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Normas de Conflito no Direito Internacional

O Direito Internacional Privado (DIP) é fundamental para resolver conflitos de leis em situações transnacionais, utilizando normas de conflito que determinam qual legislação aplicar. O documento analisa a estrutura e função dessas normas, explorando conceitos como unilateralismo e integração de lacunas normativas, além de discutir a aplicação da lei no tempo e no espaço. A importância do DIP reside em promover justiça e previsibilidade nas relações privadas internacionais.
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Normas de Conflito no Direito Internacional

O Direito Internacional Privado (DIP) é fundamental para resolver conflitos de leis em situações transnacionais, utilizando normas de conflito que determinam qual legislação aplicar. O documento analisa a estrutura e função dessas normas, explorando conceitos como unilateralismo e integração de lacunas normativas, além de discutir a aplicação da lei no tempo e no espaço. A importância do DIP reside em promover justiça e previsibilidade nas relações privadas internacionais.
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1.

Introdução

O Direito Internacional Privado (DIP) emerge como um campo essencial na intersecção entre
diferentes sistemas jurídicos, visando resolver conflitos de leis que surgem em situações com
elementos transnacionais. As normas de conflito desempenham um papel crucial nesse contexto,
uma vez que determinam qual legislação deve ser aplicada em casos que envolvem partes ou fatos
de diferentes jurisdições. A natureza e estrutura dessas normas são complexas, refletindo a
diversidade cultural e legal dos Estados, e sua função é garantir segurança jurídica e previsibilidade
nas relações privadas internacionais. Neste trabalho, exploraremos a natureza das normas de
conflito, abordando conceitos como unilateralismo introverso e extroverso, além da integração de
lacunas normativas. Também discutiremos a aplicação da lei no tempo e no espaço, considerando
como essas variáveis influenciam a resolução de disputas internacionais. Ao longo do texto, será
enfatizada a importância do DIP na promoção da justiça e da equidade nas relações
transfronteiriças.

1
2. Objetivos

2.1 Objetivos gerais

1. Analisar a natureza e estrutura das normas de conflito no âmbito do Direito Internacional


Privado.

2. Investigar as funções das normas de conflito na resolução de litígios internacionais.

3. Compreender os conceitos de unilateralismo introverso e extroverso e sua relevância nas


normas de conflito.

4. Examinar a integração de lacunas normativas e a aplicação da lei no tempo e no espaço.

2.2 Objetivos específicos

1. Definir as principais características das normas de conflito e sua classificação.

2. Avaliar o impacto do unilateralismo nas relações jurídicas internacionais.

3. Identificar as formas de integração de lacunas normativas no contexto do DIP.

4. Analisar casos práticos que ilustrem a aplicação das normas de conflito em diferentes jurisdições.

2
3. NATUREZA DAS NORMAS DE CONFLITO

3.1 Desenho geral da regra de conflito

O Direito Internacional Privado enquanto direito de conflitos, não pretende regular


directamente as relações privadas internacionais: limita-se a indicar as ordens
jurídicas estaduais que hão-de reger essas relações. É principalmente através da regra
de conflitos que ele se desempenha dessa tarefa.

As normas de conflitos têm uma estrutura baseada na previsão e na estatuição, não


existindo sanção.

A regra de conflitos destaca um elemento da situação de facto susceptível de apontar


para uma, e apenas uma, das leis em concurso. Este é o elemento de conexão. Mas
importa notar três coisas:

1) Que a mesma situação de facto pode suscitar diferentes questões jurídicas;

2) Que um concurso ou conflito de leis ou de normas só se verifica quando pretendam


aplicar-se à mesma questão de direito normas de conteúdo diferente;

3) Que a conexão mais apropriada para determinar a lei aplicável a um certo tipo de
questão ou matéria jurídica pode não ser a melhor para determinar a lei competente
para reger outra matéria ou questão jurídica.

Os preceitos estatuídos no Código Civil na parte reservada aos estrangeiros são


normas de conflito que visam dirimir conflitos de leis. As normas de conflito do
Código Civil não apresentam qualquer tipo de solução para a resolução do caso mas
indicam qual o ordenamento jurídico que irá regular o caso.

As normas de conflito são normas que regulam as relações inter-individuais


atravessadas por fronteiras.

O que caracteriza as normas de conflito é o facto de ser uma norma de


regulamentação indirecta, isto é, uma norma que regula relações inter-individuais por
designação de uma ou várias ordens jurídicas para nessa ordem jurídica encontrar a
regulamentação da situação privada internacional. As normas de conflito são normas
de remissão.

Quanto à natureza das normas de conflito, tem-se dois tipos consoante a sua fonte: ou
provêm do direito internacional, se são formuladas por órgãos internacionais; ou
provêm de normas de direito interno formuladas pelos próprios Estados com vista a

3
regular interesses dos particulares.

4. Conceito quadro

Este conceito circunscreve a questão ou matéria jurídica específica para a qual a regra
de conflitos aponta a conexão decisiva e, mediante esta, a lei competente; tal conceito
aparece expresso, em regra, pela fórmula designativa de um dos grandes capítulos ou
institutos do sistema do direito privado e, por isso, recebe também o nome de
"conceito sistemático".

Há várias concepções acerca do conteúdo da categoria de conexão, ou seja, sobre o


objecto imediato da sua referência.

Segundo uma delas, o conceito quadro designaria a relação jurídica.

Uma segunda concepção considera que o conceito quadro se refere directamente a


uma relação ou situação da vida, isto é, a puros factos ainda não juridicamente
qualificados.

Segundo uma outra concepção, a norma de conflitos referia no seu conceito quadro
uma questão jurídico-privada.

Uma última teoria entende que o conceito quadro designa e circunscreve um certo
grupo, classe ou categoria de normas materiais. Suposta uma situação da vida
coligada a determinado ordenamento através de certo elemento de conexão, a
aplicabilidade das normas que nesse ordenamento regulam tal situação depende de
elas terem certa natureza ou pertencerem a certa categoria - a categoria que
corresponde a tal conexão ou título de chamamento.

Para nós, o conceito quadro da regra de conflitos não circunscreve pressupostos de


facto, não recorta elementos ou dados de facto juridicamente relevantes; mas que é,
antes; à norma aplicável, e só a ela, que compete dizer quais são os factos
juridicamente relevantes. Tanto mais que a definição dos elementos de facto
jurídico-materialmente relevantes depende de um juízo de valor jurídico-material que
só a lei material competente cabe proferir.

O conceito quadro duma regra de conflito, serve para designar ou circunscrever o tipo
de matérias ou de questões jurídicas dentro do qual é relevante ou decisivo para a
fixação da lei competente, o elemento de conexão a que a mesma regra de conflitos se
refere.

4
5. Elementos de conexão

a) Estrutura das normas de conflito

Previsão: o próprio objecto das normas de conflito. Colocação de um problema,


porque para se proceder a uma aplicação rigorosa da ordem jurídica competente, é
necessário proceder à "depecage" ou desmembramento da situação jurídica em causa.

A estatuição: dá-se por via do elemento de conexão, o qual pode revestir várias
modalidades.

b) Modalidades de conexão

1) Conexão simples ou singular: existe quando a norma de conflito aponta para uma
única ordem jurídica por via de um só elemento (ex.: arts. 30°; 33°/1; 46°/1 CC);

2) Elementos de conexão múltipla: quando as normas de conflito apresentam vários


elementos de conexão:

i) Conexões sucessivas ou subsidiárias: está-se perante duas ou mais elementos da


conexão os quais só se irão aplicar caso falhe os anteriores (ex.: art. 52°/1 e 2 CC);

ii) Conexão alternativa: prevê várias conexões como possíveis, mas apenas uma vai
ser aplicada com vista à obtenção do resultado (ex.: art. 65°/1 CC);

iii) Conexão cumulativa: vai-se aplicar duas leis pessoais simultaneamente, ou seja,
aplicam-se ambas (ex.: art. 33°/3 e 4 CC);

iv) Conexão condicional: quando o segundo elemento de conexão chamado para


regular o caso vai limitar a aplicabilidade da primeira lei (ex.: art. 55°/2 CC).

6. Classificações possíveis dos elementos de conexão

1º) Classificação:

a) Elementos pessoais:

Nacionalidade;

Outros elementos pessoais: residência habitual ou domiciliária, paradeiro, etc.

b) Elementos de conexão do objecto de interesse ou elementos de conexão reais: lugar


da situação da coisa (ex.: art. 46°/1 CC), lugar da prática do facto (art. 45°/1 CC).

5
2°) Classificação

a) Conexão móvel ou variável: aqueles elementos de conexão que poderão sofrer


alterações (ex.: nacionalidade, residência habitual);

b) Conexão de coisas imóveis ou invariáveis: fixam um momento em concreto e de


nenhum modo se pode alterar (ex.: lugar da celebração do acto).

Há casos em que se pode imobilizar um elemento de conexão móvel, art. 53° CC:
elemento de conexão móvel é a lei nacional dos nubentes e este elemento é
imobilizado "ao tempo da celebração do casamento".

Há casos em que, se consegue fixar o momento da determinação de um elemento de


conexão móvel, art. 55°/1 e 52° CC: elemento de conexão móvel é a lei nacional mas o
indeterminismo reside no facto de não se saber quando é que se irá determinar a lei
nacional dos cônjuges

3°) Classificação

Estatuto suspenso: o elemento de conexão é fixo ou imóvel, mas em termos tais que o
seu conteúdo apresenta-se temporariamente indeterminado (ex.: art. 62° CC).

Sucessão de estatuto: quando se verifica a existência de sucessões de leis aplicáveis


em consequência de uma alteração do elemento de conexão utilizado quando existe
duas sucessões que sucedem no tempo[8].

O problema da sucessão de estatutos verifica-se pela existência de sucessão de leis


aplicáveis em consequência de uma alteração do conteúdo concreto do elemento de
conexão utilizado pela norma de conflito.

[5] Que corresponde ao próprio objecto da norma de conflito.

[6] Indica qual a ordem jurídica em referência para regular materialmente a questão e
é nesta estatuição que se encontra o elemento de conexão.

[7] Leis interessadas.

[8] Art. 29° CC- uma vez maior sempre maior - art. 65° CC-uma vez capaz, sempre
capaz.

7. O problema da função da norma de conflitos: as Doutrinas Bilateralistas e Unilateralistas

Quando falamos das funções do DIP fizemos questão de em linhas gerais avançar também aquela
que é a função da norma de conflitos. Cumpre, em sede deste subtema, referir que, a doutrina não

6
tem caminhado de mãos dadas quanto a este assunto, sendo por isto mesmo de capital importância
expormos aqui as concepções ou as posições que a doutrina tem vindo a consolidar face a esta
questão da função da norma de conflitos.

Porém, é importante sabermos o que são normas de conflitos em DIP para melhor avançarmos. As
normas de conflitos são disposições (comandos) jurídicas gerais e abstratas constituídas, de um
ponto de vista estrutural, por um conceito quadro (que delimita/determina o instituto jurídico, o
dado normativo, a categoria jurídica, a questão jurídica) e por um elemento de conexão (que
contém a situação de facto susceptível de estabelecer a ligação entre os ordenamentos jurídicos e as
relações jurídico-privadas, e que determina ou indica, por via desta, a lei efectivamente competente
para reger a situação ou relação, ou para sermos mais coerentes, determinado aspecto duma relação
jurídico- privada internacional).

Quando se fala da função da regra de conflitos a pergunta que se põe é a de saber se a regra de
conflitos tem uma função unilateral ou uma função bilateral. Por outras palavras, e de modo mais
simplista, se a regra de conflitos tem como função apenas definir o âmbito de aplicação do
ordenamento jurídico material do foro ou se apenas determinar a aplicação dos direitos ou
ordenamentos jurídicos materiais estrangeiros ou então de ambos? Quanto a este particular a
doutrina responde a estas questões de duas formas: uma, por via das chamadas doutrinas
bilateralistas e, outra, pelas chamadas doutrinas unilateralistas.

8 . As Doutrinas Bilateralistas

Em tese geral, as doutrinas bilateralistas são aquelas que entendem que a função da regra de
conflitos é a de determinar tanto a aplicação do direito material do estado do foro, quanto do direito
material estrangeiro, ou seja, delimita quer o âmbito de competência dum, como de outro. É este o
seu pressuposto fundamental. Esta corrente ou doutrina tem duas variantes fundamentais: a variante
tradicional e a variante moderna.

A chamada variante tradicional ou concepção tradicional entende que a regra de conflitos tanto se
refere ao ordenamento jurídico material do foro, quanto aos ordenamentos jurídicos materiais
estrangeiros, só que no que tange a aplicação da lex materialis fori, até mesmo nas relações
puramente internas, este direito material só seria de aplicar se uma norma de conflitos lhe
reconhecesse competência.

Esta concepção tradicional foi ultrapassada pela concepção moderna do bilateralismo que, apesar
de partir do mesmo pressuposto, ou seja, de que a regra de conflitos tanto pode designar como
aplicável o ordenamento jurídico do foro, como qualquer ordenamento jurídico estrangeiro, defende
que, no que toca a aplicação da lex materialis fori, a norma de conflitos só interviria nos casos
absolutamente internacionais (situações que têm contacto com mais do que um ordenamento
jurídico), e porquê? Porque estas são as únicas situações que suscitam conflitos de leis no espaço.
Nestes termos, a norma de conflitos não deve intervir quer nos casos puramente internos (em que a
lei do foro seria aplicável directamente, ou seja, de per si), nem as situações relativamente

7
internacionais, e acrescentamos, por força do princípio
universal de justiça.

Qual é então a diferença entre estas duas concepções ou variantes?

No primeiro caso, a concepção tradicional entende a norma de conflitos como o ponto de partida
absoluto de todo o DIP, isto é, uma norma material só se aplicaria se uma norma de conflitos lhe
atribuir competências, e isto aplicar-se-ia até mesmo nas situações puramente internas. Só se
aplicaria o direito material do foro se uma norma de conflitos lhe atribuísse competência. A
concepção moderna obviamente dá um passo qualitativo importante e vem dizer que é verdade que
a função da norma de conflitos é tanto a de chamar o direito interno do foro, quanto direito
estrangeiro, mas esta norma só intervém quando estejamos perante verdadeiros conflitos de lei, isto
é, só nas chamadas relações absolutamente internacionais. E porquê? Porque nas relações
puramente internas, ou se quisermos, nesse caso só estamos a falar das puramente internas porque
estamos a falar da aplicação do direito material do foro, não há necessidade de haver uma norma de
conflitos a chamar o direito material do foro e porquê? Porque: primeiro, não há nenhum conflito de
leis a dirimir, segundo, porque a situação só está em contacto com o direito interno do estado do
foro, logo, ao abrigo do princípio básico do direito segundo o qual uma lei só se aplica a factos com
os quais tenha estado em contacto, só se pode aplicar a essa situação o direito interno do foro, assim,
a aplicação da lei material do foro nestes casos decorre deste princípio de direito e não já de uma
norma de conflitos.

9. As Doutrinas Unilateralistas

As doutrinas unilateralistas entendem basicamente que a regra de conflitos tem uma função única:
delimitar o âmbito de aplicação do direito interno do estado do foro (directa ou indirectamente).
Ora, estas doutrinas unilateralistas têm também duas variantes que vamos aqui esmiuçar: chamada
variante extroversa, ou seja, a doutrina unilateralista extroversa ou unilateralismo extroverso e a
chamada variante introversa, doutrina unilateralista introversa ou unilateralismo introverso.
O que é que o unilateralismo extroverso entende como sendo a função da regra de conflitos? Para os
autores que a defendem, como ROBERTO AGO, ANZILOTTI e grande parte da escola italiana, a
única função da regra de conflitos é a de chamar para a regulamentação dos factos da vida jurídica
externa um determinado direito material estrangeiro, delimitando assim indirectamente o âmbito de
aplicação da lex materialis fori, ou seja, da lei interna do estado do foro. ROBERTO AGO diz
mesmo que a função da regra de conflitos é a de inserir direito estrangeiro no ordenamento interno,
ou seja, nacionalizar o direito estrangeiro. Ora bem, e porquê que se afirmou delimitação indirecta
do âmbito de aplicação do direito material do foro? Porque o que a norma de conflitos faz, na óptica
destes autores, é chamar um direito estrangeiro, designar um direito estrangeiro e inserir esse direito
através do mecanismo de recepção no direito interno do estado do foro, com a seguinte
consequência lógica: é que esse direito estrangeiro ao integrar o ordenamento jurídico do foro,
quando regula directamente a relação jurídica controvertida, regula-a como direito interno do foro e
não como direito estrangeiro.

A variante unilateralista introversa é a mais difundida encontrando mais seguidores e considerada

8
pelos seus defensores como mais importante do que a extroversa. Esta variante, de acordo com DE
NOVA, entende que a única função da regra de conflitos seria a de delimitar directamente o âmbito
de aplicação do direito material do estado do foro. Isto significa que, a norma unilateral determina
em concreto a que casos se aplica a lex materialis fori. Um exemplo de uma norma conflitos que
está ligada a esta variante unilateralista introversa da função da norma de conflitos é o art.o 28.o do
CC.
Temos aí uma norma que é unilateral porque determina directamente a aplicação do direito
Moçambicano a questão da capacidade dos indivíduos, esta norma é uma norma que, como se pode
perceber, se destina a proteger o tráfico jurídico interno de situações em que os estrangeiros
pudessem de forma fraudulenta levar a anulação de negócios jurídicos por ele celebrados em
território Moçambicano com base na sua incapacidade.

E isto se compreende facilmente.

Suponhamos que um japonês de 19 anos de idade compra uma viatura num stand de automóveis
daqui de Moçambique, a lei japonesa determina que a maioridade se atinge aos 20 anos de idade.
Portanto, com 19 anos esse japonês é menor de idade, é incapaz do ponto de vista da sua lei pessoal,
ou seja, da sua lei nacional. Admitamos agora que esse japonês faz uma volta pelo país com o carro,
vai até a Namíbia e depois chega ao Stand e diz ao vendedor: “meu amigo se faz favor devolva-me
o preço porque esse negócio é anulável na medida em que eu sou incapaz e não podia ter comprado
esta viatura de modo que me dê o dinheiro de volta e está aqui a sua viatura!”. Esta norma que aqui
está vazada visa exactamente proteger situações de fraude como esta, porquê? Porque contém um
instrumento que permite que se aplique a lei Moçambicana à capacidade daquele japonês no caso
acabado de construir, isto é, como ele tem 19 anos e à lei Moçambicana determina que a maioridade
e a capacidade de exercício se atingem aos 21 anos, então, perante a lei Moçambicana esse japonês
era maior, logo, se estivessem reunidos os outros requisitos previstos no art.o 28.o, como o
desconhecimento desta incapacidade. Como é óbvio, tem de se proteger a parte Moçambicana ou
estrangeira (desde que resida ou o negócio tenha sido realizado em Moçambique), mas ela só pode
ser protegida se efectivamente ela não tivesse conhecimento da incapacidade. Então esta norma é
unilateral porque vem dizer que nestas circunstâncias e nestes casos aplica-se a lei Moçambicana a
capacidade e não a lei da nacionalidade tal como dispõe o art.o 25.o (esta norma por sua vez é
bilateral), como sabemos, a capacidade, o estado das pessoas, as relações de família, as relações
sucessórias são reguladas pela lei nacional. Ora bem, então nós temos aqui um caso típico de uma
norma unilateral que é uma norma que determina a aplicação do direito interno do estado do foro a
uma questão em concreto, neste caso à capacidade.
A normas unilaterais são aquelas que determinam directamente a que casos se aplicam o direito
interno do foro, ou seja, fazem a delimitação directa do âmbito de competência do direito interno do
foro.
Estas são as linhas de forças destas duas correntes, destas duas doutrinas, do unilateralismo e do
bilateralismo quanto a função da norma de conflitos.

10. Função da regra de conflitos:

[Link]ção bilateral / [Link]ção unilateral

9
1. Função bilateral: têm por função designar como competente para resolver uma
questão juridica uma qualquer ordem juridica - lei do foro ou lei estrangeira; Baptista
Machado - a função é designar a lei do foro ou uma lei estrangeira. Em situações
puramente internas não se convocam regras de conflitos.
No caso da lei do foro a regra de conflitos só intervèm quando haja elementos de
estraitariedade face à lei portuguesa.

2. Função unilateral: têm por função designar como competente um único


ordenamento juridico. Exprime-se através de três doutrinas:
- Unilateralismo extroverso - Roberto Ago;
- Unilateralismo introverso - Quadri;
- Doutrinas da autolimitação espacial das regras de conflitos (Francescakis);

Unilateralismo extroverso: a regra de conflito só designa como competente uma lei


estrangeira. Doutrina defendida por AGO.

Unilateralismo introverso: a função da regra de conflitos é designar somente como


competente a lei do foro. A lei estrangeira só se aplica quando:
- naquela situaçãp a lei do foro não se considerar competente (não estando o elemento
de conexão em contacto com ela);
- a ordem juridica estrangeira se considerase competente (estando ligada ao caso pelo
elemento de conexão) -Doutrina defendida por QUADRI.

FERRER CORREIA: parece atractiva e produtora de harmonia juridica internacional.


Uma doutrina bilateralista pode causar problemas de harmonia juridica internacional
(necessita de correcções - exemplo, conflitos de sistema , reenvio....)

Críticas: desrespeitam a paridade de tratamento de ordens juridicas;


Podem existir problemas de cúmulo/vácuo juridico, quando duas ou mais leis são
competentes ou não é nenhuma.

11. Doutrinas defendidas por Francescakis

Há duas grandes grupos de situações:

- situações que têm algum conctacto com a ordem juridica local/do foro, que nao
aquele escolhido pela regra de conflitos, aqui, a regra de conflito pode aplicar-se ao
caso;

- situações em que, no momento da sua constituição, não tinham conctacto com a


ordem juridica local/do foro- aqui a regra de conflito local já não se aplica, aplica-se a
lei que efectivamente tinha sido aplicada, à luz da qual se constituiu a situação;

10
CRITICAS: 1.o interesse não justifica a complicação doutrinária.
a regra de conflito pressupõe erradamente que a lei local não queira exercer um
controlo prévio sobre situações criadas no estrangeiro. Este controlo existe e deve
existir. Quanto a estas situações pressupõe-se que o nosso Estado (local/foro) nunca
estará interessado em aplicar as suas normas materiais e isto também é errado.
Doutrina que se afirma quase bilateralista mas que chega a perspectivas unilateralistas.

critica importante: joga com o fundamento da regra de conflitos; estas devem ser
regras de decisão e não regras materiais; as regras de conflitos não são regras
materiais, logo a autolimitação não se justifica.

Exemplos: o artigo 46º é uma regra bilateral. A lei competente é a lei do sitio do bem,
logo, pode ser a portuguesa ou estrangeira.
Para ser unilateral seria assim: "definido pela lei portuguesa (moçambicana)quanto
aos bens sitos em Portugal"

artigo 28º/1 - É uma regra unilateral , porém o 28º/3 bilateralizou o 28º/1.


---» No mesmo Dip podemos encontrar normas unilaterais e bilaterais.

12. Interpretação e Integração de Conflitos

Interpretação

As normas são interpretadas com as regras próprias de interpretação do Direito


Internacional Privado. O pilar fundamental que subsiste na interpretação de tratados
internacionais é o princípio geral da regra da boa fé (como primeira norma). Como
segunda norma deve-se atender ao contexto geral dos tratados.
As normas de conflito interno são aquelas que se encontram sistematizadas no Código
Civil, as regras gerais obedecem às regras do art. 9º CC.

1) Normas de conflito de fonte internacional


É aceite pela doutrina que o aplicador do Direito Internacional Privado terá que
atender à letra da lei.

Dois princípios essenciais nesta interpretação dos tratados internacionais:


a) Princípio da boa fé;
b) Princípio segundo o qual deve-se atender ao contexto geral dos tratados: âmbito
ou teor criativo consagrado no tratado; elemento teológico ou finalístico.

2) Normas de conflito de fonte interna

Nesta matéria da interpretação das normas de conflito o legislador tenderá a aplicar as


regras gerais consagradas no art. 9º CC.

11
No entanto não se pode esquecer que o Direito Internacional Privado é um direito
especial relativamente ao direito privado comum, por isso, não se pode ignorar esta
especialidade na sua interpretação, assim, como não se pode ignorar o facto de as
normas de conflitos serem normas abertas aos outros sistemas jurídicos.

13. Interpretação de lacunas

O sistema de normas de conflitos português é de um sistema extremamente


organizado, o que não impede, no entanto, que hajam lacunas em matéria de Direito
Internacional Privado.

Surge uma lacuna em Direito Internacional Privado quando relativamente a uma


questão privada internacional, que não se encontre uma norma de conflito que
determine qual a regulamentação própria dessa questão. Há que distinguir a lacuna do
caso omisso.

A lacuna: existe quando o legislador não regulou uma questão porque não a previne,
mas se a tivesse previsto, regularia por se tratar de um caso que deve cair sob a tutela
da ordem jurídica.

Caso omisso: é o caso posto à margem do direito que o legislador não regulou porque
entendeu que deveria ser excluída da tutela da ordem jurídica.
No direito português, o art. 10º CC diz que uma das saídas para integrar uma lacuna é
a analogia ou ainda a interpretação extensiva.

Será admissível em Direito Internacional Privado a integração de lacunas?


A doutrina é unânime na admissibilidade da integração de lacunas no Direito
Internacional Privado.

No entanto o Prof. Baptista machado entende que a integração de lacunas é o processo


normal de funcionamento da norma de conflitos, mas verificada a analogia entre um
instituto estrangeiro e outro da lex fori; então aquele instituto estrangeiro caberá no
conceito quadro da lei do foro.

A Prof. Magalhães Collaço aceita esta ideia e refere em especial o art. 10º/3 CC: terá
que se atender sempre ao espírito do sistema português porque conduz à necessidade
de descobrir os princípios gerais de Direito Internacional Privado e a partir daí,
encontram-se as soluções que permitam integrar as lacunas das normas de conflito.
Quando houver uma lacuna, o juiz tenderá a criar uma norma de conflito tendo em
conta os princípios gerais do Direito Internacional Privado.

Em conclusão: no que toca ao sistema de interpretação e integração de lacunas, a


doutrina entende que o Direito Internacional Privado restringe-se às normas de

12
interpretação que o intérprete português tem: art. 9º, 10º e 11º CC.

14. Aplicação no tempo

Quanto ao início e termo das normas de conflito a unanimidade da doutrina entende


aplicar o sistema integrado no art. 12º e 13º CC como princípios gerais.
A vacatio legis aplicar-se-á para as normas de conflito[13].

Relativamente à aplicação sucessiva de leis no tempo, quando possa existir uma


sucessão de normas materiais aplicáveis em virtude de uma alteração, pode-se ter:

a) Sucessão das normas materiais da ordem jurídica competente;


b) O problema complica-se quando existe uma sucessão no tempo de ordens
jurídicas aplicáveis em consequência de uma alteração no conteúdo concreto do
elemento de conexão utilizado na norma de conflitos do foro.

A doutrina clássica preconiza a aplicação imediata e total da norma de conflitos.


A Prof. Magalhães Collaço entende que o ordenamento jurídico do foro, como o
responsável pela situação deve competir-lhe a resolução da questão pelo que por via
da aplicabilidade do art. 3º/3 CC, terá que se remeter para aplicação do art. 2º/1, 1ª
parte CC, assim como do art. 13º CC.

15. Aplicação das leis no espaço

As normas de conflito têm uma vocação universal, que é a sua total ambivalência.
Aplicar-se-ão a todos os ordenamentos jurídicos independentemente de saber se no
foro há alguma conexão ou limitação.

A tese clássica afirmava que as normas de conflito tinham vocação universalista e


neste sentido o legislador das normas de conflito substituía-se ao legislador
internacional.

A tese dos direitos adquiridos as normas de conflito goza do carácter da


territorialidade com vocação universal.
Exemplo:

A e B, italianos casaram em Nova Iorque onde viveram, tendo A, mudado a sua


residência para Moçambique e aqui resolve intentar uma acção de anulação do
casamento (questão de capacidade).

A lei italiana considera este casamento inválido e a lei americana valida este mesmo
casamento. Várias soluções são possíveis:

13
Segundo a tese clássica, aplica-se a norma de conflito Moçambicana O art. 49º CC
remete para a lei pessoal dos nubentes que é a lei italiana (lei da nacionalidade, art.
31º/1 CC), a qual considera o casamento como inválido.
Segundo a tese dos direitos, não se pode aplicar o art. 49º CC porque não existia à
data do casamento qualquer conexão com a nossa ordem jurídica.

A Prof. Magalhães Collaço vem dizer que o Direito Internacional Privado não pode
deixar de formular critérios gerais para questões mesmo que estas se tenham
constituído no estrangeiro sem contracto com a norma de conflito, logo a via
resolutiva para esta questão teria de ser apontada pela norma de conflito
potencialmente aplicável.

Para esta questão a norma potencialmente aplicável é o art. 49º CC, logo o
ordenamento jurídico competente para regular a validade deste casamento é o
ordenamento italiano.

É entendimento unânime da doutrina que é impossível a autolimitação das normas de


conflito, mas não impede que não aceitando esta autolimitação se crie uma
solução “ad hoc” para entender às situações constituídas no estrangeiro ao abrigo de
uma norma estrangeira sendo esta diferente da lei do foro.
Exemplos: arts. 31º/2, 47º, 28º/3 CC.

não se preconiza nem a tese clássica nem a tese dos direitos adquiridos, tem-se um
carácter territorial com vocação universalista, a qual pode sofrer as limitações já
referidas. No que toca ao início e termo das normas de conflito.

14
16. Conclusão

Em suma, o estudo das normas de conflito no Direito Internacional Privado revela-se fundamental
para a compreensão da dinâmica das relações jurídicas globais. Ao abordar sua natureza, estrutura e
função, bem como os conceitos de unilateralismo e integração normativa, este trabalho destaca a
complexidade do cenário jurídico contemporâneo. A aplicação da lei no tempo e no espaço se
mostra crucial para garantir que as partes envolvidas em litígios transnacionais encontrem uma
solução justa e equitativa. Assim, o Direito Internacional Privado não apenas facilita o comércio e
as interações sociais entre diferentes países, mas também promove um ambiente jurídico mais
harmonioso e coeso em um mundo cada vez mais interconectado.

15
17. Referências bibliográficas
Álvaro da Costa Machado villela, tratado elementar, direito internacional privado
Livro I, Faculdade de direito de coimbra.
Batista Machado, João, Âmbito de eficácia e âmbito da competência das leis: limites
das leis e conflitos de leis. Coimbra: Almedina 1988.
Batista Machado, João. Lições de direito internacional privado, Coimbra: Almedina
2006.
[Link]
Prof. Magalhães Collaço, Norma de conflito, lei aplicável, faculdade de direito de
Alvalade.
ROBERTO AGO, ANZILOTTI, doutrina unilaterista.

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