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Liga das Nações e os 14 Pontos de Wilson

O documento explora a história das relações internacionais, focando na criação da Liga das Nações após a Primeira Guerra Mundial e seus objetivos de promover a paz e a cooperação entre nações. Destaca a influência dos 14 pontos de Wilson na formação da Liga e os desafios enfrentados, como a falta de adesão de potências globais e a ineficácia na resolução de conflitos. Além disso, analisa o impacto da Crise de 1929 na ascensão de regimes autoritários na Alemanha e na Itália, e as políticas implementadas por Hitler e Mussolini para estabilizar suas economias.

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Liga das Nações e os 14 Pontos de Wilson

O documento explora a história das relações internacionais, focando na criação da Liga das Nações após a Primeira Guerra Mundial e seus objetivos de promover a paz e a cooperação entre nações. Destaca a influência dos 14 pontos de Wilson na formação da Liga e os desafios enfrentados, como a falta de adesão de potências globais e a ineficácia na resolução de conflitos. Além disso, analisa o impacto da Crise de 1929 na ascensão de regimes autoritários na Alemanha e na Itália, e as políticas implementadas por Hitler e Mussolini para estabilizar suas economias.

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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

DAS RELAÇÕES
INTERNACIONAIS
AULA 4

Prof. Guilherme Frizzera Loyola


CONVERSA INICIAL

Nesta etapa, vamos examinar como a história mundial foi marcada por
momentos decisivos e transformadores, como a criação da Liga das Nações até
os primeiros passos da Guerra Fria.
Começaremos nosso estudo revisando o surgimento da Liga das Nações
após a Primeira Guerra Mundial, examinando seu papel na busca pela paz e na
prevenção de futuros conflitos internacionais. Aqui, a compreensão do
significado dos 14 pontos de Wilson será fundamental para analisar as ações
internacionais subsequentes.
Em seguida, os turbulentos anos da década de 1930, quando a Crise de
1929 abalou as bases da economia global e abriu caminho para o surgimento de
regimes autoritários na Alemanha, liderados por Hitler, e na Itália, liderados por
Mussolini.
Continuaremos nossa análise discutindo os eventos que levaram à
eclosão da Segunda Guerra Mundial, incluindo o expansionismo agressivo de
regimes totalitários, como o nazismo e o fascismo. A seguir, veremos alguns dos
principais eventos da guerra, seja no campo de batalha, na diplomacia e os
desafios encontrados domesticamente, que levaram a um período de divisão
política nos Estados Unidos, superado apenas quando ocorreu o ataque dos
japoneses à base naval de Pearl Harbor.
Abordaremos as conferências dos Aliados que moldaram o mundo pós-
guerra, desde Casablanca até Potsdam, e examinaremos como esses encontros
influenciaram os rumos da guerra, a divisão geopolítica do mundo e as tensões
que surgiram no período pós-guerra.

TEMA 1 – A CRIAÇÃO DA LIGA DAS NAÇÕES

1.1 Os 14 pontos de Wilson: o mundo como deveria ser

Os 14 pontos de Woodrow Wilson foram uma declaração histórica


apresentada pelo presidente dos Estados Unidos em janeiro de 1918, durante
os estágios finais da Primeira Guerra Mundial. Wilson elaborou esses pontos
como uma proposta para promover a paz mundial e estabelecer as bases para
uma ordem internacional justa e estável após o conflito. Para compreender o

2
significado e o impacto dos 14 pontos, faz-se necessário examinar os eventos
que os inspiraram e as circunstâncias em que foram apresentados.
Wilson foi motivado por uma série de fatores que o levaram a desenvolver
sua visão para o pós-guerra. Primeiramente, ele testemunhou os horrores e a
devastação sem precedentes da Primeira Guerra Mundial, que resultou em
milhões de mortes e deixou a Europa em ruínas. Em segundo lugar, Wilson
acreditava que a guerra não deveria ser apenas uma disputa entre nações, mas
sim uma luta por princípios e ideais mais elevados, como a autodeterminação e
a justiça internacional. Ele aspirava a um mundo onde as nações pudessem
resolver seus conflitos de maneira pacífica e cooperativa, em vez de recorrer à
violência e à guerra. Para muitos, Wilson representa o idealismo das Relações
Internacionais.
Os 14 pontos de Wilson são (Sarfati, 2005, p. 83):

1. Abolição das alianças secretas: Wilson propôs que os países


abandonassem as práticas de fazer acordos secretos e se
comprometessem a buscar a transparência e a diplomacia aberta.
2. Liberdade de navegação nos mares: ele defendeu o direito de todas as
nações de transitar livremente pelos oceanos, sem restrições injustas
impostas por potências navais.
3. Remoção de barreiras comerciais: Wilson propôs a redução de tarifas
e outras barreiras comerciais para promover o comércio internacional e a
prosperidade econômica.
4. Redução dos armamentos militares: ele defendeu a redução dos
armamentos militares em todas as nações como um meio de evitar futuros
conflitos.
5. Ajustes coloniais justos: Wilson propôs que as reivindicações coloniais
fossem ajustadas de forma justa, levando em consideração os interesses
das populações locais.
6-13. Autodeterminação dos povos: esses pontos enfatizavam o direito
das populações étnicas e nacionais a determinarem sua própria forma de
governo, sem interferência externa.
14. Criação da Liga das Nações: o ponto-final e o mais importante foi a
proposta de estabelecer uma organização internacional dedicada à
resolução pacífica de conflitos e à manutenção da segurança coletiva. A

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Liga das Nações seria uma assembleia de nações que trabalhariam juntas
para evitar conflitos armados através da diplomacia e da arbitragem.

O impacto dos 14 pontos de Wilson nas relações internacionais foi


significativo. Eles influenciaram as negociações de paz que se seguiram ao fim
da Primeira Guerra Mundial e foram incorporados no Tratado de Versalhes, que
encerrou oficialmente o conflito. Embora nem todos os pontos tenham sido
totalmente adotados, a ênfase de Wilson na autodeterminação e na justiça
internacional ajudou a moldar o mapa político da Europa pós-guerra.
Os 14 pontos de Wilson estabeleceram um precedente importante para a
diplomacia multilateral e para a cooperação internacional. Sua proposta de uma
Liga das Nações, embora não tenha sido implementada exatamente como ele
imaginava, pavimentou o caminho para a criação de organizações internacionais
posteriores, como as Nações Unidas, que buscavam promover a paz e a
segurança global (Lohbauer, 2005).
A criação da Liga das Nações foi particularmente significativa porque
representava uma tentativa concreta de institucionalizar a cooperação
internacional e prevenir futuras guerras. A Liga das Nações foi concebida como
uma espécie de "parlamento mundial", onde as nações poderiam discutir suas
diferenças de maneira civilizada e resolver disputas sem recorrer à guerra.
Em última análise, os 14 pontos de Wilson representaram uma visão
idealista para o futuro das relações internacionais, embora também tenham
enfrentado críticas e desafios. Para Sarfati (2005, p. 83), a Liga das Nações
representava a materialização da visão de mundo idealista, pois “pregara que a
paz poderia ser alcançada por meio de um fórum comunitário que reunisse as
nações em torno da convivência baseada no respeito às normas e regras do
direito internacional”. No entanto, seu impacto perdurou muito além da Primeira
Guerra Mundial, influenciando os debates sobre política externa e diplomacia ao
longo do século XX e além.

4
1.2 A Liga nas Nações: o mundo como ele é

A criação da Liga das Nações após a Primeira Guerra Mundial


representou um esforço significativo para estabelecer uma ordem internacional.
No rescaldo do conflito, os líderes mundiais buscaram maneiras de prevenir
futuros conflitos e promover a cooperação entre as nações.
Os objetivos primordiais de se criar a Liga das Nações eram múltiplos.
Primeiramente, buscava-se evitar o ressurgimento de conflitos armados como os
que devastaram a Europa durante a Primeira Guerra Mundial. A ideia era que,
através do diálogo e da diplomacia baseada no respeito às regras, normas e
procedimentos, as nações poderiam resolver suas diferenças de maneira
pacífica, em vez de recorrer à guerra. Além disso, a Liga das Nações visava
promover a cooperação internacional em áreas como comércio, saúde, direitos
humanos e desenvolvimento econômico.
Cabe aqui explorar, brevemente, que a característica multilateral da Liga
das Nações proporcionou a países de fora do eixo EUA-Europa a oportunidade
de exercer um papel mais ativo nos corredores diplomáticos da organização.
Este é o caso do Brasil, por exemplo.
O Brasil desempenhou um papel importante no processo de criação da
Liga das Nações. Embora não tenha sido um dos principais protagonistas das
negociações de paz que culminaram no Tratado de Versalhes e na criação da
Liga, o Brasil teve uma participação ativa nas discussões sobre a estrutura e o
funcionamento da nova organização. Como uma das nações emergentes do
mundo na época, o Brasil viu na Liga das Nações uma oportunidade de aumentar
sua influência e participar da construção de uma ordem internacional mais
equitativa (Cervo; Bueno, 2015).
Uma das contribuições mais significativas do Brasil para a Liga das
Nações foi a defesa dos princípios de igualdade soberana entre todas as nações,
independentemente de seu tamanho ou poder. O Brasil era um defensor do
princípio da igualdade soberana e da não interferência nos assuntos internos de
outras nações, o que refletia sua própria experiência como uma nação que
emergia de séculos de dominação colonial.
O Brasil desempenhou um papel ativo em várias comissões e órgãos da
Liga das Nações, incluindo a Comissão de Arbitragem e Conciliação e o
Conselho da Liga. O Brasil contribuiu para a mediação de disputas

5
internacionais, participou de esforços de desarmamento e colaborou em
questões relacionadas ao comércio internacional e ao desenvolvimento
econômico.
No entanto, apesar das nobres intenções por trás da criação da Liga das
Nações, a organização enfrentou uma série de desafios que minaram sua
eficácia e credibilidade. Um dos principais problemas foi a falta de adesão das
principais potências globais, os Estados Unidos da América e a União Soviética
(que entrou na Liga apenas em 1934 e se retirou em 1939).
Embora o presidente Woodrow Wilson tenha sido um dos principais
defensores da Liga das Nações, o Congresso dos EUA rejeitou a ideia de
adesão, temendo comprometer a soberania nacional. Acrescenta-se, ainda, a
ausência dos países perdedores da Primeira Guerra Mundial na organização no
momento da sua criação, além da hostil reparação imposta pelos países
vencedores.

Figura 1 – O presidente dos EUA Woodrow Wilson

Crédito: Wirestock Creators/Shutterstock.

Não obstante, a estrutura de tomada de decisões da Liga das Nações


revelou-se problemática. Decisões importantes exigiam a aprovação por
unanimidade dos membros, o que muitas vezes levava a impasses e inações.
Além disso, a Liga já possuía em seu desenho institucional a existência de um
Conselho permanente para tomada de decisões.
Esse Conselho tinha como membros permanentes – na sua proposta, não
na sua efetivação – os EUA, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão) e os membros

6
associados não permanentes (Bélgica, Brasil, Espanha e Grécia). Como os EUA
não ingressaram na organização, o Brasil reivindicou um assento permanente
no Conselho da Liga, representando todos os países americanos. Com a
negação do assento ao Brasil, o país se retirou da Liga das Nações em 1926
(Cervo; Bueno, 2015).
Essa questão da existência de um assento permanente no Conselho da
Liga das Nações foi um dos motivos de seu fim. Em 1926, tentou-se a
reabilitação da Alemanha, colocando-a não apenas dentro do concerto global da
organização, mas igualmente como um país de assento permanente no
Conselho.
Essa tentativa de reabilitação levou a uma disputa envolvendo países
Aliados e associados a algumas das potências originais com assento
permanente (a Polônia, aliada da França; o Brasil, aliado dos EUA), o que levou
à ausência de interesse de alguns países em fomentar a organização ou mesmo
a sua retirada, como no caso do Brasil. A Alemanha se retirou da organização
em 1933, com a chegada dos nazistas ao poder.
Por fim, havia uma carência de uma força militar própria para impor suas
decisões, o que a tornava dependente da vontade das grandes potências em
aplicar suas resoluções. Essa crítica de uma ausência de uma força coercitiva
da organização foi feita especialmente pela França, mas que sofria restrições e
falta de apoio dos britânicos e dos norte-americanos (Sarfati, 2005).
Esses problemas, juntamente com outros desafios políticos e
econômicos, minaram a eficácia da Liga das Nações. Embora tenha sido
substituída pelas Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial, a Liga das
Nações deixou um legado importante como uma das primeiras tentativas de criar
uma ordem internacional baseada na cooperação, na diplomacia e no direito
internacional.

TEMA 2 – ALEMANHA, ITÁLIA E JAPÃO NO CONTEXTO DA CRISE DE 1929

A Alemanha vivia uma grave crise econômica alimentada pelo processo


hiperinflacionário do marco alemão, moeda do país à época, além do processo
de desindustrialização e as reparações por conta da Primeira Guerra Mundial,
consideradas como humilhantes. Acrescenta-se a esse cenário a marginalização
da Alemanha junto à Liga das Nações.

7
Dado esse contexto, o partido nazista, politicamente irrelevante até esse
momento, obteve um crescimento de 32% nas eleições de 1932 a partir do apoio
dos militares e da parcela conservadora da política e da sociedade alemã (Lessa;
Patti, 2023, p. 132). A partir desse resultado, Adolf Hitler, líder do partido nazista,
chegou ao poder em 1933.
Hitler construiu a sua carreira política ancorado no ressentimento das
humilhações sofridas pela Alemanha no Tratado de Versalhes, alimentando um
nacionalismo violento e uma visão de mundo onde a Alemanha deveria possuir
uma hegemonia no continente europeu.
Uma das promessas centrais de Hitler era acabar com a hiperinflação e
restaurar a estabilidade econômica. Para cumpri-la, uma vez no poder, Hitler
adotou uma série de medidas radicais. Ele consolidou o poder do Estado,
eliminando a oposição política e suprimindo as liberdades civis (Lohbauer, 2005).
Ele implementou políticas de autarquia econômica, priorizando a produção
nacional e restringindo as importações.
Além disso, o governo nazista lançou programas de obras públicas
maciças, como a construção de rodovias (autobahns) e a expansão militar, que
criaram empregos e estimularam a economia. Essas políticas, combinadas com
o nacionalismo fervoroso e a propaganda eficaz do regime nazista, conseguiram
trazer uma relativa estabilidade econômica à Alemanha durante os anos 1930.
A hiperinflação foi contida, o desemprego diminuiu e a economia começou
a se recuperar, pelo menos superficialmente. No entanto, essa aparente
recuperação econômica veio com um custo: o aumento do autoritarismo, a
supressão das liberdades individuais e a perseguição de minorias étnicas e
políticas.
Em última análise, o "sucesso" econômico de Hitler na Alemanha pré-
guerra foi construído sobre a base de uma ditadura e uma ideologia de ódio e
exclusão. A estabilidade econômica foi alcançada à custa da liberdade e da
humanidade, preparando o terreno para os horrores ainda maiores que se
seguiriam durante a Segunda Guerra Mundial.
A Itália fascista de Benito Mussolini também enfrentou esse desafio da
Crise de 1929. Uma das principais políticas econômicas implementadas por
Mussolini foi a promoção do corporativismo. Ele reorganizou os sindicatos e
associações patronais em uma estrutura hierárquica controlada pelo Estado,
conhecida como "corporações". Essas corporações eram responsáveis por

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coordenar a produção, regular os salários e resolver disputas trabalhistas. O
objetivo era criar uma economia mais eficiente e controlada pelo Estado, em que
os interesses do governo, dos trabalhadores e dos empresários estivessem
alinhados.
Mussolini adotou políticas de obras públicas para estimular a economia e
criar empregos. Grandes projetos de infraestrutura, como a construção de
estradas, ferrovias e prédios públicos, foram iniciados em todo o país. Esses
projetos não apenas forneceram trabalho para milhares de pessoas
desempregadas, mas também modernizaram a infraestrutura italiana,
preparando o país para um eventual conflito militar (Saraiva, 2008).
Ele também promoveu políticas protecionistas para apoiar a indústria
nacional, impondo tarifas alfandegárias elevadas sobre as importações,
incentivando, com isso, o consumo de produtos fabricados internamente e
protegendo os produtores italianos da concorrência estrangeira.
No entanto, apesar das medidas adotadas por Mussolini, a recuperação
econômica da Itália durante a Grande Depressão foi lenta e desigual. A
economia italiana continuou a enfrentar desafios estruturais, como a
dependência de setores agrícolas e a falta de investimento em tecnologia e
inovação.
Por fim, assim como o nazismo na Alemanha, embora tenham
proporcionado algum alívio imediato, as políticas fascistas também contribuíram
para o fortalecimento do controle do Estado sobre a economia e a sociedade
italiana, em detrimento da liberdade individual e do pluralismo político.
Como uma nação industrial em rápido crescimento e altamente
dependente das exportações, o Japão foi duramente atingido pela contração do
comércio internacional e pela queda dos preços das commodities. Para enfrentar
essa crise, o governo japonês adotou uma série de políticas econômicas,
algumas das quais estavam intrinsecamente ligadas à expansão territorial do
país.
O governo japonês implementou políticas de protecionismo econômico
para proteger os produtores domésticos da concorrência estrangeira. Foram
impostas tarifas mais altas sobre as importações e adotadas medidas para
incentivar a produção nacional. Isso ajudou a sustentar a indústria japonesa
durante a crise, embora também tenha gerado tensões comerciais com outros
países (Saraiva, 2008).

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No entanto, uma das respostas mais distintas do Japão à crise de 1929
foi sua expansão territorial na Ásia. Enquanto as potências ocidentais estavam
ocupadas lidando com os impactos da Grande Depressão, o Japão viu uma
oportunidade para expandir sua esfera de influência na região. Em busca de
recursos naturais e mercados para seus produtos, o Japão invadiu a Manchúria
em 1931, estabelecendo o estado fantoche de Manchukuo. Esse movimento foi
seguido por uma série de outras invasões e ocupações, incluindo a China em
1937.
Essa expansão territorial não apenas fornecia ao Japão acesso a
matérias-primas vitais, como petróleo e minerais, mas também criava mercados
para seus produtos manufaturados. Não somente a ocupação militar permitia ao
Japão controlar importantes rotas comerciais e fortalecer sua posição como
potência regional.
Logo, havia uma característica em comum envolvendo as políticas de
contenção da crise econômica de 1929: protecionismo, estímulo a partir de obras
de infraestrutura, industrialização e centralização do poder, com o fim da
democracia e a substituição de regimes de autoritarismo. Por fim, outro aspecto
que vigorou nas políticas desses três países, principalmente a partir da aparente
estabilidade conseguida por esses regimes, foi a política de necessidade de
expansão territorial.

TEMA 3 – O NOVO VELHO IMPERIALISMO

Como já visto anteriormente, em 1929 eclodiu uma grave crise financeira


no mundo. O crash da Bolsa de Valores de Nova York levou a um período de
incertezas, inflação e crise econômica generalizada como jamais vista na história
mundial. A crise acabou levando os países a passarem por grandes mudanças
estruturais em suas políticas domésticas e, consequentemente, levando a novos
comportamentos na política internacional.
Havia uma ideia econômica compartilhada de que o crescimento
econômico estava atrelado à conquista de territórios. Essa é uma sintética
definição sobre o conceito de imperialismo que norteava o comportamento das
potências europeias no século XIX e que permaneceu mesmo após o fim da
Primeira Guerra Mundial e da criação da Liga das Nações.
Com esse cenário, na década de 1930, mais de 30% do território global
era colônia da Grã-Bretanha ou da França (Lohbauer, 2005). Com esse espírito
10
do tempo imperialista e com o acréscimo da crise de 1929, as condições de
precipitação para uma tempestade perfeita estavam postas. Segundo Lohabuer
(2005, p. 56),

Os planos mais radicais foram aplicados na Itália e na Alemanha, onde


os fascistas ocuparam o poder e seguiram políticas de
autossuficiência. Estas políticas estavam associadas tanto a objetivos
políticos e militares quanto à redução do desemprego, já que a aguda
crise econômica criou o ambiente ideal para um nacionalismo
extremado, agressivo e exagerado. O aspecto mais ameaçador da
recessão foi a tensão crescente entre as potências que possuíam
impérios e aquelas que aspiravam se tornar um. A recuperação
econômica e o crescimento passaram a ser identificados com a
expansão colonial.

Portanto, para Alemanha, Itália e Japão, havia uma correlação e


causalidade entre o desenvolvimento da economia e a expansão territorial, aos
moldes dos britânicos e franceses. Com isso, esses países buscaram expandir
seus territórios e influências por meio de agressivas políticas expansionistas,
cada um com seus próprios projetos e objetivos.
Na expansão da Alemanha, um dos primeiros passos foi a remilitarização
da Renânia em 1936, seguida pela anexação da Áustria (Anschluss) em 1938.
Hitler também visava a expansão para o leste, em busca de "espaço vital"
(Lebensraum) para o povo alemão. Isso levou à ocupação da Tchecoslováquia
em 1939 e, finalmente, à invasão da Polônia em setembro do mesmo ano,
desencadeando o início da Segunda Guerra Mundial.
A Itália liderada por Benito Mussolini, em sua busca por restaurar a
grandeza do antigo Império Romano, tinha como principal objetivo expandir seu
domínio sobre o Mediterrâneo. Em 1935, a Itália invadiu a Etiópia (Abissínia), em
uma campanha brutal que resultou na anexação do país africano ao território
italiano em 1936. Acrescenta-se que Mussolini buscou expandir a influência
italiana nos Bálcãs, apoiando movimentos nacionalistas e intervindo em países
como Albânia e Grécia (Lohbauer, 2005).
O Japão, por sua vez, tinha ambições expansionistas na Ásia e no
Pacífico, visando estabelecer uma esfera de influência regional e garantir o
acesso a recursos naturais vitais. Em 1931, o Japão invadiu a Manchúria. Essa
foi seguida por uma guerra em larga escala contra a China em 1937, que
culminou na ocupação de vastas áreas do território chinês. Não obstante, o
Japão buscava expandir sua presença no Sudeste Asiático, mirando recursos
como petróleo e borracha (Saraiva, 2008).

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Esses projetos de expansão territorial da Alemanha, da Itália e do Japão,
na década de 1930, não apenas desencadearam tensões regionais e globais,
mas também contribuíram significativamente para o desencadeamento da
Segunda Guerra Mundial, um conflito que moldaria o curso da história do século
XX.

TEMA 4 – ALIANÇAS DE DESCONFIANÇA E RESSENTIMENTOS

As relações entre Hitler e Mussolini durante os anos 1930 foram marcadas


por uma intricada mistura de cooperação, rivalidade e desconfiança, refletindo
os complexos interesses e ambições de ambos os líderes.
Inicialmente, Hitler via Mussolini como um modelo e um possível aliado na
sua busca pela expansão de poder e influência da Alemanha. Por sua vez,
Mussolini, embora compartilhasse certas afinidades ideológicas com o nazismo,
também via na ascensão de Hitler uma oportunidade para fortalecer a posição
da Itália no cenário internacional. No entanto, essa relação de proximidade era
marcada por uma competição subjacente pelo papel de líder dos movimentos
nacionalistas autoritários.
O Pacto de Aço, assinado em 1939, formalizou uma aliança militar entre
Alemanha e Itália, simbolizando uma cooperação mais estreita entre os dois
regimes. No entanto, por trás dessa fachada de solidariedade, persistiam
tensões e rivalidades. Mussolini, ciente das ambições expansionistas de Hitler,
muitas vezes hesitava em se envolver em aventuras militares arriscadas,
preferindo adiar um confronto direto com as potências ocidentais.
É importante destacar, como feito por Lessa e Patti (2023, p. 132), que
assim como foi feito com a chegada de Mussolini, Hitler não sofreu nenhum tipo
de constrangimento pela sua chegada ao poder, sendo aceito pela comunidade
internacional. Essa aceitação levou, por exemplo, a política de apaziguamento e
ao Acordo de Munique.
A política de apaziguamento foi uma estratégia diplomática adotada pelas
potências ocidentais, lideradas pelo Reino Unido e pela França, na década de
1930, como uma tentativa de evitar a repetição dos horrores da Primeira Guerra
Mundial. Essa abordagem, especialmente proeminente durante o governo do
primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, buscava resolver as tensões e
conflitos na Europa por meio de concessões diplomáticas e negociações, em vez
de confrontos militares diretos.
12
Um dos princípios fundamentais da política de apaziguamento era a
crença de que as injustiças e insatisfações que levaram à Primeira Guerra
Mundial poderiam ser evitadas através do diálogo e do compromisso. Isso levou
as potências ocidentais a adotarem uma postura conciliatória em relação às
crescentes ambições expansionistas de regimes autoritários, como a Alemanha
Nazista e a Itália Fascista.
Um dos eventos mais emblemáticos dessa política foi o Acordo de
Munique, assinado em setembro de 1938. Neste acordo, as potências europeias,
em particular o Reino Unido e a França, cederam às demandas territoriais de
Adolf Hitler, permitindo que a Alemanha anexasse os Sudetos, uma região da
Tchecoslováquia habitada por uma população de língua alemã. Em troca, Hitler
prometeu buscar uma paz duradoura na Europa.
O Acordo de Munique foi amplamente celebrado como um triunfo da
diplomacia, uma conquista de paz sem derramamento de sangue. No entanto,
essa suposta vitória diplomática logo se revelou ilusória. Em vez de garantir a
paz, o acordo apenas encorajou a agressão alemã, dando a Hitler a confiança
de que poderia continuar suas expansões territoriais sem enfrentar sérias
consequências.

Figura 2 – O Primeiro-Ministro britânico Neville Chamberlain retorna ao Reino


Unido com o acordo de paz firmado junto a Adolf Hitler. Esse fato levou Winston
Churchill a proferir a famosa frase sobre esse acordo fadado ao fracasso

Crédito: Everett Collection/Shutterstock.

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A frase icônica de Winston Churchill sobre o Acordo de Munique “Entre a
desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra" encapsula a crítica
de que a política de apaziguamento foi uma ilusão perigosa, que apenas adiou
inevitavelmente o conflito. De fato, menos de um ano após a assinatura do
acordo, a Alemanha invadiu a Polônia, desencadeando, desta forma, a Segunda
Guerra Mundial.
Um desenvolvimento inesperado nesse contexto foi o Pacto Molotov-
Ribbentrop de 1939, um acordo de não agressão entre a Alemanha Nazista e a
União Soviética. Embora oficialmente um pacto de não agressão, o acordo
também continha um protocolo secreto que dividia a Europa Oriental em esferas
de influência entre as duas potências. Isso permitiu à Alemanha invadir a Polônia
em setembro do mesmo ano sem o temor de uma intervenção soviética.
O Pacto Molotov-Ribbentrop demonstrou a insatisfação soviética com a
falta de garantias e de confiança da aplicação das restrições impostas pelo
Acordo de Munique, levando Stálin a buscar um acordo bilateral sem a
participação do Reino Unido e da França. Esse acordo, apesar de
temporariamente beneficiar ambos os regimes, acabou por selar o destino da
Polônia e marcar o início da Segunda Guerra Mundial. O expansionismo alemão
estava deflagrado. De acordo com Saraiva (2008, p. 171), a política externa
nazista consistia dos seguintes pontos:

• Reduzir a influência francesa na Europa.


• Firmar uma aliança com o Reino Unido ou garantir a sua neutralidade para
a conquista da Europa Oriental, incluso a União Soviética.
• A construção de um império colonial na África, com o apoio dos ingleses.
• Enfrentar os Estados Unidos da América.
• A partilha do mundo com os japoneses.

Ainda de acordo com Saraiva (2008, p. 171), esses pontos mantinham os


objetivos tradicionais da política externa alemã, principalmente com a
reinstalação do Império germânico na Europa Oriental, em território russo.
Portanto, o acordo firmado com os soviéticos nada mais era do que comprar
tempo e evitar uma guerra em dois fronts distintos de batalha: com a França, ao
oeste, e com os russos, a leste.

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TEMA 5 – UMA GUERRA, A BOMBA E O DESTINO DO MUNDO

5.1 A guerra se espalha rapidamente

Com a invasão da Polônia pela Alemanha, o mundo iniciava mais uma


guerra devastadora e este será o pior conflito já registrado na história
contemporânea.
Os britânicos e os franceses rapidamente declararam apoio à Polônia,
além de declararem ser inaceitável qualquer tentativa de invasão futura por parte
dos nazistas contra a Holanda, Bélgica e Suíça, além de apoiarem a Grécia e a
Romênia contra a invasão italiana aos Balcãs, iniciada na Albânia em abril de
1939.
Após a invasão da Polônia em setembro de 1939, a Segunda Guerra
Mundial se espalhou rapidamente pela Europa e pelo mundo, desencadeando
uma série de eventos que alterariam o curso da história.
Logo após a invasão da Polônia pelos nazistas, a União Soviética também
lançou sua própria ofensiva contra o país, de acordo com o Pacto Molotov-
Ribbentrop, dividindo o território polaco com a Alemanha Nazista. Isso levou a
uma rápida ocupação do território polonês por ambos os regimes totalitários,
resultando em uma ocupação brutal e na anexação de partes do país.
A invasão da Polônia também teve repercussões significativas no cenário
internacional. Enquanto as potências aliadas, lideradas pelo Reino Unido e pela
França, mobilizavam suas forças para combater a Alemanha, os países neutros
da Europa foram forçados a reconsiderar sua posição. Alguns, como a Bélgica e
os Países Baixos, temendo uma invasão alemã, fortaleceram suas defesas e se
prepararam para o pior.
Além disso, a invasão da Polônia despertou a atenção dos Estados
Unidos e da União Soviética para a crescente ameaça representada pelo
expansionismo nazista. Isso levou os Estados Unidos a adotarem uma política
de neutralidade, enquanto a União Soviética começava a buscar uma aliança
com as potências ocidentais contra a Alemanha.
Enquanto isso, no Extremo Oriente, o Japão aproveitou a oportunidade da
guerra na Europa para expandir sua esfera de influência na Ásia e no Pacífico,
lançando uma série de invasões e ocupações em países como China, Indochina
e Filipinas.

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5.2 Invasão nazista à França

A invasão nazista à França, em maio de 1940, foi uma das campanhas


militares mais marcantes da Segunda Guerra Mundial, levando a consequências
dramáticas e moldando o curso do conflito.
A operação, conhecida como Blitzkrieg, ou "guerra relâmpago", começou
com uma ofensiva alemã surpreendente e altamente coordenada, que envolveu
ataques aéreos maciços, seguidos por invasões terrestres em larga escala
através da Bélgica, Holanda e Luxemburgo, contornando a Linha Maginot, a
principal linha defensiva francesa na fronteira com a Alemanha.
Os exércitos alemães, sob o comando do general Erich von Manstein,
avançaram rapidamente, surpreendendo e superando as forças francesas e
aliadas. O uso eficaz da Blitzkrieg permitiu que os alemães rompessem as linhas
defensivas e cercassem as forças aliadas, criando uma situação de caos e
desordem. O avanço alemão foi acompanhado por uma intensa campanha
aérea, onde a Luftwaffe, a força aérea alemã, desempenhou um papel crucial,
bombardeando alvos estratégicos e apoiando as tropas terrestres.
Enquanto isso, o Reino Unido, sob o comando do primeiro-ministro
Winston Churchill, estava ciente da ameaça representada pelo avanço nazista.
No entanto, o país estava despreparado para lidar com a rápida escalada da
guerra e a invasão iminente da França. Apesar das tentativas de evacuação das
forças aliadas da praia de Dunkirk, no norte da França, a operação Dynamo,
como ficou conhecida, resultou em grandes perdas para as forças britânicas e
aliadas, além de deixar a França em uma posição extremamente precária.
Diante da iminente derrota francesa, Churchill enfrentou uma decisão
crucial sobre o próximo curso de ação. Apesar da pressão para negociar um
armistício com a Alemanha, Churchill recusou-se a considerar a possibilidade de
capitulação e prometeu lutar até o fim (Lessa, 2005).
O posicionamento firme do Reino Unido foi exemplificado pelo famoso
discurso de Churchill em 4 de junho de 1940, onde declarou: "Nós lutaremos nas
praias, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas montanhas; nunca nos
renderemos". Essas palavras refletiam a determinação britânica em resistir à
invasão nazista, mesmo diante de desafios aparentemente insuperáveis.
Com isso, a invasão nazista à França e o posicionamento do Reino Unido
marcaram um ponto crucial na Segunda Guerra Mundial, preparando o terreno

16
para uma luta entre as forças do Eixo e os Aliados, que moldaria o curso do
conflito nos anos seguintes.

5.3 O fim da neutralidade dos EUA

Nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos


mantiveram uma política de isolacionismo, evitando se envolver diretamente no
conflito que se desenrolava na Europa e na Ásia. Esse isolacionismo refletia uma
combinação de sentimentos antiguerra, preocupações com a economia
doméstica e o desejo de evitar os custos humanos e materiais de um novo
conflito global.
Enquanto a guerra se desenrolava na Europa, o presidente dos Estados
Unidos, Franklin D. Roosevelt, comprometia-se a manter a neutralidade do país.
No entanto, apesar dessa postura oficial de não intervenção, os Estados Unidos
começaram a fornecer assistência militar e econômica às potências aliadas,
como o Reino Unido, através do programa de empréstimo e arrendamento de
equipamentos militares. Não obstante, havia um movimento interno nos Estados
Unidos que exerceu muita influência na política doméstica do país, cobrando
neutralidade por parte de Roosevelt e o não envolvimento dos americanos no
conflito europeu. Esse movimento era chamado de America First.
O movimento America First foi uma coalizão política e social que surgiu
nos Estados Unidos no final da década de 1930, com o principal objetivo de
manter o país fora dos conflitos europeus que culminaram na Segunda Guerra
Mundial. Seus defensores argumentavam que a prioridade dos Estados Unidos
deveria ser a defesa do hemisfério ocidental e a preservação da paz interna,
evitando qualquer envolvimento nas guerras estrangeiras. A organização
ganhou um apoio substancial entre o público americano, refletindo um forte
sentimento isolacionista que prevalecia no país após a Primeira Guerra Mundial.
Charles Lindbergh, o famoso aviador que realizou o primeiro voo solo
transatlântico sem escalas em 1927 e grande herói civil dos Estados Unidos,
tornou-se uma das figuras mais proeminentes do movimento America First.
Lindbergh usou sua celebridade e seu prestígio para advogar em prol da não
intervenção dos Estados Unidos na guerra europeia. Em seus discursos, ele
argumentava que o envolvimento na guerra não servia aos interesses
americanos e que o país deveria se concentrar na defesa de suas próprias
fronteiras e na preparação militar interna. Ele criticava aqueles que via como
17
fomentadores da guerra, incluindo políticos e industriais, e insistia que os
Estados Unidos poderiam e deveriam evitar o conflito através de uma política de
neutralidade estrita.
Contudo, o movimento America First não estava isento de controvérsias.
Vários de seus líderes e membros eram conhecidos por suas posições
antissemitas e xenofóbicas. Em particular, Lindbergh foi criticado por suas
declarações públicas que refletiam simpatias pelo regime nazista na Alemanha.
Em seu discurso em Des Moines, Iowa, em setembro de 1941, Lindbergh sugeriu
que os britânicos, os judeus e o governo de Franklin D. Roosevelt estavam
empurrando os Estados Unidos para a guerra. Essa declaração foi amplamente
condenada por seus contemporâneos, que a viam como um exemplo de
antissemitismo flagrante (Olson, 2022).
Lindbergh chegou a visitar a Alemanha nazista nos anos anteriores à
guerra e elogiou abertamente os avanços tecnológicos e militares do regime de
Adolf Hitler. Ele recebeu uma medalha de Goering em nome de Hitler, o que
exacerbou as suspeitas sobre suas lealdades e intenções. Embora Lindbergh
negasse ser um simpatizante nazista, suas ações e palavras frequentemente
sugeriam uma admiração pelo regime.
Além de Lindbergh, outros líderes do movimento America First também
expressaram opiniões antissemitas, alimentando uma narrativa que culpava os
judeus pelas pressões para que os Estados Unidos entrassem na guerra. Esse
aspecto do movimento minou sua credibilidade e provocou oposição de vários
setores da sociedade americana, incluindo políticos, intelectuais e líderes
comunitários que denunciaram a retórica de ódio (Olson, 2022).
No entanto, o curso da guerra mudou drasticamente em 7 de dezembro
de 1941, quando o Japão lançou um ataque surpresa à base naval de Pearl
Harbor, no Havaí. O ataque resultou em danos à frota do Pacífico dos Estados
Unidos e causou a morte de mais de 2.400 americanos. Esse ataque chocante
levou os Estados Unidos a declararem guerra ao Japão no dia seguinte, em 8 de
dezembro de 1941 (Saraiva, 2008).
Com o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, o movimento
America First perdeu rapidamente sua relevância e apoio popular. A
necessidade de unidade nacional e o compromisso com o esforço de guerra
tornaram o isolacionismo impraticável e inaceitável. Charles Lindbergh retirou-

18
se da vida pública em grande medida, embora ele tenha tentado contribuir para
o esforço de guerra servindo como consultor técnico e piloto de teste.
O ataque a Pearl Harbor foi um ponto de virada na política americana em
relação à Segunda Guerra Mundial. Agora, os Estados Unidos estavam
totalmente engajados no conflito global, tanto no Pacífico quanto na Europa.
A campanha no Pacífico tornou-se uma prioridade imediata para os
Estados Unidos. Sob o comando do almirante Chester W. Nimitz e do general
Douglas MacArthur, as forças americanas lançaram uma série de operações
para conter o avanço japonês e recuperar territórios estratégicos perdidos.
Batalhas cruciais, como as de Midway, Guadalcanal e Okinawa, testemunharam
ferozes confrontos navais e terrestres, mas gradualmente as forças americanas
começaram a ganhar terreno.
Enquanto isso, a guerra na Europa continuava a se desenrolar, com as
forças aliadas lutando contra as potências do Eixo. Embora os Estados Unidos
estivessem engajados no conflito no Pacífico, sua entrada direta na guerra na
Europa só ocorreu em 1944, após a invasão aliada da Normandia, conhecida
como o Dia D.
A invasão da Normandia marcou o início do fim da dominação nazista na
Europa e representou um esforço conjunto das forças aliadas, incluindo os
Estados Unidos, o Reino Unido, o Canadá e outros países, incluso o Brasil. A
entrada dos Estados Unidos na guerra na Europa foi um momento crucial que
acelerou o colapso do regime nazista e a libertação da Europa do domínio do
Eixo.

5.4 Operação Barbarossa e a contraofensiva soviética

A tentativa de invasão à União Soviética pelos nazistas, conhecida como


Operação Barbarossa, foi uma das maiores campanhas militares da Segunda
Guerra Mundial e teve repercussões significativas para o desenrolar do conflito.
Em 22 de junho de 1941, as forças alemãs lançaram uma invasão em
larga escala contra a União Soviética, rompendo o pacto de não agressão
assinado entre os dois países em 1939. O objetivo principal da Operação
Barbarossa era a conquista rápida e total da URSS, visando capturar importantes
recursos naturais e estabelecer uma hegemonia nazista sobre o território
soviético.

19
Inicialmente, o avanço alemão foi rápido e impressionante, com as forças
nazistas capturando vastas extensões de território e infligindo pesadas baixas
ao Exército Vermelho. No entanto, a resiliência soviética, aliada às condições
climáticas adversas do inverno russo, começaram a frustrar os planos de Hitler.
A virada decisiva na guerra veio durante a batalha de Stalingrado, que
ocorreu de agosto de 1942 a fevereiro de 1943. Stalingrado, uma cidade
industrial estratégica às margens do Rio Volga, tornou-se o epicentro de uma
das batalhas mais ferozes e brutais da história militar. As forças alemãs lançaram
uma ofensiva massiva para capturar a cidade, enquanto as forças soviéticas
lutavam para defendê-la.
A batalha de Stalingrado foi caracterizada por combates de rua intensos
e brutalidade sem precedentes. As tropas soviéticas, sob o comando do
Marechal Zhukov, lançaram uma defesa obstinada, resistindo a cada avanço
alemão. Eventualmente, as forças soviéticas lançaram um contra-ataque
maciço, cercando completamente o exército alemão dentro da cidade. Estima-
se que as baixas totais, entre mortos, feridos e desaparecidos, tenham
ultrapassado 2 milhões de pessoas.
A derrota nazista em Stalingrado representou um ponto de virada crucial
na guerra no Leste. Foi a primeira grande derrota das forças nazistas na frente
oriental e teve um impacto na moral e no poder de combate do exército alemão.
A partir desse momento, as forças soviéticas lançaram uma série de
contraofensivas que empurraram os alemães de volta, recuperando o território
perdido e avançando em direção ao coração da Alemanha. A batalha de Kursk,
em 1943, foi outro ponto de inflexão significativo, onde as forças soviéticas
infligiram uma derrota às forças alemãs, marcando o início do declínio do poder
militar nazista no Leste.
Finalmente, em 1945, as forças soviéticas, junto com os Aliados
ocidentais, lançaram a ofensiva final contra Berlim, a capital do Terceiro Reich.
Após uma batalha violenta e destrutiva, as tropas soviéticas conseguiram
capturar Berlim em 2 de maio de 1945, marcando o fim da guerra na Europa e a
derrota definitiva do regime nazista.
A batalha de Stalingrado e o contra-ataque soviético representaram uma
virada decisiva na Segunda Guerra Mundial, desempenhando um papel
fundamental na libertação da Europa do domínio do Eixo.

20
5.5 Os encontros dos Aliados

Durante a Segunda Guerra Mundial, os líderes dos países Aliados se


reuniram em uma série de conferências para discutir estratégias militares,
coordenar esforços de guerra e moldar o futuro pós-conflito. Esses encontros
foram essenciais para manter a coesão da coalizão aliada e garantir o sucesso
das operações militares.
A Conferência de Casablanca, realizada em janeiro de 1943, reuniu
Winston Churchill, Franklin D. Roosevelt, Charles de Gaulle e Henri Giraud.
Nesse encontro, os líderes Aliados discutiram estratégias militares para o ano
seguinte, reafirmando o compromisso com a rendição incondicional das
potências do Eixo e coordenando esforços para a libertação da Europa. A
Conferência de Casablanca fortaleceu a cooperação entre os Aliados e
estabeleceu uma estratégia comum para a guerra.
Na Conferência de Teerã, realizada em novembro de 1943, com Joseph
Stalin, Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt, foram discutidos planos
militares para o próximo ano. Aqui, foi decidida a invasão da Europa Ocidental
(Operação Overlord). A Conferência de Teerã reforçou a coordenação militar
entre os Aliados e solidificou o compromisso de lançar uma ofensiva conjunta na
Europa.
A Conferência de Yalta, realizada entre 4 e 11 de fevereiro de 1945,
emergiu como um marco crucial no desfecho da Segunda Guerra Mundial e de
definição de uma mundo pós-guerra. Situada na Crimeia, a reunião reuniu os
líderes das três principais potências aliadas: o presidente dos Estados Unidos,
Franklin D. Roosevelt; o primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill; e
o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Josef Stalin.
Os líderes Aliados convergiram para Yalta com o objetivo de forjar um
acordo que delineasse os termos de paz, a reestruturação do pós-guerra e o
destino das nações derrotadas.
Entre os temas centrais debatidos, destacava-se a criação das Nações
Unidas, uma instituição destinada a promover a cooperação internacional e
evitar conflitos futuros e baseada na Liga das Nações. Os líderes presentes em
Yalta discutiram os princípios e estruturas fundamentais dessa organização,
buscando estabelecer um mecanismo para a resolução pacífica de disputas
entre as nações.

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Figura 3 – Monumento em homenagem à Conferência de Yalta. Da esquerda
para direita: Churchill, Roosevelt e Stálin

Crédito: Art-is-Power/Shutterstock

Além da questão das Nações Unidas, os participantes da conferência


também deliberaram sobre a definição das fronteiras pós-guerra na Europa, a
divisão da Alemanha em zonas de ocupação, a punição dos criminosos de
guerra nazistas e o futuro político dos países do Leste Europeu, com destaque
para o futuro da Alemanha (Lohbauer, 2005).
Uma das mais decisões mais importantes tomadas em Yalta foi a divisão
da Alemanha em quatro zonas de ocupação, controladas pelos Estados Unidos,
União Soviética, Reino Unido e França. Foi acordado que a Alemanha seria
desmilitarizada e desnazificada, além de estabelecer os termos de rendição que
puseram fim oficialmente à guerra no continente europeu.
O impacto da Conferência de Yalta na Europa refletiu ao longo de todo o
século XX. A divisão da Alemanha e a subsequente ocupação pelas potências
aliadas sinalizaram o início da Guerra Fria, um período de intensa rivalidade
política e militar entre o bloco ocidental, liderado pelos Estados Unidos, e o bloco
oriental, liderado pela União Soviética.
Na Alemanha, a divisão estabelecida em Yalta antecipou a construção do
Muro de Berlim, que separou a cidade em duas entidades distintas por quase

22
três décadas. Além disso, as implicações econômicas e políticas da ocupação
aliada influenciaram o futuro do país, transformando-o em um campo de batalha
ideológico durante a Guerra Fria. Segundo Saraiva (2008, p. 192), a Conferência
de Yalta foi o palco inicial de uma nova era mundial, pois “o tempo das relações
internacionais já era outro: a política das áreas de influência na Europa se
tornaria um modelo a ser aplicado à própria política mundial. Era esse o sistema
de Yalta”.
Finalmente, a Conferência de Potsdam, realizada entre julho e agosto de
1945, foi o último encontro entre os líderes Aliados durante a guerra. Harry S.
Truman (Roosevelt havia morrido), Joseph Stalin e Clement Attlee (que
substituiu Churchill) discutiram a ocupação da Alemanha, punição aos líderes
nazistas e os termos de rendição do Japão. Esse encontro solidificou os termos
de rendição incondicional do Japão, delineou as fronteiras da Europa pós-guerra
e marcou o início da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética.
Um dos eventos mais significativos associados à Conferência de Potsdam
foi o lançamento das bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima
e Nagasaki. Poucos dias após o início da conferência, em 6 de agosto de 1945,
os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre Hiroshima, seguida por
outra sobre Nagasaki em 9 de agosto.
O lançamento das bombas nucleares apresentou ao mundo um novo
artefato militar com alta capacidade de destruição e que colocou os Estados
Unidos em uma larga vantagem de capacidade militar em comparação a
qualquer outro país do mundo, desequilibrando a balança de poder em seu favor.
Será a partir deste momento que a história e as teorias de Relações
Internacionais se encontrarão e caminharão juntos ao longo de quase todo o
século XX.
Além disso, a Conferência de Potsdam marcou o início oficial da Guerra
Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Durante a conferência, as
tensões entre os Aliados ocidentais e a União Soviética se tornaram evidentes,
com divergências sobre questões como a ocupação da Alemanha, o futuro
político da Europa Oriental e a participação da URSS na guerra contra o Japão.
Essas tensões só se intensificariam nos anos seguintes, à medida que os
Estados Unidos e a União Soviética competiam pela influência global.
Portanto, a Conferência de Potsdam não apenas testemunhou o
lançamento das primeiras armas nucleares, mas também marcou o início de um

23
novo capítulo na história mundial, caracterizado pela rivalidade e hostilidades
entre as superpotências emergentes: EUA e URSS.

NA PRÁTICA

A Segunda Guerra Mundial não apenas redefiniu as relações


internacionais por meio de alianças estratégicas entre países, mas também
introduziu uma mudança sísmica com a entrada da bomba nuclear no cenário
global. Esse evento não só alterou a dinâmica de poder entre as nações, mas
também influenciou profundamente a forma como compreendemos e estudamos
as relações internacionais.
Antes da Segunda Guerra Mundial, as alianças entre países eram
frequentemente vistas como estratégias temporárias para alcançar objetivos
específicos, como garantir segurança ou proteger interesses econômicos. No
entanto, a coalizão formada pelos Aliados durante o conflito – liderada por
nações como Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética – demonstrou a
importância da cooperação internacional e da formação de alianças duradouras
para enfrentar ameaças comuns.
A introdução da bomba nuclear, especialmente após os ataques a
Hiroshima e Nagasaki, transformou completamente o cenário das relações
internacionais. Pela primeira vez na história, a humanidade detinha o poder de
destruir a si mesma em uma escala sem precedentes. Isso levou a uma corrida
armamentista entre as superpotências e à formulação de estratégias de
dissuasão nuclear, como a doutrina de "mútua destruição assegurada" (MAD),
que buscava evitar um conflito direto entre as nações nuclearmente armadas.
Além de moldar as políticas de relacionamento entre as nações, a bomba
nuclear também desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento
teórico das Relações Internacionais. Acadêmicos e estudiosos passaram a
explorar questões como a segurança internacional, a proliferação nuclear, a
diplomacia de armas e os efeitos da tecnologia militar avançada no equilíbrio de
poder global.
No entanto, apesar dos avanços teóricos e das tentativas de controle e
regulamentação das armas nucleares, o potencial de destruição em massa
representado pela bomba nuclear continua a influenciar as relações
internacionais até os dias de hoje. A posse de armas nucleares confere um poder

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considerável aos Estados, ao mesmo tempo em que aumenta os riscos de
conflito e escalada militar.
Portanto, a questão nuclear permanece como um dos desafios mais
urgentes e complexos enfrentados pela comunidade internacional, exigindo
cooperação global e liderança responsável para garantir a segurança e a
estabilidade do mundo. Essa reflexão nos leva a ponderar sobre como a gestão
e a proliferação das armas nucleares impactam não apenas a política
internacional, mas também o campo de estudos de Relações Internacionais,
instigando a busca por soluções eficazes para os desafios globais do século XXI.

FINALIZANDO

O fracasso da Liga das Nações representa um marco significativo na


história das relações internacionais e um exemplo contundente das limitações
do idealismo em face da realidade política e geopolítica do século XX. Concebida
como uma instituição para promover a paz e a cooperação internacional após a
Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações falhou em conter a ascensão de
nacionalismos agressivos e o ressurgimento do imperialismo, que foram fatores
determinantes na eclosão da Segunda Guerra Mundial e no subsequente início
da Guerra Fria.
O nacionalismo exacerbado e o revanchismo após o Tratado de Versalhes
alimentaram ressentimentos e instabilidade na Europa, preparando o terreno
para o ressurgimento do militarismo e do expansionismo. O fracasso da Liga das
Nações em resolver conflitos e impor efetivamente a paz apenas enfraqueceu
sua credibilidade e legitimidade, abrindo caminho para o surgimento de líderes
autoritários e agressivos, como Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, que
buscavam restaurar o prestígio nacional por meio da conquista territorial e da
expansão imperialista.
O expansionismo desses regimes totalitários desencadeou a Segunda
Guerra Mundial, um conflito global de proporções catastróficas que deixou
milhões de mortos e devastou grande parte da Europa. O fracasso da Liga das
Nações em conter a agressão e prevenir a guerra evidenciou as limitações do
idealismo e reforçou a importância da realpolitik e da força como instrumentos
na arena internacional.
A Segunda Guerra Mundial não apenas exacerbou as tensões entre as
potências europeias, mas também deu origem a uma nova rivalidade entre os
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Estados Unidos e a União Soviética, marcando o início da Guerra Fria. O choque
de ideologias, combinado com a corrida armamentista e a divisão do mundo em
blocos geopolíticos opostos, definiu as relações internacionais do pós-guerra e
moldou a dinâmica geopolítica por décadas.
Portanto, o fracasso da Liga das Nações em manter a paz e a estabilidade
internacional, aliado ao ressurgimento do nacionalismo e do imperialismo, não
apenas precipitou a Segunda Guerra Mundial, mas também inaugurou uma era
de confronto ideológico e rivalidade geopolítica que perdurou até o final do século
XX.

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REFERÊNCIAS

CERVO, A.; BUENO, C. História da Política Exterior do Brasil. Brasília:


Editora UnB, 2015.

LESSA, A. C.; PATTI, C. História das Relações Internacionais. São Paulo:


Contexto, 2023.

LOHBAUER, C. História das Relações Internacionais II: o século XX do


declínio europeu à Era Global. Petrópolis: Vozes, 2005.

OLSON, L. Roosevelt & Lindbergh: Aqueles dias raivosos (1939 – 1941). Rio
de Janeiro: Globo Livros, 2022.

SARAIVA, J. F. S. A agonia e a gestação da nova ordem internacional (1939-


1947). In: _____. (Org.). História das Relações Internacionais
Contemporâneas: da sociedade internacional do século XIX à era da
globalização. São Paulo: Saraiva, 2008, pp. 169-196.

SARFATI, G. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.

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