Introdução Filosófica aos Fundamentos
da Física Quântica
Carlos Roberto Ferreira de Castro
Simone da Silva Fernandes
Cíntia Guimarães Ferreira
1. Introdução
O que é realidade? A cultura do ser humano carrega consigo essa
pergunta e muitas tentativas de explicação. Durante anos a filosofia assu-
miu a responsabilidade do conhecimento da realidade do mundo. Com o
desenvolvimento do método científico, a filosofia passou a ser uma reflexão
sobre o conhecimento do mundo, que passou a ser dado pela ciência. O
método científico mudou a realidade filosófica subjetiva do ser humano, le-
vando-o para o laboratório experimental, para uma realidade filosófica obje-
tiva. A localização de um ente¹ no espaço e tempo se fez necessária para
determinar a sua realidade. A independência do sistema de referência², na
mecânica clássica, mostrou que a realidade temporal de um ente era abso-
luta; independente do observador (o tempo é o mesmo para todos os obser-
vadores). A teoria da relatividade restrita, ajustou o eletromagnetismo de
Maxwell com a mecânica Newtoniana, usando a transformada de Lorentz,
colocando o ente em um espaço quadrimensional (espaço-tempo). A sua
realidade temporal passou a ser relativa, ou seja, dependente do sistema de
referência (o tempo não é o mesmo para observadores parados e em MRU).
Para essa realização, Einstein postulou o absolutismo da velocidade da luz
no vácuo, criando uma realidade Universal independente do observador.
Isto influenciará a sua filosofia objetiva da realidade e até a sua morte não
aceitou o estado emaranhado³ de entes quânticos, que exigiam uma realida-
de física não-local4.
Classicamente o conceito de realidade estava estabelecido: Um
objeto físico comporta-se como uma onda ou como corpúsculo, mas nunca
como ambos, simultaneamente. Os fenômenos ondulatórios (noção de con-
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tínuo) são descritos pelo eletromagnetismo de Maxwell e os fenômenos
corpusculares (noção de discreto) são descritos pela mecânica Newtoniana.
Assim, a realidade clássica atendia a nossa intuição de realidade do Univer-
so, com os seus conceitos de trajetórias, causalidade, determinismo, locali-
dade e energia (contínua).
A física quântica exige uma nova interpretação da realidade, con-
tradiz a nossa intuição clássica e nos deixa sem uma filosofia objetiva do
que é realidade. Todo o estudo filosófico da realidade quântica proposto,
estará limitado ao seu início, a sua interpretação ortodoxa (interpretação de
Copenhague), ou seja, estaremos falando de Bohr, da pedra no seu sapato
(Einstein) e do princípio da incerteza de Heisenberg.
O que temos é um pragmatismo inevitável, pois ela representa
uma teoria física bem estabelecida e é a responsável por toda a tecnologia
do mundo moderno.5
2. Desenvolvimento
2.1 Primeiro momento
No ano de 1900 a ciência parecia não ter dúvidas do seu critério
de realidade. Tudo indicava, que os laboratórios experimentais, estavam
aguardando o avanço tecnológico para realizações mais precisas de suas
medidas6. Estabelecida as condições iniciais de uma partícula (por exemplo:
sua posição e velocidades iniciais) a função que descreve o movimento
tinha o seu futuro e passado determinados. Ainda mais: Na realidade
Newtoniana, podemos nascer velhos e morrer novos7. A segunda lei da
-
¹ Aquilo que existe; coisa; objeto; matéria; substância; ser.
² - Um sistema de referência parado e outro em movimento retilíneo uiforme (MRU) em relação
a ele.
3, 4 –
Serão comentados mais adiante.
5–
Alberto Passos Guimarães em seu livro A pedra com alma, escreveu: Já foi estimado que cerca
de 30% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos depende de inovações que resultam
do conhecimento da mecânica quântica.
6–
O princípio da incerteza mostrará uma realidade imprecisa na medida simultânea da posição e
da velocidade de uma partícula e que será independente do avanço tecnológico.
7–
Frase atribuída ao cientista brasileiro José Leite Lopes (fundador do CBPF). Retirada do livro
“Física Moderna para iniciados, interessados e aficionados”. Volume 1 de Ivan S. Oliveira.
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termodinâmica (entropia) restabelece o fluxo do tempo (nascemos novos e
morremos velhos) e em 1905, Einstein limita a aceleração da segunda lei de
Newton e tira a instantaneidade de interação da terceira lei. A interpretação
filosófica da realidade clássica, parecia dar conta da coisa em si procurada
pelos filósofos.
Retornando para 1900, encontramos um problema entre teoria e
experiência que não se ajustavam, conhecido como catástrofe do ultravioleta.
Planck8 em um ato de desespero (palavras suas) substitui o símbolo de
integral, por um de somatório, no cálculo do valor médio das energias. Isso
levou-o a considerar a energia como uma variável discreta, em vez de uma
variável contínua, como sempre foi considerada pela física clássica. Em
1905 Einstein, com base na discretização da energia, explica o efeito
fotoelétrico e em 1923 Compton explica o efeito Compton. Estremeceu,
mas a filosofia objetiva da realidade clássica gozava de boa saúde, quando
em 1924 de Broglie em sua tese de doutorado anunciou que: Toda partícula
tem a sua onda associada e fez a sua única previsão: A difração de elétrons,
um fenômeno essencialmente ondulatório.
A concepção da onda (é uma extensão) para partícula (bem loca-
lizada), não trouxe problema para a interpretação da dupla fenda, pois o
caráter ondulatório era acionado para explicar o fenômeno da interferência.
Entretanto, a concepção de partícula para onda vai alterar toda a interpreta-
ção filosófica objetiva da realidade clássica, iniciando uma filosofia objetiva
da realidade quântica.
A realidade quântica é tão estranha a nossa intuição clássica do
que é real e dá margens a interpretações tão bizarras, que os místicos e os
não místicos, cientes de sua fragilidade, empanturraram-se dessa filosofia,
tornando-os obesos em suas contas bancárias.
2.2 Segundo momento
Aquilo que é próprio de um ser (ente) se chama ATRIBUTO e
ENTE é aquilo que existe; coisa; objeto; matéria e ser. Cada ente possui
8–
A sorte ajuda a quem procura. Planck estava trabalhando com a ideia de um oscilador harmônico.
Encontrou uma energia proporcional a sua frequência; dada por: E = nhf; n = 0, 1,2, .... A energia
de um oscilador harmônico quântico é dada por: E = ( n + ½) hf; n = 0, 1, 2, ... . Essa energia
atende o princípio da incerteza de Heinsenberg, que exige uma flutuação mínima para n = o.
Planck trabalhava com a diferença de níveis de energias, portanto a constante era subtraída, não
alterando os seus resultados.
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dois tipos de atributos: Os estáticos e os dinâmicos. Os estáticos são: massa,
carga e magnitude do spin. Os dinâmicos são: posição, quantidade de movi-
mento, orientação do spin, energia, tempo etc. As grandezas conjugadas:
posição e momento, energia e tempo etc., é que são responsáveis pela filo-
sofia objetiva da realidade quântica.
Qualquer que seja a definição de realidade, o mito da caverna de
Platão, o que é real é racional, o que é racional é real de Hegel ou a coisa
em si de Kant, não podemos negar a existência do elétron. As suas oscila-
ções produzem uma onda eletromagnética que se propaga no espaço e é
transmitida para uma antena receptora, transformando-se em sons e ima-
gens. Temos que assumir um critério de realidade: O que cria tecnologia.
Os elétrons possuem propriedades reais, como massa e carga. O problema
é quando queremos saber a sua posição e velocidade ao mesmo tempo.
O princípio da incerteza diz: Não podemos saber com precisão,
em uma medida simultânea, a posição e o momento (velocidade) de um
elétron. De outra forma: Em uma medida simultânea da posição e da velo-
cidade do elétron, existirá sempre uma incerteza associada a essas medi-
das. E isso é inevitável, não depende de avanços tecnológicos, é a manifes-
tação de uma realidade indeterminada de pares conjugados. Em uma lin-
guagem popular: Podemos saber onde o elétron está, mais não sabemos o
que ele está fazendo. Podemos saber o que ele está fazendo, mas não sabe-
mos onde ele está. A realidade dessas grandezas conjugadas é indeterminada,
contrariando o determinismo clássico.
O problema da dupla fenda para o elétron pode ser apresentado
dessa forma: Um único elétron caminha de encontro a duas fendas, que têm
a ordem de grandeza do comprimento de onda a ele associado. Um gerador
de elétrons continua a enviar um elétron de cada vez ao encontro das fen-
das. Espera-se um determinado tempo. O padrão da interferência, caracte-
rístico de onda, é formado. Podemos saber por onde ele passou, mas este
conhecimento destrói o efeito de interferência. É o princípio da incerteza
atuando. A realidade exata de entes conjugados não é possível.
Na física clássica um ente físico pode ter a sua essência de onda
ou de corpúsculo, enquanto que um ente da física quântica a sua essência é
dual: onda-corpúsculo. A realidade quântica é complementar. O aspecto de
onda e corpúsculo são necessários para explicar a realidade do mundo, po-
rém em um experimento eles não se apresentam simultaneamente. É a ex-
periência (observador) que determina a realidade que se quer observar.
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Essa interpretação é que Bohr irá abraçar na sua visão idealista da
realidade.
2.3 Terceiro momento
A equação ondulatória de Schröedinger9, não relativística, solucio-
nava os postulados de Bohr e generalizava o postulado de Broglie para um
potencial qualquer. Introduz o conceito de densidade de probabilidade e os
valores médios esperados das grandezas dinâmicas podiam ser calculados.
Podemos dizer, que a função de onda guarda em si, todas informações que
se pode obter sobre um sistema físico, dentro dos limites estabelecidos pelo
princípio da incerteza.
Matematicamente, tudo o que temos que fazer é achar a função
de onda que satisfaça a equação. Toda sua complexidade está no potencial
que a partícula está submetida, ao se resolver a equação de Schroedinger
independente do tempo, que descreve um estado estacionário. A sua solu-
ção se formaliza, atendendo às condições de finita, unívoca e contínua.
Para o estudo da filosofia objetiva da realidade quântica, o nosso
interesse é o significado da função de onda. Os cientistas a consideram uma
função de onda vazia, sem sentido. Max Born deu uma interpretação para o
quadrado do seu módulo, que ficou conhecido como densidade de probabili-
dade. A linearidade da equação de Schroedinger permite o princípio da
superposição: Se uma autofunção é a sua solução e uma outra autofunção
também é a sua solução, então a soma das duas também é uma solução.
Existe um conceito filosófico conhecido como reducionismo, mui-
to criticado, que diz: A soma das partes forma o todo. Uma analogia um
pouco forçada é a seguinte: Conhecendo-se o funcionamento dos pulmões,
coração, cérebro etc. e depois juntando-os para formar o corpo surge a
pergunta: As partes formam o corpo ou o corpo é maior do que as partes?
De uma certa forma é o que fazem os cientistas de altas energias. Tentam
compreender os constituintes elementares da matéria para explicar o uni-
verso.
9–
Schroedinger não gostou da interpretação dada a sua função de onda. Publicou uma experiência
de pensamento conhecida como Gato de Schroedinger, onde a superposição de gato vivo e gato
morto ao mesmo tempo, era questionada. Publicou o livro: O que é a vida? Que iria influenciar
Grick e Watson a pesquisar a estrutura do DNA.
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O problema filosófico da realidade encontra o seu maior desafio
no processo de medição da função de onda. Antes do ato de medir os elé-
trons (entes quânticos) encontram-se em superposições de estados10 . Ao
se realizar a medida (colapso da função de onda), somente uma solução se
apresenta e as demais somem instantaneamente, ou seja, os atributos dinâ-
micos (posição e velocidade) são criados na hora da medição. Ainda mais:
Antes da realização de uma medida o elétron não possui qualquer atributo
dinâmico, ou seja, é desprovido de realidade; não existe. O conceito de
trajetória e causalidade da física clássica foi atacado. Sobre a trajetória é
melhor deixar Feynman explicar: O mundo não medido funciona segundo
duas regras: 1) Um ente quântico isolado percorre todas as trajetórias pos-
síveis. 2) Nenhuma trajetória é melhor do que a outra. O ente quântico age
como se seguisse, simultaneamente, todas as trajetórias, ou seja, o ente está
fadado a tomar todos os caminhos simultaneamente.
Uma analogia clássica é a seguinte: Para forças conservativas o
trabalho realizado por uma força sobre um corpo entre A e B é o mesmo,
independente da trajetória seguida entre A e B. Existem infinitos caminhos
(possibilidades) entre A e B e todos levam o mesmo resultado. É evidente
que o significado não é o mesmo. O objetivo é mostrar que a física clássica
não é filosoficamente inocente.
A analogia se completa dessa forma: Todos os caminhos chegam
até a Roma. Classicamente, Roma será alcançada por um único caminho,
dentre todos existentes. Quanticamente, Roma será alcançada por todos os
caminhos existentes simultaneamente.
2.4 Quarto momento
PRAGMATISMO
Concepção filosófica que não se preocupa em perguntar: O que é
realidade? Essa pergunta ela deixa para a filosofia. A sua preocupação é
com os resultados. Algumas frases irão definir essa filosofia.
10 -
A. P. Guimarães, escreveu: ... o elétron pode estar em uma superposição de estados tal que o seu
spin aponta ao mesmo tempo para cima e para baixo! Apenas quando se faz um experimento para
determinar o seu estado – ou quando o elétron de algum modo interage com o meio – é que ele
“escolhe” qual estado mostrar, para cima ou para baixo.
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. É um erro pensar que a tarefa da física é descobrir como é a
natureza. A física se preocupa com o que podemos dizer da natureza (Bohr.
Ele não se encaixa nessa concepção).
. A mecânica quântica é aquela misteriosa, confusa disciplina, que
nenhum de nós realmente compreende mas que sabemos como usar (Murray
Gell Mann).
. Cale a boca. Faça o cálculo (Richard Feymann).
. A mecânica quântica é uma teoria tecnológica, concebida para
desenvolver tecnologia e, graças à matemática, ela atingiu seu objetivo
(Wladimir Guglinski).
Para o pragmatismo a questão de quem surgiu primeiro, o ovo ou
galinha está resolvido. A galinha foi apenas um meio que o ovo arrumou de
fazer outro ovo.
IDEALISMO
É uma atitude filosófica que NEGA a existência de uma reali-
dade objetiva do mundo independente do sujeito. É a posição defendida
por Bohr. O texto a seguir é uma organização de fragmentos de suas
ideias.
Não existe realidade profunda. O mundo em torno de nós é
real, mas flutua em um mundo não real. A realidade é criada pela obser-
vação, portanto na ausência de observação, não existe qualquer realida-
de. A observação (o sujeito) cria a realidade e a posição e quantidade de
movimento de um ente quântico não existem antes de serem observa-
dos.
Para Bohr a realidade é uma realidade medida e um ente quântico
(elétron) antes da realização de uma medida, encontra-se em todo estado
possível (princípio da superposição). O ato de medir trás para o nosso mun-
do uma possibilidade (colapso da função de onda) e as demais somem ins-
tantaneamente.
Bohr fala do seu critério de realidade sobre os atributos dinâmicos
dos entes quânticos, ou seja, de suas grandezas conjugadas e não dos seus
atributos estáticos.
O filósofo grego Protágoras escreveu: “O homem é a medida de
todas as coisas”. Bohr poderia ter escrito: “Todas as coisas são medidas
pelo homem”.
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REALISMO
É uma atitude filosófica que ACEITA a existência de uma realida-
de objetiva do mundo, independente do sujeito. É a posição defendida por
Einstein.
O mundo é constituído de objetos comuns e um objeto comum é
um ente que possui qualidades próprias, quer esteja ou não sendo observa-
do.
Uma analogia macroscópica: Quando não estamos olhando para a
Lua ela não existe (idealismo de Bohr). O realismo de Einstein diz que a
Lua existe mesmo quando não está sendo observada.
Werner Heisenberg escreveu: “Alguns físicos prefeririam voltar à
ideia de um mundo real objetivo cujas menores partes existissem objetiva-
mente, assim como as pedras ou as árvores existem, independentes de as
estarmos observando. Isso, contudo é impossível”.
Einstein discorda de Heisenberg e achava que a física quântica
estava incompleta, devendo existir variáveis ocultas, para sua completa for-
mulação. São suas essas palavras: “Ainda acredito na possibilidade de um
modelo, isto é, de uma teoria, que represente as coisas em si e não mera-
mente a probabilidade de sua ocorrência”. Ele não digeria bem o colapso da
função de onda, mas acredito que o seu mal-estar era ainda maior com o
que ficou conhecido como emaranhamento quântico.
David Bohn escreveu: “Dois entes emaranhados quando se afas-
tam não são representados por duas formas ondulatórias. São representa-
dos por uma única onda”. Quando um desses entes é medido, afeta o outro
instantaneamente, independente da distância entre eles e isso é conhecido
como realidade não-local11. A realidade clássica é local, significando que
uma medida realizada em uma partícula, só poderá afetar uma outra que
esteja distante, com velocidade inferior ou igual à velocidade da luz. A não-
localidade atingia uma das principais consequências da teoria da relativida-
de restrita de Einstein (a velocidade absoluta da luz). Einstein denominou o
emaranhamento quântico de “Fantasmagórica ação à distância”.
Um exemplo imaginário: Qualquer acontecimento no Sol, a infor-
mação chegará a Terra depois de 8 minutos e vinte segundos aproximada-
11 –
Foi verificado experimentalmente pelo físico francês Alain Aspect na Universidade de Paris,
em 1982.
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mente. Essa informação se processou na velocidade da luz e isso represen-
ta um critério de realidade local. Dois entes quânticos A e B emaranhados
no Sol, A permanece e B é lançado para o espaço. Esteja B na Terra ou em
qualquer parte do Universo, se uma medição for realizada em A; B saberá
instantaneamente sobre a medição de A. Essa ação a distância sem media-
ções é que se chama realidade não-local.
Tudo isso é muito estranho para a nossa intuição clássica da rea-
lidade, entretanto sistemas de estados emaranhados são essenciais para a
computação quântica.
Talvez tenhamos errado ao admitir que a realidade do mundo é a
realidade clássica e estamos forçando a realidade quântica a adaptar-se a
essa concepção. Talvez devêssemos deixar a física quântica ajustar-se con-
sigo mesma, para produzir a sua própria interpretação do mundo e ao mes-
mo tempo fossemos adquirindo uma intuição quântica da realidade do mun-
do.
2.5 Quinto momento
A construção de uma filosofia objetiva da realidade quântica, de-
verá atender as considerações de Bell.
. Qualquer que seja a realidade, ela precisa ser não-local.
. Nenhuma realidade local pode explicar o tipo de mundo em que
vivemos.
. Qualquer modelo de realidade compatível com os fatos quânticos,
precisa assumir algum meio de permutar informações mais rapidamente
que a luz.
Dividimos a filosofia atual em: Filosofia subjetiva da realidade (não
depende da ciência) e filosofia objetivada realidade (depende da ciência).
Alguns filósofos partiram de uma verdade para a construção lógica de sua
filosofia. O penso, logo existo de Descartes teria que enfrentar os avanços
da neurociência. O essencialismo (a essência precede a existência) de
Kierkegaard e o existencialismo (a existência precede a essência) de Sartre
teriam que enfrentar o avanço da genética.
Algum critério de verdade deverá ser estabelecido para a cons-
trução de uma filosofia objetiva da realidade. O filosofo Diógenes escreveu:
“Não existe verdade. Se existe não podemos conhecer. Se a conhecemos
não podemos transmitir”.
Revista Souza Marques, V. 1, N. 28, 2013 - 17
A concepção pragmática da ciência nos oferece um critério de
verdade. O conhecimento da natureza é transformado em tecnologia. Mes-
mo que não tenhamos o conhecimento da coisa em si desta verdade, pode-
mos transmiti-la através da tecnologia criada. Por que acreditamos que exis-
tem bilhões de galáxias? O método científico sozinho não nos transmite esta
segurança. A maioria dos seres humanos não são convencidos pela lógica,
eles são mais facilmente convencidos, se falarmos o que eles querem ouvir.
A credibilidade na ciência se dá pela postura dos próprios cientistas, pois
sabemos que diante de um erro cometido, todos terão o prazer salutar de
provar a sua falsidade.
A física quântica bagunçou o nosso critério de realidade, mas ela
não está sozinha destruindo nossas convicções. A singularidade12 do Big
Bang nos transmite uma sensibilidade metafísica inevitável e o Universo em
expansão reforça essa sensibilidade. Ainda mais: Os cientistas estão nos
informando que só conhecemos 4% do Universo e que todo ele é preenchi-
do por uma energia e matéria escura, significando o nosso desconhecimento
do Universo em que vivemos. Ainda mais ainda: O Universo não está só
expandido; ele está acelerando.
A dificuldade de atender o teorema de Bell e de lidar com um
Universo desconhecido, está deixando a filosofia objetiva da realidade
enfraquecida. A filosofia subjetiva da realidade adaptou-se a esse ambiente
e goza de boa saúde nas prateleiras das livrarias.
3. Comentários finais
A linearidade da equação de Schroedinger tem sido criticada por
alguns cientistas e como alternativa estão propondo uma teoria não-linear13.
Existem,também, outras interpretações filosóficas para seu critério de rea-
lidade. Entretanto, essas alternativas objetivam restabelecer a realidade clás-
sica da natureza (trajetória, causalidade,determinismo e localidade). Forçar
12 –
Mário Novelo escreveu: No final da década de 1970 descobriu-se a primeira solução analítica
das equações da teoria da relatividade geral de Einstein, representando uma cosmologia sem
singularidades.
13 –
CZACHOR e DOEBVER (2002) escreveram [...] a dinâmica de estados exatamente linear é
uma raridade na física. Teorias lineares são em geral aproximações para aquelas não-lineares. A
exceção é a mecânica quântica [...].
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a mecânica quântica a se adaptar à realidade clássica é assumir a nossa
intuição clássica da realidade como verdadeira.
Cientistas já sabem que os entes quânticos são muitos sensíveis
ao ambiente e que o Universo é preenchido de radiações. Portanto, os siste-
mas quânticos não têm como escapar dessa influência. O meio ambiente
faz desaparecer as propriedades quânticas do sistema (descoerência), apro-
ximando-o de um sistema clássico.
Temos um cérebro formado por entes quânticos coerentes, que
formam uma massa macroscópica descoerente, um cérebro oscilante entre
duas realidades (quântica e clássica). Qual a verdadeira?
Darwin percebeu que no processo evolutivo dos seres vivos, mol-
dados pela seleção natural, a sua adaptação ao ambiente era necessária
para a sua sobrevivência.
Qualquer que seja a nossa opção filosófica, não tem como nos
retirar desse processo: Na compreensão das leis da natureza, na criação de
tecnologia, na criação do instrumental de medida e da leitura dada pelo
instrumento de medida.
Somos 7 bilhões de seres humanos e com a tecnologia atual, pode-
mos afirmar que estaremos todos mortos daqui a 150 anos. A Terra deixará de
existir? É um realismo duro e de indiferença do Universo com a nossa existên-
cia. Jacques Monod escreveu no final do seu livro O acaso e a necessidade:
“Enfim, o homem sabe que está sozinho na imensidão indiferente do Universo
de onde emergiu por acaso. Não mais do que o seu destino, o seu dever não está
escrito em parte alguma. Cabe-lhe escolher entre o reino e as trevas”.
Nas condições da ciência atual, a filosofia objetiva da realidade
deverá ser dual e complementar. Ambas são necessárias e não excludentes.
Para interpretar o mundo macroscópico a filosofia objetiva da realidade é a
clássica, para interpretar o mundo microscópico, a filosofia objetiva da rea-
lidade é a quântica. Elas não podem ser usadas simultaneamente e quem a
escolhe é o tipo de estudo que está sendo realizado: clássico ou quântico. O
princípio da correspondência de Bohr não se aplica e as palavras são justa-
postas (clássica quântica), elas não se aglutinam.
Uma epígrafe conclusiva:
Frequentemente ouvimos dizer que a física clássica e quântica
são hostis entre si. Isto não é verdade. A física clássica e quântica não são
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hostis entre si. A física clássica e quântica jamais foram hostis entre si,
porque na verdade, não existe entre elas absolutamente nada em comum.
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22 - Revista Souza Marques, V. 1, N. 28, 2013