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Grafite Urbano: Nova York e sua Difusão

O artigo explora o desenvolvimento do grafite urbano contemporâneo nos Estados Unidos entre 1965 e 1979, destacando a contribuição de jovens, principalmente homens negros, que popularizaram essa forma de arte nas ruas. A partir de Nova York, o grafite se expandiu de metrôs para diversas superfícies urbanas, culminando em uma explosão de criatividade na década de 1970, com inovações como o wild style e letras 3D. O texto também menciona figuras-chave como Cornbread, considerado um dos primeiros grafiteiros modernos, e discute a evolução e a importância cultural do grafite nesse período.
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Grafite Urbano: Nova York e sua Difusão

O artigo explora o desenvolvimento do grafite urbano contemporâneo nos Estados Unidos entre 1965 e 1979, destacando a contribuição de jovens, principalmente homens negros, que popularizaram essa forma de arte nas ruas. A partir de Nova York, o grafite se expandiu de metrôs para diversas superfícies urbanas, culminando em uma explosão de criatividade na década de 1970, com inovações como o wild style e letras 3D. O texto também menciona figuras-chave como Cornbread, considerado um dos primeiros grafiteiros modernos, e discute a evolução e a importância cultural do grafite nesse período.
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A HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO DO GRAFITE URBANO

CONTEMPORÂNEO NOS ESTADOS UNIDOS DE 1965 A 1979


DOI: 10.12957/synthesis.2014.19671

WILLIAM DA S ILVA-E-SILVA*
A*
*
Resumo: Jovens, em sua maioria homens negros, criaram, fortaleceram e difundiram nos Estados
Unidos o grafite contemporâneo, um tipo de intervenção urbana que teve como base o tag
inscrito com a tinta acrílica da lata de spray. Em Nova York as intervenções urbanas
contemporâneas atingiram primeiro o interior dos carros do metrô, depois o exterior dos mesmos,
as estações, passaram para os trens, depois ônibus, caminhões e então paredes, postes e demais
suportes públicos. Na década de 1970 houve uma explosão quantitativa deste fenômeno nos
EUA, com um ápice no ano de 1972. Veremos neste artigo os principais sujeitos envolvidos neste
processo e as diferentes contribuições que trouxeram para o desenvolvimento do grafite urbano
como o uso do tag, a criação da masterpiece no ano de 1971, das letras bubble em 1973, das
letras neo-bubble e do wild style em 1974, este último um estilo novo de letra em ângulos
oblíquos. Em 1977, Tracy e Blade iriam continuar a desconstruir letras no wild style desenvolvendo
a letra 3D, criando para o grafite a perspectiva em três dimensões.
Palavras-chave: Grafite Urbano Contemporâneo. Grafiteiro. Cidade. Nova York.

The development of the history of contemporary urban graffiti in the United States from
1965 to 1979
Young, mostly black men, created, strengthened and spread in the United States the contemporary
urban graffiti, a type of urban intervention that was based on the tag inscribed with acrylic paint
spray can. In New York contemporary urban interventions first reached the inside of subway
cars, then the outside itself, the seasons, went to the trains, then to buses, trucks and then the
walls, poles and other public supports. In the 1970s there was a quantitative explosion of this
phenomenon in the US, with a peak in 1972. We will see in this article the main subjects involved
in this process and the different contributions that have brought to the urban graffiti’s development
as the use of the tag, the creation of the masterpiece in 1971, to the bubble letters in 1973, to the
neo-bubble letters and Wild style in 1974, the latter a font new style at oblique angles. In 1977
Tracy and Blade would continue to deconstruct the letters in wild style developing 3D letter,
creating the prospect for graphite in three dimensions.
Keywords: Contemporary Urban Graffiti. Graffiti. City. New York.

_______________________________________________
* Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense. williamdasilvaesilva@[Link]

INTRODUÇÃO um a contemplar integralmente nosso objeto de


Uma vez que entre os conceitos encontrados estudo, resolvemos concatenar o que vem a ser grafite
(como o subway graffiti, por exemplo) não há sequer urbano contemporâneo. Dentre os especialistas do
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tema escolhemos as melhores definições, de pelo seu fortalecimento e difusão. Marcos históricos
pesquisadores distintos, as mais perspicazes em neste processo são as intervenções da Philadelphia
determinado aspecto. A nosso ver são complementares (1965-1970); e a “explosão” de grafites no metrô de
e apresentadas reunidas como foi fornecem uma Nova York (década de 1970).
definição senão completa, ao menos abrangente, que Provocando motivações em abundância, em
responde bem ao enquadramento do objeto: “[...] muitos adolescentes, o grafite se propagou no cenário
grafite consiste em assinaturas, codinomes, depois internacional a partir de ações de jovens indivíduos
seguidos por nome de gangue.” (LEY; CYBRIWSKY, residentes em solo norte-americano.2 Em uma das
1974, p. 496). versões sobre a origem do grafite urbano
[Tratava-se de uma] “nova forma popular, de contemporâneo, o início da prática deste fenômeno
pintura de pulverização”. (Ibid). Para o historiador moderno, caracterizado pelo uso da lata spray, foi
Paulo Knauss trata-se de “[...] inscrições urbanas em meados da década de 1960 na Philadelphia, logo
baseadas na aplicação do jato de tinta sobre paredes depois irradiando-se para localidades vizinhas.
sem tratamento de suporte”. (KNAUSS, 2001, p. Todavia, sua propagação irrefreada pelas cidades do
342). Para o sociólogo francês Jean Baudrillard os mundo teve como epicentro Nova York, mais
grafites são como pseudônimos lançados contra o fortemente os bairros Manhattan, Bronx e Brooklyn,
sistema, “uma matrícula simbólica, feita para derrotar bairros marcados por forte presença de grafite urbano
o sistema comum de nomeação”. Por outro lado, são desde os primeiros anos, e a lata spray foi uma das
também reivindicação de identidade pessoal e de responsáveis por isso.3
grupo. Já o antropólogo argentino Néstor García A publicação por David Ley e Roman Cybriwsky,
Canclini manifesta em seu livro Consumidores e de Urban graffiti as territorial markers (LEY;
cidadãos que o “grafite é [...] para as tribos urbanas CYBRIWSKY, 1974, p. 491-505)4, foi resultado de
da Cidade do México, para grupos equivalentes de uma pesquisa muito bem sucedida no campo da
Buenos Aires ou Caracas, uma escritura territorial da geografia humana sobre grupos de grafiteiros que
cidade, destinada a afirmar a presença e até a posse agiam na Philadelphia, segundo os autores, desde
sobre um bairro.” Em outro trabalho, chegamos a 1965. Este artigo foi crucial como fonte de referência
definir o grafite como uma arte gráfica, uma de época porque nos fornece dados para
comunicação visual que faz circular mensagens através incorporarmos a cidade de Philadelphia como origem
de símbolos e letras elaborados a partir de um do circuito desta expressão cultural contemporânea.
repertório simbólico que, segundo a vontade do Segundo os autores, “o reaparecimento
sujeito, tanto pode ser comum à sociedade, como contemporâneo do grafite data de 1965. [...] O rápido
restrita a pequenos grupos de sujeitos.1 É uma aumento em 1972 acompanhado de uma “epidemia
linguagem indissociável de seu suporte (público) urbana” nas cidades da Costa Leste [tratava-se de
urbano, caracterizando-se por interferir diretamente uma] nova forma popular de pintura de pulverização”.
sobre paredes ou muros com pinturas ou escritos. (Ibid., p. 491, tradução nossa).
Um grafite pode ou não ser lúdico. (Ibid., p. 52-53). Posicionar Philadelphia como berço do grafite
moderno e não a cidade de Nova York é ir contra
2 O INÍCIO DO MOVIMENTO DO GRAFITE NOS ESTADOS uma tendência dominante, assim como introduzir a
UNIDOS periodicidade de 1965 como um dos marcos
Jovens, majoritariamente homens negros, temporais iniciais deste movimento cultural.5
residentes em solo norte-americano, fizeram dos Vamos nos apropriar do artigo dos geógrafos como
Estados Unidos o berço do grafite urbano uma fonte de época, produzida em 1974 (no auge do
contemporâneo. Eles foram os principais responsáveis fenômeno), e do livro de Jack Stewart, de 2009 (mas
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que interroga eventos do início da década de 1970
em Nova York), no que concerne ao preenchimento - Eu realmente atingi o centro das atenções quando um
de uma lacuna de alguns anos na historiografia do rumor foi publicado sobre mim sendo morto com tiros na
grafite contemporâneo.6 cara em 1971. Quem realmente morreu foi um amigo meu,
Dois nomes ligados a esta cena, citados no artigo Cornelius [...] as pessoas se aglomeraram ao redor gritando
Urban graffiti as territorial markers e também por “Corn foi baleado, milho está morto!” Quando a imprensa
Jack, como os primeiros sujeitos do movimento do chegou ao local, ouviram isso e pensaram que era eu. Depois
grafite contemporâneo, são os jovens Cool Earl e eu soube que tinha que fazer algo bizarro ou o meu nome
Cornbread. Ninguém no interior do movimento do seria enterrado com o garoto. Foi quando invadi o zoológico
grafite questiona a versão de origem do grafite urbano de Philadelphia e pintei com spray “Cornbread Vive” em
contemporâneo que apresenta Cornbread como o um elefante. (Ibid., p. 22).
primeiro grafiteiro moderno. Não há contestação
recente, não houve na década de 1960 ou 1970. Ao Assim, “[...] no aeroporto, Cornbread pulverizou um jato
contrário, outros jornalistas e pesquisadores apoiaram da empresa aérea TWA que levou para o sul seu nome em
Philadelphia como o local inicial. cima de suas asas. Podia-se ler no aeroporto “Cornbread
Dois artigos jornalísticos bem posteriores às recebe você na Philadelphia”.” (STEWART, 2009, p. 493,
abordagens de Ley, Cybriwsky e Stewart irão tradução nossa). Outros codinomes que eram fortemente
corroborar esta versão de origem, que ressaltamos ativos, repetidamente assinados, no espaço urbano desta
não ser a única existente. Em 2010, o jornal época, segundo o texto Urban graffiti as territorial
Philadelphia Citypaper também creditou ao markers, eram Cool nº1, Cool Earl, Bobby Cool, Koool Kev
grafiteiro a origem da escrita parietal e Sir Smooth.
contemporânea: “Cornbread é o pai da moderna
escrita grafite. [...] É uma cultura que começou Um grupo de escritores nova-iorquinos afirmou
[na Philadelphia] e se afastou, lamenta Cornbread.
Quando eu fui para Nova York, fui bem recebido, [...] ter inventado a seta7, entre eles a Phase 2, Stayhigh
muito amado. Não consegui isso aqui na 149 e Tracy168. Mas, na verdade, Cool Earl tinha usado na
Philadelphia.” (CURRIER, 2010). Philadelphia já em 1966. (Ibid., p. 58). [Veja a Figura 1,
Em 2011, o The New York Times faz referência a neste artigo.]
Cornbread e Julio 204, respectivamente, da
Philadelphia e Nova York, considerando-os artistas e
atribuindo-lhes notoriedade nos anos 60 e 70.
(GREENBAUM; RUBINSTEIN, 2011).
A instituição Dreweatts, responsável por uma
exposição aberta a leilão em 2011, contando com a
participação de Darryl McCray e sua obra, afirma
que “ele começou a escrever a sua tag “Cornbread” Figura 1 - Primeiras setas na Philadelphia
[...] em 1967.” (DREWEATTS Catalogue, 2011, p. Fonte: STEWART, 2009, p. 59.
22).
Cornbread é considerado como um dos (se não o)
primeiro verdadeiro escritor de grafite. Em uma Em 1965, Cornbread, então com 11 anos de idade, foi
entrevista com David Cano, Cornbread falou sobre enviado para um reformatório, onde ele pegou seu apelido.
como ele se tornou o primeiro artista moderno de (Ele implorou ao cozinheiro da instituição para servir
grafite: cornbread [- broa de milho -] como sua avó costumava

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fazer). Durante esse tempo, as pessoas estavam depois seguidos por nome de gangue.” (Ibid., p.
compreensivelmente cautelosas com o grafite, que era 496).
tipicamente usado para designar territórios de gangues.
Cornbread encontrou uma maneira de contornar a forma Não chamávamos isso de grafite. Dizíamos: “Vamos
violenta de convivência intragangues: - Os membros das escrever alguma coisa esta noite”. Grafite foi um termo
gangues costumavam vir para mim, porque era um escritor inventado pelo “New York Times” para denegrir a nossa
poético. E eu costumava escrever cartas de amor poéticas arte, porque ela foi inventada por jovens de cor, diz Mico,
para as namoradas deles... E quando saí [do reformatório], um dos que já empunhavam o spray no fim dos anos 60.
eu fiz o meu negócio para ir visitar cada gangue que conheci (CELESTINO, 2006).
quando estava no [reformatório], fui beber vinho com eles.
E esse foi o meu passe para me locomover pela cidade 3 A EXPANSÃO DO MOVIMENTO DO GRAFITE
sem apanhar. (CURRIER, 2010). O ano de 1967 foi importante na história da arte
urbana. Na Inglaterra John Upton foi preso pela polícia
Com a liberdade para se movimentar entre os territórios de por ter sido o responsável pela elaboração de um
gangues, Cornbread deixou a sua marca ao longo de bairros painel mural. “Sua repercussão originou outras
inteiros. “Quanto mais [as pessoas] falavam de mim”, diz iniciativas que se seguiram dando origem ao
ele, admitindo o canto da sereia da celebridade, “mais eu movimento de pintura mural comunitária no Reino
escrevia.” Ao contrário dos membros de gangues ou ativistas Unido.” (KNAUSS, 2001, p. 334). O historiador,
políticos, Cornbread simplesmente queria chamar atenção. professor da Universidade Federal Fluminense, no
(Ibid). Rio de Janeiro, e pesquisador de arte pública, Paulo
Knauss, explicita que no mesmo ano, nos Estados
Desfiguração de tinta spray no sistema de metrô está Unidos, a luta pelos direitos humanos obteve
custando à Autoridade de Trânsito 1 milhão de dólares por destaque, ganhou as ruas com pinturas murais
ano. [...] A Time estima que a Philadelphia tenha mais ou políticas.
menos 10 mil artistas grafiteiros habitualmente, em 1974. No ano seguinte, em maio de 1968, a inscrição
(Time, March 13, 1972, p.44; LEY; CYBRIWSKY, 1974, livre também foi usada na França como veículo de
p. 492). comunicação que forneceu voz aos gritos de recusas
e expectativas dos interventores urbanos, fenômeno
Cornbread parou de escrever em 1972; depois de muitos que contou com forte participação popular, serviu
anos longe “da cena” ele começou a pintar novamente. para registrar na cidade o descontentamento para
(DREWEATTS Catalogue, 2011, p. 22). com o contexto social e político da época. Um
dispositivo simbólico que naquele momento
Consta que Darryl McCray (Cornbread) nasceu histórico foi manipulado pela massa popular
e foi criado em Brewerytown, EUA. E em tempos constituída, majoritariamente, por estudantes e
recentes se tornou “um mentor de jovens que dá trabalhadores revoltados e revoltosos. Gitahy
aulas em universidades locais, como a Drexel e (1999, p. 21) diz no livro O que é graffiti?:
Templo.” (CURRIER, 2010). “Durante a revolta dos estudantes iniciada em maio
Em 2007, foi lançado o documentário Grito; a de 1968 em Paris, vimos como o spray viabilizou
primeira parte foi nomeada City 1: A Lenda de que as mesmas reivindicações que eram gritadas
Cornbread. (Ibid). nas ruas fossem rapidamente registradas nos muros
Um meio de comunicação de massa acessível a da cidade”.
qualquer um estava ganhando grande visibilidade. Para Cristina Fonseca, autora do livro A poesia
“[...] grafite consiste em assinaturas, codinomes, do acaso na transversal da cidade, publicado em
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1982, os grafites franceses de Maio de 68 se se reproduz, ele se aproveita de todos os subterrâneos
restringiram basicamente aos muros e arredores da para se reproduzir: usa o subterrâneo das gangues,
Sorbonne. Foram revolucionários, inclusive das crews, de diferentes “tribos urbanas” estabelecidas
influenciaram as inscrições nova-iorquinas e nos bairros.
brasileiras. Sabemos que o movimento foi sustentado Em 1968, o então candidato ao cargo de presidente
por estudantes e, sendo assim, foram as norte-americano, Richard Nixon, atento a estas e
representações desses jovens a impregnar os muros outras manifestações populares assumiu uma atitude
e a mídia. Representações estas transferidas para a em favor da igualdade racial.8 E no ano seguinte, já
mesma classe, em outros lugares do mundo, numa como presidente eleito multiplicou por três a verba
disseminação global. A divulgação desses orçamentária destinada às artes.
acontecimentos deu-se em jornais de vários países, Em depoimento, o grafiteiro Chaz, ao contar o
inclusive com relatos de protestos escritos nos muros início de sua história como interventor parietal,
das cidades. A mídia impressa possibilitou o contato destaca como no verão de 1969 “jovens
desse tipo de intervenção urbana com múltiplas começaram a escrever seus nomes nas paredes de
culturas, incluindo as do território sul-americano. Washington. O número aumentou no verão
O movimento parisiense se destacou pela grande seguinte, com tags espalhados a partir da ponta
diversidade da produção de protestos registrados norte de Manhattan ao longo das rotas de transporte
visualmente, onde houve uso abusivo de cartazes de massa para o Bronx e Brooklin.” (STEWART,
(serigrafias tipo silkscreen) e só no processo é que 2009, p. 26). Para este mesmo ano de 1969, Jack
outras expressões foram aparecendo, incluindo as Stewart contabiliza a atuação dos sujeitos: Julio
inscrições feitas a mão livre com lata de tinta spray. 204, Taki 183, Greg, Caesar, Broson, Phil. T.
Vale ressaltar que no Maio de 68 havia muita tinta de Greek, SJK 171, Che 159, Cay 161, Cay 161, Baby
gente motivada por inspiração ideológica baseada em Face 86, Rican 619, Rogue 1, Jesus 137, Franky
grupos organizados e partidários, destacando-se 135; Dutch 135, Rat I; Chew 127, Tree 127; Ralph
tendências maoístas, pessoas que conheciam os filmes 611; FJC IV; RLM II; Cliff 159; Frank 207; Cloud
de Godard, além de formação artística acadêmica, 160; Ace 137; CAT 87, e El Marko 174. (Ibid., p.
distinguindo o produto da criação parisiense das ruas 25). Segundo Nicholas Ganz, nos Estados Unidos
das cidades da costa leste dos Estados Unidos. A lata da América, no fim da década de 1960, atuavam
de tinta spray fez a diferença nesse contexto e uniu os grafiteiros Cap One, Chris Silva (um porto-
manifestações de natureza distinta. riquenho atuante em Chicago) e Stayhigh 149, um
De todo modo, o grafite acompanhou a afirmação dos pioneiros em Nova York, que pinta desde 1969,
do poder jovem. O poder jovem da França foi, nesse aproximadamente, e continua ativo. (GANZ, 2008,
momento, o poder dos estudantes universitários p. 107).
engajados ideologicamente. Enquanto no outro lado Em Nova York, as intervenções urbanas
do Atlântico, em Nova York, há outro perfil, o jovem contemporâneas atingiram os veículos de transporte
que não era integrado plenamente na ordem social e de massa. O grafite conquistou primeiro o interior
não participava de organizações orientadas dos carros do metrô (Ibid., p. 43. Tradução nossa),
ideologicamente ou partidariamente. Sobretudo, havia depois, o exterior dos mesmos, as estações, passou
o jovem que não era do movimento estudantil, não para os trens, depois ônibus, caminhões e então
era de qualquer partido comunista, em muitos casos paredes, postes e demais suportes públicos. A
não pertencia a uma família e nem ia à escola. Por entrada na década de 1970 coincidiu com a
vezes é desvinculado de instituições (isso faz com explosão quantitativa do grafite urbano
que a gente não saiba como ele se reproduz), mas ele contemporâneo nos EUA, que teve o ápice no ano
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de 1972. vagão em menos de uma hora. Um vagão levou a
Nessa altura, o grafite urbano contemporâneo inscrição “Fabulous Five” e um desenho do
começa a se afirmar como um fato jornalístico no Mickey Mouse; outro vagão teve exposto o nome
The New York Times (1971), em seguida se torna de Lee. No meio da elaboração tiveram que correr
um fato de interrogação intelectual. Neste campo, da polícia. Fugiram, se reuniram na cidade, mas ao
ao considerarmos as obras de repercussão invés de desistir resolveram voltar e terminar o que
internacional, temos o livro do ganhador de dois começaram. Neste acontecimento estão
prêmios Pulitzer (em 1969 e 1980) Norman Miler, representados o tag (nome de Lee), a influência
intitulado The faith of graffiti, publicado da indústria cultural - na figura do Mickey Mouse -
originalmente em 1974, em Nova York, por e a exaltação da identidade coletiva da crew -
Praeger/Alskog. O artigo Kool Killer ou Insurreição Fabulous Five.
dos Signos (1976) se tornou a primeira abordagem Castleman inicia seu livro direcionando sua
ensaística, publicada originalmente em livro, na abordagem para o fim de 1960, com relatos
França, pela Gallimard Editora. E finalmente surgiu minuciosos sobre os grafites das estações de metrô
uma abordagem mais sistemática de pesquisa com e dos interiores e exteriores dos vagões nova-
a publicação de Getting up. Subway graffiti in New iorquinos.9 Especifica que os tipos de traços mais
York, escrito por Craig Castleman, no ano de 1982. utilizados eram o fino, de única cor para retratar
Há uma construção discursiva depois da muitos nomes e apelidos. Põem sob a ótica da
imprensa. Castleman dá voz ao grafiteiro. Dentre análise a forma da manifestação: o tamanho, a
as entrevistas contidas em seu livro consta uma complexidade do desenho, os materiais utilizados.
com o grafiteiro Lee do grupo Fabulous Five, em Realizou algumas entrevistas, treze páginas só com
que Lee relata a Castleman como foi sua experiência depoimentos do grafiteiro Lee do grupo Fabulous
de grafitar pela vez um trem inteiro, dez vagões. Five. Na segunda metade do livro aparecem nomes
Numa noite, Lee teve a ideia e a comunicou ao de interventores dos bairros do Bronx e Brooklin.
grupo, demais membros do Fabulous Five, Mono Segundo o historiador da arte, professor e pintor
e Slave, que aderiram, os demais eram novatos Jack Stewart, no início da década de 1970 surgem
demais para a ação. Os três se encarregaram da em Nova York, os sujeitos Kool Wiff, King Kool
empreitada. Por alguns dias planejaram os desenhos 163, Super Kool 223, Soul e Tracy 168. Stewart
no papel dimensionando todo o espaço externo, a os chamará de segunda geração de escritores. O
referida quantidade de desenho para cada um dos pesquisador correlacionou gerações às décadas.
dez vagões. Calcularam que seriam necessárias Somam-se a esta lista Taki 183, Angel 136, Yanqui
cento e dez latas de spray, pelo menos. Somente 135, Junior 161, Rat I, Cay 161, Joe 82, Tony
Slave possuía sua quota de spray, Lee e Mono 184. Do Bronx: Pearl 74, Sexy 62, Cartoon 62 e
tiveram que investir dias para adquirir o restante. Cowboy 60. Clyde foi intitulado “king of the
Tudo pronto!... Se reuniram numa noite, às 21h, Buses”. “Bama I atestou a fama de Clayde: Clayde
com comida na bagagem partiram em direção à foi o primeiro a fazer bomber em ônibus.”
estação. Ao chegarem ao trem, vazio e estacionado, (STEWART, 2009, p. 23. Tradução nossa). Entre
os três entraram no primeiro vagão, lá organizaram os jovens que resolveram atuar sobre os ônibus
as latas correspondentes a cada vagão e estavam: o CAT 87, o Spade 130, o Snake I, o
imediatamente distribuíram as porções pelos outros Stitich I. E “Bárbara 62 e Eva 62 foram as primeiras
vagões, os jogos de cores correspondentes ao [...] garotas a escrever grafites no metrô de Nova
“projeto” colocados em um dos bancos de cada York.” (Ibid., p. 49). Neste mesmo período, início
carro. Segundo Lee, ele construiu todo o primeiro da década, Stayhigh 149 lançou seu tag “sobre o
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velho carro vermelho do metrô, número 8985”.
(Ibid., p. 48).
Nancy Beaulieu no texto Sauvez mon art!
entende tag como “[...] uma espécie de assinatura
pessoal que alguns grafiteiros afixam nas paredes
tão frequentemente quanto possível.” (BEAULIEU,
2002, p. 2). Paulo Knauss é mais específico, para
ele o tag é logomarca, e

[...] constitui a base de todo o desenvolvimento formal


que evolui das soluções alfanuméricas iniciais para
soluções logotípicas das letras emboladas, quase
criptogramas, por vezes, adornadas com detalhes
figurativos complementares ou pela tridimensionalidade.
(KNAUSS, 2001, p. 335).

Figura 2 - Mapa de Philadelphia


Segundo depoimento dado pelo grafiteiro Ota:
Fonte: LEY; CYBRIWSKY, 1974, p. 497
“Tem que ter um símbolo, um logotipo que o
pessoal olhe e veja: esse é o Ota, esse é o Lucas.
Assinatura é a valorização da autoestima.” O livro de Jack Stewart, Graffiti kings. New
(BEDOIAN; MENEZES, 2008, p. 40). Nicholas York city mass transit art of the 1970s, é uma
Ganz, por sua vez, considera tags como sendo as importantíssima fonte, publicado em 1989, como
assinaturas chamativas do grafiteiro, que “[...] se resultado de pesquisa para a obtenção de
tornaram cada vez maiores até aparecerem as doutorado em história da arte, enfatizava os
primeiras pieces nos trens de Nova York”. (GANZ, primeiros anos do grafite urbano
2008, p. 9). contemporâneo. Jack Stewart viveu em Nova
Vale frisar aqui que o grafite urbano York no momento do boom do grafite. O livro
contemporâneo “nasceu” a partir do tag. Graffiti kings usa como fontes o artigo do
Os pesquisadores David Ley e Roman jornalista Don Hogan Charles ‘Taki 183’ spawns
Cybriwsky construíram mapas da geografia urbana pen pals (The New York Times. July 21, 1971,
da cidade de Philadelphia apontando onde cada p. 37); e o excelente artigo dos geógrafos David
gangue grafitava entre (1970-1972), a quadra exata Ley e Roman Cybriwsky. O enfoque comporta
de cada domínio territorial, como mostra a Figura os sujeitos de criação, seus locais de intervenção
2. Cybriwsky afirmará que o gueto norte da (geografia), as respectivas assinaturas,
Philadelphia era uma área residencial constituída motivações. Em seu trabalho, Jack Stewart
de uma vizinhança negra, porto-riquenha, com destaca uma das marcas do grafite urbano
grande presença de jovens recém-imigrados de contemporâneo em Nova York, a criação das
Porto Rico. Estes mapas constituem documento masterpieces, inscrições em grande escala.
de uma relevância à parte, porque os dados que Segundo o autor, no ano de 1971, El Marko 174
fornecem nos permitem preencher na historiografia pode ter sido o primeiro a realizar uma
do grafite contemporâneo uma lacuna temática e masterpiece. (STEWART, 2009, p. 62). Veja a
outra espacial nesse nicho – através da aglutinação Figura 3. Segundo Stewart, este tipo de criação
das relações entre gangues e a prática do grafite. se definia da seguinte forma:
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e combinar com desenhos. A partir daí as grandes
inscrições passaram a ser usadas para expor os
codinomes assumindo proeminência e dos trens
contagiavam também os muros das cidades.
O primeiro grupo organizado que reuniu grafiteiros
foi a UGA – United Graffiti Artists, a primeira crew,10
fundada oficialmente em 1972 pelo sociólogo Hugo
Martinez, Snake Li, Stich I, CAT 87, Lee 163, Flint
707, Mico, Phase II, Wilked, Gary, Sjk 171, T-Rex
131, Co-Co e Bama. (KNAUSS, 2001, p. 338). A
partir da fundação da UGA a preocupação com a
estética passa a ser incluída em outra dimensão, passa
a ter uma maior importância junto com o
aprimoramento técnico: o uso do brilho, da luz e
sombra, uso de mais cores, traços firmes etc. A partir
deste contexto começam a se reforçar laços entre
grafiteiros, constituindo grupos que condicionavam a
criação individual.
Em 1974, sob a liderança do ator e bailarino Jack
Pelsinger, surge outra associação importante,
denominada NOGA – Nation of Grafitti Artists.”
(Ibid., p. 338).
O primeiro artigo jornalístico a utilizar o termo
grafite para expor o fenômeno cultural pesquisado
aqui tinha por título ‘Taki 183’ spawns pen pals. É
um artigo informativo e imparcial. Escrito pelo
Figura 3 - As Masterpieces.
jornalista Don Hogan Charles, foi publicado em 21
Fonte: STEWART, 2009, p. 62.
de julho de 1971 no jornal The New York Times. O
[...] Uma masterpiece tinha de contar com três qualidades: texto confere notoriedade nacional e internacional ao
grande escala, outline letters [cartas esboço], e decoração “Taki 183” por colocá-lo na posição de primeiro
dentro das outline letters. (Ibid.). Uma composição do velho grafiteiro a receber destaque na imprensa escrita.
metrô vermelho no verão de 1971 inicia carregada com tags Quem foi Taki? Em entrevista concedida ao
de escritores incluindo Bop Bop Bop, Santana 204, King Kool jornalista, o grafiteiro de dezessete anos declarou que
143, Solid, Bachelor Jin One, e Tracy 168. (Ibid., p. 54). Muitos o codinome Taki é diminutivo em grego de Demétrius,
dos escritores adquiriam, de uma forma ou de outra, conjuntos primeiro nome do jovem que nesta época vivia em
de chaves de condutores, dando-lhes acesso a todos os carros. Manhattan, na rua 183. Um jovem de origem grega,
(Ibid., p. 52). que desde o fim da década de 1969 tinha por hábito
espalhar por quarteirões da cidade de Nova York seu
Assim, por meio da criação de masterpieces os codinome Taki, seguido pelo número de sua rua,
trens urbanos foram transformados em vitrines da formando Taki 183.
expressão cultural. O observador parado passou a “Taki 183” é um marco na história do grafite
ver o tag em movimento, em consequência disso porque é tido por muitos pesquisadores e artistas como
surgiu a necessidade de elaborar em tamanhos maiores o primeiro criador do grafite contemporâneo, o que é
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224 Cadernos do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
amplamente divulgado pela bibliografia específica. 168 e Wasp. Ele disse que “tinha adolescentes por
Contudo, não é verdade! Taki foi tão somente o todas as partes da cidade, de todas as raças e religiões
primeiro a ser evidenciado e comentado extensamente e todas as classe econômicas [praticando grafites].”
pela imprensa da cidade de Nova York, principalmente (Ibid., p. 37. Tradução nossa).
no The New York Times. São coisas bem diferentes. Com a promoção de “Taki 183” na imprensa, o
Isto pode ser dito a partir de análise do próprio artigo número de adeptos do movimento do grafite urbano
de Don Hogan Charles. Primeiramente, no mesmo começa a aumentar massivamente, muitos outros
texto onde “Taki 183” é tratado, outros grafiteiros somaram-se nesse momento aos ícones Cornbread,
são mencionados, não só pelo jornalista, mas pelo Cool Earl, Julio 204 e o próprio Taki 183 na ação de
próprio Taki. São listados contemporâneos do espalhar seus codinomes pela cidade, e com isso o
Demétrius, seguidores dele, tal como um antecessor visual da cidade sofreu modificações que incitaram a
que o inspirou: Júlio 204. Depoimento do próprio perseguição por parte das autoridades. Prisões eram
Taki: “Eu tomei a forma de Julio 204”. (CHARLES, feitas, penas alternativas eram aplicadas. A Autoridade
1971, p. 37, tradução nossa). Em segundo lugar, a de Trânsito estimou em 300 mil dólares ao ano o
proporção do artigo evidencia uma distribuição entre custo das remoções das pinturas. Segundo Craig
problemas distintos: o texto é constituído de vinte e Castleman, na obra Getting up. Subway graffiti in
sete parágrafos, dos quais quatorze remetem à pessoa New York, já em 1971 o número de grafites era de tal
de Taki ou seus feitos (50% mais 1: foi eleito pela proporção que a Autoridade de Transporte
maioria dos votos), os outros treze parágrafos (metade Metropolitano gastou cerca de 150 mil dólares para
da atenção do jornalista) dividem-se entre outros repintar a cidade, na tentativa de livrá-la dessa
interventores urbanos, outros grafites e a luta da manifestação popular.
Autoridade de Transporte Metropolitano para limpar Consta que, em 1971, o carro 9044 do trem de
a cidade. Em terceiro lugar, o artigo, apesar do título, metrô de Nova York foi pintado. No ano de 1973 os
não é sobre “Taki 183” e sim sobre o grafite da cidade IRT carros das linhas A e CC foram pintados por
de Nova York, dentre outras coisas, sua proliferação Blade I; o carro 8873 do trem 5; o carro 7570 era o
e os esforços das autoridades em combatê-lo. O texto preferido de J 2 II e Dice 198; em 1973 Tracy 168 e
de Stewart fala também dos gastos governamentais RC-162 pintaram o 5845. (STEWART, 2009, p. 100.
com a limpeza das pichações – política antigrafite Tradução nossa). O carro 6263 ficou repleto de 3D
desde a década de 1970. Mas a partir da publicação feitos por Butch 2 em 1974, ano que Pugh, Phil e
do artigo no jornal foi Taki 183 que ganhou uma LSD também atuavam, este foi o período onde “Blade
notoriedade excepcional. I foi o primeiro que pintou sozinho um carro de metrô
O sujeito agia nas estações do metrô e nas laterais inteiro, o que o credenciou como um dos maiores
dos trens “[...] no caminho ao longo da Broadway, artistas de grafite. Usando linhas quase idênticas, ele
no Aeroporto Internacional Kennedy, em New Jersey, pintou duas caricaturas de mulheres.” (Ibid., p. 163).
Connecticut, sobre Nova York e outro lugares” (Ibid.). Também foram incluídos na linha do spray os carros
As intervenções urbanas realizadas por Demétrius 9026 e 7777, ambos de 1978. Então, Moses 147 teria
estimularam, segundo o repórter, o surgimento de anunciado que “era o rei da linha número I com a
vários imitadores, como “Joe 136, Bárbara 62, EEL M*147”, concorrendo com Snake 131 considerado o
159, Yank 135 e Leo 136”. Outras inscrições primeiro rei da linha, autor de um número
surgiram: Eva 62, Lady Pink, Zephir. Seguidas de extraordinário de peças. (Ibid., p. 105).
Bana, Cay 161, Chew 127, Cool Here, Crash, Daze, Durante o verão de 1973, uma nova forma de
Frank 207, Iron Mike, Junior 161, Kool Jeff, Lady letra foi produzida por Super Kool 223: as letras
Pink, NOC 167, Moetr, Sini, Sage, Snake 131, Tracy bubble (Ibid., p. 112)11 podem ser observadas na
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Figura 4. Neste mesmo ano, a Nova York Magazine posição das autoridades públicas.” (KNAUSS, 2003,
“[...] tratou pela primeira vez na imprensa o grafite p. 338). De acordo com Jack Stewart, Taki parou
como uma nova forma de arte – contrapondo-se à com a sua criação por volta de 1973.

Figura 4 - As letras bubble


Fonte: STEWART, 2009, p. 112.

No ano seguinte, 1974, surgiram as letras neo-bubble “[...] dando uma sensação de circularidade pela
adição de linhas curtas no interior.” (STEWART, 2009, p. 140). Ver Figura 5.

Figura 5 - As letras neo-bubble


Fonte: STEWART, 2009, p. 140.

Em 1974, Tracy 168 cunhou a expressão Wild style. “[...] A expressão rapidamente se tornou um termo
genérico para um estilo novo de letra que contou com formas altamente fraturadas que pareciam saltar fora,
em ângulos oblíquos.” (Ibid., p. 116).
Jean Baudrillard12, no clássico texto Kool Killer, ou l’insurrection par les signes publicado em 1976,
discutiu a cena do grafite em Nova York. Destaca dentre os primeiros atores sociais do movimento: “Duke,
Sprit, Superkool, Koolkiller, Ace, Vipere, Spider, Eddie, Kola [...] Woodie110, Shadow 137” (BAUDRILLARD,
1976, p. 8).

Jovens negros porto-riquenhos são a origem do movimento. Os grafites são particulares a Nova York. (Ibid., p. 9). [A] insurreição
invadiu a cidade como um lugar de reprodução e código [...] porque os sinais não jogam com a força, mas com a diferença. [...]
Portanto, não há necessidade de massas organizadas, nem uma consciência política clara. (Ibid., p. 15-16).

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226 Cadernos do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Para Baudrillard, os grafites são como arte, o que significou a sua penetração na esfera das
pseudônimos lançados contra o sistema, “uma elites econômica e social, legitimando um espaço de
matrícula simbólica, feita para derrotar o sistema afirmação social para o grafite urbano contemporâneo.
comum de nomeação”. Por outro lado, são também Na pesquisa empreendida por Jack Stewart, a UGA-
reivindicação de identidade pessoal e de grupo. United Graffiti Artists - invade o mundo das
exposições abrindo o Razor Gallery em 4 de setembro
[...] os grafites são o inverso de todos os signos midiáticos e de 1973. (STEWART, 2009, p. 87). Em seguida, em
publicitários. [...] Eles exportam o gueto para todas as artérias 1975, a UGA realiza “a primeira grande exposição
da cidade. (Ibid., p. 13). [...] como um antidiscurso, como a em galeria de arte”, no Artist’Space, de Nova York.
recusa de quaisquer elaborações sintáticas, poéticas, políticas, (MOCA, 2012, grifo nosso).
quanto menor elemento radical inexpugnável para organizar Assim, o grafite urbano contemporâneo que tinha
um discurso qualquer. Irredutíveis mesmo, por sua pobreza, como base o tag inscrito com a tinta acrílica da lata
eles resistem a qualquer interpretação, conotações, e não de spray foi se afirmando como um fenômeno local
denotam nada nem pessoa alguma: nem denotação nem em Nova York.
conotação, e assim escapam ao princípio de significado. (Ibid.,
p. 12). NOTAS EXPLICATIVAS
Isto esclarece o significado político do grafite. [...] Sob o corte 1
William da Silva-e-Silva é historiador, pesquisador do presente
da repressão, a rebelião foi dividida em um organismo político artigo e autor do livro Graffitis em múltiplas facetas:
definições e leituras iconográficas lançado pela Annablume
marxista-leninista puro, duro e doutrinário de um lado e do
em 2011.
outro neste processo cultural selvagem ao nível dos sinais, sem 2
E qual o porquê desta prática? Quais são as motivações para
objetivo, sem ideologia, sem conteúdo. (Ibid., p. 15). criar grafites? As respostas encontradas estão no campo das
subjetividades:
Nomes de forte presença em 1977 foram Mono, No livro Por trás dos muros: horizontes sociais do graffiti, de
Doc, Lee, e Iz. Nessa época, Tracy e Blade iriam 2008, organizado por Graziela Bedoian, psicóloga, e por Kátia
Menezes, jornalista e mestre em Comunicação e Semiótica,
continuar a desconstruir letras no wild style, e alguns
encontram-se algumas entrevistas realizadas com grafiteiros
nomes cresceram indecifráveis para os de fora da paulistas, por exemplo, Pastore e Ota. Os depoimentos destes
arte, desenvolvendo a letra 3D. (STEWART, 2009, interventores urbanos resumem, sob a autoridade dos agentes
p. 116).13 sociais, algumas funções do grafite urbano contemporâneo:
demarcar território; socializar os artistas; e ressignificar o
Destaque para Nicholas Ganz como ícones do
espaço da cidade.
ativismo parietal da década de 1970, nos EUA, foram:
“Mais do que os signos, propriamente ditos, interessa a relação,
Cattle, Dave Chino, Dalek. Daze grafita desde 1976, a ponte, a mediação, [o desafio,] a pressão do risco de ser
Dephect, Man One, Bask, Twist, Ninos Boom Box, apanhado pela polícia. [...] E a necessidade de sociabilidades
Pose 2 e o neoexpressionista Dzine. A partir de 1979 alternativas.” PAIS, José Machado & BLASS, Leila Maria.
Tribos Urbanas: produção artística e identidades. Lisboa:
iniciou o Been3. O que se pode afirmar é que até o
Imprensa de Ciências Sociais, 2004, p. 15.
final da década de 1970 as inscrições proliferaram-se 3
Trata-se de um marco na história da intervenção, isto porque
intensamente. possibilitou que intervenções fossem realizadas mais
rapidamente, o que fez proliferar as ações.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 4
No momento da construção do artigo, David Ley, doutor em
Passado esse momento de euforia e expansão geografia, era professor-assistente lecionando na Universidade
de Colúmbia Britânica, em Vancouver, Canadá. E Roman
singular daqueles que manipulavam a expressão
Cybriwsky, também doutor em geografia, professor assistente
pública por meio do spray, o grafite experimentou na Universidade Temple na Philadelphia.
uma nova fase, por volta da metade da década de 5
Historiografia já frágil, construída por diversos profissionais e a
1970, caracterizada por sua entrada nas galerias de participação de uns raros historiadores.

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Cadernos do Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro 227
6
Lacuna das mais significativas por ser referente ao surgimento anteriormente citadas. Por fim, o estilo Free Style totalmente
do desenvolvimento do movimento do grafite. livre mistura dois ou mais estilos ou pode ainda constituir
7
A inclusão de seta no tag, símbolo que aparece solto ou no final qualquer tipo de desenho ou texto.
de uma letra, que tanto era feito em traço simples, como em
contorno com preenchimento. Ibid., p. 58.
8
“Temos alcançado uma nova liberdade. Começamos a fazer a
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMANAQUE DE GRAFFITI. São Paulo: Escala, n. 2, 2002.
promessa real para o preto, bem como para o branco. [...]
Nenhum homem pode ser totalmente livre enquanto o seu AZEVEDO, A. L. Grafites revelam como amavam os romanos.
vizinho não é. Para avançar em tudo e ir em frente juntos. Isto O Globo, Rio de Janeiro, 04 maio 2003. Ciência e Vida, p. 48.
significa preto e branco juntos, como uma nação, não duas. BAUDRILLARD, J. Kool Killer ou l’insurrection par les signes.
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pichação. In: FÓRUM DE PESQUISA CIENTÍFICA EM
2012. Tradução nossa.
ARTES, 3., Escola de Música e Belas Artes do Paraná 2005.
9
Los graffiti teve sua primeira versão em 1982 na língua inglesa. Curitiba, Anais... 2005.
10
Crew é uma palavra que significa turma, em inglês, utilizada CASTLEMAN, C. Los graffiti. Traducción: Pilar Vazquez. Madrid:
para designar grupos de grafiteiros que costumam pintar em Hermann Blume, 1987.
conjunto.
CHALFANT, H.; PRIGOFF, J. Spraycan art. London: Thames
11
As letras bubble são letras cheias, de escrita volumosa. & Hudson, 1987.
12
O sociólogo Jean Baudrillard nasceu em Reims, França, em CHARLES, D. H. The New York Times. July 21, 1971, p. 37.
1929. Ele desenvolveu “[...] uma série de teorias que remetem
COOPER, M.; CHALFANT, H. Subway Art. London: Thames
ao estudo dos impactos da comunicação e das mídias na
& Hudson, 1984.
sociedade e na cultura contemporâneas.” Enciclopédia
Wikipedia. Jean Baudrillard. Vida. Disponível em: <http:// COSTA, D. Pichação carioca: etnografia e uma proposta de
[Link]/wiki/Jean_Baudrillard>. Acesso em: 26 dez. entendimento. Dissertação (Mestrado em Sociologia e
2012. Antropologia) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro: UFRJ, 2007.
13
Já para a revista Almanaque Grafite, na qual não encontramos
referência à pichação, o exercício do grafite comportará estilos COUTO, F. Grafites no planalto central. A Rede: Tecnologia para
específicos denominados Throw-up, Wild, 3D e o Free Style. inclusão social. Ano 2, n. 16, julho 2006.
Vale a ressalva que a referida revista recebe a colaboração CURRIER, E. The writing on the wall: Graffiti pioneer Darryl
de grafiteiros. McCray won’t let himself get forgotten. Philadelphia City
Throw-up é um estilo mais fácil de realizar tecnicamente e Paper, 2010. Disponível em: <[Link]
mais barato, pois gasta menos material. Caracterizado pelo articles/2010/06/10/darryl-cornbread-mccray-graffiti>.
uso de poucas cores, não se pinta o fundo com muito contraste. DICCIONARIO de la lengua española. Real Academia Española,
Apresenta formas de letras e desenhos “cheios”, dando um Madrid. Disponível em: <[Link]
efeito de volume. Wild é o estilo mais criativo de grafite; traça SrvltConsulta?TIPO_BUS=3&LEMA=calle>. Acesso em: 10
nomes e formas difíceis de ler para quem não é grafiteiro, set. 2009.
com cores e formas geométricas que lembram tatuagens
DREWEATTS. Catalogue, Londres, 2011, p. 22.
tribais. O 3D é o estilo mais realista, as formas parecem saltar
ESQUENAZI, R. Rio antigo. Aventuras na história, Rio de
do muro em nuances de luz e sombras, com cores altas e
Janeiro, fev. 2004. Disponível em: <[Link]/
baixas. O grande diferencial, e o que definirá este estilo, é a
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de um espaço tridimensional acontecer faz-se necessário [Link]/[Link]?art=84&seccion
superar a percepção de bidimensional. Há grafites que =Arte&subseccion=articulos2004?>. Acesso em: 26 maio
conseguem apropriar-se de quatro dimensões espaciais: a 2009.
altura, a largura, a profundidade e o tempo. Isto é feito quando FONSECA, C. A poesia do acaso: na transversal da cidade. São
transmitem a sensação de movimento além das dimensões Paulo: T. A. Queiroz, 1982.

[SYN]THESIS, Rio de Janeiro, vol.7, nº 2, 2014, p. 217 - 229


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