Os terapeutas cognitivo-comportamentais
geralmente categorizam o comportamento
em três modos possíveis: motor, cognitivo-
-verbal e fisiológico. Os comportamentos
motores são o que a maioria das pessoas
entende como comportamento, incluindo
atos e movimentos abertos e encobertos
do sistema ósseo-muscular. O comporta-
mento cognitivo-verbal envolve atividades
como pensamento, solução de problemas,
percepção, imaginação, fala, escrita e a
comunicação gestual, bem como o com-
portamento de observação ([Link]., prestar
atenção, orientação, lembranças e revi-
são). Os comportamentos fisiológicos são
atividades do sistema nervoso central,
glândulas e músculos lisos. Embora cos-
tumem ser encobertos ([Link]., batimentos
cardíacos), os comportamentos fisiológi-
cos também podem ser abertos ([Link]., ru-
borizar e chorar).
Existem diversas coisas dignas de nota
aqui. Primeiramente, dividir comporta-
mentos em categorias ou modos é algo
intrinsecamente arbitrário e é feito por
conveniência do observador. O funcio-
namento humano é contínuo, e qualquer
resposta envolve o sistema humano como
um todo. Mesmo subsistemas comporta-
mentais parcialmente independentes com
Essa simplificação excessiva leva
inevitavelmente a objetivos irrealistas, à
incapacidade de usar recompensa ao invés
de punição para pequenos passos rumo a
objetivos finais e ódio dirigido a si mesmos
quando não conseguem alcançar esses ob-
jetivos. A reação de vergonha – uma respos-
ta característica a emoções incontroláveis e
negativas entre os indivíduos borderline –
é resultado natural de um ambiente social
que “envergonha” aqueles que expressam
vulnerabilidade emocional.
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A desregulação emocional, por sua vez, se deve
à grande vulnerabilidade emocional, além
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da incapacidade de regular as emoções.
Quanto mais vulnerável emocionalmen-
te for o indivíduo, maior a necessidade de
modulação emocional. A tese aqui é que os
indivíduos borderline são emocionalmente
vulneráveis, além de deficientes em habili-
dades de modulação emocional, e que essas
dificuldades têm suas raízes em predispo-
sições biológicas, que são exacerbadas por
experiências ambientais específicas.
Em comparação, uso “afeto”
aqui em um sentido muito mais global, e
sugiro que os indivíduos borderline têm
dificuldades de regulação em vários (se-
não todos) sistemas de resposta emocional.
Embora seja provável que a desregulação
emocional seja mais acentuada em emo-
ções negativas, os indivíduos borderline
também parecem ter dificuldade para re-
gular as emoções positivas e suas sequelas.
Vulnerabilidade emocional
As características de vulnerabilidade emo-
cional envolvem a sensibilidade elevada a
estímulos emocionais, intensidade emocio-
nal e um lento retorno ao nível emocional
basal. “Sensibilidade elevada” significa
que o indivíduo reage rapidamente e tem
um baixo limiar para uma reação emocio-
nal; ou seja, não necessita de muito para
provocar uma reação emocional. Aconte-
cimentos que poderiam não incomodar
muitas pessoas provavelmente poderão
incomodar uma pessoa emocionalmente
vulnerável. A criança sensível reage emo-
cionalmente mesmo à menor frustração
ou desaprovação. No nível adulto, o fato
de o terapeuta sair da cidade no fim de
semana pode evocar uma resposta emo-
cional da paciente borderline, mas não
da maioria dos outros pacientes. As im-
plicações para a psicoterapia são óbvias,
creio eu. O sentimento, observado segui-
damente por terapeutas e familiares de in-
divíduos borderline, de ter que “pisar em
ovos” é resultado dessa sensibilidade.
A “intensidade emocional” significa
que as reações emocionais são extremas.
Os indivíduos emocionalmente intensos
são as pessoas dramáticas do mundo. No
lado negativo, despedidas podem precipi-
tar luto intenso e doloroso; o que poderia
causar um leve embaraço para outras pes-
soas pode causar uma profunda humilha-
ção; irritação pode se transformar em rai-
va; vergonha pode vir de uma leve culpa;
a apreensão pode crescer para um ataque
de pânico ou terror incapacitante. No lado
positivo, os indivíduos emocionalmente
intensos podem ser idealistas e provavel-
mente se apaixonam de imediato. Eles con-
seguem sentir alegria com muita facilidade
e, assim, também podem ser susceptíveis a
experiências espirituais.
Quanto mais
forte a excitação e maior a intensidade,
mais restrita se torna a atenção. Do ponto
de vista clínico, esses fenômenos parecem
excepcionalmente característicos dos indi-
víduos borderline. Todavia, uma questão
importante a ter em mente é que essas
tendências não são patológicas em si, mas
são características de qualquer indivíduo
durante uma excitação emocional extre-
ma. A relativa ausência de teorias e pes-
quisas analisando as emoções como ante-
cedentes das cognições, comparada com
a grande quantidade sobre as cognições
como precursores da emoção, pode ser
consequência de nossa visão ocidental do
comportamento individual como produto
da mente racional.
“O lento retorno ao nível emocional
basal” significa que as reações são dura-
douras. Entretanto, é importante men-
cionar aqui que todas as emoções são re-
lativamente breves, duram de segundos a
minutos. O que faz uma emoção parecer
duradoura é que a excitação emocional, ou
do humor, tende a ter um efeito global so-
bre diversos processos cognitivos, que, por
sua vez, estão relacionados com a ativação
e a reativação de estados emocionais
revisaram um grande núme-
ro de estudos que indicam que os estados
emocionais (1) influenciam seletivamente
a recordação de material com carga afeti-
va, resultando em mais memória quando o estado emocional de recordar corresponde
ao estado na aprendizagem; (2) promovem
a aprendizagem de material congruente
com o humor; e (3) podem influenciar as
interpretações, fantasias, projeções, asso-
ciações livres, previsões pessoais e juízos
sociais, de um modo congruente com o hu-
mor atual. As emoções também podem ser
mais autoperpetuadoras entre os indiví-
duos borderline, devido à maior intensida-
de de suas respostas emocionais, conforme
sugerido anteriormente. Com a excitação
emocional elevada, o ambiente (incluin-
do o comportamento do terapeuta) pode
receber atenção seletiva, de modo que os
atos e acontecimentos que condizem com
o humor primário atual recebem atenção e
outros aspectos são negligenciados.
O efeito do humor nos processos cog-
nitivos faz sentido em vista da teoria de
que as emoções são respostas do sistema
total. Uma emoção atual integra todo o
sistema a seu favor. Em alguns aspectos, é
bastante surpreendente que uma determi-
nada emoção chegue a passar, pois as emo-
ções, uma vez iniciadas, são realimentadas
repetidamente. Um retorno lento ao nível
emocional basal exacerba esse efeito reati-
vador, e também contribui para a elevada
sensibilidade ao próximo estímulo emocio-
nal. Essa característica pode ser bastante
importante para o tratamento. Não é in-
comum um paciente borderline dizer que
precisa de vários dias para se recuperar de
uma sessão de psicoterapia.
__
Modulação emocional
A pesquisa sobre o comportamento emo-
cional sugere que a regulação das emoções
exige duas estratégias um tanto parado-
xais. O indivíduo deve primeiro aprender
a experimentar e rotular emoções discre-
tas conectadas aos sistemas neurofisioló-
gicos, comportamental-expressivo e sen-
sorial-sentimental. Depois, deve aprender
a reduzir estímulos emocionalmente relevantes que servem para reativar e po-
tencializar as emoções negativas ou para
evitar respostas emocionais disfuncionais
secundárias. Uma vez que uma emoção
intensa é ativada, o indivíduo deve ser ca-
paz de inibir ou interferir na ativação de
pós-imagens, pós-pensamentos, pós-ava-
liações, pós-expectativas e pós-ações, por
assim dizer, que sejam congruentes com o
humor.
A inibição
ou interrupção constantes das emoções ne-
gativas parecem ter diversas consequências
disfuncionais. Primeiramente, a inibição
pode levar à negligência da situação pro-
blemática que instiga a emoção. Um indi-
víduo que nunca sente raiva ante uma in-
justiça é menos provável de se lembrar de
situações injustas e, se nunca sentir medo,
pode não evitar as situações que sejam ver-
dadeiramente perigosas. Ele não desculpa
os outros e os relacionamentos não repara-
dos, porque sempre evita a culpa e a vergo-
nha antes que afetem seu comportamento
dentro do relacionamento.
Em segundo lugar, a inibição ou inter-
rupção de emoções negativas serve para au-
mentar a evitação emocional. Se o indivíduo
aprendeu uma reação emocional secundária
às emoções negativas, a inibição da emoção
original acaba com qualquer chance de re-
aprendizado. O paradigma é semelhante ao
paradigma da fuga-aprendizado. Animais
ensinados a escapar de uma sala levando
choques nos pés sempre que entravam na
sala irão parar; se o aparelho de choque for
desligado, os animais jamais aprendem as
novas contingências. Eles devem entrar na
sala para que ocorra novo aprendizado. A
família invalidante (que descrevo a seguir)
é semelhante ao aparelho de choque no
paradigma da fuga-aprendizado. Os indi-
víduos borderline aprendem a evitar pistas
emocionais negativas e desenvolvem fobia
a emoções negativas. Entretanto, sem ex-perimentar as emoções negativas, os indi-
víduos não aprendem que podem tolerar
essas emoções e que não haverá punição
após sua expressão.
Em terceiro lugar, simplesmente não
sabemos os resultados da inibição e inter-
rupção das emoções a longo prazo. Existe
uma necessidade desesperada de pesquisas
sobre essa questão. Existem evidências de
que a experiência e catarse emocionais le-
vam a menos estados emocionais negativos
e estressantes. Também existem evidências
de que a catarse emocional aumenta a emo-
tividade, no lugar de reduzi-la
(1) inibir o comportamento inadequa-
do relacionado com o afeto negativo ou
positivo forte, (2) autorregular a excitação
fisiológica associada ao afeto, (3) refocar
a atenção na presença de afeto forte, e (4)
organizar-se para ação coordenada a ser-
viço de um objetivo externo e que não de-
penda do humor.
O princípio de mudar ou modular as
experiências emocionais mudando ou re-
sistindo ao comportamento relacionado
com as emoções é um dos princípios im-
portantes subjacentes às técnicas de expo-
sição da terapia comportamental. Além de
promover diretamente a emotividade, o
comportamento inadequado dependente
do humor geralmente traz consequências
que evocam outras emoções indesejadas. A
ação coordenada a serviço de um objeti-
vo externo serve para manter o progresso
na vida. Assim, esse comportamento tem o
potencial de promover as emoções positi-
vas, diminuir o estresse e, assim, reduzir a
vulnerabilidade à emotividade. Além disso,
essa ação é o oposto do comportamento
dependente do humor e, assim, é um exem-
plo de uma ação que muda os sentimentos.
Discuto esses princípios em maior detalhe
no Capítulo 11.
Mudar as emoções mudando a exci-
tação fisiológica é o princípio por trás de
diversas estratégias terapêuticas de mu-
dança emocional, como as terapias de re-
laxamento (incluindo a dessensibilização),
alguns medicamentos e o treinamento de
respiração no tratamento do pânico. A
capacidade de modificar a excitação fisio-
lógica associada ao afeto significa que o
indivíduo é capaz não apenas de reduzir o
elevado nível de excitação associado a cer-
tas emoções, como a raiva e o medo (i.e.,
acalmar-se), mas aumentar a baixa excita-
ção associada a outras emoções, como tris-
teza e depressão (i.e., “acelerar”, por assim
dizer). Geralmente, isso exige a capacida-
de de forçar a atividade, mesmo quando a
pessoa não está com vontade. Por exem-
plo, uma das técnicas básicas na terapia
cognitiva da depressão é o agendamento
de [Link] a atenção
para um estímulo positivo pode aumentar
ou manter a excitação e emoção positivas;
desviá-la de um estímulo negativo pode
atenuar ou conter a excitação e emoção
negativas. Desse modo, os indivíduos com
controle do foco e de mudança da atenção
– dois processos relacionados, mas dis-
tintostêm uma vantagem na regulação
das respostas emocionais. As diferenças
individuais no controle da atenção são
evidentes desde os primeiros anos de vida
Ela conclui que, pelo me-
nos quando deprimidas, as mulheres têm
uma resposta mais ruminativa do que os
homens. A ruminação sobre o atual humor
deprimido, por sua vez, gera explicações
depressivas, que aumentam ainda mais a
depressão e levam a maior impotência em
atividades futuras (Diener e Dweck, 1978).
Em comparação, os homens são mais pro-
váveis de apresentar comportamentos de
distração, que reduzem o humor deprimi-
do. Parece razoável pensar que a incapaci-
dade de se distrair de estímulos negativos
e emocionalmente sensíveis seja uma parte
importante da desregulação emocional ob-
servada em indivíduos [Link] biológicos
Os mecanismos da desregulação emocional
no TPB não são claros, mas as dificuldades
na reatividade do sistema límbico e con-
trole da atenção podem ter importância. O
sistema de regulação emocional é comple-
xo, e não existe uma razão a priori para se
esperar que a disfunção seja resultado de
um fator comum em todos os indivíduos
borderline. As causas biológicas podem
variar de influências genéticas a aconteci-
mentos intrauterinos negativos e efeitos do
ambiente da infância sobre o desenvolvi-
mento do cérebro e do sistema nervoso
De maneira interessante,
Cornelius e colaboradores não publicaram
dados indicando o início precoce de pa-
drões de comportamento do tipo border-
line em pacientes borderline. Por exemplo,
os ataques temperamentais na infância e o
comportamento de balançar e bater com a
cabeça eram mais frequentes em crianças
que foram diagnosticadas posteriormente
com TPB do que entre aquelas diagnostica-
das como depressivas ou esquizofrênicas.
Outra estratégia de pesquisa visando
localizar as influências biológicas sobre o
comportamento é comparar diversas dis-
funções comportamentais em familiares da
população de interesse. Estudos de paren-
tes em primeiro grau de pacientes border-
line mostram taxas de prevalência maiores
de transtornos afetivosde traços da personalidade intima-
mente relacionados, como características
histriônicas e antissociaisNo entanto, fatores além dos genes
podem ser igualmente importantes para
determinar o funcionamento neurofisioló-
gico, especialmente no sistema de regula-
ção emocional. Sabemos, por exemplo, que
as características do ambiente intrauterino
podem ser cruciais no desenvolvimento do
feto. Além disso, essas características in-
fluenciam os padrões de comportamento
do indivíduo. Alguns exemplos ilustrarão
meu argumento. A síndrome fetal alcóo-
lica, caracterizada por retardo mental e
hiperatividade, impulsividade, distratibi-
lidade, irritabilidade, desenvolvimento re-
tardado e transtornos do sono, é causada
pela ingestão excessiva de álcool pela mãeDisfunções semelhan-
tes são observadas regularmente em bebês
de mães drogaditas (Howard, 1989). Exis-
tem várias experiências de que o estresse
ambiental sofrido pela mãe durante a ges-
tação pode ter efeitos deletérios sobre o de-
senvolvimento posterior da criança
O transtorno da personalidade
borderline e os ambientes
invalidantes
O quadro temperamental do adulto bor-
derline é bastante parecido com o da
“criança difícil” descrita por Thomas e
Chess (1985). A partir de seus estudos so-
bre as características temperamentais de
bebês, identificaram as crianças difíceis
como o “grupo com irregularidade nas
funções biológicas, respostas negativas de
retração a novos estímulos, falta de adap-
tabilidade ou adaptação lenta a mudanças
e expressões intensas de humores frequen-
temente negativos” (p. 219). Em suas pes-
quisas, esse grupo abrangeu aproxima-
damente 10% da sua amostra. De forma
clara, porém, nem todas as crianças com
temperamento difícil preencheram critérios
do TPB ao crescerem. Embora a maioria
(70%) das crianças difíceis estudadas por
Chess e Thomas (1986) tivesse transtor-
nos de comportamento durante a infância,
a maioria dessas crianças melhorou ou se
recuperou até a adolescência. Além disso,
conforme observam Chess e Thomas, as
crianças que, originalmente, não tinham
temperamento difícil, podem adquiri-lo à
medida que se desenvolvem.
Thomas e Chess sugerem que o “bom
encaixe” ou “mau encaixe” da criança com
o ambiente é crucial para se entender o
funcionamento comportamental posterior.
Um bom encaixe ocorre quando as pro-
priedades do ambiente da criança e suas
expectativas e demandas condizem com
as capacidades, características e estilo de
comportamento do indivíduo. Ele resul-
ta em desenvolvimento e funcionamento
comportamental ideais. Em contrapartida,
o mau encaixe ocorre quando existem dis-
crepâncias e dissonâncias entre as oportu-
nidades ambientais e as demandas, capaci-
dades e características da criança. Nesses
casos, o resultado é um desenvolvimento
distorcido e funcionamento desadaptativo
(Thomas e Chess, 1977; Chess e Thomas,
1986). É essa noção de “mau encaixe”
que considero crucial para se entender o
desenvolvimento do TPB. Mas que tipo
de ambiente constituiria um “mau encai-
xe”, levando a esse transtorno específico?
As interpretações do in-
divíduo sobre seu próprio comportamen-
to, incluindo a experiência de intenções e
motivações associadas ao comportamento,
são rejeitadas.
A invalidação tem duas características
principais. Primeiramente, ela diz ao indi-
víduo que ele está errado em sua descrição
e em suas análises das suas próprias expe-
riências, particularmente em suas visões
sobre o que está causando suas emoções,
crenças e ações. Em segundo lugar, atribui
suas experiências a características ou tra-
ços da personalidade que são socialmente
inaceitáveis. O ambiente pode insistir que
a pessoa sente aquilo que diz não sentir
(“você está com raiva, apenas não admi-
te”), gosta ou prefere o que diz não gostar
ou preferir (o proverbial “quando ela diz
não, ela quer dizer sim”) ou fez algo que
diz não ter feito. As expressões emocionais
negativas podem ser atribuídas a traços
como a hiper-reatividade, hipersensibili-
dade, paranoia, uma visão distorcida dos
acontecimentos ou a incapacidade de ado-
tar uma atitude positiva. Comportamentos
que causam consequências negativas ou
dolorosas involuntárias para outras pes-
soas podem ser atribuídos a motivos hostis
ou manipuladores. O fracasso, ou qualquer
desvio do sucesso socialmente definido, é
rotulado como resultado de falta de moti-
vação, falta de disciplina, de não tentar o
suficiente, ou coisas do gênero. As expres-
sões emocionais, crenças e planos de ação
positivos também podem ser invalidados,
sendo atribuídos a falta de discriminação,
ingenuidade, idealização exagerada ou
imaturidade.
De qualquer modo, as expe-
riências e expressões emocionais privadas
do indivíduo não são consideradas respos-
tas válidas para os acontecimentos.
De um modo geral, os ambientes emo-
cionalmente invalidantes são intolerantes
a demonstrações de afeto negativo, pelo
menos quando tais demonstrações não
são acompanhadas por situações públi-
cas que sustentem a emoção. A postura
comunicada é semelhante a “controle-se”,
é a crença de que qualquer indivíduo que
tente o suficiente conseguirá. O domínio
e realização individuais são altamente
valorizados, pelo menos com relação ao
controle da expressividade emocional e ao
limite das demandas sobre o ambiente. Os
membros invalidantes desses ambientes
costumam ser vigorosos para promulgar
seu ponto de vista e transmitem ativamen-
te sua frustração com a incapacidade do
indivíduo de aderir a uma ponto de vista
semelhante. Atribui-se um grande valor
a ser feliz, ou pelo menos a sorrir ante a
adversidade; a acreditar na própria capa-
cidade de alcançar qualquer objetivo, ou
pelo menos de nunca “ceder” à desespe-
rança; e, acima de tudo, ao poder de uma
“atitude mental positiva” para superar
qualquer problema. Os fracassos em cor-
responder a essas expectativas levam a
desaprovação, crítica e tentativas por par-
te das outras pessoas de causar ou forçar
uma mudança de atitude. As demandas
que a pessoa pode impor a esses ambien-
tes geralmente são bastante limitadas.
Esse padrão é muito semelhante ao
padrão de “expressão emocional” eleva-
da, observado em famílias de indivíduos
depressivos e esquizofrênicos com altos
índices de recaída (Leff e Vaugh, 1985).
O trabalho com a expressão emocional
sugere que essa constelação familiar pode
ser extremamente poderosa com indiví-
duos vulneráveis. A “expressão emocio-
nal”, nessa literatura, refere-se a críticas
e envolvimento excessivo. A noção aqui
envolve dois aspectos, mas, além disso,
enfatiza a falta de reconhecimento do es-
tado real do indivíduo. A consequência é
que os comportamentos das pessoas no
meio do indivíduo, incluindo seus cuida-
dores, não apenas invalidam as suas expe-
riências, como também não respondem às
suas necessidades.
Alguns exemplos clínicos podem dar
uma ideia melhor do que quero dizer aqui.
Durante uma sessão familiar com uma mu-
lher borderline que tinha histórico de al-
coolismo e tentativas sérias e frequentes de
suicídio, seu filho comentou que não enten-
dia por que ela não conseguia “tirar seus
problemas das suas costas”, como ele, seu
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irmão e seu pai tinham feito. Um número
substancial de pacientes em meu projeto de
pesquisa foi ativamente dissuadido de fa-
zer psicoterapia por seus pais. Uma pacien-
te de 18 anos, que havia sido hospitalizada
várias vezes, tinha um histórico de diversas
tentativas de se autoagredir, era hiperativa
e disléxica, e estava profundamente envol-
vida na cultura das drogas, ouvia de seus
pais, semanalmente depois das sessões de
terapia de grupo, que não precisava da te-
rapia e que poderia melhorar sozinha, se
realmente quisesse. “Falar dos problemas
apenas faz eles piorarem”, dizia o seu pai.
Outra paciente ouvia, enquanto crescia,
que, se chorasse quando se machucasse ao
brincar, sua mãe lhe daria uma razão “ver-
dadeira” para chorar: se as lágrimas conti-
nuassem, sua mãe lhe bateria.
Consequências de ambientes
invalidantes
As consequências dos ambientes invalidan-
tes são as seguintes. Primeiramente, por
não validar a expressão emocional, o am-
biente invalidante não ensina a criança a
rotular suas experiências privadas, incluin-
do as emoções, de um modo normativo em
sua comunidade social mais ampla para as
mesmas experiências ou experiências seme-
lhantes. Além disso, a criança não aprende
a modular a excitação emocional. Como
os problemas da criança emocionalmente
vulnerável não são reconhecidos, existe
pouco esforço para resolvê-los. Fala-se que
a criança deve controlar suas emoções, ao
invés de ensiná-la exatamente como fazer
isso. Um pouco como dizer a uma crian-
ça sem pernas para caminhar sem fornecer
pernas artificiais para ela usar. A falta de
aceitação e a simplificação excessiva dos
problemas originais impedem o tipo de
atenção, apoio e treinamento diligente que
esse indivíduo necessita. Assim, a criança
não aprende a rotular ou controlar ade-
quadamente reações emocionais.
Em segundo lugar, simplificando a fa-
cilidade de resolver os problemas da vida,
o ambiente não ensina a criança a tolerar
a tensão ou a formar objetivos e expectati-
vas realistas.
Em terceiro lugar, dentro de um am-
biente invalidante, normalmente são neces-
sárias demonstrações emocionais extremas
e/ou problemas extremos para provocar
uma resposta ambiental proveitosa. Assim,
as contingências sociais favorecem o de-
senvolvimento de reações emocionais ex-
tremas. Punindo de forma errática a comu-
nicação de emoções negativas e reforçando
de maneira intermitente as demonstrações
de emoções extremas ou elevadas, o am-
biente ensina a criança a oscilar entre a ini-
bição emocional por um lado, e os estados
emocionais extremos pelo outro.
Finalmente, esse ambiente não ensina
à criança quando deve confiar em suas
respostas emocionais e cognitivas, como
reflexos de interpretações válidas de acon-
tecimentos individuais ou situacionais. Ao
invés disso, o ambiente invalidante ensina
a criança a invalidar ativamente as suas
próprias experiências e vasculhar seu am-
biente social em busca de sinais de como
deve pensar, sentir e agir. A capacidade da
pessoa de confiar em si mesma, pelo menos
minimamente, é crucial. Pelo menos, ela
deve confiar em sua decisão de não con-
fiar em si mesma. Assim, a invalidação é
experimentada normalmente como algo
aversivo. As pessoas que são invalidadas
geralmente deixam o ambiente invalidan-
te, tentam mudar seu comportamento para
que satisfaça as expectativas do meio, ou
tentam se mostrar válidas para, assim,
reduzir a invalidação do meio. O dilema
borderline surge quando o indivíduo não
consegue sair do ambiente e não consegue
mudar o ambiente ou o seu próprio com-
portamento para satisfazer as demandas
do ambiente.
Talvez pareça que esse ambiente pos-
sa produzir um adulto com transtorno
da personalidade dependente ao invés de
TPB. Creio que isso seria provável com
uma criança que fosse menos vulnerável
emocionalmente.
Porém, com uma criança
emocionalmente intensa, as informações
invalidantes que chegam do ambiente qua-
se sempre competem com uma mensagem
igualmente forte das respostas emocionais
da criança: “você pode estar me dizendo
que o que fez foi um ato de amor, mas
meus sentimentos feridos, meu medo e
minha raiva me dizem que não era amor.
Você pode estar me dizendo que eu consi-
go, e que não é difícil, mas meu pânico me
diz que eu não consigo, e que é”.
O indivíduo invalidado e emocional-
mente vulnerável está em um dilema se-
melhante ao do indivíduo obeso em nossa
sociedade. A cultura (incluindo anúncios
diários sobre redução de peso na televisão
e no rádio) e familiares magros repetida-
mente dizem à pessoa obesa que perder
peso é fácil, e que, para se manter magro,
é preciso apenas um pouco de força de
vontade. Um peso corporal acima do ideal
cultural é visto como a marca da pessoa
gulosa, preguiçosa ou indisciplinada. Mi-
lhares de dietas, fome intensa enquanto em
dieta, esforços hercúleos para emagrecer e
permanecer magro e um corpo que recupe-
ra o peso a cada caloria dizem o contrário.
Como a pessoa obesa pode responder a
essa mensagem dúbia? Geralmente, alter-
nando entre a dieta e uma disciplina ex-
trema por um lado, e relaxando e recusan-
do-se a fazer dieta por outro. A síndrome
do ioiô entre as pessoas que fazem dieta
é semelhante à oscilação emocional entre
os indivíduos borderline. Nenhuma fonte
de informações pode ser ignorada confor-
[Link] sexual. A forma mais extrema
de sexismo, é claro, é o abuso sexual. O
risco de abuso sexual é aproximadamen-
te duas ou três vezes maior para mulheres
do que para homens (Finkelhor, 1979). A
prevalência do abuso sexual na infância
nos históricos de mulheres que preenchem
os critérios do TPB é tal que simplesmen-
te não pode ser ignorada como um fator
importante na etiologia do transtorno.
Das doze pacientes borderline hospitali-
zadas avaliadas por Stone (1981), nove,
ou 75%, relataram histórico de incesto.
Casos de abuso sexual na infância foram
relatados por 86% das pacientes borderli-
ne internadas, comparadas com 34% das
outras pacientes psiquiátricas internadas,
em um estudo de Bryer, Nelson, Miller e
Krol (1987). Entre as pacientes borderli-
ne ambulatoriais, de 67 a 76% relataram
abuso sexual na infância (Herman, Perry
e van der Kolk, 1989; Wagner, Linehan e
Wasson, 1989), em comparação com uma
taxa de 26% de pacientes não borderline
(Herman et al., 1989). Ogata, Silk, Goo-
drich, Lohr e Westen (1989) observaram
que 71% das pacientes borderline tinham
histórico de abuso sexual, em compara-
ção com 22% das pacientes controle com
transtorno depressivo maior.
Embora, nos dados epidemiológicos,
as meninas não apresentem risco maior
de abuso físico do que os meninos, um es-
O abuso não apenas
pode ser patológico para indivíduos com
temperamentos vulneráveis, como pode
“criar” vulnerabilidade emocional, promo-
vendo mudanças no sistema nervoso cen-
tral. Shearer, Peters, Quaytman e Ogden
(1990) sugerem que o trauma perpétuo
pode alterar a fisiologia do sistema límbi-
co. Assim, o estresse grave e crônico pode
ter efeitos adversos permanentes sobre a
excitação, sensibilidade emocional e ou-
tros fatores do temperamento.
O abuso sexual, na forma como ocorre
em nossa cultura, talvez seja um dos exem-
plos mais claros de invalidação extrema
durante a infância. No caso típico do abuso
sexual, o agressor diz para a vítima que o
abuso ou a relação sexual é “normal”, mas
que ela não deve contar a ninguém. O abu-
so raramente é reconhecido por outros fa-
miliares e, se a criança relatar o fato, corre
o risco de que não acreditem nela ou a cul-
pem (Tsai e Wagner, 1978). É difícil imagi-
nar uma experiência mais invalidante para
uma criança. De forma semelhante, o abu-
so físico costuma ser apresentado à criança
como um ato de amor ou é normalizado
pelo adulto abusivo. Alguns terapeutas su-
gerem que talvez o segredo do abuso sexual
seja o fator mais relacionado com o TPB
subsequente.
Devido à prevalência da importância
dos vínculos interpessoais e do apoio so-
cial (de fato, são cruciais), dimensões para
mulheres bem-adaptadas, pode-se fazer
a seguinte pergunta: o que acontece com
mulheres que não recebem o apoio social
de que necessitam ou são ensinadas que
a própria necessidade de apoio social já
não é saudável? Tais situações parecem
existir. Quase sem exceção, a independên-
cia interpessoal para homens e mulheres é
louvada como o ideal do comportamen-
to “saudável”. Características femininas
como a dependência interpessoal e preci-
sar dos outros – que, conforme comenta-
do, estão relacionadas positivamente com
a saúde mental das mulheres – costumam
ser percebidas como mentalmente “doen-
tias” (Widiger e Settle, 1987). Valorizamos
tanto a independência que aparentemente
não podemos conceber a possibilidade de
que uma pessoa possa ter independência
demais. Por exemplo, embora haja um
“transtorno da personalidade dependente”
no DSM-IV, não existe um “transtorno da
personalidade independente”.
Essa ênfase na independência indivi-
dual como o comportamento normativo
é peculiar, ou global, à cultura ocidental
(Miller, 1984; ver Sampson, 1977, para
uma revisão dessa literatura). De fato,
pode-se concluir que o comportamento fe-
minino normativo, pelo menos a parte que
tem a ver com as relações interpessoais, está
em conflito com os atuais valores culturais
ocidentais. Não admira que muitas mulhe-
res experimentem conflitos por questões
de independência e dependência. De fato,
parece que existe uma “falta de encaixe”
entre o estilo interpessoal das mulheres e
valores de socialização e culturais ociden-
tais para o comportamento adulto. Entre-
tanto, é interessante que a patologia seja
jogada aos pés das mulheres conflituosas,
e não de uma sociedade que parece estar
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se afastando cada vez mais de valorizar a
continuidade e a dependência interpessoal.
Feminilidade e preconceito. O sexismo
pode ser um problema especialmente para
aquelas crianças do sexo feminino cujos
talentos geralmente são aqueles que são re-
compensados em homens, mas ignorados
ou invalidados em mulheres. Por exemplo,
a habilidade mecânica, vitórias nos espor-
tes, interesse em matemática e ciências, e
o pensamento lógico e voltado para a ta-
refa são mais valorizados em homens do
que em mulheres. Qualquer sentimento de
orgulho ou realização pode ser facilmente
invalidado em mulheres com tais caracte-
rísticas. Uma situação ainda pior ocorre
quando esses talentos valorizados em ho-
mens não são compensados por talentos e
interesses valorizados em mulheres ([Link].,
interesse em parecer bonita, habilidades
domésticas). Nessa situação, a criança do
sexo feminino não é gratificada pelos ta-
lentos que tem e, além disso, é punida por
demonstrar “comportamentos antifemi-
ninos” ou por não demonstrar compor-
tamentos “femininos”. Quando os com-
portamentos das crianças estão ligados a
características temperamentais, ela está
em maus lençóis. Por exemplo, a gentile-
za, suavidade, afetividade, sensibilidade às
pessoas, empatia, leveza e características
semelhantes são características “femini-
nas” extremamente valorizadas (Widiger
e Settle, 1987; Flaherty e Richman, 1989);
porém, não são as características associa-
das a temperamentos difíceis.
Para a garota que é punida por ter ca-
racterísticas que interfiram no ideal cultural
da mulher, a vida deve ser particularmente
difícil quando ela tem irmãos que não são
punidos por comportamentos idênticos, ou
irmãs que cumprem os padrões de feminili-
dade sem fazer esforço. Não há como igno-
rar a injustiça nessas situações. O ambiente
fora de casa pouco ajuda nesses casos para
amenizar o problema, pois os mesmos valores existem em toda a cultura. É difícil
imaginar como essa criança poderia cres-
cer sem acreditar que deve haver algo de
errado com ela.
Em minha experiência clínica, esse es-
tado de coisas parece ser comum entre os
pacientes borderline. Ficamos surpresos em
nossa clínica com o número de pacientes
que têm talentos em áreas muito valorizadas
para homens, mas pouco para as mulheres,
como atividades mecânicas e intelectuais.
Nossa terapia de grupo borderline é forma-
da apenas por mulheres, e um tema de dis-
cussão frequente é a dificuldade que as pa-
cientes tinham quando crianças porque seus
interesses e talentos pareciam mais mascu-
linos do que femininos. Outra experiência
comum parece ter sido crescer em famílias
que valorizavam mais meninos do que me-
ninas, ou que pelo menos davam a eles mais
liberdade, mais privilégios e menos punição
por comportamentos que levam meninas à
desgraça. Embora o sexismo seja um fato
claro, sua relação com o TPB, conforme
descrevo aqui, também é claramente espe-
culativa. Simplesmente, precisamos de mais
dados de pesquisa no momento.
Tipos de famílias invalidantes
Meus colegas e eu observamos três tipos de
famílias invalidantes entre as pacientes em
nossa clínica: a família “caótica”, a família
“perfeita” e, de forma menos comum, a fa-
mília “típica”.
Famílias caóticas. Na família caótica,
pode haver problemas com abuso de subs-
tâncias, problemas financeiros ou pais que
passam a maior parte do tempo fora de
casa. De qualquer modo, as crianças rece-
bem pouco do seu tempo ou atenção. Por
exemplo, os pais de uma de minhas pacien-
tes passavam quase todas as tardes e noites
em um bar local. As crianças chegavam da
escola todos os dias e encontravam a casa
vazia, onde deviam se virar em relação ao
jantar e à estrutura da noite. Muitas vezes
iam até a casa da avó para jantar. Quando
os pais estavam em casa, eram voláteis; o
pai normalmente estava bêbado; e tolera-
vam pouco as demandas das crianças. As
necessidades das crianças nessa família
eram desconsideradas e, consequentemen-
te, invalidadas. Millon (1987a) sugere que
o maior número de famílias caóticas pode
ser responsável pelo aumento do TPB.
Famílias perfeitas. Na família “per-
feita”, os pais, por uma razão ou outra,
não conseguem tolerar as demonstrações
emocionais negativas de seus filhos. Essa
postura pode ser resultado de diversos fa-
tores, incluindo outras demandas sobre os
pais (como um número grande de filhos ou
trabalhos estressantes), a incapacidade de
tolerar afeto negativo, autocentrismo ou
medos ingênuos de mimar a criança com
temperamento difícil. Em minha experiên-
cia, quando os membros dessa família são
questionados diretamente sobre seus sen-
timentos para com o familiar borderline,
eles expressam muita simpatia. No entan-
to, sem querer, essas pessoas muitas vezes
demonstram posturas invalidantes – por
exemplo, expressar surpresa de que o in-
divíduo borderline simplesmente não con-
segue “controlar seus sentimentos”. Um
membro de uma dessas famílias sugeriu
que os problemas seríssimos da sua filha
passariam se ela apenas rezasse mais
Famílias típicas. Quando observei o es-
tilo ambiental invalidante pela primeira vez,
chamei-o de “síndrome americana”, pois é
muito prevalente na cultura norte-america-
na. Entretanto, quando fiz uma palestra na
Alemanha, meus colegas alemães me infor-
maram de que eu poderia ter chamado de
“síndrome alemã”. É mais provável que ela
seja produto da cultura ocidental em geral.
Vários teóricos da emoção comentaram a
tendência, nas sociedades ocidentais, de en-
fatizar o controle cognitivo das emoções e
de se concentrar na realização e no domí-
nio como critérios de sucesso. O self indi-
viduado na cultura ocidental é definido por
limites nítidos entre o self e o outro. Em
culturas com essa visão, acredita-se que o
comportamento das pessoas maduras seja
controlado por forças internas, ao invés de
externas. O “autocontrole”, nesse contex-
to, refere-se à capacidade das pessoas de
controlar o seu comportamento utilizando
elementos e recursos internos. Definir-se
como diferente – por exemplo, definir o
self em relação ao outro, ou ser dependen-
te – é rotulado como imaturo e patológico,
ou pelo menos antagônico à boa saúde e
um funcionamento social tranquilo (Perlo-
ff, 1987). (Embora essa concepção do self
individual permeie a própria cultura oci-
dental, ela não é universal nem no sentido
transcultural e nem dentro da própria cul-
tura ocidental.)
Deve-se ter em mente uma questão
fundamental sobre a família invalidante.
Dentro de certos limites, um estilo cogniti-
vo invalidante não é prejudicial para todas
as pessoas ou em todos os contextos. As es-
tratégias de controle emocional usadas por
essa família podem até ser proveitosas para
uma pessoa que tenha temperamento ade-
quado a elas e que possa aprender a contro-
lar suas atitudes e emoções. Por exemplo,
pesquisas de Miller e colaboradores (Efran,
Chorney, Ascher e Lukens, 1981; Lamping,
Molinaro e Stevenson, 1985; Miller, 1979;
Miller e Managan, 1983; Phipps e Zinn,
1986) indicam que os indivíduos que ten-
dem a “ocultar” psicologicamente os sinais
de ameaça quando enfrentam a perspectiva
de situações adversas incontroláveis apre-
sentam excitação fisiológica, subjetiva e
comportamental menor e menos duradoura
do que indivíduos que tendem a monitorar
ou prestar atenção nesses sinais. Knussen
e Cunningham (1988) revisaram pesqui-
sas que indicam que a crença no próprio
controle comportamental sobre resultados
negativos, ao invés de culpar os outros (a
crença básica na família invalidante), está
relacionada com resultados futuros mais
Ou seja, dizer a pessoas que são capazes
de se autorregularem para que controlem
suas emoções é muito diferente de dizer
isso para um indivíduo que não tenha essa
capacidade. Por exemplo, uma mãe com
quem eu estava trabalhando tinha uma fi-
lha de 14 anos com temperamento “difícil”
e uma filha de 5 anos com temperamen-
to “fácil”. A filha maior tinha dificuldade
com a raiva, especialmente quando sua
irmã pequena fazia troça dela. Eu vinha
tentando ensinar a mãe a validar as reações
emocionais da filha. Depois que a menina
de 5 anos jogou o complexo quebra-cabeça
da de 14 no chão, esta gritou com a irmã
e saiu correndo da sala, deixando a peque-
na aos prantos. A mãe disse alegremente
que havia “validado” as emoções da filha,
dizendo: “Mary, posso entender por que
você ficou brava. Mas no futuro, você deve
controlar suas explosões!”. Era difícil para
a mãe enxergar que estava invalidando
as dificuldades da filha em controlar suas
emoções. Nos casos de pessoas emocional-
mente reativas e vulneráveis, os ambientes
invalidantes simplificam excessivamente
os problemas dessas pessoas. Coisas que
outras pessoas têm facilidade para fazer –
controlar as emoções e a expressão emo-
cional – o indivíduo borderline consegue
fazer apenas esporadicamente.