O Concerto da Europa, foi estabelecido após o Congresso de Viena em 1815.
Ele
descreve o funcionamento pacífico de um sistema internacional baseado no equilíbrio
de poder que existia na Europa desde o fim das Guerras Napoleônicas em 1815 até a
eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. Após uma série de guerras napoleônicas,
as Grandes Potências Europeias viram a necessidade de conter estados
expansionistas, particularmente a França, e estabelecer o primeiro sistema de
segurança coletiva para garantir a paz no continente europeu. As partes concordaram
em apoiar-se mutuamente em caso de guerra ou conflito interno nos termos do Tratado
de Viena. Concerto Europeu nasce formalmente do Congresso de Viena, em 1815, quando
as potências vencedoras — Reino Unido, Áustria, Prússia e Rússia — decidem
estabelecer um sistema de consulta mútua, com o objetivo de garantir a paz e
preservar a ordem monárquica europeia. De acordo com o historiador norte-americano
Charles McLean Andrews, O princípio central era o do equilíbrio de poder (balance
of power), segundo o qual nenhuma potência deveria alcançar supremacia sobre as
demais — ideia já presente no século XVIII, mas agora institucionalizada através de
congressos diplomáticos periódicos. o sistema não se baseava em tratados rígidos,
mas em uma prática informal e consensual de cooperação entre as potências, as quais
se viam como guardiãs da estabilidade continental. Andrews salienta que essa
aliança, embora em muitos momentos fosse meramente pragmática, representava uma
nova concepção de política internacional baseada na ideia de que o equilíbrio de
poder e a legitimidade dinástica eram pilares fundamentais para a paz. No entanto,
ele também reconhece que esse equilíbrio era constantemente testado por pressões
internas e externas, como os movimentos liberais, nacionalistas e revolucionários
que se intensificaram ao longo do século XIX. a ascensão dos movimentos
revolucionários e a sua relação com o enfraquecimento do sistema do Concerto é
citado pelos autores Clarence Perkins e Charles M. Andrews, o impulso por unidade
racial e independência nacional — ou seja, nacionalismo — fazia parte de um
processo histórico mais amplo que enfraqueceu a ordem imposta pelo Concerto
Europeu. Perkins reforça essa visão ao caracterizar o Congresso de Viena como um
“arranjo diplomático de restauradores” e atribui ao chanceler austríaco Metternich
a função de liderança ideológica do sistema. Ele descreve Metternich como "a
personalidade dominante por trás desses arranjo", cujo objetivo era assegurar a
restauração da autoridade absolutista e conter os impulsos liberais e nacionalistas
que haviam sido liberados desde 1789.
Perkins, observa que a Revolução de 1848 na Áustria foi causada por: Infiltração de
idéias liberais gradual; A revolução industrial e seus efeitos na Áustria e os
movimentos nacionais”. destaca-se nisso movimentos específicos, como os
nacionalismos boêmio e húngaro, e as demandas de reformistas como Deák e Kossuth,
indicando que o liberalismo político e os nacionalismos étnicos estavam intimamente
ligados às crises enfrentadas pelo sistema austríaco e, por consequência, ao
declínio do Concerto Europeu. A estrutura do Concerto não era apenas diplomática,
mas também repressiva: sustentava-se na legitimação da intervenção armada em
qualquer Estado que fosse ameaçado por revoluções — o que ficou patente nos
Congressos de Troppau (1820), Laibach (1821) e Verona (1822).
A Guerra da Crimeia (1853–1856) foi, para ambos os autores, o ponto de
ruptura definitivo. Andrews observa que a aliança entre França, Reino Unido e o
Império Otomano contra a Rússia "marcou o colapso do espírito cooperativo do
Concerto". A Guerra da Crimeia revelou o fim da confiança mútua entre as potências
e inaugurou uma nova fase das relações internacionais europeias marcada por
rivalidades bilaterais e nacionalismos expansionistas. o Autor Perkins, critica
fortemente o Congresso de Paris (1856), que tentou restabelecer a lógica
multilateral do Concerto. Segundo ele, a inclusão do Império Otomano na "comunidade
europeia" foi “provavelmente o ato diplomático mais insensato e suicida já
realizado", pois pretendia civilizar o sultão sem ter qualquer meio efetivo de
intervir ou garantir reformas, abrindo brechas para novos conflitos no leste
europeu
À medida que a unificação italiana e alemã avançavam, e com a ascensão de
figuras como Bismarck e Cavour, o Concerto se mostrava cada vez mais obsoleto.
Quase não sobrou nenhum vestígio daquelas condições do congresso de Viena, pois a
Europa já havia ingressado numa nova era marcada por Estados-nação militarizados,
políticas externas agressivas e diplomacias de poder, não mais de consenso. O
colapso final do Concerto se deu com o advento das alianças rígidas que antecederam
a Primeira Guerra Mundial. De acordo com autor Malcolm MacColl, vai além de uma
simples crítica à inércia do Concerto Europeu e o acusa de cumplicidade ativa. Ele
compara as grandes potências a um "bando de ladrões", cuja relutância em agir
contra o Império Otomano decorre não de um compromisso com a paz, mas da
desconfiança mútua quanto à repartição dos benefícios territoriais: "O que pode
causar uma grande guerra senão o egoísmo das próprias potências — sua ganância em
apoderar-se do que não pertence a nenhuma delas, como um bando de bandidos vigiando
algum butim que não ousam tomar por medo de brigar entre si sobre sua
distribuição?". Em sua fase terminal, o sistema do Concerto já não se fundamentava
em princípios ou valores comuns, mas em uma trégua precária entre interesses
nacionais conflitantes e ambições imperialistas. O diagnóstico de MacColl antecipa,
com notável precisão, as críticas que viriam a ser dirigidas à Liga das Nações
décadas mais tarde — como observado no Fortnightly Review (1921) — especialmente no
que diz respeito à divisão estrutural entre grandes e pequenas potências, à
retórica esvaziada de conteúdo prático e à inação sistemática diante de flagrantes
violações do direito e da justiça internacional.