A lógica da pesquisa científica – Karl Popper
# O problema da indução
Indução: previsão a partir
— Você viu o novo filme de Wim Wenders? de experiências anteriores
— Não, os filmes dele são muito lentos.
Comida com pimenta me dá dor de estômago. Indução na base da ciência:
Comida com coentro me dá dor de estômago. Observação → Indução → Hipóteses
…
Logo, comida muito temperada me dá dor Ferro conduz eletricidade.
de estômago. Ouro conduz eletricidade.
Cobre conduz eletricidade.
Logo, metais conduzem eletricidade.
O problema (na formulação de David Hume)
Anteontem o Sol nasceu.
Ontem o Sol nasceu.
...
Logo, amanhã o Sol nascerá.
O que garante a verdade do raciocínio indutivo?
Resposta: o pressuposto da uniformidade da natureza → acreditamos
que o futuro vai ser semelhante ao passado.
NO ENTANTO: o justificativa a crença nesse pressuposto?
1) “Todo triângulo possui 3 lados” → Lógica
2) “Há um gato sobre a mesa” → Observação
3) “Gatos são animais carnívoros” → Raciocínio Indutivo
Resposta
1. não é uma verdade lógica (logicamente, é concebível que a natureza mude)
2. não é uma verdade observável (apenas supomos que a natureza não vá mudar, mas
não podemos observar o futuro)
Portanto, só pode ser um raciocínio indutivo.
OU SEJA, a crença que justifica os raciocínios Circularidade: desde logo
indutivos apoia-se, ela mesma, em um supõe-se que é verdade aquilo
raciocínio indutivo. que se quer justificar como
verdadeiro.
Ex.: Réu invoca a si mesmo
como testemunha de que fala a
verdade.
A solução de Popper
“Será que a alegação de que uma teoria universal é verdadeira pode ser justificada com base na
verdade de algumas afirmações observacionais?”
“Será que a alegação de que uma teoria universal é falsa pode ser justificada com base na falsidade
de algumas afirmações observacionais?”
Sim! Basta considerar que a ciência não se baseia em raciocínios indutivos.
# Problemas, não fatos
→ Observação sempre supõe alguma interpretação teórica. Ao contrário do que se supõe,
o cientista não observa os fatos brutos e sai fazendo generalizações indutivas.
→ Parte de problemas, de interpretações, da tradição.
# A lógica da pesquisa: “o método hipotético-dedutivo”
Problemas → Hipóteses → Dedução consequências → Teste empírico
A teoria é contradita (ajuste/falsificação)
Das duas, uma
A teoria é corroborada (novas deduções e testes)
Exemplos
✗ experimento de Redi e a teoria da abiogênese
✔ teoria da relatividade e observação da curvatura da luz no eclipse
“Uma teoria pode, assim, ser identificada como errônea, caso haja um erro lógico em suas
deduções, ou como incorreta, se um fato não estiver de acordo com as suas consequências. Porém
a verdade de uma teoria nunca pode ser provada. Pois nunca se sabe se, mesmo no futuro, não se
encontrará uma experiência que contradiga as suas consequências; e, ainda, sempre se pode
conceber outros sistemas de pensamento capazes de conectar os mesmos fatos dados” (EINSTEIN,
A. Indução e dedução na física, 1919).
# A demarcação: ciência e pseudociência
Tradicionalmente, critério de demarcação → método
*Enunciados verificáveis = ciência
*Enunciados especulativos = pseudociência
NO ENTANTO, ciência contém alta abstração especulativa; por outro lado, atividades não-
científicas, alto conteúdo empírico (interpretação dos sonhos, previsões astrológicas, feiticeiro:
“amanhã chove ou não chove”.)
Sendo assim, critério: falseabilidade (potencial)
Teoria científica → Procura testar/falsificar
Pseudociência → Procura confirmar (irrefutável)
! Falseabilidade = propriedade das teorias científicas usado para demarcar suas fronteiras
com a não-ciência, não para aduzir sua validade.
"Essa é uma concepção de ciência que considera a abordagem crítica sua característica mais
importante. Para avaliar uma teoria o cientista deve indagar se pode ser criticada, se se expõe a
críticas de todos os tipos e, em caso afirmativo, se resiste a essas críticas" (Popper, 1982, p. 284).
# Controvérsias
→ Freud/Marx
“Um marxista não era capaz de olhar para um jornal sem encontrar em todas as páginas, desde os
artigos de fundo até os anúncios,provas que consistiam em verificações da luta de classes; e
encontrá-las-ia sempre também (e em especial) naquilo que o jornal não dizia. E um psicanalista,
fosse ele freudiano ou adleriano, diria sem dúvida que todos os dias, ou até de hora em hora,
estava a ver as suas teorias verificadas por observações clínicas" (Popper, Realismo e objetivo da
ciência, 1987a, p. 180).