UNIDADE III: Origens e evolução da educação Educação na antiguidade
Educação
É um processo, que primeiramente é informal, começa o âmbito familiar e depois passa
pelo segundo estágio que é a etapa formal, a etapa da escola que tem o papel de complementar a
educação que começa na família. E ao mesmo tempo preparar a pessoa para ser um cidadão
responsável, que em sua comunidade seja capaz de interferir nos problemas e resolvê-los, a
escola tem esse papel de construir junto com o aluno uma identidade social, o aluno deve ser na
escola um protagonista.
A História da Educação na Antiguidade Romana
A educação na Antiguidade Romana evoluiu de um modelo doméstico e prático para um
sistema formal influenciado pelos gregos, adaptado às necessidades administrativas, políticas e
culturais do Império Romano. O processo educacional era moldado pelos valores fundamentais
da sociedade romana, como disciplina, moralidade, patriotismo e oratória, sendo a instrução não
apenas um meio de transmissão de conhecimento, mas também uma ferramenta para a formação
do cidadão e do governante (Marrou, 1971).
Nos primeiros séculos de Roma, a educação era essencialmente doméstica e oral,
transmitida dentro do núcleo familiar. O pai desempenhava um papel central, sendo responsável
pela formação moral e cívica dos filhos. O objetivo da educação primitiva romana era preparar o
indivíduo para ser um cidadão virtuoso e um guerreiro eficiente, enfatizando a obediência, a
coragem e a lealdade ao Estado (Idem).
O ensino era prático, baseado na experiência e no aprendizado por imitação. As crianças
eram treinadas para seguir os costumes dos antepassados (mos maiorum), que representavam a
base da identidade romana. As mães também tinham um papel significativo, especialmente na
educação das filhas, ensinando-lhes habilidades domésticas e valores morais essenciais para a
manutenção da estrutura familiar (Matthews, 1983).
A Influência grega e a institucionalização da educação
A partir do século III a.C., com a expansão de Roma e o contato com a cultura grega,
houve uma mudança na educação romana, que passou a adotar elementos do modelo helênico.
Os romanos reconheceram a importância da retórica e da filosofia gregas, incorporando essas
disciplinas à formação dos jovens da elite (Matthews, 1983).
Segundo Matthews (1983), foram criadas escolas formais divididas em três níveis:
Ludus litterarius (escola primária): voltada para crianças entre 7 e 12 anos, onde
aprendiam leitura, escrita e cálculo básico. Os professores eram chamados de litteratores
(Matthews, 1983).
Grammaticae (escola secundária): oferecia um ensino mais avançado, focado no estudo
da literatura grega e latina, mitologia e história. Nessa fase, os professores eram os
grammatici, que aprofundavam o conhecimento sobre textos clássicos (Idem).
Rhetor (educação superior): destinada aos filhos da aristocracia, essa fase preparava os
alunos para a vida pública e política, ensinando-lhes oratória, filosofia, direito e
administração. A retórica era considerada essencial para a carreira política e jurídica,
sendo os rhetores responsáveis por essa formação (Idem).
De acordo com Momigliano (2004), essa estrutura refletia o papel da educação na
sociedade romana: preparar os jovens para o serviço ao Estado, seja na administração, no
exército ou no Senado. A organização da educação também foi influenciada pela tradição
historiográfica romana, que valorizava o conhecimento da história como um meio de consolidar
os valores do império.
Educação e religião na roma antiga
A religião desempenhava um papel central na educação romana. Desde cedo, as crianças
aprendiam os rituais religiosos e as práticas associadas ao culto dos deuses, reforçando a relação
entre a identidade romana e a religiosidade. A educação religiosa não era apenas uma questão de
fé, mas também uma ferramenta política, usada para legitimar o poder imperial e unificar a
sociedade sob um conjunto comum de crenças e tradições (Rives, 2000).
Com a ascensão do cristianismo no final do Império, a educação romana passou por uma
nova transformação. As escolas pagãs começaram a perder prestígio, e o ensino cristão, baseado
nas Escrituras e na teologia, passou a ganhar força. Os primeiros centros educacionais cristãos
surgiram, formando futuros membros da Igreja e intelectuais cristãos que moldariam a cultura
medieval (Idem).
O declínio do modelo educacional romano
Com a crise do Império Romano no século V d.C., a estrutura educacional também
começou a decair. O modelo de ensino baseado na oratória e na administração perdeu relevância
à medida que as instituições romanas se enfraqueciam. Muitos professores e intelectuais
migraram para o Oriente, onde o Império Bizantino manteve por mais tempo a tradição
educacional greco-romana (Marrou, 1971).
Ao mesmo tempo, a ascensão do cristianismo consolidou um novo modelo educacional,
no qual a teologia e a moralidade cristã substituíram a ênfase na retórica e na filosofia clássica. A
educação passou a ser controlada majoritariamente pela Igreja, inaugurando um novo paradigma
que perduraria durante a Idade Média (Idem).
A pedagogia romana na antiguidade
A pedagogia romana na Antiguidade caracterizou-se por um sistema educativo
fortemente influenciado pela cultura grega, mas que se moldou de acordo com os valores e
necessidades da sociedade romana. O ensino, inicialmente baseado na tradição familiar e no
modelo patriarcal, evoluiu para um sistema estruturado que abrangia diferentes níveis de
formação, desde a educação doméstica até as escolas de retórica e filosofia (Momigliano, 2004).
Segundo Siniscalco (2002), a cultura pagã desempenhou um papel essencial na formação
do pensamento educativo romano, pois a educação estava intrinsecamente ligada à moralidade
cívica e à preparação para a vida pública. O ensino das letras, da oratória e da filosofia era
central na formação dos cidadãos romanos, com especial ênfase na eloquência, que era
considerada uma virtude indispensável para aqueles que aspiravam ao poder político.
No entanto, a ascensão do cristianismo trouxe mudanças significativas nesse cenário. A
educação passou por transformações à medida que imperadores e líderes eclesiásticos
começaram a influenciar o pensamento pedagógico. O ensino não se limitava mais apenas às
tradições pagãs, mas passou a incorporar elementos cristãos, influenciando a formação
intelectual das elites eclesiásticas e políticas do período. Esse processo resultou numa tensão
entre o ensino clássico e os valores cristãos emergentes (Teja, 1999).
De acordo com Velasco (1973), salienta que a obra de Eusébio de Cesareia fornece um
testemunho valioso sobre a relação entre educação e poder na Antiguidade. O cristianismo, ao se
consolidar, procurou reformular os valores educativos romanos, enfatizando o papel da educação
na formação moral e religiosa. A estrutura das escolas retóricas foi gradualmente adaptada,
dando espaço ao ensino cristão, que passou a ter um impacto significativo na pedagogia
medieval subsequente.
Dessa forma, a pedagogia romana na Antiguidade transitou de um modelo centrado na
tradição pagã para um sistema influenciado pelo cristianismo, refletindo as mudanças culturais e
políticas que marcaram o Império Romano.
A organização escolar da educação romana na antiguidade
De acordo com Velasco (1973), a organização escolar na Roma Antiga refletia a estrutura
social e política do Império, sendo voltada principalmente para a formação dos cidadãos que
ocupariam cargos administrativos, militares e políticos. O sistema educativo não era unificado
nem estatal, funcionando de maneira descentralizada e dependendo, em grande parte, da
iniciativa privada e do poder das elites. A estrutura das escolas romanas seguia um modelo
hierárquico, baseado em três níveis principais: o ensino elementar (Ludus Litterarius), o ensino
secundário (Schola Grammatici) e o ensino superior (Schola Rhetoricae).
Estrutura e organização escolar
A educação romana não era obrigatória nem universal, e o acesso às escolas dependia da
condição social e dos recursos financeiros das famílias. As escolas romanas eram, em sua
maioria, instituições privadas, mantidas por mestres independentes (magistri) ou patrocinadas
por famílias aristocráticas. Apenas em períodos mais tardios algumas cidades começaram a
subsidiar a educação de jovens promissores (Matthews, 1983).
De acordo com Matthews (1983), a organização escolar romana baseava-se em três
níveis:
Escolas elementares (Ludus Litterarius) – Destinadas às crianças entre 7 e 12 anos,
responsáveis pelo ensino básico da leitura, escrita e cálculo.
Escolas de gramática (Schola Grammatici) – Voltadas para jovens entre 12 e 16 anos,
focadas no estudo da literatura, gramática e história.
Escolas de retórica (Schola Rhetoricae) – Instituições superiores para a formação de
advogados, políticos e administradores, com ênfase na oratória, filosofia e direito.
Cada nível possuía características próprias e uma estrutura organizacional específica,
refletindo a hierarquia do conhecimento e da sociedade romana.
O ensino elementar e a organização do ludus litterarius
As escolas elementares romanas eram pequenas e funcionavam em espaços simples,
muitas vezes ao ar livre ou em salas alugadas pelos professores. Não havia uma estrutura
padronizada, e os professores, conhecidos como litteratores, ensinavam de forma individual ou
em pequenos grupos (Teja, 1999).
Os alunos aprendiam a ler e escrever utilizando tabuletas de cera e estiletes, além de
praticarem cálculos básicos com o auxílio do ábaco. O ensino era rígido, baseado na repetição e
na memorização de textos. A disciplina era mantida com o uso frequente de castigos físicos, uma
prática comum nas escolas romanas (Idem).
Os professores eram mal remunerados e dependiam das taxas pagas pelas famílias dos
alunos. Algumas cidades romanas começaram a oferecer subsídios para a educação, mas a
maioria das escolas elementares permanecia sob responsabilidade privada (Idem).
As escolas de gramática e a formação dos jovens romanos
O segundo nível de ensino era ministrado pelos grammatici, professores especializados
no estudo da literatura e da gramática latina e grega. As escolas de gramática eram mais
estruturadas que o Ludus Litterarius, contando com salas de aula organizadas e uma rotina de
estudos mais disciplinada (Velasco, 1973).
As escolas de gramática eram frequentadas apenas por jovens de famílias abastadas, que
tinham condições de pagar pelos estudos. O método de ensino permanecia rígido, com ênfase na
repetição e na oratória (Idem).
O ensino superior e a organização das escolas de retórica
As escolas de retórica representavam o nível mais elevado da educação romana, sendo
destinadas à formação de futuros advogados, senadores e administradores públicos. O ensino era
conduzido por um rhetor, um mestre especializado na arte da oratória e da argumentação (Rives,
2000).
Diferente das escolas elementares e de gramática, as escolas de retórica eram instituições
altamente prestigiadas, localizadas nas grandes cidades do Império, como Roma, Atenas e
Alexandria. Essas academias contavam com espaços mais estruturados, salas de aula organizadas
e bibliotecas para consulta (Rives, 2000).
De acordo com Teja (1999), os alunos participavam de exercícios de declamação e
debates públicos, nos quais aprendiam a defender argumentos e a persuadir audiências. O ensino
da retórica era essencial para aqueles que desejavam ascender socialmente, pois o domínio da
palavra era fundamental na política e na administração romana.
Os estudantes mais privilegiados podiam viajar para centros de ensino renomados, onde
recebiam instrução de mestres famosos. Muitas dessas escolas eram financiadas por patronos ou
pelo próprio governo, que incentivava a formação de líderes qualificados para servir ao Império
(Idem).
O papel da organização escolar na manutenção do império romano
A estrutura educacional romana não visava apenas ao desenvolvimento intelectual dos
alunos, mas também à manutenção da ordem social e política do Império. A educação era um
instrumento de reprodução dos valores romanos, garantindo que os futuros governantes e
cidadãos estivessem preparados para suas funções (Teja, 1999).
A rígida hierarquia educacional refletia a organização social do Império, onde apenas
uma elite restrita tinha acesso ao ensino superior e às oportunidades de ascensão social. As
escolas eram locais de disciplinamento e formação moral, moldando os jovens para serem líderes
obedientes e eficientes na administração do Estado (Idem).
Conforme Teja (1999) destaca, a educação romana desempenhou um papel fundamental
na expansão e consolidação do cristianismo, pois muitos líderes religiosos foram formados nesse
sistema. No final do Império, a Igreja começou a assumir o controle da educação, substituindo
gradualmente as escolas tradicionais por instituições cristãs.
Organização curricular da educação romana na antiguidade
A organização curricular da educação romana na Antiguidade era fortemente influenciada
pelos modelos gregos, mas adaptada às necessidades e valores da sociedade romana. O currículo
romano possuía três níveis principais: ludus litterarius, grammaticus e rhetor, cada um com uma
função específica na formação dos cidadãos Clarke (1987).
Educação elementar (Ludus Litterarius)
Segundo Clarke (1987), a educação inicial romana, ministrada pelo litterator, tinha como
objetivo ensinar leitura, escrita e cálculo básico. As crianças começavam sua instrução por volta
dos sete anos, aprendendo a ler e escrever em latim e, posteriormente, em grego. Este nível era
acessível a uma parte significativa da população, embora a qualidade do ensino dependesse das
condições económicas das famílias.
Educação intermediária (Grammaticus)
O segundo nível da educação romana era liderado pelo grammaticus, responsável pelo
ensino aprofundado da literatura, principalmente das obras de Homero e Virgílio. Essa etapa era
essencial para a formação cultural dos jovens, pois além da literatura, os alunos aprendiam
história, mitologia e filosofia, construindo uma base moral e intelectual valorizada na sociedade
romana Carvalho (2002).
Educação avançada (Rhetor)
Segundo Bustamante (2002), a fase final da educação romana era voltada para a
formação dos futuros líderes políticos e administradores. A retórica desempenhava um papel
central, sendo ensinada pelo rhetor, que treinava os alunos na arte da argumentação, oratória e
persuasão. O ensino retórico era fundamental para aqueles que aspiravam a cargos públicos, pois
a habilidade de falar em público era essencial na política romana.
Influência ideológica e social
De acordo com Cascajero (1993), analisa a influência da oralidade e da escrita na
organização do pensamento romano. A educação, além de transmitir conhecimento, reforçava a
estrutura social e ideológica da elite. O acesso aos níveis mais avançados do ensino era restrito às
classes privilegiadas, garantindo que o poder permanecesse nas mãos de uma minoria letrada e
influente.
Educação Na Idade Moderna
Características da Modernidade Educacional
A instituição escolar emergiu na Europa Ocidental concomitantemente com o Estado
moderno. Segundo os estudiosos do assunto, isso tornou a escola sujeita aos interesses do
Estado, trabalhando para implantar a disciplina individual e social, criando assim condições para
que o Estado se tornasse uma estrutura dominante na sociedade. Ou seja, desenvolveram-se as
funções integrativa e coercitiva da escola moderna. Durante esse período, estabeleceram-se os
grandes objetivos da educação moderna: o aperfeiçoamento do gênero humano, mediante a
formação de pessoas amadurecidas, guiadas pela razão.
Com isso, além de sua tarefa tradicional de reproduzir os conteúdos culturais
acumulados durante a experiência histórica da humanidade, a escola também se viu com o
objectivo de preparar o cidadão para a sociedade moderna; como alguém consciente de seus
direitos e deveres, cumpridor das leis em função da autonomia moral adquirida pelo exercício da
virtude durante o processo de socialização desenvolvido na escola.
A contemporaneidade na formação dessas duas instituições modernas também
contribuiu para a transferência da tutela da educação da religião para o estado. Aliás, os
processos históricos que analisamos acima colaboraram fortemente para que a instrução se
tornasse pública, obrigatória ou de frequência compulsória, gratuita e laica, ou seja, submetido à
tutela do Estado nacional moderno. Ora, sob controle estatal, ocorreu uma difusão geográfica
sem precedentes da Educação.
Além disso, a maioria dos países, após a nacionalização e/ou laicização do ensino,
procuraram estabelecer “sistemas escolares” concomitantemente a uma revisão de seus
programas educacionais, seguindo orientação de teóricos liberais da educação.
Por outro lado, o movimento histórico estabelecido com a sucessão de acontecimentos
marcantes na Idade Moderna, tais como a revolução científica do século XVII, o Iluminismo do
século XVIII e a cosmovisão mecanicista e deísta então instaurada e que decretaram a ciência
como única instância reconhecida de descrição da realidade fizeram com que uma ciência de
cunho materialista.
Educação Contemporânea
Reflexões Sob o Signo da Emancipação
Não é difícil encontrar uma associação entre a educação e as ideias de progresso
humano, de emancipação, de perfectibilidade e da crítica sob o signo do otimismo secular e
racionalista das Luzes (Pereira, 1990a, 1990b; Baczko, 2001; Taguieff, 2004; Passmore, 2004).
Por todo lado, lemos relatórios, ouvimos discursos, assimilamos panfletos que nos recordam que
a educação tem uma relação estreita com o desenvolvimento humano. Esse discurso faz parte da
mentalidade contemporânea. Passou até a ser um lugar-comum.
Mais até do que uma indicação de fator de desenvolvimento civilizacional, a
massificação do ensino tem sido legitimada como um veículo que transportará a humanidade
para um mundo mais rico, mais próspero, com cidadãos mais formados. Mais até do que uma
mera associação, podemos pensar em certa relação de causalidade: será pela ação da educação
que o futuro se transformará em um cenário de um mundo melhor.
A própria narrativa da modernidade pedagógica foi configurada nesse ideal,
alimentando a pedra angular da escola no programa dos pensadores modernos que projetaram um
mundo de uma ordem nova, do ponto de vista epistemológico, político, social, que levaria a
civilização para um novo patamar histórico, porquanto radicam o discurso do progresso na
aplicação metódica e decidida dos pressupostos modernos. A ideia condutora dessa narrativa se
assentava na crença de que o caminho do progresso estaria aberto, constituindo-se, assim, como
um ideal do projeto iluminista. Finalmente, a nova filosofia libertaria a humanidade das trevas,
do obscurantismo, dos falsos ídolos, e a aurora de um novo dia brilharia doravante. Nessa via de
progresso, a escola seria como que o instrumento de todos os instrumentos.
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