Notas de Aula v3.
F 008: Introdução à Física
Uma introdução aos conceitos básicos das Ciências da Natureza
baseado nas notas do Prof. Rickson C. Mesquita
8 de março de 2025
Instituto de Física Gleb Wataghin – IFGW
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o suficiente
para assumir a responsabilidade por ele e, ao mesmo tempo, salvá-lo
daquela ruína que, não fosse a renovação, não fosse a chegada do novo e do
jovem, seria inevitável. E a educação também é onde decidimos se amamos
nossos filhos o suficiente para não expulsá-los do nosso mundo e deixá-los
entregues à própria sorte, nem para tirar de suas mãos a chance de
empreender algo novo, algo imprevisto por nós, mas para prepará-los
antecipadamente para a tarefa de renovar o mundo comum.”
– Anna Harendt, A Crise na Educação
Sumário
Sumário iii
Visão Geral da Disciplina 1
O que é ciência? 4
1 A ciência e o método científico 5
1.1 O começo da ciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
1.2 O método científico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.3 Medidas e grandezas físicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
1.3.1 Conversão de unidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.4 Notação científica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.4.1 Múltiplos de grandezas físicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.5 Algarismos significativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
1.5.1 Operações com algarismos significativos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
1.6 Determinando o valor e a incerteza de uma medida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.7 Estimativa e Ordem de Grandeza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
1.8 Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
Alphabetical Index 27
Visão Geral da Disciplina
A Física é a área da ciência que estuda a natureza e seus fenômenos,
buscando entender as leis fundamentais que regem o comportamento da
matéria e da energia. Ela está presente em diversas áreas da tecnologia
e de outras áreas científicas, tornando o domínio dos seus conceitos
essencial para o entendimento da Medicina, Engenharia, Computação e
Meio Ambiente, entre outros. Esta disciplina visa introduzir os princípios
fundamentais da Física de forma contextualizada e quantitativa, buscando
analisar a sua aplicação na resolução de grandes questões ao longo dos
milênios.
Ao final da disciplina, você deverá ser capaz de:
▶ Descrever, de forma natural e não memorizada, os princípios e as
leis fundamentais para o entendimento da natureza;
▶ Utilizar a álgebra e a geometria para modelar problemas científicos
e prever observações acerca da natureza;
▶ Compreender o processo e o método científicos como forma de
adquirir conhecimento e responder questões acerca da natureza e
seus fenômenos;
▶ Trabalhar em grupo de forma colaborativa e construtiva, sempre
tendo o respeito ao próximo como elemento norteador das suas
decisões;
▶ Desenvolver disciplina, autonomia e organização para o estudo no
nível universitário;
▶ Adquirir ou fortalecer hábitos para a leitura acadêmica regular e
ativa.
Pré-Requisitos
É esperado os estudantes matriculados nessa disciplina tenham conceitos
básicos de manipulação algébrica de equações, funções e geometria
plana no nível Médio. Além disso, espera-se que os estudantes já tenham
tido contato com conceitos elementares da Física, como tempo, espaço,
velocidade, aceleração, energia e ondas.
Se você tem alguma deficiência nos conteúdos acima, fale com o professor,
monitor ou um dos tutores o mais rápido possível. Não saber quaisquer
um dos tópicos acima não é um problema no início, mas passará a
ser se você demorar a buscar ajuda. Portanto, busque ajuda para que
possamos encontrar uma forma de sanar estas dificuldades antes que
elas atrapalhem o seu desenvolvimento nesta disciplina.
Horário das Aulas
Segundas-feiras, 19-21h (IF15 / Salas de aula do IFGW)
Quintas-feiras, 19-23h (LF30 / Lab. Ensino – LEB-LEI)
Sumário 2
Dinâmica da disciplina
Esta disciplina é prevista para os alunos ingressantes do curso de Licen-
ciatura em Física noturno, num semestre que foi inteiramente desenhado
para que você tivesse muita dedicação a esta disciplina, tanto dentro
quanto fora da sala de aula. Em específico, o menor número de disciplinas
previsto para o primeiro semestre deste curso tem como objetivo fornecer
um maior tempo para que você se dedique às atividades extraclasses
previstas em F 008. Por isso, ao longo do semestre você terá muitas tarefas,
que deverão ser realizadas de forma semanal durante a disciplina:
Textos Para cada semana, é esperado que você leia o texto disponibilizado
no Moodle e elabore resumos dos seus principais pontos, que
deverão ser apresentados e validados nas aulas de segunda-feira.
Todos os resumos deverão ser feitos à mão, com caneta azul ou
preta, e não deverão ultrapassar o limite de uma folha (frente e
verso).
Aula Magna As aulas de segunda-feira serão destinadas exclusivamente
à discussão dos conteúdos lidos no texto da semana. Esta discussão
será feita de forma ativa, usando um sistema de respostas em
tempo real com o celular e internet. A frequência nestas aulas será
Por que a disciplina tem este formato tão
acessada através da mesma plataforma. diferente?
Listas de Exercícios Ao final de cada aula magna, serão definidos uma Eu sei que ler e fazer resumos dá tra-
lista contendo aproximadamente 10 exercícios que deverão ser balho e pode ser chato, e que resolver
realizados de forma escrita ao longo da semana. Os exercícios terão vários exercícios e ser arguido sobre eles
também não é fácil. Eu também não gos-
como objetivo praticar e sedimentar conceitos mais básicos, além tava de fazer isso quando aluno. Mas
de apresentarem situações de aplicações que exigem uma maior a verdade é que há décadas e centenas
abstração. Todos os problemas deverão ser feitos na ordem em que de estudos que mostram que esta é uma
serão requisitados. Em outras palavras, você não poderá “pular” forma muito mais eficiente para apren-
der, assim como há uma infinidade de
um problema sem autorização do professor ou do monitor da evidências que assistir aula expositiva é
disciplina. a forma mais ineficaz para aprender algo.
Aulas Exploratórias As quatro horas de aula de quinta-feira serão desti- Por isso, se vamos gastar 6 horas por se-
mana ao longo de todo o semestre (mais a
nadas ao trabalho conjunto de resolução, discussão e arguição dos
quantidade de horas fora da sala fazendo
exercícios disponibilizados. Nestas aulas, vocês deverão trabalhar resumos e resolvendo exercícios), então
em grupos de três (isto é, trios) para chegarem a uma solução melhor que seja fazendo algo que seja
comum dos exercícios da lista. Durante a aula, vocês contarão com eficiente e dê um retorno lá no final! Se
você quiser saber um pouco mais sobre
o apoio de tutores (alunos de graduação mais avançados no seu
a neurociência da aprendizagem, assista
curso) que poderão tirar todas suas dúvidas. A validação da lista esse vídeo.
de exercícios será feita pela monitora da disciplina após a entrega
e a arguição oral dos membros do grupo. Só após a sua lista for
validada é que você deverá trabalhar na lista seguinte.
Material de Referência
Todo o material necessário para a disciplina estará disponível na plata-
forma Moodle disponibilizada pela UNICAMP ([Link] [Link]).
Para acessar o sistema, utilize seu login e senha fornecidos pela DAC.
Sumário 3
Como usar estas notas de aula
Estas notas foram exclusivamente elaboradas para acompanhar as aulas
e tutoriais de F 008. Neste material você encontrará um conjunto de
informações que deverá ser utilizado para orientar a discussão das aulas
e dos exercícios. Este material foi baseado em vários livros, que você
poderá consultar de forma independente caso queira saber mais sobre um
determinado assunto, e que servem de referência para esta disciplina:
Livros-Textos com conteúdos gerais sobre os tópicos discutidos ao longo
da disciplina (citação abreviada usada ao longo do texto em negrito):
▶ James S. Trefil (2013). The Sciences: an integrated approach, 7th Edition,
Wiley. No chamada: 507 T716s (Trefil)
▶ Paul G. Hewitt (2015). Física conceitual, 12a. Edição, Bookman. No
chamada: 530 H497f (Hewitt)
▶ Jim Breithaupt (2018). Física, 4a Edição, Livros Técnicos e Científicos.
No chamada: 530 B748f (Breithaupt)
▶ Richard P. Feynman, Robert B. Leighton, Matthew Sands (2008).
Lições de Física, Ed. Bookman. No chamada: 530 F438f, também
disponível online em inglês (Feynman)
Livros de revisão de matemática:
▶ Samuel Hazzan & Gelson Iezzi (2013). Fundamentos de matemática
elementar, Ed. Atual. No chamada: 510 F962 (Iezzi)
▶ Luiz R. Dante (2011). Matemática: Contexto & Aplicações, Ed. Ática.
No chamada: 510 D235m (Dante)
▶ George F. Simmons (1988). Cálculo com geometria analítica, McGraw-
Hill. No chamada: 515.15 Si47c (Simmons)
Nestas notas,eu tentei destacar a terminologia específica usada em
Física/Matemática em negrito azul. Esses são termos técnicos com os
quais você precisará se familiarizar, porque são usados para atalhos
nas discussões de questões técnicas da ciência; portanto, as questões
dos exercícios e dos exames podem ser formuladas com esses termos.
Outros termos que foram emprestados de outras disciplinas, ou que não
são centrais para o tópico discutido, são enfatizados em itálico, e outros
termos incidentais que são úteis ou necessários para a discussão são
destacados em negrito.
Objetivos de Aprendizagem
No início de cada capítulo, você vai encontrar um quadro similar
a este que define alguns objetivos de aprendizagem. Os objetivos de
aprendizagem de cada capítulo representam os principais pontos
deste capítulo, ou seja, os pontos listados é o que eu espero que você
deva saber ou ser capaz de fazer depois de ler o capítulo. Você pode
utilizar estes objetivos para direcionar o seu resumo, além de poder
usar estes objetivos como uma autoavaliação: se ao final do capítulo,
você ainda não souber responder ou fazer o que está delineado nos
objetivos de aprendizagem, então você não entendeu o que leu. Tente
reler o material relevante, ou busque ajuda, tanto com os colegas
quanto com o professor durante a aula magna.
O que é ciência?
A ciência e o método científico 1
A ciência é uma forma de pensar que ajuda a compreender como as 1.1 O começo da ciência . . . 6
coisas funcionam. Mas o que quero dizer por “compreender” algo? 1.2 O método científico . . . . 7
Richard Feynman, um dos físicos mais famosos do século XX, descreveu 1.3 Medidas e grandezas
a ciência da seguinte forma: “Podemos imaginar que esse conjunto físicas . . . . . . . . . . . . 10
1.3.1 Conversão de unidades . . 11
complicado de coisas em movimento que constitui ‘o mundo’ seja algo
parecido com uma grande partida de xadrez jogada pelos deuses, e nós 1.4 Notação científica . . . . . 13
1.4.1 Múltiplos de grandezas
somos observadores do jogo. Não conhecemos as regras do jogo; tudo
físicas . . . . . . . . . . . . . 15
que nos é permitido fazer é observar. Claro que se observarmos por um
1.5 Algarismos significativos 15
tempo longo o suficiente, poderemos eventualmente aprender algumas
1.5.1 Operações com algarismos
regras. As regras do jogo são o que queremos dizer por física fundamental.
significativos . . . . . . . . 16
Entretanto, mesmo que conheçamos todas as regras, poderemos não
1.6 Determinando o valor e a
entender por que uma jogada específica foi feita, meramente porque
incerteza de uma medida 17
isso pode ser muito complicado e nossas mentes são limitadas. Se você
1.7 Estimativa e Ordem de
joga xadrez, deve saber que é fácil aprender todas as regras, porém
Grandeza . . . . . . . . . . 20
frequentemente é muito difícil selecionar a melhor jogada ou entender
1.8 Problemas . . . . . . . . . . 21
por que um jogador fez aquela jogada. Assim também é a natureza, só
que muito mais ainda; porém podemos ser capazes, pelo menos, de
descobrir todas as regras. Na verdade, ainda não temos todas as regras.
(...) Além de não conhecermos todas as regras, o que realmente podemos
explicar em termos dessas regras é muito limitado, porque quase todas
as situações são tão complicadas que não conseguimos seguir os lances
do jogo usando as regras e muito menos prever o que irá ocorrer em
seguida. Devemos, portanto, nos limitar à questão mais básica das regras
do jogo. Se conhecermos as regras, consideraremos que ‘entendemos’ o
mundo.”1 1: Trecho retirado de Feynman, volume
1, capítulo 2.
Objetivos de Aprendizagem do Capítulo 1
▶ Definir o que caracteriza algo como ciência ou não.
▶ Explicar a diferença entre um número (matemática) e uma
grandeza física.
▶ Explicar porque 12 × 10−2 não é um número descrito correta-
mente quando usamos a notação científica.
▶ Explicar porque os números 1,6 e 1,600 são diferentes.
▶ Entender a diferença entre um chute e uma estimativa, e fazer
cálculos básicos de estimativas de grandezas físicas.
Este capítulo assume que você tem familiaridade com aspectos básicos
de matemática, incluindo alguma notação mais convencional. Por isso, Figura 1.1: Richard Feynman foi um físico
teórico, ganhador do prêmio Nobel em
recomendo que você dê uma olhada no Apêndice ?? antes de ler este 1965 pelo seu trabalho em eletrodinâmica
capítulo, e leia o que você não conhece antes de prosseguir a leitura quântica. É um dos principais físicos do
deste capítulo. século XX, e também muito famoso pelas
suas analogias e facilidade de explicar
conceitos complicados da Física.
1 A ciência e o método científico 6
1.1 O começo da ciência
A história da ciência tem suas raízes na Mesopotâmia, onde o advento
da agricultura e da escrita permitiu que as pessoas tivessem tempo
para estudar e registrar seus resultados. O fascínio pelo céu noturno
impulsionou a ciência inicial. Desde o século IV a.C., sacerdotes sumérios
estudavam as estrelas e registravam os resultados em tabuletas de barro.
Embora não tenhamos registros de seus métodos, uma tabuleta de 1800
a.C. mostra conhecimento de propriedades de triângulos retângulos.
Na Grécia antiga, a ciência não era vista como uma área distinta da
[Link] de Mileto, reconhecido como um dos primeiros cientistas
(também chamados de filósofos naturais neste início), teria usado dados
babilônicos para prever um eclipse solar em 585 a.C., mostrando a força
da abordagem científica.
A Grécia antiga era composta por várias cidades-estado, com Mileto sendo
o local de nascimento de muitos filósofos notáveis. Muitos outros filósofos
estudaram em Atenas, onde Aristóteles era um observador perspicaz, mas
não realizava experimentos. Ele acreditava que, se reunisse um número
Figura 1.2: A Mesopotâmia é o nome
suficiente de pessoas inteligentes, a verdade surgiria. Archimedes, que dado para a área compreendida entre os
viveu em Siracusa, na Sicília, pesquisou as propriedades dos fluidos. rios Tigre e Eufrates, que nos dias mo-
Um novo centro de aprendizado surgiu em Alexandria, fundado por dernos corresponde a aproximadamente
a maior parte do atual Iraque e Kuwait.
Alexandre, o Grande, em 331 a.C. Lá, Erastótenes mediu o tamanho Essa região é considerada um dos berços
da Terra, Ctesíbio desenvolveu relógios precisos, e Hero inventou o da civilização ocidental.
motor a vapor. Na época, os bibliotecários de Alexandria colecionavam
os melhores livros que encontravam para montar a melhor biblioteca
do mundo, que foi destruída quando romanos e cristãos tomaram a
cidade.
A ciência florescia de forma independente na China. Os chineses inventa-
ram a pólvora, fogos de artifício, foguetes e armas, e também criaram os
foles para trabalhar metais. Eles inventaram o primeiro sismógrafo e a pri-
meira bússola. Em 1054, astrônomos chineses observaram uma supernova
que, em 1731, foi identificada como a Nebulosa do Caranguejo.
Muita da tecnologia avançada do primeiro milênio a.C., incluindo a roda,
foi desenvolvida na Índia, e missões chinesas foram enviadas para estudar
as técnicas agrícolas indianas. Os matemáticos indianos desenvolveram
o sistema numérico de algarismos indo-arábicos, incluindo números
negativos e zero, e instituíram definições para as funções trigonométricas
de seno e cosseno.
No meio do século VIII, o Califado Islâmico Abbasíd transferiu sua
capital do Império de Damasco para Bagdá. Guiado pelo princípio do
Alcorão que afirma "a tinta de uma pena de um sábio é mais sagrada
que o sangue de um mártir", o califa Harun al-Rashid fundou a Casa
da Sabedoria na sua nova capital com o objetivo de funcionar como
uma biblioteca e centro de pesquisa. Estudiosos coletavam livros de
antigas cidades-estado gregas e da Índia e os traduziam para o árabe,
permitindo assim a chegada de muitos textos antigos ao Ocidente, onde
eram desconhecidos durante a Idade Média. Até o meio do século IX,
a biblioteca de Bagdá havia crescido e se transformou em uma digna
sucessora da Biblioteca de Alexandria.
1 A ciência e o método científico 7
Vários astrônomos foram inspirados pela Casa da Sabedoria, como Al-
Sufi, que enriqueceu o trabalho de Hiparco e Ptolomeu. A astronomia
era uma prática comum entre os nômades árabes para a navegação no
deserto durante as travessias noturnas. Alhazen, nascido em Basra e
educado em Bagdá, foi um dos primeiros cientistas experimentais e seu
livro sobre ótica é considerado de importância semelhante ao trabalho
de Isaac Newton. Alquimistas árabes inventaram a destilação e outras
técnicas inovadoras, além de ter cunhado termos como alcalemia, aldeído
e álcool. Al-Razi apresentou o sabão (sal de ácido graxo) e distinguiu,
pela primeira vez, a varíola do sarampo. Ele escreveu em um de seus
inúmeros livros: “O objetivo de um médico é fazer o bem até mesmo
para seus inimigos”. Al-Khwarizmi e outros matemáticos inventaram a
álgebra e algoritmos, e Al-Jarazi inventou o sistema de biela corrente que
ainda é utilizado em bicicletas e carros. Somente após vários séculos é
que os cientistas europeus se atualizariam sobre esses avanços.
A Era de Ouro Islâmica foi um período de florescimento científico e
artístico, que teve início na capital do Califado Abássida, Bagdá, no século
VIII e durou cerca de cinco séculos. Esta era preparou o terreno para
a experimentação e o método científico. Mas na Europa o pensamento
científico demorou a superar as restrições do dogma religioso.
Durante séculos, a visão da Igreja Católica sobre o universo era baseada
na teoria de Aristóteles, que afirmava que a Terra estava no centro
da órbita de todos os corpos celestes. Em 1532, após anos de debate,
Nicolau Copérnico concluiu que o Sol era centro do Universo. Embora
consciente da heresia, Copérnico foi cauteloso e afirmou que seu modelo
era apenas matemático. Johannes Kepler refinou a teoria de Copérnico
usando as observações de Tycho Brahe e calculou que as órbitas de Marte
e, consequentemente, dos outros planetas eram elípticas. Telescópios
mais avançados permitiram ao polímata Galileu Galilei identificar as
quatro luas de Júpiter em 1610. O novo poder explicativo da cosmologia
tornou-se inegável.
Galileu também demonstrou o poder da experimentação científica ao
investigar a física de objetos em queda e projetar o pêndulo como
um medidor de tempo. O holandês Christiaan Huygens usou essa
descoberta para construir o primeiro relógio com pêndulo em 1657. O
inglês Francis Bacon escreveu dois livros expondo suas ideias sobre um
método científico, e o princípio teórico fundamental da ciência moderna
foi desenvolvido com base em experimentos, observações e medições.
1.2 O método científico
Francis Bacon apresentou o primeiro sistema lógico para o processo
científico no início do século XVII. Baseado no trabalho do cientista árabe
Alhazen 600 anos antes, e reforçado pelo filósofo francês René Descartes,
o método científico de Bacon exige que os cientistas façam observações,
formem uma teoria para explicá-las e realizem testes para verificar se a
teoria é válida. Se a teoria parecer verdadeira, os resultados são enviados
para revisão e apreciação por colegas com o mesmo interesse, a fim de
encontrar falhas ou repetir a experimentação para garantir a precisão
dos resultados.
1 A ciência e o método científico 8
Figura 1.3: Representação esquemática
do método científico moderno. A curi-
osidade e/ou neces- sidade nos levam
a observações experimentais, que nos
permite identificar um padrão e que nos
motiva a desenvolver uma hipótese ci-
entífica. Na ciência, qualquer explicação
ou hipótese precisa ser verificável. Isso
significa que nossos modelos devem ser
capazes de prever resultados de novos
experimentos em laboratório ou de ob-
servações da natureza.
O método científico proposto por Bacon segue algumas etapas (Figura
1.3). A primeira etapa envolve a formulação de um problema ou uma
questão, que tipicamente surge a partir de uma observação específica.
As observações podem ser utilizadas para determinar um padrão; na
tentativa de explicar esse padrão, fazemos conjecturas (isto é, hipóteses).
As hipóteses são baseadas em suposições e, frequentemente, podem ser
descritas por meio de um modelo científico. Modelos nada mais são
do que representações conceituais (e, muitas vezes abstratas) de algum
fenômeno que observamos. Os modelos podem evoluir para uma teoria,
que é uma explicação bem testada de um fenômeno natural em termos
de processos e relações mais básicas. Ao longo desse processo também
podemos elaborar leis, que descrevem relações entre coisas que podemos
observar e medir.
Qualquer hipótese ou modelo, para ser científico, precisa ser testável.
O elemento onipresente do método científico é o empirismo. As ciências
naturais não se baseiam unicamente na razão para resolver problemas.
É o fator empírico que diferencia o método científico de outras formas
filosóficas, como as formas baseadas no racionalismo proposto por René
Descartes. Fazendo o experimento podemos medir coisas, e comparar com
a previsão do modelo existente. Essa é uma das grandes características
de qualquer explicação científica: ela precisa ser testada, analisada e
validada. Por exemplo, o astrônomo inglês Edmond Halley observou o
cometa de 1682, notou sua semelhança com cometas relatados em 1531
e 1607 e afirmou que eram o mesmo objeto em órbita ao redor do sol.
Halley previu seu retorno em 1758 e estava correto – foi avistado em 25
de dezembro.2 2: Hoje, este cometa é conhecido como
Halley, em homenagem ao seu observa-
Para os astrônomos, a prova só pode vir da observação, pois raramente dor.
eles são capazes de realizar experimentos. Em outras áreas das ciências da
natureza, experimentos podem acontecer para testar uma teoria, ou serem
totalmente simplesmente especulativos. Por exemplo, quando Ernest
Rutherford observou seus alunos disparando partículas alfa numa folha
de ouro em busca de deflexão, sugeriu que colocassem o detector ao lado
da fonte. Para surpresa deles, algumas das partículas alfa ricochetearam
na folha laminada. Rutherford comparou isso a uma bala ressaltando de
um lenço de papel, o que levou a uma nova ideia sobre a estrutura do
átomo.
1 A ciência e o método científico 9
A validação de uma hipótese científica passa pela sua capacidade de
prever novas observações. Se a experimentação resultar no previsto,
o cientista tem prova para apoiar sua teoria. Se em algum momento
nossa hipótese não é capaz de explicar algum fenômeno, descartamos
a hipótese e procuramos outra melhor. A ciência não assume verdades
absolutas, não tem dogmas. Ela tem hipóteses e modelos. Enquanto nosso
modelo prevê os fenômenos que observamos ou criamos, o utilizamos.
Mas quando algum experimento contradiz o modelo, os cientistas não
têm vergonha nenhuma em assumir que o modelo está errado (ou pelo
menos incompleto), e a partir daí buscam aprimorar seus modelos.
Em outras palavras, a ciência nunca pode provar que uma teoria está
correta. Como frisou Karl Popper no século XX, a ciência pode apenas
refutar coisas.3 Cada experimento que resulta na resposta prevista é uma 3: Karl Popper foi um dos filósofos da
prova de embasamento, mas um teste fracassado invalida uma teoria. ciência mais influentes do século XX, co-
nhecido por sua rejeição das visões clás-
Ao longo dos séculos, conceitos antigos, como a simplicidade do universo, sicas sobre o método científico em favor
da falsificação empírica. Segundo Popper,
os quatro líquidos orgânicos, a noção de flogistíco e o meio misterioso
uma teoria nas ciências empíricas nunca
conhecido como éter, foram descartados e substituídos por novas teorias. pode ser provada, mas pode ser falsifi-
Embora as novas teorias sejam consideradas atuais, elas ainda podem cada, o que significa que pode (e deve) ser
ser refutadas (ainda que isso seja improvável, com base nas evidências examinada com experiências decisivas.
Popper se opôs à abordagem justificacio-
atualmente disponíveis). Essas teorias são continuamente avaliadas
nista clássica do conhecimento, que ele
e aprimoradas por meio de novas descobertas e experimentações. O substituiu pelo racionalismo crítico.
processo científico é dinâmico e evolui constantemente, resultando em
um entendimento mais preciso da natureza e do universo.
Embora não ofereça certezas, a ciência é a ferramenta mais eficaz que
descobrimos até hoje para elaborar explicações racionalmente e fazer
previsões precisas. Sua importância ficou evidente com a Revolução
Científica, consolidada pelo método científico proposto por Bacon. A
ciência mudou radicalmente a forma como a humanidade compreende
e interage com o mundo. Se antes a ênfase era manter o conhecimento
existente, sem aspirações de novos avanços, a confiança crescente na
ciência e os investimentos em pesquisa científica transformaram esse
cenário.
Desde a primeira circunavegação da Terra pela expedição de Magalhães
em 1522 até a aterrissagem na Lua em 1969, a humanidade tem expan-
dido seus horizontes. Por exemplo, em 1674 Anton van Leeuwenhoek
observou um microrganismo pela primeira vez; desde então, aplicamos
este conhecimento na medicina e na indústria. As evidências empíricas
comprovam que o investimento em ciência resulta em desenvolvimentos
significativos em várias áreas, incluindo a exploração espacial, biotec-
nologia e energia nuclear. Exemplos deste progresso incluem os bilhões
de dólares investidos pelos países desenvolvidos em ciência, facilitando
avanços tecnológicos e industriais e promovendo um ciclo contínuo de
pesquisa e desenvolvimento.
Problema 1.2.1 Quais das seguintes sentenças podem ser consideradas
hipóteses científicas? (a) Mexer com sapos causa verrugas; (b) Objetos
mais pesados caem mais rápido do que objetos mais leves na Terra; (c)
Planetas distantes abrigam outras formas de vida; (d) O planeta Marte
é habitado por seres invisíveis que são capazes de fugir e se esconder
de qualquer tipo de observação.
1 A ciência e o método científico 10
1.3 Medidas e grandezas físicas
Realizar experimentos é, no fim das contas, realizar uma medida de uma
grandeza física. De forma geral, medir significa associar um número
a uma grandeza física. Por exemplo, ao medir o comprimento de um
objeto, estamos associando um número (que representa a distância entre
dois pontos no espaço) com uma grandeza física (no caso, o comprimento
do objeto).
Podemos medir diferentes características de um objeto. Ou seja, podemos
medir diferentes grandezas físicas, que podem ser associadas às diferentes
características do objeto. Além do comprimento, já citado, podemos
querer medir o intervalo de tempo que este objeto demora para ir de um
lugar até outro; ou podemos querer saber quanto este objeto pesa. Talvez
o nosso interesse seja na temperatura do objeto. E, se esse objeto for um
fio por onde passa eletricidade, seria útil sabermos a corrente elétrica
que passa no fio.
Se quisermos reportar os resultados de um experimento para qualquer
outra pessoa, precisamos então definir um padrão. Não teria sentido eu
dizer para você que uma parede tem 8 glitches de altura se você não
souber o significado de um glitch. Por outro lado, quando eu digo que
uma parede tem 2 metros de altura, você tem uma boa noção de qual
é o tamanho da parede. Isto ocorre porque nós dois estamos usando o
mesmo padrão, o metro. Na Física, chamamos estes padrões que usamos
para medir coisas de unidades.
Qualquer que seja a escolha do padrão, ela deve ser acessível para várias
pessoas e deve possuir algumas propriedades que podem ser facilmente
medidas. Ao longo do tempo, cada civilização desenvolveu os seus
próprios padrões, baseados em unidades arbitrárias. Tipicamente, estas
unidades eram associadas com partes do corpo humano, como o pé e
o polegar. Frequentemente, usava-se as mãos e os pés dos reis como
referência. Por exemplo, em 1120 o rei da Inglaterra nomeou o padrão
para medir o comprimento como jarda, que deveria ser igual à distância
da ponta do seu nariz ao final de seu braço estendido. Na França, o
padrão original para o pé foi o comprimento do pé do rei Luís XIV.
À medida que o comércio foi se expandindo para diferentes reinos, a
escolha de diferentes medidas passou a criar muitos problemas. Afinal,
as pessoas de uma certa região não estavam familiarizadas com o sistema
de medidas de outras regiões. Um princípio básico da medida é que os
padrões de medida usados em diferentes lugares devem fornecer o mesmo resultado.
Imagine a dificuldade em comprar ou vender produtos cujas quantidades
eram expressas em unidades de medidas totalmente diferentes, e que nem
tinham correspondência entre si. Para que qualquer medição seja precisa,
é importante padronizarmos a unidade da grandeza que queremos medir.
Só desta forma diferentes pessoas em diferentes lugares ao redor do
Universo são capazes de produzir o mesmo resultado numa medida.
Para tentar resolver esse problema, a Academia de Ciências da França
apresentou em 1799 a proposta de um sistema métrico decimal unificado,
cujas grandezas eram medidas em unidades padronizadas. O sistema
métrico francês adotou inicialmente três unidades básicas de medida:
o metro (para medir distâncias), o quilograma (para medir massas) e o
segundo (para medir tempos). Naquela época, um metro foi definido
1 A ciência e o método científico 11
como um décimo de milésimo da distância do Equador ao polo Norte,
medido através de uma linha imaginária que passava por Paris.
Já o tempo sempre foi uma grandeza associada com uma medida entre
dois eventos que se repetem. As civilizações mais antigas usavam a
posição do sol no céu para medir o tempo. Não a toa o nosso calendário
tem 365 dias, correspondendo a diferentes posições do sol no céu. Outras
civilizações usavam a posição da lua, e com isso criaram um outro
calendário. Até 1967, o segundo era definido com base no dia solar
médio.4 4: Um dia solar é um intervalo de tempo
entre sucessivas aparições de sol no
Em 1960 um comitê internacional estabeleceu sete grandezas físicas ponto mais alto em que ele atinge no
como fundamentais, e definiu um conjunto de padrões para cada uma céu a cada dia. Um segundo foi definido
como 1/86.400 de um dia solar médio.
destas grandezas. Hoje, as sete grandezas físicas fundamentais são o
comprimento, o tempo, a massa, a corrente elétrica, a temperatura, a
quantidade de uma substância e a intensidade luminosa. Qualquer outra
grandeza física pode ser obtida a partir da combinação destas grandezas
fundamentais.
O padrão estabelecido para cada grandeza física é conhecido como
Sistema Internacional, ou simplesmente SI. No SI, o comprimento é
medido em metros; o tempo, em segundos; a massa, em quilogramas; a
corrente elétrica, em amperes; a temperatura, em kelvin; a quantidade de
uma substância, em mols; e a intensidade luminosa é medida numa uni-
dade chamada candela. Cada uma destas unidades tem uma abreviação
(Figura 1.4).
Figura 1.4: As grandezas físicas funda-
mentais e suas principais unidades, de
acordo com o sistema internacional de
unidades (SI).
1.3.1 Conversão de unidades
O Sistema Internacional de unidades é usado em quase todos os países
do mundo, mas não é o único sistema em vigor. Os EUA, por exemplo,
usam o sistema britânico até hoje. Lá, o leite é vendido em galões, não
em litros; as velocidades dos carros são medidas em milhas por hora.
Mas, se soubermos a relação entre dois padrões, podemos facilmente
converter uma unidade de um sistema de medida para outra unidade de
outro sistema de medida. No caso de distância, por exemplo, sabemos
que 1 milha é igual a 1.609 metros. A partir desta informação, podemos
converter qualquer distância entre estas duas unidades.
1 A ciência e o método científico 12
Utilizando fatores de conversão como o citado acima podemos multipli-
car ou dividir distâncias, tempos ou qualquer outra grandeza para passar
de uma unidade de medida para outra. Por exemplo, se quisermos saber
quantos centímetros tem 15 polegadas precisamos saber que o fator de
conversão é que 1 polegada = 2,54 centímetros. Assim,
2 , 54 cm
15·
pol = 38 , 1 cm.
1pol
Exemplo 1.3.1 Muitas pessoas gostam de usar regras de três para fazer
conversão de unidades. Na verdade, o procedimento mais direto e sim-
ples é utilizar os princípios de multiplicação da álgebra. Dada uma certa
grandeza física com uma determinada unidade, basta multiplicar esta
grandeza pelo fator de conversão, de forma que as unidades similares
se cancelem. Afinal, como o numerador e o denominador são equiva-
lentes, apenas em unidades diferentes, a multiplicação de qualquer
valor por uma fração deste tipo não altera o valor, só muda as unidades.
Por exemplo, se a distância entre 2 cidades nos EUA é de 32 milhas,
para determinar quantos quilômetros as duas cidades estão uma da
outra é necessário saber que 1 milha equivale a 1.609 m. Daí,
1.609
m 1 km
= 51 km.
32·
mi ·
1
mi
1000
m
Esse procedimento é especialmente útil quando temos que fazer suces-
sivas conversões, Por exemplo, se precisarmos converter a densidade
da água, de 997 kg/m3 , em g/cm3 , simplesmente fazemos:
kg 103 g 1 m 1m 1m g
= 997·10−3 = 0, 997 g/cm3 .
997 · · 2 · 2 · 2 3
m
3 1 kg
10 cm 10 cm 10 cm cm
Definindo unidades a partir de fenômenos da natureza
Com o tempo, aprendemos que os padrões usados para medidas não
devem mudar com o tempo, pois isso poderia confundir medidas
feitas em períodos completamente diferentes. Um metro deveria ser
representar a mesma coisa sempre, independente de fazermos a
medida hoje ou daqui a mil anos.
Por este motivo, com o passar dos anos os cientistas buscaram definir
cada uma das principais unidades do SI em padrões reprodutíveis
da natureza que não mudam. Hoje, o metro é definido a partir da
distância que a luz percorre no vácuo num intervalo muito curto de
tempo: 1/299.792.458 segundos.
Já o segundo, que usamos para medir o intervalo de tempo, atualmente
é definido a partir de oscilações de um elétron entre dois estados
específicos do átomo de Césio. Hoje, 1 segundo corresponde a
[Link] oscilações entre dois estados específicos do átomo de
césio.
Até 2019, o quilograma era definido com base num cilindro de liga de
1 A ciência e o método científico 13
platina, apelidado de “Le Grand K,” e mantido em Paris. Qualquer
medida de massa deveria ser comparada a este cilindro, que era
utilizado como referência. O problema é que o próprio peso do
cilindro muda com o tempo por causa de variações na temperatura
e pressão. Por isso, desde 2019 o quilograma passou a ser definido
em termos da constante de Planck, uma constante muito utilizada
na Física e cujo valor foi medido com extraordinária precisão nos
últimos anos.
Desta forma, hoje podemos medir coisas de forma muito mais precisa
do que há 100 anos atrás, o que nos permite desenvolver tecnologias
cada vez mais precisas. Se hoje você consegue navegar numa cidade
desconhecida usando um GPS, agradeça ao esforço que vários
cientistas fizeram para melhorar a precisão de medidas a ponto do
seu aplicativo conseguir te dar uma precisão de poucos metros em
intervalos de tempo muito curtos.
A metrologia é a área de pesquisa que busca aprimorar a precisão
dessas medidas, com órgãos responsáveis como o NIST nos EUA e o
INMETRO no Brasil. O INMETRO define os padrões de medida no
Brasil, tem sua sede em Brasília e laboratórios em Duque de Caxias,
no Rio de Janeiro. Aprimorar a precisão dessas medidas permite
tecnologias mais precisas, como GPS.
1.4 Notação científica
Um dos fatos mais relevantes na ciência é que ela é capaz de estudar
todos os objetos, desde a partícula mais minúscula que há no universo
até o próprio universo em si (Figura 1.5). A generalidade de estudar
comprimentos, tempos e massas tão diferentes faz com que seja necessária
uma notação mais compacta para escrever números relacionados com
várias escalas diferentes. Em outras palavras, precisamos achar uma
forma de escrever números muito grandes e muito pequenos ao mesmo
tempo. Afinal, nem todas as coisas são práticas para escrevermos em
termos de segundo, metro e quilograma.
Por exemplo, se você quisesse escrever a idade do universo − que é de
13,8 bilhões de anos − você teria que escrever nove zeros depois do 13,8.
E se tivesse que fazer algum cálculo envolvendo essa grandeza, você
teria que escrever todos esses zeros o tempo inteiro. Da mesma forma,
já pensou ter que calcular o volume de uma célula, cujo tamanho é da
ordem de 0,000005 metros? A forma tradicional de escrever números não
é nada prática quando lidamos com números muito grandes ou muito
pequenos.
Seria muito mais fácil se achássemos uma notação mais compacta para
escrever qualquer número. E, de fato, criamos uma notação própria,
chamada de notação científica. Na notação científica, escrevemos os
números em múltiplos de potências de 10. Ou seja, escrevemos um
determinado número como o produto de um número maior que 1 e
menor que 10, e uma potência de 10:
𝑛 = 𝑎 · 10𝑏 . (1.1)
1 A ciência e o método científico 14
Figura 1.5: Diferentes escalas de espaço
(esquerda) e tempo (direita) comumente
estudados nos diferentes ramos da ciên-
cia.
O número antes da potência de 10 é chamado de mantissa. E o número
que elevamos na potência é chamado de expoente. Nessa notação, a idade
do Universo seria escrita como 1 , 38 · 1010 anos. E o tamanho da célula,
como 5 · 10−6 m. Muito mais simples, não?
Outra vantagem da notação cientifica é que os cálculos entre dois ou mais
números ficam muito mais fáceis de serem feitos. Afinal, precisamos
fazer contas com números entre 1 e 10, e depois somar ou subtrair
expoentes seguindo as regras da álgebra. Por exemplo, para multiplicar
dois números na notação cientifica, multiplicamos as mantissas dos
números e adicionamos os seus expoentes.
Exemplo 1.4.1 (Calculando o número de átomos em todos os seres
humanos) O corpo humano tem aproximadamente 7 · 1027 átomos, e a
Terra tem mais ou menos 7 bilhões de pessoas – ou 7 · 109 pessoas, na
notação científica. Assumindo estes valores como corretos, podemos
calcular quantos átomos existem nos corpos de todos os seres humanos
na Terra:
7 · 1027 átomos
𝑁 = 7 · 109 ×
pessoas = 7 · 7 · 1027+9
1pessoa
= 49 · 1036 = 4 , 9 · 10 · 1036 = 4 , 9 · 1037 ,
pois na notação científica o número antes da potência de 10 precisa
estar entre 1 e 10. Logo, reescrevemos o 49 como 4 , 9 × 10 = 4 , 9 × 101 .
Com isso, o número de átomos em todos os corpos das pessoas na
Terra é 4 , 9 · 1037 .
1 A ciência e o método científico 15
1.4.1 Múltiplos de grandezas físicas
Embora a notação científica simplifique muito o trabalho de escrever
números muito grandes ou muito pequenos, muitas vezes estudamos
sistemas físicos onde uma determinada escala de tamanho, tempo ou
massa é muito frequente. Por exemplo, não faz sentido um astrônomo
descrever distâncias entre galáxias em metros, pois todas as distâncias
que ele lida estão em escalas muito maiores do que um metro. Ao mesmo
tempo, um metro para um biólogo que estuda células é uma escala
igualmente inútil, pois ele precisa trabalhar com comprimentos numa
escala um milhão de vezes menor do que o metro.
Por este motivo, é conveniente definir múltiplos para cada unidade básica
do SI, e atribuir prefixos a determinados múltiplos de 10. Estes prefixos
têm abreviações com letras universalmente aceitas na ciência (Figura 1.6).
Desta forma fica fácil saber que toda unidade precedida pelo prefixo
’quilo’ representa 1000 vezes aquela unidade, ou 103 . De forma similar, 1
milisegundo equivale a 0,001 segundos, ou 10−3 segundos, pois o prefixo
mili geralmente está associado ao expoente −3 na potência de 10. E a
memória de 8 Gb (gigabytes) de RAM de um computador significa 8
bilhões de bytes, ou 109 bytes.
Figura 1.6: Prefixos mais utilizados para
representar diferentes fatores de 10 que
podem multiplicar uma determinada
unidade.
1.5 Algarismos significativos
Uma outra característica importante quando escrevemos números na
ciência é que estes números refletem o resultado de uma grandeza
física, que é no final das contas obtido por uma medida experimental.
Logo, o valor de uma medida está sempre associado a um instrumento.
Para medirmos algo precisamos de um instrumento de medida. Um
relógio ou um cronômetro pode medir o intervalo de tempo entre dois
eventos; uma balança é utilizada para medir a massa de um objeto; uma
régua, uma trena e um paquímetro são instrumentos capazes de medir
distâncias entre dois ou mais pontos.
No entanto, qualquer que seja o instrumento que usarmos para medir
uma grandeza física, o resultado da medida nunca será exato. Todo
instrumento tem uma certeza dentro de um certo intervalo no qual ele é
capaz de medir. Por exemplo, se medirmos o tamanho de um livro com
1 A ciência e o método científico 16
uma régua, o nosso instrumento de medida (no caso, a régua) é dividido
em centímetros, e no intervalo de 1 centímetro há 10 riscos (Figura 1.7).
Portanto, o intervalo entre dois riscos corresponde a 0,1 cm. Logo, a maior
certeza que podemos ter ao medir um livro com uma régua é de 0,1 cm,
ou 1 mm.
Então, se o livro tem um tamanho de 27,8 cm medido com a régua, não
podemos ter certeza se o resultado final é 27,81 ou 27,89 cm – a régua
não tem essa precisão. O último algarismo que temos certeza é o 8. Este
é o último número que tem algum significado no valor associado ao
Figura 1.7: Uma régua milimetrada pode
tamanho do livro que medimos. Dizemos, portanto, que o número que ser utilizada com instrumento para me-
medimos tem 3 algarismos significativos: o 2, o 7 e o 8. dir comprimentos na escala de cm. No
intervalo de 1 cm há 10 traços, indicando
Na notação científica, escrevemos o tamanho do livro como 2 , 78 × 101 cm. que a menor medida corresponde a 1
Essa é a maior precisão que temos nesta medida. Não podemos escrever cm/10 = 0,1 cm = 1 mm.
o tamanho do livro como 2 , 783 × 101 cm ou 2 , 785 × 101 cm pois, apesar
de ser um número mais preciso do que 2 , 78 × 101 , nossa medida não
teve essa precisão toda.
A única maneira de contar o número de algarismos significativos de
forma não ambígua é escrevendo o número que queremos em notação
científica. Neste formato, podemos verificar com certeza qual é a precisão
do número que estamos lidando.
Quando o número que estamos medindo é muito pequeno, os zeros à
esquerda do número não contam como algarismos significativos, pois
não dá pra medir zero com nenhuma precisão - zero é sempre zero...5 5: Você já deve ter ouvido falar na ex-
Assim, se um número medido é escrito como 0,00162 segundos, há apenas pressão “zero à esquerda”, né? Pois é,
quando alguém diz que algo é um zero
3 números que tem algum significado: 1, 6 e 2 – os zeros à esquerda à esquerda, a pessoa quer dizer que este
não servem pra nada. Dizemos, portanto, que este número também tem algo não serve pra nada... essa expressão
3 algarismos significativos. Em notação científica, temos 1 , 62 × 10−3 s. vem da ciência.
Agora ficou claro os 3 algarismos significativos, não é mesmo?
Por outro lado, os zeros à direita contam como algarismos significativos,
pois ao escrevermos os zeros à direita estamos passando a mensagem
de que podemos ter certeza destas casas decimais, independente do
número ser zero ou não. Então, o número 1,620 tem quatro algarismos
significativos. E ao escrevermos o número desta forma estamos dizendo
que temos precisão até o terceiro dígito após a vírgula – ou seja, temos
certeza do número medido até o zero.
1.5.1 Operações com algarismos significativos
Frequentemente precisamos combinar diferentes medidas através das
operações matemáticas. Ao fazer isso você deve se certificar que o
resultado tenha um número apropriado de algarismos significativos.
Afinal, não faz sentido eu medir duas coisas com uma precisão de 0,1
cm e dar a resposta com a precisão de 0,000005 cm. Claramente eu não
tenho precisão suficiente para dar essa resposta.
Por exemplo, se dividirmos 1,23 por 3,4461, o resultado não é igual a
0,3569252! Sua calculadora até pode dar esta resposta, porque matemati-
camente este é o resultado. Mas calculadoras não pensam como nós, e não
entendem o que significa a imprecisão ou a incerteza de uma medida.
Você é quem precisa fazer este trabalho! E, considerando a precisão dos
dois números, vemos que a menor precisão está no 1,23 – que tem 3
1 A ciência e o método científico 17
algarismos significativos. Portanto, não faz sentido minha resposta ter
mais do que 3 algarismos significativos, que é a menor precisão que
temos nos números que usamos para fazer a conta. A resposta correta da
divisão de 1,23 por 3,4461 é 0,357. Precisamos arredondar o resultado
para o número adequado de algarismos significativos.
Da mesma forma, quando somamos ou subtraímos os valores de duas
medidas, o número de casas decimais do resultado deve ser ajustado
pensando na imprecisão que temos. Assim, 1,23 + 3,4461 é igual a 4,68, e
não 4,6761 como você poderia pensar. Afinal, a medida mais imprecisa é
1,23, que tem 3 algarismos significativos. Logo, a resposta também terá
que ter, no máximo, 3 algarismos significativos. Eu não tenho como ter
maior precisão do que isto.
E toda vez que o número de algarismos significativos no resultado tiver
que ser reduzido, há uma regra geral para arredondar os números. Se
o último dígito abandonado for maior do que 5 aumentamos em uma
unidade o último dígito retido. Por exemplo 1,346 se torna 1,35.
Bom, agora você pode entender qual a diferença entre 1,62 e 1,620,
né!? Matematicamente, eles são a mesma coisa. Mas, cientificamente,
eles representam coisas diferentes. Afinal, quantos mais dígitos forem
especificados mais precisão está implicada. Neste caso, 1,620 significa
um número que tem maior precisão do que 1,62.
1.6 Determinando o valor e a incerteza de uma
medida
Se medir é associar um valor a uma grandeza, como fazemos para encon-
trar este valor? E que certeza podemos ter deste valor que eventualmente
encontramos?
Como vimos, qualquer que seja o instrumento que usarmos para medir
uma grandeza física, o resultado da medida nunca será exato. Todo
instrumento tem uma certeza dentro de um certo intervalo no qual ele é
capaz de medir. Ou seja, o próprio instrumento de medida introduz uma
incerteza na medida.
O observador da medida também pode limita a precisão de uma medição.
A grande maioria destes erros está associado ao fenômeno de paralaxe.
Dependendo do ângulo que o observador está em relação à régua, ele
pode medir o comprimento do livro como 23,7 cm ou como 23,8 cm.
Como tanto as incertezas associadas ao ato de medir quanto as incertezas
associadas ao instrumento de medida em si são fontes de incertezas que
não podemos retirar da medida em nenhum momento, chamamos estas
incertezas de incertezas sistemáticas. Precisamos sempre considera-las
ao fazer uma medida, mas tipicamente não podemos diminuir estas
incertezas; elas sempre estarão lá.
Mas há um outro tipo de incerteza que geralmente é a maior fonte de
erro numa medida. Muitas vezes, se você repetir o mesmo experimento,
tentando considerar as mesmas condições, você vai obter um resultado
diferente nas duas medidas. Toda medida está sujeita a flutuações aleatórias
1 A ciência e o método científico 18
Figura 1.8: A influência do número de
repetições de um experimento para di-
minuir a incerteza estatística, devido às
flutuações aleatórias.
nas condições experimentais que fazem com que a grandeza física medida
oscile em torno do valor mais provável desta grandeza.
Ao contrário das incertezas sistemáticas, a incerteza estatística devido às
flutuações aleatórias pode ser minimizada ao repetir o experimento mais
de uma vez. Podemos ver como isto ocorre a partir de um exemplo simples.
Imagine um experimento realizado com o objetivo de medir a aceleração
da gravidade, 𝑔 . Ao realizar o experimento uma única vez, pode-se
encontrar qualquer valor para a medida. De fato, o valor encontrado na
primeira tentativa foi de 𝑔 = 10 , 7 m/s2 . Mas se repetirmos o experimento
várias vezes, podemos quantificar quantas vezes obtivemos uma medida
de 𝑔 dentro de um determinado intervalo de valores possíveis. Um
gráfico que mostra o número de tentativas (ou a proporção de tentativas)
que cada valor foi obtido, como os gráficos da Figura 1.8, é chamado de
histograma.
Podemos ver que quanto maior for o número de tentativas, 𝑁 , o histo-
grama da figura se aproxima de uma distribuição simétrica, centrada ao
redor de um valor médio (representado pela linha tracejada na Figura
1.8). Isso significa que embora se possa obter diferentes valores para um
experimento devido às flutuações aleatórias, ao repetir o experimento
várias vezes o valor médio se torna mais exato (isto é, ele se aproxima do
valor esperado para 𝑔 ).
Para o experimento em questão, quando realizamos o mesmo experimento
1000 vezes e calculamos a média dos valores obtidos, encontramos
𝑔 = 9 , 81 m/s2 como o valor médio fornecido pelo experimento para a
aceleração da gravidade. Este é um valor bem próximo do valor conhecido,
de 9 , 78 m/s2 . Quando realizamos o experimento apenas 10 vezes, o valor
médio é 𝑔 = 10 , 3 m/s2 , um pouco mais distante do valor conhecido.
Isso não significa que o valor medido está errado; ele apenas tem uma
incerteza maior do que quando realizamos o experimento 1000 vezes.
Podemos quantificar a incerteza de uma medida experimental usando
conceitos de estatística. Primeiramente, podemos calcular a dispersão
dos resultados, isto é, podemos ver quão distante as medidas obtidas
nas diferentes tentativas estão uma das outras. A variância, 𝑠 2 , é uma
medida de dispersão que mostra o quão distante cada valor medido está
do valor médio. Podemos calcular este valor somando a diferença entre
1 A ciência e o método científico 19
cada medida e o valor médio ao quadrado. Matematicamente,
𝑁
1 X
𝑠2 = (𝑥 𝑖 − 𝑥)
¯ 2,
𝑁 − 1 𝑖=1
onde 𝑁 é o número total de medidas, 𝑥¯ é o valor médio, 𝑥 𝑖 é o valor da
P
i-ésima tentativa e representa a soma sobre as diferentes tentativas do
experimento realizado, começando da tentativa 1 e indo até a tentativa
𝑁.
Podemos ver que a variância tem unidade do quadrado da grandeza
física medida. Por exemplo, se medirmos a massa de um objeto com uma
balança em kg, o valor médio calculado também fornecerá o resultado em
kg. Mas a variância destes valores terá uma unidade de kg2 . Desta forma,
podemos tirar a raiz quadrada da variância para obter uma medida de
dispersão com a mesma unidade da grandeza medida. Esta grandeza é
conhecida como desvio padrão, 𝜎 , e pode ser utilizada para representar
uma estimativa da incerteza estatística associada a um experimento.
Matematicamente, √
𝜎 = 𝑠2.
Podemos ver pela Figura 1.8 que a incerteza diminui à medida que o
número de repetições do mesmo experimento aumenta. Para N = 1000,
obtemos o valor médio de g igual a 9,81 m/s2 , com desvio padrão de
0,31 m/s2 . Para N = 10, o valor médio não só é mais distante do valor
conhecido como a incerteza das medidas é maior: 𝑔¯ = 10 , 3 m/s2 e
𝜎 = 3 , 3 m/s2 . De forma compacta, e considerando o número correto de
algarismos significativos, podemos escrever os valores medidos como
𝑔𝑁=10 = (1 , 0 ± 0 , 3) × 101 m/s2 = (10 ± 3) m/s2 e 𝑔𝑁=1000 = (9 , 8 ± 0 , 3)
m/s2 .
A certeza de uma medida
Embora tenhamos usado o termo exato para falar da certeza de uma
medida, há diferentes termos comuns utilizados na ciência e que não
são sinônimos entre si. A acurácia é uma medida que se relaciona à
proximidade com o valor real (assumindo que conhecemos o valor
real), ou a uma tendência ou a um padrão (valores de referência que já
são conhecidos). Já a precisão está relacionada ao grau de consistência
das medidas obtidas com a sua média. A medida precisa é aquela que,
quando repetida várias vezes, dá o mesmo valor (mesmo que este
seja um valor errado, diferente do valor real). O termo exatidão está
relacionado ao valor real de uma amostra, ou de uma tendência ou um
padrão. Conhecer o valor exato de uma amostra é algo praticamente
impossível, por isso a exatidão é um termo empírico.
Como vimos, todas as medidas estão sujeitas a erros, que podem ser
erros relacionados à metodologia empregada, do aparelho utilizado
ou erros acidentais. A medida de acurácia está relacionada a erros
sistemáticos e aleatórios. Já a medida da precisão envolve somente
erros aleatórios.
Problema 1.6.1 Um estudante usou um cronômetro para medir o
tempo que um pêndulo leva para completar 20 oscilações. Ao repetir
1 A ciência e o método científico 20
o experimento 5 vezes, obteve os seguintes resultados: 25,2 s, 24,7 s,
25,1 s, 24,7 s e 24,9 s. (a) Escreva o intervalo de tempo medido pelo
estudante, incluindo também sua incerteza. (b) Suponha que alguém
repetisse o experimento uma sexta vez e obtivesse 25,3 s para o mesmo
intervalo de tempo. Esta medida seria possível? Justifique.
1.7 Estimativa e Ordem de Grandeza
Vimos como a notação científica é útil para podermos determinar re-
sultados de forma precisa e única. Embora os valores precisos de uma
certa grandeza sejam importantes, em alguns casos nos deparamos com
perguntas que não precisam de um valor exato como resposta. Nestes
casos, se tivermos um valor aproximado para a grandeza em questão,
podemos aceitar este valor e seguir em frente.
Por exemplo, suponha que você quisesse apenas ter uma ideia do número
de respirações de um ser humano durante a vida, desde o momento que
ele nasceu até o momento que irá morrer. Neste caso, não faria muita
diferença se sua reposta tivesse 10 ou 15 respirações a mais que o valor
exato. Este é um exemplo onde uma estimativa da resposta já é suficiente.
Fazer estimativas faz parte do nosso dia-a-dia, e é uma habilidade muito
importante para podermos ter ao menos uma noção quantitativa de
respostas para problemas nos quais não fazemos ideia de como obter
uma resposta (ao menos rapidamente).
Uma estimativa não é um “chute”. Ao estimar uma grandeza fazemos
suposições sobre quantidades que parecem impossíveis de calcular dada
a informação disponível. Precisamos ter um certo bom senso para escolher
as informações relevantes ao problema, e algum conhecimento para a
escolha dos parâmetros que fazem sentido. A principal característica de
uma estimativa é a utilização de hipóteses simplificadas, mas ao mesmo
tempo pertinente ao problema.
Vamos voltar ao nosso problema. Pra responder o número de respirações
durante a vida de uma pessoa, precisamos primeiro estimar a duração
da vida de uma pessoa. Hoje, a expectativa de vida é da ordem de 70
anos. Talvez 68, talvez 75. Mas lembre-se, não estamos interessados no
valor exato; apenas num valor aproximado. Então, vamos ficar com 70
anos. Depois, podemos supor que uma pessoa, sentada e parada, realiza
10 respirações por minuto. De novo, esse número varia de acordo com a
atividade e o estado de espírito da pessoa, se ela pratica exercícios, se
está dormindo ou acordada, com raiva ou serena, etc. Mas, como tudo
que precisamos é de uma estimativa, vamos pensar em 10 respirações por
minuto. Logo, temos 10 respirações por minuto, por 70 anos. Como um
ano tem 365 dias, e cada dia tem 24 horas, e cada hora tem 60 minutos, e
em cada minuto há 10 aspirações, o número de respirações estimado é
aproximadamente 4 × 108 , ou quatrocentos milhões de respirações.
A resposta acima, com 1 algarismo significativo, poderia sugerir que ao
menos temos certeza de algo na resposta. Mas perceba que não temos
certeza alguma do valor 4 da resposta. Afinal, se tivéssemos escolhido
outros números próximos, o valor que teríamos obtido seria diferente
de 4. Por exemplo, se tivéssemos estimado que a vida média de uma
pessoa é de 80 anos, ao invés de 70, a estimativa final seria da ordem
1 A ciência e o método científico 21
de 5 × 108 respirações. Como queremos apenas o valor aproximado,
podemos responder qualquer estimativa apenas pela ordem de grandeza
do número que estamos interessados.
Determinar a ordem degrandeza de uma medida consiste em fornecer,
como resultado, a potência de 10 mais próxima do valor encontrado para
a grandeza. Mas como estabelecer essa potência de 10 mais próxima?
Partindo da notação científica, 𝑎 · 10𝑏 , procede-se assim:
√ se o número 𝑎
que multiplica a potência de 10 for maior ou igual a 10, utiliza-se, como
ordem de grandeza, a potência √ de 10 de expoente um grau acima, isto
é, 10𝑏+1 ; se 𝑎 for menor que 10, usa-se a mesma potência da notação
científica, isto é, 10𝑏 .6 6: Se você
√ ficou curioso do porque utili-
zamos 10 como referência,
√ isto se deve
9
No caso do nosso problema, a ordem de grandeza é de 10 respirações. ao fato de que 101/2 = 10 ≈ 3 , 16, que
E, de acordo com a nossa regra, tanto faz se tivéssemos escolhido 70 ou corresponde ao ponto médio do inter-
valo 100 e 101 , pois
80 anos como o tempo de vida de uma pessoa. Esta escolha mudaria a
0+1
mantissa, mas não a ordem de grandeza que obtivemos. 10 2 = 100,5 . (1.2)
Mais uma questão técnica a respeito de notação: para denotarmos que
estamos nos referindo apenas à ordem de grandeza, e não ao número
exato de uma quantidade, trocamos o símbolo = da resposta pelo ∼. Na
ciência, ∼ significa “da ordem de”. Quando dizemos que o número de
respirações durante a vida de uma pessoa é da ordem de 109 (∼ 109 ),
estamos implicitamente dizendo que nosso resultado é confiável dentro
de aproximadamente um fator de 10.
Resumindo, saber estimar valores para grandezas nos faz ter ao menos
uma noção da resposta para uma determinada pergunta. Com isso,
podemos tentar responder – mesmo que aproximadamente – qualquer
pergunta que quisermos. É, de fato, uma ferramenta poderosa – que abre
nossa mente para a imaginação. Mas cuidado, porque também é viciante!
Podemos estimar qualquer coisa, desde que tenhamos bom senso em
escolher variáveis úteis e fizermos hipóteses razoáveis.
1.8 Problemas
Método científico
Problema 1.8.1 Julgue as seguintes afirmações como verdadeiras ou
falsas: (a) A ciência não passa de uma mera curiosidade dos seres
humanos; (b) A ciência tem origem na curiosidade do ser humano;
(c) A ciência permite o desenvolvimento de tecnologias que todos
nós usamos, como o celular ou a eletricidade; (d) A ciência é uma
ferramenta que nos permite entender a natureza.
Problema 1.8.2 Quais das seguintes sentenças podem ser consideradas
hipóteses científicas? (a) Os átomos são as menores partículas de
matéria que existem; (b) O espaço é permeado por uma partícula
indetectável; (c) Albert Einstein foi o maior físico do século 20;
1 A ciência e o método científico 22
Medidas e grandezas físicas
Problema 1.8.3 O consumo de energia em nossas casas é dado em
kW.h (quilo-Watt hora). Calcule a quantidade de energia consumida
por uma lâmpada de 40 W acesa continuamente por um mês inteiro,
tanto em quilo-Watt hora como em Joules.
Problema 1.8.4 A lei da gravitação universal de Newton é representada
por
𝐺𝑀𝑚
𝐹= ,
𝑟2
onde 𝐹 é o módulo da força gravitacional exercida por um corpo sobre
outro, 𝑀 e 𝑚 são as massas dos corpos, e 𝑟 a distância entre eles.
Sabendo que a força tem unidades de 𝑘 𝑔 · 𝑚/𝑠 2 no SI, qual é a unidade
da constante de proporcionalidade no SI?
Problema 1.8.5 A posição de uma partícula que se move com aceleração
uniforme é uma função do tempo e da aceleração. Suponha que
escrevemos esta posição como 𝑥 = 𝑘𝑎 𝑚 𝑡 𝑛 , onde 𝑘 é uma constante
adimensional. (a) Mostre que esta expressão é satisfeita se, e somente
se, 𝑚 = 1 e 𝑛 = 2. (b) Esta análise pode fornecer o valor de 𝑘 ? Justifique.
Problema 1.8.6 Considere que a equação 𝑥 = 𝐴𝑡 3 + 𝐵𝑡 descreve o
movimento de um objeto, com 𝑥 tendo a dimensão de comprimento e
𝑡 , a dimensão de tempo. (a) Determine as dimensões das constantes, A
e B. (b) Qual é a unidade da taxa de variação média no tempo de 𝑥 ,
Δ𝑥/Δ𝑡 ?
Notação científica
Problema 1.8.7 Você vai a uma loja e encontra dois pacotes de pregos
com as seguintes medidas para o comprimento: o pacote A tem 50 mm
e o pacote B tem 50,0 mm. Considerando que ambos têm o mesmo
preço, e que você quer comprar o melhor prego possível, qual dos dois
pacotes você compraria? Justifique sua resposta.
Problema 1.8.8 Três grandezas, os resultados de medições, devem ser
adicionadas. São elas: 2,0600, 3,163 e 1,12. Qual é a soma com o número
correto de algarismos significativos?
Problema 1.8.9 Se uma grandeza física 𝑤 = 𝑥 𝑦𝑧 , e 𝑥 = 1 , 1 · 103 ,
𝑦 = 2 , 48 · 10−2 e 𝑧 = 6 , 000, qual é o valor dessa grandeza, 𝑤 , em
notação científica e com o número correto de algarismos significativos?
Problema 1.8.10 Atualmente está cada vez mais difícil encontrarmos
um lugar para viver. Nosso planeta é bastante grande, mas são pequenas
as áreas onde podemos usufruir de todo o conforto da vida moderna.
1 A ciência e o método científico 23
Isso pode ser observado por causa da existência de regiões bastante
populosas e de outras praticamente inabitadas. Calcule qual a área
disponível que cada pessoa tem para viver.
Problema 1.8.11 Um átomo de hidrogênio tem um diâmetro de 1 , 06 ·
10−10 m. O núcleo do átomo de hidrogênio tem um diâmetro de
aproximadamente 2 , 40 · 10−15 m. (a) Para um modelo em escala,
represente o diâmetro do átomo de hidrogênio pelo comprimento
de jogo de um campo de futebol e determine o diâmetro do núcleo
em milímetros. (b) Considerando tanto o átomo como o núcleo como
esferas, cujo volume é dado por
4
𝑉= 𝜋𝑅 3 ,
3
encontre a razão entre o volume do átomo de hidrogênio e o volume
de seu núcleo. O que esta razão significa?
Ordens de grandeza e estimativas
Problema 1.8.12 Encontre a ordem de grandeza do número de bolas
de tênis de mesa que caberiam em uma sala do tamanho normal.
Problema 1.8.13 (a) Estime o número de grãos de areia da praia de
Copacabana.
(b) Estime o número de átomos contido num grão de areia.
Exercícios Extras
Problema 1.8.14 Aviões voam numa altitude de 35.000 pés acima do
nível do mar. Quanto vale esta distância em milhas? E em quilômetros?
Problema 1.8.15 O atual recorde mundial para a corrida de 100 m
rasos é de Usain Bolt, que correu esta distância em 9,58 s. Qual foi a
velocidade de Bolt em km/h? Como isso se compara com velocidades
de carros?
Problema 1.8.16 Em setembro de 1999, a sonda espacial Mars
Climate Orbiter foi destruída ao tentar entrar na órbita de Marte.
Aparentemente, o motivo do problema foi que, ao se aproximar
do planeta, a sonda recebeu duas informações conflitantes dos
controladores na Terra (veja esta reportagem para saber mais).
Para muita gente, as unidades em problemas de Física representam um
mero detalhe sem importância. No entanto, o descuido ou a confusão
com unidades pode ter consequências catastróficas, como aconteceu
no caso mencionado acima. A agência espacial americana (NASA)
admitiu que a provável causa da perda de uma sonda enviada a Marte
1 A ciência e o método científico 24
estaria relacionada com um problema de conversão de unidades. Foi
fornecido ao sistema de navegação da sonda o raio de sua órbita em
metros, quando, na verdade, este valor deveria estar em pés. O raio
de uma órbita circular segura para a sonda seria de 2 , 1 × 105 m, mas
o sistema de navegação interpretou esse dado como sendo em pés.
Como o raio da órbita ficou menor, a sonda desintegrou-se devido
ao calor gerado pelo atrito com a atmosfera marciana. (a) Calcule,
para essa órbita fatídica, o raio em metros. Considere 1 pé = 0,30 m.
(b) Considerando que a velocidade linear da sonda é inversamente
proporcional ao raio da órbita, determine a razão entre as velocidades
lineares na órbita fatídica e na órbita segura.
Problema 1.8.17 Determine o valor de 𝑔 , a aceleração da gravidade na
superfície da Terra, em anos-luz por ano, com 3 algarismos significati-
vos.
Problema 1.8.18 Duas forças diferentes, agindo sobre o mesmo objeto,
são medidas. Uma força tem 2,0031 N, e a outra força, no mesmo
sentido, tem 3,12 N. Essas são as únicas forças que atuam sobre o
objeto. Encontre a força total sobre o objeto com o número correto de
algarismos significativos.
Problema 1.8.19 O volume de uma esfera é dado pela fórmula 4/3𝜋𝑟 3 ,
onde 𝑟 é o raio da esfera. A densidade média de um objeto é simples-
mente a razão entre sua massa e seu volume. Usando dados numéricos,
expresse as respostas às seguintes perguntas em notação científica, com
unidades do SI e um número apropriado de algarismos significativos.
(a) o volume do Sol. (b) o volume da Terra. (c) a densidade média do
Sol. (d) a densidade média da Terra.
Problema 1.8.20 As massas de quatro cubos de açúcar são de 25,3 g,
24,7 g, 26,0 g e 25,8 g. Expresse as respostas às seguintes perguntas em
notação científica, com unidades padrão do SI e um número apropriado
de algarismos significativos: (a) Se os quatro cubos fossem esmagados
e todo o açúcar coletado, qual seria a massa total, em kg, do açúcar?
(b) Qual é a massa média, em kg, desses quatro cubos de açúcar?
Tabela 1.1: Problema 1.8.18.
Problema 1.8.21 Na natureza existem animais classificados como
Paciente Temperatura
homeotérmicos e pecilotérmicos. Os répteis, os peixes e os anfíbios
A 36,58𝑜 C
são pecilotérmicos, pois a temperatura de seu corpo varia em função
B 36,72𝑜 C
de fatores ambientais, como, por exemplo, a presença do Sol. Nós,
C 36,80𝑜 C
seres humanos, somos classificados como animais homeotérmicos,
D 37,98𝑜 C
pois conseguimos manter a temperatura corpórea aproximadamente
E 36,680𝑜 C
constante, apesar de existirem pequenas diferenças no metabolismo e
F 36,22𝑜 C
na circulação sanguínea de cada pessoa. A tabela ao lado mostra a tem-
peratura corpórea de alguns pacientes. (a) Qual paciente possivelmente
está com febre? (b) Em qual paciente foi utilizado um termômetro de
maior precisão? (c) Qual é a média das temperaturas dos pacientes
aparentemente saudáveis?
1 A ciência e o método científico 25
Problema 1.8.22 O sino de uma igreja bate uma vez a cada meia-hora,
todos os dias. Qual é a ordem de grandeza do número de vezes que o
sino bate em um ano?
Problema 1.8.23 Uma partida normal de futebol é disputada em 90
minutos. O estádio do Morumbi,em São Paulo, já recebeu cerca de
50 milhões de torcedores desde sua abertura em 1960. A média de
torcedores por partida é (costumava ser) de aproximadamente 28.000.
Então, qual é a ordem de grandeza do total de minutos de futebol já
jogados no Morumbi?
Problema 1.8.24 A música Chega de saudade, composta por Tom Jobim
e Vinícius de Moraes, diz que “há menos peixinhos a nadar no mar /
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca”.
Supondo que o volume total de água nos oceanos seja de cerca de um
bilhão de quilômetros cúbicos e que haja em média um peixe em cada
cubo de água de 100 m de aresta, determine a ordem de grandeza
do número de beijos que o poeta beijoqueiro teria que dar em sua
namorada para não faltar com a verdade.
Problema 1.8.25 Aproximadamente 4% do que você expira é dióxido
de carbono. Suponha que 22,4 L é o volume de 1 mol (6 , 02 × 1023
moléculas) de dióxido de carbono, e que você expira 0,5 L por respiração.
(a) Estime quantas moléculas de dióxido de carbono você expira por
dia. (b) Se cada mol de dióxido de carbono tem massa de 44 g, quantos
kg de dióxido de carbono você expira em um ano?
Problema 1.8.26 Estime quantas malas seriam necessárias para levar
um milhão de reais em moedas de ouro.
Problema 1.8.27 Estime o número de células no corpo humano.
Problema 1.8.28 Estime o número de fios de cabelo que você tem na
sua cabeça.
Problema 1.8.29 Estime o número de dentistas atuando na região de
Campinas.
Letras Gregas com Pronunciação
Símbolo Nome Símbolo Nome
𝛼 alpha AL-fuh 𝜈 nu NEW
𝛽 beta BAY-tuh 𝜉, Ξ xi KSIGH
𝛾, Γ gamma GAM-muh o omicron OM-uh-CRON
𝛿, Δ delta DEL-tuh 𝜋, Π pi PIE
𝜖 epsilon EP-suh-lon 𝜌 rho ROW
𝜁 zeta ZAY-tuh 𝜎, Σ sigma SIG-muh
𝜂 eta AY-tuh 𝜏 tau TOW (as in cow)
𝜃, Θ theta THAY-tuh 𝜐, Υ upsilon OOP-suh-LON
𝜄 iota eye-OH-tuh 𝜙, Φ phi FEE, or FI (as in hi)
𝜅 kappa KAP-uh 𝜒 chi KI (as in hi)
𝜆, Λ lambda LAM-duh 𝜓, Ψ psi SIGH, or PSIGH
𝜇 mu MEW 𝜔, Ω omega oh-MAY-guh
Letras maiúsculas mostradas são aquelas que diferente das letras maiúsculas romanas.
Alphabetical Index
acurácia, 19 hipóteses, 8 precisão, 19
algarismos significativos, 16 histograma, 18 preface, 3
arredondar, 17 prefixos, 15
imprecisão, 16
desvio padrão, 19 incerteza, 16, 17
SI, 11
dispersão, 18 sistema internacional de
leis, 8
unidades, 11
estimativa, 20 mantissa, 14
exatidão, 19 modelo científico, 8 teoria, 8
expoente, 14 método científico, 7
Francis Bacon, 7 unidade, 10
notação científica, 13
grandeza física, 10 ordem de grandeza, 21 variância, 18