SINOPSE
Antes de ser sênior, chega como veterano. Depois, vira calouro. E
ainda por cima vem como amigo!
Arthit, o temido líder do trote, acredita firmemente que este é o
lema que todos os calouros da Faculdade de Engenharia devem seguir.
Mas isso não vale para Kongphop, um calouro ousado que teve a
audácia de desafiar a hierarquia — e ainda declarou que vai conquistar a
insígnia do curso fazendo o veterano seu namorado!
E como um veterano que preza sua honra acima de tudo poderia
aceitar isso calado? Desta vez, vai ter que ensinar novamente as regras
do sistema SOTUS, de forma que ele nunca mais esqueça!
Veremos quem vai vencer esta disputa pela insígnia — e pelo
coração.
Entre o 8veterano cruel9 e o 8calouro atrevido9.
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LEMBRE-SE: ESTE LIVRO É DESTINADO A LEITORES
MAIORES DE IDADE, PODENDO CONTER CENAS
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LINGUAGEM IMPRÓPRIA, VIOLÊNCIA FÍSICA OU VERBAL,
ABUSO SEXUAL E OU SOFRIMENTO PSICOLÓGICO.
LEIA COM CUIDADO!
1
Regra numero um para o calouro: "Nunca
contradizer o lider do trote"
4 O que você está cochichando? Fale alto!
Ele anunciou a ordem como um guarda punindo
prisioneiros. Só que os prisioneiros não estavam, de fato, em
uma prisão 4 todos estavam sentados na sala de reuniões da
faculdade de engenharia, com os rostos pálidos. Os veteranos
estavam alinhados à frente dos calouros, encarando-os com
olhares fixos e furiosos, como se os novatos os tivessem
ofendido em alguma vida passada.
Arthit, um jovem arrogante de olhar feroz, era o líder do
trote do departamento de engenharia. Foi ele quem
repreendeu os calouros por sua falta de compreensão e
resposta silenciosa ao seu comando.
Mas, francamente, mesmo que os novatos falassem tão
alto quanto atores em um palco, isso não seria suficiente para
os alunos do terceiro ano.
Por que não estavam satisfeitos? Os veteranos tinham
esse direito 4 um poder herdado das gerações anteriores. Isso
significava que tudo o que os calouros estavam prestes a
enfrentar, os veteranos já haviam passado. E esse era apenas
o começo; a partir daquele dia, o tratamento deles só pioraria.
Por alguns segundos, os alunos do terceiro ano
permaneceram em silêncio, com expressões severas, até que
Arthit, com voz calma 4 mas ainda arrogante 4 falou com
firmeza:
4 Vou perguntar de novo. Digam-me: qual é o número de
alunos do primeiro ano?
A sala de reuniões ficou envolta em silêncio. E era
exatamente isso que Arthit queria. Era compreensível que os
calouros não respondessem, já que mal haviam começado o
semestre.
Como os novatos poderiam lembrar os nomes e números
de todos os colegas? Era impossível, considerando que a
faculdade de engenharia tinha a maior quantidade de alunos
da universidade 4 pouco mais de mil. Era mais fácil resolver
uma equação integral do que adivinhar esse número. A
situação só aumentou o estresse e a intimidação que os
calouros sentiam. Quem disse que era preciso usar palavras
aterrorizantes para criar uma atmosfera tensa?
Arthit provou que não. Seu poder podia ser demonstrado
de outras formas. Além disso, uma das regras dos veteranos
era manter conversas "educadas", mas o tom com que falavam
forçava os calouros a ficarem cabisbaixos, assustados e em
completo silêncio.
4 Não vão responder? Então, isso significa que nenhum
de vocês se importa com os colegas, a ponto de nem saberem
seus nomes!
O líder do trote começou a caminhar lentamente entre as
fileiras dos novatos, demonstrando seu poder sobre eles
enquanto passava os olhos severos por suas cabeças, como se
os estivesse ameaçando com apenas um olhar.
E sua tática funcionou. A maioria dos jovens se assustou
ao olhar de relance e se deparar com seus olhos maliciosos 4
alguns até começaram a chorar silenciosamente.
Arthit não era um vilão ou psicopata que sentia prazer em
ver os outros chorarem. Mas ele acreditava que passar essa
impressão fazia parte de seus deveres como líder do trote.
Mesmo assim, quando uma garota bonita começou a chorar,
ele sentiu a vontade de abraçá-la e confortá-la. Mas os
veteranos precisavam manter a postura. Então, ele deixou as
lágrimas escorrerem pelo rosto da caloura... Ele não gostava
de ver mulheres chorando, especialmente uma garota bonita.
Felizmente, ela não precisou derramar mais lágrimas na
frente dos veteranos, porque um rapaz ao seu lado lhe
ofereceu um lenço de papel 4 um rapaz bonito.
4 Você, levante-se!
"Estou aqui fazendo perguntas, e ele decide consolar a
garota em vez de me responder?", pensou Arthit.
Aquele calouro estava pedindo o número dela ali mesmo?
Quer que eu mostre que tipo de homem sou? Então eu vou
mostrar!
4 Levante-se no seu lugar! 4 Arthit ordenou ao jovem
que entregou o lenço.
O choro da novata piorou 4 ela ficou realmente
assustada com o grito. Já o rapaz que recebeu a ordem não
demonstrou medo algum. Pelo contrário, com expressão
tranquila, ele se levantou em meio à fila.
Arthit era alto 4 media nada menos que 1,78m 4, mas o
calouro era cerca de 10 cm mais alto que ele. O rapaz era a
definição de um "garoto bonito": sobrancelhas escuras e traços
expressivos. Ao vê-lo tão corajoso, Arthit ficou ainda mais
furioso.
"Calouro, agora você vai ver o quão feroz eu posso ser",
pensou.
4 Diga seu nome e número de matrícula, em voz alta! 4
gritou.
4 Meu nome é Kongpob, número de matrícula 0062.
4 Quantos alunos estão matriculados no primeiro ano?
Responda!
4 Não sei.
4 Por que não sabe?
4 Porque não os contei.
Não só as sobrancelhas dos presentes se levantaram após
aquela resposta, como Arthit teve vontade de dar um soco na
cara dele para fazê-lo engolir suas palavras 4 algo que
certamente traria problemas no futuro. Mas, por enquanto,
ali, na frente de todos os calouros, ele precisava manter a
aparência de decência.
Arthit tentou se controlar e disse com voz firme:
4 Você deveria saber essa informação! 4 vociferou. 4
Além disso, é sua obrigação responder a todas as minhas
perguntas. Entendido?
4 Entendido.
Arthit assentiu e, então, pegou um cordão com um
pingente em forma de engrenagem marrom. Depois de
demonstrar sua autoridade diante de todos, ele perguntou ao
calouro, segurando o pingente:
4 Você vê este pingente de engrenagem?
4 Sim, vejo.
4 Esta engrenagem é um símbolo da nossa faculdade! É o
orgulho de cada aluno de engenharia 4 de todos nós, não
apenas de uma pessoa! Vocês não conseguirão obtê-lo se não
provarem que são dignos. Se não estiverem dispostos a lutar
por ele, podem sair agora! Mas, se fizerem isso, não serão mais
membros desta faculdade!
Ao proferir a última frase, ele olhou para todos os
calouros, que ficaram paralisados de medo na hora. Seus
destinos dependiam dele.
4 Se todos vocês, calouros, se comportarem como devem,
obedecendo-nos em tudo e participando das atividades
estudantis, então conseguirão este símbolo precioso da
Faculdade de Engenharia. Mas, se nos contradizerem ou
ousarem nos desafiar, automaticamente falharão!
E não era brincadeira. As ameaças eram reais, e as
palavras de Arthit surtiram efeito: vários calouros ficaram
pálidos, quase desmaiando. Arthit percebeu o impacto de suas
palavras e sorriu mentalmente, vitorioso. Então, continuou
aterrorizando sua vítima:
4 Agora responda, Kongpob! Se eu não der essa
engrenagem a você, o que você fará?
Arthit irradiava autoridade. Ele esperava que o calouro
respondesse "Não sei" de novo, para que pudesse puni-lo e
ensiná-lo uma lição. Faria com que ele se submetesse,
deixando claro quem mandava ali.
Arthit bufou diante do silêncio do novato e começou a
virar de costas para anunciar o castigo a todos. Mas, no
momento em que se virou, a voz do calouro o fez parar.
4 Vou tirar o seu.
Todos os olhos se voltaram para Kongpob.
4 O quê?... O que você acabou de dizer? 4 rosnou,
achando que não havia ouvido direito. 4 Repita!
Arthit furou o calouro com o olhar, mas ele manteve a
expressão tranquila e disse claramente:
4 Se você não me der o pingente, vou tomar o seu e farei
dele meu.
Um murmúrio de surpresa ecoou pelo corredor, e os
veteranos ficaram chocados. Era um insulto, uma afronta
direta. Arthit perdeu a compostura e, esquecendo-se da regra
da decência, agarrou o insolente pelo colarinho da camisa.
4 Diga de novo! Você está dizendo que vai tomar meu
pingente?
4 Sim, foi isso que eu disse.
4 E como planeja fazer isso?
4 Vou fazer você ser minha esposa.
O silêncio na sala de reuniões ficou mortal.
A mão firme de outro veterano segurou Arthit, que estava
prestes a socar o calouro insolente. Kongpob, mantendo a
calma, continuou:
4 Dizem que os amantes compartilham tudo. Então, se
você for minha esposa, o que é seu será meu também.
4 Seu merdinha! 4 Arthit puxou a mão de volta, e um
murmúrio de reprovação se espalhou pela sala, incluindo os
lábios apertados dos outros veteranos. Ele se sentia mais
humilhado do que irritado com a declaração do novato. Aquele
insolente ousara desafiar o líder do trote e pagaria por isso.
4 Silêncio! 4 Sua ordem fez os murmúrios cessarem.
Todos ficaram quietos.
Arthit retomou a postura e fixou os olhos no ofensor. O
que ele estava planejando? O calouro não parecia bissexual ou
gay. Mas, fossem quais fossem suas intenções, Arthit não se
importava 4 ele não tinha medo do novato. Quer fazê-lo de
esposa? Que tentasse! Até então, nenhum calouro ousara
contradizê-lo. Sua vingança o faria se arrepender.
4 Tente! Veremos se você é capaz do que diz. Mas, por
enquanto, a engrenagem está no meu poder, e eu, como
veterano, tenho o direito de dar ordens!
Arthit sorriu perversamente e anunciou o castigo:
4 Kongpob, número 0062. Duzentas abdominais! Agora!
4 Entendido.
Kongpob não pareceu abalado. Ele sorriu ao aceitar o
castigo e, com boa disposição, começou a fazer as abdominais,
recebendo olhares de simpatia dos colegas calouros.
Arthit, à frente, observou em silêncio com um olhar
soberbo, sem esconder a satisfação de sua vingança. Aquele
novato, que não passava de um "garoto bonito", queria fazer do
líder do trote sua esposa? Nem nos sonhos!
Uma pergunta pairou no ar: quem dos dois se tornaria a
esposa? O veterano ou o calouro?
2
Regra numero dois para o calouro:
"Responder a todas as perguntas do lider do
trote"
4 Quem autorizou vocês a levantarem a cabeça?
Mantenham o olhar no chão!
Quem visse a cena poderia interpretar mal. Mas aquilo
não era treinamento militar 4 era apenas uma ordem dada
aos calouros por Arthit, o líder do trote. Sua intenção era boa:
queria que eles absorvessem um pouco de vitamina D do sol
do meio-dia.
Sim, exatamente essa era a razão.
Era um dia ensolarado, no meio da tarde, em pleno
estádio de futebol. Os rostos dos calouros estavam queimados,
o suor escorrendo pelas costas. Mas os veteranos agiam com
total indiferença, com o único propósito de intimidar ainda
mais os pobres novatos, ajoelhados na grama do estádio.
4 A que horas estava marcada essa reunião?
Um murmúrio baixo dos calouros ecoou pelo estádio.
Arthit não suportou o silêncio e gritou o mais alto que pôde:
4 Falem alto e claro! A que horas estava marcada essa
reunião?
4 Ao meio-dia...
Eles achavam que o campo de futebol era pequeno como a
sala de reuniões, com seu efeito de eco? Não sabiam o
sacrifício que os veteranos faziam? A equipe de recepção
precisava beber limonada com mel depois dos treinos para
aliviar a garganta. Mas, mesmo que doesse, os veteranos
nunca usavam microfone ou alto-falante. Eles estavam
dispostos a mostrar aos novatos o verdadeiro significado de
atitude. Podiam perder a voz, mas seu espírito sempre falaria
mais alto.
E, claro, quem mais sofria era o líder do trote. Como
responsável por ensinar a disciplina aos calouros, sua voz
precisava ser a mais forte 4 além de ter que falar mais do que
todos. Quem disse que ser um bom superior era fácil? Arthit
limpou a garganta antes de gritar a próxima pergunta:
4 Vocês sabem que horas são agora?
Novamente, silêncio. Nenhuma resposta dos calouros. Os
veteranos começaram a se irritar. Arthit, sem esperar mais,
continuou:
4 Tempo esgotado! Não aceitarei resposta agora. Vou
dizer exatamente que horas são: são doze horas, dezoito
minutos e cinquenta e sete segundos. Ou seja, vocês,
calouros, estão atrasados. E nós, veteranos, ficamos aqui
esperando sob o sol escaldante todo esse tempo. Não sabem o
que é responsabilidade? Deixaram o cérebro em casa?
Arthit não tirou os olhos dos novatos, que permaneciam
de cabeça baixa, imóveis, com medo de atrair desgraça. Mas
repreendê-los era só o começo.
4 Como é a primeira vez, vou dar mais uma chance.
Os calouros respiraram aliviados, mas mantiveram a
postura. A voz do líder do trote ecoou novamente pelo estádio:
4 Vou escolher um de vocês para responder minha
pergunta. Se ele 4 ou ela 4 não souber, todos serão punidos!
A esperança dos novatos se esvaiu instantaneamente.
Eles haviam irritado os veteranos, e agora o destino de
todos dependia de um só. Uma prova perigosa. E se o
escolhido não soubesse responder? Não só ele seria castigado,
mas arrastaria todos os outros para o sofrimento.
Arthit sabia bem o que estava fazendo. Ele mesmo criara
essa regra para que o calouro escolhido fosse odiado pelos
colegas. E a vítima, é claro, só podia ser uma pessoa. O
candidato perfeito.
4 Número de matrícula 0062, levante-se e venha até
aqui!
Kongpob obedeceu e foi até a frente. Seus colegas
queriam apoiá-lo, mas não tiveram coragem de levantar a
cabeça. Seu rosto estava sério e corajoso 4 e Arthit notou isso.
Para a vingança, nunca é tarde. Arthit se lembrava bem
daquele novato, o mesmo que ousara desafiá-lo no dia
anterior.
Claro que adoraria reunir alguns veteranos e dar uma
lição naquele insolente num cantinho escondido. Mas,
infelizmente, isso não seria muito civilizado.
Não seria melhor escolher um lugar com centenas de
testemunhas? Assim, não precisaria causar ferimentos nem
dar explicações depois... Ele sabia se vingar de um jeito mais
sofisticado.
Arthit sorriu maliciosamente. Já tinha um plano para o
"massacre" daquela tarde. Observou atentamente o novato
0062. Kongpob estava diante dele, ereto, pronto para ouvir a
pergunta que decidiria o destino de todos os calouros.
4 Ontem, perguntei quantos alunos ingressaram este
ano na universidade. Lembra?
4 Na Faculdade de Engenharia, há 1178 alunos
matriculados. E no curso de Engenharia Industrial, somos
216.
Kongpob respondeu rapidamente, mantendo a calma. Ele
esperava por essa pergunta e estava preparado.
Mas, na verdade, Arthit não sabia quantos alunos haviam
entrado na universidade 4 só verificara a lista de Engenharia
Industrial e confirmara os 216.
"Boa resposta. Mas não vim aqui para brincar com você...
Talvez tenha subestimado você, mas não vou deixar meu
plano fracassar", pensou Arthit. Ele limpou a garganta e disse:
4 Correto. Mas essa não era a pergunta. Agora, olhe ao
redor e conte em voz alta quantos calouros estão presentes
aqui!
Kongpob se virou e começou, fileira por fileira, a contar
seus colegas. Todos ainda estavam sentados com a cabeça
baixa. Os veteranos igualmente mantinham expressões
impassíveis. Como era de se esperar 3 e dava para ver
claramente 3, nem todos os alunos haviam comparecido à
reunião. Mas o processo de contagem foi ainda mais tenso,
envolto em uma atmosfera de suspense. Especialmente
quando ele terminou de contar os alunos da última fileira e
anunciou:
4 No momento, há cento e sessenta e dois alunos de
Engenharia Industrial presentes.
4 Então quantos estão faltando?
4 Cinquenta e quatro alunos.
Arthit concordou com um aceno.
4 Agora, escute minha pergunta e responda.
Mais uma vez, Arthit olhou para Kongpob, que não
demonstrava medo algum. Então, com o cenário que havia
planejado para sua vingança, sorriu e fez a pergunta que
literalmente pegou alguns de surpresa:
4 O que eu quero saber é: onde estão esses cinquenta e
quatro alunos faltantes?
Silêncio.
Sim, era exatamente o que Arthit havia planejado 3 deixar
o calouro sem palavras. Mesmo uma mente brilhante como a
de Einstein provavelmente não saberia onde estavam aquelas
cinquenta e quatro pessoas. Elas poderiam estar em qualquer
lugar, menos na reunião de calouros. Afinal, o departamento
de Engenharia Industrial não obrigava ninguém a
comparecer.
Mas a ausência delas automaticamente se transformou
em punição inevitável para os demais. Por isso, todos os
presentes seriam castigados. E Arthit estava especialmente
satisfeito com sua vítima principal: o insolente Kongpob, seu
ofensor do dia anterior.
"Como é ficar sem resposta, hein?" Arthit zombou
mentalmente. "Agora você vai descobrir as consequências de
desafiar seu líder. Será o motivo pelo qual sua turma inteira vai
sofrer!"
Depois de se deleitar com o silêncio do novato, Arthit se
dirigiu aos calouros:
4 Levantem a cabeça! Olhem como seu colega não
consegue responder à pergunta! É por culpa dele que todos
vocês serão punidos.
4 Esses alunos não foram a lugar nenhum!
Kongpob interrompeu o discurso de Arthit, forçando-o a
se virar com as sobrancelhas levantadas em surpresa.
4 O que você está dizendo? 4 Arthit perguntou, irritado.
4 Os cinquenta e quatro alunos não foram a lugar
nenhum.
Era óbvio que as palavras de Kongpob não condiziam com
a realidade, e sua declaração deixou todos confusos. Como
aquele novato ousava dizer algo assim?
"Pobre idiota..." pensou Arthit. "Não consegue ficar quieto?
Se eu não te ensinar uma lição direito, você não vai aprender!"
4 Abra bem os olhos! Claramente nem todos seus colegas
estão aqui. Como pode dizer o contrário?
Arthit apontou para as fileiras de alunos sentados. A
explicação que o novato deu em seguida chocou a todos.
4 Eles realmente não foram a lugar nenhum. Estão aqui,
porque suas almas e corações estão aqui.
"Você é algum protagonista sentimental de drama
coreano? Acha que essa resposta vai salvar você e seus colegas
do castigo? Você vai ver!"
4 Entendo. Seus amigos são muito generosos. Se
mandaram seus corações e almas, então todos terão força
suficiente para correr cinquenta e quatro voltas no estádio 3
uma por cada ausente. Justo, não?
4 Não. Eles me deram suas almas e corações só a mim.
4 E por que só a você?
4 Para preencher o vazio que ficou depois que eu dei meu
coração a você!
O silêncio foi mortal.
A situação estava extremamente desconfortável. Como ele
ousava dizer algo assim? Naturalmente, Arthit explodiu de
raiva.
4 Kongpob!
4 Sim?
4 Ordeno que você dê cinquenta e quatro voltas no
estádio!
4 Sim, senhor!
Kongpob obedeceu sem hesitar e partiu para correr sob o
sol escaldante, acompanhado pelos olhares de simpatia dos
colegas que ele conseguira proteger.
4 Nada de ficar olhando! Vocês também serão punidos 3
cinquenta e quatro agachamentos, agora! 4 Arthit ordenou,
antes de se afastar, ignorando os olhares cheios de ódio em
suas costas.
Eles o temiam e detestavam. Já Kongpob era admirado
com aprovação. Essa era a única coisa que Arthit não havia
planejado.
"Não tem volta", pensou o líder do trote. "Você vai se
arrepender, seu insolente!"
Assim, a batalha pela engrenagem começou. Placar:
veteranos 0 x 1 calouros.
3
Regra numero tres para o calouro:
"Obedeça as ordens dos veteranos"
4 Nome e número de matrícula!
4 P-Praepailin, número 0744 4 disse a caloura com voz
trêmula. Ela parecia assustada, os olhos prestes a
derramarem lágrimas, com uma expressão miserável.
Seu olhar amedrontado amoleceu o coração de Arthit. Ele
não era tão cruel assim. Por isso, suavizou o tom, tentando
soar mais leve, mas mantendo a expressão séria.
4 Como posso ajudá-la?
4 Você poderia... me dar sua assinatura?
Ela entregou a Arthit um pequeno livro. Todos os calouros
haviam recebido um caderninho parecido, com a tarefa de
coletar mil assinaturas de veteranos 3 incluindo nomes e
números de matrícula. Era uma ordem dos mais velhos.
Como estudante do terceiro ano usando a camisa que
marcava sua posição superior, Arthit era um alvo para os
"caçadores de assinaturas". Ainda assim, poucos tinham
coragem de se aproximar dele, especialmente quando ele
estava com seu grupo de veteranos, que mais pareciam uma
gangue de criminosos do que alunos.
Era incrível que uma garota como ela não tivesse medo de
abordá-los. Ela era muito bonita 3 pele clara, estatura baixa e
traços delicados. Arthit decidiu que ela merecia sua
benevolência.
4 Tudo bem. Mas antes de assinar, você precisa fazer
algo por mim.
O termo "caçadores de assinaturas" não era à toa 3 a
tarefa não era nada agradável. Era um jogo brutal.
Principalmente para conseguir algo tão raro quanto a
assinatura do líder do trote, que exigia um esforço extra.
Por isso, não era surpresa que o rosto de Praepailin
ficasse pálido. Ela ousou perguntar:
4 O que eu preciso fazer?
A garota estava assustada, mas por quê? Arthit era gentil
com as calouras 3 especialmente as bonitas. A tarefa dela não
seria tão terrível quanto imaginava.
4 Muito bem. O que você precisa fazer é gritar: "Eu amo o
super gato do Arthit!" três vezes.
4 Como?
4 Quer minha assinatura? Então faça!
Os veteranos à mesa caíram na gargalhada. Praepailin
baixou os olhos em silêncio.
O que havia de errado com sua ordem? Por que ela ficou
constrangida? Aquela era a tarefa mais fácil que ele poderia
dar. Um tratamento especial para uma garota especialmente
bonita.
Se ela demorasse muito, ele mudaria de ideia e exigiria
um beijo!
4 Vamos, depressa! Ainda preciso almoçar! Estou com
muita fome!
Na opinião de Arthit, ameaças eram um excelente
motivador. Ele viu a garota estremecer de medo, mas ela
continuava em silêncio. Tudo isso acontecia no meio do
refeitório, justo na hora do almoço, com centenas de alunos de
várias faculdades ao redor.
Claro que Praepailin tinha medo de chamar atenção, mas
logo entendeu que não tinha escolha.
4 Eu amo o super gato do Arthit! Eu amo o super gato do
Arthit! Eu amo o super gato do Arthit! 4 disse Praepailin,
envergonhada.
Os veteranos começaram a buzinar de aprovação, e Arthit
sorriu satisfeito.
Porém, a garota que acabara de fazer aquela "declaração
apaixonada" queria sair dali o mais rápido possível. Arthit
segurou sua mão delicada e respondeu como um verdadeiro
cavalheiro:
4 Obrigado pela declaração. Agora, para provar seu amor
por mim, me dê seu número de telefone.
Que jogada inteligente! Se não agisse na hora, poderia se
arrepender depois. Arthit aproveitou habilmente a
oportunidade. Quanto a Praepailin, suas mãos estavam
atadas 4 ela não tinha escolha a não ser cumprir o pedido.
Arthit guardou o número nos contatos e só então
devolveu o caderninho, dando uma piscadela que fez a garota
corar.
4 Arthit, você foi esperto, hein? Até conseguiu o número
dela! 4 seus amigos exclamaram.
4 Observem e aprendam com o mestre.
Arthit não parecia envergonhado. Ele tinha um talento
natural para a sedução 4 ninguém se comparava a ele nessa
arte.
4 Não quer pedir o número daquele também? 4 um dos
veteranos fez um gesto para Arthit se virar.
Foi quando ele viu um grupo de veteranos em volta de seu
inimigo jurado 4 aquele que o havia desafiado na frente de
todos e por quem ele queria vingança.
Aquele insolente!
4 Número 0062, Kongpob.
Kongpob parou e se virou para a mesa. Ele estava
passando atrás do grupo de veteranos responsáveis pelo trote
e, por isso, juntou as mãos em um tradicional cumprimento
tailandês.
4 Você já tem minha assinatura? 4 Arthit exigiu.
4 Ainda não.
4 Me dê seu caderninho.
Kongpob obedeceu, tirando o caderninho da mochila e
entregando a ele. Arthit folheou rapidamente o conteúdo.
"Nossa, você conseguiu muitas assinaturas... umas
quinhentas ou seiscentas. Mas... espera aí. Por que algumas
parecem estranhas?"
Havia nomes, números de matrícula e... dez dígitos? Sim,
eram números de telefone! E ainda tinha comentários!
"Sou solteira, pode ligar a qualquer hora"
"As mulheres lhe dão números de telefone aos montes,
enquanto eu tenho que usar truques para conseguir um só",
pensou Arthit, irritado. "Muito bem, seu protagonista de drama
coreano, agora vou te dar uma lição!"
Arthit teve vontade de rasgar o caderninho, mas se
controlou. Não podia fazer isso em público, na frente de
centenas de pessoas. Era importante manter sua reputação.
Ele respirou fundo e rapidamente repensou seu plano de
vingança.
4 Vejo que você coletou muitas assinaturas. Acha que
pode fazer algo por mim?
4 Sim, posso.
4 Está vendo aquela mesa lá atrás?
Arthit apontou para uma mesa grande no meio do
refeitório, a cerca de cinco mesas de distância.
4 Estou vendo.
4 Vá até lá, suba nela e diga três vezes, em voz alta... 4
Arthit sorriu maliciosamente antes de completar: 4 "Eu gosto
de ser comido por homens".
Arthit notou a mudança na expressão de Kongpob.
Aquele pedido era um insulto para qualquer homem, mas ele
ainda não estava satisfeito.
4 Espera, ainda não acabou. Depois disso, você tem que
perguntar para dez caras: "Você me comeria?". Só então
devolvo seu caderninho.
Arthit segurou o caderninho como garantia de que sua
ordem seria cumprida. Adorou ver Kongpob preocupado e
irritado diante dele, impotente para fazer qualquer coisa além
de obedecer. Esse era o acordo.
4 Por que está quieto? Faça, a menos que seja um
covarde.
Arthit sorriu, e Kongpob cedeu. Com um último suspiro, o
calouro se dirigiu à mesa no fundo do refeitório e, exatamente
como ordenado, subiu nela e gritou para todos ouvirem:
4 Eu gosto de ser comido por homens! Eu gosto de ser
comido por homens! Eu gosto de ser comido por homens!
Em um instante, todos os olhos estavam voltados para
ele. Em seguida, ele desceu e se aproximou de uma mesa
ocupada por um grupo de rapazes.
4 Você me comeria?
Os alunos ficaram chocados. Todo o refeitório estava em
silêncio 4 exceto por uma pessoa, que assistia à cena com um
sorriso superior.
"E aí, como se sente agora, seu insolente?", pensou Arthit,
satisfeito.
4 Pronto, terminei 4 Kongpob declarou em voz alta.
Agora as garotas saberiam que aquele "bonitão" não era
um homem de verdade, e sim um gay 4 e não apenas gay, mas
um passivo! Arthit escolheu especificamente aquele castigo
como vingança. Kongpob sugerira que estava disposto a "ser
comido", e agora era ele quem estava sendo humilhado na
frente de todos.
4 Isso vai te servir de lição.
Arthit observou Kongpob se oferecer a outros alunos sob
os olhares curiosos de todos no refeitório. Finalmente,
Kongpob terminou e voltou para a mesa dos veteranos.
4 Feito. Terminei.
4 Muito bem, você tem uma voz potente. Toma, seu
caderninho.
Arthit devolveu o caderno, pegou seu prato e se levantou
para sair com os amigos.
4 Ei, espere! 4 Kongpob o chamou. 4 Você ainda não
assinou.
Ele estendeu o caderninho, achando que Arthit tinha
esquecido. Mas o veterano não tinha intenção de pegá-lo. Em
vez disso, perguntou:
4 Quando eu disse que assinaria?
Era uma pergunta simples, mas cortante como uma faca.
A humilhação que Kongpob acabara de passar já era
dolorosa o suficiente, mas ouvir aquelas palavras o destruiu
por dentro.
Foi quando ele percebeu: o líder do trote nunca havia
prometido assinar. Tudo não passava de uma armadilha,
preparada desde o início para humilhá-lo 4 e ele,
ingenuamente, caiu.
4 Mas tem uma coisa em que posso te ajudar.
Ao ouvir Arthit falar em tom gentil, Kongpob ergueu o
rosto, surpreso 4 só para ser puxado pela gravata. O veterano
sussurrou duas palavras em seu ouvido:
4 Posso te comer.
Ele soltou a gravata, e um sorriso vitorioso surgiu no
rosto do líder do trote. Arthit virou as costas e saiu do
refeitório, deixando o perdedor sozinho no local.
A guerra pela engrenagem: veterano 1 x 1 calouro.
4
Regra numero quatro para o calouro:
"Nunca esquecer os avisos dos veteranos"
4 Onde está seu crachá de identificação?
Para qualquer um, essa pergunta pareceria comum. Mas
para um calouro que apareceu na sala de reuniões da
faculdade de engenharia sem o crachá com seu nome, a frase
pronunciada pelo líder do trote soou como uma sentença de
morte. Arthit perfurou o novato com um olhar severo, como se
pudesse ler seus pensamentos. Finalmente, o infeliz estudante
teve coragem de responder:
4 Eu esqueci...
Arthit suspirou profundamente, como se estivesse
cansado de repetir a mesma coisa.
4 Você acha que entregamos esses crachás por diversão?
Não entende sua importância? 4 perguntou Arthit, mantendo
o olhar feroz. 4 Graças a eles, seus colegas podem saber seus
nomes sem precisar perguntar. Ou será que você não quer que
saibam quem é?
O calouro balançou a cabeça, negando
desesperadamente. Gaguejou:
4 Não, não é isso.
Claro que a resposta não foi suficiente. Arthit pensou por
um momento antes de dizer:
4 Tudo bem. Se esqueceu seu crachá sem motivo, é
porque acha que seus amigos já o conhecem bem o suficiente
para não precisar dele. Vamos testar isso, não acha?
Então, virou-se para os calouros sentados no chão da
sala.
4 Levantem a cabeça e olhem para seu colega! Quem
aqui sabe o nome dele?
Ninguém se atreveu a abrir a boca 4 não por não
saberem o nome, mas por medo do líder do trote. Afinal, quem
cometeria o erro de responder, sabendo que um castigo severo
os aguardava? Era claramente uma pergunta armadilhada,
equivalente a se voluntariar para a guilhotina. Ninguém estava
disposto a ser o sacrifício.
4 Então ninguém sabe o nome deste estudante?
Ninguém é amigo dele? 4 Arthit repetiu com reprovação.
O calouro baixou a cabeça, triste, se preparando
mentalmente para ouvir sua sentença. Arthit já abria a boca
para anunciar o castigo quando uma voz o interrompeu:
4 O nome dele é Em.
Arthit virou-se bruscamente, procurando o responsável.
4 Quem disse isso?
4 Fui eu!
Um dos estudantes levantou o braço e se ergueu para ser
repreendido. Os olhos de Arthit se arregalaram 4 o audacioso
que ousara responder não era outro senão seu velho
conhecido, Kongpob.
"De novo fazendo o super-herói, o salvador dos calouros...
minha dor de cabeça particular", pensou Arthit, irritado.
4 0062, Kongpob.
4 Está dizendo que conhece este estudante? 4
perguntou Arthit, desafiador.
4 Sim.
O tom confiante de Kongpob só aumentou a irritação do
líder do trote.
"Sempre tão seguro, hein? Muito bem, vamos ver o quanto
você realmente conhece ele."
4 Me tragam o documento de identificação dele! 4
ordenou, apontando para o estudante Em.
Os veteranos do comitê de recepção rapidamente
pegaram a mochila do calouro e retiraram seu documento,
entregando-o a Arthit. Ele sorriu, satisfeito, pronto para
acabar com o jogo de uma vez.
4 Qual é o nome completo do seu "amigo"?
4 Kathavut.
4 O sobrenome!
4 Thaypraset.
4 Data de nascimento!
4 12 de dezembro de 1998.
Acertou de novo. "Por acaso ele engoliu a certidão de
nascimento do amigo?" Arthit quase rugiu de raiva. O insolente
Kongpob sabia exatamente como responder a tudo.
"Talvez sejam amigos de longa data", pensou Arthit. "Por
isso ele sabe todos os detalhes. Mas sou mais esperto que você
— não vai se livrar de mim tão fácil!"
4 Pode sentar! 4 disse a Em, antes de se virar para
Kongpob. 4 Parece que seu amigo te conhece bem. Agora
vamos ver o quanto ele conhece o resto da turma!
Em quase soltou o ar que prendera de nervosismo, mas
ao ouvir a próxima ordem do líder do trote, percebeu que não
poderia relaxar ainda. O castigo do qual escapara fora
transferido para Kongpob, que o ajudara. E, considerando a
rixa entre os dois, seria severo.
4 Todos, virem seus crachás para baixo! 4 ordenou
Arthit.
Os calouros não entenderam o motivo, mas ninguém
ousou questioná-lo. Assim que todos obedeceram, Arthit deu a
próxima ordem:
4 Número 0023, levante-se!
Era uma garota de aparência delicada e baixa estatura.
Ela se levantou apressadamente, segurando a barra da
camiseta. Assustada por ouvir seu número sendo gritado por
Arthit, não percebeu que, neste jogo, quem estava encrencado
era Kongpob.
O líder do trote aproximou-se de um estudante perto de
Kongpob e exigiu:
4 Diga-me o nome da sua colega.
Kongpob entendeu o jogo que Arthit começara e a
desvantagem imposta. Mas não tinha escolha a não ser
obedecer 4 essas eram as regras dos veteranos.
4 O nome dela é Maprang 4 respondeu Kongpob, em voz
alta e clara.
Porém, Arthit notou que sua voz já não soava tão
confiante quanto antes.
4 Mostre seu crachá! 4 ordenou à garota.
Na plaquinha estava escrito: "Maprang". Mais uma vez,
Kongpob acertara. Mesmo assim, Arthit não desistiu.
4 Número 0038!
Desta vez, um jovem de físico robusto levantou-se.
4 Diga-me o nome dele!
4 O nome dele é Oak.
O próprio Arthit virou o crachá do estudante, lendo "Oak"
escrito a caneta.
"Droga!" rosnou mentalmente. "Acha que sabe tudo, seu
calouro? Mas nesta sala há mais de duzentos alunos — é
impossível lembrar de todos!"
4 Número 0151!
Era uma garota de óculos, com o cabelo preso para trás.
Desta vez, houve silêncio.
Arthit finalmente alcançou seu objetivo! O calouro ficou
em silêncio!
4 Por que não responde? Qual é o nome da sua colega? 4
repetiu.
4 Porque não sei 4 admitiu Kongpob.
"Finalmente encontrei seu ponto fraco!" Arthit comemorou
internamente. "Vamos ver como você reage agora. Vou te
ensinar uma lição que nunca vai esquecer! Mas castigo físico
como abdominais ou rodopiar até ficar tonto não é suficiente
para um idiota como você. Dessa vez me preparei melhor!"
4 0151, me dê seu crachá!
Arthit se aproximou da garota, pegou sua identificação e
disse em tom grave:
4 Vou repetir mais uma vez: demos esses crachás para
que todos vocês entendam a importância de conhecer seus
colegas. Mas de que adiantam meus esforços se vocês nem se
importam em lembrar os nomes uns dos outros?
Terminando seu discurso, mostrou o crachá laranja preso
a um cordão para todos os calouros. Então, ergueu-o e o
rasgou em pedaços.
4 Se não veem valor nisso, então não precisam usá-lo.
O crachá foi destruído diante dos olhos atônitos dos
alunos. E quem parecia especialmente frustrado era Kongpob,
o culpado por toda aquela situação.
4 Lembrem-se: isso é uma lição para vocês. Agradeçam
ao seu colega que não deu a mínima importância para isso.
Arthit jogou os pedaços no chão e voltou para seu lugar à
frente dos veteranos.
4 Minha missão hoje está cumprida. Espero ver todos
com seus crachás amanhã. A menos que achem que seus
colegas já os conhecem bem o suficiente. Entenderam?
4 Entendemos! 4 responderam os calouros em coro.
Arthit acenou com aprovação. Acreditava que aquele
castigo público tinha sido necessário 4 às vezes, para manter
a disciplina em um grande grupo, era preciso mantê-los com
admiração e medo. Deixar que os calouros o vissem como um
demônio, um homem sem coração que não cedia a nada,
ensinaria o respeito aos veteranos. E a estratégia parecia ter
funcionado. May ainda estava paralisada após ver seu crachá
destruído, e os outros novatos pareciam confusos e culpados.
"É isso que a desobediência traz!"
Arthit passou por Kongpob, lançando-lhe um olhar
desafiador. Kongpob rapidamente saiu do lugar e se dirigiu à
garota, cujo crachá fora reduzido a pedaços.
Com um olhar gentil, ele enxugou as lágrimas dela,
recolheu os fragmentos do chão e perguntou:
4 Me desculpe, qual é o seu nome?
4 É May 4 ela respondeu entre soluços.
Kongpob assentiu, tirou seu próprio crachá e, com uma
caneta, escreveu algo nele antes de entregá-lo a ela.
4 Tome.
No verso, ele havia escrito "May 0151". Ela aceitou o gesto
com gratidão. Arthit, percebendo o que acontecia, ficou
furioso.
4 Vocês dois!
O líder do trote aproximou-se rapidamente.
4 O que você está fazendo, Kongpob? 4 sussurrou
Arthit.
4 Estou dando meu crachá para minha colega 4
respondeu Kongpob, calmo.
4 Quem te deu permissão?
4 Ninguém. A culpa é minha por não lembrar o nome
dela. É meu dever assumir a responsabilidade.
Arthit recuperou o fôlego e encarou Kongpob com
intensidade. Mas, desta vez, o ato não era para desafiar ou
contradizê-lo 4 Kongpob apenas fizera o que achava certo.
O líder dos veteranos relaxou um pouco e disse:
4 Você entende que, se der seu crachá a ela, ficará sem
identificação?
4 Entendo.
Kongpob conhecia as regras do trote e aceitou seu destino
voluntariamente. Agora, sem crachá, Arthit poderia fazer o
que quisesse com ele.
4 Certo. Mas, sem identificação, você não tem nome.
Portanto, está violando as regras. Você não pode sentar com
seus colegas, ficará sozinho nas atividades e, se algum deles
for punido, você receberá o mesmo castigo 4 mas em dobro.
Entendido?
4 Entendido.
Arthit virou-se e dirigiu-se à porta do salão, sentindo-se
estranho. Por um lado, estava convencido de ter cumprido seu
dever com dignidade e punido Kongpob adequadamente. Por
outro, tinha a sensação incomum de ter perdido para aquele
maldito calouro, tão determinado a ajudar seus amigos.
Percebeu que não só odiava cada palavra que saía da boca
de Kongpob 4 aquelas que o faziam querer socá-lo várias
vezes ao dia 4, mas também detestava seus olhos decididos e
brilhantes.
5
Regra numero cinco para o calouro:
"Respeitem a autoridade dos veteranos"
4 Não aprenderam a trabalhar em equipe? Sabem o que é
união?
Claro que sabiam. Seria impossível chegar à universidade
sem conhecer uma palavra tão simples. Mas os calouros,
reunidos no estádio às quatro da tarde por ordem de Arthit,
pareciam tão capazes de realizar a tarefa quanto crianças do
jardim de infância.
4 Nós organizamos essa reunião para formar um grupo
organizado! Se vocês se alinham tão devagar assim, é porque
estão prontos para receber um castigo! Ou não sabem o que é
união? Será que não têm cérebro suficiente para entender? 4
gritou o líder do trote, furioso.
Naquele dia, os novatos estavam vestidos com camisetas
do curso de engenharia e calças de treino, então já
imaginavam que as atividades difíceis estavam prestes a
começar.
4 Vou lembrá-los: esta é uma advertência que não
repetirei. Se algum de vocês acha que consegue aguentar, seja
responsável por isso. Quem quiser ir embora, pode sair!
Normalmente, os alunos eram divididos entre o grupo
geral e um grupo especial para quem tinha problemas de
saúde 4 nem todos aguentavam as tarefas do trote, que pouco
diferiam do treinamento militar. Mas muitos calouros fingiam
problemas para entrar no grupo especial e evitar os exercícios
mais pesados, então essa opção foi descartada. Alguns
consideraram sair, mas desistiram após as próximas palavras
de Arthit.
4 Mas, se forem embora, lembrem-se: serão seus colegas
que aprenderão o que é união 4 não só por eles, mas por vocês
também.
Com essa ameaça, quem ousaria sair? Quem
abandonaria o grupo sabendo que seu castigo cairia sobre os
outros? Nenhum calouro queria parecer egoísta.
Arthit olhou pelas fileiras e não viu mãos levantadas.
Então, com aprovação, anunciou:
4 Devo elogiar seu espírito de equipe. Finalmente vejo
um pouco de união. Mas não é suficiente. Olhem para trás 4
vejam meus colegas do outro lado do estádio. Vocês têm três
minutos para correr até lá e se alinhar. Não há tempo a perder!
Serão punidos por cada segundo de atraso! Entenderam?
4 Entendido!
Os novatos ouviram a ordem e seus rostos
empalideceram. O estádio da universidade tinha a área de um
campo de futebol oficial, e era impossível atravessá-lo em
apenas três minutos.
Arthit continuou com voz autoritária:
4 Ótimo, se entenderam, então vão! O tempo já começou
a contar. Corram!
A corrida deveria ser feita em filas, de mãos dadas, o que
só dificultava a tarefa. Alguns rapazes logo se cansaram, o
suor escorria por seus rostos e a respiração ficou ofegante.
Uma das garotas, completamente exausta, continuava se
movendo com a cabeça baixa.
4 Tem algo errado com ela? Não consegue respirar?
De repente, a garota caiu no chão. Por sorte, Arthit estava
prestando atenção nela. O líder do trote correu até a jovem e
apoiou sua cabeça em seu ombro. Infelizmente, a equipe
médica estava no outro lado do estádio e não viu o que
acontecia. Com a garota nos braços, Arthit gritou:
4 Enfermeira! Alguém passou mal!
Sua voz atraiu a atenção dos presentes, fazendo com que
todos olhassem para trás, curiosos sobre o que acontecia na
última fila.
4 Não se aproximem! Quem autorizou vocês a saírem de
posição? Mantenham o olhar à frente! 4 Arthit gritou.
A ordem rígida foi dada para conter o pânico entre os
novatos. Todos foram obrigados a se afastar da cena.
Kongpob, que estava na última fila por estar sem crachá, viu
tudo o que acontecia. Finalmente, a equipe médica chegou.
4 Ela está hiperventilando! 4 anunciou Arthit.
4 Não deixe a cabeça dela reta! Precisamos de uma
sacola para ela respirar e levá-la urgentemente à enfermaria!
O comando foi rápido e preciso, sem necessidade de
explicações. A enfermeira pegou a garota e a levou direto para
a enfermaria. Arthit os seguiu com o olhar até que sumissem
de vista, só então considerando o incidente resolvido. Com
expressão impassível, virou-se para os calouros:
4 Eu avisei! Se acham que não aguentam as atividades, é
melhor saírem. Não serei responsável por sua saúde. Se algo
acontecer, não farei nada para ajudá-los, e serão seus colegas
que sofrerão o castigo por sua incompetência!
Mais uma vez, precisava ameaçá-los. Nesse tempo, os
alunos já estavam realizando tarefas há uma hora inteira, e
alguns não conseguiam mais correr. Por medo de prejudicar a
saúde, cerca de dez pessoas 4 principalmente garotas 4
levantaram as mãos e pediram para sair da atividade, pedido
que os veteranos aceitaram. O resto continuou correndo até o
céu começar a escurecer. Finalmente, os calouros ouviram a
ordem que esperavam há horas:
4 Por hoje é suficiente! Espero que tenham aprendido
algo sobre união e não esqueçam esta lição! Dispensados!
4 Obrigado!
Os novatos agradeceram aos veteranos, conforme a
tradição, e começaram a se dispersar, arrastando os pés de
cansaço. Pareciam robôs com a bateria no fim. Especialmente
Kongpob, que fez tudo em dobro por estar sem crachá. O suor
escorria por seu corpo, e seu estômago roncava de fome. Mal
podia esperar para tomar banho e comer, mas então viu seu
amigo Em andando com dificuldade perto dele.
4 Ei, Em! Tudo bem?
4 Não! Minhas pernas estão doendo!
"Parece que você torceu o tornozelo", pensou Kongpob.
Seu velho amigo de escola lançou-lhe um olhar sugestivo,
como se a lesão não importasse. Embora fosse óbvio que sua
perna doía muito, ele continuou correndo normalmente até
que, após um movimento errado, se machucou de verdade.
4 Vamos para a enfermaria. Deixe a enfermeira examinar
sua perna. Se continuar assim, pode piorar 4 sugeriu
Kongpob, e Em concordou.
Kongpob levou o amigo até a enfermaria sem mencionar
que seu próprio pé também doía e que queria um remédio para
o inchaço. Várias enfermeiras estavam na recepção, junto com
alunos do segundo ano e alguns veteranos.
Em abordou uma delas:
4 Licença, acho que machuquei minha perna.
4 Está com dor? Sente-se, vou examiná-lo.
O crachá da enfermeira dizia "Fang". Ela perguntou onde
doía, e Em teve que tirar o tênis para o exame. Após avaliá-lo,
ela diagnosticou:
4 É só uma torção. Basta passar pomada
anti-inflamatória, e em dois ou três dias a dor some. Só que
acabou o estoque. Mandei alguém comprar mais, então espere
um pouco.
Em olhou para Kongpob, esperando uma solução. Ambos
estavam famintos, e, como a lesão não era grave, não havia
urgência em esperar pelo remédio.
4 Então sem problemas! Mais tarde eu compro o remédio
para ele. Obrigado! 4 Kongpob interveio.
Imediatamente, a enfermeira o reconheceu como o
calouro que enfrentara o líder do trote. De repente, mudou de
assunto:
4 Você é Kongpob! Espere um pouco, um amigo meu
queria falar com você sobre o concurso de calouros. Queremos
indicá-lo como representante da faculdade. Pode esperar ou
está com pressa?
Kongpob nunca teve problemas em participar de
concursos, mas, naquele momento, seu estômago mandava 4
ele só queria comer.
4 Na verdade, íamos comer agora.
4 Então comam aqui conosco! Temos comida de sobra.
Só um minuto, vou chamar meu amigo. 4 Ela apontou para
os pratos cheios na mesa e discou um número.
Quando Fang desligou e se virou, viu que os dois ainda
estavam parados.
4 Por que não pegaram a comida?
4 Podemos mesmo comer com vocês? 4 Kongpob
perguntou, confuso. Sabia que aquela comida era para as
enfermeiras do turno da noite.
Fang respondeu gentilmente:
4 Claro! Pedimos muito. Até encomendamos para o
comitê de recepção, que sempre come por dois 4 eles nunca se
satisfazem com uma porção só!
A explicação os deixou hesitantes por um motivo:
4 Se é a comida dos veteranos, não ousaríamos comer!
A expressão chocada de Em fez a enfermeira rir.
4 Têm medo deles? Os veteranos não são tão ruins. Só
cumprem seus deveres. Tudo o que vocês fazem, eles também
fizeram um dia. As atividades são para ensinar, não para
diversão. Eles treinaram por meses para o comitê de recepção
e sabem como agir em emergências 4 tudo para garantir sua
segurança!
Kongpob ouviu atentamente. Era uma perspectiva nova.
Talvez ela estivesse certa. Ele vira como Arthit agiu rápido e
calmamente durante o incidente com a garota. O líder do trote
estava focado em seu dever e manteve a calma. Kongpob já
percebera esse lado dele antes. Sabia que não era apenas
rigidez, superioridade e intolerância.
Mesmo quando os calouros faziam tudo certo, eram
declarados perdedores e punidos injustamente. Por isso, os
novatos não gostavam do comitê de recepção e comentavam
entre si 4 nada elogiosamente 4 sobre como aquilo era uma
novidade em suas vidas acadêmicas. Fang compartilhava sua
perspectiva com eles:
4 Não quero que guardem rancor dos veteranos. Eles só
cumprem seus deveres. E sabem quem mais se preocupa com
os calouros da faculdade? Exatamente, o comitê de recepção.
Aquelas palavras foram uma revelação para os dois.
As palavras de Fang fizeram Kongpob refletir:
"É verdade que o comitê se preocupa com a gente? Isso se
aplica ao Arthit? Ele parece me odiar por minha língua afiada..."
Kongpob admitiu que falara de forma ousada com o líder
do trote, mas só para ajudar os amigos. Não imaginara que
isso irritaria ainda mais Arthit, a ponto de os castigos quase o
levarem ao desespero. E, pior, seu oponente não demonstrava
uma gota de simpatia. Como acreditar que os veteranos se
importavam com eles, se só os humilhavam? Kongpob
mergulhou em seus pensamentos sem encontrar respostas.
Fang interrompeu sua reflexão:
4 Vamos, sentem e comam! Aqui estão umas laranjas
para vocês. Compramos vários quilos, e nem todos comeram!
Ela entregou a Kongpob e Em um prato com arroz e ovo
frito, além de duas laranjas para cada um. Recusar seria
inútil, então os dois começaram a comer. Quando já estavam
terminando e prestes a descascar as laranjas, ouviram uma
voz familiar 4 surpreendentemente suave e calma:
4 Fang, a garota que passou mal já foi para casa? Fui
procurá-la, mas não a encontrei.
4 Sim, já foi.
4 Trouxe os dois tipos de pomada, quente e fria. Não
sabia qual você precisava.
A voz do veterano endureceu ao perceber que Fang não
estava sozinha. Arthit viu os dois "convidados" 4 um deles era
justamente a pessoa com quem não queria falar de jeito
nenhum.
4 O que vocês estão fazendo aqui? 4 gritou para os
calouros, assumindo instantaneamente um tom áspero e
irritado.
Agora, ele voltara ao papel de líder severo.
Os novatos se prepararam para levantar e receber sua
sentença, mas Fang esclareceu imediatamente:
4 Pedi que Kongpob e seu amigo esperassem aqui. Meu
amigo quer conversar sobre o concurso Lua e Estrela.
Queremos que Kongpob nos represente!
Arthit não ficou satisfeito. Com expressão carrancuda,
disse com desdém:
4 Por que ele seria nosso representante? Querem que a
faculdade perca? Ele é tão... inadequado. Seria uma vergonha.
Falou com um sorriso inocente, forçando Kongpob a
permanecer calado. Afinal, Arthit era seu veterano e tinha
autoridade para puni-lo. Além disso, jamais daria o gosto de
reagir. Sentindo sua superioridade, Arthit considerou o
assunto encerrado.
Antes de ir, entregou um pacote a Fang:
4 Aqui estão as duas pomadas.
4 Obrigada! Os garotos estavam esperando por isso.
Arthit ficou confuso. Não sabia que os novatos estavam
machucados.
4 Kongpob, você também precisa? Está com dor na perna
ou no pé? 4 perguntou Fang.
4 É no pé, obrigado.
De repente, o amigo de Fang irrompeu na enfermaria
como um furacão:
4 Fang! Cadê o calouro? Quero conhecê-lo!
Todos se surpreenderam com a entrada barulhenta.
4 Esse aqui é um heterossexual com corpo atlético e
traços graciosos! 4 Ele nem esperou Fang responder, indo
direto para sua "vítima". 4 Não se levante! Nossa, você é lindo!
Onde estava escondido, garoto? Com você representando a
faculdade, não tem como perder!
Kongpob sorriu sem graça, enquanto Arthit, com cara
feia, pegou um prato e foi comer num canto, claramente
incomodado com a cena.
Participar do concurso não era difícil, mas Minnie, o
amigo de Fang, falou sem parar, atrasando a saída dos
novatos.
4 Tudo bem, então te ligo para marcar a sessão de fotos!
Espere minha chamada!
4 Só ligue para o concurso, Minnie! Eu te conheço! 4
Fang gracejou.
4 Vou ligar só para o concurso, mas só ouvir a voz dele
não basta, preciso vê-lo pessoalmente!
O clima descontraído foi interrompido por Arthit:
4 Por que está rindo alto assim? Não pensa que está
atrapalhando quem ainda está trabalhando? 4 O líder do
trote olhou severamente para Fang. 4 Alguém está te
procurando.
E, voltando-se para os novatos:
4 Se já terminaram, então sumam daqui!
Kongpob e Em pularam dos assentos, prontos para ir
embora.
4 Ei, esperem! 4 Arthit os chamou de volta. Eles se
viraram, temendo outra repreensão. 4 Estendam as mãos!
Kongpob quase esperou que Arthit sacasse uma vara
para bater neles. Mas, em vez disso, o que caiu em suas mãos
foram... laranjas.
4 Peguem. Minha amiga Fang deu essas laranjas para
vocês. Levem.
Arthit pegou outro prato de arroz e saiu rapidamente,
deixando-os perplexos.
4 Achei que ia nos punir 4 disse Em, aliviado.
4 Eu também 4 Kongpob concordou, ainda olhando as
laranjas.
E então, as palavras de Fang ecoaram em sua mente:
"Sabem quem mais se preocupa com os calouros? O comitê
de recepção."
Será que Arthit realmente se importava?
Ele sempre tinha um rosto severo, um jeito grosseiro de
falar... Tudo que Kongpob lembrava dele era terrível. Ver
aquela gentileza 4 laranjas! 4 não batia com a imagem que
tinha do líder do trote.
Uma calorosa sensação tomou seu peito, e ele não pôde
evitar um sorriso. Talvez Fang estivesse certa. Talvez aquele
veterano que parecia um demônio realmente se importasse
com eles.
Como odiá-lo, então? Especialmente ao ver aquela
bondade refletida em seus olhos?
Até um demônio podia ser adorável.
6
Regra numero seis para o calouro: "Ouça
atentamente as explicaçoes dos veteranos"
As aulas com o grupo criativo da universidade eram
agradáveis para os calouros. Os veteranos do segundo ano
ensinavam canções, organizavam jogos divertidos e ajudavam
em tudo 4 desde a vida acadêmica até a organização das
refeições.
Os veteranos do grupo criativo sorriam amplamente,
estavam sempre de bom humor e dispostos a dar bons
conselhos. Os calouros tentavam criar laços estreitos com
eles, apelidando-os de "anjos" da universidade. Eram o
completo oposto dos "demônios" 4 como chamavam os
membros do comitê de recepção.
Principalmente, os novatos ficavam irritados quando os
veteranos do terceiro ano interferiam nas atividades do grupo
criativo. Num certo dia, enquanto os calouros cantavam e
dançavam uma coreografia ensaiada com os segundanistas, o
comitê de recepção interveio:
4 Parem! Não aguento mais ouvir isso. Minha paciência
acabou! 4 Arthit interrompeu de um canto.
Os calouros ficaram em silêncio, postura ereta como
soldados, cabeças baixas para não cruzar o olhar com o líder
do trote.
4 Isso é tudo que conseguem fazer? E quem os ensinou?
4 Fui eu! 4 A líder do grupo criativo, uma linda garota de
traços chineses, levantou a mão. Agora ela arcaria com as
críticas, pagando pela insatisfação dos veteranos.
Arthit falou com voz severa:
4 Mostre-me como está treinando eles.
Embora as responsabilidades do grupo criativo e do
comitê de recepção fossem diferentes, os primeiros tinham que
obedecer aos veteranos por serem mais novos 4 ocupando
posição inferior na hierarquia estudantil. Nesse aspecto,
pouco os diferenciava dos calouros.
Eles se alinharam, braços sobre os ombros uns dos
outros, e começaram a cantar em coro. O grupo criativo tinha
apenas dez pessoas, mas suas vozes eram altas e claras,
impressionando os novatos.
Mas não os veteranos.
4 Só isso? Não é à toa que não consegue ensinar direito
os calouros! 4 Arthit criticou, com expressão de
descontentamento.
Reclamar era inútil. Havia apenas duas regras na vida
acadêmica de todo engenheiro:
1. Os veteranos sempre têm razão.
2. Se algo não lhe convém, acostume-se.
Portanto, o grupo criativo teve que aceitar o castigo.
4 Ordeno que continuem cantando até os calouros
aprenderem a fazer direito.
A ordem era, digamos, inconclusa.
Arthit não especificou quando poderiam parar. Ou seja,
mesmo que perdessem a voz, deveriam continuar gritando.
Como juniores, os segundanistas não reclamaram.
Abraçaram-se novamente e cantaram ainda mais alto e
harmoniosamente, sob os olhares solidários dos novatos.
Cantar slogans não era simples. Embora os lemas fossem
curtos, depois de duas ou três repetições, as gargantas do
grupo criativo já estavam roucas, e as constantes inclinações
para frente os deixavam tontos.
Os segundanistas não paravam, fazendo os calouros se
sentirem culpados pelo castigo alheio. Alguns chegaram a
chorar; outros lançaram olhares suplicantes a Arthit, pedindo
clemência.
Mas o coração do líder do trote não era fácil de amolecer.
Ele não estava punindo o grupo criativo 4 seu alvo real
eram os calouros, forçados a assistir seus "anjos" sofrendo por
sua negligência. Essa estratégia indireta tinha efeito tão
potente quanto castigos físicos.
Arthit mantinha uma expressão impassível, como se os
slogans fossem apenas grasnidos de pássaros. Nem pensava
em interromper o castigo.
4 Até quando vai continuar com essa injustiça? Eu
assumo a ordem no lugar deles!
Alguém entre os novatos chamou o trote de "ato vil".
Arthit não se surpreendeu ao descobrir quem era o corajoso:
0062, Kongpob.
4 Não autorizo! Não precisamos de heróis aqui. Sente-se!
4 Arthit gritou. 4 Mas... 4 acrescentou, desafiador 4 se não
está satisfeito, saia! Escolha!
Kongpob estava desesperado. Já recebera uma "cartão
amarelo" por violar as regras e estava sentado separado dos
outros. Se levasse um "vermelho", seria expulso da reunião 4
ou até da universidade.
Isso o fez ponderar: valia a pena arriscar tanto pelos
segundanistas?
Arthit ficou satisfeito ao vê-lo hesitar. Finalmente
colocara o "protagonista de drama coreano" no seu lugar!
Voltou-se para o grupo criativo, cujos membros agora
cantavam com vozes roucas. Se não os interrompesse em
minutos, talvez perdessem a voz de vez.
4 Estou pedindo educadamente. Por favor, aceite!
Arthit virou-se bruscamente. Não acreditava que o
insolente ousava contradizê-lo de novo.
4 Negado! 4 cortou, sem deixá-lo explicar.
Julgou que a recusa firme bastaria. Enganou-se.
4 Imploro que mude de ideia!
4 Já disse que não!
4 Por favor!
4 Kongpob!
Arthit perdeu a paciência. Seus olhos vermelhos de raiva
fitaram o novato, que insistia como se quisesse testar seus
nervos.
O clima ficou tenso. Até o grupo criativo parou de cantar.
Todos os olhos estavam nos dois, frente a frente.
4 Saia do auditório! Não quero vê-lo novamente nas
reuniões!
A plateia prendeu a respiração. Segundo as regras não
escritas da faculdade, aquele era o pior castigo possível.
O próprio Kongpob ficou atordoado, embora esperasse o
pior. Mesmo assim, não se arrependeu. Fora fiel aos seus
princípios.
Caminhou lentamente para a saída, pernas pesadas
como se carregasse grilhões. Estava pronto para perder todos
os direitos como aluno de engenharia.
Antes que atravessasse a porta, o silêncio foi quebrado:
4 Peço permissão para falar!
Era Em, amigo íntimo de Kongpob.
4 O que quer? 4 Arthit rosnou.
Em, embora inseguro, falou claramente:
4 Peço permissão para que meu amigo fique. Nós
cantaremos o lema no lugar do grupo criativo.
A ousadia da proposta só irritou mais Arthit.
Mas então... outros novatos se levantaram em apoio.
4 Negado! 4 Arthit repetiu pela enésima vez.
Pensou em punir Em, mas não teve tempo. Vozes
ecoaram de todos os lados:
4 Imploro que revogue sua ordem!
4 Peço permissão para falar!
Os calouros ergueram as mãos, exigindo seu direito à
palavra.
4 Silêncio! 4 Arthit gritou com toda sua força.
As vozes se calaram, mas o equilíbrio de poder na sala
mudara. Se antes os novatos estavam resignados, agora seus
olhos brilhavam com vontade de lutar.
Arthit percebeu que teria que recuar.
4 Tudo bem!... Vou deixar vocês cantarem no lugar dos
segundanistas. Mas seu amigo não voltará!
Sim, Arthit cedeu aos pedidos, mas não fugiu da situação.
Não planejava perdoar Kongpob por suas constantes
reclamações só porque seus amigos intercederam. Várias
mãos de calouros se levantaram, prontas para exigir que o
líder do trote reconsiderasse, mas Arthit fingiu não notar. Com
expressão dura, virou-se para Kongpob, parado perto da
saída:
4 O que ainda está fazendo aqui? Rua!
Kongpob olhou nos olhos de Arthit e viu a chama da raiva.
Era inútil esperar compaixão.
4 Entendido.
Obedeceu, mas não foi vagar pelo campus. Ficou do lado
de fora da sala, sentado perto da porta, ouvindo atentamente.
Dentro, os novatos cantaram o lema da faculdade, depois
o da universidade, repetindo por cerca de dez minutos.
Quando ficou quieto, Kongpob aproximou-se da porta para
ouvir melhor. Foi quando ela se abriu, e os primeiros a sair
foram os do comitê de recepção.
Arthit parou ao vê-lo, abordando-o como se fosse seu
maior inimigo.
4 O que está fazendo aqui?
4 Esperando meus amigos 4 respondeu Kongpob,
simples e sincero. Podia ter perdido seu status de aluno de
engenharia, mas ainda tinha seus amigos.
Os veteranos olharam para Arthit, buscando aprovação.
Seu líder assentiu, e todos cercaram Kongpob, bloqueando
qualquer rota de fuga.
4 Sabe por que o expulsei? 4 Arthit perguntou, severo.
Kongpob manteve a calma antes de responder baixinho:
4 Porque o irritei.
4 E por que me irritei?
4 Porque me ofereci para substituir o grupo criativo.
4 Não! Expulsei você porque não precisamos de heróis!
4 Não precisam de heróis? 4 Kongpob franziu a testa. 4
Acha que levanto a mão só para chamar atenção? Só queria
ajudar meus amigos...
4 E seus amigos ficarão para sempre esperando que você
os salve? 4 Kongpob não soube responder. Começava a
entender o que Arthit tentava ensinar.
4 Se seus amigos sempre esperam por ajuda, o que farão
quando enfrentarem dificuldades sozinhos? Conseguirão
tomar decisões? Se acostumarem a ser espectadores, nunca
terão coragem para resolver seus problemas. E eu não
permitirei alunos de engenharia fracos!
Pela primeira vez, os veteranos deram uma explicação
lógica em vez de força bruta. Kongpob entendeu suas
motivações 4 queriam ensinar os calouros a serem decididos
e fortes, como verdadeiros engenheiros.
4 Vamos? 4 um dos veteranos perguntou. Arthit
assentiu antes de continuar:
4 Já que hoje você encorajou seus amigos a falarem por
si mesmos, autorizo sua presença na próxima reunião. Mas
esta é a última advertência. Não tolerarei mais suas atitudes
de "herói".
4 Entendido.
Os veteranos se afastaram, deixando Kongpob livre.
Arthit já ia embora quando ouviu:
4 Espere! Quero perguntar uma coisa.
4 O que? 4 respondeu, irritado.
4 Quando pedi sua assinatura... Não estava tentando ser
herói. Então por que me castigou?
4 Por que acha que fiz isso?
Arthit sabia que Kongpob ainda estava magoado e queria
respostas 4 talvez para se vingar.
A resposta, porém, o pegou de surpresa:
4 Acho que você gosta de mim.
4 O quê? 4 Arthit engasgou, a raiva crescendo.
Kongpob sorriu levemente:
4 Dizem que, quando gostamos de alguém, provocamos
para chamar atenção. Você só me castiga... Então deve gostar
de mim, certo?
Aquele insolente! Que teoria absurda era aquela?
4 Claro que não! 4 Arthit gritou, fazendo vários calouros
se virarem. 4 O que estão esperando? Sumam!
4 Entendido.
Kongpob obedeceu, mas não tirou os olhos de Arthit até
ele desaparecer de vista.
4 Do que estavam falando? Ouvimos os gritos 4 os
amigos de Kongpob o cercaram, curiosos.
Ele não conseguiu conter um sorriso:
4 Nada demais. Só estava provocando ele.
7
Regra numero sete para o calouro: "Nao
importa a situaçao, os veteranos sempre
terao uma liçao para voce"
4 Um arroz frito com manjericão, frango e ovos, por
favor.
Arthit pediu seu prato habitual automaticamente, sua
mente ocupada com pensamentos sobre os calouros. Estava
cansado de repreendê-los por erros intermináveis, de inventar
novos castigos.
Ser do comitê de recepção não era divertido. Tinha que
gritar mesmo com dor de garganta, manter uma expressão
severa por horas 4 a ponto de não sentir os músculos do rosto
no fim do dia. Tudo para cumprir seu papel honroso como
líder do trote.
Os novatos talvez achassem os veteranos cruéis, mas não
consideravam que, no fim, eram eles os responsáveis por seus
atos.
"Se os calouros estão exaustos, nós estamos duplamente
cansados", era o lema diário do comitê.
Por isso, após as reuniões, Arthit parava para comer e
recarregar energias. Vestindo uma camiseta confortável e
shorts, foi ao restaurante mais próximo. Normalmente, não
demorava mais de seis minutos, mas hoje filas enormes se
formavam. Era preciso pedir com antecedência, e até
encontrar um lugar para sentar era difícil.
Por sorte, Arthit conseguiu a última mesa livre. Sentou-se
e abriu o jornal sobre a mesa.
"Que sorte", pensou. "Finalmente um minuto para ler as
notícias."
Naquela manhã, estudara; à tarde, cumprira seus
deveres como líder do trote; e, antes de dormir, planejara a
dinâmica do dia seguinte. Sua vida era um ciclo. Se um
meteoro caísse na América, ele nem saberia.
Terminou de ler justo quando ouviu:
4 Posso sentar aqui?
4 Pode sentar, sem problema 4 disse mecanicamente,
sem levantar os olhos.
O dono da voz sentou-se à mesa e agradeceu:
4 Obrigado, P'Arthit.
4 De nada 4 respondeu sem interesse. De repente, uma
dúvida surgiu: como essa pessoa sabia seu nome?
O líder dos veteranos baixou o jornal e olhou para o
intruso à sua frente. O rapaz vestia uma camiseta simples e
shorts, assim como ele. Mas, apesar da roupa similar, suas
posições na hierarquia estudantil eram diferentes. Afinal,
Arthit era o líder do trote, e o garoto à sua frente era um
calouro. E não qualquer calouro...
... Era o 0062 Kongpob!
4 O que você está fazendo aqui? 4 Arthit perguntou,
descontente, assumindo novamente sua máscara de líder
rigoroso.
4 Bem... Pedi permissão para sentar aqui, e você
permitiu. O restaurante está lotado, não há mesas disponíveis
4 Kongpob respondeu com simplicidade.
Arthit olhou ao redor. Realmente, todas as mesas
estavam ocupadas. Mas dividir a mesa com um calouro
ameaçava sua dignidade como líder do trote. Estava prestes a
expulsar Kongpob quando uma funcionária do restaurante se
aproximou.
4 Meninos, sinto muito, hoje está cheio! Sentem-se
juntos, por favor!
Talvez ela tivesse ouvido o tom desagradável de Arthit ou
notado seu olhar irritado. De qualquer forma, interveio para
evitar conflitos. O líder dos veteranos ficou em silêncio,
aceitando a situação. Afinal, ele era cliente frequente ali, e
muitas vezes ganhava porções extras. Não queria estragar sua
imagem.
A mulher virou-se para Kongpob:
4 Já fez seu pedido?
4 Ainda não. Quero uma tortilha de ovos com arroz e
carne de porco.
4 Certo, espere um minuto.
Enquanto aguardava, Arthit não resistiu a um
comentário desdenhoso:
4 Tortilha de ovos com arroz... Comida de criança.
O confronto começava. Kongpob suspeitou que o líder
ainda não esquecera seus desentendimentos passados e agora
tentava irritá-lo como vingança. E, como calouro, ele não
podia contradizer um veterano.
4 É que não consigo comer comida apimentada.
4 Parece saudável como um touro, mas não aguenta
pimenta igual uma garotinha! 4 Arthit provocou, fazendo
Kongpob parecer um idiota.
"Se é tão corajoso a ponto de sentar comigo, vamos ver se
aproveita a refeição", pensou Arthit, certo de que Kongpob não
passava de uma criança.
4 Filho, aqui está seu leite rosa 4 a funcionária colocou
o copo à sua frente.
"Droga! Esqueci meu pedido idiota!"
4 Não deve ser para mim. Eu não pedi isso 4 o líder do
trote gaguejou, negando.
4 Claro que é seu! Lembro bem, você pede todo dia!
Ele estava encurralado.
Sem escapatória, Arthit resignou-se e aceitou o leite rosa,
evitando olhar para Kongpob.
4 E aqui está seu café gelado.
4 Obrigado 4 Kongpob pegou seu copo e, sem disfarçar o
sorriso, encarou descaradamente a bebida rosa do líder.
4 Não sabia que nossos veteranos gostavam de leite rosa.
4 Seu idiota! 4 foi tudo que Arthit conseguiu dizer, sua
mente buscando xingamentos adequados.
... Mas qual era o problema com sua bebida? Era deliciosa
4 doce e refrescante! Talvez fosse sua favorita. Só não
combinava muito com a imagem de "veterano durão". Por isso,
ele evitava tomá-la na frente de calouros.
Mas hoje, seu azar o traíra. Seu segredo fora revelado
justo ao insolente Kongpob.
"Maldição!"
Arthit imaginou derramar o leite na cara do calouro, mas
a funcionária voltou.
4 Arroz com ovos mexidos e carne de porco! 4 Ela deixou
o prato na mesa.
Kongpob ia pegar o garfo, mas Arthit o interrompeu:
4 Devagar! Falta algo.
Kongpob soltou o talher e olhou para ele. Arthit
pigarreou, importante, e falou em tom autoritário:
4 Como seu veterano, vou te ensinar algo... Sabe quanto
esforço foi preciso para cultivar esse arroz?
4 Sei 4 Kongpob assentiu, desconfiado.
4 Quero que mostre respeito por quem plantou seu
alimento. Recite uma oração de agradecimento.
4 Posso.
4 Então diga em voz alta, para que todos ouçam seu
agradecimento a cada grão de arroz deste restaurante!
Era claramente outro castigo. O local estava lotado, e
recitar uma oração em público seria constrangedor.
4 Por que não fala? Não está grato pelo arroz em seu
prato?
Arthit provocou, insinuando que Kongpob não tinha
coragem.
O calouro respirou fundo, levantou-se e anunciou a
todos:
4 Cada prato de arroz, cada refeição deve ser consumida!
Cada grão tem valor, não desperdicem o sagrado! Há muitas
pessoas famintas no mundo!
Os clientes olharam espantados, sussurrando entre si
sobre aquele ato repentino.
Arthit sorriu dissimuladamente. Seu plano funcionara 4
e era só o começo. Ele pegou o prato de Kongpob.
4 Isso é para você. Coma bem! 4 Arthit trocou os pratos,
dando ao calouro seu arroz frito com frango e manjericão.
4 Já que valoriza tanto o arroz, é justo que coma mais!
Tome meu prato 4 ou você recusa minha generosa oferta?
Kongpob ficou surpreso com a súbita "gentileza" de
Arthit. Mas, como calouro, não podia recusar.
4 Bon appétit 4 Arthit disse com voz suave, mas, para
Kongpob, aquele tom era pior que seus gritos. Significava que
estava prestes a ser enganado escandalosamente.
Tudo que podia fazer era abaixar a cabeça e obedecer seu
veterano malvado.
Kongpob pegou uma colherada de arroz, fechou os olhos
com força antes de levar à boca. Imediatamente, sentiu o fogo
da pimenta queimando sua boca até chegar ao cérebro. Tomou
um gole do café gelado para aliviar, mas algumas lágrimas
escorreram mesmo assim.
Arthit também começou a comer, saboreando sua tortilha
de ovos com arroz e porco, bebendo seu leite rosa com prazer
enquanto observava o calouro insolente sofrendo. Tinha todo o
direito de rir da agonia de Kongpob.
O líder dos veteranos estava satisfeito consigo mesmo.
Der outra lição àquele insolente. Talvez suas intenções fossem
boas... Mas isso não importava. Ele estava no penúltimo ano, e
Kongpob era um novato que ousara desafiá-lo 4 motivo
suficiente para merecer o castigo.
Mesmo tendo planejado aquilo, surpreendeu-se quando
Kongpob continuou comendo, suportando corajosamente até
aquele castigo idiota... Como se fosse imune às provocações de
Arthit.
Um toque vindo do bolso chamou sua atenção. A vibração
do celular interrompeu seus pensamentos. Era um amigo do
comitê de recepção.
4 Alô... O quê?... Estou comendo agora... É mesmo
necessário? Tá bom, já vou.
Cobrindo o microfone, virou-se para Kongpob:
4 Tenho que ir. Mas coma todo esse arroz até o último
grão! Lembre-se: arroz tem valor inestimável!
Fez uma careta e saiu apressado, deixando Kongpob com
um prato quase cheio de arroz apimentado.
Assim que Arthit desapareceu, Kongpob suspirou,
sentindo-se livre.
Toda vez que enfrentava Arthit, sabia que não seria fácil...
Mas, por incrível que parecesse, sempre queria arriscar. Devia
estar furioso com o líder do trote, e com razão. Mas, por algum
motivo, não conseguia. Talvez reagisse assim por sua atitude
desafiante inicial, e Arthit apenas retribuísse na mesma
moeda.
Kongpob começou a separar os pedaços mais picantes.
Sabia que Arthit não voltaria para checar se obedecera à
ordem. Mesmo assim, não conseguiu quebrar sua promessa.
Preparou o estômago e decidiu terminar o arroz. Sua boca
estava vermelha e inchada, os lábios dormentes, a língua
ardendo de forma insuportável 4 a ponto de perder o paladar.
4 A conta, por favor! 4 chamou a atendente.
4 Não precisa! O cliente que sentou com você pagou as
duas!
Kongpob surpreendeu-se. Só uma pessoa estivera àquela
mesa. Tentou conter seus pensamentos e levantou-se para
pagar sua bebida.
4 Quanto devo pelo café gelado?
4 Já está pago... Pelo moço do leite rosa.
Kongpob assentiu. Pensou em pedir água para aliviar a
queimação, mas mudou de ideia.
4 Então quero outra bebida. Um leite rosa, por favor.
Pagou e recebeu o pedido na hora. Olhou para o copo de
leite rosado.
Claro que não aliviou a dor em sua boca... Mas ajudou a
entender por que não conseguia odiar alguém como Arthit,
mesmo sendo tão intolerante.
Talvez porque ele também tivesse uma fraqueza por
doces.
8
Regra numero oito para o calouro:
"Demonstre sua capacidade"
Todos cantavam e dançavam, aproveitando o momento.
Os novatos dançavam com toda energia, aliviando a
tensão após o encontro com os veteranos. Desta vez, o castigo
fora ficar de cócoras como se sentados em cadeiras invisíveis
por cinco minutos. Suas pernas estavam dormentes após três
minutos, mal aguentando até o fim. Mas agora, apesar do
esforço, ninguém parava de dançar!
Estavam se esforçando ao máximo para recuperar o bom
humor após o encontro com os terceiranistas. As risadas só
cessaram quando o grupo criativo pediu silêncio.
4 Obrigado! Por hoje, acabou! 4 anunciou um deles. 4
Lembrem-se: quem quiser participar da competição deve se
inscrever até sete da noite!
Repetiram a mensagem, incentivando os calouros a
participar do evento mais importante do ano.
4 As competições entre calouros incluem vários esportes
para demonstrar desempenho e sincronia entre as faculdades!
4 explicaram, sem mencionar que também haveria disputas
entre os times.
Kongpob olhou o relógio: seis e meia. Mal podia esperar
para ir jantar, mas, ao virar para sair, ouviu seu nome.
4 Kong, espera! 4 Era Em, seu amigo mais próximo.
4 Tá livre? Quero me inscrever no basquete. Vem
comigo?
Nada surpreendente. Nos tempos livres, jogavam
basquete juntos. Na maioria das vezes, por diversão, mas
tinham habilidade suficiente para vencer partidas de rua.
4 Beleza, mas rápido. Tô com fome.
Kongpob achou que jogar de estômago vazio seria
desvantagem. Para se qualificar, precisariam demonstrar
habilidade 4 difícil com fome. Então, foram primeiro à
lanchonete. Comeram o máximo possível para recuperar as
energias, já estavam exaustos após o encontro com o comitê
de recepção.
Ao terminarem, faltava pouco para o horário de inscrição.
Correram para o ginásio e, ao entrar, viram uma multidão 4
não só calouros, mas veteranos também. Entre eles, Minnie,
um veterano afeminado que, ao ver Kongpob, cumprimentou-o
animado:
4 Kongpob, quanto tempo! Tava entediado. O que traz
você aqui?
4 Oi, Minnie. Meu amigo e eu queremos entrar no time de
basquete. 4 Kongpob juntou as mãos no tradicional
cumprimento tailandês.
Minnie ficou agitado:
4 Você quer jogar basquete? Mas isso não vai atrapalhar
o concurso Lua e Estrela?
E tinha razão. Kongpob esquecera aquele detalhe: além
do esporte, participaria do principal concurso do campus.
Fora escolhido pelos veteranos como candidato a Lua.
Minnie não aprovou sua decisão de participar de outra
atividade. Muitos desistiram de representar a faculdade ao
verem sua foto e entrevista no site.
4 Nesse caso, não precisa se inscrever. Esqueci que você
está no concurso.
Kongpob balançou a cabeça. Sentia-se capaz de fazer
ambos e não estava acostumado a recuar.
4 Posso me inscrever como reserva?
4 Nesse caso, sim. Só como reserva. 4 Minnie franziu a
testa. 4 Ah, já pensou em que habilidade especial vai
mostrar?
Kongpob também esquecera isso. No concurso, os
participantes seriam avaliados não só pela aparência, mas por
talentos no palco 4 em até cinco minutos.
Era uma dor de cabeça. O que faria por cinco minutos
inteiros? Apresentar-se levaria uns cinco segundos...
Minnie olhou para ele esperançoso. Kongpob preferiu
desviar da pergunta com cuidado.
4 Ainda não preparei minha apresentação, mas já tenho
uma ideia.
4 Kongpob, precisamos nos apressar! Se estiver sem
ideias, pode me procurar. Vou garantir que a universidade
vença este ano, então não precisa ter medo! Confie em mim!
Minnie falava com tanta confiança e entusiasmo, como se
estivesse se preparando para um concurso de miss. Kongpob
apenas esboçou um sorriso seco. Não estava com medo da
competição, e o título de "Lua da Universidade" pouco lhe
importava. Se soubesse que participar seria tão incômodo,
teria recusado desde o início.
4 Vamos nos inscrever ou vamos nos atrasar! 4 disse
Em.
Kongpob assentiu e se despediu de Minnie. Olhou ao
redor, tentando localizar a mesa de inscrições. Não foi difícil
encontrá-la 4 um grupo de quase dez garotos se aglomerava
em volta de uma mesa onde uma garota organizava as listas.
Kongpob e Em se dirigiram para lá, mas, antes de chegar,
ouviram vozes familiares. Kongpob virou-se para a origem do
som e congelou.
Um grupo de mais de dez veteranos da Faculdade de
Engenharia entrou no ginásio. Apesar das expressões
indiferentes, a atmosfera ficou pesada. Os calouros,
temerosos, se espalharam para as laterais, tentando evitá-los.
Alguns rostros eram desconhecidos para Kongpob 4 talvez de
outros departamentos. Mas quem se destacava era um
membro do comitê de recepção, liderando o grupo sem olhar
para ninguém. Kongpob o reconheceu instantaneamente...
Era o líder dos veteranos. Arthit.
Kongpob observou Arthit levar os terceiranistas até a
mesa de inscrições e conversar com a garota responsável.
Depois, o líder virou-se e anunciou em voz alta:
4 Todos os inscritos nas competições, venham aqui!
Embora os calouros não entendessem completamente o
que estava acontecendo, suspeitavam que a presença
daqueles veteranos de semblante severo não era um bom
sinal. E estavam certos.
Quando Kongpob, Em e outros trinta jovens se
aproximaram, ouviram os veteranos comentando entre si:
4 São todos?
4 Mantenha a postura... Não, isso não vai dar certo...
4 Eu avisei...
As críticas fizeram alguns calouros hesitarem. Os que
queriam participar dos esportes ficaram em fila diante da
mesa. Arthit deu um passo à frente, olhou a multidão com
frieza e falou:
4 Não estamos aqui para ajudar ou dar conselhos.
Resolvam seus problemas sozinhos! Vim avisar que, desde o
início das competições esportivas entre calouros, o
departamento de Engenharia nunca perdeu em nenhum
esporte! E advirto: vocês não têm o direito de quebrar essa
tradição!
Os calouros ficaram em silêncio. Entenderam as
intenções dos veteranos 4 não estavam ali para dar um
discurso motivacional, mas para assustá-los e pressioná-los a
vencer.
Na verdade, as competições entre calouros eram vistas
como um evento divertido, para integrar os novatos de
diferentes faculdades. Murmúrios surgiram entre os alunos,
defendendo o verdadeiro propósito dos jogos. Um deles não
resistiu e enfrentou os veteranos:
4 Mas as competições são para aprendermos sobre
união, derrota, vitória e perdão... Não é?
Arthit virou-se para o falante. No início, pensou que fosse
Kongpob tentando ser o herói como de costume. Mas era outro
calouro, provavelmente de outro departamento. O garoto falou
com ousadia, sem medo dos veteranos 4 quase desafiando-os.
Prem, um membro do comitê de recepção, respondeu
rapidamente:
4 Isso é o que você acha? Vá mamar na sua mãe,
querido!
4 O quê? Fiz uma pergunta educada, e você insulta
minha mãe?
O novato ficou furioso. Prem considerou sua reação um
desrespeito e revidou:
4 Eu sou o veterano aqui, e você é só um calouro! Não
sabe quem manda? Quer um castigo?
4 Vem! Não tenho medo de você! Só porque nasceu antes
não significa nada!
4 O que você disse?
Prem cerrou os punhos, pronto para atacar. Arthit
interveio, colocando-se entre os dois.
4 Chega, Prem! Acalme-se!
4 Ouviu como ele falou? Esse novato precisa apanhar
para aprender!
4 Tenta! Acha que sou fraco? 4 gritou o calouro.
Prem assumiu postura de luta. Kongpob, que estava atrás
do novato, pulou e segurou seu pulso, tentando acalmá-lo.
4 Ignore. Não deixe ele te provocar.
4 Como não me irritar? Fiz uma pergunta, e esse idiota
me insultou!
Prem ficou ainda mais furioso com o insulto.
4 É isso! Você vai se arrepender!
Seus companheiros o seguraram. Arthit perdeu a
paciência e gritou:
4 Parem os dois! Não têm vergonha?
A discussão cessou com sua voz. Todos, até os veteranos,
ficaram em silêncio. Os dois lados perceberam que todos no
ginásio os observavam.
Arthit soltou Prem e virou-se para o calouro.
4 Quer saber por que estamos aqui? Eu digo!
Inspirou fundo, preparando-se para o discurso, e encarou
os novatos antes de continuar:
4 Vocês devem achar que essas competições não têm
importância. Mas, para nós, veteranos, seu desempenho
mostra do que são capazes! Assim saberemos se têm potencial
para serem alunos dignos da Faculdade de Engenharia!
Quanto mais levarem os jogos a sério, mais provarão sua
determinação! Mas, se forem negligentes, se não derem o
máximo e aceitarem a derrota facilmente... então não merecem
estar aqui!
Arthit falou não como líder do trote, mas como
representante da geração mais antiga da faculdade.
Na verdade, ele não tinha certeza se a Engenharia
realmente vencera todas as competições no passado. Mas,
quando era calouro, os veteranos disseram o mesmo a ele. E
sua turma venceu todos os jogos. Seus colegas do comitê
também haviam participado.
Acreditavam que aquele discurso deveria ser passado
adiante, para manter o espírito forte da Faculdade de
Engenharia 4 a maior da universidade, que devia proteger
sua honra e vencer todas as competições.
4 Definitivamente vamos ganhar!
Arthit virou-se para o novato que interrompeu seu
discurso. Desta vez, era de fato seu velho "amigo", o aspirante
a super-herói.
Kongpob soltou o colega e avançou, encarando o líder do
trote sem medo. Seus olhos se encontraram 4 um cheio de
desdém, o outro, de desafio.
Arthit respondeu com uma ameaça:
4 Não fale antes da hora. Em vez disso, prove! Lembre-se:
você é o rosto da faculdade, representará todos os alunos de
engenharia. Ganhar ou perder será sua responsabilidade!
4 Estou ciente disso. Por isso garanto: vamos vencer.
Nós, calouros, também somos dignos do orgulhoso título de
estudantes de engenharia. E não deixaremos ninguém nos
subestimar.
Kongpob não gritou nem se exibiu. Suas palavras
transbordavam confiança 4 e pareceram afetar tanto os
calouros quanto os veteranos ao redor.
4 Isso veremos.
Arthit terminou e acenou aos colegas. Os veteranos então
se dirigiram à saída do ginásio, seguidos pelos suspiros de
alívio dos calouros.
Fora dali, o comitê de recepção parou, separando-se dos
outros veteranos.
4 Você não devia ter me impedido de bater naquele
idiota! 4 Prem reclamou.
Ele tinha traços de alguém do sul da Tailândia e cursava
Engenharia Civil. Arthit fez um gesto cansado antes de
responder:
4 Por que começar uma briga na frente de centenas de
testemunhas? Os professores ficariam sabendo. Pensou
nisso?
4 Tá, você tem razão. Mas aquele bonitão que vive te
desafiando... ele tá procurando confusão! 4 Prem mudou de
assunto, referindo-se a Kongpob.
Arthit concordou relutantemente:
4 Parece que é da natureza dele. Já cansei de puni-lo.
Ele já avisara Kongpob para não bancar o herói. Não
queria piorar a situação, ainda mais com Prem e o calouro
quase saindo no tapa.
4 Só isso? Vai deixar ele se gabar à vontade?
Arthit parou ao ouvir o comentário desdenhoso do amigo,
que parecia não ter escutado uma palavra de Kongpob. Prem
achava todos os calouros irresponsáveis.
Mas Arthit sabia que não era assim. Kongpob era a prova.
4 Não subestime ele 4 murmurou, fazendo Prem
perguntar:
4 O que disse?
4 Nada.
Arthit saiu rápido. Seus pensamentos giravam em torno
de uma coisa só: a irritação de representar a geração mais
antiga da faculdade.
Mesmo que nunca admitisse, no fundo, ele acreditava que
Kongpob venceria.
9
Regra numero nove para o calouro:
"Mantenha e cumpra uma promessa"
4 Ei, Kong! Kong! O que tá procurando? Chamei você um
monte de vezes!
Em cumprimentou Kongpob, que parecia com a cabeça
nas nuvens. Ele logo desistiu e voltou a atenção para a
quadra, onde os jogos estavam prestes a começar.
Contrariando o que o amigo pensava, Kongpob não estava
nervoso com a vitória nos jogos dos calouros.
Sua preocupação era outra. Não era um "o quê", mas um
"quem".
O rosto daquela pessoa surgiu em sua mente,
materializando as lembranças do dia anterior.
O apito soou alto, marcando o fim do jogo de basquete
entre os calouros de Engenharia e Pedagogia. O time de apoio
e os jogadores em quadra comemoraram. Eles venceram!
4 Conseguimos! Chegamos à final!
Em correu para o banco, celebrando com Kongpob. Eles
bateram as mãos, mas Kongpob só conseguiu forçar um
sorriso. Seu cansaço contrastava com o clima de vitória.
Em franziu a testa:
4 Kong, qual é o problema hoje? A gente ganhou! Tem
que comemorar!
4 Tô bem. Só notei que os veteranos não vieram assistir.
Kongpob percebeu que, sem querer, dissera o que
pensava.
É isso que o mantivera olhando para a entrada do ginásio.
O líder do trote não apareceu em nenhum jogo.
E não era só hoje. Desde o início das competições, apenas
calouros e segundanistas pareciam interessados. Era um
hábito da Engenharia 4 os veteranos nunca apareciam,
diferentemente de outras faculdades. Nem mesmo depois de
exigirem a vitória.
4 Eles têm medo de engolir as próprias palavras. Lembra
como nos ameaçaram? Quero ver a cara deles quando
recebermos o troféu! Vou esfregar na cara! 4 disse Wad, um
novo amigo de Kongpob, limpando o suor do rosto.
Wad, de origem chinesa e olhos grandes, quase brigou
com os veteranos no dia das inscrições. Kongpob o conhecera
melhor durante os treinos.
Wad estudava Química, odiava o sistema SOTUS e se
recusava a respeitar os veteranos. Mas amava basquete, por
isso entrou nos jogos. Habilidoso, virou capitão do time 4
embora fosse impulsivo e fácil de provocar.
No dia do conflito, Wad jurou vencer as competições para
proteger sua honra. Mostraria que os veteranos não eram
superiores. Essa promessa o motivou a focar no jogo.
4 Vamos descansar. Amanhã é o último jogo. Não
importa se eles vierem ou não 4 se ganharmos, vão ficar
sabendo. 4 Em deu um tapinha no ombro de Kongpob e foi
para os vestiários.
Kongpob se levantou e seguiu os colegas. Não resistiu a
olhar para a porta mais uma vez.
No ginásio, só viu calouros com faixas, animando os
amigos.
As competições duraram três noites seguidas. Os times
eram eliminados após a primeira derrota. Até então, os
calouros de Engenharia não tinham rivais fortes em nenhum
esporte. As ameaças dos veteranos surtiram efeito 4 viraram
motivação.
Kongpob, mesmo sendo reserva, treinou duro a semana
toda. Lembrava sua promessa: provar seu direito de ser
chamado estudante de Engenharia. Ele faria de tudo para
cumpri-la e mostrar ao comitê de recepção o potencial dos
calouros.
Eles até passaram para a final, e aqueles veteranos não se
dignaram a aparecer. Nem em um único jogo.
Incluindo o dono do rosto que Kongpob tanto procurava
na multidão.
Kongpob não sabia por que seus teimavam em continuar
procurando a mesma pessoa. Apesar das poucas esperanças
de que ele aparecesse. Mesmo assim, Kong esperava, do fundo
do coração, virar e se deparar com aquele olhar irritado.
Ele fez isso de novo, examinou os rostos nas
arquibancadas por um longo tempo e, de vez em quando, teve
que se forçar a voltar a concentrar no jogo, repreendendo-se
repetidamente por ter esse tipo de comportamento.
4 Você está louco, Kongpob? 4 resmungou para si
mesmo, frustrado.
Kongpob sacudiu a cabeça e decidiu que era hora de
descansar antes da competição do dia seguinte. Despediu-se
dos amigos, pegou uma moto e foi para seu apartamento.
Eram quase sete da noite, e o torneio de vôlei estava
prestes a terminar. Antes de voltar para casa, Kongpob decidiu
parar em uma barraca próxima para comprar algo para o
jantar.
Na verdade, ele já tinha comido antes da competição, mas
o jogo foi tão longo que ele estava com fome de novo. Kongpob
optou por um prato simples e escolheu os kebabs de porco 4
algumas espetinhas grelhadas. O cheiro o recebeu assim que
ele desceu da moto, e ele soltou um suspiro de satisfação ao
sentir aquele aroma delicioso.
4 Uma porção de espetinho de porco com uma dose de
arroz, por favor.
4 Vai ter que esperar um pouco, ainda estão assando 4
disse o vendedor, virando os espetinhos.
Kongpob não tinha percebido que não havia nenhum
kebab pronto naquela barraca, mas seria perda de tempo
procurar outro lugar que tivesse o que ele queria, então
decidiu esperar.
4 Tudo bem 4 Kongpob assentiu e cruzou os braços,
distraindo-se calculando o preço da comida na cabeça.
De repente, ouviu outro cliente falando com o dono da
barraca:
4 Senhor, quero uma porção de porco e uma dose de
arroz, por favor.
4 Espere um pouco, ainda não estão prontos, mas logo
ficam 4 o diálogo que ele mesmo tinha acabado de ter com o
vendedor se repetiu com o novo freguês, que desviou a atenção
de Kongpob dos cálculos que giravam em sua mente.
Ele levantou os olhos, atraído pela voz.
4 Tá bom 4 Arthit respondeu ao vendedor, notando a
pessoa ao seu lado que o encarava fixamente.
O líder dos veteranos escondeu rapidamente um copo de
leite rosa atrás das costas 4 o mesmo que ele sorvia
tranquilamente antes de fazer o pedido. Seu rosto assumiu
uma expressão rígida e severa em questão de segundos.
4 Olá, P’Arthit 4 cumprimentou Kongpob, juntando as
mãos em um gesto formal.
Arthit retribuiu brevemente o cumprimento com um olhar
indiferente. O líder dos veteranos parecia ter trocado sua
postura relaxada pela habitual, e a atmosfera descontraída
que havia antes de repente ficou tensa, criando um clima
desconfortável entre os dois.
4 Chegamos à final do torneio de basquete e em todos os
outros esportes também 4 Kongpob tentou puxar assunto.
4 E por que está me dizendo isso?
Kongpob sentiu um desconforto ao receber essa reação da
pessoa que ele tanto procurou durante os jogos, tão ansioso
para vê-la aparecer. E agora, que se encontravam por acaso
em uma barraca de comida, com o cheiro de porco grelhado e
kebabs no ar, tudo o que ele recebia era decepção. Reuniu
forças antes de tentar se explicar:
4 Não te vi nas competições, então pensei que você ainda
não soubesse.
4 Que vocês tenham passado para a final não me
interessa. O único importante é a vitória 4 disse, dando uma
resposta fria e dura, típica do líder dos veteranos. Os
sentimentos de Kongpob foram esmagados com essas simples
palavras.
Essa era a razão pela qual os alunos do terceiro ano não
participavam da competição. Para eles, a empolgação dos
novatos em vencer cada fase não tinha importância 4 eles não
entendiam que o único que valia era a vitória final.
4 Não se preocupe, eu com certeza vou ganhar 4
Kongpob afirmou com confiança, como se estivesse em um
drama exagerado.
Arthit resmungou internamente. O novato se achava um
super-herói, pensava que era perfeito? Ninguém vence em
tudo. As pessoas têm fraquezas. Caso contrário, a palavra
"perdedor" não existiria.
4 Você realmente acha isso? Ouvi dizer que você está
participando do concurso de estrelas universitárias, não é? 4
Kongpob percebeu que por trás da simplicidade da pergunta,
havia uma segunda intenção.
E ele estava certo. Arthit não esperou uma resposta e,
com um sorriso, perguntou:
4 Lembra que eu te disse que o departamento de
engenharia nunca perdeu para ninguém? Se quer que eu
reconheça você, tem que vencer em tudo.
Para Kongpob, "vencer em todas as competições"
significava levar o título de Lua das Estrelas Universitárias.
Ele sabia que não seria fácil vencer o concurso. Lá, os
participantes seriam julgados não apenas pela aparência, mas
também por seus talentos e habilidades. Provavelmente, a
cada ano, o título de Lua e Estrela Universitária era concedido
a representantes de diferentes faculdades. E no campus havia
muito mais do que apenas engenharia.
Embora o concurso fosse popular entre os calouros, o
vencedor não ganhava nenhum prêmio especial nem precisava
salvar o mundo como a Miss Universo. Mesmo assim, era um
símbolo de prestígio. E Minnie não teria escolhido Kongpob
como candidato da faculdade de engenharia se ele não tivesse
o apoio secreto de todos os calouros.
Mas, acima de tudo, Kongpob não tinha planejado vencer
aquela competição desde o início. Para se tornar a Lua da
faculdade, representando as dez unidades, ele realmente teria
que ser o melhor e convencer todo mundo disso 4 uma tarefa
extremamente difícil.
As condições impostas por Arthit para reconhecer seu
esforço eram quase impossíveis.
Arthit viu a expressão de Kongpob mudar naquele
momento. Ele sabia que Kongpob perderia. Avaliou o novato
como um garoto comum, sem habilidades especiais além de se
portar como um herói. Quando ele perdesse, Arthit
encontraria um castigo digno para todos os calouros. Afinal,
mesmo que vencessem em todos os esportes, não levariam o
título de Estrela Universitária 4 o que significaria que
falharam em cumprir sua promessa. Toda a responsabilidade
cairia sobre os ombros de uma única pessoa, e era isso que
mais o animava. Não era surpresa que Kongpob não
conseguisse sorrir. O novato ficou paralisado, em silêncio, até
que os dois se viraram para a barraca ao ouvir o vendedor
anunciar:
4 Os kebabs estão prontos!
Arthit estendeu o dinheiro, pegou seu saquinho com
kebabs de porco e arroz, e então olhou para Kongpob com
frieza e arrogância antes de sair.
Ele sentia o gosto do triunfo. Tinha conseguido! Calado o
novato. Que tentasse bancar o herói depois de provar a
derrota. No final, quem ri por último ri melhor.
4 Vamos ver como você tenta ser herói agora 4 Arthit
zombou mentalmente, abrindo o copo de leite rosa que
habilmente escondeu do novato e levando-o aos lábios para
celebrar. O sorriso em seu rosto era imenso... até ouvir a voz
de Kongpob gritar atrás dele:
Arthit parou.
4 E se eu ganhar, o que você me dá?
Arthit quase engasgou com o leite. Limpou a garganta
antes de se virar para confirmar se tinha ouvido direito:
4 O que você quer dizer? Acha que merece alguma coisa?
O novato suspirou e respondeu:
4 Bom, estamos fazendo uma aposta. Se eu perder, faço
o que você quiser. Mas se eu ganhar, você tem que me
conceder um desejo.
Desta vez, Arthit perdeu seu dom de falar em situações
difíceis. O que ouviu e sentiu no fundo do coração desafiou
sua capacidade de reagir. O líder dos veteranos estava
genuinamente furioso.
4 Como você se atreve, Kongpob, a tentar negociar
comigo?! 4 Arthit gritou, enfurecido.
Kongpob, porém, apenas sorriu, sem medo do homem à
sua frente. Tossiu e começou a explicar com calma:
4 Eu só apresentei uma proposta... você pode aceitar ou
recusar. Na verdade, sou eu quem está em desvantagem nessa
aposta... Ou será que você tem medo de que eu ganhe?
A primeira parte da fala de Kongpob não impressionou
Arthit, mas a última frase o irritou profundamente. Aquele
moleque insolente. Dizem que as águas onde o diabo repousa
são calmas até serem perturbadas. Mas aquele novato não era
qualquer um 4 ele era outro diabinho.
Como ousava se gabar na frente do líder dos veteranos?
Não temia as consequências?
Se ele tinha a coragem de desafiar Arthit, então o chefe
das provocações não teria medo de aceitar. É claro que não
permitiria que o subestimassem, insinuando que alguém
como ele teria receio de perder.
4 Tá bem, aceito sua proposta. Afinal, tenho certeza de
que alguém como você vai perder 4 não só no concurso da
Lua, mas em qualquer competição que participar.
Arthit fechou o acordo com Kongpob, não sem antes
adicionar um comentário desdenhoso e um tom de ameaça.
Mesmo assim, a expressão de Kongpob não mudou:
4 Não se esqueça de vir me assistir amanhã, só pra ver se
eu perco ou não.
4 Você não cansa! 4 Mais uma vez, Arthit não encontrou
palavras para expressar sua raiva. Afastou-se abruptamente,
enquanto Kongpob, sem receber resposta, ficou com os olhos
fixos nele até desaparecer.
Na verdade, Kongpob desafiava os veteranos sem nem
perceber.
Sua empolgação ao ver Arthit foi se dissipando durante a
conversa. Parecia que o veterano só queria provocá-lo, quando
tudo o que Kongpob desejava era vê-lo torcendo pelos calouros
nos jogos. Ele era ambicioso 4 não queria apenas a presença
de Arthit no basquete, mas em todas as competições. Queria
que os veteranos testemunhassem o esforço dos novatos para
conquistar a vitória.
Quanto à aposta e à proposta de um castigo para o
perdedor, era algo secundário 4 apenas um jogo divertido
para chamar a atenção de Arthit e fazê-lo levar as competições
dos calouros mais a sério. Kongpob sabia que estava
arriscando, mas sorte não era tudo o que ele precisava para
vencer. O tempo diria. Faltava menos de um dia para ter a
resposta.
4 Ei! Kong! Kongpob! Tá viajando? O jogo vai começar! 4
A voz de Em trouxe Kongpob de volta à realidade.
Agora, ele estava na quadra de basquete, onde a final
estava prestes a começar. Decidiram quase de última hora que
Kongpob entraria no primeiro tempo. Mesmo assim, seus
olhos não paravam de vasculhar as arquibancadas.
Kongpob suspirou, frustrado, e deu palmadas nas
próprias bochechas, tentando se concentrar no que estava em
jogo... No fundo, decepcionava-se ao perceber que Arthit
realmente não apareceria.
Alguém como o líder dos veteranos provavelmente não se
importava com uma possível derrota dos calouros. Mas
Kongpob esperava que, pelo menos, a proposta feita no dia
anterior tivesse provocado Arthit o suficiente para fazê-lo
aparecer. Eram só esperanças vazias.
Seu plano não funcionara.
Kongpob já não esperava mais pela aparição do líder dos
veteranos. Já se preparava para os tradicionais abraços de
incentivo antes do jogo e para gritar os slogans da equipe com
toda a força.
Mas, antes mesmo de recomeçarem o coro, mal tiveram
tempo de respirar. Sons vindos da arquibancada dos
animadores do departamento de engenharia ecoaram. O
capitão levantou a cabeça e perguntou:
4 O que está acontecendo?
Todos os jogadores se viraram para a fonte do barulho e
viram a causa do alvoroço. Um grande grupo de alunos do
terceiro e quarto ano da faculdade de engenharia 4 cerca de
vinte pessoas 4 entrou no corredor. Os veteranos
posicionaram-se em volta da quadra com olhares indiferentes,
como se estivessem analisando o território. A atmosfera fez os
novatos sentirem ainda mais pressão.
4 E eu que pensei que não viriam. Bom, tanto faz. Já que
estão aqui, vamos mostrar como os calouros conquistam o
título! 4 disse Wad, sedento por vingança.
Kongpob também avistou aquele estudante do terceiro
ano que tanto esperava.
O capitão da torcida retomou os gritos de guerra, e desta
vez os jogadores berraram com ainda mais confiança:
4 Faculdade de Engenharia para a batalha!
Junto com suas vozes, os tambores das arquibancadas
ribombaram. Desta vez, enfrentariam a Faculdade de Ciências
Naturais 4 uma das líderes em todas as competições e rival
constante da Engenharia. No geral, o jogo prometia ser
emocionante.
O time atacou com tudo até o apito final.
4 Fim de jogo!
Todos os olhos se voltaram para o placar. Os engenheiros
venceram por 83 a 76.
4 Conseguimos! Ganhamos! 4 Em gritou, batendo nas
costas de Kongpob.
Desta vez, Em não precisou correr até o banco para
comemorar com o amigo. Kongpob mesmo correu como um
louco e pulou pela quadra, a própria imagem da alegria.
Alguém gritou:
4 A faculdade de engenharia venceu no futebol também!
Foi nos pênaltis!
A comemoração ecoou pelo ginásio, já que hoje
aconteciam as finais das últimas duas competições esportivas:
basquete e futebol. Quanto às outras modalidades do dia, a
notícia era a mesma 4 os engenheiros já haviam garantido a
vitória em todas.
Assim, o departamento de engenharia tornou-se o
campeão absoluto das competições dos calouros, defendendo
a honra do primeiro ano e superando a si mesmos.
Kongpob observou casualmente a reação dos veteranos.
Alguns pareciam satisfeitos, mas a maioria mantinha
expressões indiferentes 4 especialmente o rosto frio dos
responsáveis pelas provocações. Mas todos já estavam
acostumados a isso.
Kongpob não teve tempo para mais observações quando
Minnie irrompeu no ginásio, gritando:
4 Kongpob! Kong, meu filho, onde você estava? Você
precisa vir comigo agora! Tem que se trocar para a sua
apresentação no concurso de estrelas!
Minnie agarrou a mão de Kongpob e o arrastou enquanto
falava sem parar. No caminho, quase esbarrou em um grupo
do terceiro ano 4 e bem de frente para a pessoa que seus olhos
tanto procuravam.
4 Não se esqueça de assistir à minha apresentação no
concurso da Lua e da Estrela! 4 Kongpob exclamou,
direcionando-se ao líder dos veteranos.
Arthit virou-se ao ouvir sua voz, e por um segundo, seus
olhares se encontraram. Quase imediatamente, Minnie puxou
Kongpob para longe, em direção à saída.
Mas aquele segundo foi o suficiente. Porque agora
Kongpob sabia por que procurava os olhos daquela pessoa nas
arquibancadas. Sabia de onde vinha a força para vencer.
Era porque precisava da vitória se quisesse algo de Arthit.
Algo simples, mas importante.
Aquele simples gesto chamado apoio.
10
Regra numero dez para o calouro: "Nao
questione as escolhas dos veteranos".
O palco estava pronto. A iluminação, preparada. Mas,
apesar de tudo, Kongpob não estava.
4 Boa noite, finalmente chegou o momento que todos
esperavam! O concurso de estrelas universitárias começa
agora!
Kongpob ouviu as vozes das duas apresentadoras
anunciando o início do evento. Assim que elas terminaram,
um rugido de gritos e aplausos explodiu nas arquibancadas,
ecoando por todo o corredor.
Como muitas pessoas queriam assistir ao concurso, no
final do evento foi planeado um show com uma banda famosa,
celebrando o encerramento das competições entre os calouros.
Por isso, alguns estudantes começaram a chamar o evento de
"noite de libertar o espírito". E estavam levando isso muito a
sério.
Não apenas os novatos, mas até os veteranos queriam se
divertir naquele dia, então a maioria estava presente nas
arquibancadas ou circulando pelos corredores. Todos
aguardavam ansiosos o início do concurso da Lua e Estrela
Universitária, observando qualquer movimento no palco 4
que, até então, permanecia vazio.
Mas Kongpob, que estava atrás das cortinas no fundo do
palco, tinha sentimentos conflitantes. Sendo sincero, ele não
tinha certeza se conseguiria a vitória.
Ganhar como Lua da universidade não era um desafio
fácil.
O principal componente do sucesso nos esportes era o
espírito de equipe, a união durante o jogo. Mas no concurso de
estrelas, cada participante seria avaliado individualmente.
Kongpob sabia que o programa incluía, entre outras coisas,
uma apresentação conjunta entre os candidatos a Lua e
Estrela de cada faculdade. Mas, no final, ainda era uma
competição que só teria um vencedor para cada título.
Pensando melhor, Kongpob percebeu sua arrogância ao
fazer aquela promessa. Agora, por causa dela, o peso em seus
ombros parecia ainda mais pesado.
Desta vez, Kongpob não tinha a quem culpar 4 ele
mesmo havia se metido naquela situação por causa de sua
língua afiada. Prometeu sem hesitar ao líder dos veteranos que
venceria. Com a cabeça erguida, afirmou que levaria o título de
Lua, e se não cumprisse, era certo que Arthit arranjaria um
castigo cruel para lembrá-lo da derrota. Não à toa, Kongpob já
era um inimigo declarado do líder dos veteranos. Isso o fez
pensar que, talvez, Arthit até puniria seus colegas se ele não
ganhasse.
Ele não tinha medo de sofrer sozinho. Isso não era
problema. Mas conhecia Arthit o suficiente para ter dúvidas 4
e, nesse caso, Kongpob se sentiria terrivelmente culpado se
fosse a causa do sofrimento dos seus colegas.
Valia mesmo a pena todo esse esforço e ousadia de
desafiar Arthit só para conseguir algo dele?
Kongpob suspirou, ainda preocupado. Seu nervosismo
era visível no rosto, então Minnie se aproximou para animá-lo
antes de pedir que se preparasse para entrar.
4 Kongpob, não fique tão preocupado! Ou me diga, por
que está tão sério? Você tem que sorrir! O futuro vencedor
precisa ter um sorriso radiante no rosto. Pense na
recompensa! Ouvi dizer que este ano o concurso tem muitos
patrocinadores! Se ganhar, vai ter várias oportunidades.
Kongpob deixou que a única frase que seu cérebro reteve
ecoasse em sua mente: "Se ganhar".
Era essa, no fim das contas, a verdade. Se Kongpob
vencesse, Arthit seria obrigado a fazer o que ele pedisse.
Kongpob imaginou a cara furiosa do líder dos veteranos e,
involuntariamente, sorriu. Sentiu-se confiante, animado para
tentar. Com o sorriso estampado nos lábios, virou-se para
Minnie.
4 Só mencionei o prêmio e esse lindo sorriso já apareceu!
Adoro esse entusiasmo! Com certeza, você é o mais bonito.
4 Calouro, está pronto? 4 ouviu alguém perguntar atrás
dele.
Kongpob não teve tempo de responder. Precisava subir ao
palco rapidamente. Minnie deu passos largos para
acompanhá-lo, já que Kongpob caminhava ao lado de
Praepailin.
4 Vamos, meus filhos! O que estão esperando? 4 Os dois
sentiram uma palmada nas costas antes de começarem a
andar.
As luzes do salão se apagaram no mesmo momento em
que o show começou. Kongpob olhou para as fileiras traseiras,
tentando enxergar os rostos na plateia. Ele sabia que aquela
pessoa em seus pensamentos devia estar lá. Mas, por mais
que desejasse encontrá-la entre a multidão, precisava se
concentrar para vencer. Kongpob respirou fundo e focou no
seu discurso.
O espetáculo finalmente começava.
4 Antes, a gente nem queria vir ver essa competição. Por
que você nos arrastou até aqui? 4 Prem reclamou com Arthit,
mastigando preguiçosamente pedaços de carne frita.
Os veteranos haviam saído do palco e se dirigido aos
lugares reservados para os alunos mais novos, mais perto da
área de bebidas, doces e outros lanches. Havia relativamente
poucas pessoas ali, já que a maioria do público estava mais
perto do palco, esperando o início das apresentações.
Arthit parecia desinteressado na competição, mantendo o
rosto inexpressivo. E, com um tédio preguiçoso, explicou ao
amigo o motivo de estarem ali:
4 Eu só quero ver o show depois do concurso, não as
apresentações dos estudantes.
4 Se é só pelo show, por que essa obsessão de chegar
antes das seis da tarde? 4 Prem perguntou, confuso, fazendo
Arthit rir de forma abrupta.
Hoje, o líder dos veteranos havia terminado seus
trabalhos de laboratório quase às cinco da tarde e
imediatamente chamou Prem para assistir às finais do
basquete. Arthit nem sequer trocou de roupa e só comeu um
lanche para silenciar o ronco do estômago faminto.
Arthit já estava cansado das reclamações de Prem.
4 Eu queria vir sozinho. Te chamei para me acompanhar,
e sem avisar você trouxe mais dez pessoas.
Dessa vez, o amigo ficou em silêncio. Prem tirou um
pedaço de carne seca do pacote, e Arthit torceu os lábios ao
sentir o cheiro.
4 E se acabarmos assustando o calouro? Vários já
ficaram com cara de pânico ao nos verem todos juntos.
4 Não importa, ele não vai ganhar 4 Arthit disse com
confiança, fazendo uma cara arrogante e satisfeita. 4 Ganhar
em equipe é fácil, mas vencer o concurso de estrelas do
campus é diferente.
Arthit estava convencido de que Kongpob poderia ter
talento, sim, mas isso não seria suficiente para vencer a
aposta. Menos ainda depois de tê-lo desafiado. Sua iniciativa
não tinha bons motivos, isso era óbvio.
Ele relaxou. Aquilo já não tinha importância.
Arthit saboreava a ideia de que, quando Kongpob
perdesse a aposta, ele seria livre para pedir algo totalmente
vergonhoso na frente de todos os alunos da faculdade. Iria
garantir que fosse tão humilhante que o pobre calouro iria
querer rezar aos monges por um pouco de honra. E ainda iria
zombar daquele insolente "0062" por ter ousado desafiar o
líder dos veteranos.
4 E agora, os representantes da Faculdade de
Engenharia sobem ao palco! 4 A voz da apresentadora trouxe
Arthit de volta à realidade, forçando-o a virar a cabeça para o
palco.
As luzes se apagaram, e, da posição de Arthit e dos outros
veteranos, as pessoas no palco pareciam minúsculas, como
formigas.
Todo o auditório estava tomado por gritos de apoio aos
competidores, com muitos aplaudindo efusivamente.
O calouro estava vestido de forma simples: uma camisa
leve e jeans escuros. Suas roupas eram muito mais modestas
que as dos outros participantes 4 alguns deles usando trajes
coloridos, semelhantes às roupas tradicionais tailandesas.
Praepailin usava uma blusa sem mangas, elegante e graciosa,
além de uma saia, com os cabelos adornados por uma
guirnalda.
4 Boa noite! Nós representamos a Faculdade de
Engenharia e vamos cantar algumas músicas. Se conhecerem
a letra, cantem conosco!
Arthit tossiu ao ouvir o refrão inicial da música. Sorriu
internamente, perdendo o interesse pelo que acontecia no
palco. Não havia percebido a tensão em seus ossos desde o
início da apresentação do calouro, e agora finalmente podia
relaxar. Era óbvio que seria um fracasso.
O líder dos veteranos virou-se para Prem, roubando um
pedaço de carne de suas mãos, pronto para ouvir aquela
música infantil.
Era pior do que ele imaginava.
No microfone, Kongpob começou a cantar a letra daquela
canção. Arthit estava certo: era infantil. Ele estava cantando a
música de Doraemon, um anime japonês. O mesmo que
passava no canal nove todos os sábados e domingos de
manhã.
Kongpob e Praepailin cantavam alternando os versos. O
público no auditório ria e cantava junto, até que a melodia
mudou. Os espectadores gritaram animados ao reconhecerem
o ritmo de uma música popular em inglês.
O YMCA, dos Village People, com seu ritmo contagiante e
letra cativante, invadiu o ambiente. Muitos levantaram os
braços, dançando de forma icônica. Isso, sem dúvida,
surpreendeu Arthit. O entusiasmo no auditório era palpável.
... Na verdade, as vozes de Kongpob e Praepailin eram
agradáveis de ouvir. Não foi menos emocionante ver seu
desempenho e a energia que colocaram na apresentação.
Todos os olhos estavam neles, contagiados imediatamente por
sua alegria.
Alguns minutos depois, a música terminou e as luzes do
palco se apagaram. Na semi-escuridão, era possível ver os
organizadores do evento preparando uma guitarra e
arrumando algumas cadeiras no centro do palco.
4 Imagino que todos estão cansados! Então, para
encerrar, vamos tocar uma música mais calma. Se ainda
tiverem fôlego, cantem com a gente! 4 anunciou Kongpob.
Kongpob segurava a guitarra no colo, mas, antes de
começar, ele a passou para Praepailin, que se sentou à sua
direita e começou a afinar o instrumento. Era algo incomum 4
normalmente, era o rapaz quem tocava enquanto a garota
cantava. De qualquer forma, esse arranjo rendeu uma salva de
palmas de pé e deixou o público ainda mais curioso para o que
viria a seguir. Por fim, Kongpob começou a cantar, dando voz
aos suaves acordes da guitarra.
Kongpob fez Arthit prender a respiração ao ouvir a
canção. Sua voz ecoava dentro de sua mente.
"Eu tenho te observado há tanto tempo,
mas nunca tive coragem de encarar seus olhos,
então me limitava a desviar o olhar.
Tenho medo que um dia você descubra
a verdade que tanto escondi de todos.
Mas, por mais difícil que seja admitir,
minha alma já não aguenta mais.
Quanto mais me aproximo de você,
mais quero saber o que há em seu coração.
Quando encontro seus olhos,
meu coração acelera e não consigo mais evitar.
É tão difícil esconder esse amor.
Me diga, por favor,
no fundo da sua alma,
se você já sentiu o mesmo por mim.
Me diga, amor,
o que há em seu coração."
Ao som dos últimos acordes, o auditório explodiu em
aplausos. Assim, a impressionante apresentação da
Faculdade de Engenharia chegou ao fim. As apresentadoras
anunciaram o encerramento das performances.
4 Aplaudam bastante! A apresentação da Faculdade de
Engenharia terminou, e pelo que vejo, muitos ficaram
fascinados. Quero perguntar aos nossos participantes: por
que escolheram essas músicas para sua performance?
4 Nossa escolha reflete fases da vida pelas quais
passamos. A primeira música representa nossa infância. Já a
segunda fala sobre a vida adulta, fase que estamos entrando
agora. Nos tornamos adultos e descobrimos novos
sentimentos 4 um deles é o amor, ter alguém para quem
possamos dizer que estamos apaixonados 4 respondeu
Kongpob.
A segunda parte de sua explicação arrancou gritos da
plateia. É claro que as garotas especialmente adoraram o tom
romântico de seu discurso.
Na verdade, as razões por trás da escolha das músicas
eram bem diferentes. "Segredo do Artista", de Pota, era a única
música que Praepailin sabia tocar decentemente. Já a
primeira canção foi escolhida por sua popularidade 4 todo
mundo conhecia a letra e cantaria junto por nostalgia.
Kongpob havia sugerido essa combinação para Minnie, que
aprovou na hora.
Pelo repertório incomum, era provável que sua
performance se destacasse das outras faculdades. Kongpob
ensaiou cada verso exaustivamente e conseguiu cantar
perfeitamente. Ele estava orgulhoso. O calouro sorriu
enquanto Minnie os parabenizava. No geral, a apresentação foi
um sucesso, recebendo uma explosão de aplausos do público.
Arthit, mesmo distante do palco, também reagiu com
apoio, esperando pelo discurso que viria após a demonstração
de talento. Até Prem, um de seus amigos veteranos, se
aproximou para dar seu veredito:
4 É, eles definitivamente passam para a próxima fase.
Arthit franziu a testa e, de repente, perdeu o apetite.
Guardou o pacote de carne seca no bolso e respondeu a Prem
com confiança, em um sussurro:
4 Bom, eles não vão passar dessa fase. Pode ter certeza
que vão se enrolar nas perguntas.
Arthit falou com desdém, mas, no fundo, sentia um frio
na espinha.
Ele havia se esquecido de que aquele calouro era
inteligente. O diabinho sabia como lidar com qualquer
situação 4 parecia estar no seu sangue. Kongpob não
demonstrava medo e ainda conseguia cativar as pessoas,
fossem colegas de classe, plateia ou até mesmo a banca
avaliadora.
Enquanto Arthit se perdia em seus pensamentos, não
apenas Kongpob, mas também Praepailin avançaram para a
final, ficando entre os cinco finalistas para o título de Lua e
Estrela Universitária.
Kongpob e Praepailin vestiram seus uniformes e
permaneceram no palco para responder às perguntas
sorteadas de uma cesta.
4 Kongpob, da Faculdade de Engenharia, venha à frente!
Kongpob pegou um envelope marcado com o número sete
e o entregou ao apresentador, que guardava as perguntas.
Aquilo parecia um concurso de beleza.
4 Então, a pergunta para Kongpob é... 4 O apresentador
fez uma pausa dramática, enquanto um efeito sonoro
aumentava a tensão.
O público prendeu a respiração, curioso com o suspense.
O apresentador continuou:
4 O que você pensa sobre o programa de educação dos
calouros, o SOTUS? Ele deveria ser cancelado? Dê sua
resposta e justifique.
Uma pequena pergunta que exigia uma resposta longa e
bem fundamentada. Mas parecia que o universo estava
testando Kongpob naquele dia. Por que justo o SOTUS tinha
que aparecer nas perguntas?
Era arriscado responder, especialmente para um calouro
de Engenharia, onde o SOTUS era levado a sério. Kongpob
sabia que muitos apoiavam o sistema, mas muitos também o
odiavam. Era uma pergunta capciosa, feita para gerar
polêmica. Errar seria fácil 4 e, considerando sua posição,
seria um suicídio.
Kongpob ficou em silêncio por um momento, pensativo.
Respirou fundo e pegou o microfone.
No final, decidiu falar o que sentia:
4 Acredito que todos os sistemas no mundo têm prós e
contras, e sua utilidade depende de como são usados. O
SOTUS também tem seus pontos positivos: ele ensina união.
Viemos de lugares diferentes, e o treinamento do SOTUS nos
ajuda a encontrar pontos em comum mais rápido. Mas se os
responsáveis pelo sistema forem cruéis e não cumprirem seus
deveres direito, isso levará os calouros à desobediência e ao
desrespeito, criando conflitos sérios. Então, não posso dizer se
quero cancelar o SOTUS, porque isso depende dos objetivos de
quem o criou. Mas, como alguém que acabou de passar por
ele, posso dizer que nossos veteranos tinham motivos justos.
Acho que queriam que encarássemos a vida universitária
como um desafio e fôssemos bem-sucedidos.
Embora não tenha dado uma resposta direta, Kongpob
abordou o tema com maestria, conquistando aprovação e
aplausos.
Arthit observou pela tela do projetor enquanto Kongpob
agradecia e voltava ao seu lugar. Depois disso, o líder dos
veteranos se afastou do palco, cruzando para o outro lado do
auditório sem avisar Prem.
Prem percebeu e chamou:
4 Ei, Arthit! Cadê você vai?
4 Já volto 4 respondeu, afastando-se do grupo sem
ouvir as respostas dos outros candidatos ou o discurso do
vencedor do ano passado.
Finalmente, chegou o momento esperado. Antes de
anunciarem os vencedores principais, os apresentadores
revelaram os prêmios secundários.
4 Agora, vamos anunciar o ganhador do voto popular!
O prêmio do público seria dado ao candidato que
recebesse mais votos da plateia e de convidados, como
membros da associação de alunos e ex-alunos.
Dois ganhadores foram escolhidos: um rapaz e uma
moça. Desta vez, a estudante da Faculdade de Educação foi
uma das vencedoras.
4 E o prêmio de voto popular para o candidato masculino
vai para... 4 O efeito sonoro aumentou a tensão. Então, o
apresentador anunciou em alto e bom som:
4 Kongpob Sutthilak, da Faculdade de Engenharia!
Kongpob ficou paralisado, sentindo seu rosto se tornar o
centro das atenções. Percebeu que precisava avançar para
receber o prêmio 4 um cinturão de campeão, acompanhado
de brindes e vales-presente de várias instituições. Ele sorriu
para o fotógrafo, e a plateia o aplaudiu calorosamente.
Mas quem diria que, no fundo do coração, Kongpob
estava um tanto decepcionado.
Conquistar o prêmio de voto popular era, claro, uma
honra, mas não significava a vitória no concurso de Lua e
Estrela Universitária. Normalmente, os vencedores das
categorias secundárias não levavam os títulos principais 4
uma forma de garantir múltiplos premiados. Isso significava
que suas chances de ganhar o prêmio máximo agora eram
mínimas. E, muito provavelmente, ele perderia a aposta com
Arthit.
A decepção no peito de Kongpob só crescia enquanto o
apresentador anunciava os vencedores das outras categorias.
E, como esperado, seu nome não foi chamado novamente.
Finalmente, chegou o momento do anúncio da Estrela
Universitária.
4 O grande prêmio de Estrela Universitária deste ano, na
categoria feminina, vai para... Praepailin Pataraxon, da
Faculdade de Engenharia!
A torcida da Engenharia explodiu em gritos. Praepailin
talvez não tivesse o mesmo brilho que outras candidatas, mas
seu sorriso natural e sua resposta impecável a tornavam mais
que digna do título.
Depois da foto oficial, o silêncio tomou conta do auditório
novamente. Todos aguardavam o anúncio do último vencedor.
4 E o grande prêmio de Lua Universitária deste ano, na
categoria masculina, vai para...!
Kongpob suspirou baixinho. Qualquer castigo que Arthit
inventasse, ele teria que cumprir. Arrependeu-se
amargamente de ter provocado o líder dos veteranos. Aquela
aposta tinha sido um erro colossal.
Ele assistiu, resignado, enquanto as luzes do palco se
apagavam e uma música dramática começava a tocar. Então,
o apresentador anunciou o nome do vencedor...
...O nome do rosto que seria iluminado pelos holofotes.
4 O vencedor é... Kongpob Sutthilak, da Faculdade de
Engenharia!
Kongpob ficou estupefato.
Isso era algum tipo de piada? Era difícil acreditar! Ele já
havia ganhado o voto popular e agora levava também o título
de Lua Universitária.
Só acreditou de verdade quando segurou a faixa, o buquê
de flores e os outros prêmios. As câmeras piscavam
freneticamente, e os calouros da Engenharia gritavam e
pulavam, em êxtase.
A Faculdade de Engenharia havia arrasado: venceu todos
os esportes e ainda levou os títulos de Lua e Estrela.
Era motivo mais que suficiente para comemorar!
Com o fim do concurso, os participantes deixaram o
palco, dando lugar à preparação para o show de
encerramento. Kongpob desceu, mas foi imediatamente
cercado por fãs querendo fotos.
Minnie, o "criador de reis da beleza", foi um dos mais
animados 4 abraçou Kongpob com lágrimas nos olhos,
orgulhoso do feito duplo da dupla.
Cansado de tantos sorrisos forçados, Kongpob procurou
um lugar para escapar. Quando finalmente encontrou um
cantinho isolado, atrás do palco, percebeu que não estava
sozinho.
Ali, esperando por ele, estava ninguém menos que Arthit.
Kongpob quase engasgou. Não esperava encontrá-lo tão
cedo.
4 P’Arthit... Eu ganhei! 4 disse, juntando as mãos em
um gesto respeitoso.
4 Eu sei! Então fala logo o que você quer! 4 Arthit
respondeu, mantendo a postura altiva de líder dos veteranos,
mas com o rosto tenso, pronto para aceitar a derrota.
4 Nesse caso, eu quero...
Kongpob fez uma pausa dramática, não por prazer em
torturar Arthit, mas porque se sentiu culpado ao perceber que
ele esperava um pedido humilhante.
Arthit, horrorizado, encarou Kongpob, sem poder fazer
nada.
4 Preciso pensar melhor. Te aviso depois.
4 O quê?! Você está brincando comigo? 4 Arthit
explodiu, incapaz de conter a raiva. 4 Começou a falar, então
termine!
Kongpob não teve chance de responder. A música do
show começou a tocar, abafando qualquer conversa.
4 P’Arthit, gostou da música? 4 Kongpob mudou de
assunto, deixando Arthit confuso.
4 Não foram ruins. Já ouvi melhores.
4 Não, não essas. A última que cantei hoje.
Arthit revirou os olhos. Que músicas foram mesmo?
Doraemon, YMCA e...
Ah. A canção de amor.
Ele lembrou da letra e encarou Kongpob com
desconfiança. O novato sorriu, seus olhos brilhando. Arthit
ficou desconcertado com aquela expressão.
4 Você é um idiota! 4 rosnou, tentando disfarçar o
desconforto.
Kongpob riu por dentro. Era exatamente a reação que
esperava.
Arthit manteve a cara fechada, fingindo indiferença, mas
Kongpob sabia. Desde o início do concurso, ele só queria ver
aquele rosto irritado de novo.
Estava feliz por ter vencido. Queria continuar
conversando, mas...
4 Kongpob! Sou da União Estudantil! Posso te
entrevistar? 4 Uma garota de óculos apareceu do nada,
câmera em punho.
Kongpob suspirou. Pensara que escapara dos fãs, mas
eles o encontraram.
Antes que pudesse reagir, Arthit escapuliu, deixando-o
sozinho com a repórter.
4 Como se sente sendo o novo Lua Universitária? 4 ela
disparou.
4 Bem... Nem sei o que dizer 4 Kongpob respondeu,
distraído, ainda olhando para onde Arthit desaparecera.
4 Como assim? Não está animado? Surpreso? Como é
brilhar no céu cheio de estrelas?
A pergunta fez Kongpob pensar por um minuto.
4 Acho que não existe apenas uma lua e estrelas no céu
4 ele declarou com um sorriso, sua atenção não estava
totalmente na entrevistadora.
A garota se aproximou, insatisfeita com a resposta vaga:
4 Interessante. Então, o que mais existe no céu, na sua
opinião?
O rosto de Kongpob iluminou-se em um meio sorriso.
Seus olhos deixaram de procurar o lugar onde Arthit havia
fugido, e ele deu uma resposta curta, cujo significado só ele
entendia:
4 É um segredo.
11
Regra numero onze para o calouro: "Nao se
intrometer nos assuntos dos veteranos"
4 Quarenta e quatro! Quarenta e cinco! Quarenta e seis!
Quarenta e sete!
4 Parem! 4 um veterano gritou, irritado. 4 Ainda não
entenderam como se faz? Quantas vezes desde o início do
semestre eu já pedi? Nenhum progresso! Vamos, comecem de
novo!
Era a mesma história de sempre. Os calouros estavam
acostumados a quase alcançar a meta, só para serem
obrigados a recomeçar. Dessa vez, abraçaram-se pelos ombros
e se prepararam para fazer cinquenta agachamentos.
Os novatos achavam que, depois dos jogos esportivos, a
vida melhoraria 4 especialmente porque a Faculdade de
Engenharia havia arrasado, vencendo em todas as
modalidades e levando os títulos de Lua e Estrela
Universitária. Por isso, esperavam que os veteranos
reconhecessem seu espírito de união.
Estavam enganados.
No final, os veteranos continuavam sendo os mesmos
carrascos implacáveis, talvez ainda piores agora que faltava
apenas uma semana para o fim das provocações diárias. Eles
pareciam determinados a reforçar sua reputação de
severidade antes que fosse tarde.
Os calouros se prepararam para começar, mas, antes que
pudessem contar o primeiro agachamento, a porta do
auditório se abriu.
Cinco ou seis rostos sérios entraram na sala. Eram
desconhecidos, mas os jovens logo deduziram: alunos do
quarto ano de Engenharia.
Os veteranos do terceiro ano endireitaram as costas
imediatamente, abaixaram a cabeça em reverência e
saudaram em uníssono.
Os visitantes acenaram em resposta e ocuparam o centro
do auditório. Os veteranos cederam espaço e
apresentaram-nos aos calouros:
4 Novatos, estes são os alunos do quarto ano! Saudação!
Os jovens obedeceram em coro e, em seguida,
sentaram-se, apreensivos. O coração batia forte 4 o que os
veteranos mais velhos queriam?
Se os do terceiro ano já eram brutais, o que esperar dos
do quarto ano? Se fossem ordens ainda mais humilhantes,
aquilo poderia ser mortal.
Quase não respiravam de tensão.
Mas, contra todas as expectativas, os veteranos mais
velhos falaram:
4 Novatos, ouvimos sobre seus excelentes resultados nos
jogos esportivos! Parabéns!
Nenhum castigo. Apenas elogios.
Os veteranos do terceiro ano pareciam chocados. Era raro
4 quase inédito 4 os alunos mais velhos usarem palavras de
incentivo em vez de pressão.
Mas as regras eram claras: quem chegava antes
mandava, quem chegava depois obedecia. Se fossem da
mesma turma, eram camaradas. Por isso, os calouros deviam
respeito aos veteranos, e estes, por sua vez, obedeciam aos do
quarto ano.
Os visitantes então viraram-se para os veteranos do
terceiro ano, que permaneciam imóveis, postura rígida.
4 Quanto a vocês, estou começando a duvidar de sua
competência. Recebemos relatos de castigos excessivos:
corridas, flexões, abdominais com salto, empurrões... e até 54
voltas no estádio.
Kongpob ergueu o rosto ao ouvir a última parte. Era uma
referência clara ao dia em que ele fora punido 4 sem contar as
flexões extras por não usar o crachá.
Depois daquilo, Kongpob evitou confrontos, mas as
lembranças não haviam sido esquecidas pelos outros
calouros. E todos sabiam quem havia dado aquelas ordens
cruéis.
4 Quem é o líder aqui?
4 Eu! 4 Arthit deu um passo à frente, sem medo,
mantendo a postura firme do chefe das provocações.
4 Explique por que puniu os novatos de forma injusta.
4 Puni para manter a disciplina 4 respondeu, direto ao
ponto.
Todos os calouros conheciam essa justificativa, mas
muitos questionavam os métodos. Era disciplina ou puro
sadismo?
Os alunos do quarto ano não pareciam convencidos.
4 Se você é capaz de dar essas ordens, então pode
cumpri-las também.
4 Posso.
4 Então prove. Faça agora, na frente dos calouros.
Arthit virou-se para seus subordinados e anunciou, em
voz alta:
4 Veteranos do terceiro ano, atenção! Cem
agachamentos e cem flexões. Eu, como líder, farei ainda 54
voltas no campo. Comecem!
4 Entendido! 4 gritaram em uníssono, prontos para
cumprir a punição.
Era irônico: os veteranos estavam fazendo mais
repetições do que jamais haviam exigido dos calouros.
Os novatos observavam sem reação. Alguns podem ter
sentido um frio prazer vendo seus opressores se humilharem,
mas a maioria permaneceu séria.
Havia um desconforto no ar.
No fundo, os calouros sabiam: quando precisaram de
ajuda, foram os veteranos que os guiaram 4 mesmo que de
forma dura. Talvez o orgulho da turma tivesse nascido
justamente por causa deles.
Kongpob quase levantou a mão para pedir para assumir o
castigo no lugar deles, mas sabia que isso só pioraria as
coisas. Além disso, nunca permitiriam que um novato os
substituísse.
Então, os calouros só puderam assistir, em silêncio,
enquanto seus superiores suavam e respiravam pesadamente,
à beira do colapso.
Sem excluir Arthit.
No entanto, ele foi o único que saiu da sala para cumprir o
segundo castigo: correr 54 voltas no estádio.
Depois da reunião, Kongpob tinha plena intenção de
seguir Arthit. Mas, antes que pudesse sair, ouviu a voz de Em:
4 Kong, onde você vai?
4 Quero ver o P’Arthit correr.
4 Ah, para! Você realmente acha que ele vai correr? Nem
você conseguiu completar todas as voltas na época 4
duvidaram alguns amigos.
Kongpob teve que admitir que até ele duvidava. Afinal,
naquele dia, ele só conseguira completar seis ou sete voltas
antes de a enfermeira ordenar que parasse. Se tentasse forçar
todas as 54, certamente acabaria no hospital. Na manhã
seguinte, seus pés ainda doíam vergonhosamente.
Arthit já havia feito uma série de exercícios pesados e,
sem dúvida, estava muito mais exausto do que Kongpob
estivera no dia de seu castigo. Por isso, Kongpob duvidava que
ele tivesse força para mais do que três voltas.
4 Tô com fome, mas temos que voltar pra terminar o
relatório de amanhã. Não acredito que, mesmo com toda essa
tarefa, ainda vão nos enfiar uma prova 4 Em reclamou.
Kongpob olhou para o relógio. Quase seis da tarde, hora
do jantar. Estudar levaria horas e, se fosse atrás de Arthit,
perderia tempo precioso. Além disso, mesmo que o
encontrasse, não seria de muita ajuda.
Então, Kongpob desistiu da ideia. Foi jantar com Em e os
outros, depois voltou de moto para o dormitório e começou a
trabalhar no relatório de inglês. Quando terminou, desceu
para imprimi-lo e, de volta ao quarto, mergulhou nos cadernos
de análise matemática 4 a matéria da prova do dia seguinte.
Depois de estudar só metade do conteúdo, Kongpob já
estava exausto, mesmo que as fórmulas ainda girassem em
sua mente. Eram nove da noite, e ele decidiu que um café o
ajudaria a aguentar o resto da tarefa.
Ao olhar pela janela, percebeu que estava chovendo.
Quando começara? Desde que se sentara para estudar,
deixara de prestar atenção ao mundo exterior.
Pegando um guarda-chuva, Kongpob saiu do quarto,
desceu de elevador e dirigiu-se a uma loja de conveniência
perto do alojamento para comprar um lanche e espantar o
sono.
A chuva, que já caía forte, fazia com que várias pessoas se
abrigassem dentro da loja. No caminho, Kongpob quase
tropeçou em uma moto estacionada na calçada. Dois alunos
ensopados passaram correndo por ele, gritando para se
fazerem ouvir sobre o barulho da chuva:
4 Que tempestade!
4 Pois é! Não parece que vai parar tão cedo. Ainda vale a
pena ir pra faculdade ou é melhor voltar?
4 Tá maluco? Claro que não! Mas olha só, não é todo dia
que a gente vê um veterano correndo no estádio nessa hora.
4 Sei lá... Tá piorando. Como alguém conseguiria correr
agora?
4 É... Talvez nem tenha mais ninguém lá. E no escuro é
difícil de ver mesmo.
Kongpob congelou. Só podia estar pensando em uma
pessoa.
Ele esperava estar errado.
Mas a possibilidade foi suficiente para fazê-lo esquecer o
lanche. Imediatamente, correu de volta ao alojamento, pegou a
moto e partiu em direção à universidade, guarda-chuva em
punho.
Precisava ver com os próprios olhos.
Estacionou perto do campo e começou a procurar.
Algumas lanternas brilhavam no estádio, mas a chuva forte
dificultava a visão. Nenhum sinal de Arthit.
Kongpob suspirou, aliviado.
Quem correria a essa hora, ainda mais nessa chuva?
Mas bastou ouvir um boato sobre Arthit para ele sair
correndo como um louco.
Estava prestes a desistir quando um som abafado o fez
parar.
Era o barulho de alguém caindo no chão.
Kongpob correu na direção do som sem hesitar. E então
viu.
O líder dos veteranos estava completamente encharcado
4 cabelo, camiseta, calças, tudo pingando. Mas o que mais
chocou Kongpob foi a expressão de exaustão absoluta em seu
rosto.
4 P’Arthit, o que você tá fazendo? Tá chovendo! Para,
você não pode continuar! 4 Kongpob esticou o guarda-chuva
sobre a cabeça de Arthit, deixando-se exposto à chuva.
Mas isso não importava. Nada comparado ao estado do
veterano.
Arthit respondeu com voz ofegante e dura:
4 Me deixa em paz. Só faltam cinco voltas, e eu vou
terminar.
Cinco voltas?
Então, desde as seis da tarde, Arthit estava correndo sem
parar? E mesmo assim não queria desistir?
Kongpob nem conseguira completar metade das voltas no
seu castigo. Como Arthit aguentava tanto sofrimento só por
orgulho?
4 Arthit, você vai ficar doente! Para e vai descansar! 4
Kongpob insistiu.
4 Se quer me ajudar, some daqui e não atrapalhe!
4 Então vou correr com você! 4 Kongpob anunciou,
começando a correr ao lado dele, segurando o guarda-chuva
sobre Arthit enquanto avançavam.
Arthit parou bruscamente e ordenou:
4 O que você tá fazendo? Já disse pra você ir embora!
Mas Kongpob não recuou:
4 Não. Se você não parar, eu não vou deixar de correr
com você.
4 Kongpob! 4 Arthit gritou seu nome, perdendo a
paciência.
Kongpob sabia que ele estava furioso, mas não podia
abandoná-lo ali, sob a chuva. E não o faria 4 se não fosse pela
intervenção de uma terceira pessoa.
Um amigo de Arthit, tão severo quanto ele, aproximou-se
com um guarda-chuva. Arthit não pareceu surpreso e
resmungou:
4 Esse caroço no meu pé tá me impedindo de terminar.
Resolve isso pra mim.
O amigo virou-se para Kongpob, exigindo explicações:
4 Novato, o que você tá fazendo aqui?
4 Não entendo por que ele precisa correr num temporal.
Se ele não parar, eu vou correr com ele.
Kongpob esperava que o amigo de Arthit tivesse pena do
próprio colega. O novato até pensou em se sacrificar e correr
as voltas restantes para mostrar o espírito que havia
desenvolvido. Mas as coisas saíram bem diferentes do que ele
imaginara.
O veterano não deu ouvidos ao seu pedido. Em vez disso,
deu uma explicação rápida e direta:
4 Isso é um castigo para o líder dos veteranos, não para
um calouro.
4 Mas...
4 Cala a boca! Não vou permitir! Agora, vai embora!
E com isso, todas as chances de protesto se esvaíram.
Kongpob sabia que argumentar era inútil. Se
desobedecesse um veterano 4 ainda mais um grandalhão que
parecia saído de uma lenda tailandesa 4, seria arrastado para
fora dali à força.
Ele olhou para Arthit, perplexo. O líder das provocações
afastou-se e continuou correndo sob a chuva, que agora
diminuía.
Kongpob ficou parado, sozinho, e depois seguiu os passos
de Arthit até o abrigo do estádio.
Por quê?
Por que os veteranos só ficavam observando o colega se
esgotando? Por que não ajudavam? Por que Arthit tinha que
estar sozinho? Por que ele, Kongpob, não podia completar as
voltas no lugar dele?
Seus pensamentos foram interrompidos pela surpresa ao
ver uma multidão sob o abrigo. Eram alunos de Engenharia 4
a turma de animação, enfermeiras, até a Fang, que, ao
avistá-lo, aproximou-se rapidamente:
4 Kongpob, você tá todo molhado! Precisa de uma toalha.
Vai sentar com seus amigos, já trago uma.
Sentar com seus amigos?
Kongpob olhou para a mesa que Fang indicara. Seus
olhos arregalaram-se ao ver quase vinte colegas ali reunidos.
Alguns de roupas casuais, como ele; outros ainda de uniforme,
como se não tivessem ido para casa o dia todo.
Uma garota de óculos 4 a mesma que perdera o crachá
no dia em que Kongpob fora punido por não saber responder a
Arthit 4 acenou:
4 Ei, Kong, vem cá!
Ela lembrava seu nome porque, naquele dia, ele lhe dera
seu próprio crachá e fora castigado por isso. Desde então, ela
tremia diante dos veteranos, mas hoje estava ali, preocupada.
4 Por que vocês estão aqui? 4 Kongpob perguntou,
confuso.
May respondeu com um sorriso:
4 Chegamos há uma hora. Depois da aula, estávamos
voltando da biblioteca e vimos o P’Arthit ainda correndo. Aí
chamamos o pessoal!
Outros se juntaram à explicação:
4 Tiramos foto e postamos no Facebook! Já tem um
monte de curtidas!
Kongpob entendeu então que não era o único sabendo
que Arthit ainda cumpria o castigo.
O toque do celular o fez pular. Ele nem lembrava que o
tinha no bolso 4 ainda molhado. Graças ao tecido grosso, o
aparelho estava seco.
Era Em.
4 Kong! Tá vendo no Facebook? O líder dos veteranos
ainda tá correndo no estádio!
4 Sei, tô aqui do lado.
4 Não acredito que ele ainda tá lá, ainda mais nessa
chuva! Ele é maluco?
Só um maluco faria isso.
Arthit era, sem dúvida, um louco varrido. E seus supostos
amigos, embora soubessem do sofrimento dele, não
levantaram um dedo para ajudar. Só ficaram ali, esperando
que ele cumprisse a promessa.
Foi quando Kongpob percebeu a dimensão da dignidade e
honra do líder. Entendeu por que Arthit assumira aquele
posto.
Será que um dia Arthit pediria ajuda? Que aceitaria a
preocupação que Kongpob lhe oferecia?
A chuva diminuía quando Arthit finalmente terminou.
Veteranos e a equipe médica correram até ele,
enrolando-o em uma toalha. Kongpob não pensou 4 suas
pernas o levaram até lá, ignorando a presença dos outros.
4 P’Arthit, você consegue andar?
Mesmo exausto, Arthit ergueu a voz:
4 Novato, por que ainda tá aqui? Vai pra casa. Não é da
sua conta.
Era uma ordem para Kongpob não segui-lo até o carro
estacionado ali perto.
4 Eu vou com você!
Arthit ergueu o rosto. Suas roupas já quase secas, mas a
expressão ainda era dura.
4 Por que você tá nos seguindo?
4 Deixa eu ir com você!
4 Não! Calouro não se mete em assunto de veterano!
4 Então calouro não pode se preocupar com veterano? 4
Kongpob gritou, ecoando pelo estádio.
Todos pararam.
Kongpob olhou para Arthit, implorando por uma
resposta.
Queria que ele entendesse 4 não só ele, mas muitos
calouros se importavam.
Arthit desviou o olhar e virou-se para o amigo:
4 Vamos! Já falei pra ele não se intrometer. Se não
obedecer, vai ser castigado o ano inteiro!
Ameaçado, Arthit partiu com os outros veteranos.
Sobraram só os calouros, que começaram a se dispersar
conforme a chuva parava.
4 Kongpob, vamos 4 May chamou, puxando-o de volta à
realidade.
Ele assentiu e seguiu os outros, enquanto a chuva fina
formava riachos no chão 4 assim como ele se sentia agora,
uma correnteza sem rumo.
Ele continuava tentando transmitir algo importante a
Arthit, mas seus esforços eram inúteis e pareciam não levar a
lugar algum.
E, provavelmente, nunca conseguiria tocar seu coração.
12
Regra numero doze para o calouro:
"Veteranos nao sabem cuidar de si mesmos"
O telefone tocou.
Seus ouvidos registraram o toque. Ele esticou o braço em
direção ao criado-mudo, mas suas pernas não respondiam.
Arthit estava imóvel, e sua condição podia ser resumida
em três palavras: morto de exaustão.
A razão de seu estado lastimável era a demonstração
pública do castigo mais severo já imposto por veteranos na
frente dos calouros: cem flexões, cem abdominais, cem saltos
e, por fim, o pior 4 cinquenta e quatro voltas no campo de
futebol sob chuva torrencial.
Seu corpo não estava apenas incrivelmente cansado. O
líder dos veteranos parecia ter um pé no outro mundo.
Depois que os amigos o ajudaram a entrar no carro, ele
perdeu a consciência. Assustados, prestaram primeiros
socorros e correram para o hospital. Mas, felizmente, no
caminho, Arthit voltou a si e ordenou que o levassem de volta
ao dormitório. Tudo o que queria era dormir. Além disso, seria
ruim se os professores ficassem sabendo.
No dormitório, ajudaram-no a chegar ao quarto. Suas
pernas tremiam tanto que mal conseguia andar sem se apoiar
nos ombros deles.
Arthit trocou de roupa antes de deitar e foi obrigado a
tomar um coquetel de remédios 4 para gripe, inflamação e
dor. Só então afundou-se nas cobertas. Um amigo se ofereceu
para ficar a noite toda, caso ele piorasse.
Arthit acordou perto da meia-noite, com o corpo ardendo
em febre, garganta arranhando e pernas como se um
caminhão tivesse passado por cima. Arrastou-se até o
banheiro sob o olhar compassivo do amigo.
No fim, os amigos não aguentaram vê-lo sofrer e o
levaram ao hospital. O médico o repreendeu por forçar o corpo
além do limite, receitou mais remédios e enfaixou seu
tornozelo esquerdo 4 o mais dolorido. De volta ao dormitório,
Arthit virou um tronco na cama, incapaz de se mover. Nem
sequer conseguia pegar o celular.
Cansado de pedir ajuda, ele chamou:
4 Prem! Me passa o telefone!
4 Pega você.
Prem suspirou e estendeu o aparelho antes de voltar a
devorar seus salgadinhos, de olhos grudados na TV. Parecia
pouco interessado no sofrimento do amigo 4 ou talvez
estivesse só relaxando mesmo.
Arthit atendeu:
4 Estou ouvindo.
4 Não acredito! Filho da puta, ainda tá vivo?
Um cumprimento ousado, mas Arthit não se
surpreendeu. Estava acostumado desde que virou líder das
provocações.
4 Quase morri. Ontem até vi meu avô!
Do outro lado, Dear 4 um veterano do quarto ano e
ex-líder das provocações 4 riu e falou mais suave:
4 Se ainda consegue fazer piada, não tá tão mal. Ouvi
que te levaram ao hospital. Quem te obrigou a correr tudo
aquilo? Combinamos só vinte voltas!
Na verdade, tudo foi planejado. Os alunos do quarto ano
precisavam reafirmar autoridade sobre os do terceiro 4
mostrar que a hierarquia ia além dos novatos. O "castigo" era
para provar que até os veteranos seguiam regras.
4 Tive medo de parecer fraco pros calouros.
4 Bom, então fique feliz. Suas fotos no Facebook estão
cheias de comentários deles torcendo por você. E nos
criticando por sermos cruéis! Agora a faculdade inteira nos
odeia. Não contávamos com isso.
Arthit ficou confuso.
Ele não acreditava que os calouros tivessem ido ao
estádio vê-lo correr. Pensou que não se importariam. Talvez
até sentissem satisfação vendo os veteranos se humilharem.
E a promessa das 54 voltas? Para ele, era uma questão de
honra. Não importava o custo, cumpriria sua palavra 4
mesmo que seu corpo agora pagara o preço.
4 Descansa. Não vou mais interferir nos seus métodos.
Melhor logo, seu idiota! 4 Dear desligou, meio preocupado.
4 Você exagerou, Arthit 4 Prem opinou.
Arthit encolheu os ombros, indiferente:
4 Não tinha escolha. São as regras.
A lei valia para todos da equipe de provocações 4
especialmente para quem dava as ordens. Quando Arthit
mandou Kongpob correr as 54 voltas, sabia que o novato não
aguentaria. Mas, como autor da ordem, assumiu a
responsabilidade de cumpri-la.
E cumpriu. Mesmo que agora estivesse acamado.
Seus pensamentos voltaram-se para aquele olhar 4 o
último que vira no estádio.
Não eram as palavras de Kongpob que o perturbavam.
Era a expressão.
Havia algo mais ali. Dor. Tanta que Arthit não conseguiu
sustentar o contato.
E, inexplicavelmente, sentiu-se culpado.
Mas por quê? Ele não fez nada errado. Kongpob sempre se
intrometia. Adorava bancar o herói. Só estava procurando
confusão.
Quanto mais pensava, mais sua cabeça e pernas doíam.
Arthit tentou expulsar os pensamentos irritantes e
chamou Prem, que assistia TV mastigando barulhentamente:
4 Prem, tô com fome! Traz sopa de arroz... e um copo de
leite rosa gelado.
Prem não se surpreendeu com o pedido bizarro. Eram
amigos há anos. Por trás da aparência durona, Arthit tinha
gostos infantis.
4 Deixa eu ver se entendi: você tá mal, mas quer leite
rosa? Essa porcaria é doce demais, vai dar dor de barriga.
4 Você nunca entende. Leite rosa é o melhor remédio pra
mim. Faz mais efeito que esses comprimidos. Minhas pernas
vão melhorar rápido com açúcar no sangue. Então cala a boca
e vai trazer.
Prem recebeu a declaração de Arthit com ceticismo. Se
leite rosa realmente curasse pés, Arthit precisaria de litros,
não só um copo.
4 Tá bom, se você diz. Vou comprar enquanto você fica aí
deitado, seu inválido.
Prem grudou a última palavra com deboche antes de sair.
Ele podia até fingir desdém, mas não esquecia seu dever de
amigo 4 cuidar do paciente.
Eram sete da noite, horário em que os estudantes saíam
para jantar. As lojas perto do dormitório estavam lotadas, e a
fila para a sopa de arroz demorou uma eternidade. Quando
finalmente chegou ao quiosque de bebidas, havia mais dez
pessoas na frente. Prem suspirou e pediu:
4 Um copo de leite rosa, por favor.
A presença de um veterano chamou a atenção de um
aluno na fila, que se aproximou com as mãos juntas em
cumprimento respeitoso:
4 Oi, P’Prem!
Prem acenou com a cabeça. Era Kongpob, o vencedor do
concurso de estrelas 4 o Lua daquele ano.
4 Oi.
Prem gostou da educação do novato, que mantinha o
respeito mesmo fora da universidade. Mas a próxima frase de
Kongpob arruinou sua boa impressão:
4 Nossa, você gosta de leite rosa?
Prem mudou a expressão. Esquecera que acabara de
pedir a bebida 4 algo que mancharia sua reputação. Explicar
que não era para ele só pioraria. Então, usou o tom de durão
habitual:
4 Por que tá perguntando?
4 É que me lembra... 4 Kongpob cortou a frase,
percebendo que não devia ter mencionado. Mas sua mente
continuou no assunto.
Aquela bebida o fazia pensar em um rosto específico.
Desde o dia anterior, a notícia da corrida insana de Arthit
se espalhara pela universidade. Alguns o admiravam, outros
julgavam que foi teatro, e outros não entendiam tanta exagero.
Kongpob estava entre estes.
Ele compreendia que era uma questão de honra para os
veteranos. Mas não entendia como Arthit não percebia que
tanta gente se preocupava com ele.
Forçar o corpo assim deixaria sequelas. Kongpob tentara
ajudar, mas todos seus esforços foram rejeitados. A atitude de
Arthit machucava seu coração 4 e ver o veterano se esgotando
doía ainda mais.
De volta ao dormitório, Kongpob abriu a porta da varanda
e olhou para o prédio oposto, mas as roupas no varande de
Arthit bloqueavam a vista.
Por dias, Kongpob não conseguiu descobrir nada sobre a
saúde do líder dos veteranos.
Foi às aulas, mas não conseguia se concentrar. Sua
mente voltava sempre ao momento em que viu Prem pedir leite
rosa.
O toque de um celular o tirou dos pensamentos. Prem
atendeu alto o suficiente para outros ouvirem:
4 Alô, Flash? Puts, esqueci... Tá, entendi. Precisa agora?
Prem olhou para os lados, desconfortável, até encontrar
Kongpob novamente.
4 Você conhece o Arthit, né?
4 Sim 4 Kongpob assentiu, confuso.
Prem devia saber que ele era um novato 4 e justo o que
Arthit mais odiava. Parecia querer confirmar antes de dar uma
tarefa.
4 Então leva essa sopa pra ele. É no prédio Ron Di, sala
618. Tenho um negócio urgente.
A ordem foi rápida e inesperada. Kongpob nem teve tempo
de reagir antes de Prem empurrar a comida e o dinheiro em
suas mãos e sair correndo, deixando-o perplexo.
Então... a sopa e o leite não eram para Prem?
E aquela pergunta antes de ir embora? Kongpob levou um
segundo para processar.
Era para Arthit.
O mesmo nome que não saía de seus pensamentos.
Kongpob sorriu largamente. Não acreditava que teria uma
chance tão perfeita de ver a pessoa por quem tanto se
preocupava.
Trocou seu pedido de café gelado por leite rosa e seguiu
para o prédio oposto. No elevador, apertou o 6º andar e, ao
sair, correu até a sala 618 4 aquela que sempre observava da
sua varanda.
Parou na frente da porta, coração acelerado. E se outros
veteranos estivessem lá? Seria expulso na hora sem nem
perguntar sobre a saúde de Arthit.
Mas valeria a pena. Mesmo que por um minuto, o veria.
Endireitou as costas e bateu na porta.
Silêncio.
Bateu de novo. Nada.
Arthit estaria dormindo? Ou ele errou o quarto?
Estava prestes a bater pela terceira vez quando uma voz
familiar gritou de dentro:
4 Entra logo! Não tá trancada!
Era o mesmo tom autoritário das reuniões de veteranos.
Kongpob girou a maçaneta e espiou o quarto. As paredes
eram claras, o espaço simples e bagunçado 4 tão grande
quanto o seu. Objetos espalhados contavam muito sobre o
dono, que estava deitado na cama, folheando um gibi.
Arthit nem olhou para a porta, resmungando:
4 Tô doente e você ainda tem cara de bater assim. Sumiu
por uma hora, Prem. Foi comprar ou plantar o arroz?
4 Desculpe, a fila estava enorme.
A educação excessiva fez Arthit erguer-se de repente,
surpreso. Seus olhos arregalaram ao ver Kongpob.
4 Kongpob?! Como você veio parar aqui?! 4 ele apontou
para o novato como se visse um fantasma.
Na mente, uma pergunta ecoava:
"Como o 0062 descobriu onde eu moro?!"
Kongpob sorriu e explicou:
4 P’Prem teve um problema urgente e me pediu pra
trazer sua sopa e leite.
Apontou para os itens como prova física. Nesse momento,
Arthit queria poder andar só para chutar o traidor do Prem.
"Que tipo de emergência fez você abandonar seu amigo? E
em quem você confia pra me trazer comida? No cara que eu
mais detesto? Pra quê eu fiz aquela demonstração ridícula de
coragem, se agora esse novato vai me ver acamado, quase
num estado vegetativo?" Arthit pensou, cobrindo o rosto com o
livro e desejando que a terra o engolisse.
Ele considerou pôr fim ao constrangimento, tentando se
levantar para expulsar Kongpob. Mas reagiu tarde demais 4 o
calouro já havia entrado, sentado na beirada da cama e
começado a questioná-lo:
4 Como você está se sentindo?
4 Tô ótimo! 4 Arthit mentiu, tentando preservar sua
imagem de vilão severo dos quadrinhos.
Uma imagem que mantivera por um tempo... mas agora,
doente e acamado, só inspirava pena.
4 Tem certeza? Então por que sua perna está enfaixada?
Arthit xingou mentalmente e rapidamente escondeu o pé
debaixo do cobertor, defendendo-se:
4 Por nada!
4 Claro, claro. Imagino que enfaixaram só por diversão.
Arthit não teve tempo de inventar uma desculpa
convincente 4 e suas explicações nível jardim de infância
eram fáceis de desmascarar. Kongpob, porém, decidiu não
pressionar. Em vez disso, levantou-se e aproximou-se do lado
da cama onde Arthit estava.
4 O que você tá fazendo?! 4 Arthit gritou, surpreso.
Sem responder, Kongpob pousou a mão no cobertor que
cobria o pé de Arthit 4 sem pedir permissão 4 e tocou
levemente seu dedo. Foi o suficiente para Arthit estremecer de
dor.
4 Que porra é essa?!
4 Viu? Você tá machucado. Aposto que nem consegue
andar, né? 4 Kongpob deu um olhar "eu avisei", cansado.
4 Isso é problema meu. Pode ir embora.
4 Como eu vou embora com você nesse estado? Você não
tá bem. Melhor eu servir a sopa.
O novato ignorou a "oferta gentil" de Arthit para sair. Agiu
como se estivesse em casa 4 pegou uma tigela e colher,
arrumou uma mesinha baixa sobre a cama e serviu o jantar:
sopa de arroz com carne de porco e ovo, além do copo de leite
rosa.
Sentado na cadeira em frente a Arthit, Kongpob olhou em
volta. Arthit estava confuso 4 não esperava tanta atenção.
Mas a ajuda do calouro perdeu o efeito quando ele abriu a
boca de novo:
4 Por que você ainda tá aqui?
4 Tô esperando você terminar pra lavar a louça. Você não
consegue levantar pra fazer isso sozinho, né?
As palavras de Kongpob atingiram como um taco de ferro
no orgulho do líder dos veteranos. Arthit tentou se levantar,
furioso por ser lembrado de sua condição. Mas a dor aguda
nas pernas o fez desistir 4 não tinha força nem pra expulsar o
novato do quarto.
Ignorando Kongpob, Arthit baixou a cabeça e comeu a
sopa com raiva.
Enquanto isso, Kongpob observava a decoração do
quarto. Sua atenção foi capturada pela porta de vidro da
varanda 4 com as cortinas abertas, era possível ver o prédio
oposto.
A varanda de onde Kongpob costumava observar
secretamente o quarto oposto. Aquele onde ele mesmo estava
agora.
Aquela perspectiva invertida lhe pareceu incomum.
Quantas vezes se perguntara o que o morador do quarto
oposto fazia, tentando descobrir como ele era... E agora ali
estava, com Arthit. Ver-se do outro lado fez seu próprio
apartamento parecer tão distante e solitário que nem palavras
descreviam o que sentia no peito. Ali estava, com ele, quando
em seu quarto só podia vê-lo pendurando roupas.
Kongpob notou as roupas secas na varanda de Arthit -
deviam estar lá desde a noite anterior.
4 P'Arthit, suas roupas já estão secas. Vou recolhê-las
antes que chova de novo.
Arthit apenas levou uma colher de sopa à boca, engolindo
rápido para não responder. Toda sua vontade era de proibir
Kongpob de continuar ali, mas o novato já empurrava a porta
da varanda antes que pudesse falar. Recolheu todas as roupas
e voltou.
4 P'Arthit, onde está o ferro de passar?
4 O quê? Não! Não precisa passá-las! Só coloca ali no
canto!
Desta vez, o dono do quarto rejeitou imediatamente os
serviços do hóspede inesperadamente atencioso. Mas suas
negativas não adiantaram.
Kongpob continuou segurando as roupas.
4 Vai só deixar assim? Não, eu prefiro passar, já que você
não pode.
O novato demonstrava cuidados quase maternais.
Encontrou o ferro e a tábua de passar guardados sob a TV.
Pegou ambos e, junto com o controle remoto, colocou na cama
de Arthit.
4 P'Arthit, não quer assistir TV? Tome o controle.
Arthit nunca recebera aquele tipo de tratamento - nem
dos amigos mais próximos. Quando Prem ficava de plantão,
pegava o controle sem perguntar. E os outros veteranos que o
visitavam nunca se importaram com seus assuntos pessoais.
Exceto aquele homem, que cuidava de tudo - desde suas
necessidades até suas roupas. Quando Arthit tentou
expulsá-lo, ele não foi. Por que fazia aquilo? O líder dos
veteranos não encontrava resposta.
Aquilo tudo lhe lembrava o olhar de Kongpob no dia da
corrida.
Arthit comia lentamente enquanto via TV, mas seus olhos
furtivos seguiam Kongpob dobrando suas roupas. Na verdade,
nem prestava atenção nas notícias.
Quando terminou de comer, Kongpob pendurou as
roupas no armário, limpou a mesa e lavou a louça. Então
notou os remédios no criado-mudo.
4 P'Arthit, já tomou seus remédios? Esqueci de
perguntar antes.
Sua voz soava culpada. O rótulo dizia para tomar antes
das refeições. Kongpob pegou os comprimidos, franzindo a
testa.
4 Por que não me avisou? Como vai melhorar se não
toma os remédios na hora certa? Não se esqueça da próxima
vez!
Estava repreendendo-o? Aquele novato tinha coragem!
Arthit não toleraria ser mandado por um calouro.
4 Pare de se intrometer! Não sou criança, Kongpob! Não
esqueça que sou mais velho!
O quarto ficou em silêncio - um silêncio que fez Arthit se
sentir ainda mais desconfortável.
Sabia que Kongpob tivera boas intenções. Mas, como líder
dos veteranos, não podia se dar ao luxo de depender de
ninguém.
Kongpob não pareceu zangado. Apenas suspirou,
sentou-se na cama ao lado de Arthit e falou suavemente:
4 Sei que você é mais velho. Mas agora está doente.
Quando estiver melhor, pode me punir. Por enquanto, por
favor, me ouça.
Não era uma ameaça, mas um pedido sincero. Kongpob
olhou nos olhos de Arthit...
E de novo, aquele olhar o fez sentir-se derrotado.
Arthit virou-se, pegou os remédios da mão de Kongpob e
tomou com a água oferecida. Quando Kongpob foi lavar o
copo, Knot - o amigo que ficaria de plantão naquela noite -
entrou no quarto.
4 Arthit, encontrei o P'Dear e ele perguntou por você e...
4 Knot interrompeu-se ao notar a presença de Kongpob.
O novato juntou as mãos em cumprimento formal:
4 Boa noite, P'Knot.
4 Oi. Não estamos na faculdade, pode relaxar.
Knot não entendia a situação. Retribuiu o cumprimento -
algo que veteranos nunca faziam com calouros. Percebendo
que um amigo viera visitar Arthit, Kongpob decidiu não
incomodar.
4 Acho que devo ir, P'Arthit.
O veterano nem olhou para ele, apenas assentiu com
frieza. Quando Kongpob saiu, Knot perguntou:
4 O que ele fazia aqui?
4 Só estava passando minhas roupas 4 Arthit
respondeu, indiferente.
4 O quê? Por que você o obrigou a fazer isso?
Arthit encolheu os ombros e deitou-se.
4 Estou com sono.
Fechou os olhos, encerrando a conversa. Não queria
responder. Sentia a febre aumentar, o rosto queimar, a cabeça
confusa. Devia ser por isso que aceitara tão facilmente os
cuidados.
E, no entanto, continuava pensando naquele novato.
Por mais que tentasse não pensar, era inútil. Lembrava
cada momento, como se estivesse repassando um filme em
sua mente.
Arthit tinha certeza: Kongpob queria lhe ensinar algo.
O calouro não se zangara com seus ataques. Não se
ofendera com os maus-tratos em troca de seus cuidados.
Apenas implorara, com aquele olhar, que Arthit entendesse.
Que considerasse os sentimentos de quem se preocupava
com ele.
13
Regra numero treze para o calouro:
"Mostrar aos veteranos que e um aluno digno
da faculdade"
Finalmente chegou o dia tão esperado pelos calouros de
Engenharia.
Por dois meses, enfrentaram reuniões de provocações,
estudaram para provas e suportaram castigos sob o clima
tenso criado pelos veteranos. Mas tudo chegava ao fim.
Era o dia do encerramento das provocações.
Em geral, as reuniões eram organizadas separadamente
para cada departamento de engenharia, pois era mais fácil
manter a ordem em grupos menores de calouros. Mas na
cerimônia de encerramento, todos os calouros da faculdade de
engenharia foram convocados.
Às seis da tarde, o estádio estava repleto de fileiras de
calouros - cerca de 800 alunos -, além de alguns veteranos
curiosos para ver o evento importante.
4 E aí, Kong, tudo bem?
Kongpob virou-se e sorriu ao ver seu colega do
departamento de Engenharia Química na fileira ao lado.
4 Wad! Achei que você não viria! 4 disse, animado.
Wad era um dos que mais se opunham ao sistema SOTUS
e frequentemente faltava às reuniões. Sua presença ali era
uma surpresa.
4 Eu também pensei em não vir, mas queria minha
engrenagem! É um troféu maneiro!
Sua motivação infantil fez Kongpob rir. Ele havia
esquecido que, além do encerramento, haveria a cerimônia de
distribuição das engrenagens - o símbolo mais importante do
departamento. Havia dois tipos: uma com o emblema da
universidade e outra com o da faculdade. Alguns
departamentos usavam anéis de geração no lugar, por
tradição.
Conseguir uma engrenagem significava que os veteranos
aceitavam plenamente os calouros como parte da família da
engenharia. Era o primeiro passo para adquirir a honra e
dignidade de um verdadeiro engenheiro.
As condições para obtê-la variavam conforme a
severidade da equipe de veteranos.
E o principal responsável era o líder - aquele veterano do
departamento de Engenharia Industrial. Antes conhecido por
seu rosto cruel, agora todos comentavam sobre seu feito
heroico: correr quilômetros no estádio sob chuva torrencial. As
fotos de Arthit correndo viralizaram no Facebook, gerando
culpa nas críticas que o levaram àquela punição.
Na hora marcada, os veteranos apareceram no estádio.
Todos os olhos se voltaram para o homem mais famoso, à
frente de trinta veteranos de outros departamentos. Vestidos
com o uniforme de engenharia e rostos sérios, pareciam
membros de uma máfia.
Arthit assumiu seu posto e cumprimentou os calouros
sem microfone:
4 Boa noite, calouros!
4 Boa noite! 4 responderam, animados.
Arthit olhou para a plateia com frieza e continuou:
4 Vejo que hoje temos 791 calouros, embora
esperássemos apenas 750. Já que não conhecemos todos,
quero testar seu espírito de equipe.
Seu discurso começou com elogios, causando sussurros
de surpresa entre os calouros, que esperavam tratamento
diferente do líder lendário.
Mas os calouros de Engenharia Industrial permaneceram
em silêncio. Conheciam o estilo de Arthit - ele podia dar um
tapinha nas costas e, em seguida, um soco duro.
E foi o que aconteceu.
4 Mas ao revisar seus cadernos de assinaturas, notei que
não coletaram as mil prometidas. Estou profundamente
decepcionado. Sabem o que isso significa?
Os veteranos aplicavam tarefas diferentes. Uma delas era
coletar assinaturas de alunos mais velhos no início do
semestre. Muitos não completaram a tarefa - algo que a equipe
de veteranos não ignorou.
4 Se não conseguem cumprir uma simples tarefa, duvido
que estejam prontos para se formar. Quero perguntar: ainda
querem ser alunos da Faculdade de Engenharia?
4 Sim, queremos! 4 gritaram os calouros, sem hesitar.
4 Então assumirei que estão prontos. Tragam as
engrenagens!
Dois veteranos trouxeram as bandejas cobiçadas.
4 Estas engrenagens são o coração do departamento.
Para obtê-las, devem provar que são dignos. Caso contrário,
ficarão sem o direito de se chamar alunos de Engenharia.
Os calouros engoliram em seco. Havia uma lenda sobre
um curso que teve suas engrenagens trancadas em um cofre e
precisou passar por mais um ano de provocações para
recuperá-las.
4 Cantem o hino da universidade e o slogan das gerações
de Engenharia. Enquanto isso, irei até aquele prédio. 4 Arthit
apontou para o edifício de sete andares ao lado do estádio. 4
Se não os ouvir de lá, considerarão que falharam.
Era improvável que ouvissem do último andar. Mas os
veteranos já haviam cortado qualquer chance de protesto.
4 Lembrem-se: só têm uma chance. Façam seu melhor!
4 Sim! 4 responderam os calouros, com força renovada.
Arthit acenou e partiu com um grupo de veteranos. O
restante ficou para observar.
O presidente do curso de Engenharia Civil liderou os
calouros. Com voz firme, deu o sinal para começar.
No mesmo instante, o hino ecoou com toda a força
possível.
Por dois meses, aprenderam um hino longo e complexo,
que agora fluía como água de seus lábios. Apesar de nunca
terem praticado juntos, as vozes se fundiram em um coro
perfeito.
Enquanto isso, Arthit chegou ao sétimo andar.
4 Prem, como está o som? 4 perguntou ao amigo, que
filmava tudo com uma câmera profissional.
Prem ergueu os olhos da lente e sorriu:
4 Venha ver você mesmo! Eles estão lindamente
alinhados!
Arthit se aproximou de Prem, inclinou a cabeça e olhou
para o estádio. Antes mesmo de ouvir os ecos da música,
conseguiu distinguir os calouros cantando o último verso do
hino universitário.
Eles se reorganizaram em um círculo humano, mas como
eram muitos, o formato ficou imperfeito - como crianças da
pré-escola sem coordenação. Mesmo assim, sob a luz
alaranjada do pôr do sol, a cena tinha uma beleza singular que
disfarçava a pequena bagunça. Arthit ficou alguns segundos
em silêncio contemplativo.
Aquele era o último dia.
Assim que terminasse, seus deveres como líder
cessariam. Não precisaria mais de treinos físicos exaustivos,
nem de elogiar ou punir calouros.
A dor do castigo ainda o incomodava, mas logo passaria.
Ele guardaria as memórias: os desafios, a responsabilidade
como líder e, principalmente, os confrontos com aquele
calouro impulsivo que o desafiara no primeiro dia.
Lembrar de tudo isso o fez sorrir involuntariamente. Mas
também sentiu um frio na espinha - aquela fase da vida
terminava. Ele voltaria a ser apenas um veterano, cedendo seu
poder aos alunos do segundo ano.
Incluindo todos os calouros. Ele não poderia mais se
intrometer em suas vidas.
O click da câmera o trouxe de volta à realidade. Prem o
fotografara com um sorriso maroto.
4 O que você tá fazendo, Prem?
4 Registrando sua expressão! Você devia ver sua cara!
Arthit franziu a testa, mas foi interrompido por Knot:
4 Vamos, Arthit. O prédio vai fechar.
O céu escurecia rapidamente. Arthit liderou o grupo pela
última vez como chefe dos veteranos.
No estádio, sob as luzes artificiais, os calouros ainda
cantavam - já haviam repetido o hino 35 vezes, igual ao
número de gerações da faculdade. Alguns caíam de cansaço
nas arquibancadas, mas a maioria continuava, abraçando os
colegas e gritando com força.
Arthit retornou e subiu no ponto mais alto das
arquibancadas.
4 Quando cheguei ao último andar, ouvi sua tentativa
patética! Cantaram fraco! O alinhamento foi horrível! Se esse é
seu máximo, não merecem ser chamados de calouros de
Engenharia!
Os rostos dos calouros se contorceram de desespero.
Alguns até choraram.
4 É sua última chance! 4 Arthit deu um passo à frente.
O presidente do curso pediu permissão para falar:
4 Podemos tentar de novo?
Um silêncio pesado pairou. Então Arthit concordou:
4 Só uma vez.
Os calouros se abraçaram mais forte e cantaram como
nunca. Dessa vez, com alma e coração.
Quando terminaram, Arthit anunciou:
4 Calouros! Esta foi sua última apresentação como
estudantes novatos! A partir de agora, está proibido cantarem
assim!
Um choque percorreu o estádio. Isso significaria exclusão
da faculdade?
Até que Arthit completou:
4 Porque agora são oficiais da Faculdade de Engenharia!
Foi como uma explosão. Calouros se abraçaram,
chorando de alívio e orgulho.
4 Veteranos! Saudem nossos novos membros!
Os veteranos desceram e distribuíram pulseiras brancas -
símbolo de sorte - e os cobiçados engrenagens.
Fang entregou a de Kongpob:
4 Parabéns, Kongpob!
4 Obrigado. 4 Ele segurou o colar com cuidado.
Ali estava: a engrenagem dourada, símbolo da faculdade,
com o número 59 gravado.
Kongpob aprendera que a engrenagem representava a
união - se um dente quebrasse, toda a máquina falharia.
Assim como eles: venceram juntos, não sozinhos.
Como alguém uma vez lhe dissera.
Por isso, ele entendeu claramente que tudo o que Arthit
lhes ensinou, mesmo que fossem lições difíceis, continha um
significado oculto. A única coisa que lhe parecia uma pena era
não ter a oportunidade de ensinar valiosas lições em troca.
Mas, pelo menos, todos os seus encontros podiam ser
considerados pequenos passos que o aproximavam daquela
pessoa. Kongpob estava perdido em seus pensamentos
quando ouviu um estranho ruído de câmera ao seu lado.
Virou-se e viu um homem mais velho que lhe era familiar,
inclinando-se novamente sobre a câmera. Kongpob
apressou-se a juntar as mãos em uma saudação formal.
4 P'Prem, você está aqui também?
4 Bem, sim, estive tirando fotos de todos 4 a explicação
apressada deixou Kongpob confuso, mas Prem perdeu o
interesse nele e foi procurar outros modelos.
O fotógrafo ergueu a câmera para capturar um panorama
espetacular, mas então apareceu um aviso de que o cartão de
memória estava cheio. Prem amaldiçoou a si mesmo 4 havia
fotografado muitos lugares e filmado as músicas, é claro que a
memória estaria lotada, ainda mais por ter esquecido de levar
um cartão de memória reserva.
Prem baixou a câmera e começou a ver as fotos e vídeos,
procurando aqueles que pudesse deletar para liberar um
pouco de espaço. No processo, sua atenção foi capturada por
duas fotos em específico.
Prem não era tímido em admirar seu próprio talento como
fotógrafo, mas aquelas fotos eram especiais e diferentes das
demais. E sua beleza não estava no ângulo habilmente
escolhido ou no jogo de luz e sombras, mas na expressão dos
rostos dos protagonistas das imagens.
Eram pessoas cheias de alegria. Em seus olhares, era
fácil perceber que ambos estavam pensando em alguém
querido.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios.
Aquela expressão conferiu às fotos uma beleza natural.
Prem pensou que aquelas eram as melhores fotos do
término dos encontros entre os veteranos e os calouros.
14
Regra numero catorze para o calouro:
"Voce deve compreender o significado da
dignidade de um estudante de engenharia"
4 Hoje? Sim, estou livre... entendo.
4 Você está falando com a namorada, Kong? Que fofo!
Em estava ocupado comendo macarrão ao molho
vermelho, mas isso não o impedia de prestar atenção na
conversa telefônica de seu melhor amigo. Os outros amigos
reunidos à mesa também se interessaram em saber com quem
Kongpob estava falando, especialmente porque, como Em
havia dito, ele estava usando uma voz excessivamente doce.
Além disso, se o "astro da universidade" estava conversando
com uma garota 4 que devia ser sua namorada 4, então ela
teria amigas para apresentar. Por isso, seus colegas
aguardaram uma resposta. Kongpob pegou uma colherada de
arroz frito e respondeu casualmente:
4 Uma veterana, com quem compartilho o número de
matrícula, me convidou para jantar.
Com isso, as esperanças de seus amigos desmoronaram.
Com expressões entediadas, voltaram a comer.
O destino era cruel! Tinham um amigo bonito, mas não
podiam usá-lo. Desde que Kongpob ganhou o título de "astro
da universidade", muitas pessoas se aproximavam do grupo só
para conhecê-lo melhor. Havia uma variedade: garotas, gays e
outros. Mas Kongpob nunca parecia interessado em ninguém.
Ele conhecia muita gente e era gentil com todos. Um de seus
principais encantos era a impressão de que vivia em seu
próprio mundo.
4 Que pena, você tem tantas qualidades e não as usa!
Não entendo! 4 disse Em, irritado.
4 Não tenho tempo algum! Os estudos e as atividades
consomem tudo, e ainda tem a cerimônia de iniciação neste
sábado. 4 Kongpob respondeu com a verdade.
Isso não significava que ele não se interessasse por
garotas ou que não quisesse se envolver com alguém, apenas
que não queria se distrair com outras coisas antes de terminar
o treinamento com a equipe de calouros, além dos projetos
estudantis que já consumiam toda sua energia.
4 Falando em iniciação... Queria saber o que os
veteranos vão fazer. Já que você vai jantar com uma veterana,
pode perguntar o que vai rolar? 4 Em acariciou o ombro de
Kongpob, inclinando a cabeça com um sorriso encantador.
Os outros amigos rapidamente apoiaram o pedido, em
benefício de todos. Sob pressão, Kongpob não teve escolha a
não ser prometer tentar obter a informação.
Às seis da tarde, Kongpob partiu para sua missão secreta
em um restaurante de churrasco perto da universidade, onde
se encontraria com sua colega de código. A comida lá era
barata, deliciosa e bem localizada, então a maioria das mesas
estava ocupada ou reservada por estudantes. Kongpob olhou
ao redor e avistou a veterana sentada no centro de uma mesa
no fundo.
4 Olá, P'Sang! 4 Kongpob juntou as mãos em uma
saudação formal à veterana, que estava tão bonita quanto na
última vez em que a vira, quando ele lhe entregara livros e
presentes. Ao lado dela, havia outra garota bonita e um cara
alto, que o calouro não conhecia.
4 N'Kongpob, deixe-me apresentar P'Num, veterana do
terceiro ano, e P'Phak, do quarto ano.
4 Prazer. Esperaram muito?
Após as apresentações, o calouro desculpou-se,
envergonhado pelo atraso. Um calouro fazer veteranos esperar
ia contra os costumes, mas Num não reclamou 4 em vez
disso, convidou-o a sentar-se com um olhar amigável.
4 Tudo bem, ainda faltam pessoas. O restaurante estava
cheio, então corremos para pegar uma mesa antes que
acabasse!
4 Mais alguém vem? 4 Kongpob franziu a testa. Pensava
que todos os veteranos já estavam ali. Num então explicou,
para sua surpresa:
4 P'Pern não te contou? Nossos veteranos mais antigos
se formaram no ano passado 4 P'Fon e P'Thum, que vão se
casar em breve. Há uma tradição: se dois veteranos se casam,
devem organizar um encontro com seus calouros de código. É
por isso que estamos aqui!
Kongpob assentiu com um sorriso, embora nunca tivesse
ouvido falar da tradição. A ideia lhe pareceu agradável 4 uma
chance de os calouros se conhecerem melhor.
4 E qual é o código do outro grupo?
4 0206! E olha só: se reorganizar os dígitos, vira 0062!
Dá pra dizer que P'Fon e P'Thum são almas gêmeas! 4 Num
riu, acompanhada pelos veteranos.
Deram um tapinha no ombro de Kongpob. Logo, um
grupo apareceu na entrada do restaurante.
4 Lá estão eles!
Os calouros do código 0206 haviam combinado de se
encontrar do lado de fora e entrar juntos. O mais velho,
P'Thum, era de origem chinesa, com olhos tão estreitos que
nem seus óculos para miopia os ampliavam. Já P'Fon, uma
tailandesa de olhos grandes e traços marcantes, era tão
deslumbrante que vários clientes se viraram para olhá-la.
Os veteranos se aproximaram de Kongpob.
4 Kongpob, o astro do ano! Vi suas fotos no Facebook, e
você é ainda mais bonito ao vivo!
Kongpob sorriu. As apresentações começaram.
4 Esta é a caloura do código 0206, Lin. Este é P'Touch,
do segundo ano, e P'Phit, do quarto ano. Nosso veterano do
terceiro ano está ocupado, mas logo chega!
Lin era uma garota de cabelo curto e ar destemido. Ela e
os outros se juntaram à conversa do grupo 0062. Logo,
começaram a falar sobre o grande evento do casamento, para o
qual iriam como códigos daquela união.
Quando o jantar começou, organizaram-se no estilo
buffet 4 todos comiam à vontade, sem cerimônias. Como
eram muitos, colocaram dois pratos na mesa: um para
veteranos e outro para calouros. Os novatos relaxaram e, aos
poucos, perderam o constrangimento de conversar na
presença dos mais velhos. De repente, alguém levantou-se,
acenando para chamar a atenção de quem acabara de chegar.
4 Ei! Oon! Estamos aqui!
Kongpob lembrou que faltava o estudante do terceiro ano,
que fora obrigado a chegar atrasado devido a compromissos
pessoais. Pelo apelido, imaginou que deveria ser uma garota.
Por reflexo, ele virou para ver quem era e teve uma grande
surpresa ao avistar uma figura familiar vestindo a camisa do
departamento de engenharia. Quando o veterano chegou à
mesa, juntou as mãos em saudação respeitosa a todos.
4 Olá, pessoal! P'Thum, eu já disse para não me chamar
de Oon, prefiro que usem Arthit.
O líder dos calouros parecia um pouco incomodado com o
apelido que o amigo insistia em usar.
4 Ora, desde o primeiro ano eu te chamo de Oon! Não é
minha culpa se já estou acostumado!
4 Mas agora estou no terceiro ano e sou líder dos
calouros! 4 Arthit tentou enfatizar sua posição, ciente de que
havia calouros na mesa e não podia perder sua postura
autoritária. Especialmente porque um deles, sentado na ponta
da mesa, tinha uma expressão claramente surpresa e 4
perigosamente 4 divertida.
Arthit sabia que encontraria o calouro 0062; lembrava do
código daquele insolente. Kongpob, porém, não fazia ideia de
que Arthit era do grupo 0206. O veterano planejara chegar
cedo para forçar Kongpob a mostrar respeito, mas um
trabalho de laboratório o atrasara. E agora, além dos planos
arruinados, ainda precisava lidar com um colega que o
chamava pelo apelido infantil, estragando sua imagem logo no
começo da noite.
4 Tudo bem, esqueci que você é o líder agora. Mas como
as atividades com os calouros já terminaram, pode relaxar,
não?
4 Não totalmente. Ainda faltam a cerimônia de iniciação
e a distribuição dos engrenagens.
Esses dois eventos eram a razão pela qual Arthit ainda
precisava manter sua postura severa. Ele mal podia esperar
para se livrar do bigode, cortar o cabelo e abandonar a imagem
atual 4 mas não podia, ou os calouros perderiam o medo dele.
4 E como será a iniciação este ano?
Kongpob parou de comer. Alguém finalmente fizera a
pergunta mais importante da noite. Ele prestou atenção,
pronto para levar as informações aos amigos. Mas a resposta o
decepcionou.
4 Não posso contar. Mas acredite: será mais dura que a
que você fez conosco!
O assunto foi encerrado com uma dupla ameaça, e
Kongpob perdeu as esperanças de descobrir algo. Sua missão
fracassara antes mesmo de começar. Arthit sorriu, vitorioso,
mas voltou a ficar sério ao ouvir Fon continuar:
4 Lembro da sua! Fizemos os calouros correr pelo
campus cantando o hino da universidade. Um grupo teve que
cantar sob as janelas do dormitório feminino às quatro da
manhã! E o Arthit era um deles! Como esperado, foram pegos
4 a melhor parte foi vê-los fugir!
Fon não poupou esforços para destruir a imagem que
Arthit tanto cultivava. Fingindo não notar o constrangimento,
ela fez os calouros rirem às gargalhadas.
Arthit quis esconder o rosto de vergonha. Em vez de
ajudá-lo, Thum o expusera ao ridículo. Continuar a conversa
era difícil 4 não só por ser o centro das atenções, mas porque
os veteranos podiam revelar qualquer detalhe constrangedor
de seu passado. Decidiu interromper a situação e levantou-se.
4 Vou pegar mais carne.
O veterano afastou-se rapidamente da mesa, dirigindo-se
ao buffet. Não estava interessado no que diriam às suas costas
4 melhor isso do que testemunhar os calouros rindo dele.
Na verdade, Arthit não estava bravo com P'Fon. Eram
amigos próximos, e ele sabia que ela só queria animar o clima.
O problema era que ela fazia piadas sem considerar o
contexto. Ele ainda tinha deveres como líder 4 não podia ser
alguém que brincava e ria, especialmente não com o 0062
presente.
0062, o garoto bonito. Por que aquele metido aparecia
sempre nos piores momentos?
Naquele instante, a única forma de aliviar sua indignação
era comer. Encheu um prato até a borda com carne de porco.
Insatisfeito, pegou um segundo e o lotou de vegetais. E então
um terceiro.
Justamente quando planejava como carregá-los sem
derrubar nada, alguém tomou o prato de suas mãos e
sussurrou:
4 Posso ajudar?
Era o mesmo garoto que sempre aparecia na hora errada.
Kongpob sorriu.
4 Acabei descobrindo seu apelido, Oon.
4 Quem te deu direito de me chamar assim? 4 Arthit
rosnou. Sabia que seria ridicularizado por aquele nome bobo
4 e em menos de cinco minutos, o calouro já o seguia para
provocá-lo.
Apenas seus amigos mais próximos sabiam do apelido, e
mesmo assim o chamavam por "Arthit". "Oon" era um nome
doce, totalmente oposto à sua imagem atual.
4 Por que não posso te chamar de Oon? É um nome
bonito.
4 Se repetir esse nome, farei você fazer agachamentos
aqui mesmo, no chão do restaurante! E proíbo que conte aos
outros sobre ele! 4 A ordem foi dada em tom severo, obrigando
Kongpob a obedecer.
4 Entendido, P'Arthit.
O líder acenou, satisfeito. Um calouro devia saber seu
lugar. Arthit não permitiria desrespeito 4 e, convencido de
que Kongpob se comportaria, pegou os pratos para voltar à
mesa. Até que ouviu:
4 E suas pernas? Já não doem?
4 Não, estão bem agora.
4 Que alívio. Eu estava preocupado.
As palavras fizeram Arthit parar e olhar para Kongpob. O
calouro sorria levemente 4 não de modo zombeteiro, mas com
sincero alívio. Os pensamentos do veterano voltaram ao dia
em que Kongpob cuidara dele quando estava doente. E, pelo
olhar do calouro, ele também lembrava.
Kongpob sorria, com um olhar penetrante e cheio de
sinceridade. Arthit não respondeu. Sentindo-se estranho,
virou-se e retornou à mesa. Sentou-se ao lado de P'Fon, que
iniciara um novo assunto 4 desta vez, mirando os calouros.
4 Lin, por que escolheu a Faculdade de Engenharia?
4 Porque é a mais perto da minha casa, P'Fon!
A resposta surpreendeu a todos. Os veteranos franziram
as sobrancelhas, incrédulos. Quando Lin insistiu que era
verdade, todos riram, concordando que era uma motivação
incomum. Então, perguntaram a Kongpob:
4 E você, não vá dizer que também mora perto!
Kongpob negou.
4 No meu caso, foi diferente. Gosto de economia, mas
minha mãe queria que eu fizesse engenharia. Então prestei
vestibular aqui.
Todos o olharam fixamente. Arthit congelou, os palillos
suspensos no ar. Foi Fon quem quebrou o silêncio.
4 Por que não tentou o curso que queria? Estudar algo
que não gosta por quatro anos é difícil! Sinto dizer, Kongpob,
mas parece perda de tempo. Talvez deva conversar com sua
mãe de novo 4 é sua vida, no fim das contas.
4 Eu pensei nisso 4 admitiu Kongpob, que de fato
refletira sobre o assunto várias vezes. Interessava-se por bolsa
de valores e economia, e imaginava-se trabalhando na área.
Mas não podia simplesmente ignorar os desejos da mãe, que
depositara nele todas as esperanças. Às vezes, sentia-se
dividido: de um lado, o sonho pessoal; do outro, a vontade de
agradar os pais que sempre lhe deram tudo.
4 Se depois do primeiro ano ainda não quiser
engenharia, tente prestar vestibular para economia no ano
seguinte. Mas, por enquanto, você é nosso calouro 4 e vamos
cuidar de você 4 disse Thum, tentando animá-lo.
O calouro sorriu, agradecido pela compreensão. Pelo
menos tinha bons veteranos 4 e isso o fazia feliz por estar ali.
Aprendera que, naquela faculdade, veteranos e calouros eram
unidos pelo espírito de camaradagem.
O jantar continuou, com comida deliciosa e conversas
animadas. Às oito da noite, a reunião terminou. Os convidados
agradeceram aos noivos e deram os parabéns. O próximo
encontro seria no casamento, que teria cerimônia no estilo
chinês.
Os convidados dispersaram. Quem não tinha carro
aceitou a carona de P'Tam. Kongpob, que fora de moto,
planejava voltar direto ao dormitório 4 até avistar Arthit
sozinho na rua, em frente ao restaurante. Vivendo no prédio
em frente, o calouro não resistiu a perguntar:
4 Como vai voltar?
4 Não é da sua conta! 4 Arthit respondeu furioso. Desta
vez, Kongpob percebeu um tom de raiva e frustração que
nunca notara antes.
4 P'Arthit, está bravo comigo?
O líder ergueu o rosto, com um olhar especialmente duro.
4 Por que estaria? Quem é você para afetar meu humor?
Você nem foi aceito como calouro direito 4 nem sequer sabe se
quer ficar na nossa faculdade!
A voz sarcástica de Arthit fez Kongpob recuar. Mesmo
assim, o calouro tentou insistir.
4 Mas agora sou um calouro de Engenharia!
4 Você diz isso, mas tem certeza de que realmente quer
ser? Se não queria engenharia desde o início, por que está
tirando a vaga de alguém? Sabe quantas pessoas sonham em
entrar na nossa faculdade? E você veio só para brincar? Sabe o
que você é? Um maldito egoísta!
A última frase de Arthit transbordava desprezo. Kongpob
ficou em silêncio, o corpo inteiro dormente. Seus pensamentos
estavam confusos 4 não entendia por que Arthit duvidava de
sua honestidade.
4 Tenho minhas razões, P'Arthit, e não vim para brincar.
Participei de todas as atividades da faculdade e pretendo
passar pela iniciação também.
Mas as explicações foram inúteis. Arthit continuava
furioso.
4 Você não passa de um convencido! A iniciação não é
brincadeira!
4 Eu dou conta, garanto! 4 Kongpob falou com
confiança, encarando Arthit com a postura de quem não
considerava a derrota.
O líder dos veteranos irritou-se ainda mais.
Arthit ignorava seu esforço? Ele sabia que Kongpob
comparecera a todas as atividades. Mas o que Kongpob não
sabia era que, justamente por isso, Arthit acreditara que ele
realmente quisesse estar na faculdade 4 quando era o oposto.
E agora, mesmo sendo um impostor, o calouro ousava dizer
que passaria pela iniciação como se fosse algo trivial. 0062
nunca entenderia o orgulho de ser um engenheiro. Não
quando tratava essa dignidade com leviandade.
Arthit preparava-se para continuar, mas um motociclista
parou diante deles. Sem hesitar, ele subiu na garupa.
4 Demorou, Knot! Estava te esperando. Vamos!
4 Espera, como você vai voltar, calouro? 4 Knot olhou
para Kongpob, que juntou as mãos em saudação.
4 Já é um garotão! Volta sozinho! 4 Arthit interveio
rápido.
Surpreso, Knot acelerou após Kongpob acenar,
deixando-o para trás. Mesmo assim, o amigo percebeu o clima
tenso 4 era óbvio pelo olhar irritado de Arthit e sua pressa em
fugir dali.
4 Nos reunimos amanhã! O plano da iniciação mudou.
Vamos torná-la bem difícil.
4 Entendo... Aquele calouro te encheu o saco de novo? 4
Knot perguntou. A raiva de Arthit sempre tinha uma causa, e a
mais provável era o famoso "calouro pessoal" dele.
4 Você acredita que o 0062 disse que queria estudar
economia e só está aqui porque a mãe pediu?
4 E daí?
4 Ele ainda pode trocar de faculdade!
4 E qual o problema? Se ele não gosta, é livre para ir.
Lembra do Vin? Foi para Artes! 4 Knot lembrou o amigo que
desistira da engenharia no primeiro ano.
Aquilo era verdade. Muitos colegas haviam deixado o
curso 4 alguns por dificuldade, outros por desinteresse. Na
época, Arthit não dera importância; afinal, queria a felicidade
dos amigos.
4 Então me diz: por que está tão bravo? E não venha com
desculpas!
Arthit calou-se. Não entendia por que ficara tão
perturbado ao saber que o calouro queria sair.
Claro, parte dele queria defender sua imagem como líder e
mostrar aos calouros o privilégio de estudar engenharia. Mas
quando soube que aquele problema ambulante de calouro
talvez nem gostasse do curso, como poderia ficar indiferente?
4 Não é nada. Só estava com fome, e a comida estava
ruim 4 murmurou, a irritação diminuindo, mas uma
sensação estranha persistindo no peito.
Não mentira totalmente.
A comida realmente não descera bem 4 não depois
daquela revelação. Saber que Kongpob não tinha certeza de
sua escolha tirara-lhe o apetite.
Ele não sabia como se sentir com a possibilidade de que,
no fim do ano, Kongpob poderia ir embora.
15
Regra numero quinze para o calouro: "Voce
deve vencer o desafio imposto pelos
veteranos"
A iniciação dos calouros de Engenharia Industrial
ocorreu cinco dias após o encerramento das atividades de
integração.
Os calouros ainda não se recuperavam 4 as vozes roucas
só agora voltavam ao normal após os cantos forçados. Mesmo
assim, precisavam se preparar para o próximo desafio. Afinal,
a iniciação era crucial. E prometia ser ainda mais difícil. As
condições para o sucesso dependiam, em grande parte, do
humor dos veteranos.
Às sete da manhã de sábado, o estádio encheu-se de
calouros. Para surpresa geral, nada parecia fora do comum. Se
já estavam ansiosos antes, agora estavam intrigados 4 talvez
mais do que no dia do vestibular, pois ninguém sabia a
dificuldade da tarefa. Mas era fácil adivinhar: não seria
simples.
Alguns tentaram obter informações com veteranos
conhecidos, mas estes, inesperadamente, mantiveram-se em
silêncio. Os menos motivados entraram em pânico.
Kongpob, designado como "espião" pelos amigos,
fracassara em descobrir detalhes na reunião com os veteranos
4 especialmente com o líder presente. Talvez, sem saber, ele
mesmo tivesse provocado a ira de Arthit. Afinal, dizer com
arrogância que passaria pela iniciação não melhoraria o
humor de ninguém.
Não chegara a ser uma briga, mas Kongpob sentia-se
incomodado por não entender a razão exata daquela raiva.
De uma coisa ele tinha certeza: hoje, provaria a Arthit que
não falara por provocação. Mostraria que ele e seus colegas
estavam dispostos a enfrentar qualquer desafio para se
tornarem engenheiros. Não importava a dificuldade 4 eles
venceriam e honrariam o orgulho da faculdade.
Kongpob esperou ansioso até avistar o líder dos veteranos
no estádio. O veterano logo começou a falar, com sua voz
habitual e severa:
4 Calouros, atenção! Como sabem, hoje é um dia
importante. Devem provar que são dignos de se tornar a nova
geração de engenheiros.
Arthit olhou os calouros alinhados pelo estádio 4 eram
muitos, pois corria o boato de que a iniciação era essencial
para a experiência universitária. Aquilo alegrou-o; o número
era ideal para a tarefa preparada.
4 Olhem para o estandarte da geração!
Todos os olhos voltaram-se para a bandeira vermelha
com uma engrenagem bordada, o símbolo do departamento e o
nome da faculdade. Ela tremulava no ponto mais alto do
estádio. Abaixo, os degraus do pódio estavam cobertos por
tecidos coloridos.
4 Sua tarefa é pegar a bandeira! Não daremos instruções.
Usem o conhecimento e as habilidades que ensinamos
durante a integração. O prazo termina às sete da noite.
As instruções soavam simples, mas o contexto era outro.
As palavras do veterano eram enganosas.
Como o líder não daria mais detalhes, uma conclusão era
óbvia: haveria trapaça. Os calouros só podiam esperar,
perplexos. Quando Arthit falou novamente, alguns rostos
iluminaram-se de esperança 4 rapidamente esmagada pelos
veteranos.
4 Espero que estejam prontos! Damos início à prova!
Calouros, convido vocês a lutar pela bandeira! 4 Arthit
terminou seu discurso e deu dois passos para trás, como se
estivesse abrindo caminho para os calouros tomarem a
bandeira.
Os novatos se entreolharam, surpresos. Não esperavam
aquela mudança de atitude. Mesmo assim, alguns
continuavam atordoados 4 ninguém ousava dar o primeiro
passo. Se a resposta fosse tão simples quanto parecia,
bastaria um voluntário corajoso. Mas ninguém se ofereceu, e
por mais fácil que fosse, jamais alcançariam a bandeira se
continuassem sendo covardes.
Por fim, os colegas elegeram um calouro da primeira fila
como representante, enviando-o à frente como se fosse para
uma missão suicida. Seguindo as instruções, ele deveria subir
os degraus e pegar a bandeira. Mas ao dar o primeiro passo,
Knot, um dos veteranos responsáveis pela recepção, bloqueou
seu caminho.
4 O que você está fazendo aqui? Explique-se, calouro.
O novato paralisou. Olhou para a bandeira e, reunindo
coragem, respondeu:
4 Vim pegar a bandeira.
4 Negado! Volte para o seu lugar!
A recusa abrupta obrigou o representante a voltar,
lançando um olhar suplicante aos colegas. Seu rosto
horrorizado viu que muitos já esperavam aquele resultado.
Mas, como verdadeiros calouros, precisavam tentar. Tentar
não era pecado.
4 Pode pelo menos nos dizer como conseguir a bandeira?
4 Não é meu dever explicar! Usem a cabeça! 4 gritou o
veterano, deixando claro que o caminho seria, no mínimo,
espinhoso.
Nenhuma pista, nenhuma dica. Como adivinhar o que os
veteranos queriam?
Em poucas palavras: um quebra-cabeça impossível.
Preocupados com o tempo limitado e com medo de não
cumprirem as exigências físicas e mentais necessárias, os
calouros começaram a discutir. Todos reclamavam que
estavam cegos, sem nenhuma luz no fim do túnel.
Apesar do desafio ainda ser obscuro, sabiam que
duzentas cabeças pensavam melhor que uma. Decidiram
então formar um conselho geral, sentando-se no estádio em
um grande círculo para traçar um plano. O primeiro a falar foi
o calouro que havia sido enviado anteriormente.
4 Galera, alguém tem alguma ideia?
4 Ideia? Que ideia podemos ter se nem uma dica nos
deram! 4 exclamou Oak, um dos calouros, com raiva.
Os outros concordaram, unindo-se ao descontentamento.
E tinham razão: estavam estudando engenharia, não magia
negra.
4 Será que os veteranos já nos deram alguma pista sem
percebermos? 4 alguém levantou a mão com uma possível
resposta. Um colega de cabelo curto complementou:
4 O que acham que essas cores significam?
A pergunta fez Kongpob olhar para as arquibancadas. Os
veteranos observavam em silêncio. O primeiro degrau estava
coberto por um tecido amarelo, o segundo por um azul,
seguido por verde, rosa e vermelho 4 até chegar ao topo, onde
estava a bandeira.
Inicialmente, Kongpob pensara que era apenas uma
decoração para destacar a importância do estandarte. Mas
agora, os degraus coloridos pareciam ter outro significado.
4 Níveis de jogo! 4 gritou Em, entusiasta de games, que
logo fez a associação. Vendo a expressão cética de Kongpob,
explicou: 4 As cores são como indicadores de progressão.
Cinco cores, cinco provas a superar.
A teoria de Em deu esperança aos calouros. Mas o
problema principal persistia: quais eram esses níveis? E como
avançariam?
Kongpob franziu a testa, concentrado. Se o colega
estivesse certo, estavam esquecendo algo... Talvez a resposta
estivesse nas palavras dos veteranos.
Lembrou-se do que Arthit dissera: "Para obtê-la, usem o
conhecimento e as habilidades que ensinamos durante a
recepção".
Conhecimento e habilidades ensinados... A palavra
escapou de seus lábios:
4 SOTUS 4 sussurrou.
4 O que você disse? 4 perguntou Em.
4 Talvez seja SOTUS. Em resumo, é o que nos ensinaram
esse tempo todo 4 Kongpob ainda estava incerto, mas sentiu
como se tivesse encontrado a peça que faltava.
4 Kong, você é um gênio! Cinco degraus, cinco letras em
SOTUS! 4 Em apertou seu ombro e explicou a teoria para os
outros. Claro, não havia garantia de estar certo, mas arriscar
era melhor que perder tempo.
Os calouros começaram então a decifrar o primeiro nível:
a letra S, de "Seniority" (hierarquia). Resumia-se ao respeito
devido aos mais velhos.
4 E como superamos esse nível? Nos levantamos e
cumprimentamos? 4 perguntou um calouro.
Na Tailândia, o sinal mais básico de respeito era o wai 4
as mãos unidas em frente ao rosto ao cumprimentar alguém
mais velho. Mas se duzentos calouros cumprimentassem um a
um os veteranos, jamais terminariam a primeira prova.
Precisava haver algo mais. Um modo coletivo de
demonstrar respeito.
4 Lembram quando os veteranos do quarto ano
apareceram naquela reunião? Os de terceiro ano ficaram
apavorados!
Todos se recordaram. Quando os mais velhos ordenaram
que os veteranos do terceiro ano mudassem de
comportamento. Se alguém superior desse uma ordem,
deveriam obedecer 4 assim como os calouros deviam acatar
as ordens dos do terceiro ano.
4 Alguém tem o número de algum veterano do quarto
ano? Eles poderiam ajudar!
4 Vamos chamar todos que conseguirmos!
4 Eu tenho o do ex-líder da recepção! 4 gritou um
calouro, como se tivesse achado a salvação.
A espera gerou agitação entre os novatos. Finalmente,
representantes da geração mais antiga foram convocados.
Muitos não ficaram satisfeitos com o alvoroço. Alguns
calouros tiveram que ir aos dormitórios buscar os veteranos,
enquanto outros já estavam no estádio, sabendo do ritual de
iniciação.
No fim, Dear, líder dos veteranos do quarto ano, chegou
ao local. Era ele quem ordenara os castigos severos no
passado. Ao entender a situação, riu, comentando que a
iniciação sempre fora dura 4 e que, em seu tempo, a chave
estava em manipular suas mentes.
Quando todos os veteranos do quarto ano se reuniram, os
calouros os cumprimentaram com respeito. Depois, em
consenso, decidiram pedir permissão aos mais velhos para
alcançar seu objetivo.
4 Veteranos do quarto ano, pedimos sua permissão para
nos tornarmos seus juniores!
4 Aceitamos! Vocês provaram ser dignos! 4 Dear, como
representante da geração mais antiga, assentiu com um
sorriso relaxado, depois ergueu o olhar para os veteranos do
terceiro ano, divertido. 4 E a nossa equipe de recepção?
Manter a expressão impassível diante dos calouros foi
difícil para Arthit, mas seu rosto permaneceu como pedra o
tempo todo.
4 Veteranos do terceiro ano! Podemos pegar a bandeira?
4 gritou o representante dos calouros. Todos no estádio
congelaram, aguardando a resposta.
Os corações pareceram parar, especialmente o de
Kongpob, pois fora sua ideia. Os calouros haviam gastado
mais de duas horas planejando tudo 4 se estivessem errados,
teriam que recomeçar do zero. Só podiam rezar para não terem
cometido um engano.
O silêncio fez Kongpob tensionar-se. O tempo passava
rápido demais.
4 Podem passar! 4 Knot anunciou, recuando e liberando
mais um degrau no caminho até a bandeira.
Os calouros suspiraram aliviados. A primeira etapa fora
vencida. Kongpob e Em bateram as mãos, sorrindo. Ainda
faltavam quatro níveis, mas estavam no caminho certo 4 e
isso era incentivo suficiente para continuar.
No segundo degrau, outro membro da equipe os
aguardava com uma nova tarefa, correspondente à letra O de
SOTUS: Ordem.
O que ordem significava para um engenheiro? Seguir
regras e disciplina.
Os calouros tentaram imitar uma das rotinas, mas claro,
isso não bastou. Precisavam demonstrar algo mais importante
que os castigos das reuniões.
4 Formem uma fila.
Kongpob lembrou-se dos castigos que falharam em
cumprir por falta de organização. Mesmo exaustos sob o sol e
pressionados pelo tempo, conseguiram se alinhar. Os mais
resistentes ajudavam os que fraquejavam. Quando já estavam
quase desistindo, ouviram:
4 Bem feito! Passaram!
Gritos de alegria ecoaram pelo estádio. Alguns
descansaram e comeram algo, sentados em círculo no
gramado enquanto planejavam os próximos passos.
Precisavam agir rápido para as três letras restantes.
4 Como deciframos a próxima?
4 É a tradição. Podíamos seguir os costumes... Mas nem
conhecemos as tradições direito 4 Em murmurou,
mastigando arroz.
É claro que estavam perdidos. Eram novatos e mal
conheciam a história da faculdade. Decidiram perguntar a
Dear, que ainda observava tudo.
4 Não há tradições especiais.
4 Nenhuma mesmo? 4 Praepailin insistiu. Alguns
esperavam que, por ser a garota mais bonita, ela amolecesse
Dear, mas ele só deu respostas vagas.
4 Bem, não sei se conta, mas perto do Ano Novo costuma
ter um jogo de futebol entre calouros e veteranos. No final,
limpamos o campo e jantamos juntos.
Os calouros se entreolharam. Organizar um jogo era
inviável. Mas talvez...
Dividiram-se em grupos e limparam o estádio. Não
sabiam se era realmente uma tradição, mas os veteranos
aprovaram 4 afinal, beneficiava a universidade.
Era quase quatro da tarde quando avançaram para o
quarto nível: Unidade. Para demonstrar solidariedade, nada
melhor que cantar juntos.
Com o moral alto, entoaram o hino da universidade e o
lema da faculdade.
Ao anoitecer, já exaustos após o dia inteiro de esforço,
enfrentaram o último nível: a letra S de Espírito.
E quem melhor para representá-lo que o líder da
recepção, Arthit?
Ele era o obstáculo final. Seu degrau era vermelho. Acima
dele, a bandeira da faculdade ondulava ao vento, imponente.
Restava apenas uma hora.
4 E agora? Corremos de novo?
4 Esquece! Não aguento mais!
Kongpob ouviu os colegas discutirem. Ele também estava
sem forças. Olhou para Arthit, imóvel no alto das
arquibancadas. Seu olhar firme mostrava que não cederia 4
assim como não cedera ao correr 54 voltas sob chuva
torrencial.
Para Kongpob, Arthit era a própria definição de espírito.
Então pensou... até que a resposta brilhou em sua mente.
Virou-se para os outros:
4 Pessoal, me escutem!
Todos os olhos se voltaram para ele, no centro do círculo
de calouros. Kongpob respirou fundo, olhou mais uma vez
para Arthit no alto, e falou:
4 Tenho um plano.
16
Regra numero dezesseis para o calouro:
"Mostre aos veteranos a força do seu
espirito"
O relógio marcava seis e quinze. O sol começava a se pôr
no horizonte, enquanto o "outro sol" permanecia nas
arquibancadas 4 o último obstáculo na conquista da
bandeira da nova geração de engenheiros industriais.
Do seu posto elevado, Arthit observava os calouros
reunidos em círculo. Aos poucos, mais veteranos chegavam ao
estádio, curiosos para ver a prova final. Os rumores sobre a
dificuldade extra imposta por Arthit se espalharam.
Na verdade, a parte mais difícil para os calouros fora o
início. Sem pistas além dos cinco degraus coloridos,
protegidos por cinco veteranos. Arthit achara que levariam
meio dia para decifrar o enigma 4 talvez nem conseguissem.
Ficara surpreso quando, em menos de meia hora, descobriram
que "SOTUS" era a chave.
Talvez tivessem sorte. Ou talvez os veteranos os
subestimassem. Mas Arthit não permitiria que calouros que
nem entendiam SOTUS 4 o conceito mais básico ensinado 4
conquistassem a bandeira.
Porque SOTUS não era só a base das atividades de
recepção. Era a prova de que a engenharia ia além do
profissional 4 era sobre orgulho, tradição e espírito.
Todo ano, na luta pela conquista da bandeira, os calouros
precisavam demonstrar não apenas solidariedade, mas
também outras características essenciais: respeito pelos mais
velhos, união, comprometimento e empatia para ajudar seus
colegas. Esse processo tinha motivos ocultos - durante a
prova, os alunos precisavam se esforçar para recordar os
princípios do sistema SOTUS para superar os obstáculos,
claro, apenas se os veteranos considerassem que haviam
cumprido suas tarefas com dedicação.
A última etapa, representada pela letra S de "Espírito",
não era um obstáculo simples. Uma simples salva de palmas
não bastaria, especialmente com um líder rigoroso como Arthit
decidindo seu destino. Ele observava os calouros de cima,
como se fosse o pico de uma montanha intransponível. Os
estudantes se esforçavam para impressionar aquele juiz
severo, mesmo com o tempo se esgotando. Seus rostos ficavam
cada vez mais tensos enquanto discutiam estratégias, até que
finalmente Arthit os viu se levantarem, como se tivessem
encontrado uma solução.
O líder da recepção observou os calouros se aproximarem
das arquibancadas. Naquele momento, não conseguia
adivinhar seu plano, mas sabia exatamente quem era o
responsável por ele - o mesmo calouro que sempre liderava o
primeiro ano, cujo rosto insistente parecia um ímã para seu
olhar. O jovem se separou do grupo e começou a subir os
degraus, um a um, até ficar cara a cara com Arthit. Os
veteranos observaram surpresos enquanto seu líder encarava
o calouro 0062, Kongpob, aquele que sempre o desafiava.
4 O que você quer? 4 Arthit perguntou com firmeza.
4 Estou aqui como representante do primeiro ano e
gostaria de convidá-lo a descer ao estádio.
A abordagem direta de Kongpob deixou Arthit
momentaneamente confuso. Seus lábios se apertaram em
indignação. Como aquele calouro ousava pedir que ele
simplesmente descesse? Como se vencer seu nível fosse tão
fácil! Enquanto nos outros obstáculos os novatos haviam se
esforçado, Kongpob chegava com sua confiança habitual,
pedindo que Arthit fosse até eles sem qualquer demonstração
de habilidade. Achavam mesmo que ele cederia tão
facilmente? Que ignorassem completamente a dignidade de
seu cargo como líder da recepção!
Sua insatisfação crescia, mas ele controlou a raiva e
respondeu com moderação:
4 Não vejo razão para descer.
4 Meus amigos e eu queremos mostrar a força do nosso
espírito 4 Kongpob explicou, fazendo Arthit entender que os
calouros planejavam alguma demonstração. Embora menos
ofendido por não estarem subestimando seu papel, Arthit não
facilitaria - especialmente com Kongpob como representante.
Quantas vezes haviam conversado sem que algo desse errado?
Arthit lembrou da última vez, no jantar dos veteranos,
quando soube que Kongpob queria estudar economia, não
engenharia. Então por que ele insistia tanto em participar das
atividades da faculdade? De que adiantaria conquistar a
bandeira se ele planejava mudar de curso?
Mesmo assim, ali estava Kongpob, com sua confiança
irritante, desafiando Arthit mais uma vez. O líder decidiu não
facilitar - especialmente para ele.
4 Demonstrar espírito? Primeiro pergunte-se se tem o
que é preciso para ser um engenheiro! Eu avisei: se não agir
com o coração, não é digno de ser um calouro do nosso
departamento. 4 Arthit sorriu com ironia, e Kongpob sentiu a
dor das palavras.
Mas ele esperava por essa reação. Sabia que Arthit ainda
estava bravo por sua declaração naquela noite. Mesmo assim,
assumira o risco de representar os calouros. Impulsionado
pelo momento e pelo apoio dos colegas, Kongpob resistiu à
tentação de responder no mesmo tom - isso só pioraria as
coisas. Eles estavam com pouco tempo, e ele precisava
transmitir seu entendimento sobre o "espírito" sem
mal-entendidos.
4 P'Arthit 4 chamou o calouro com voz suave, pedindo
atenção.
Arthit olhou sem entusiasmo para Kongpob, que estava
um degrau abaixo. Quando seus olhos se encontraram, o
calouro explicou:
4 Admito que no início não queria estudar engenharia,
mas isso não significa que me arrependa. Estou feliz e
orgulhoso por ter essa oportunidade, por conhecer colegas
maravilhosos e dedicados, que se esforçam todos os dias para
provar a vocês, veteranos, que somos dignos. Se não acredita
em minhas palavras, por favor, venha conosco. Quero mostrar
a você.
O discurso foi recebido com uma salva de palmas dos
calouros. Arthit já ouvira aquele som antes - quando
expulsara Kongpob das reuniões. Por mais estranho que
parecesse, as palavras do calouro o acalmaram um pouco. Ele
se conteve, não por falta de argumentos, mas para evitar uma
discussão pública.
Em silêncio, Arthit observou as fileiras de calouros, todos
com olhares esperançosos. Ele poderia prolongar a espera até
quase o fim do prazo, mas decidiu ver como pretendiam
demonstrar seu "espírito". Afinal, a decisão final ainda era
dele.
4 Muito bem, eu desço.
A resposta fez surgir um sorriso de alívio no rosto de
Kongpob, que se afastou animado, abrindo caminho. No
estádio, diante dos calouros, Arthit encarou Kongpob:
4 Estou aqui. Então, como vão demonstrar esse
"espírito"?
Kongpob, posicionado à frente dos colegas, respondeu em
voz alta:
4 A força do nosso espírito vem de nossos respeitados
veteranos - e de você. Se não nos tivesse mostrado o que é ter
espírito forte, não teríamos um exemplo a seguir. Por isso,
queremos agradecer seu tempo e esforço, e aos veteranos que
nos ensinaram o espírito de um engenheiro.
Enquanto Kongpob falava, os calouros se alinharam em
um grande círculo, deixando Arthit no centro. Cerca de
duzentas pessoas formaram aquela roda, deixando o líder
genuinamente confuso.
O que significava aquilo? Qual era o plano de Kongpob? E
quando dizia que seu espírito vinha dos veteranos...
esperavam que bajulações funcionassem?
Não precisou esperar muito. Kongpob, também parte do
círculo, deu um passo à frente e ordenou:
4 Calouros da Faculdade de Engenharia! Preparem-se
para demonstrar a força de seu espírito! Comecem!
E então Arthit ouviu, de todos os lados, a demonstração
que os calouros queriam fazer - expressa em uma única
palavra:
4 Obrigado, P'Arthit, por suas lições! 4 gritaram em
uníssono.
4 Obrigado, P'Arthit, do fundo do meu coração! 4 a voz
de Kongpob se destacou, enquanto os agradecimentos
ecoavam na mente do líder.
Ali estavam eles, formando um círculo perfeito, cada um
expressando gratidão àquele que não poupou esforços para
liderar as reuniões sob sol escaldante, com a garganta
dolorida. O homem que personificava a última letra de SOTUS
- o Espírito que não significava apenas força mental, mas
também a vontade de compartilhá-lo com os outros.
Após alguns minutos, Kongpob deu a ordem final:
4 Calouros! Cantem o hino da faculdade e da
universidade para nossos veteranos ouvirem!
Todos os calouros se abraçaram pelos ombros e
começaram a cantar os hinos que os representavam. Estavam
exaustos após as provas anteriores, com vozes roucas de tanto
gritarem seus agradecimentos ao líder da recepção, mas
mesmo assim, seu espírito não fraquejava. Os veteranos nas
arquibancadas observavam surpresos - nunca antes calouros
haviam ousado desafiar o líder da recepção daquela maneira.
A cena de duzentos alunos cantando em uníssono era
impressionante, transbordando espírito e paixão. Mas,
aparentemente, não comoveu Arthit.
Quando os cânticos terminaram, Arthit permaneceu em
silêncio. Seus punhos se cerraram com força, seu corpo tremia
levemente, como se estivesse furioso. Após alguns segundos
eternos, ele gritou:
4 Vocês acham que essa apresentação desorganizada vai
fazer vocês passarem na prova mais importante? Estão
enganados! Eu não dou minha aprovação! 4 Ele saiu
abruptamente do círculo, empurrando os calouros que
estavam no seu caminho de volta ao topo das arquibancadas.
4 Ele disse que não aprova... 4 Kongpob sentiu seu
ânimo desaparecer ao ver Arthit se afastar.
Eles haviam falhado. Ele havia falhado com todos. Afinal,
fora seu plano. A ideia surgira quando Em mencionou o dia em
que Arthit correu pelo estádio e recusou ajuda. O líder
demonstrara um espírito tão forte que todos reconheceram
como um grande feito. Então Kongpob sugerira mostrar sua
gratidão e admiração, esperando que Arthit entendesse seu
desejo pela bandeira.
Mas no final, o plano falhou. Arthit não só recusou abrir
caminho para a bandeira, como parecia estar furioso.
Kongpob só conseguira levar seus amigos ao fracasso. Tudo
que lhe restava era pedir desculpas, embora ninguém o
culpasse - a decisão fora tomada em conjunto, por votação.
Agora, só restava pensar em um novo plano.
Um veterano olhou para o relógio, e os calouros se
horrorizaram ao perceber o motivo. O ponteiro marcava sete
da noite. Nesse momento, Knot subiu ao degrau mais alto e
anunciou com voz trovejante:
4 Calouros! 4 Todas as faces se viraram para ele 4
Formem filas! Seu tempo acabou!
Sem alternativa, os novatos correram para suas posições.
Muitos ainda olhavam para a bandeira com esperança.
Kongpob, ao contrário de alguns, estava desanimado - todos
seus esforços pareciam ter sido em vão.
4 Quem disse que podem olhar para a bandeira? Não têm
esse direito! Baixem a cabeça! 4 As palavras cortantes feriram
muitos, e mesmo os que resistiam acabaram obedecendo.
Alguns se renderam, ombros caídos, lutando contra as
lágrimas.
O sol já havia desaparecido há muito, e o estádio estava
envolto em escuridão. De repente, até os holofotes se
apagaram, como num teatro sinalizando o fim da peça. Um
silêncio tenso tomou conta do local.
Então, inesperadamente, vozes suaves começaram a
ecoar. Os calouros buscaram a origem do som, que crescia a
cada segundo. A surpresa foi maior ao ver de onde vinha:
veteranos e membros do grupo de animação marchavam em
sua direção, carregando um enorme arranjo floral tailandês e
pequenas velas. A luz das chamas dissipou a escuridão nos
corações dos novatos, enquanto o estádio se enchia de
música.
Quando a última nota terminou, muitos ainda estavam
confusos, enquanto outros começavam a entender. O silêncio
persistia - ninguém sabia como reagir.
Finalmente, para alegria geral, Knot falou novamente:
4 Calouros! Escolham um representante e o enviem aqui!
Empurraram Tew para frente. Ele caminhou
timidamente, temendo outra rejeição. Knot ainda estava no
primeiro degrau, bloqueando o caminho. O veterano o estudou
por alguns segundos, então se afastou e apontou para cima:
4 Pode subir e pegar a bandeira do seu curso. 4 A frase
foi recebida com suspiros de alívio.
Todos os olhos seguiram Tew enquanto ele subia e erguia
a bandeira, declarando vitória. O estádio explodiu em
aplausos.
Começou então a cerimônia de iniciação, onde os
veteranos amarravam pulseiras de fio branco nos pulsos dos
calouros, reconhecendo-os oficialmente como os mais novos
membros da faculdade. Até os líderes mais severos mostraram
rostos amigáveis, aliviando a tensão.
Todos estavam unidos, veteranos e calouros
compartilhando aquele momento. Exceto uma pessoa.
Kongpob procurou Arthit com o olhar, até que ele
desapareceu de vista. Preocupado, Kongpob quis saber por
que Arthit os rejeitara inicialmente, se depois permitiram
pegar a bandeira. Talvez tivesse irritado o líder - precisava se
desculpar. Enquanto os outros formavam filas para receber
mais pulseiras, ele escapuliu para as áreas escuras do
estádio.
No caminho, encontrou Fang.
4 Kongpob, espere! Deixe-me amarrar uma pulseira no
seu braço! 4 Ele estendeu o pulso direito, e Fang amarrou o
fio branco com um sorriso. 4 Desejo que você tenha quatro
anos felizes na universidade, dando seu melhor! Que boas
oportunidades surjam nos estudos... e no amor! 4 Ela piscou
na última palavra.
4 Obrigado! 4 Kongpob agradeceu sinceramente.
Sentia-se feliz por ter veteranos tão maravilhosos. Estava
orgulhoso de ser um calouro de engenharia, e queria que uma
pessoa em especial soubesse disso. Mas ela não estava ali.
Decidiu arriscar:
4 Fang, você sabe onde está P'Arthit?
4 Arthit? Acho que o vi atrás das arquibancadas. 4 Ela
respondeu com um sorriso contido.
Antes que Kongpob pudesse agradecer, ela pegou outro
fio branco e colocou em sua mão.
4 Espero que você o encontre. 4 Fang sorriu e foi
embora, deixando Kongpob com o fio na palma da mão.
Sem pensar, ele seguiu para as arquibancadas, onde a
escuridão era mais confortável. Na fraca luz, conseguiu
distinguir a silhueta familiar de um homem de costas.
4 P'Arthit! 4 Kongpob chamou, com uma emoção que
nem ele mesmo esperava.
O dono do nome fez uma careta de surpresa e se virou.
Kongpob estremeceu ao ver o rosto do líder da recepção. Não
havia traço de raiva ou fúria, mas marcas úmidas escorriam
por suas faces. Seus olhos estavam vermelhos.
Um nó se formou na garganta de Kongpob, que não
resistiu a perguntar ansioso:
4 P'Arthit, aconteceu algo ruim?
4 Não, só estou com calor e lavei o rosto. O que você
quer? Tem algum problema? 4 Arthit rapidamente recolocou
sua máscara séria, com a habitual impaciência que
demonstrava ao falar com ele. Mas Kongpob já conhecia seus
hábitos, e aquela reação típica só o fez persistir em seu
objetivo principal.
4 Não, nenhum problema.
4 Bom, se não é nada, volte ao estádio. Não deveria
perder o ritual de iniciação 4 o líder da recepção disse,
passando a mão pelos olhos antes de começar a andar, dando
as costas a Kongpob.
Estava prestes a acelerar o passo quando as palavras de
Kongpob o fizeram parar:
4 Espere, P'Arthit! Pode amarrar minha pulseira? 4
Kongpob estendeu o cordão branco. Arthit ficou em silêncio ao
ver o fio em sua mão.
O líder não sabia de onde o calouro conseguira uma
pulseira sem amarrar, mas pela tradição, como veterano,
deveria amarrá-la no pulso do mais novo. Kongpob entregou o
cordão e estendeu a mão direita, onde já havia uma pulseira,
mas mudou de ideia.
4 Melhor deste lado 4 tirou o relógio do pulso esquerdo e
o ofereceu a Arthit.
4 Por que você tem que complicar tudo? 4 Arthit
resmungou, mas amarrou o fio no pulso de Kongpob antes de
dizer em voz baixa palavras importantes:
4 Cuide da bandeira do curso por mim. 4 Uma frase
curta, mas de significado profundo. Ao dizê-la, Arthit
confirmava que Kongpob era parte da comunidade de
engenharia.
4 Vou protegê-la com toda a força do meu espírito 4
Kongpob garantiu, sorrindo. Arthit, recuperando seu jeito,
começou a ficar irritado.
4 Tanto faz.
4 Obrigado, P'Arthit!
4 De nada 4 o líder respondeu sem entusiasmo, virando
para ir embora quando Kongpob o impediu novamente.
4 P'Arthit, espere!
4 O que mais você quer agora? 4 Arthit estava irritado
por ser interrompido outra vez.
Olhou para o calouro, cujo rosto mostrava que tinha uma
ideia em mente. Suas palavras fizeram Arthit abrir os olhos
incrédulo:
4 Da próxima vez que quiser chorar, não se esconda. Eu
posso ajudar a secar suas lágrimas.
4 Kongpob! 4 Arthit gritou furioso.
O calouro não ouviu os xingamentos que seguiram, pois
saiu correndo de volta ao estádio. Arthit estava com razão
muito bravo, mas desta vez Kongpob quis irritá-lo de
propósito, só para fazê-lo esquecer a tristeza.
Não importava quão estranhas fossem suas intenções,
pois não havia peso no coração como na última briga. Talvez
porque Kongpob sentisse seu coração cada vez mais próximo
de Arthit, mesmo que só um passo de cada vez.
17
Regra numero dezessete para o calouro: "A
atitude na recepçao nao reflete a verdadeira
natureza"
Eram tempos difíceis para os calouros. Nesses dias, só
havia um evento importante em suas mentes: os temidos
exames finais de semestre, que começariam em uma semana.
Para os novatos, parecia que o semestre mal havia
começado. As atividades de recepção ainda estavam frescas na
memória, e já haviam participado da cerimônia onde foram
reconhecidos por conquistar a bandeira da faculdade 4
motivo de grande orgulho. Agora, só queriam relaxar e se
divertir.
Mas a vida de estudante não era fácil, e a realidade logo os
atingiu. Para alguns, aquilo nem podia ser chamado de vida
acadêmica 4 o estresse fazia a faculdade parecer um inferno.
Os veteranos eram mais compreensivos, pois sabiam que as
provas universitárias eram muito mais difíceis que as do
ensino médio. Se não atingissem a pontuação mínima, nem os
professores poderiam ajudá-los.
Além disso, corriam o risco de reprovar em disciplinas
importantes, atrasando seus planos de estudo e tendo que
cursar matérias com calouros 4 um golpe no orgulho de
qualquer engenheiro. Alguns alunos do quarto ano ainda não
se formavam por esse motivo, tornando-se "recursantes".
O maior vilão era o temido Cálculo I, onde a maioria tirava
notas insatisfatórias. Os professores dessa disciplina eram
famosos por sua severidade. Passar era considerado sorte;
tirar nota excelente, um milagre.
Muitos estudantes iam a templos rezar por ajuda nos
exames, embora soubessem que, no fim, só podiam contar
com seus conhecimentos. E, talvez, com a ajuda dos
veteranos, que já haviam passado por isso.
Não importava quão bons fossem os professores, análise
matemática dava dor de cabeça em qualquer um. Estudar era
difícil, e isso era normal.
Em estava ao lado de Kongpob, calculando a derivada de
uma função com a tabela de fórmulas básicas ao lado. Era
uma operação simples, usando a regra da cadeia. Olhou para
a folha de Kongpob e, com inveja, resmungou:
4 Disseram que o vestibular era o mais difícil! E olha
isso! Fiz dez exercícios e nenhum saiu certo. Quero voltar pro
ensino fundamental!
4 Calma, tenha paciência. Depois das provas vamos
viajar 4 o tutor veterano animou os calouros ao redor.
A última frase fez todos franzirem a testa:
4 Viajar? Para onde?
4 Vocês não sabem? Depois dos exames, os veteranos
levam os calouros para um acampamento na natureza.
Ao ouvir a resposta, Kongpob se distraiu, esquecendo o
procedimento matemático. Ele olhou para cima.
A viagem escolar com os veteranos era uma tradição da
faculdade de engenharia, realizada todo ano. O evento contava
com a participação de alunos de todos os anos e alguns
professores responsáveis pela segurança. Diferente das
atividades de recepção, essa viagem prometia ser divertida.
4 Você sabe para onde vamos? 4 Kongpob entrou na
conversa, mas o tutor apenas balançou a cabeça
negativamente.
4 Não sei ao certo, mas um professor mencionou que
seria perto do mar. Talvez uma praia.
A praia mais próxima era Rayong, seguida por Hua Hin
ou Cha-am. Kongpob estaria disposto a ir a qualquer lugar
para se distrair. Fazia tempo que não sentia a areia entre os
dedos ou entrava no mar. A ideia de uma festa na praia era
tentadora.
Os pensamentos de Kongpob foram interrompidos por
Em:
4 Tem certeza que os veteranos vão mesmo nos levar?
Eles ainda não nos deram as engrenagens... tenho minhas
dúvidas.
Embora já fossem oficialmente reconhecidos como alunos
do departamento, os veteranos ainda não haviam entregado os
símbolicos engranajes. Os calouros suspeitavam de outra
prova surpresa para conquistá-los - e depois do último
desafio, nem queriam imaginar o quão difícil seria.
Como se tivessem sido invocados pelo pensamento, os
veteranos da recepção apareceram no corredor. Para azar dos
calouros, se dirigiram à sua mesa. Algumas veteranas até
gritaram animadas ao vê-los. Eles vinham da academia,
provavelmente de um treino noturno. Por educação, os
calouros se levantaram para cumprimentá-los, inclinando a
cabeça em respeito.
Arthit, o líder da recepção, estava com o grupo. Em vez de
retribuir a saudade, ele ignorou os calouros e falou
diretamente com Tim, o tutor:
4 Tim, o que você está fazendo?
4 Estou ajudando com Cálculo 4 respondeu Tim,
hesitante. 4 Já que você está aqui, sabe o que cai na prova de
Cálculo I?
Tim tentou aproveitar para conseguir dicas, mas como
sempre, Arthit apenas fez uma careta:
4 Faz dois anos! Como vou lembrar? Só sei que no nosso
ano só cinco passaram, e mais da metade teve que refazer.
Típico do líder da recepção - em vez de ajudar, só
intimidou. E como se não bastasse, Knot decidiu contribuir:
4 Lembro que o tempo estava acabando e eu não sabia
nada. Escrevi algumas preces atrás da folha e no final passei!
Os veteranos riram, enquanto os calouros não sabiam se
era brincadeira. Outro veterano continuou:
4 Isso não é nada! Eu deixei a folha em branco e desenhei
um retrato da professora. Ficou tão bom, tão detalhado... Ela
sempre me via estudando, achei que daria certo.
O orgulho na voz do veterano fez todos rirem, até Arthit
erguer uma sobrancelha cética:
4 E aí? Passou?
4 Não! Todo meu esforço foi pro lixo. A vida não é justa!
4 A explosão de risos dos veteranos contrastava com a
decepção dos calouros.
Entre as risadas, Arthit se apoiou na mesa:
4 Bom, vamos indo. Continuem estudando. Se não
passarem, sempre podem refazer no próximo ano.
4 Arthit! Por que é tão duro com eles? Deseje boa sorte!
4 Tim interveio.
4 Tá bom! 4 Arthit resmungou, mas foi interrompido por
um veterano de aparência chinesa que juntou as mãos em
prece.
4 Isso é uma bênção ou maldição? 4 Arthit franziu os
lábios. 4 Você nem passou, como vai abençoar alguém?
4 Então faça você, seu perfeito! 4 os amigos desafiaram.
Arthit deu um passo atrás, cruzou os braços e olhou
severamente para os calouros:
4 Se falharem nessa prova insignificante, não têm
habilidade para engenharia. Se não servem para esta
faculdade, não têm futuro!
Longe de ser uma bênção, era uma provocação. Alguns
calouros ficaram desanimados, mas Arthit continuou:
4 Perdedores assim, quem vai contratar? Vagabundos
que serão rejeitados pelas mulheres, afogando as mágoas no
álcool, miseráveis sem dinheiro até para um quarto, dormindo
nas salas de aula. Os professores vão repreendê-los pelo visual
lastimável. Vão pedir dinheiro emprestado, acumular dívidas
impagáveis, aceitar trabalhos duvidosos... Com sorte, comerão
uma vez por dia 4 se ainda tiverem amigos, porque com esse
futuro, quem vai querer?
A fala soava estranhamente específica, como se não fosse
para eles. O veterano chinês interrompeu:
4 Arthit, está insinuando algo?
Os veteranos caíram na risada, deixando os calouros
horrorizados. Então, inesperadamente, Arthit suavizou a
expressão:
4 Não se preocupem, as questões não são tão difíceis.
Vocês podem passar. Eu acredito.
Foi genuíno. Pela primeira vez, o líder da recepção soou
sincero. Os rostos dos calouros se iluminaram com esperança.
Um leve sorriso apareceu no rosto normalmente
impassível de Arthit, seus olhos perdendo a severidade
habitual. Havia um charme especial naquela expressão que
Kongpob não conseguia explicar.
4 Vamos, estou com fome 4 disse Knot, levando o grupo
para o refeitório e deixando os calouros estudando.
4 Hoje vimos o verdadeiro rosto dos veteranos! 4 Tim
comentou, confuso.
4 Desde que as atividades terminaram, eles mudaram!
Até ficaram agradáveis! O que você acha, Kongpob? 4 Em
pediu a opinião do amigo.
4 Sim 4 Kongpob respondeu brevemente, seus olhos
ainda seguindo a silhueta de Arthit que se afastava no
corredor.
À sua frente, as garotas comentavam animadas:
4 Vocês viram ele sorrir? Foi adorável! Até esqueci que
tinha medo dele.
4 Fala por si! Ouviu o que ele disse? O cara é meio
maluco.
4 Sim, mas isso não o torna menos interessante! Eu
gosto mais quando ele olha com aquele olhar de aço, tão
durão, é fascinante!
4 Meninas! Chega de conversa, temos que continuar
estudando! Agora, todos na página vinte e dois do livro, leiam a
definição de derivada de uma função 4 ordenou o tutor.
Os calouros silenciaram e voltaram sua atenção para o
livro. Kongpob também tentou se concentrar no assunto.
Os números na folha pareciam resistir a entrar em seu
cérebro. Talvez porque os problemas fossem realmente
difíceis, como Em reclamara, ou por outra razão que Kongpob
conhecia mas não queria admitir.
Ele ouviu as explicações do tutor sem absorver
completamente. Mesmo assim, permaneceu até o fim da
monitoria, que terminou quase às oito da noite.
Kongpob se despediu dos amigos, subiu em sua moto e
rumou para o dormitório. Antes de entrar, decidiu comprar
algo para comer 4 queria encher o estômago depois de passar
a tarde tentando fazer o mesmo com o cérebro. E
provavelmente ficaria acordado até tarde revisando o
conteúdo.
Em vez de ir à lanchonete em frente ao apartamento,
dirigiu-se a uma loja de conveniência Seven Eleven próxima,
querendo comprar café e arroz instantâneo.
A porta automática se abriu e Kongpob entrou. Dirigiu-se
à máquina de bebidas num canto e, para sua surpresa,
avistou ali um homem distraído escolhendo chá verde... Era
exatamente a pessoa que não conseguia parar de olhar horas
antes. Kongpob não resistiu à vontade de falar com ele.
4 Não vai levar leite rosa hoje, P'Arthit?
O líder da recepção segurava um copo de chá e quase se
queimou ao se assustar. A expressão irritada surgiu
imediatamente em seu rosto, mas ele se recuperou para
responder:
4 A loja está fechada.
Kongpob assentiu, hesitou, então ousou perguntar:
4 Alguém mais sabe que você gosta de leite rosa?
Arthit franziu o nariz, apertando o copo com tanta força
que quase derramou o líquido. Olhou furioso para o calouro,
com voz ameaçadora:
4 Por que tanta curiosidade? Quer contar pros seus
amigos?
Kongpob negou com a cabeça antes de se explicar:
4 Não, só queria saber... Então você não conta pra
ninguém que ama leite rosa?
4 Claro que não! 4 Arthit gritou. Alguns amigos sabiam,
mas por que o líder da recepção sairia por aí anunciando seu
gosto por leite rosa? E por que 0062 estava tão interessado
nisso?
Ele chegou a uma conclusão: Kongpob só queria tirar
sarro dele.
A convicção se fortaleceu quando o calouro continuou:
4 Alguém sabe que você se escondeu atrás das
arquibancadas para chorar?
A pergunta fez Arthit ferver de raiva. Uma onda de
vergonha invadiu seu estômago, seu rosto avermelhou e ele
protestou rapidamente:
4 Ninguém sabe, e nem pense em contar!
4 Alguém sabe que seu apelido é Oon?
Arthit cerrou os dentes, genuinamente furioso.
4 Kongpob, se você sair por aí contando coisas que me
envergonham, vai ter que me enfrentar!
Falou tão alto que atraiu a atenção de todos na loja. Mas
não percebeu, seus olhos fixos em Kongpob 4 se olhares
matassem, o calouro já estaria morto.
4 Não vou contar pra ninguém.
Kongpob esperou para ver se suas palavras acalmavam
Arthit, mas ele não respondeu. Virou-se e foi direto ao caixa,
como se não estivesse interessado. Kongpob, mesmo ignorado,
seguiu-o, sentindo-se culpado por tanta curiosidade... e até
um pouco ciumento das respostas que obtivera.
4 P'Arthit, eu...
4 Quando é sua prova de cálculo?
A pergunta o pegou desprevenido, sem tempo para se
desculpar.
4 Quarta-feira 4 respondeu Kongpob.
Arthit ficou em silêncio por um tempo, tanto que Kongpob
pensou que ele não sabia como dar uma palavra de incentivo.
Mas o que saiu da boca de Arthit não foram encorajamentos.
4 Seu professor gosta de colocar vários problemas de
derivadas compostas. Estude isso.
Foi tudo. Nenhuma provocação ou ameaça. Apenas uma
dica para a prova. Kongpob sorriu sem perceber.
4 Entendido. Obrigado, P'Arthit.
Depois da resposta, Arthit saiu apressadamente.
Kongpob sentiu o impulso de impedi-lo, mas seus pés não se
moveram. Seu coração batia acelerado, sua mente confusa.
Sentiu alívio por Arthit não estar bravo. E arrependeu-se
de não ter feito as perguntas que realmente queria 4 tão
pessoais que nem ousava dizê-las em voz alta.
Tudo que Kongpob queria saber era...
Alguém sabia como Arthit era maravilhoso?
Alguém notara sua natureza gentil?
Só ele via o quão perfeito era?
E, acima de tudo, desejava ter certeza de que Arthit
entendesse: ele não queria que ninguém mais soubesse disso.
18
Regra numero dezoito para o calouro: "Nao
deve preocupar os veteranos"
4 Kongpob e Em, sua cor é laranja. Peguem suas fichas e
entrem no ônibus três.
Kongpob e seu melhor amigo Em esperavam por Fang no
pátio da Faculdade de Engenharia, onde os calouros se
reuniram às seis da manhã para receberem suas
identificações.
Embora o horário oficial fosse no amanhecer, chegaram
quando ainda estava escuro 4 às cinco, pois os veteranos
ameaçaram deixá-los para trás se não aparecessem cedo. Mas
nem eles cumpriram a promessa, só aparecendo na hora
certa.
Os calouros estavam animados para o mergulho no mar
de Rayong 4 uma viagem de dois dias e uma noite. Alguns
felizes por não precisarem gastar nada, já que os veteranos
prometeram custear tudo. Só precisavam levar uma mala com
algumas trocas de roupa e muita expectativa.
Mas, no fundo, alguns duvidavam da generosidade dos
veteranos. Nada na vida era de graça, e aquela viagem não
parecia um simples passeio turístico. Tudo gritava que havia
um propósito oculto.
4 P'Fang, a próxima prova dos veteranos é muito difícil?
4 Kongpob ouviu Em perguntar à veterana com voz
apreensiva.
O objetivo secreto da viagem era avaliar a organização dos
calouros num ambiente descontraído, sem que soubessem do
teste. Era natural que estivessem tensos, tentando adivinhar
quão severos os veteranos seriam antes de deixá-los
aproveitar.
Kongpob, como os outros, estava desconfiado. Então a
voz animada de Fang ecoou perto do ônibus:
4 Calouros, aproveitem a viagem! E não, não haverá
provas difíceis! Isso é só uma desculpa dos veteranos
estressados para ir à praia. Relaxem, vamos nos divertir!
Depois de ouvirem as palavras animadoras de Fang,
Kongpob e Em olharam ao redor. Os murmúrios crescentes
dos colegas indicavam que estavam começando a acreditar no
que ela dissera. O clima daquela manhã era descontraído,
como se fosse um acampamento de diversão.
Na tela LED frontal do ônibus, acenderam-se letras
luminosas que os encheram de entusiasmo: "Rayong". Mas o
fantasma da desconfiança logo retornou - será que haveria
algum truque por trás disso?
A administração do departamento permitira que todos os
calouros participassem, pois era considerado um grande
evento para toda a faculdade de engenharia. Representantes
de todos os departamentos, vários veteranos e professores que
cuidariam dos calouros, todos rumavam ao mar para
desfrutar de alguns dias na praia.
No total, eram cerca de trezentas pessoas distribuídas em
cinco ônibus. Alguns membros do grupo de animação até se
infiltraram nos ônibus dos calouros para participar. Além dos
ônibus, havia dois carros extras dirigidos por professores para
emergências.
Os calouros foram divididos em grupos, cada um com
uma cor designada e crachás de identificação. A primeira
parada não foi direto na praia. Desceram para apreciar uma
reserva natural e ouvir um especialista falar sobre plantas
medicinais cultivadas ali, além de admirar as aves e árvores. A
maioria se divertiu tirando fotos - dos pássaros, dos amigos -
que mais tarde postariam nas redes sociais.
A voz de uma garota chamou a atenção de Kongpob:
4 P'Arthit, podemos tirar uma foto com você?
4 Claro, adoraria! 4 Arthit sorriu encantadoramente
para o grupo de garotas que o cercou para fotos.
Kongpob não sabia porque os alunos queriam fotos com
os veteranos. Talvez como lembrança das atividades de
recepção, ou porque desta vez eles haviam trocado as
habituais camisetas pretas por roupas coloridas. A maioria
vestia trajes de praia - bermudas, chinelos, chapéus de palha
e óculos escuros, num clima claramente festivo.
Os membros da recepção criavam uma atmosfera alegre
ao redor. A postura séria e indiferente que mantinham
durante as atividades havia desaparecido, despertando a
curiosidade dos calouros que os seguiam por toda parte como
se fossem celebridades.
É claro que os veteranos não envolvidos na recepção logo
começaram a comentar com inveja. Os calouros também:
4 Olha as garotas! Há pouco estavam com medo dos
veteranos, agora não param de pular ao redor deles.
4 Que seja! Quando chegarmos na praia vou tirar a
camisa e elas vão se impressionar com meu tanquinho!
4 Tanquinho ou pança? A única coisa que sobressai na
sua camisa é sua barriga! Ninguém quer que você tire a
camisa, vai assustar as meninas!
4 O que você acha, Kongpob? Aposto que com você elas
vão querer.
Kongpob permaneceu em silêncio, ouvindo as conversas
do grupo laranja enquanto observava os veteranos sendo
fotografados, até ouvir seu nome. Ele inclinou a cabeça:
4 Não sei, não gosto de nadar no mar.
Encolheu os ombros. Era verdade. Para ele, praia e nadar
no mar eram coisas diferentes. Não entrava no mar desde o
primário, quando a sensação viscosa e o gosto salgado da água
ficaram grudados nele por horas. Pretendia apenas relaxar na
areia, apreciando a brisa e a vista.
4 Pense de novo, Kongpob! Fomos até lá pra isso! Você
precisa entrar no mar!
4 E temos que roubar a atenção das garotas dos
veteranos!
Os colegas insistiam, sem que Kongpob entendesse o
motivo - ignorando que era óbvio. Como "astro da
universidade", ele era a esperança do grupo para atrair as
garotas, já que no departamento de engenharia havia poucas
alunas.
4 Imagine as garotas no mar, devem estar lindas!
4 Kongpob, não pode deixar os veteranos levarem toda a
atenção! Veja na sua cabeça: você, as garotas, nós, e os
veteranos com inveja na areia!
Os rapazes riram do entusiasmo exagerado do colega
tentando convencer Kongpob, que não teve tempo de
responder quando uma voz familiar soou atrás deles:
4 Entendo, mal podem esperar para entrar no mar, não
é?
Todos congelaram ao ver a expressão severa do homem
atrás deles. A camisa azul vibrante contrastava com a
escuridão em seu olhar. Era o líder da recepção, visivelmente
furioso.
Kongpob não sabia há quanto tempo Arthit estava ali,
mas foi o suficiente para ouvir as provocações.
Arthit cruzou os braços e sorriu com hostilidade:
4 Não se preocupem, eu mesmo vou me encargar de
organizar tudo conforme suas expectativas. 4 A falsa
benevolência em sua voz os horrorizou.
Todos esperavam um castigo imediato, mas nada veio -
pelo menos não naquele momento. Arthit virou e voltou ao seu
grupo, deixando-os à mercê do destino.
4 É culpa sua! Tudo isso porque não sabe ficar quieto! 4
Em culpou o colega que queria nadar.
Kongpob suspirou, resignado. Imagina que teria mesmo
que entrar no mar, algo que absolutamente não queria. Arthit
certamente planejaria algo envolvendo nadar, como prometera
- e conhecendo-o, não seria nada agradável. Sentia uma raiva
estranha que nem ele mesmo entendia.
Sacudiu a cabeça - estava pensando demais. Para se
distrair, voltou ao ônibus que logo partiria. Passaram horas na
estrada até o sol da tarde começar a incomodar os que
estavam perto das janelas. Finalmente, o ônibus estacionou
num complexo tranquilo à beira-mar, onde o ar tinha um
agradável cheiro de mar e areia.
Kongpob desceu, pegou sua mala e observou com
curiosidade as cabanas estilo bangalô. Além dos quartos,
havia um campo de jogos e um auditório. As palmeiras
proporcionavam sombra agradável, e o som das ondas era
suave e calmante.
Quando todos desceram, os calouros foram convocados
ao auditório para ouvir as regras de conduta durante a
estadia. Mesmo fora da universidade, não teriam liberdade
total - veteranos e professores os monitorariam de perto.
Depois das instruções (que soaram mais como
advertências), formaram-se grupos de vinte pessoas para
compartilhar cada cabana. As chaves foram entregues a um
representante, e todos se dirigiram em grupos menores para
suas acomodações.
Mais tarde, formaram oito grupos de cores diferentes para
participar de provas organizadas pelos veteranos.
Surpreendentemente, eram jogos simples conhecidos por
todos: caixa surpresa com os olhos vendados, guerra de balões
de tinta, corrida num pé só - como brincadeiras de criança.
Ninguém foi punido por perder, exatamente como Fang
prometera.
Algo que deixou os calouros confusos foi quando os
veteranos se acomodaram perto do mar, aparentemente en
encerrando as provas. O grupo de Arthit, que também era
responsável pela recepção, sentou-se à sombra de uma
palmeira. Arthit parecia estar de humor especialmente alegre,
a ponto de começar a cantar enquanto Knot tocava violão.
Naquele momento, sob os olhares curiosos de todos,
Arthit se levantou e acenou com o braço. Seu convite parecia
direcionado a um grupo específico de calouros: as garotas.
4 Moças, por favor, venham sentar à sombra, vamos
tocar algumas músicas para vocês! 4 Arthit se aproximou do
grupo de garotas, deixando clara a exclusão dos outros
calouros.
Apesar da preferência declarada, vários calouros se
acomodaram na areia ao redor, satisfeitos por descansar à
sombra em vez de ficar sob o sol.
Depois de observar os calouros sentados na areia, Arthit
se dirigiu especificamente ao grupo com quem havia falado
naquela manhã:
4 O que vocês estão fazendo aqui? Não estavam ansiosos
para nadar? Não vou obrigá-los a ficar aqui. Levantem-se! Vão
nadar, deixem as camisetas na areia!
Como líder da recepção, Arthit tinha o direito de dar
ordens 4 sua palavra era praticamente lei. Ele não falou em
tom ameaçador, mas a vingança estava clara em seus olhos.
Depois de dar a ordem, voltou ao seu lugar no centro do
grupo de garotas e começou a cantar alegremente. Logo os
outros calouros perceberam que haviam sido enganados 4
ninguém estava prestando atenção neles.
4 Claro, ele nos afasta só para ficar com toda a atenção
das garotas. Esse babaca não consegue ficar um segundo sem
demonstrar poder sobre nós só porque é veterano.
Kongpob ouviu o colega reclamar enquanto observava a
cena: Arthit cantando com um sorriso largo, as garotas
aplaudindo ao redor. Uma raiva crescente tomou conta dele
até que, sem pensar, voltou para a praia.
4 Sou o 0062! Peço permissão para falar!
Todos os olhos se voltaram para a voz forte do calouro.
Arthit parou de cantar, transferindo sua atenção das garotas
para Kongpob. Não era surpresa que o já familiar "herói dos
calouros" interviesse para representar os insatisfeitos. O
incomum era o humor do novato 4 Arthit via Kongpob
visivelmente irritado, à beira de perder a paciência.
Arthit suspirou, olhando-o com desdém:
4 O que você quer?
4 Acho injusto ficarmos sob o sol enquanto vocês cantam
confortavelmente à sombra.
Ao ouvir a reclamação, Arthit arregalou os olhos
genuinamente surpreso. Kongpob já havia reclamado antes,
mas nunca com tanta fúria. Não podendo ficar para trás,
Arthit usou o tom severo das reuniões e se aproximou:
4 Se não aguenta algo tão simples, como vai lidar com o
mercado de trabalho? Nem todo emprego é num escritório com
ar-condicionado, 0062.
4 Eu aguento qualquer coisa! Sei que algumas tarefas
que você passa são úteis, concordo com isso! Mas essa não
tem propósito algum 4 você está sendo injusto.
A resposta de Arthit atingiu Kongpob como um soco.
Percebeu que suas palavras despertaram no veterano um
instinto defensivo irracional e cruel.
4 Entendo. Pode aguentar qualquer coisa? Então vá
sozinho para o mar esfriar a cabeça até esse orgulho passar.
Minha lição é útil o suficiente para você?
A ordem foi dada com tanta força que todos na praia
silenciaram, olhando alternadamente entre Arthit e Kongpob,
que permaneceu quieto por alguns instantes antes de se virar
e ir em direção ao mar.
O calouro mergulhou até a cabeça. Seu corpo e coração
pareciam pesados.
Kongpob não sabia por que começara aquela discussão.
Irritara-se gradualmente com os comentários dos colegas,
internalizando a inveja deles. Era injusto, sim, mas ele
explodiu sem pensar ao ver Arthit rindo, despejando toda sua
frustração.
E, claro, o resultado não foi bom.
Só conseguiu irritar Arthit e ganhar um castigo. Se
pensasse bem, aquela viagem era sua chance de conversar
amigavelmente com o líder da recepção, que parecia
especialmente benevolente. Mas desperdiçara a oportunida 4
culpa unicamente sua.
Arthit estava muito bravo? Kongpob passou a mão no
rosto, lembrando do ódio no olhar do veterano.
Talvez realmente precisasse esfriar a cabeça, como Arthit
dissera. Fechou os olhos e mergulhou na água fria para
acalmar as emoções. Sabia nadar bem, então não houve
problemas 4 ficou submerso tanto tempo que começou a
faltar ar. Quando estava prestes a emergir, sentiu uma força
puxando-o para trás. Ouviu um grito em seus ouvidos:
4 Kongpob, respire! Por favor, abra os olhos!
A primeira coisa que viu foram os olhos assustados de
Arthit. Não entendia o que acontecia 4 ao tentar falar,
lembrou-se do ocorrido. Sentira-se sendo puxado para fora
d'água, engolindo água salgada. Quando tentou falar, só
conseguiu cuspir a água do mar, fazendo Arthit relaxar um
pouco. Percebeu então que o veterano o segurava
cuidadosamente em seus braços.
4 Graças a Deus você está bem. Já chamamos as
enfermeiras, elas não vão demorar. Te deu uma cãibra? Foi
picado por água-viva?
Arthit, ainda horrorizado, gritava para os amigos
apressarem os socorristas. Entre os gritos, a voz suave de
Kongpob surgiu:
4 Não precisa, P'Arthit. Estou bem.
O calouro se levantou, mas não saiu dos braços de Arthit.
4 Como pode estar bem? Você estava se afogando!
4 Só estava nadando.
4 E por que ficou tanto tempo submerso?
4 Você disse para eu esfriar a cabeça. Só segui suas
ordens.
A explicação congelou os espectadores 4 alguns
surpresos, outros horrorizados.
Arthit olhou ao redor, depois para o garoto em seus
braços, e o pânico se transformou em culpa. Então o calouro
estava dizendo que era culpa dele? Que sua ordem de entrar
na água fez Kongpob quase se afogar? Que absurdo. Quem
imaginaria que ele faria isso de verdade? Aquele novato era
insano.
A ansiedade de Arthit cresceu freneticamente, seu corpo
tremia. O líder da recepção cerrou os punhos.
4 Você é burro? Se eu mandar você morrer, vai fazer
também? Use a cabeça!
Na voz de Arthit havia uma mistura de sentimentos, mas
a raiva predominante soava diferente. Ele começou a falar
rápido e baixo, xingando até ser interrompido por uma
enfermeira que chegou com Fang.
4 O que aconteceu?
4 Nada! Todos fora daqui, calouros! Atividades
canceladas hoje! 4 Arthit ordenou, dispersando todos da
praia.
Enquanto os calouros se retiravam em grupos, os
veteranos fizeram o mesmo. Em se aproximou para ajudar
Kongpob a se levantar.
4 O que aconteceu? Você está bem?
4 Sim, está tudo bem.
4 Você tem ideia de como me preocupei? Pensei que você
estava se afogando. Eu avisei aos outros que você estava há
muito tempo na água, e o Arthit foi o primeiro a correr para o
mar.
As explicações de Em fizeram Kongpob enxergar a
situação com mais clareza. Ele pensou na atitude de Arthit
depois de tê-lo tirado da água 4 a voz e expressão assustadas
4 e entendeu que o veterano estava genuinamente
preocupado com ele.
19
Regra numero dezenove para o calouro: "A
engrenagem tem um significado importante"
4 Então, o que você acha, Kongpob? Kongpob? Você está
me ouvindo?
Kongpob voltou sua atenção para a conversa em que seus
amigos estavam imersos. Eles estavam numa das cabanas à
beira-mar, planejando a apresentação daquela noite.
Fragmentos da discussão chegavam até ele, desconexos,
enquanto seus amigos o incluíam nos planos e ele apenas
assentia sem saber ao certo o que estava concordando. Em
algum momento, alguém lhe fez uma pergunta que ele não
ouviu, e todos os rostos se viraram para ele, esperando uma
resposta.
4 Sim, estou ouvindo 4 Kongpob respondeu com um
sorriso, tentando se recompor. 4 Concordo.
Depois de ouvir seu consentimento, May se encarregou de
espalhar a notícia, sem saber que Kongpob não tinha
entendido completamente com o que havia concordado. Sua
mente havia deixado de lado tudo que não fossem os eventos
daquele dia 4 eventos que deixaram uma marca profunda não
só em seu coração e no dos calouros, mas também naquela
pessoa que ele não conseguia parar de pensar.
Arthit estava bravo com ele.
Não como de costume, porque, sendo honesto consigo
mesmo, Arthit vivia irritado com ele. Dessa vez, a raiva era
diferente.
E não era surpresa. Kongpob refletiu tanto sobre os
acontecimentos que queria se bater. Agira de forma estúpida e
impulsiva, sem pensar nas consequências. Só quis extinguir o
calor de suas emoções na água fria, fazendo com que muitos
se preocupassem 4 especialmente a pessoa que lhe dera a
ordem de ir ao mar. O mesmo que foi o primeiro a correr para
ajudá-lo, achando que ele estava em apuros.
Kongpob lembrava do rosto severo de Arthit, a voz ansiosa
e os olhos assustados a centímetros de seu rosto 4 uma
preocupação genuína.
Arthit ficara apavorado com a possibilidade de algo
acontecer a Kongpob. Mas, ao perceber que o incidente
ocorrera apenas por sua estupidez e imprudência, sentiu-se
como se tivesse levado um soco no rosto. Suas intenções foram
jogadas no lixo como uma piada, e toda sua preocupação se
transformou em fúria.
Kongpob queria se desculpar, mas não sabia o que dizer.
Não tinha justificativas. Depois de uma hora vagando pelo
complexo sem encontrá-lo, deixou-se levar pelos amigos até o
refeitório, com o peso da culpa ainda no peito.
Aquela noite haveria uma apresentação dos calouros, e
como Arthit era o líder da recepção, seria obrigado a
comparecer. Kongpob sabia que, fosse o que fosse que
tivessem de fazer, seria difícil 4 era a última batalha que
precisariam enfrentar. E ele estava determinado a provar ao
líder que merecia ser chamado de estudante de engenharia.
E, quem sabe, fazer com que Arthit concordasse em
ouvi-lo.
Após o jantar, os calouros foram instruídos a se reunir no
auditório, onde ocorria uma cerimônia anual com alunos de
todos os anos. O evento começou com um discurso de Dear, do
quarto ano, seguido por músicas tocadas por veteranos que
arrancaram aplausos 4 e gritos das garotas.
Depois de algumas canções, o grupo de animação do
segundo ano fez uma apresentação cômica, contando piadas
com atuações exageradas. Eles adiantaram seu número
porque os terceiranistas disseram não estar prontos. Quando
terminou, era a vez dos responsáveis pela recepção subirem ao
palco 4 o que não aconteceu. Ainda não estavam preparados,
forçando os calouros a adiantarem sua apresentação.
Kongpob entrou em cena para desempenhar seu papel 4
algo não muito difícil. A peça, criada por May, representava o
primeiro dia de um calouro na universidade: fazer novos
amigos, reencontrar antigos, a primeira reunião e os
conselhos dos veteranos.
Ele não era o protagonista, tinha apenas três falas e
pouco tempo no palco. Após sua primeira aparição, afastou-se
para um canto isolado, o que lhe deu a chance de observar a
plateia. Logo avistou um grupo de terceiranistas assistindo 4
entre eles, o rosto que procurava o dia todo.
Alguns calouros ajudavam a preparar o palco para os
veteranos. Kongpob se ofereceu para ajudar, aliviado por ver
Arthit ali, como esperado.
Mas um calafrio percorreu sua espinha quando ouviu as
palavras de um colega no palco:
4 Vê esta engrenagem? É o símbolo do orgulho de um
engenheiro. Se eu não te der, o que você fará?
4 Vou tomá-la de você!
Kongpob virou a cabeça para o palco, horrorizado ao
reconhecer a cena que representava sua primeira discussão
com Arthit 4 aquela frase que usou para provocá-lo,
desrespeitando os mais velhos.
Ele não fazia ideia de que isso estava na peça. Correu até
May, a organizadora:
4 May, por que colocaram essa cena?
Ela pareceu surpresa.
4 Você esqueceu? Perguntei se havia problema em
adicioná-la, e você concordou.
Kongpob emudeceu, forçando a memória. Deve ter sido
quando estava distraído, concordando sem saber. E o pior...
Arthit estava na plateia e ouviria tudo!
A cena continuou, e seu pânico só aumentou.
4 Como pretende tomá-la?
4 Vou fazer você se casar comigo. Afinal, dizem que os
amantes compartilham tudo. Se você for meu, sua
engrenagem também será.
Aplausos e risadas encheram o auditório. O diálogo
estava gravado na memória dos calouros, mas, para o autor
original da frase, os sentimentos não eram de euforia 4
apenas vergonha.
Kongpob percebeu que, desde o primeiro encontro, ele
constantemente se esforçara para irritar Arthit. Se ele tivesse
falado daquela forma com qualquer outro veterano,
provavelmente teria apanhado naquele dia, sendo cercado por
um grupo de seniors irritados com tamanha falta de respeito.
Além disso, Kongpob nem sequer lembrava que suas palavras
tivessem sido tão sugestivas, num tom obsceno e
desrespeitoso.
Ele humilhara Arthit na frente de todos os calouros e do
grupo de trote, e mesmo assim Arthit não retaliara. Sim, o líder
do trote dera-lhe uma punição difícil como pequena vingança
por suas palavras, mas no final, tudo o que Arthit fazia tinha
um propósito cheio de boas intenções. Algo que fazia Kongpob
desejar estar mais perto dele.
Kongpob queria saber tudo sobre Arthit. Mais do que
qualquer outra pessoa. E, quando percebia que a realidade
deles era completamente diferente, Kongpob sentia ciúmes
daquelas pequenas coisas que não sabia sobre ele, ciúmes da
gentileza de Arthit com os outros.
Todas as vezes que Kongpob via Arthit sendo gentil com
alguém, ele sentia uma inveja inexplicável, que o deixava de
mau humor durante grande parte do dia. Tudo porque ele e
Arthit nunca haviam tido uma conversa verdadeira.
Kongpob queria recomeçar com Arthit. Mas não seria
tarde demais para dissipar o sentimento negativo que Arthit
tinha toda vez que eles conversavam? Ele esperava que não.
Kongpob precisava se desculpar, fazer isso e fazer com que
Arthit aceitasse seu arrependimento.
E então, talvez, algum dia, eles pudessem se tornar
próximos.
Mas essa ideia se desvaneceu naquele instante, com os
olhos de Kongpob alternando entre o palco e Arthit, que não
hesitou em correr, cheio de raiva, para interromper a peça. Ele
subiu no palco e gritou com todos no auditório, assim como
fazia na sala de reuniões da faculdade.
4 O que há de tão engraçado, calouros? Eu não estou
rindo. Vocês são muito corajosos para fazer essa encenação.
Acham que depois disso merecem receber as engrenagens? 4
Arthit se dirigiu aos calouros que, minutos antes, estavam
atuando, e congelou o sangue deles com seu olhar furioso. 4
Vocês, saiam do palco!
Os calouros no palco desceram timidamente, tão rápido
quanto puderam, seguindo a ordem à risca. Todos no
auditório estavam apavorados, embora May, que havia escrito
o roteiro da peça, fosse provavelmente a mais assustada.
Supostamente, a peça terminaria com os alunos rebeldes
entendendo a motivação por trás dos castigos dos veteranos e
ficando gratos por eles tentarem corrigir suas ações. Mas o
objetivo final da peça foi por água abaixo quando o líder do
trote impediu que terminassem a apresentação, sendo mal
interpretados.
4 Todos, fechem os olhos! Cabeças abaixadas! Agora!
Os calouros abaixaram a cabeça tão baixo que suas
testas quase tocaram o chão. Foi então que as luzes do
auditório se apagaram subitamente, e a escuridão cobriu o
ambiente, tornando a situação ainda mais sinistra.
Todos os calouros na sala temiam ser punidos com a não
entrega das cobiçadas engrenagens ou, no pior dos casos,
serem submetidos a outra daquelas provas que exigiam
grande esforço, como no dia da luta pela bandeira.
O silêncio tomou conta do auditório por vários minutos,
fazendo com que o medo se instalasse nos corações dos
calouros, que sentiam o peso do momento sobre seus ombros.
E então, de repente, ouviu-se uma contagem regressiva. A voz
não vinha de longe 4 saía dos alto-falantes em frente ao palco.
Uma projeção começou a ser exibida.
Na tela, apareceu um vídeo com os alunos do terceiro ano
enfrentando exercícios semelhantes aos do trote. Depois, foi a
vez dos do segundo ano: o grupo de animação cantando os
hinos da universidade e da faculdade, além da equipe médica
correndo de um lado para outro para dar suporte aos alunos
nas atividades físicas. Por fim, vídeos dos calouros, situações
que eles lembravam bem 4 quando conquistaram a bandeira
e quando ganharam pulseiras brancas amarradas pelos
veteranos para ter sorte nos estudos.
Cada cena do vídeo destacava memórias dos momentos
que haviam passado juntos, transmitindo uma mensagem
sobre amizade, sacrifício e espírito de união. O vídeo durou
apenas dez minutos, mas foi o suficiente para causar uma
impressão tão forte nos calouros que eles não conseguiram
expressar seus sentimentos em palavras.
Então, quando o vídeo terminou e a tela ficou preta por
alguns segundos, uma imagem dos membros do trote
apareceu. Eles estavam sentados em um banco de pedra perto
do prédio principal da faculdade de engenharia. O líder do
trote, Arthit, tinha uma expressão confusa, como se não
soubesse exatamente como agir. Ele então falou com a câmera
4 ou melhor, com quem a segurava.
4 Ei! Já está gravando?
4 Está gravando! Fala!
4 O quê? Por que eu?
4 Você é o líder! Vamos, diga o que quiser!
O homem na tela ainda parecia inseguro e perdido, mas,
após fazer uma careta para a câmera, ele limpou a garganta e
começou a falar, usando o mesmo tom firme de quando estava
no comando do trote.
4 Calouros, vocês provavelmente sabem que todas as
provas e atividades que enfrentaram antes de chegar aqui
foram preparadas por nós, alunos do terceiro ano.
Observamos seu desempenho ao longo de três meses, e o
propósito do trote 4 que sempre foi fazer com que os calouros
aprendam o que é união 4 foi alcançado. Portanto, se em
algum momento magoamos ou ferimos seus sentimentos,
pedimos desculpas. Por fim, quero dizer que, assim como
vocês precisavam pedir nossa permissão para tudo, agora nós
queremos pedir a de vocês.
Os olhos de Arthit olharam diretamente para a câmera,
como se estivesse encarando cada calouro, e eles, por sua vez,
ouviram atentamente.
4 Calouros, vocês nos permitem ser seus veteranos?
A última frase fez com que a sala inteira ficasse em
silêncio. Naquele momento, os calouros começaram a
entender que a relação entre veterano e calouro, ou mesmo
entre alunos de diferentes departamentos, não se baseava em
ameaças e ordens, nem em competições sobre quem tinha
mais privilégios pela antiguidade. As relações na faculdade
eram construídas sobre aceitação mútua, em igualdade de
direção 4 seja dos veteranos para os calouros, ou vice-versa.
4 Se a resposta for sim, estaremos esperando vocês na
praia!
As palavras ecoaram nos alto-falantes, e a tela do projetor
se apagou. Claro que os calouros não poderiam recusar os
veteranos, ainda mais com um pedido daqueles. Rapidamente,
eles se levantaram e foram para a praia.
Qual não foi sua surpresa ao ver que a praia estava
iluminada pela luz mágica de velas dentro de pequenos copos,
todas dispostas em duas fileiras paralelas. Os veteranos de
todos os anos estavam de pé ao longo do caminho, esperando
pelos calouros. E apenas uma pessoa estava um passo à frente
deles, bloqueando a passagem iluminada pelas velas.
O líder do trote estava em uma postura relaxada, mas
confiante. Ele olhou para os calouros com um olhar sincero e
caloroso antes de falar em voz alta.
4 Calouros! Atrás de mim estão as engrenagens, no final
do caminho! Agora, é hora de eu cumprir meu último dever
como líder do trote e guiá-los até elas!
Terminado o discurso, Arthit sentou-se na areia junto
com o grupo do trote e os alunos da animação. Então, frente a
frente, eles seguraram os cotovelos uns dos outros, formando
uma espécie de ponte com seus braços.
Era a chamada "ponte viva", pela qual os calouros
passariam para se tornarem verdadeiros estudantes,
adquirindo o orgulho compartilhado por todas as peças que os
formavam.
Durante toda a cerimônia, o hino da faculdade de
engenharia ecoou, tornando a atmosfera ainda mais solene e,
ao mesmo tempo, harmoniosa. Os calouros caminharam de
mãos dadas com pares de veteranos que os ajudaram a
atravessar a ponte viva 4 que tinha cinco metros de
comprimento. Embora a ponte fosse pequena, os calouros se
sentiram culpados por colocar o peso de seus corpos sobre os
braços unidos dos veteranos. Especialmente sobre o primeiro
da fila, que suportava o maior esforço. Mas todos os calouros
entendiam o simbolismo por trás daquele ato.
4 Me perdoe, P'Arthit. 4 Kongpob disse em voz baixa
demais.
Arthit, por um momento, ergueu o olhar para o calouro
prestes a subir na ponte. Assim que o viu, porém, baixou os
olhos com indiferença, como se não estivesse interessado em
Kongpob. O pedido de desculpas se perdeu no ar, e Kongpob
decidiu guardar o sentimento de culpa para si. Ele não estava
se desculpando apenas por fazer Arthit suportar seu peso 4
queria propor ao líder do trote que recomeçassem. Mas, pelo
visto, ainda não era a hora.
Por isso, Kongpob decidiu que o melhor a fazer naquele
momento era atravessar a ponte viva, construída pelo esforço
unido dos veteranos. Guiado por eles, ele seguiu até o homem
no final do caminho, pronto para entregar as engrenagens. Era
o representante da geração anterior, o ex-líder do trote.
Dear segurava as engrenagens, gravadas com o
departamento e o número da geração de cada um. Ao ver o
calouro se aproximar, ele pegou um dos pingentes e o ergueu.
4 Calouro, qual é o seu nome?
4 Kongpob.
4 Ouvi dizer que foi você quem teve a ideia de agradecer
ao Arthit no dia de capturar a bandeira. É verdade?
Kongpob ficou um pouco confuso sobre por que Dear
estava perguntando aquilo justo naquele momento, mas,
mesmo assim, abanou a cabeça para dissipar a confusão e
respondeu:
4 Sim.
4 Foi uma ótima ideia! 4 exclamou Dear, colocando a
mão no ombro de Kongpob. 4 Escuta, você quer ser o próximo
líder do trote?
A proposta deixou Kongpob ainda mais surpreso e
intrigado.
4 Eu?
4 Sim, você! Você tem tempo para pensar, pelo menos até
terminar o segundo ano, mas, por enquanto, vamos supor que
a vaga já está reservada para você. O que acha?
Dear falou calmamente, com um sorriso amigável nos
lábios. Kongpob não entendia por que tinha sido convidado
para ser o próximo líder do trote, mas não teve tempo de fazer
perguntas ou mesmo dar uma resposta à proposta.
Dear colocou em sua mão a engrenagem.
4 Toma. Este é o símbolo da faculdade de engenharia. A
engrenagem tem muitos significados, então cuide bem dela.
O calouro ouviu atentamente enquanto o veterano
contava a história por trás do verdadeiro valor da engrenagem
4 uma lição passada da geração mais velha para a mais nova.
Quando Dear terminou seu pequeno discurso, Kongpob se
despediu com respeito e se juntou aos seus colegas, dando
espaço para o próximo calouro receber sua engrenagem.
Depois que todos os calouros receberam suas
engrenagens, eles, junto com os veteranos, começaram a
cantar os hinos da faculdade e da universidade 4 a última
parte da cerimônia, uma tradição que se repetia ano após ano
no trote.
Quando a cerimônia terminou, começou a celebração de
boas-vindas à nova geração. Uma festa animada, organizada
pelos alunos do terceiro ano para os calouros, com álcool e
karaokê.
Claro que os amigos de Kongpob tentariam arrastá-lo
para beber com eles, mesmo que ele tentasse escapar das
insistências. Ele ainda tinha uma tarefa importante pendente
e ansiava por cumpri-la o mais rápido possível: chegar a um
entendimento com Arthit.
Mas ele não estava em lugar nenhum.
Durante a cerimônia, Kongpob cruzou o olhar com Arthit
algumas vezes. Porém, quando o evento acabou e todos
começaram a se dispersar, Arthit conseguiu escapar do olhar
insistente de Kongpob. Ele procurou por Arthit na mesa dos
veteranos, mas não o encontrou.
Kongpob começou a ficar nervoso. Era uma pena que ele
não tivesse o número de telefone de Arthit para ligar e
perguntar onde ele estava. Enquanto se lamentava, teve uma
ideia de como conseguir o contato e, com isso em mente,
voltou para onde a festa acontecia.
Foi então que, perto da mesa dos veteranos, sua atenção
foi capturada pela silhueta de um homem caminhando pela
praia em direção aos bangalôs. Ele o reconheceu
imediatamente.
Kongpob notou um detalhe: o braço esquerdo de Arthit
estava enfaixado 4 o mesmo que ele usara como ponte para os
calouros pisarem. Claro que estava machucado, e Kongpob
sentiu culpa ao ver que o ferimento era grave o suficiente para
precisar de curativo. Embora Arthit não tivesse mostrado
sofrimento durante a cerimônia, agora ele não parava de
massagear o braço.
Kongpob acelerou o passo para alcançá-lo por trás,
esperando não assustá-lo.
4 P'Arthit, preciso falar com você!
Arthit parou no meio do caminho, mas não reagiu ao
chamado. Ele simplesmente ficou quieto, em silêncio,
deixando que Kongpob iniciasse a conversa. Então, Kongpob
foi direto ao ponto.
4 Quero me desculpar.
As palavras saíram do coração. Ele realmente queria que
Arthit entendesse seu arrependimento e lhe desse uma chance
de se redimir. Sem perceber, Kongpob olhou para Arthit com
olhos cheios de esperança 4 algo que Arthit ignorou,
respondendo em seu tom habitual, frio.
4 Se desculpar? Por quê?
4 Por todas as vezes que fiz você ficar bravo.
4 Se você sabia que eu ficaria bravo, por que fez mesmo
assim?
Foi uma observação curta e certeira que cortou o coração
de Kongpob. Ele ficou em silêncio, incapaz de encontrar uma
resposta. Afinal, nem ele mesmo sabia explicar por que agira
daquela forma.
Kongpob já se fizera essa pergunta muitas vezes. Por que
ele provocava Arthit? Por que gostava de irritá-lo? E por que,
justo agora, queria se desculpar?
4 Bem, eu... 4 ele gaguejou, confuso.
Kongpob tentou achar as palavras certas, mas Arthit
apenas suspirou, como alguém que estava perdendo a
paciência.
4 Deixa pra lá. Já estou cansado de brigar com você.
Arthit encerrou o assunto, balançou a cabeça e seguiu em
direção à mesa dos veteranos, deixando Kongpob sozinho na
praia, no escuro, com um peso no coração.
Era isso. Ele tinha perdido a última chance de conversar
com Arthit.
E era justo. Quantas vezes ele tinha irritado Arthit só por
diversão? Claro que o líder do trote estava cansado dele!
Kongpob foi ignorado. Deixado de lado por alguém que,
em apenas três meses, se tornara tão importante em sua vida.
Alguém de quem ele conseguia se lembrar de cada detalhe 4
cada discussão, cada momento.
O mesmo homem que se tornara sua motivação para
conquistar tudo o que quisesse.
Alguém que o fazia sorrir com as pequenas coisas.
Alguém único, que Kongpob conhecera em um momento
incerto da vida e que ele queria entender completamente 4
saber tudo sobre ele.
Kongpob nunca tinha conhecido ninguém assim. E essa
pessoa estivera ali, na frente dele, o tempo todo. Arthit.
Mas, com o trote encerrado, Kongpob não teria mais
oportunidades de falar com Arthit 4 pelo menos não se ele não
quisesse mais lidar com ele. Mesmo que ainda pudesse
procurá-lo na faculdade, Kongpob não ousaria importuná-lo.
Ele guardou seus sentimentos no fundo do coração e
começou a se virar para ir embora. Mas, antes que pudesse
dar um passo, algo gelado tocou seu pescoço. Ele se encolheu
com a sensação e se virou para ver o que era. Seus olhos se
arregalaram quando viu que era justamente o homem que,
segundos antes, dissera não querer mais falar com ele.
Arthit segurava uma lata de cerveja, com uma expressão
neutra, estendendo-a para Kongpob.
4 Quer?
Surpreso, Kongpob aceitou a cerveja gelada. Ele ainda
olhava para Arthit, que ele achara que não veria novamente 4
pelo menos não naquela noite. Arthit se sentou na areia,
abrindo sua própria lata com um ar satisfeito.
Kongpob não resistiu e disse o que pensava:
4 Achei que você não queria mais falar comigo.
4 Eu não disse isso. Disse que não quero brigar com
você. Se você quer conversar, então vamos conversar. Senta.
4 Arthit deu um gole na cerveja. 4 Ou já não quer mais?
4 Não! Quero, quero sim! 4 Kongpob respondeu rápido,
feliz por Arthit estar dando outra chance.
O calouro se sentou na areia, a alguns centímetros de
Arthit, sem saber o que se passava em sua cabeça. Mas, pelo
jeito relaxado dele, Kongpob considerou a possibilidade de que
o líder do trote tinha deixado a rivalidade de lado e não estava
mais bravo. Afinal, ele até lhe trouxera uma cerveja.
Algo que poderia ser considerado um gesto de
camaradagem, uma oferta de paz.
Kongpob abriu a lata de cerveja e olhou para as estrelas
brilhando no céu, mais belas do que o habitual. Uma brisa
suave passava pela praia, e o som das ondas era relaxante. A
atmosfera tinha um ar de conclusão, algo sereno. Kongpob
iniciou a conversa com uma pergunta que há muito desejava
fazer.
4 Por que você se tornou o líder do trote, P'Arthit?
4 Me obrigaram.
A resposta foi simples e sincera, o que surpreendeu
Kongpob a ponto de quase cuspir o gole de cerveja. Arthit
continuou explicando.
4 P'Tum foi o líder do trote quando eu era calouro, então
foi ele quem me escolheu para seguir seus passos.
Kongpob se lembrou daquela reunião, quando os
membros mais velhos dos códigos 0062 e 0206 os convidaram
para jantar.
4 Na verdade, eu não queria esse cargo. O líder do trote
tem muitas responsabilidades, e eu não estava pronto para
elas, principalmente porque sou temperamental. Quando
agarrei o colarinho da sua camisa no primeiro dia das
reuniões, quase perdi minha posição por quebrar as regras.
Eu deveria ter apenas repreendido você, sem tocar em você.
Meus amigos me defenderam, assumiram a culpa por não me
impedirem a tempo. Então, de acordo com o costume, se um
membro erra, a culpa é dividida entre todos. Por isso, P'Dear
deixou passar, já que foi meu primeiro deslize. A punição 4
porque tinha que haver uma 4 foi apenas correr vinte voltas
no estádio.
Kongpob não sabia desses bastidores das reuniões do
trote. Mas, mesmo assim, ele lembrava que aquele foi o único
dia em que viu a verdadeira natureza de Arthit, porque, depois
disso, ele sempre buscou justificar seus atos com explicações
racionais. E, se Kongpob pensasse bem, a única razão pela
qual Arthit perdera a paciência naquela reunião fora por causa
dele.
O calouro percebeu seu erro, e as palavras escaparam de
seus lábios.
4 Sinto muito.
4 De qualquer forma, isso já passou. Além disso, eu te
dei um castigo pela sua insolência.
Arthit encolheu os ombros e tomou um gole de cerveja,
olhando para frente como se não houvesse mais nada a dizer.
Seus olhos fixos no horizonte, enquanto o calouro ao seu lado
formulava a próxima pergunta.
4 Você se lembra da nossa aposta na competição Lua e
Estrela da universidade?
Era algo que Arthit quase esquecera, mas, ao ouvir, veio
imediatamente à sua memória. E ele, como um homem de
palavra, não fugiu do assunto.
4 Sim, lembro. Já decidiu?
4 Sim. Sobre isso... Você está livre no próximo sábado?
4 Estou.
4 Perfeito. Quero comprar algumas coisas. Você viria
comigo?
4 Só isso?
4 Sim.
Em dois meses, o vencedor da aposta escondera seu
desejo, e Arthit imaginara que Kongpob planejara algo grande
e humilhante. Mas, no fim, ele pedira algo tão simples.
4 Tudo bem.
Ao ouvir a resposta, Kongpob sorriu largamente.
4 Então me passa seu número de telefone. Eu te dou o
meu também.
Kongpob pegou seu celular rapidamente para digitar o
número de Arthit, que fez uma cara feia.
4 Quando você vai tirar isso?
Kongpob se surpreendeu com a pergunta. Seus olhos
saíram da tela do celular e se encontraram com os de Arthit,
depois seguiram para onde ele olhava.
4 Isso 4 Arthit apontou para o pulso esquerdo do
calouro.
A pulseira branca amarrada ali.
4 O que há de errado em usá-la? Eu gosto 4 Kongpob
respondeu, sorrindo suavemente. Ele olhou diretamente para
os olhos de Arthit, com um brilho de emoção que Arthit não
entendeu. Mas a insistência daquele olhar, tentando
transmitir algo que ele não compreendia, o deixou nervoso o
suficiente para desviar o olhar.
Antes que qualquer um dos dois pudesse continuar,
alguém atrás deles os interrompeu.
4 Arthit! Arthit, caramba! Onde diabos você está? Venha
aqui, agora!
Os amigos de Arthit exigiam sua volta. Ele se levantou de
um salto.
4 Já vou! 4 respondeu, sacudindo a areia das roupas.
4 Espera, P'Arthit!
O líder do trote não teve tempo de ir embora, porque
Kongpob se levantou tão rápido quanto para detê-lo.
4 Tenho algo para você.
4 O quê?
4 Vem, me dá sua mão.
Arthit olhou para o calouro com uma expressão que
deixava clara sua irritação por Kongpob sempre ser tão
complicado. Mesmo assim, ele cedeu e estendeu a palma da
mão. Quando viu Kongpob enfiar a mão no bolso e colocar um
objeto em sua mão, Arthit franziu a testa.
Era algo pequeno, o mesmo que haviam entregue a
centenas de calouros.
A engrenagem da geração.
4 Por que você está me devolvendo isso? 4 Arthit quase
gritou, piscando atônito. Ele devia ter imaginado. Aquele
calouro sempre falava sem pensar, e não era surpresa que
Kongpob estivesse procurando novas razões para criar
conflitos. Devolver a engrenagem dada pelos veteranos? Isso
era um verdadeiro insulto! Principalmente para ele, o líder do
trote.
Mas não teve tempo de se irritar. O calouro foi rápido em
se explicar.
4 Não estou devolvendo. Só quero que você cuide dela
por mim.
4 Eu? Por quê?
Em vez de responder, Kongpob fez uma expressão
surpresa.
4 Você... não sabe o significado dela? Achei que você
soubesse. Bom, se quiser descobrir, acho que deveria
perguntar ao P'Dear.
Essa resposta definitivamente não era o que Arthit
esperava. Só o deixou ainda mais confuso. Qual era o
significado da engrenagem? E por que precisava perguntar ao
P'Dear? Além disso, sendo ele o líder do trote, não deveria
saber?
Arthit ia abrir a boca para xingar Kongpob, mas os gritos
de um de seus amigos o distraíram.
4 Arthit, anda logo! A mesa inteira está esperando por
você, vem já!
Arthit olhou para Kongpob uma última vez antes de se
virar em direção à mesa dos veteranos. Kongpob não quis
acrescentar mais nada e apenas observou ele ir embora, ainda
vendo uma expressão de irritação no rosto de Arthit enquanto
ele guardava a engrenagem no bolso.
Enquanto Arthit tentava beber e se divertir, ele observou
P'Dear sentado na mesma mesa que seus amigos. Ele, o
guardião do misterioso segredo que Kongpob mencionara.
Algo que Arthit queria descobrir.
4 P'Dear, qual é o significado das engrenagens?
O ex-líder do trote olhou para o atual com uma
sobrancelha levantada.
4 Essa é uma pergunta estranha. Já está bêbado, Arthit?
4 ele riu. 4 A engrenagem é um símbolo de união para nós,
algo representativo da faculdade de engenharia, por isso não é
fácil de conseguir.
Depois da resposta, Arthit ficou ainda mais irritado. Ele
mesmo já explicara isso aos calouros centenas de vezes. E
ainda assim caíra no jogo do 0062. Ele estava cansado de
perder tempo tentando entender aquele calouro insolente.
Arthit pegou a lata de cerveja nos lábios e bebeu tudo de
um só gole. Dear não havia terminado sua explicação - havia
algo importante que ele não mencionara.
4 A engrenagem é nosso coração. O coração funciona
como uma engrenagem. Se você dá sua engrenagem para
alguém, é o mesmo que dar seu coração.
A cerveja quase escorreu pelos lábios de Arthit, que
engasgou ao tentar retê-la. Dear deu palmadas em suas costas
para ajudá-lo a parar de tossir.
4 Bebe devagar, não até se afogar. Olha, você está todo
vermelho. Sério, com tão pouco já está bêbado?
Dear brincou, mas Arthit não riu. O líder do trote nem
sequer discutiu. Ele apenas assentiu e limpou os lábios com o
dorso da mão.
4 Sim, estou um pouco bêbado.
Sim, só podia ser isso. Aquela sensação estranha se
espalhando em seu peito devia ser por causa do álcool. Além
disso, seu rosto devia estar vermelho contra sua vontade por
causa da cerveja e da brisa do mar. Tudo por ter bebido tanto e
ficado olhando para o céu estrelado.
Então era isso que a engrenagem significava.
A engrenagem que Kongpob lhe dera.
20
Regra numero vinte para o calouro: "Seja
claro com os veteranos"
4 Calouros, certifiquem-se de que nenhum de seus
amigos fique para trás! Se esquecermos alguém, não
voltaremos para buscá-lo! 4 gritou uma das integrantes do
grupo de animação.
Kongpob estava no ônibus número três, que partiria para
a província de Rayong, já que as celebrações dedicadas aos
calouros haviam terminado.
Eram quase onze da manhã, o horário de maior
movimento, embora muitos estudantes ainda estivessem meio
grogues, sofrendo os efeitos da ressaca. Por isso, os veteranos
pediram aos calouros que não tinham bebido que ajudassem
os amigos sonolentos a não perderem seus lugares no ônibus.
Tudo para garantir que cada membro da faculdade de
engenharia voltasse em segurança para a universidade.
Em estava sentado ao lado de Kongpob, como na primeira
parte da viagem. Os dois em silêncio, esperando que os
calouros que ainda não haviam saído da cama se juntassem a
eles.
Depois da conversa com Arthit, Kongpob voltou para seu
bangalô, onde ele e seus amigos conversaram e riram até
tarde. Por isso, não podia dizer que dormira bem ou que tinha
energia para participar das atividades que o grupo de
animação organizava no ônibus. Sua garganta estava seca
demais para cantar, e seu corpo doía demais para dançar.
Quando o ônibus partiu, a próxima parada foi uma breve
pausa para comprar lembranças locais, antes de seguir
viagem por mais algumas horas até a universidade. Todos os
calouros estavam encantados com a viagem - seria uma
memória única marcada em suas mentes.
Até que algo inesperado aconteceu.
4 Ei, Kongpob, você está sentindo esse cheiro de
queimado? 4 Kongpob tirou os fones de ouvido ao ouvir Em.
Ele olhou por cima dos assentos, depois direcionou o olhar
para o sistema de ar-condicionado. Franzindo o nariz ao sentir
o cheiro desagradável.
4 De onde está vindo esse cheiro? 4 alguns
perguntaram, justo quando Kongpob entendeu a situação.
Mas, para azar dos calouros, nem todos perceberam o que
estava acontecendo, e se assustaram quando o ônibus
começou a falhar, forçando o motorista a parar no
acostamento. O motor estava queimando.
Os professores e o grupo de animação ficaram
preocupados - afinal, era sua responsabilidade cuidar dos
calouros. Desceram do ônibus para questionar o motorista
sobre o problema. Ele explicou que o motor havia
superaquecido e que continuar a viagem naquele estado era
impossível. Além disso, era apenas um palpite - ele não sabia
ao certo qual era o verdadeiro defeito.
Os calouros saíram do ônibus para ver o que estava
acontecendo, já que o interior estava insuportável. O
ar-condicionado não funcionava, e o calor sufocante dava a
sensação de não haver ar suficiente para respirar.
Ainda assim, os calouros tiveram sorte de o ônibus ter
parado em um local com sombra de árvores altas,
protegendo-os do sol escaldante. Mas, ao mesmo tempo, o
motor quebrou em um lugar isolado, longe de qualquer
oficina. Se o ônibus realmente estivesse avariado, teriam que
esperar muito mais para voltar para casa.
E, pelo visto, o destino foi cruel com os calouros. Assim
que o motorista abriu o compartimento do motor, uma nuvem
de fumaça e vapor escapou. Não havia mais dúvidas: o motor
realmente tinha pifado.
4 Parece que teremos que esperar o motor esfriar e
chamar outro ônibus 4 disse o motorista, parecendo exausto.
O homem devia ter pouco mais de quarenta anos.
O motor superaqueceu por falta de água, e não havia
ninguém para culpar. Talvez precisasse de uma revisão, nada
grave, mas, considerando a distância que ainda faltava, era
improvável que o ônibus aguentasse.
A solução para o problema não apareceu, mas a ajuda
sim. Um segundo ônibus estacionou atrás do que
transportava os calouros. Era o número quatro, onde estavam
os alunos do terceiro ano. E, claro, a pessoa encarregada, o
líder do trote, foi quem saiu para perguntar sobre a situação.
4 O que aconteceu?
4 O motor superaqueceu 4 os membros do grupo de
animação repetiram o diagnóstico do motorista. Arthit
imediatamente foi ver o motor pessoalmente. Balançou a
cabeça ao ver a situação e, depois de tomar uma decisão,
virou-se para seus colegas.
4 Fang, ligue para os ônibus um e dois. Diga para
reduzirem a velocidade. Precisamos manter a distância entre
nós.
Fang imediatamente concordou e fez as ligações. Primeiro
para o ônibus um, com os alunos do segundo ano, depois para
o dois, com o resto dos calouros. E, por fim, para o cinco,
embora Arthit não tivesse pedido 4 lá estavam os alunos do
quarto ano, alguns formandos e professores.
Quando o ônibus cinco chegou, um dos membros do
grupo de animação correu para avisar o chefe do
departamento de engenharia industrial. O professor
inspecionou o motor e, em poucos minutos, determinou a
causa do problema.
4 Parece que é o cilindro de refrigeração. Uma peça
quebrou e vazou, causando o superaquecimento. Não dá para
consertar sem desmontar tudo, ou pelo menos a parte afetada.
E, pelo que vejo, precisamos trocar a peça e o tubo adjacente...
4 Alguns alunos pararam de ouvir as explicações do
professor, percebendo que o problema que achavam que seria
resolvido apenas esperando era, na verdade, sério. E ainda
não havia solução para a maior preocupação dos calouros: o
caminho de volta ainda era longo.
4 Professor, o que devemos fazer com os calouros? 4
perguntou Arthit, um pouco preocupado. E ele estava. A parte
mais importante da viagem de iniciação era levar os calouros
de volta em segurança.
O professor também sabia disso e, depois de pensar,
sugeriu uma solução.
4 Distribuam os alunos entre os dois ônibus. Se não
houver espaço suficiente, verei o que posso fazer para
conseguir outro ônibus.
Arthit concordou. Essa parecia ser a única solução
rápida. Seguindo o conselho do professor, ele começou a
organizar os alunos, dividindo-os igualmente entre os ônibus.
Por padrão, cada ônibus comportava cinquenta
passageiros. Com a adição de mais vinte e cinco, o espaço livre
praticamente desapareceu. Estava cheio de malas, caixas do
grupo de animação, garrafas de água e guloseimas. Havia tão
pouco espaço que alguns calouros tiveram que ficar em pé,
segurando-se nos assentos para não cair.
Uma regra implícita de cortesia em situações assim era
que os homens deveriam agir como cavalheiros 4 e isso valia
também para os veteranos, que cederam seus lugares para
algumas garotas, que, na maioria, sentaram-se três em um
assento.
Arthit, como líder do trote, ofereceu-se para carregar sua
mochila nos ombros, ficando na parte de trás do ônibus,
segurando-a na frente como se fosse uma bolsa de bebê. Ficar
em pé era difícil, especialmente nas curvas fechadas ou
subidas íngremes, que o faziam perder o equilíbrio. Foi então
que a voz de um calouro chamou sua atenção 4 alguém perto
de onde ele estava.
4 Posso te ajudar com sua bagagem? 4 Arthit
estremeceu ao ouvir a voz próxima e ver Kongpob se
aproximando dele. O calouro estava sentado no chão com
outro aluno do primeiro ano, ambos espremidos entre caixas
d'água e mochilas de outros estudantes, mas mesmo assim
Kongpob conseguira abrir um pequeno espaço. Vendo que
Arthit não responderia, Kongpob mudou de estratégia. 4
P'Arthit, senta aqui.
4 Não, não! Estou bem, consigo me virar 4 Arthit
recusou veementemente, obrigando Kongpob a desistir da
persuasão. Quando o calouro lhe dirigiu um sorriso
insatisfeito, Arthit desviou o olhar.
Como o ônibus estava lotado, não podia ultrapassar certo
limite de velocidade, tornando a viagem mais longa. Os pés e
braços dos passageiros doíam, e quando finalmente, após uma
hora de viagem, o ônibus parou, todos ficaram aliviados por
poder esticar as pernas.
4 Conseguimos outro ônibus! Calouros, quem quiser
trocar de ônibus pode pegar suas coisas e descer! Não
esqueçam de avisar seus responsáveis em qual ônibus ficarão!
4 Fang anunciou da frente do ônibus, saindo apressadamente
para passar a mensagem adiante.
4 O que fazemos? Nossos professores estão no ônibus
dois. Ficamos aqui? 4 perguntou Kongpob.
Em pensou na resposta e, ao mencionar alguns amigos
que estavam no outro ônibus, Kongpob pareceu interessado.
Além disso, o amigo destacou que seria mais divertido viajar
rindo com amigos do que cercado de veteranos. Kongpob
assentiu pensativo, mas não teve tempo de decidir quando
uma voz o interrompeu.
4 Desçam logo, peguem suas coisas se forem trocar de
ônibus. E se forem comprar comida, não se afastem muito 4
Arthit ordenou que desocupassem o ônibus, carregando
pacotes de comida nas mãos. Ele colocou um deles nos braços
de Kongpob e rapidamente se afastou em direção à porta
dianteira.
No final, a situação se desenvolveu de modo que os
calouros não tiveram escolha a não ser descer. Kongpob pegou
sua mala e seguiu Em até a saída. Quando o ônibus foi
esvaziado, Arthit deixou as sacolas que carregava em alguns
assentos e se jogou no banco traseiro, de frente para a janela,
soltando um longo suspiro de exaustão.
Arthit estava cansado demais por ter suportado peso
extra nos ombros e ansiava por sentar e descansar. Naquele
momento, ele não tinha energia para sair e comprar bebidas
ou lanches. Não havia dormido na noite anterior, pois ficou
acordado até o amanhecer com os amigos. Planejava dormir a
viagem toda, mas o destino resolveu tornar sua vida miserável.
Não só enchera seu ônibus climatizado de calouros suados,
como colocara bem ao seu lado justamente a pessoa que
queria evitar.
Aquele calouro, dono da engrenagem que pesava tanto em
seu bolso e que ele aceitara sem saber seu significado oculto.
Arthit cuidadosamente guardara a engrenagem na
mochila, planejando devolvê-la ao dono na primeira
oportunidade. Mas quando encontrara Kongpob, o ambiente
estava muito agitado, e ele não soubera como abordar o
assunto.
Naquela manhã, enquanto se banhava antes de sair,
Arthit quase gritou de frustração. Estava irritado porque
aquele calouro continuava a provocá-lo. Jurou a si mesmo que
defenderia sua posição como líder do trote e colocaria Kongpob
em seu lugar assim que o visse. Mas, ao tê-lo diante de si, todo
aquele ressentimento desapareceu, e ele simplesmente o
deixou ir.
Não queria mais conflitos desnecessários. O trote
acabara, e ele poderia voltar à sua vida tranquila. Além disso,
se evitasse Kongpob, como devolveria a engrenagem?
Arthit esfregou o cabelo com frustração. Quanto mais
pensava, mais sua cabeça doía. Não era de sua natureza lidar
com situações assim e, como resultado, o líder do trote decidiu
apenas fechar os olhos com força, esperando afastar
preocupações desnecessárias e dormir para aliviar o estresse.
Mas, antes que conseguisse pegar no sono, alguém falou com
ele.
4 Você está dormindo, P'Arthit? 4 Ao ouvir a pergunta,
Arthit abriu os olhos irritado. Quando uma mão tocou seu
ombro, seu sono desapareceu por completo, fazendo-o se
levantar rapidamente. Kongpob estava diante dele com a mala
no ombro e uma pequena sacola do Seven Eleven na mão.
O calouro olhou para ele como se esperasse que Arthit se
sentasse para ocupar o lugar ao lado.
4 Por que voltou? Esqueceu algo?
4 Não, vou ficar neste ônibus.
A resposta confundiu Arthit. Ele mesmo vira Kongpob e o
amigo embarcarem no ônibus dois. Então por que o calouro
estava de volta?
4 Onde está seu amigo?
4 Em foi no outro ônibus. O professor disse que
deveríamos nos dividir igualmente, então preferi voltar para
cá. Posso sentar ao seu lado, P'Arthit? 4 Kongpob perguntou,
olhando para o assento ao lado de Arthit, onde estava sua
mochila. Arthit hesitou, gaguejando sem saber como afastá-lo.
Qual seria a melhor forma de fazer isso sem parecer que
estava evitando-o? Poderia deixá-lo sentar e simplesmente ir
para o fundo do ônibus com os amigos.
Quando estava prestes a responder, Knot entrou no
ônibus, e Arthit viu no amigo uma oportunidade de escapar da
situação desconfortável. Mas, ao abrir a boca, o amigo
interferiu em seus planos.
4 Arthit, tira sua mochila do assento e deixa o calouro
sentar! Não vê que está atrapalhando? Está bloqueando a
passagem dos outros.
Arthit e Kongpob viraram-se para confirmar o que Knot
dissera. De fato, havia uma fila de calouros atrás de Kongpob
esperando para passar. No final, Arthit foi obrigado a tirar a
mochila do assento. Virou-se para a janela com indiferença,
enquanto Kongpob guardava a mala no compartimento
superior e se sentava ao seu lado.
O calouro começou a vasculhar a sacola no colo. Arthit
evitou olhar.
4 P'Arthit, quer? 4 Arthit viu o pacote aberto de algas
marinhas à sua frente, com dois sabores, como se Kongpob lhe
desse opção.
Na verdade, ele estava com fome, mas o orgulho não
permitiu que aceitasse os petiscos oferecidos.
4 Não 4 respondeu Arthit, mas o calouro não desistiu.
4 Então talvez queira isso... Estavam vendendo fora do
Seven Eleven, e eu comprei para você. 4 Ao ouvir que
Kongpob comprara algo pensando nele, Arthit virou-se. Seus
olhos se arregalaram ao ver o que o novato segurava.
Um copo de leite rosa.
4 Entendi. Comprou isso especialmente para tirar sarro
de mim? 4 Arthit exclamou irritado. Era óbvio que o calouro
comprara aquela bebida para envergonhá-lo, destacando que
conhecia seu segredo e podia usá-lo para provocá-lo.
Kongpob, vendo sua gentileza mal interpretada, balançou
a cabeça antes de se explicar.
4 Não é isso, P'Arthit. Vi que você estava cansado e
comprei uma bebida e lanches para você. Não sei que tipo de
petisco você gosta, então peguei vários. Mas vi que vendiam
leite rosa e sei que você gosta, então comprei. Se não quiser,
também tenho chá verde. Vamos, aceita. Você não comeu
nada e ainda faltam horas para chegarmos.
A resposta detalhada deixou Arthit sem palavras. O líder
do trote olhou diretamente nos olhos de Kongpob e, mais uma
vez, viu apenas sinceridade, sem nenhum traço de
provocação. Além disso, se Kongpob estava se preocupando
com ele, seria ingrato recusar.
Arthit hesitou ao ver as mãos estendidas de Kongpob e,
relutantemente, pegou o leite rosa. Como se o mal-entendido
nunca tivesse acontecido, Arthit pegou o canudo e mexeu o
conteúdo, recostando-se no assento antes de beber. Voltou
sua atenção para a janela.
O doce sabor do leite de morango realmente o ajudou a se
sentir melhor, mas isso não dissipou os pensamentos
persistentes em sua mente 4 pelo contrário, eles ficaram mais
fortes. Suas dúvidas só aumentavam.
Arthit não conseguia entender por que Kongpob era tão
gentil com ele. Estaria tão imerso em seu papel de herói que
queria cuidar de todos ao redor? Ou seria apenas um hábito
ser tão atencioso?
Também não entendia por que, às vezes, Kongpob parecia
fazer coisas só para provocá-lo, enquanto em outros
momentos era completamente sincero. Como deveria
interpretar isso direito?
E havia outra questão importante: Kongpob agia assim
com todos, ou seu comportamento com ele era especial?
Arthit tentou não prestar atenção no calouro ao seu lado,
mas não conseguia evitar pensar que talvez Kongpob não
estivesse sendo gentil apenas por educação. Ele era suave,
carinhoso até certo ponto com ele. Algo que deixava Arthit
cada vez mais pensativo.
Algo semelhante acontecia com a história da engrenagem.
Arthit não sabia o que ela significava para Kongpob, mas
lembrava que o calouro enfatizara que ele, como veterano,
deveria saber. Arthit era distraído e não percebera de imediato
que Kongpob escondia algo. Antes, o calouro se desculpara
por todas as provocações, e Arthit não perguntara a verdadeira
razão por trás disso. Mas, naquele momento, fazer essa
pergunta não parecia adequado.
Por isso, Arthit tentou ignorar as perguntas incômodas
em sua mente e se concentrou em terminar seu leite rosa, sem
tirar os olhos da janela. Enquanto isso, a pessoa ao seu lado
lutava contra as batidas aceleradas do próprio coração,
calando todas as perguntas que queria fazer ao veterano.
Kongpob não teve coragem de perguntar se Arthit já
descobrira o significado da engrenagem. Supunha que ele
ainda não sabia, pois, caso contrário, certamente teria
mudado de assento para ignorá-lo. Mas ali estava ele, sentado
ao seu lado, o que dava ao calouro um certo esperança. Às
vezes, Arthit fazia expressões engraçadas, e Kongpob se
esforçava para não rir, limitando-se a observá-lo
discretamente.
Kongpob imaginou que Arthit, sendo homem e recebendo
o "coração" de outro homem - simbolizado pela engrenagem -
deveria se sentir ofendido. Por isso, evitou tocar no assunto.
Já fora ousado o suficiente em entregar a engrenagem, embora
nem ele mesmo soubesse o que esperava com aquilo.
Não sabia por que fizera isso, ou se fora o clima da praia
que o inspirara. Talvez pelo significado de ter tido sua primeira
conversa amigável com Arthit. Mas Kongpob sabia que não
podia culpar apenas a atmosfera. Na verdade, ao fazer aquilo,
sentira-se bem, satisfeito por ter dado seu "coração" a Arthit.
Ele gostava de observar Arthit de longe ou de perto.
Queria estar com ele, cuidar dele, ajudá-lo. Saber tudo sobre
seus gostos e inseguranças.
Kongpob não conseguia nomear seus sentimentos. Sua
mente esvaziou-se de pensamentos quando um peso caiu
sobre seu ombro. Imediatamente percebeu que era a cabeça
adormecida de Arthit, que, sem querer, cochilara e, com o
balanço do ônibus, encostara-se nele.
Kongpob sorriu.
Parou de questionar seus sentimentos por um momento,
porque a resposta-chave chegara até ele. Para Kongpob, Arthit
era a pessoa mais importante.
E isso bastava.
O ônibus seguiu por mais algumas horas até finalmente
parar em frente à universidade. Os alunos começaram a se
mover, pegando suas coisas e indo para a saída. Mas uma
pessoa ainda dormia. Kongpob teve que aceitar que era hora
de acordar Arthit, mesmo sem querer.
4 P'Arthit, acorda, já chegamos.
Arthit esfregou os olhos. Aconchegou-se no "travesseiro"
ao seu lado 4 macio e confortável. Mas era quente e se mexia,
algo que um travesseiro certamente não fazia. O líder do trote
afastou-se ao perceber que estava se aconchegando no ombro
do garoto ao lado. Não sabia há quanto tempo estava naquela
situação e sentiu-se profundamente envergonhado, até
irritado consigo mesmo por se expor daquele jeito.
Por sorte, Kongpob não riu de sua reação.
Arthit deu algumas palmadas no próprio rosto para
acordar de vez, fingiu que nada acontecera e levantou-se. O
ônibus deveria ter chegado às seis, mas estava duas horas
atrasado. Todos estavam ansiosos para ir para casa e
descansar, então, assim que começaram a pegar as malas,
saíram rapidamente.
Arthit pegou sua mochila e dois pacotes de água embaixo
do assento. Mas, com as mãos ocupadas, não conseguiu
carregar os dois.
4 Eu te ajudo, P'Arthit 4 Kongpob se ofereceu, e Arthit
concordou, deixando-o levar um dos pacotes. 4 Para onde
levo?
4 Aqui, me segue 4 Arthit guiou Kongpob até onde
estavam as coisas dos alunos do segundo ano.
Assim que deixaram os pacotes de água, Kongpob se
preparou para ir até os amigos, quando uma voz o deteve.
4 Espera.
4 Sim? 4 Kongpob virou-se para Arthit, cujo rosto estava
cheio de dúvidas. Mas a expressão durou pouco, pois logo a
máscara fria do líder do trote reapareceu.
4 Nada. Só ia te agradecer, sabe, por me ajudar.
4 Não há o que agradecer, P'Arthit. Fico feliz em te ajudar
4 Kongpob respondeu com um sorriso, olhando para Arthit
com aqueles olhos sinceros que tanto o confundiam. Então,
virou-se e foi até o grupo de amigos, que já o chamavam.
E, assim, Arthit perdeu a chance de fazer a pergunta que
tanto perturbava seu coração.
Perguntar a Kongpob se ele sentia algo por ele. Se o via de
forma diferente.
Mas, no fundo, sabia que não fizera a pergunta por um
motivo. Não era medo da resposta, mas sim por não saber o
que queria ouvir.
Se Kongpob dissesse que sim, o que Arthit faria? Como
responderia?
E se Kongpob dissesse que não? Então Arthit teria que
colocar um ponto final. Pedir para ele parar de ser tão gentil.
21
Regra numero vinte e um para o calouro:
"Calouros tem direito de escolher"
Kongpob acreditava firmemente que estava agindo
normalmente. Vestira uma camiseta justa, uma jaqueta
escura, calças pretas e botas. Olhou-se no espelho para
arrumar o cabelo e repetiu a si mesmo que não era por nada
especial. Por fim, passou um pouco de Acqua di Gio, só porque
gostava do perfume. Apenas por isso.
Era um dia qualquer.
Nada de especial.
Kongpob olhou-se mais uma vez, e seu sorriso nervoso o
fez admitir o que vinha negando a manhã toda.
Para ele, aquele não era um dia comum.
Decidiu ser especialmente cuidadoso, não só na escolha
das palavras, mas em manter a paciência e descobrir seus
próprios sentimentos. Na verdade, estava um pouco
envergonhado enquanto esperava Arthit em frente ao local
onde haviam combinado de se encontrar. Faltavam alguns
minutos para o horário marcado, e ainda tinha tempo para se
acalmar, mas parecia impossível, mesmo que aquilo fosse
apenas um encontro amigável para comprar algumas coisas.
Kongpob balançou a cabeça, confuso com seu próprio
nervosismo. Sentia a mesma ansiedade de quem está prestes a
encontrar alguém em um encontro romântico. E a situação era
totalmente oposta a isso.
Embora houvesse uma explicação para sua ansiedade.
Era a primeira vez que ele e Arthit estariam verdadeiramente
sozinhos, e o calouro queria fazer tudo certo para não irritá-lo.
Mas, antes mesmo de começar, seu plano parecia fadado ao
fracasso, pois, assim que Arthit chegou ao local, fez uma cara
irritada, franzindo a testa ao vê-lo.
4 Desculpe se te fez esperar, mas a culpa é sua por
marcar um horário tão cedo 4 Arthit reclamou, sem nem
mesmo cumprimentá-lo antes.
Kongpob olhou para Arthit, que chegara com ar
apressado. Onze da manhã não era nada cedo. Era quase
meio-dia.
Arthit ainda estava com a cabeça baixa, recuperando o
fôlego. Quando ergueu os olhos e viu Kongpob à sua frente,
sua boca abriu e fechou imediatamente, franzindo os lábios
com irritação ao notar a diferença entre suas roupas.
Arthit usava uma camiseta com o rosto do Che Guevara,
jeans e um par de tênis simples. Kongpob achou que ele estava
bem casual, com um visual descontraído e confortável. E,
definitivamente, muito bonito, a ponto de não conseguir
desviar o olhar. Até que a voz do veterano o fez voltar à
realidade.
4 Então, o que você precisava comprar? 4 Arthit
perguntou, e Kongpob teve que se recompor para não
gaguejar.
4 Algumas coisas, mas quero sua ajuda para escolher. 4
Mal terminou de falar e um sorriso bobo surgiu em seu rosto.
Kongpob sorria ao guardar seu segredo. Sem muitas
explicações, levou Arthit até a loja que tinha em mente.
O líder do trote seguiu o calouro com certa confusão no
rosto. Primeiro, ainda estava irritado com o comportamento
suspeito e misterioso de Kongpob. Segundo, o clima que o
0062 emanava naquele dia o incomodava - uma espécie de
sensação hipnotizante ao vê-lo.
Arthit sabia que Kongpob era atraente, mas vê-lo vestido
daquele jeito, como um modelo de capa de revista, o
incomodava justamente porque fazia parecer que ele era um
príncipe acompanhado de seu servo. O líder do trote torceu o
nariz diante da ideia de que as pessoas pensassem que o
calouro só estava com ele para carregar suas compras.
Apesar de irritado com seus próprios pensamentos, Arthit
sabia que a aparência não era motivo válido para julgar
alguém, muito menos seu modo de se vestir. Então
simplesmente seguiu Kongpob pelos corredores do shopping
até as escadas, indo depois para a seção de brinquedos de
uma das lojas. Viu o calouro parar em alguns jogos educativos
infantis - daqueles que ninguém quer e são dados como
presentes. Mas foi só por um instante antes que Kongpob os
descartasse e fosse direto para as bonecas e pelúcias. Arthit
parou a alguns metros enquanto Kongpob pegava um urso de
pelúcia marrom com vestido rosa e um urso polar com traje
azul. O calouro virou-se para Arthit com um sorriso,
mostrando os dois bichinhos.
4 Qual você gosta mais? Não consigo decidir.
Arthit piscou surpreso, observando o calouro - a lua da
universidade - segurando dois ursinhos de pelúcia e
balançando-os diante de seu rosto. O líder do trote tentou
manter a compostura, mas não resistiu a dar uma risadinha
contida.
4 Não sei, não imaginei que você tivesse esse tipo de
gosto.
Kongpob, mal interpretado, abriu os olhos espantado
antes de negar com a cabeça e explicar apressadamente:
4 Não, não! É para minha sobrinha! Amanhã é
aniversário dela e quero comprar um presente.
Arthit assentiu, entendendo a situação.
4 Entendi. Quantos anos ela faz?
4 Três anos. É filha da minha irmã mais velha.
4 Você tem uma irmã mais velha?
4 Sim, na verdade são duas. A diferença de idade entre
nós é de quase dez anos. Sou o caçula da família. E você,
P'Arthit? Tem irmãos ou irmãs?
4 Não, sou filho único.
Kongpob pareceu um pouco surpreso com a resposta,
mas para ele fazia sentido. Provavelmente era por isso que
Arthit estava acostumado a assumir responsabilidades e
liderar - algo que Kongpob, acostumado a seguir os desejos
dos outros por ser o caçula, nem sempre fazia.
Arthit refletiu sobre o que Kongpob dissera. Descobrir que
o calouro tinha irmãs muito mais velhas indicava que crescera
numa família experiente, sendo o bebê mimado de todos. Algo
que talvez explicasse por que era tão teimoso e fazia o que
queria sem pensar nas consequências. Como naquele
momento, convidando o líder do trote para escolher o presente
da sobrinha sem perguntar se ele entendia de brinquedos
infantis.
Arthit suspirou pesadamente antes de olhar ao redor,
buscando nas prateleiras brinquedos mais modernos e caros.
Depois limpou a garganta para tentar dar algum conselho.
4 O que você realmente quer dar para sua sobrinha? Algo
para brincar ou prefere algo educativo? Hoje há muitos jogos
diferentes, alguns dizem ajudar no desenvolvimento cerebral
das crianças. Vi na internet uma massinha especial para
modelar figuras, tipo Lego. Quando eu era criança, os
brinquedos mais legais eram pistolas a laser, mas você não
deve conhecer isso - provavelmente teve brinquedos mais
modernos.
Kongpob não disse nada, mas achou engraçado ouvir um
cara de 21 anos reclamando como um velho sobre as gerações
mais jovens. Mas Arthit realmente acreditava que os calouros
eram completamente diferentes de sua geração - os
professores e o ambiente eram mais acessíveis para eles. Os
novatos se intimidavam com tudo, não tinham personalidade,
e Arthit estava cansado daqueles chorões. E, como suspeitara,
o calouro diante dele discordou.
4 P'Arthit, temos só dois anos de diferença.
Arthit percebeu a provocação na voz de Kongpob,
insinuando que dois anos era pouca diferença - praticamente
eram da mesma geração. Portanto, suas queixas eram
infundadas e só fariam sentido com pelo menos dez anos de
diferença. Resumindo, o líder do trote sentiu-se constrangido
pelo que dissera, mas conseguiu esconder o embaraço sob
uma expressão séria e uma resposta arrogante.
4 E o que isso importa? Eu nasci antes de você, então
sou mais velho e sábio. Vai discutir isso também?
4 Não, não estou discutindo 4 Kongpob ergueu as mãos
com os ursinhos, reconhecendo a derrota. Mas o sorriso nos
lábios e o brilho divertido nos olhos bastaram para Arthit
perceber que, em parte, dissera algo idiota. Mesmo assim,
vencera - Kongpob admitira a derrota.
Satisfeito por ter a última palavra, Arthit mudou de
assunto, voltando à pergunta inicial.
4 Me dá esses ursinhos e vai ver se acha algo melhor! 4
Arthit pegou os pelúcios das mãos de Kongpob, que obedeceu
e foi olhar outras prateleiras, espiando discretamente o líder
do trote concentrado enquanto analisava os dois bichos - o
branco e o marrom.
Apesar da contradição entre a imagem de Arthit - um
homem de expressão séria - segurando dois ursinhos fofos,
havia algo bonito naquela cena. Talvez o esforço de Arthit em
ajudá-lo a escolher o presente certo fosse o que deixava
Kongpob feliz ao observá-lo.
Além disso, Arthit sempre fazia a escolha certa, não
importava a situação.
Embora Kongpob geralmente discordasse de Arthit, era
principalmente com sua faceta de líder do trote que ele tinha
desentendimentos. Mas aquele personagem não era Arthit por
completo. E Kongpob queria conhecê-lo de verdade - não só
como líder do trote, mas como Arthit sendo ele mesmo.
Kongpob queria saber como Arthit pensava e via o
mundo. Às vezes, tinha pequenos vislumbres disso. Algumas
opiniões ou ações inconscientes de Arthit até o divertiam.
Arthit era mais velho e experiente, mas Kongpob não o via
como mais um veterano - enxergava sua personalidade única.
Tanto que no passado agira sem considerar que era o mais
novo e devia respeito a Arthit, causando atritos entre os dois.
Principalmente porque Arthit se ofendia facilmente.
Mas, apesar do passado, Kongpob sabia que Arthit não
era rancoroso, e que seus erros não arruinariam uma futura
amizade.
Arthit interrompeu seus pensamentos ao empurrar um
dos ursinhos - o marrom - em sua direção. Parece que fizera
sua escolha.
4 Acho esse melhor. Além disso, o branco pode sujar
fácil, não acha?
4 Perfeito, então vou levar esse 4 Kongpob respondeu
rápido, mas a resposta irritou Arthit.
4 Vai simplesmente aceitar o que eu disser? Pense
direito, Kongpob! É um presente para sua sobrinha!
A repreensão fez Kongpob calar-se. Na verdade, a escolha
do presente fora só uma desculpa para passear com Arthit,
mas o veterano levara a sério. Então Kongpob precisava
mudar de estratégia.
4 Mas eu concordo, P'Arthit! O marrom vale mais, e
pensei que o vestido rosa agradaria mais minha sobrinha, mas
o branco é maior. Com o que você disse, já me decidi.
Ao ouvir os argumentos que apoiavam sua decisão, Arthit
assentiu aprovador. Afinal, a escolha final era do tio da
menina.
4 Ótimo. Vou pagar.
Enquanto Kongpob foi ao caixa e o brinquedo era
embrulhado, Arthit aproveitou para circular pela loja - em sua
maioria brinquedos infantis, com alguns itens para todas as
idades. Havia também um pequeno expositor com cartões de
aniversário, formatura, casamento e outras ocasiões.
Na semana seguinte seria o casamento de Thum e Fon, e
Arthit nem sequer pensara no que compraria de presente.
Considerara colocar dinheiro num envelope, mas os amigos
disseram que era muito impessoal. Queria dar algo
significativo, já que Thum se esforçara tanto por eles quando
eram calouros. Mas nenhuma ideia lhe ocorria.
O líder do trote estava imerso em seus pensamentos
enquanto caminava pelos corredores da loja, olhando as
prateleiras e examinando os produtos. Mas, por mais que
procurasse, não conseguia decidir. Foi então que Kongpob,
que já havia pago suas compras, aproximou-se dele segurando
um pequeno pacote com a imagem de um urso na embalagem.
4 P'Arthit, está procurando algo?
4 Um presente para o casamento do P'Thum. Queria
comprar algo para ele 4 explicou Arthit, pegando um
porta-retratos na parte inferior da prateleira de cartões.
Pensou que, durante a festa, tirariam muitas fotos e talvez
quisessem emoldurar uma. Algo útil e significativo.
Mas, se iam tirar tantas fotos, não seria melhor um álbum
para guardar todas?
4 Acho que dar um cartão é o suficiente 4 respondeu
Kongpob, oferecendo um deles.
4 Um cartão? Não acha muito simples? 4 Arthit olhou
para o calouro com dúvida, concluindo que Kongpob parecia
determinado a tomar decisões simples naquele dia.
Mas Kongpob balançou a cabeça, explicando seu ponto
de vista.
4 Claro que não, porque o presente não é o cartão em si,
mas as palavras que você escrever dentro. Acho que P'Thum
vai gostar. Além disso, é romântico 4 argumentou Kongpob,
achando que convenceria Arthit.
Obviamente não foi o caso. Arthit imediatamente
protestou.
4 É o casamento do P'Thum, por que diabos eu seria
romântico? Não é uma carta de amor idiota.
4 Se for assim, então não dê pra ele. Escreva uma carta
de amor pra mim.
Arthit sabia que para Kongpob aquilo era só uma
brincadeira, mas mesmo assim ficou em silêncio.
Entre amigos se faziam esse tipo de piada? Ele não sabia.
Mas de uma coisa Arthit tinha certeza: aquele brilho de
esperança no olhar de Kongpob definitivamente não existia
entre dois amigos.
Mais uma vez, Arthit pensou na pergunta que queria fazer
ao calouro desde que voltaram da viagem.
Aquela pergunta incômoda para a qual não encontrava
resposta sozinho... Se Kongpob sentia o que Arthit suspeitava.
Ele sabia que um dia teria que perguntar, cedo ou tarde.
Então, por que não naquele momento? Dependendo da
resposta, poderia entender a situação e reagir
adequadamente, em vez de ficar desconfortável e sem saber
como responder.
Arthit respirou fundo, enchendo os pulmões de ar antes
de se preparar para perguntar ao calouro o que sentia por ele,
quando uma voz feminina atrás dele o chamou.
4 Ai'Oon, é você?
Arthit virou-se para a voz antes de exclamar surpreso o
nome da pessoa à sua frente.
4 Namtan! 4 disse Arthit, e ela sorriu
encantadoramente.
4 Então era você mesmo, Ai'Oon! Está tão diferente!
Deixou a barba e o cabelo crescerem, quase não te reconheci!
Estou surpresa! O que está fazendo aqui?
4 Vim ajudar um calouro do meu departamento a
comprar algo 4 explicou Arthit, percebendo a presença de
Kongpob ao seu lado. Então os apresentou. 4 Este é meu
amigo, Kongpob. Ela é Namtan, estuda na Faculdade de
Ciências.
Kongpob cumprimentou-a formalmente, enquanto ela
também se inclinou, sorrindo amigavelmente. Namtan não
podia ser chamada de uma beleza, mas tinha um ar agradável
que a tornava muito bonita, especialmente quando sorria e
suas bochechas coravam levemente, aumentando seu
charme. Após as apresentações, os veteranos mergulharam
em conversa enquanto o calouro apenas os observava.
4 E você, Namtan, o que faz aqui?
4 Estava passeando, pensei em procurar um presente
para Jay pelo nosso aniversário.
4 Entendo. Três anos, uma vida toda. Estou com inveja.
4 Ah, para com isso, Ai'Oon! E você, por que não se abre
para alguém?
4 Já tentei, mas não consigo esquecer minha linda amiga
Namtan.
4 Você ainda é um adulador adorável! Devíamos nos ver
mais, Ai'Oon. Me liga quando tiver tempo livre, faz tanto tempo
que não passamos um tempo juntos.
4 Melhor não, Jay pode descobrir e tentar me bater.
4 Você é louco! Por que ele faria isso? Se tentar te bater,
que arque com as consequências!
4 Que consequências? Vai deixar o Jay por mim?
4 Desisto! É impossível falar com você! Nunca fica sem
respostas, sempre quer sair vitorioso, Ai'Oon. Bom, não vou te
atrapalhar mais. Termine suas compras, eu tenho que ir. Jay e
eu vamos ao cinema, e já está tarde.
Ela foi embora, deixando Arthit e Kongpob sozinhos
novamente, envoltos em silêncio.
4 Ela é sua amiga?
Arthit assentiu. Ele havia apresentado Kongpob como
amigo, embora ainda não soubesse ao certo o que eram.
4 Sim, estudamos juntos no ensino médio 4 explicou o
líder do trote, olhando novamente para os cartões. Estava
prestes a retomar o assunto quando Kongpob interrompeu.
Suas perguntas não haviam terminado.
4 Vocês se conhecem há muito tempo?
4 Sim, desde o ensino fundamental, nos conhecemos há
uns sete ou oito anos.
4 Ela tem um sorriso encantador.
4 Bem, ela é muito bonita, então sim, concordo.
4 Você gosta dela?
A mão de Arthit que segurava o porta-retratos tremeu. Ele
ergueu os olhos para Kongpob, que aguardava uma resposta.
Não sabia se o calouro perguntava por ter ouvido a conversa
anterior ou por outro motivo. De qualquer forma, Arthit ficou
em silêncio por alguns minutos antes de decidir dizer a
verdade.
4 Sim.
Foi uma única palavra. Simples e direta, mas que mesmo
assim atravessou o coração de quem perguntara. Kongpob
ficou mudo, olhando para Arthit. O líder do trote suspirou
suavemente, como se desistisse de algo com que lutava em sua
mente, e começou a explicar os detalhes para Kongpob.
4 Eu gostava. Antes eu a queria, mas agora isso já
passou. Na época, um dos meus amigos também estava
apaixonado por ela, e Namtan preferiu ele. Então acabou
assim. E pelo visto ela fez uma boa escolha, ainda estão juntos
depois de três anos.
Com o passado ainda vivo na memória, Arthit sorriu para
suas lembranças. Quando eram mais jovens, antes da
universidade, eles eram próximos. Os três - Namtan, Jay e ele.
Estavam sempre juntos, eram colegas de classe. Jantavam
juntos e faziam trabalhos em grupo. Mas Arthit não percebeu
quando a amizade entre eles mudou, nem quando Jay
começou a cortejar Namtan. Só notou na formatura, quando
os viu de mãos dadas. E o fato de ambos estarem na mesma
universidade que ele tornava as coisas ainda mais
desconfortáveis.
4 Mas provavelmente foi culpa minha. Eu nunca disse a
ela que gostava dela. Nem sei por que não fiz isso.
Naquela época, era normal passar tempo com ela. Ele só
brincava com Namtan, dando indiretas, enquanto ela achava
que Arthit a provocava por hábito. Namtan nunca soube o que
havia por trás de suas palavras, simplesmente porque Arthit
não teve coragem de confessar seus sentimentos. E então
alguém apareceu e fez o que ele não ousara.
4 Entendo 4 disse Kongpob de repente, fazendo Arthit
franzir os lábios e a testa com desconfiança.
4 O que você entende?
4 Entendo por que você não teve coragem de contar pra
ela. 4 Kongpob não deu mais explicações, mas foi
transparente o suficiente para deixar claro o que queria dizer.
E, por mais estranho que fosse, Arthit perdeu toda a
coragem que tinha no começo e hesitou em fazer a pergunta ao
calouro. Aquele momento não parecia mais apropriado.
4 Você está falando coisas sem sentido.
Arthit decidiu encerrar a conversa, preferindo não
continuar com o assunto. O líder do trote pegou um cartão e
foi até o caixa pagar, deixando Kongpob sozinho.
O calouro o seguiu com os olhos e depois suspirou.
O cartão escolhido por Arthit tinha o desenho de uma
noiva e um noivo, algo que apertou o coração de Kongpob de
certa forma. Ele dissera que entendia.
Kongpob entendia bem a razão pela qual Arthit não tivera
coragem de dar um passo em sua relação com Namtan e se
aproximar dela como mais que um amigo.
A mesma razão pela qual Kongpob não ousava se
aproximar de Arthit. O mesmo medo de dar o próximo passo,
como se uma barreira invisível e pesada estivesse no caminho.
E essa barreira era o medo de perder a amizade que
começava a florescer entre os dois.
22
Regra numero vinte e dois para o calouro:
"Nao olhar diretamente nos olhos dos
veteranos"
4 0062! 0062!
Arthit franziu a testa com desgosto antes de dar leves
tapinhas nas costas de Kongpob e gritar seu nome perto de
seu ouvido.
4 Kongpob!
Surpreso, Kongpob deu um pequeno pulo antes de voltar
à realidade. Seus olhos confusos se viraram para Arthit, que o
encarava com uma expressão séria e até irritada.
4 O que foi, P'Arthit?
Arthit só precisou olhar para ele para saber que Kongpob
nem sequer o ouvira. Estava assim desde que Arthit comprara
o cartão para Thum - o calouro não dissera mais uma palavra,
apenas caminhava em silêncio ao seu lado com uma expressão
tensa, como se carregasse o peso do mundo nos ombros.
Arthit o chamara várias vezes, sendo completamente ignorado.
O fato de Kongpob estar envolto numa nuvem negra de tristeza
começou a irritá-lo. Por isso, decidiu ser mais rude - estava
cansado de não obter resposta.
4 Se já terminou de comprar o que queria, então vá
embora. Essa cara miserável está esgotando minha paciência.
Arthit estava furioso, tanto que falou tudo o que pensava
sobre a atitude do calouro.
Kongpob ficou em silêncio, forçado a admitir que estivera
profundamente perdido nos problemas que giravam em sua
mente. Em particular, pensando na situação que acabara de
presenciar - o encontro com Namtan, a garota de quem Arthit
gostava. Mesmo que ele dissesse que era coisa do passado,
Kongpob ainda não acreditava. Aquilo gerara pensamentos
contraditórios em sua mente, deixando-o estranhamente
desconfortável e confuso.
Kongpob sabia que, se expressasse seus pensamentos
naquele momento, o mais provável era que Arthit ficasse
irritado, como acontecera muitas vezes antes. Então
manteve-se calado, tentando evitar uma briga. Mas não
conseguiu evitar que seu silêncio tornasse a companhia
desconfortável.
4 Não, não é isso, P'Arthit! Não quero ir embora ainda, é
só que estou com fome. Sim, é isso - estou faminto!
Arthit parou, olhou as horas no relógio e viu que marcava
pouco depois do meio-dia.
Ele assentiu, concluindo que 0062 não mentia. Afinal, já
era hora do almoço. Na verdade, ele também estava com fome -
e, claro, quando não comia, ficava de mau humor. Assim como
o calouro naquele momento. Então Arthit suavizou a voz,
sentindo empatia por Kongpob.
4 Por que não me disse antes? O que você quer comer?
4 Qualquer coisa. E você, o que gostaria?
A pergunta foi devolvida, e Arthit olhou em volta para os
restaurantes próximos. Havia algumas opções japonesas,
cafeterias e principalmente fast-food. Nada especialmente
bom, na opinião dele, já que a relação preço-qualidade deixava
a desejar. Bem diferente dos restaurantes do centro da cidade,
que eram realmente bons.
4 Conheço um lugar que serve um macarrão excelente.
Mas precisamos pegar um ônibus para chegar lá.
4 Nós...?
Kongpob interrompeu-se, sem perder tempo perguntando
algo que não precisava de explicação. A única razão era que,
na verdade, ele aceitaria qualquer restaurante, porque não
estava com fome.
Mas era Arthit quem o convidara, então ele iria a qualquer
lugar que o veterano escolhesse, mesmo que fosse do outro
lado da cidade. Além disso, os restaurantes do shopping
costumavam estar lotados - e ele não gostava de lugares
cheios.
Kongpob, com seu pacote de presente na mão, seguiu
Arthit até o ponto de ônibus. O veículo não demorou a chegar,
e quando entraram, Kongpob imitou Arthit sentando-se nos
bancos de trás.
O restaurante escolhido por Arthit ficava num beco.
Apesar do tamanho pequeno, estava cheio de clientes - um
sinal de que a comida era deliciosa. Por sorte, conseguiram
uma mesa livre.
Kongpob olhou o cardápio e escolheu imediatamente um
macarrão chinês sem tempero. O garçom se aproximou, e
Arthit foi o primeiro a pedir.
4 Vou querer o macarrão chinês com carne de porco e
pimenta. E você?
4 Vou querer o macarrão chinês sem pimenta, com
almôndegas.
Kongpob achou ter visto Arthit franzir a testa ao ouvir seu
pedido, como se ele tivesse dito algo engraçado.
O garçom trouxe as bebidas enquanto esperavam a
comida. Quando os pratos chegaram, Kongpob nem sequer
provou seu macarrão.
4 Ei, ei, espera! Aqui está o seu prato.
Arthit estendeu a mão e trocou as tigelas de macarrão. O
cheiro da carne de porco atingiu o nariz de Kongpob, que
protestou.
4 P'Arthit! Está tentando me provocar de novo?
Por que Arthit voltava a se comportar como antes?
Kongpob ainda se lembrava do dia em que o líder do trote
trocara seu arroz com ovos mexidos por um arroz frito com
frango e ovos, acompanhado de manjericão e pimenta
vermelha - e o obrigara a comer tudo.
Portanto, desta vez, Kongpob desconfiou das intenções de
Arthit.
4 Quem está tentando te provocar? Só quero que você
prove este prato - o macarrão com carne de porco é muito
gostoso! Não acredita em mim?
Com voz desafiante, Arthit não tirou os olhos de Kongpob,
satisfeito por o calouro não protestar mais.
Kongpob examinou o caldo do macarrão, com pedaços de
pimenta flutuando. Olhou novamente para Arthit - ele era
inteligente e sabia que o veterano tinha outras intenções. Mas
quais?
No final, Kongpob aceitou o pedido de Arthit e começou a
provar a sopa, saboreando lentamente o tempero picante e se
preparando para resistir. E, por mais incrível que parecesse, o
sabor do macarrão em seu paladar era diferente - não tão
picante e muito saboroso. Os grandes pedaços de carne de
porco davam um gosto ainda melhor.
A surpresa estampou-se no rosto de Kongpob, e Arthit,
que observava sua reação, não perdeu a chance de se gabar.
4 É delicioso, não é?
4 Sim! Por que não me disse para pedir isso desde o
começo, P'Arthit?
4 Queria saber o que você costuma pedir. Mas nunca
imaginei que escolheria um caldo tão sem graça... como
consegue comer algo tão sem gosto?
A risada divertida de Arthit deixou Kongpob
envergonhado. A cena terminara como sempre - com Arthit
zombando dele e se divertindo por estar certo enquanto
observava a reação do calouro. Mas ele pedira aquele
macarrão simples porque, primeiro, adorava aquele sabor e,
segundo, queria testar se o restaurante era realmente bom - e
para isso, precisava de um prato que conhecesse bem.
Mas, se começasse a explicar tudo para Arthit, não tinha
certeza se o veterano acreditaria nele. Afinal, Arthit sempre
agia como se Kongpob tivesse acabado de sair da creche, igual
a uma criança imatura. Então Kongpob simplesmente
devolveu a tigela ao dono original e falou com voz cansada.
4 Bom, então é melhor eu te devolver sua comida.
4 Fiquei ofendido? Vamos, é seu. Quero que prove algo
mais gostoso 4 Arthit riu e empurrou o prato de comida para
Kongpob, sem parar de olhá-lo com certo divertimento. 4
Além disso, pedi esse prato especialmente para você.
O sorriso normalmente malvado de Arthit não foi
surpresa para Kongpob. O que fez seu coração parar foi a
impressão que teve ao ouvir a última frase dita pelo líder do
trote.
"Além disso, pedi esse prato especialmente para você."
Isso bastou para Kongpob começar a comer o macarrão,
escolhendo até um grande pedaço de carne de porco cozida. O
caldo era quase incolor, mas sua presença era notada pelos
temperos flutuando por todo o prato.
Arthit sempre se comportava assim. Parecia cruel, mas
no fundo era mole.
O calouro tinha decifrado a natureza de Arthit. O líder do
trote costumava dizer palavras duras, mas sua alma era de
alguém gentil. Foi difícil para Kongpob entender por que Arthit
não mostrava seu verdadeiro eu para os outros.
Ele percebia o quão assustador achava que era? Arthit
estava bem com isso? Kongpob também acreditava nisso. Mas
em algum momento conseguiu ver além da aparência e
contemplar sua verdadeira essência. E não queria criar
ilusões, mas Kongpob intuía que até Arthit agia diferente com
ele. Kongpob se perguntou se Arthit sabia disso, se era
intencional... Se sabia que era diferente com ele do que com os
outros calouros. Se Kongpob, de certa forma, também era
especial.
Mas o mais confuso era o fato de que Kongpob já havia se
resignado a se desiludir, e até gostava das sutis atenções que
Arthit tinha com ele de vez em quando. E, embora não
quisesse pensar muito nisso, Kongpob temia o quão imerso se
sentia nessa estranha relação que surgira entre eles, porque
quanto mais o tempo passava, mais ele se sentia incapaz de
voltar atrás.
Apesar de suas preocupações, o calouro fez um esforço
para agradar o líder do trote e, assim, garantir que sua
relação, mesmo que lentamente, progredisse.
Kongpob estava se colocando numa situação difícil. Cada
momento que passava com Arthit, onde percebia a ausência
cada vez maior das paredes que o líder do tote colocava entre
eles, Kongpob sentia parte de si cair gradualmente, agravando
seus sentimentos confusos.
4 0062. Ei, 0062 4 chamou Arthit, mas não houve
resposta do calouro.
O líder do trote fez cara feia, batendo os pauzinhos
suavemente no prato de Kongpob, esperando que ele saísse do
transe.
4 Kongpob, no que você está pensando? Está bem? Está
com dor de estômago?
Kongpob deixou seus pensamentos e voltou sua atenção
para Arthit, que acabara de roubar um pouco do caldo do seu
macarrão. Ele o olhava com a testa franzida, julgando-o com
certo desgosto. Então Kongpob fingiu que nada acontecera e
começou a comer o macarrão. O sabor delicioso pareceu
ajudá-lo a dissipar seus pensamentos complicados.
Arthit o observou por mais alguns segundos até se
convencer de que Kongpob era apenas um esquisitão
distraído. Ambos comeram e pagaram as contas pouco depois
de terminar.
Já era tarde quando saíram do restaurante, mas o sol
ainda queimava impiedosamente a pele de quem caminhasse
sob ele. Arthit semicerrou os olhos olhando ao redor.
4 P'Arthit, vai a algum outro lugar?
4 Para onde eu iria com esse calor horrível?
4 Talvez pudéssemos ir ao cinema. Seria bom sentar e
relaxar num lugar com ar-condicionado 4 sugeriu Kongpob.
O shopping ficava a três paradas de ônibus, o mesmo caminho
que fizeram para chegar, e não precisariam caminhar e suar
sob o sol.
Arthit concordou com a cabeça.
4 Tudo bem, vamos.
Ambos deixaram o beco e esperaram o ônibus. Dessa vez,
pegaram outra entrada, que dava para as escadas do piso
superior do shopping, onde ficava o cinema. Era tão grande
que ocupava quase um terço do andar.
4 P'Arthit, qual filme você quer ver?
4 Não sei... Não estou por dentro das novidades 4 Arthit
encolheu os ombros e falou a verdade. Desde que começara
seus deveres como líder do trote, não tivera tempo de ver as
novidades em cartaz.
E agora, quando as atividades do trote finalmente
terminaram, era metade do semestre, então ele não tinha
tempo para descansar. Embora, sendo honesto, Arthit não
pudesse dizer que o cinema era seu lugar habitual para ver
filmes. Se um fosse realmente popular, ele preferia assistir no
computador. E a maior parte do tempo livre ele usava para ler
quadrinhos ou jogar online.
Mas aparentemente Kongpob tinha uma perspectiva
completamente diferente. O calouro lhe disse confiantemente
seus argumentos para escolher o filme mostrado num dos
cartazes.
4 Então acho que devemos ver este filme. Li que o
orçamento foi de vários milhões de dólares, e tem sido muito
bem avaliado nesta semana de estreia. O filme é dos Estados
Unidos e tem bons comentários de pessoas do mundo todo 4
Arthit olhou para Kongpob, que apontava para o cartaz. O
calouro estava animado, e ele, sinceramente, não fazia ideia de
que fosse popular. Arthit nem sequer ouvira o título do filme.
Mas o rosto animado de Kongpob foi o suficiente para ele
aceitar.
4 Tudo bem, vamos ver esse.
4 Ótimo! Espere aqui, vou comprar os ingressos 4
Kongpob foi direto para a fila da bilheteria, deixando Arthit
vagueando sem rumo enquanto observava os outros clientes.
A maioria das pessoas no cinema estava em casais, e os
poucos que estavam sozinhos era porque basicamente
esperavam alguém num ponto de encontro. Arthit seguiu com
os olhos alguns casais de mãos dadas e, embora não
admitisse, sentia inveja deles. Ele queria estar no lugar deles.
Ao mesmo tempo, Arthit chegou a pensar e admitir que
sair com Kongpob não era tão ruim quanto esperava. No
começo, o líder do trote suspeitou que o calouro usaria a
desculpa do presente que queria comprar para deixá-lo
plantado ou pregar alguma peça. Mas na verdade descobriu
que ele não mentira, e passar tempo juntos foi agradável.
Tinham passeado pelo shopping, comprado o presente para a
sobrinha dele, e agora estavam prestes a ver um filme. No
geral, estavam fazendo tudo o que casais normais faziam
num... encontro?
Arthit parou. O que diabos ele estava pensando?
O líder do trote sentiu seu coração palpitar com a ideia.
Claro que não! Arthit estava ali para cumprir o castigo da
aposta, não estavam de forma alguma num encontro. Que tipo
de merda ele estava pensando?
Arthit balançou a cabeça, tentando afastar esses
pensamentos desagradáveis. Era tudo culpa de Kongpob, ele e
sua maneira confusa de tratá-lo.
Mas de uma coisa Arthit percebeu. Não estava totalmente
certo que tipo de relação ele e Kongpob tinham.
Arthit soube desde o primeiro momento em que conheceu
Kongpob que aquele calouro era muito ousado e, ao mesmo
tempo, um homem que cumpria suas responsabilidades. Dear
até dissera que Kongpob seria um ótimo líder do trote para sua
geração. Ele também percebera - Arthit sabia que Kongpob
tinha potencial. Se o calouro mantivesse seus modos e falasse
num bom tom, poderia ser muito persuasivo. E embora não
quisesse admitir, tinha grandes expectativas nele.
Ao mesmo tempo, quanto mais tempo passava com ele,
Arthit notava as mudanças na atitude de Kongpob. E até lhe
parecia que sua relação tinha se transformado em algo mais
que calouro e veterano.
Arthit quisera conversar com Kongpob sobre seus
sentimentos, saber suas intenções e esclarecer a situação.
Mas toda vez que via a oportunidade, algo o impedia. E
acabava agindo como se nada tivesse acontecido.
Não podia deixar as coisas como estavam. Era preciso
esclarecer a situação antes que avançasse ou ficasse como
estava... porque fingir que não via podia ser perigoso.
Arthit teve que interromper o fluxo de pensamentos
quando viu Kongpob voltando com os ingressos e alguns
lanches.
Ambos foram para a sala, onde passaram as próximas
duas horas e meia assistindo ao filme que Kongpob escolhera.
Quando saíram, Arthit começou a dar sua opinião com
entusiasmo. O filme superara suas expectativas.
4 A cena da explosão foi alucinante! Você acha que ele
morreu? Deve ter uma sequência, ou o que você acha? Essa
parte não ficou clara para mim!
4 Acho que ele não morreu. Não sei se você notou que no
começo do filme o diretor deu a entender que tudo era um
flashback. Além disso, li que estão planejando uma
continuação. A explosão foi incrível, a trilha sonora foi
magnífica, na verdade acho que isso merece um Oscar.
Arthit assistia aos filmes apenas pelo conteúdo, nunca
pensava além das imagens na tela. Já Kongpob estava
elogiando a direção e a música.
4 Você sabe muito sobre filmes.
4 Sou um pouco apaixonado por cinema. E você, tem
algo que goste de fazer, P'Arthit?
4 Não sei, acho que nada. Não tenho um hobby
específico. 4 Arthit falou, pensando em seu estilo de vida
tão... normal? Ele era um cara simples com uma aparência
comum.
Arthit continuou caminhando, vendo seu reflexo nas
vitrines das lojas vazias, comparando sua aparência com a do
garoto ao seu lado. E foi fácil chegar a uma conclusão - a
balança não penderia a seu favor se comparado a Kongpob.
Mas isso fazia sentido, afinal ele estava caminhando com a lua
da universidade.
Arthit ficou irritado consigo mesmo. Desde quando
começara a se comparar? E por que de forma tão negativa?
4 Está entediado? 4 Kongpob virou-se para Arthit com
uma expressão surpresa.
4 Não 4 respondeu o calouro. 4 Por que pergunta? Já
quer ir para casa, P'Arthit?
4 Não, preciso cortar o cabelo. Mas você pode ir, não
precisa me esperar.
Kongpob suspirou ao ouvir a explicação do líder do trote.
Na verdade, ele queria passar mais tempo com Arthit. Mas se
ele já estava entediado, Kongpob não podia fazer nada para
impedi-lo de se livrar dele.
Kongpob olhou para o relógio - eram mais de quatro da
tarde, mas o corte de cabelo de Arthit certamente não levaria
mais de uma hora.
4 Posso esperar. Além disso, acho que tem um salão no
andar de cima. 4 O que Kongpob disse fez Arthit hesitar. Os
preços dos cortes em shopping eram mais caros que em salões
comuns. Mas, por outro lado, ele não estava com disposição
para procurar outro lugar. E realmente queria se livrar
daquele cabelo comprido agora que o trote havia terminado, e
também por causa do casamento de Thum.
Segundos depois, Arthit cedeu ao conselho de Kongpob.
Havia dois salões disponíveis, e ele escolheu o mais confiável,
baseado no número de clientes esperando nas cadeiras.
Arthit foi recebido em um salão agradável, guiado para
uma cadeira na fila, e recebeu um catálogo com opções de
cortes masculinos. O líder do trote folheou o catálogo com
interesse, mas nada chamou sua atenção. Então, sem pensar,
virou-se para Kongpob pedindo sua opinião.
4 Qual você acha que ficaria bem em mim? Nada me
convence. Que tal um corte militar? Estou cansado do cabelo
comprido, quero bem curto.
Kongpob olhou para Arthit sem opinar, porque na
verdade ele já dera a si mesmo a resposta que precisava, e
parecia muito seguro do que queria. Então o calouro apenas
concordou, embora achasse que aquele corte não combinava
com ele. Quando Kongpob estava pensando se deveria ou não
dar sua opinião, um funcionário do salão se aproximou.
4 Já escolheu um corte? 4 perguntou com um sorriso.
Arthit assentiu. 4 Venha comigo.
4 Vá dar uma volta pelas lojas, não precisa ficar
esperando aqui sentado 4 disse Arthit, levantando-se para
seguir o funcionário até as cadeiras de lavagem.
Kongpob não obedeceu. Permaneceu no mesmo lugar.
Sabia que não tinha mais nada para comprar e também não
queria procurar nada em especial.
Então o calouro pegou uma revista e começou a ler para
passar o tempo. Em menos de uma hora, ouviu alguém o
chamando baixinho.
4 Kongpob.
Dessa vez foi seu nome que Arthit usou, em vez do
número de estudante como fizera o dia todo. Kongpob ergueu
os olhos em direção à voz e prendeu a respiração.
O cabelo comprido de Arthit fora cortado até o pescoço, e
suas orelhas agora estavam visíveis. A franja que cobria suas
sobrancelhas fora aparada, e seus olhos penetrantes estavam
especialmente visíveis. E o mais evidente - a barba e o bigode
que lhe davam o ar sério de líder do trote haviam sido
raspados. Seu rosto sem pelos faciais o fazia parecer mais
jovem, quase inacreditável que fosse da segunda geração mais
velha da faculdade.
O líder do trote parecia um pouco inseguro sobre o corte.
Arthit passou a mão pelo cabelo e perguntou a Kongpob sua
opinião.
4 Acha que ficou muito comprido? Eu queria mais curto,
mas o cabeleireiro disse que não combinaria comigo. 4 Arthit
fez um sinal para uma pessoa de vestido que claramente era
um homem, que ao ouvir virou-se para eles.
4 Ei, ei! Não toque na minha obra-prima! Tentei dar
forma àquele corte horrível que você tinha, e veja o resultado -
um lindo corte estilo coreano. É a última tendência! Você está
duas vezes mais bonito. Se não acredita em mim, pergunte ao
seu namorado. 4 A última frase fez Arthit estremecer. Seus
lábios se separaram surpresos e ele imediatamente começou a
corrigir o mal-entendido.
4 Não, não! Ele é um amigo da universidade.
4 Sério? Poxa, desculpe. Pensei que fossem um casal
porque ele ficou sentado esperando você o tempo todo, e olha
pra você como um garoto apaixonado. Veja esse sorriso. 4 A
"desculpa" do cabeleireiro foi pior que o comentário inicial, e
em vez de dissipar a tensão, só deixou as coisas mais
estranhas.
Arthit olhou para Kongpob, que de fato estava sorrindo, e
teve que desviar o olhar. Nenhum dos dois teve tempo de dizer
algo quando ouviram outra voz chamando o cabeleireiro.
4 Nenny, tem clientes esperando!
4 Sim, sim, eu sei! 4 gritou de volta. 4 Aqui está meu
cartão. Na próxima vez que vierem, peçam por mim. Garanto
um visual glamouroso, ficarão duas vezes mais bonitos. 4
Nenny entregou seu cartão a Arthit e Kongpob, deixando claro
que aquela era sua frase de efeito, antes de atender outros
clientes.
Ambos saíram do salão e Arthit não resistiu a passar a
mão pelo cabelo novamente.
Na verdade, Arthit sabia que qualquer corte ficaria bem
nele. Mas a sensação de que não cortaram o suficiente ainda o
incomodava. Parecia que pagara por um corte que não pedira.
Embora gostasse de ter tirado a barba e o bigode.
4 Ainda acho que ficou comprido... O que você acha,
combina comigo? 4 Arthit não resistiu a reclamar de novo.
Mas o calouro apenas repetiu as palavras de Nenny.
4 Você está muito bonito.
4 Fala a verdade, Kongpob! Pare de brincar. 4 Arthit
parou de caminhar, sua voz foi severa. Kongpob também
parou, olhando para Arthit com uma expressão meticulosa,
como se o estudasse profundamente, e suspirou antes de dizer
baixinho:
4 Você está certo, está ruim.
4 Está tão ruim assim? 4 perguntou Arthit
apressadamente, horrorizado. Ele não se importava muito
com o cabelo, mas a ideia de estar horrível o preocupava.
Tinha se visto no espelho - não estava tão mal.
Kongpob balançou a cabeça, aparentemente não tinha
terminado. E quando falou, seus olhos tinham a mesma
centelha de determinação que costumava ter quando
enfrentava Arthit na frente dos calouros.
4 Não, não... Quero dizer que... está ruim... ruim para o
meu coração.
Naquele segundo, Arthit entendeu por que o cabeleireiro
pensara que eram um casal. Bastou ver o olhar com que
Kongpob o encarava. Então Arthit rapidamente baixou a mão
que passava pelo cabelo e começou a caminhar sem ousar
tocar no assunto novamente. Ele baixou a cabeça, olhando
para o chão ao sentir uma estranha sensação no peito. Seu
coração começara a bater forte.
Arthit sabia que palavras eram perigosas e podiam
facilmente mudar a relação entre duas pessoas.
Mas acabara de aprender que alguns olhares também
podiam ser perigosos - tanto para ele quanto para seu coração.
23
Regra numero vinte e tres para o calouro:
"Confesse seus verdadeiros sentimentos ao
veterano"
4 P'Arthit, quer fazer mais alguma coisa?
A pessoa a quem a pergunta foi feita virou a cabeça para o
lado, olhando para Kongpob com uma expressão confusa. Ao
ver o rosto do calouro, Arthit não conseguiu evitar franzir o
semblante, quase como se tivesse sentido uma dor de
estômago terrível.
Arthit não conseguiu responder, possivelmente por causa
de seus pensamentos confusos, então apenas balançou a
cabeça e retomou o caminho, andando mais rápido, quase
correndo. Parou ao chegar no ponto de ônibus - não tinha
outra opção a não ser esperar e deixar o calouro alcançá-lo.
No geral, estava confuso. Não sabia o que estava
acontecendo com ele. Haviam lidado bem com os elogios do
cabeleireiro Nenny, e até mostrado indiferença ao
mal-entendido. Foi só quando seus olhos encontraram os de
Kongpob que sentiu uma sensação estranha no estômago.
E, embora as palavras de Kongpob fossem um elogio
indireto, ainda eram profundas demais para não significarem
nada. Arthit sentia que Kongpob estava ganhando cada vez
mais influência sobre ele. Além disso, a atmosfera daquele dia
era muito parecida com um encontro. Então, quanto mais
ficava ali com ele, mais confuso Arthit se sentia.
Precisava ir embora, e rápido.
4 Vou indo. 4 Já haviam terminado de comprar e comer,
então não havia mais atividades pendentes, além de que o
relógio marcava quase sete da noite. Arthit estava ansioso
para ir embora e cada um seguir seu caminho, mas Kongpob
se apressou em fazer outra oferta antes que ele partisse.
4 Vamos juntos.
Arthit percebeu que não podia escapar, principalmente
porque ele e o calouro estavam indo para o mesmo lugar.
Arthit esperou pacientemente num dos assentos do
ônibus enquanto este tentava desviar do trânsito. Quando
seus olhos viram a universidade pela janela, suas pernas
reagiram. Arthit levantou-se sem se incomodar em avisar seu
companheiro de viagem que haviam chegado ao destino.
Caminhou em direção ao dormitório, sentindo alguém o
seguindo como uma sombra, até que a sensação ficou tão
incômoda que Arthit teve que parar e se virar.
4 Para de me seguir, não precisa me acompanhar até
meu dormitório, eu consigo chegar sozinho. Para de se
preocupar tanto, não sou uma garota.
4 Eu sei, P'Arthit. Não estou te seguindo, meu dormitório
fica por aqui - eu moro no Chayaprang. 4 A resposta de
Kongpob surpreendeu o líder do trote. Aparentemente, o
prédio Chayaprang ficava ao lado do Ron Randy, onde Arthit
morava. E essa era a razão de sempre encontrar o calouro nos
estabelecimentos próximos. Mas então, por que Kongpob não
tinha contado que morava ali?
Enquanto Arthit analisava os mal-entendidos, o calouro o
observava com um sorriso, como se o líder do trote tivesse dito
algo engraçado. Então ele falou com um tom desafiante e
zombeteiro que fez Arthit abrir a boca de surpresa.
4 Você achou que eu estava te acompanhando?
4 Claro que não!
4 Se quiser que eu te acompanhe até seu dormitório,
P'Arthit, ficarei feliz em fazer isso.
Não apenas a aparência do calouro era um problema - a
forma como falava, suas expressões e tudo nele eram o maior
dos problemas. Tudo que vinha de Kongpob tinha um
significado oculto, e embora Arthit soubesse disso, naquele
momento não estava pronto para descobrir exatamente o que
aquelas palavras significavam. Então o líder do trote preferiu
encerrar a conversa, virando-se e caminhando rápido em
direção ao dormitório.
Se Kongpob estivesse mentindo e quisesse segui-lo, tudo
bem, ele o deixaria. De qualquer forma, o calouro não podia
segui-lo até seu quarto. Quando Arthit abrisse a porta e
entrasse, aquela perseguição idiota terminaria, assim como o
passeio deles. Então Arthit acelerou o passo em direção ao seu
quarto, recusando-se a olhar para trás novamente. Mas antes
que pudesse relaxar, ouviu a voz de uma mulher chamando da
varanda de seu apartamento.
4 Arthit, que bom que você chegou! Estava tentando te
ligar.
4 Aconteceu algo, senhora Phon? 4 Arthit perguntou à
mulher. Ela era a dona do prédio, tinha cerca de cinquenta
anos, era muito gentil e cuidava de todos os inquilinos como se
fossem seus próprios filhos. E agora, parecia preocupada. Ela
começou a explicar.
4 Filho, me disseram que o sexto andar está inundado, e
que a água está vindo do quarto 618. Esse não é o seu quarto?
Anda logo, acho que o cano estourou.
4 O quê? Meu quarto está inundado? 4 Arthit gritou,
com os olhos arregalados. Correu para o elevador e apertou o
botão do sexto andar. As portas se abriram para um corredor,
e ele imediatamente correu para o quarto 618. E, como a
senhora Phon dissera, a água que encharcava todo o corredor
vinha de sua porta.
O dono do quarto 618 começou a procurar rapidamente a
chave no bolso, abriu a porta e, ao entrar, a água estava tão
alta que chegava aos seus tornozelos. O chão do quarto estava
completamente alagado, e a água continuava a jorrar.
Aparentemente, o vazamento vinha do banheiro.
Não foi difícil descobrir a causa do desastre - o cano do
chuveiro estava quebrado. Arthit correu para fechar o registro
e começou a avaliar os danos. Logo percebeu que não dava
para consertar nada - precisaria comprar peças novas para
restaurar.
4 Senhora Phon, pode chamar um encanador, por favor?
4 Arthit pediu à senhora, que o seguira até o sexto andar. Ela
assentiu e falou com voz frustrada.
4 Sim, já liguei, mas ele está ocupado agora! Além disso,
está muito tarde, as lojas de material já fecharam! Vamos
esperar até amanhã, N'Arthit. Durma no quarto de um de seus
amigos. Eu cuido disso. 4 Depois de ouvir isso, Arthit
concordou. Ele olhou para o chão todo molhado e, ao fazer
isso, percebeu que Kongpob o seguira até seu quarto. O
calouro estava ali, observando tudo a alguns metros de
distância. Arthit imaginou que ele devia ter ouvido a conversa
com a senhora Phon da varanda e, por sua natureza
intrometida, foi ver se podia ajudar.
4 P'Arthit, eu moro perto daqui. Pode ficar comigo esta
noite e voltar amanhã cedo.
Arthit ouviu e concordou. Naquela situação, estava
disposto a aceitar qualquer oferta - não tinha energia para
inventar desculpas, especialmente enquanto encarava o
desastre que seu quarto havia se tornado.
Normalmente, seu quarto não era o lugar mais
organizado e limpo do mundo, mas aquele dilúvio exclusivo
em seu espaço o arruinara completamente. Algumas de suas
coisas estavam estragadas, totalmente irrecuperáveis mesmo
que secassem.
Seus cadernos e livros que estavam no chão perto da
cama boiavam naquela piscina improvisada - todos alugados
da biblioteca. Arthit viu o carregador do celular e o do
notebook completamente molhados e, certamente,
inutilizáveis. Pelo menos agradeceu por não estarem
conectados - um incêndio seria pior que um alagamento. Seus
tênis, mochila, cesto de roupas e outros pertences - tudo
encharcado.
Arthit pegou algumas coisas e colocou sobre a mesa seca,
depois começou a tirar a água do quarto com um balde,
despejando na varanda. O líder do trote pediu desculpas aos
vizinhos pelo transtorno, e ninguém o repreendeu, pois era
óbvio que tudo fora um acidente.
Kongpob ficou perto de Arthit, ajudando a torcer os panos
encharcados que usavam para limpar o chão.
4 P'Arthit, o que faço com as roupas? Vai lavar de novo?
4 Não precisa, ainda estão limpas. Se estão molhadas, é
só secá-las. Se ficarem com cheiro ruim, lavo amanhã.
4 Tem razão. Vou pendurá-las para secar. 4 Dito isso,
Kongpob pegou o cesto de roupas e começou a estendê-las no
varal da varanda. Assim que terminou, começou a juntar as
roupas espalhadas pelo quarto de Arthit.
O líder do trote deixou o calouro fazer o que quisesse
enquanto ele recolhia seus livros molhados. Mas, ao perceber
que as páginas estavam se desfazendo de tão encharcadas,
Arthit sentiu que ia enlouquecer.
Seus cadernos podiam ser substituídos por cópias dos
amigos, seus quadrinhos arruinados poderiam ser comprados
novamente, mas como reporia os livros da biblioteca? Com
certeza levaria uma bronca do bibliotecário e pagaria uma
multa alta. E de quem era a culpa? Arthit só podia culpar a si
mesmo. Então, no final, apenas deixou a pilha de livros de lado
e começou a juntar embalagens de comida e outros itens sem
importância. Conclusão: seu hábito de ser desorganizado
trouxe muitos problemas, exatamente como sua mãe sempre
dizia.
Arthit suspirou profundamente, refletindo sobre a lição
que o destino lhe dera. O líder do trote estava concentrado,
pensando em como explicaria a situação ao bibliotecário,
quando Kongpob, que acabara de terminar de recolher as
roupas e estava secando o chão do armário, fez uma sugestão.
4 Ouvi dizer que, se colocar livros molhados na geladeira,
eles secam por dentro e as páginas não enrugam por causa do
frio.
A Arthit, a ideia pareceu absurda, mas ele estava tão
desesperado que mesmo assim chamou sua atenção.
4 Funciona mesmo? 4 A pergunta de Arthit foi ansiosa,
surgindo nele um inevitável raio de esperança. Kongpob
assentiu com um sorriso.
Arthit se dirigiu ao seu pequeno refrigerador e, ao abrir a
porta, a esperança em seu peito desapareceu. Era minúsculo,
não haveria como encontrar espaço para os livros didáticos da
biblioteca que praticamente pareciam tijolos.
4 P'Arthit, você pode colocar seus livros no meu
refrigerador. Devíamos ir agora para você descansar, amanhã
te ajudo a organizar suas coisas.
Era uma afirmação 4 o calouro tinha dado como certa a
aceitação de seu convite. E, na verdade, só naquele momento
Arthit percebeu que já havia concordado em aceitar a ajuda de
Kongpob, e isso incluía ir à sua casa. Arthit se sentiu um
pouco desconfortável, mas já era tarde para recusar. Rejeitar
Kongpob e começar a ligar para seus amigos naquela hora da
noite não seria tarefa fácil. Além disso, seu melhor amigo,
Knot, havia postado no Facebook que iria visitar os pais, e o
dormitório de Prem ficava praticamente do outro lado da
cidade.
No final, Arthit forçou-se a concordar e colocou na
mochila alguns itens que precisaria durante a noite, enquanto
Kongpob pegou os livros molhados para levar. Os dois
seguiram para o sexto andar do prédio ao lado e entraram no
quarto 609.
O tamanho do quarto do calouro não era muito diferente
do veterano em termos de espaço, mas a organização era como
comparar céu e terra. O quarto de Kongpob era absolutamente
arrumado, agradável aos olhos e refletia o caráter diligente do
dono. Kongpob ligou o ar-condicionado, tornando o silêncio
entre eles ainda mais perceptível.
4 Sinta-se em casa, P'Arthit. Volto em um minuto. 4
Dito isso, Kongpob saiu do apartamento, fechando a porta
atrás de si e deixando seu convidado um tanto confuso
naquele lugar desconhecido.
E, como o dono do apartamento havia indicado, Arthit
pegou seus livros molhados e olhou ao redor, ainda pensando
no conselho estranho de Kongpob de colocá-los na geladeira.
Arthit viu o refrigerador de Kongpob num canto, e seu
tamanho era consideravelmente maior que o seu pequeno
refrigerador. Mas essa não era a diferença mais notável. Ao
abrir a porta, Arthit viu que estava completamente vazio,
exceto por três solitárias garrafas de água. Sério? O calouro
gastava energia só para gelar três garrafas?
Arthit percebeu que não apenas seus estilos de vida eram
diferentes, mas também seus hábitos e costumes. Talvez o
chamassem de mão fechada, mas o líder do trote não
desperdiçaria energia elétrica sem necessidade. Porém, havia
outras coisas que ele também não faria se Kongpob não lhe
tivesse mostrado a possibilidade.
Era até surpreendente pensar que seu objetivo inicial era
se distanciar de Kongpob e que, de repente, ele percebeu que o
calouro estava mais próximo dele do que qualquer outra
pessoa.
Arthit tentou afastar esses pensamentos incômodos 4
não queria ficar nervoso ou preocupado com a forma como
Kongpob havia diminuído a distância entre eles. Então,
dedicou-se a colocar os livros dentro da geladeira. Quando
estava quase terminando, Arthit ouviu a porta se abrir e viu
Kongpob com uma sacola de comida. Então ele entendeu por
que Kongpob tinha saído correndo assim que chegaram.
4 Comprei comida para você, P'Arthit. 4 Kongpob
ergueu a sacola, mostrando-a a Arthit. Ele organizou o
conteúdo numa bandeja, revelando arroz quente que exalava
um cheiro delicioso 4 algo que começou a chamar o estômago
de Arthit, que nem havia percebido o quanto estava faminto.
4 Não sei o que você gosta de comer, então comprei algo
que eu gosto. 4 Kongpob colocou a bandeja sobre a mesa, com
os dois pratos servidos. O líder do trote franziu o nariz ao se
sentar e ver o conteúdo: uma omelete com arroz.
4 Arroz com omelete e carne de porco? Podia ter pedido
algo mais elaborado... Isso você mesmo pode fazer.
4 Qualé, P'Arthit. Nunca ficaria tão gostoso quanto no
restaurante. Toda vez que tento fazer ovos, queimo.
4 Claro, um adulto que não sabe fazer nem uma omelete!
Você é um príncipe mesmo 4 Arthit zombou.
Ele entendeu então por que a geladeira de Kongpob
estava vazia: claramente, ele não sabia cozinhar. Mas o
calouro não reclamou das provocações 4 apenas se abaixou e
pegou algo que ainda não tinha mostrado a Arthit.
4 Mas tenho certeza de que vai gostar disso.
Um copo de leite rosa, a bebida favorita de Arthit.
Antes, Arthit teria pensado que Kongpob comprara só
para tirar sarro. Mas, naquele momento, não pensou assim 4
talvez porque o calouro já tivesse demonstrado várias vezes
que cuidava dele com sinceridade.
Naquela mesma tarde, por exemplo. Arthit não sabia o
que fazer nem como resolveria o problema do seu quarto
alagado, e teria sido um trabalho duro sem a ajuda de
Kongpob. Ele até tinha um plano para o dia seguinte, e os
problemas pareciam ter ficado em segundo plano, permitindo
que risse sem pensar no que acontecera em seu quarto.
4 Obrigado. 4 Arthit murmurou ao aceitar o copo de leite
rosa.
O líder do trote começou a comer enquanto Kongpob
procurava um bom programa na TV. Por fim, Kongpob deixou
uma série qualquer tocando e virou-se para comer também.
As vozes da TV eram o único som no quarto, já que
nenhum dos dois se esforçou para puxar conversa. Arthit
permaneceu calado por vergonha de ter devorado o arroz em
poucas garfadas, terminando muito antes de Kongpob.
4 Onde está o lixo?
4 Na varanda.
Arthit assentiu, levantou-se e foi até a varanda. Afastou
as cortinas que cobriam a janela e olhou para fora. Estava
escuro, com apenas as luzes dos quartos no prédio ao lado 4 o
prédio onde Arthit morava. A distância entre os edifícios era
tão pequena que dava para ver claramente as roupas
penduradas na varanda em frente.
Arthit franziu os lábios ao perceber que Kongpob também
morava no sexto andar. Então... aquelas roupas...
4 Kongpob, você sabe onde fica meu dormitório? 4 Arthit
voltou rapidamente para o quarto, encontrando o calouro
sentado na cama. Kongpob abriu os olhos, surpreso com sua
agitação.
4 Como não saberia, P'Arthit? Esta tarde fui ao seu
quarto.
4 Não é isso! Você sabia que meu apartamento dá para
ver da sua varanda?
A mão de Kongpob, que segurava a colher a caminho da
boca, parou, tremendo levemente. Ele a colocou no prato antes
de erguer os olhos e encarar Arthit.
Kongpob temia que isso acontecesse 4 que seu grande
segredo fosse revelado. Mas, é claro, não podia mentir. Sabia
que nada era pior no início de uma amizade do que mentiras, e
que, de qualquer forma, aquele segredo um dia viria à tona.
Por isso, assentiu e respondeu com a verdade.
4 Sim, eu sabia.
4 Desde quando?
4 Desde o começo do semestre, na segunda semana de
aula.
4 Como descobriu?
4 Vi você pendurando roupas na varanda. Na verdade,
foram várias vezes. 4 Ao ouvir a resposta, Arthit sentiu uma
onda de raiva brotar dentro dele.
Por quase três meses, aquele calouro o observou fazendo
papel de bobo. Certamente zombando de sua imagem de durão
na universidade enquanto, ali, ele era um homem diferente. E
com que objetivo guardou isso em segredo? Arthit tinha uma
ideia.
4 Por que não me contou?
4 Não queria que você soubesse.
4 E por que não queria? Esquece, nem diga! Já sei! Para
me zoar com seus amigos idiotas?
4 Não, P'Arthit. Não contei a ninguém.
4 Não? Por que não?
4 Porque não quero que ninguém saiba mais coisas sobre
você do que eu sei.
O silêncio tomou conta do quarto.
A fúria de Arthit transformou-se em confusão. Até
Kongpob estava perplexo com as palavras que saíram de sua
boca. Mas, embora tivesse falado sem pensar, aquilo era um
reflexo do que sentia. De tudo que guardava no coração.
Essas palavras lembraram Arthit de uma pergunta para a
qual ele não havia encontrado uma resposta que o deixasse
tranquilo, e que se recusara a fazer por covardia. Mas naquele
momento, percebeu que, se não definissem seu
relacionamento, tudo ficaria mais confuso. Então Arthit
respirou fundo, tentando pensar na forma de fazer a pergunta
da maneira mais correta e compreensível possível.
4 Kongpob, vou te perguntar diretamente. Todas as vezes
que me ajudou foi porque sente algo diferente? Pensa em mim
de outra forma?
Foi apenas uma pergunta, mas foi o suficiente para fazer
o coração de Kongpob estremecer, e aquela parede que parecia
sempre existir entre eles se despedaçar em mil fragmentos.
O ar estava tão pesado que Kongpob sentiu como se fosse
parar de respirar. O silêncio era tudo que seus ouvidos
captavam, e a resposta não conseguiu sair de seus lábios.
Ambos continuaram se encarando, tentando encontrar uma
resposta nos olhos um do outro.
Por fim, o primeiro a falar foi Kongpob, que desviou o
olhar e, em voz baixa, fez outra pergunta.
4 O que você quer dizer, P'Arthit?
O que saiu da boca do calouro não foi uma resposta, mas
uma tentativa de evitar dar uma à pergunta de Arthit. Pois,
pelo visto, Kongpob queria desviar a conversa.
E teve sucesso.
4 Esquece. Vou tomar um banho. 4 Arthit cedeu. Era
inútil forçar Kongpob a falar, e ele não insistiria. Então pegou
sua muda de roupa na mochila e se dirigiu ao banheiro,
deixando Kongpob sozinho.
Kongpob, alguém que destruíra a oportunidade que
Arthit lhe dera de confessar seus sentimentos.
O calouro suspirou. Abriu a gaveta do criado-mudo e
tirou um maço de cigarros junto com um isqueiro. Com a
mente ainda ocupada por aquela pergunta que o pegara de
surpresa, foi até a varanda e acendeu um cigarro. Kongpob
começou a fumar, deixando que o estresse saísse de seu corpo
assim como a fumaça de sua boca.
Kongpob se sentia terrível por deixar que Arthit
percebesse seus sentimentos. Supostamente, ele tentara
escondê-los, mas mesmo assim seu olhar e suas palavras o
traíram, mostrando a Arthit que ele era especial. Mas, para o
líder do trote, isso provavelmente era apenas um incômodo.
Porque era evidente que Arthit fizera a pergunta para traçar
uma linha entre os dois, então Kongpob entrou em pânico e
decidiu fingir não entender.
Ele fora um covarde, um homem indigno, mas já dera um
passo para trás e não daria outro para frente só para remediar.
Fora fraco. Mas preferia ficar calado a ouvir a rejeição de
Arthit. Como não teria medo de perder a pessoa mais
importante para ele?
O som da porta do banheiro se abrindo indicou que Arthit
terminara seu banho. Kongpob não fazia ideia do que Arthit
estava sentindo, mas imaginava que devia estar irritado por
não ter obtido uma resposta. Porém, em questão de segundos,
Arthit apareceu ao seu lado na varanda, ainda com a toalha
nos ombros.
4 O que é isso? Está fumando?
4 Um cigarro, sim. 4 Kongpob assentiu. Parecia que
Arthit sentira o cheiro da fumaça. O calouro já ia pegar outro
cigarro do maço e estendê-lo a Arthit, achando que talvez o
líder do trote também quisesse fumar.
Não podia estar mais enganado. Pois, em vez de pedir um
cigarro, Arthit torceu o nariz e falou com desdém:
4 Não seja ingrato. Pense nos seus pais, eles te dão
dinheiro para estudar, não para comprar cigarros que só vão
estragar seus pulmões.
Kongpob baixou os olhos para o maço em suas mãos. Era
o líder do trote quem falava. O velho Arthit. Aquele que não
estava realmente bravo, mesmo falando com severidade, e que
tinha uma alma gentil que só queria ajudar os outros. Então
Kongpob concordou, imitando Arthit, como se a tensão entre
eles por causa daquela pergunta nunca tivesse existido.
4 Tudo bem, vou parar de fumar. 4 Kongpob prometeu,
jogando o maço quase cheio no lixo. Pegou suas roupas e uma
toalha e foi direto para o banheiro, esperando que a água
lavasse também todos os pensamentos e sentimentos
confusos que rondavam seu coração e mente.
Kongpob esfregou o cabelo por pelo menos dez minutos,
mas perder tempo no banho não o livraria de ter que sair em
algum momento. Então, finalmente, reuniu coragem e abriu a
porta. A primeira coisa que viu foi Arthit vestindo roupas
casuais 4 uma camiseta e um shorts 4, com o controle da TV
na mão, mudando de canal repetidamente. Quando o veterano
decidiu que não havia nada interessante, desligou a televisão.
4 P'Arthit, vai dormir? 4 perguntou Kongpob.
4 Sim.
Felizmente, a cama era grande o suficiente para dois.
Havia vários travesseiros e almofadas também. Arthit pegou
alguns e se deitou perto da borda, num canto. Kongpob
apagou as luzes e também se deitou, no meio daquele silêncio
tenso.
Era incrível como, fisicamente, estavam a menos de um
metro de distância, mas, emocionalmente, havia quilômetros
separando-os.
Depois de algumas horas, Kongpob percebeu que não
conseguia dormir, mesmo com o homem ao seu lado
profundamente adormecido.
4 P'Arthit, está dormindo?
Nenhuma resposta, como esperado. Apenas o som da
respiração suave de Arthit. Kongpob o observou dormir,
imerso em pensamentos confusos dos quais não podia
escapar. Então, vendo o peito de Arthit subir e descer,
Kongpob olhou para o teto e começou a falar baixinho.
4 P'Arthit, sei que não respondi direito à sua pergunta,
mas foi porque não tinha certeza se estávamos pensando na
mesma coisa... 4 Kongpob suspirou, se virando na cama e
olhando novamente para o perfil de Arthit, que continuava
dormindo.
4 Sim, eu penso em você dessa forma. Penso muito em
você.
Kongpob sussurrou essas palavras, compartilhando os
sentimentos que tanto esforçara para esconder. Esperando
que Arthit não as ouvisse, mas querendo se livrar daquele
peso no coração ao confessá-los. Depois de finalmente dizer,
virou-se para o outro lado e fechou os olhos com força. E, no
mesmo instante em que ele tentava dormir, Arthit abriu os
olhos no escuro.
Arthit fingira estar dormindo 4 também não conseguira
pegar no sono e ouvira todas as palavras de Kongpob,
principalmente a resposta à sua pergunta. E, dessa vez, foi ele
quem não teve coragem de falar, preferindo fingir que ainda
dormia.
Mas era impossível.
Arthit não conseguiria dormir naquela noite. Porque,
mesmo com o quarto em silêncio novamente, ele não
conseguia acalmar os batimentos furiosos do seu coração.
24
Regra numero vinte e quatro para o
calouro: "Tomar uma decisao dificil leva
tempo"
Quando Arthit acordou e abriu os olhos, a primeira coisa
que viu foi o teto de um quarto desconhecido. E o primeiro som
que ouviu foi o da água correndo, como se alguém estivesse
tomando banho.
Arthit se levantou e sentou na cama. Estava tonto, e seus
olhos ainda estavam semicerrados. A luz atravessava as
cortinas, o que significava que já era manhã. Mesmo assim,
seu cérebro parecia desligado, não pronto para enfrentar um
novo dia. Ele só queria fechar os olhos e dormir de novo. Mas,
quando estava prestes a fazê-lo, a porta do banheiro se abriu e
Kongpob saiu de lá.
4 P'Arthit, já acordou? 4 Kongpob perguntou ao ver
Arthit bocejando e sonolento.
4 Sim. Que horas são?
4 Oito e meia.
Arthit franziu a testa. Geralmente, aos domingos, ele não
acordava antes do meio-dia, mas naquele dia o som da água o
despertara. Que sorte.
4 Oito e meia? Está cedo demais. Para onde vai a essa
hora? 4 resmungou Arthit, irritado.
4 Hoje é o aniversário da minha sobrinha 4 explicou
Kongpob.
Arthit começou lentamente a recuperar os sentidos e a se
lembrar dos acontecimentos do dia anterior.
Tudo fez sentido. No dia anterior, ele havia ido comprar
um presente com Kongpob para a sobrinha dele, e quando
voltou ao seu apartamento, encontrou o chão inundado. Então
passou a noite no apartamento de Kongpob, descobriu que
suas varandas ficavam uma de frente para a outra, e foi
quando reuniu coragem para finalmente fazer a Kongpob a
pergunta que tanto evitara. E, embora tenha sido horas
depois, Arthit ouviu a resposta.
Uma resposta cujas palavras fizeram seu coração tremer.
Depois de ouvi-la, apesar de todos os esforços, ele não
conseguiu fechar os olhos e dormir até amanhecer. Então,
quando acordou completamente, começou a recuperar a
consciência 4 e, junto com ela, o nervosismo voltou.
Uma sensação estranha no peito ao saber que Kongpob
estava apaixonado por ele.
A situação confusa fez Arthit se sentir estranho.
Sentou-se desajeitadamente na cama e não ousou cruzar o
olhar com Kongpob.
Kongpob, por sua vez, achou que Arthit agia assim
porque ainda queria dormir mais.
4 P'Arthit, não precisa se levantar. Vou deixar minha
chave reserva com você, então pode continuar dormindo.
Arthit estremeceu com a gentileza do calouro e
imediatamente se apressou a recusar.
4 Não, está tudo bem. Vou tomar um banho e voltar pro
meu quarto. 4 Arthit levantou rapidamente, pegou uma
toalha e entrou no banheiro. Lá, abriu a torneira e lavou o
rosto algumas vezes. O espelho mostrou o rosto de um homem
cansado, com marcas evidentes de noite maldormida. Arthit
deu algumas palmadas no rosto, tentando trazer cor às suas
bochechas.
Nada de terrível aconteceria se ele conseguisse agir
naturalmente. Tomar um banho, voltar pro quarto, chamar
um encanador, arrumar o apartamento 4 e tudo voltaria ao
normal.
Arthit respirou fundo e começou a se lavar. Quando saiu
do banheiro, vestido com as mesmas roupas, Kongpob se
levantou da mesa e se aproximou dele.
4 P'Arthit, está com fome? Comprei espetinhos de peixe
frito e leite de soja pra você comer um pouco.
Arthit viu o leite de soja e os espetinhos dispostos sobre a
mesa. Aparentemente, Kongpob os comprara enquanto ele
estava no banho 4 ou talvez o calouro tivesse acordado ainda
mais cedo e ido ao mercado comprar o café da manhã
enquanto Arthit dormia. Seja como fosse, Arthit estava com
muita pressa de voltar pra casa, mas também não seria
grosseiro a ponto de recusar a oferta de Kongpob, ainda mais
depois de ter passado a noite no apartamento dele. Além disso,
estava faminto, e o café da manhã parecia muito atraente.
Arthit pensou por alguns segundos antes de concordar.
Seria só comer 4 nada de ruim aconteceria. Com isso em
mente, aproximou-se da mesa e começou a mexer na sacola de
comida, que exalava um cheiro agradável.
4 Onde você guarda os copos?
4 Estão perto da geladeira, embaixo da estante. Espera,
eu pego. 4 Kongpob se ofereceu para ajudar e foi até o local
indicado, entregando o copo a Arthit.
4 Aqui, P'Arthit.
Quando os dedos de Arthit tocaram o vidro, os de
Kongpob roçaram sua pele, e os dois se tocaram
acidentalmente.
Foi só um instante, mas sentir a pele dele contra a sua
deixou Arthit nervoso, e ele puxou a mão no mesmo momento
que Kongpob. O copo caiu no chão e, embora Kongpob
tentasse impedir, o leite de soja se derramou sobre os cacos de
vidro.
4 Desculpa! Vou limpar agora! 4 Arthit se apressou a
pedir perdão. Felizmente, o leite não manchou a camisa de
Kongpob, mas seus sapatos ficaram encharcados. Mesmo
assim, Kongpob apenas balançou a cabeça e falou com
naturalidade.
4 Não foi nada, P'Arthit. Pega o outro pacote. 4 O dono
do apartamento pegou um pano seco e começou a limpar o
chão, deixando Arthit parado, observando em silêncio. Mas,
por dentro, o veterano estava extremamente nervoso e se
sentia tão culpado que mal conseguia se mover. Percebera
que, não importasse o quanto tentasse, seu relacionamento
com Kongpob nunca mais seria o mesmo.
Nesse momento, um toque quebrou o silêncio. Kongpob
largou o pano e tirou o celular do bolso de trás da calça.
4 Alô, mãe. Sim, já estou indo. Assim que chegar, te ligo
de volta.
Arthit se dirigiu à porta, falando com Kongpob antes de
sair.
4 Vou indo.
Kongpob não teve tempo de terminar a ligação antes que
Arthit jogasse a mochila no ombro e saísse do quarto,
fechando a porta atrás de si sem dar ao calouro chance de se
despedir. Mesmo assim, quando Kongpob terminou a
conversa com a mãe, saiu rapidamente no corredor 4 mas já
estava vazio. Arthit já se fora.
Kongpob voltou para a sala, vendo o pacote de leite de
soja e o café da manhã recém-comprado abandonados sobre a
mesa. Algo que comprara de manhã para comer junto com
Arthit. Mas seus planos haviam sido arruinados.
Na verdade, ele quase não dormira naquela noite. Seus
pensamentos não paravam de girar, e as dúvidas martelavam
sua consciência. Pensamentos sobre aquela pergunta, a que
ele não conseguira responder a Arthit, só porque tinha medo
de perder a conexão que recentemente nascera entre eles.
Parou de pensar na proximidade entre os dois,
afastando-se voluntariamente do calor da respiração de Arthit
e deixando de observar seu rosto adormecido. Mas, de manhã,
ao acordar ao seu lado, todo aquele autocontrole desmoronou.
Seus sentimentos cresciam exponencialmente, tão fortes que
precisava mantê-los em segredo 4 só para que suas
verdadeiras intenções por trás de toda aquela gentileza não
ficassem claras.
Uma verdade inegável era que Arthit se tornara alguém
muito especial na vida de Kongpob. Embora, naquele
momento, ele não soubesse o que Arthit estava pensando, nem
qual era o motivo de tê-lo deixado tão rápido sem nem provar a
comida. Mas Kongpob imaginava que talvez tivesse feito algo
que desagradara Arthit de alguma forma.
Kongpob suspirou baixinho, ainda com muitas perguntas
sem resposta na cabeça. Pegou o leite de soja e o café da
manhã e os colocou na geladeira para comer mais tarde,
avistando a pequena pilha de livros esquecidos de Arthit lá
dentro. Algo que lhe pareceu... perfeito.
Se Arthit não tirara os livros da geladeira, ele tinha uma
desculpa para ligar 4 até mesmo para vê-lo. Então, sem
pensar duas vezes, Kongpob começou a discar o número de
Arthit, já salvo em seus contatos. Mas, embora ouvisse a
chamada tocar do outro lado, não houve resposta. O calouro
franziu os lábios e tentou novamente, obtendo o mesmo
resultado.
Kongpob desligou, desistindo, e achando que talvez o
local onde Arthit estivesse tivesse sinal fraco 4 ou que ele
simplesmente não ouvira o celular. Queria ir procurá-lo
naquele instante, vê-lo para ter certeza de que estava tudo
bem, mas seu desejo teria que esperar, pois precisava se
aprontar rápido para o aniversário da sobrinha. Então,
devolver os livros a Arthit 4 e vê-lo de novo 4 teria que
esperar até segunda-feira.
Kongpob tirou os livros de Arthit da geladeira e os deixou
sobre a mesa para voltarem à temperatura ambiente.
Aproximou-se da caixa de presente e, ao olhá-la, sorriu ao
lembrar do rosto da pessoa que o acompanhara a escolher o
ursinho de pelúcia.
Finalmente conseguira dizer em voz alta o que sentia por
Arthit. Reunira coragem suficiente para nomear seus
sentimentos 4 e até os pronunciara diante da pessoa que
amava.
E, se pensasse que começara aquele dia acordando ao
lado de Arthit, não havia dúvidas: fora um lindo dia.
Infelizmente, o destino estragou os planos de Kongpob de
novo quando ele tentou ligar para Arthit logo cedo na
segunda-feira. Ligou pelo menos dez vezes, mas em todas elas
só ouvia a mensagem gravada da caixa postal.
O que estava acontecendo com Arthit? Por que o
ignorava? Talvez estivesse bravo com ele de novo 4 mas qual
seria o motivo dessa vez? Por não ter contado sobre a
proximidade de suas varandas? Mas, sério, só por isso?
Ou, quem sabe, por não ter respondido àquela pergunta...
Kongpob estremeceu quando ouviu o celular tocar.
Tirou-o rápido do bolso, esperando que fosse Arthit do outro
lado da linha, retornando sua ligação. Mas na tela apareceu
uma chamada perdida de outra pessoa 4 e uma mensagem no
Line de seu melhor amigo, Em.
Um simples: "Kong, cadê você?"
Kongpob suspirou, decepcionado, lendo a mensagem e
abrindo o aplicativo para responder.
: Estou no primeiro andar, prédio dois da faculdade.
Kongpob raramente usava o aplicativo Line, mas sua
atenção foi capturada quando viu a lista de contatos e um
nome familiar se destacou entre os demais. Ele não tinha ideia
de quão frequentemente Arthit usava o Line, mas como
descobrira outro meio de contatá-lo, Kongpob pressionou seu
nome, adicionou-o como amigo e imediatamente enviou uma
mensagem:
4 Oi, P'Arthit, sou o Kongpob. Te mando essa mensagem
porque você esqueceu seus livros no meu quarto... Quando
estiver livre, me liga pra eu devolver, por favor.
Kongpob apertou o botão de enviar e não conseguiu evitar
ficar encarando a tela do celular por alguns segundos,
possivelmente na esperança de obter uma resposta, até que
alguém deu uma palmada em suas costas e jogou o peso sobre
seu ombro. Kongpob soube imediatamente que era Em.
4 Ei, Kong, de que você tá se escondendo? Te procurei a
manhã toda. Me deixa copiar sua tarefa? Não tive tempo de
terminar, fiquei jogando Dota a noite toda. 4 Depois de dizer
isso, Em começou a detalhar sua partida, como fazia
normalmente, explicando suas estratégias e armas mais úteis.
Kongpob, já acostumado com os monólogos intermináveis de
Em, tirou a mochila das costas e pegou seu caderno de
química, colocando-o na frente do amigo na esperança de que,
dessa vez, Em calasse a boca.
Funcionou. Em pegou o caderno com entusiasmo,
guardando-o rápido na mochila antes que Kongpob se
arrependesse.
Kongpob pensou em dar uma volta pela faculdade antes
das aulas começarem, na esperança de encontrar Arthit. Foi
então que algo que Em disse o fez parar. Dessa vez, o amigo
falara algo que realmente o interessava.
4 Ah, e eu vi o P'Arthit agora pouco. No começo nem
reconheci 4 ele cortou o cabelo, e as garotas não param de
falar como ele ficou bonito. As amigas da May ficaram
suspirando, foi um pesadelo vê-las babando por ele.
A mão de Kongpob tremeu. Ele levantou a cabeça e
perguntou a primeira coisa que veio à mente:
4 Onde você o viu?
4 Na frente do prédio da universidade, no
estacionamento dos alunos.
4 Já volto. 4 Kongpob disse, e imediatamente saiu
correndo em direção ao local sem nem se despedir de Em, que
ficou olhando para suas costas, confuso.
Chegando lá, Kongpob olhou ao redor do estacionamento,
mas só encontrou um pequeno grupo de garotas conversando.
Nada mais. Não havia sinal de Arthit ou de seus amigos. Uma
das garotas, May, se aproximou dele assim que o viu,
enquanto Kongpob tentava recuperar o fôlego e enxugar o suor
da testa.
4 Oi, Kongpob, por que tá correndo assim? Respira um
pouco, você tá ofegante.
4 May, onde está o P'Arthit?
4 P'Arthit? Ele já foi pra aula. Acabei de ver ele subindo
as escadas.
De novo, chegara atrasado. Ainda havia a chance de
encontrá-lo se corresse para interceptá-lo antes que entrasse
na sala. Mas Kongpob não fazia ideia de qual andar ou sala
seria. Então decidiu insistir e ligar para Arthit novamente.
Ninguém atendeu após três tentativas. De novo. Kongpob
tentou pelo Line, esperando que, na conversa entre os dois,
houvesse algum sinal de vida.
E houve. As mensagens foram marcadas como "lidas". E
só.
Kongpob apertou o celular com força, fechando os olhos
de frustração e tremendo pela avalanche de sentimentos que o
consumia.
Por que Arthit o ignorava? Era mais do que óbvio que
estava evitando-o. Kongpob não sabia o motivo, como sempre
que Arthit ficava bravo com ele. Mas, pela primeira vez,
preferiu deixar as coisas como estavam e não insistir. Pelo
menos por enquanto 4 porque o matava não saber por que
Arthit ignorava suas ligações e não respondia às mensagens.
Na hora do almoço, o refeitório estava cheio de calouros, a
maioria do departamento de engenharia civil, exceto por um
pequeno grupo de veteranos de engenharia industrial em uma
mesa perto do centro. Quase todos animados por terem um
tempo para comer, menos um deles 4 o líder do trote, que não
tinha tocado em sua comida e logo virou alvo das perguntas
dos amigos. Arthit não era de causar confusão, mas também
não era o mais quieto do grupo.
4 Arthit, tá tudo bem com você? Você tá com uma cara de
derrotado.
4 E o que tem a ver minha cara com você? 4 Arthit
respondeu com um tom distante ao amigo Knot, que franziu a
testa com a resposta grosseira.
4 Qual é o seu problema? Você tá estranho desde de
manhã. 4 Na verdade, Knot queria fazer essa pergunta desde
cedo, quando percebeu que o celular de Arthit tocava e ele
simplesmente desligava a tela e guardava no bolso.
Knot deixou Arthit continuar assim 4 distraído e apático
a manhã inteira e parte da tarde, até nas aulas. Bastava olhar
para seu rosto para saber que algo o atormentava, como se um
grande problema ocupasse sua mente. Mas Arthit não era do
tipo que compartilhava pensamentos ou falava abertamente
sobre sentimentos. Era exatamente o oposto. O tipo que se
distanciava e dava desculpas vagas como "tô com sono" ou "tô
cansado" para escapar dos questionamentos dos amigos.
4 Tô cansado, quero dormir até amanhã. Ontem fiquei
vendo jogo de futebol até tarde.
Knot sorriu ao ouvir.
4 Futebol? Ontem nem teve jogo nenhum. Tava vendo o
quê? Pornô? 4 Knot aproveitou para fazer mais perguntas,
mas Arthit nem tentou se defender. Em vez disso, levantou-se
com o prato já frio.
4 Não é nada, só tô com fome. Vou esquentar isso. 4
Arthit caminhou em direção aos micro-ondas no fundo do
refeitório, tentando agir naturalmente para disfarçar a
mentira.
Quando dissera que estava com sono, não era mentira.
Mas não porque tivesse ficado até tarde vendo futebol 4 ou
pornô. Na verdade, era porque não conseguira dormir direito
por duas noites seguidas.
Naquela noite, Arthit não conseguira dormir no próprio
quarto 4 o encanador só fora consertar o vazamento na
manhã da segunda-feira. E no domingo, ele não dormira por
causa da água e da mente presa num loop infinito em que
Kongpob confessava seus sentimentos.
Para piorar, ele ainda esquecera os livros no quarto do
calouro. Mais um motivo para ter que vê-lo pelo menos mais
uma vez. E, além disso, Kongpob não parava de ligar, mesmo
com Arthit ignorando as chamadas. Ele achara que ignorar as
mensagens seria um sinal claro o suficiente de que não queria
vê-lo ou falar com ele. Ou, pelo menos, de que não estava
pronto para um encontro cara a cara com Kongpob.
Arthit suspirou pela milésima vez naquele dia. Tentara
tirar esses pensamentos da cabeça o fim de semana inteiro. E,
justo quando levantou os olhos, uma nova onda de dúvidas e
nervosismo caiu sobre ele como um balde de água fria 4
Kongpob apareceu à distância, se aproximando do refeitório.
Kongpob avistara o grupo de veteranos no refeitório e
imediatamente imaginou que Arthit poderia estar com eles.
Nem tinha certeza, mas mesmo assim decidiu se aproximar,
passando pelas mesas lotadas até chegar até eles. Quando o
fez, perguntou ao primeiro veterano que virou para olhá-lo:
4 Oi, P'Knot, você viu o P'Arthit?
4 Sim, ele tá aqui. 4 Knot indicou com a cabeça para o
lado, mas, ao ver o lugar vazio, fez uma careta confusa. 4
Cadê ele? Tava aqui agora pouco. Ei, vocês viram pra onde o
Arthit foi? 4 Knot olhou em volta, confuso, assim como os
outros da mesa.
Kongpob não se surpreendeu com o sumiço 4
aparentemente, Arthit tinha um dom para desaparecer
quando ele aparecia.
4 P'Knot, vocês têm mais aulas hoje?
4 Sim, um laboratório. A gente deve sair lá pelas seis.
4 Entendi, obrigado.
Kongpob terminou a conversa e saiu do refeitório logo em
seguida. Mesmo assim, Knot não pôde evitar pensar no
comportamento estranho de Arthit e ligá-lo à expressão
preocupada daquele calouro. Knot não diria nada 4 era um
bom amigo. Mas, se não conhecesse Arthit há anos, teria
ignorado a possibilidade de que Kongpob tivesse algo a ver
com o problema que o atormentava.
4 Certo, turma, por hoje é só.
Finalmente, o professor disse a frase que todos os alunos
esperavam desde o início da aula. Arthit imediatamente
começou a guardar seus pertences na mochila enquanto ouvia
um dos amigos fazendo planos para a noite.
4 Estou exausto, devíamos ir a um bar! Que tal depois de
comermos algo?
4 Não contem comigo, vou direto pro meu quarto, tô
muito cansado 4 disse Arthit brevemente a Knot, deixando
que seus amigos fizessem planos sem ele.
Arthit permanecera sentado na sala de aula sem entender
nada do conteúdo daquela sessão. Seus olhos estavam
pesados e, agora que estava livre das aulas, não estava com
disposição para ficar numa mesa apertada com seus amigos
barulhentos. Queria relaxar e lidar com seus sentimentos
confusos. Ficar preocupado em silêncio e dormir até o dia
seguinte.
Knot viu o estado em que seu melhor amigo estava, mas
não insistiu. Tentou animá-lo de outra forma, apenas
assentindo e seguindo os outros para fora da sala, parando na
entrada para dizer a Arthit algo que talvez lhe interessasse:
4 Arthit, esqueci de te contar que o calouro estava te
procurando.
E como se só de pronunciar seu nome Kongpob
aparecesse, o calouro chegou correndo ao laboratório,
entrando sem pedir permissão e parando ao ver Arthit com
uma expressão contrariada. O rosto da pessoa que ele quisera
ver a manhã inteira.
4 P'Arthit... 4 Kongpob disse o nome do veterano num
tom educado e contido. Arthit não sabia por que Kongpob era
sempre tão polido com ele, mas não podia negar que gostava
disso. Além do mais, sempre que falava com ele, sua
sinceridade era evidente 4 como se seus olhos fossem uma
janela para seu interior, especialmente pela forma como
Kongpob olhava diretamente para Arthit, transbordando
emoções. Mas Arthit fingiu não notar nada daquilo no calouro,
sendo indiferente e falando como se ele não fosse importante.
4 O que você quer?
4 Trouxe seus livros. 4 Kongpob estendeu a Arthit seus
livros, cadernos e revistas em quadrinhos já secos e quase
intactos. O veterano esticou a mão para pegá-los, esperando
encerrar a conversa. Mas, quando tentou agarrá-los, Kongpob
zombou dele e não os soltou. Arthit ficou irritado.
4 Solta!
4 Eu solto, mas antes quero falar com você.
4 Não tenho nada pra falar com você.
Não eram apenas as palavras de Arthit, mas toda sua
postura que demonstrava sua irritação com o calouro. Ele agiu
como se olhar para Kongpob fosse um tormento. Mesmo com
seu rosto furioso, Kongpob insistiu, ignorando a pequena
dúvida que o comportamento de Arthit lhe causara. O calouro
era teimoso, então pediu de novo, com uma voz ainda mais
suave:
4 Por favor, P'Arthit. Só quero conversar.
4 Se não vai soltar, fica com eles então.
Arthit perdera a paciência e pôs fim à conversa. Soltou os
livros e virou-se para a saída, indo direto até seus amigos que
o esperavam no fim do corredor. Aparentemente, Knot não
lhes passara seu recado. E Arthit agradeceu por isso.
4 O que o calouro queria falar com você?
Knot olhou para o laboratório de onde tinham saído,
vendo o calouro ainda parado, observando-os, com os livros
nas mãos.
4 Nada. 4 A resposta rápida e negativa de Arthit
contrastava totalmente com sua expressão nervosa. Knot
suspirou, cansado.
4 A situação é essa, Arthit. Não tô acreditando. Primeiro
o calouro foi te procurar no refeitório todo desesperado, agora
vem atrás de você e você o evita. Sem contar sua atitude
esquisita o dia todo. É mais do que óbvio que não é só
coincidência.
Knot aparentemente acertara em cheio, o que
surpreendeu Arthit. Mas, justo quando ia começar a reclamar,
sua garganta fechou. As desculpas não saíram. Porque seu
amigo estava certo. Toda vez que encontrava Kongpob, não
conseguia manter a compostura e agir como sempre. Arthit se
sentia nervoso, tenso, e até sua respiração ficava curta. Essa
era uma das razões pelas quais tentara evitar o calouro,
distanciando-se o máximo possível. Embora, pensando bem,
fosse só ele e seu desejo egoísta de controlar o terremoto de
emoções que tomava seu coração sempre que o via.
4 Knot, vou comer com vocês.
Arthit mudou de ideia repentinamente. Seu amigo o olhou
surpreso, mas não achou necessário comentar mais nada.
Então seguiram o grupo liderado por Prem até uma barraca de
comida próxima, onde Arthit não bebeu álcool, mas um
grande copo de leite rosa. O jantar não durou muito 4 assim
que todos estavam satisfeitos, a chuva começou a cair, e os
planos de beber foram adiados.
Arthit estava terrivelmente entediado quando voltou de
bicicleta para seu quarto, por volta das nove da noite. Cansado
e encharcado, foi direto para o chuveiro para evitar ficar
resfriado. Abriu a porta de vidro de sua varanda coberta para
guardar suas roupas limpas e algumas toalhas, mas congelou
quando seus olhos avistaram a varanda em frente.
Lá estava uma pessoa em pé, justamente sob a chuva,
olhando para o céu noturno. Kongpob parecia perdido em
pensamentos. Arthit escondeu-se atrás das cortinas para
observar melhor. No início, achou que Kongpob estivesse
fumando, mas sua imagem era mais triste que isso. E, ao
vê-lo, seu coração estremeceu, sentindo-se obsessivo e
estranho. Como se o ar lhe faltasse.
Arthit devia ter voltado. Kongpob não se mexeu, ficou só
parado, observando a luz no quarto em frente ao seu.
Sentia-se terrivelmente mal, sem saber o que fazer, sem
opções. Todos seus pensamentos giravam em torno de um
sentimento tão forte dentro dele e que, ao mesmo tempo, o
colocara naquela situação sem saída.
Algo que ele temia. E não queria admitir que estava
acontecendo. Iria perder Arthit. E tinha tanto medo disso que
não sabia como consertar.
Como não percebera que Arthit estava bravo? Devia ter
notado desde aquela manhã de domingo, ou no sábado à
noite, desde o momento em que Arthit fizera aquela pergunta.
A pergunta que ele devia ter respondido melhor.
Ou talvez houvesse uma resposta específica que Arthit
quisesse ouvir, uma que o fizesse parar de ignorá-lo. Mas, se
ele tivesse dito a verdade, não estariam na mesma situação?
Arthit entenderia seus sentimentos? Os aceitaria? Mas, se
Arthit já estava bravo com ele, valeria a pena o risco? Já não
tinha nada a perder. Afinal, Arthit parecia não querer mais
nada com ele. E, talvez, só talvez, ele pudesse confessar o
motivo de sua raiva.
A tensão emocional fez-lhe querer fumar, mas lembrou
que jogara todos os cigarros fora quando prometera a Arthit
que pararia. Então, seu único escape emocional 4 e como
todo romântico 4 foi a chuva. Esfriar a cabeça devia ser uma
boa distração momentânea antes de tomar um banho. Então,
quando saiu e deixou as gotas o molharem, olhou para a
varanda vizinha. Aquela que ficava a quinze metros de
distância, mas que parecia tão longe quanto um quilômetro.
Kongpob suspirou e desviou o olhar para o céu. Precisava
parar de sentir pena de si mesmo, tomar um banho e dormir. E
esperava que isso, talvez, o fizesse se sentir mais tranquilo.
Kongpob entrou no quarto, tirou a camiseta molhada e,
justo quando ia para o banheiro, ouviu o celular tocar em sua
cama. Seus olhos arregalaram-se de surpresa ao ver o nome
na tela, como se fosse uma ilusão difícil de acreditar.
Era ele.
4 P'Arthit.
4 Devolve os livros na biblioteca, pode ficar com as HQs,
eu pago a multa depois pelos dias de atraso. 4 Arthit falou
rápido do outro lado da linha. E, quando parecia que ia
desligar, Kongpob se apressou a responder:
4 Espera, P'Arthit! Você tá bravo comigo?
4 Não.
4 Se não tá bravo, por que não quer falar comigo? É por
eu não ter respondido sua pergunta naquele dia? 4 Kongpob
perguntou sem rodeios.
Nada veio do outro lado da linha, além do som insistente
da chuva. Uma nova onda de tensão cobriu Kongpob antes
que decidisse falar de novo. Sabia que estava arriscando muito
ao se confessar diretamente, e que, se o fizesse, poderia perder
seu relacionamento com Arthit. Para sempre.
Mas, naquele momento, já não ligava mais.
4 Se você realmente quer saber a resposta, eu te digo. 4
Kongpob olhou para a varanda em frente, caminhando até ela
novamente, esperando que suas palavras alcançassem Arthit.
4 Não sei quando começou, nem como aconteceu. Sei que sou
um homem e você também é, mas por mais que eu tente, não
posso mentir pro meu coração. 4 Tudo ao seu redor parou,
assim como o coração da pessoa do outro lado da linha.
Ambos sabiam o que estava por vir, o contexto previsível do
que Kongpob estava prestes a dizer. 4 P'Arthit. Faz muito
tempo que quero te dizer que eu...
A ligação terminou antes que suas palavras fossem ditas.
Kongpob olhou para o telefone em suas mãos e discou
novamente o número de Arthit, mas foi como das outras vezes.
Nada. Apenas a resposta automática.
Aquilo era uma rejeição clara. Uma que veio antes mesmo
que ele pudesse confessar seus sentimentos adequadamente.
Então, era esse o fim? Tudo tinha acabado entre ele e
Arthit? Kongpob ergueu a cabeça e olhou através do véu de
chuva para a varanda à frente, sentindo o vazio em seu
coração consumi-lo.
O medo que o assombrava todo esse tempo se tornara
realidade.
Ele havia perdido Arthit.
O que Kongpob não sabia era que as gotas de chuva que
escorriam pelo chão, perdendo sua forma perfeita, eram iguais
às emoções no coração de Arthit. Destruído por todos aqueles
sentimentos que não entendia.
Ele, em seu quarto, cansado e sem saber como reagir,
escorregou pela parede até o chão, soltando o telefone da mão.
Arthit sabia perfeitamente o que Kongpob estava tentando
dizer. Mas simplesmente não estava pronto para ouvir. Ainda
não estava preparado para escutar aquelas palavras de sua
boca, nem para responder à pergunta que ele mesmo fizera a
Kongpob.
Porque sabia que, depois da confissão, Kongpob lhe
perguntaria de volta: o que ele sentia por Kongpob?
25
Regra numero vinte e cinco para o calouro:
"Mantenha-se longe do lider do trote"
4 Kongpob, seu telefone!
Todos os olhos se viraram para Kongpob quando o toque
de uma chamada quebrou o silêncio da biblioteca. Mas,
embora todos estivessem atentos à interrupção, Kongpob
parecia perdido em seus pensamentos. A chamada terminou
sem ser atendida, e Kongpob só voltou à realidade quando Em
tocou seu ombro.
Kongpob reagiu tarde, procurando seu telefone sobre a
mesa, mesmo que a pessoa do outro lado já tivesse desligado.
O calouro suspirou profundamente antes de se levantar,
dando uma desculpa vaga aos amigos que o observavam
curiosos.
4 Volto já. Preciso fazer uma ligação.
4 Claro, amigo. Mas, Kongpob, você tá bem? 4 Em se
permitiu perguntar com certa inquietação. Era óbvio que seu
melhor amigo não estava bem 4 talvez por uma noite
maldormida. Ou, quem sabe, por estar tão focado em ser um
bom líder que perdeu a noção do tempo enquanto fazia a
apresentação em grupo. Apesar de haver outras sete pessoas
na equipe para ajudar. Em viu Kongpob concordar com
aquelas terríveis olheiras sob seus olhos. 4 Vai lá, amigo, é
melhor você descansar. Faça as ligações que precisar e tome
um café. Nós damos conta.
4 Em tá certo, a gente trabalhou demais. Acho que vou
pegar um café também...
4 O quê? Não! De jeito nenhum, Ai'Tew! Termina sua
parte primeiro. 4 Vários membros do grupo impediram Tew
de sair. Em também virou a cabeça para a confusão, que
Kongpob usou como distração para escapar.
Kongpob se levantou e deixou a mesa cheia de livros que
ele e os amigos haviam levado para estudar o tema designado.
Já estavam há duas horas trabalhando, desde as cinco da
tarde.
Não tinha tempo para café e relaxamento. Estava muito
ocupado. Precisava estar ocupado.
Queria parar de pensar nos últimos dias. Kongpob se
sentia ausente desde que Arthit decidira evitar qualquer
contato entre eles 4 esses três dias pareceram três meses. E a
insistência de Arthit em se afastar só podia significar uma
coisa: Arthit não sentia o mesmo por ele.
E não podia culpá-lo. Porque Kongpob entendia.
Compreendia Arthit, mesmo que doesse. Ambos eram
homens, e não era fácil mudar preferências só porque alguém
do mesmo sexo se apaixonara por ele. Kongpob também teria
dúvidas.
Mas também não conseguia evitar aquele pequeno raio de
esperança. Desde que conhecera Arthit, um sentimento
estranho se alojara em seu coração, complicando tudo. Sua
relação com Arthit e, com ela, sua vida. Aquele sentimento
ficara ainda mais forte quando percebeu que não via mais
Arthit apenas como um veterano comum. Quando soube que
olhava para Arthit de outro jeito.
Aos olhos de qualquer um, seria impossível ver algo mais
entre eles. Um sentimento que nunca experimentara com
ninguém antes de Arthit. Kongpob queria estar perto dele.
Cuidar dele. Amava seu sorriso e sofria profundamente com a
indiferença que Arthit mostrava.
Embora, no fundo, nada terrível tivesse acontecido entre
eles, além da confissão. Algo pelo qual não precisava se
desculpar. Então Kongpob acabou aceitando seu erro 4 não
podia se descuidar só por falta de apetite, nem desperdiçar
horas preciosas de sono pensando em como seria melhor ter
mantido seus sentimentos em segredo.
E, apesar do bom raciocínio, ainda era impossível não
pensar nele. Não procurá-lo na varanda em frente com o olhar.
Então o primeiro passo foi se afastar do próprio quarto.
Esperar uma ligação de Arthit era um martírio, então também
se livrou da tentação, mantendo o telefone longe de sua vista.
Relutantemente, Kongpob checou as chamadas perdidas
sem sair da biblioteca, escondendo-se entre as estantes no
fundo, perto das escadas para o andar superior. Sua decepção
ao não ver o nome ou número que seus olhos buscavam
instintivamente foi interrompida quando o nome de Per, sua
colega de equipe, apareceu na tela.
4 Oi, P'Per! Desculpe não ter atendido antes.
4 Não se preocupe, Nong! Só liguei pra te perguntar uma
coisinha. É sobre domingo. Vou pro casamento de P'Fone e
P'Thum de carro e queria saber se quer ir comigo. Passo na
universidade, levo Numnun, Phak, So e Lin também. A menos
que já tenha outros planos.
Kongpob duvidava que houvesse espaço para todos no
carro de Per, mas realmente queria ir ao casamento com
companhia 4 chegar sozinho num lugar desconhecido não era
atraente. Então aceitou rápido o convite.
4 Se não for incômodo, agradeceria muito se guardasse
um lugar pra mim.
4 Então te busco às cinco da tarde. Em qual prédio você
mora?
4 Chayaprang.
4 Beleza, até domingo!
Kongpob desligou após se despedir de Per. Estava
animado para o casamento, mas não tinha certeza se estava
sendo responsável com seus compromissos. Estava ocupado
demais com o projeto da aula. Por outro lado, agradecia por
aquele trabalho de última hora ajudar a manter sua mente
ocupada, mesmo que consumisse quase toda sua energia.
Kongpob esfregou o rosto com força, tentando espantar o
sono que invadia seus sentidos. Pensou que talvez seu amigo
tivesse razão 4 devia mesmo tomar um café forte.
Não teve chance de chegar à lanchonete, porque ao
passar pelas escadas da biblioteca, esbarrou em alguém
familiar. Knot, um dos veteranos do trote. O calouro se
apressou a cumprimentá-lo formalmente, curvando-se mais
do que planejara.
4 Olá, P'Knot.
4 Oi, calouro. Ei, não precisa se curvar assim.
Apesar de permitir que Kongpob fosse mais casual, Knot
também juntou as mãos num cumprimento formal 4 mais por
hábito que qualquer coisa. Estava distraído, procurando um
lugar tranquilo para estudar anotações de literatura.
Quando Kongpob finalmente ergueu o olhar, Knot já ia
seguir seu caminho. Mas foi interrompido por um pedido
inesperado.
4 Espere, P'Knot. Preciso te dar uma coisa. Pode esperar
um minuto? 4 Knot não teve tempo de responder, pois o
calouro saiu correndo. E logo voltou com uma pilha de livros e
papéis.
4 P'Knot, pode entregar esses livros ao P'Arthit? 4 Knot
olhou os livros sendo entregues. Pareciam manuais de
mecânica, justo os que seu semestre estava usando. E em um
deles, na capa velha, havia rabiscos numa letra tão feia quanto
a de seu melhor amigo. Isso fez Knot se perguntar por que o
calouro os teria. Sem entender completamente a situação, ele
prometeu cumprir o pedido, assentindo lentamente.
4 Tá bom, eu entrego.
4 Obrigado.
Kongpob observou Knot se afastar com os cadernos sob o
braço, esperando até perdê-lo de vista para voltar à mesa do
grupo sem seu café. Eles o receberam com um sorriso que ele
retribuiu de bom grado.
Se Arthit não queria encontrá-lo, evitando até suas
mensagens, então talvez fosse melhor dar-lhe algum espaço.
Talvez fosse o melhor para Arthit... e para ele.
Provavelmente um tempo separados ajudaria a amenizar
a dor em seu coração.
Ou pelo menos era o que o calouro esperava.
4 Ei, ei, Arthit! Quanto você vai colocar no envelope?
Podemos dividir? Tô quebrado! Não deviam marcar festa no
fim do mês.
4 Já comprei um presente.
4 Nossa! Comprou presente? Não esperava menos do fã
número um do P'Thum. 4 Arthit ignorou as risadas
escandalosas dos amigos. Estavam no primeiro andar da
biblioteca, que, apesar de ter máquinas de venda automática e
uma pequena lanchonete, deveria ser um local silencioso.
Tinham ido para estudar para a prova de química, mas
não duraram muito tempo na maior mesa do lounge antes de
abandonarem os livros e começarem a tagarelar.
Arthit abriu o livro à sua frente, mas quase
imediatamente sua cabeça balançou. Estava com muito sono.
Era difícil estudar com tantas coisas na cabeça, além do
casamento de Thum ser no dia seguinte.
Blamou-se incessantemente por não ter dormido na noite
anterior. Mas sabia que a razão de sua insônia estava longe de
desaparecer. Principalmente porque não conseguia se distrair
sem que os mesmos pensamentos voltassem, angustiando-o.
Sentia-se extremamente culpado desde que interrompera
Kongpob e encerrara a ligação. Sabia que poderia ter magoado
os sentimentos do calouro. O que mais poderia ter feito
naquela situação?
Afinal, ainda não estava pronto para decidir o que sentia
por Kongpob. Muito menos para dizer isso.
Conheciam-se há apenas três meses. Era tempo demais
para estar apaixonado.
Mas, embora não soubesse ao certo o que sentia por
Kongpob, Arthit tinha consciência de que aquele calouro era
diferente dos outros. Gostava de ser autoritário com ele, claro,
como com todos, especialmente pela estranha habilidade de
Kongpob em irritá-lo. Mas era diferente. Havia algo na
satisfação de fazê-lo entender que estava errado, em ter sua
atenção, que era diferente.
Arthit passou os dedos pelos cabelos. Quanto mais
pensava em Kongpob, mais estressado ficava. Por fim,
apoiou-se na mesa, esperando adormecer e descansar a
mente. Mas a paz durou segundos até alguém tocar levemente
seu ombro, como para ver se estava acordado.
4 Oi, Arthit, pediram pra te entregar isso. 4 Arthit viu à
sua frente uma pilha de livros, entre os quais reconheceu seu
manual de mecânica, o mesmo que molhara na pequena
inundação. Lembrou-se da geladeira de Kongpob, onde
supostamente estavam, e seus olhos se arregalaram enquanto
se endireitava.
4 Quem te deu? 4 Perguntou, sentindo-se idiota por
fazer uma pergunta com resposta óbvia. Balançou a cabeça,
desistindo, e estendeu as mãos para pegar os livros. Estavam
impecáveis, como antes de molharem.
4 Um calouro, Kongpob?
4 Tá, obrigado. Tanto faz. Não importa. 4 Murmurou
com falso desinteresse, olhando distraidamente o caderno. Na
verdade, não ligava para ter os livros de volta. Nem sequer
lembrava deles até aquele momento. Não, não eram os livros
que o preocupavam, mas o calouro.
Embora Kongpob frequentemente lhe desse dor de
cabeça, havia certas atitudes específicas que atingiam não seu
ego, mas seu coração. Especialmente a gentileza do calouro
sem pedir nada em troca.
Como quando pagou as multas dos livros da biblioteca,
que ele planejava pagar pelos dias atrasados, só para
descobrir que alguém já os devolvera e quitara as pendências.
Não importava o método que usasse para ocupar a mente,
Kongpob sempre voltava a seus pensamentos. Era como uma
constante dolorosa e culpada que impedia seu dia a dia de
fluir normalmente.
Por mais que proibisse sua mente de pensar em Kongpob,
seu coração não fazia senão sentir o vazio que o lembrava.
Aquele que tentava negar sentir falta de Kongpob.
Exatamente às sete em ponto, Kongpob e os amigos se
levantaram, fechando os livros e encerrando o estudo. Só
faltava preparar a apresentação do projeto e decorar o texto. E
como Kongpob se voluntariara para os ajustes finais e
explicaria a maior parte, os outros tinham menos peso sobre
os ombros. Algo que lhe renderia uma noite quase sem sono.
Antes de voltar ao quarto, Kongpob estacionou a moto em
frente ao restaurante caseiro perto de seu prédio, esperando
comer algo que lhe devolvesse as energias perdidas.
Ao se aproximar do balcão de bebidas, hesitou com a fila
de pessoas aguardando pedidos refrescantes. Foi quando a
atendente anunciou em voz alta:
4 Anotem os pedidos e voltem mais tarde!
Kongpob imitou quem estava à frente, pegando um papel
e caneta no balcão. Quando chegou sua vez, pensou em pedir
o café gelado que desejava o dia todo, mas, enquanto escrevia,
lembrou-se de algo que preferiria.
Provavelmente se arrependeria, mas precisava daquele
açúcar para aguentar trabalhar a noite toda. Então enfiou o
papel no espeto de pedidos e deu lugar ao próximo.
Minutos depois, enquanto Kongpob olhava o cardápio em
busca de algo substancioso, chegou à fila um estudante
mal-humorado. Ao ver a fila, desistiu do método convencional
e, abusando de ser cliente antigo, foi direto à atendente fazer
seu pedido como favor, não como cliente comum.
Arthit era um tipo de VIP que sempre pedia a mesma
bebida, então a mulher apenas assentiu. Mas, mesmo sendo
cliente frequente, sabia que seu pedido ficaria por último.
Decidiu dar uma olhada no cardápio enquanto esperava.
Precisava daquele açúcar e de estômago cheio para se
concentrar, já que na biblioteca não absorvera nada. Seu
cérebro estava vazio de informações.
Pediu arroz com espetinhos de porco e picles. Com as
mãos ocupadas, voltou ao balcão quando a atendente
distribuía bebidas prontas.
4 Minha leite rosa já está...? 4 Não terminou. Seus olhos
encontraram os de alguém ao lado, um estudante que chegara
ao mesmo tempo. Um encontro inesperado. Exatamente o que
tentara evitar a manhã toda e nos últimos dois dias.
Definitivamente não estava preparado.
Kongpob estremeceu ao encontrá-lo, confuso e nervoso.
Mas recuperou-se rápido, desviando o olhar dos olhos
arregalados de Arthit para a atendente.
Arthit sentiu-se petrificado. A tensão no ar sufocou sua
garganta, deixando-o sem voz por longos segundos. A situação
era extremamente desconfortável, a ponto de querer fugir.
Teria feito, se a atendente não falasse:
4 Leite rosa, pronto! 4 Arthit estendeu a mão para pegar
seu pedido e sair o mais rápido possível. Mas o desconforto
aumentou quando ela afastou o copo e balançou a cabeça.
4 Arthit, esse não é o seu! Esse moço chegou antes.
Acabou a leite rosa, quer outra coisa?
Arthit não abriu a boca. Olhou o copo nas mãos dela e
assentiu. Mas não pôde evitar olhar para Kongpob, que, para
sua surpresa, não o olhou de volta.
4 Tudo bem, não me importo de ceder meu pedido. 4
Kongpob ofereceu a bebida com educação, desculpou-se com a
atendente e virou-se para sair sem olhar para quem deixara
seu pedido.
Arthit ficou em silêncio, confuso. Kongpob era uma
pessoa gentil por natureza, mas, por alguma razão, Arthit
acreditara que era um caso especial. Que com ele era
diferente. Que havia um significado por trás.
Mas aquele Kongpob nem sequer reagira ao vê-lo,
mostrando-se indiferente e distante. Tão frio que parecia outra
pessoa.
4 Que sorte, Arthit! São 15 baht! 4 A voz da atendente
trouxe Arthit de volta à realidade. Ele assentiu, tirou o
dinheiro do bolso para pagar e seguiu direto para seu
dormitório.
Embora tivesse conseguido o jantar que queria, cada
passo em direção ao prédio ficava mais pesado, assim como os
pensamentos em sua cabeça.
Por que se sentia tão decepcionado? Não era exatamente
isso que ele quisera?
Não era isso que esperava - manter Kongpob longe dele?
O ideal seria Kongpob manter certa distância, o suficiente
para não confundi-lo. O necessário para manter uma relação
de Phi-Nong.
Arthit tomou um gole do leite rosa. O líquido ficou em sua
boca, mas a bebida fria não o refrescou ao engolir. O sabor
estava amargo, não a doçura agradável de sempre.
Não percebeu quando o gosto mudou de amargo para
doce, até se tornar de alguma forma salgado.
Mas como poderia ser salgado? Se lágrimas tinham
aquele sabor tão característico.
Naquele momento, Arthit percebeu que o gosto do leite
rosa misturado com lágrimas não era nada agradável.
26
Regra numero vinte e seis para o calouro:
"Deixe o lider do trote tomar uma decisao"
Arthit olhou-se no espelho. Vestia uma calça preta justa e
uma camisa branca. Uma combinação comum, quase como a
de um calouro indo para a universidade. Mas a gravata
vermelha no pescoço mostrava que aquele era um dia especial.
Arthit escolhera a gravata vermelha para o tema do
casamento de Fone e Thum - "vermelho", como indicado no
convite. Um casamento ao qual devia comparecer não só por
considerar os veteranos bons amigos, mas também porque o
ajudaram muito na vida universitária, e ele os respeitava
profundamente.
Mas, a julgar pela expressão sombria refletida no espelho,
não podia dizer que estava com disposição para uma
cerimônia tão especial e feliz quanto um casamento.
Passara o sábado inteiro procurando algo vermelho no
armário, sem sucesso, tendo que comprar a gravata vermelha
- o único elemento da cor em seu traje. Melhor que nada.
Convencera-se de que seu estilo era elegante e simples,
sem exageros. Mesmo assim, as olheiras de cansaço e a
insuportável dor de cabeça impediam-no de animar-se.
Principalmente porque a dor tinha uma razão. Uma que
não parava de atormentar seu cérebro e apertar seu coração.
O telefone tocou, quebrando o silêncio confortável do
quarto e trazendo-o de volta à realidade. Arthit superou seu
reflexo e olhou para a tela. Era Knot.
4 Já está pronto? Tô esperando na frente do prédio.
4 Tô descendo 4 respondeu Arthit antes de desligar.
Suspirou novamente, tentando aliviar o peso em sua cabeça.
Era um dia de festa, então devia animar-se, ou pelo
menos fingir estar feliz pelo casamento dos veteranos.
Principalmente por respeito a eles e aos convidados.
Arthit vestiu um paletó preto e deu uma última olhada no
espelho, lembrando-se de pegar o presente para os amigos.
Quando se achou pronto, trancou a porta. Knot estava
encostado em seu Toyota Camry e, ao vê-lo descendo as
escadas, cumprimentou-o com a mão. A porta do carro
abriu-se, e um segundo homem saiu do banco da frente. O
sorriso irônico no rosto de Prem quase melhorou o humor de
Arthit.
4 Finalmente, Sua Excelência! Por favor, entre no carro.
Nossa, tá tão bonito que pensei que era ator de dorama
coreano!
4 Eu, ator coreano? Faz sentido. E você, Prem, por que se
vestiu como velho de filme chinês? Vai trabalhar num
restaurante servindo macarrão? No que pensou ao vestir isso?
4 Arthit zombou do amigo, que riu com outros veteranos
dentro do carro.
Todos haviam sido convidados por Thum, incluindo
Prem, que, apesar de ser de outro curso, conhecia Thum dos
encontros para beber após o trote. Além disso, Prem era o
fotógrafo do evento e, como todos, vestira vermelho - mesmo
que sua escolha não fosse das melhores.
4 Cala a boca, Arthit! Não tive tempo de achar algo
melhor. Usei o único terno que tinha. E ainda tem um pouco
do Ano Novo Chinês, tá na moda. 4 Arthit levantou as
sobrancelhas com sarcasmo. Claramente, Prem não tinha
uma gota de sangue chinês. Teria continuado a zoá-lo se o
motorista não interrompesse.
4 Quanto tempo vão ficar discutindo? Arthit, entra logo
ou vamos nos atrasar!
Knot já estava no carro e ligara o motor só para fazê-lo
entrar rápido. Arthit sentou-se atrás do motorista, e o carro
partiu.
Após um tempo, chegaram ao estacionamento de um
hotel elegante perto da ponte Rama 8, sobre o rio Chao Phraya.
O sol começava a se pôr, combinando com o cenário decorado
em vermelho. Pétalas de rosa estavam espalhadas por toda
parte, e a maioria dos convidados eram estudantes e formados
em engenharia. Tanto que parecia mais uma reunião de
gerações da faculdade que um casamento.
Os noivos recebiam os convidados sob um arco de flores
na entrada. Assim que passaram, Arthit e os amigos
dirigiram-se a eles para cumprimentá-los.
No pescoço do noivo, uma gravata borboleta vermelha
brilhante chamava atenção. A noiva estava deslumbrante,
irradiando um encanto especial que fazia todos admirá-la.
Mesmo sendo os protagonistas, continuavam ótimos
anfitriões.
4 P'Thum, P'Fone, estou tão feliz por vocês!
Fone foi a primeira a virar-se, com um sorriso que a
deixava ainda mais linda.
4 Ai'Oon! Chegaram! Vamos, vamos, temos que tirar foto!
4 Puxando a manga de Thum, Fone levou todos para perto do
arco, onde a foto ficaria melhor.
Depois que se agruparam, os veteranos começaram a
posar, fazendo caretas como se fossem o centro das atenções.
Prem teve que tirar várias fotos, pois não paravam de mudar
de pose, fazendo os noivos e convidados rirem.
Quando outro grupo de convidados chegou, os veteranos
tiveram que ceder lugar.
4 P'Thum, P'Fone, parabéns!
Os noivos viraram-se ao mesmo tempo, animados.
Despediram-se momentaneamente dos mais novos e correram
para os recém-chegados.
No novo grupo estavam Apple, de vestido florido, Phak, do
quarto ano, e dois calouros - na verdade, um de cada ano: Ple,
do segundo, uma garota do terceiro, Phak do quarto e, atrás
deles, os calouros Kongpob e Lin. Todos eram do mesmo
código de Fone, exceto Lin, do código de Thum.
O sorriso da noiva apareceu imediatamente.
4 Finalmente! Vamos, temos que tirar foto com toda a
família 0062! 4 Fone exclamou, guiando-os para o arco. Por
um instante, hesitou ao ver mais gente no local. 4 Thum, sai
daí! É foto especial com meu pessoal do código!
Thum foi expulso da cena como um cachorro, tendo que
assistir de longe enquanto sua futura esposa posava para
fotos com seus juniores e colegas de código, sob os olhares e
brincadeiras dos veteranos do trote, os Hazers do terceiro ano.
Finalmente, após uma longa sessão de fotos, Thum foi
convidado pela mesma mulher que o expulsara sem cerimônia
a participar de algumas imagens.
A última foto foi arruinada pela expressão de Fone. Seus
lábios se abriram em surpresa quando uma ideia lhe ocorreu.
4 Nunca tiramos uma foto com os 0062 e 0206 juntos!
Vamos, pessoal, venham todos os 0206!
Nesse momento, Thum garantiu que seus colegas de
código soubessem que iriam tirar uma foto que uniria as duas
famílias 0062 e 0206. Era de se esperar que demorassem para
se organizar - até Arthit não sabia bem onde ficar. Eram cerca
de dez pessoas sob um modesto arco de flores, todos se
apertando para caber no enquadramento, sob as ordens de
Prem, o fotógrafo, que parecia não encontrar um ângulo que o
satisfizesse e atendesse às expectativas de capturar a grande
família de ambos os códigos.
4 Apertem-se mais! 4 exigiu Prem novamente.
Arthit deixou-se empurrar pelos outros, ocupando um
espaço livre e seguindo as instruções. A distância entre todos
era tão mínima que logo percebeu um delicado perfume no
homem ao seu lado. Cheirava tão bem que foi inevitável virar a
cabeça. E quando o fez, congelou. Arthit sentiu-se incapaz de
se mover ao descobrir que o braço pressionado contra o seu
era o de Kongpob.
Ele também percebera a presença de Arthit - não só pela
óbvia reação surpresa ao lado. Por isso, Kongpob olhou para
baixo antes que seus olhos se encontrassem, concentrando-se
no fotógrafo, especialmente em sorrir para a câmera.
Prem levantou uma mão e contou regressivamente a
partir de três antes de apertar o botão.
4 Vamos fazer de novo, vou tirar mais algumas! Prontos?
Três, dois, um!
Arthit tentou sorrir, mas seus esforços resultaram apenas
numa expressão estranha e cansada. Prem continuou
fotografando, e Arthit forçou-se cada vez mais a levantar os
cantos da boca, mostrando uma versão feliz de si que ninguém
acreditaria. Mas, embora se esforçasse, sentia-se o oposto.
Suas emoções amontoavam-se no peito, fazendo seu coração
bater forte demais - a ponto de doer.
E tudo porque Kongpob parecia tão distante, mesmo
estando ao seu lado, ombro a ombro.
4 É isso! Terminamos.
A sessão de fotos acabou, e todos começaram a se
dispersar. Com isso, o agradável perfume de Kongpob
desapareceu do nariz de Arthit, deixando um vazio em seu
coração.
Era inesperado doer tanto. Arthit imaginara que o
encontro seria difícil, mas não que o afetaria dessa forma. A
ponto de sentir que não aguentaria mais aquela dor.
Arthit não se controlou quando ergueu os olhos e viu
Kongpob ainda perto. Estendeu a mão e segurou a manga de
seu paletó, fazendo-o parar.
4 Kongpob 4 chamou em voz baixa, a voz quebrando ao
perceber o que fazia, apressando-se em abaixar a mão
desajeitadamente, escondendo-a atrás das costas. Uma
reação tardia. Kongpob virou-se com um meio sorriso,
respondendo com divertimento sutil.
4 O que foi?
"Cedo demais", pensou Arthit. Claramente não estava
pronto para aquela conversa. Mas não era do tipo que recuava
no momento decisivo, então forçou-se a falar a primeira coisa
que lhe veio à mente, mesmo gaguejando.
4 Como você está? 4 soltou, e embora fosse uma
pergunta casual, pouco apropriada naquele momento, soou
estúpida vinda dele.
Aquela simples pergunta foi tudo que seus lábios
conseguiram balbuciar, restando-lhe esperar uma resposta.
Kongpob também percebeu que Arthit não diria mais nada,
então limitou-se a encolher os ombros.
4 Estou bem.
4 Isso é bom... A festa está linda, né?
4 Está.
4 É, você tem razão... A propósito, esse tema é
engraçado. Vermelho? No que P'Fone e P'Thum estavam
pensando? Foi tão difícil achar algo dessa cor! Sabe, é
engraçado que só hoje consegui esta gravata vermelha 4
Arthit soltou uma risada estranha e forçada, tão rouca que
poderia passar por tosse.
Foi lamentável. Tanto que Kongpob apiedou-se dele e
interrompeu o silêncio incômodo, limpando a garganta antes
de falar.
4 P'Arthit, sei que isso é desconfortável pra você, é pra
nós dois. Então é melhor não forçar conversa comigo.
As palavras de Kongpob fizeram Arthit, perplexo,
finalmente ousar levantar o rosto e encará-lo. O calouro
também olhou fixamente, sustentando seu olhar, fazendo
Arthit sentir-se desaparecer sob aqueles olhos penetrantes.
Não era o olhar frio e indiferente que esperaria depois de
tudo que magoara Kongpob. Em vez disso, era o de um homem
cansado, resignado com o rumo das circunstâncias, talvez até
sem energia para esconder a dor evidente que sentia ao falar
com ele.
E foi isso que Arthit sentiu quando Kongpob continuou.
Dor. Apenas dor.
4 Quanto mais você tenta, mais esperança me dá.
Foram duas frases que Kongpob disse antes de seguir seu
caminho, deixando Arthit sem forças para detê-lo.
Não porque não quisesse, mas porque essas simples
palavras fizeram-no perceber o quão egoísta estava sendo. Não
entendia a razão daquela ansiedade constante no peito, da dor
e da necessidade de falar com Kongpob, de consertar as
coisas.
Mas até ele sabia que algo assim não seria possível sem
antes esclarecer sua relação.
Knot chegou no momento certo para salvá-lo de seus
pensamentos confusos. A alguns metros, aproximando-se,
seu amigo chamou-o com a mão meio levantada, indicando
com a outra que era hora de ir ao salão onde ocorreria o
evento. Arthit assentiu, não sem olhar ao redor em busca de
Kongpob, que, aparentemente, desaparecera.
Passo após passo, lentos e sem vontade, levaram Arthit à
fila reservada para ele e seus amigos. Seus lugares eram
próximos ao pequeno palco onde já estavam o celebrante e os
amigos mais próximos dos noivos. Minutos depois, a música
mudou, e Fone junto com Thum apareceram no caminho em
direção à frente.
Arthit observou os noivos avançarem - P'Fone
deslumbrante, Thum com uma aura confiante, ambos
transbordando felicidade. Ao chegarem, seus pais colocaram
coroas de flores tradicionais em suas cabeças, desejando-lhes
vida longa e feliz. A segunda parte foi um par de perguntas aos
noivos.
4 Ouvi dizer que no início nem eram amigos, certo?
Então, como se apaixonaram?
Os noivos trocaram olhares cúmplices, sendo Thum
quem pegou o microfone, sem abandonar o sorriso zombeteiro,
para responder.
4 Naquela época, eu era líder do trote, e Fone a chefe da
equipe de enfermagem. Lembro que estávamos numa das
atividades para os calouros, uma que foi dura para alguns, a
ponto de alguns adoecerem. Foi quando Fone me enfrentou,
dizendo que eu não podia ser tão rígido, já que sua equipe não
dava conta de todos. Ameaçou me denunciar ao diretor se
continuasse assim. Depois, quando viu que confrontos
particulares não adiantavam, começou a interromper as
atividades. Mas como eu concordaria? O dever dos veteranos é
ser duro com os calouros. É uma regra. Então, discordando,
começamos a brigar muito.
A veracidade da história podia ser confirmada por várias
testemunhas que riram ao relembrar. Arthit era uma delas.
Quando era calouro, Thum fora o líder do trote, e lembrava
como era severo. Mas a parte sobre atividades tão duras que
adoeceram vários não era totalmente verdade. Arthit lembrava
que Thum na verdade dava alguns minutos de descanso, e que
nem tudo eram brigas, mas um enfrentamento silencioso de
olhares entre o líder do trote e a bela chefe de enfermagem
Fone, sempre pronta a ajudá-los.
4 Não fazia ideia do que acontecia entre nós até perceber
que seria impossível nos separarmos.
Thum terminou seu discurso, passando o microfone e
dando um beijo suave no dorso da mão de Fone. Era evidente
sua felicidade e gratidão ao público, alegres por se tornarem
companheiros de vida diante de seus entes queridos.
Arthit não pôde evitar comparar-se a eles. Embora sua
relação fosse completamente diferente da de Kongpob e ele.
Então limitou-se a observar a cena com o coração afundando
no peito.
Ele também era o líder do trote, um veterano do terceiro
ano, e Kongpob um calouro. Mesmo se Arthit propusesse a
Kongpob voltarem a ser apenas Phi-Nong, seria uma relação
muito difícil de recuperar.
E provavelmente já era tarde demais para isso.
4 Todos os convidados, levantem seus copos em
homenagem aos noivos! 4 A voz do apresentador trouxe Arthit
de volta à realidade, focando sua atenção novamente no
casamento. Levantou-se como os outros, com o copo erguido,
e ouviu o discurso de felicitações. Depois de beber, Arthit
lembrou-se de um detalhe constrangedor: ainda não dera o
cartão a Thum. Mas, vendo a confusão, decidiu fazê-lo quando
a multidão diminuísse.
A festa durou até as dez da noite, quando os convidados
começaram a dispersar. Muitos eram estudantes de
engenharia, então Arthit via rostos conhecidos esperando para
se despedir dos noivos. Foi quando ele se aproximou da noiva,
que estava momentaneamente sozinha.
4 P'Fone, você sabe onde está P'Thum?
Ela assentiu.
4 Foi ao banheiro.
Arthit seguiu até lá e, ao entrar, encontrou Thum lavando
as mãos. Ele reconheceu Arthit imediatamente.
4 Ai'Oon! Que coincidência, já está indo?
4 Não, eu... P'Thum, tenho um presente pra você 4 disse
Arthit, um pouco envergonhado, entregando um envelope
rosa.
Por alguns segundos, Thum olhou confuso, pensando ser
dinheiro, mas abriu mesmo assim. Dentro, havia um cartão de
felicitações com palavras de agradecimento por toda ajuda que
Thum lhe dera desde que era calouro. Cada palavra vinha do
coração, então Thum assentiu, igualmente agradecido.
4 Muito obrigado, Ai'Oon. Mas, honestamente, nunca
esperei um cartão de você 4 disse Thum, zombando,
indicando que um cartão não combinava com a personalidade
de Arthit. E ele estava certo, então Arthit admitiu:
4 Não sabia o que dar, então segui o conselho de alguém
que disse que um cartão era um presente agradável... e meio
romântico.
Thum riu alto.
4 Romântico? Só pode ter sido uma garota! Arranjou
uma namorada? Muito bem, Ai'Oon, está evoluindo!
4 Não, não! Na verdade, ainda não sei bem que tipo de
relação tenho com essa pessoa 4 Arthit confessou
distraidamente, fazendo Thum perceber o quanto isso o
ocupava. Mas antes que Thum perguntasse mais, Arthit
continuou: 4 P'Thum, quando você está com P'Fone, é feliz?
4 Feliz ao lado dela? Claro que sim, cara. Por que
pergunta?
4 Ouvi dizer que, quando está perto de quem ama, só
sente alegria, que não há sofrimento ou angústia. E se houver,
então não é a pessoa certa... Isso é verdade?
Ao ouvir a pergunta desajeitada, Thum entendeu o que se
passava na mente do amigo. Respirou fundo, segurou seu
ombro e falou sério, com o mesmo olhar de quando era líder do
trote:
4 Escute bem, Ai'Oon. Quando estou com Fone, nem
sempre sou feliz. Nós discutimos muito. Hoje mesmo brigamos
4 quem em sã consciência muda o design do bolo no dia do
casamento? Mas com ela é assim: muitos sentimentos
envolvidos. Às vezes estou bravo, furioso, outras
inexplicavelmente feliz. Triste, desanimado. Muitos desses
sentimentos, bons e ruins, continuarão no futuro. Mas,
mesmo sem ser só felicidade, não me arrependo de querer
passar a vida com ela. Sabe por quê? 4 Arthit balançou a
cabeça, e Thum sorriu, dizendo palavras que atravessaram
seu coração: 4 Porque perto dela me sinto como nunca me
senti com ninguém. Fone me faz querer ser a melhor versão de
mim mesmo...
"A pessoa que me faz sentir coisas que nunca imaginei."
"A pessoa que me mostrou ser capaz do que nunca
tentei."
"A pessoa feliz em cuidar de mim, e que me faz querer
cuidar."
"A pessoa que acelera meu coração."
"A pessoa a quem não consigo ser indiferente."
"A pessoa que não posso imaginar perder sem me sentir
destruído."
Foi o suficiente para Arthit entender. A resposta chegou à
sua mente... e ao seu coração.
Aquela pessoa, para ele, era Kongpob.
E foi mais fácil aceitar do que temera. Tudo porque uma
nova preocupação surgiu:
4 Mas e se nossa relação não der certo? E se ela se
afastar?
4 E sua relação ainda é a mesma de antes? 4 A resposta
de Thum silenciou Arthit.
Não. Sua relação já não era a mesma. E estava claro que,
por mais que quisesse voltar no tempo, nunca seria como
antes.
Sua expressão triste respondeu por ele.
4 Ai'Oon, quando dois começam a sentir algo um pelo
outro, não há volta. Só podemos confiar no tempo, deixar as
coisas seguirem seu curso. Mas se o tempo virar contra você,
não deixe que o vença. Pode ouvir seu coração e seguir em
frente, ou deixar pro tempo e torcer pelo melhor. Você decide.
4 Thum deu tapinhas em seu ombro, desejando-lhe sorte
silenciosamente.
Quando Thum ia embora, Arthit chamou-o novamente:
4 P'Thum, espera!
Ele parou, apesar da pressa em voltar para a esposa.
4 O que foi, Ai'Oon?
4 Então, o que você acha que devo fazer?
4 Por que me pergunta isso? Pense por si mesmo! E não
só com a cabeça 4 pergunte ao seu coração! Lembre-se: você
tem duas opções. Se sua relação já não é a mesma, relaxe. Não
tem nada a perder tentando. Vamos, Arthit, você é o líder do
trote 4 seja mais corajoso! Faça jus ao título!
Foi tudo que Thum disse antes de ir, deixando Arthit
sozinho naquele banheiro silencioso.
Um silêncio que tornava audíveis as batidas aceleradas
de seu coração.
Arthit cerrou os punhos e saiu, andando cada vez mais
rápido em direção aos amigos. Prem foi o primeiro a vê-lo.
4 Ei! Arthit, onde você estava? Estamos te esperando pra
ir!
4 Onde estão os calouros?
4 Quem? Os novatos? 4 Prem franziu a testa, sem
entender a pergunta repentina, menos ainda o tom ansioso.
Mas foi Knot quem respondeu:
4 Kongpob acabou de sair, está esperando um táxi na
entrada.
4 Obrigado! 4 Arthit agradeceu brevemente antes de
correr para a entrada, enquanto Prem gritava atrás:
4 Ei! Então você volta com a gente ou não?
4 Voltem sem mim! 4 Arthit respondeu, mal prestando
atenção.
Naquele momento, tudo que queria era correr. Correr e
alcançá-lo.
Ele tomara uma decisão.
A partir daquele momento, ele iria ouvir seu coração.
27
Regra numero vinte e sete para o calouro:
"O lider do trote ficara ao seu lado"
Arthit não lembrava quando foi a última vez que correra
com todas as suas forças. Provavelmente dois meses atrás,
quando dera cinquenta e quatro voltas sob a chuva ao redor do
campo - aquele castigo dado pelos veteranos do quarto ano.
Na época, dera tudo de si para proteger sua honra como
líder do trote, especialmente diante dos calouros. Mas agora
corria com toda força nas pernas para recuperar um desses
mesmos calouros.
Arthit desistiu do elevador e desceu as escadas do hotel
dois degraus por vez, direto para a porta de vidro onde um
segurança vigiava a entrada.
Eram quase onze da noite, e a escuridão da rua
dificultava enxergar. Mesmo assim, forçou-se a focar nos
rostos próximos, tentando reconhecer o calouro que
procurava. Demorou alguns minutos para começar a
suspeitar que Kongpob já tivesse ido embora.
Arthit tentou não se desanimar. Eles se veriam no dia
seguinte, na universidade. E de alguma forma ele resolveria a
situação com Kongpob - afinal, tinha seu número de telefone.
Mesmo assim, sentiu um vazio no peito. Algumas
situações eram impossíveis de resolver depois de certo tempo,
mesmo que mínimo. Talvez tivesse arruinado tudo, e seria
muito difícil consertar sua relação com Kongpob se deixasse
passar mais alguns minutos.
Esses pensamentos amontoavam-se em sua mente, cada
um mais desagradável que o anterior, todos espetando seu
coração.
Arthit vagueou distraidamente pelo estacionamento,
pernas cansadas, desejando sentar-se para recuperar as
forças. Não tinha motivação para voltar aos amigos, e seus
pensamentos só o desanimavam mais ao pensar em Kongpob.
Provavelmente Knot e os outros ainda estariam no saguão
- seria fácil alcançá-los para ir no carro de Knot em vez de
pegar um táxi e depois o último ônibus para seu apartamento.
Com isso como única opção viável, Arthit colocou a mão
no bolso para ligar para Knot quando ouviu uma voz familiar
atrás dele. Uma voz capaz de parar seu coração.
4 P'Arthit, o que você está fazendo aqui?
O veterano virou-se com os olhos arregalados ao
reconhecer a voz. Não esperava vê-lo novamente aquela noite,
e até se permitira ficar desanimado por isso.
4 Kongpob, por que você ainda não foi embora? 4
rosnou Arthit.
Kongpob fez uma careta frustrada, achando que mais
uma vez fizera algo para irritar Arthit, mesmo que não tivesse
a ver com ele ainda estar ali ou não. Por isso, optou por
responder com a verdade.
4 Ainda não quero ir.
O coração de Kongpob ainda estava aquecido pela
felicidade dos amigos recém-casados, mas, ao ver a expressão
de Arthit, não pôde evitar que os pensamentos amargos dos
últimos dias voltassem a atormentá-lo, causando uma dor no
peito.
Kongpob sabia que seus sentimentos seriam difíceis de
aceitar, especialmente pela sociedade. Mesmo assim, preferiu
ser fiel a eles, confiando que não havia mal em amar Arthit.
Seus sentimentos eram tão profundos que podia afirmar que
os sentia com a alma. Mas, apesar de sincero, sabia que não
podia exigir reciprocidade. Por isso, considerava que Arthit
não tinha direito de proibi-lo de sentir o que sentia.
Assim, Kongpob preferira não voltar cedo com Apple, só
porque não queria chegar em seu quarto, olhar para a varanda
vizinha e encontrar um apartamento escuro e vazio. Seria
melhor caminhar devagar e aproveitar o ar noturno para
clarear os pensamentos.
Tomara essa decisão antes mesmo de ver Arthit sair
apressado do hotel, procurando alguém. No início, pensou que
Arthit estivesse atrás dos amigos, mas quando o carro de Knot
partiu sem ele, Kongpob não aguentou mais a suspense e
decidiu abordá-lo.
Achara que Arthit estivesse desconfortável com sua
presença ao se encontrarem na cerimônia. Afinal, ele agira
estranho quando seus olhos se cruzaram. Kongpob não tinha
certeza do motivo, mas não queria forçá-lo a conversar, então
facilitara as coisas.
Por isso, pensou cuidadosamente antes de se aproximar.
E quando o fez, doeu-lhe a reação estática de Arthit.
Imediatamente pensou que cometera o mesmo erro
novamente.
Kongpob suspirou amargamente, prestes a virar-se sem
se despedir, quando o homem ao seu lado fez uma pergunta
inesperada.
4 Você está com fome?
Kongpob ergueu as sobrancelhas, virando-se com
expressão surpresa.
Na verdade, sim. Estava com um pouco de fome. A comida
da recepção era chinesa, mas não comera o suficiente para se
satisfazer. Mas isso não importava - o que o confundia era o
propósito da pergunta. Era essa a maneira de Arthit lidar com
o desconforto entre eles? Por que simplesmente não parava?
Para Kongpob, qualquer tentativa de Arthit de consertar o que
havia entre eles dava-lhe esperança.
Sabia que deveria impor limites, distância, pelo bem de
seu coração. Mais uma vez, diria a Arthit para não iludi-lo em
vão. Mas quando estava prestes a soltar as palavras difíceis,
foi interrompido.
4 Tanto faz, estou com fome. Vamos achar um lugar para
jantar, me acompanhe.
Era só isso?
Aparentemente sim. Arthit começou a caminhar em
direção à saída do estacionamento, deixando Kongpob para
trás, confuso, perguntando-se o que aquela conversa
significava. Embora a resposta fosse clara: aparentemente,
Arthit o convidara para jantar.
Kongpob ainda não entendia a situação. Mas não se
impediu de seguir Arthit antes de perdê-lo de vista.
Os dois saíram do estacionamento para a avenida
principal, andando algumas quadras até chegarem a uma rua
com vários restaurantes. Arthit parou em um deles, com
mesas ao ar livre, onde outros dois clientes comiam.
Kongpob seguiu-o até a mesa escolhida, sentando-se à
frente sem chance de perguntar suas intenções antes que o
garçom aparecesse para anotar os pedidos. Arthit
imediatamente olhou o cardápio, sem dar a mínima atenção à
confusão de Kongpob.
4 Vou querer uma sopa Tom Yum de frango picante.
4 Para mim, macarrão com almôndegas brancas. 4
Kongpob pediu sem olhar o menu. Seu prato habitual.
O calouro esperou um comentário zombeteiro de Arthit
sobre sua escolha. Mas, ao contrário de antes, Arthit não disse
nada. Apenas afrouxou a gravata, deixando o nó menos firme
para aliviar o pescoço. Foi então que percebeu estar sentado
em um restaurante de rua vestindo terno. Os outros clientes
olhavam-nos com estranheza, como se fossem dois
excêntricos caídos do nada. Kongpob observou a expressão de
Arthit, notando que ele parecia alheio aos olhares.
Kongpob ainda estava confuso, sem saber se era
prudente iniciar uma conversa. Ou como fazê-la sem soar
forçada. Então permaneceu em silêncio, assim como Arthit,
até que dois pratos de macarrão apareceram à sua frente.
Um continha a sopa Tom Yum picante, o outro o
macarrão com almôndegas. A diferença de cores dos caldos fez
Kongpob lembrar da primeira vez que dividira uma mesa com
Arthit, quando ele trocara seus pratos, dizendo que Kongpob
deveria experimentar algo diferente de seu habitual.
Uma lembrança simples, mas que, por algum motivo,
causava uma sensação agradável.
Mas dessa vez o déjà vu parou por aí. Arthit começou a
devorar seu prato, adicionando pimenta e sorvendo o caldo
como se estivesse faminto. Talvez essa fosse a razão, pensou
Kongpob - talvez Arthit só quisesse companhia para jantar.
Kongpob forçou-se a focar em sua própria comida e deixar
de lado as interrogações sobre as intenções de Arthit. Pegou
uma almôndega com os pauzinhos e preparou-se para
comê-la. Alguns preferiam deixar o melhor para o final, ou
saborear devagar, mas Kongpob não. Ele gostava de comer as
almôndegas primeiro.
Kongpob não percebera que os olhos de Arthit o
observavam disfarçadamente, surpresos com sua escolha
incomum de começar a comer.
4 Você gosta muito de almôndegas?
4 Sim 4 Kongpob assentiu e inclinou a cabeça para
apanhar alguns fios de macarrão, quando uma almôndega
caiu inesperadamente em seu caldo.
4 Toma, coma elas.
Lá estava ele de novo. Por que Arthit fazia isso o tempo
todo? Ser indiferente para depois mostrar o oposto. Fingia que
seus sentimentos não importavam, e segundos depois dava
esperanças novamente.
Por que Arthit tinha o hábito de ser cruel logo antes de se
tornar gentil? Algo que fazia Kongpob interpretar mal, agir
como idiota, e acabar pensando demais, sofrendo pelo mínimo
detalhe.
4 Por que você faz isso comigo, P'Arthit?
4 Fazer o quê?
4 P'Arthit! Como se não soubesse! Você não percebe, ou
só finge que não?
A mão do veterano tremeu levemente, mas ele logo
recuperou a compostura, tomando outro gole de sua sopa
picante antes de responder.
4 Por que não se apressa em terminar sua comida? Seu
macarrão vai esfriar.
Kongpob olhou atentamente para Arthit, que parecia
muito ocupado com sua refeição e não interessado em mais
nada. Mesmo assim, a resposta evasiva de Arthit deixou claro
que ele sabia.
Arthit sabia o que suas ações significavam para Kongpob.
E, ainda assim, continuava a confundi-lo. Permitia que ele
ficasse ao seu lado, se aproximasse, para depois afastá-lo
novamente. Kongpob não fazia ideia de quando Arthit o
rejeitaria outra vez, nem por que permitia que se aproximasse
novamente. Uma resposta que só poderia vir do próprio Arthit.
E Kongpob precisava dela. Precisava saber o que Arthit
pensava sobre ele.
Mas qual era o sentido de perguntar se Arthit só o
evitava? Kongpob desistiu e voltou a comer. Pagaram a conta,
e Arthit levantou-se imediatamente, pronto para deixar o
restaurante. A princípio, Kongpob pensou que ele pararia na
esquina para pegar um táxi, mas o veterano seguiu em frente,
caminhando em linha reta paralela à avenida principal. E tudo
que Kongpob pôde fazer foi segui-lo de perto.
O calouro não percebeu quanto andaram até estarem na
ponte Rama 8, belamente iluminada por luzes noturnas.
Arthit não parou de caminhar, avançando sem olhar para
trás. À esquerda, o rio Chao Phraya; à direita, a avenida com
carros passando. O vento frio penetrava suas roupas, mas
sem causar desconforto real. Caminharam em silêncio por
pelo menos um quarto da ponte, ambos focados em seus
sentimentos enquanto conscientes da presença um do outro.
Arthit foi o primeiro a quebrar o silêncio. Parou e virou-se
para Kongpob, que ainda caminhava alguns passos atrás,
constante, sem ir a lugar nenhum.
Arthit suspirou baixinho antes de falar brevemente.
4 Você não está cansado?
Kongpob parou, confuso novamente pela aparente
preocupação de Arthit. Ele balançou a cabeça.
4 Não.
Mas, em vez de aceitar a resposta vaga, Arthit olhou nos
olhos de Kongpob e esclareceu:
4 Não estou zoando. Estou perguntando sério. Você não
está cansado? Cansado de me seguir? De caminhar sem rumo,
sem saber para onde vou ou quando vou parar?
Foi só então que Kongpob entendeu que Arthit não fizera
aquela pergunta por preocupação. Toda aquela caminhada
tinha um significado mais profundo, escondido na pergunta.
Uma que ele mesmo se fizera repetidas vezes.
Kongpob estava realmente comprometido a escolher
aquele caminho? Um caminho que levava a uma relação
incerta, sem saber se terminaria cedo demais? Ele sabia que,
uma vez cruzada aquela linha, não haveria volta. Algo que
certamente seria doloroso. Valia o risco? Se não desse certo,
seria difícil aceitar o fim? E se tudo mudasse, ele aceitaria que
ele e Arthit nunca mais seriam os mesmos?
Não eram respostas fáceis. Mas Kongpob não recuou.
Estava certo de seus sentimentos, do que seu coração
desejava.
Então, levantando o olhar do chão, ele encarou Arthit
com determinação.
4 Mesmo sem saber quanto tempo ficarei seguindo você,
nem aonde isso nos levará... Ainda assim quero ficar ao seu
lado, P'Arthit.
Kongpob finalmente disse com clareza as palavras que
queria pronunciar. Restava apenas esperar a reação da pessoa
à sua frente, que por um momento mergulhou em
pensamentos, olhando fixamente o rio.
Até que, após alguns segundos, Arthit finalmente falou.
4 Você está ciente de que somos dois homens?
4 Sim.
4 Você está ciente de que sou o líder do trote, e você um
calouro?
4 Sim.
Ambos haviam considerado suas posições como veterano
e calouro. Além disso, Arthit demonstrava orgulho em
defender seu título de líder do trote - algo posto em dúvida
quando a justiça de Kongpob foi oprimida pelos castigos dos
veteranos. No início, Arthit chegara a desprezá-lo por isso,
forçando Kongpob a baixar a cabeça e aceitar. E aquelas duas
perguntas pareciam levar a um só lugar. A ideia de Arthit
romper toda relação entre eles era insuportável.
Mas, para surpresa do calouro, Arthit continuou.
4 Você sabe que eu gosto de leite rosa?
Uma pergunta tão fora de contexto que fez Kongpob
erguer o olhar. Arthit também o encarava, menos sério do que
sua voz sugeria, como se tentasse aliviar a tensão com uma
pergunta boba.
4 Você sabe que sou insuportável e ajo sem pensar? Que
tenho um péssimo temperamento? Que durmo até o meio-dia?
Que sou orgulhoso feito um idiota? Me diga, mesmo
conhecendo todos os meus defeitos... você ainda os aceita?
Kongpob ficou sem palavras. Nunca pensara nos defeitos
de Arthit, nem se o incomodavam. E mesmo assim, quando
listados, não havia dúvidas em seu coração.
4 Sim, posso aceitá-los. E você, P'Arthit, me aceitaria?
Kongpob perguntou cheio de esperança, mas a resposta
de Arthit fez seu coração desabar.
4 Eu realmente não te conheço, Kongpob.
Kongpob cerrou os punhos, tentando conter a decepção e
tristeza. Entendia que não podia culpar Arthit por ter dúvidas.
Se conheciam há apenas três meses - tempo muito curto para
se apaixonar e conhecer alguém completamente.
E quando Kongpob pensou que tudo acabara ali, Arthit
elevou seu coração novamente.
4 Mas eu quero te conhecer.
Palavras simples. Uma frase curta, mas tão poderosa que
deixou Kongpob de lábios e olhos abertos, sem acreditar.
4 O que você quer dizer, P'Arthit? 4 balbuciou, sendo
interrompido por um puxão brusco em sua gravata.
Sem entender o que acontecia, seus lábios se tocaram em
um beijo leve que deixou uma doce sensação em seus corações
por muito mais tempo do que o contato durara - literalmente
segundos antes de Arthit se afastar.
4 Essa é a resposta.
Arthit retomou a caminhada imediatamente, deixando
Kongpob confuso e com um sorriso nos lábios.
O calouro apressou o passo para alcançar o líder do trote,
chamando-o pelo nome.
4 Espera, P'Arthit! Não entendi sua resposta! Pode fazer
de novo?
4 Não! 4 Arthit rosnou com ferocidade, enquanto
Kongpob se punha a rir.
Novamente, continuaram caminando em silêncio, um
silêncio cheio de cumplicidade. Unindo-os sem necessidade de
palavras. Sem dúvidas, porque ambos sabiam muito bem qual
era sua relação.
Eram pessoas que caminhariam lado a lado.
E saber isso era mais que suficiente.
28
Regra numero vinte e oito para o calouro:
"O coraçao do veterano pertence ao novato"
Os dias e as noites passaram sem problemas.
Já havia se passado uma semana desde o casamento de
Thum e Fone, e a vida de ambos voltara ao normal.
Para Kongpob, isso significou uma série de provas,
apresentações em aula e projetos finais, simplesmente porque
o fim do semestre estava a apenas uma semana de distância.
Mal terminou o almoço, Kongpob se apressou para voltar
à biblioteca e devolver os livros que havia pegado emprestados
para preparar sua apresentação de mecânica, com a intenção
de retornar ao dormitório o mais rápido possível para terminar
suas tarefas pendentes. Kongpob se levantou da mesa com
seu prato e mochila nos ombros, mas foi interrompido por seu
amigo Em, que acabara de desligar uma ligação no telefone.
4 Kongpob, Wad disse que os resultados de cálculo já
estão publicados no mural perto do elevador! Vamos?
Cálculo, a disciplina chamada Análise Matemática I, era
definitivamente a matéria mais difícil do ano. Os resultados da
prova final eram uma preocupação constante no coração dos
calouros. Inclusive no de Kongpob, que, mesmo estando quase
cem por cento certo de pelo menos metade de suas respostas,
não conseguia evitar a preocupação. Na verdade, ele precisava
se preocupar. Sua nota dependia da metade da pontuação do
primeiro exame parcial, e ele ainda estava nervoso para
passar. Um sistema justo de ponderação que deixava os
calouros na corda bamba para a aprovação.
Por isso, não foi surpresa que Kongpob mudasse de
planos na mesma hora e seguisse seu amigo Em até o andar
inferior, junto com outros colegas do departamento. Assim que
chegaram, viram o mural de avisos ao lado do elevador,
cercado por estudantes curiosos. É claro que estava lotado,
tanto que era quase impossível se aproximar. Imediatamente,
Em sugeriu se esgueirar pelos espaços para chegar à frente, já
que era mais baixo que Kongpob e teria mais facilidade para
avançar sem ser barrado. Kongpob observou o amigo chegar à
frente com algum esforço, enquanto ele permaneceu
pacientemente a alguns passos da multidão.
Eram tantos estudantes que chegaram a bloquear a
entrada do elevador. Não demorou muito para que um grupo
de veteranos expressasse seu descontentamento.
4 O que vocês estão fazendo todos aqui?
Os calouros estremeceram ao ouvir a voz furiosa do
veterano que liderava o grupo. Afastaram-se dele ao perceber
que se tratava do líder do trote. E, embora ele não estivesse
mais com a barba e o cabelo longo em uma coleta, sua
presença ainda causava arrepios nos calouros, que
provavelmente se lembravam das reuniões do trote ao vê-lo.
Não só o olhavam com respeito, mas também com parte
daquele medo que sempre tiveram de Arthit.
Todos, exceto um.
4 Estamos aqui por causa dos resultados de cálculo.
É claro que Arthit reconheceu sua identidade em
segundos. Não era outro senão o famoso herói dos calouros, o
aluno de número 0062, o mesmo que deu um passo à frente
para se destacar na multidão. No entanto, sua explicação vaga
não ajudou a relaxar o ambiente 4 pelo contrário, como de
costume, fez com que Arthit ficasse ainda mais severo.
4 Por que não fazem fila como lhes ensinamos? Não
aprenderam disciplina? Parece que já esqueceram o que
aprenderam no trote e precisam que eu lembre vocês! Perfeito!
Formem fila, calouros!
Os calouros ouviram a ordem em silêncio mortal, sem
realmente entender o que estava acontecendo.
Os novatos do departamento de engenharia industrial
conheciam bem a metodologia daquela ordem de formação,
mas os demais estudantes ficaram genuinamente confusos
com o comportamento de Arthit. Logo, todos se entreolharam,
intrigados com a situação, mas ainda dispostos a obedecer. E
teriam feito isso se os amigos de Arthit não tivessem batido na
cabeça do líder do trote, antes de começarem a zombar dele.
4 Ei, ei! Parece que o espírito durão do líder do trote
ainda está enraizado em você. Já pode ser um pouco mais
gentil. Olha só, você os assustou.
4 Eu sei! Tá bom, desculpa. Foi o hábito. Além disso, não
faço ideia de como devo tratá-los agora 4 reclamou Arthit com
os amigos. Na verdade, ele só queria que os calouros
bloqueando o caminho saíssem dali, mas, como ainda estava
acostumado com sua posição de líder do trote,
inconscientemente recorreu aos velhos métodos de persuasão.
Os calouros respiraram aliviados ao perceber que era
uma brincadeira dos veteranos. Mas, de qualquer forma, a
bronca de Arthit serviu para algo: os novatos se afastaram o
suficiente para liberar o caminho e a entrada do elevador.
Antes que os veteranos continuassem, um dos calouros
se afastou do mural e voltou sua atenção para eles.
4 P'Arthit, você realmente me assustou! Minhas pernas
já estavam prontas para formar fila.
O comentário de Kongpob provocou risadas nos amigos
de Arthit, que não perderam tempo em tirar sarro dele
novamente.
Ainda era curioso como, no início do ano, os calouros
tinham medo de falar com os veteranos, e agora até podiam
brincar e rir juntos. Claro, mantendo o respeito entre eles.
4 E então, como foram os resultados? 4 perguntou
Arthit, mudando de assunto.
4 No nosso departamento, a maioria passou. As maiores
notas também foram da nossa turma 4 respondeu Em,
entrando na conversa depois de dar uma olhada no mural.
Sua resposta foi recebida com acenos de aprovação dos
veteranos.
4 Um resultado digno do departamento de engenharia
industrial. E, pelo jeito duro que você foi, Arthit, tenho certeza
de que a maioria não terá problemas para passar de ano.
O comentário de um dos amigos de Arthit fez com que o
veterano se virasse para ele, surpreso.
4 O que o meu trote tem a ver com os resultados?
4 É óbvio! Depois de passar pelo seu trote, eles podem
atravessar o fogo e andar sobre a água. Aguentam qualquer
coisa! Tenho certeza de que nada é mais assustador que seus
castigos.
Arthit não disse nada, simplesmente porque não
conseguiu identificar se aquilo era um elogio ou uma crítica.
Mas, em todo caso, abriu a boca para responder algo
inteligente. Infelizmente, uma voz o interrompeu.
4 P'Arthit fez um ótimo trabalho. Eu também quero ser
líder do trote no meu terceiro ano.
Não só os veteranos, mas também seus colegas de classe
olharam para Kongpob com espanto. Era difícil acreditar que
alguém como ele quisesse assumir aquele cargo. Por isso, o
atual líder do trote se viu obrigado a perguntar, com um tom
mais sério:
4 Você está falando sério?
4 Sim, já pensei nisso 4 confirmou Kongpob, com
confiança e uma sutil emoção.
A sinceridade em suas palavras era evidente para todos,
tanto que um veterano do terceiro ano colocou a mão no
ombro de Arthit, sorrindo para Kongpob.
4 Parabéns, Arthit, você já tem um sucessor.
Embora as palavras do amigo soassem como uma
brincadeira, Arthit não reclamou. Na verdade, ele estava
pronto para passar o cargo para uma nova geração, junto com
seus conhecimentos e experiência. E, se um dia Kongpob se
tornasse o líder do trote, pelo menos ele teria a certeza de que
as tradições da faculdade de engenharia seriam transmitidas
aos novos alunos.
O ambiente harmonioso e acolhedor que os dois
estudantes de anos diferentes haviam criado foi perturbado
por Knot, o melhor amigo de Arthit e também estudante do
terceiro ano.
4 Ei, a professora acabou de entrar no elevador!
A atenção de todos mudou imediatamente para as portas
de metal que se fechavam. E os rostros dos veteranos se
encheram de pânico.
4 Se chegarmos atrasados, a professora vai trancar a
porta! Depressa!
Os estudantes do terceiro ano correram sem pensar para
as escadas, na esperança de serem rápidos o suficiente para
entrar na sala antes da professora.
Arthit também já se preparava para colocar toda sua
força nas pernas quando alguém puxou sua manga,
detendo-o.
4 Espera, P'Arthit.
Kongpob se aproximou ainda mais de Arthit, deixando
um espaço mínimo entre eles, suficiente para que o brilho em
seus olhos e o sorriso provocante em seus lábios fossem
visíveis. Depois, Kongpob falou baixinho, de modo que apenas
os dois pudessem ouvir:
4 Espero que você tenha um bom dia.
Foram palavras simples, mas que causaram no coração
de Arthit uma emoção estranha. Ele sentiu o aperto sutil de
Kongpob em sua mão, segundos antes do novato soltá-lo para
que ele pudesse correr escada acima como seus colegas.
Ele e Kongpob ainda mantinham a distância entre
veterano e calouro, e preferiam não interferir demais na vida
um do outro. Também era difícil se ver com frequência, já que
seus horários não eram nem um pouco parecidos, e, naquelas
semanas, estavam mais imersos nos estudos do que nunca.
Superficialmente, parecia que sua relação havia voltado a
ser como antes. Mas, no fundo do coração, Arthit sabia que,
pouco a pouco, sua conexão com Kongpob estava mudando, se
tornando mais próxima sem necessidade de demonstrações
públicas. Uma proximidade que não precisava de explicação.
Porque, às vezes, as relações mais bonitas se formam com
o tempo, fortalecidas por momentos cotidianos entre duas
pessoas que se consideram especiais uma para a outra.
Logo, outro dia na universidade chegou ao fim, deixando
Arthit exausto depois de sua última prova, às seis da tarde.
Naquele momento, a única coisa que ele queria 4 e que
seu corpo pedia 4 era afundar na cama e não acordar até o
começo do novo semestre. Mas, antes de se render ao prazer
de dormir como uma pedra, ele precisava comprar algo para
acalmar seu estômago e, claro, sua bebida favorita não podia
faltar.
O estudante do terceiro ano foi até o restaurante que
costumava frequentar, vendo a pequena fila no quiosque de
sucos. Mas, por ser um cliente VIP, ele se aproximou do balcão
sem preocupação. A senhora responsável o reconheceu
imediatamente, sorrindo antes de fazer a pergunta de sempre:
4 Olá, Arthit! Leite rosa, certo?
4 Acho que hoje vou querer um café gelado.
Ele também não soube que tipo de força o fez mudar seu
pedido habitual, mas não se arrependeu. Talvez porque seu
corpo estivesse exausto e precisasse de algo que o mantivesse
acordado. Ou talvez porque era a bebida favorita daquela
pessoa que ele não conseguia tirar da mente.
Depois de refletir um pouco, Arthit balançou a cabeça
para limpar os pensamentos. Estava sonhando acordado
como uma colegial apaixonada. E a culpa era toda de
Kongpob.
Arthit foi direto para a loja que vendia seu prato favorito
de arroz e esperou cerca de dez minutos na fila, comprando no
final um prato de arroz com ovo frito e carne de porco picante.
Em seguida, com a comida embalada, voltou ao quiosque de
sucos.
A fila estava consideravelmente menor, e Arthit
aproveitou para se aproximar e perguntar se sua bebida
estava pronta.
4 Com licença, o meu pedido já está...?
Arthit parou no meio da frase ao ver o homem ao seu lado,
que também esperava seu pedido.
4 Kongpob!
O calouro sorriu ao ouvir Arthit chamando seu nome,
virando-se para ele com animação. Era a segunda vez que ele
tinha a sorte de encontrá-lo no mesmo lugar.
4 Oi, P'Arthit! Veio comprar seu jantar?
4 Sim 4 respondeu Arthit, balançando levemente a
cabeça.
Logo, ele notou a sacola de comida na mão de Kongpob.
Era óbvio que os dois estavam ali pelo mesmo motivo. Então,
ele não perguntou mais nada.
4 E aí, como foi seu resultado na prova de cálculo?
4 Foi bastante bom 4 respondeu Kongpob com
modéstia, evitando mencionar que, na verdade, havia tirado a
segunda melhor nota.
No entanto, o sucesso do calouro se devia em grande
parte aos conselhos de Arthit, que ele também havia
repassado aos amigos. Mesmo assim, a resposta de Arthit foi
inesperada.
4 Olha, se você não está satisfeito com engenharia, pode
desistir. Sei que você queria estudar economia, então, se essa
realmente é sua vocação, não tem por que ficar na engenharia
industrial. E não precisa se sentir mal por isso.
Aquele conselho saiu da boca de Arthit sem que ele
esperasse, contradizendo completamente sua opinião de
semanas atrás.
Ele havia refletido sobre o assunto e percebido que era
injusto proibir Kongpob de seguir seus sonhos. Se ele quisesse
estudar em outra faculdade, Arthit não tinha o direito de
impedi-lo. Mesmo que fosse em outra universidade, Kongpob
deveria estudar o que desejasse, e Arthit, como seu veterano,
tinha a obrigação moral de apoiá-lo.
Mas, apesar das palavras empáticas, Kongpob balançou a
cabeça em negação.
4 Posso fazer um pós-graduação em economia depois de
me formar em engenharia. E não vou abandonar a faculdade,
estou feliz estudando aqui.
O que ficou implícito nas palavras de Kongpob era
simples: "Eu gosto de estudar aqui, com você". Mas Arthit não
saberia disso. Ele nem sequer pôde pensar nisso, porque o
olhar de Kongpob o fez corar e desviar o rosto. Afinal, aqueles
olhos eram capazes de acelerar seus batimentos cardíacos.
Felizmente, o clima foi quebrado pela voz inoportuna da
senhora do quiosque.
4 Leite rosa para o Arthit!
Ela entregou o copo com o líquido rosa, mas Arthit teve
que recusar.
4 Dessa vez, eu pedi um café gelado.
A vendedora ficou confusa com a afirmação, verificando
novamente o pedido, que claramente indicava "leite rosa".
Mesmo assim, ignorando a anotação, ela se virou para os
outros clientes e perguntou em voz alta:
4 Quem pediu um leite rosa?
4 Fui eu! 4 Kongpob levantou a mão surpreso, e a
mulher lhe entregou o pedido, aliviada.
4 Muito desculpa, Arthit! Foi engano meu, você sempre
pede a mesma coisa, então me confundi.
Arthit esperou alguns minutos até receber seu pedido
correto, e logo o café gelado estava em suas mãos.
Kongpob e Arthit se olharam e riram ao verem seus
pedidos. Parecia que ambos haviam decidido experimentar
algo novo naquela noite. Afinal, não era só Kongpob que
influenciava Arthit a provar coisas que ele gostava 4 Kongpob
também estava curioso sobre os gostos de Arthit.
Depois daquela estranha coincidência, os dois
começaram a caminhar juntos de volta aos dormitórios.
Seguiam pela calçada do campus, iluminados pelas luzes
recém-acesas, quando Arthit se lembrou de algo.
4 Ah, tenho uma coisa para você 4 disse, olhando para
os bolsos, mas com as mãos ocupadas. 4 Segura isso um
instante.
Kongpob pegou o café gelado e a sacola de comida de
Arthit, observando-o tirar a carteira e procurar algo dentro.
Em seguida, Arthit escondeu rapidamente um objeto em seu
punho, sem dar tempo para Kongpob perguntar nada, e pegou
seu café de volta.
4 Estenda a mão.
Kongpob não entendeu o que estava acontecendo, mas
mesmo assim obedeceu. E levantou a palma da mão.
Seu coração pareceu cair no chão quando o pensamento
mais aterrorizante cruzou sua mente 4 ele viu o colar de
engrenagem na mão de Arthit e, por alguns segundos, achou
que ele estava devolvendo.
Mas, olhando mais de perto, percebeu que não era a
engrenagem de sua geração, que deveria ser prateada. Aquela
era de bronze, e o número da turma não coincidia com o dele,
indicando uma diferença de dois anos.
A resposta veio rápido à mente do calouro. Aquele era o
engrenagem de Arthit.
Kongpob ergueu o olhar, encontrando-se com o olhar
firme e sério de Arthit.
4 Cuide dele por mim.
Kongpob já tinha ouvido essas mesmas palavras de Arthit
antes. No dia da cerimônia de entrega da bandeira da turma.
Mas, naquele momento, a frase teve um impacto
completamente diferente 4 tão significativo que seu coração
se encheu de emoção. Uma emoção que se manifestou no
sorriso largo que surgiu em seus lábios.
4 Vou cuidar dele com todo o meu coração.
No passado, e até mesmo naquele dia, nenhum dos dois
tinha uma resposta clara sobre como seria o futuro. Mas isso
parecia tão distante que não era algo para se preocupar.
Também não haviam definido qual era o nome do que os
unia, nem como chegaram a esse ponto. Ambos simplesmente
sabiam que eram extremamente importantes um para o outro.
E isso era mais que suficiente.
Mas, se alguém um dia pedisse uma explicação sobre a
relação deles, a mais adequada provavelmente seria...
Uma história de amor entre um veterano e um calouro.
ESPECIAL
Dez aspectos da vida de Arthit que
mudaram quando ele se tornou lider do trote
1. Despertador
Arthit adorava dormir até tarde.
Principalmente nos dias em que não tinha aula de
manhã, ele se permitia dormir até a hora do almoço 4 e até
ficava irritado quando alguém interrompia essas preciosas
horas de sono.
Mas, desde que entrou para a equipe do trote, teve que
aprender a acordar cedo para as reuniões com os calouros.
Mesmo que os encontros fossem logo pela manhã, Arthit
precisava acordar antes do sol nascer para chegar antes deles.
Por isso, teve que programar vários alarmes em intervalos
diferentes 4 de preferência, a cada cinco minutos 4 para
evitar dormir demais.
Mas todas essas precauções não adiantaram muito. No
final, seus amigos tinham que recorrer a bombardear seu
celular com ligações. Por causa disso, todas as manhãs Arthit
acordava cansado por não ter dormido o suficiente e de um
humor terrível. E ele não conseguia compensar dormindo mais
cedo, porque simplesmente não pegava no sono.
Então, não foi surpresa para ninguém que, nas reuniões
com os calouros, o líder do trote estivesse com uma aparência
horrível e um humor três vezes pior que o normal.
Arthit talvez fosse menos assustador se suas horas de
sono não tivessem sido afetadas.
Então, seu mau humor era culpa única e exclusiva do
despertador.
2. Leite rosa
Arthit amava leite rosa.
Aquela bebida extremamente doce e gelada sempre fora
sua favorita. Infelizmente, ela não combinava com a imagem
de um líder de trote durão. Alguém tão importante quanto o
chefe dos veteranos 4 e tão cruel e firme 4 devia, no mínimo,
gostar de café amargo.
Arthit entendeu da pior maneira que não pareceria
ameaçador se fosse pego bebendo leite rosa. Mas isso não o
impedia de se esgueirar até o restaurante perto de seu prédio
para tomar um copo daquela bebida rosa refrescante quando
estava realmente cansado.
Para ele, era uma surpresa que seu drink favorito lhe
desse mais energia do que qualquer bebida energética.
De qualquer forma, ao se tornar líder do trote, ele se
convenceu de que estava proibido de ser visto bebendo leite
rosa. Mesmo quando os garçons de seus lugares favoritos
lembravam que era seu pedido de sempre no passado, ele se
via obrigado a explicar que aqueles gostos eram coisa do
passado 4 inventando desculpas sobre saúde e como seria
bom mudar seus hábitos e trocar por água.
Arthit estava realmente comprometido. Tanto que
prometeu a si mesmo que, quando seu tempo como líder do
trote acabasse, beberia leite rosa em todas as refeições: café da
manhã, almoço e janta 4 só para compensar o tempo perdido.
3. Balas de menta
Arthit odiava o gosto de menta na boca.
Como era uma pessoa de paladar doce, detestava
qualquer variação amarga 4 incluindo aquelas pastilhas para
aliviar dor de garganta.
Mesmo assim, como líder do trote, ele frequentemente
tinha que usar sua voz ao máximo para repreender os
calouros, forçando a garganta. Algo que começou a afetá-lo.
Por isso 4 e para que o líder do trote não ficasse por aí
dando ordens com a voz rouca 4 Arthit começou a comprar
cada vez mais balas de menta como remédio de emergência.
Logo, os bolsos de seu uniforme estavam sempre cheios
de embalagens vazias daquelas balas nada saborosas. Claro,
ele não as chupava na frente dos calouros.
Sua imagem vinha antes de sua garganta.
4. Exercícios
Arthit odiava a maioria dos esportes.
Ou, pelo menos, praticá-los.
Ele geralmente evitava se exercitar. Na verdade, preferia
deitar em um banco ao ar livre para ler uma revista em
quadrinhos a jogar basquete. Mesmo sendo capaz de praticar
qualquer esporte, sempre escolhia ficar em uma sala com
ar-condicionado em vez de suar sob o sol.
E a razão não era superficial, como medo de se bronzear.
Nada disso. Arthit simplesmente achava que não seria nada
agradável correr sob um sol de quarenta graus, torrando como
um espetinho de porco grelhado.
Infelizmente, depois de entrar para o trote, ele teve que se
acostumar.
Correr sob o sol do meio-dia devia ser fichinha para os
veteranos 4 principalmente porque eram eles que criavam
aquelas atividades para os calouros. Isso incluía pular, correr
de um lado a outro da quadra, flexões, agachamentos e tudo
mais que fizesse parte das tarefas do trote.
Todo aquele esforço físico resultou na perda de cinco
quilos e no ganho de músculos nos braços. Algo de que Arthit,
é claro, não podia reclamar.
Mas, se dependesse dele eliminar todo aquele exercício
diário, a resposta seria um sonoro "sim".
5. Barba e bigode
Arthit odiava todo aquele pelo extra no rosto.
Ele não suportava a sensação desagradável e áspera ao
tocar o queixo. Até o excesso de pelos acima dos lábios era
incômodo na hora de comer.
Mesmo assim, seus amigos conseguiram convencê-lo a
manter. Alegando que deixava ele com uma aparência mais
durona 4 escondendo suas bochechas redondas que o faziam
parecer fofo e até jovem demais.
Porque, sem dúvida, se ele raspasse o bigode ou a barba,
os calouros se confundiriam e tratariam ele como um colega
qualquer.
O visual acrescentava rigidez ao seu rosto, ajudando na
expressão séria. Embora Arthit estivesse prestes a se barbear
inúmeras vezes 4 principalmente quando o calor fazia o suor
acumular naquela área.
Mas, todas as vezes, ele cedia aos protestos dos amigos,
que insistiam que a barba era um traço de masculinidade
essencial para qualquer líder de trote.
E eles tinham razão. Por isso, Arthit escondeu o
barbeador 4 até de si mesmo.
6. Longas sessões de estudo
Arthit odiava estudar até tarde.
Mas aquela afirmação não significava que ele fosse um
mau aluno.
Ele raramente estudava, mas se esforçava ao máximo
quando necessário. Apesar disso, também não era um aluno
perfeito. Arthit podia ter faltado a algumas aulas por tédio,
como a maioria.
No entanto, havia uma lei silenciosa entre todos os
estudantes de engenharia que pregava uma lição importante:
4 Participe de todas as atividades que puder, desde que
não negligencie os estudos.
E, se essa regra fosse quebrada, os professores tinham
liberdade para incluir o nome do infrator em uma lista negra,
impedindo que participasse de qualquer clube, esporte ou
atividade recreativa.
Por isso, ser o líder do trote era um desafio. Arthit teve
que encontrar um jeito de ter energia suficiente para ir de uma
aula a outra e se esforçar ao máximo para cumprir suas duas
responsabilidades.
Isso incluía sessões de estudo à noite.
Embora não se possa dizer que Arthit passava noites em
claro estudando 4 ele tomava notas específicas para evitar
problemas. Na verdade, as aulas viraram sua área de
descanso, usando a carteira como segunda cama. Por isso,
seus amigos tiveram que dar-lhe aulas particulares e
emprestar seus cadernos para que Arthit não acabasse
reprovando.
Já que tinha a imagem de um homem durão, ele podia se
dar ao luxo de recusar qualquer um que tentasse tirar dúvidas
sobre alguma matéria com ele.
7. Bicicleta
Arthit amava sua bicicleta.
Sua querida bicicleta não podia ser chamada de
transporte simples. Era leve, preta e de um modelo clássico.
Nas palavras de Arthit, uma bicicleta elegante.
Nos primeiros anos, Arthit fazia longos passeios pelo
campus universitário em sua bicicleta, sentindo o vento fresco
no rosto e enchendo os pulmões com o cheiro da natureza das
áreas verdes da universidade. Ele também gostava da vista e
dos poucos pássaros que apareciam nos lugares mais
isolados.
Aquela era sua melhor forma de relaxar.
Mas, se os calouros o vissem sorrindo enquanto pedalava
em alta velocidade, isso certamente arruinaria sua imagem.
Foi por isso que Arthit começou a pegar carona nas motos
dos amigos, chegando a pensar em juntar dinheiro para
comprar uma moto própria 4 mesmo que sua única
motivação fosse deixar de ser um peso.
8. Lágrimas de uma garota
Arthit odiava ver uma garota chorar.
As lágrimas femininas faziam seu coração se apertar,
deixando-o genuinamente mal.
Mas, durante as reuniões do trote, Arthit tinha que
suportar ver as garotas chorando 4 sendo ele o culpado por
todos aqueles rostos tristes. Claro, ele evitava olhar demais
para não se sentir culpado. Mesmo que quisesse abraçar
qualquer uma delas para confortá-las.
Mesmo assim, ele permanecia impassível, ignorando-as
com expressão indiferente.
4 Será que sou tão cruel assim? 4 ele se perguntou certa
vez, temendo que sua má fama o impedisse de sair com
qualquer garota durante a faculdade.
Embora, pela experiência de outros veteranos, ser um
cara durão fosse supostamente atraente para as mulheres.
No caso dele, no entanto, acontecia o oposto. As garotas
não demonstravam o mínimo interesse por ele, evitando-o nos
corredores.
Então Arthit concluiu que aquela teoria do "cara durão"
não era tão popular com as mulheres assim.
9. Amigos
Arthit adorava fazer novos amigos.
Por natureza, ele era uma pessoa sociável que gostava de
ter muitos amigos. Alguns conhecia em festas, outros eram
colegas de classe.
Mas ser amigável, aparentemente, era uma característica
inconcebível para o líder do trote.
O problema era que, aos olhos dos calouros, ele precisava
parecer uma pessoa difícil. Por isso, não podia sair por aí
socializando ou sendo engraçado com os amigos.
Eles, infelizmente, não ajudavam nesse aspecto.
Adoravam provocar Arthit, principalmente quando ele estava
no papel de líder do trote, intimidando os calouros. Era muito
difícil conter o riso com as piadas deles e manter a seriedade
até poder se esconder em algum lugar para rir à vontade.
Arthit tentou repreendê-los várias vezes, sem sucesso.
Parecia que, além de ser durão com os calouros, ele também
precisava sê-lo com seus amigos incorrigíveis.
10. Calouro 0062
Arthit odiava a atitude do calouro 0062.
Desde o primeiro dia, ele se esforçou para ser um líder
exemplar. Sabia das desvantagens de ser o líder do trote e que,
de certa forma, era algo prejudicial.
Mesmo assim, fez tudo o que pôde para manter a calma.
Ser durão, mas controlar suas emoções, planejar atividades
com um propósito educativo e até se preocupar genuinamente
com o que os calouros pensavam do trote.
Mas todos os seus planos desmoronaram quando aquele
calouro encrenqueiro apareceu.
62.
Aquele novato não só ousou desafiá-lo na primeira
reunião, como também conseguiu fazê-lo perder a paciência.
Arthit detestava a facilidade com que Kongpob distorcia
suas ações e manchava sua imagem perante os outros
calouros. Mesmo quando punido, Kongpob nem parecia
arrependido.
Seus colegas até questionaram sua severidade, fazendo-o
parecer inferior diante daquele estudante do primeiro ano.
Por culpa de Kongpob, a maioria dos calouros parecia
odiá-lo.
Arthit sabia que Kongpob tinha uma intenção oculta 4
principalmente porque o olhar dele, quando seus olhos se
encontravam, era intenso demais. Mesmo assim, Arthit se
esforçou para não cair em suas provocações, afinal, um
calouro não seria mais esperto que um veterano.
Com isso em mente, em cada reunião, Arthit tentava se
concentrar ao máximo no planejado 4 mesmo que seus olhos
o traíssem, procurando Kongpob entre as fileiras. Claro, só
para garantir que ele não levantaria a mão para contestar suas
ordens.
Arthit nunca admitiria que, de certa forma, a presença do
calouro 0062 foi talvez a única coisa emocionante que surgiu
em sua vida depois que se tornou líder do trote.
ESPECIAL
Um dia comum na vida de Kongpob
06:00
Kongpob acordou.
Por natureza, ele era madrugador.
Acordava sozinho às seis da manhã, seu horário habitual
para começar o dia. Um hábito enraizado desde a infância,
graças à sua mãe, que o acordava cedo para fazer oferendas
aos monges. Mas logo ele se acostumou a abrir os olhos
exatamente às seis, sem conseguir voltar a dormir.
Todas as manhãs, Kongpob pegava sua motocicleta para
ir ao mercado perto de casa e comprar o café da manhã que
ofereceria aos monges. Tornara-se um cliente frequente das
barraquinhas de comida e, é claro, o orgulho de sua mãe.
Ao voltar, Kongpob se contentava apenas com uma xícara
de café para si mesmo, preferindo abastecer seu corpo com
cafeína em vez de comida. Parecia que uma consequência de
seu cérebro matutino era ter um estômago acostumado a
jejuns.
7:00
Kongpob tomou banho antes de se arrumar para a
universidade.
Ele preparava seu uniforme na noite anterior, então, na
manhã seguinte, após o banho rotineiro, começava a pegar o
uniforme no cabide. Ajustava o nó da gravata em frente ao
espelho enquanto as notícias do dia passavam na TV atrás
dele. Seguia sua rotina sem pressa, aproveitando o tempo e se
preparando sem preocupações.
Embora Kongpob não fosse fã de gravatas apertando seu
pescoço, certificava-se de que o nó estivesse bem feito e evitava
puxá-la mais do que o necessário. Algo em que ele teve que se
esforçar especialmente.
Kongpob sempre acreditou que uma pessoa não deveria
ser julgada pela roupa, mas a universidade era diferente. E se
as regras exigiam gravata, ele, como bom aluno da faculdade,
cumpriria. Gostando ou não.
Isso não o impediu, porém, de esperar ansiosamente pelo
dia em que deixaria de ser calouro e poderia usar a
aparentemente confortável camiseta de laboratório.
8:00
Kongpob seguiu para a universidade.
Naquele dia, sua primeira aula era um curso
extracurricular de inglês, realizado no prédio de idiomas, longe
da faculdade de engenharia, onde estudantes de diferentes
cursos se reuniam. Foi assim que Kongpob conheceu alunos
de outras áreas 4 principalmente garotas que se
aproximavam para perguntar seu nome e número. Embora ele
preferisse não mencionar que costumava abandonar as redes
sociais por alguns dias e não era muito ativo.
Isso não significava que Kongpob fosse incomunicável ou
que não gostasse de compartilhar seus interesses. Na verdade,
ele tinha a maioria das redes sociais 4 Line, Facebook, Twitter
e até um Instagram que uma amiga criou para ele. Mas a
maioria estava abandonada, e ele só acessava no tempo livre
entre as aulas.
Além disso, Kongpob era um pouco ansioso. Se precisava
discutir algo importante, preferia uma ligação rápida a enviar
uma mensagem e esperar horas por uma resposta. Algo
contraditório, já que seus amigos reclamavam que ele lia as
mensagens e não respondia. Kongpob não tinha uma
explicação clara para isso e até aceitava as brincadeiras dos
amigos sobre seu iPhone, que sugeriram trocar por um Nokia
3310. Uma ideia maluca que ele talvez considerasse.
8:30
Kongpob foi para sua primeira aula da manhã.
Depois do curso, ele foi direto para a faculdade,
sentando-se no fundo da sala com seus amigos, que logo
começaram a contar as últimas fofocas. Um deles, Em, seu
melhor amigo, mencionou o pedido dos veteranos para
escolherem um presidente de turma.
Claro, Kongpob ficou irritado quando tentaram
convencê-lo a assumir a responsabilidade, recusando na hora.
Ele não queria tarefas extras 4 preferia passar despercebido
pelo resto do tempo na faculdade. Então, usou seu último
recurso para fazê-los desistir: ameaçou concorrer mal
intencionalmente.
10:25
Kongpob encontrou-se com Apple, sua veterana de
código.
Assim que a primeira aula terminou, Kongpob desceu as
escadas do prédio principal para encontrar Apple em frente à
biblioteca. Esse encontro deveria ter acontecido no primeiro
dia de aula, mas sua veterana havia voltado de uma viagem ao
exterior uma semana depois, forçando Kongpob a pedir
emprestado aos amigos os materiais que seus veteranos
haviam fornecido.
Kongpob chegou à área verde em frente à biblioteca,
procurando por Apple, a quem nunca tinha visto
pessoalmente. Surpreendeu-se quando uma veterana,
sentada em um banco de pedra não muito longe, levantou-se
animada para cumprimentá-lo pelo nome.
Apple, ou Ple, era uma garota baixinha e alegre, com
traços chineses evidentes. Kongpob já tinha ouvido falar dela
4 afinal, Ple era uma das estudantes mais populares da
faculdade. Apesar da fama, ela não parecia arrogante, então
Kongpob cumprimentou-a com naturalidade e agradeceu pela
caixa decorada com papel de bolinhas, cheia de livros usados
de sua veterana.
Não eram apenas os livros dela. Ple incluíra materiais de
veteranos mais antigos, relíquias passadas de geração em
geração. Ela enfatizou isso e pediu que Kongpob fizesse o
mesmo com seu futuro calouro quando se tornasse veterano.
Apple despediu-se rapidamente, mas não sem antes dar a
ele um saquinho de doces como desculpa. Kongpob agradeceu
com respeito e partiu com a caixa de livros marcados com o
código 0062 nas capas gastas 4 incluindo um que ele mesmo
comprara na primeira semana e agora pretendia substituir.
10:45
Kongpob participou da sessão de fotos para o concurso
Lua e Estrela da universidade.
No dia anterior, Minnie, a coordenadora do evento,
avisara Kongpob e Praepailin sobre o ensaio atrás do auditório
principal.
Quando Kongpob chegou, viu um pequeno set montado e
algumas pessoas ajustando os detalhes. Tudo parecia
improvisado, assim como a seleção para Lua e Estrela.
Enquanto outras faculdades escolhiam seus
representantes por votação (com pelo menos mil alunos
participando), a faculdade de engenharia deixara a decisão
nas mãos dos veteranos, por falta de tempo.
Depois de ser selecionado, Kongpob deu uma breve
entrevista sobre sua experiência como calouro, que seria
publicada junto com sua foto em um álbum no Facebook com
os outros concorrentes.
Na verdade, Kongpob não estava interessado no título de
Lua da Universidade, mas Minnie e seus colegas depositavam
esperanças nele. Não faltava quem lembrasse o quanto ele era
capaz de vencer. Kongpob, porém, só pensava em qual talento
apresentar para não decepcionar ninguém. Se não fossem as
expectativas dos amigos e o trabalho duro da equipe de
fotografia, ele talvez tivesse desistido.
12:00
Kongpob foi almoçar no refeitório.
Ele sempre comia com o mesmo grupo de amigos 4 cerca
de dez pessoas ocupando duas mesas, conversando tão alto
que alguns alunos já os chamavam de "o grupo barulhento".
Mas, apesar das vozes altas, todos eram simpáticos e
carismáticos.
Embora alguns estudantes preferissem sair do refeitório
ao vê-los, não se comparavam aos alunos do terceiro ano. O
grupo de veteranos, vestindo camisetas vermelhas de
laboratório, entrava com autoridade, ocupando duas mesas
sem se importar com os olhares ao redor. O tamanho do grupo
até era parecido, mas o prestígio de cada um estava em outro
nível.
Quando os veteranos 4 incluindo membros da equipe do
trote 4 passaram por suas mesas, os calouros levantaram
para cumprimentá-los com o devido respeito. Alguns
responderam com um aceno de cabeça; outros, com
expressões frias e indiferentes.
E essa foi a resposta que Kongpob recebeu ao
cumprimentar especificamente o líder, Arthit, que ignorou sua
existência e seguiu adiante sem retribuir o gesto.
Claro, a saudação era apenas formalidade. Assim que os
veteranos saíram de vista, os amigos de Kongpob começaram a
criticar suas atitudes e aparências. Algo que não o divertiu.
Mas, em vez de discordar, Kongpob preferiu ficar quieto.
Afinal, não havia motivo para defendê-los.
13:00
Kongpob voltou para a aula.
Sentou-se na sala, onde o barulho de risadas e vozes altas
dominava antes da chegada do professor. Era difícil manter
uma conversa tranquila, mas dava para ouvir fragmentos de
outros diálogos se ele se concentrasse.
E foi exatamente o que Kongpob fez enquanto fingia
procurar o livro da matéria que o professor estava ensinando.
Ele estava ciente dos sussurros não tão discretos atrás dele e
dos sorrisos disfarçados que recebia quando alguém era pego
falando sobre ele. Algo que o fez suspeitar de uma possível
traição por parte de seus colegas, ignorando sua relutância em
se candidatar a presidente de turma.
Mas talvez tudo estivesse só em sua imaginação, e sua
ameaça ainda ecoava na mente deles, porque assim que se
sentou e lançou um olhar completo pela sala, os sussurros
que julgara ter ouvido se calaram. Embora isso tenha sido
perturbador, Kongpob finalmente pôde respirar fundo e
recostar-se na carteira, esperando relaxar 4 afinal, o dia
parecia estar durando uma eternidade.
15:30
Kongpob foi eleito presidente de turma.
Ele aprendeu naquele dia que a universidade era um
período difícil, onde se destacar parecia trazer problemas.
Assim que a professora encerrou a aula, liberando os
alunos 4 algo que Kongpob desejava desde o início 4, o
calouro pegou suas coisas rapidamente e dirigiu-se para a
saída, esperando que isso diminuísse as chances de ser traído
e eleito.
Mas suas esperanças de escapar ileso foram esmagadas
quando ele foi parado com um pé já no corredor, surpreso ao
descobrir que não fora escolhido por seus colegas de
departamento, mas sim pelos outros representantes. Como
ninguém do grupo de engenharia industrial quis assumir a
responsabilidade, eles escolheram aleatoriamente o rosto mais
conhecido 4 mesmo sem saber se Kongpob estava disposto a
aceitar o título.
Felizmente, suas explicações e recusas constantes foram
tão eloquentes que, depois de alguns minutos, os colegas
aceitaram escolher outra pessoa. As votações recomeçaram,
com novas indicações, e Kongpob aproveitou para escapar,
deixando todos discutindo sobre quem seria o novo
representante.
Ele não parou até chegar ao corredor que levava à sala de
reuniões, onde os integrantes do trote os haviam convocado
para as quatro em ponto.
16:10
Kongpob entrou na sala de reuniões.
Dez minutos de atraso não foram nada comparados aos
trinta minutos que os outros calouros demoraram depois da
eleição. Algo que irritou visivelmente os veteranos, que nem
sequer permitiram explicações. Além disso, era suspeito que já
tivessem um castigo preparado.
Os veteranos ordenaram que os calouros formassem filas,
passando as mãos pelos pescoços uns dos outros, e se
coordenassem para fazer dez agachamentos por cada aluno
que chegou depois da maioria.
No final, os novatos fizeram cerca de duzentos
agachamentos, sendo interrompidos pelo próprio líder do trote
4 só para então serem bombardeados com um sermão pesado
e repetitivo sobre a importância do sistema SOTUS,
enfatizando disciplina e respeito aos mais velhos.
Se Kongpob fosse sincero, no começo da faculdade, ele
mesmo era um firme opositor do sistema SOTUS. Acreditava
que, para ganhar respeito, não era necessário intimidar. Algo
que os organizadores do trote usavam contra os calouros:
submetiam-nos a exercícios pesados, como um treinamento
militar, além de gritar ordens e se vangloriar do poder que
tinham como veteranos de engenharia.
Mas, além de perceber o que havia de injusto no sistema,
as virtudes também se mostraram com o tempo. Graças ao
SOTUS, os calouros aprenderam sobre união e espírito
estudantil, testaram suas habilidades e reforçaram o orgulho
de pertencer à faculdade de engenharia.
Conforme foi entendendo isso, Kongpob deixou de querer
faltar às reuniões 4 embora nunca ter perdido uma também o
ensinasse a estar sempre preparado para um tratamento mais
severo. Foi uma das razões pelas quais, naquele dia, ele
desafiou o líder do trote, disposto a ensinar-lhe uma lição.
Tudo terminou, porém, com um castigo ainda pior para os
calouros.
Suas palavras haviam ficado gravadas na mente de todos,
inclusive na dele mesmo. Uma lembrança que ainda o
envergonhava um pouco. Kongpob se lembrava daquele dia
toda vez que o líder olhava em sua direção, com o maxilar
tensionado, como se estivesse procurando um motivo para
repreendê-lo 4 mesmo que Kongpob não tivesse feito nada.
E, embora se sentisse culpado por ter humilhado Arthit
na frente de todos, Kongpob não desviava o olhar quando seus
olhos se encontravam. Muitas vezes, isso fazia com que o líder
o punisse injustamente, só para se livrar daquele olhar fixo.
Mesmo sabendo que isso irritava Arthit, Kongpob não se
importava 4 mas sua natureza o fazia protestar.
Principalmente porque ele não conseguia abaixar a cabeça e
obedecer sem entender seu erro, não importava quantas vezes
Arthit dissesse o contrário.
18:00
Kongpob saiu da reunião com os veteranos.
Foi arrastado pelos amigos para o campo de futebol logo
depois de todos aqueles agachamentos. Seu corpo estava
exausto pelo castigo, e ele só pensava em tomar um banho e
cair como um morto na cama. Mas acabou aceitando.
O que parecia ser um jogo rápido virou um partida
completa. Kongpob suava copiosamente, com o rosto coberto
de gotas e a camiseta encharcada como se tivesse tomado
banho de roupa. Mas a energia do jogo o distraiu o suficiente
para que nem se importasse. O esforço físico constante das
reuniões o deixara mais resistente, e o sol escaldante só
aumentara sua resistência.
Quando finalmente todos estavam exaustos, Kongpob se
despediu dos amigos, subiu em sua moto e foi para seu
apartamento. Assim que chegou, lavou a camiseta do trote e
correu para o banheiro, deixando a água quente relaxar seus
músculos.
Depois, vestiu uma camiseta simples e um shorts antes
de sair para comprar algo que saciasse sua fome.
19:30
Kongpob comprou seu jantar.
Seu restaurante habitual ficava perto do dormitório. A
comida era saborosa e barata, então ele ia com frequência 4
assim como os outros clientes que lotavam o lugar,
principalmente universitários que saíam tarde das aulas. Ele
entrou, procurando uma mesa livre antes de decidir o que
pedir.
Minutos depois, quando estava prestes a levar uma
colherada de porco com arroz à boca, Kongpob ouviu uma voz
familiar perto dele e parou para escutar.
4 Tia, tem algo diferente no cardápio hoje?
Aquela voz foi tão reconhecível que Kongpob deixou a
colher no prato e ergueu os olhos, procurando seu dono. Sua
surpresa foi tão grande que ele se encolheu na cadeira,
tentando se esconder entre os clientes quando avistou o feroz
líder do trote a algumas mesas de distância.
Mas, ao contrário dele, Arthit parecia tranquilo, o que
acalmou Kongpob e dissipou seu medo de ser descoberto.
Enquanto Arthit conversava com a dona do restaurante sobre
o cardápio, Kongpob resolveu ouvir.
4 Tem algo em mente, filho?
4 Na verdade, não. Qualquer coisa está bom, a senhora
cozinha delicioso. Pode escolher por mim hoje.
4 Tá bom, que tal macarrão?
4 Pode colocar arroz frito também? E hoje vou levar para
o dormitório, então pode embrulhar, por favor. A bebida é a de
sempre.
Minutos depois, Kongpob viu de longe a mulher entregar
a Arthit seu pedido e um grande copo de leite rosa, que ele
olhou com interesse antes de começar a beber.
4 Quanto é, Tia? Trinta e cinco, né? 4 Arthit pagou e, de
repente, vasculhou a carteira de novo 4 Espera! Toma
quarenta. Da última vez, não paguei o valor completo.
A voz alegre de Arthit contrastava totalmente com a
imagem que Kongpob tinha do líder do trote, mas sua atitude
descontraída confirmava que era ele mesmo. Quando Arthit
olhou ao redor, Kongpob abaixou-se o máximo possível,
escondendo-se até que o veterano saísse com sua comida e
bebida.
Aliviado por ter escapado de um castigo ao passar
despercebido, Kongpob suspirou satisfeito, relaxando sobre a
mesa. Pensou que havia descoberto algo novo sobre o líder do
trote. Afinal, aparentemente, ele podia ser doce com outras
pessoas, até gentil 4 alguém completamente diferente do
soldado que só gritava ordens na sala de reuniões.
Outro detalhe importante: Kongpob nunca imaginaria
que Arthit tomasse leite rosa.
20:45
Kongpob terminou suas tarefas pendentes.
Como tinha um tempo livre, decidiu assistir a um filme.
Embora fosse mais comum baixá-los da internet, ele ainda
preferia o material original, alugando ou comprando os DVDs
que chamavam sua atenção.
Ao terminar, concluiu que tinha gostado e adicionou o
DVD à sua coleção sob a estante, onde guardava outros filmes
raros.
Kongpob adorava cinema 4 ou qualquer bom filme, no
geral. Não importava se era na tela do notebook ou na TV, mas
nada superava a experiência do cinema. Já tinha ido a várias
estreias com amigos ou, às vezes, sozinho. Isso não era
problema, porque, quando estava diante da tela, sua atenção
ficava completamente imersa na história, esquecendo tudo ao
redor. Para ele, ninguém mais existia durante aquelas horas.
21:30
Kongpob desligou a TV depois do filme.
Ele se espreguiçou, alongando os músculos das costas,
erguendo os braços antes de pular da cama para escovar os
dentes e tomar um banho rápido antes de dormir. Mas, no
momento em que saiu à varanda para pegar uma toalha seca,
seus olhos se arregalaram quando a porta de correr do quarto
vizinho se abriu, revelando o líder do trote saindo de lá.
Num piscar de olhos, Kongpob voltou para seu quarto
com o coração acelerado, assustado e surpreso por descobrir
que Arthit era, inesperadamente, seu vizinho. No segundo
seguinte, movido pela curiosidade, ele abriu um espaço entre
as cortinas para espiar o homem que aparentemente morava
em frente a ele.
Isso não deveria ser uma surpresa total. Kongpob sabia
que Arthit morava naquele prédio, mas não que seu quarto
ficava no sexto andar 4 nem que suas varandas estavam a
apenas quinze metros de distância uma da outra.
Ele também lembrava de ter visto o vizinho pendurando
roupas na varanda antes, mas não tinha percebido quem era.
Até aquele dia, quando olhou com mais atenção e percebeu
que, definitivamente, era ele 4 Arthit, o líder do trote.
Kongpob quis fechar as cortinas, com medo de que Arthit
o pegasse espiando e pensasse que ele era um stalker só por
ter curiosidade sobre todas aquelas facetas surpreendentes
que ele parecia ter.
Um exemplo claro era aquele momento. Quem lavava
roupa às nove da noite e pendurava do lado de fora sem um raio
de sol no céu? E isso não era tudo. Arthit parecia estar
complicando demais uma tarefa tão simples, sacudindo os fios
de cabelo que caíam sobre seus olhos toda vez que se abaixava
para pegar outra peça do cesto. Tanta foi sua irritação que ele
jogou a roupa de volta no cesto antes de voltar para dentro e
reaparecer com o cabelo preso em uma coleta baixa.
Mas seu sofrimento não acabou ali. Kongpob engoliu uma
risada quando Arthit se abaixou de novo e algo atrapalhou sua
visão 4 provavelmente o cabelo 4, resolvendo o problema com
um pregador de roupa.
Ao terminar, Arthit tentou tirar o pregador do cabelo e
levou um susto quando ele não saiu na primeira tentativa.
Kongpob achou estranho usar um pregador de roupa para
prender os fios rebeldes, já que aquelas coisas apertavam
demais. Algo que Arthit não parecia ter considerado ao
finalmente se livrar do pregador, parecendo triunfante com
seu feito.
E, por algum motivo, Kongpob assistiu a todo aquele
espetáculo com um sorriso no rosto.
23:30
Kongpob foi para a cama.
Embora sua cabeça já estivesse no travesseiro, seus olhos
se recusavam a fechar.
Virou de um lado para o outro, mas não conseguia
dormir. Talvez fosse o café que tomara horas antes. Ou algum
outro motivo 4 ele não tinha certeza.
Olhou para o relógio na mesa de cabeceira marcando
23:30, suspirou e decidiu levantar. Abriu a gaveta da cômoda
com preguiça, pegou um maço de cigarros e um isqueiro, e
saiu na varanda para acender um.
Seus pulmões receberam a fumaça em uma única
tragada, que, ao ser expelida, criou uma leve nuvem quase
imperceptível no ar.
Ele tinha aprendido a fumar pela mesma razão que se
embriagara pela primeira vez: para socializar. Mas era o único
hábito que mantinha, reservado para quando realmente
precisava relaxar. Sabia que fazia mal, mas ajudava sua
mente a se livrar de distrações desnecessárias.
Kongpob se apoiou na beirada da varanda, observando o
quarto em frente. A luz ainda acesa indicava que seu dono
também não estava dormindo, ocupado com alguma coisa.
Arthit podia estar terminando tarefas, vendo TV, jogando
online ou falando com a namorada...
A última ideia saiu de sua mente de um jeito estranho,
deixando um desconforto no peito. Um minuto depois,
Kongpob balançou a cabeça, dando outra tragada. O que
importava pra ele como Arthit gastava seu tempo? Além disso,
por que teria curiosidade sobre sua vida amorosa? Talvez ele já
estivesse solteiro tempo suficiente para se questionar sobre os
relacionamentos alheios. Uma explicação bem lógica.
Kongpob não teve tempo de refletir mais sobre aquela
bobagem, porque o som da porta vizinha se abrindo invadiu
seus pensamentos. Ele conseguiu se esconder a tempo de ver
uma figura curvada, com uma toalha na cabeça, saindo. Não
conseguiu ver muito além de Arthit pendurando a toalha
rapidamente 4 estava escuro demais 4, mas ouviu um pouco
de música vindo do quarto, chegando até ele como uma
melodia suave misturada com o vento. O som desapareceu
quando Arthit fechou a janela e voltou para dentro, apagando
as luzes minutos depois.
Com tudo quieto novamente, Kongpob saiu para observar
melhor a varanda oposta. Será que querer ver Arthit sendo ele
mesmo era motivo suficiente para não contar que suas
varandas ficavam uma de frente para a outra?
Talvez essa fosse a razão pela qual ele tinha parado de
temer o líder do trote, vendo além de suas ações questionáveis
e aparentemente injustas.
A curiosidade fez Kongpob prometer a si mesmo guardar
aquela descoberta, jurando não contar a ninguém 4 nem
mesmo ao próprio Arthit.
Ele apagou o cigarro e voltou para a cama, com as
pálpebras pesadas. Mas, mesmo com o sono tomando conta,
seus pensamentos não descansavam, revisitando tudo o que
tinha presenciado.
Arthit provavelmente já estava dormindo, mas Kongpob
ainda o mantinha girando em sua mente, sorrindo com a
descoberta mais recente e com uma mensagem para ele
ecoando em seus pensamentos.
00:00
... Boa noite, P'Arthit.
Sinto sua falta.
ESPECIAL
Arthit estava ocupado.
Kongpob entendia. Ele sabia que Arthit estava no quarto
ano e a carga de trabalho tinha aumentado consideravelmente
4 entre projetos finais, estudos e estágio. Por isso, já não se
encontravam com tanta frequência na faculdade e até fora
dela, mesmo com suas varandas tão próximas.
Ainda havia a opção de ligar para Arthit, mas Kongpob
não queria incomodá-lo ou ser tão carente quanto uma
criança precisando de atenção. Além disso, seu único pretexto
era o desejo de ouvir sua voz 4 algo egoísta demais para
interromper a agenda cheia de Arthit.
Até seu melhor amigo tinha dado um conselho:
4 É normal, Kongpob. Quanto mais você ama alguém,
mais quer ficar perto.
Mas era a primeira vez que ele se sentia um pouco
deixado de lado pelo parceiro. Enquanto ele anseava por
companhia, Arthit parecia distante. Kongpob sabia que esses
sentimentos eram infantis 4 seu namorado era maduro, e ele
precisava manter sua autoestima e segurança no mesmo nível
para que Arthit sentisse que podia confiar nele.
Então, durante todo aquele mês em que não se viram,
Kongpob garantiu que sua vida continuasse normalmente,
evitando que preocupações ocupassem sua mente.
Frequentou todas as aulas, almoçou com os amigos enquanto
trocava mensagens com Arthit e, à noite, alugava alguns
filmes para passar o tempo. E quando as luzes do quarto
vizinho 4 que ele via da varanda 4 se apagavam, Kongpob se
sentia tranquilo o suficiente para fechar os olhos e dormir.
Infelizmente, conforme o fim do semestre se aproximava,
Arthit começou a passar as noites no apartamento de Knot,
trabalhando até tarde em um de seus projetos finais. Um dos
muitos para os quais Arthit dedicava cada minuto de seu
tempo livre.
Ele também passou a reclamar de tudo sempre que
conversavam por telefone, usando Kongpob como sua única
válvula de escape para todo o trabalho acumulado e as
exigências constantes dos professores. Contou até que um
deles exigira, como parte do trabalho, que visitassem
Amphawa 4 local do tema de pesquisa 4 e tirassem fotos da
visita. A ligação terminou com lamentações de Knot por não
conseguir encontrar um livro.
Arthit estava muito ocupado. Kongpob sabia disso. E
mais do que ninguém, tentou entender.
E, embora não fosse seu favorito, Kongpob trocou seu
menu habitual por um copo de leite rosa para acompanhar
seu arroz com carne de porco e omelete 4 o prato preferido de
Arthit. Deixou o cheiro familiar transportá-lo para os dias em
que Arthit visitava seu dormitório. Kongpob ligou a TV logo
depois de se instalar na mesinha perto da varanda, dissipando
o silêncio pesado com o som e dando garfadas enquanto seu
olhar, inevitavelmente, abandonava as cores da tela para
espiar a varanda vizinha pela janela.
Quase imediatamente, o cheiro de terra úmida subiu, e as
pesadas gotas de chuva começaram a cair.
Sempre que chovia, Kongpob corria para a varanda para
ver se Arthit tinha roupas estendidas. Se tivesse, ele ligava na
hora para avisá-lo, permitindo que ele as recolhesse a tempo.
E toda vez, Arthit reclamava por ele não ter avisado antes
sobre o mau tempo, resmungando também sobre o clima
imprevisível de Bangkok 4 ensolarado de dia e tempestuoso à
noite. Algo que Kongpob achava hilário, soltando risadas que
eram rapidamente interrompidas por mais broncas de Arthit,
que alegava estar sendo zombado em sua desgraça.
Kongpob ficou relembrando esses momentos enquanto a
chuva caía, observando à distância aquela varanda escura e
vazia. Sem nenhuma razão que servisse de desculpa para ligar
para Arthit e ouvir suas reclamações que tanto alegravam seu
dia.
Aquele quarto parecia tão distante... e sem vida.
Algo dentro de Kongpob apertou dolorosamente, a ponto
de forçá-lo a desviar o olhar da janela e fechar as cortinas
depois de apagar as luzes da varanda. Deu uma olhada rápida
para as chaves repousadas no criado-mudo, até que seus pés
tomaram uma decisão impulsiva e as pegou.
A porta fechou atrás dele enquanto seus dedos se
fechavam em torno das chaves, segurando também um
guarda-chuva com a outra mão. Nem pensou muito quando
saiu do prédio e caminhou até o oposto, entrando e quase
correndo para o elevador antes que a coragem espontânea o
abandonasse.
Eram nove da noite, ele estava levemente encharcado e
tinha corrido sem motivo claro até o sexto andar, em frente ao
quarto 18. Felizmente, o corredor e o elevador estavam vazios,
e Kongpob não precisou inventar desculpas para explicar sua
pressa em ficar parado diante de uma porta fechada.
Como esperado, o quarto parecia vazio.
Então... o que ele estava fazendo ali? O que Arthit
pensaria se o visse na frente de sua porta? Talvez achasse que
Kongpob estava agindo como uma criança 4 impulsivo e
irracional, guiado por bobagens. Mas seria mesmo
imaturidade ter ido até lá só na esperança de ver Arthit,
mesmo que por alguns minutos?
4 Kongpob?
Ele se virou bruscamente ao ouvir seu nome. Seus olhos
se arregalaram ao ver a pessoa no corredor, encarando-o com
igual surpresa.
4 P'Arthit!
4 O que você está fazendo aqui?
Em vez de responder, Kongpob fez outra pergunta:
4 P'Arthit, você voltou de Amphawa?
4 Sim, há alguns minutos. Fui deixar umas coisas no
apartamento de Knot. Graças a ele, tivemos que voltar 4 ele
alugou um livro na biblioteca da faculdade que vencia hoje, e
se não devolvesse, teria multa. Com sorte, voltamos amanhã
para terminar o projeto.
Arthit reclamou com visível irritação, enquanto Kongpob
ouvia como se o problema de Knot fosse um raio de luz vindo
do céu 4 algo que, mesmo inconveniente para seu namorado,
permitira que ele o visse novamente. Mas, é claro, a irritação
de Arthit virou desconfiança assim que terminou de
resmungar.
4 Bom, não importa. E você, o que está fazendo aqui?
A sensação agradável no peito de Kongpob logo começou
a sufocá-lo, levando-o a formular uma desculpa ridícula que
saiu como espuma pela boca já aberta.
4 Eu? É que tenho um amigo neste prédio e... bem, vim
visitá-lo.
Depois de conseguir terminar a frase, Kongpob
finalmente conseguiu fechar a boca e esboçar um sorriso.
Deixou a explicação sem detalhes, porque sabia que, quanto
mais tentasse torná-la crível, mais Arthit desconfiaria.
Arthit o ouviu com tédio, erguendo uma sobrancelha e
franzindo os lábios antes de empurrá-lo para o lado.
4 Ótimo. Agora sai da frente, preciso entrar.
Kongpob saiu do caminho enquanto Arthit abria a porta e
entrava. Ele não o convidou para entrar, como Kongpob
esperava, então, após alguns segundos de hesitação, ele se
encheu de coragem e seguiu-o para dentro com passos
incertos.
O quarto 618 4 onde ele não entrava há muito tempo 4
não mudara. Era a mesma imagem que guardava na memória.
A única diferença era o cheiro de poeira no ar, consequência
de ficar vazio por um tempo, e, claro, a bagunça natural de seu
dono.
Ao contrário de Kongpob, Arthit não deu a mínima para o
estado do quarto. Tirou os sapatos, ligou o ar-condicionado e
foi até a escrivaninha, esvaziando a mochila. Entre os itens,
seu notebook, que colocou sobre a mesa antes de ligá-lo.
Os olhos curiosos de Kongpob continuaram observando
Arthit até que seus lábios não aguentaram mais e
perguntaram:
4 Vai continuar trabalhando?
4 Sim, ainda tem muita coisa 4 Arthit resmungou, sem
tirar os olhos da tela. Ignorando a presença de Kongpob,
fazendo-o sentir que estava atrapalhando.
4 Entendo. Bom, então é melhor eu ir.
Na verdade, Kongpob sabia que nem precisava anunciar
sua saída. Obviamente, o melhor era ir embora e evitar distrair
Arthit. Mas, embora tenha conseguido falar apesar do nó na
garganta, seus pés se recusaram a se mover. Ficou parado em
silêncio como uma estátua, até que Arthit respirou fundo,
levantou-se da cadeira e foi até o armário, pegando duas
toalhas que atirou em Kongpob.
4 Antes, toma um banho. Está encharcado.
Kongpob olhou para a toalha que acabara de pegar,
depois para a camiseta e o calção que Arthit estendia para ele.
Só então seus ossos sentiram o frio das roupas molhadas.
Embora apreciasse que a gentileza de Arthit
permanecesse a mesma mesmo sendo um incômodo, Kongpob
realmente não queria atrapalhar. Considerou por alguns
segundos recusar a oferta 4 algo que não conseguiu fazer.
Afinal, ele ainda tinha um sério problema em dizer não à
bondade de Arthit.
Então, depois de tomar um banho e vestir uma camiseta e
calças limpas, Kongpob planejou ir embora e deixar Arthit
terminar seu trabalho em paz. Sem contar que Arthit, é claro,
era um bom anfitrião e não hesitou em oferecer algo mais,
fazendo sua já fraca resistência vacilar.
4 Pode ligar a TV se quiser.
4 Obrigado, P'Arthit. Mas acho que não é boa ideia, não
quero atrapalhar sua concentração 4 Kongpob protestou
rapidamente, com o rosto visivelmente envergonhado.
Embora o oferecimento de Arthit fosse inocente, sua
próxima sugestão o fez estremecer.
4 Tá bom. Se quiser dormir, é só arrumar a cama.
4 P'Arthit, você está me convidando para passar a noite
no seu quarto? 4 Kongpob não pôde evitar perguntar,
surpreso com algo bom demais para ser verdade. E talvez
tenha sido sua descrença que fez Arthit finalmente tirar os
olhos da tela do computador para encará-lo com irritação.
4 O quê? Não era isso que você queria?
Kongpob imediatamente se repreendeu mentalmente por
duvidar do gentil convite de Arthit. E balançou a cabeça com
entusiasmo energético em sinal de aceitação.
4 Claro que sim, P'Arthit! Eu quero passar a noite aqui.
Sua voz saiu agitada, como a de uma criança animada,
algo que logo o envergonhou. Consciente de que seu
entusiasmo era exagerado. No entanto, Arthit manteve a
calma, assentindo com condescendência antes de voltar aos
seus afazeres.
4 Tá bom.
Foi tudo o que ele disse antes de mergulhar de volta no
trabalho, dando a Kongpob a chance de observar tudo ao redor
4 incluindo ele mesmo.
Kongpob permitiu-se encher os olhos com o perfil
concentrado de Arthit, notando seu cabelo um pouco mais
longo, chegando ao pescoço como nos tempos em que era líder
do trote.
Um ano se passou desde então. O mesmo tempo de seu
relacionamento. Kongpob tentava não se afligir por não
passarem tempo juntos, mesmo estando perto do aniversário.
Contentava-se em estar em sua presença, compartilhando o
mesmo espaço. Enquanto seus olhos percorriam a bagunça
habitual do quarto, Kongpob pediu emprestado um dos
quadrinhos de Arthit 4 mesmo que fosse só uma desculpa
para observá-lo em silêncio.
Foi só depois da meia-noite que Arthit empurrou a
cadeira para trás, esticando o corpo, que Kongpob abriu os
olhos completamente, sentindo-se um pouco sonolento.
4 Ainda acordado?
4 Sim, ainda não estou com sono. Terminou seu
trabalho?
4 Não, mas não aguento mais. Continuo amanhã 4
Arthit explicou, bocejando e parecendo exausto. Afinal,
passara longas horas viajando de Amphawa de volta a
Bangkok, além do cansaço de escrever tanto tempo no
computador. Não era surpresa que parecesse tão acabado.
4 Posso massagear seus ombros 4 Kongpob ofereceu
sem segundas intenções, cheio de boa vontade. Mesmo assim,
Arthit recusou abruptamente.
4 Nem pensar! Vou tomar um banho e depois dormir. Já
está tarde demais.
Kongpob não insistiu, deixando a recusa final de Arthit
no ar enquanto o via pegar uma toalha e ir para o banheiro, de
mau humor e cansado. Embora Arthit tivesse deixado claro
que não precisava de ajuda, Kongpob sentiu-se um pouco
triste por ele recusar seu oferecimento de aliviar um pouco seu
cansaço. Kongpob não tinha conhecimento suficiente para
ajudá-lo no projeto 4 mesmo tentando, Arthit acabaria tendo
que explicar inúmeras coisas para que ele entendesse os
temas abordados. Algo que, inevitavelmente, o fez perceber a
diferença de idade entre eles.
Porque, por mais que se esforçasse para ser alguém em
quem Arthit pudesse se apoiar, sempre haveria um aspecto
que ele não poderia suprir.
A porta do banheiro se abriu, e logo Arthit estava no
quarto com seu pijama 4 apenas uma camiseta velha e um
shorts. Seu cabelo ainda úmido, que secava descuidosamente
com a toalha antes de pendurá-la no varal do quarto.
Arthit parou em frente à cama, observando o quadrinho
ainda aberto nas mãos de Kongpob.
4 Quer continuar lendo? Posso deixar a luz acesa.
4 Não, não, já li o suficiente. Pode apagar, P'Arthit.
Kongpob rapidamente colocou o quadrinho de volta na
estante, voltando para a cama assim que o fez. O que menos
queria era causar mais incômodo a Arthit, então se acomodou
sob os lençóis, quase encostando na beirada para deixar
espaço suficiente para Arthit, e esperou que ele apagasse as
luzes. A cama era estreita, e com dois homens adultos
dividindo-a, Kongpob conseguia sentir o cheiro do shampoo de
Arthit ainda emanando de seus cabelos molhados.
Naquele momento, compartilhando a mesma cama,
Kongpob não pôde evitar lembrar do passado. O dia em que o
quarto de Arthit alagou e ele passou a noite no quarto de
Kongpob. Quando Arthit fez aquela pergunta que os levara até
ali 4 e que Kongpob só teve coragem de responder quando
Arthit já dormia.
Um dia, Arthit falaria com ele da mesma forma? Com o
coração nas mãos, expressando os sentimentos no fundo de
sua alma?
4 Kongpob?
Pela primeira vez, Kongpob não precisou quebrar o
silêncio 4 foi Arthit quem iniciou a conversa.
4 O que foi, P'Arthit?
4 Por que você estava na frente do meu quarto?
Kongpob surpreendeu-se que algo assim ainda ocupasse
os pensamentos de Arthit. Era a segunda vez que ele
perguntava, quando normalmente nunca insistia. Então
Kongpob ajustou-se no travesseiro, ficando de frente para as
costas de Arthit antes de dizer a verdade, sem pensar em dar
outra desculpa.
4 Comprei um copo de leite rosa e algo para jantar, mas
quando estava comendo no meu quarto, começou a chover.
Isso me fez lembrar que você costuma pendurar roupas à
noite, então fui até a varanda, mas não tinha nada. Depois, só
corri até o seu quarto 4 Kongpob falou com naturalidade,
contando os eventos na ordem em que aconteceram.
Mesmo assim, Arthit franziu os lábios e as sobrancelhas
no escuro, sem acreditar.
4 Só isso?
4 Não. Não é só isso.
Kongpob esticou os braços em direção a Arthit,
eliminando o espaço entre eles, e o envolveu por trás antes de
sussurrar no seu ouvido o verdadeiro motivo de sua presença
desesperada na frente do quarto.
4 Sinto sua falta, P'Arthit.
Para sua surpresa, em vez de se afastar ou reclamar da
proximidade não solicitada, Arthit apenas sussurrou uma
simples pergunta:
4 Por que você não me ligou?
4 Achei que se ligasse, você ficaria irritado.
4 Por que você sempre tira suas próprias conclusões e
inventa coisas na cabeça? Eu sempre atendo suas ligações,
não é?
4 Mas mesmo quando atende, nunca é suficiente. Só
ouvir sua voz não basta. Comer sua comida favorita enquanto
tomo leite rosa também não. Ver sua varanda vazia todas as
noites tampouco adianta.
4 Você está louco. Pensando como uma criança.
Kongpob ouviu o que mais temia sair dos lábios de Arthit
- era comum ele enfatizar quão mais novo Kongpob era, como
se idade fosse proporcional à maturidade.
...E Arthit estava certo.
Tudo o que Kongpob dissera era imaturo e sem sentido.
Algo que irritou Arthit com razão. E justamente quando sua
mente se concentrou nessa dolorosa verdade, Arthit começou
a se mexer para se libertar de seus braços.
4 Está desconfortável 4 Arthit se desculpou antes que
Kongpob cedesse e soltasse seus braços, envergonhado por ter
pressionado Arthit contra seu corpo. Quando o estudante do
quarto ano se libertou, Kongpob ficou dolorosamente
consciente da rapidez com que Arthit se afastou.
4 Eu ia para o seu quarto assim que voltasse de
Amphawa. Por isso deixei tudo no apartamento do Knot. Então
vim aqui e te encontrei na frente da minha porta, e meu plano
foi por água abaixo. E agora você disse antes de mim.
A última frase despertou a curiosidade de Kongpob.
4 Disse o quê?
Arthit se virou de repente, ficando cara a cara com
Kongpob. O quarto estava escuro, mas Kongpob ainda
conseguia distinguir levemente o rosto de Arthit.
E ele entendeu. Entendeu o que Arthit não soube
explicar.
4 Senti muito sua falta, P'Arthit.
Embora Arthit pedisse café gelado em vez de leite rosa, ou
comesse arroz com omelete, ou olhasse por muito tempo o
engrenagem de Kongpob, nada disso se comparava à sensação
de ver o sorriso da pessoa que amava. Como naquele
momento.
Especialmente quando ficava claro que não era o único
ansiando pela companhia do outro.
4 Eu também senti sua falta.
ESPECIAL
O local do encontro foi o quarto 609.
Naquela tarde, uma chuva leve caía do céu, trazendo um
cheiro fresco de terra molhada que invadia o quarto através
das portas da varanda abertas, criando uma atmosfera
agradável e relaxante.
Kongpob decidiu baixar o volume da TV quando percebeu
que seu convidado não estava mais prestando atenção no
filme que ainda rodava na tela.
O rosto tranquilo e adormecido de Arthit parecia ainda
mais jovem do que sua idade real - completamente diferente
quando seus olhos estavam fechados e sua respiração calma,
em contraste com seu olhar severo e postura firme. Kongpob
costumava se lembrar da aparência anterior de Arthit, ainda
mais rústica que a atual, quando ele ainda tinha cabelo até os
ombros - o mesmo que desapareceu quando terminou seu
tempo como líder do trote. Agora, naquele momento, seu
cabelo estava tão curto que deixava à mostra a pele sobre suas
clavículas onde sua camiseta preta usualmente deixava
visível.
A respiração lenta e tranquila de Arthit também era um
claro sinal de que ele estava profundamente adormecido. E
isso, Kongpob pensou, era bom. Sentia-se feliz por seu quarto
ser um lugar onde Arthit pudesse relaxar a ponto de
adormecer assim.
Dois anos já haviam se passado desde que ele e Arthit
começaram a namorar, e é claro, algumas coisas em suas
vidas mudaram. Kongpob agora era um estudante do terceiro
ano e o novo líder do trote, enquanto Arthit havia começado a
trabalhar em uma empresa longe da universidade. Por isso,
seus encontros eram cada vez mais curtos, com ambos
ocupados em suas novas responsabilidades, conseguindo se
ver, com sorte, no máximo três vezes por mês.
Aquele dia marcava seu primeiro encontro desde a última
vez que se viram, duas semanas atrás, e quem propôs o
encontro foi Arthit, para surpresa de Kongpob. Ele ligou com a
desculpa de ter alguns presentes de sua viagem a Chiang Mai,
onde a empresa em que trabalhava o enviara por cinco dias.
À uma da tarde, alguém bateu na porta do quarto de
Kongpob, revelando Arthit com duas grandes sacolas
cheirando a porco com molho, pães recheados e macarrão com
fatias de carne e pimentões.
Arthit entrou arrastando sua pequena mala, com o rosto
cansado e uma expressão de descontentamento marcada no
rosto. Reclamou em voz alta que a bagagem demorara uma
eternidade para aparecer no aeroporto, fazendo-o esperar
muito tempo. Só para depois os taxistas se recusarem a levá-lo
sem razão aparente. E quando finalmente encontrou um que
não se importasse, o motorista pegou uma rota supostamente
mais rápida que acabou num engarrafamento justo quando a
chuva começou a cair mais forte.
Kongpob perguntou por que ele não foi primeiro para seu
próprio apartamento, já que ficava mais perto do aeroporto,
mas a expressão de Arthit ficou ainda mais carrancuda ao
responder, irritado:
4 E se a comida estragasse?
Kongpob viu que no pacote de macarrão que Arthit lhe
entregou havia uma etiqueta indicando que venceria naquele
mesmo dia, levando-o a deduzir que Arthit comprara aquele
prato especificamente na noite anterior à viagem. Por isso, e
pela expressão visivelmente exausta de Arthit, ele não
discutiu. Simplesmente começou a servir a comida nos pratos,
esquentando o que precisava e sugerindo que Arthit relaxasse.
Era óbvio que Arthit estava faminto - provavelmente nem
almoçara. Isso ficou claro quando, depois de meia hora, toda
aquela comida que Arthit trouxera do norte da Tailândia
desapareceu dos pratos para encher seus estômagos.
A chuva não parou até algumas horas depois, mas Arthit
não queria pegar outro táxi e ficar preso no trânsito
novamente, então aceitou sem hesitar o convite de Kongpob
para ficar em seu apartamento. Embora algo lhe dissesse que
Kongpob já tinha planejado isso. Seu jeito de passar o tempo
normalmente era assistir a um filme, então não foi surpresa
quando Kongpob sugeriu ver um antes de dormir. Dessa vez, a
sugestão foi um filme de ação que Kongpob conhecia bem - na
verdade, era um que Arthit queria ver há muito tempo. Depois
de tomar banho e vestir o pijama, sentaram para assistir, mas
menos de um terço do filme se passou antes que Arthit, sem
perceber, caísse num sono profundo.
Kongpob pegou o controle e pausou o filme antes de
desligar a TV. Deitou-se com cuidado na cama, tentando não
perturbar quem já dormia ao seu lado, e apagou a luz do
quarto.
Sabia que Arthit estava exausto por toda a viagem de
volta, e mesmo assim fizera um grande esforço para vê-lo
primeiro. O mínimo que ele podia fazer era não ser egoísta.
Mas a tentação era grande demais. Principalmente
quando a pessoa que ele amava estava ali, tão perto.
Kongpob se inclinou com cuidado, pressionando seus
lábios contra os de Arthit, afastando-se segundos depois para
ver o rosto ainda tranquilo e profundamente adormecido do
companheiro. Como se ele nem tivesse percebido que acabara
de ter um beijo roubado. A falta de reação o encorajou a tentar
novamente, mas os sons de protesta de Arthit finalmente
surgiram - embora seus olhos permanecessem fechados.
Então Kongpob mudou de tática, começando a acariciar
seu pescoço, passando o polegar pela pele atrás das orelhas de
Arthit até chegar à borda da camiseta preta levantada,
sentindo a textura agradável da pele exposta. Su mão
começou a descer inconscientemente quando foi interceptada
pela mão firme de Arthit e sua voz severa:
4 O que você está fazendo?
4 Quero mais presentes...
4 Já te dei vários.
4 Mas não foram suficientes.
4 Desde quando você é tão ganancioso?
Kongpob olhou para Arthit com olhos sérios e levemente
predatórios antes que seus lábios começassem a confessar
seus verdadeiros sentimentos:
4 Desde a primeira vez que te conheci. Nem um único dia
essa necessidade parou - de fazer você experimentar todos os
tipos de sentimentos novos, de conhecer tudo sobre você. E
esse desejo só cresce a cada dia. 4 Kongpob terminou sua
confissão com a mesma intensidade no olhar, mas apesar de
sua sinceridade, Arthit mesmo assim se afastou.
4 Vamos adiar seus desejos para depois.
4 Talvez possamos tentar aliviá-los... 4 Kongpob
arriscou sugerir, fazendo Arthit resmungar antes de cobrir a
cabeça com o travesseiro.
4 Faça o que quiser.
Depois de obter a permissão que desejava, Kongpob se
aproximou, iniciando algo que Arthit não resistiu. Passaram
as duas horas seguintes se acariciando na cama, sem chegar
ao estágio final - estavam exaustos, e aquilo tinha sido
suficiente para saciar a necessidade de proximidade que
sentiam.
De manhã, a chuva havia cessado, o céu escuro começava
a clarear e era hora de seu convidado voltar para casa. Embora
Kongpob quisesse prolongar seu tempo juntos, tudo que pôde
fazer foi convidar Arthit para comer um prato de arroz com
macarrão perto do dormitório antes de ajudá-lo a encontrar
um táxi.
4 Me avise quando chegar em casa.
4 Sim 4 Arthit respondeu secamente antes de fechar a
porta do carro com força e dar o endereço ao motorista.
Não houve mais despedidas, e Kongpob não insistiu.
Apenas observou o carro se afastar até desaparecer de vista.
Quando isso aconteceu, pegou seu telefone e discou o primeiro
número da lista.
O telefone tocou duas vezes antes de Arthit atender,
surpreso com a ligação:
4 O que foi?
4 Nada. Só sinto sua falta.
4 Kongpob! Você está louco? Não se passaram dois
minutos, como pode já estar com saudades?
4 Mas sinto muita falta. Quero passar esta noite com
você também. 4 Kongpob pediu com voz suplicante, pronto
para chamar um táxi até o apartamento de Arthit. Mas antes
que seu impulso se concretizasse, Arthit falou do outro lado da
linha para detê-lo:
4 O que diabos está pensando? Nem pense nisso! Você
tem aula amanhã e eu tenho que trabalhar.
4 Mas...
4 Você não pode continuar se guiando por emoções,
Kongpob.
Aquela frase dita com firmeza fez Kongpob voltar à
realidade, lembrando que não era mais um calouro e Arthit
não era mais seu vizinho.
4 Desculpe 4 murmurou, reconhecendo a imaturidade
de suas palavras. Tinha perdido momentaneamente o controle
ao ver Arthit se afastar novamente.
Ouviu um suspiro do outro lado da linha antes de um
longo silêncio que fez Kongpob pensar que Arthit estava
irritado.
4 Nos vemos semana que vem.
Por que as palavras ambíguas de Arthit sempre tinham
tanto efeito nele? Kongpob imediatamente sentiu um surto de
esperança ao entender que era um convite para passarem o
próximo fim de semana juntos, recuperando a energia que
havia perdido.
4 P'Arthit, eu... 4 Não conseguiu terminar. Ainda sentia
um desejo avassalador de proximidade, um anseio pela pessoa
que amava ainda mais forte que o próprio amor. Mas sabia que
estava sendo ganancioso e egoísta - algo que vinha
acontecendo cada vez mais desde que começaram a se
conhecer melhor. E isso o assustava. Não queria que Arthit o
odiasse.
Mas Arthit preencheu o vazio da ligação:
4 Kongpob, fui direto para seu quarto do aeroporto não
só porque temia que a comida estragasse. No avião, fiquei
pensando muito em você - no que estava fazendo, se já tinha
jantado, se seu uniforme estava pronto, se tinha saído para
sua caminhada noturna. Não consegui parar de pensar em
vê-lo, então em vez de ir para meu apartamento, fui para o seu.
Eu me sinto como você.
Arthit interrompeu-se, rindo com leve zombaria antes de
continuar:
4 Semana que vem. Amanhã não dá, temos que esperar.
4 Eu espero, prometo. 4 E sua promessa veio direto do
coração.
Kongpob sabia que estariam juntos novamente. Talvez
não na próxima semana - algo sempre surgia. Poderia ser no
mês seguinte, ou no ano que vem. Mas não deveria se sentir
abandonado ou questionar por que não estavam juntos.
Porque ambos sabiam que sentiam saudades e que sempre
estavam nos pensamentos um do outro.
ESPECIAL
Navegando sem expectativas no Facebook, Kongpob
encontrou uma foto de um estudante vestindo uniforme
escolar. Na verdade, quem postara a imagem não era o
retratado - o personagem principal parecia irritado, tentando
sem sucesso esconder o rosto.
Apesar disso, Kongpob achou a foto espontânea, ainda
mais por reconhecer quem era, considerando a data recente
da publicação.
Não pôde evitar comparar a imagem do estudante com o
homem de vinte anos que conhecera anos atrás, usando o
uniforme de laboratório de engenharia, com sua barba cerrada
e rabo de cavalo. Sem hesitar, salvou a foto com entusiasmo,
sentindo que encontrara um pequeno tesouro.
Imediatamente abriu o Line, procurando o contato salvo
como "meu sol" com a foto miniatura de Arthit, e começou a
escrever, enviando sua descoberta com um merecido elogio:
4 Que postura elegante.
Em menos de um minuto sua mensagem foi marcada
como lida, e a resposta começou a ser digitada:
4 Apaga isso!
Apesar de ser apenas texto, Kongpob conseguiu ouvir
mentalmente a voz irritada e o rosto contrariado de Arthit,
fazendo-o sorrir para a tela.
4 Festa a fantasia? 4 Kongpob digitou seu palpite,
continuando a ver as outras fotos do álbum onde mais homens
apareciam de gravata e calça azul.
Arthit começou a digitar novamente, dessa vez
demorando um pouco mais - sinal de que sua mensagem seria
mais longa.
4 Sim, o tema era "volta às aulas", então tive que vestir o
uniforme do ensino médio. Consegui vestir a camisa, mas a
calça foi missão impossível. Engordei. Droga 4 Arthit escreveu
rapidamente, irritado com a dura realidade. Embora soubesse
que as mudanças em seu corpo eram inevitáveis.
Mas Kongpob só ficou mais curioso sobre o assunto.
4 Me manda uma foto sua da época do colégio? Por favor.
4 Não.
A resposta de Arthit foi breve e previsível. Mas Kongpob
era teimoso o suficiente para não desistir tão fácil sem
conseguir o que queria.
4 Só uma foto, por favor, P'Arthit.
4 Não. Fui obrigado a ir pra essa festa porque era dos
membros do trote. E no colégio tive que servir o exército, raspei
a cabeça e parecia um idiota.
4 Não é justo, você já me viu de uniforme do colégio.
4 Eu? Quando?
4 Quando fui à faculdade para a entrevista de admissão.
Naquele ano, quando Kongpob ainda estava em dúvida
sobre qual carreira escolher - indeciso entre seguir seu
coração e escolher o que amava, ou obedecer à razão e se
inscrever no que ajudaria seu futuro. Em meio à indecisão, um
veterano se aproximou dele, cumprimentando-o com
naturalidade e sendo surpreendentemente conversador para
um estranho, contando espontaneamente sobre sua própria
experiência na entrevista de admissão.
Aquele veterano foi alegre, dando a Kongpob um sorriso
amigável e palavras de incentivo para se inscrever. Sua
gentileza foi uma das razões pela escolha de Kongpob.
Mas, para azar de Kongpob, a segunda vez que encontrou
aquele veterano, ele era o completo oposto da primeira
impressão.
Quando Kongpob reencontrou Arthit, ele já não era o
estudante gentil do segundo ano que lhe dera as boas-vindas,
mas o feroz líder do trote que nem sequer lembrava daquele
dia.
4 Já me lembrei que você mencionou isso, e eu disse que
não me recordo.
4 Sim, mas não importa se você não lembra, P'Arthit.
Basta pra mim que eu me lembre. É só que... 4 Kongpob
respondeu sem se ofender, guardando a lembrança como algo
íntimo e só seu.
4 Sabe, você teve sorte de ter me encontrado naquele dia.
Se fosse outro veterano, teria dito qualquer coisa pra te
assustar e fazer você desistir da entrevista.
Não houve resposta imediata de Kongpob. E logo uma
chamada interrompeu seus pensamentos sobre o que
escrever.
4 Alô, P'Arthit?
4 Ei, Kongpob! O que você estava tentando dizer? Está
realmente bem com isso ou está falando com indiretas? Você
disse que não se importava que eu não lembrasse 4 Arthit
interrogou com tom irritado, igual ao de quando o repreendia
como líder do trote.
Kongpob imediatamente negou a acusação. Embora, no
fundo, não pudesse evitar a ternura pela preocupação e o tom
rabugento de Arthit.
4 Não é isso, P'Arthit. Quero dizer, é especial pra mim,
mas... 4 Kongpob não terminou, relembrando mais uma vez
aquele dia e as palavras de Arthit que ficaram gravadas em
sua memória. Tão especiais que ainda permaneciam em seu
coração.
"Eu gosto de estar aqui."
Mas Arthit já sabia disso - ele mesmo já havia deixado
claro que gostava da faculdade de engenharia. Aquele já não
era só o lugar onde se conheceram, nem a faculdade que sua
mãe quisera para ele. Era também onde começou o
relacionamento mais importante para Kongpob, e onde
aprendera mil lições de vida com pessoas especiais.
4 Tem certeza?
Kongpob sabia que, mesmo repetindo cem vezes, Arthit
não aceitaria totalmente. E se mudasse de assunto, talvez ele
ficasse chateado. Então decidiu confessar algo que estava em
seu coração, em vez de repetir o tema batido.
4 É só que, como você disse que eu poderia ter
encontrado outro veterano, você também poderia ter
encontrado outro calouro, e não gostei de imaginar você sendo
tão fofo e gentil com outra pessoa.
É claro que, depois disso, os ouvidos de Kongpob foram
preenchidos com reclamações e suspiros condescendentes de
Arthit. Algo que o fez rir sem conseguir se conter.
ESPECIAL
Um dia para se lembrar
Kongpob tinha uma motocicleta. Era uma moto modesta,
de tamanho médio, com a pintura preta um pouco desgastada
por não ser nova. A mesma que usava desde o início do ensino
médio.
Sua mãe sugerira inúmeras vezes que era melhor ele
dirigir seu carro em vez de deixá-lo na casa dos pais. Mas
Kongpob preferia sua velha moto, acreditando ser a opção
mais cômoda e conveniente. Assim não perderia minutos
preciosos procurando vaga, teria mais flexibilidade para
chegar a lugares inacessíveis de carro e, principalmente, era
seu meio de transporte diário.
Ele realmente gostava de sua moto. E naquele dia
também a usaria para ir à universidade.
Na verdade, seria sua segunda viagem de ida e volta do
prédio ao campus, tudo por ter esquecido parte de seu
trabalho final na mesa do quarto. Forçando-o a voltar para
buscá-lo.
O tempo estava se esgotando, e a única solução que
Kongpob encontrou foi acelerar, esperando não chegar tão
atrasado para a entrega. Mas como o destino parecia estar
contra ele naquele dia, teve que parar novamente por causa de
um engarrafamento.
A fila de carros era longa, tanto que Kongpob reduziu
quase totalmente a velocidade, passando devagar pelo
acidente na pista ao lado. Observou com frustração os
pequenos espaços entre os carros parados - largos o suficiente
para sua moto passar.
Uma solução que teria adotado, se não temesse ser
parado pelos policiais próximos ao acidente. A última coisa
que Kongpob queria era ser multado e ainda perder qualquer
chance de chegar a tempo à faculdade. Então sua mente
começou a trabalhar rápido, avaliando todas as opções para
que aqueles documentos chegassem pontualmente ao
professor.
A resposta veio a ele pouco depois, na altura de um
desvio. Um atalho que o levaria para o lado oposto do campus,
mas que, graças à sua moto, certamente poderia percorrer em
cinco minutos.
Kongpob estava nervoso. Suas mãos começaram a suar e
seu coração a bater forte. Ele não estava apenas indo contra as
regras, buscando cada espaço livre para avançar - o tempo
também não parava. E para seu maior azar, justo quando
reduziu a velocidade para virar em direção à entrada do
campus, seu pneu traseiro passou exatamente sobre um
prego solto. Kongpob foi obrigado a parar completamente,
desmontando da moto para ver o estrago e amaldiçoando
baixinho ao ver o dano.
Ele tinha sido muito descuidado. Mas o passado já não
importava. Então, quais eram suas opções? Deixar a moto ali e
começar a correr até a faculdade de engenharia?
Não. Isso não era uma opção. Mesmo se Kongpob se
esforçasse para correr aquela distância, não conseguiria
entregar seu trabalho a tempo. E, portanto, certamente seria
reprovado.
Kongpob suspirou diante de seu infortúnio.
Ele também poderia desistir e tentar convencer o
professor a aceitar seu projeto em outro dia, comprar um pneu
novo e encontrar um lugar para trocá-lo. Uma opção bastante
desanimadora, mas que parecia mais razoável que qualquer
outra.
4 Qual é o problema?
Aquela pergunta fez Kongpob levantar o olhar, abrindo os
olhos surpreso ao ver a pessoa à sua frente - e teve a grata
surpresa de ser Arthit em sua bicicleta.
Seus olhos passaram de observar com resignação o pneu
da moto e o causador de sua possível nota arruinada, para a
pessoa que poderia iluminar seu dia mais cinzento. E,
inclusive, sentindo-se sortudo por estar justamente ali para
encontrá-lo.
4 Meu pneu furou.
Arthit assentiu em entendimento antes de se inclinar
para examinar o estado do pneu que Kongpob havia deixado
de prestar atenção. E quase instantaneamente, sem saber o
que mais dizer, Arthit ofereceu ajuda com a voz mais gentil e
reconfortante que pôde.
4 Posso ajudar em algo?
4 Acho que não há muito o que fazer. Vou ter que levar
para trocarem.
4 Você não tem aula?
4 Tenho, sim.
Ele não ia deixar sua moto abandonada ali, mesmo que
fosse o estacionamento da faculdade onde antes pensou em
estacionar - ainda estava muito longe de seu departamento.
Embora, se quisesse, existisse a opção de deixá-la ali para
voltar mais tarde. Uma escolha arriscada, já que ele não era
aluno de economia.
Mas a razão mais importante pela qual Kongpob
descartou a ideia - e certamente a que mais lamentava - era
que o tempo não permitiria que entregasse seu projeto mesmo
que deixasse a moto ali e começasse a correr naquele instante.
Mesmo assim, Kongpob não quis ser muito pessimista
diante de Arthit, que certamente também tinha aulas e estava
perdendo tempo ali com ele. Então, para se consolar, disse a si
mesmo que ainda havia outros trabalhos para entregar e que
os pontos deles poderiam ajudá-lo a não reprovar. Além disso,
ainda tinha mais matérias naquele dia, e faltar às aulas para
consertar o pneu não era exatamente a escolha certa.
Exatamente como Kongpob suspeitava que Arthit diria.
Então, após alguns segundos de reflexão, Kongpob se
despediu mentalmente da moto e começou a se preparar para
partir, despedindo-se e se desculpando com Arthit antes de
começar a correr.
Kongpob não percebeu que, atrás dele, a pessoa que
deixara para trás franziu os lábios antes de acelerar a bicicleta
com força nos pedais até alcançá-lo.
4 Que diabos você está fazendo? Anda, sobe, eu te levo.
Kongpob parou sem disfarçar a surpresa. Considerou
brevemente a oferta antes de descartá-la devido à dificuldade
que seria para Arthit carregar alguém de sua altura.
4 Tem certeza de que é uma boa ideia?
4 Você vai subir ou preciso ordenar que faça flexões
antes de obedecer?
A ameaça foi dada em voz alta, sem contemplação, com a
mesma dureza que o ex-líder do trote costumava empregar. E
Kongpob, como um ex-calouro obediente, limitou-se a
resignar-se e aproximar-se do banco traseiro da bicicleta
clássica de Arthit.
Era um pequeno assento de grade onde conseguiu se
acomodar sem cair, mas ao ver as costas de Arthit tão perto de
seu alcance, Kongpob não resistiu a perguntar:
4 Posso segurar sua cintura, P'Arthit?
Arthit surpreendeu-se com a pergunta, mas logo se
recuperou para responder breve e firmemente:
4 Se é isso que quer, então desça.
Arthit recusou o pedido sem hesitação, antes de virar o
olhar para frente e esperar que Kongpob se acomodasse.
Quando sentiu o peso de Kongpob na bicicleta, Arthit
empurrou os pedais com toda a força para fazê-la avançar.
Embora tenha custado a ganhar velocidade no início, Arthit
conseguiu acelerar gradualmente. Claro, aquela velocidade
não se comparava à de uma moto. Mas, estranhamente,
apesar do atraso, Kongpob achou aquela lentidão agradável -
algo difícil de sentir em uma moto.
Ao dirigir, Kongpob não tinha a chance de olhar a
paisagem à esquerda e à direita, concentrando-se apenas à
frente. Mas naquele momento, pôde observar a frescura das
árvores ao redor. Não apenas ouvir as risadas dos alunos
saindo das aulas misturando-se ao vento que agitava seus
cabelos. Mas, embora a paisagem fosse relaxante, o que mais
alegrou Kongpob foi a figura de Arthit à sua frente. Apenas por
estar perto, Kongpob enchia-se de ternura e felicidade - todos
aqueles sentimentos que o amor despertava nele.
4 P'Arthit, você gosta de andar de bicicleta?
4 Na verdade, não. Mas uma bicicleta não precisa de
gasolina, e posso me exercitar.
4 Então, se eu pedir para você me levar mais vezes, tudo
bem?
4 Não! 4 Arthit recusou novamente sem considerar o
pedido. E Kongpob, diante da resistência, riu.
Talvez, pensou Kongpob, fosse uma boa ideia comprar
uma bicicleta para si mesmo. E poderia ser Arthit quem o
ajudaria a escolher. Ou pedalarem juntos.
Entre pensamentos, Kongpob não percebeu quando um
prédio familiar surgiu à frente, e claramente também não se
preocupara muito em verificar as horas.
Faltavam apenas alguns minutos para o início da aula, e
Kongpob sentiu-se verdadeiramente grato por ter chegado a
tempo e sem problemas, graças a Arthit.
4 Obrigado, P'Arthit! 4 gritou alegre antes de descer
apressadamente da bicicleta e começar a correr para o prédio
da engenharia, não sem antes virar-se e acenar energicamente
para Arthit, vendo o rosto irritado, mas gentil, de Arthit
esboçar meio sorriso.
Arthit podia parecer cruel e mal-humorado, e sua boca
era bem maldosa, mas Kongpob conhecia muito bem seu
coração doce. Quis guardar aquele momento na memória por
alguns segundos antes de virar-se novamente e correr com
mais força.
Justo quando seus pés estavam prestes a acelerar,
Kongpob ouviu Arthit chamá-lo.
4 A que horas terminam suas aulas?
Kongpob parou, confuso, fazendo rapidamente as contas
para responder com exatidão.
4 Às quatro.
4 Bom, então venho te buscar.
Dito isso, Arthit montou novamente na bicicleta e partiu
na direção de onde vieram, deixando Kongpob parado ali,
observando-o se afastar com um sorriso nos lábios.
Kongpob duvidava que precisasse comprar uma bicicleta
para si mesmo. Afinal, parecia que poderia contar com alguém
que o levaria no banco de trás sempre que precisasse. E estar
ao lado dessa pessoa por toda a vida era tudo o que ele queria.
Nem tudo pode ser
um fim...
Obrigada a todos que chegaram até aqui!
@saktraduz