Para melhorar as coisas ?
— Sim, senhor. Mais ou menos. Quer que eu prepare um banho de ervas para o senhor ?
— Não … — Jinshi estendeu a mão.
Hein? Maomao olhou fixamente para aquilo, tentando decidir se tinha algum significado. Sua mão
era grande, os dedos longos. As unhas estavam impecavelmente aparadas e lixadas. A mão grande se esticou
um pouco mais e se posicionou sobre a cabeça de Maomao. Nossa! Ele bagunçou o cabelo dela como se
estivesse acariciando um cachorro. Ela tentou lhe dar um tapa, mas ele se esquivou agilmente.
— Que diabos, senhor ? — perguntou ela, ajeitando o cabelo desgrenhado. Ela não tomava banho
havia vários dias, então estava grosso e oleoso.
— Eu simplesmente me tornei melhor. Para não atingir meu limite tão cedo.
Jinshi manteve a cabeça erguida, como se dissesse que não havia feito nada de errado.
— Deve haver maneiras melhores de fazer isso, senhor.
— Isso é um convite para usar esses... jeitos ? — Nenhum dos dois disse nada. Maomao recuou meio
passo e cruzou os braços em X.
— Fale-me sobre esses 'melhores '
— Certo, já relatei tudo o que tinha para relatar! Com licença !
E então, com uma esquiva habilidosa, Maomao saiu da sala. Lá fora, ela soltou um longo suspiro. Ele
tem sido tão indireto ultimamente que eu tinha esquecido. A verdadeira personalidade de Jinshi era seguir em
frente. Seus métodos podiam ser brutais. Se ele estava demonstrando contenção com Maomao, era apenas
por causa da maneira ridícula como ele havia decidido fazer isso. Caminhando por aí na esperança de clarear
a mente, Maomao encontrou uma coruja, um pato, Basen e, por algum motivo, até uma cabra correndo lá
fora. Aquela cabra pertence à Srta. Chue. Eles estavam transformando este anexo em uma fazenda. Eles têm
a liberdade de fazer isso. A cena era ao mesmo tempo ridícula e divertida. Maomao sentiu os cantos da boca
se erguerem e cerrou o punho, prometendo fazer mais pesticida amanhã. Ela ainda ficaria na capital ocidental
por um tempo. Se ela ia dizer a Jinshi para não se esforçar demais, então ela deveria seguir seu próprio
conselho. Mas ainda assim, ela faria tudo o que pudesse. Ela teve que fazer isso.
Epílogo
Chá aromático e petiscos assados com bastante manteiga. Um incenso moderadamente estimulante
que extraía as notas mais ricas do aroma doce. A Imperatriz Gyokuyou era a anfitriã, e seus convidados
vinham para se divertir. Ela já havia oferecido muitos chás durante seus dias no Palácio Interno, mas menos
desde que passara de consorte a Imperatriz. Estava confiante, no entanto, de que sua capacidade de mimar
um visitante não havia diminuído.
— Muito obrigada por nos convidar — disse uma das mulheres.
Eram esposas de algumas das pessoas mais importantes de Li. Todas eram mais velhas que
Gyokuyou, com uma exceção : sua sobrinha, Yaqin.
— E quem será? — perguntou um convidado de olhar penetrante ao avistá-la.
— Minha sobrinha — Gyokuyou respondeu com um sorriso.
— Ela se juntou a nós desde a capital ocidental.
Yaqin ainda não havia entrado no Palácio Interno, pois não apenas Gyokuyou, mas também
Gyokuen, se opuseram a ela. O pai de Gyokuyou e seu irmão queriam coisas diferentes: essa constatação a
deixou ainda menos hesitante em agir. Ela havia apresentado a garota não como a filha de Gyoku-ou, mas
como sua sobrinha. Ninguém reconheceria Gyoku-ou como o governador das longínquas terras ocidentais.
Ele era conhecido na capital como filho de Gyokuen, e pouco mais. De qualquer forma, Yaqin se parecia
mais com Gyokuyou do que com Gyoku-ou. Sem dúvida, as pessoas concluiriam que ela era sobrinha de
Gyokuyou por parte de mãe. Conversaram sobre os perfumes mais populares, veludo importado, as
maquiagens mais recentes — assuntos um tanto juvenis, considerando a faixa etária dos presentes. Em parte,
Gyokuyou deliberadamente trouxe esses assuntos à tona para que Yaqin, que ainda não estava acostumada a
esse tipo de evento, se sentisse confortável, mas também serviu para que ela evitasse discussões políticas. O
principal objetivo hoje não era fortalecer seus laços com essas mulheres. Na verdade, ela havia se esforçado
para convidar esposas abastadas que não demonstrassem muita ambição. Ao longo dos últimos meses, Yaqin
começou a se abrir para Gyokuyou. Como Gyokuyou suspeitava, ela era adotada, não filha de sangue de seu
meio-irmão. Ele deve ter decidido que a escolha de Gyokuyou como imperatriz pelo Imperador demonstrava
que o governante tinha uma queda por mulheres de aparência " exótica " . Gyokuyou só conseguia rir. O
Imperador não era um homem que escolheria sua imperatriz apenas pela aparência. Elas podem ter sido um
fator, é claro, mas não o suficiente para que ele se apaixonasse perdidamente. Gyokuyou podia ter a afeição
Imperial, mas ela não era o tipo de pessoa que poderia colocar um país de joelhos. Seu pai, Gyokuen,
compreendia bem Sua Majestade. Era por isso que não oferecera uma jovem Gyokuyou ao imperador
anterior. Ele esperara, usando o tempo até a troca de mãos no trono, para dar a Gyokuyou a educação
necessária para ser Imperatriz. Ele era um comerciante, Gyokuen. Escolheria o caminho do maior lucro. Não
se deixaria distrair pela avareza, porém — olharia dez, vinte, cinquenta anos para o futuro. Mesmo além da
própria morte. Buscaria mais do que a modesta glória de um clã, Gyokuyou sabia. Gyokuyou tinha fé que
Gyokuen a amava. Mas seu amor não era incondicional. Se ela se tornasse um obstáculo à sua busca por
lucro, ele a dispensaria. O que Gyokuyou podia fazer era elevar seu próprio valor, fazer com que pesasse
mais na balança de Gyokuen. Este chá era uma maneira de conseguir isso. A festa terminou em meio a uma
atmosfera agradável. As esposas demonstraram grande interesse nos curiosos produtos comerciais do oeste.
Gyokuyou teria que presenteá-los em breve. Ela ordenou que suas damas de companhia limpassem tudo e
voltou para o quarto, acompanhada por Yaqin.
— Você parece estar aprendendo a se comportar em uma festa do chá — Gyokuyou observou.
— Sim, senhora. Só graças à senhora.
— No começo, você não conseguiu dizer uma palavra!
Ela riu baixinho.
— Por favor, eu imploro, não me lembre disso.
Yaqin era adorável, é verdade, mas, no fim das contas, ainda era uma filha " improvisada " .
Conseguia soar aristocrática por alguns minutos de conversa rápida, mas se passasse muito mais tempo, seu
sotaque "I-sei" começava a aparecer. Gyokuyou provavelmente ainda teria o mesmo problema se Hongniang
não a tivesse corrigido sempre que seu sotaque se manifestava desde jovem. O sotaque tornava Yaqin pouco
adequada para chás da tarde. No fim, ela fora oferecida com um único propósito: conquistar o interesse
romântico da nobreza.
— Senhora Gyokuyou, posso lhe perguntar uma coisa? — disse Yaqin.
- Vá em frente.
— Como está a província de I-sei agora?
A jovem não conseguia esconder sua ansiedade.
— Por que pergunta? Algo aí te preocupa? — Gyokuyou perguntou sem rodeios.
Depois de um segundo Yaqin respondeu :
— Os insetos devem chegar logo. Estou com medo pela colheita.
Ela era uma jovem muito direta — bondosa de coração e aprendia rápido. Gyokuyou simpatizava
com ela. Fazia uns dez dias que Yaqin se abrira com Gyokuyou sobre seus pais biológicos — um assunto que
ela, sem dúvida, pretendia manter estritamente para si. Essa garota, tão parecida com Gyokuyou, tinha um
profundo respeito por Gyoku-ou. Em sua vida anterior, sua família fora nômade, mas quando seu pai
adoeceu, eles se estabeleceram em uma aldeia agrícola. É claro que isso não os tornou imediatamente
agricultores proficientes. Eles deixaram o gado pastar em um campo próximo e, aos poucos, aprenderam a
cultivar. Ela descreveu com evidente gratidão como o governador os sustentava financeiramente. O
governador — Gyoku-ou. Gyoku-ou não era mau aos olhos de Gyokuyou. Ele simplesmente acreditava que
estava sempre certo. Sempre justo. Era por isso que eles não se davam bem. Ela, favorecida por Gyokuen,
contrariava sua justiça. Disso ela tinha plena consciência. Ele era o filho mais velho da esposa oficial de
Gyokuen. Se ele menosprezava uma garota nascida depois de uma concubina, bem, isso dificilmente era
exclusivo da província de I-Sei. A maioria dos homens em Li teria feito o mesmo. Não, o que incomodava
Gyokuyou era como Gyoku-ou denegria sua aparência. Não seu rosto em si – não se tratava de ser bonita ou
feia. Em vez disso, ele menosprezava seus cabelos ruivos, seus olhos verdes. Ele era filho de um
comerciante, aquele que deveria ajudar a capital ocidental a florescer como um nexo de comércio no futuro.
Não era a melhor vocação para um xenófobo. A política de Gyokuen era, em geral, ser um bom vizinho para
estrangeiros. Gyokuyou não entendia como Gyoku-ou podia respeitar tanto seu pai enquanto virava as costas
para um de seus ensinamentos mais importantes. Este era o homem que Yaqin tanto admirava. Alguns anos
antes, ela fora forçada a se vender por causa de uma colheita ruim. Vender uma filha não era algo inédito –
mulheres eram apenas mais uma mercadoria em lares pobres. Ela começara a trabalhar como prostituta. Foi
dessa situação que Gyoku-ou tirou Yaqin, adotando-a como filha. Uma bela história, pensou Gyokuyou. Ela
optou por não revelar o que estava por trás; não contaria a verdade a Yaqin. Acreditava que fazia parte de sua
força não prejudicar a garota.
— Acho que podemos esperar notícias da capital ocidental em breve. Avisarei assim que souber de
alguma coisa — disse Gyokuyou.
Então, ela puxou um grampo de cabelo do cabelo de Yaqin. Sentindo a cabeça ficar mais leve, Yaqin
soltou um suspiro.
— Agora troque de roupa e vamos começar os estudos. Aprender é a coisa mais importante que você
pode fazer para ajudar meu honrado irmão.
— Sim, senhora.
Yaqin era obediente, uma boa menina. Ela respeitava Gyoku-ou e se preocupava até com a família
que a havia vendido. Mesmo que eles sem dúvida tivessem recebido prata mais do que suficiente de
Gyoku-ou para viver — para manter a boca fechada. Quando Yaqin saiu do quarto para se trocar, Haku-u
entrou segurando um pedaço de papel amassado.
Senhora Gyokuyou — ela disse.
Ela entregou o papel a Gyokuyou, que havia sido dobrado e torcido para poder ser transportado por
um pombo. Esta carta em particular parecia ter sido tratada com ainda mais brutalidade do que o habitual.
Gyokuyou olhou para o pássaro, perguntando-se se era o que o Príncipe da Lua normalmente usava, mas não.
Esta mensagem viera de alguém que não era o irmão mais novo de Sua Majestade.
- É isto … ?
— Sim, senhora.
Haku-u já a tinha lido, ao que parecia. A mensagem continha a informação de que a capital ocidental
– na verdade, toda a província de I-Sei – estava infestada por uma praga de insetos. A caligrafia desleixada
revelava a urgência com que fora escrita. Gyokuyou cerrou os dentes.
— Haku-u.
— Tenho uma mensagem preparada para ser enviada por terra e outra por mar. Resta-nos um pássaro
mensageiro, caso queira usá-lo. A capital ocidental, no entanto, ainda está em confusão, e duvido que ele
chegue em segurança.
Mesmo assim, seria muito mais rápido do que enviar mensagens por mãos humanas.
— O pássaro, por favor — disse Gyokuyou. Então, ela pegou um pedaço de papel particularmente
resistente. Nele, escreveu apenas uma frase: Como quiser. Então, ela enfiou a carta em um papel oleado,
prendeu-a na perna do pombo que Haku-u havia trazido e soltou o pássaro. A criatura branca parecia perfeita
contra o céu azul brilhante. O céu era tão azul ali na região central, na verdade, que era quase difícil imaginar
que, lá no oeste, estivesse sendo coberto por insetos, os bichos devastando a plantação e os suprimentos.
Aqueles que não conseguiam imaginar isso poderiam zombar de si mesmos: Que bando de chorões, esses
ocidentais.
— Ooh! Os insetos vão me pegar! Buuuuu!
Gyokuyou soltou um suspiro profundo. Por que ela havia entrado no Palácio Interno? Para quê? Por
que seu pai achou por bem mandá-la para cá, para a região central do país? Será que o pai de Gyokuyou
continuaria a amá-la por muito tempo?
- Tudo bem!
Gyokuyou quase se deu um tapa na bochecha para ganhar energia, mas Haku-u a impediu.
— Sua moleca interior está aparecendo, senhora. Não na cara, por favor.
— Sim, sim.
— E tente parecer sincero quando responder.
Haku-u, sua amiga de infância, lançou-lhe um olhar severo. Gyokuyou pegou uma nova folha de
papel e começou a escrever o que poderia fazer pela região oeste. Sua luta estava apenas começando.