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Literatura Cabo-Verdiana: Influências e Temas

O documento analisa a evolução da literatura cabo-verdiana, destacando a transição de uma poesia influenciada pelo colonialismo e pela cultura clássica europeia para uma expressão mais íntima e conectada com a realidade do povo e da terra. A revista Claridade, lançada em 1936, foi um marco nesse processo, promovendo uma nova geração de escritores que abordaram temas como a fome, a migração e a identidade. Autores como Jorge Barbosa e Corsino Fortes contribuíram significativamente para essa nova abordagem, refletindo sobre a insularidade e a busca por uma identidade africana mais ampla.
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Literatura Cabo-Verdiana: Influências e Temas

O documento analisa a evolução da literatura cabo-verdiana, destacando a transição de uma poesia influenciada pelo colonialismo e pela cultura clássica europeia para uma expressão mais íntima e conectada com a realidade do povo e da terra. A revista Claridade, lançada em 1936, foi um marco nesse processo, promovendo uma nova geração de escritores que abordaram temas como a fome, a migração e a identidade. Autores como Jorge Barbosa e Corsino Fortes contribuíram significativamente para essa nova abordagem, refletindo sobre a insularidade e a busca por uma identidade africana mais ampla.
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Cabo Verde

O impacto do colonialismo não foi tão drástico, impulsivo e dramático em Cabo Verde
como o foi nas outras regiões africanas que passaram pelo processo de colonização portuguesa.
Essa situação acabou por criar algumas condições necessárias para o aparecimento da
literatura cabo-verdiana. Amílcar Cabral (1976, p. 25) informa-nos que “desde muito cedo a
terra, bem como os centros de controle e administração, passaram para as mãos de uma
burguesia nascida em Cabo Verde, formada, majoritariamente, por mestiços”.
Em seus apontamentos sobre a literatura cabo-verdiana, Cabral (1976) afirma que a
poesia que se escrevia em Cabo Verde caracterizava-se por um desprendimento quase total do
ambiente, sublimando-se numa expressão poética que nada tinha em comum com a terra e o
povo do arquipélago. Para Cabral, possuidores de uma cultura clássica, adquirida principalmente
no Seminário de S. Nicolau, os poetas da geração em referência esqueceram-se da terra e do
povo. De olhos fixos nos clássicos europeus, os escritores produziam uma poesia em que o
amor, o sofrimento pessoal, a exaltação patriótica e o saudosismo eram traços comuns.
Em raras exceções, como nas composições de P. Cardoso, ao traduzir, do crioulo,
quadras populares do Fogo, encontrava-se algo do que, mais tarde, se tornaria realidade nos
poetas da nova geração: uma comunhão íntima entre o poeta e o seu mundo.
Porém, era ainda a influência da cultura clássica que caracterizava o aspecto formal da
poesia em referência: o respeito sagrado à métrica e a submissão à rima. Essa submissão ao
modelo de escrita europeu devia-se à condição econômica em que vivia a elite cabo-verdiana,
alheia à realidade do país. Segundo Cabral (1976, p. 27), para essa elite, a terra e o povo
estavam distantes: “Este, nas letras da Morna, canta os seus sofrimentos e amores, enquanto
os poetas compõem sonetos perfeitos para exaltar um sentimento qualquer (...), as belezas da
Grécia ou uma data célebre da História”.
Entre 1920 e 1930 já existia uma elite muito consciente dos problemas que afetavam
as ilhas. Essa elite concentrava-se em São Nicolau, Santo Antão e São Vicente, e muitos eram
comerciantes, professores, estudantes e jornalistas que estavam em contato com as correntes e
os movimentos literários de Portugal, como o modernismo e o neo-realismo. Mas foi
sobretudo o modernismo brasileiro que influenciou essa geração de escritores, que começava
a tomar uma consciência cada vez mais nítida da realidade das ilhas. A atenção era focada
cada vez mais na terra, no ambiente socioeconômico e no povo das ilhas.
Os poetas dessa fase eram homens comuns que caminhavam de mãos dadas com o
povo e tinham os pés fincados na terra. Cabo Verde passou a ser o espaço e o ambiente onde
as árvores morrem de sede, os homens, de fome, e a esperança nunca morre. O mar passou a
ser a estrada da libertação e da saudade, e o marulhar das vagas, a tentação constante, a
lembrança permanente do desespero de querer partir e de ter de ficar. A terra, a terra mártir,
tornou-se a Mamã que alimenta os filhos; que não morreu, mas jaz adormecida numa migalha
de terra no meio do mar. A voz do poeta, agora, é a voz da própria terra, do próprio povo, da
própria realidade cabo-verdiana.
O grande passo para a virada da temática da literatura produzida em Cabo Verde foi
dado em 1936, na Ilha de S. Vicente, por um grupo de intelectuais, que lançou a revista
Claridade. Os intelectuais que possibilitaram a publicação da revista foram, principalmente,
Baltasar Lopes (autor do romance Chiquinho – 1947), Manuel Lopes (autor do romance Os
flagelados do vento leste – 1960) e Jorge Barbosa (poeta renomado, autor de Arquipélago –
1935, Ambiente – 1941, Caderno de um ilhéu – 1956, e Poesia inédita e dispersa – edição
póstuma, 1993).
Podem ser indicadas como presenças literárias fortes no movimento dos “claridosos”,
principalmente nos primeiros anos, a revista portuguesa Presença, de Coimbra, que publicou
vários poemas de Jorge Barbosa e tinha uma boa recepção entre os intelectuais cabo-
verdianos, e a literatura brasileira, principalmente os romances neo-realistas da segunda fase
do modernismo: Menino do engenho e Bangüê, de José Lins do Rego, Jubiabá e Mar morto,
de Jorge Amado, e romances de Graciliano Ramos, de Raquel de Queiroz e de Marques
Rebelo. A poesia de Manuel Bandeira foi um “alumbramento” para os intelectuais cabo-
verdianos, que também destacaram Jorge de Lima e Ribeiro Couto como descobertas
instigantes. Vejam-se os versos do poema “Palavra profundamente”, de Jorge Barbosa (1926,
p. 26), dedicado ao poema de mesmo nome de Manuel Bandeira:

[...]
Enquanto isso Manuel Bandeira vai passando
por nós no tempo
na sua alegria melancólica
na sua alegria de coração apertado
vai passando na sua
poesia profundamente.

Nos anos de 1936 e 1937 saíram os três primeiros números da revista; os outros seis
foram publicados no período de 1947 a 1960.
As linhas mestras dos movimentos dos “claridosos” estão praticamente condensadas
na obra de Jorge Barbosa. A preocupação fundamental da sua poesia é revelar as situações
com que diariamente se defronta o cabo-verdiano: a fome, a miséria, a falta de esperança no
dia de amanhã, as secas e os seus efeitos devastadores. Os grandes tópicos são o lugar, o
ambiente socioeconômico e o povo; e todos em relação constante com o mar, elemento
gerador de outros dois temas tratados na poética de Jorge Barbosa: a viagem e o sonho de
encontrar uma terra prometida.
A ilha, o mar, a viagem e o sonho são os signos de maior densidade na poesia de Jorge
Barbosa. Toda essa temática distribui-se pelas suas três obras: Arquipélago (1935), Ambiente
(1941) e Caderno de um ilhéu (1956). Mas é em Ambiente que Jorge Barbosa se define como
poeta inovador, ao dar à sua poesia uma tonalidade dramática, traduzida pela intimidade, pela
denúncia, pela epopéia do homem cabo-verdiano vivendo o drama da migração. Um poema
revelador da dualidade que marca a escrita de Jorge Barbosa, de um “eu” em constante tensão
com um ambiente exterior, é “Prisão” (BARBOSA, 1989, p. 113):

Pobre do que ficou na cadeia


de olhar resignado,
a ver das grades quem passa na rua!

pobre de mim que fiquei detido também


na Ilha tão desolada rodeada de Mar!...
... as grades também da minha prisão!

Esse poema é paradigmático quando se procura organizar uma amostragem


comparativa da poesia de Cabo Verde. É que a poesia dos “claridosos”, se por um lado
rompeu com as normas temáticas do colonialismo, não se libertou completamente de uma
visão que vitimiza o homem, herdada do neo-realismo português. Essa poesia retrata o
homem cabo-verdiano e o mundo que o rodeia, sem, no entanto, apontar grandes soluções. De
lirismo intimista, não apresenta outra solução ao homem cabo-verdiano que não seja a evasão
do mundo a que pertence. Tal postura gera críticas ao caráter escapista e evasionista da poesia
dos “claridodos” e de Jorge Barbosa.
A geração da Claridade lançou porém os alicerces da nova poesia, posteriormente
continuada pelos escritores que participaram de outras duas publicações: Certeza (1944) e
Suplemento Cultural (1958). Nessas duas revistas colaboraram poetas como António Nunes,
Aguinaldo Fonseca, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira (um dos primeiros a utilizar o crioulo
em parceria com o português, em seu livro Hora grande, de 1962) e Ovídio Martins (que
combateu abertamente o evasionismo dos “claridosos”). Apesar das críticas, a geração da
Claridade influenciou e continua a influenciar grande parte da produção poética e ficcional de
Cabo Verde.
O salto qualitativo e a ruptura com a influência dos “claridosos” deveram-se a dois
escritores que chegaram a participar na revista Claridade: João Varela (ou João Vário, ou
Timótio Tio Tiofe), que publicou, em 1975, O primeiro livro de Notcha, e Corsino Fortes,
autor de dois importantes trabalhos poéticos, Pão & fonema (1975) e Árvore & tambor
(1985). Foi sobretudo Corsino Fortes quem provocou o maior desvio de conteúdo temático e
formal na escrita cabo-verdiana. Em Pão & fonema percebe-se a intenção do autor em
reescrever a história do povo em uma epopéia. O livro abre-se com uma “Proposição” que
constitui, por si só, uma demarcação da poesia de tipo estático dos “claridosos”. Repare-se em
sua primeira estrofe (FORTES, 1975, p. 30):

Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
com poços de pedra
abertos
no olho da cabra

Essa cadência ritmada do esforço humano marca o compasso da epopéia que se


pretende escrever, intenção que o autor condensa na epígrafe, de autoria de Pablo Neruda:
“Aqui nadie se queda inmóvel. / Mi pueblo es movimiento. / Mi pátria es um camino”
(FORTES, 1975, p. 7).
Esse livro de Corsino Fortes (1975) assinala o desenvolvimento e a expansão de uma
metáfora, que se inicia com o título. O povo tomou conta da sua terra – o Pão – e do seu
destino – a fala que dá nome às coisas, que indica posse. A utilização do crioulo em muitos
poemas é intencional, uma vez que a fala, anterior à escrita, é o grande sinal da liberdade que
se tornou patrimônio, tal como a terra. Por isso o subtítulo do canto primeiro: “Tchon de pove
tchon de pedra”; por isso também os subtítulos de outros dois cantos: “Mar & matrimónio” e
“Pão & matrimónio”.
A problemática da identidade cabo-verdiana está presente na obra de Corsino Fortes.
Porém, ao contrário dos “claridosos”, a nova poesia é uma expressão artística cuja formulação
sugere e reflete a dinâmica do real e nela intervém. A grande diferença, no entanto, reside no
fato de que esse autor, para além de criar uma nova dinâmica das relações entre o sujeito e o
objeto poético, coloca toda a problemática da identidade cabo-verdiana num contexto muito
mais vasto, que é o da identidade da África. Cabo Verde, com sua especificidade – o
isolamento de arquipélago –, participa na viagem de construção da África de rosto e corpo
renovados:

Dos seios da ilha ao corpo da África


O mar é ventre e umbigo maduro
E o arquipélago cresce. (FORTES, 1975, p. 40).

O tema do isolamento provocado pela insularidade constrói contrapontos com o da


migração, com a expressão da necessidade de deixar as ilhas seja por causa do clima inóspito
em muitas delas, seja porque é no exterior que o futuro pode ser conquistado, às vezes
ilusoriamente. Nessa vertente da produção literária que explora os diferentes matizes da
temática da insularidade, a escritora Orlanda Amarilis é nome significativo, assumindo as
variantes de um mesmo tema – o do exílio, da diáspora, da solidão –, mas também
observando, com olhos muito ternos, o dia-a-dia das mulheres e das ilhas.
Orlanda Amarilis nasceu em Assomada, Santa Catarina, Cabo Verde, em 1924. Fez os
estudos primários na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, e ali iniciou, no Liceu Gil
Eanes, os estudos secundários. Completou-os depois em Goa, na cidade de Panguim, capital
do chamado Estado da Índia Portuguesa, onde viveu cerca de seis anos. Mais tarde,
freqüentou o curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Lisboa.
Foi no trânsito entre as ex-colônias da África – Cabo Verde – e da Índia – Goa – e a
própria metrópole portuguesa que se deu a formação da escritora. Formação que se completou
nas intervenções públicas que marcaram a inscrição de seu nome entre os ficcionistas cabo-
verdianos, feitas em seus percursos pela Nigéria, Canadá, Estados Unidos da América, Índia,
Moçambique, Angola, Holanda, Espanha e Hungria, dentre outros países, como também nas
traduções de sua obra.
A partir do trânsito entre espaços distintos – as colônias, com suas tradições, seu perfil
socioeconômico – e grandes metrópoles mundiais – com seus modelos hegemônicos de
cultura e economia propagadores da modernidade –, a obra de Orlanda Amarilis resulta de
uma ótica privilegiada para se pensar a vida contemporânea. Reflete a posição da autora de
equilibrar-se entre mundos que parecem distantes entre si, no tempo e no espaço, lançando
sobre cada um deles um olhar enviezado que procura visualizar detalhes que a visada
convencional deixa escapar.
Seus contos evidenciam-se como jogo de espelhos, emblema da duplicidade que é a
marca da própria vida da autora. Cada mundo descrito traça uma geografia imaginária em que
os espaços se interpenetram, ora se confundindo, ora se expandindo. Com esse procedimento,
a obra de Orlanda Amarilis lança luzes sobre algumas questões frente às quais se coloca o
escritor contemporâneo, como a necessidade de construir, com sua literatura, um mundo
novo, moderno, sobre as culturas que ele carrega dentro de si, ou, ainda, ao escrever, não se
fechar em guetos, esquecendo-se de que há um mundo além da comunidade à qual pertence
originariamente.
Embora tenha uma publicação literária reduzida – Ilhéu dos pássaros (1983), A casa
dos mastros (1989) e Cais-do-Sodré te Salamansa (1991) –, Orlanda Amarilis é importante
referência na construção de narrativas curtas que procuram explorar questões significativas da
cultura cabo-verdiana, com destaque para as tensões que podem se resumir na temática da
insularidade, vista como prisão e, ao mesmo tempo, como liberdade, particularmente com
relação aos lugares por onde transitam as mulheres.
Em seu conjunto, a obra de Orlanda Amarilis aborda a questão do deslocamento entre
espaços diferentes, numa perspectiva tanto física quanto psicológica. O conto “Thonon-les-
Bains”, que abre as narrativas que compõem a coletânea Ilhéu dos pássaros (AMARILIS,
1983), transcorre a partir do cruzamento de dois espaços distintos: o Ilhéu dos Pássaros,
situado próximo à Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, e a cidade Thonon-les-Bains,
localizada ao sul da França, na fronteira com a Suíça. O nome da cidade francesa dá título ao
conto. No entanto, a percepção da vida e o modo de ser do homem cabo-verdiano é que são
retratados na narrativa. Assim, o sentido do conto deve ser depreendido da percepção que o
homem cabo-verdiano tem do significado de viver fora de seu país sem abrir mão de suas
raízes.
Pelo olhar atento do narrador (AMARILIS, 1983) conhecemos a intimidade de
Nh’Ana, a mulher-mãe cujas relações são delimitadas pelo comadrio e pela vizinhança, em
Cabo Verde, e pelas cartas de Gabriel e Piedade, que vêm da França. Nh’Ana é uma das
“mulheres-sós” de Orlanda Amarilis, de que nos fala Maria Aparecida Santilli. Segundo a
autora, as personagens femininas de Orlanda Amarilis são aparas sociais que “giram no
espaço de suas Ilhas, recortadas dos homens – pais, maridos ou parceiros cuja ausência (ou
eventual presença) é, no entanto, o eixo em torno de que se descreve a órbita de suas vidas”
(SANTILLI, 1985, p. 107). De fato, é em torno da expectativa do sucesso do enteado Gabriel,
na França, que giram as perspectivas de vida de Nh’Ana. Enrodilhada em sonhos, Nh’Ana
exila-se dos sete anos sem chuva, da falta de aposentadoria, da renda parca advinda das
encomendas dos rendeiros, da venda dos cachos de banana, todos eles signos da carência que
governa sua existência nas ilhas de Cabo Verde.
O exílio no sonho de Nh’Ana ilustra o ser mulher-mãe que espera dentro de uma
tradição, cujos pontos de referência delimitam a ação da mulher entre as panelas e os santos.
A espera de Nh’Ana decorre entre as idas e vindas de Antoninho Coxinho para entrega das
cartas da França, as xicrinhas de café tomadas com a comadre e as rezas na cantoneira do
outro lado da cama, onde uma Santa Terezinha e uma Nossa Senhora do Rosário circundam
“uma imagem dentro de um nicho feito de uma caixa de sapatos com um friso de floritas de
cera em volta, [que] mostrava uma face descaída com dois vincos sobre os cantos dos lábios”
(AMARILIS, 1983, p. 12).
De maneira semelhante, Piedade é outra mulher-só cuja existência gira em torno de
dois homens: o meio-irmão Gabriel e o namorado francês Jean. Exilada do espaço de
referência tradicional de Nh’Ana, Piedade é chamada ao mercado de trabalho da sociedade
francesa moderna. Porém não consegue exilar-se de uma outra tradição: a da repressão
machista do homem que não lhe faculta a independência emocional e a expressão de sua
individualidade. Seja na relação com Gabriel ou com Jean, pesa sobre Piedade a ideologia da
intervenção do homem protetor, que lhe delimita as ações:

Jean era um bocado ciumento, tinha quarenta e dois anos, era separado de uma outra
mulher, mas era muito seu amigo. Trazia-lhe chocolates quando vinha namorar com
ela, tudo à vista de Gabriel e dos seus amigos. Nunca ficava só com ele porque
Gabriel não deixava, sempre a espiar, até os dois amigos eram capazes de lhe ir
contar qualquer coisa mal feita ela viesse a fazer. (AMARILIS, 1983, p. 19).

Nessa tradição, o lugar subalterno que Piedade ocupa na sociedade não somente é
realçado como, no que se refere a sua relação com Jean, determina a decisão sobre sua própria
vida. O assassinato de que é vítima revela sua dupla condição de minoria: Piedade é mulher e
estrangeira, ou seja, emigrada, marginalizada e submetida a uma sociedade onde representa
apenas a força do trabalho. Sobre seu assassinato recai a injustiça do silêncio, já que o
protesto doméstico fica circunscrito ao espaço daqueles que, como ela, não têm direito à voz
(AMARILIS, 1983).
A mesma preocupação em invocar o universo feminino têm Vera Duarte, que
publicou, além de vários poemas em antologias, Amanhã a madrugada (1993) e O
arquipélago da paixão (2001), e Dina Salústio, autora de Mornas eram as noites (1994) e A
louca do Serrano (1998), primeiro romance de autoria feminina publicado em Cabo Verde.
Em entrevista concedida, em 1994, a Simone Caputo (2006, p. 26), Salústio explica a
presença da figura feminina em seus escritos:
[...] a necessidade de publicar as inúmeras histórias de mulheres, histórias de vida
que passam por mim [...] é cá um encontro que é verdade, um momento só [...] para
querer mostrar o meu reconhecimento a estas mulheres cabo-verdianas que
trabalham duro, que fazem o trabalho da pedra, que carregam água, que trabalham a
terra, que têm a obrigação de cuidar dos filhos, de acender o lume. Quis prestar uma
homenagem a esta mulher [...]. As histórias acontecem ao sabor do vôo. Falo das
mulheres intelectuais, daquelas que não são intelectuais, daquelas que não têm
nenhum meio de vida escrito, falo da prostituta, falo de todas as mulheres que me
dão alguma coisa, e que eu tenho alguma coisa delas [...] Em Cabo Verde, quando
nasce uma menina, ela já é uma mulher.

Na época atual, Germano Almeida é, sem dúvida, o escritor cabo-verdiano mais


conhecido fora das ilhas. Com um estilo muito próprio, marcado por um irreverente humor,
ele traz para os seus livros a sociedade cabo-verdiana do pós-independência, abordando fatos
concretos da realidade do país numa prosa fluida que se vale de magistrais pinceladas
pitorescas e coloridas. Germando Almeida é autor de uma vasta coletânea de títulos: O
testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo (1989), O meu poeta (1992), A ilha
fantástica (1994), Estórias de dentro de casa (1996), A família Trago (1998), Estórias
contadas (1998), O dia das calças roladas (1999), Dona Pura e os camaradas de abril
(1999), As memórias de um espírito (2001), O mar na Lajinha (2004) e, mais recentemente,
Eva (2006). Dentre os inúmeros títulos já publicados pelo escritor, destaca-se o romance O
testamento do Senhor Napumoceno da Silva Araújo (1989), sem dúvida o mais conhecido dos
leitores cabo-verdianos e estrangeiros. O romance foi levado ao cinema por Francisco Manso,
numa produção cabo-verdiana, portuguesa e brasileira que tem o ator Nelson Xavier como
protagonista.

São Tomé e Príncipe

A literatura de São Tomé e Príncipe é ainda pouco representativa no contexto das


literaturas africanas de língua portuguesa. No entanto, São Tomé e Príncipe tem sua presença
assegurada na história da literatura africana com escritores como Francisco da Costa Alegre e
Francisco José Tenreiro.
Francisco José Tenreiro, nascido em São Tomé, em 1921, autor de Ilha de nome santo
(1942), é considerado um dos marcos da poesia santomense e das literaturas africanas de
língua portuguesa. Muitos críticos apontam Tenreiro como o primeiro poeta a imprimir a
negritude na poesia africana de língua portuguesa, inspirando-se nos poetas americanos
Langston Hughes e Counteen Cullen e em Nicolas Guillén. Na obra de Tenreiro, o ideário da
negritude motiva uma produção poética mais voltada para as realidades da vida do homem
africano, esteja ele no continente ou perambulando pela Europa com o “coração em África”.
Essa motivação perpassa o longo poema “Coração em África”, de que faz parte a seguinte
estrofe:

Caminhos trilhados na Europa


de coração em África
Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas
tons fortes da paleta cubista
que o Sol sensual pintou na paisagem;
saudade sentida de coração em África
ao atravessar estes campos de trigo sem bocas
das ruas sem alegrias com casas cariadas
pela metralha míope da Europa e da América
da Europa trilhada por mim Negro de coração em África.
De coração em África na simples leitura dominical
dos periódicos cantando na voz ainda escaldante da tinta
e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities boulevards e baixas da Europa
trilhada por mim Negro e por ti ardina
cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do orçamento que não equilibra
do Benfica venceu o Sporting ou não
(...). (TENREIRO, 1982, p. 124).

Francisco José Tenreiro, em parceria com o angolano Mário Pinto de Andrade,


organizou o célebre Caderno de poesia negra de expressão portuguesa, lançado em Lisboa,
em 1953. A publicação, uma pequena antologia de poetas de Angola, Moçambique e São
Tomé e Príncipe, conta com um poema do cubano Nicolas Guillén, a quem o caderno é
dedicado, e tem como objetivo fundamental propor uma reflexão sobre o que se deveria
entender por negritude na África sob dominação portuguesa. O texto introdutório, de autoria
de Mário Pinto de Andrade (1982), é bem explícito com relação ao objetivo da publicação:
seguir a tendência da poesia negro-africana produzida na Europa no intervalo entre as duas
guerras mundiais.
A obra poética de Tenreiro foi, desde sempre, uma leitura obrigatória para todos
quantos participaram dos movimentos sociais, políticos e literários que geraram, em Lisboa,
sobretudo a partir da década de 50, organizações como a Casa dos Estudantes do Império e o
Centro de Estudos Africanos, de que Tenreiro foi um dos fundadores, em 1951. Em tais
organizações militou a maioria dos intelectuais cujas obras passaram a integrar o que de mais
representativo existe na poesia e na ficção dos países africanos de língua portuguesa. E é
sobretudo a poesia desses autores que absorveu, com maior grau de profundidade, a expressão
da negritude existente na obra de Francisco José Tenreiro, a qual contribuiu para modelar uma
literatura africana que, embora não tenha constituído uma ruptura essencial com a cultura
dominante de cinco séculos, se desenvolveu num movimento que começou na assimilação e
estendeu-se até a luta pela libertação.
Francisco da Costa Alegre, nascido em 1864, teve a obra Versos editada
postumamente, em 1916. Conforme José Francisco Costa (2006), é um dos primeiros poetas
africanos a se exprimir em língua portuguesa e a ter consciência da sua cor, Costa Alegre
articulou uma resposta à injustiça social por meio da exposição da situação do homem
africano negro:

a minha cor é negra,


Indica luto e pena;
[...] Todo eu sou um defeito,
Sucumbo sem esperanças, [...]. (COSTA, 2006).

Em sua poesia encontra-se um despertar para a cor, um dos passos importantes para a
consciência nacional que a poesia africana tomou em determinada altura.
Alda do Espírito Santo também figura em todas as antologias de poesia africana. Sua
poesia tem a diferença racial e a exploração colonial como pano de fundo. Seu livro É nosso o
solo sagrado da terra: poesia de protesto e luta (1978) caracteriza-se por uma grande dose de
combatividade e por uma grande profundidade lírica e descreve, com traços sensíveis, a vida
dos habitantes de São Tomé.
Outros poetas, como Tomaz Medeiros, Maria Manuela Margarido, Marcelo da Veiga e
Carlos do Espírito Santo, mantêm uma linha de continuidade em que a temática de fundo é a
luta contra o colonialismo, a exploração dos negros nas plantações, a consciência da diferença
que a cor provoca e a alienação.
Na época atual, destaca-se Conceição Lima, que tem poemas dispersos em várias
revistas e antologias e publica poesia há quase duas décadas. Seu livro Útero da casa (2005)
apresenta uma produção poética de cunho mais reflexivo.

Angola

Como acontece com os outros países, a literatura de Angola também reflete a


influência de antecedentes e precursores de caráter social, cultural e estético. Além disso, um
fator de grande influência é a tradição da oralidade na África, que marca, inclusive, uma
identidade cultural expressa na literatura. Alguns nomes de escritores, ainda no século XIX,

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