Estudantes Trabalhadores nas Universidades
Estudantes Trabalhadores nas Universidades
1590/1980-6248-2021-0033
e-ISSN 1980-6248
Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Instituto de Ciências Sociais - INCIS, Uberlândia, MG,
(i)
Resumo
O artigo analisa o perfil ocupacional dos estudantes das universidades federais
segundo as seguintes clivagens: estudante-ocupado, estudante-desocupado e
estudante-não-trabalhador. Deste modo, conseguiu-se identificar perfis
socioeconômicos distintos e assimetrias que afetam o modo como os estudantes
ocupados e, sobretudo, os desocupados acessam as oportunidades acadêmicas e a
vida universitária. Tomando-se os microdados das Pesquisas de Perfil da Andifes,
conclui-se que as portas das Ifes permanecem semiabertas para estudantes que
trabalham e para estudantes que, embora não estejam trabalhando, estão em busca
de trabalho, o que os torna ainda mais vulneráveis e dependentes de políticas
públicas de assistência e permanência.
Palavras-chave: ensino superior, trabalhadores, vida acadêmica, universidades
federais
3 Normalização, preparação e revisão textual: Wagner Nascimento dos Santos | Tikinet – revisao@[Link]
4
Apoio: Fonaprace/ANDIFES.
e-ISSN 1980-6248
Abstract
The article analyzes the occupational profile of federal university students according to the following
divisions: working student, non-working student, and student seeking work. Thus, it was possible
to identify distinct socioeconomic profiles and asymmetries that affect how working students and,
especially, non-working students access academic opportunities and university life. Considering the
microdata of the Andifes Profile Surveys, it is concluded that the doors of the Ifes remain half open
for working students and for students who, although non-working, are seeking work, which makes
them even more vulnerable and dependent on public policies of assistance and permanence.
Keywords: higher education, workers, academic life, federal universities
Introdução
É praticamente consenso na literatura que as políticas públicas para o ensino superior
gestadas nos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) ampliaram o acesso à universidade
para amplas parcelas da população brasileira (Heringer & Honorato, 2015), embora alguns
autores identifiquem o início deste processo em meados da década de 1990 (Carvalho, 2011;
Comin & Barbosa, 2011). Não obstante o fato de que a proporção entre ensino público e
privado pouco tenha se alterado quando se compara o número de vagas e de matrículas entre
2003 e 2016, a expansão concomitante das duas redes proporcionou uma modificação
substancial na quantidade 5 e no perfil dos estudantes universitários no país.
Sabe-se, contudo, que essas alterações não significaram que o ensino superior brasileiro
tenha se aproximado do padrão dos países capitalistas centrais: (i) o acesso dos jovens de 18 a
24 anos a este nível de ensino segue bem abaixo da média da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), e até mesmo de alguns países da América Latina; (ii) a
5 No período 2003-2016, nota-se que as matrículas nas Instituições de Ensino Superior (IES) públicas passam de
1.136.370 para 1.867.477, aumento de 64,3%, enquanto nas privadas o aumento é de 70,4%. No mesmo período,
as vagas nas IES públicas passam de 281.213 para 529.239, crescimento de 88,2%; enquanto, nas privadas, as vagas
passam de 1.721.520 para 3.407.890 – o que corresponde a praticamente o dobro (Cf. Instituto Nacional de Estudos
e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2017).
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população de baixa renda segue enfrentando enormes dificuldades para aceder e se manter na
universidade; (iii) permanece considerável a distância entre o perfil étnico-racial da população e
o das universidades; (iv) mantém-se a discrepância entre o perfil socioeconômico do corpo
discente do ensino básico público e o do ensino superior público (C. Y. Andrade & Dachs,
2007; Souza, 2012).
Não obstante, houve uma acelerada expansão do ensino superior no Brasil para
indivíduos pertencentes a grupos de menor renda (Associação Nacional dos Dirigentes das
Instituições Federais do Ensino Superior [Andifes], 2019), que frequentam cursos noturnos e
arcam privadamente com os custos de estudos, levando a uma inversão no modelo escola-
trabalho (Comin & Barbosa, 2011). Os “novos graduandos” seriam majoritariamente
trabalhadores (apenas 31,4% não trabalhavam em 2009) e adultos (há muito inseridos no
mercado de trabalho), que teriam, por fatores econômicos e ocupacionais, retornado à escola 6.
6 Como os autores não distinguem estudantes-trabalhadores do ensino superior segundo as redes pública e privada,
o peso e o perfil da maioria (do setor privado) pode ter ofuscado as diferenças e as distintas trajetórias da minoria,
ou seja, dos estudantes-trabalhadores das instituições públicas de ensino superior, foco deste artigo. Para uma
análise das motivações dos estudantes trabalhadores para além das necessidades econômicas, ver Cardoso &
Sampaio (1996).
7 Alguns autores discutem os limites do processo de democratização (Cruz & Paula, 2018; Dubet, 2015; Prates &
Barbosa, 2015), pois, se o processo de massificação tem levado ao ingresso de um maior e mais diversificado
número de estudantes, é também evidente que a inclusão continua produzindo assimetrias (Paula & M. G. Silva,
2012) ou o que autores chamam de inclusão excludente (Paula, 2015), inclusão marginal (Cruz & Paula, 2018).
Dubet identificou os efeitos paradoxais da massificação, pois, dependendo do critério de justiça adotado pelas
políticas públicas, “o que se ganha em um critério de democratização pode se perder num outro” (2015, pp. 263).
O sistema de ensino superior é cada vez mais heterogêneo (Sampaio et al., 2000), igualitário e legítimo (Prates &
Barbosa, 2015), mas continua contendo diferenciações profissionais (tipo de diplomas, por exemplo) e
institucionais (instituições de ensino superior públicas ou privadas).
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particularmente nas públicas (W. Almeida, 2007; Girotto, 2017; Sampaio et al., 2000; Zago,
2006); usufruir das diferentes oportunidades acadêmicas (bolsas de estudo e ingresso na pós-
graduação); e até mesmo concluir o curso (Santos & L. C. Silva, 2011). A política de permanência
estudantil, especialmente após a implementação do Plano Nacional de Assistência Estudantil
(Pnaes), em 2010, logrou em certa medida corrigir parte dessas discrepâncias. Porém, antes
mesmo de se consolidar e atingir o volume de recursos adequado às necessidades de parcela
significativa dos estudantes, o Pnaes vem passando por uma inflexão (Andifes, 2019).
Há duas dimensões que se configuram centrais para a análise da relação entre estudantes
e o trabalho: (i) se o estudante necessita ou não trabalhar; e (ii) em caso de necessidade, se está
ou não ocupado. A primeira dimensão estabelece uma clivagem entre aqueles para os quais o
estudo não está condicionado à necessidade de trabalho e aqueles para os quais estudar sem
trabalhar está fora de questão. A segunda estabelece uma clivagem entre aqueles para os quais a
necessidade de trabalhar se cumpre, ainda que parcialmente e em muitos casos precariamente,
aumentando de modo significativo a dificuldade material para prosseguir nos estudos, e aqueles
para os quais a necessidade do trabalho não se realiza em nenhuma medida.
Em resumo, deve-se levar em conta três grupos de estudantes: (i) estudantes que
trabalham; (ii) estudantes que não trabalham e estão à procura de trabalho; e (iii) estudantes que
não trabalham e não estão à procura de trabalho. Denominaremos estes três grupos,
respectivamente, de estudantes-trabalhadores-ocupados (doravante estudantes-ocupados),
estudantes-trabalhadores-desocupados (doravante estudantes-desocupados) e estudantes-não-
trabalhadores. A dimensão trabalho, tomada a partir das clivagens aqui propostas, permite
desnudar velhas e novas assimetrias em relação à permanência, trajetória e vivência
universitárias. Ademais, conferir centralidade à categoria trabalho tem vantagens, uma vez que
8Pesquisas recentes destacam a relação entre estudantes do ensino superior privado e o trabalho (Terribili Filho &
Raphael, 2005; Terribili Filho, 2007; Urchei, 2018).
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Discutiremos o perfil ocupacional dos estudantes a partir de três variáveis: (i) a origem
familiar (escolaridade dos pais); (ii) o perfil socioeconômico do estudante (idade, sexo, raça/cor,
tipo de escola em que estudou no ensino médio, renda per capita familiar, turno em que frequenta
a universidade); e (iii) as oportunidades acadêmicas (com especial atenção para o acesso a bolsas
e auxílios).
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A disputa por uma vaga nas instituições públicas é, em média, cinco vezes maior do que
nas particulares. F. Martins & Machado (2018) mostram que, em 2000, a relação candidato/vaga
nas instituições públicas era de 8,87, enquanto, em 2010, alcançou 7,56. Além de elevada
concorrência, observa-se nas federais uma taxa de ocupação de 101% em 2010 contra 44,2%
nas particulares, indicando que naquelas todas as vagas oferecidas eram ocupadas. Em 2018, a
relação candidato/vaga nas instituições públicas é de 11,5, enquanto nas particulares é de 1,77.
Embora a relação candidato vaga tenha crescido nas federais, a taxa de ocupação caiu para
91,6%. Nas instituições particulares também houve queda na taxa de ocupação, chegando a
37,9% (Inep, 2019). Esta queda reflete a conjuntura de crise econômica, o aumento do
desemprego, o crescimento da informalidade e a queda na renda (Pochmann, 2015).
Entrementes, o dado que mais chama nossa atenção é a ampliação do número de vagas
nas IES. Entre 2000 e 2010, as vagas oferecidas no ensino superior brasileiro cresceram
156,53%. Esta expansão ocorreu, sobretudo, nas IES privadas, cuja ampliação foi de 176,57%.
Nas públicas o aumento foi de 81,3% (F. Martins & Machado, 2018).
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A política responsável pelos resultados positivos no ensino público federal foi a efetiva
implementação, em 2008, do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades Federais (Reuni). Para termos uma dimensão do impacto do Reuni, vale destacar
que, em 2002, o país possuía 45 Ifes, passando, em 2017, para 63 – um crescimento de 40% (Cf.
Andifes, 2019; Inep, 2019). Novos campi foram abertos, passando de 148, em 2002, para 408,
em 2018 – variação de 175,6%. Ao longo do ano de 2018, ainda foram criadas cinco novas
universidades, totalizando 68. Ademais, no período 2003-2018, registrou-se um crescimento de
200% no número de vagas ofertadas nos cursos de graduação presenciais, saltando de 109.184,
em 2003 para 327.552 em 2018 (Inep, 2019).
A combinação entre Reuni, Sisu e Enem abriu as portas das Ifes para milhares de
estudantes oriundos do ensino médio público, que encontraram mais vagas disponíveis em todas
as regiões do país, ampliando tanto o potencial de mobilidade territorial quanto o acesso a locais
próximos de sua moradia. Com efeito, o desenho demográfico das Ifes tornou-se mais
diversificado e interiorano (Marques & Cepêda, 2012). Por fim, a Lei Federal nº 12.711/2012
instituiu cotas em todas as universidades federais impulsionando a política de ações afirmativas
(Daflon et al., 2013).
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9 O conjunto de ações voltadas ao ensino superior público federal, a partir do segundo mandato dos governos
petistas, tem uma dimensão material, voltada para a inclusão, redistribuição de oportunidades, visando minimizar
os efeitos das desigualdades sociais e aumentar a inserção de grupos sociais até então impedidos ou expelidos pelo
sistema (Moreira, 2016). Mas nem todos os grupos sociais são igualmente beneficiados por essas políticas públicas.
Como adverte Lotta (2017), as desigualdades tanto podem resultar da própria adoção de políticas públicas quanto
influenciar as decisões e os comportamentos de burocratas e usuários.
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se com renda mensal total, e não com renda mensal per capita, e com faixas muito extensas, que
nublam importantes desigualdades socioeconômicas entre os estudantes; (iii) para tratar da
origem escolar do estudante, não distingue se a frequência em escola privada se deu com ou
sem bolsa, além de incluir a categoria “metade em escola pública e metade em escola privada
(particular)”, que dificulta o preenchimento das alternativas aos respondentes; (iv) a escolaridade
é dividida em faixas que não contemplam se a frequência em uma determinada etapa do ensino
se deu de forma completa ou incompleta.
Por fim, vale mencionar a especificidade dos dados extraídos da Pnad sobre o perfil
estudantil no ensino superior. Trata-se de pesquisa amostral domiciliar, cujos dados não captam
a especificidade dos estudantes do ensino público federal, razão pela qual utilizamos os dados
das edições da Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos estudantes de
graduação das Ifes, realizada pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários
e Estudantis (Fonaprace)/Andifes. Com foco nas Ifes, os dados da Pesquisa de Perfil permitem
uma compreensão mais global e segundo diversas clivagens (Andifes, 2019).
Estudo e trabalho não são atividades excludentes ou dicotômicas (Cardoso & Sampaio,
1994), já que a presença de trabalhadores, mesmo no ensino superior público, é uma crescente
realidade. Entretanto, há uma tensão entre tais atividades. Por vezes, o trabalho dificulta o
estudo, ou é a “ausência de trabalho que impede a escolarização” (Vargas & Paula, 2013,
pp. 465).
10Segundo Carrano (2002), no período 1980-1998, as pesquisas tinham como objeto estudantes trabalhadores de
cursos noturnos em instituições públicas (Paiva, 1994; Ribeiro, 1997), os condicionantes da evasão entre estudantes
que conciliavam trabalho e estudo em instituições públicas (C. Martins, 1984; Maia, 1984) e as trajetórias estudantis.
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Referência nos estudos sobre estudantes universitários, Foracchi (1965, pp. 128)
observa que o trabalho “representa para o estudante a possibilidade efetiva de manter-se como
estudante”. Foracchi estabelece uma clivagem para discutir a especificidade das situações de
trabalho dos universitários de tal modo que, dependendo da natureza do trabalho, o significado
conferido pelo estudante à sua atividade laboral também se altera. O estudante que trabalha em
tempo parcial – caracterização que levou, posteriormente, à categoria “estudante-trabalhador”
–, compreende o trabalho como parcial e incompleto e, por isso, se equilibra entre as duas
atividades, razão pela qual sua emancipação familiar também será parcial. Já o estudante que
trabalha em tempo integral tende a priorizar o trabalho e tem menos tempo para os estudos,
mas é exatamente esta dependência do trabalho e esta autonomia em relação à família o que
conferem ao “trabalhador-estudante” um modo singular de se relacionar com o curso. Além
das clivagens derivadas das situações de trabalho, Foracchi também discute os estudantes que
não trabalham, que se dedicam integralmente aos estudos. Justamente por serem mantidos
integralmente pela família, não podem se emancipar, estando subordinados às expectativas e
necessidades familiares. Neste sentido, Foracchi estabelece três clivagens: “estudante-
trabalhador”, “trabalhador-estudante” e “estudante não trabalhador”, sendo este último aquele
que pode se dedicar “em tempo integral”, ter disponibilidade de tempo para a realização de
estudos, optar por carreiras que demandem tempo integral e se beneficiar de estágios que
antecedam uma boa colocação profissional.
11 Comin e Barbosa (2011) mostram a evolução crescente das horas despendidas semanalmente no trabalho
principal entre estudantes de graduação que trabalham 40 horas ou mais. Em 1995, eles correspondiam a 37,5%
do total de estudantes de graduação, enquanto em 2009 eram 44,6%. Nas instituições privadas, responsáveis por
3/4 das matrículas no ensino superior, 2/3 frequentavam cursos noturnos.
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depreendida apenas da realidade escolar (…) mas deve ser compreendida também a partir do
mundo do trabalho”, na medida em que 78% dos jovens entrevistados estavam trabalhando,
desempregados ou buscando alguma forma de contato com o mundo do trabalho. Ademais,
nos anos de 1990, uma importante alteração no mercado de trabalho brasileiro chamava a
atenção dos analistas: os jovens constituíam o segmento populacional mais atingido pelo
desemprego. Spósito (2003) analisa o perfil estudantil a partir das seguintes clivagens utilizadas
por Camarano (2003): jovens que estudam e trabalham, jovens que apenas trabalham, jovens
que apenas estudam e jovens que nem estudam nem trabalham. Embora não tenha colocado
um foco particular sobre estudantes universitários, a clivagem proposta por Spósito jogava luz
e chamava atenção para os desafios mais complexos para se pensar a relação entre educação e
trabalho, pois entre as maiores preocupações da juventude estava o desemprego.
As clivagens propostas neste artigo incorporam de forma crítica as análises das duas
autoras. Embora se considere central a diferença estabelecida por Foracchi entre trabalhadores
e não trabalhadores, incluímos também os desempregados entre trabalhadores, tal como notado
por Spósito.
Visando demonstrar que a “linha de largada” não é igual para todos, nosso foco volta-
se, inicialmente, para a análise da origem familiar e o perfil socioeconômico dos estudantes.
Posteriormente, busca-se evidenciar que também a trajetória acadêmica dos estudantes
ocupados, desocupados e não-trabalhadores é perpassada por desigualdades, e que a condição
de trabalhador ocupado ou desocupado é determinante. Ou seja, nossa intenção é mostrar que
também as oportunidades acadêmicas são desigualmente experimentadas, sendo o trabalho uma
variável central para compreender tais assimetrias.
Para testar a hipótese segundo a qual a origem social dos estudantes difere segundo a
condição de ocupação, tomaremos inicialmente alguns dados do perfil socioeconômico.
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O nível de escolaridade dos pais e das mães dos estudantes constitui indicador do capital
cultural herdado da família de origem. Os dados evidenciam uma clivagem importante entre
estudantes-ocupados e desocupados, por um lado, e estudantes não-trabalhadores, de outro, já
que estes últimos, notoriamente, vêm de famílias cujos pais possuem mais alta escolaridade,
especialmente no que diz respeito ao demarcador mais importante da trajetória escolar, que é o
acesso ao ensino superior. Nesse sentido, o ponto de partida desses dois conjuntos é desigual:
para os estudantes trabalhadores, o ensino superior é algo, inicialmente, distante e, por isso,
apresenta-se como uma novidade em relação à geração anterior; para os estudantes que não
necessitam trabalhar, é algo mais natural e transmitido como herança familiar.
A idade média é mais alta entre ocupados. Entre esses, a idade média é de 27,6 anos,
mas de 23,5 anos entre os desocupados e de apenas 22,0 anos entre os não-trabalhadores (Cf.
Andifes, 2019).
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Em relação à variável cor e raça, dentre não-trabalhadores, 46,5% são negros, 50,7%
brancos, 2,1% amarelos e 0,8% indígenas. Entre ocupados, 51% são negros (pardos, pretos-
quilombolas e pretos não quilombolas), 46% brancos, 2,2% amarelos e 0,8% indígenas (aldeados
e não aldeados). Finalmente, entre desocupados, 57,9% são negros, 38,8% brancos, 2,3%
amarelos e 1,2% indígenas. Ou seja, o maior percentual de negros encontra-se entre
desocupados e o menor, entre não-trabalhadores.
A renda constitui uma variável clássica nos estudos sobre perfil socioeconômico dos
estudantes no ensino superior. Ela baliza algumas importantes análises sobre o tema (Oliveira,
2019; Ristoff, 2014). Todavia, quando a análise dos níveis de renda é feita de forma apartada da
ocupação dos estudantes, ela pode deixar ofuscadas algumas assimetrias.
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média nominal per capita dos graduandos das Ifes é de R$ 1.328,07. Porém, é de R$ 1.664,00
entre ocupados, R$ 1.483,75 entre não-trabalhadores, e de apenas R$ 965,95 entre desocupados.
Embora o percentual de estudantes inseridos na faixa “Até 1,5SM” seja de 70,2%, dentre
os desocupados, este percentual é de 80,1%, entre ocupados é de 61,5% e entre não-
trabalhadores, de 65,3%. Por sua vez, embora o percentual global de estudantes inseridos na
faixa “Mais de 3SM” seja de 10,1%, entre ocupados é de 14,3%, dentre não-trabalhadores é de
12,6% e, entre desocupados, de apenas 5,2%.
Há, portanto, uma relação entre posição na ocupação e turno do curso, tal como
ressaltado pela bibliografia, de modo que o noturno é o turno de quase metade dos ocupados e
o integral de quase 2/3 dos não-trabalhadores.
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Tabela 1. Graduandos das Ifes por posição na ocupação segundo turno do curso (2018), em %
Estudantes-não- Estudantes-
Estudantes-ocupados Total
trabalhadores desocupados
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para 42,6%. Por sua vez, entre os não-trabalhadores, este percentual sobe para 51,8%,
confirmando que este grupo participa de forma mais plena da vida universitária.
Tabela 2. Graduandos das Ifes por posição na ocupação segundo horas de estudo fora da sala de
aula, frequência semanal à biblioteca e participação em atividades acadêmicos (2018), em %
aula
Biblioteca
semanal à
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Não são apenas dificuldades de natureza material que produzem assimetrias e desiguais
condições de permanência (Andifes, 2019; Sampaio et al, 2000; L. B. Silva & Costa, 2018), mas
elas têm centralidade na perspectiva estudantil em relação ao abandono do curso e ao
trancamento de matrícula.
Do total de estudantes das Ifes, 52,8% já pensaram em abandonar o curso. Dentre estes,
23,6% indicaram “dificuldade de conciliar trabalho e estudo” 12. Considerando-se tão somente
os estudantes com “dificuldade de conciliar trabalho e estudo”, 70,8% são ocupados, 5,7% não-
trabalhadores e 23,6% desocupados. Por sua vez, 32,7% dos que pensaram em abandonar o
curso indicaram “dificuldades financeiras”, mas este pensamento é igualmente desigual,
afetando mais os estudantes desocupados (43,1%) do que não-trabalhadores (25,6%) e
ocupados (23,6%).
Dentre estudantes das Ifes, 14,3% já haviam feito trancamento geral de matrícula, 22,1%
dos quais por motivo de trabalho. Mas a proporção de estudantes que trancaram por motivo de
trabalho varia segundo a condição de ocupação, pois corresponde a 37,0% dos estudantes
ocupados, 11,2% dos desocupados e 7,3% dos não-trabalhadores. Por sua vez, impedimento
financeiro foi o motivo geral de trancamento de matrícula de 6,6% dos ocupados, 8,6% dos
não-trabalhadores e 15,6% dos desocupados.
12 C. L. Andrade & Spósito (1986) mostraram que estudar e trabalhar significa uma pesada carga de desgaste físico,
alimentação precária e irregular.
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por 19,7% dos ocupados, indicando que, para estes últimos, são as premências do trabalho, e
em menor grau as exigências do estudo, seu maior problema.
Em síntese, a análise do perfil socioeconômico dos estudantes das Ifes segundo sua
condição de ocupação mostra a relevância desta clivagem para compreender suas desigualdades.
Se, sob os diferentes aspectos analisados, os estudantes-não-trabalhadores são aqueles que
apresentam as melhores condições socioeconômicas, os estudantes-trabalhadores – ocupados e
os desocupados – possuem diversas desvantagens. Além disso, se estes são semelhantes do
ponto de vista da autodeclaração racial como negros e frequência em escolas públicas, são
distintos em relação à renda e ao tempo de estudo: os ocupados possuem maior renda per capita
familiar, estudam à noite e têm menos tempo para os estudos pela dificuldade de conciliar estudo
e trabalho; os desocupados, por sua vez, são aqueles que possuem menor renda per capita
familiar, e por isso têm a sua permanência na universidade mais ameaçada por conta da
tendência a uma condição material mais precária.
A partir dos resultados de nossa análise, debateremos a seguir com a bibliografia que
têm discutido o acesso dos trabalhadores ao ensino superior no Brasil no período recente, com
o objetivo de apontar seus avanços e limites.
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Moraes (2016) adverte que nas instituições públicas federais haveria uma reticência de
seus docentes na oferta de vagas no período noturno, turno que concentrava a maior demanda.
Acrescenta, ainda que nas universidades públicas estaduais paulistas havia muitas restrições aos
cursos noturnos, tendo sido necessária uma lei estadual para que os cursos existentes abrissem
turmas à noite. A Constituição Paulista de 1989 definiu, em seu parágrafo único, que as
universidades públicas paulistas deveriam ofertar no período noturno um número mínimo de
vagas, equivalente a pelo menos um terço do total de vagas oferecidas – o que resultou no
aumento significativo da oferta de vagas, ainda que insuficiente (Catani et al., 1997), pois seria
13 Segundo Minto, na década de 1950, a cada 100 jovens com idade entre 20 e 24 anos, “menos de 1% (0,88) estava
matriculado no ensino superior no Brasil. Em 1960, esse número não chegava a 2% (1,49) e, mais de uma década
depois, em 1971, não atingiu 7% (6,78)” (2014, pp. 218). A partir dos anos de 1990, diminuiu a seletividade,
importando destacar, entretanto, que ela persiste e se manifesta de diversas formas.
14 Tais críticas ocultariam um ressentimento de classe média, pois os estudantes sentiam-se ameaçados diante do
aumento da concorrência no mercado de trabalho (Trópia, 2009). A resistência estudantil envolveu a ocupação de
pelo menos 14 reitorias em todo o país, além da publicação de artigos e do dossiê-denúncia intitulado “Livro cinza
do Reuni” (Coordenação Nacional de Entidades pela Revogação do Reuni, 2009).
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necessária a criação de 1.330 novas vagas para alcançar a constitucionalidade, tomando como
referência o ano de 1996. Segundo Oliveira & Catani (2001), o percentual de vagas oferecidas
no período noturno da Unicamp passou de 8%, em 1989, para 35,3% em 2000. Nos casos de
Unesp e USP, o percentual mínimo de um terço já estaria garantido, embora houvesse distorções
significativas segundo as áreas do conhecimento. Na Unesp, o percentual constitucional estava
garantido apenas na área de humanidades, enquanto na USP, mesmo com a criação em 2004 da
USP Leste, “há um desequilíbrio entre as áreas de conhecimento, uma vez que a área de ciências
biológicas está muito aquém de um terço (19,1%), a de ciências exatas está próxima de um terço,
com 29,6% e a de ciências humanas excede a meta com 48,3%” (Barreiro & Terribili Filho,
2007, pp. 95).
No ensino superior federal, ainda que a oferta de vagas no período noturno tenha
crescido de 23,1%, em 2000, para 28,4%, em 2010, é evidente a disparidade com o ensino
privado, que, em contrapartida, aumentou as vagas neste mesmo turno de 66,2% para 72,8%,
em período idêntico (Vargas & Paula, 2013, pp. 461). Esta pujança, segundo Moraes (2016), não
é casual, na medida em que a rede privada é aquela que se volta, desde a década de 1960, quando
os primeiros cursos noturnos foram criados (Terribili Filho & Nery, 2009), para o oferecimento
de vagas aos trabalhadores, razão pela qual seria tão extensa.
Vargas & Paula (2013) afirmam que, apesar de a democratização ter ampliado o ingresso
de setores das classes subalternas no ensino superior brasileiro, as políticas públicas de acesso e
permanência não contemplam as especificidades do estudante-trabalhador e do trabalhador-
estudante, ainda que a maioria dos universitários brasileiros trabalhe ou esteja à procura de
trabalho.
Não se pode desconsiderar que a ampliação da rede de ensino superior no Brasil, acima
evidenciada, mudou a expectativa dos setores populares quanto à possibilidade de ingresso no
ensino superior. O que era um sonho longínquo, ou nem isso, tornou-se uma possibilidade
concreta.
Se o acesso ao ensino superior é hoje uma realidade para milhares de jovens pretos e
pardos, oriundos das classes populares e estudantes de escolas públicas, o acesso e, em
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particular, a permanência no ensino superior continuam um desafio social e político para essas
populações. Como evidenciam algumas pesquisas, a permanência no ensino superior depende
de muito esforço dos próprios estudantes e apoio de familiares (C. L. Andrade & Spósito, 1986;
Urchei, 2018; Zago, 2006) na valorização da escola (W. Almeida, 2007).
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para continuar os estudos. Segundo Urchei, trabalho “duro” e esforço físico são necessários
para que os estudantes consigam, apesar do cansaço (Mendes, 1986), frequentar aulas, pagar
mensalidades, transporte e alimentação. Terribili Filho & Raphael (2005) também revelam as
adversidades enfrentadas por estudantes de cursos noturnos que trabalham no período diurno
(Barreiro & Terribili Filho, 2007) e enfrentam problemas diários no trânsito e transportes,
implicando atrasos e perdas de aulas.
Todas estas pesquisas mostram que compatibilizar trabalho e estudo não é apenas um
gargalo ao acesso, mas igualmente constitui um desafio para a permanência dos estudantes-
ocupados.
Considerações finais
O debate acadêmico vem apontando as assimetrias no acesso ao ensino superior com
ênfase em critérios socioeconômicos como renda e autodeclaração racial. No entanto, quando
aborda o estudante-trabalhador, tem como referência o estudante ocupado, mas menor atenção
é dada àquela parcela significativa do corpo estudantil que não trabalha, mas está à procura de
trabalho, o estudante-desocupado.
Nesse sentido, vários estudos mostram a importância do ensino noturno para que o
estudante ocupado possa conciliar estudo e trabalho, embora seja exatamente este o principal
obstáculo para que vivencie a vida universitária de forma plena, como demonstram os dados
aqui apresentados. Ainda, vimos que, a despeito dos avanços, o ensino noturno nas Ifes tem se
limitado pela barreira de contenção de 30%, deixando as portas semiabertas para este segmento
de estudantes que necessitam trabalhar.
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mais fortemente a juventude, torna-se ainda mais necessária a ampliação das políticas de
permanência estudantil. O grupo de estudantes desocupados revelou, em alguns aspectos, maior
frequência e, neste sentido, dependência de equipamentos universitários. Porém, o que temos
visto, especialmente após o golpe de 2016 e com a eleição do governo Bolsonaro, é justamente
o contrário. De modo que a redução das verbas do Pnaes não apenas faz com que as portas
permaneçam semiabertas, mas constitui ameaça real de que elas se fecharão ainda mais, dado o
grau de retrocesso que está em curso.
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