Fundamentos de Eletromagnetismo em Física II
Fundamentos de Eletromagnetismo em Física II
TEORIA E PRÁTICA
FÍSICA II –
TEORIA E PRÁTICA
Copyright © UVA 2019
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer
meio sem a prévia autorização desta instituição.
REVISÃO DIAGRAMAÇÃO
Clarissa Penna UVA
Theo Cavalcanti
Janaina Senna
Lydianna Lima
R586
5 MB : PDF.
ISBN 978-85-5459-095-6
1. Física. 2. Eletricidade. 3. Eletromagnetismo. 4. Condutores
elétricos. 5. Energia elétrica - Distribuição. I. Universidade Veiga de
Almeida. II. Título.
CDD – 621.3
Apresentação 6
Autor 8
UNIDADE 1
Campo elétrico 9
• Carga elétrica e Lei de Coulomb
UNIDADE 2
UNIDADE 3
UNIDADE 4
6
Por fim, na Unidade 4, aprenderemos um pouco sobre a magnetostática e o fenômeno
da indução eletromagnética. A magnetostática é o ramo do magnetismo que estuda
os campos magnéticos estáticos, isto é, que não variam no tempo. Nessa unidade,
discutiremos como os campos magnéticos são gerados e veremos que campos
magnéticos variantes no tempo também podem gerar campos elétricos, o que é
explicado pela indução eletromagnética. Esse é um dos princípios fundamentais do
Eletromagnetismo, sobre o qual operam dispositivos como os transformadores e os
geradores elétricos.
7
AUTOR
C. Lattes
8
UNIDADE 1
Campo elétrico
INTRODUÇÃO
Nesta unidade, você aprenderá o conceito de carga elétrica e verá que as cargas elétricas
interagem por meio de forças elétricas. A interação entre partículas carregadas estáticas
é descrita pela Lei de Coulomb e também pode ser interpretada pelo conceito de campo
elétrico. Ao longo da unidade, você aprenderá como a Lei de Coulomb pode ser utilizada
para calcular campos elétricos de distribuições discretas e contínuas de carga.
OBJETIVO
10
Carga elétrica e Lei de Coulomb
Carga elétrica
Por que isso ocorre? Parece razoável concluir que a atração entre o pente e o fio de cabelo
é o resultado de alguma entidade física que estaria sendo transferida de um para o outro
quando eles fossem mutuamente esfregados. A mesma entidade física seria transferida
de volta quando o fio de cabelo fosse atraído pelo pente e entrasse em contato com
ele pela segunda vez; aqui, o pente e o fio tornam-se neutros. Essa entidade física é
chamada de carga elétrica. Atualmente, a transferência de carga é compreendida com
base no fato de que elétrons podem ser removidos dos átomos de um objeto e ligados
aos átomos de outro. Assim, ao esfregarmos dois objetos inicialmente neutros, ocorre
uma transferência de elétrons de um para o outro. O resultado é que um objeto passa a
ter excesso de elétrons, enquanto o outro tem elétrons em falta.
• Carga positiva.
• Carga negativa.
Ele poderia ter escolhido outras denominações, mas o uso de nomes associados aos
sinais algébricos facilita os cálculos quando somamos as cargas para calcular a carga
11
total. Na maioria dos objetos, existe um número igual de partículas de carga positiva e de
carga negativa, e, portanto, a carga total é zero. Nesse caso, as cargas se compensam, e
o objeto está eletricamente neutro (ou, simplesmente, neutro).
Curiosidade
Imagine que você tenha andado sobre um tapete (houve, portanto, contato
entre seus sapatos e o tapete). Duas coisas podem acontecer:
Em geral, uma pessoa não nota que está com um excesso de carga até
aproximar a mão de uma maçaneta ou de outra pessoa. Quando isso acontece,
se o excesso de carga é relativamente grande, uma centelha elétrica surge
entre você e o outro objeto, eliminando a carga em excesso.
Esse tipo de fenômeno não ocorre em climas (ou dias) úmidos, porque o vapor
d’água presente no ar neutraliza o excesso de carga antes que este possa
atingir níveis elevados.
12
Classificação dos materiais
Exemplo
Isso ocorre porque você, a barra de cobre e a torneira são condutores que estão
conectados, pelo encanamento, à Terra, que é um condutor maior.
Se você utilizar uma luva feita de material isolante para segurar a barra de cobre,
por exemplo, o caminho de condutores até a Terra será interrompido, e a barra
ficará carregada por atrito enquanto você não tocar nela com a mão (sem luvas).
13
O coulomb, cujo símbolo é C, é a unidade de carga elétrica no Sistema Internacional – SI.
Lei de Coulomb
A equação utilizada para calcular a força exercida por partículas carregadas é chamada
de Lei de Coulomb. O nome decorre de uma homenagem feita a Charles Augustin de
Coulomb, que, com base em experimentos feitos em laboratório, a propôs em 1785.
A lei é válida apenas para partículas carregadas e para objetos que podem ser tratados
como cargas pontuais. Para objetos macroscópicos nos quais a carga está distribuída
de modo assimétrico, precisamos recorrer a métodos mais sofisticados. Assim, vamos
considerar, por enquanto, apenas partículas carregadas.
Uma partícula carregada exerce uma força eletrostática sobre outra partícula carregada. A
direção da força é a da reta que une as partículas, mas o sentido depende do sinal das cargas:
O termo força eletrostática (ou força elétrica) é usado para chamar a atenção para o
fato de que a lei é válida apenas quando a velocidade relativa entre as cargas é nula ou
muito pequena.
A força F, que atua sobre uma partícula com carga q1 devido à presença de uma carga
q2, é dada pela equação vetorial (Lei de Coulomb) abaixo:
𝒒𝟏 𝒒𝟐
𝑭 = 𝒌 𝟐 𝒓� (𝟏)
𝒓
Na qual:
• r é o vetor unitário na direção da reta que liga as duas partículas e no sentido da partícula
2 para a partícula 1 (Figura 1). Como todo vetor unitário, r é um vetor adimensional de
módulo 1; seu único propósito é indicar a direção e o sentido da força.
• k é uma constante positiva, conhecida como constante eletrostática, ou constante de
Coulomb.
• r é a distância entre as partículas.
• Os símbolos q1 e q2 podem representar cargas positivas ou negativas.
14
Figura 1: Força eletrostática a que a partícula 1 está submetida devido à presença da partícula 2 (na
figura, as duas partículas possuem cargas positivas).
F
r
q2 r
q1
𝟏 𝟐 𝟐
𝟗 𝐍𝐦 𝟗 𝐍𝐦
𝒌= = 𝟖, 𝟗𝟗 × 𝟏𝟎 ≈ 𝟗, 𝟎 × 𝟏𝟎
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝐂𝟐 𝐂𝟐
15
𝜺𝟎 = 𝟖, 𝟖𝟓 × 𝟏𝟎−𝟏𝟐 C 2/Nm2
𝟏 |𝒒𝟏 ||𝒒𝟐|
𝑭= (𝟐)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐
Em que: F12 é a força que a partícula 2 exerce sobre a partícula 1, por exemplo.
Dica
Para determinar a força resultante que age sobre uma partícula carregada que
está cercada por outras partículas carregadas, devemos calcular as forças que
cada uma das outras partículas exerce sobre a partícula escolhida.
16
Teorema das Cascas
• Primeira forma: uma partícula carregada que está situada do lado de fora de uma
casca esférica com distribuição uniforme de carga é atraída ou repelida como se toda
a carga estivesse concentrada no centro da casca (considere que a carga da casca
é muito maior que a carga da partícula, de modo que podemos desprezar qualquer
redistribuição da carga da casca devido à presença da partícula).
• Segunda forma: uma partícula carregada que está situada no interior de uma casca
esférica com uma distribuição uniforme de carga não é atraída nem repelida pela casca.
O Teorema das Cascas (em suas duas formas) pode ser provado matematicamente, mas
tal demonstração não faz parte dos nossos objetivos.
Exemplo 1
q1 q2
x
R
17
Solução
𝑭𝟏𝟐 = − 𝟏, 𝟏𝟓 × 𝟏𝟎−𝟐𝟒 𝐍 ̂𝐢
Exemplo 2
Considere: q1=-1,2 μC, q2=3,7 μC, q3=-2,3 μC, r12=15 cm, r13=10 cm e θ=32°.
18
Solução
𝑭𝟏 = 𝑭𝟏𝟐 + 𝑭𝟏𝟑
Primeiramente, calculamos a força que 2 exerce sobre 1.
Como as cargas possuem sinais opostos, a carga 2 atrai a carga 1, logo F12
está direcionada ao longo do eixo x, apontando no sentido x positivo.
𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟑 𝟏, 𝟐 × 𝟏𝟎−𝟔 𝟐, 𝟑 × 𝟏𝟎−𝟔
𝑭𝟏𝟑 = = 𝟖, 𝟗𝟗 × 𝟏𝟎𝟗 = 𝟐, 𝟒𝟖 N
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐𝟏𝟑 𝟎, 𝟏𝟎 𝟐
Para que F12 e F13 possam ser somadas, devemos representar F13 em termos
dos vetores unitários. Analisando a Figura 3, verificamos que:
Em que:
19
Logo,
𝑭13 = 𝑭13 𝐬𝐢𝐧 𝜽 𝐢̂ − 𝑭13 𝐜𝐨𝐬 𝜽 𝐣̂ = 2,48 𝐬𝐢𝐧 32° 𝐢̂ − 2,48 𝐜𝐨𝐬 32° 𝐣̂ = 1,31𝐢̂ − 2,10𝐣̂ N
Assim,
𝑭𝟏 = 𝟑, 𝟎𝟖 𝟐 + 𝟐, 𝟏𝟎 𝟐 = 𝟑, 𝟕𝟑 N
Pelos sinais das componentes, verificamos que F1 está no mesmo quadrante que
F13. Podemos, então, calcular o ângulo que F1 forma com o eixo do x (ângulo α)
fazendo:
𝑭𝟏𝟑𝒚 𝟐, 𝟏𝟎
𝐭𝐚𝐧 𝜶 = =− = −𝟎, 𝟔𝟖𝟐 → 𝜶 = −𝟑𝟒, 𝟑°
𝑭𝟏𝟑𝒙 𝟑, 𝟎𝟖
Na época de Benjamin Franklin, a carga elétrica era tratada como um fluido contínuo.
Hoje, porém, sabemos que mesmo os fluidos, como a água e o ar, não são contínuos, e
sim compostos por átomos e moléculas, isto é, a matéria é quantizada. Experimentos
revelam que o “fluido elétrico” também não é contínuo, e sim composto de unidades
elementares de carga. Todas as cargas positivas e negativas q têm a forma:
𝒒 = 𝒏𝒆 (𝟒)
Em que:
20
𝒆 = 𝟏, 𝟔𝟎𝟐 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 C
A carga elementar é uma das constantes mais importantes da natureza. Tanto o elétron
como o próton possuem uma carga cujo valor absoluto e, como pode ser observado na
tabela a seguir:
Életron e ou e- -e
Próton p +e
Nêutron n 0
Saiba mais
21
Curiosidade
22
4×10-15 m, 25.000 vezes menor que a minúscula nuvem eletrônica. Apesar disso, quase
toda a massa de um átomo está no núcleo, porque a massa de um próton (ou um nêutron)
é cerca de 2.000 vezes maior que a de um elétron.
(a) (b)
MIDIATECA
23
Campo elétrico de uma carga puntiforme e
de distribuições discretas de cargas
Campo vetorial
O conceito de campo é comum a várias áreas da Física. Como exemplo, podemos citar o
campo de temperaturas em uma sala, que corresponde à distribuição de temperaturas
obtidas quando são realizadas medidas em muitos pontos do ambiente. Do mesmo modo,
podemos definir o campo de pressões em uma piscina. Os campos de temperatura e de
pressão são campos escalares, já que estão associados a grandezas escalares, ou seja,
não possuem uma orientação.
Por outro lado, o campo elétrico é um campo vetorial, uma vez que está associado a uma
força que possui módulo e orientação. O campo elétrico consiste em uma distribuição
de vetores campo elétrico E um para cada ponto do espaço em torno de um objeto
eletricamente carregado.
Figura 7: (a) Carga de prova positiva q0 colocada nas proximidades de um objeto carregado. A carga
sofre a ação de uma força F devido à presença do objeto carregado. (b) Campo elétrico no ponto P
produzido por um objeto carregado.
F E
Carga de
prova q0 no Campo P
ponto P elétrico no
ponto P
Objeto Objeto
carregado carregado
(a) (b)
24
Em princípio, podemos definir o campo elétrico em um ponto nas proximidades de um
objeto carregado, como o ponto P da Figura 7, da seguinte maneira:
1. Colocamos no ponto P uma pequena carga positiva q0, que chamamos de carga
de prova (usada para sondar/medir o campo). Usamos uma carga pequena para
não perturbar a distribuição de carga do objeto.
𝑭
𝑬= (𝟓)
𝒒𝟎
De acordo com a equação (5), a unidade de campo elétrico no SI é newton por coulomb
(N/C).
O campo elétrico é um vetor cuja origem deve estar no ponto em que foi feita a medida.
Essa observação pode parecer trivial, mas desenhar o vetor E com a origem em outro
ponto qualquer geralmente leva a erros nos cálculos.
Podemos colocar a carga de prova em vários pontos do espaço para medir o campo
elétrico e assim levantar a distribuição de campo elétrico nas vizinhanças do objeto
carregado. Esse campo existe independentemente da carga de prova; é algo que um
objeto carregado cria no espaço a seu redor, mesmo que não haja ninguém para medi-lo.
O cientista britânico Michael Faraday, que introduziu a ideia de campo elétrico no século
XIX, encontrou um meio de representá-lo como um campo de vetores de diferentes
módulos e orientações. Ele imaginou que existissem linhas nas vizinhanças de qualquer
partícula ou objeto com carga elétrica. Atualmente, essas linhas são conhecidas como
linhas de campo elétrico.
25
Observe a imagem a seguir para entender melhor como se comportam as linhas de
campo elétrico.
Figura 8: (a) Linhas de campo de uma esfera uniformemente carregada (campo elétrico uniforme). (b)
Linhas de campo de duas partículas com cargas positivas iguais (campo não uniforme).
(a) (b)
A Figura 8(a) mostra um exemplo em que uma esfera possui carga negativa
uniformemente distribuída em sua superfície. Se colocarmos uma carga de prova
positiva nas proximidades da esfera, ela será atraída para o centro da esfera por uma
força elétrica. Portanto, em cada ponto da vizinhança da esfera, o vetor campo elétrico
aponta na direção do centro da esfera.
Esse campo pode ser representado pelas linhas mostradas na Figura 8(a). Em qualquer
ponto, como o indicado na figura, a direção do vetor campo elétrico coincide com
a direção da linha de campo elétrico nesse ponto. Se a esfera da Figura 8(a) tivesse
uma carga positiva uniformemente distribuída na superfície, os vetores campo elétrico
apontariam para longe da esfera, assim como as linhas de campo.
26
Importante
Note que as linhas de campo elétrico se afastam das cargas positivas, onde
começam, e se aproximam das cargas negativas, onde terminam.
Na verdade, o vetor campo elétrico em qualquer ponto é tangente à linha de campo elétrico
que passa por esse ponto e tem o mesmo sentido que a linha. Isso é facilmente visualizado
na Figura 8(a), em que as linhas de campo são retas. No entanto, a Figura 8(b) mostra o
caso de linhas curvas (duas partículas com cargas positivas iguais). As linhas de campo
são desenhadas de tal forma que o número de linhas por unidade de área, medido em um
plano perpendicular às linhas, é proporcional ao módulo do campo elétrico. Quanto mais
próximas as linhas, maior o módulo do campo. Para visualizar o padrão tridimensional
de linhas de campo em volta das partículas, basta girar mentalmente o padrão da Figura
8(b) em torno do eixo de simetria, que é uma reta vertical passando pelas partículas.
Como na Figura 8(a) a carga está uniformemente distribuída na superfície da esfera,
todos os vetores campo elétrico têm o mesmo módulo. O campo no qual os vetores têm
o mesmo módulo e a mesma orientação em todos os pontos do espaço é chamado
de campo elétrico uniforme. No caso da Figura 8(a), o campo é radial, isto é, está na
direção do raio da esfera. Já o campo da Figura 8(b) é não uniforme, ou seja, o campo
elétrico não é o mesmo em todos os pontos do espaço.
Agora, observe a Figura 9, que mostra parte de uma placa infinita com uma distribuição
uniforme de carga positiva na superfície direita. As linhas de campo em qualquer ponto do
espaço, dos dois lados da placa, são perpendiculares à placa e apontam para longe desta.
Naturalmente, nenhuma placa tem dimensões infinitas — essa é apenas uma forma de
dizer que o campo está sendo medido em pontos cuja distância em relação à placa é muito
menor que as dimensões dela, e que os pontos escolhidos estão longe das bordas.
27
Figura 9: (a) Linhas de campo elétrico de uma placa infinita positivamente carregada. (b) Vista lateral de (a).
(a) (b)
𝟏 𝒒𝒒𝟎
𝑭= 𝒓� (𝟔)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐
O sentido de F será para longe da partícula se a carga q for positiva (q0 é positiva), e na
direção da partícula se a carga q for negativa. De acordo com a equação (5), o vetor
campo elétrico criado pela partícula na posição da carga de prova é dado por:
𝑭 𝟏 𝒒
𝑬= = 𝒓� (𝟕)
𝒒𝟎 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐
Observando a equação (7), verificamos que o sentido de E é o mesmo que o da força que
age sobre a carga de prova: para longe da carga pontual, se q for positiva, e apontando
para a carga pontual, se q for negativa. Assim, podemos facilmente determinar a
orientação do vetor campo elétrico em pontos próximos de uma partícula simplesmente
observando o sinal de sua carga.
28
Para determinar o módulo do campo elétrico a uma distância r da partícula, usamos a
equação (7) omitindo o vetor unitário e tomando o valor absoluto da carga. Isso resulta
na seguinte equação:
𝟏 𝒒
𝑬= (𝟖)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐
O valor absoluto |q| na equação (8) deve ser utilizado para evitar o risco de obtermos um
valor negativo para E quando q for negativa e pensarmos que o sinal negativo tem algo a
ver com o sentido de E. A equação (8) fornece apenas módulo do vetor E.
Figura 10: Vetores campo elétrico em vários pontos das vizinhanças de uma carga pontual positiva.
29
Se, em um dado ponto do espaço, existem vários campos elétricos, criados por várias
partículas carregadas, podemos determinar o campo total colocando uma carga de prova
positiva no ponto e medindo a força exercida individualmente pelas partículas, como a
força F01 exercida pela partícula 1 sobre a carga de prova. Como as forças obedecem ao
princípio da superposição, temos:
Para calcular o campo elétrico, basta aplicar a equação (5) a cada uma das forças:
A equação (10) mostra que o princípio da superposição também se aplica aos campos
elétricos. Se quisermos calcular o campo elétrico produzido em um dado ponto por várias
partículas, basta calcularmos o campo produzido individualmente por cada partícula no
ponto em questão e, em seguida, somar vetorialmente todos os campos.
Exemplo 3
(b) Qual seria a força exercida pelo mesmo corpo carregado sobre uma
partícula alfa (q = 2e) se ela estivesse posicionada no local previamente
ocupado pelo elétron?
Solução
(a) Para encontrarmos o campo na posição do elétron, utilizamos a equação (5):
30
𝑭 𝟑, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟖 𝒋̂
𝑬= = −𝟏𝟗 = −𝟐, 𝟐𝟓 × 𝟏𝟎𝟏𝟏 𝒋̂ N/C
𝒒 −𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎
O resultado obtido nos mostra que o campo elétrico está no sentido negativo
de y.
(b) O corpo que gera o campo elétrico é o mesmo da letra (a). Portanto, o campo
na posição do elétron é o mesmo encontrado na letra (a), independentemente
de o elétron estar lá ou não. Como a posição foi ocupada por uma partícula
alfa, temos:
A força tem a mesma orientação do campo elétrico, mas seu sentido é oposto
ao da força sobre o elétron. É fácil perceber que a força sobre a partícula alfa é
duas vezes maior do que a força sobre o elétron, uma vez que sua carga é duas
vezes maior do que a carga do elétron.
Exemplo 4
31
Solução
𝑬 = 𝑬𝟏 + 𝑬𝟐 + 𝑬𝟑
Os três vetores devem ter sua origem no mesmo ponto, isto é, a origem do
sistema de eixos. Também devemos lembrar que cada um dos vetores deve
estar direcionado ao longo da linha que une o ponto onde se quer calcular o
campo (nesse caso, a origem) à carga que gera o campo. Como q1 é positiva
e q2 é negativa, os campos E1 e E2 possuem a mesma orientação e aparecem
somados, como mostrado na Figura 12. Já E3 aponta para a carga 3, que
também é negativa.
𝟏 𝒒𝟏 𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝟐𝑸 𝟏 𝟐𝑸 𝟏 𝑸
𝑬𝟏 + 𝑬𝟐 = 𝟐 + 𝟐 = 𝟐 + 𝟐 =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐
O vetor resultante E1+E2 tem a orientação indicada na Figura 12. O vetor E3 terá
o mesmo módulo:
32
𝟏 𝒒𝟑 𝟏 𝟒𝑸 𝟏 𝑸
𝑬𝟑 = = =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐
𝟏 𝑸 𝟎, 𝟖𝟔𝟔𝑸
𝑬𝟑𝒙 = 𝑬𝟑 𝐜𝐨𝐬 𝟑𝟎𝒐 = 𝟎, 𝟖𝟔𝟔 =
𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐
É fácil perceber que |(E1+E2)x| = E3x. Assim, o campo total será a soma das
componentes x de E1+E2 e E3:
𝟎, 𝟖𝟔𝟔𝑸 𝟏, 𝟕𝟑𝑸
𝑬=𝟐 ̂=
𝒊 𝒊̂
𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐 𝝅𝜺𝟎 𝒅𝟐
MIDIATECA
33
Campo elétrico de distribuições contínuas
de cargas
Até aqui, você viu como lidar com partículas carregadas, isoladas ou em
pequenos grupos. Vamos, agora, discutir uma situação mais complexa,
na qual um objeto, como uma barra ou um disco carregado, é tratado
como um conjunto de partículas carregadas.
O método utilizado para calcular o campo elétrico gerado por distribuições contínuas de
carga pode ser diferente para diferentes distribuições. Assim, ao discutirmos a respeito
de um arranjo em particular, é importante prestar atenção aos aspectos gerais do método
para poder aplicá-lo a outros problemas.
O método geral para determinar o campo elétrico de uma distribuição contínua de carga
consiste em:
• Se a carga está distribuída sobre uma linha (λ = densidade linear de carga ou carga
por unidade de comprimento).
• Se a carga está distribuída sobre uma superfície (σ = densidade superficial de carga
ou carga por unidade de área).
• Se a carga está distribuída sobre um volume (ρ = densidade volumétrica de carga
ou carga por unidade de volume).
𝟏 𝒅𝒒
𝒅𝑬 = (𝟏𝟏)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐
34
Em que: r é a distância do elemento dq escolhido até o ponto P. A direção e o sentido do
vetor dE, que é o campo elétrico gerado pela carga dq em P, devem ser determinados
pelo sinal de dq.
𝑬 = � 𝒅𝑬 (𝟏𝟐)
Exemplo 5
Considere uma linha de cargas, que pode ser uma haste fina carregada, por
exemplo. A linha tem comprimento L e uma densidade linear de carga λ = q/L
positiva e uniforme, em que q é a carga total da haste.
Solução
35
Figura 13: Linha de carga do Exemplo 5.
Também por simetria, pode-se concluir que Ez=0, porque, para cada dq com
z positivo, existe um dq correspondente com z negativo; assim, quando se
adicionam os vetores dE dos dois elementos de carga, as componentes z
cancelam-se.
𝟏 𝒅𝒒 𝟏 𝝀𝒅𝒛 𝒚 𝟏 𝝀𝒚𝒅𝒛
𝒅𝑬𝒚 = 𝒅𝑬 𝐜𝐨𝐬 𝜽 = 𝐜𝐨𝐬 𝜽 = =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 𝟑/𝟐
𝒅𝒒 = 𝝀𝒅𝒛
𝒓= 𝒛2 + 𝒚2
𝒚
𝐜𝐨𝐬 𝜽 = �𝒓
36
O campo total em P é:
𝟏 𝝀𝑳
𝑬𝒚 = (𝟏𝟒)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒚 𝒚𝟐 + 𝑳𝟐⁄𝟒
37
É importante verificar se os cálculos desenvolvidos para o campo elétrico
apresentam limites corretos. No limite y → ∞, a equação (14) tende à expressão
para o campo elétrico de uma carga pontual:
𝟏 𝒒
𝑬𝒚 =
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒚𝟐
Em que:
𝒒 = 𝝀𝑳
𝝀
𝑬𝒚 = (𝟏𝟓)
𝟐𝝅𝜺𝟎 𝒚
MIDIATECA
38
NA PRÁTICA
Um experimento simples de eletrostática que pode ser feito por você é o seguinte:
esfregue um pente de plástico no cabelo e, em seguida, aproxime o pente de
pequenos pedaços de papel previamente cortados. Você verá que os pedacinhos de
papel serão atraídos pelo pente.
39
Resumo da Unidade 1
CONCEITO
Nesta unidade você aprendeu os conceitos de carga elétrica, força elétrica e campo
elétrico.
40
Referências
HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.
41
UNIDADE 2
Nesta unidade, você irá aprender o conceito de energia potencial eletrostática e verá
como esse conceito está associado ao potencial elétrico. Também verá que apenas di-
ferenças de potencial têm significado físico. Por fim, irá aprender o significado de fluxo
elétrico e verá como ele está associado ao campo elétrico gerado por uma distribuição
de cargas por meio da Lei de Gauss.
OBJETIVO
43
Potencial elétrico e diferença de potencial
Ambas as abordagens são úteis quando se estudam as interações entre objetos carregados.
Energia Potencial
Antes de definir potencial elétrico, vamos discutir o conceito de energia potencial. Mui-
tos fenômenos elétricos estão relacionados com a transferência de grandes quantidades
de energia. Quando um relâmpago atinge a Terra a partir de uma nuvem, tipicamente,
uma energia da ordem de 108 J é liberada em forma de luz, som, calor e onda de choque.
Para entender de onde vem essa energia e como ela é armazenada nas nuvens, devemos
considerar a energia associada com as forças elétricas.
A lei da força eletrostática vista na Unidade 1 nos diz que a força elétrica é proporcional
ao quadrado da distância entre as cargas:
Considere então a seguinte situação: uma carga q1 cria um campo elétrico em uma
determinada região do espaço, enquanto uma carga q2 é deslocada lentamente nesse
campo. Se quisermos calcular o trabalho realizado para transportar a carga q2 de um
ponto inicial i até um ponto final f, devemos resolver a integral:
44
Em que:
Assim, quando uma carga desloca-se de uma posição para outra, sob a ação da força
elétrica de outra carga (a qual supõe-se permanecer em repouso), o trabalho realizado
pela força elétrica sobre a primeira carga depende apenas dos pontos inicial e final, e não
depende do caminho percorrido entre os pontos.
Uma força que tem essa propriedade especial é chamada de conservativa. Para uma
força conservativa é possível definir uma energia potencial. A diferença de energia
potencial ∆U, gerada à medida que um objeto move-se de sua posição inicial para sua
posição final, é igual ao trabalho com sinal negativo:
∆𝑼 = 𝑼𝒇 − 𝑼𝒊 = −𝑾𝒊𝒇 (4)
𝟏 𝟏 𝟏 𝟏
∆𝑼 = 𝑼𝒇 − 𝑼𝒊 = −𝑾𝒊𝒇 = −𝒌𝒒𝟏 𝒒𝟐 − = 𝒌𝒒𝟏 𝒒𝟐 − (5)
𝒓𝒊 𝒓𝒇 𝒓𝒇 𝒓𝒊
45
Essa diferença de energia potencial está associada com o sistema composto por q1 e q2,
e não com cada uma das cargas separadamente.
Quando as cargas têm sinais opostos, o produto q1q2 é negativo na equação (5), tornando:
𝟏 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐
∆𝑼 = 𝑼𝒃 − 𝑼𝒂 = 𝒌𝒒𝟏 𝒒𝟐 − ; 𝒓𝒂 → ∞ 𝐞 𝑼𝒂 = 𝟎: 𝑼𝒃 = 𝒌
𝒓𝒃 𝒓𝒂 𝒓𝒃
Logo:
𝒒𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐
𝑼 𝒓 =𝒌 = (6)
𝒓 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓
46
Portanto, chegamos à seguinte conclusão:
• U é positivo sempre que q1 e q2 tiverem sinais iguais, o que corresponde a uma força
repulsiva.
• U é negativo sempre que as cargas tiverem sinais contrários, o que corresponde a
uma força atrativa.
Em um sistema isolado de duas cargas, a energia mecânica total é então dada por:
𝟏 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐
𝐸= 𝒎𝒗𝟐 + (7)
𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓
Se, em vez disso, impelir-se q2 em direção a q1 com uma certa energia cinética inicial,
então ΔU > 0 à medida que a separação entre as partículas diminui. Dessa forma,
para a conservação de energia, será necessário que ΔK < 0 e, assim, que a velocidade
de q2 diminua.
Dica
47
Exemplo 1
Solução
1 𝑞1 𝑞2 1 𝑞1 𝑞2 𝑞1 𝑞2 1 1
𝑈𝑖 + 𝐾𝑖 = 𝑈𝑓 + 𝐾𝑓 → +0 = + 𝐾𝑓 → 𝐾𝑓 = −
4𝜋𝜀0 𝑟𝑖 4𝜋𝜀0 𝑟𝑓 4𝜋𝜀0 𝑟𝑖 𝑟𝑓
1 1
𝐾𝑓 = 8,99 × 109 32 × 10−6 −18 × 10−6 − = 112,6 ≈ 113 J
0,046 0,023
48
Potencial elétrico
A variação da energia potencial desse sistema de duas cargas é dada pela equação
(5). ∆U é diretamente proporcional ao tamanho da carga de teste, ou seja, a quantidade
∆U/q0 é independente de q0 e é uma característica apenas da carga central q.
∆𝑼
∆𝑽 = (8)
𝒒𝟎
Ou
𝑼𝒇 − 𝑼𝒊
𝑽𝒇 − 𝑽𝒊 = (9)
𝒒𝟎
Definindo uma escolha adequada de ponto de referência para o potencial (como no caso
da energia, Ua=0 para uma separação inicial infinita das cargas), podemos obter uma
expressão para o potencial de uma configuração em particular, em vez da mudança de
potencial para uma mudança na configuração. Somente diferenças no potencial têm
significado físico, então existe liberdade para a escolha da referência mais conveniente.
Quando um potencial é escolhido para ser nulo, em pontos que estão infinitamente
distantes de q, o potencial elétrico é:
𝑼
𝑽= (10)
𝒒𝟎
49
É importante ressaltar que o potencial nulo em um ponto não significa ne-
cessariamente que a força elétrica e o campo elétrico são nulos nesse ponto.
Dica
Já foi discutido que a força elétrica é conservativa. Portanto, a diferença de energia potencial
quando uma carga de teste é deslocada entre dois pontos depende apenas das posições
dos pontos, e não do caminho escolhido para mover a carga de um ponto ao outro.
Para uma diferença de potencial arbitrária ∆V, produzida por um arranjo de cargas
qualquer, pode-se escrever a equação (8) na forma:
∆𝑼 = 𝒒∆𝑽 (11)
A equação acima mostra que, quando qualquer carga q move-se entre dois pontos cuja
diferença de potencial é ∆V, o sistema experimenta uma variação de energia potencial ∆U.
A diferença de potencial ∆V é estabelecida por outras cargas que estão fixas em repouso,
de forma que o movimento de q não afeta ∆V.
Vale ressaltar que as diferenças de potencial são de interesse fundamental e que a equação
(10) depende da designação do valor nulo para um potencial na posição de referência
(infinito). Na verdade, esse potencial de referência poderia também ser escolhido com
um outro valor qualquer. Da mesma forma, qualquer outro ponto poderia ser escolhido
como posição de referência. Em muitos problemas, a Terra é escolhida como referência
50
e designada com o valor de potencial nulo. A posição do ponto de referência e o respectivo
valor do potencial são escolhidos de forma conveniente; outras escolhas mudariam
o potencial em toda parte da mesma quantidade, mas não afetariam a diferença de
potencial entre dois pontos quaisquer.
Observe o exemplo:
Exemplo 2
(b) Supondo que os terminais e suas cargas não se desloquem e que nenhuma
força externa atue sobre o sistema, qual a variação da energia cinética da
partícula?
Solução
(b) Como nenhuma força externa atua sobre o sistema, sua energia mecânica
deve permanecer constante. A conservação de energia mecânica nos diz que:
51
Curiosidade
Vamos agora considerar o potencial devido a uma carga pontual positiva q. Deixa-se uma
carga de teste q0 se mover do ponto a para o ponto b nas proximidades de q. Deseja-se
usar a carga de teste para encontrar a diferença de potencial entre os dois pontos devido
a q. A diferença de energia potencial ∆U para essa situação já foi calculada (equação (5)).
Reescrevendo a equação para as cargas q e q0 e utilizando a equação (9) para a diferença
de potencial, temos:
𝑼𝒃 − 𝑼𝒂 𝒌𝒒𝒒𝟎 𝟏 𝟏 𝒒 𝟏 𝟏
𝑽𝒃 − 𝑽𝒂 = = − → 𝑽𝒃 − 𝑽𝒂 = − (12)
𝒒𝟎 𝒒 𝟎 𝒓𝒃 𝒓𝒂 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝒃 𝒓𝒂
Importante
A equação acima é válida para uma diferença de potencial entre dois pontos a
e b quaisquer.
52
𝑼 𝟏 𝟏 𝒒𝒒𝟎 𝟏 𝒒
𝑽= = →𝑽= (13)
𝒒𝟎 𝒒𝟎 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓
Em que:
Dica
Note que a equação (13) poderia ter sido obtida diretamente da equação (12)
pela imposição da condição Va=0 em ra→∞.
A equação (13) mostra que o potencial para uma única carga pontual positiva é nulo
a grandes distâncias e cresce para grandes valores positivos à medida que nos
aproximamos da carga (r→0). Se q é negativa, o potencial cresce para grandes valores
negativos à medida que r→0. Note que esses resultados não dependem do sinal da carga
de teste utilizada nos cálculos.
Exemplo 3
Qual deve ser o valor de uma carga pontual positiva isolada para um potencial
elétrico a 15 cm da carga de 120 V? Suponha V=0 no infinito.
Solução
1 𝑞 15 × 10−2 120
𝑉= → 𝑞 = 4𝜋𝜀0 𝑟𝑉 = = 200 × 10−11 = 2,0 × 10−9 C = 2,0 nC
4𝜋𝜀0 𝑟 8,99 × 109
53
MIDIATECA
54
Potencial elétrico e energia potencial elé-
trica de configurações de cargas
Vamos agora considerar que existam três cargas (q1, q2, q3) separadas por distâncias
infinitas umas das outras. Nessa configuração, U = 0. Deseja-se encontrar a energia po-
tencial da configuração resultante depois que as três cargas são aproximadas umas das
outras.
Figura 1: Sistema com três cargas montado a partir de uma separação inicial infinita entre as cargas
55
Finalmente, q3 é posicionada a uma distância r13 de q1 e r23 de q2 (Figura 1(c)).
Como q3 interage com as duas partículas, existem duas contribuições adicionais
para a energia potencial nesta configuração final: q1q3/4πε 0r13. (interação entre
q1 e q3) e q2q3/4πε 0r23 (interação de q2 e q3).
𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝒒𝟏 𝒒𝟑 𝟏 𝒒𝟐 𝒒𝟑
𝑼= + + (14)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟏𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟏𝟑 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐𝟑
A equação (14) deixa claro que a energia potencial é uma propriedade do sistema, e não
de qualquer carga individual.
Saiba mais
56
a energia potencial total (equação (14)) é positiva. O agente externo, de fato,
acumulou energia no sistema de cargas. Se as cargas são liberadas de suas
posições, estas tenderão a se afastar, e a energia potencial irá decrescer
enquanto a energia cinética irá aumentar. Se a energia potencial total é negativa,
o agente externo terá realizado um trabalho negativo para reunir o sistema de
cargas. Nesse caso, o agente externo deve suprir energia adicional na forma
de trabalho para separar o sistema de cargas e levá-las para separação infinita.
Exemplo 4
A Figura 2 mostra três cargas pontuais mantidas fixas no lugar por forças não
especificadas. Qual é a energia potencial elétrica U desse sistema de cargas?
Suponha que:
• d=12 cm
• q1=+q
• q2=-4q
• q3=+2q
• q=150 nC
57
Figura 2: Sistema de três cargas do Exemplo 4.
Solução
1 𝑞1 𝑞2 1 𝑞1 𝑞3 1 𝑞2 𝑞3 1 𝑞 −4𝑞 𝑞 2𝑞 2𝑞 −4𝑞
𝑈= + + = + +
4𝜋𝜀0 𝑟12 4𝜋𝜀0 𝑟13 4𝜋𝜀0 𝑟23 4𝜋𝜀0 𝑑 𝑑 𝑑
2
1 10𝑞 2 10 8,99 × 109 150 × 10−9
= −4𝑞 2 + 2𝑞 2 − 8𝑞 2 = − =− =
4𝜋𝜀0 𝑑 4𝜋𝜀0 𝑑 12 × 10−2
−3
2,02 × 10
− = −0,168 × 10−1 ≈ −17 mJ
12 × 10−2
58
Figura 3: Conjunto de cargas pontuais
𝟏 𝒒𝟏 𝟏 𝒒𝟐 𝟏 𝒒𝑵
𝑽 = 𝑽𝟏 + 𝑽𝟐 + ⋯ + 𝑽𝑵 = + +⋯+ (15)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟏 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓𝑵
ou
Observe que, nas expressões (15) e (16), qn é o valor da n-ésima carga e rn é a distância
da n-ésima carga ao ponto em que se deseja determinar o potencial. Esse é um outro
exemplo da aplicação do princípio da superposição.
59
Exemplo 5
Solução
1 1,3 2
𝑅= 𝑑 2 = = 0,919𝑚
2 2
1 𝑞1 1 𝑞2 1 𝑞3 1 𝑞4
𝑉= + + +
4𝜋𝜀0 𝑟1 4𝜋𝜀0 𝑟2 4𝜋𝜀0 𝑟3 4𝜋𝜀0 𝑟4
10−9
= 12 − 24 + 31 + 17
4𝜋𝜀0 0,919
8,99 × 109 10−9 36
= ≈ 352
0,919
60
Potencial de uma distribuição contínua de cargas
É possível obter a energia potencial para as interações entre uma distribuição contínua e
uma carga pontual, calculando-se o potencial devido à distribuição de carga. Para ilustrar
o procedimento utilizado no cálculo do potencial de uma distribuição contínua de cargas,
vamos considerar uma distribuição linear de cargas (Figura 5).
Nesse caso, o procedimento começa pela divisão do objeto em elementos de carga dq.
Pode-se escrever o potencial dV devido ao elemento de carga dq supondo que este se
comporta como uma carga pontual:
𝟏 𝒅𝒒
𝒅𝑽 = (17)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓
Em que:
• r é a distância de dq ao ponto P.
61
O potencial total é obtido por meio da soma das contribuições de todos os elementos de
carga do objeto:
𝟏 𝒅𝒒
𝑽 = � 𝒅𝑽 = � (18)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓
Pode-se utilizar a geometria da Figura 5 para determinar o potencial gerado no ponto P devi-
do a uma distribuição linear uniforme de cargas positivas. O ponto P está a uma distância y
da haste e encontra-se localizado sobre sua mediatriz. Aplicando a equação (17) e utilizando
o elemento de carga dq = λdz, em que λ é a densidade linear de carga, temos:
𝟏 𝒅𝒒 𝟏 𝝀𝒅𝒛
𝒅𝑽 = = (19)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓 𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒛𝟐 + 𝒚𝟐
𝟏 𝑳/𝟐 𝝀𝒅𝒛 𝝀
V= ∫ 𝒅𝑽 = ∫ = �𝐥𝐧 �𝒛 +
𝟒𝝅𝜺𝟎 −𝑳/𝟐 𝒛𝟐 +𝒚𝟐 𝟒𝝅𝜺𝟎
𝑳/𝟐 𝝀 𝑳⁄𝟐+ 𝑳𝟐 ⁄𝟒+𝒚𝟐
𝒛𝟐 + 𝒚𝟐 �� = 𝟒𝝅𝜺 𝐥𝐧 (20)
−𝑳/𝟐 𝟎 −𝑳⁄𝟐+ 𝑳𝟐 ⁄𝟒+𝒚𝟐
Em que se utilizou a relação lnA – lnB = ln(A⁄B) para se obter o resultado final. É impor-
tante verificar esse resultado para determinar se ele apresenta um valor limite correto. À
medida que nos afastamos da haste, é esperado que o potencial tenda a 0, e a equação
(20) tem essa propriedade quando y→∞.
62
MIDIATECA
63
Fluxo do campo elétrico e Lei de Gauss
A chamada Lei de Gauss foi descoberta pelo matemático e físico Carl Friedrich Gauss
(1777-1855) e estabelece uma relação entre carga e campo elétrico que nos permite, em
certas situações de alta simetria, calcular o campo elétrico produzido por objetos ma-
croscópicos usando poucas equações algébricas.
Para entender a Lei de Gauss, vamos começar com alguns exemplos simples que dão
uma ideia do espírito da lei.
Fluxo elétrico
A Figura 6 mostra uma partícula de carga +Q cercada por uma esfera imaginária cujo
centro é a posição da partícula. Em todos os pontos da esfera (chamada de superfície
gaussiana), os vetores do campo elétrico têm o mesmo módulo (dado por E = kQ⁄r2) e
apontam radialmente para longe da partícula. As linhas de campo elétrico também têm
a mesma densidade já que, como vimos na unidade anterior, a densidade de linhas de
campo elétrico é proporcional ao módulo do campo elétrico. Dizemos que os vetores do
campo elétrico e as linhas de campo atravessam a superfície.
Figura 6: Vetores do campo elétrico e linhas de campo que atravessam uma superfície gaussiana
imaginária que envolve uma partícula de carga +Q.
64
A Figura 7 é igual à Figura 6, exceto pelo fato de que a carga da partícula é +2Q. Como
a carga envolvida é duas vezes maior, o módulo dos vetores do campo elétrico que
atravessam a (mesma) superfície gaussiana é duas vezes maior, e a densidade das
linhas de campo elétrico também é duas vezes maior. Foram observações como essa
que levaram à lei de Gauss:
Entretanto, na maioria dos casos, não podemos usar a Lei de Gauss simplesmente
observando o sentido e o comprimento dos vetores do campo elétrico em um desenho;
precisamos de uma grandeza física que descreva a quantidade de campo elétrico que
atravessa uma superfície. Essa grandeza é chamada de fluxo elétrico.
Para entender o significado de fluxo, vamos considerar uma superfície plana, de área A,
em uma região em que existe um campo elétrico uniforme E. A Figura 8 mostra um dos
vetores de campo elétrico atravessando um pequeno quadrado de área ∆A.
65
Figura 8: (a) Um vetor de campo elétrico atravessa uma pequena área de uma superfície plana. (b)
Apenas a componente x atravessa o quadrado. (c) O vetor área do quadrado é perpendicular ao
quadrado.
Na verdade, apenas a componente x do campo, cujo módulo é Ex=E cosθ, atravessa a su-
perfície. A componente y é paralela à superfície e não contribui para o fluxo, como veremos
a seguir. A quantidade de campo elétrico que atravessa a superfície é chamada de fluxo
elétrico ∆Φ e é dada pelo produto do campo que atravessa a superfície pela área envolvida:
Existe um outro modo de escrever o lado direito da equação (21) para que apenas a
componente que atravessa a superfície seja considerada. Definimos um vetor área ∆A
perpendicular à superfície e cujo módulo é igual à área do quadrado (Figura 8(c)). Nesse
caso, podemos escrever:
∆𝚽 = 𝑬. ∆𝑨 (22)
Para determinar o fluxo total por meio da superfície da Figura 8, podemos somar o fluxo
que atravessa todos os pequenos quadrados da superfície:
𝚽 = � 𝑬 . ∆𝑨 (23)
66
Reduzindo os pequenos quadrados de área ∆A em elementos de área dA, o fluxo total
passa a ser dado por:
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 (24)
Dica
𝚽 = 𝑬𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽 (25)
Lei de Gauss
A Figura 9 mostra uma superfície esférica de raio R que tem uma carga pontual Q no
seu centro. O campo elétrico em qualquer lugar na superfície da esfera é normal e tem
módulo igual a:
𝒌𝑸
𝑬 ≡ 𝑬𝒏 = 𝟐 (26)
𝑹
67
Figura 9: Superfície esférica contendo uma carga puntiforme Q.
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = � 𝑬𝒏 𝒅𝑨 = 𝑬𝒏 � 𝒅𝑨 (27)
Observe que tiramos En da integral, pois ele é constante em qualquer ponto da superfície
esférica. O símbolo ∮ indica que a integral é realizada sobre uma superfície fechada, logo
∮dA=4πR2 é a área total da superfície da esfera. Assim:
𝒌𝑸 𝟐 𝑸
𝚽 = 𝑬𝒏 � 𝒅𝑨 = 𝟐 𝟒𝝅𝑹 = 𝟒𝝅𝒌𝑸 = (28)
𝑹 𝜺𝟎
Portanto, o fluxo resultante para fora de uma superfície esférica que tem uma carga
puntiforme Q no seu centro é independente do raio R da esfera. Isso é consistente
com nossa observação anterior de que o número resultante de linhas através de uma
superfície fechada é proporcional à carga líquida (resultante) no interior da superfície.
Esse número de linhas é o mesmo para todas as superfícies fechadas circundando a
carga, independentemente da forma da superfície. Portanto, o fluxo resultante para
fora de qualquer superfície envolvendo uma carga puntiforme Q é igual a Q/ε0.
Podemos estender o resultado anterior a sistemas contendo várias cargas. Na Figura 10,
a superfície circunda duas cargas puntiformes, q1 e q2, e há uma terceira carga q3 no lado
de fora da superfície.
68
Figura 10: Superfície contendo cargas puntiformes q1 e q2, mas não q3.
Como o campo elétrico em qualquer ponto na superfície é a soma vetorial dos campos
elétricos produzidos por cada uma das cargas, o fluxo resultante para fora da superfície
é a soma dos fluxos devido às cargas individuais.
O fluxo devido à carga q3, que está do lado de fora da superfície, é zero, pois cada linha de
campo de q3 que entra na região limitada pela superfície em um ponto sai da superfície
em algum outro ponto (Figura 10).
O fluxo resultante para fora da superfície devido à carga q1 é Φ1 = q1/ε0, enquanto para q2
temos q2/ε0.
O fluxo resultante para fora da superfície é, então, igual a Φ = (q1 + q2)/ε0, o qual pode ser
positivo, negativo ou zero, dependendo dos valores de q1 e q2 (sinais e magnitudes).
Portanto, o fluxo resultante para fora de qualquer superfície fechada é igual à carga líquida
no interior da superfície dividida por ε0:
𝒒𝒊𝒏𝒕
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = � 𝑬𝒏 𝒅𝑨 = (29)
𝜺𝟎
Por carga líquida (qlíq) entenda-se a carga resultante no interior da superfície, isto é, a
soma de todas as cargas contidas dentro da superfície levando em conta os sinais.
69
A equação (29) é a Lei de Gauss. Sobre essa lei, podemos fazer as seguintes afirmações:
Importante
A Lei de Gauss mostra que o campo elétrico de uma distribuição de carga sobre
uma superfície que envolve a distribuição é diretamente proporcional à carga
interna à superfície e inversamente proporcional à área da superfície.
Exemplo 6
A Figura (11) mostra um cubo gaussiano, cujas faces têm área A, imerso em
um campo elétrico uniforme E orientado no sentido positivo do eixo z.
70
Solução
O fluxo total a partir do cubo é a soma do fluxo através de cada uma das
suas faces. Primeiramente, calculamos o fluxo através da face frontal do
cubo, situada no plano xy. Nesse caso, vale a equação (25), uma vez que o
campo é uniforme. Como E é perpendicular à superfície, θ=0 e Φ=EA. Para as
outras faces, o fluxo será nulo, uma vez que não existe vetor campo elétrico
atravessando cada uma delas. Portanto, o fluxo total será:
Φ𝑡𝑜𝑡 = 𝐸𝐴.
𝑞𝑖𝑛𝑡
Φ𝑡𝑜𝑡 = → 𝑞𝑖𝑛𝑡 = 𝜀0 Φ𝑡𝑜𝑡 = 𝜀0 𝐸𝐴.
𝜀0
O próximo exemplo ilustra como a Lei de Gauss pode ser utilizada para determinar o
campo elétrico de distribuições simétricas de carga.
Exemplo 7
Solução
71
Figura 12: Superfície gaussiana na forma de um cilindro fechado que atravessa parte
de uma lâmina de carga positiva. O campo é perpendicular à lâmina e, portanto,
apenas as extremidades da gaussiana contribuem para o fluxo.
Devido à simetria, pode-se concluir que E aponta para fora dos planos das
extremidades do cilindro (base e topo), perpendicularmente a eles. Uma vez que
E não atravessa a superfície lateral do cilindro, não há contribuição dessa área
lateral para o fluxo de campo elétrico. Podemos assumir que as extremidades
do cilindro estão equidistantes da placa de carga.
𝒒𝒊𝒏𝒕 𝝈𝑨 𝝈
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = → 𝑬𝑨 + 𝑬𝑨 = →𝑬=
𝜺𝟎 𝜺𝟎 𝟐𝜺𝟎
Em que:
72
MIDIATECA
NA PRÁTICA
Observe a Figura 13, que mostra, em seção reta, uma esfera central metálica, duas
cascas metálicas e três superfícies gaussianas esféricas concêntricas de raio R, 2R e
3R. As cargas dos três corpos, distribuídas uniformemente, são as seguintes: esfera
metálica, Q; casca menor, 3Q; casca maior, 5Q. Coloque as três superfícies gaussianas
em ordem decrescente do módulo do campo elétrico em qualquer ponto da superfície.
73
• A gaussiana de raio R envolve apenas a esfera metálica de carga Q e possui
área superficial 4πR2.
74
Resumo da Unidade 2
CONCEITO
75
Referências
HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.
TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros. Rio de Janeiro: LTC,
2009. v. 2.
76
UNIDADE 3
Nesta unidade, você aprenderá um pouco mais sobre o comportamento dos condutores
e dos dielétricos, em particular sobre os condutores em equilíbrio eletrostático e o
fenômeno conhecido como blindagem elétrica. Aprenderá também os conceitos de
corrente elétrica, densidade de corrente e resistência. Alguns elementos dos circuitos
elétricos, como os capacitores e os resistores, também serão apresentados a você nesta
unidade. Por fim, você aprenderá um pouco sobre a Lei de Ohm e a dissipação de energia
nos circuitos elétricos.
OBJETIVO
78
Condutores e dielétricos
Você estudou também que a Lei de Gauss permite calcular o campo elétrico para
distribuições de carga com elevado grau de simetria. No entanto a Lei de Gauss pode
ser utilizada para outro fim: determinar as propriedades de condutores com excesso de
carga elétrica. Uma dessas propriedades é que qualquer carga em excesso localizada
em um condutor isolado desloca-se totalmente para a superfície externa do condutor,
isto é, nenhuma carga excedente permanece no interior do corpo do condutor.
Você vai estudar agora o que ocorre quando uma quantidade de carga elétrica é
armazenada em um condutor isolado. Observe:
79
Essas cargas
podem, a princípio, Esse campo Em um intervalo
ser depositadas elétrico resulta em de tempo muito
em qualquer forças que atuam curto (da ordem Essa é a condição
lugar no condutor. sobre as próprias de 10 s) o campo
–9
de
Inicialmente, há cargas, fazendo elétrico se torna equilíbrio
um campo elétrico com que elas se nulo e as cargas eletrostático.
no interior do redistribuam no cessam o seu
condutor devido condutor. movimento.
às cargas.
Se, por outro lado, o campo no interior do condutor não fosse nulo, haveria uma força
atuando sobre os elétrons de condução do metal, o que resultaria na movimentação de
cargas (uma corrente elétrica). Uma vez que não se observa nenhuma corrente elétrica
em um condutor com excesso de carga, conclui-se que o campo elétrico é nulo no inte-
rior do condutor.
Importante
80
Observe a Figura 1, a seguir. Ela mostra um condutor metálico com carga q pendurado
por uma linha isolante.
Observe que o condutor possui uma forma arbitrária e um excesso de carga, ou seja, não
está neutro. Com o objetivo de determinar a carga no interior do condutor, traçamos uma
superficie gaussiana interna, bem próxima à superfície do condutor.
Admitindo-se que o condutor está sob condições eletrostáticas, isto é, que o campo elé-
trico no interior do condutor é nulo, a Lei de Gauss implica diretamente que a carga em
excesso no condutor deve estar exclusivamente na sua superfície externa.
Se o campo elétrico é nulo em todos os pontos no interior do condutor, será nulo também
em todos os lugares da superfície gaussiana que se encontra totalmente dentro do con-
dutor. Isso significa que o fluxo por meio da gaussiana escolhida é nulo.
Assim, a Lei de Gauss permite concluir que a carga envolvida pela superfície gaussiana
também é nula. No entanto, se não existem cargas no interior da gaussiana, elas devem
estar localizadas no seu exterior. Isso implica que toda a carga deve estar localizada na
superfície externa do condutor.
Suponha agora que o condutor tenha uma cavidade interna, conforme indicado na Figura
2. Se o condutor estiver eletricamente neutro, haverá alguma modificação na distribuição
de carga quando o material for escavado para formar a cavidade? As cargas aparecerão
na superfície da cavidade?
81
Figura 2: Cavidade interna em um condutor envolvida por uma superfície gaussiana.
Nesse caso, é razoável supor que não deveria haver nenhuma modificação na distribui-
ção da carga quando o material fosse escavado. No entanto vamos utlizar a Lei de Gauss
para provar essa hipótese.
Se um objeto com uma carga q’ é colocado no interior da cavidade, a Lei de Gauss, mais
uma vez, requer que a carga resultante no interior da gaussiana seja nula, já que o campo
no interior do condutor continua sendo igual a zero.
Nesse caso, uma carga -q’ deve ser atraída para a superfície da cavidade, de modo que a
carga resultante seja nula no interior da superfície gaussiana.
Se o condutor externo estava originalmente carregado com uma carga q, então uma
carga q+q’ aparecerá na superfície externa, de modo que a carga total do condutor não
se altere.
A Lei de Gauss pode, então, ser utilizada para determinar a relação entre a densidade
superficial de carga em qualquer ponto da superfície do condutor e o campo elétrico E
próximo à superfície externa nesse ponto.
82
Observe a Figura 3(a), que mostra uma superfície gaussiana cilíndrica, cujos topo e base
são paralelos à superficie do condutor e possuem uma pequena área A. Repare que uma
das extremidades permanece totalmente no interior do condutor, enquanto a outra está
localizada totalmente fora dele. Note, também, que as curtas paredes do cilindro são
perpendiculares à superfície do condutor. Para facilitar, uma vista ampliada da superfície
gaussiana é mostrada na Figura 3(b).
Figura 3: (a) Pequena gaussiana colocada na superfície de um condutor carregado. (b) Visão ampliada
da superfície gaussiana envolvendo uma carga q.
O campo elétrico externo próximo à superfície do condutor carregado deve ser perpen-
dicular à sua superfície. Se não fosse assim, haveria uma componente de E paralela à
superfície, e tal componente estabeleceria correntes superficiais que redistribuiriam as
cargas no condutor, violando a premissa de equilíbrio eletrostático (E =0 no interior do
condutor).
83
Podemos agora determinar o campo elétrico usando a Lei de Gauss:
𝒒 𝒒 𝝈𝑨 𝝈
𝚽 = � 𝑬. 𝒅𝑨 = → 𝑬𝑨 = = →𝑬= (2)
𝜺𝟎 𝜺𝟎 𝜺𝟎 𝜺𝟎
Importante
Compare esse resultado com o obtido na Unidade 2 para o campo elétrico próximo a
uma placa (infinita) carregada: E = σ⁄(2ε0). O campo elétrico próximo à superfície de um
condutor é o dobro do campo esperado, considerando-se uma placa carregada. Como
podemos entender a diferença entre esses dois casos?
Uma placa carregada pode ser construída pulverizando-se cargas sobre uma das faces
de uma fina camada de plástico. As cargas se fixam nos pontos em que caem e não po-
dem se deslocar, uma vez que o plástico é um material isolante. Um condutor não pode
ser carregado do mesmo modo. Pode-se imaginar que a superfície do condutor seja
dividida em duas partes: a região próxima do ponto onde se deseja determinar o campo
elétrico e o restante do condutor. Se na Figura 3 a proximidade do condutor for suficien-
temente grande, a região próxima da gaussiana pode ser considerada como uma placa
de carga, e sua contribuição para o campo elétrico será E = σ⁄(2ε0).
Suponha agora que duas placas com cargas +q e -q sejam colocadas bem próximas
uma da outra, conforme mostrado na Figura 4.
84
Figura 4: Duas placas condutoras com cargas iguais e opostas. E+ é o campo devido à placa carregada
positivamente, enquanto E- é o campo gerado pela placa com carga negativa.
Nesse caso, existe uma atração entre as cargas positivas de uma placa e as cargas ne-
gativas da outra, o que alinha as cargas nas superfícies das duas placas frente a frente.
Qual o comportamento das cargas em situações como essa?
• Considerada como uma placa de carga, cada superfície estabelece um campo elé-
trico E = σ⁄(2ε0).
• Na região entre as duas placas, elas contribuem com campos de mesma intensida-
de e sentido, de forma que o campo elétrico resultante é E = σ⁄ε0.
• Fora das duas placas, os campos se anulam e temos E =0.
• Esse é o campo elétrico de um capacitor de placas paralelas. O capacitor é um ele-
mento muito comum nos circuitos elétricos e possui a capacidade de armazenar
energia elétrica em um campo elétrico.
Importante
85
Importante
Fonte: [Link]/wiki/
86
Agora acompanhe dois exemplos envolvendo campos elétricos e os res-
pectivos cálculos que podem ser feitos.
Exemplo 1
Solução
𝝈 𝐂 𝛍𝐂
𝑬= → 𝝈 = 𝜺𝟎 𝑬 = 𝟖, 𝟖𝟓 × 𝟏𝟎−𝟏𝟐 𝟐, 𝟑 × 𝟏𝟎𝟓 = 𝟐𝟎, 𝟑𝟔 × 𝟏𝟎−𝟕 𝟐 ≈ 𝟐, 𝟎 𝟐
𝜺𝟎 𝐦 𝐦
Exemplo 2
Solução
− − −
𝑾±− = � 𝑭. 𝒅𝒔 = 𝒒 � 𝑬. 𝒅𝒔 = 𝒒𝑬 � 𝒅𝒔 = 𝒒𝑬𝒅
+ + +
87
Na Unidade 2 vimos que a diferença de potencial entre as placas é dada por:
𝑾+− 𝒒𝑬𝒅
∆𝑽 = − =− = −𝑬𝒅 → ∆𝑽 = 𝑽− − 𝑽+ = −𝑬𝒅 𝐨𝐮 ∆𝑽 = 𝑬𝒅
𝒒 𝒒
Superfícies equipotenciais
Figura 6: Linhas de campo elétrico (linhas cheias) e seções transversais de superfícies equipotenciais (li-
nhas tracejadas) para três configurações diferentes: (a) carga pontual positiva; (b) placa infinita de carga
positiva (mostrada ao longo de seu “corte”); e (c) dipolo elétrico.
88
Para o caso da carga pontual, é fácil visualizar que as superfícies equipotenciais são
esferas concêntricas, uma vez que o potencial de uma carga puntiforme q a uma deter-
minada distância r é dado pela expressão (V=0 no infinito):
𝟏 𝒒
𝑽= (3)
𝟒𝝅𝜺𝟎 𝒓
Nenhum trabalho resultante é realizado pelas forças elétricas quando se move uma carga
de prova q0 sobre uma superfície equipotencial, uma vez que ΔV = 0 e W = –ΔU = –q0ΔV.
Mesmo que a trajetória da carga saia da superfície, nenhum trabalho é realizado desde
que o caminho inicie e termine na mesma superfície equipotencial.
A Figura 7 mostra partes de algumas superfícies equipotenciais que podem ser associa-
das a uma determinada distribuição de carga.
Sobre o trabalho realizado pelas forças elétricas, podemos fazer três afirmações:
1. O trabalho realizado por forças elétricas quando uma carga se move ao longo do cami-
nho 1 é nulo, uma vez que o caminho inicia e termina na mesma superfície equipotencial.
89
2. Pela mesma razão, o trabalho realizado ao longo do caminho 2 também é nulo.
3. Já ao longo dos caminhos 3 e 4, o trabalho, além de não ser nulo, tem o mesmo valor
para ambas as trajetórias, uma vez que elas ligam pontos de mesma diferença de potencial
(VB-VA). Ao se mover uma carga q de qualquer ponto da superficie A para qualquer ponto
da superfície B, o trabalho realizado pelas forças eletrostáticas é igual a WAB = –q(–VB–VA).
Agora, considere que uma carga positiva q é liberada do repouso em um ponto b sobre a
equipotencial VB da Figura 7.
O trabalho exercido por um campo elétrico qualquer sobre uma carga positiva liberada
nesse campo é positivo. Isso se deve ao fato de a carga ser acelerada na mesma direção
e sentido do campo elétrico (F =qE ). Se W>0, ∆V<0, o que significa que a partícula carre-
gada “cairá” em direção a um equipotencial com V<VB.
O campo elétrico, portanto, deve ser perpendicular às superfícies equipotenciais no ponto
b. Se não fosse assim, haveria uma componente do campo elétrico ao longo da superfí-
cie equipotencial, a qual realizaria trabalho sobre uma carga que se movesse ao longo da
superfície. Isso, porém, violaria a definição de um equipotencial como uma superfície ao
longo da qual se pode mover livremente uma partícula carregada sem a realização de tra-
balho. Conclui-se, então, que as linhas de campo elétrico devem ser perpendiculares às
superfícies equipotenciais em todos os pontos. Note que na Figura 6 as linhas de campo
são perpendiculares aos equipotenciais em qualquer ponto.
Suponha que tenhamos um condutor de formato arbitrário que possui uma carga exce-
dente. As cargas estão livres para se mover e se distribuirão rapidamente sobre a super-
fície externa do condutor até que o equilíbrio seja atingido.
90
Se as cargas não estão em equilíbrio sobre a superfície do
condutor, então algumas partes da superfície estariam em
Se as cargas estão
maiores ou menores potenciais que outras partes. As cargas
em equilíbrio sobre a
positivas, então, migrariam em direção às regiões com
superfície externa do
menor potencial, enquanto as cargas negativas migrariam
condutor, então essa
em direção às regiões com maior potencial. Porém isso
superfície deve ser um
contradiz a afirmação de que as cargas estão em equilíbrio
equipotencial.
e, portanto, a superfície externa do condutor deve ser um
equipotencial.
Se o campo elétrico é nulo no interior de um condutor, então podemos mover uma carga
de teste ao longo de qualquer caminho no interior, ou da superfície do condutor para o
interior, e o trabalho realizado sobre a carga de teste pela carga contida na superfície do
condutor será nulo. Isso significa que a diferença de potencial entre os pontos final e ini-
cial é nula. Portanto o potencial tem o mesmo valor nos dois pontos.
Assim obtém-se a terceira propriedade dos condutores: todo o condutor está a um mes-
mo potencial, que é o potencial da sua superfície externa. Essa conclusão é válida apenas
no caso eletrostático; quando discutirmos correntes fluindo por condutores, uma diferen-
ça de potencial pode existir entre diferentes pontos do condutor.
Importante
91
Acompanhe a seguir um exemplo de superfícies equipotenciais paralelas
e observe os cálculos que podem ser feitos considerando-se as trajetórias
de um elétron.
Exemplo 3
Solução
a). Como foi discutido anteriormente, o potencial diminui ao longo das linhas de
campo elétrico. Portanto, o campo é perpendicular às superfícies equipotenciais
e aponta do maior potencial (90 V) para o menor (40 V).
b). O trabalho é dado pela expressão W=-q∆V=e∆V, uma vez que a carga do
elétron é -e. Abaixo analisamos o trabalho para cada trajetória:
92
• Trajetória 1: ΔV = 70 – 80 = –10 V; W < 0.
• Trajetória 2: ΔV = 70 – 80 = –10 V; W < 0.
• Trajetória 3: ΔV = 60 – 80 = –20 V; W < 0.
• Trajetória 4: ΔV = 70 – 60 = 10 V; W > 0.
• Trajetória 5: ΔV = 60 – 70 = –10 V; W < 0.
Os condutores, como você já sabe, são materiais nos quais as cargas elétricas fluem
prontamente. Em muitos metais, por exemplo, cada átomo fornece um ou mais elétrons
externos (elétrons de valência) para todo o material. Frequentemente, esses elétrons são
tratados como um “gás” dentro do material, em vez de pertencer a um determinado á-
tomo em particular. Tais elétrons estão livres para se movimentar quando um campo
elétrico é aplicado ao material. Sob condições estáticas, o campo elétrico no interior de
um condutor é nulo, mesmo que o condutor tenha excesso de carga.
Em um isolante, por outro lado, os elétrons estão firmemente presos aos átomos, não
estando livres para se moverem sob efeito de campos elétricos externos. Um isolante
pode carregar qualquer distribuição de cargas elétricas, tanto na sua superfície como
no seu interior. Além disso, o campo elétrico no interior de um isolante pode ter valores
não nulos.
93
Suponha agora que se coloque um grande pedaço de um condutor em um campo elé-
trico uniforme, conforme mostrado na Figura 9. Pode-se considerar o material como um
“gás” de elétrons que estão livres para se mover em uma rede cristalina de íons, os quais
estão em posições fixas.
Figura 9: (a) Pedaço de um condutor colocado em um campo elétrico uniforme. Os elétrons livres do
condutor se movem para cima em resposta ao campo. (b) Os elétrons se acumulam na parte superior
do condutor, deixando um excesso de carga positiva na parte inferior. (c) Na parte interna do material, o
campo resultante é nulo.
O campo elétrico E0 exerce uma força F =-eE0 sobre os elétrons, fazendo com que eles
se movam em um sentido contrário ao do campo. Os elétrons se movem rapidamente
para a superfície superior do condutor, deixando uma deficiência de elétrons (excesso
de carga positiva) na superfície inferior. Assim, quando se coloca um condutor em um
campo elétrico externo, as cargas se redistribuem quase instantaneamente e, após isso,
as condições eletrostáticas se aplicam.
As duas superfícies do condutor podem ser consideradas como lâminas de carga, con-
forme mostrado na Figura 9(b). O campo resultante entre as lâminas é, na verdade, a
soma vetorial dos dois campos: E0, o campo externo, e E’, o campo criado entre as lâmi-
nas devido à separação de carga.
Em termos das intensidades, a soma torna-se uma diferença, porque os campos estão
em sentidos opostos; assim, a intensidade do campo resultante é E=E0 -E’. Entretanto,
como visto anteriormente, no interior de um condutor sob condições estáticas o campo
elétrico resultante E precisa ser nulo. Logo, o campo elétrico aplicado E0 precisa mover
para a superficie apenas elétrons suficientes de modo a estabelecer um campo elétrico
E’ com a mesma intensidade de E0, fornecendo um campo elétrico resultante nulo dentro
do condutor (Figura 9c).
94
Fora da parte considerada, as lâminas de carga nas duas superfícies fornecem cam-
pos elétricos que se anulam, fazendo com que o campo resultante não seja alterado
nessas regiões.
Exemplo 4
Solução
𝝈 𝐂 𝐧𝐂
= 𝟒𝟓𝟎 → 𝝈 = 𝟒𝟓𝟎𝜺𝟎 = 𝟒𝟓𝟎 𝟖, 𝟖𝟓 × 𝟏𝟎−𝟏𝟐 = 𝟑, 𝟗𝟖 × 𝟏𝟎−𝟗 𝟐 = 𝟑, 𝟗𝟖 𝟐
𝜺𝟎 𝐦 𝐦
MIDIATECA
95
Corrente elétrica e densidade de corrente
Corrente elétrica
Suponha que exista uma maneira de conectar a parte superior do condutor da Figura 9
com a parte inferior. Assim, poderíamos remover elétrons do topo do condutor por meio
de um caminho externo, injetando-os de volta na região inferior. Nesse caso, não ocorreria
um acúmulo de carga nas regiões superior e inferior e as condições eletrostáticas
discutidas anteriormente não poderiam ser aplicadas. Logo, a conclusão obtida na seção
anterior não seria mais válida, pois o campo elétrico no interior do condutor, em geral,
será não nulo quando as cargas estiverem fluindo.
Agora vamos examinar o fluxo de carga elétrica por meio de um ponto particular no
interior do material (Figura 10).
Figura 10: Elétrons atravessando uma superficie de área A. Os sentidos da corrente i e do vetor densida-
de de corrente J são contrários ao movimento dos elétrons.
Considere que uma quantidade de carga dq atravessa uma pequena superfície de área A
durante um intervalo de tempo dt. A área A pode ser a área da seção transversal de um
fio pelo qual a carga está fluindo. A corrente elétrica i é definida como a carga líquida que
flui por meio da superfície por unidade de intervalo de tempo:
96
(4)
Para que a corrente elétrica exista, é necessário que exista um fluxo resultante de carga
elétrica por meio da superfície. Se partículas neutras passam pela superfície, nenhuma
corrente está fluindo, uma vez que tal fluxo não implica o transporte de carga elétrica.
Do mesmo modo, números iguais de cargas positivas e negativas atravessando a su-
perfície resultam em uma carga total nula. Além disso, se os elétrons estiverem se movi-
mentando de maneira aleatória pelo material, com o mesmo número de passagens pela
superfície em ambos os sentidos, a carga resultante atravessando a superfície é nula e
nenhuma corrente flui pelo material.
O sentido da corrente elétrica é definido como sendo o do fluxo de carga positiva. Apesar
de ter um sentido, a corrente é um escalar, e não um vetor. A unidade do SI para a corren-
te é o ampère (A), definida como 1 ampère = 1 coulomb/segundo.
(5)
Se a equação (4) for válida, a carga resultante que passa por qualquer superfície pode ser
determinada integrando-se a corrente:
(6)
Importante
97
Quando uma bateria é introduzida no circuito, uma diferença de potencial é
produzida entre os pontos do fio que estão ligados aos terminais da bateria.
Assim, a bateria produz um campo elétrico no interior do fio, o que faz com que
cargas se movam no circuito. Esse movimento de cargas elétricas constitui
uma corrente i (Figura 11, letra b).
Figura 11: (a) Um fio de cobre em equilíbrio eletrostático. (b) A introdução de uma
bateria no circuito produz uma diferença de potencial entre as extremidades do fio, o
que gera uma corrente elétrica i.
(a) (b)
Densidade de corrente
(7)
A corrente que atravessa qualquer superfície pode ser determinada integrando-se a den-
sidade de corrente:
(8)
98
Em que:
Equação da continuidade
(9)
Na qual:
Importante
99
Importante
Curiosidade
100
Agora, observe o exemplo de circuito elétrico e seu respectivo cálculo.
Exemplo 5
Solução
Pela conservação de carga, a corrente total que chega a uma junção deve ser
a mesma que deixa a junção. Observando a figura da esquerda para a direita, a
corrente total que chega à primeira junção é 2 A + 3 A=5 A.
Essa corrente flui até a próxima junção, de onde uma corrente de 3 A flui
para a parte superior do circuito. Essa corrente se divide em 2 A para o fio na
extremidade direita superior e 1 A para o fio na extremidade esquerda superior.
Portanto, uma corrente de 2 A deve fluir, a partir da junção central, para a parte
inferior do circuito.
101
MIDIATECA
102
Lei de Ohm e efeito Joule
De fato, observa-se que uma ampla classe de materiais apresenta esse tipo de
comportamento. A constante de proporcionalidade entre J e E é a condutividade elétrica
σ do material, dada por:
(10)
Importante
É mais comum que os materiais sejam caracterizados por sua resistividade, que é o in-
verso da condutividade. A resistividade é dada por:
(11)
103
Importante
A Figura 14, a seguir, apresenta uma tabela com os valores da resistividade para alguns
materiais. Um isolante perfeito terá σ=0 (ou ρ→∞). Note que mesmo os bons isolantes
são condutores com um valor de condutividade muito pequeno.
104
Para alguns materiais, a resistividade não é uma constante e depende da intensidade do
campo elétrico. Já para outros materiais, observa-se que a resistividade permanece inal-
terada (constante) para uma ampla faixa de campos aplicados. Para esses materiais, um
gráfico da intensidade do campo aplicado E contra o módulo da densidade de corrente J
fornece uma linha reta cuja inclinação é a resistividade ρ, uma vez que:
(12)
Saiba mais
Você viu, na Figura 14, os valores da resistividade de alguns materiais. Mas, em alguns
casos, você pode desejar conhecer também a resistência de um objeto em particular,
como um bloco de cobre com determinadas dimensões. Como isso pode ser feito?
Figura 15: Uma diferença de potencial é aplicada a um condutor cilíndrico, estabelecendo uma
corrente i.
105
No interior do objeto existe um campo elétrico uniforme E=∆V/L (um campo elétrico uni-
forme pode ser pensado como uma voltagem por unidade de comprimento). Se a den-
sidade de corrente também é uniforme ao longo da área da seção transversal, J=i/A. A
resistividade é, então:
(13)
(14)
(15)
Importante
A equação (14) apresenta a base de uma outra formulação da Lei de Ohm. Para um
determinado objeto, podemos medir a corrente para diversas diferenças de potencial
aplicadas e, com os dados obtidos, desenhar um gráfico de i contra ∆V. Se o gráfico for
uma linha reta, o objeto é ôhmico, isto é, obedece à Lei de Ohm.
A Figura 16 mostra os gráficos corrente versus tensão para dispositivos ôhmicos e não
ôhmicos. Observe:
106
Figura 16: (a) Gráfico corrente-tensão para um material ôhmico; (b) gráfico corrente-tensão para um
material não ôhmico.
É importante ressaltar que a relação (14) não é uma declaração da Lei de Ohm, e sim
a definição de resistência. Por essa razão, essa relação é verdadeira tanto para objetos
ôhmicos quanto para objetos não ôhmicos. Entenda, no esquema a seguir, a diferença
entre os dois tipos:
RESISTÊNCIA
107
Saiba mais
Curiosidade
108
Figura 17: (a) Diferentes tipos de resistores. (b) Diodos semicondutores.
Fonte: [Link]/wiki.
Exemplo 6
Solução
• V = +2 V, então i = +2 mA.
• V = 0 V, então i = 0 A.
109
Temos:
Exemplo 7
Solução
110
Potência e efeito Joule
A Figura 18 mostra um circuito elétrico formado por uma bateria B conectada por fios,
de resistência desprezível, a um componente não especificado, que pode ser um resistor,
uma bateria recarregável ou qualquer outro dispositivo elétrico.
A bateria mantém uma diferença de potencial entre os seus terminais, cujo valor absolu-
to é V. Assim, graças aos fios de ligação, o potencial entre os terminais do componente
desconhecido também tem valor absoluto V, com um potencial mais elevado no terminal
a do componente que no terminal b (lembre-se que a corrente sempre flui do ponto com
maior potencial para o ponto com menor potencial).
Uma vez que o circuito fechado conecta os terminais da bateria e a diferença de potencial
produzida por ela é constante, uma corrente constante i flui pelo circuito, do terminal a
para o terminal b. A quantidade de carga dq que atravessa o circuito em um intervalo de
tempo dt é dq = idt. Ao completar o circuito, a carga dq tem seu potencial reduzido, uma
vez que flui de um ponto de maior potencial para um de menor potencial. Portanto sua
energia potencial também é reduzida de um valor dU = dqV = iVdt, em que V é a redução
no potencial da carga (o valor absoluto é igual ao do potencial criado pela bateria).
111
Assim, a taxa de transferência de energia elétrica é dada por:
(16)
Quando um elétron
atravessa um resistor Na escala microscópica,
com velocidade essa conversão de A energia convertida
constante, sua energia energia ocorre por meio em energia térmica
cinética permanece de colisões entre os é dissipada (perdida),
constante, enquanto elétrons e as moléculas uma vez que o
a energia potencial que compõem o processo não pode
elétrica perdida é resistor, o que leva a um ser revertido.
convertida em energia aquecimento deste.
térmica do resistor.
112
Para resistores ou outros componentes resistivos, a taxa de dissipação de energia elétri-
ca devido à resistência pode ser escrita na forma:
(17)
Em que:
• V = Ri.
Importante
Aqui vale chamar atenção para o fato de que a equação (16) é mais geral que as
equações (17) e se aplica a qualquer tipo de transferência de energia elétrica.
Já as relações (17) se aplicam apenas nos casos de conversão de energia
elétrica em energia térmica em um componente resistivo.
Exemplo 8
Um pedaço de fio resistor, feito de uma liga chamada Nichrome (níquel, cromo
e ferro), tem uma resistência de 72 Ω. Determine a taxa com a qual a energia é
dissipada nas seguintes situações:
Solução
113
2) Nessa situação, o comprimento do fio cai pela metade e, segundo a equação
(15), sua resistência também. Lembre se que ρ é característica do material e
não muda, e A também não sofre alteração. Assim, R = 72/2 = 36 Ω, e:
Saiba mais
(18)
Em que:
114
Como a corrente i é dividida devido à divisão do fluxo de carga, temos que ela
é a soma das correntes que fluem em cada resistor. Portanto:
(19)
Em que:
(20)
(21)
(22)
Logo:
(23)
Em que:
(24)
As expressões (20) e (24) podem ser generalizadas para mais de dois resistores.
115
Exemplo 9
Solução
116
Como a diferença de potencial para o resistor 1 é a mesma da resistência
equivalente R12, fazemos:
∆𝑽𝟏𝟐 𝟓
∆𝑽𝟏𝟐 = 𝒊𝟏 𝑹𝟏 → 𝒊𝟏 = = = 𝟏, 𝟏 𝐀
𝑹𝟏 𝟒, 𝟔
MIDIATECA
NA PRÁTICA
Desse modo, se um condutor receber uma faísca elétrica e ficar eletrizado, as cargas
se alojam na superfície externa do condutor. Esse efeito é conhecido como “blinda-
gem elétrica” e é o princípio de funcionamento das chamadas “gaiolas de Faraday”.
117
Resposta
O corpo dos aviões é feito de material condutor. Quando ele é atingido por um raio,
que nada mais é que uma descarga elétrica, as cargas em excesso se alojam na
superfície externa da aeronave, fazendo com que o campo elétrico no interior do
avião seja nulo. Assim, os passageiros no interior do avião não sentem os efeitos da
descarga elétrica.
118
Resumo da Unidade 3
Nesta unidade você aprendeu um pouco mais sobre o comportamento dos condutores e
dielétricos; conheceu alguns elementos dos circuitos elétricos, como os capacitores e os
resistores; e aprendeu sobre a corrente elétrica, a densidade de corrente e a Lei de Ohm.
CONCEITO
119
Referências
HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.
TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros. Rio de Janeiro: LTC,
2009. v. 2.
120
UNIDADE 4
Nesta unidade, você aprenderá alguns conceitos básicos sobre magnetismo, como os de
campo magnético e polo magnético. Também aprenderá como calcular a força magnética
sobre cargas e correntes. Do mesmo modo que as correntes sentem a presença de
campos magnéticos, elas também são capazes de gerá-los. Você aprenderá que leis da
física permitem calcular o campo gerado por um fio transportando corrente. Por fim, será
apresentado o conceito de indução eletromagnética e você entenderá como uma corrente
pode ser induzida em um circuito elétrico sem que ele esteja conectado a uma bateria.
OBJETIVO
122
Campo magnético e força magnética sobre
cargas e correntes
Campo magnético
É possível utilizar uma carga de teste para sondar um campo magnético, como fizemos
com o campo elétrico? Experimentos indicam que a resposta para essa pergunta é sim,
mas somente se a carga estiver movendo-se em relação à fonte do campo. Isso ocorre
porque um campo magnético não atua sobre uma carga elétrica em repouso.
123
néticos como o da Terra e dos ímãs (no último caso, as cargas são elétrons movendo-se
nos átomos). Lembre-se que o fluxo de cargas elétricas gera uma corrente elétrica.
No nosso estudo da eletrostática, associamos uma energia potencial elétrica a uma car-
ga de teste em um campo elétrico. Poderíamos, assim, pensar que existe uma energia
potencial magnética associada a uma carga elétrica em movimento em um campo mag-
nético. No entanto, em geral, isso não é verdade. Como acabamos de discutir, a força que
um campo magnético exerce sobre uma carga depende da velocidade da carga, e forças
dependentes da velocidade são não conservativas. E, como visto na Unidade 2, a energia
potencial só pode ser definida para forças conservativas.
O campo magnético, assim como o campo elétrico, pode ser representado por linhas de
campo. As regras são similares:
1 2
Saiba mais
A Terra, assim como outros planetas, possui um campo magnético cuja forma
se assemelha ao de uma barra imantada (conforme mostrado nas Figuras 1 e 2).
124
Figura 2: Campo magnético de
Figura 1: Campo magnético da Terra. uma barra imantada mapeado
utilizando limalha de ferro.
Para entender como o campo magnético terrestre pode ser traçado, imagine o
seguinte experimento:
125
Uma das extremidades da barra foi pintada de vermelho, por ser
essa a extremidade que aponta para o Norte se a barra imantada
for suspensa como uma bússola. Por convenção, esse polo é deno-
minado simplesmente de polo norte do ímã, e a extremidade oposta
é denominada polo sul. As linhas de campo entram no ímã por uma
das extremidades (polo sul) e saem pela outra (polo norte).
A partir de experimentos similares ao que acaba de ser descrito, deduz-se uma importan-
te regra para a interação de polos magnéticos: polos iguais repelem-se, enquanto polos
diferentes se atraem.
126
Além disso, os experimentos também mostram que a direção de FB
é sempre perpendicular à direção do vetor velocidade v.
Em seguida, definimos o campo magnético B como uma grandeza vetorial cuja direção
coincide com aquela para a qual a força magnética FB é nula. Experimentos indicam que
o módulo do campo magnético pode ser escrito em termos do módulo da força,
Em que:
q é a carga da partícula.
𝑭𝑩 = 𝒒𝒗 × 𝑩 (2)
Ou seja, a força que age sobre a partícula depende do produto vetorial da velocidade v
pelo campo B (medidos no mesmo referencial). A partir da equação (2), podemos escre-
ver o módulo de FB na forma
𝑭𝑩 = 𝒒 𝒗𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 (3)
Em que:
127
A equação (2) também fornece a orientação do vetor força. O resultado do produto veto-
rial v×B é um vetor perpendicular ao plano formado pelos vetores v e B. De acordo com a
regra da mão direita (figura 3), o polegar da mão direita aponta na direção de v×B quando
os outros dedos apontam de v para B, varrendo o menor ângulo entre os dois vetores (Ø).
Ainda de acordo com a equação (2):
É fácil perceber, então, que a componente de FB na direção de v é sempre nula. Isso sig-
nifica que a força magnética não pode mudar a velocidade escalar v da partícula, ou seja,
a energia cinética da partícula também não muda. Na verdade, a força magnética pode
mudar apenas a direção de v, o que significa alterar a trajetória da partícula.
128
Exemplo 1
A Figura 4 mostra três situações nas quais uma partícula carregada, com
velocidade v, é submetida a um campo magnético uniforme B. Qual é a direção
de FB em cada uma das situações mostradas?
Solução
(a) z positivo.
129
Exemplo 2
Solução
Segundo o enunciado do exercício, o ângulo formado entre v e B é 90o, uma vez que o
primeiro vetor está na direção horizontal e o outro, na vertical. Logo:
𝑭𝑩 = 𝒒𝒑 𝒗𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝟗𝟎𝒐 = 𝒒 𝒗𝑩
No entanto não temos a velocidade da partícula. Para obtê-la, utilizamos a energia ciné-
tica K:
𝟏 𝟐𝑲 𝟐𝑲 𝟐 𝟓, 𝟑 × 𝟏𝟎𝟔 𝐞𝐕 𝟏, 𝟔𝟎 × 𝟏𝟎−𝟏𝟗 𝐦
𝑲= 𝒎𝒑 𝒗𝟐 → 𝒗𝟐 = →𝒗= = = 𝟑, 𝟐 × 𝟏𝟎𝟕
𝟐 𝒎𝒑 𝒎𝒑 𝟏, 𝟔𝟕 × 𝟏𝟎− 𝟐𝟕 𝐬
Para encontrar a orientação do vetor força, devemos usar a regra da mão direita. Consi-
dere, então, que os vetores v e B possuem orientações de acordo com a figura 5(a) (os
pontinhos indicam que o vetor B está saindo do plano do papel). Nesse caso, o produto
vetorial v×B indica que o vetor força aponta para a direita. Como FB muda a orientação de
v, a partícula começa a descrever uma trajetória circular ao redor das linhas de campo
magnético (Figura 5(b)).
130
Figura 5: Força magnética atuando sobre um próton em um campo magnético. Os pontos indicam que o
campo magnético é perpendicular ao plano do papel, saindo dele.
Fonte: Adaptado de Halliday, Resnick e Krane (2017) e Halliday, Resnick e Walker (2019).
Uma corrente é um conjunto de cargas em movimento. Uma vez que um campo magné-
tico exerce força sobre cargas em movimento, ele também deve exercer força sobre um
fio transportando corrente. Assim, uma força é exercida sobre os elétrons de condução
no fio e, uma vez que os elétrons não podem escapar, a força acaba sendo transmitida
para o fio.
Um fio vertical flexível é posicionado e preso nas duas extremidades, entre os polos de
um ímã, conforme mostrado na figura 6(a). Considerando que o campo magnético do
ímã aponta para fora do papel, três situações podem ocorrer:
• Figura 6(a) – Como o fio não está conduzindo corrente, nada acontece.
• Figura 6(b) – Nesse caso, uma corrente para cima passa a percorrer o fio, que se
encurva para a direita.
• Figura 6(c) – Nesse caso, a corrente é invertida e o fio se encurva para a esquerda.
131
Figura 6: Um fio flexível posicionado entre os polos de um ímã (apenas o polo mais distante aparece na
figura). (a) Quando não há corrente, o fio não se encurva. (b) Quando a corrente flui para cima, o fio se
encurva para a direita. (c) Quando a corrente flui para baixo, o fio se encurva para a esquerda. O circuito
completo não é mostrado na figura.
A Figura 7 mostra o que acontece no interior do fio quando ele é submetido a um campo
magnético. Um dos elétrons se move para baixo com uma velocidade vd (a velocidade
média dos elétrons no fio é chamada de velocidade de deriva). Nesse caso, Ø=90o e, de
acordo com a equação (2), uma força com módulo FB=evd B age sobre o elétron. Também
de acordo com a equação (2), a força aponta para a direita. Portanto, esperamos que o
fio como um todo experimente uma força para a direita.
Figura 7: Vista ampliada do fio da Figura 6. A corrente flui para cima, o que significa que a velocidade de
deriva dos elétrons aponta para baixo. O campo magnético aponta para fora do papel.
132
Se invertermos o sentido do campo magnético ou o sentido da corrente, a força exercida
sobre o fio mudará de sentido e passará a apontar para a esquerda. Observe também
que não importa se consideramos cargas negativas se movendo para baixo (situação
real) ou cargas positivas se movendo para cima; em ambos os casos, o sentido da força
é o mesmo. Portanto, para efeito dos cálculos, assumimos que a corrente é constituída
por cargas positivas.
𝒊𝑳
𝑭𝑩 = 𝒒 𝒗𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 = 𝒗 𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝟗𝟎𝒐 = 𝒊𝑳𝑩 (4)
𝒗𝒅 𝒅
A equação (4) fornece uma expressão para a intensidade da força magnética exercida
sobre um trecho de fio retilíneo de comprimento L percorrido por uma corrente i e sub-
metido a um campo magnético perpendicular ao fio.
No caso mais geral, quando o campo magnético não é perpendicular ao fio, como na
Figura 8, a força magnética é dada pela expressão:
𝑭𝑩 = 𝒊𝑳 × 𝑩 (5)
Em que:
Em que:
133
A direção do vetor força magnética é a do produto vetorial L×B, uma vez que tomamos a
corrente i como uma grandeza positiva. Além disso, de acordo com as regras do produto
vetorial, FB é perpendicular ao plano definido pelos vetores L e B, como mostra a Figura 8.
Figura 8: Força magnética atuando sobre um fio retilíneo percorrido por uma corrente i na presença de
um campo magnético B.
Exemplo 3
Solução
O peso do fio (força gravitacional) atua para baixo. Assim, para que ele seja equilibrado pela
força magnética, ela deve ter intensidade igual, mas no sentido oposto ao peso. Logo,
𝒎𝒈
𝑭𝑩 = 𝑷 → 𝒊𝑳𝑩 𝐬𝐢𝐧 𝝓 = 𝒎𝒈 → 𝑩 =
𝒊𝑳 𝐬𝐢𝐧 𝝓
Em que:
m é a massa do fio.
g é a aceleração da gravidade.
134
Observando a expressão obtida para B, verificamos que seu módulo será o menor pos-
sível quando sinØ for o maior possível, isto é, devemos ter sinØ=1 e Ø=90o. Portanto o
campo deve ser perpendicular à direção do fio.
O vetor B deve, portanto, apontar para a esquerda ou para a direita. No entanto, para que
a força magnética aponte para cima no esquema mostrado, B deve apontar para a direita,
como indicado na figura. Por fim, determinamos o módulo do campo magnético:
𝒎𝒈 𝒎𝒈 𝟏𝟎
𝑩= = = 𝟒𝟔,𝟔 × 𝟏𝟎−𝟑 = 𝟏, 𝟕 × 𝟏𝟎−𝟐 𝐓 = 𝟏𝟕 𝐦𝐓
𝒊𝑳 𝐬𝐢𝐧 𝟗𝟎𝒐 𝑳 𝒊 𝟐𝟖
Em que:
• m/L = 46,6 × 10–3 kg/m3.
• g = 10 m/s2.
MIDIATECA
135
Lei de Biot-Savart e Lei de Ampère
Até aqui vimos como campos magnéticos externos atuam sobre cargas e
fios retilíneos transportando correntes. Agora veremos como podemos cal-
cular os campos magnéticos gerados por algumas distribuições de corrente.
Lei de Biot-Savart
Nosso primeiro passo será determinar o campo magnético produzido por um fio retilíneo
infinito transportando corrente.
A figura 10 mostra um fio de forma arbitrária percorrido por uma corrente i. Nosso objetivo
é calcular o campo magnético B em um ponto próximo ao fio, designado por P. Para tal,
dividimos mentalmente o fio em elementos infinitesimais e definimos para cada elemento
um vetor de comprimento ds, cujo módulo é ds e cuja direção é a mesma da corrente no
elemento. O campo gerado pelo elemento de corrente ids em P é designado por dB.
Figura 10: Um elemento de corrente ids produz um campo dB no ponto P, o qual está entrando no papel
(o símbolo × representa a extremidade traseira de uma seta).
136
Assim como os campos elétricos, os campos magnéticos podem ser somados para
determinar o campo total. Portanto, o campo total no ponto P pode ser obtido a partir da
soma, por integração, das contribuições de todos os elementos de corrente. Esse pro-
cesso, entretanto, é um pouco mais complicado pelo fato de o elemento de corrente ids,
responsável pelo campo magnético, ser uma grandeza vetorial.
𝝁𝟎 𝒊𝒅𝒔 𝐬𝐢𝐧 𝜽
𝒅𝑩 = (7)
𝟒𝝅 𝒓𝟐
Em que:
𝐦 𝐦
𝝁𝟎 = 𝟒𝝅 × 𝟏𝟎 −𝟕 𝐓. ≈ 𝟏, 𝟐𝟔 × 𝟏𝟎−𝟔 𝐓.
𝐀 𝐀
A orientação de dB, que é para dentro do papel na figura 10, é a mesma do produto veto-
rial ds×r. Portanto podemos escrever a equação (7) na forma vetorial como:
𝝁𝟎 𝒊𝒅𝒔 × 𝒓�
𝒅𝑩 = (8)
𝟒𝝅 𝒓𝟐
Essa equação vetorial e sua forma escalar, equação (7), são conhecidas como Lei de
Biot-Savart.
De acordo com a equação (8), se um ponto P está na mesma reta que a corrente em um
trecho de um fio, o campo magnético produzido no ponto P é nulo, pois θ = 0° ou θ = 180°,
e sin(0°) = sin(180°) = 0.
137
Para ilustrar como a Lei de Biot-Savart funciona, vamos usá-la para calcular o campo
magnético gerado em um ponto P por um fio retilíneo infinito transportando uma corren-
te i. A Figura 11 é semelhante à Figura 10, exceto pelo fato de que agora o fio é retilíneo
e de comprimento infinito. Queremos calcular o campo produzido pelo fio no ponto P,
situado a uma distância perpendicular R do fio. O módulo do campo elementar gerado
em P por um elemento de corrente ids situado a uma distância r do ponto P é dado pela
equação (7). A orientação de dB é indicada na figura (para dentro do papel).
Observe que a contribuição para o campo magnético no ponto P de cada um dos ele-
mentos de corrente nos quais o fio pode ser dividido possui a mesma orientação, isto é,
apontam para dentro do papel. Assim, podemos calcular o módulo do campo magnético
produzido em P pelos elementos na metade superior de um fio infinitamente longo inte-
grando dB (equação (7)) de 0 a ∞.
Figura 11: Cálculo do campo magnético produzido por uma corrente em um fio retilíneo longo.
Considere agora um elemento de corrente situado na parte inferior do fio. Esse elemento
está a uma distância de P equivalente àquela que ds está de P. De acordo com a equação
(8), o campo magnético produzido por esse elemento, no ponto P, tem o mesmo módulo
e a mesma orientação que o campo magnético produzido pelo elemento ids da Figura 11.
O campo magnético produzido em P pela parte inferior do fio é, portanto, igual ao campo
produzido nesse mesmo ponto pela parte superior. Para determinar o módulo do campo
magnético total B, basta, portanto, multiplicar por dois o resultado da integração:
∞ ∞
𝝁 𝟎𝒊 𝐬𝐢𝐧 𝜽 𝒅𝒔
𝑩 = 𝟐 � 𝒅𝑩 = � (9)
𝟐𝝅 𝒓𝟐
𝟎 𝟎
138
As variáveis r, θ e s na equação (9) não são independentes. Como pode ser visto na Figura
11, elas estão relacionadas pelas equações:
Utilizando as relações (10), podemos transformar a equação (9) em uma integral tabela-
da, cujo resultado é:
Figura 12: Linhas de campo magnético produzidas por uma corrente em um fio retilíneo longo.
139
O cálculo do módulo do campo magnético usando a equação (12) é simples; a dificulda-
de de muitos estudantes está, muitas vezes, em determinar o sentido do campo em um
ponto dado. No entanto existe uma regra simples para isso, conhecida como regra da
mão direita (Figura 13).
Figura 13: Regra da mão direita utilizada para determinar o sentido do campo magnético gerado por um
fio retilíneo longo. Na letra (a) a corrente flui para baixo, enquanto na letra (b) seu sentido é invertido, as-
sim como o do campo.
140
Lei de Ampère
Uma outra maneira de determinar o campo magnético gerado por uma distribuição de
correntes é utilizar a Lei de Ampère. Essa lei relaciona a componente tangencial do cam-
po magnético (Bt) somada ao longo de uma curva fechada C à corrente ic que atravessa
qualquer superfície limitada por C. Assim como a Lei de Gauss no caso do campo elétri-
co, a Lei de Ampère pode ser usada para obter uma expressão para o campo magnético
em situações com alto grau de simetria. A formulação matemática da lei é:
Em que:
A integral de linha deve ser realizada sobre uma curva fechada C qualquer.
iC é a corrente resultante que atravessa qualquer superfície S delimitada por C (figura 14).
Figura 14: O sentido positivo para a integral de caminho na Lei de Ampère está relacionado ao sentido
positivo da corrente que atravessa qualquer superfície S delimitada por C.
Como mencionado anteriormente, a Lei de Ampère é útil para calcular o campo magné-
tico em situações que têm um alto grau de simetria. Nesses casos, a integral pode
ser escrita como A integral é chamada de integral de circulação. A Lei de
Ampère, assim como a Lei de Gauss, é válida mesmo que a distribuição de correntes
(ou cargas) não apresente simetria. Nesse caso, entretanto, a lei não é muito útil para o
cálculo do campo magnético.
141
A aplicação mais simples da Lei de Ampère é o cálculo do campo magnético gerado
pela corrente em um fio retilíneo infinitamente longo. Vale lembrar que a expressão para
o campo magnético produzido por um fio retilíneo longo já foi obtida por meio da Lei de
Biot-Savart. No entanto vamos realizar esse cálculo novamente para mostrar como a Lei
de Ampère pode ser utilizada para calcular campos magnéticos.
A Figura 15 mostra uma curva circular C envolvendo um longo fio, com o centro no fio.
Sabemos que a direção do campo magnético devido a cada elemento de corrente do fio
é tangente a esse círculo.
Figura 15: Geometria para o cálculo do campo magnético gerado por um fio condutor longo e retilíneo
usando a Lei de Ampère.
Considerando, então, que o vetor B é tangente ao círculo em cada ponto, com B paralelo
a ds em cada ponto, e também que o módulo de B tem a mesma magnitude em qualquer
ponto do círculo, a Lei de Ampère torna-se:
(Podemos tirar B da integral, uma vez que seu valor é o mesmo em todos os pontos do
círculo.) A integral � 𝑑𝑠 nada mais é que o comprimento do contorno do círculo, 2πR.
Assim:
𝝁𝟎 𝒊𝑪
𝑩=
𝟐𝝅𝑹
142
Importante
Exemplo 4
Solução
Pela Lei de Ampère, a integral � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ terá maior valor absoluto quanto maior for o valor
absoluto do termo μ0 iC, em que iC é a corrente total (resultante) envolvida pela amperiana
escolhida.
143
𝑐: 𝑖𝑐 = −𝑖 → � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ = −𝜇0 𝑖 .
𝑑: 𝑖𝑑 = 2𝑖 → � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ = 2𝜇0 𝑖 .
As correntes que apontam para cima foram consideradas positivas. Analisando os resul-
tados, verificamos que a integral � 𝐵 . 𝑑𝑠⃗ tem o maior valor absoluto para a amperiana d,
em seguida para as amperianas a e c e, por fim, para a amperiana b.
Curiosidade
Como você viu, correntes elétricas são capazes de gerar campos magnéti-
cos. Um eletroímã (Figura 17) é um dispositivo que utiliza corrente elétrica
para gerar um campo magnético similar àquele produzido pelos ímãs natu-
rais, como a magnetita. Geralmente são construídos utilizando-se fios elétri-
cos espiralados, os quais envolvem um núcleo de ferro ou aço, ou outro ma-
terial com propriedades magnéticas significativas. Os fios espiralados geram
um campo magnético no seu interior, o qual pode ser amplificado devido à
presença do material magnético. Como é construído a partir de um fio que
transporta corrente, fazendo, assim, parte de um circuito, o eletroímã é desliga-
do quando o fluxo de corrente é interrompido.
144
MIDIATECA
145
Indução eletromagnética e Lei de Faraday
Indução eletromagnética
As observações feitas por Michael Faraday, Joseph Henry e outros cientistas e que leva-
ram à formulação da lei de indução eram, a princípio, apenas ciência básica. Hoje, porém,
suas aplicações estão em toda parte. A indução é essencial, por exemplo, para a opera-
ção dos geradores elétricos que fornecem energia a nossas cidades e também para o
funcionamento dos fornos de indução utilizados na indústria.
146
Os experimentos realizados por Faraday, Henry e outros mostraram o seguinte:
Na sequência, conheça a Lei de Faraday, que estabelece a ligação entre um campo mag-
nético e a fem produzida (induzida) por ele.
Lei de Faraday
A lei de indução relaciona a fem com o fluxo de campo magnético por meio de uma
superfície. O fluxo magnético Φm é definido de maneira similar ao fluxo elétrico, visto na
Unidade 2:
𝚽𝒎 = � 𝑩. 𝒅𝑨 (15)
Em que:
dA é um elemento infinitesimal da área que está sendo atravessada pelo campo magné-
tico.
O fluxo através de uma superfície plana de área A sobre a qual o campo B é uniforme é
dado por:
𝚽𝒎 = 𝑩𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽 (16)
147
Em que:
Figura 19: Quatro situações diferentes em que um ímã se aproxima (letras (a) e (c)) ou se afasta (letras (b)
e (d)) de uma espira. Em todas elas, o fluxo de campo magnético pela área da espira gera uma corrente
induzida na espira. O sentido da corrente depende da direção do campo e se o fluxo aumenta (ímã se
aproxima) ou diminui (ímã se afasta).
O fluxo pela superfície também pode variar devido ao ângulo θ. Nesse caso, podemos
variar a orientação da superfície ou a direção do campo magnético. Em cada caso, se
houver um caminho condutor ao longo do perímetro da superfície, tal como um fio me-
tálico, uma fem ε será induzida ao longo desse caminho. A fem induzida é dada por:
𝒅𝚽𝒎
𝜺=− (17)
𝒅𝒕
148
Essa equação é conhecida como Lei de Faraday. O sinal de menos na equação (17) está
relacionado com o sentido da fem induzida (horário ou anti-horário). Por ser uma volta-
gem, a unidade de fem no SI é o volt (V).
𝒅𝚽𝒎
𝜺 = −𝑵 (18)
𝒅𝒕
Exemplo 5
Um campo magnético uniforme faz um ângulo de 30° com o eixo de uma bo-
bina formada por 300 espiras circulares, cada uma com raio igual a 4,00 cm.
A intensidade do campo aumenta a uma taxa de 85,0 T/s, enquanto sua orien-
tação permanece fixa. Determine:
Solução
𝒅𝚽𝒎 𝒅
𝜀 = −𝑵 = −𝑵 𝑩𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽
𝒅𝒕 𝒅𝒕
Como a intensidade do campo varia a uma taxa de 85 T/s, temos dB⁄dt=85 T/s (como
o campo aumenta, a derivada é positiva). Como apenas o campo varia, o termo A cosθ
pode ser tratado como uma constante. Logo:
𝒅𝑩 𝟐
𝜺 = −𝑵𝑨 𝐜𝐨𝐬 𝜽 = − 𝟑𝟎𝟎 𝝅 𝟒 × 𝟏𝟎−𝟐 𝐜𝐨𝐬 𝟑𝟎𝒐 𝟖𝟓 = 𝟏𝟏𝟏 𝐕
𝒅𝒕
Ou |ε| = 111 V.
149
(b) Como a fem induzida é uma voltagem e a resistência da bobina é dada, podemos
utilizar a Lei de Ohm:
𝑽 𝜺 𝟏𝟏𝟏
𝒊= = = = 𝟎, 𝟓𝟓𝟓 𝐀
𝑹 𝑹 𝟐𝟎𝟎
Uma convenção de sinais permite que o sinal de menos na Lei de Faraday seja utilizado
para determinar o sentido da fem induzida, que é o mesmo da corrente induzida. De acor-
do com essa convenção, a direção positiva ao longo do caminho de integração C (figura
19) está relacionada à direção e ao sentido do vetor normal n,^ perpendicular à superfície
S limitada por C. Tal relação é estabelecida pela regra da mão direita: colocando seu
dedo polegar direito no sentido do vetor n,^ os dedos da sua mão se curvam no sentido
positivo de C. Assim, se (dΦm)⁄dt é positiva, então, de acordo com a equação (17), ε está
no sentido negativo de C.
Figura 20: A regra da mão direita ajuda a definir o sentido positivo da curva C e também o da fem induzida.
Exemplo 6
150
Figura 21: Espira em uma região com campo magnético B.
Solução
𝒅𝚽𝒎 𝒅 𝒅𝑩
𝜺=− =− 𝑩𝑨 = −𝑨
𝒅𝒕 𝒅𝒕 𝒅𝒕
Observando a figura 20, verificamos que o campo magnético atravessa apenas a área
limitada pela semicircunferência. Assim:
Para t=10 s:
Ou |ε| = 5,2 V. Como εfon = 2,0 V, o sinal da fem induzida é contrário ao da fem produzida
pela fonte acoplada à espira. Assim, se a fem da fonte tem sentido anti-horário (indicado
na figura), ε é contrária e tem sentido horário.
151
Saiba mais
𝒅𝚽𝒎 𝒅 𝒅𝒙
𝜺=− =− 𝑩𝒍𝒙 = −𝑩𝒍 = −𝑩𝒍𝒗 (19)
𝒅𝒕 𝒅𝒕 𝒅𝒕
Em que:
Figura 22: Uma fem é induzida no circuito formado pela barra condutora e os trilhos
(ligados por um resistor) devido ao movimento da barra.
152
MIDIATECA
NA PRÁTICA
Você já deve ter passado pela seguinte situação: ao tentar aproximar dois ímãs,
à medida que eles ficam mais próximos, ocorre uma forte repulsão ou uma forte
atração. Por que isso ocorre? Se você quebrar um dos ímãs, com a quebra ocorrendo
na região entre os dois polos, conseguirá isolar um polo do outro?
Resposta
Quando aproximamos dois ímãs, podemos estar aproximando dois polos iguais ou
dois polos opostos, dependendo da posição relativa dos objetos.
153
Resumo da Unidade 4
Nesta unidade você aprendeu o conceito de campo magnético e força magnética sobre
cargas e correntes. Também aprendeu que um fio transportando corrente gera campo
magnético e viu como esse campo pode ser calculado. Por fim, aprendeu um pouco
sobre a indução eletromagnética e como uma corrente pode ser induzida em um caminho
condutor devido à variação do fluxo magnético.
CONCEITO
154
Referências
HALLIDAY, D.; RESNICK, R.; WALKER, J. Fundamentos de física. Rio de Janeiro: LTC,
2019. v. 3.
TIPLER, P. A.; MOSCA, G. Física para cientistas e engenheiros. Rio de Janeiro: LTC,
2009. v. 2.
155