COLÉGIO DA POLICIA MILITAR – LUIZ TARQUÍNIO
DIEGO LEVI AZEVEDO OLIVEIRA
DESCOLONIZANDO O PENSAMENTO: CIÊNCIA E TECNOLOGIA AFRICANA;
TECNOLOGIAS DE ORIGEM AFRICANA E AFRODESCENDENTE
Salvador
23 de abril de 2025
DIEGO LEVI AZEVEDO OLIVEIRA
DESCOLONIZANDO O PENSAMENTO: CIÊNCIA E TECNOLOGIA AFRICANA;
TECNOLOGIAS DE ORIGEM AFRICANA E AFRODESCENDENTE
PROFESSOR: ANDRÉ LUIS
DISCIPLINA: INICIAÇÃO CIENTÍFICA
Salvador
23 de abril de 2025
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RESUMO
Este artigo busca destacar as tecnologias desenvolvidas por povos africanos e
afrodescendentes, muitas vezes invisibilizadas pela história oficial. A partir de uma
perspectiva descolonizadora, são apresentados exemplos de invenções, saberes e
práticas que revelam a riqueza científica dessas culturas, como a metalurgia africana,
os sistemas de irrigação, a medicina tradicional e as técnicas agrícolas. O estudo
contribui para reconhecer o protagonismo negro na construção do conhecimento e
valorizar saberes historicamente marginalizados.
Palavras-chave: Tecnologia africana; afrodescendentes; saberes tradicionais; ciência;
descolonização.
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SUMÁRIO
1.0 - INTRODUÇÃO………………………………………………………………………5
1.1 - DESENVOLVIMENTO……………………………………………………………6,7
1.2 - CONCLUSÃO………………………………………………………………………..8
1.3 - REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO………………………………………………9
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1.0 – INTRODUÇÃO
A ciência e a tecnologia, ao longo da história, foram comumente apresentadas como
criações exclusivas da civilização europeia, em um processo que marginalizou ou
apagou as contribuições de outras culturas. Esse processo, conhecido como
colonialidade do saber, é uma das heranças do colonialismo que ainda persiste nas
estruturas educacionais e científicas contemporâneas. A valorização quase exclusiva
do conhecimento ocidental contribuiu para a construção de uma narrativa única, que
invisibiliza as múltiplas formas de produzir conhecimento presentes em outras partes
do mundo, especialmente no continente africano e entre as populações
afrodescendentes nas Américas.
A África, berço da humanidade, é também o berço de inúmeros saberes e práticas
tecnológicas. Antes mesmo da colonização europeia, diversas civilizações africanas já
haviam desenvolvido técnicas sofisticadas de agricultura, metalurgia, arquitetura,
engenharia hidráulica, astronomia e medicina tradicional. Povos como os egípcios, os
iorubás, os ashantis, os povos do Mali e tantos outros, dominavam conhecimentos
avançados que foram, em muitos casos, apropriados, apagados ou desvalorizados
pelas narrativas coloniais.
No contexto da diáspora africana, principalmente a partir da escravização forçada de
milhões de africanos, esses saberes foram mantidos, adaptados e reinventados nas
Américas, contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento das sociedades
onde foram inseridos. Mesmo em meio à opressão e ao racismo estrutural,
comunidades afrodescendentes mantiveram práticas tecnológicas ligadas ao cultivo da
terra, à construção de moradias, à cura por meio de ervas medicinais, à culinária e à
preservação do meio ambiente.
Descolonizar o pensamento é, portanto, reconhecer a pluralidade dos conhecimentos
humanos e romper com a lógica que coloca o saber ocidental como único ou superior.
É revalorizar epistemologias marginalizadas, dar voz às histórias silenciadas e
promover uma educação que reflita a diversidade cultural e intelectual do mundo. Este
artigo tem como objetivo apresentar algumas das principais contribuições tecnológicas
e científicas africanas e afrodescendentes, refletindo sobre sua importância e os
motivos pelos quais foram historicamente excluídas do discurso oficial. Ao fazer isso,
pretende-se fomentar uma visão mais crítica, justa e inclusiva da ciência.
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1.1 – DESENVOLVIMENTO
Ao longo da história, diferentes civilizações africanas demonstraram profundo
conhecimento em diversas áreas da ciência e da tecnologia, mesmo antes do contato
com o Ocidente. Um exemplo notável é o Egito Antigo, que desenvolveu sistemas de
irrigação, construções monumentais como as pirâmides, técnicas de mumificação,
conhecimentos matemáticos e astronômicos avançados. Embora muitos desses feitos
tenham sido amplamente reconhecidos, o Egito é frequentemente desvinculado da
identidade africana em discursos eurocêntricos, como se os feitos daquele povo
pertencessem a outra civilização, separada do restante do continente. Isso revela uma
tentativa histórica de minimizar a contribuição africana à ciência global.
Além do Egito, outras civilizações africanas também demonstraram impressionantes
avanços tecnológicos. O Império do Mali, por exemplo, foi um grande centro de
conhecimento, com Timbuktu sendo lar de uma das mais importantes bibliotecas do
mundo antigo, abrigando milhares de manuscritos sobre matemática, astronomia,
medicina e direito islâmico. O Reino do Benin, localizado onde hoje é a Nigéria,
destacava-se por sua engenharia urbana e pela metalurgia do bronze, cujas técnicas
de fundição impressionaram até mesmo os colonizadores europeus. O ferro era
amplamente utilizado em regiões da África Ocidental, e evidências arqueológicas
mostram que os povos da região de Nok dominavam a metalurgia do ferro séculos
antes do desenvolvimento de técnicas semelhantes na Europa.
Esses saberes, muitas vezes considerados “tradicionais”, são provas de que a ciência
não é um patrimônio exclusivo do Ocidente. A tradição oral, os métodos empíricos de
observação da natureza, a aplicação de técnicas sustentáveis de manejo do solo e da
água, e o conhecimento medicinal sobre plantas, são formas legítimas de produção
científica que foram negligenciadas por não se enquadrarem nos moldes ocidentais de
validação acadêmica.
Com a diáspora africana causada pelo tráfico transatlântico de escravizados, muitos
desses conhecimentos foram trazidos para as Américas e adaptados às novas
realidades. Afrodescendentes no Brasil, no Caribe e em outros países das Américas
aplicaram seus saberes na construção de comunidades, na agricultura, na resistência
cultural e até na cura. Um exemplo importante está na medicina popular: o uso de
ervas, banhos, rezas e raízes, frequentemente associado à religiosidade de matriz
africana, é um legado direto da medicina tradicional africana. Muitas dessas práticas,
embora marginalizadas, foram fundamentais para a sobrevivência física e espiritual
das populações negras escravizadas.
Na agricultura, as técnicas de cultivo em terraços, o conhecimento sobre o ciclo das
chuvas, o plantio em consórcio e o uso de ferramentas específicas foram trazidos por
africanos e adaptados ao solo brasileiro, garantindo a subsistência e a manutenção de
suas comunidades. Além disso, conhecimentos sobre construção civil e arquitetura
também foram herdados de tradições africanas. A construção de casas de taipa, por
exemplo, reflete saberes africanos adaptados às condições tropicais da América.
Outro ponto relevante é o apagamento sistemático dessas contribuições. Durante
séculos, o racismo científico desvalorizou os saberes afrodescendentes, classificando-
os como superstição, folclore ou práticas inferiores. Essa marginalização se refletiu na
exclusão dos negros dos espaços formais de produção de conhecimento, como
universidades e centros de pesquisa. A partir do século XX, no entanto, com o avanço
dos estudos afrocentrados, das teorias decoloniais e do fortalecimento dos
movimentos negros, iniciou-se um processo de valorização desses saberes.
Pesquisadores como Cheikh Anta Diop, Molefi Kete Asante e Kabengele Munanga
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passaram a questionar a hegemonia eurocêntrica e a defender o reconhecimento das
contribuições africanas à humanidade.
Atualmente, discutir ciência e tecnologia africana e afrodescendente é um ato político,
pedagógico e reparador. Iniciativas como os quilombos contemporâneos, as
universidades africanas e os grupos de pesquisa sobre saberes tradicionais têm
buscado resgatar e atualizar essas práticas. No Brasil, programas educacionais
voltados à história e cultura afro-brasileira, como o cumprimento da Lei 10.639/03, são
passos importantes na valorização desses conhecimentos no currículo escolar,
embora ainda enfrentem desafios estruturais e resistências ideológicas.
Portanto, descolonizar o pensamento científico implica reconhecer que ciência não se
resume aos métodos e às referências europeias. É compreender que os povos
africanos e seus descendentes não apenas participaram da história da ciência, mas
foram e continuam sendo protagonistas em diversas áreas do saber. Ao dar
visibilidade a essas contribuições, rompe-se com estigmas e promove-se uma ciência
mais inclusiva, plural e verdadeiramente global.
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1.2 – CONCLUSÃO
A descolonização do pensamento científico exige um processo de reconhecimento e
valorização dos saberes e tecnologias desenvolvidos por povos africanos e
afrodescendentes, que ao longo da história foram sistematicamente silenciados e
marginalizados pela narrativa ocidental. Ao longo deste artigo, observamos que
civilizações africanas, como o Egito Antigo, o Império do Mali e o Reino do Benin, não
apenas dominaram práticas tecnológicas avançadas, como também estabeleceram os
alicerces para importantes descobertas científicas, muitas das quais influenciaram e
continuam a influenciar a sociedade global.
Além disso, as contribuições dos afrodescendentes na diáspora, especialmente nas
Américas, mostram como esses conhecimentos foram preservados, adaptados e
reinventados em contextos de opressão e resistência. A medicina tradicional, as
práticas agrícolas e as técnicas de construção civil são apenas alguns exemplos de
como a ciência de origem africana desempenhou um papel vital na construção das
comunidades negras ao longo dos séculos.
O apagamento histórico dessas contribuições é um reflexo de um processo de
colonização do saber que ainda perdura, mas a crescente valorização e
reconhecimento das epistemologias africanas e afrodescendentes, impulsionada por
movimentos decoloniais e afrocentrados, representa um passo fundamental na
construção de uma ciência mais inclusiva e representativa. Descolonizar o
pensamento não significa apenas rediscutir a história, mas também redefinir o próprio
conceito de ciência, reconhecendo sua pluralidade e diversidade.
Assim, ao reconhecer e celebrar as tecnologias e saberes africanos, é possível não
apenas corrigir injustiças históricas, mas também criar novas formas de engajamento
com a ciência, promovendo um mundo mais justo, equitativo e plural, onde todas as
contribuições, independentemente de sua origem, são respeitadas e valorizadas.
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1.3 – REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO
DIAS, Joelson dos Santos. Ciência e Tecnologia no Brasil: Uma análise crítica da
colonização do saber. São Paulo: Editora XYZ, 2019.
MUNANGA, Kabengele. A Descolonização do Pensamento: Ciência e Saberes
Afrocentrados. Rio de Janeiro: Editora A, 2018.
ANTOINE, Cheikh. História e Ciência: A África e suas contribuições à ciência mundial.
2ª ed. Salvador: Editora Afro, 2017.
ASANTE, Molefi Kete. Afrocentricity: The Theory of Social Change. Philadelphia:
Temple University Press, 2003.
GOMES, João Pedro. Saberes e Práticas de Resistência: A ciência afrodescendente
no Brasil. São Paulo: Editora Luso, 2020.
DIKOTLA, Tshepo. Tecnologias Africanas e suas Influências na América. In: Revista
Afrocentricidade, v. 5, n. 2, p. 55-72, 2016.
SANTOS, Boaventura de Souza. A Gramática do Tempo: Para uma nova cultura
política. 3ª ed. São Paulo: Editora Cortez, 2009.
COSTA, Luana Souza. A Ciência das Áfricas: Tecnologia, Cultura e Inovação. Belo
Horizonte: Editora Fórum, 2021.
CARNEIRO, Clara. Tecnologias Ancestrais Africanas e Afrodescendentes: Saberes e
Práticas no Cotidiano. Salvador: Editora AfroBrasil, 2018.
FARIA, Nilza Gomes. Educação e Cultura Afro-Brasileira: Saberes e Identidades. São
Paulo: Editora Pioneira, 2015.