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Fundamentos de Eletromagnetismo em Física II

O documento é um livro eletrônico intitulado 'Física II: teoria e prática', escrito por Luciana Antunes Rios, que aborda conceitos fundamentais de Eletromagnetismo, incluindo carga elétrica, campo elétrico, potencial elétrico, Lei de Gauss, capacitores e indução eletromagnética. O conteúdo é dividido em quatro unidades que exploram desde a eletrostática até a magnetostática, com ênfase na aplicação prática das teorias. O livro é uma ferramenta educacional para estudantes de Física e Engenharia, seguindo as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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lukasguimaraes91
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Fundamentos de Eletromagnetismo em Física II

O documento é um livro eletrônico intitulado 'Física II: teoria e prática', escrito por Luciana Antunes Rios, que aborda conceitos fundamentais de Eletromagnetismo, incluindo carga elétrica, campo elétrico, potencial elétrico, Lei de Gauss, capacitores e indução eletromagnética. O conteúdo é dividido em quatro unidades que exploram desde a eletrostática até a magnetostática, com ênfase na aplicação prática das teorias. O livro é uma ferramenta educacional para estudantes de Física e Engenharia, seguindo as normas do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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FÍSICA II –

TEORIA E PRÁTICA
FÍSICA II –
TEORIA E PRÁTICA
Copyright © UVA 2019
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer
meio sem a prévia autorização desta instituição.

Texto de acordo com as normas do Novo Acordo Ortográfico


da Língua Portuguesa.

AUTORIA DO CONTEÚDO PROJETO GRÁFICO


Luciana Antunes Rios UVA

REVISÃO DIAGRAMAÇÃO
Clarissa Penna UVA
Theo Cavalcanti
Janaina Senna
Lydianna Lima

R586

Rios, Luciana Antunes

Física II : teoria e prática [livro eletrônico] / Luciana


Antunes Rios. – Rio de Janeiro: UVA, 2019.

5 MB : PDF.

ISBN 978-85-5459-095-6

1. Física. 2. Eletricidade. 3. Eletromagnetismo. 4. Condutores
elétricos. 5. Energia elétrica - Distribuição. I. Universidade Veiga de
Almeida. II. Título.

CDD – 621.3

Bibliotecária Katia Cavalheiro CRB 7 - 4826.


Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UVA.
SUMÁRIO

Apresentação 6
Autor 8

UNIDADE 1

Campo elétrico 9
• Carga elétrica e Lei de Coulomb

• Campo elétrico de uma carga puntiforme e de distribuições discretas


de cargas

• Campo elétrico de distribuições contínuas de cargas

UNIDADE 2

Potencial elétrico e Lei de Gauss 42


• Potencial elétrico e diferença de potencial

• Potencial elétrico e energia potencial elétrica de configurações de


cargas

• Fluxo do campo elétrico e Lei de Gauss


SUMÁRIO

UNIDADE 3

Capacitor, corrente e resistência 77


• Condutores em equilíbrio eletrostático

• Corrente elétrica e densidade de corrente

• Lei de Ohm e efeito Joule

UNIDADE 4

Campo magnético e indução eletromagnética 121


• Campo magnético e força magnética sobre cargas e correntes

• Lei de Biot-Savart e Lei de Ampère

• Indução eletromagnética e Lei de Faraday


APRESENTAÇÃO

O Eletromagnetismo é o ramo da Física que estuda os fenômenos eletromagnéticos.


Tais eventos podem ser simples, como o funcionamento de uma lâmpada, ou comple-
xos, como a geração do campo magnético terrestre. A teoria eletromagnética é a base
para entender a distribuição de energia elétrica em nossas cidades, o brilho do Sol e a
coesão da matéria, entre outras coisas. Por essa razão, seu estudo torna-se extrema-
mente importante.

Inicialmente, eletricidade e magnetismo eram tratados como áreas diferentes da Física.


A eletricidade estava associada a fenômenos como a corrente elétrica, enquanto o mag-
netismo envolvia o estudo de ímãs e outros episódios magnéticos. Entretanto, no século
XIX, os experimentos de Hans Christian Oersted mostraram que correntes elétricas po-
dem criar campos magnéticos. Assim, eletricidade e magnetismo seriam manifestações
diferentes de uma mesma teoria, o Eletromagnetismo.

O estudo do Eletromagnetismo começa pela eletrostática, que é o ramo da eletricidade


que explora as propriedades e o comportamento das cargas elétricas estáticas. Inicia-
remos nosso trabalho discutindo exatamente o conceito de carga elétrica. Na Unidade
1, além da carga elétrica, discutiremos outro importante conceito, o de campo elétrico.
Além disso, estudaremos a Lei de Coulomb e veremos como ela pode ser utilizada para
calcular campos elétricos gerados por distribuições discretas e contínuas de carga.

Na Unidade 2, falaremos sobre potencial elétrico e diferença de potencial. Discutiremos,


também, a Lei de Gauss, uma das quatro Equações de Maxwell, que formam a base da
teoria eletromagnética clássica.

Já na Unidade 3, aprenderemos as diferenças entre condutores e dielétricos. Vamos,


também, falar sobre os capacitores e os resistores, dois importantes elementos dos cir-
cuitos elétricos. Além disso, discutiremos a Lei de Ohm e o Efeito Joule, que ajudam a
entender por que a resistência de um chuveiro esquenta, por exemplo.

6
Por fim, na Unidade 4, aprenderemos um pouco sobre a magnetostática e o fenômeno
da indução eletromagnética. A magnetostática é o ramo do magnetismo que estuda
os campos magnéticos estáticos, isto é, que não variam no tempo. Nessa unidade,
discutiremos como os campos magnéticos são gerados e veremos que campos
magnéticos variantes no tempo também podem gerar campos elétricos, o que é
explicado pela indução eletromagnética. Esse é um dos princípios fundamentais do
Eletromagnetismo, sobre o qual operam dispositivos como os transformadores e os
geradores elétricos.

7
AUTOR

LUCIANA ANTUNES RIOS

Graduada em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Mestre


e doutora em Física pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Pós-doutora pela
Ruhr-Universität (Alemanha) e pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF.
Professora do ciclo básico das Engenharias e do ciclo profissional da Engenharia Elétrica
da Universidade Veiga de Almeida – UVA. Possui experiência nas áreas de Física dos
Fluidos, Física de Plasmas, Eletromagnetismo e Geofísica Espacial.

C. Lattes

8
UNIDADE 1

Campo elétrico
INTRODUÇÃO

Nesta unidade, você aprenderá o conceito de carga elétrica e verá que as cargas elétricas
interagem por meio de forças elétricas. A interação entre partículas carregadas estáticas
é descrita pela Lei de Coulomb e também pode ser interpretada pelo conceito de campo
elétrico. Ao longo da unidade, você aprenderá como a Lei de Coulomb pode ser utilizada
para calcular campos elétricos de distribuições discretas e contínuas de carga.

OBJETIVO

Nesta unidade, você será capaz de:

• Aplicar a Lei de Coulomb no cálculo do campo elétrico de distribuições de carga.

10
Carga elétrica e Lei de Coulomb

Carga elétrica

Você sabe o que é carga elétrica? Consegue pensar em alguma situação


simples que a exemplifique? Observe a situação descrita a seguir.

Após passar algumas vezes um


pente de plástico pelo cabelo,
verifica-se que o objeto pode
aplicar uma força atrativa sobre
os fios individuais. Podemos ainda
observar que, uma vez que os
fios de cabelo são atraídos para o
pente e entram em contato com
ele, perdem a capacidade de serem
atraídos novamente pelo pente.

Por que isso ocorre? Parece razoável concluir que a atração entre o pente e o fio de cabelo
é o resultado de alguma entidade física que estaria sendo transferida de um para o outro
quando eles fossem mutuamente esfregados. A mesma entidade física seria transferida
de volta quando o fio de cabelo fosse atraído pelo pente e entrasse em contato com
ele pela segunda vez; aqui, o pente e o fio tornam-se neutros. Essa entidade física é
chamada de carga elétrica. Atualmente, a transferência de carga é compreendida com
base no fato de que elétrons podem ser removidos dos átomos de um objeto e ligados
aos átomos de outro. Assim, ao esfregarmos dois objetos inicialmente neutros, ocorre
uma transferência de elétrons de um para o outro. O resultado é que um objeto passa a
ter excesso de elétrons, enquanto o outro tem elétrons em falta.

Benjamin Franklin, cientista e político americano, pioneiro no estudo da Eletricidade,


definiu dois tipos de carga elétrica:

• Carga positiva.
• Carga negativa.

Ele poderia ter escolhido outras denominações, mas o uso de nomes associados aos
sinais algébricos facilita os cálculos quando somamos as cargas para calcular a carga

11
total. Na maioria dos objetos, existe um número igual de partículas de carga positiva e de
carga negativa, e, portanto, a carga total é zero. Nesse caso, as cargas se compensam, e
o objeto está eletricamente neutro (ou, simplesmente, neutro).

Curiosidade

Nosso corpo, comumente, mantém-se eletricamente neutro, mas, em regiões


de clima seco, a carga do corpo pode ficar ligeiramente descompensada.

Imagine que você tenha andado sobre um tapete (houve, portanto, contato
entre seus sapatos e o tapete). Duas coisas podem acontecer:

1. Seu corpo receber carga negativa do tapete e ficar negativamente


carregado.
2. Seu corpo perder carga negativa para o tapete e ficar positivamente
carregado.

Nos dois casos, você fica com um excesso de carga.

E como isso é percebido?

Em geral, uma pessoa não nota que está com um excesso de carga até
aproximar a mão de uma maçaneta ou de outra pessoa. Quando isso acontece,
se o excesso de carga é relativamente grande, uma centelha elétrica surge
entre você e o outro objeto, eliminando a carga em excesso.

Esse tipo de fenômeno não ocorre em climas (ou dias) úmidos, porque o vapor
d’água presente no ar neutraliza o excesso de carga antes que este possa
atingir níveis elevados.

Após décadas de experimentos, os cientistas concluíram que partículas com cargas de


mesmo sinal se repelem e partículas com cargas de sinais opostos se atraem. Por
partícula ou carga puntiforme, queremos dizer um objeto cujo raio é muito pequeno
comparado à distância entre ele e todos os outros objetos de interesse, de modo que
podemos tratar o objeto como se toda a sua carga e massa estivessem concentradas
em um único ponto. Partículas pequenas, como prótons e elétrons, podem quase sempre
ser consideradas cargas puntiformes.

12
Classificação dos materiais

Os materiais podem ser classificados como condutores ou isolantes de acordo com a


facilidade com a qual as cargas elétricas se movem em seu interior. Nos condutores,
como o corpo humano, as cargas elétricas se movem com facilidade, enquanto nos
isolantes, como os plásticos e o vidro, as cargas não se movem.

Mais adiante, você conhecerá, em detalhes, os condutores e os isolantes.


Neste momento, é importante que você entenda como a eletricidade é
conduzida por meio de um material.

Acompanhe o exemplo a seguir.

Exemplo

Quando um pedaço de lã (isolante) é esfregado em uma barra de cobre


(condutor), cargas são transferidas da lã para o cobre.

Entretanto, se você segurar a barra de cobre e uma torneira ao mesmo tempo,


a barra de cobre não ficará carregada.

Você sabe dizer o porquê?

Isso ocorre porque você, a barra de cobre e a torneira são condutores que estão
conectados, pelo encanamento, à Terra, que é um condutor maior.

Como as cargas que foram depositadas em excesso no cobre pela lã se


repelem, elas se afastam umas das outras. Como consequência, elas passam,
primeiro, para sua mão; em seguida, para a torneira; e, finalmente, passam para
a Terra, onde se espalham. O processo deixa, portanto, a barra de cobre neutra.

Dizemos que um objeto está aterrado quando o caminho estabelecido entre


ele e a Terra é constituído unicamente por materiais condutores.

Dizemos que um objeto foi descarregado quando sua carga é neutralizada


pela eliminação do excesso de cargas positivas ou negativas para a Terra.

Se você utilizar uma luva feita de material isolante para segurar a barra de cobre,
por exemplo, o caminho de condutores até a Terra será interrompido, e a barra
ficará carregada por atrito enquanto você não tocar nela com a mão (sem luvas).

13
O coulomb, cujo símbolo é C, é a unidade de carga elétrica no Sistema Internacional – SI.

Lei de Coulomb

A equação utilizada para calcular a força exercida por partículas carregadas é chamada
de Lei de Coulomb. O nome decorre de uma homenagem feita a Charles Augustin de
Coulomb, que, com base em experimentos feitos em laboratório, a propôs em 1785.

A lei é válida apenas para partículas carregadas e para objetos que podem ser tratados
como cargas pontuais. Para objetos macroscópicos nos quais a carga está distribuída
de modo assimétrico, precisamos recorrer a métodos mais sofisticados. Assim, vamos
considerar, por enquanto, apenas partículas carregadas.

Uma partícula carregada exerce uma força eletrostática sobre outra partícula carregada. A
direção da força é a da reta que une as partículas, mas o sentido depende do sinal das cargas:

• Se as cargas têm o mesmo sinal, as partículas se repelem, ou seja, tendem a se afastar.


• Se as cargas têm sinais opostos, as partículas se atraem, isto é, tendem a se aproximar.

O termo força eletrostática (ou força elétrica) é usado para chamar a atenção para o
fato de que a lei é válida apenas quando a velocidade relativa entre as cargas é nula ou
muito pequena.

A força F, que atua sobre uma partícula com carga q1 devido à presença de uma carga
q2, é dada pela equação vetorial (Lei de Coulomb) abaixo:

𝒒𝟏 𝒒𝟐
𝑭 = 𝒌 𝟐 𝒓� (𝟏)
𝒓

Na qual:

• r é o vetor unitário na direção da reta que liga as duas partículas e no sentido da partícula
2 para a partícula 1 (Figura 1). Como todo vetor unitário, r é um vetor adimensional de
módulo 1; seu único propósito é indicar a direção e o sentido da força.
• k é uma constante positiva, conhecida como constante eletrostática, ou constante de
Coulomb.
• r é a distância entre as partículas.
• Os símbolos q1 e q2 podem representar cargas positivas ou negativas.

14
Figura 1: Força eletrostática a que a partícula 1 está submetida devido à presença da partícula 2 (na
figura, as duas partículas possuem cargas positivas).

F
r
q2 r

q1

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Vamos analisar o sentido da força que a partícula 2 exerce sobre a


partícula 1 de acordo com a equação (1).

Se q1 e q2 tiverem o Se q1 e q2 tiverem sinais


mesmo sinal opostos

O produto q1q2 será O produto q1q2 será


positivo, e a força negativo, e a força
que age sobre a que age sobre a
partícula 1 terá o partícula 1 terá o
mesmo sentido sentido oposto ao
que r. de r.

Isso faz sentido, Isso também faz


uma vez que a sentido, já que,
partícula 1 estará nesse caso, a
sendo repelida pela partícula 1 estará
partícula 2. sendo atraída pela
partícula 2.

A constante eletrostática k pode ser escrita na forma:

𝟏 𝟐 𝟐
𝟗 𝐍𝐦 𝟗 𝐍𝐦
𝒌= = 𝟖, 𝟗𝟗 × 𝟏𝟎 ≈ 𝟗, 𝟎 × 𝟏𝟎
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝐂𝟐 𝐂𝟐

Em que: ε0 é a permissividade elétrica do espaço livre e tem o valor expresso por:

15
𝜺𝟎 = 𝟖, 𝟖𝟓 × 𝟏𝟎−𝟏𝟐 C 2/Nm2

Assim, o módulo da força eletrostática expressa pela Lei de Coulomb se torna:

𝟏 |𝒒𝟏 ||𝒒𝟐|
𝑭= (𝟐)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐

Na equação (2), que nos dá o módulo da força eletrostática, as cargas aparecem em


valor absoluto. Essa equação serve apenas para calcular o módulo da força a que está
sujeita uma partícula; o sentido da força deve ser obtido separadamente, levando em
conta o sinal das duas cargas.

Assim como outras forças, a força eletrostática obedece ao princípio da superposição.


Suponha que existam n partículas carregadas nas vizinhanças da partícula 1. Nesse caso,
a força total a que a partícula 1 está submetida é dada pela soma vetorial:

𝑭𝟏 = 𝑭𝟏𝟐 + 𝑭𝟏𝟑 + 𝑭𝟏𝟒 + ⋯ + 𝑭𝟏𝒏 (𝟑)

Em que: F12 é a força que a partícula 2 exerce sobre a partícula 1, por exemplo.

Dica

Para determinar a força resultante que age sobre uma partícula carregada que
está cercada por outras partículas carregadas, devemos calcular as forças que
cada uma das outras partículas exerce sobre a partícula escolhida.

Para isso, desenhe os vetores que representam essas forças em um diagrama


de corpo livre da partícula escolhida, com as origens de todos os vetores
na partícula. Por fim, some as forças vetorialmente, e não simplesmente os
módulos.

O resultado da soma vetorial é a força resultante que age sobre a partícula


escolhida.

16
Teorema das Cascas

O Teoremas das Cascas é um teorema importante da física, que aparece na eletrostática


de duas maneiras:

• Primeira forma: uma partícula carregada que está situada do lado de fora de uma
casca esférica com distribuição uniforme de carga é atraída ou repelida como se toda
a carga estivesse concentrada no centro da casca (considere que a carga da casca
é muito maior que a carga da partícula, de modo que podemos desprezar qualquer
redistribuição da carga da casca devido à presença da partícula).
• Segunda forma: uma partícula carregada que está situada no interior de uma casca
esférica com uma distribuição uniforme de carga não é atraída nem repelida pela casca.

O Teorema das Cascas (em suas duas formas) pode ser provado matematicamente, mas
tal demonstração não faz parte dos nossos objetivos.

A seguir, acompanhe algumas situações envolvendo cargas e como calculá-las.

Exemplo 1

A Figura 2, abaixo, mostra duas partículas positivamente carregadas situadas


em pontos fixos do eixo x. As cargas são q1=1,60×10-19 C e q2=3,20×10-19 C, e a
distância entre as cargas é R=0,0200 m.

Determine o módulo e a orientação da força eletrostática exercida pela partícula


2 sobre a partícula 1.

Figura 2: Configuração das cargas no Exemplo 1.

q1 q2
x
R

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

17
Solução

Primeiro, vamos calcular o módulo da força entre as duas cargas utilizando a


equação (2):

𝟏 |𝒒𝟏||𝒒𝟐 | 𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 𝟑, 𝟐𝟎 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗


𝑭𝟏𝟐 = = 𝟖, 𝟗𝟗 × 𝟏𝟎𝟗 = 𝟏, 𝟏𝟓 × 𝟏𝟎−𝟐𝟒 N
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐 𝟎, 𝟎𝟐𝟎𝟎 𝟐

Como as cargas possuem o mesmo sinal, a força entre elas é de repulsão.


Assim, a partícula 2 “empurra” a partícula 1 para a esquerda (na direção
do eixo x, no sentido de -x). Podemos dizer, então, que a força tem módulo
F12 = 1,15 × 10-24 N e que está ao longo do eixo x, formando um ângulo de 180°
com o eixo x positivo. Em termos dos vetores unitários, podemos dizer que:

𝑭𝟏𝟐 = − 𝟏, 𝟏𝟓 × 𝟏𝟎−𝟐𝟒 𝐍 ̂𝐢

Observe que a força que a partícula 1 exerce sobre a partícula 2 é a reação à


força calculada acima, logo F 21 = -F 12.

Exemplo 2

A Figura 3 mostra três partículas carregadas mantidas em suas posições


por forças não mostradas. Qual é a força eletrostática, devido às duas outras
cargas, que age sobre a carga q1?

Considere: q1=-1,2 μC, q2=3,7 μC, q3=-2,3 μC, r12=15 cm, r13=10 cm e θ=32°.

Figura 3: Configuração das cargas no Exemplo 2.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

18
Solução

Neste exemplo, vamos usar o princípio da superposição. Observando a equação


(3), verificamos que a força total que atua sobre a partícula 1 é a soma vetorial
das forças que as partículas 2 e 3 exercem sobre 1:

𝑭𝟏 = 𝑭𝟏𝟐 + 𝑭𝟏𝟑
Primeiramente, calculamos a força que 2 exerce sobre 1.

Como as cargas possuem sinais opostos, a carga 2 atrai a carga 1, logo F12
está direcionada ao longo do eixo x, apontando no sentido x positivo.

Usando vetores unitários, temos:

𝟏 |𝒒𝟏 ||𝒒𝟐| 𝟏, 𝟐 × 𝟏𝟎−𝟔 𝟑, 𝟕 × 𝟏𝟎−𝟔


𝑭𝟏𝟐 = 𝐢̂ = 𝟖, 𝟗𝟗 × 𝟏𝟎𝟗 𝐢̂ = 𝟏, 𝟕𝟕𝐢̂ N
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐𝟏𝟐 𝟎, 𝟏𝟓 𝟐

Calculamos, agora, o módulo da força que a carga 3 exerce sobre a carga 1:

𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟑 𝟏, 𝟐 × 𝟏𝟎−𝟔 𝟐, 𝟑 × 𝟏𝟎−𝟔
𝑭𝟏𝟑 = = 𝟖, 𝟗𝟗 × 𝟏𝟎𝟗 = 𝟐, 𝟒𝟖 N
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐𝟏𝟑 𝟎, 𝟏𝟎 𝟐

As cargas 1 e 3 possuem o mesmo sinal, portanto a força entre elas é de


repulsão. Assim, F13 deve estar direcionada ao longo da linha que une as duas
cargas, apontando de 3 para 1 (observe que a origem dos vetores força é a
partícula 1).

Para que F12 e F13 possam ser somadas, devemos representar F13 em termos
dos vetores unitários. Analisando a Figura 3, verificamos que:

𝑭𝟏𝟑 = 𝑭𝟏𝟑𝒙̂𝐢 − 𝑭𝟏𝟑𝒚 𝐣,�

Em que:

𝑭𝟏𝟑𝒙 = 𝑭𝟏𝟑 𝐬𝐢𝐧 𝜽 , 𝑭𝟏𝟑𝒚 = 𝑭𝟏𝟑 𝐜𝐨𝐬 𝜽

19
Logo,

𝑭13 = 𝑭13 𝐬𝐢𝐧 𝜽 𝐢̂ − 𝑭13 𝐜𝐨𝐬 𝜽 𝐣̂ = 2,48 𝐬𝐢𝐧 32° 𝐢̂ − 2,48 𝐜𝐨𝐬 32° 𝐣̂ = 1,31𝐢̂ − 2,10𝐣̂ N

Assim,

𝑭𝟏 = 𝑭𝟏𝟐 + 𝑭𝟏𝟑 = 𝟏, 𝟕𝟕𝐢̂ + 𝟏, 𝟑𝟏𝐢̂ − 𝟐, 𝟏𝟎𝐣̂ = 𝟑, 𝟎𝟖𝐢̂ − 𝟐, 𝟏𝟎𝐣̂ N

Outra maneira de resolver a questão é achar o módulo da resultante e o ângulo


que ela forma com um dos eixos coordenados. Como já conhecemos as
componentes x e y da resultante, temos

𝑭𝟏 = 𝟑, 𝟎𝟖 𝟐 + 𝟐, 𝟏𝟎 𝟐 = 𝟑, 𝟕𝟑 N

Pelos sinais das componentes, verificamos que F1 está no mesmo quadrante que
F13. Podemos, então, calcular o ângulo que F1 forma com o eixo do x (ângulo α)
fazendo:

𝑭𝟏𝟑𝒚 𝟐, 𝟏𝟎
𝐭𝐚𝐧 𝜶 = =− = −𝟎, 𝟔𝟖𝟐 → 𝜶 = −𝟑𝟒, 𝟑°
𝑭𝟏𝟑𝒙 𝟑, 𝟎𝟖

Conservação e quantização da carga

Na época de Benjamin Franklin, a carga elétrica era tratada como um fluido contínuo.
Hoje, porém, sabemos que mesmo os fluidos, como a água e o ar, não são contínuos, e
sim compostos por átomos e moléculas, isto é, a matéria é quantizada. Experimentos
revelam que o “fluido elétrico” também não é contínuo, e sim composto de unidades
elementares de carga. Todas as cargas positivas e negativas q têm a forma:

𝒒 = 𝒏𝒆 (𝟒)

Em que:

• n = ±1, ±2, ±3...


• e é a carga elementar, cujo valor aproximado é:

20
𝒆 = 𝟏, 𝟔𝟎𝟐 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 C

A carga elementar é uma das constantes mais importantes da natureza. Tanto o elétron
como o próton possuem uma carga cujo valor absoluto e, como pode ser observado na
tabela a seguir:

Figura 4: Tabela com as cargas das partículas que constituem os átomos.

Partícula Símbolo Carga

Életron e ou e- -e

Próton p +e

Nêutron n 0

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Saiba mais

Algumas expressões, como “a quantidade de carga que foi transferida”, podem


passar a impressão de que a carga é uma substância, o que não corresponde
à realidade. A carga é, na verdade, uma propriedade das partículas. Assim,
quando esfregamos um bastão de vidro com um pedaço de seda, medidas
mostram que o bastão fica positivamente carregado e que uma carga negativa
de mesmo valor absoluto se acumula na seda. Isso sugere que o processo
não cria cargas, apenas as transfere de um corpo para outro, rompendo a
neutralidade dos dois corpos.

Tal hipótese, que expressa a conservação da carga elétrica, proposta por


Benjamin Franklin, foi comprovada em inúmeros experimentos, tanto no caso
de objetos macroscópicos como no caso de átomos, núcleos e partículas
elementares. Até hoje, não foi encontrada uma exceção.

Dessa forma, podemos acrescentar a carga elétrica à lista de grandezas que


obedecem a uma lei de conservação, como a energia.

21
Curiosidade

A carga elementar é extremamente pequena. Em uma lâmpada incandescente


de 100 W, por exemplo, cerca de 1019 cargas elementares passam pelo
filamento a cada segundo. A natureza discreta da eletricidade, no entanto,
não se manifesta nesse caso, assim como em muitos fenômenos (a luz da
lâmpada não pisca toda vez que um elétron passa pelo filamento).

Estrutura atômica da matéria

A matéria é feita de minúsculos átomos. Em um metal sólido, por exemplo, os átomos


arranjam-se em uma matriz tridimensional regular, chamada de rede (Figura 5).
Um centímetro cúbico de um metal sólido, no qual os átomos estão empacotados
compactamente, contém cerca de 1×1023 átomos, um número extremamente grande.

Figura 5: Rede cristalina de um metal.

Fonte: Chabay e Sherwood (2018).

Um átomo neutro tem igual número de prótons e elétrons. Os prótons e os nêutrons


encontram-se todos no núcleo, no centro do átomo, enquanto os elétrons espalham-se
por uma nuvem que circunda o núcleo. Cada átomo consiste em uma nuvem eletrônica
em constante movimento em torno do núcleo central.

Uma fotografia de um átomo de ferro, com um núcleo de 26 prótons e 30 nêutrons


cercado por 26 elétrons em movimento, seria semelhante à Figura 6(a). Nela, o núcleo
mal pode ser visualizado, já que é muito menor que a nuvem eletrônica, cujo raio é da
ordem de 1×10-10 m. O núcleo do átomo de ferro (Figura 6(b)) tem um raio aproximado de

22
4×10-15 m, 25.000 vezes menor que a minúscula nuvem eletrônica. Apesar disso, quase
toda a massa de um átomo está no núcleo, porque a massa de um próton (ou um nêutron)
é cerca de 2.000 vezes maior que a de um elétron.

Figura 6: (a) Nuvem eletrônica. (b) Núcleo de um átomo de ferro.

(a) (b)

Fonte: Modificado de Chabay e Sherwood (2018).

MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 1 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor sobre a Lei de Coulomb.

23
Campo elétrico de uma carga puntiforme e
de distribuições discretas de cargas

Campo vetorial

O conceito de campo é comum a várias áreas da Física. Como exemplo, podemos citar o
campo de temperaturas em uma sala, que corresponde à distribuição de temperaturas
obtidas quando são realizadas medidas em muitos pontos do ambiente. Do mesmo modo,
podemos definir o campo de pressões em uma piscina. Os campos de temperatura e de
pressão são campos escalares, já que estão associados a grandezas escalares, ou seja,
não possuem uma orientação.

Por outro lado, o campo elétrico é um campo vetorial, uma vez que está associado a uma
força que possui módulo e orientação. O campo elétrico consiste em uma distribuição
de vetores campo elétrico E um para cada ponto do espaço em torno de um objeto
eletricamente carregado.

Observe a figura a seguir:

Figura 7: (a) Carga de prova positiva q0 colocada nas proximidades de um objeto carregado. A carga
sofre a ação de uma força F devido à presença do objeto carregado. (b) Campo elétrico no ponto P
produzido por um objeto carregado.

F E

Carga de
prova q0 no Campo P
ponto P elétrico no
ponto P

Objeto Objeto
carregado carregado

(a) (b)

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

24
Em princípio, podemos definir o campo elétrico em um ponto nas proximidades de um
objeto carregado, como o ponto P da Figura 7, da seguinte maneira:

1. Colocamos no ponto P uma pequena carga positiva q0, que chamamos de carga
de prova (usada para sondar/medir o campo). Usamos uma carga pequena para
não perturbar a distribuição de carga do objeto.

2. Em seguida, medimos a força eletrostática F que age sobre q0 e definimos o


campo elétrico E produzido pelo objeto como:

𝑭
𝑬= (𝟓)
𝒒𝟎

3. Como a carga de prova é positiva, os vetores E e F têm a mesma orientação


(direção e sentido). O módulo de E no ponto P é F⁄q0.

De acordo com a equação (5), a unidade de campo elétrico no SI é newton por coulomb
(N/C).

O campo elétrico é um vetor cuja origem deve estar no ponto em que foi feita a medida.
Essa observação pode parecer trivial, mas desenhar o vetor E com a origem em outro
ponto qualquer geralmente leva a erros nos cálculos.

Outro erro comum é confundir os conceitos de força e de campo. A força elétrica é um


puxão ou um empurrão, enquanto o campo elétrico é uma propriedade abstrata adquirida
pelo espaço no entorno de um objeto eletricamente carregado.

Podemos colocar a carga de prova em vários pontos do espaço para medir o campo
elétrico e assim levantar a distribuição de campo elétrico nas vizinhanças do objeto
carregado. Esse campo existe independentemente da carga de prova; é algo que um
objeto carregado cria no espaço a seu redor, mesmo que não haja ninguém para medi-lo.

O cientista britânico Michael Faraday, que introduziu a ideia de campo elétrico no século
XIX, encontrou um meio de representá-lo como um campo de vetores de diferentes
módulos e orientações. Ele imaginou que existissem linhas nas vizinhanças de qualquer
partícula ou objeto com carga elétrica. Atualmente, essas linhas são conhecidas como
linhas de campo elétrico.

25
Observe a imagem a seguir para entender melhor como se comportam as linhas de
campo elétrico.

Figura 8: (a) Linhas de campo de uma esfera uniformemente carregada (campo elétrico uniforme). (b)
Linhas de campo de duas partículas com cargas positivas iguais (campo não uniforme).

(a) (b)

Fonte: Modificado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

A Figura 8(a) mostra um exemplo em que uma esfera possui carga negativa
uniformemente distribuída em sua superfície. Se colocarmos uma carga de prova
positiva nas proximidades da esfera, ela será atraída para o centro da esfera por uma
força elétrica. Portanto, em cada ponto da vizinhança da esfera, o vetor campo elétrico
aponta na direção do centro da esfera.

Esse campo pode ser representado pelas linhas mostradas na Figura 8(a). Em qualquer
ponto, como o indicado na figura, a direção do vetor campo elétrico coincide com
a direção da linha de campo elétrico nesse ponto. Se a esfera da Figura 8(a) tivesse
uma carga positiva uniformemente distribuída na superfície, os vetores campo elétrico
apontariam para longe da esfera, assim como as linhas de campo.

26
Importante

Note que as linhas de campo elétrico se afastam das cargas positivas, onde
começam, e se aproximam das cargas negativas, onde terminam.

Na verdade, o vetor campo elétrico em qualquer ponto é tangente à linha de campo elétrico
que passa por esse ponto e tem o mesmo sentido que a linha. Isso é facilmente visualizado
na Figura 8(a), em que as linhas de campo são retas. No entanto, a Figura 8(b) mostra o
caso de linhas curvas (duas partículas com cargas positivas iguais). As linhas de campo
são desenhadas de tal forma que o número de linhas por unidade de área, medido em um
plano perpendicular às linhas, é proporcional ao módulo do campo elétrico. Quanto mais
próximas as linhas, maior o módulo do campo. Para visualizar o padrão tridimensional
de linhas de campo em volta das partículas, basta girar mentalmente o padrão da Figura
8(b) em torno do eixo de simetria, que é uma reta vertical passando pelas partículas.
Como na Figura 8(a) a carga está uniformemente distribuída na superfície da esfera,
todos os vetores campo elétrico têm o mesmo módulo. O campo no qual os vetores têm
o mesmo módulo e a mesma orientação em todos os pontos do espaço é chamado
de campo elétrico uniforme. No caso da Figura 8(a), o campo é radial, isto é, está na
direção do raio da esfera. Já o campo da Figura 8(b) é não uniforme, ou seja, o campo
elétrico não é o mesmo em todos os pontos do espaço.

Agora, observe a Figura 9, que mostra parte de uma placa infinita com uma distribuição
uniforme de carga positiva na superfície direita. As linhas de campo em qualquer ponto do
espaço, dos dois lados da placa, são perpendiculares à placa e apontam para longe desta.
Naturalmente, nenhuma placa tem dimensões infinitas — essa é apenas uma forma de
dizer que o campo está sendo medido em pontos cuja distância em relação à placa é muito
menor que as dimensões dela, e que os pontos escolhidos estão longe das bordas.

27
Figura 9: (a) Linhas de campo elétrico de uma placa infinita positivamente carregada. (b) Vista lateral de (a).

(a) (b)

Fonte: Modificado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

Para determinar o campo elétrico produzido a uma distância r de uma partícula de


carga pontual q, colocamos uma carga de prova q0 nesse ponto. De acordo com a Lei de
Coulomb (equação (1)), a força eletrostática que age sobre a carga de prova é dada por:

𝟏 𝒒𝒒𝟎
𝑭= 𝒓� (𝟔)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐

O sentido de F será para longe da partícula se a carga q for positiva (q0 é positiva), e na
direção da partícula se a carga q for negativa. De acordo com a equação (5), o vetor
campo elétrico criado pela partícula na posição da carga de prova é dado por:

𝑭 𝟏 𝒒
𝑬= = 𝒓� (𝟕)
𝒒𝟎 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐

Observando a equação (7), verificamos que o sentido de E é o mesmo que o da força que
age sobre a carga de prova: para longe da carga pontual, se q for positiva, e apontando
para a carga pontual, se q for negativa. Assim, podemos facilmente determinar a
orientação do vetor campo elétrico em pontos próximos de uma partícula simplesmente
observando o sinal de sua carga.

28
Para determinar o módulo do campo elétrico a uma distância r da partícula, usamos a
equação (7) omitindo o vetor unitário e tomando o valor absoluto da carga. Isso resulta
na seguinte equação:

𝟏 𝒒
𝑬= (𝟖)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐

O valor absoluto |q| na equação (8) deve ser utilizado para evitar o risco de obtermos um
valor negativo para E quando q for negativa e pensarmos que o sinal negativo tem algo a
ver com o sentido de E. A equação (8) fornece apenas módulo do vetor E.

A Figura 10 mostra o campo elétrico em alguns pontos na vizinhança de uma partícula de


carga positiva. Nesse caso, cada vetor representa o campo elétrico no ponto de origem
do vetor, e o comprimento é simplesmente proporcional ao módulo do campo elétrico
no ponto de origem do vetor. Para uma carga negativa, a orientação dos vetores seria
invertida, isto é, apontariam para a carga.

Figura 10: Vetores campo elétrico em vários pontos das vizinhanças de uma carga pontual positiva.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

29
Se, em um dado ponto do espaço, existem vários campos elétricos, criados por várias
partículas carregadas, podemos determinar o campo total colocando uma carga de prova
positiva no ponto e medindo a força exercida individualmente pelas partículas, como a
força F01 exercida pela partícula 1 sobre a carga de prova. Como as forças obedecem ao
princípio da superposição, temos:

𝑭𝟎 = 𝑭𝟎𝟏 + 𝑭𝟎𝟐 + 𝑭𝟎𝟑 + ⋯ + 𝑭𝟎𝒏 (𝟗)

Para calcular o campo elétrico, basta aplicar a equação (5) a cada uma das forças:

𝑭𝟎𝟏 𝑭𝟎𝟐 𝑭𝟎𝟑 𝑭𝟎𝒏


𝑬= + + + ⋯+ = 𝑬𝟏 + 𝑬𝟐 + 𝑬𝟑 + ⋯ + 𝑬𝒏 (𝟏𝟎)
𝒒𝟎 𝒒𝟎 𝒒𝟎 𝒒𝟎

A equação (10) mostra que o princípio da superposição também se aplica aos campos
elétricos. Se quisermos calcular o campo elétrico produzido em um dado ponto por várias
partículas, basta calcularmos o campo produzido individualmente por cada partícula no
ponto em questão e, em seguida, somar vetorialmente todos os campos.

Exemplo 3

Um elétron (q = -e), colocado perto de um corpo carregado, sofre a ação de


uma força no sentido +y. A intensidade da força é 3,60 × 10–8 N.

A partir desses dados, responda às questões abaixo:

(a) Qual é o campo elétrico na posição do elétron?

(b) Qual seria a força exercida pelo mesmo corpo carregado sobre uma
partícula alfa (q = 2e) se ela estivesse posicionada no local previamente
ocupado pelo elétron?

Solução
(a) Para encontrarmos o campo na posição do elétron, utilizamos a equação (5):

30
𝑭 𝟑, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟖 𝒋̂
𝑬= = −𝟏𝟗 = −𝟐, 𝟐𝟓 × 𝟏𝟎𝟏𝟏 𝒋̂ N/C
𝒒 −𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎

O resultado obtido nos mostra que o campo elétrico está no sentido negativo
de y.

(b) O corpo que gera o campo elétrico é o mesmo da letra (a). Portanto, o campo
na posição do elétron é o mesmo encontrado na letra (a), independentemente
de o elétron estar lá ou não. Como a posição foi ocupada por uma partícula
alfa, temos:

𝑭 = 𝒒𝑬 = 𝟐 × 𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 −𝟐, 𝟐𝟓 × 𝟏𝟎𝟏𝟏 𝒋̂ = −𝟕, 𝟐𝟎 × 𝟏𝟎−𝟖 𝒋̂ N

A força tem a mesma orientação do campo elétrico, mas seu sentido é oposto
ao da força sobre o elétron. É fácil perceber que a força sobre a partícula alfa é
duas vezes maior do que a força sobre o elétron, uma vez que sua carga é duas
vezes maior do que a carga do elétron.

Exemplo 4

A Figura 11 mostra três partículas de cargas q1=+2Q, q2=-2Q e q3=-4Q, todas


situadas a uma distância d da origem. Determine o campo elétrico total E na
origem devido às três partículas.

Figura 11: Três partículas carregadas situadas à mesma distância d da origem.

Fonte: Modificado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

31
Solução

Para resolver essa questão, vamos utilizar o princípio da superposição (10):

𝑬 = 𝑬𝟏 + 𝑬𝟐 + 𝑬𝟑

Em que: E1, E2 e E3 são, respectivamente, os campos criados pelas partículas 1,


2 e 3 na origem.

Os três vetores devem ter sua origem no mesmo ponto, isto é, a origem do
sistema de eixos. Também devemos lembrar que cada um dos vetores deve
estar direcionado ao longo da linha que une o ponto onde se quer calcular o
campo (nesse caso, a origem) à carga que gera o campo. Como q1 é positiva
e q2 é negativa, os campos E1 e E2 possuem a mesma orientação e aparecem
somados, como mostrado na Figura 12. Já E3 aponta para a carga 3, que
também é negativa.

Figura 12: Campos gerados pelas partículas do Exemplo 4.

Fonte: Modificado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

Como os vetores E1 e E2 possuem mesma direção e sentido, podemos somar


seus módulos:

𝟏 𝒒𝟏 𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝟐𝑸 𝟏 𝟐𝑸 𝟏 𝑸
𝑬𝟏 + 𝑬𝟐 = 𝟐 + 𝟐 = 𝟐 + 𝟐 =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐

O vetor resultante E1+E2 tem a orientação indicada na Figura 12. O vetor E3 terá
o mesmo módulo:

32
𝟏 𝒒𝟑 𝟏 𝟒𝑸 𝟏 𝑸
𝑬𝟑 = = =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐

Observando novamente a Figura 12, verificamos que, pela simetria do problema,


as componentes y de E1+E2 e E3 se anulam, enquanto as componentes x se
somam. Tomando a componente x de E3, temos:

𝟏 𝑸 𝟎, 𝟖𝟔𝟔𝑸
𝑬𝟑𝒙 = 𝑬𝟑 𝐜𝐨𝐬 𝟑𝟎𝒐 = 𝟎, 𝟖𝟔𝟔 =
𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐

É fácil perceber que |(E1+E2)x| = E3x. Assim, o campo total será a soma das
componentes x de E1+E2 e E3:

𝟎, 𝟖𝟔𝟔𝑸 𝟏, 𝟕𝟑𝑸
𝑬=𝟐 ̂=
𝒊 𝒊̂
𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐

MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 1 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor sobre cargas e campos.

33
Campo elétrico de distribuições contínuas
de cargas

Até aqui, você viu como lidar com partículas carregadas, isoladas ou em
pequenos grupos. Vamos, agora, discutir uma situação mais complexa,
na qual um objeto, como uma barra ou um disco carregado, é tratado
como um conjunto de partículas carregadas.

O método utilizado para calcular o campo elétrico gerado por distribuições contínuas de
carga pode ser diferente para diferentes distribuições. Assim, ao discutirmos a respeito
de um arranjo em particular, é importante prestar atenção aos aspectos gerais do método
para poder aplicá-lo a outros problemas.

O método geral para determinar o campo elétrico de uma distribuição contínua de carga
consiste em:

1. Dividir a distribuição em elementos infinitesimais dq e expressar o elemento de carga


como dq = λds, dq = σdA ou dq = ρdV, de acordo com os seguintes fatores:

• Se a carga está distribuída sobre uma linha (λ = densidade linear de carga ou carga
por unidade de comprimento).
• Se a carga está distribuída sobre uma superfície (σ = densidade superficial de carga
ou carga por unidade de área).
• Se a carga está distribuída sobre um volume (ρ = densidade volumétrica de carga
ou carga por unidade de volume).

2. Escolhendo-se um elemento de carga arbitrário, escreve-se a intensidade da


contribuição do elemento para o campo elétrico no ponto de observação P como se dq
fosse uma carga pontual:

𝟏 𝒅𝒒
𝒅𝑬 = (𝟏𝟏)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐

34
Em que: r é a distância do elemento dq escolhido até o ponto P. A direção e o sentido do
vetor dE, que é o campo elétrico gerado pela carga dq em P, devem ser determinados
pelo sinal de dq.

3. O campo resultante total em P devido a toda a distribuição é obtido adicionando-se


as contribuições de todos os elementos de carga do objeto, levando-se em conta as
direções e os sentidos diferentes que todos os dE podem ter:

𝑬 = � 𝒅𝑬 (𝟏𝟐)

Em coordenadas cartesianas, a equação (12) pode ser considerada como uma


representação compacta de três componentes:

𝑬𝒙 = � 𝒅𝑬𝒙, 𝑬𝒚 = � 𝒅𝑬𝒚 , 𝑬𝒛 = � 𝒅𝑬𝒛 (𝟏𝟑)

Para ilustrar a aplicação do método, vamos fazer um exemplo.

Exemplo 5

Considere uma linha de cargas, que pode ser uma haste fina carregada, por
exemplo. A linha tem comprimento L e uma densidade linear de carga λ = q/L
positiva e uniforme, em que q é a carga total da haste.

Desejamos determinar o campo no ponto P, localizado a uma distância y da


haste, ao longo da sua mediatriz (o eixo y positivo).

Solução

A Figura 13 mostra a geometria para o cálculo:

35
Figura 13: Linha de carga do Exemplo 5.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

A intensidade do campo elétrico dE no ponto P devido ao elemento de carga dq


é dada pela equação (11). Analisando a simetria do problema, pode-se concluir
que nenhum dos elementos de carga dq sobre a haste produz um dE com uma
componente x em P. Logo, pode-se concluir que Ex=0.

Também por simetria, pode-se concluir que Ez=0, porque, para cada dq com
z positivo, existe um dq correspondente com z negativo; assim, quando se
adicionam os vetores dE dos dois elementos de carga, as componentes z
cancelam-se.

A única componente não nula do campo elétrico em P é Ey. Assim, tem-se:

𝟏 𝒅𝒒 𝟏 𝝀𝒅𝒛 𝒚 𝟏 𝝀𝒚𝒅𝒛
𝒅𝑬𝒚 = 𝒅𝑬 𝐜𝐨𝐬 𝜽 = 𝐜𝐨𝐬 𝜽 = =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 𝟑/𝟐

Nesse caso, adotamos

𝒅𝒒 = 𝝀𝒅𝒛

𝒓= 𝒛2 + 𝒚2

𝒚
𝐜𝐨𝐬 𝜽 = �𝒓

36
O campo total em P é:

A integral apresentada é tabelada, e sua resolução pode ser encontrada


também na bibliografia indicada. Resolvendo, temos:

𝟏 𝝀𝑳
𝑬𝒚 = (𝟏𝟒)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒚 𝒚𝟐 + 𝑳𝟐⁄𝟒

Essa equação fornece o campo elétrico no ponto P sobre o eixo y positivo


devido à linha de cargas.

Esse problema tem simetria cilíndrica em torno do eixo z, e o eixo y poderia


ter sido escolhido de modo a ter qualquer orientação perpendicular ao eixo da
haste, passando pelo ponto médio.

A Figura 14 mostra uma representação do campo no plano xy devido a uma


haste uniforme carregada positivamente.

Figura 14: Representação do campo elétrico para a linha de carga do Exemplo 5.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

37
É importante verificar se os cálculos desenvolvidos para o campo elétrico
apresentam limites corretos. No limite y → ∞, a equação (14) tende à expressão
para o campo elétrico de uma carga pontual:

𝟏 𝒒
𝑬𝒚 =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒚𝟐

Em que:

𝒒 = 𝝀𝑳

Em situações envolvendo linhas de cargas, frequentemente o ponto de


observação está muito próximo da linha, de modo que y é pequeno em
comparação a L. Assim, tomando o limite da equação (14) quando L >> y (λ
permanecendo constante), tem-se o campo elétrico devido a uma linha de
cargas infinitamente longa:

𝝀
𝑬𝒚 = (𝟏𝟓)
𝟐𝝅𝜺𝟎 𝒚

O campo tem a direção radial apontando para fora da haste e depende


inversamente da distância em relação a ela. Pode-se perguntar sobre a
importância de se calcular o campo devido a uma linha de cargas infinita
quando qualquer linha de cargas real tem um comprimento finito. No entanto,
para pontos próximos à linha e longe de ambas as extremidades, a equação
(15) fornece uma aproximação muito boa e útil do campo elétrico.

MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 1 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor sobre campo elétrico de distribuições contínuas de carga.

38
NA PRÁTICA

Um experimento simples de eletrostática que pode ser feito por você é o seguinte:
esfregue um pente de plástico no cabelo e, em seguida, aproxime o pente de
pequenos pedaços de papel previamente cortados. Você verá que os pedacinhos de
papel serão atraídos pelo pente.

Como você explicaria tal fenômeno?

Quando o pente de plástico é esfregado no cabelo, ocorre troca de cargas entre


o objeto e o cabelo. Assim, o pente fica eletrificado, isto é, com um excesso de
cargas. Quando aproximamos o pente dos pedacinhos de papel, que estão neutros,
as cargas do pente atraem as cargas de sinal oposto do papel e repelem as cargas
de mesmo sinal. Como o papel é leve, ele acaba sendo atraído pelo pente.

39
Resumo da Unidade 1

Nesta unidade você aprendeu os conceitos de carga elétrica e de força elétrica. O


significado físico da Lei de Coulomb também foi discutido, bem como o conceito de
campo elétrico. Além disso, você viu como a Lei de Coulomb pode ser utilizada para
calcular o campo elétrico de distribuições discretas e contínuas de carga.

CONCEITO

Nesta unidade você aprendeu os conceitos de carga elétrica, força elétrica e campo
elétrico.

40
Referências

CHABAY, R. W.; SHERWOOD, B. A. Física básica: matéria e interações: interações elétricas


e magnéticas. Rio de Janeiro: LTC, 2018. v. 2.

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.

_______ ;_______ . KRANE, K. S. Física 3. Rio de Janeiro: LTC, 2017.

41
UNIDADE 2

Potencial elétrico e Lei de Gauss


INTRODUÇÃO

Nesta unidade, você irá aprender o conceito de energia potencial eletrostática e verá
como esse conceito está associado ao potencial elétrico. Também verá que apenas di-
ferenças de potencial têm significado físico. Por fim, irá aprender o significado de fluxo
elétrico e verá como ele está associado ao campo elétrico gerado por uma distribuição
de cargas por meio da Lei de Gauss.

OBJETIVO

Nesta unidade, você será capaz de:

• Definir potencial elétrico e diferença de potencial.


• Calcular o potencial elétrico de distribuições discretas e contínuas de carga.
• Interpretar o conceito de fluxo elétrico e a Lei de Gauss.

43
Potencial elétrico e diferença de potencial

Na eletrostática, assim como na mecânica, existem duas maneiras de analisar proble-


mas. Veja:

A outra abordagem é baseada na


Uma abordagem é baseada na força,
energia, um escalar, e permite avaliar
um vetor, e permite determinar a
como o sistema muda ao mover-se de
posição e a velocidade de um objeto
um certo estado inicial para um certo
em cada ponto de seu movimento.
estado final.

Ambas as abordagens são úteis quando se estudam as interações entre objetos carregados.

Energia Potencial

Antes de definir potencial elétrico, vamos discutir o conceito de energia potencial. Mui-
tos fenômenos elétricos estão relacionados com a transferência de grandes quantidades
de energia. Quando um relâmpago atinge a Terra a partir de uma nuvem, tipicamente,
uma energia da ordem de 108 J é liberada em forma de luz, som, calor e onda de choque.
Para entender de onde vem essa energia e como ela é armazenada nas nuvens, devemos
considerar a energia associada com as forças elétricas.

A lei da força eletrostática vista na Unidade 1 nos diz que a força elétrica é proporcional
ao quadrado da distância entre as cargas:

Considere então a seguinte situação: uma carga q1 cria um campo elétrico em uma
determinada região do espaço, enquanto uma carga q2 é deslocada lentamente nesse
campo. Se quisermos calcular o trabalho realizado para transportar a carga q2 de um
ponto inicial i até um ponto final f, devemos resolver a integral:

44
Em que:

ds é um deslocamento infinitesimal da carga q2 ao longo da sua trajetória.

Pela simetria do problema, podemos trabalhar com as coordenadas esféricas. Nesse


caso, vamos chamar a coordenada radial de r. Como na integral (2) temos um produto
escalar, podemos considerar apenas a componente de ds na direção de F, isto é, na
direção do vetor unitário r:

Assim, quando uma carga desloca-se de uma posição para outra, sob a ação da força
elétrica de outra carga (a qual supõe-se permanecer em repouso), o trabalho realizado
pela força elétrica sobre a primeira carga depende apenas dos pontos inicial e final, e não
depende do caminho percorrido entre os pontos.

Uma força que tem essa propriedade especial é chamada de conservativa. Para uma
força conservativa é possível definir uma energia potencial. A diferença de energia
potencial ∆U, gerada à medida que um objeto move-se de sua posição inicial para sua
posição final, é igual ao trabalho com sinal negativo:

∆𝑼 = 𝑼𝒇 − 𝑼𝒊 = −𝑾𝒊𝒇 (4)

Portanto, quando um objeto de carga q2 move-se de uma distância ri da carga q1 para


uma distância rf de q1, a diferença de energia potencial é:

𝟏 𝟏 𝟏 𝟏
∆𝑼 = 𝑼𝒇 − 𝑼𝒊 = −𝑾𝒊𝒇 = −𝒌𝒒𝟏 𝒒𝟐 − = 𝒌𝒒𝟏 𝒒𝟐 − (5)
𝒓𝒊 𝒓𝒇 𝒓𝒇 𝒓𝒊

45
Essa diferença de energia potencial está associada com o sistema composto por q1 e q2,
e não com cada uma das cargas separadamente.

Assim, pode-se concluir que a força eletrostática é conservativa e,


portanto, existe uma energia potencial associada com a configuração
(posição relativa dos objetos) de um sistema no qual as forças
eletrostáticas atuam.

A equação (5) é válida se os sinais das cargas são positivos ou negativos.

Primeiramente, consideramos as duas cargas positivas:

• Se q2 move-se em direção a q1, então rf < ri e ΔU > 0; isto é, a energia potencial


cresce à medida que as cargas se aproximam.
• Se q2 afasta-se de q1, então rf > ri e ΔU < 0; isto é, a energia potencial decresce à
medida que as cargas se afastam.

Quando as cargas têm sinais opostos, o produto q1q2 é negativo na equação (5), tornando:

• ΔU < 0 quando as cargas se aproximam.


• ΔU > 0 quando as cargas se afastam.

Até agora discutiu-se a diferença na energia potencial entre dois pontos a e b: ΔU = Ub


– Ua. Entretanto, pode-se estender a discussão para definir a energia potencial em um
só ponto b, por meio da escolha de um ponto a de referência de energia potencial, e
designá-lo como um valor de referência de energia potencial Ua. Muitas vezes, é adequado
escolher um ponto de referência que corresponda a uma separação infinita entre as
cargas e, geralmente, escolhe-se o valor de referência Ua = 0. Então, fazendo-se o ponto b
representar qualquer ponto em que a separação é r, a equação (5) torna-se:

𝟏 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐
∆𝑼 = 𝑼𝒃 − 𝑼𝒂 = 𝒌𝒒𝟏 𝒒𝟐 − ; 𝒓𝒂 → ∞ 𝐞 𝑼𝒂 = 𝟎: 𝑼𝒃 = 𝒌
𝒓𝒃 𝒓𝒂 𝒓𝒃
Logo:

𝒒𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐
𝑼 𝒓 =𝒌 = (6)
𝒓 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓

46
Portanto, chegamos à seguinte conclusão:

• U é positivo sempre que q1 e q2 tiverem sinais iguais, o que corresponde a uma força
repulsiva.
• U é negativo sempre que as cargas tiverem sinais contrários, o que corresponde a
uma força atrativa.

Em um sistema isolado de duas cargas, a energia mecânica total é então dada por:

𝟏 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐
𝐸= 𝒎𝒗𝟐 + (7)
𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓

Como a força eletrostática é conservativa, a energia mecânica é, então, conservada (m é


a massa da partícula, e v, sua velocidade). Assume-se que q1 é mantida em uma posição
fixa e que q2 é liberada do repouso a uma certa distância de q1. Se as duas cargas têm o
mesmo sinal, então q2 é afastada de q1 por uma força de repulsão, e ΔU < 0.

Para conservação da energia mecânica total, é necessário que a variação da energia


cinética ΔK = 1/2 m(vf2 – vi2) seja positiva, de modo que a velocidade de q2 deverá aumentar.

Se, em vez disso, impelir-se q2 em direção a q1 com uma certa energia cinética inicial,
então ΔU > 0 à medida que a separação entre as partículas diminui. Dessa forma,
para a conservação de energia, será necessário que ΔK < 0 e, assim, que a velocidade
de q2 diminua.

Dica

Essas conclusões serão invertidas se as cargas tiverem sinais contrários, ou


seja, se a força for atrativa.

A seguir, acompanhe o exemplo:

47
Exemplo 1

Duas partículas, uma com massa m1 = 0,0022 kg e carga q2 = 32 μC e outra


com massa m2 = 0,0039 kg e carga q2 = -18 μC, estão inicialmente separadas
por uma distância de 4,6 cm.

Com a partícula 1 mantida em uma posição fixa, a partícula 2 é liberada a


partir do repouso. Qual será a velocidade da carga 2 quando a separação entre
as partículas for de 2,3 cm? Suponha que as partículas comportem-se como
cargas pontuais.

Solução

À medida que as cargas se aproximam uma da outra, a redução da energia


potencial deve ser equilibrada pelo crescimento correspondente da energia
cinética. Considere como condição inicial o instante em que a carga 2 é liberada
(Ki = 0) e, como condição final, o instante em que a separação é 2,3 cm. Então,
da conservação de energia, tem-se que:

1 𝑞1 𝑞2 1 𝑞1 𝑞2 𝑞1 𝑞2 1 1
𝑈𝑖 + 𝐾𝑖 = 𝑈𝑓 + 𝐾𝑓 → +0 = + 𝐾𝑓 → 𝐾𝑓 = −
4𝜋𝜀0 𝑟𝑖 4𝜋𝜀0 𝑟𝑓 4𝜋𝜀0 𝑟𝑖 𝑟𝑓

1 1
𝐾𝑓 = 8,99 × 109 32 × 10−6 −18 × 10−6 − = 112,6 ≈ 113 J
0,046 0,023

Se a partícula 1 permanece fixa, a energia cinética final está associada com a


partícula 2, logo:

48
Potencial elétrico

Considere agora a seguinte situação: uma carga q é fixada na origem de um sistema de


coordenadas. Toma-se uma outra carga q0, chamada de “carga de teste”, a qual é movida
de ra para rb sob a influência da força devida a q.

A variação da energia potencial desse sistema de duas cargas é dada pela equação
(5). ∆U é diretamente proporcional ao tamanho da carga de teste, ou seja, a quantidade
∆U/q0 é independente de q0 e é uma característica apenas da carga central q.

Define-se a diferença de potencial elétrico ∆V como a diferença da energia potencial


elétrica por unidade de carga de teste:

∆𝑼
∆𝑽 = (8)
𝒒𝟎

Ou

𝑼𝒇 − 𝑼𝒊
𝑽𝒇 − 𝑽𝒊 = (9)
𝒒𝟎

Assim como a energia potencial, o potencial elétrico é um escalar. Normalmente, refere-


se ao potencial elétrico apenas como “potencial”.

Definindo uma escolha adequada de ponto de referência para o potencial (como no caso
da energia, Ua=0 para uma separação inicial infinita das cargas), podemos obter uma
expressão para o potencial de uma configuração em particular, em vez da mudança de
potencial para uma mudança na configuração. Somente diferenças no potencial têm
significado físico, então existe liberdade para a escolha da referência mais conveniente.
Quando um potencial é escolhido para ser nulo, em pontos que estão infinitamente
distantes de q, o potencial elétrico é:

𝑼
𝑽= (10)
𝒒𝟎

49
É importante ressaltar que o potencial nulo em um ponto não significa ne-
cessariamente que a força elétrica e o campo elétrico são nulos nesse ponto.

Dica

A unidade do SI para o potencial é o joule por coulomb, o qual recebe o nome


de volt (V): 1 V = 1 J/C.

O nome usual de “voltagem” é utilizado para o potencial de um ponto e,


normalmente, fala-se em “diferença de voltagem” em vez de diferença de
potencial.

Já foi discutido que a força elétrica é conservativa. Portanto, a diferença de energia potencial
quando uma carga de teste é deslocada entre dois pontos depende apenas das posições
dos pontos, e não do caminho escolhido para mover a carga de um ponto ao outro.

A equação (8) sugere, portanto, que a diferença de potencial é também independente de


caminho: a diferença de potencial entre quaisquer dois pontos em um campo elétrico é
independente do caminho pelo qual a carga de teste desloca-se de um ponto ao outro.

Para uma diferença de potencial arbitrária ∆V, produzida por um arranjo de cargas
qualquer, pode-se escrever a equação (8) na forma:

∆𝑼 = 𝒒∆𝑽 (11)

A equação acima mostra que, quando qualquer carga q move-se entre dois pontos cuja
diferença de potencial é ∆V, o sistema experimenta uma variação de energia potencial ∆U.
A diferença de potencial ∆V é estabelecida por outras cargas que estão fixas em repouso,
de forma que o movimento de q não afeta ∆V.

Vale ressaltar que as diferenças de potencial são de interesse fundamental e que a equação
(10) depende da designação do valor nulo para um potencial na posição de referência
(infinito). Na verdade, esse potencial de referência poderia também ser escolhido com
um outro valor qualquer. Da mesma forma, qualquer outro ponto poderia ser escolhido
como posição de referência. Em muitos problemas, a Terra é escolhida como referência

50
e designada com o valor de potencial nulo. A posição do ponto de referência e o respectivo
valor do potencial são escolhidos de forma conveniente; outras escolhas mudariam
o potencial em toda parte da mesma quantidade, mas não afetariam a diferença de
potencial entre dois pontos quaisquer.

Observe o exemplo:

Exemplo 2

Uma partícula alfa (q=+2e), dentro de um acelerador nuclear, desloca-se de um


terminal com potencial Va=6,5×106 V para outro com potencial Vb=0.

(a) Qual a variação correspondente na energia potencial do sistema?

(b) Supondo que os terminais e suas cargas não se desloquem e que nenhuma
força externa atue sobre o sistema, qual a variação da energia cinética da
partícula?

Solução

(a) Da equação (11):

∆𝑈 = 𝑞∆𝑉 = 2 1,6 × 10 −19 0 − 6,5 × 106 = −20,8 × 10−13 = −2,1 × 10−12 J

(b) Como nenhuma força externa atua sobre o sistema, sua energia mecânica
deve permanecer constante. A conservação de energia mecânica nos diz que:

𝐾𝑎 + 𝑈𝑎 = 𝐾𝑏 + 𝑈𝑏 → 𝐾𝑏 − 𝐾𝑎 = 𝑈𝑎 − 𝑈𝑏 → ∆𝐾 = −∆𝑈 = −2,1 × 10−12 J

51
Curiosidade

Pilhas e baterias são dispositivos capazes de transformar a energia química,


contida nos materiais que as compõem, em energia elétrica. A principal
diferença entre esses dispositivos está no fato de que as pilhas, também
chamadas de células eletroquímicas, possuem somente dois eletrodos (polos
negativo e positivo) e um eletrólito, enquanto as baterias são formadas por
várias pilhas conectadas. A voltagem das pilhas depende da diferença de
potencial entre os seus eletrodos, isto é, do grau de espontaneidade com que
ocorre a transferência de elétrons do ânodo para o cátodo. Quanto maior for a
tendência de transferir elétrons, maior será a potência da pilha.

Vamos agora considerar o potencial devido a uma carga pontual positiva q. Deixa-se uma
carga de teste q0 se mover do ponto a para o ponto b nas proximidades de q. Deseja-se
usar a carga de teste para encontrar a diferença de potencial entre os dois pontos devido
a q. A diferença de energia potencial ∆U para essa situação já foi calculada (equação (5)).
Reescrevendo a equação para as cargas q e q0 e utilizando a equação (9) para a diferença
de potencial, temos:

𝑼𝒃 − 𝑼𝒂 𝒌𝒒𝒒𝟎 𝟏 𝟏 𝒒 𝟏 𝟏
𝑽𝒃 − 𝑽𝒂 = = − → 𝑽𝒃 − 𝑽𝒂 = − (12)
𝒒𝟎 𝒒 𝟎 𝒓𝒃 𝒓𝒂 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝒃 𝒓𝒂

Importante

A equação acima é válida para uma diferença de potencial entre dois pontos a
e b quaisquer.

No lugar da diferença de potencial entre dois pontos, pode-se encontrar o potencial em


um único ponto na vizinhança de q. A equação (6) fornece a energia potencial U devido
às interações entre duas cargas pontuais. O ponto de referência para essa expressão foi
escolhido no infinito (U=0). Pode-se usar a equação (6) escrita para as cargas q e q0 e
então encontrar o potencial em um ponto utilizando a equação (10):

52
𝑼 𝟏 𝟏 𝒒𝒒𝟎 𝟏 𝒒
𝑽= = →𝑽= (13)
𝒒𝟎 𝒒𝟎 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓

Em que:

• V é o potencial para qualquer ponto a uma distância r de q.

Dica

Note que a equação (13) poderia ter sido obtida diretamente da equação (12)
pela imposição da condição Va=0 em ra→∞.

A equação (13) mostra que o potencial para uma única carga pontual positiva é nulo
a grandes distâncias e cresce para grandes valores positivos à medida que nos
aproximamos da carga (r→0). Se q é negativa, o potencial cresce para grandes valores
negativos à medida que r→0. Note que esses resultados não dependem do sinal da carga
de teste utilizada nos cálculos.

Veja mais um exemplo:

Exemplo 3

Qual deve ser o valor de uma carga pontual positiva isolada para um potencial
elétrico a 15 cm da carga de 120 V? Suponha V=0 no infinito.

Solução

Da equação (13), temos:

1 𝑞 15 × 10−2 120
𝑉= → 𝑞 = 4𝜋𝜀0 𝑟𝑉 = = 200 × 10−11 = 2,0 × 10−9 C = 2,0 nC
4𝜋𝜀0 𝑟 8,99 × 109

53
MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 2 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor na mídia 1, sobre energia potencial elétrica.

54
Potencial elétrico e energia potencial elé-
trica de configurações de cargas

Energia potencial de um sistema de cargas

Vamos agora considerar que existam três cargas (q1, q2, q3) separadas por distâncias
infinitas umas das outras. Nessa configuração, U = 0. Deseja-se encontrar a energia po-
tencial da configuração resultante depois que as três cargas são aproximadas umas das
outras.

Como podemos fazer isso?

Observe a figura e acompanhe o procedimento descrito logo a seguir:

Figura 1: Sistema com três cargas montado a partir de uma separação inicial infinita entre as cargas

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Trazemos a primeira carga, q1, do infinito. Ela é colocada em repouso no local


indicado na Figura 1(a). Uma vez que nesse processo q1 não interage com
nenhuma das outras duas cargas, que continuam muito distantes, não há
mudança na energia potencial. Assim, continuaríamos com U=0 para o sistema.

Agora a carga q2 é trazida e fixada a uma distância r12 de q1 (Figura 1(b)). A


energia potencial dessa configuração de q1 e q2 (relativa a U=0) é q1q2/4πε0r12.

55
Finalmente, q3 é posicionada a uma distância r13 de q1 e r23 de q2 (Figura 1(c)).
Como q3 interage com as duas partículas, existem duas contribuições adicionais
para a energia potencial nesta configuração final: q1q3/4πε 0r13. (interação entre
q1 e q3) e q2q3/4πε 0r23 (interação de q2 e q3).

A energia potencial elétrica total do sistema como um todo é:

𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟑 𝟏 𝒒𝟐 𝒒𝟑
𝑼= + + (14)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟏𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟏𝟑 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐𝟑

A equação (14) deixa claro que a energia potencial é uma propriedade do sistema, e não
de qualquer carga individual.

Saiba mais

Sobre esse sistema, podemos fazer as seguintes afirmações:

• Poderíamos continuar o processo de reunir qualquer distribuição arbitrária


de cargas que chegaríamos à mesma conclusão: a energia potencial total de
qualquer desses sistemas é independente da ordem em que as cargas são
reunidas.

• A partir do exemplo, é possível identificar a vantagem de utilizar métodos de


energia para analisar esse sistema: a soma da equação (14) é uma soma
algébrica de escalares. Se optarmos, por outro lado, por calcular o campo
elétrico associado ao conjunto de três cargas, teríamos uma soma vetorial,
cujo cálculo é mais complicado.

• O processo de construção do sistema de cargas supõe, implicitamente, que


o princípio da superposição é válido. Esse princípio afirma que a interação
de duas cargas é independente da presença de quaisquer outras cargas.
Assim, o termo de energia potencial que descreve a interação de q1 e q3 é
independente da presença de q2, por exemplo.

• Se um agente externo realiza um trabalho positivo para reunir um conjunto


de cargas com separação infinita (opondo-se à força repulsiva do processo),

56
a energia potencial total (equação (14)) é positiva. O agente externo, de fato,
acumulou energia no sistema de cargas. Se as cargas são liberadas de suas
posições, estas tenderão a se afastar, e a energia potencial irá decrescer
enquanto a energia cinética irá aumentar. Se a energia potencial total é negativa,
o agente externo terá realizado um trabalho negativo para reunir o sistema de
cargas. Nesse caso, o agente externo deve suprir energia adicional na forma
de trabalho para separar o sistema de cargas e levá-las para separação infinita.

A abordagem da energia potencial pode então ser resumida da seguinte


maneira: a energia potencial elétrica de um sistema de cargas pontuais
fixas em repouso é igual ao trabalho realizado por um agente externo para
reunir o sistema, trazendo cada carga de uma distância infinita em que ela
também está em repouso. Implícita nessa abordagem está a definição de
que o ponto de referência de energia potencial seria a separação infinita
entre as cargas, em que U=0.

Acompanhe o próximo exemplo:

Exemplo 4

A Figura 2 mostra três cargas pontuais mantidas fixas no lugar por forças não
especificadas. Qual é a energia potencial elétrica U desse sistema de cargas?

Suponha que:

• d=12 cm
• q1=+q
• q2=-4q
• q3=+2q
• q=150 nC

57
Figura 2: Sistema de três cargas do Exemplo 4.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Solução

Podemos utilizar a equação (14) para calcular a energia potencial total da


configuração:

1 𝑞1 𝑞2 1 𝑞1 𝑞3 1 𝑞2 𝑞3 1 𝑞 −4𝑞 𝑞 2𝑞 2𝑞 −4𝑞
𝑈= + + = + +
4𝜋𝜀0 𝑟12 4𝜋𝜀0 𝑟13 4𝜋𝜀0 𝑟23 4𝜋𝜀0 𝑑 𝑑 𝑑
2
1 10𝑞 2 10 8,99 × 109 150 × 10−9
= −4𝑞 2 + 2𝑞 2 − 8𝑞 2 = − =− =
4𝜋𝜀0 𝑑 4𝜋𝜀0 𝑑 12 × 10−2
−3
2,02 × 10
− = −0,168 × 10−1 ≈ −17 mJ
12 × 10−2

A energia potencial negativa significa que, para um agente externo reunir


esse conjunto, seria necessária a realização de trabalho negativo. Em outras
palavras, um agente externo deveria realizar 17 mJ de trabalho para desmontar
esse conjunto completamente.

Potencial de um sistema de cargas

Considere agora um conjunto de N cargas pontuais (q1,q2,...,qN) posicionadas em vários


pontos fixos (Figura 3).

58
Figura 3: Conjunto de cargas pontuais

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

O objetivo é achar o potencial em um ponto arbitrário P devido ao conjunto de cargas. O


procedimento é calcular o potencial em P devido a cada carga como se as outras não
estivessem presentes e, então, somá-los para se obter o potencial total. Assim:

𝟏 𝒒𝟏 𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝒒𝑵
𝑽 = 𝑽𝟏 + 𝑽𝟐 + ⋯ + 𝑽𝑵 = + +⋯+ (15)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟏 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝑵

ou

Observe que, nas expressões (15) e (16), qn é o valor da n-ésima carga e rn é a distância
da n-ésima carga ao ponto em que se deseja determinar o potencial. Esse é um outro
exemplo da aplicação do princípio da superposição.

Acompanhe o exemplo a seguir:

59
Exemplo 5

Calcule o potencial no ponto P, localizado no centro do quadrado de cargas


pontuais mostrado na Figura 4. Suponha que d=1,3 m e que as cargas são:
q1=+12 nC, q2=-24 nC, q3=+31 nC e q4=+17 nC.

Figura 4: Sistema de cargas do Exemplo 5.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Solução

A distância de todas as cargas ao ponto P é a mesma e é dada por:

1 1,3 2
𝑅= 𝑑 2 = = 0,919𝑚
2 2

Logo, da equação (16), temos:

1 𝑞1 1 𝑞2 1 𝑞3 1 𝑞4
𝑉= + + +
4𝜋𝜀0 𝑟1 4𝜋𝜀0 𝑟2 4𝜋𝜀0 𝑟3 4𝜋𝜀0 𝑟4
10−9
= 12 − 24 + 31 + 17
4𝜋𝜀0 0,919
8,99 × 109 10−9 36
= ≈ 352
0,919

Assim, V=3,5×102=0,35 kV.

60
Potencial de uma distribuição contínua de cargas

É possível obter a energia potencial para as interações entre uma distribuição contínua e
uma carga pontual, calculando-se o potencial devido à distribuição de carga. Para ilustrar
o procedimento utilizado no cálculo do potencial de uma distribuição contínua de cargas,
vamos considerar uma distribuição linear de cargas (Figura 5).

Figura 5: Distribuição linear de cargas.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

O procedimento é semelhante àquele utilizado na Unidade 1 para determinar o campo


elétrico de uma distribuição linear de carga, com uma importante exceção: o potencial é
um escalar.

Nesse caso, o procedimento começa pela divisão do objeto em elementos de carga dq.
Pode-se escrever o potencial dV devido ao elemento de carga dq supondo que este se
comporta como uma carga pontual:

𝟏 𝒅𝒒
𝒅𝑽 = (17)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓

Em que:

• r é a distância de dq ao ponto P.

61
O potencial total é obtido por meio da soma das contribuições de todos os elementos de
carga do objeto:

𝟏 𝒅𝒒
𝑽 = � 𝒅𝑽 = � (18)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓

Em que a integral é resolvida considerando toda a extensão da distribuição de carga.

Pode-se utilizar a geometria da Figura 5 para determinar o potencial gerado no ponto P devi-
do a uma distribuição linear uniforme de cargas positivas. O ponto P está a uma distância y
da haste e encontra-se localizado sobre sua mediatriz. Aplicando a equação (17) e utilizando
o elemento de carga dq = λdz, em que λ é a densidade linear de carga, temos:

𝟏 𝒅𝒒 𝟏 𝝀𝒅𝒛
𝒅𝑽 = = (19)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐

Observando que y é uma constante e integrando por todo o comprimento L como na


equação (18), temos:

𝟏 𝑳/𝟐 𝝀𝒅𝒛 𝝀
V= ∫ 𝒅𝑽 = ∫ = �𝐥𝐧 �𝒛 +
𝟒𝝅𝜺𝟎 −𝑳/𝟐 𝒛𝟐 +𝒚𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎
𝑳/𝟐 𝝀 𝑳⁄𝟐+ 𝑳𝟐 ⁄𝟒+𝒚𝟐
𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 �� = 𝟒𝝅𝜺 𝐥𝐧 (20)
−𝑳/𝟐 𝟎 −𝑳⁄𝟐+ 𝑳𝟐 ⁄𝟒+𝒚𝟐

Em que se utilizou a relação lnA – lnB = ln(A⁄B) para se obter o resultado final. É impor-
tante verificar esse resultado para determinar se ele apresenta um valor limite correto. À
medida que nos afastamos da haste, é esperado que o potencial tenda a 0, e a equação
(20) tem essa propriedade quando y→∞.

62
MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 2 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor na mídia 2 sobre problema de potencial e energia.

63
Fluxo do campo elétrico e Lei de Gauss

A chamada Lei de Gauss foi descoberta pelo matemático e físico Carl Friedrich Gauss
(1777-1855) e estabelece uma relação entre carga e campo elétrico que nos permite, em
certas situações de alta simetria, calcular o campo elétrico produzido por objetos ma-
croscópicos usando poucas equações algébricas.

Para entender a Lei de Gauss, vamos começar com alguns exemplos simples que dão
uma ideia do espírito da lei.

Fluxo elétrico

A Figura 6 mostra uma partícula de carga +Q cercada por uma esfera imaginária cujo
centro é a posição da partícula. Em todos os pontos da esfera (chamada de superfície
gaussiana), os vetores do campo elétrico têm o mesmo módulo (dado por E = kQ⁄r2) e
apontam radialmente para longe da partícula. As linhas de campo elétrico também têm
a mesma densidade já que, como vimos na unidade anterior, a densidade de linhas de
campo elétrico é proporcional ao módulo do campo elétrico. Dizemos que os vetores do
campo elétrico e as linhas de campo atravessam a superfície.

Figura 6: Vetores do campo elétrico e linhas de campo que atravessam uma superfície gaussiana
imaginária que envolve uma partícula de carga +Q.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

64
A Figura 7 é igual à Figura 6, exceto pelo fato de que a carga da partícula é +2Q. Como
a carga envolvida é duas vezes maior, o módulo dos vetores do campo elétrico que
atravessam a (mesma) superfície gaussiana é duas vezes maior, e a densidade das
linhas de campo elétrico também é duas vezes maior. Foram observações como essa
que levaram à lei de Gauss:

A Lei de Gauss relaciona os campos elétricos nos pontos de uma superfície


gaussiana (fechada) à carga total envolvida pela superfície.

Figura 7: Carga da partícula envolvida pela superfície é +2Q.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Entretanto, na maioria dos casos, não podemos usar a Lei de Gauss simplesmente
observando o sentido e o comprimento dos vetores do campo elétrico em um desenho;
precisamos de uma grandeza física que descreva a quantidade de campo elétrico que
atravessa uma superfície. Essa grandeza é chamada de fluxo elétrico.

Para entender o significado de fluxo, vamos considerar uma superfície plana, de área A,
em uma região em que existe um campo elétrico uniforme E. A Figura 8 mostra um dos
vetores de campo elétrico atravessando um pequeno quadrado de área ∆A.

65
Figura 8: (a) Um vetor de campo elétrico atravessa uma pequena área de uma superfície plana. (b)
Apenas a componente x atravessa o quadrado. (c) O vetor área do quadrado é perpendicular ao
quadrado.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Na verdade, apenas a componente x do campo, cujo módulo é Ex=E cosθ, atravessa a su-
perfície. A componente y é paralela à superfície e não contribui para o fluxo, como veremos
a seguir. A quantidade de campo elétrico que atravessa a superfície é chamada de fluxo
elétrico ∆Φ e é dada pelo produto do campo que atravessa a superfície pela área envolvida:

𝚫𝚽 = 𝑬𝒙𝚫𝑨 = 𝑬 𝐜𝐨𝐬 𝜽 ∆𝑨 (21)

Existe um outro modo de escrever o lado direito da equação (21) para que apenas a
componente que atravessa a superfície seja considerada. Definimos um vetor área ∆A
perpendicular à superfície e cujo módulo é igual à área do quadrado (Figura 8(c)). Nesse
caso, podemos escrever:

∆𝚽 = 𝑬. ∆𝑨 (22)

E o produto escalar fornece automaticamente a componente de E que é paralela a ∆A e,


portanto, atravessa o quadrado.

Para determinar o fluxo total por meio da superfície da Figura 8, podemos somar o fluxo
que atravessa todos os pequenos quadrados da superfície:

𝚽 = � 𝑬 . ∆𝑨 (23)

66
Reduzindo os pequenos quadrados de área ∆A em elementos de área dA, o fluxo total
passa a ser dado por:

𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 (24)

A unidade de fluxo elétrico no SI é N.m2/C.

Dica

1. Se o campo elétrico é uniforme e a superfície é plana, o produto E cosθ é


constante e pode ser colocado fora do sinal de integração. A integral restante,
∫dA, é a área total da superfície. Assim, o fluxo total, nessa situação simples, é:

𝚽 = 𝑬𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽 (25)

2. Para uma superfície fechada, o vetor dA para cada elemento de área é


definido apontando para fora da superfície. Desse modo, o fluxo do campo
elétrico que deixa a superfície é positivo, enquanto o fluxo do campo elétrico
que entra na superfície é negativo. Isso pode ser observado ao analisarmos o
sinal do produto escalar na equação (24).

Lei de Gauss

A Figura 9 mostra uma superfície esférica de raio R que tem uma carga pontual Q no
seu centro. O campo elétrico em qualquer lugar na superfície da esfera é normal e tem
módulo igual a:

𝒌𝑸
𝑬 ≡ 𝑬𝒏 = 𝟐 (26)
𝑹

67
Figura 9: Superfície esférica contendo uma carga puntiforme Q.

Fonte: Tipler e Mosca (2009, p. 48).

O fluxo resultante de E para fora da superfície esférica é:

𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = � 𝑬𝒏 𝒅𝑨 = 𝑬𝒏 � 𝒅𝑨 (27)

Observe que tiramos En da integral, pois ele é constante em qualquer ponto da superfície
esférica. O símbolo ∮ indica que a integral é realizada sobre uma superfície fechada, logo
∮dA=4πR2 é a área total da superfície da esfera. Assim:

𝒌𝑸 𝟐 𝑸
𝚽 = 𝑬𝒏 � 𝒅𝑨 = 𝟐 𝟒𝝅𝑹 = 𝟒𝝅𝒌𝑸 = (28)
𝑹 𝜺𝟎

Portanto, o fluxo resultante para fora de uma superfície esférica que tem uma carga
puntiforme Q no seu centro é independente do raio R da esfera. Isso é consistente
com nossa observação anterior de que o número resultante de linhas através de uma
superfície fechada é proporcional à carga líquida (resultante) no interior da superfície.
Esse número de linhas é o mesmo para todas as superfícies fechadas circundando a
carga, independentemente da forma da superfície. Portanto, o fluxo resultante para
fora de qualquer superfície envolvendo uma carga puntiforme Q é igual a Q/ε0.

Podemos estender o resultado anterior a sistemas contendo várias cargas. Na Figura 10,
a superfície circunda duas cargas puntiformes, q1 e q2, e há uma terceira carga q3 no lado
de fora da superfície.

68
Figura 10: Superfície contendo cargas puntiformes q1 e q2, mas não q3.

Fonte: Tipler e Mosca (2009, p. 48).

Como o campo elétrico em qualquer ponto na superfície é a soma vetorial dos campos
elétricos produzidos por cada uma das cargas, o fluxo resultante para fora da superfície
é a soma dos fluxos devido às cargas individuais.

O fluxo devido à carga q3, que está do lado de fora da superfície, é zero, pois cada linha de
campo de q3 que entra na região limitada pela superfície em um ponto sai da superfície
em algum outro ponto (Figura 10).

O fluxo resultante para fora da superfície devido à carga q1 é Φ1 = q1/ε0, enquanto para q2
temos q2/ε0.

O fluxo resultante para fora da superfície é, então, igual a Φ = (q1 + q2)/ε0, o qual pode ser
positivo, negativo ou zero, dependendo dos valores de q1 e q2 (sinais e magnitudes).

Portanto, o fluxo resultante para fora de qualquer superfície fechada é igual à carga líquida
no interior da superfície dividida por ε0:

𝒒𝒊𝒏𝒕
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = � 𝑬𝒏 𝒅𝑨 = (29)
𝜺𝟎

Por carga líquida (qlíq) entenda-se a carga resultante no interior da superfície, isto é, a
soma de todas as cargas contidas dentro da superfície levando em conta os sinais.

69
A equação (29) é a Lei de Gauss. Sobre essa lei, podemos fazer as seguintes afirmações:

• Ela é válida para todas as superfícies e distribuições de carga.


• Para distribuições que tenham alto grau de simetria, ela pode ser usada para calcular
o campo elétrico.
• Para distribuições estáticas, a Lei de Gauss e a Lei de Coulomb são equivalentes,
como verificamos aqui (equações (26)-(28)). Entretanto, a Lei de Gauss tem um
caráter mais geral, pois é sempre válida, enquanto a Lei de Coulomb está restrita a
distribuições estáticas de cargas.

Importante

A Lei de Gauss mostra que o campo elétrico de uma distribuição de carga sobre
uma superfície que envolve a distribuição é diretamente proporcional à carga
interna à superfície e inversamente proporcional à área da superfície.

Acompanhe os últimos exemplos desta unidade.

Exemplo 6

A Figura (11) mostra um cubo gaussiano, cujas faces têm área A, imerso em
um campo elétrico uniforme E orientado no sentido positivo do eixo z.

Determine, em termos de E e A, o fluxo total através do cubo e a carga interna


a essa superfície.

Figura 11: Cubo gaussiano do Exemplo 6.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

70
Solução

O fluxo total a partir do cubo é a soma do fluxo através de cada uma das
suas faces. Primeiramente, calculamos o fluxo através da face frontal do
cubo, situada no plano xy. Nesse caso, vale a equação (25), uma vez que o
campo é uniforme. Como E é perpendicular à superfície, θ=0 e Φ=EA. Para as
outras faces, o fluxo será nulo, uma vez que não existe vetor campo elétrico
atravessando cada uma delas. Portanto, o fluxo total será:

Φ𝑡𝑜𝑡 = 𝐸𝐴.

Para calcular a carga interna, podemos utilizar a equação (29):

𝑞𝑖𝑛𝑡
Φ𝑡𝑜𝑡 = → 𝑞𝑖𝑛𝑡 = 𝜀0 Φ𝑡𝑜𝑡 = 𝜀0 𝐸𝐴.
𝜀0

O próximo exemplo ilustra como a Lei de Gauss pode ser utilizada para determinar o
campo elétrico de distribuições simétricas de carga.

Exemplo 7

Utilizando a Lei de Gauss, determine o campo elétrico gerado por um plano


infinito não condutor cuja densidade superficial de carga σ é constante e
positiva. Considere o campo elétrico apenas em pontos próximos do plano.

Solução

Primeiramente, devemos escolher uma superfície gaussiana conveniente para


o problema. Um cilindro fechado com seção transversal de área A, disposto de
modo a transpassar a placa conforme indicado na Figura 12, é uma boa escolha,
uma vez que envolve parte da distribuição de carga que gera o campo (nesse
caso não é possível envolver toda a distribuição por se tratar de um plano infinito).

71
Figura 12: Superfície gaussiana na forma de um cilindro fechado que atravessa parte
de uma lâmina de carga positiva. O campo é perpendicular à lâmina e, portanto,
apenas as extremidades da gaussiana contribuem para o fluxo.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Devido à simetria, pode-se concluir que E aponta para fora dos planos das
extremidades do cilindro (base e topo), perpendicularmente a eles. Uma vez que
E não atravessa a superfície lateral do cilindro, não há contribuição dessa área
lateral para o fluxo de campo elétrico. Podemos assumir que as extremidades
do cilindro estão equidistantes da placa de carga.

Também devido à simetria, o campo tem a mesma intensidade nas duas


extremidades do cilindro. O fluxo através de cada extremidade é EA (veja
equação (25)), sendo positivo em ambos os casos. A Lei de Gauss determina
então que:

𝒒𝒊𝒏𝒕 𝝈𝑨 𝝈
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = → 𝑬𝑨 + 𝑬𝑨 = →𝑬=
𝜺𝟎 𝜺𝟎 𝟐𝜺𝟎

Em que:

• q=σA é a carga interna ao cilindro (localizada na superfície do plano).

Observe que E é o mesmo para todos os pontos em cada lado do plano.

72
MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 2 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor na mídia 3 sobre introdução e fluxo elétrico.

NA PRÁTICA

A Lei de Gauss é muito útil no cálculo do campo elétrico de distribuições simétricas


de carga, e a compreensão do seu significado físico permite respostas rápidas para
problemas aparentemente complexos.

Observe a Figura 13, que mostra, em seção reta, uma esfera central metálica, duas
cascas metálicas e três superfícies gaussianas esféricas concêntricas de raio R, 2R e
3R. As cargas dos três corpos, distribuídas uniformemente, são as seguintes: esfera
metálica, Q; casca menor, 3Q; casca maior, 5Q. Coloque as três superfícies gaussianas
em ordem decrescente do módulo do campo elétrico em qualquer ponto da superfície.

Figura 13: Esfera de cascas metálicas.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Segundo a Lei de Gauss, o módulo do campo elétrico na superfície de cada esfera


gaussiana é diretamente proporcional à carga interna à superfície e inversamente
proporcional à área da superfície. Analisando cada gaussiana, temos:

73
• A gaussiana de raio R envolve apenas a esfera metálica de carga Q e possui
área superficial 4πR2.

• A gaussiana de raio 2R envolve a carga Q+3Q=4Q e possui área superficial


4π(2R)2=16πR2.

• A gaussiana de raio 3R envolve a carga 9Q e possui área superficial


4π(3R)2=36πR2.

Temos, então, que comparar as frações Q/(4πR²), 4Q/(16πR²), 9Q/(36πR²). Verifica-


mos que as três frações são, na realidade, iguais, e portanto os campos elétricos
para as três gaussianas também são iguais.

74
Resumo da Unidade 2

Nesta unidade você aprendeu o conceito de energia potencial eletrostática e de potencial


elétrico. Também aprendeu o significado de fluxo elétrico e como ele está associado ao
campo elétrico de uma distribuição de cargas por meio da Lei de Gauss.

CONCEITO

Nesta unidade você aprendeu os conceitos de energia potencial, potencial elétrico e


fluxo elétrico.

75
Referências

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.

_______ ;_______ . KRANE, K. S. Física 3. Rio de Janeiro: LTC, 2017.

TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros. Rio de Janeiro: LTC,
2009. v. 2.

76
UNIDADE 3

Capacitor, corrente e resistência


INTRODUÇÃO

Nesta unidade, você aprenderá um pouco mais sobre o comportamento dos condutores
e dos dielétricos, em particular sobre os condutores em equilíbrio eletrostático e o
fenômeno conhecido como blindagem elétrica. Aprenderá também os conceitos de
corrente elétrica, densidade de corrente e resistência. Alguns elementos dos circuitos
elétricos, como os capacitores e os resistores, também serão apresentados a você nesta
unidade. Por fim, você aprenderá um pouco sobre a Lei de Ohm e a dissipação de energia
nos circuitos elétricos.

OBJETIVO

Nesta unidade você será capaz de:

• Interpretar o comportamento físico dos condutores e dos dielétricos.


• Explicar corrente elétrica, densidade de corrente e equação da continuidade.
• Interpretar a Lei de Ohm e o efeito Joule.

78
Condutores e dielétricos

Condutores em equilíbrio eletrostático

Como você estudou na Unidade 1, os materiais são frequentemente classificados com


base na capacidade que os elétrons possuem de fluir por meio deles, conforme mostrado
no esquema abaixo.

Nos condutores, como


os metais, os elétrons
podem mover-se de forma
CONDUTORES relativamente livre. Outros
exemplos de condutores
incluem a água e o corpo
humano.
TIPOS DE MATERIAIS

Nos isolantes, os elétrons


quase não podem fluir.
ISOLANTES Exemplos de isolantes
incluem o vidro e os
plásticos.

Você estudou também que a Lei de Gauss permite calcular o campo elétrico para
distribuições de carga com elevado grau de simetria. No entanto a Lei de Gauss pode
ser utilizada para outro fim: determinar as propriedades de condutores com excesso de
carga elétrica. Uma dessas propriedades é que qualquer carga em excesso localizada
em um condutor isolado desloca-se totalmente para a superfície externa do condutor,
isto é, nenhuma carga excedente permanece no interior do corpo do condutor.

Você vai estudar agora o que ocorre quando uma quantidade de carga elétrica é
armazenada em um condutor isolado. Observe:

79
Essas cargas
podem, a princípio, Esse campo Em um intervalo
ser depositadas elétrico resulta em de tempo muito
em qualquer forças que atuam curto (da ordem Essa é a condição
lugar no condutor. sobre as próprias de 10 s) o campo
–9
de
Inicialmente, há cargas, fazendo elétrico se torna equilíbrio
um campo elétrico com que elas se nulo e as cargas eletrostático.
no interior do redistribuam no cessam o seu
condutor devido condutor. movimento.
às cargas.

Se, por outro lado, o campo no interior do condutor não fosse nulo, haveria uma força
atuando sobre os elétrons de condução do metal, o que resultaria na movimentação de
cargas (uma corrente elétrica). Uma vez que não se observa nenhuma corrente elétrica
em um condutor com excesso de carga, conclui-se que o campo elétrico é nulo no inte-
rior do condutor.

Importante

Vale ressaltar que se considerou somente um condutor “isolado”, isto é, um


condutor que está livre de influências externas. Um fio transportando uma
corrente elétrica, por exemplo, não pode ser considerado um condutor isolado,
uma vez que deve estar ligado a um agente externo, como uma bateria.
Nesse caso, o campo elétrico do fio não é nulo e o fio não está em equilíbrio
eletrostático.

Na sequência serão apresentadas algumas situações envolvendo condu-


tores isolados. Repare na aplicação da Lei de Gauss e nas conclusões a
que se pode chegar a partir dela.

80
Observe a Figura 1, a seguir. Ela mostra um condutor metálico com carga q pendurado
por uma linha isolante.

Figura 1: Condutor metálico isolado com carga q.

Fonte: Adaptada de Halliday, Resnick e Krane (2017).

Observe que o condutor possui uma forma arbitrária e um excesso de carga, ou seja, não
está neutro. Com o objetivo de determinar a carga no interior do condutor, traçamos uma
superficie gaussiana interna, bem próxima à superfície do condutor.

Admitindo-se que o condutor está sob condições eletrostáticas, isto é, que o campo elé-
trico no interior do condutor é nulo, a Lei de Gauss implica diretamente que a carga em
excesso no condutor deve estar exclusivamente na sua superfície externa.

Se o campo elétrico é nulo em todos os pontos no interior do condutor, será nulo também
em todos os lugares da superfície gaussiana que se encontra totalmente dentro do con-
dutor. Isso significa que o fluxo por meio da gaussiana escolhida é nulo.

Assim, a Lei de Gauss permite concluir que a carga envolvida pela superfície gaussiana
também é nula. No entanto, se não existem cargas no interior da gaussiana, elas devem
estar localizadas no seu exterior. Isso implica que toda a carga deve estar localizada na
superfície externa do condutor.

Suponha agora que o condutor tenha uma cavidade interna, conforme indicado na Figura
2. Se o condutor estiver eletricamente neutro, haverá alguma modificação na distribuição
de carga quando o material for escavado para formar a cavidade? As cargas aparecerão
na superfície da cavidade?

81
Figura 2: Cavidade interna em um condutor envolvida por uma superfície gaussiana.

Fonte: Adaptada de Halliday, Resnick e Krane (2017).

Nesse caso, é razoável supor que não deveria haver nenhuma modificação na distribui-
ção da carga quando o material fosse escavado. No entanto vamos utlizar a Lei de Gauss
para provar essa hipótese.

Primeiro, desenha-se uma gaussiana envolvendo a cavidade próxima à sua superfície,


porém ainda no interior do condutor. Como o campo elétrico é nulo em qualquer parte
no interior do condutor, não pode haver fluxo por essa superfície gaussiana. Isso signi-
fica que, de acordo com a Lei de Gauss, a superfície não pode envolver nenhuma carga
resultante. Logo, não pode haver nenhuma carga dentro de uma cavidade no interior de
um condutor isolado.

Se um objeto com uma carga q’ é colocado no interior da cavidade, a Lei de Gauss, mais
uma vez, requer que a carga resultante no interior da gaussiana seja nula, já que o campo
no interior do condutor continua sendo igual a zero.

Nesse caso, uma carga -q’ deve ser atraída para a superfície da cavidade, de modo que a
carga resultante seja nula no interior da superfície gaussiana.

Se o condutor externo estava originalmente carregado com uma carga q, então uma
carga q+q’ aparecerá na superfície externa, de modo que a carga total do condutor não
se altere.

Apesar de a carga excedente em um condutor em equilíbrio eletrostático deslocar-se


totalmente para sua superfície, tal carga, em geral, não se distribui uniformemente sobre
essa superfície (exceto para um condutor esférico isolado). Isso significa que a densida-
de superficial de carga σ (=dq/dA) varia de ponto a ponto sobre a superfície.

A Lei de Gauss pode, então, ser utilizada para determinar a relação entre a densidade
superficial de carga em qualquer ponto da superfície do condutor e o campo elétrico E
próximo à superfície externa nesse ponto.

82
Observe a Figura 3(a), que mostra uma superfície gaussiana cilíndrica, cujos topo e base
são paralelos à superficie do condutor e possuem uma pequena área A. Repare que uma
das extremidades permanece totalmente no interior do condutor, enquanto a outra está
localizada totalmente fora dele. Note, também, que as curtas paredes do cilindro são
perpendiculares à superfície do condutor. Para facilitar, uma vista ampliada da superfície
gaussiana é mostrada na Figura 3(b).

Figura 3: (a) Pequena gaussiana colocada na superfície de um condutor carregado. (b) Visão ampliada
da superfície gaussiana envolvendo uma carga q.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane(2017).

O campo elétrico externo próximo à superfície do condutor carregado deve ser perpen-
dicular à sua superfície. Se não fosse assim, haveria uma componente de E paralela à
superfície, e tal componente estabeleceria correntes superficiais que redistribuiriam as
cargas no condutor, violando a premissa de equilíbrio eletrostático (E =0 no interior do
condutor).

Assim, E é perpendicular à superfície e o fluxo pela extremidade da gaussiana que se


encontra dentro do condutor é nulo, uma vez que E =0 para todos os pontos no interior
do condutor. O fluxo pelas paredes laterais do cilindro também é nulo, já que as linhas
de E são paralelas à superficie lateral, não podendo atravessá-la. A carga envolvida pela
superfície gaussiana é q=σA.

O fluxo total pela gaussiana pode ser calculado como:

𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = �𝑬. 𝒅𝑨 + �𝑬. 𝒅𝑨 + �𝑬. 𝒅𝑨 = 𝑬𝑨 + 0 + 0 = 𝑬𝑨


𝑒𝑥𝑡𝑟𝑒𝑚𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑒𝑥𝑡𝑟𝑒𝑚𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑝𝑎𝑟𝑒𝑑𝑒𝑠
𝑒𝑥𝑡𝑒𝑟𝑛𝑎 𝑖𝑛𝑡𝑒𝑟𝑛𝑎 𝑙𝑎𝑡𝑒𝑟𝑎𝑖𝑠
(1)

83
Podemos agora determinar o campo elétrico usando a Lei de Gauss:

𝒒 𝒒 𝝈𝑨 𝝈
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = → 𝑬𝑨 = = →𝑬= (2)
𝜺𝟎 𝜺𝟎 𝜺𝟎 𝜺𝟎

Importante

Vale destacar os resultados obtidos acima. No interior de um condutor em


equilíbrio eletrostático, E=0, enquanto na superfície externa do condutor o
campo é normal e tem módulo E = σ⁄ε0.

Compare esse resultado com o obtido na Unidade 2 para o campo elétrico próximo a
uma placa (infinita) carregada: E = σ⁄(2ε0). O campo elétrico próximo à superfície de um
condutor é o dobro do campo esperado, considerando-se uma placa carregada. Como
podemos entender a diferença entre esses dois casos?

Uma placa carregada pode ser construída pulverizando-se cargas sobre uma das faces
de uma fina camada de plástico. As cargas se fixam nos pontos em que caem e não po-
dem se deslocar, uma vez que o plástico é um material isolante. Um condutor não pode
ser carregado do mesmo modo. Pode-se imaginar que a superfície do condutor seja
dividida em duas partes: a região próxima do ponto onde se deseja determinar o campo
elétrico e o restante do condutor. Se na Figura 3 a proximidade do condutor for suficien-
temente grande, a região próxima da gaussiana pode ser considerada como uma placa
de carga, e sua contribuição para o campo elétrico será E = σ⁄(2ε0).

Entretanto a carga no restante do condutor contribuirá com idêntica quantidade para o


campo elétrico, o que pode ser provado. Assim, o campo elétrico total é a soma dessas
duas contribuições, isto é, σ⁄ε0.

Suponha agora que duas placas com cargas +q e -q sejam colocadas bem próximas
uma da outra, conforme mostrado na Figura 4.

84
Figura 4: Duas placas condutoras com cargas iguais e opostas. E+ é o campo devido à placa carregada
positivamente, enquanto E- é o campo gerado pela placa com carga negativa.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Nesse caso, existe uma atração entre as cargas positivas de uma placa e as cargas ne-
gativas da outra, o que alinha as cargas nas superfícies das duas placas frente a frente.
Qual o comportamento das cargas em situações como essa?

• Considerada como uma placa de carga, cada superfície estabelece um campo elé-
trico E = σ⁄(2ε0).
• Na região entre as duas placas, elas contribuem com campos de mesma intensida-
de e sentido, de forma que o campo elétrico resultante é E = σ⁄ε0.
• Fora das duas placas, os campos se anulam e temos E =0.
• Esse é o campo elétrico de um capacitor de placas paralelas. O capacitor é um ele-
mento muito comum nos circuitos elétricos e possui a capacidade de armazenar
energia elétrica em um campo elétrico.

Importante

Como já vimos no caso dos isolantes elétricos, também chamados de


dielétricos, as cargas elétricas não possuem facilidade para fluir por meio do
material. Assim, qualquer carga em excesso costuma ficar fixa na posição onde
é colocada quando o material passa pelo processo de eletrificação. Portanto
diferentes tipos de densidade de carga podem ser gerados, uniformes ou não.

85
Importante

Os capacitores são componentes eletrônicos que armazenam energia elétrica


no campo elétrico criado em seu interior.

No esquema do capacitor de placas paralelas apresentado na Figura 4, por


exemplo, a energia é armazenada no campo gerado entre as placas. No entanto
os capacitores podem apresentar diferentes formas, como pode ser visto na
Figura 5.

Os capacitores são amplamente utilizados nos circuitos, possuindo diferentes


funções. Veja dois exemplos:

• São utilizados como filtros nos circuitos eletrônicos, onde bloqueiam a


corrente direta e permitem a passagem da corrente alternada.
• Outra aplicação ocorre nos circuitos encontrados nos rádios, onde
os capacitores são os responsáveis por sintonizar o rádio em uma
determinada estação (frequência).

A capacidade de um capacitor armazenar energia elétrica é medida pela sua


capacitância. Essa é uma característica do capacitor, que no SI é medida em
Farad (F).

Figura 5: Diferentes tipos de capacitores.

Fonte: [Link]/wiki/

86
Agora acompanhe dois exemplos envolvendo campos elétricos e os res-
pectivos cálculos que podem ser feitos.

Exemplo 1

O campo elétrico imediatamente acima de uma superfície carregada do tambor


de uma máquina de fotocópias tem uma intensidade E=2,3×105 N/C. Determine
a densidade superficial de carga sobre o tambor, se ele for um condutor.

Solução

Como o tambor é um condutor e o campo é dado para um ponto imediatamente


acima da sua superfície, podemos usar a equação (2). Logo:

𝝈 𝐂 𝛍𝐂
𝑬= → 𝝈 = 𝜺𝟎 𝑬 = 𝟖, 𝟖𝟓 × 𝟏𝟎−𝟏𝟐 𝟐, 𝟑 × 𝟏𝟎𝟓 = 𝟐𝟎, 𝟑𝟔 × 𝟏𝟎−𝟕 𝟐 ≈ 𝟐, 𝟎 𝟐
𝜺𝟎 𝐦 𝐦

Exemplo 2

Determine a relação entre o campo elétrico e a diferença de potencial existente


entre as placas de um capacitor de placas paralelas (Figura 4). Assuma que o
campo elétrico é uniforme entre as placas e que a distância entre elas é d.

Solução

Com base na Figura 4, vamos definir como V+ o potencial da placa positiva e


V_ o potencial da placa negativa. Se colocarmos uma carga de teste positiva q
em um ponto próximo da placa positiva, a carga será acelerada por uma força
elétrica que possui a mesma orientação de E: F=qE. O trabalho realizado pela
força elétrica para levar a carga da placa positiva para a placa negativa é:

− − −
𝑾±− = � 𝑭. 𝒅𝒔 = 𝒒 � 𝑬. 𝒅𝒔 = 𝒒𝑬 � 𝒅𝒔 = 𝒒𝑬𝒅
+ + +

Isso se deve ao fato de o deslocamento da carga ocorrer na mesma direção


e sentido de E, com o deslocamento total sendo igual à distância entre as
placas, d.

87
Na Unidade 2 vimos que a diferença de potencial entre as placas é dada por:

𝑾+− 𝒒𝑬𝒅
∆𝑽 = − =− = −𝑬𝒅 → ∆𝑽 = 𝑽− − 𝑽+ = −𝑬𝒅 𝐨𝐮 ∆𝑽 = 𝑬𝒅
𝒒 𝒒

Da relação obtida nesse exemplo deriva-se a outra unidade de campo elétrico


utilizada no SI: volt/metro (1 V/m=1 N/C).

Superfícies equipotenciais

Observe as três configurações de carga mostradas na Figura 6.

Figura 6: Linhas de campo elétrico (linhas cheias) e seções transversais de superfícies equipotenciais (li-
nhas tracejadas) para três configurações diferentes: (a) carga pontual positiva; (b) placa infinita de carga
positiva (mostrada ao longo de seu “corte”); e (c) dipolo elétrico.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Nesse caso observamos:

• Uma carga pontual positiva (Figura 6a).


• Uma placa positivamente carregada (Figura 6b).
• Um dipolo elétrico (Figura 6c), além de suas respectivas linhas de campo (linhas cheias).
• As linhas tracejadas representam as superfícies equipotenciais, isto é, superfícies
nas quais o potencial tem o mesmo valor em todos os pontos.

88
Para o caso da carga pontual, é fácil visualizar que as superfícies equipotenciais são
esferas concêntricas, uma vez que o potencial de uma carga puntiforme q a uma deter-
minada distância r é dado pela expressão (V=0 no infinito):

𝟏 𝒒
𝑽= (3)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓

Nenhum trabalho resultante é realizado pelas forças elétricas quando se move uma carga
de prova q0 sobre uma superfície equipotencial, uma vez que ΔV = 0 e W = –ΔU = –q0ΔV.
Mesmo que a trajetória da carga saia da superfície, nenhum trabalho é realizado desde
que o caminho inicie e termine na mesma superfície equipotencial.

A quantidade de trabalho realizado pelas forças elétricas quando a carga de prova se


move de uma superfície equipotencial para outra depende apenas da diferença de poten-
cial entre as duas superfícies. Isso se deve ao fato de a força elétrica ser conservativa,
como vimos na Unidade 2. Assim, o trabalho é independente da posição inicial e final da
carga em cada uma das duas superfícies.

A Figura 7 mostra partes de algumas superfícies equipotenciais que podem ser associa-
das a uma determinada distribuição de carga.

Figura 7: Superfícies equipotenciais.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Sobre o trabalho realizado pelas forças elétricas, podemos fazer três afirmações:

1. O trabalho realizado por forças elétricas quando uma carga se move ao longo do cami-
nho 1 é nulo, uma vez que o caminho inicia e termina na mesma superfície equipotencial.

89
2. Pela mesma razão, o trabalho realizado ao longo do caminho 2 também é nulo.

3. Já ao longo dos caminhos 3 e 4, o trabalho, além de não ser nulo, tem o mesmo valor
para ambas as trajetórias, uma vez que elas ligam pontos de mesma diferença de potencial
(VB-VA). Ao se mover uma carga q de qualquer ponto da superficie A para qualquer ponto
da superfície B, o trabalho realizado pelas forças eletrostáticas é igual a WAB = –q(–VB–VA).

Agora, considere que uma carga positiva q é liberada do repouso em um ponto b sobre a
equipotencial VB da Figura 7.

O trabalho exercido por um campo elétrico qualquer sobre uma carga positiva liberada
nesse campo é positivo. Isso se deve ao fato de a carga ser acelerada na mesma direção
e sentido do campo elétrico (F =qE ). Se W>0, ∆V<0, o que significa que a partícula carre-
gada “cairá” em direção a um equipotencial com V<VB.

O campo elétrico, portanto, deve ser perpendicular às superfícies equipotenciais no ponto
b. Se não fosse assim, haveria uma componente do campo elétrico ao longo da superfí-
cie equipotencial, a qual realizaria trabalho sobre uma carga que se movesse ao longo da
superfície. Isso, porém, violaria a definição de um equipotencial como uma superfície ao
longo da qual se pode mover livremente uma partícula carregada sem a realização de tra-
balho. Conclui-se, então, que as linhas de campo elétrico devem ser perpendiculares às
superfícies equipotenciais em todos os pontos. Note que na Figura 6 as linhas de campo
são perpendiculares aos equipotenciais em qualquer ponto.

Até aqui você conheceu duas propriedades importantes de um condutor


carregado e isolado: (1) o campo elétrico é nulo em seu interior e (2) a
carga se distribui sobre sua superfície externa. Uma terceira propriedade
importante de condutores carregados está relacionada com seu poten-
cial elétrico. Veja com mais detalhes a seguir.

Suponha que tenhamos um condutor de formato arbitrário que possui uma carga exce-
dente. As cargas estão livres para se mover e se distribuirão rapidamente sobre a super-
fície externa do condutor até que o equilíbrio seja atingido.

Na verdade, as cargas de mesmo sinal repelem-se mutuamente até alcançarem uma


distribuição na qual a distância média entre elas seja a maior possível, de modo que a
energia potencial do arranjo de cargas alcance um valor mínimo. O que pode acontecer?

90
Se as cargas não estão em equilíbrio sobre a superfície do
condutor, então algumas partes da superfície estariam em
Se as cargas estão
maiores ou menores potenciais que outras partes. As cargas
em equilíbrio sobre a
positivas, então, migrariam em direção às regiões com
superfície externa do
menor potencial, enquanto as cargas negativas migrariam
condutor, então essa
em direção às regiões com maior potencial. Porém isso
superfície deve ser um
contradiz a afirmação de que as cargas estão em equilíbrio
equipotencial.
e, portanto, a superfície externa do condutor deve ser um
equipotencial.

Se o campo elétrico é nulo no interior de um condutor, então podemos mover uma carga
de teste ao longo de qualquer caminho no interior, ou da superfície do condutor para o
interior, e o trabalho realizado sobre a carga de teste pela carga contida na superfície do
condutor será nulo. Isso significa que a diferença de potencial entre os pontos final e ini-
cial é nula. Portanto o potencial tem o mesmo valor nos dois pontos.

Assim obtém-se a terceira propriedade dos condutores: todo o condutor está a um mes-
mo potencial, que é o potencial da sua superfície externa. Essa conclusão é válida apenas
no caso eletrostático; quando discutirmos correntes fluindo por condutores, uma diferen-
ça de potencial pode existir entre diferentes pontos do condutor.

Note que nenhuma suposição foi feita sobre a forma do condutor:

• Se ele for esférico, a carga é uniformemente distribuída por toda a superfície.


• Para condutores que não possuem forma esférica, a densidade de carga não é uni-
forme sobre a superfície, mas ela ainda é um equipotencial.
• Mesmo para um condutor com cavidades internas (contendo ou não carga), todos
os pontos (superfície e interior) estão em um mesmo potencial.

Importante

Vale ressaltar uma informação importante contida na Figura 6. Observe que


o potencial elétrico sempre diminui ao longo das linhas de campo, isto é, as
superfícies equipotenciais possuem potenciais menores à medida que se
afastam da fonte.

91
Acompanhe a seguir um exemplo de superfícies equipotenciais paralelas
e observe os cálculos que podem ser feitos considerando-se as trajetórias
de um elétron.

Exemplo 3

A Figura 8 mostra uma família de superfícies equipotenciais paralelas (vistas


de perfil) e cinco trajetórias ao longo das quais um elétron pode ser deslocado
de uma superfície para a outra.

a) Qual é a orientação do campo elétrico associado às superfícies indicadas?


b) Para cada trajetória, o trabalho realizado para deslocar o elétron é negativo,
positivo ou nulo?

Figura 8: Superfícies equipotenciais para o exemplo 2.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Solução

a). Como foi discutido anteriormente, o potencial diminui ao longo das linhas de
campo elétrico. Portanto, o campo é perpendicular às superfícies equipotenciais
e aponta do maior potencial (90 V) para o menor (40 V).

b). O trabalho é dado pela expressão W=-q∆V=e∆V, uma vez que a carga do
elétron é -e. Abaixo analisamos o trabalho para cada trajetória:

92
• Trajetória 1: ΔV = 70 – 80 = –10 V; W < 0.
• Trajetória 2: ΔV = 70 – 80 = –10 V; W < 0.
• Trajetória 3: ΔV = 60 – 80 = –20 V; W < 0.
• Trajetória 4: ΔV = 70 – 60 = 10 V; W > 0.
• Trajetória 5: ΔV = 60 – 70 = –10 V; W < 0.

Um condutor em um campo elétrico

Materiais naturais e artificiais apresentam uma ampla faixa de propriedades elétricas,


as quais são determinadas, em parte, pelo comportamento de átomos individuais ou de
moléculas e, em parte, pelas interações entre os átomos ou as moléculas que consti-
tuem o material. A habilidade de um material conduzir eletricidade também depende de
condições como a sua temperatura e a pressão à qual está submetido.

Os condutores, como você já sabe, são materiais nos quais as cargas elétricas fluem
prontamente. Em muitos metais, por exemplo, cada átomo fornece um ou mais elétrons
externos (elétrons de valência) para todo o material. Frequentemente, esses elétrons são
tratados como um “gás” dentro do material, em vez de pertencer a um determinado á-
tomo em particular. Tais elétrons estão livres para se movimentar quando um campo
elétrico é aplicado ao material. Sob condições estáticas, o campo elétrico no interior de
um condutor é nulo, mesmo que o condutor tenha excesso de carga.

Em um isolante, por outro lado, os elétrons estão firmemente presos aos átomos, não
estando livres para se moverem sob efeito de campos elétricos externos. Um isolante
pode carregar qualquer distribuição de cargas elétricas, tanto na sua superfície como
no seu interior. Além disso, o campo elétrico no interior de um isolante pode ter valores
não nulos.

Mesmo os melhores condutores, como o cobre e a prata, apresentam uma pequena


resistência ao fluxo de eletricidade. Sob certas condições, frequentemente envolvendo
baixas temperaturas, a carga elétrica pode fluir por alguns materiais sem nenhuma re-
sistência. Essa propriedade é chamada de supercondutividade e os materiais sob essas
condições são denominados supercondutores. Alguns materiais podem ser relativamen-
te maus condutores à temperatura ambiente, mas se comportarem como supercondu-
tores em baixas temperaturas.

93
Suponha agora que se coloque um grande pedaço de um condutor em um campo elé-
trico uniforme, conforme mostrado na Figura 9. Pode-se considerar o material como um
“gás” de elétrons que estão livres para se mover em uma rede cristalina de íons, os quais
estão em posições fixas.

Figura 9: (a) Pedaço de um condutor colocado em um campo elétrico uniforme. Os elétrons livres do
condutor se movem para cima em resposta ao campo. (b) Os elétrons se acumulam na parte superior
do condutor, deixando um excesso de carga positiva na parte inferior. (c) Na parte interna do material, o
campo resultante é nulo.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

O que acontece nesses casos?

O campo elétrico E0 exerce uma força F =-eE0 sobre os elétrons, fazendo com que eles
se movam em um sentido contrário ao do campo. Os elétrons se movem rapidamente
para a superfície superior do condutor, deixando uma deficiência de elétrons (excesso
de carga positiva) na superfície inferior. Assim, quando se coloca um condutor em um
campo elétrico externo, as cargas se redistribuem quase instantaneamente e, após isso,
as condições eletrostáticas se aplicam.

As duas superfícies do condutor podem ser consideradas como lâminas de carga, con-
forme mostrado na Figura 9(b). O campo resultante entre as lâminas é, na verdade, a
soma vetorial dos dois campos: E0, o campo externo, e E’, o campo criado entre as lâmi-
nas devido à separação de carga.

Em termos das intensidades, a soma torna-se uma diferença, porque os campos estão
em sentidos opostos; assim, a intensidade do campo resultante é E=E0 -E’. Entretanto,
como visto anteriormente, no interior de um condutor sob condições estáticas o campo
elétrico resultante E precisa ser nulo. Logo, o campo elétrico aplicado E0 precisa mover
para a superficie apenas elétrons suficientes de modo a estabelecer um campo elétrico
E’ com a mesma intensidade de E0, fornecendo um campo elétrico resultante nulo dentro
do condutor (Figura 9c).

94
Fora da parte considerada, as lâminas de carga nas duas superfícies fornecem cam-
pos elétricos que se anulam, fazendo com que o campo resultante não seja alterado
nessas regiões.

Leia o exemplo abaixo, que trata de campo elétrico e seu respectivo


cálculo.

Exemplo 4

Um campo elétrico é aplicado sobre uma placa de cobre grande e fina. O


campo é uniforme e perpendicular ao plano da placa (como na Figura 9) e
sua intensidade é E0=450 N/C. Determine a densidade superficial de carga
resultante na placa.

Solução

O campo elétrico aplicado acarreta uma separação de carga no condutor, com


o acúmulo sobre a superfície inferior da placa de uma quantidade de carga
positiva e, consequentemente, um acúmulo equivalente de carga negativa
sobre a superfície superior. Assim, teremos uma densidade de carga positiva
na superfície inferior da placa e uma densidade equivalente, negativa, na parte
superior. Como o condutor está em equilíbrio eletrostático, o campo no seu
interior deve ser nulo. Portanto o campo gerado devido à separação de carga
deve ser igual a 450 N/C. Sabemos também que o campo gerado entre as duas
placas é dado por σ⁄ε0. Logo:

𝝈 𝐂 𝐧𝐂
= 𝟒𝟓𝟎 → 𝝈 = 𝟒𝟓𝟎𝜺𝟎 = 𝟒𝟓𝟎 𝟖, 𝟖𝟓 × 𝟏𝟎−𝟏𝟐 = 𝟑, 𝟗𝟖 × 𝟏𝟎−𝟗 𝟐 = 𝟑, 𝟗𝟖 𝟐
𝜺𝟎 𝐦 𝐦

MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor sobre uma experiência de física.

95
Corrente elétrica e densidade de corrente

Corrente elétrica

Suponha que exista uma maneira de conectar a parte superior do condutor da Figura 9
com a parte inferior. Assim, poderíamos remover elétrons do topo do condutor por meio
de um caminho externo, injetando-os de volta na região inferior. Nesse caso, não ocorreria
um acúmulo de carga nas regiões superior e inferior e as condições eletrostáticas
discutidas anteriormente não poderiam ser aplicadas. Logo, a conclusão obtida na seção
anterior não seria mais válida, pois o campo elétrico no interior do condutor, em geral,
será não nulo quando as cargas estiverem fluindo.

O fluxo contínuo de elétrons em um circuito fechado é uma representação simples de um


circuito elétrico. Tal fluxo, seja de elétrons ou de outras partículas carregadas, é chamado
de corrente elétrica.

Agora vamos examinar o fluxo de carga elétrica por meio de um ponto particular no
interior do material (Figura 10).

Figura 10: Elétrons atravessando uma superficie de área A. Os sentidos da corrente i e do vetor densida-
de de corrente J são contrários ao movimento dos elétrons.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

Considere que uma quantidade de carga dq atravessa uma pequena superfície de área A
durante um intervalo de tempo dt. A área A pode ser a área da seção transversal de um
fio pelo qual a carga está fluindo. A corrente elétrica i é definida como a carga líquida que
flui por meio da superfície por unidade de intervalo de tempo:

96
(4)

Para que a corrente elétrica exista, é necessário que exista um fluxo resultante de carga
elétrica por meio da superfície. Se partículas neutras passam pela superfície, nenhuma
corrente está fluindo, uma vez que tal fluxo não implica o transporte de carga elétrica.
Do mesmo modo, números iguais de cargas positivas e negativas atravessando a su-
perfície resultam em uma carga total nula. Além disso, se os elétrons estiverem se movi-
mentando de maneira aleatória pelo material, com o mesmo número de passagens pela
superfície em ambos os sentidos, a carga resultante atravessando a superfície é nula e
nenhuma corrente flui pelo material.

O sentido da corrente elétrica é definido como sendo o do fluxo de carga positiva. Apesar
de ter um sentido, a corrente é um escalar, e não um vetor. A unidade do SI para a corren-
te é o ampère (A), definida como 1 ampère = 1 coulomb/segundo.

Se a corrente é constante, a equação (4) torna-se:

(5)

Se a equação (4) for válida, a carga resultante que passa por qualquer superfície pode ser
determinada integrando-se a corrente:

(6)

Importante

Quando um fio de cobre está em equilíbrio eletrostático, o fio inteiro está ao


mesmo potencial e o campo elétrico é zero em todos os pontos do fio. Essa
situação é ilustrada na letra (a) da Figura 11.

97
Quando uma bateria é introduzida no circuito, uma diferença de potencial é
produzida entre os pontos do fio que estão ligados aos terminais da bateria.
Assim, a bateria produz um campo elétrico no interior do fio, o que faz com que
cargas se movam no circuito. Esse movimento de cargas elétricas constitui
uma corrente i (Figura 11, letra b).

Figura 11: (a) Um fio de cobre em equilíbrio eletrostático. (b) A introdução de uma
bateria no circuito produz uma diferença de potencial entre as extremidades do fio, o
que gera uma corrente elétrica i.

(a) (b)

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Densidade de corrente

Uma grandeza vetorial relacionada à corrente é a densidade de corrente J, ou corrente


por unidade de área, cuja intensidade é definida como:

(7)

O sentido de J é definido como o sentido do fluxo de carga positiva. Observando a Figura


10, percebe-se que os elétrons se movem para cima. Nesse caso, o sentido do vetor den-
sidade de corrente J é para baixo.

A corrente que atravessa qualquer superfície pode ser determinada integrando-se a den-
sidade de corrente:

(8)

98
Em que:

• dA é um elemento de área da superfície atravessada pela corrente.


• A integral é realizada sobre toda a superfície.
• O vetor dA é tomado como sendo perpendicular ao elemento de superficie, de modo
que o produto escalar [Link] seja positivo, correspondendo a uma corrente positiva.

Equação da continuidade

A densidade da corrente representa o movimento da densidade de carga. Assim, se a


carga se move para fora de um pequeno volume, a quantidade de carga no interior desse
volume diminui e, portanto, a taxa de variação da densidade de carga é negativa. A rela-
ção entre densidade de corrente e fluxo de carga é dada pela equação da continuidade:

(9)

Na qual:

∇.J é o divergente da densidade de corrente.


ρ é a densidade volumétrica de carga.

Importante

É fácil observar que a equação da continuidade mostra que existe conservação


da carga. Em outras palavras, só pode haver fluxo de corrente se a quantidade
de carga contida em um dado volume variar com o tempo, já que ela diminui ou
aumenta de acordo com a carga utilizada para alimentar a corrente.

99
Importante

Quando um circuito elétrico possui um ou mais nós (junções), a conservação


de carga é importante para determinarmos qual a corrente em cada fio. Devido
à conservação de carga, a corrente que entra em um nó é igual à corrente que
sai do nó, conforme mostrado na Figura 12, a seguir:

Figura 12: A conservação de carga permite relacionar as correntes nas junções:


i0=i1+i2 para o nó a, mostrado nas letras (a) e (b), isto é, a relação é válida qualquer que
seja a orientação dos três fios.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Curiosidade

As chamadas correntes alternadas (ac) são correntes que periodicamente


invertem seu sentido, ao contrário das correntes diretas (dc), que fluem em
apenas um sentido. Fontes comuns de corrente dc são as baterias elétricas, ao
passo que as correntes ac são produzidas por geradores elétricos e constituem
a forma na qual a energia elétrica é fornecida às residências e instalações
comerciais.

100
Agora, observe o exemplo de circuito elétrico e seu respectivo cálculo.

Exemplo 5

A Figura 13 mostra parte de um circuito elétrico.

Figura 13: Parte de um circuito elétrico.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Solução

Pela conservação de carga, a corrente total que chega a uma junção deve ser
a mesma que deixa a junção. Observando a figura da esquerda para a direita, a
corrente total que chega à primeira junção é 2 A + 3 A=5 A.

Essa corrente flui até a próxima junção, de onde uma corrente de 3 A flui
para a parte superior do circuito. Essa corrente se divide em 2 A para o fio na
extremidade direita superior e 1 A para o fio na extremidade esquerda superior.
Portanto, uma corrente de 2 A deve fluir, a partir da junção central, para a parte
inferior do circuito.

Essa corrente se soma a uma corrente de 4 A na junção logo abaixo do nó


central, formando uma corrente de 6 A que percorre o fio até o nó na extremidade
inferior direita do circuito. Nesse nó a corrente de 6 A se soma à corrente de 2
A proveniente do lado direito, resultando em uma corrente de 8 A que flui para
a direita no fio inferior do lado direito da malha.

Logo, i=8 A, fluindo para a direita.

101
MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor sobre capacitores.

102
Lei de Ohm e efeito Joule

Materiais ôhmicos – Lei de Ohm

Suponha que um condutor seja submetido a um campo elétrico externo E. Os elétrons


livres do condutor são acelerados pelo campo externo e, ocasionalmente, colidem com os
íons que constituem a rede cristalina do material. Assim, a velocidade média dos elétrons
é proporcional a E. A densidade de corrente também depende da velocidade, uma vez
que tanto i quanto j dependem do número de portadores de carga que atravessam uma
dada seção transversa do condutor, por unidade de tempo. É então razoável assumir que
j seja proporcional a E.

De fato, observa-se que uma ampla classe de materiais apresenta esse tipo de
comportamento. A constante de proporcionalidade entre J e E é a condutividade elétrica
σ do material, dada por:

(10)

Importante

Um alto valor de σ indica que o material é um bom condutor de corrente


elétrica. A condutividade é uma propriedade do material e sua unidade no SI é
o siemens por metro (S/m), em que o siemens é definido como 1 siemens = 1
ampère/volt.

É mais comum que os materiais sejam caracterizados por sua resistividade, que é o in-
verso da condutividade. A resistividade é dada por:

(11)

103
Importante

A unidade de resistividade no SI é o [Link], em que o ohm (símbolo Ω)


é definido como 1 ohm = 1 volt/ampère. Note que 1 ohm é equivalente a (1
siemens)-1.

A equação 10 é válida para materiais isotrópicos, cujas propriedades elétricas são as


mesmas em todas as direções. Nesses materiais, J e E terão sempre o mesmo sentido.

A Figura 14, a seguir, apresenta uma tabela com os valores da resistividade para alguns
materiais. Um isolante perfeito terá σ=0 (ou ρ→∞). Note que mesmo os bons isolantes
são condutores com um valor de condutividade muito pequeno.

Figura 14: Resistividade de alguns materiais à temperatura de 20 °C.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

104
Para alguns materiais, a resistividade não é uma constante e depende da intensidade do
campo elétrico. Já para outros materiais, observa-se que a resistividade permanece inal-
terada (constante) para uma ampla faixa de campos aplicados. Para esses materiais, um
gráfico da intensidade do campo aplicado E contra o módulo da densidade de corrente J
fornece uma linha reta cuja inclinação é a resistividade ρ, uma vez que:

(12)

Saiba mais

Os materiais em que a resistividade permece inalterada são chamados de


materiais ôhmicos. De forma equivalente, diz-se que tais materiais obedecem
à Lei de Ohm: a resistividade de um material é independente da intensidade, da
direção e do sentido do campo elétrico aplicado.

Muitos materiais homogêneos, incluindo metais condutores, obedecem à Lei


de Ohm para uma determinada faixa de valores de campo elétrico. Por outro
lado, quando o campo é suficientemente grande, todos os materiais violam a
Lei de Ohm.

Você viu, na Figura 14, os valores da resistividade de alguns materiais. Mas, em alguns
casos, você pode desejar conhecer também a resistência de um objeto em particular,
como um bloco de cobre com determinadas dimensões. Como isso pode ser feito?

A Figura 15 mostra um condutor homogêneo e isotrópico de comprimento L e com uma


área de seção transversal A, ao qual se aplicou uma diferença de potencial ∆V.

Figura 15: Uma diferença de potencial é aplicada a um condutor cilíndrico, estabelecendo uma
corrente i.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

105
No interior do objeto existe um campo elétrico uniforme E=∆V/L (um campo elétrico uni-
forme pode ser pensado como uma voltagem por unidade de comprimento). Se a den-
sidade de corrente também é uniforme ao longo da área da seção transversal, J=i/A. A
resistividade é, então:

(13)

Definimos agora a resistência R:

(14)

Combinando as equações (13) e (14), obtém-se a seguinte expressão para a resistência:

(15)

Importante

A resistência R é uma característica do objeto em particular e depende do


material do qual ele é feito, assim como das suas dimensões. A unidade de
resistência no SI é o ohm (Ω).

A equação (14) apresenta a base de uma outra formulação da Lei de Ohm. Para um
determinado objeto, podemos medir a corrente para diversas diferenças de potencial
aplicadas e, com os dados obtidos, desenhar um gráfico de i contra ∆V. Se o gráfico for
uma linha reta, o objeto é ôhmico, isto é, obedece à Lei de Ohm.

Uma forma equivalente da Lei de Ohm é: a resistência de um objeto inde-


pende da intensidade ou do sinal da diferença de potencial aplicada.

A Figura 16 mostra os gráficos corrente versus tensão para dispositivos ôhmicos e não
ôhmicos. Observe:

106
Figura 16: (a) Gráfico corrente-tensão para um material ôhmico; (b) gráfico corrente-tensão para um
material não ôhmico.

Fonte: Adaptado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

É importante ressaltar que a relação (14) não é uma declaração da Lei de Ohm, e sim
a definição de resistência. Por essa razão, essa relação é verdadeira tanto para objetos
ôhmicos quanto para objetos não ôhmicos. Entenda, no esquema a seguir, a diferença
entre os dois tipos:

Para dispositivos ôhmicos,


o mesmo valor de R será
Objetos ôhmicos
obtido para qualquer valor da
voltagem aplicada.

RESISTÊNCIA

Para dispositivos não


ôhmicos, é possível encontrar
Objetos um valor de resistência para
não ôhmicos um determinado valor de
∆V; variando ∆V, um valor
diferente de R será obtido.

107
Saiba mais

∆V, R e i são grandezas macroscópicas e estão associadas a um determinado


corpo ou região. As grandezas microscópicas correspondentes são E, ρ (ou σ)
e J, as quais possuem valores em todos os pontos do corpo.

Enquanto a equação (14) relaciona as grandezas macroscópicas, a equação


(10) relaciona as grandezas microscópicas. Quando tratamos de medições
elétricas em objetos condutores reais, o interesse primário está nas grandezas
macroscópicas, que são as grandezas indicadas nos medidores. Já as
grandezas microscópicas têm importância quando estamos interessados no
comportamento fundamental da matéria, o que é comum na área de pesquisa
da física do estado sólido (ou da matéria condensada).

Curiosidade

Os resistores (Figura 17a) são componentes eletrônicos que implementam a


resistência elétrica nos circuitos. Possuem diferentes funções, como a redução
do fluxo de corrente e o ajuste de nível dos sinais elétricos. Resistores de alta
potência também podem ser utilizados para dissipar grandes quantidades de
energia elétrica na forma de calor (o chamado efeito Joule, que será estudado
a seguir). São dispositivos ôhmicos, considerando as faixas de diferenças de
potencial normalmente utilizadas em circuitos (gráfico (a) da Figura 16).

Já os diodos (Figura 17b) são componentes que permitem a passagem de


corrente elétrica em um sentido apenas, bloqueando o fluxo de corrente no
sentido contrário. Assim, são utilizados para converter corrente alternada em
corrente direta. Os diodos mais comuns são de material semicondutor, sendo
dispositivos não ôhmicos (gráfico (b) da Figura 16).

108
Figura 17: (a) Diferentes tipos de resistores. (b) Diodos semicondutores.

Fonte: [Link]/wiki.

Agora, acompanhe os cálculos de resistência de um resistor e de um


bloco.

Exemplo 6

Determine a resistência do resistor cujo gráfico é apresentado na Figura 16(a).

Solução

O resistor obedece à Lei de Ohm, e seu gráfico corrente versus tensão


(voltagem) é dado pela Figura 16(a), que mostra a corrente i como função de
∆V. Como a relação ∆V=Ri é válida, a quantidade 1⁄R é o coeficiente angular da
reta mostrada no gráfico.

Escolheremos os seguintes pontos para o cálculo:

• V = +2 V, então i = +2 mA.
• V = 0 V, então i = 0 A.

109
Temos:

Exemplo 7

Um bloco retangular de ferro possui as seguintes dimensões: 1,2 cm x 1,2 cm


x 15 cm.

A) Qual a resistência do bloco medida entre as faces quadradas?


B) Qual a resistência entre as faces retangulares opostas? Para o ferro, ρ = 9,68
× 10–8 m à temperatura ambiente.

Solução

A) Nesse caso, o comprimento do bloco é L = 15 cm = 15 × 10–2 m, enquanto


a área atravessada pela corrente é A = 1,2 × 1,2 = 1,44 cm2 =1,44 × 10–4 m2.
Utilizando a equação (15), temos:

B) Já nesse caso, L = 1,2 cm = 1,2 × 10–2 m, e A = 1,2 × 15 = 18 cm2 = 18 × 10–4


m2. Logo:

110
Potência e efeito Joule

A Figura 18 mostra um circuito elétrico formado por uma bateria B conectada por fios,
de resistência desprezível, a um componente não especificado, que pode ser um resistor,
uma bateria recarregável ou qualquer outro dispositivo elétrico.

A bateria mantém uma diferença de potencial entre os seus terminais, cujo valor absolu-
to é V. Assim, graças aos fios de ligação, o potencial entre os terminais do componente
desconhecido também tem valor absoluto V, com um potencial mais elevado no terminal
a do componente que no terminal b (lembre-se que a corrente sempre flui do ponto com
maior potencial para o ponto com menor potencial).

Figura 18: Circuito com componente não especificado.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Uma vez que o circuito fechado conecta os terminais da bateria e a diferença de potencial
produzida por ela é constante, uma corrente constante i flui pelo circuito, do terminal a
para o terminal b. A quantidade de carga dq que atravessa o circuito em um intervalo de
tempo dt é dq = idt. Ao completar o circuito, a carga dq tem seu potencial reduzido, uma
vez que flui de um ponto de maior potencial para um de menor potencial. Portanto sua
energia potencial também é reduzida de um valor dU = dqV = iVdt, em que V é a redução
no potencial da carga (o valor absoluto é igual ao do potencial criado pela bateria).

No entanto, de acordo com a lei de conservação da energia, a redução da energia poten-


cial elétrica deve ser compensada pela geração de outra forma de energia. Isso significa
que, com a redução da energia potencial no trajeto ab dentro do dispositivo desconhe-
cido, deve ocorrer ganho de outra forma de energia, ou seja, deve ocorrer conversão de
energia. A potência P associada a essa conversão equivale à taxa de transferência de
energia dU/dt, que pode ser expressa na forma:

111
Assim, a taxa de transferência de energia elétrica é dada por:

(16)

Além disso, P é a taxa de transferência de energia da bateria para o componente:

• Se o componente é uma bateria recarregável, por exemplo, a energia se transforma


na energia química armazenada na bateria.
• Se o componente é um resistor, a energia se transforma em energia térmica e pode
provocar o aquecimento do resistor.

O processo de geração de calor devido ao fluxo de corrente elétrica por


meio de um condutor é chamado de efeito Joule.

De acordo com a equação (16), a unidade de potência é o volt-ampère (V.A). No entanto,


é possível mostrar que 1 V.A = 1 W (watt).

Podemos entender a conversão de energia da seguinte maneira:

Quando um elétron
atravessa um resistor Na escala microscópica,
com velocidade essa conversão de A energia convertida
constante, sua energia energia ocorre por meio em energia térmica
cinética permanece de colisões entre os é dissipada (perdida),
constante, enquanto elétrons e as moléculas uma vez que o
a energia potencial que compõem o processo não pode
elétrica perdida é resistor, o que leva a um ser revertido.
convertida em energia aquecimento deste.
térmica do resistor.

112
Para resistores ou outros componentes resistivos, a taxa de dissipação de energia elétri-
ca devido à resistência pode ser escrita na forma:

(17)

Em que:

• V = Ri.

Importante

Aqui vale chamar atenção para o fato de que a equação (16) é mais geral que as
equações (17) e se aplica a qualquer tipo de transferência de energia elétrica.
Já as relações (17) se aplicam apenas nos casos de conversão de energia
elétrica em energia térmica em um componente resistivo.

Agora veja um exemplo de aplicação da equação 17.

Exemplo 8

Um pedaço de fio resistor, feito de uma liga chamada Nichrome (níquel, cromo
e ferro), tem uma resistência de 72 Ω. Determine a taxa com a qual a energia é
dissipada nas seguintes situações:

1) Uma tensão de 120 V é aplicada às extremidades do fio.


2) O fio é cortado pela metade, e uma voltagem de 120 V é aplicada às extremidades
do pedaço resultante.

Solução

1) Como conhecemos R e V (ou ΔV), utilizamos a segunda relação em (17):

113
2) Nessa situação, o comprimento do fio cai pela metade e, segundo a equação
(15), sua resistência também. Lembre se que ρ é característica do material e
não muda, e A também não sofre alteração. Assim, R = 72/2 = 36 Ω, e:

Saiba mais

Os resistores, assim como outros elementos dos circuitos elétricos, muitas


vezes aparecem nos circuitos em arranjos diferentes. Analisando tais circuitos,
é útil substituir o arranjo de resistores por uma única resistência equivalente.
Quando os resistores são combinados em paralelo (Figura 19a), cada resistor
está submetido à mesma diferença de potencial ∆V. Assim, o fluxo de carga é
dividido entre os elementos.

Figura 19: Combinação de resistores em: (a) paralelo; (b) série.

Fonte: Adaptado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

Para os resistores da Figura 19(a), temos:

(18)

Em que:

• ∆V é a diferença de potencial entre os pontos a e b.

114
Como a corrente i é dividida devido à divisão do fluxo de carga, temos que ela
é a soma das correntes que fluem em cada resistor. Portanto:

(19)

Em que:

Req é a resistência equivalente dada por:

(20)

Já no caso dos resistores em série (Figura 19b), ambos os elementos devem


ser atravessados pela mesma corrente, e a diferença de potencial pelo arranjo
é a soma das diferenças de potencial em cada elemento:

(21)

Utilizando a Lei de Ohm para cada resistor:

(22)

Logo:

(23)

Em que:

(24)

As expressões (20) e (24) podem ser generalizadas para mais de dois resistores.

115
Exemplo 9

Figura 20: Malha do exemplo 9.

Fonte: Halliday, Resnick e Krane (2017).

(a) Determine a resistência equivalente da malha mostrada na Figura 20(a), em


que R1 = 4,6 Ω, R2 = 3,5 Ω e R3 = 2,8 Ω.
(b) Qual o valor da corrente i1 passando por R1 quando uma bateria de 12 V é
conectada entre os pontos a e b?

Solução

(a) Na Figura 20(a), observamos o circuito original. Primeiramente, achamos a


resistência equivalente R12 para os resistores 1 e 2, que estão em paralelo:

As resistências equivalentes R12 e R3 formam agora um arranjo em série (Figura


19b). Calculando a resistência equivalente R123:

b) Se uma bateria de 12 V é conectada entre os pontos a e b, significa que todo


o circuito está submetido a essa diferença de potencial. Para encontramos a
corrente total no circuito, utilizamos a resistência equivalente R123:

116
Como a diferença de potencial para o resistor 1 é a mesma da resistência
equivalente R12, fazemos:

∆𝑽𝒂𝒃 = ∆𝑽𝟏𝟐 + ∆𝑽𝟑 = ∆𝑽𝟏𝟐 + 𝒊𝑹𝟑 → ∆𝑽𝟏𝟐= ∆𝑽𝒂𝒃 − 𝒊𝑹𝟑 = 𝟏𝟐 − 𝟐, 𝟓 𝟐, 𝟖 = 𝟏𝟐 − 𝟕 = 𝟓 𝐕

Utilizando a Lei de Ohm apenas para o resistor 1 agora:

∆𝑽𝟏𝟐 𝟓
∆𝑽𝟏𝟐 = 𝒊𝟏 𝑹𝟏 → 𝒊𝟏 = = = 𝟏, 𝟏 𝐀
𝑹𝟏 𝟒, 𝟔

MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 3 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor sobre circuito bateria-resistor.

NA PRÁTICA

Como vimos, em qualquer condutor em equilíbrio eletrostático — oco ou não — as


cargas elétricas em excesso se distribuem pela superfície externa do condutor. Para
qualquer formato do condutor, as cargas se distribuem de modo que o campo elétri-
co resultante no interior do condutor seja nulo.

Desse modo, se um condutor receber uma faísca elétrica e ficar eletrizado, as cargas
se alojam na superfície externa do condutor. Esse efeito é conhecido como “blinda-
gem elétrica” e é o princípio de funcionamento das chamadas “gaiolas de Faraday”.

Com base nessas informações, como você explicaria o fato de os passageiros em


um avião não sofrerem danos quando a aeronave é atingida por um raio?

117
Resposta

O corpo dos aviões é feito de material condutor. Quando ele é atingido por um raio,
que nada mais é que uma descarga elétrica, as cargas em excesso se alojam na
superfície externa da aeronave, fazendo com que o campo elétrico no interior do
avião seja nulo. Assim, os passageiros no interior do avião não sentem os efeitos da
descarga elétrica.

118
Resumo da Unidade 3

Nesta unidade você aprendeu um pouco mais sobre o comportamento dos condutores e
dielétricos; conheceu alguns elementos dos circuitos elétricos, como os capacitores e os
resistores; e aprendeu sobre a corrente elétrica, a densidade de corrente e a Lei de Ohm.

CONCEITO

Nesta unidade você aprendeu os conceitos de:

• Capacitância: é a capacidade de um capacitor armazenar energia elétrica.


• Corrente elétrica: é o fluxo contínuo de elétrons ou de outras partículas carre-
gadas em um circuito fechado.
• Densidade de corrente: é uma grandeza vetorial relacionada à corrente ou cor-
rente por unidade de área.
• Resistência elétrica: é uma característica do objeto em particular e depende do
material do qual ele é feito, assim como das suas dimensões.

119
Referências

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.

_______ ;_______ . KRANE, K. S. Física 3. Rio de Janeiro: LTC, 2017.

TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros. Rio de Janeiro: LTC,
2009. v. 2.

120
UNIDADE 4

Campo magnético e indução


eletromagnética
INTRODUÇÃO

Nesta unidade, você aprenderá alguns conceitos básicos sobre magnetismo, como os de
campo magnético e polo magnético. Também aprenderá como calcular a força magnética
sobre cargas e correntes. Do mesmo modo que as correntes sentem a presença de
campos magnéticos, elas também são capazes de gerá-los. Você aprenderá que leis da
física permitem calcular o campo gerado por um fio transportando corrente. Por fim, será
apresentado o conceito de indução eletromagnética e você entenderá como uma corrente
pode ser induzida em um circuito elétrico sem que ele esteja conectado a uma bateria.

OBJETIVO

Nesta unidade você será capaz de:

• Aplicar a Lei de Faraday na solução de problemas de indução eletromagnética.

122
Campo magnético e força magnética sobre
cargas e correntes

Campo magnético

Na Antiguidade os gregos já conheciam o


“comportamento estranho” do mineral mag-
netita, um óxido de ferro conhecido como
pedra ímã. Sabia-se que um pedaço de
magnetita era capaz de atrair um pedaço de
ferro, mas que não exercia força mensurável
sobre a maioria dos outros materiais. Mais
tarde, descobriu-se que a magnetita tanto
poderia atrair como repelir um outro pedaço, dependendo da orientação relativa de cada
parte. É necessário ressaltar que, nos experimentos descritos, nenhum dos objetos tem
carga em excesso, de modo que as novas forças não podem ser de origem elétrica. Hoje
sabe-se que existe uma interação magnética entre os pedaços de magnetita, isto é, um
pedaço de magnetita estabelece um campo magnético e o outro pedaço responde a
esse campo.

É tentador buscarmos entender os campos magnéticos seguindo um raciocínio similar


ao que foi utilizado para os campos elétricos, isto é, imaginar que o magnetismo está
relacionado a cargas magnéticas. A teoria permite supor a existência de cargas mag-
néticas isoladas, mas elas nunca foram encontradas na prática, apesar de buscas ex-
perimentais intensivas. Por essa razão, atualmente acredita-se que cargas magnéticas
isoladas, chamadas de monopolos magnéticos, ou são muito raras ou não existem.

É possível utilizar uma carga de teste para sondar um campo magnético, como fizemos
com o campo elétrico? Experimentos indicam que a resposta para essa pergunta é sim,
mas somente se a carga estiver movendo-se em relação à fonte do campo. Isso ocorre
porque um campo magnético não atua sobre uma carga elétrica em repouso.

Assim, cargas em movimento sentem os efeitos de um campo magnético externo. Do


mesmo modo, cargas elétricas em movimento também geram campos magnéticos. De
fato, cargas elétricas em movimento são as responsáveis pela geração de campos mag-

123
néticos como o da Terra e dos ímãs (no último caso, as cargas são elétrons movendo-se
nos átomos). Lembre-se que o fluxo de cargas elétricas gera uma corrente elétrica.

No nosso estudo da eletrostática, associamos uma energia potencial elétrica a uma car-
ga de teste em um campo elétrico. Poderíamos, assim, pensar que existe uma energia
potencial magnética associada a uma carga elétrica em movimento em um campo mag-
nético. No entanto, em geral, isso não é verdade. Como acabamos de discutir, a força que
um campo magnético exerce sobre uma carga depende da velocidade da carga, e forças
dependentes da velocidade são não conservativas. E, como visto na Unidade 2, a energia
potencial só pode ser definida para forças conservativas.

O campo magnético, assim como o campo elétrico, pode ser representado por linhas de
campo. As regras são similares:

1 2

A direção da tangente a uma linha de


O espaçamento das linhas representa o
campo magnético em qualquer ponto
módulo do campo: quanto mais intenso,
fornece a direção do vetor campo
mais próximas estão as linhas.
magnético nesse ponto.

Saiba mais

A Terra, assim como outros planetas, possui um campo magnético cuja forma
se assemelha ao de uma barra imantada (conforme mostrado nas Figuras 1 e 2).

124
Figura 2: Campo magnético de
Figura 1: Campo magnético da Terra. uma barra imantada mapeado
utilizando limalha de ferro.

Fonte: [Link] (adaptado).

Para entender como o campo magnético terrestre pode ser traçado, imagine o
seguinte experimento:

Suspende-se um pequeno pedaço de magnetita com a forma de


uma agulha, de modo que ela fique livre para girar em torno de um
eixo vertical. Mesmo na ausência de outro pedaço de magnetita ou
de ferro nas proximidades, o pedaço gira espontaneamente em tor-
no do eixo vertical até que, por fim, atinge o repouso com uma das
suas extremidades, apontando em direção ao polo norte geográfico
da Terra. Identifica-se então essa extremidade pintando-a de verme-
lho. Independentemente do local onde se realize essa experiência
sobre a Terra, a extremidade vermelha sempre aponta para o Norte.

O dispositivo construído é, obviamente, uma bússola, a qual respon-


de ao campo magnético terrestre. A Terra, assim como um pedaço
de magnetita, estabelece um campo magnético, e a bússola respon-
de a esse campo. A direção para a qual a bússola aponta fornece a
direção e o sentido do campo magnético terrestre. A mesma bús-
sola magnética pode ser usada para traçar o campo magnético da
barra imantada da figura 2.

125
Uma das extremidades da barra foi pintada de vermelho, por ser
essa a extremidade que aponta para o Norte se a barra imantada
for suspensa como uma bússola. Por convenção, esse polo é deno-
minado simplesmente de polo norte do ímã, e a extremidade oposta
é denominada polo sul. As linhas de campo entram no ímã por uma
das extremidades (polo sul) e saem pela outra (polo norte).

Quando se coloca a bússola próxima à barra imantada, ela gira até


se alinhar com o campo magnético naquele ponto, isto é, até que a
sua direção e o seu sentido indiquem a direção e o sentido do cam-
po magnético gerado pela barra naquele ponto.

A partir de experimentos similares ao que acaba de ser descrito, deduz-se uma importan-
te regra para a interação de polos magnéticos: polos iguais repelem-se, enquanto polos
diferentes se atraem.

Força magnética sobre uma carga

Para começar a compreender as propriedades dos campos magnéticos, a primeira tare-


fa é estudar a força sobre uma carga movendo-se em um campo magnético, representa-
do pelo vetor B. Depois de muitos experimentos, constatou-se que:

Quando a velocidade v da partícula tem certa direção, a força mag-


nética FB é nula.

Para todas as outras direções do vetor velocidade, o módulo de FB é


proporcional a vsinΦ, em que Φ é o ângulo entre a direção em que a
força é zero e a direção de v.

126
Além disso, os experimentos também mostram que a direção de FB
é sempre perpendicular à direção do vetor velocidade v.

Em seguida, definimos o campo magnético B como uma grandeza vetorial cuja direção
coincide com aquela para a qual a força magnética FB é nula. Experimentos indicam que
o módulo do campo magnético pode ser escrito em termos do módulo da força,

Em que:

q é a carga da partícula.

Podemos expressar os resultados que acabamos de descrever usando a seguinte equa-


ção vetorial:

𝑭𝑩 = 𝒒𝒗 × 𝑩 (2)

Ou seja, a força que age sobre a partícula depende do produto vetorial da velocidade v
pelo campo B (medidos no mesmo referencial). A partir da equação (2), podemos escre-
ver o módulo de FB na forma

𝑭𝑩 = 𝒒 𝒗𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 (3)

Em que:

Ø é o menor ângulo entre as direções da velocidade v e do campo magnético B.

Observando a equação (2), verificamos que:

• A força é nula se a carga é zero ou se a partícula está parada.


• A força é zero se os vetores v e B são paralelos, se (Ø = 0°) ou antiparalelos (Ø = 180°).
• A força é máxima quando v e B são perpendiculares (Ø = 90°).

127
A equação (2) também fornece a orientação do vetor força. O resultado do produto veto-
rial v×B é um vetor perpendicular ao plano formado pelos vetores v e B. De acordo com a
regra da mão direita (figura 3), o polegar da mão direita aponta na direção de v×B quando
os outros dedos apontam de v para B, varrendo o menor ângulo entre os dois vetores (Ø).
Ainda de acordo com a equação (2):

• Se a carga q é positiva, a força tem a mesma orientação que v×B.


• Se q é negativa, a força e o produto vetorial v×B têm orientações opostas.
• No entanto, independentemente do sinal da carga, a força FB que age sobre uma car-
ga q que se move com velocidade v na presença de um campo magnético B é sempre
perpendicular a v e B.

Figura 3: Regra da mão direita.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

É fácil perceber, então, que a componente de FB na direção de v é sempre nula. Isso sig-
nifica que a força magnética não pode mudar a velocidade escalar v da partícula, ou seja,
a energia cinética da partícula também não muda. Na verdade, a força magnética pode
mudar apenas a direção de v, o que significa alterar a trajetória da partícula.

De acordo com as equações (2) e (3), a unidade de campo magnético no SI é o newton


por coulomb-metro por segundo; essa unidade é chamada de tesla (T): 1 T = 1 N/C(m/s)..

128
Exemplo 1

A Figura 4 mostra três situações nas quais uma partícula carregada, com
velocidade v, é submetida a um campo magnético uniforme B. Qual é a direção
de FB em cada uma das situações mostradas?

Figura 4: Carga submetida a um campo magnético em três situações diferentes.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Solução

Utilizando a regra da mão direita, temos as seguintes orientações para FB:

(a) z positivo.

(b) x negativo (observe que a carga é negativa).

(c) A força magnética é nula, pois v e B são antiparalelos.

129
Exemplo 2

Em uma região do espaço existe um campo magnético B, de módulo 1,2 mT,


orientado verticalmente para cima. Um próton com uma energia cinética de 5,3
MeV entra na região, movendo-se horizontalmente (direção x positivo). Qual é a
força exercida sobre o próton?

(Dados: 1 eV = 1,60 × 10–19 J, qp = 1,60 × 10–19 C, mp = 1,67 × 10–27 kg.)

Solução

Segundo o enunciado do exercício, o ângulo formado entre v e B é 90o, uma vez que o
primeiro vetor está na direção horizontal e o outro, na vertical. Logo:

𝑭𝑩 = 𝒒𝒑 𝒗𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝟗𝟎𝒐 = 𝒒 𝒗𝑩

No entanto não temos a velocidade da partícula. Para obtê-la, utilizamos a energia ciné-
tica K:

𝟏 𝟐𝑲 𝟐𝑲 𝟐 𝟓, 𝟑 × 𝟏𝟎𝟔 𝐞𝐕 𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 𝐦
𝑲= 𝒎𝒑 𝒗𝟐 → 𝒗𝟐 = →𝒗= = = 𝟑, 𝟐 × 𝟏𝟎𝟕
𝟐 𝒎𝒑 𝒎𝒑 𝟏, 𝟔𝟕 × 𝟏𝟎− 𝟐𝟕 𝐬

Achando agora a força:

𝑭𝑩 = 𝒒 𝒗𝑩 = 𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 𝟑,𝟐 × 𝟏𝟎𝟕 𝟏, 𝟐 × 𝟏𝟎−𝟑 = 𝟔, 𝟏 × 𝟏𝟎−𝟏𝟓 𝐍

Para encontrar a orientação do vetor força, devemos usar a regra da mão direita. Consi-
dere, então, que os vetores v e B possuem orientações de acordo com a figura 5(a) (os
pontinhos indicam que o vetor B está saindo do plano do papel). Nesse caso, o produto
vetorial v×B indica que o vetor força aponta para a direita. Como FB muda a orientação de
v, a partícula começa a descrever uma trajetória circular ao redor das linhas de campo
magnético (Figura 5(b)).

130
Figura 5: Força magnética atuando sobre um próton em um campo magnético. Os pontos indicam que o
campo magnético é perpendicular ao plano do papel, saindo dele.

Fonte: Adaptado de Halliday, Resnick e Krane (2017) e Halliday, Resnick e Walker (2019).

Até aqui você conheceu os conceitos e cálculos relativos à força magné-


tica sobre uma carga. Agora conheça os conceitos e cálculos relativos à
força sobre uma corrente.

Força sobre uma corrente

Uma corrente é um conjunto de cargas em movimento. Uma vez que um campo magné-
tico exerce força sobre cargas em movimento, ele também deve exercer força sobre um
fio transportando corrente. Assim, uma força é exercida sobre os elétrons de condução
no fio e, uma vez que os elétrons não podem escapar, a força acaba sendo transmitida
para o fio.

Considere o seguinte experimento:

Um fio vertical flexível é posicionado e preso nas duas extremidades, entre os polos de
um ímã, conforme mostrado na figura 6(a). Considerando que o campo magnético do
ímã aponta para fora do papel, três situações podem ocorrer:

• Figura 6(a) – Como o fio não está conduzindo corrente, nada acontece.
• Figura 6(b) – Nesse caso, uma corrente para cima passa a percorrer o fio, que se
encurva para a direita.
• Figura 6(c) – Nesse caso, a corrente é invertida e o fio se encurva para a esquerda.

131
Figura 6: Um fio flexível posicionado entre os polos de um ímã (apenas o polo mais distante aparece na
figura). (a) Quando não há corrente, o fio não se encurva. (b) Quando a corrente flui para cima, o fio se
encurva para a direita. (c) Quando a corrente flui para baixo, o fio se encurva para a esquerda. O circuito
completo não é mostrado na figura.

Fonte: Adaptado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

A Figura 7 mostra o que acontece no interior do fio quando ele é submetido a um campo
magnético. Um dos elétrons se move para baixo com uma velocidade vd (a velocidade
média dos elétrons no fio é chamada de velocidade de deriva). Nesse caso, Ø=90o e, de
acordo com a equação (2), uma força com módulo FB=evd B age sobre o elétron. Também
de acordo com a equação (2), a força aponta para a direita. Portanto, esperamos que o
fio como um todo experimente uma força para a direita.

Figura 7: Vista ampliada do fio da Figura 6. A corrente flui para cima, o que significa que a velocidade de
deriva dos elétrons aponta para baixo. O campo magnético aponta para fora do papel.

Fonte: Adaptado de Halliday, Resnick e Walker (2019).

132
Se invertermos o sentido do campo magnético ou o sentido da corrente, a força exercida
sobre o fio mudará de sentido e passará a apontar para a esquerda. Observe também
que não importa se consideramos cargas negativas se movendo para baixo (situação
real) ou cargas positivas se movendo para cima; em ambos os casos, o sentido da força
é o mesmo. Portanto, para efeito dos cálculos, assumimos que a corrente é constituída
por cargas positivas.

Considere agora um trecho do fio de comprimento L. Após um intervalo de tempo


t = L/vd, todos os elétrons de condução desse trecho terão atravessado o plano xx indi-
cado na figura. Portanto, nesse mesmo intervalo de tempo, uma carga q = it = iL/vd terá
atravessado o plano. Reescrevendo então a equação (3):

𝒊𝑳
𝑭𝑩 = 𝒒 𝒗𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 = 𝒗 𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝟗𝟎𝒐 = 𝒊𝑳𝑩 (4)
𝒗𝒅 𝒅

A equação (4) fornece uma expressão para a intensidade da força magnética exercida
sobre um trecho de fio retilíneo de comprimento L percorrido por uma corrente i e sub-
metido a um campo magnético perpendicular ao fio.

No caso mais geral, quando o campo magnético não é perpendicular ao fio, como na
Figura 8, a força magnética é dada pela expressão:

𝑭𝑩 = 𝒊𝑳 × 𝑩 (5)

Em que:

L é um vetor comprimento, cujo módulo é L e a direção é a mesma do trecho de fio, com


o sentido dado pela corrente.

Assim, o módulo de FB é dado por:

𝑭𝑩 = 𝒊𝑳𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 (6)

Em que:

Ø representa o menor ângulo formado entre os vetores L e B.

133
A direção do vetor força magnética é a do produto vetorial L×B, uma vez que tomamos a
corrente i como uma grandeza positiva. Além disso, de acordo com as regras do produto
vetorial, FB é perpendicular ao plano definido pelos vetores L e B, como mostra a Figura 8.

Figura 8: Força magnética atuando sobre um fio retilíneo percorrido por uma corrente i na presença de
um campo magnético B.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Exemplo 3

Um fio horizontal retilíneo, feito de cobre, é percorrido por uma corrente de 28


A. Determine o módulo e a orientação do menor campo magnético capaz de
manter o fio suspenso, isto é, equilibrar o peso do fio. A densidade linear (massa
por unidade de comprimento) do fio é 46,6 g/m.

Solução

O peso do fio (força gravitacional) atua para baixo. Assim, para que ele seja equilibrado pela
força magnética, ela deve ter intensidade igual, mas no sentido oposto ao peso. Logo,

𝒎𝒈
𝑭𝑩 = 𝑷 → 𝒊𝑳𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 = 𝒎𝒈 → 𝑩 =
𝒊𝑳 𝐬𝐢𝐧 𝝓

Em que:

m é a massa do fio.
g é a aceleração da gravidade.

134
Observando a expressão obtida para B, verificamos que seu módulo será o menor pos-
sível quando sinØ for o maior possível, isto é, devemos ter sinØ=1 e Ø=90o. Portanto o
campo deve ser perpendicular à direção do fio.

A figura 9 representa um esquema da situação, em que a corrente no fio, assim como o


vetor L, aponta para fora do papel.

Figura 9: Esquema do problema descrito no Exemplo 3.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

O vetor B deve, portanto, apontar para a esquerda ou para a direita. No entanto, para que
a força magnética aponte para cima no esquema mostrado, B deve apontar para a direita,
como indicado na figura. Por fim, determinamos o módulo do campo magnético:

𝒎𝒈 𝒎𝒈 𝟏𝟎
𝑩= = = 𝟒𝟔,𝟔 × 𝟏𝟎−𝟑 = 𝟏, 𝟕 × 𝟏𝟎−𝟐 𝐓 = 𝟏𝟕 𝐦𝐓
𝒊𝑳 𝐬𝐢𝐧 𝟗𝟎𝒐 𝑳 𝒊 𝟐𝟖

Em que:
• m/L = 46,6 × 10–3 kg/m3.
• g = 10 m/s2.

MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 4 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor na Mídia 1 sobre esse tema.

135
Lei de Biot-Savart e Lei de Ampère

Sabemos que partículas carregadas em movimento produzem campos magnéticos, isto é,


uma corrente elétrica também produz campo magnético. Esse aspecto do eletromagnetis-
mo, que é o estudo combinado da eletricidade e do magnetismo, foi uma surpresa para os
cientistas pioneiros no estudo dos fenômenos elétricos e magnéticos, pois acreditava-se que
eles não tinham conexão. Hoje esse fenômeno tornou-se extremamente importante, já que
constitui a base de funcionamento para um grande número de dispositivos eletromagnéticos.

Até aqui vimos como campos magnéticos externos atuam sobre cargas e
fios retilíneos transportando correntes. Agora veremos como podemos cal-
cular os campos magnéticos gerados por algumas distribuições de corrente.

Lei de Biot-Savart

Nosso primeiro passo será determinar o campo magnético produzido por um fio retilíneo
infinito transportando corrente.

A figura 10 mostra um fio de forma arbitrária percorrido por uma corrente i. Nosso objetivo
é calcular o campo magnético B em um ponto próximo ao fio, designado por P. Para tal,
dividimos mentalmente o fio em elementos infinitesimais e definimos para cada elemento
um vetor de comprimento ds, cujo módulo é ds e cuja direção é a mesma da corrente no
elemento. O campo gerado pelo elemento de corrente ids em P é designado por dB.

Figura 10: Um elemento de corrente ids produz um campo dB no ponto P, o qual está entrando no papel
(o símbolo × representa a extremidade traseira de uma seta).

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

136
Assim como os campos elétricos, os campos magnéticos podem ser somados para
determinar o campo total. Portanto, o campo total no ponto P pode ser obtido a partir da
soma, por integração, das contribuições de todos os elementos de corrente. Esse pro-
cesso, entretanto, é um pouco mais complicado pelo fato de o elemento de corrente ids,
responsável pelo campo magnético, ser uma grandeza vetorial.

A equação, obtida a partir de experimentos, que fornece o módulo do campo dB produzi-


do em P por um elemento de corrente ids é:

𝝁𝟎 𝒊𝒅𝒔 𝐬𝐢𝐧 𝜽
𝒅𝑩 = (7)
𝟒𝝅 𝒓𝟐

Em que:

θ é o ângulo entre as direções de ds.


^r é um vetor unitário que aponta do elemento de corrente para P.

A constante μ0 é chamada de constante magnética e vale:

𝐦 𝐦
𝝁𝟎 = 𝟒𝝅 × 𝟏𝟎 −𝟕 𝐓. ≈ 𝟏, 𝟐𝟔 × 𝟏𝟎−𝟔 𝐓.
𝐀 𝐀

A orientação de dB, que é para dentro do papel na figura 10, é a mesma do produto veto-
rial ds×r. Portanto podemos escrever a equação (7) na forma vetorial como:

𝝁𝟎 𝒊𝒅𝒔 × 𝒓�
𝒅𝑩 = (8)
𝟒𝝅 𝒓𝟐

Essa equação vetorial e sua forma escalar, equação (7), são conhecidas como Lei de
Biot-Savart.

De acordo com a equação (8), se um ponto P está na mesma reta que a corrente em um
trecho de um fio, o campo magnético produzido no ponto P é nulo, pois θ = 0° ou θ = 180°,
e sin(0°) = sin(180°) = 0.

137
Para ilustrar como a Lei de Biot-Savart funciona, vamos usá-la para calcular o campo
magnético gerado em um ponto P por um fio retilíneo infinito transportando uma corren-
te i. A Figura 11 é semelhante à Figura 10, exceto pelo fato de que agora o fio é retilíneo
e de comprimento infinito. Queremos calcular o campo produzido pelo fio no ponto P,
situado a uma distância perpendicular R do fio. O módulo do campo elementar gerado
em P por um elemento de corrente ids situado a uma distância r do ponto P é dado pela
equação (7). A orientação de dB é indicada na figura (para dentro do papel).

Observe que a contribuição para o campo magnético no ponto P de cada um dos ele-
mentos de corrente nos quais o fio pode ser dividido possui a mesma orientação, isto é,
apontam para dentro do papel. Assim, podemos calcular o módulo do campo magnético
produzido em P pelos elementos na metade superior de um fio infinitamente longo inte-
grando dB (equação (7)) de 0 a ∞.

Figura 11: Cálculo do campo magnético produzido por uma corrente em um fio retilíneo longo.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Considere agora um elemento de corrente situado na parte inferior do fio. Esse elemento
está a uma distância de P equivalente àquela que ds está de P. De acordo com a equação
(8), o campo magnético produzido por esse elemento, no ponto P, tem o mesmo módulo
e a mesma orientação que o campo magnético produzido pelo elemento ids da Figura 11.
O campo magnético produzido em P pela parte inferior do fio é, portanto, igual ao campo
produzido nesse mesmo ponto pela parte superior. Para determinar o módulo do campo
magnético total B, basta, portanto, multiplicar por dois o resultado da integração:

∞ ∞
𝝁 𝟎𝒊 𝐬𝐢𝐧 𝜽 𝒅𝒔
𝑩 = 𝟐 � 𝒅𝑩 = � (9)
𝟐𝝅 𝒓𝟐
𝟎 𝟎

138
As variáveis r, θ e s na equação (9) não são independentes. Como pode ser visto na Figura
11, elas estão relacionadas pelas equações:

Utilizando as relações (10), podemos transformar a equação (9) em uma integral tabela-
da, cujo resultado é:

Assim, o módulo do campo magnético a uma distância perpendicular R de um fio retilí-


neo muito longo (infinito) percorrido por uma corrente i é dado por:

O módulo do campo B na equação (12) depende apenas da corrente e da distância per-


pendicular R entre o ponto e o fio. As linhas de campo formam circunferências concêntri-
cas em torno do fio, como pode ser observado na Figura 12. O aumento do espaçamento
das linhas com o aumento da distância ao fio reflete o fato de B ser inversamente pro-
porcional a R. Os dois vetores B que aparecem na figura também mostram que o campo
diminui com o aumento da distância do ponto (onde se quer determinar o campo) ao fio.

Figura 12: Linhas de campo magnético produzidas por uma corrente em um fio retilíneo longo.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

139
O cálculo do módulo do campo magnético usando a equação (12) é simples; a dificulda-
de de muitos estudantes está, muitas vezes, em determinar o sentido do campo em um
ponto dado. No entanto existe uma regra simples para isso, conhecida como regra da
mão direita (Figura 13).

A aplicação da regra da mão direita à corrente no fio da Figura 12 é mostrada, em uma


vista lateral (Figura 13(a)). Para determinar o sentido do campo magnético gerado, en-
volva mentalmente o fio com a mão direita, com o polegar apontando no sentido da
corrente. Os outros dedos devem passar pelo ponto onde se quer determinar o campo; o
sentido para o qual os dedos apontam é a orientação do campo magnético nesse ponto.
Na vista do fio apresentada na Figura 12, B em qualquer ponto é tangente à linha de cam-
po magnético que passa pelo ponto. Já nas vistas da Figura 13, o campo é perpendicular
à reta tracejada que vai do ponto ao fio.

Figura 13: Regra da mão direita utilizada para determinar o sentido do campo magnético gerado por um
fio retilíneo longo. Na letra (a) a corrente flui para baixo, enquanto na letra (b) seu sentido é invertido, as-
sim como o do campo.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Agora que você já conhece a Lei de Biot-Savart e sabe como aplicá-la,


conheça também a Lei de Ampère.

140
Lei de Ampère

Uma outra maneira de determinar o campo magnético gerado por uma distribuição de
correntes é utilizar a Lei de Ampère. Essa lei relaciona a componente tangencial do cam-
po magnético (Bt) somada ao longo de uma curva fechada C à corrente ic que atravessa
qualquer superfície limitada por C. Assim como a Lei de Gauss no caso do campo elétri-
co, a Lei de Ampère pode ser usada para obter uma expressão para o campo magnético
em situações com alto grau de simetria. A formulação matemática da lei é:

Em que:

A integral de linha deve ser realizada sobre uma curva fechada C qualquer.
iC é a corrente resultante que atravessa qualquer superfície S delimitada por C (figura 14).

O sentido positivo para a integral de caminho ao longo de C está relacionado ao sentido


positivo da corrente iC por meio da regra da mão direita (figura 14). A Lei de Ampère é
válida apenas para correntes constantes e contínuas, isto é, correntes que não variam no
tempo.

Figura 14: O sentido positivo para a integral de caminho na Lei de Ampère está relacionado ao sentido
positivo da corrente que atravessa qualquer superfície S delimitada por C.

Fonte: Tipler e Mosca (2009).

Como mencionado anteriormente, a Lei de Ampère é útil para calcular o campo magné-
tico em situações que têm um alto grau de simetria. Nesses casos, a integral pode
ser escrita como A integral é chamada de integral de circulação. A Lei de
Ampère, assim como a Lei de Gauss, é válida mesmo que a distribuição de correntes
(ou cargas) não apresente simetria. Nesse caso, entretanto, a lei não é muito útil para o
cálculo do campo magnético.
141
A aplicação mais simples da Lei de Ampère é o cálculo do campo magnético gerado
pela corrente em um fio retilíneo infinitamente longo. Vale lembrar que a expressão para
o campo magnético produzido por um fio retilíneo longo já foi obtida por meio da Lei de
Biot-Savart. No entanto vamos realizar esse cálculo novamente para mostrar como a Lei
de Ampère pode ser utilizada para calcular campos magnéticos.

A Figura 15 mostra uma curva circular C envolvendo um longo fio, com o centro no fio.
Sabemos que a direção do campo magnético devido a cada elemento de corrente do fio
é tangente a esse círculo.

Figura 15: Geometria para o cálculo do campo magnético gerado por um fio condutor longo e retilíneo
usando a Lei de Ampère.

Fonte: Tipler e Mosca (2009).

Considerando, então, que o vetor B é tangente ao círculo em cada ponto, com B paralelo
a ds em cada ponto, e também que o módulo de B tem a mesma magnitude em qualquer
ponto do círculo, a Lei de Ampère torna-se:

(Podemos tirar B da integral, uma vez que seu valor é o mesmo em todos os pontos do
círculo.) A integral � 𝑑𝑠 nada mais é que o comprimento do contorno do círculo, 2πR.
Assim:

𝝁𝟎 𝒊𝑪
𝑩=
𝟐𝝅𝑹

Que é exatamente a equação (12).

142
Importante

As trajetórias escolhidas para a realização da integral � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗


são denominadas
amperianas.

Exemplo 4

A Figura 16 mostra três correntes de mesmo valor absoluto i. As curvas a, b, c


e d representam quatro caminhos diferentes de integração. Coloque as ampe-
rianas na ordem decrescente do valor absoluto de� 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ .

Figura 16: Quatro amperianas envolvendo diferentes valores de corrente total.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Solução

Pela Lei de Ampère, a integral � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ terá maior valor absoluto quanto maior for o valor
absoluto do termo μ0 iC, em que iC é a corrente total (resultante) envolvida pela amperiana
escolhida.

Então, para cada amperiana, temos:

143
𝑐: 𝑖𝑐 = −𝑖 → � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ = −𝜇0 𝑖 .

𝑑: 𝑖𝑑 = 2𝑖 → � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ = 2𝜇0 𝑖 .

As correntes que apontam para cima foram consideradas positivas. Analisando os resul-
tados, verificamos que a integral � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ tem o maior valor absoluto para a amperiana d,
em seguida para as amperianas a e c e, por fim, para a amperiana b.

Curiosidade

Como você viu, correntes elétricas são capazes de gerar campos magnéti-
cos. Um eletroímã (Figura 17) é um dispositivo que utiliza corrente elétrica
para gerar um campo magnético similar àquele produzido pelos ímãs natu-
rais, como a magnetita. Geralmente são construídos utilizando-se fios elétri-
cos espiralados, os quais envolvem um núcleo de ferro ou aço, ou outro ma-
terial com propriedades magnéticas significativas. Os fios espiralados geram
um campo magnético no seu interior, o qual pode ser amplificado devido à
presença do material magnético. Como é construído a partir de um fio que
transporta corrente, fazendo, assim, parte de um circuito, o eletroímã é desliga-
do quando o fluxo de corrente é interrompido.

Figura 17: Esquema de um eletroímã. A corrente flui a partir do terminal positivo.

144
MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 4 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor na Mídia 2 sobre esse tema.

145
Indução eletromagnética e Lei de Faraday

Indução eletromagnética

Como vimos anteriormente, a descoberta de que as correntes elétricas são capazes de


produzir campos magnéticos gerou grande surpresa entre os primeiros cientistas que
observaram o fenômeno. Talvez ainda mais surpreendente tenha sido a descoberta de
que um campo magnético pode gerar uma voltagem induzida capaz de produzir uma
corrente. Essa ligação entre um campo magnético e a corrente produzida (induzida) é
hoje chamada de Lei de Indução de Faraday.

As observações feitas por Michael Faraday, Joseph Henry e outros cientistas e que leva-
ram à formulação da lei de indução eram, a princípio, apenas ciência básica. Hoje, porém,
suas aplicações estão em toda parte. A indução é essencial, por exemplo, para a opera-
ção dos geradores elétricos que fornecem energia a nossas cidades e também para o
funcionamento dos fornos de indução utilizados na indústria.

Figura 18: Forno de indução industrial.

146
Os experimentos realizados por Faraday, Henry e outros mostraram o seguinte:

Nesse caso, não exis-


Se o fluxo magnético, por
A fem induzida geralmen- tem correntes induzidas,
meio de uma superfície
te é detectada observan- apenas a fem. As fems
limitada por um fio con-
do-se uma corrente no podem estar localizadas
dutor, varia com o tempo,
condutor. No entanto ela em uma parte específi-
uma força eletromotriz
pode existir mesmo que ca de um circuito, como
(ou fem) induzida, igual
o caminho condutor não entre os terminais de uma
em magnitude à taxa de
exista ou seja incompleto bateria. No entanto, fems
variação do fluxo, é induzi-
(não fechado). induzidas podem estar
da no fio.
distribuídas pelo circuito.

Na sequência, conheça a Lei de Faraday, que estabelece a ligação entre um campo mag-
nético e a fem produzida (induzida) por ele.

Lei de Faraday

A lei de indução relaciona a fem com o fluxo de campo magnético por meio de uma
superfície. O fluxo magnético Φm é definido de maneira similar ao fluxo elétrico, visto na
Unidade 2:

𝚽𝒎 = � 𝑩. 𝒅𝑨 (15)

Em que:

dA é um elemento infinitesimal da área que está sendo atravessada pelo campo magné-
tico.

O fluxo através de uma superfície plana de área A sobre a qual o campo B é uniforme é
dado por:

𝚽𝒎 = 𝑩𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽 (16)

147
Em que:

θ é o ângulo entre B e a normal à superfície.

O fluxo pode variar devido a um aumento ou diminuição de B, aumento ou diminuição de


A, ou variação do ângulo θ:

• Se o campo magnético é devido a um ímã permanente, por exemplo, podemos aumen-


tar ou diminuir a magnitude do campo aproximando ou afastando o ímã da superfície
(Figura 18).

• Se o campo magnético é devido a uma corrente em um circuito, a magnitude do campo


pode aumentar ou diminuir variando a corrente.

Figura 19: Quatro situações diferentes em que um ímã se aproxima (letras (a) e (c)) ou se afasta (letras (b)
e (d)) de uma espira. Em todas elas, o fluxo de campo magnético pela área da espira gera uma corrente
induzida na espira. O sentido da corrente depende da direção do campo e se o fluxo aumenta (ímã se
aproxima) ou diminui (ímã se afasta).

O fluxo pela superfície também pode variar devido ao ângulo θ. Nesse caso, podemos
variar a orientação da superfície ou a direção do campo magnético. Em cada caso, se
houver um caminho condutor ao longo do perímetro da superfície, tal como um fio me-
tálico, uma fem ε será induzida ao longo desse caminho. A fem induzida é dada por:

𝒅𝚽𝒎
𝜺=− (17)
𝒅𝒕

148
Essa equação é conhecida como Lei de Faraday. O sinal de menos na equação (17) está
relacionado com o sentido da fem induzida (horário ou anti-horário). Por ser uma volta-
gem, a unidade de fem no SI é o volt (V).

A expressão (17) geralmente é utilizada quando calculamos a fem induzida em um anel


ou espira de material condutor, como um fio. Se o campo magnético atravessa as espiras
que formam uma bobina, por exemplo, a fem induzida na bobina depende do número de
espiras N:

𝒅𝚽𝒎
𝜺 = −𝑵 (18)
𝒅𝒕

Exemplo 5

Um campo magnético uniforme faz um ângulo de 30° com o eixo de uma bo-
bina formada por 300 espiras circulares, cada uma com raio igual a 4,00 cm.
A intensidade do campo aumenta a uma taxa de 85,0 T/s, enquanto sua orien-
tação permanece fixa. Determine:

(a) A intensidade da fem induzida na bobina.

(b) Se a resistência da bobina é 200 Ω, qual é a corrente induzida na bobina?

Solução

(a) Utilizando as equações (16) e (18), temos:

𝒅𝚽𝒎 𝒅
𝜀 = −𝑵 = −𝑵 𝑩𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽
𝒅𝒕 𝒅𝒕

Como a intensidade do campo varia a uma taxa de 85 T/s, temos dB⁄dt=85 T/s (como
o campo aumenta, a derivada é positiva). Como apenas o campo varia, o termo A cosθ
pode ser tratado como uma constante. Logo:

𝒅𝑩 𝟐
𝜺 = −𝑵𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽 = − 𝟑𝟎𝟎 𝝅 𝟒 × 𝟏𝟎−𝟐 𝐜𝐨𝐬 𝟑𝟎𝒐 𝟖𝟓 = 𝟏𝟏𝟏 𝐕
𝒅𝒕

Ou |ε| = 111 V.

149
(b) Como a fem induzida é uma voltagem e a resistência da bobina é dada, podemos
utilizar a Lei de Ohm:

𝑽 𝜺 𝟏𝟏𝟏
𝒊= = = = 𝟎, 𝟓𝟓𝟓 𝐀
𝑹 𝑹 𝟐𝟎𝟎

Uma convenção de sinais permite que o sinal de menos na Lei de Faraday seja utilizado
para determinar o sentido da fem induzida, que é o mesmo da corrente induzida. De acor-
do com essa convenção, a direção positiva ao longo do caminho de integração C (figura
19) está relacionada à direção e ao sentido do vetor normal n,^ perpendicular à superfície
S limitada por C. Tal relação é estabelecida pela regra da mão direita: colocando seu
dedo polegar direito no sentido do vetor n,^ os dedos da sua mão se curvam no sentido
positivo de C. Assim, se (dΦm)⁄dt é positiva, então, de acordo com a equação (17), ε está
no sentido negativo de C.

Figura 20: A regra da mão direita ajuda a definir o sentido positivo da curva C e também o da fem induzida.

Fonte: Tipler e Mosca (2009).

Exemplo 6

A Figura 20 mostra uma espira condutora formada por uma semicircunferência


de raio r=0,20 m e três fios retilíneos. A espira está em uma região onde existe
um campo magnético uniforme B que aponta para fora do papel. O módulo do
campo é dado por B = 4,0 t2 + 2,0 t + 3,0 (B em teslas e t em segundos). A espira
está ligada a uma fonte ideal com uma força eletromotriz εfon = 2,0 V. Determine
o módulo e o sentido da fem induzida na espira no instante t = 10 s.

150
Figura 21: Espira em uma região com campo magnético B.

Fonte: Halliday, Resnick e Walker (2019).

Solução

Nesse caso, o campo magnético é perpendicular ao plano da espira. Assim, a expressão


(16) torna-se Φm = BA (θ = 0°). A partir da equação (17), temos então:

𝒅𝚽𝒎 𝒅 𝒅𝑩
𝜺=− =− 𝑩𝑨 = −𝑨
𝒅𝒕 𝒅𝒕 𝒅𝒕

Observando a figura 20, verificamos que o campo magnético atravessa apenas a área
limitada pela semicircunferência. Assim:

𝒅𝑩 𝝅𝒓𝟐 𝒅𝑩 𝝅𝒓𝟐 𝒅 𝝅 𝟎,𝟐 𝟐


𝜺 = −𝑨 =− =− 𝟒𝒕𝟐 + 𝟐𝒕 + 𝟑 = − 𝟖𝒕 + 𝟐 = −𝟎, 𝟎𝟔𝟐𝟖 𝟖𝒕 + 𝟐
𝒅𝒕 𝟐 𝒅𝒕 𝟐 𝒅𝒕 𝟐

Para t=10 s:

𝜺 = −𝟎, 𝟎𝟔𝟐𝟖 𝟖 𝟏𝟎 + 𝟐 = −𝟓, 𝟏𝟓 ≈ −𝟓, 𝟐 𝐕

Ou |ε| = 5,2 V. Como εfon = 2,0 V, o sinal da fem induzida é contrário ao da fem produzida
pela fonte acoplada à espira. Assim, se a fem da fonte tem sentido anti-horário (indicado
na figura), ε é contrária e tem sentido horário.

151
Saiba mais

A Figura 21 mostra uma barra condutora deslizando para a direita ao longo de


dois trilhos condutores conectados a um resistor. Na região existe um campo
magnético uniforme B direcionado para dentro da página. Considere o fluxo
magnético através da superfície plana delimitada pelo circuito, sendo n o vetor
normal à superfície, orientado para dentro da página. Enquanto o bastão se
move, a área da superfície S delimitada pelo circuito aumenta, assim como o
fluxo magnético através de S. Portanto uma fem (e uma corrente) é induzida
no circuito devido ao movimento da barra. Seja l o comprimento da barra e x a
distância desde a extremidade esquerda do circuito até a barra. A área de S é,
então, A = lx, e o fluxo magnético através da superfície é Φm = BA cos(0°) = Blx.
Assim, a fem induzida no circuito é:

𝒅𝚽𝒎 𝒅 𝒅𝒙
𝜺=− =− 𝑩𝒍𝒙 = −𝑩𝒍 = −𝑩𝒍𝒗 (19)
𝒅𝒕 𝒅𝒕 𝒅𝒕

Em que:

v=dx/dt é a velocidade da barra.


Esse tipo de fem é uma fem induzida por movimento.

Figura 22: Uma fem é induzida no circuito formado pela barra condutora e os trilhos
(ligados por um resistor) devido ao movimento da barra.

Fonte: Tipler e Mosca (2009).

152
MIDIATECA

Acesse a midiateca da Unidade 4 e veja o conteúdo complementar indicado pelo


professor na Mídia 3 sobre esse tema.

NA PRÁTICA

Você já deve ter passado pela seguinte situação: ao tentar aproximar dois ímãs,
à medida que eles ficam mais próximos, ocorre uma forte repulsão ou uma forte
atração. Por que isso ocorre? Se você quebrar um dos ímãs, com a quebra ocorrendo
na região entre os dois polos, conseguirá isolar um polo do outro?

Resposta

Quando aproximamos dois ímãs, podemos estar aproximando dois polos iguais ou
dois polos opostos, dependendo da posição relativa dos objetos.

Se aproximamos dois polos iguais, ocorre


uma forte repulsão e torna-se impossível
juntar um ímã com o outro.

Se aproximamos dois polos opostos,


ocorre uma forte atração.

Se quebramos um dos ímãs em uma região entre os polos, automaticamente


surgirão dois polos opostos – um polo sul no pedaço que contém o polo norte e
um polo norte na parte que contém o polo sul. Assim, não conseguiremos isolar um
polo magnético e passaremos a ter dois ímãs.

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Resumo da Unidade 4

Nesta unidade você aprendeu o conceito de campo magnético e força magnética sobre
cargas e correntes. Também aprendeu que um fio transportando corrente gera campo
magnético e viu como esse campo pode ser calculado. Por fim, aprendeu um pouco
sobre a indução eletromagnética e como uma corrente pode ser induzida em um caminho
condutor devido à variação do fluxo magnético.

CONCEITO

Nesta unidade você aprendeu os conceitos de campo magnético, força magnética


e indução eletromagnética.

• Campo magnético é um campo vetorial que descreve a influência magnética de


correntes e materiais magnetizados.
• Força magnética é uma medida da interação entre duas correntes elétricas ou
entre um campo magnético (externo) e cargas em movimento (corrente).
• Indução eletromagnética é a geração de uma força eletromotriz (fem) através de
um condutor elétrico devido a um fluxo magnético que varia no tempo.

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Referências

HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.

_______ ;_______ . KRANE, K. S. Física 3. Rio de Janeiro: LTC, 2017.

TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros. Rio de Janeiro: LTC,
2009. v. 2.

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