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Origens do Rito Escocês Retificado

O documento explora as origens do Rito Escocês Retificado (RER), destacando figuras históricas como Karl Gotthelf von Hund, Martinez de Pasqually e Jean Baptiste Willermoz, e suas contribuições para a maçonaria. O RER, fundado em 1782 no Convento de Wilhelmsbad, é apresentado como uma evolução da Estrita Observância Templária, que remonta aos Cavaleiros Templários. O texto também discute a influência da espiritualidade cristã e a busca por uma maçonaria mais pura e autêntica.

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Origens do Rito Escocês Retificado

O documento explora as origens do Rito Escocês Retificado (RER), destacando figuras históricas como Karl Gotthelf von Hund, Martinez de Pasqually e Jean Baptiste Willermoz, e suas contribuições para a maçonaria. O RER, fundado em 1782 no Convento de Wilhelmsbad, é apresentado como uma evolução da Estrita Observância Templária, que remonta aos Cavaleiros Templários. O texto também discute a influência da espiritualidade cristã e a busca por uma maçonaria mais pura e autêntica.

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Dorival de Lima Martins Junior

CIM: 337678 – AM

AS ORIGENS DO RER
Karl Gotthelf von Hund und Altengrotkau, Martinez de Pasqually, Jean Baptiste
Willermoz e o Convento de Wilhelmsbad

Introdução
O Rito Escocês Retificado é tido como um dos mais antigos ritos maçônicos ainda
praticado. Sua fundação remonta ao século XVIII, mais especificamente ao Convento de
Wilhelmsbad que ocorreu no ano de 1782. Mas claro, as raízes do que viria a se tornar o
RER através deste convento surgiam muito antes. Diversas outras reuniões maçônicas
traçaram um caminho da extinta Estrita Observância Templária de Von Hund até 1782,
através de Jean Baptiste Willermoz.
Seguir uma linha do tempo é fundamental para entender a evolução de uma ordem que se
autoproclamava descendente dos Cavaleiros Templários até um rito maçônico que renega
a descendência templária, mas reconhece uma herança espiritual. E que herança poderia
ser essa? Os Templários eram guerreiros, soldados, mas também monges, serviam a Igreja
Romana e faziam votos monásticos. Eram religiosos, eram cristãos.
Portanto, faz-se necessário compreender primeiro quem eram os Cavaleiros Templários e
as razões que levaram o Barão de von Hund, através da EOT (Estrita Observância
Templária) a reclamar uma herança (ou descendência) direta com a Ordem dos Pobres
Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão.

Cavaleiros Templários (1118-1312)


A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (em latim: "Pauperes
commilitones Christi Templique Salomonici"), conhecida como Cavaleiros Templários,
Ordem do Templo, ou simplesmente como Templários, foi uma ordem militar de
Cavalaria. Foi fundada no ano de 1118, tendo como seu primeiro Grão-Mestre o nobre
Hugo de Payens. A organização militar religiosa surge com o intuito de defender a Terra
Santa após a primeira Cruzada, iniciada em 1095.
Como Ordem Religiosa, respondia diretamente ao Papado e a Igreja Católica Romana e
tinham por principal finalidade proteger os peregrinos cristãos até Jerusalém. Se
estabeleceram no Monte do Templo (local do antigo Templo de Jerusalém), daí a origem
do nome. Com o passar dos anos a organização ganhou destaque, poder, prestigio e se
tornou rica e poderosa.
Tanto poder fez dos Templários uma elite militar e religiosa. Pois além do poderio militar,
a Ordem ainda era Católica, e seus membros realizavam votos monásticos cristãos de
pobreza, lealdade ao papado e fidelidade a Cristo e sua Igreja (a Igreja Católica Romana).
Por oferecerem segurança no caminho a Terra Santa, os Templários passaram a transportar
não apenas pessoas, mas objetos e até mesmo dinheiro. Chegando até mesmo a criar um
sistema de deposito e retirada de quantias monetárias que muitos historiadores
consideram como um dos primeiros sistemas bancários.
Com tudo isso, esses guerreiros cristãos despertaram muitos inimigos. Um deles foi o Rei
Filipe IV, da França, conhecido pela alcunha de Filipe, o Belo. Com seu reino em dividas
e recorrendo ao sistema bancário dos Templários de empréstimo para financiar seus
gastos, o rei passou a arquitetar a queda da organização, visando se apossar das riquezas
que eles detinham.
Usando sua influencia para eleger papa um cardeal francês que pudesse controlar, Filipe
IV consegue por fim a Ordem do Templo. Sob falsas acusações de heresia, em 1307, aos
13 de outubro (sexta-feira), o alto escalão da Ordem Templária é capturado na França. A
igreja começa a investigar os supostos crimes de heresia e no ano de 1312, uma bula papal
é redigida colocando fim a ordem. Dois anos depois, em 1314, após sete anos de prisão,
Jacques de Molay, o último Grão-Mestre dos Templários é morto na fogueira.
É fato que vários Cavaleiros Templários conseguiram escapar das perseguições iniciadas
em 1307. Conseguiram refúgio em diversos países vizinhos, entre eles a Escócia e
Portugal. Os bens templários foram transferidos para a Ordem dos Hospitalários (castelos,
terras, etc), mas o paradeiro de suas riquezas se tornou um verdadeiro mistério. Em
Portugal, os bens templários foram transferidos para a coroa portuguesa, que criou com
autorização papal a Ordem de Cristo, em 1319. Esta organização portuguesa que herdou
os bens templários no reino de Portugal esteve presente no descobrimento do Brasil em
1500 e nas grandes navegações portuguesas.
Já a Ordem de Malta ou Cavaleiros Hospitalários (oficialmente Ordem Soberana e Militar
Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta), fundada em 1048, e herdeira
dos bens dos Cavaleiros Templários, existe até dos dias de hoje como uma organização
religiosa, não mais militar, mas como organização humanitária reconhecida como
entidade de direito internacional privado. A ordem dirige hospitais e centros de
reabilitação. Possui 13.500 membros, 80.000 voluntários permanentes e 42.000
profissionais da saúde associados, incluindo médicos, enfermeiros, auxiliares e
paramédicos. Seu objetivo é auxiliar os idosos, os deficientes, os refugiados, as crianças,
os sem-teto e aqueles com doença terminal e hanseníase, atuando em cinco continentes
do mundo, sem distinção de raça ou religião.
Barão von Hund (1722-1776)
Em 1722 nascia na Alemanha Karl Gotthelf, o Barão von Hund e Altengrotkau. Esta
enigmática figura na maçonaria alemã iria iniciar um movimento que culminaria na
concepção do Rito Escocês Retificado e outros ritos maçônicos, como o Rito de Schröder.
Este movimento foi chamado de Maçonaria Retificada, com a introdução de ritos
escoceses. Em 1764, passa a ser chamada de Estrita Observância, por ter a maçonaria
inglesa como uma Observância Tardia.
Hund esteve, em 1741, em Frankfurt, na Alemanha, onde acompanhou a coroação do Rei
Carlos VII como soberano do Sacro Império Romano-Germânico. Na ocasião o Barão foi
iniciado na ordem maçônica. Nos anos seguintes (entre dezembro de 1742 e setembro de
1743) Hund esteve em Paris, na França, onde se converteu ao Catolicismo sob a influência
de uma nobre senhora.
Ele afirmou que foi quando esteve em Paris, em 1743, que foi iniciado por Cavaleiros
Escoceses da Ordem dos Cavaleiros Templários. Lá Hund teria sido apresentado a Charles
Edward Stuart, que supostamente seria o Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros
Templários (extinta oficialmente em 1312). Em seus escritos ele afirmava ter sido iniciado
pelo Cavaleiro da Pluma Vermelha, uma figura anônima cujo a identidade ele prometeu
guardar. Porém, muitos supõe se tratar do pretendente ao trono britânico, Charles Edward
Stuart, já que seus escritos pareciam insinuar isso.
Não há provas documentais além dos escritos de Hund, que afirmava a existência de
“superiores incógnitos”. Foi assim que ele reclamou pra si o direito de liderar a suposta
ressuscitada Ordem dos Templários em território alemão, afirmando ter recebido destes
“superiores incógnitos” a patente de Grão-Mestre da Provincia VII (Alemanha).
O Barão acreditava que a maçonaria inglesa havia se desviado dos propósitos da ordem
maçônica que, para ele, descendia diretamente dos Cavaleiros Templários acolhidos na
Escócia após 1307. Com isso, e alegando representar os Templários em território alemão,
ele funda um novo rito dentro da maçonaria que ele chamou de maçonaria retificada. Em
1764, passa a chamar o rito de Estrita Observância Templária ou simplesmente Estrita
Observância (já que considerava a maçonaria inglesa uma Observância Tardia).
Hund dedicou seu tempo, patrimônio e esforços à Estrita Observância. Utilizou de suas
propriedades para estabelecer Lojas e chegou a ser confrontado por charlatões. Ele mesmo
foi considerado charlatão por não revelar quem eram os “superiores incógnitos” que o
introduziram em Paris. A Estrita Observância Templária resgatava uma religiosidade
cristã. O próprio Hund se converteu ao catolicismo em Paris (não se sabe ao certo de antes
ou depois de ser iniciado na Ordem dos Templários). Essa espiritualidade cristã do rito
atraiu diversos maçons, muitos de outras nações, como o comerciante francês Jean-
Baptiste Willermoz.
Karl Gotthelf von Hund e Altengrotkau, já muito doente, em 1776, viajou para Meiningen
para persuadir o duque Friedrich August a adotar seu rito. Pouco depois, ele morreu de
"febre" e foi enterrado com todos os trajes na igreja da cidade de Mellrichstadt (Baviera).
Martinez de Pasqually (1727-1774)
Contemporâneo de Hund, Jacques de Livron Joachin de la Tour de la Casa Martinez de
Pasqually nasceu em 1727, na França. Porém, alguns autores afirmam que ele nasceu no
ano de 1710 (data atribuída em seu atestado de óbito). Outros ainda contestam sua
nacionalidade. A figura de Martinez de Pasqually é envolta em mistério devido a falta de
fontes e documentos sobre ele. Seu próprio nome é fonte de debates devido a essa falta
de documentação. O mais aceito é que Pasqually tenha nascido na França de pai espanhol
e mãe francesa.
Foi militar, e detinha a patente de lugar-tenente. Em 1737 serviu na companhia do
regimento de Edimbourg-Dragons. Já no ano de 1740, serviu ao exército francês em
Córsega, sob comando do Marquês de Millebois. Também serviu a Espanha, em 1747,
combatendo na Itália. Porém, ao que tudo indica, teria anos mais tarde deixado o serviço
militar.
Mais misterioso que a vida de Pasqually é a de seu pai, que teria recebido uma carta-
patente de Charles Edward Stuart, aos 20 de maio de 1738, outorgando-lhe o cargo de
Grão-Mestre Delegado, podendo assim fundar Lojas Maçônicas. Esta patente poderia ser
transmitida ao seu filho mais velho. Assim, com o falecimento de seu pai, Pasqually passa
a portar esta Carta-Patente junto a autoridade que esta representava. Teria então 28 anos.
As origens desta patente ainda são um mistério. Pasqually chegou a visitar diversas Lojas
Maçônicas pela França apenas portanto esta carta. Porém, a data e Loja de sua iniciação
são desconhecidas até hoje e ainda há duvida se este documento seria realmente autêntico.
Martinez de Pasqually passa a aparecer nos registros maçônicos por volta de 1754,
quando teria fundado o capítulo dos Soberanos Juízes Escoceses, em Montpellier, na
França. Se realmente nasceu em 1727, e aos 28 anos herdou a carta-patente de seu pai,
esta data então coincide com o início de sua vivência maçônica. E nesta época Pasqually
passa a frequentar lojas maçônicas do sul da França, sobretudo em Avignon e em
Marselha (acredita-se para recrutar maçons ao seu capítulo dos Soberanos Juízes).
Já com alguns anos de vivência maçônica Pasqually começa a julgar a Maçonaria de sua
época como “apócrifa” e desviada de seus objetivos (assim como julgou Von Hund e mais
tarde Willermoz). Então, em 1760, ele se apresenta à Loja Saint Jean das três lojas
reunidas de Toulouse, e lá expõe seu projeto de restauração da maçonaria, para devolver
a pureza da ordem. Porém, seu projeto é rejeitado e ele é obrigado a deixar a loja.
Em 1761, mudou-se para Bordeaux, e afiliou-se à Loja La Française, fundando ali um
templo Elus Cohen. Esta loja tornou-se, em 1764, Française Élue Écossaise, para indicar
um capítulo de graus superiores. Martinez de Pasqually passa a trabalhar nesta retificação
da Maçonaria e assim surge a Ordem dos Cavaleiros Maçons Sacerdotes Eleitos do
Universo, o Elus Cohen.
Ordem dos Cavaleiros Elus Cohen do Universo (1767-1774)
Ordem dos Cavaleiros Maçons Sacerdotes Eleitos do Universo
O ano de origem da Ordem do Elus Cohen é tão impreciso quanto a vida de Martinez de
Pasqually antes de 1754. Ao que tudo indica a fundação desta ordem teria ocorrido entre
1761 e 1767, após seu estabelecimento na cidade de Bordeaux.
Muitos acreditam que Martinez de Pasqually tenha origem judaica, ao menos que venha
de uma família de cristãos-novos. Esta origem não pode ser comprovada, mas muitos
aspectos de sua vida levam a esta hipótese, como o fato de sempre validar-se como cristão
na tentativa de comprovar isto (atitude de muitos judeus e cristãos-novos na Europa que
tentavam se desviar das perseguições e preconceitos). Também o conhecimento em
Kabbalah e misticismo bíblico - que fica mais evidente em seu trabalho “O Tratado da
Reintegração dos Seres”, que é um comento sobre o Pentateuco, o que reforçaria ainda
mais essa hipótese. Também coisas mais simples como o uso do hebraico em seus
trabalhos (como o nome da ordem, Elus Cohen), seriam uma pista sobre suas origens.
Apesar de tanto mistério envolvendo a figura de Pasqually e da Ordem dos Elus Cohen,
seu trabalho ganhou notoriedade e atraia diversos maçons. Pasqually criou, com sua
Ordem, um sistema de altos graus maçônicos, admitindo apenas Mestres Maçons que
eram escolhidos criteriosamente.
Segundo os historiadores, os maçons Elus Cohen se reuniam para invocar La Chose ou A
Coisa (em tradução literal). Tratava-se de uma ordem mística que praticava a Teurgia,
uma espécie de magia invocatória que pretendia se comunicar com seres divinos.
Em 1767 é admitido na Ordem dos Elus Cohen, em Versalhes, o Mestre Maçom Jean-
Baptiste Willermoz (1730-1824). Interessado em misticismo e esoterismo ele foi admitido
pessoalmente por Martinez de Pasqually, por recomendação de Jean-Jacques Bacon de la
Chevalerie (1731-1821) e do Marquês de Lusignan (1749-1814). No ano seguinte, em
1768, Willermoz é admitido no último e secreto grau da Ordem dos Elus Cohen, o
Cavaleiro Reau-Croix.
Outra figura notória que fez parte desta ordem foi Louis-Claude de Saint-Martin.
Formado em direito, Saint-Martin desiste da jurisprudência e ingressa no exército francês.
Ele é enviado a um regimento em Bordeaux, em 1765. Assim, através de um colega de
farda, é apresentado a Martinez de Pasqually e à Ordem dos Élus Cohen do Universo.
Finalmente em 1768, Saint-Martin é iniciado nos três primeiros graus da Ordem pela
espada de Balzac, avô de Honoré de Balzac, o famoso romancista francês do século XIX.
Em 1771, Saint-Martin deixa o exército, para dedicar-se ao misticismo. Conquistando a
confiança de Martinez de Pasqually, torna-se seu secretário pessoal. Saint-Martin torna-
se amigo de Willermoz, passando trabalharem juntos.
No ano de 1772, Martinez de Pasqually viaja para Santo Domingos (Hispaniola), no Haiti,
onde teria uma herança para receber. Em 1774, ainda no Haiti, Pasqually acaba falecendo.
Sem ter deixado um sucessor, a Ordem dos Elus Cohen acaba se dissolvendo.
Jean-Baptiste Willermoz (1730-1824)
O comerciante de sedas francês, Jean-Baptiste Willermoz é considerado o grande mestre
por trás do Regime Escocês Retificado. Nascido aos 10 de julho de 1730, em Lyon, na
França, é filho de Claude e Caterin Willermoz. Com 12 anos ele deixa seus estudos para
ajudar o pai nos negócios, devido a necessidades da família.
Não havia nem completado 15 anos quando começa a trabalhar como ajudante de um
comerciante, para garantir sua alimentação e ser instruído no comércio de sedas. Mostra-
se proeminente e logo torna-se ajudante, contratado pela empresa Liotard, Manéchalle e
Cia. Com aptidão para os negócios, acaba ele mesmo em 1754, se estabilizando como
fabricante e comerciante de sedas.
Willermoz iniciou na maçonaria com apenas 20 anos, em 1750. Dois anos depois já era
Venerável Mestre de sua Loja. Não apenas um prodígio nos negócios, ele também se
destacava na maçonaria. Em 1753, com apenas três anos de iniciação maçônica,
Willermoz funda sua Loja, A Perfeita Amizade, onde foi Venerável Mestre por oito anos.
No ano de 1756, sua Loja filia-se a Grande Loja da França. Jean-Baptiste Willermoz então
reúne três lojas maçônicas: a Parfaite Amitié (Perfeita Amizade), a Amitié (Amizade), e a
Vrais Amis (Verdadeiros Amigos); formando, com estas, a obediência maçônica das Lojas
Regulares de Lyon, tornando-se seu primeiro Grão-Mestre.
Já em 1760, com reconhecimento e autorização da Grande Loja da França, funda a Grande
Loja dos Mestres Regulares de Lyon, mantendo-se até 1762, porém, optando por não
renovar seu mandato para 1763, tornando-se guarda-selos e arquivista.
Fascinado pela maçonaria e buscando conhecimento, como guarda-selos e arquivista ele
estudava todos os ritos maçônicos que encontrava. Com a ajuda de seu irmão, Pierre-
Jacques, fundou o Capítulo dos Cavaleiros da Água Negra, com o intuito de aprimorar os
estudos em alquimia, misticismo e ocultismo.
Willermoz conhece, por volta de 1767, Martinez de Pasqually. Interessado nos estudos
esotéricos, ele é recebido pelo próprio mestre na Ordem dos Elus Cohen. No ano seguinte
ele alcançaria o décimo primeiro e último grau desta ordem, o de Réaux-Crox. Porém,
logo se descontentaria com a ordem. Mas desta surgiu uma grande amizade que veio a
contribuir com seus futuros trabalhos, Louis-Claude de Saint-Martin.
Willermoz compartilhava com Pasqually – e também com Hund – a crença de que a
maçonaria de sua época estava deturpada e precisava ser restaurada. Todos os três, cada
um a sua maneira, tentaram resgatar algo. Pasqually buscou o caminho místico, um
contato mais profundo e espiritual (que alguns até consideraram charlatanismo). Hund
tentou resgatar uma espiritualidade mais religiosa, com base nos Cavaleiros Templários e
crente em ter sido iniciado numa linhagem interrupta que permaneceu inabalável após a
queda desta ordem no século XIV. Willermoz, passando por estas duas vias, conciliou o
melhor dos dois caminhos, buscando reparar tudo o que lhe desagradou em sua jornada
maçônica.
O Convento de Wilhelmsbad (1784)
Jean Baptiste Willermoz, recebe de Martinez de Pasqually autoridade para estabelecer em
Lyon a Ordem dos Elus Cohen, na companhia de seu amigo e irmão cohen (secretário
pessoal de seu mestre), Louis-Claude de Saint-Martin eles trabalham juntos e
desenvolvem estudos. Porém, com o tempo Willermoz vai se desencantando com a
ordem, suas complexas cerimônias e a falta de atenção de seu mestre.
Em 1772, Pasqually viaja para a ilha de Santo Domingos, no Haiti e lá permanece até sua
morte em 1774. Assim encerra-se a Ordem dos Elus Cohen. Os discípulos de Pasqually
seguem rumos diferentes. Louis-Claude de Saint-Martin segue uma linha de estudos
(influenciado pelos escritos de Jacob Boehme), enquanto Willermoz ainda buscava uma
forma de restaurar a maçonaria, considerada por ele desviada de seus objetivos. Nesta
busca da essência original da maçonaria, e sedento por conhecimento, Willermoz
conhece, em 1773, Charles Von Hund e a Estrita Observância Templária.
Iniciado por Hund neste rito maçônico alemão, recebe a permissão de estabelecer em
Lyon a Estrita Observância Templária. Willermoz lidera um considerável grupo de
maçons franceses na região de Lyon. Isto vemos desde sua rápida ascensão na maçonaria,
quando assumiu como Venerável Mestre de sua Loja e anos depois fundou Lojas e as
reuniu em uma obediência maçônica na qual se tornou o primeiro Grão-Mestre.
Ele também levou a Ordem dos Elus Cohen para a região de Lyon, iniciando na Ordem
irmãos maçons franceses que ele escolhia com rigoroso critério. Ao ingressar na EOT
(Estrita Observância Templária), e ao receber autorização, institui e lidera a província
francesa da Ordem, isto em 1773.
A EOT foi um movimento maçônico bem organizado e documentado. Assim é de
conhecimento dos pesquisadores os principais eventos e caminhos que a EOT traçou até
culminar na sua transição para o que hoje conhecemos como RER.
Entre os anos de 1751 e 1755, Karl Gotthelf on Hund inicia um movimento de retificação
da maçonaria inglesa nos moldes da maçonaria escocesa, reclamando a herança direta
com os Cavaleiros Templários. Em 1754, ocorre a Convenção de Unwürde, primeira
reunião do que viria a ser a EOT. No ano de 1764, acontece a Convenção de Altenberg, e
finalmente o rito maçônico de Hund passa a se chamar Estrita Observância Templária.
Outra convenção da EOT ocorre em 1772, e em 1775, acontece a Convenção de
Brunswick – Willermoz já era um iniciado na EOT e já havia estabelecido uma província
na França. Neste Convento, o Duque Fernando de Brunswick foi eleito Magnus Superior
Ordinis e Grão-Mestre de todas as Lojas Escocesas da EOT. Hund fica então como Grão-
Mestre Provincial, assumindo o papel de um monarca constitucional.
No ano seguinte, 1776, Karl Gotthelf von Hund falece. Após sua morte seguiu-se um
período de confusão. Em 1777, o Príncipe Carlos de o sucede como Grão-Mestre
Provincial. Neste ano Charles Edward Stuart renunciou a todos os laços com a Maçonaria,
uma admissão que alguns acreditaram ter sido puramente circunstancial e ditada por
razões político-religiosas.
No ano de 1778, as três províncias francesas da EOT se reúnem em Lyon sob a liderança
de Willermoz. Nesta Convenção – também chamada de Convento de Gaules – foram
lançadas as bases do que viria a ser o RER. Os mestres de Lyon reformularam os ritos da
EOT que, sob forte atuação de Willermoz (e de outros mestres da extinta Elus Cohen), o
rito recebeu grande influencia dos ensinamentos de Martinez de Pasqually.
A Convenção então aprova as mudanças nos rituais. Outra decisão importante foi a
renegação das origens e herança direta deste sistema com os Cavaleiros Templários, mas
reconhecendo uma herança espiritual com os Pobres Cavaleiros de Cristo. Assim, o
último grau, o de Cavaleiro da Estrita Observância, recebe o nome de Cavaleiro Benfeitor
da Cidade Santa.
Estas alterações, aprovadas nas províncias francesas em 1778 são levadas ao debate na
Alemanha, para todos os maçons membros da Estrita Observância Templária. É então que
em 1782 ocorre o Convento de Wilhemsbad.
Na presença de todas as autoridades maçônicas da EOT existente (entre eles príncipes e
uma alta nobreza europeia), Willermoz e os demais mestres franceses apresentam os
rituais que eles redigiram e aprovaram na Convenção de Lyon, bem como outras
mudanças do rito na França.
Todos os encontros deste Convento foram documentados e as atas originais permanecem
até hoje preservadas. Após semanas de intensos debates e mais algumas alterações nos
rituais, a estrutura e mudanças propostas pelos franceses é aceita. A Estrita Observância
Templária estava se findando e um novo regime maçônico surgia de suas cinzas, o Regime
Escocês Retificado.
Os anos seguintes seriam conturbados, devido a Revolução Francesa. Jean Baptiste
Willermoz escapa por pouco, porém seu irmão acaba sendo decapitado neste período. O
que ele pode salvar dos documentos, rituais, livros e materiais de estudo, ele entregou a
seu sobrinho, Jean Baptiste Willermoz Nevue.
Em 1828, a Prefeitura de Besançon, pertencente à Vª Província, conhecida como
Borgonha, antes de cessar os seus trabalhos, entregou uma parte dos seus arquivos a
Genebra (que pertencia à mesma Província) para que esta pudesse conservar intactos os
códigos (o dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa e o Código Maçônico das Lojas
Unidas e Retificadas), os ritos e a doutrina.
Assim, o Grande Priorado da Helvética (Suíça) tornava-se o guardião deste regime,
preservando e praticando este rito até que o mesmo fosse restaurado em outras
nacionalidades, já na era contemporânea.
Após 1782, ainda havia remanescentes praticando e tentando manter viva a Estrita
Observância Templária. Porém, seu declínio era cada vez mais evidente e o Regime
Escocês Retificado já havia se espalhado substituindo os ritos da EOT. Porém, com o
forte espírito de nacionalismo alemão, um grupo de maçons oriundos da antiga EOT
funda um novo rito maçônico, o Rito de Schröder.
Conclusões finais
O Rito Escocês Retificado é sem dúvidas singular na maçonaria. Não apenas sua
concepção, mas sua filosofia, doutrina, ritualística e atuação se distinguem. Seja por
manter preservados – sem alteração – os antigos rituais compostos no século XVIII, seja
por sua influência mística e espiritual de duas distintas ordem de aperfeiçoamento e altos
graus maçônicos.
Jean Baptiste Willermoz não compôs sozinho esta obra que é o RER, mas, sem dúvidas,
foi seu principal articulador e fomentou a concepção deste regime. Ele era um homem
brilhante, a frente de seu tempo, com sede de conhecimento e muito dedicado. Destacou-
se em todos os caminhos que se enveredou. Seja no comércio, onde rapidamente de um
simples ajudante passou a ser dono do seu próprio negócio – o que futuramente lhe
permitiu uma vida tranquila, vivendo de renda. Seja na maçonaria, tornando-se
rapidamente Venerável Mestre, logo fundando suas próprias Lojas Maçônicas e até
mesmo uma obediência na qual tornou-se o primeiro Grão-Mestre.
Willermoz fez história na maçonaria, mas almejava mais! Queria restaurar algo que
considerava deturpado, queria reparar, retificar a maçonaria. Esta sua vontade e seu gosto
por misticismo e esoterismo o levaram a conhecer duas figuras que também tinham o
objetivo de restaurar uma maçonaria que consideravam desviada.
Na década de 1760, conhece Martinez de Pasqually e sua Ordem, a dos maçons Elus
Cohen, e na década seguinte, de 1770, deixando a organização de Pasqually, entrando em
contato com Von Hund ele inicia na Ordem da Estrita Observância Templária.
Estas duas figuras de grande influência para Willermoz foram fundamentais na concepção
do Regime Escocês Retificado. Mais do que isso, foram de grande relevância para a
maçonaria e para as ordens iniciáticas. Através de Pasqually surge o Martinezismo, e
através de seus discípulos, Willermoz e Louis-Claude de Saint-Martin o Willermozismo
e o Martinismo respectivamente.
Já Karl Gotthelf Von Hund, com a EOT, faz surgir através de seus discípulos os ritos
maçônicos Escocês Retificado e Schröder. As figuras históricas abordadas neste estudo
mudaram completamente o cenário das ordens iniciáticas, a partir de sua época, e nas
épocas seguintes até os dias de hoje.
Apesar das contestações quanto a autenticidade da patente de Pasqually, ou mesmo as
dúvidas quanto suas origens e credenciais maçônicas; apesar das acusações e dúvidas
quanto aos “superiores incógnitos” que ortigaram autoridade a Hund. Apesar de todas
estas incertezas, uma coisa é certa: o trabalho destes homens conquistou tanta relevância
e profundidade que gera debates, estudos e faz parte da formação e evolução de maçons
pelo mundo todo a quase três séculos.
O Rito Escocês Retificado é vivo! É uma viagem no tempo. É conhecer a maçonaria e
uma sessão maçônica tal como ela era no século XVIII. Mais do que isso, é poder enxergar
que apesar de ter parado no tempo, continua sendo tão relevante, profundo e esclarecedor.

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