CAPÍTUL
O 14
O critério
falsificacionist
a
Aires Almeida | Desidério
Murcho
Contra o verificacionismo
O filósofo Karl Popper foi um dos principais críticos da perspetiva verificacionista da ciência
defendida pelos positivistas.
Popper considerava o problema da demarcação um dos mais importantes problemas da
filosofia da ciência e opôs-se aos positivistas precisamente por pensar que o critério da
verificabilidade não resolvia o problema da demarcação.
Popper argumentou que não é possível verificar nem confirmar empiricamente os
enunciados ou proposições universais que encontramos nas ciências, pelo que também não
é a verificabilidade que permite distinguir as afirmações científicas das não-científicas,
como é o caso das previsões dos astrólogos (Popper recorria ao exemplo das especulações
metafísicas, que os positivistas diziam ser enunciados sem sentido).
O erro dos positivistas, diz Popper, é pensarem que a indução nos permite confirmar
empiricamente enunciados universais. Mas a indução não permite tal coisa, insiste Popper.
O Espanto 11 | Filosofia 11.º
ano
A verificabilidade não serve porquê?
Nada que lembre a lógica indutiva aparece no processo por mim
caracterizado. Nunca suponho que possamos sustentar a verdade de
teorias a partir da verdade de enunciados singulares. Nunca suponho que,
forçado por conclusões «verificadas», seja possível tomar como
«verdadeiras» ou mesmo como meramente «prováveis» quaisquer
teorias.
[...] A mais séria objeção que se pode fazer à conceção por mim
defendida é talvez a seguinte. Poder-se-ia dizer que, ao rejeitar o método
da indução, privo a ciência empírica daquilo que constitui,
aparentemente, a sua característica mais importante; quer dizer que
afasto as barreiras que separam a ciência da especulação metafísica. A
minha resposta a tal objeção é a de que a principal razão para eu rejeitar
a Lógica Indutiva consiste, precisamente, em ela não proporcionar o Karl Popper
conveniente sinal diferenciador do caráter empírico, não-metafísico, de (1902-1994)
um sistema teórico; por outras palavras, consiste em ela não proporcionar
um adequado critério de demarcação.
O Espanto
A Lógica da Pesquisa Científica 11 | Filosofia 11.º
ano
Testar teorias é tentar falsificá-las
A característica principal das teorias científicas não é, diz Popper, elas poderem ser
empiricamente verificadas, o que é logicamente impossível, mas antes o facto de elas
poderem ser empiricamente testadas.
Mas o que é isso de testar empiricamente teorias?
Testar uma teoria é pô-la à prova, isto é, confrontá-la com possíveis casos incompatíveis com
ela (contraexemplos).
Não se põe à prova uma teoria protegendo-a de possíveis contraexemplos para mostrar que
é verdadeira. Isso é o que os astrólogos procuram fazer com as suas teorias. Pelo contrário,
pôr à prova uma teoria é tentar refutá-la, isto é, tentar falsificá-la.
Assim, testar teorias científicas é procurar seriamente observar casos que a possam falsificar.
O Espanto 11 | Filosofia 11.º
ano
O critério falsificacionista da demarcação
Popper diz que o tipo de raciocínio lógico em que assenta a falsificabilidade é diferente da
lógica verificacionista: ao passo que basta observar um único caso incompatível com um
dado enunciado universal para provar que ele é falso, nenhuma quantidade de observações
compatíveis com esse enunciado permite provar que ele é verdadeiro.
Durante muito tempo pensou-se que todos os cisnes eram brancos porque, até então,
apenas tinham sido observados cisnes brancos. Porém, bastou encontrar um cisne que não
era branco para mostrar que o enunciado «todos os cisnes são brancos» é falso.
CRITÉRIO DA FALSIFICABILIDADE:
Uma teoria (enunciado ou proposição) só é é científica se for empiricamente falsificável.
Exemplo: a proposição de que todo o metal dilata sob a ação do calor é uma proposição científica por
podermos conceber casos observáveis (ou experiências) em que tal não acontece.
O Espanto 11 | Filosofia 11.º
ano
Graus de falsificabilidade
A característica fundamental das teorias científicas é, então, o facto de estarem sempre
abertas à possibilidade de refutação, isto é, estarem sujeitas à falsificabilidade. Isso não
acontece com as teorias pseudocientíficas (na astrologia, na psicanálise ou na homeopatia).
Há, contudo, graus de cientificidade, na medida em que a falsificabilidade é uma questão de
grau: certos enunciados são mais falsificáveis do que outros.
Quanto maior for o grau de falsificabilidade de um dado enunciado, mais cientificamente
interessante ele é. Um enunciado que não seja empiricamente falsificável, não tem
conteúdo empírico e, por isso, não dá qualquer informação sobre o mundo.
Assim, um enunciado é tanto mais falsificável quanto mais arriscado for, isto é, quanto mais
coisas proibir. Por exemplo, o enunciado «há extraterrestres inteligentes ou não há» é
cientificamente desinteressante, pois nada proíbe: é verdadeiro, aconteça o que acontecer.
Daí que não tenha conteúdo informativo, sendo cientificamente desinteressante.
O Espanto 11 | Filosofia 11.º
ano
Aplicando o critério da falsificabilidade
Eis o exemplo de uma previsão astrológica:
Os nascidos sob o signo de Virgem poderão ter dores de estômago na próxima
semana, se não tiverem cuidado com a alimentação.
Esta previsão é infalsificável, como é habitual nas pseudociências, pois nenhuma
observação permitirá mostrar que é falsa: se um nascido sob o signo de Virgem tiver dores
de estômago, então a previsão é verdadeira; mas, se outro não tiver dores de estômago,
então é porque teve cuidado com a alimentação, pelo que a previsão é verdadeira na
mesma.
Como descrever o grau de falsificabilidade dos seguintes enunciados?
Todo o metal dilata com o calor. [Falsificável em elevado grau, devido à quantidade de coisas que
proíbe.]
Todo o bronze dilata com o calor. [Falsificável, em menor grau do que a anterior.]
Nenhum mudo fala. [Infalsificável.]
Há plantas venenosas. [Infalsificável, como acontece com qualquer afirmaçãoOparticular.]
Espanto 11 | Filosofia 11.º
A órbita da Lua é elíptica. [Falsificável.] ano
Críticas ao critério falsificacionista
• A falsificabilidade é apenas condição necessária mas não suficiente para que um dado
enunciado ou teoria sejam científicos. Por exemplo, o enunciado «A Lua é feita de
queijo» é falsificável, embora claramente não seja científico. Como Popper não é claro
sobre quais são as condições suficientes, a falsificabilidade não permite, por si só,
demarcar adequadamente a ciência da não-ciência.
• Os cientistas não aplicam realmente o critério da falsificabilidade, pois acontece
frequentemente não abandonarem uma teoria que está a ser testada por se observar
que os resultados dos testes não estão de acordo com ela. Frequentemente fazem
ajustes na teoria para a tornar as observações compatíveis com ela em vez de a
considerarem refutada.
O Espanto 11 | Filosofia 11.º
ano
a seguir...
Há um método científico?
Sim: a conceção indutivista do método científico.
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