Conservadorismo e Cultura no Brasil Atual
Conservadorismo e Cultura no Brasil Atual
Inimigo a la izquierda:
Conservadurismo en Brasil y el origen de la
lucha contra la Cultura
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ISSN: 2175-8689
353
RESUMO
O presente artigo demonstra como o passado autoritário brasileiro, em particular as duas
décadas de regime militar (1964 – 1985), ecoa no presente e fomenta o crescimento da extrema-
direita no país. Investiga as estratégias digitais das correntes políticas mais conservadoras e
duas de suas principais influências: o projeto Orvil e a obra do autoproclamado filósofo Olavo de
Carvalho. Além disso, faz um diagnóstico da modulação brasileira da guerra cultural importada
dos EUA, com foco na midiatização da Lei Rouanet como estratégia da extrema-direita para
desacreditar a classe artística e desqualificar sua crítica, um expediente capitaneado por
parlamentares conservadores que se utilizam da retórica do ódio nas redes sociais digitais.
PALAVRAS-CHAVE: Autoritarismo; Cultura; Extrema-direita; Midiatização; Lei Rouanet.
ABSTRACT
This article demonstrates how Brazil's authoritarian past, in particular the two decades of
military rule (1964-1985), echoes in the present and fosters the growth of the far right in the
country. It investigates the digital strategies of the most conservative political currents and two
of their main influences: the Orvil project and the work of the self-proclaimed philosopher Olavo
de Carvalho. In addition, it makes a diagnosis of the Brazilian modulation of the cultural war
imported from the USA, focusing on the mediatization of the Rouanet Law as a strategy of the
extreme right to discredit the artistic class and disqualify its criticism, an expedient led by
conservative parliamentarians who use the rhetoric of hatred in digital social networks.
KEYWORDS: Authoritarianism; Culture; Far-right; Mediatization; Rouanet Law.
RESUMEN
Este artículo demuestra cómo el pasado autoritario de Brasil, en particular las dos décadas de
gobierno militar (1964-1985), resuena en el presente y fomenta el crecimiento de la extrema
derecha en el país. Investiga las estrategias digitales de las corrientes políticas más
conservadoras y dos de sus principales influencias: el proyecto Orvil y la obra del
autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Además, diagnostica la modulación brasileña de la
guerra cultural importada de [Link]., centrándose en la mediatización de la Ley Rouanet como
estrategia de la extrema derecha para desacreditar a la clase artística y descalificar sus críticas,
un expediente liderado por parlamentarios conservadores que utilizan la retórica del odio en las
redes sociales digitales.
PALABRAS CLAVE: Autoritarismo; Cultura; Extrema derecha; Mediatización; Ley Rouanet.
354
Introdução
A ascensão da extrema-direita no Brasil, na segunda década do século XXI,
pode ser considerada como um soluço na democracia do país, ao qual muitos creditam
o advento das plataformas digitais. No entanto, é temerário entender o surgimento ex
nihilo de tais ideologias no Brasil, já nos tempos contemporâneos. Forças políticas
opostas sempre disputaram ideologicamente a supremacia política de suas
respectivas épocas e, nesse sentido, é importante lembrar que o pensamento
conservador tem longa história no Brasil e ressurge em moldes parecidos, embora os
contextos sejam ressignificados. Por exemplo, o flerte do conservadorismo brasileiro
com o fascismo remonta ao crescimento dessa ideologia na Europa. Na década de
1930, a Ação Integralista Brasileira (AIB) ganhou as ruas e massificou o movimento
(Secco, 2022). Seu principal líder era o intelectual conservador Plínio Salgado. Sua
proposta política queria propor uma nova política:
[...] buscava romper as tradições da velha política com um discurso
autoritário, antiliberal, antidemocrático, anticomunista, baseado em
uma estrutura nacionalista e na concepção cristã radical e
conservadora. Esses elementos foram potencializados quando viu a
prática desse modelo na Itália, identificando caminhos para um novo
Brasil (Caldeira Neto; Gonçalves, p. 13, 2020).
Se os ideais ainda soam familiares nos dias de hoje, talvez seja porque o AIB
é considerado por estudiosos como o primeiro partido político de massa no Brasil
(Trindade, 1979; Schwarcz; Starling, 2018), destacando-se por adotar uma postura
corporativista, venerando lideranças políticas e buscando dominar o Estado. Além
disso, sua retórica antissemita ultrapassava o tom comum na sociedade brasileira da
época. O partido encontrava apoio entre diversos setores das classes médias urbanas,
incluindo funcionários públicos, padres, profissionais liberais, poetas, comerciantes e
industriais, bem como em áreas de colonização alemã e italiana. Nesse sentido,
Trindade (1979) aponta os apoios vitais da Igreja Católica e das Forças Armadas para
a manutenção da popularidade do grupo. Aliás, havia muitos integralistas dentro dos
batalhões e o movimento rapidamente ganhou força política, contribuindo ativamente
para o golpe que instituiu o Estado Novo, em 1937 (Trindade, 1979). Com grande
355
apoio popular e mais de 500 mil aderentes, o movimento continuou influenciando os
rumos do país:
Os integralistas eram tolerados pelas autoridades mesmo quando se
envolviam em ações ilegais e muitos foram oficiais superiores das
Forças Armadas que participaram ativamente do golpe de 1964 que
derrubou o Presidente de centro-esquerda João Goulart, embora ele
fosse um moderado (Secco, 2022 p.41).
356
eco de um passado que ainda se faz muito presente. Para compreender esse quadro,
a pesquisa se organiza metodologicamente enquanto uma investigação de abordagem
qualitativa e caráter exploratório1, que visa através da análise de documentos e
revisão bibliográfica entender como o conservadorismo da extrema-direita
desembocou em um ataque contra a Cultura. Nesse sentido, também são apresentados
exemplos de notícias extraídas de veículos digitais2 e publicações em sites de redes
sociais digitais que servem como pano de fundo dos embates gerados pela extrema-
direita sobre a Lei Rouanet.
É necessário lembrar que o Brasil viveu duas décadas sob o regime
autoritário das Forças Armadas, entre 1964 e 1985. Nesse período, além do recurso à
força bruta, incluindo tortura e assassinato (Arquidiocese de São Paulo, 1985), para
reprimir qualquer tipo de oposição à sua condução política, os militares e seus
asseclas recorreram ao revisionismo histórico e ao doutrinamento ideológico
(Figueiredo, 2011). Este é o caso, por exemplo, da publicação intitulada “Orvil:
tentativas de tomada do poder” (2012): “um projeto sigiloso do Exército brasileiro”
(Rocha, 2021, p.32), que hoje em dia está disponível na internet gratuitamente. Outro
exemplo é o amplo espaço concedido por décadas ao autointitulado filósofo Olavo de
Carvalho na grande imprensa corporativa. Comecemos pelo Orvil.
1 O Orvil
O livro (Orvil é livro ao contrário) é um documento produzido pelas Forças
Armadas brasileiras com o objetivo de servir de justificativa para o golpe militar de
1964. Na obra autobiográfica A Verdade Sufocada: a história que a esquerda não quer
que o Brasisl conheça, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do
Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna
(DOI-CODI), órgão responsável pela repressão durante o regime militar no Brasil,
descreve o Orvil “um trabalho minucioso, em que processos, inquéritos e documentos
1
Segundo Gil (2002), pesquisas exploratórias têm como objetivo o aprimoramento de ideias a partir da consideração de vários
aspectos do objeto estudado.
2 Destaca-se o fato de que não se trata, necessariamente, de grandes veículos de comunicação, mas espaços de reprodução do
pensamento de extrema-direita.
357
foram estudados e analisados” (Ustra, 2007. p. 10). O Orvil foi desenvolvido entre os
anos de 1985 e 1988, mas foi proibido de circular (Pedreti, 2021). A coordenação do
projeto foi do chefe do Centro de Informações do Exército (CIE) à época, o general
Sérgio Augusto de Avellar Coutinho. No entanto, o livro tem como organizadores o
tenente José Conegundes Nascimento e o tenente-coronel Licio Maciel. (Figueiredo,
2011). Segundo o jornalista Lucas Figueiredo, as versões ali descritas podem ser
consideradas revisionismo histórico e uma das principais teorias da conspiração
propagada pelas Forças Armadas:
Vista por uma potente lente de aumento, a realidade foi distorcida e
se transformou num fantasma assustador, que vagava pela história a
arrastar quatro correntes: 1) Quem havia sido contra o regime militar
era de esquerda; 2) Quem é de esquerda é comunista; 3) Quem é
comunista é perigoso; 4) Por intermédio do Movimento Comunista
Internacional (mais conhecido como MCI), Moscou, Pequim e Cuba
nunca desistiriam de colocar suas mãos peludas sobre o Brasil. Tendo
o anticomunismo como pano de fundo, o Orvil enveredava por
definições equivocadas. O golpe de 1964, por exemplo, não fora um
golpe, mas sim uma “revolução democrática” (Figueiredo, 2011, p.
78).
358
O sentimento anticomunista, portanto, desempenhou um papel crucial ao
fornecer uma justificativa ideológica para o golpe militar e para a manutenção do
regime ditatorial no Brasil por mais de duas décadas. A exploração desse medo
coletivo foi fundamental para a sustentação do autoritarismo e para legitimar a
violação dos direitos humanos e das liberdades democráticas durante esse período
sombrio da história brasileira, como explica Motta (2000):
359
há anos - Araújo considerava a Organização Mundial da Saúde
"globalista" e argumentou que o vírus, ao qual ele chamou de
"comunavírus", era um dispositivo ideológico de um "projeto
globalista" que levaria ao comunismo (Rocha; Solano; Medeiros,
2021, p. xiii, tradução nossa).
Rocha (2021) considera que a obra influencia a sociedade brasileira até hoje,
talvez hoje mais do que nunca, acreditamos. Seus argumentos inverossímeis tentam
justificar as práticas antidemocráticas que o país testemunhou nos últimos anos. É
inegável, no entanto que, apesar das suas contradições fundamentais, a ideologia do
Orvil esteve presente no Planalto, considerando a lógica de pensamento
implementada pelo governo de Jair Bolsonaro. Segundo inúmeros autores (Rocha,
2021; Prado, 2021; Lacerda, 2019; Figueiredo, 2009), as ideias presentes no Orvil
foram fonte de inspiração para ideólogos, como foi o caso de Olavo de Carvalho. Esse
se autointitulava filósofo e foi ideólogo do governo de Jair Bolsonaro.
2 Olavismo e guerra cultural
4
A entrevista concedida por Bolsonaro ao um canal de TV, em maio de 1999, está disponível no link do canal do Youtube:
[Link] Acesso em: 13 jul. 2023.
360
Para a devida compreensão dessa seção, apresenta-se dois conceitos que
norteiam a discussão: a compreensão do que é cultura e a noção de ideologia. Por
cultura, fala-se da esfera política — a Cultura, em letra maiúscula —, como também da
cultura presente no trabalho de Furtado (1984). Na perspectiva do teórico brasileiro,
“a cultura é o tecido do ser humano; ela reflete a forma como o homem vê o mundo e
a si próprio, determinando sua maneira de agir e de se relacionar com seus
semelhantes” (Furtado, 1984, p.15). Ele acredita que a cultura pode contribuir para a
construção de uma sociedade mais plural e que valoriza as diferenças. Por ideologia,
reflete-se a partir de Eagleton (1997), como uma questão discursiva, uma forma de
vida imaginada, um conjunto de crenças, valores e práticas sociais que as pessoas
assumem como verdadeiros e que lhes permitem dar sentido à realidade e orientar
suas ações no mundo. Ou seja, são mobilizações dos sistemas sociais em que os
indivíduos buscam moldar suas percepções de realidade.
Dito isso, é necessário abordar a forte conexão entre as diretrizes do Projeto
Orvil e os elementos retóricos que apoiam a agenda da Nova Direita brasileira para
começar a entender os valores que compõem o bolsonarismo e seu ataque à Cultura.
Num primeiro momento, é importante observar o papel desempenhado pelos
intelectuais na transmissão do sistema de crenças conservadoras. Um dos nomes mais
relevantes é o de Olavo de Carvalho. O trabalho de Carvalho é conhecido por ter um
“alinhamento cego com a narrativa conspiratória de Orvil” (Rocha, 2021, p.31). Ele é
um filósofo autoproclamado influenciado ideias de René Guenon, um dos fundadores
do Tradicionalismo, movimento intelectual muito influente da extrema-direita
contemporânea (Vasconcelos, 2022; Teitelbaum, 2020; Sedgwick, 2023). Carvalho
possui mais de 40 livros publicados, abrangendo diversos temas como Esoterismo,
Astrologia, Filosofia, Religião, Metafísica Oriental e Política, de acordo com seu
entendimento desses temas.
Carvalho se tornou uma das figuras mais influentes no governo de Bolsonaro,
e é frequentemente referido como o guru ideológico e o fundador intelectual da Nova
Direita brasileira. Carvalho dedicou-se a promover inúmeras teorias conspiratórias
sobre invasão comunista, Terra plana, geocentrismo, criacionismo e ciência falsa,
361
entre muitas outras ideias famosas e não tão conhecidas, que vão contra o senso
comum e o conhecimento acadêmico. Além disso, ele teve uma presença importante
nas redes sociais e projetou e ministrou um curso de filosofia para mais de 2.000 (dois
mil) alunos. Três de seus ex-alunos tornaram-se ministros no governo Bolsonaro:
Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Ricardo Vélez Rodríguez e Abraham Weintraub
(Educação).
Menos em seus livros e mais em sua presença nas redes sociais, Olavo de
Carvalho fomentou inúmeras ideias sobre teorias da conspiração estapafúrdias como
o uso de fetos abortados no refrigerante Pepsi5, terraplanismo6, além do menosprezo
e negacionismo em relação à pandemia de Covid-197, doença que o matou. Foram
inúmeras teorias disseminadas desde os primórdios das redes sociais. Desde 2004, na
plataforma Orkut, comunidades eram criadas para comentar as teorias olavistas e que
fomentavam assuntos conspiratórios. A jornalista Michele Prado explora o
crescimento da extrema-direita no Brasil em seu livro Tempestade Ideológica e expõe
alguma das ideias disseminadas pelo ideólogo:
Foi no Orkut que um nome começou a ganhar muito mais relevância
do que seus artigos em jornais lhe proporcionavam: Olavo de
Carvalho. Nas comunidades dedicadas ao filósofo, já se lia conceitos
que futuramente iriam permear todo o debate da direita nas redes
sociais. Em “Olavo nos Odeia”, comunidade criada dia 09 de junho de
2004, os seguintes tópicos já estavam presentes na descrição da
comunidade:
VOCÊ SABIA:
- A ONU apoia o terrorismo?
- Há uma conspiração comunista global e o movimento gay é parte
dela?
- A Lei da Inércia é falsa e Isaac Newton era burro?
- Há livros ensinando crianças a fazer sexo oral com elefantes?
- O Brasil hoje é uma ditadura comunista?
- A mídia apoia os gays para promover o controle populacional?
5 Postagem do Twitter: Anos depois de a Pepsi, sob chuva de denúncias, romper o contrato com o laboratório que usava fetos na
pesquisa de adoçantes, o mito "Olavo mentiu sobre a Pepsi" ainda se repete na porra da mídia como verdade inquestionável.
Disponível em: [Link] Acesso em: 21 fev. 2022.
6 Postagem do Twitter: Não estudei o assunto da terra plana. Só assisti a uns vídeos de experimentos que mostram a planicidade
das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute. Disponível em:
[Link] Acesso em: 21 fev. 2022.
7 Postagem do Twitter: O medo de um suposto vírus mortífero não passa de historinha de terror para acovardar a população e fazê-
362
- O marxismo nasceu do satanismo?
- Darwin é o pai do nazismo?
- A web foi criada para combater o ateísmo?
- O ser humano não precisa de cérebro para viver?
- O nazismo e FMI são de esquerda?
- Bill Clinton era um agente de Pequim?
- Os EUA entraram no Vietnã para perder?
- Há 40 milhões de comunistas no Brasil?
- Não há diferença genética entre humanos e chimpanzés na
gestação?
- O empresariado nunca se organizou politicamente?
- A ditadura foi branda e tinha eleições democráticas?
- Che Guevara invadiu Angola oito anos após a sua morte?
- O PT é responsável pela morte de 50 mil pessoas por ano?
- O general Geisel era comunista? [...] (Prado, 2021, p.22).
363
Tal lógica se assemelha com algumas das constituições ideológicas presentes
no Orvil. É preciso assinalar que a pavimentação ideológica criada por Olavo de
Carvalho no decorrer dos anos, através de todas as suas produções e posicionamentos
em redes sociais digitais, corresponde ao seu principal objetivo, que é colocar toda a
cultura brasileira contra a parede. Ele não concorda com os encaminhamentos pelos
quais o mundo ruma e, por conseguinte, menospreza ações empreendidas pelos
militantes, termo recorrente e que, para ele, representa uma porção populacional que
não tem capacidade reflexiva. A discussão presente no livro sobre a guerra cultural é
importante e necessária para o processo reflexivo deste artigo. O termo se refere ao
conflito entre diferentes visões de mundo e valores que se intensificou nos últimos
anos, especialmente no âmbito da cultura e das artes. Antes de mais nada, faz-se
necessário refletir sobre a origem desse conceito.
De acordo com Santos (2021), sua origem é controversa. Porém, “a expressão
se tornou popularizada através da publicação de ‘Culture Wars’, de James Davison
Hunter, em 1991” (Santos, 2021, p. 181). Pela interpretação do pesquisador, a obra
apresentava o embate entre duas visões de mundo antagônicas que dividiam a
sociedade dos Estados Unidos da América, uma progressista e outra conservadora, e
as discussões eram sobre questões sociais, políticas, econômicas e comportamentais.
O trabalho de Santos (2021) se debruça naquilo que ele denomina Retórica
da Guerra Cultural, pautada pela dicotomização a partir de uma diferenciação entre
duas polêmicas públicas, seguindo uma lógica maniqueísta, visando a aniquilação da
voz do adversário e, portanto, buscando ressaltar aspectos como o ressentimento,
ódio, inveja e ou indignação. (Santos, 2021, p. 219-222). Essa lógica impede o
estabelecimento de diálogos para formar pontes entre diferentes pontos de vista. O
objetivo é a não promoção da comunicação, ou seja, não ter debates.
Segundo Rocha (2021), essa guerra tem sido alimentada por uma série de
fatores, como a polarização política em redes sociais digitais, puxada por uma nova
extrema-direita, que busca impor suas visões e valores ao conjunto da sociedade,
utilizando-se de inúmeros subterfúgios discursivos, entre os quais destacamos a
sobrecarga de desinformação. Essa guerra cultural tem gerado um clima de
364
intolerância e destruição do diálogo e da convivência democrática, o que representa
uma ameaça à própria democracia brasileira. No Brasil, Olavo de Carvalho tornou-se,
talvez, o principal tutor ideológico dessa extrema-direita.
Ainda sobre a própria noção de “guerra cultural”, por se tratar de uma
expressão em disputa, é necessário apontar seus usos entre os conservadores e
liberais. De acordo com o Burke Instituto Conservador, através de texto de Ismael de
Oliveira Luz (2022), a definição de guerra cultural é entendida para além dos
discursos ideológicos, em uma apreensão parecida com a de Olavo de Carvalho. A
citação descrita abaixo parece um plágio grosseiro do pensamento de Gramsci sobre
o elemento cultural presente nas disputas pela hegemonia, dessa vez com tons
autoritários e com sinal invertido, no sentido do irracionalismo conservador:
Uma guerra cultural não é simplesmente um conflito entre discursos
ideológicos, não se trata de saber quem tem ou não tem razão
argumentativa. A guerra cultural é a conquista total e absoluta do
campo psicológico, imaginativo, intelectual e espiritual e somente
por meio de uma elevada estrutura simbólica e artística que seja
capaz de permear e preencher a alma humana nos seus mais
profundos recônditos é que uma cultura se sobrepõe e absorve uma
outra de menor valor simbólico. Uma guerra cultural é o “bom
combate” mencionado pelo apóstolo Paulo, aquele que se vence pela
manifestação tácita da luz. (Luz, 2022, n.p).
365
Figura 1 – Publicação de Olavo de Carvalho no Facebook
Fonte: captura de tela por uma das autoras a partir de publicação no Facebook, 20188.
8
CARVALHO, Olavo de. O que cai com a ascensão do Bolsonaro. [S. l.], 11 out. 2018. Facebook: [Link]. Disponível em:
[Link] Acesso em: 21 fev. 2023.
366
3 Midiatização da Lei Rouanet e desqualificação da classe artística
Antes de tudo, destaca-se como se compreende midiatização neste estudo. Do
ponto de vista comunicativo, a midiatização é um processo peculiar do tecido da
realidade social e é construído na e através dos processos comunicacionais, conforme
observamos em Couldry e Hepp (2013) e na leitura do trabalho deles feita por Lelo
(2021). Nessa perspectiva, ao discutir sobre o processo de midiatização de algum fato,
lida-se com a disseminação de informações sobre ele e a maneira como ele significa e
pode oferecer significados ao mundo.
Por vezes, um objeto ou acontecimento acaba passando por transformações
de sentido devido aos efeitos da midiatização. Apesar de se tratar de uma legislação
que data de 1991, ou seja, antes da chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) e de
Luiz Inácio Lula da Silva ao poder presidencial, a Lei Rouanet é encarada por seus
detratores de direita como uma criação comunista e petista que beneficiaria apenas
uma pequena parcela de artistas, que poderiam sobreviver e produzir seus conteúdos
artístico-culturais sem o auxílio do mecanismo.
Ao que parece, a tentativa de criar um estado de angústia e aflição em relação
a Lei de Incentivo à Cultura — outro nome como é conhecida a lei — teve o objetivo
de estremecer uma das supostas bases de apoio ao PT, dentro da narrativa
bolsolavista. Os questionamentos sobre a Lei Rouanet não sugestionaram uma
mudança em prol da democratização dos recursos financeiros. A retórica do ódio
impressa na lógica bolsolavista contra o setor cultural brasileiro é ideológica. Tratou-
se de uma guerra cultural em que os que representam a extrema-direita deveriam se
consagrar como os vencedores.
No entanto, como parte das lógicas que parecem não fazer sentido, chamadas
de dissonâncias cognitivas por Rocha (2021), a realidade se torna de difícil apreensão
por parte da extrema-direita. A partir de matéria, publicada pela Agência Estado9, isso
é notável quando se leva em consideração que o responsável pela Lei Rouanet na
9Agência Estado. Rouanet é lei benéfica, afirma secretário nacional de Fomento e Incentivo à Cultura. Itatiaia, Belo Horizonte, 12
jan. 2020. Disponível em: [Link] Acesso em: 22 fev.
2023.
367
época do governo de Jair Bolsonaro, o secretário de Fomento e Incentivo à Cultura,
Camilo Calandreli, aponta como certos casos deram uma imagem negativa para a Lei
Rouanet. Ao fazê-lo, porém, ele acreditou que a Lei Rouanet era um sucesso e que o
movimento conservador deveria abocanhar tais recursos federais. É importante frisar
que, independentemente de qual seja o governo em vigor, a Lei de Incentivo à Cultura
está disponível para todos aqueles que submetem seus projetos culturais e devem
aguardar aprovação para a captação de recursos.
É importante lembrar também que a Lei Rouanet foi fortemente atacada
através de diferentes meios pelo discurso bolsolavista e seus apoiadores. A
midiatização da Lei Rouanet foi um processo pelo qual, através de diferentes aparatos
de comunicação, a legislação foi vilanizada e tratada como um problema a ser
solucionado. Com a ascensão ao poder, tal ódio é ressignificado e transformado em
justificativa para que haja mais projetos culturais ligados ao conservadorismo da
extrema-direita, como se pode identificar através do chamamento realizado pelo
então secretário Calandreli.
Da mesma maneira, em uma publicação no Facebook, Olavo de Carvalho
expressa sua insatisfação ao saber que a turma esquerdista havia dito que o cineasta
Josias Teófilo havia obtido dinheiro junto da Agência Nacional do Cinema (Ancine)
para fazer um filme sobre Bolsonaro. Em tom de correção, ele disse que o filme não
era sobre Bolsonaro e que a Ancine não iria dar nenhum dinheiro, mas que o cineasta
teria autorização legal para obter patrocínio. Olavo de Carvalho havia descrito o
mecanismo da Lei Rouanet sem tomar conhecimento em sua publicação, conforme
Figura 2.
Figura 2 – Publicação de Olavo de Carvalho no Facebook falando sobre
financiamento de filme.
368
Fonte: captura de tela elaborada por uma das autoras no Facebook, 201810.
Fonte: captura de tela elaborada por uma das autoras a partir de GZH11.
Ao contrário do que se pode sugerir, uma vez que a Cultura é constantemente
atacada, ela ocupa um lugar central das discussões da extrema-direita. O conceito de
guerra cultural, empregado pelos membros desse grupo político, visa opor dois
grandes grupos, um progressista e outro conservador, para que apenas um deles se
sobreponha como pensamento vencedor. A lógica aplicada a tal processo se baseia na
10 CARVALHO, Olavo de. A turma esquerdista espalhou que o Josias Teófilo estava embolsando dinheiro da Ancine para fazer um
filme sobre o Jair Bolsonaro. [S. l.], 27 jul. 2019. Facebook: [Link]. Disponível em:
[Link] Acesso em: 22 fev. 2023.
11 PABLLO Vittar beneficiada pela Lei Rouanet? Veja essa e outras 5 notícias falsas sobre a cantora. GZH, [S. l.], 27 dez. 2017.
369
competição presente no neoliberalismo econômico. A ideia é que através da
competição é possível garantir que as pessoas possam melhorar suas capacidades e
garantir que os melhores consigam fazer a sociedade progredir (Dardot; Laval, 2016).
O trabalho Dardot e Laval (2016) avança nas discussões sobre os impactos do
neoliberalismo na sociedade contemporânea. Graças à tal contribuição, é possível
esboçar certos encaminhamentos no que diz respeito às proposições narrativas que
estão em disputa na contemporaneidade. Através do espírito de batalha empregado
pela guerra cultural, o massacre de quem não é visto nem como humano ou tendo
capacidade de viver é quase inevitável. São empregados termos que tornam amorfa a
percepção dos indivíduos envolvidos que estão do outro lado.
Numa perspectiva democrática, na batalha das ideias a luta envolve sempre
diversos grupos que estão tentando compor alianças, através da tentativa de criação
de consensos. Trata-se de um processo que privilegia o diálogo e está aberto aos
indivíduos pertencentes a grupos distintos. Dessa forma, não é um processo de
exclusão, mas de inclusão. São estabelecidos elos que podem recompor os lados
envolvidos em outra forma que possa servir tanto um lado quanto o outro.
Em compensação, a força empregada pelos membros da política da extrema-
direita brasileira representa outro estilo de pensamento. Há a imposição de seus
valores e costumes para que sejam impregnados em toda a sociedade, de maneira
indiscriminada. Há um objetivo nítido com tal ação: replicar suas crenças e aniquilar
a existência do contraditório.
Quando se fala em aniquilação, esse é o termo mais correto para ser
empregado. É possível reconhecer através de expressões como turma esquerdista ou
quando Olavo de Carvalho diz que “os representantes do atual esquema de poder não
podem aceitar uma derrota de maneira alguma, porque não será só uma derrota, será
a sua total destruição enquanto grupos, enquanto organizações e até enquanto
indivíduos”, (Facebook, 2018, n.p.), conforme visto nas capturas de tela acima.
A derrota do grupo rival significa, nesse sentido, o grande triunfo. É uma
espécie de briga infantilizada motivada por satisfações prazerosas momentâneas, mas
carregada de ameaças de assassinato. Tanto a estigmatização de um grupo complexo
370
através de termos pejorativos quanto a catarse produzida por um massacre subjetivo
demonstram o viés violento presente na retórica do ódio bolsolavista (Rocha, 2021).
Ainda retomando os ditos já citados de Olavo de Carvalho no Facebook
(2018), a esquerda vista como ameaça comunista não está lutando pelo poder nem para
vencer uma eleição, está lutando pela sua sobrevivência política, social, econômica e
até física. O deleite do ideólogo bolsonarista está na possibilidade de não existência
de todos aqueles que ele enxerga como adversários. É uma ficção de uma realidade
não vivida, mas fabricada através de suposições alucinantes que tentam produzir um
sentido orientado para a violência.
Em relação à fala da derrota da dita esquerda nas eleições de 2018
representar a aniquilação de todo um conjunto de vidas, talvez isso se relacione aos
acontecimentos ocorridos em janeiro de 2023. Uma semana após a posse do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1º de janeiro de 2023, após vencer as eleições
presidenciais de 2022, emergem em Brasília hordas armadas e com a intenção de
destruir o patrimônio do Planalto, com ampla cobertura da imprensa nacional12, e
internacional13 que classificaram as ações como antidemocráticas e terroristas.
Os atos antidemocráticos foram realizados no dia 8 de janeiro de 2023,
motivados pela insatisfação de certos grupos apoiadores do então presidente Jair
Bolsonaro, derrotado nas eleições presidenciais do ano anterior. Diante de narrativas
criadas a partir de desinformações em escala massiva, que, por exemplo, apontam
para supostas fraudes eleitorais, negadas posteriormente14, tais indivíduos
acreditaram ter razões para depredar o patrimônio público federal. Se, até então, a
violência era apenas simbólica, vinculada ao subjetivo, naquele momento se tornou
concreta. Apenas quando a crueldade se torna explícita torna-se possível se dar conta
das problemáticas envolvidas através do discurso de ódio. A guerra cultural da
12 G1. Terrorismo em Brasília: o dia em que bolsonaristas criminosos depredaram Planalto, Congresso e STF. G1, Brasília, 8 jan.
2023. Disponível em: [Link]
[Link]. Acesso em: 10 abr. 2024
13 NICAS, Jack; SPIGARIOL, André. Bolsonaro Supporters Lay Siege to Brazil’s Capital. The New York Times. Rio de Janeiro;
371
extrema-direita é literalmente bélica: um dos lados deve ser exterminado para que o
outro possa governar sem oposição.
Precisamos recordar a fala de Olavo de Carvalho quando ele diz que a derrota
é a total destruição de indivíduos de um determinado grupo. Torna-se, assim,
perceptível que sua intenção é promover um caos cognitivo por meio do medo da
aniquilação. Só que esse medo orienta não apenas o grupo que está sendo alvo de seu
ataque. Ele afeta também o grupo do qual faz parte, uma vez que dele surge um
instinto de sobrevivência para encarar problemas futuros. Um exemplo desses
problemas é justamente a derrota nas eleições presidenciais de 2022.
Com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, a ameaça comunista reaparece e
reacende a chama de apreensão sobre o que virá a seguir. A angústia é, então,
exprimida através de atos violentos, vândalos e antidemocráticos. Realizar tal ato
significa reafirmar um ponto de vista que deve se sobrepor a qualquer outro, sem
possibilidade de coexistência: o autoritarismo em sua forma viva.
Surge então um questionamento: por que a narrativa da extrema-direita
política brasileira é tão brutalmente vinculada à retórica do ódio? Com a tomada do
poder, não haveria a possibilidade de pavimentar outros caminhos ligados a
promoção de consensos entre os diversos setores da população? Em uma resposta
curta, o conceito de guerra cultural empregado pelo bolsolavismo encarcera outras
perspectivas possíveis. Afinal, o extermínio (simbólico ou físico) é o propósito final.
Considerações Finais
372
próprias vidas. Dessa maneira, a crítica não se debruça propriamente sobre as
fragilidades da legislação, notadamente imbuída da lógica neoliberal e que não
consegue coibir as desigualdades regionais no que diz respeito aos financiamentos
público. A crítica é à própria forma pela qual a cultura moderna e contemporânea se
desenvolveu no Brasil urbano: como questionamento sistemático, tendencialmente
pluralista, do caráter dogmático dos valores e costumes conservadores.
A tentativa de fixação da Lei Rouanet como sendo um projeto encabeçado
pela esquerda é promovida pela extrema-direita através da reprodução excessiva do
processo de sua midiatização. É importante recordar que a legislação data do ano de
1991, sancionada pelo então presidente Fernando Collor de Mello, sendo o nome da
lei uma homenagem ao seu secretário da cultura à época, Sérgio Paulo Rouanet. É
fundamental frisar que Collor de Mello fez parte do partido dos militares na época da
ditadura, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), e em sua carreira política esteve
sempre ligado ao espectro da direita.
Tais informações são importantes para a realização de uma crítica que descole
as intenções de composição narrativa empreendidas pela extrema-direita em
configurar a Lei Rouanet como uma lei da esquerda. Essa foi a forma encontrada pelos
apoiadores do governo Bolsonaro em construir uma situação para responsabilizar o
setor cultural de acusações que lhe são impingidas, na maioria das vezes infundadas.
A centralidade da Cultura como lugar político imprescindível para a extrema-
direita encontra-se em uma dupla relação. Em primeiro lugar, como lugar a ser
conquistado e imposto. As regras e costumes ditos conservadores devem se sobrepor
a toda construção feita em governos progressistas anteriores. A luta é ideológica,
nesse sentido. Baseados no conceito de “guerra cultural”, para a garantia daquilo que
não foi conquistado em outros tempos autoritários, deve ser assegurado através do
massacre existencial da esquerda. Em segundo lugar, a Cultura também é encarada
como um lugar ainda não ocupado. Nas perspectivas reducionistas empregadas por
indivíduos que fazem parte da extrema-direita, era impossível, ou ao menos
complicado, acessar recursos da Lei de Incentivo à Cultura, visto que muitas das ações
que tinham o dinheiro vindo da renúncia fiscal eram considerados de esquerda.
373
Dessa forma, deixa-se de perceber a Cultura como uma área que precisa de
políticas públicas, necessariamente, como qualquer outra, e ela começa a ser encarada
como o centro da guerra cultural. Nesse sentido, o discurso bolsolavista buscou
reforçar constantemente características ruins vinculadas à Lei Rouanet. Ao colocar
em pauta o uso indevido ou não de dinheiro público por certas pessoas e instituições,
não se questiona o modelo de política cultural. Assim, o problema não está no modelo
neoliberal da política cultural da Lei Rouanet, mas na suposta falta de acesso pelos
conservadores. A falta de democratização do acesso aos recursos, de maneira
generalizada e, principalmente, aos pequenos e médios agentes culturais não era o
cerne do questionamento.
Contudo, os ataques frequentes ocorridos através da midiatização da Lei
Rouanet significaram a importância dessa área aos planos do governo bolsonarista. A
mobilização feita através de narrativas que foram assimiladas por boa parte da
população representou um grande ganho para a extrema-direita. O sucesso da
polarização nacional em que, de um lado, tem-se apoiadores de ex-presidente Jair
Bolsonaro e, de outro, apoiadores do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
significa uma importante vitória na produção de sentido empreendida pela retórica
do ódio.
A retórica do ódio alterou os sentidos da produção da vida cotidiana de
pessoas que encaram a realidade não em sua totalidade, ou seja, percebendo o que
está por trás das relações sociais estabelecidas. O principal é aquilo que as afeta de
maneira a reagir perante o mundo de estigmas que as cerca. Nesse processo
imediato e irrefletido, o mais importante é a permanência de certo sentido que
orienta suas vidas. O contraditório se torna inútil para a compreensão de si mesmas.
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