Diversidade alimentar da Coruja-Buraqueira (Athenecunicularia) em
ambiente antropomorfizado no município de Maracaí/SP
Food diversity of the Burrowing Owl (Athenecunilaria) in an antropomorphized environment in Maracaí/SP
Luciano Negrão Menezes1, Patrícia Roswitha Ludwig1
1
Curso de Ciências Biológicas da Universidade Paulista, Assis-SP, Brasil.
Resumo
Objetivo – Descrever a dieta de A. cunicularia em ambiente urbano, dentro do município de Maracaí, no Oeste Paulista, identificando
frequência de consumo de alguns grupos de invertebrados e de vertebrados. Métodos – Os dados foram obtidos através de coletas de
egagrópilas (pelotas regurgitadas de material não-digerido), ao redor dos ninhos em uma região que consiste de pastagem em um bairro
da cidade com grande quantidade de terrenos vazios. As coletas foram feitas durante os meses abril, maio e junho em 11 ninhos.
Resultados – Das 75 amostras coletadas revelaram a maior frequência de invertebrados, que foram representados pelas Ordens Coleop-
tera, Orthoptera e Polydesmida sendo que em relação aos vertebrados a frequência foi menor, representado por mamíferos e aves.
Conclusão – O estudo de dieta de A. cunicularia é importante para a aquisição e complementação de dados sobre a distribuição de muitas
espécies e também para sua preservação e um maior conhecimento de seu habitat. Apesar da dieta ser especialmente de invertebrados do
que de vertebrados, a coruja-buraqueira possui uma alimentação bastante diversificada, assim é considerada uma ave generalista.
Descritores: Ecologia, Athenecunicularia; Coruja buraqueira; Alimentação animal
Abstract
Objective – To describe A. cunicularia’s eating habits in an urban environment in the city of Maracaí, in the west region of the state of
São Paulo, besides identifying the consumption frequency of some groups of invertebrates andvertebrates. Methods – The data have
been obtained through collections of egagropilias (regurgitated balls of undigested material) around the nest, in a region which consists
of grasslands, and in a neighborhood with a large number of empty plots. The collections were made in 11 nests in April, May and June.
Results – The 75 samples collected during the research revealed a higher frequency of invertebrates (represented by the insect orders of
Coleoptera, Orthoptera and Polydesmida) in comparison to vertebrates (represented by mammals and birds), whose frequency was lower.
Conclusion – The study of A. cunicularia’s eating habits is important not only for the acquisition and complementation of data on the
distribution of many species but also for its preservation and a better understanding of its habitat. Although these owls feed mainly on
invertebrates, the Burrowing owl’s eating habits is quite diversified, which makes it a generalist bird.
Descriptors: Ecology, Athenecunicularia; Burrowing owl; Animal feeding
Introdução Como a maioria das aves de rapina elas produzem
Popularmente conhecida como coruja-buraqueira, egagrópilas, que correspondem as regurgitações do
Athene cunicularia é uma das corujas mais comuns do conteúdo estomacal não digerido, com carapaças de
Brasil. É uma ave americana, que vive do Canadá à insetos, pelos, penas, escamas e ossos. As corujas não
Terra do Fogo1. Destaca-se pela proximidade com o têm papo e a formação de pelotas é uma necessidade
homem e pela adaptação ao meio urbano e rural an- vital para estas aves1. Desta forma, isto nos permite
tropomorfizado. Habitam campos, restingas, pastagens fazer estudos sobre o seu hábito alimentar sem a ne-
e áreas urbanas, sendo comum nas cidades sobre mu- cessidade de sacrificá-las para estudos dos animais in-
ros, cercas e fios. Possuem hábitos terrícolas, encontra- geridos4. Em geral, no final de cada dia e/ou durante a
das em frente ao ninho ou pousadas em postes e montes noite as corujas normalmente regurgitam de uma a
de terra próximos do seu abrigo2. Possui cabeça bem duas pelotas, representando a noite/madrugada anterior
redonda sem tufos, cauda curta e pernas longas. É uma de caça, mas essa quantidade pode ser maior, depen-
espécie de hábitos diurnos e crepusculares, comporta- dendo da coruja (espécies pequenas insetívoras) e da
mento diferente da maioria das corujas1,3. maior oferta de presas4.
Seus ninhos são feitos em buracos no solo, ocupando O presente trabalho teve como objetivo caracterizar
tocas abandonadas por outros animais. Podem ampliar a dieta de A. Cunicularia em ambiente urbano, na peri-
buracos construídos por tatus usando os pés e forrar o feria de Maracaí/SP. Identificando a frequência de con-
chão do ninho com restos de material regurgitado, fo- sumo de diversos grupos invertebrados e vertebrados.
lhas secas, ou esterco seco para acomodar os ovos4.
É um animal predador como todas outras corujas.
Métodos
Elas se alimentam tanto de invertebrados quanto de
vertebrados4, com muita habilidade na captura de pre- a) Localização geográfica do estudo: A área dada en-
sas como insetos, crustáceos5, pequenos roedores6,7, la- contra-se no município de Maracaí, Oeste do Estado
gartos7, anfíbios5,8, e outras aves9. Devido a isto, é con- de São Paulo, no Brasil (22º61’03”S, 50º66’98”W). A
siderada como predadora generalista3,8,10-11. paisagem é levemente inclinada, de baixa altitude
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(380m) em uma região coberta por gramíneas, podendo Para a identificação dos roedores levou-se em conta a
chegar até 50 centímetros de altura em períodos chu- visualização da mandíbula e para as aves identificou-
vosos, com aproximadamente um hectare de área. Nos se a quilha (modificação do osso esterno, que facilita o
arredores contém uma pequena área de cultivo agrícola voo) e o úmero14. Os dados foram analisados em fre-
de plantas anuais (soja e milho). quência de ocorrência (presença-ausência na pelota)
b) Classificação climática da região: Segundo a clas- dos itens em função do número total de ocorrências13.
sificação climática de Köppen-Geiger a região estudada f) Análise estatística: Utilizou-se estatística descritiva,
possui clima tropical chuvoso (Am), com inverno seco por análise de frequência de ocorrência15.
e temperatura que ultrapassa os 18º (no mês mais frio).
A pluviosidade média de 1434 mm, com máxima men- Resultados
sal de 211 mm em janeiro e mínima de 42 mm em Das 75 amostras de pelotas analisadas, verificou-se
agosto12. que a coruja-buraqueira apresentou um maior consumo
c) Delineamento experimental: Em cada ninho havia de invertebrados, conforme mostra a Tabela 1. Os itens
um casal. A quantidade de pelotas coletadas em cada mais representativos em termos de frequência de ocor-
ninho esta representada na tabela abaixo: rência foram da Ordem Coleoptera (96%), Orthoptera
(93,3%), a Classe Diplopoda da Ordem Polydesmida
Tabela 1. Delineamento experimental: quantidade de ega-
grópilas coletadas em cada ninho de Athenecuni-
(13,3%) e artrópodes não identificados (6,6%). Dentre
cularia em Maracaí-SP os coleópteros destacaram-se as famílias Scarabaeidae,
Carabidae e Curculionidae.
Identificação dos ninhos Quantidade de egagrópilas
Os vertebrados foram menos frequentes, representa-
Ninho 1 7 dos por mamíferos (33,3%), aves (2,6%) e havia frag-
Ninho 2 10 mentos ósseos sem a possibilidade de identificação que
Ninho 3 11
foram chamados de vertebrados não identificados
Ninho 4 6
(6,6%). A frequência de fragmentos vegetais foi de 56%,
Ninho 5 2
Ninho 6 5
que consistia em restos de folhas e sementes íntegras.
Ninho 7 12 Fragmentos de rochas teve frequência de apenas 1,3%.
Ninho 8 5
Ninho 9 7 Tabela 2. Frequência de material encontrado nas ergagópilas
Ninho 10 6 de A. cunicularia em Maracaí, em 2010
Ninho 11 4 Material encontrado Frequência
ARTRÓPODES 100%
d) Procedimento de coleta: As pelotas de Athenecu- Coleópteros 96,0%
nicularia foram coletadas ao redor dos ninhos, no má- Ortópteros 93,3%
ximo dois metros de distância deles, com frequência Diplópodes 13,3%
semanal. As coletas foram feitas durante os meses Artrópodes não identificados 6,6%
março, abril e maio em 11 ninhos, totalizando 75 amos- VERTEBRADOS 42,6%
tras. Para a coleta das pelotas, obteve-se autorização Mamíferos 33,3%
do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente – IBAMA, na Aves 2,6%
forma da licença de Coleta/transporte de amostras bio- Vertebrados não identificados 6,6%
lógicas in situ n.º 25174. Cada pelota foi armazenada VEGETAL 56,0%
MINERAL 1,3%
individualmente em frascos de vidro ou plásticos com
álcool 70%, etiquetados com data, local da coleta e
identificação do ninho. Discussão
e) Preparação e análise do material: No laboratório Verificou-se alta frequência de artrópodes na dieta
de microscopia da Universidade Paulista, Campus Assis, da coruja-buraqueira corroborando estudos de outros
o material foi lavado, coado e desmembrados com au- autores em ambientes antrópicos2,7,10,14,16. A coruja-bu-
xílio de pinça e agulha histológica2,13. Com o coador e raqueira apresenta hábito alimentar com maior repre-
água corrente separou-se os restos não digeridos das sentatividade de invertebrados, em especial inse-
presas dos detritos. Cada amostra permaneceu em estufa tos3,5,8,10,16-17. Motta-Junior e Alho3 (1998) relataram que
a 30ºC por um período de aproximadamente uma hora a dieta desta ave é constituída de 93,5% invertebrados
e analisadas com o auxílio de um microscópio este- e 6,5% vertebrados, considerando-a generalista pela
reoscópico (8x). grande variedade do consumo de presas. Portanto, para
Utilizou-se para a comparação dos pedaços de élitros o local deste estudo pode-se classificar a A. Cunicularia
(asas anteriores, modificadas e endurecidas, de alguns como uma predadora insetívora. No entanto, a frequên-
insetos), patas, mandíbulas a coleção de invertebrados cia de ocorrência de vertebrados foi de 46,6%, podendo
da própria Universidade e restos de presas encontradas por muitos, ser considerada pequena. Apesar da grande
nos respectivos locais de estudo. Englobando inverte- quantidade insetos, Motta-Júnior et al.4 (2011), compa-
brados e vertebrados de pequeno porte, servindo de raram a biomassa das principais presas: “São necessá-
base para a identificação dos fragmentos das pelotas. rios 40 grilos ou 667 cupins para equivaler a biomassa
Menezes LN, Ludwig PR. 348 J Health Sci Inst. 2013;31(4):347-50
de um rato silvestre”. O presente estudo, não se propôs Vieira e Teixeira8 (2008) apenas indicam presença de
mensurar a biomassa, entretanto, diante do exposto, aranhas. Normalmente estes animais estão relacionados
faz-se necessário mais estudo comparando a biomassa com o verão e como nossa coleta foi no outono/inverno,
consumida. Martins e Egler10 considerou esta coruja justifica-se a ausência. Os crustáceos são encontrados
como um predador generalista de artrópodes e verte- apenas, quando há uma grande massa de água, como
brados, podendo se alimentar por qualquer espécie em Mar Chiquita, um lago salgado da Argentina5 e em
destes grupos dependendo a disponibilidade que venha praias de Linhares, no Espírito Santo8, que não foi o
a ter em seu habitat. caso da área de estudo. Quanto aos anfíbios anuros,
Os animais mais frequentes no presente estudo foram estão relacionados à primavera e ao verão, como rela-
besouros, encontrados em quase todas as amostras. As tado por Sánchez et al.5 (2008) e Vieira e Teixeira8
famílias de Coleópteros mais abundantes foram Scara- (2008) ou pouco frequentes como no trabalho de Tei-
beidae, Carabidae e Curculionidae. Os escaravelhos xeira e Melo14 (2000). Por causa desta sazonalidade
foram mais abundantes nos trabalhos de Sánches et al.5 justifica-se a ausência deste grupo e sugerem-se futuros
(2008), Vieira e Teixeira8 (2008), Zílio15 (2006) e Mene- trabalhos com coletas na época das chuvas para a re-
zes e Meira16 (2012). Os carabídeos foram importantes gião estudada.
nos trabalhos de Sánchez et al.5 (2008) e Teixeira e Outros animais não encontrados no presente trabalho
Melo14, 2000 e os curculionídeos foram encontrados tinham frequência baixa em outros artigos como: he-
em Sánchez et al.5 (2008) e Zílio17 (2006). Observou-se mípteros5, himenópteros5,8,17, lepidópteros5,8, odonatas5,
durante a coleta o acúmulo de estrume ao redor do ni- homópteros10, lagartos8,10 e serpentes8.
nho que segundo Sick1 (2001) este hábito serve para Em muitas amostras (56%), foram encontradas se-
atrair besouros. Martinelli7 (2011) identificou alta fre- mentes e fragmentos vegetais. Sick1 (2001) propôs que
quência do besouro Onthophagus gazellee propôs que estas sementes eram oriundas dos insetos predados. De
isto é devido à prevalência deles nos pastos onde há fato, encontraram-se no interior de alguns besouros as
abundância de fezes de gado. A área estudada também mesmas sementes encontradas nas pelotas das corujas.
era de pasto e também encontramos no material anali- Fragmentos minerais foram encontrados também em
sado, grande quantidade de besouros escarabeídeos outros trabalhos2, sem nenhuma explicação da presença
que se alimentam de fezes. destes fragmentos de rochas.
Os ortópteros representaram o segundo grupo mais
frequente. A presença de postes de luz, nesta região Conclusão
pode ter atraídos estes insetos facilitando a captura
pelas corujas. Mais uma vez, ressalta-se o oportunismo De acordo com os resultados deste estudo, Athenecu-
desta espécie. Na restinga da Joaquina/SC, Soares et nicularia é um predador de amplo espectro, alimentando-
al.18 (1992) descreveu que os ortópteros foram os mais se tanto vertebrados, quanto invertebrados. Verificou-se
prevalecentes. Bastian et al.2 (2008), Vieira e Teixeira8 uma grande quantidade e diversidade de coleópteros,
(2008), Teixeira e Melo14 (2000) e Zílio17 (2006) também ortópteros, diplópodes, aves e mamíferos, justificando a
relataram a importância deste grupo para alimentação sua classificação como predador generalista, corrobo-
da A. Cunicularia. rando trabalhos anteriores. Vieira e Teixeira8 indicaram
Apesar de existir uma frequência considerável de di- que esta coruja muda a estratégia de caça de acordo
plópodes, isto é raro nos trabalhos analisados. Neces- com o recurso mais abundante. A adaptação desta coruja
sitam-se mais trabalhos que pontuem a relação destes a diferentes tipos de presa pode ser a chave para o sucesso
diplópodes e a coruja buraqueira, porque o cianeto de desta espécie em áreas alteradas, o que pode ser confir-
hidrogênio produzido por esses animais é repelente mado mediante os resultados deste estudo.
para a maioria dos predadores. A abundância de invertebrados em sua alimentação
Quanto aos vertebrados, os mais frequentes foram os pode ser justificada pela área de estudo, apresentar
mamíferos (33,3%). Como a análise foi por frequência clima quente e úmido, propiciando uma maior abun-
e não por biomassa, não foi possível avaliar a real im- dância de insetos que são capturados mais facilmente
portância destes animais, na área estudada. A literatura do que os vertebrados.
apresenta ampla variação de resultados quanto a sazo- Estas corujas aproveitam a disponibilidade alimentar
nalidade de predação de roedores pela coruja bura- provocada pela alteração humana do ambiente. Comem
queira, desde roedores mais frequentes na época chu- besouros que se alimentam de fezes nos pastos, gafa-
vosa8,19, na época seca1 e até dados que mostraram nhotos e esperanças que se aproveitam das monoculturas
roedores frequentes durante o ano todo2. Como, esta e roedores que se alimentam de restos de alimentos. As-
ave vive em uma área muito ampla (praticamente em sim, elas ajudam a evitar explosões populacionais desses
toda América), as estações do ano são bastante dife- animais, que trariam consequências indesejáveis, tanto
rentes de um estudo para outro. em áreas naturais como em ambientes modificados.
Andrade et al.18 na Patagônia relatam a presença de
aracnídeos na dieta apenas no verão. Sánches et al.5 Referências
(2008) relatam proporção menor de aranhas, Zílio17 1. Sick H. Ornitologia brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira;
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Endereço para correspondência:
Luciano Negrão Menezes
Curso de Ciências Biológicas
Universidade Paulista
Rua Myrtes Spera Conceição – Conj. Nelson Marcondes
Assis-SP, CEP 19813-550
Brasil
E-mail: inmenezes@[Link]
Recebido em 17 de fevereiro de 2012
Aceito em 7 de agosto de 2013
Menezes LN, Ludwig PR. 350 J Health Sci Inst. 2013;31(4):347-50