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Vida e Solidão em "Aprisionado"

O roteiro narra a história de José, um homem solitário que vive aprisionado em sua casa, lutando contra a angústia e a saudade de sua esposa falecida. Através de suas rotinas diárias e interações com sua irmã Mirian, é evidente seu medo do mundo exterior e sua conexão com um pássaro que simboliza sua própria liberdade perdida. No clímax, José finalmente solta o pássaro, representando sua luta interna entre o desejo de liberdade e o medo que o mantém preso.

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Ícaro Fernandes
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Vida e Solidão em "Aprisionado"

O roteiro narra a história de José, um homem solitário que vive aprisionado em sua casa, lutando contra a angústia e a saudade de sua esposa falecida. Através de suas rotinas diárias e interações com sua irmã Mirian, é evidente seu medo do mundo exterior e sua conexão com um pássaro que simboliza sua própria liberdade perdida. No clímax, José finalmente solta o pássaro, representando sua luta interna entre o desejo de liberdade e o medo que o mantém preso.

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Aprisionado

Roteiro coletivo

Thamires Lucena
Ray Santana
George Ardilles
CENA 1 - EXT. - PARTE EXTERNA DA CASA - DIA
A câmera percorre o entorno de uma casa ao amanhecer. Ao
redor se vê uma paisagem típica de cidade do interior, com
sons urbanos. Nas paredes externas da casa, gaiolas velhas,
mal penduradas, sem nenhum passarinho. Todas as janelas e
portas estão fechadas. Não se consegue ver o interior da casa.
A câmera para em frente a porta da casa como se a esperasse
abrir. Um galo canta ao longe.

CENA 2 - INT. - QUARTO - DIA


José acorda em sua cama, mas se mantém deitado. Apesar da
noite de sono, seu olhar está cansado e sua mente parece estar
angustiada. Se vira em sua cama e passa a mão no colchão como
se buscasse alguém deitado ao seu lado. Mas, de novo, a
frustração de que não há ninguém ali.
José se senta na cama, pega os remédios que estão ao lado
na banquinha, destaca o comprimido e toma, respira um pouco.
Em seguida ele levanta e caminha em direção a cômoda,
observando alguns objetos dispostos de maneira ordenada como
se quisesse tudo milimetricamente no seu lugar. Vai até a
janela, abre o ferrolho e observa a rua de forma que ninguém o
veja, por alguns segundos, em seguida fecha a janela. Pega uma
roupa no cabideiro para se vestir. Por trás nota-se um vestido
pendurado.

CENA 3 - INT. - INTERIOR DA CASA - DIA


José sai do quarto e vai em direção a sala olhando cada
espaço de sua casa. Quadros envelhecidos pendurados na parede,
imagens de santo, fotografias. Ele circula como quem está
conferindo se as janelas e portas estão bem fechadas.

CENA 4 - INT. - INTERIOR DA CASA - DIA


José segue para o banheiro, se olha no espelho com olhar
profundo, tateia seu rosto percebendo o envelhecimento da
pele. Segue para o chuveiro. Sua toalha está pendurada retinha
no cabo que segura a cortina de banho. A cortina também está
bem fechada, bem alinhada.
José lava o corpo, esfregando cada parte com bastante
força, como quem quisesse eliminar uma sujeira que
notoriamente não existe. Ele fica ali por alguns minutos
deixando a água cair no seu corpo,sentindo a sensação da água
tapar os ouvidos, como se nada no mundo importasse mais. Ao
terminar o banho e se enxugar, José coloca a toalha de volta
no cabo da cortina tentando deixá-la do jeito como pegou e
assim o faz também com a cortina e com o tapete que no seu pé
dobrou no chão. José veste uma bermuda e segue para a cozinha.

CENA 5 - INT. - COZINHA - DIA


Já na cozinha José pega um bule numa prateleira acima da
pia para esquentar a água do seu café. Segue para o fogão e
acende o fogo com um fósforo que está apoiado acima do fogão.
Ao lado do fogão, um pequeno armário apoia o pote de café, o
açúcar, um prato, uma xícara e um pires.
Um por um, José retira a xícara, o pires e o prato e os
põe à mesa. Pega o pote de café, o coador e os apoia em cima
da pia. Segue para o fogão para pegar a água fervida e leva
para coar. Em seguida retira da gaveta do armário garfo, faca
e colher e os coloca ordenadamente na mesa.
Volta para a pia e pega o bule com o café coado e o
coloca na mesa. Vai à geladeira e pega um prato com queijo e
um pote de manteiga e o coloca na mesa ao lado da sacola de
pão que já estava ali.
Senta-se à mesa e começa a comer, sem pressa, cortando o
pão, cortando o queijo, passando manteiga no pão, tomando seu
café.
Enquanto come, suas mãos demonstram inquietude em meio ao
silêncio da casa. Enquanto uma mão carrega a xícara à boca, a
outra mexe posicionando os utensílios na mesa, quando a outra
mão segura o pão, a mão seguinte é quem reposiciona os
utensílios na mesa.
Realiza suas atividades matinais em silêncio, como quem
não quer que outras pessoas saibam que existe alguém morando
naquela casa. Enquanto realiza suas tarefas, José demonstra
sinais sutis de ansiedade: mãos trêmulas, respiração pesada.

CENA 6A e 6B- EXT/INT. - CASA - DIA


Alguém chama José na porta da frente da casa, é sua irmã
Mirian. José se esconde, mesmo já estando dentro de casa,
parece ter medo que as pessoas saibam que ele está lá dentro.
Mirian vai percorrendo janela por janela chamando pelo irmão.
Zé, por dentro da casa, também vai percorrendo as mesmas
janelas tentando visualizar Mirian, ele sente falta da irmã,
mas o medo não o deixa responder. Zé apenas observa pelas
frestas das janelas.

FALA DE MIRIAN: - ZÉ? ZÉ? Ô ZÉ, É MIRIAN! VIM TRAZER AS


COMPRAS DA SEMANA. ABRA A PORTA MEU IRMÃO, ME DEIXE TE VER,
QUERO TE AJUDAR.
ABRA SÓ A JANELA, NÃO PRECISO ENTRAR ENTÃO. ZÉ, NÃO TEM
CONDIÇÕES DE ALGUÉM VIVER ASSIM MEU IRMÃO. JÁ SÃO MUITOS ANOS
DENTRO DESSA CASA, SEM NINGUÉM TE VER, SEM SABER COMO VOCÊ
ESTÁ. ISSO NÃO É VIDA NÃO ZÉ.
TÁ BOM ENTÃO, AS COMPRAS ESTÃO NA PORTA, SÁBADO EU PASSO AQUI
NOVAMENTE PRA VER SE VOCÊ TÁ PRECISANDO DE MAIS ALGUMA COISA.
AO MENOS COLOQUE A LISTA DE COMPRAS E O DINHEIRO DEBAIXO DO
TAPETE, SE NÃO PASSA UM MOLEQUE RUIM E LEVA.

Mirian vai embora e quando José tem certeza que ela não
está mais, ele abre a porta vagarosamente, vê se não há
ninguém por perto que o veja, e pega a sacola. Para Mirian,
fica apenas o silêncio e a saudade.

CENA 7 - INT. - QUINTAL - DIA


José coloca a sacola em cima da mesa da cozinha e pega um
alimento de passarinho. Observa tudo ao seu redor. Se aproxima
de uma gaiola, a única que ainda possui um passarinho. Com
cuidado, ele alimenta e conversa com o pássaro, mas apenas
através de assobios.

CENA 8 - INT. - QUINTAL - DIA


José passa muito tempo observando o pássaro e o
alimentando. Há uma conexão visível entre eles.
Em um momento, ele abre a porta da gaiola, mas o pássaro não
tenta fugir. José fecha a porta da gaiola, como se temesse
que o pássaro fugisse e ele ficasse só, sem sua única
companhia.

CENA 9 - INT. - QUINTAL/QUARTO - DIA


José se senta em uma cadeira e fica olhando para o
pássaro. Ele começa a assobiar uma melodia triste. Fecha os
olhos como se recordasse de algo ou alguém.
Repentinamente Zé levanta e vai até o quarto.

CENA 10 - INT. - QUARTO - DIA


José abre a cômoda e pega uma caixa, tira de lá
fotografias antigas e vai espalhando uma a uma na cama. Ele
pega alguns monóculos sorri e se entristece ao mesmo tempo.
Ele fica alguns minutos olhando aquelas fotos. Ao olhar para o
cabideiro do quarto ele vê o vestido de sua esposa que ele
mantém guardado, como muitas outras coisas dela. Abre uma
gaveta da cômoda, pega um perfume e coloca no vestido.
José pega o vestido, sai do quarto tomado por sentimentos
de saudade, angústia, tristeza e solidão.

CENA 11 - INT. - SALA - TARDINHA


José vai até a sala, pega um vinil e coloca na vitrola
que há muito tempo não era ligada, ajusta a agulha e a música
começa a tocar. Ele dança abraçado com o vestido, ele beija e
cheira o vestido. Inicialmente, ele sorri com lembranças
felizes, depois ele é tomado por um desespero e começa a
chorar compulsivamente.
(Câmera rodando ao redor de Zé dançando, a música tocada na
vitrola passa a ser uma trilha sonora diegética, em seguida
essa trilha é coberta por sons de choro e desespero. José
dança em sentido anti horário como se quisesse voltar o tempo.
A câmera gira em sentido horário pois segue a linha do tempo.
Aqui a luz vai se esmaecendo ao término da cena demonstrando
que está escurecendo)

CENA 12 - INT. - SALA - NOITE


À noite, José parece inquieto. Ele olha para a porta da
frente da casa, depois para o pássaro que está no último
cômodo da casa e em um momento de coragem, ele se aproxima da
porta da sala, mas uma onda de pânico o atinge, parece ter
medo do mundo exterior. Ele recua, ofegante. Ele chora, sente
uma dor quase que física.

CENA 13 - INT. - SALA - NOITE


José retorna à gaiola, agora com lágrimas nos olhos. Ele
pega a gaiola, abre a porta de casa e da gaiola, mas o pássaro
não sai.
Ele olha para o pássaro, depois para si mesmo no espelho,
com um misto de sentimento, dor, medo e frustração. Ele pega o
pássaro de dentro da gaiola e o solta, proporcionando ao
pássaro a liberdade que ele mesmo não consegue ter.

A câmera se afasta lentamente de José, sentado na cadeira de


balanço na porta da sala com as pernas para fora, olhando para
a gaiola aberta.
A casa é filmada de fora. É noite e um silêncio melancólico
preenche o ar.

CENA 14 - PÓS CRÉDITO - EXT. - FRENTE DA CASA - NOITE


A câmera ao longe - José levanta da cadeira e fecha a porta

FIM

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