Racismo e Intolerância Religiosa no Brasil
Racismo e Intolerância Religiosa no Brasil
Sumário
4 Cultura e Diversidade.................................................................................................................................... 20
5. Ética .............................................................................................................................................................. 29
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11. RACISMO
Para iniciarmos este tema, faz-se importante explicar alguns conceitos que permitirão um
melhor entendimento do assunto: preconceito, discriminação e racismo.
Preconceito, como a própria palavra já indica, está permeado por pré-noções que geram
generalizações superficiais e depreciadoras a respeito de outras pessoas, podendo, para isso,
ressaltar características físicas e culturais. Já a discriminação é a materialização do preconceito,
isto é, atitudes (falas, políticas públicas, ações, tratamentos) que excluem outras pessoas por sua
cor de pele ou etnia.
A discriminação pode ser mais visível quando percebemos a segregação racial, como
aconteceu nos EUA pós-Guerra de Secessão ou no regime do Apartheid, na África do Sul. Contudo,
a discriminação nem sempre é visível: pode estar nas piadas, na não escolha de uma vaga de
emprego, no padrão de beleza.
Dessa forma, a ideia de racismo permeia a concepção de que há raças superiores e
raças inferiores. Isso esteve presente nos processos de colonização, no Imperialismo dos séculos
XIX e XX e, infelizmente, continua gerando efeitos no século XXI.
Diversas teorias raciais e eugênicas foram defendidas nesses séculos citados. O pensador
Josph Arthur Gobineau em seu livro “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” defendeu
que a miscigenação das raças levaria à degeneração física, intelectual e moral da humanidade. No
mesmo viés racista, o pensador e criminologista italiano Cesare Lombroso, utilizava-se da
antropometria para argumentar que, por meio da medição de evidências físicas (maxilar e crânio),
poderia se identificar comportamento agressor, facilitando, assim, repressões – não precisa ser um
gênio da lâmpada para concluir que essas evidências “científicas” colocavam os corpos negros
como fruto de tudo que era ruim e transgressor.
Essas ideias se materializam nas relações sociais e institucionais. Por exemplo, o Brasil do
século XIX e início do século XX queria embranquecer a população para se livrar do fardo que a
maioria de sua população era negra, estimulando a vinda de imigrantes europeus – não era só uma
questão de mão de obra, mas também de ideologia. Além desse exemplo, o que não falta na história
é a materialização da tentativa de extermínio ao outro devido a sua cor e etnia: Ku Klux KLan,
Estado Nazista e, recentemente, os grupos denominados supremacistas brancos.
No Brasil, a violência simbólica ficou ainda mais intensa. Com a obra “Casa Grande &
Senzala”, de Gilberto Freyre, houve a defesa de que o processo de colonização do Brasil foi positivo
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e civilizacional, uma vez que gerou uma sociedade diferente de todas as outras, marcada por uma
miscigenação positiva. Embora Freyre não condene a miscigenação como degradação moral
como os demais pensadores supracitados, ele defende que há uma harmonia entre as raças;
todos, no Brasil, vivem sem conflitos e preconceitos. Ou seja, encobertas as desigualdades
raciais e mascaradas as práticas discriminatórias.
O sociólogo Florestan Fernandes vai chamar isso de “mito da democracia racial”, uma vez
que atenuou os conflitos violentos originados com a colonização e a não inclusão do negro na
sociedade brasileira após a abolição, ficando excluído de todos os processos de cidadania.
Essa exclusão do passado escravocrata, que durou quase quatro séculos e das décadas
seguintes, não integrando o negro no mercado de trabalho e nos processos de escolarização, gerou
aquilo que muitos autores denominam de “racismo estrutural”, ou seja, as práticas racistas
foram incorporadas por meio de nossas socializações historicamente e continuam nas mais
diversas áreas sociais, causando exclusão. Veja alguns dados:
Em pesquisa recente, de 2023, realizada pelo 17º anuário do Fórum de Segurança, parece
que o contexto racial não mudou no Brasil...
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Mesmo com os dados acima, há pessoas e grupos sociais que minimizam as consequências
do racismo, inclusive negando a sua existência. No entanto, é inegável que há desigualdades
raciais e que negá-las impede a busca de soluções, as quais consigam criar políticas públicas que
contribuam em oferecer melhores condições de existência à população negra.
O Brasil é uma nação marcada pela diversidade religiosa, de modo que a Constituição
assegura a liberdade de crença e protege as diversas manifestações de fé. No entanto, na
prática das interações sociais, prevalecem preconceitos e violências que afetam
especialmente a população negra, adeptos de religiões de matrizes africanas.
Com efeito, embora o Brasil seja uma nação com uma rica diversidade religiosa, muitas
vezes adeptos de crenças tradicionais e hegemônicas tentam impor seus valores, gerando
violência simbólica. Sob tal prisma, o conceito relativo a essa agressão invisível, conforme
Pierre Bourdieu, refere-se à imposição de valores, crenças e práticas de uma cultura
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dominante sobre grupos minoritários, reforçando desigualdades sociais. Nesse contexto,
diversos fiéis enfrentam o desafio de combater a intolerância e proteger suas tradições,
promovendo, assim, a coexistência pacífica e respeitosa de todas as crenças.
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12. FAKE NEWS
As “Fake News” ou “notícias falsas” são informações que, na verdade, desinformam,
que deturpam os fatos em prol da defesa de convicções pessoais ou, simplesmente, geram
conteúdos de forma proposital para manipular comportamentos e pensamentos.
O uso da desinformação para tais propósitos é antigo: por exemplo, a queda do regime
monárquico no Brasil (1889) se deu por uma notícia falsa disseminada pelo movimento republicano
de que o Imperador D. Pedro II iria mandar prender oficiais do Exército. Contudo, na atualidade,
devido ao advento das redes sociais e aplicativos, tal instrumento de manipulação é usado de forma
a atingir um grande número de pessoas de forma instantânea, ou seja, a reprodutibilidade de uma
notícia falsa atinge um público grande em curto espaço de tempo.
Para o pensador Noam Chomsky, essa distorção deliberada que se faz da realidade
com o objetivo de moldar a percepção e a opinião das pessoas faz parte da “Pós-verdade”,
resultado das políticas públicas implementadas pelo Neoliberalismo nas últimas décadas do século
XX. Essas políticas, de acordo com o pensador supracitado, contribuíram para o aumento da
pobreza e do desemprego no mundo. Assim, grande parte da população perdeu qualidade de vida
e poder de consumo, desacreditando que as soluções coletivas partiriam do tradicional sistema
político.
Nesse contexto de descrença geral e de crise das instituições democráticas, intensificada
pela crise econômica mundial de 2008, surgiram como alternativa na política os discursos
autoritários/extremistas, que colocam em xeque a própria existência do ideal humanitário e
democrático. Esse tipo de discurso visa estabelecer um inimigo comum como culpado pelas
mazelas sociais.
Para mobilizar a população frustrada com a sua condição de vida, adotaram como
prática o discurso de ódio, a xenofobia e o desejo de vingança. Para isso, utilizaram os
mecanismos das redes sociais para bombardear as pessoas com notícias falsas, com o
intuito de manipular suas respectivas percepções. Por exemplo, na Europa e nos EUA, o
imigrante passou a ser o responsável pelo desemprego, pelas altas taxas de criminalidade, pelo
terrorismo e por acabar com os valores nacionais. No Brasil, as políticas sociais e os atos de
corrupção do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) foram associados a uma tentativa
comunista de destruir o país.
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Com a circulação dessas notícias em diversos veículos de comunicação virtual, reforçaram-
se as emoções básicas de ódio àquilo que se tornou o grande inimigo da nação, em vez de checar
a fonte das informações e os dados apresentados, simplesmente, muitas pessoas passaram
adiante os conteúdos recebidos, como se fossem verdades.
Para se ter uma ideia da proporção em nosso país, de acordo com dados do instituto Ideia
Big Data, divulgados pela revista Veja, o grande alvo de conteúdos checados como notícias falsas
são o ex-presidente Lula, a ex-presidenta Dilma, o ex-presidente Temer e o juiz Sérgio Moro. Isso,
a priori, pode parecer que é liberdade de expressão ou briga de oposicionistas, mas o fato é que,
com a disseminação de notícias falsas, há abalos na democracia, porque isso pode alterar
resultados de eleições, impedir a pluralidade de ideias e incentivar as mais diversas
intolerâncias.
O caso mais concreto foram as eleições de Donald Trump, que abusou do uso das redes
sociais e da divulgação de “Fake News”, para influenciar eleitores indecisos em diversos estados
norte-americanos – sugiro que você assista ao documentário “Privacidade Hackeada”.
Porém, erra quem crê que as notícias falsas impactam somente o campo político.
Recentemente, houve uma notícia falsa de que a Pepsi passaria a Coca-Cola em vendas no Brasil
porque suas latinhas viriam com a imagem do atual presidente. Essa postagem atingiu um público
de 1,8 milhão de pessoas e, em poucas horas, contava com mais de 20 mil curtidas. Ou seja, fica
evidente que as notícias falsas podem impactar outras áreas, como a comercial.
Nessa perspectiva, as empresas gestoras dessas redes sociais possuem sua parcela de
responsabilidade, já que os seus algoritmos não filtram nem detectam conteúdo de ódio e notícias,
deliberadamente, falsas. Para elas, na verdade, isso é bem cômodo, pois os anúncios contratados
geram bilhões, independentemente de qual conteúdo seja. No entanto, os governos e empresas
contrários ao discurso de ódio, vêm pressionando o Google, o YouTube, o Facebook, o Instagram,
o Twitter, etc., para que adotem procedimentos que não permitam a propagação de mensagens
falsas nem a promoção da intolerância.
Diversas empresas que gastam milhões em anúncios passaram a boicotar as empresas que
gerenciam as redes sociais com objetivo de forçar mudanças nos algoritmos e no combate ao
discurso de ódio. Vários governos, a exemplo do brasileiro, estão debatendo projeto de lei
“antifakenews”.
Nesse sentido, é importante destacar que é necessário rigor na punição do
gerador/propagador de notícias falsas, bem como empenho das empresas de redes sociais em
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proibir mensagens de cunho intolerante, para que possamos fortalecer um ambiente democrático e
de respeito à diversidade.
Modelo de Redação:
De acordo com o filósofo Hartmut Rosa, vive-se um processo de aceleração social, em que
a tecnologia potencializa a velocidade da circulação das informações e do seu acesso. Com
isso, as pessoas se veem diante de amplo escopo de dados, notícias e opiniões, cuja
veracidade só pode ser checada diante da disposição do usuário e da dedicação de tempo
para averiguar a realidade.
Desse modo, a aceleração social descrita por Rosa é o pano de fundo de uma era em
que a informação circula com enorme velocidade e em proporções nunca vistas. Como
consequência, as pessoas são desestimuladas a dedicar energia e tempo à busca pelos fatos,
reforçando a “pós-verdade” e a adesão à “ética do desempenho”.
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Confira a redação do aluno Avner Pinheiro no concurso do TJDFT. Nota 10/10
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13. NARCOTRÁFICO E MILÍCIAS
Conquanto o consumo de substâncias psicoativas faça parte da história da humanidade,
empregada em rituais de cura, em algumas cerimônias religiosas, no convívio social, o consumo
das drogas (principalmente as ilícitas) tornou-se um problema social a partir dos processos de
urbanização tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento econômico.
A relação de violência e drogas está vinculada aos médios e grandes centros urbanos. As
pessoas sob os efeitos de substâncias psicoativas podem causar homicídios, agressões, acidentes
de trânsito, violência doméstica, suicídios, etc. Além disso, o crime organizado por meio do
narcotráfico potencializa e torna mais complexo o repertório de ações violentas: o usuário necessita
ter dinheiro para manter o vício, o tráfico precisa comprar armamento para manter e defender suas
áreas de influência.
Talvez, o principal desafio das polícias no Brasil seja o combate às drogas, no qual o aparato
repressivo tem concentrado sua força tanto nas fronteiras como principalmente nos centros
urbanos. Essa “guerra às drogas” gera combates violentos entre o Estado (por meio das instituições
policiais) e o narcotráfico, além das disputas entre as facções para manter suas respectivas áreas
de influência.
A ação do crime organizado, por estabelecer áreas de comércio dos produtos ilícitos, gera
uma verdadeira “guerra civil”, uma vez que precisam escoar as drogas e comprar armamentos, ou
seja, inevitavelmente haverá conflitos violentos com facções rivais, bem como com as instituições
de segurança pública.
Os efeitos econômicos e humanos advindos dessa violência generalizada são variados:
atividades econômicas são interrompidas, escolas são fechadas, o turismo fica prejudicado. Há
uma propagação do medo e do terror na sociedade, custo elevado para o sistema público de saúde,
gastos massivos com a segurança pública, que poderiam ser direcionados para outras áreas e a
manutenção elevada do sistema carcerário.
Para o paradigma (modelo) proibicionista, implementado pelos E.U.A, que é o mais adotado
nas políticas públicas de enfrentamento às drogas no mundo inteiro, é preciso um enfrentamento
enérgico contra aquelas drogas com alto potencial de abuso e nenhum uso medicinal, isto é:
heroína e cocaína.
As pessoas (autores e autoridades públicas) que defendem esse paradigma argumentam
que as drogas geram dependência (patologia neuroquímica). Isso faz com que haja a busca
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incessante por novas e maiores doses, causando várias consequências, tais como: sofrimento,
ansiedade, depressão, suspensão da consciência e do julgamento moral, atitudes violentas,
deterioração dos laços familiares, além de possíveis danos cognitivos.
Visto esse rol de danos tanto individual como coletivo, o consumo de drogas é totalmente
prescindível (dispensável), já que elas não têm aplicação médica, logo justifica a proibição e a ação
do Estado em prol de perseguir e punir quem as produz, comercializa e consome.
Por outro lado, há autores e autoridades públicas com visão diferente do que apregoa o
modelo proibicionista. Algumas críticas mencionam que os danos sociais do consumo de drogas
não justificam a sua proibição. Defendem a autonomia do indivíduo e que o Estado só deve agir em
casos pontuais sob o devido processo médico-jurídico. Nessa perspectiva, questiona-se por que o
Estado não proíbe outras drogas que fazem tanto ou mais mal do que aquelas classificadas como
ilícitas como, por exemplo, o álcool, o tabaco, determinados alimentos que podem gerar problemas
de obesidade, etc. Assim, para os críticos do proibicionismo a punição pelo Estado é perigosa e só
deve ser utilizada em caráter excepcional.
O Estado ao proibir a produção, o comércio e o consumo cria um mercado paralelo, sem
regras, clandestino, o qual gera mais problemas sociais. Várias pesquisas apontam que proibir e
penalizar não diminuem o consumo, pelo contrário, cada vez mais há aumentos consideráveis.
O crime organizado de drogas gera lucros exorbitantes, que são usados na compra de armas
e no uso da violência generalizada. Corrompem agentes do Estado (principalmente a burocracia da
segurança pública), o que mostra a ineficiência do paradigma proibicionista. Além disso, não há um
combate real ao narcotráfico, já que os alvos das polícias são os “varejistas” ou, na linguagem mais
popular, os “aviãozinhos”. Esses são compostos por jovens pobres que não tiveram oportunidades
de estudo ou de emprego e encontram no tráfico possibilidade de ganhar dinheiro e “moral no
morro”.
Essa ação de enfretamento àqueles que estão na linha de frente do tráfico revela que há um
combate à pobreza e não ao tráfico em si, já que o problema não é solucionado. Portanto, para
autores críticos do modelo proibicionista há que se pensar que as causas envolvem também as
desigualdades sociais. Tanto é que o encarceramento no Brasil cada vez mais está aumentando
como vimos anteriormente.
No Brasil, o paradigma proibicionista ganhou força com a Lei de Drogas (11.343/2006), que
endureceu o combate ao tráfico e manteve a criminalização do usuário, uma vez que não definiu
objetivamente qual é a quantidade que tipifica o usuário (para consumo próprio) ou o traficante
(comercialização). Além disso, a classificação do que é consumo próprio ou para a venda é
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determinada no ato da apreensão pelo próprio policial e levado à autoridade competente, o que tem
desencadeado o aumento de prisões, uma vez que o policial é levado institucionalmente a
classificar o usuário como traficante em seus registros.
Por fim, há propostas alternativas ao modelo proibicionista. Defende-se o autocuidado e os
controles sociais, além de descriminalizar o consumo e estabelecer critérios objetivos que tipifiquem
o traficante e o usuário.
Um modelo de êxito que segue a proposta alternativa é o implementado por Portugal, no
qual o consumo é uma infração administrativa. O usuário quando abordado pela força policial é
encaminhado a uma junta civil composta de psicólogos, médicos e assistentes sociais, que sob
determinado protocolo, decidem pelo tratamento ou multas.
Outra proposta alternativa é que o Estado tenha o mesmo tipo de abordagem aplicada às
drogas lícitas (álcool e tabaco), por meio de regulamentação e controle estatal, realizando trabalhos
de conscientização e de restrição à publicidade.
Por que isso não acontece? Segundo os autores que defendem o modelo alternativo há um
forte apelo de vários segmentos sociais e dos agentes políticos conservadores de que se deve
haver o combate severo às drogas, por meio de uma fundamentação moral e de senso comum.
Ademais, o discurso político de combate às drogas pela via do enfrentamento proporciona votos,
logo o debate mais aprofundado sobre questão tão delicada não é bem-vindo.
De acordo com o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População
Brasileira, realizado pela Fiocruz e pelo IBGE, a substância ilícita mais consumida no Brasil é a
maconha: 7,7% dos brasileiros de 12 a 65 anos já usaram ao menos uma vez na vida. Em segundo
lugar, fica a cocaína em pó: 3,1% da população brasileira já a consumiu.
O uso de drogas vem crescendo e gerando diversos desafios para as políticas públicas em
diversos países. Inclusive, as operações de combate às drogas são as mais quantitativas na PF e
na PRF.
Segundo relatório mundial sobre drogas, publicado em 2020, 269 milhões de pessoas
usaram drogas em 2018 - aumento de 30% comparado com os dados de 2009. Dessas pessoas,
35 milhões sofreram transtornos associados ao uso de drogas.
A partir desses dados, é importante ressaltar que a Organização Mundial de Saúde define
droga como qualquer substância que provoca interferência no funcionamento do organismo. Essa
definição, no mínimo, é problemática, uma vez que diversas substâncias quando ingeridas causam
várias modificações – no Brasil, é a ANVISA que define as drogas ilícitas.
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Uma das principais causas de uso de drogas ilícitas advém do contexto de desigualdades
sociais (principalmente o uso de crack). De acordo com a pesquisa da Fiocruz supracitada, o
aumento do desemprego e a redução de oportunidades agravam a busca pelas drogas, o que afeta
diretamente a população mais pobre. Ademais, o uso de drogas pode estar relacionado, também,
a dilemas existenciais, porém, cada classe social tende a consumir determinado entorpecente.
A preocupação com o aumento do consumo de drogas e a respectiva intervenção dos
governos se dão porque há diversos impactos negativos, que vão além dos danos individuais. Isso,
de acordo com a sociologia de Émile Durkheim, gera anomia social, ou seja, desintegração social,
prejudicando o bom funcionamento da sociedade.
Outro grupo de atuação negativa na sociedade é a milícia. Os milicianos controlam serviços
públicos e privados em áreas que o Estado não se faz presente e cujas regulamentações legais
não são aplicadas. Por meio de organização paramilitar composta por pessoas armadas (em sua
maioria, policiais ou ex-policiais), começaram a dominar serviços nas mais diversas áreas, suprindo
a ausência do Estado. Contudo isso é feito por meio de ameaças e violência.
Um dos serviços clássicos dos milicianos é a prestação de segurança pública a moradores
e comércios, por meio de taxas. Aqueles que não pagam essas taxas, sofrem ameaças, podem ser
mortos ou terem sua residência/comércio assaltados. Porém, as atividades foram ampliadas: hoje,
as milícias oferecem serviços de gás, internet, transporte, luz, saneamento, etc. As comunidades
são obrigadas a adquirem esses serviços dos milicianos, os quais cobram valores acima do
mercado, aumentando ainda mais o custo de vida das pessoas mais pobres.
Em sua origem, os milicianos combatiam o tráfico de drogas para proteger os seus
respectivos territórios e cobrar taxas dos moradores por isso, porém, na atualidade, há uma
associação em diversos territórios entre grupos milicianos e o narcotráfico.
Em 2008, a Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias na Assembleia do Rio de Janeiro
identificou a relação profícua entre políticos e milícias, já que a base eleitoral (curral eleitoral) de
autoridades políticas era sólida em áreas milicianas. Em troca de votos, os políticos ofereciam
interferências políticas para que os milicianos agissem sem nenhum constrangimento dos órgãos
públicos.
O resultado naquele não, foi a prisão de 219 policiais militares, 1 deputado estadual e 791
civis por envolvimento de extorsão às comunidades vulneráveis. Porém, não se conseguiu acabar
nem controlar a expansão das milícias.
O estudo "Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro" publicou, em 2020, estudo inédito
sobre as milícias: elas já ocupam uma área maior de atuação do que o próprio tráfico de drogas.
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De acordo com os resultados dessa pesquisa, dos 163 bairros da cidade, 96 sofrem com o domínio
das milícias e do tráfico de drogas. Além desses dados, o relatório aponta:
2,1 milhões de pessoas (33% da população) vivem em área sob o comando de milícias;
1,1 milhão de pessoas (18,2% da população) vivem em área dominada pelo Comando
Vermelho;
337,2 mil pessoas (5,1% da população) vivem em área dominada pelo Terceiro Comando;
48,2 mil pessoas (0,7% da população) vivem em área dominada pelo Amigos dos Amigos.
A questão das drogas gera debates no Brasil e no mundo, sendo um tema de difícil
consenso. No Brasil, algumas dimensões são fundamentais para esse debate, como o largo
contingente de presos por posse de entorpecentes e a vulnerabilidade social flagrante entre
os envolvidos com substâncias ilícitas. Por isso, políticas públicas amplas e multissetoriais
devem ser formuladas para enfrentar esse problema.
Portanto, as políticas públicas para coibir o consumo de drogas devem ser multifatoriais e
cobrir, de formas diferentes, usuários e traficantes. Assim, o Congresso deve reformular a
Lei de Drogas, estabelecendo quantidades precisas para tipificação do crime de tráfico, a fim
de prender apenas os verdadeiros contraventores e direcionar os dependentes a tratamentos
específicos. Ademais, devem ser realizados projetos sociais nas comunidades pelo Estado e
por setores organizados da sociedade civil, com o fito de ampliar oportunidades e reduzir a
influência do crime organizado.
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Confira a redação do aluno Yuriki no concurso do TRT13-PB. Nota 9.8/10
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4 CULTURA E DIVERSIDADE
É comum você já ter dito ou escutado as seguintes frases: “se comporte que nem homem”,
“as mulheres são frágeis”, “esta lutadora nem parece mulher”, entre muitas outras. Além dessas,
escutamos, também, cotidianamente alguns adjetivos sobre “raças”, tais como: “os negros são
indolentes”, “os índios são preguiçosos” e as “pessoas pobres são violentas”.
Essas e muitas outras frases são permeadas de preconceitos ou de uma visão de senso
comum. Refletem a crença na existência de uma natureza humana, uma essência humana, que
teria a tendência de ser a mesma em todos os tempos e lugares, ou seja, as diferenças existentes
são naturais.
Ao dizer que determinada coisa existe naturalmente é dizer que essa coisa existe
necessariamente, e que não pode mudar. Ora, então podemos concluir que essa essência que
supostamente temos não depende da ação e da intenção dos seres humanos, basta deixar a
“natureza” agir. Sabemos que essa forma de pensar não procede, já que os seres humanos são
construídos culturalmente e historicamente.
“Ser homem ou ser mulher” depende da construção social, o que irá variar no tempo e no
espaço. Depende do que cada sociedade atribui como características a cada gênero e o que espera
de comportamentos e sentimentos do “homem” e da “mulher”. Por exemplo, em nossa sociedade
contemporânea foi atribuído aos meninos a cor azul, brincar com carros e bonecos, jogar futebol,
se comportar como “machos”, não pode chorar, precisa ser forte, etc. Já as meninas ficaram com
a cor rosa, devem brincar com bonecas, fazer dança, usar vestido e ser sensível, etc.
Será que essas características são naturais e universais ou fazem parte de uma
determinada construção cultural e histórica que depende das ações humanas?
Entre os Arepesh não havia diferenciação entre homens e mulheres, pois ambos eram
educados para ser dóceis e sensíveis. Os Mundugumor também não havia diferenciação: os
indivíduos de ambos os sexos eram educados para a agressividade, caracterizando relações de
rivalidade. Já os Chambuli havia distinção entre homens e mulheres, mas de modo bem diferente
do que conhecemos: a mulher era educada para ser extrovertida, empreendedora, dinâmica e
solidária com o membro de seu sexo, enquanto os homens eram educados para ser sensíveis,
preocupados com a aparência e invejosos. Isso resultava em uma sociedade em que as mulheres
detinham o poder econômico e garantiam a sustentação do grupo. Aos homens ficavam reservadas
funções domésticas, cerimoniais e estéticas.
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vinculadas a características biológicas (sexo), mas sim como cada sociedade e cultura
define a educação e os processos de socialização desde a tenra infância.
No que se refere àquelas frases sobre a preguiça dos índios ou a malandragem dos negros,
sabemos que essas afirmações têm uma construção histórica. Os índios antes do trabalho
compulsório tinham um ritmo e forma de lidar com o tempo e com a natureza bem diferente dos
europeus. Buscavam na natureza o suficiente para alimentar a tribo.
O primeiro está relacionado à etimologia da palavra quem advém do latim (cultivar, criar, tomar
conta e cuidar). Assim, cultura estava associada à agricultura, ao culto dos deuses, cuidado do
corpo e da alma das crianças (paideia). Nesta concepção, os seres humanos são considerados
seres naturais, diferenciando-se das plantas e animais pela linguagem e uso da razão. Sua natureza
deve ser educada, cultivada de acordo com os valores da sociedade, ou seja, é uma natureza que
adquire costumes.
Já uma segunda concepção, a partir do século XVIII, percebe a cultura como resultado e
consequência das ações dos seres humanos: obras arquitetônicas, arte, religião, ciência, filosofia,
política, vestimenta, alimentação, linguagem, etc. Ou seja, uma concepção bem ampla que torna
cultura sinônimo de civilização e separa natureza de cultura.
À medida que esta segunda concepção foi se consolidando, cultura passou a significar
também a relação que os seres humanos socialmente organizados estabelecem com o
tempo e com o espaço, com outros seres humanos e com a natureza.
Se somos seres históricos e culturais, isto é, uma construção de ações dos homens no tempo
e no espaço, podemos considerar que dependendo da sociedade em que vivemos e de nossos
processos de socialização (família, escola, religião, trabalho, grupo social, etc.) vamos ter certas
formas de pensar, sentir e agir na sociedade. Isso tudo nos leva a pensar na diversidade humana,
cultural e ideológica. Contudo, sabemos que um dos maiores desafios - não somente da
sociedade contemporânea -, é a aceitação das diversidades entre sociedades diferentes ou
entre os próprios homens de uma mesma sociedade. Isso ocorre porque temos a tendência de
acreditar que nosso grupo social ou determinada ideia ou determinado comportamento que
defendemos como correto são os melhores, que são pontos de vista superiores.
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Quando há um grupo ou sociedade que se considera superior, uma civilização mais
avançada do que as demais, isso se configura como etnocentrismo (uma determinada
etnia ou sociedade como centro, um parâmetro para as demais).
Por outro lado, podemos pensar se de fato existe alguma cultura “pura”. Mesmo antes da
globalização, em vários momentos da história as sociedades absorvem aspectos culturais de
outras. Podemos citar a relação do Império Romano ao dominar a Grécia, absorvendo e valorizando
vários aspectos da cultura grega.
No século XX e início do XXI, com a superação das fronteiras geográficas existentes através
do cinema, da televisão e principalmente da internet, as trocas culturais se intensificaram e os
contatos passaram a ter múltiplos pontos de origem. Assim, hoje se fala em culturas híbridas,
porque não se pode considerar uma cultura como de um único país, mas como parte de uma
imensa cultura mundial.
Quer um exemplo simples? Cada vez mais é comum no ocidente praticantes de meditação,
que é uma prática da cultura oriental. Por sua vez, cada vez mais o oriente se abre ao ocidente,
enviando alunos para as faculdades americanas e europeias.
Isso não significa que a cultura particular de uma região, grupo social ou país tenha
desaparecido. Elas convivem com essas trocas híbridas que atingem o nosso cotidiano
através da música, pintura, linguagem, cinema, literatura. Essas formas híbridas ao
mesmo tempo coexistem com aquilo que é específico. Isso ressalta a importância de
preservar e promover a diversidade.
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Outro aspecto relevante do debate que tangencia a ideia de cultura é a sua separação entre
cultura popular e erudita. É comum encontrarmos especialistas que classificam a cultura em dois
tipos: a erudita e a popular. Essa classificação tem como ponto de partida a divisão da
sociedade em classes, na qual haveria uma identificação da elite e da classe média tradicional
com determinados gostos e produções culturais como música clássica, artes plásticas, escultura,
museu, pintura, teatro e literatura. Por outro lado, a cultura popular é aquela atribuída às camadas
populares da sociedade como o funk, o rap, o grafite, o folclore, o carnaval, o artesanato.
O tipo de visão acima tem a tendência de desconsiderar a circulação que há entre as diversas
produções culturais entre as classes sociais. Nesse sentido, as obras eruditas seriam aquelas mais
valorizadas e consideradas legítimas na sociedade em comparação à cultura popular. Isso quer
dizer também que há uma dominância cultural da elite, dos seus valores e estilo de vida.
Outros autores vão dizer que não faz sentido separar cultura em popular ou erudita.
Para eles, cultura é um processo relacionado ao trabalho seja o de ensinar uma criança
(concepção de paideia dos gregos) ou de cuidar da agricultura. Assim, todas as pessoas têm
cultura, porque através de seu trabalho desenvolvem ações, criam algo: a renda de uma
toalha, a construção de uma casa, a elaboração de uma música, a reflexão filosófica, etc. Portanto,
cultura é algo que se faz, e não apenas um produto que se adquire. Nesta visão, como dissemos,
não faz sentido diferenciar cultura erudita e cultura popular, porque tudo é cultura.
Por outro lado, quando se afirma que alguém tem mais cultura do que outra pessoa num
sentido de superioridade, como elemento de diferenciação social ou de imposição, aí
não se trataria mais de cultura, e sim de ideologia.
O filósofo e matemático Francis Bacon (1561-1626) defendia que além de uma observação
rigorosa e a necessidade de comprovar algo através da experimentação, era necessário que os
cientistas se libertassem daquilo que ele chamou de ídolos, isto é, falsas noções que poderiam ser
da própria limitação da natureza humana, dos sentidos, da linguagem e das próprias concepções
filosóficas ou científicas cultivadas como verdades. Em resumo, os “ídolos” são falsas noções,
ideias erradas e irracionais.
A primeira vez que de fato a palavra ideologia foi empregada foi em 1801, quando o pensador
francês Destutt de Tracy a empregou como o estudo das ideias, procurando explicar
fenômenos que interfeririam na formação das ideias como vontade, razão, percepção e
memória.
O filósofo alemão Karl Marx vai dizer que a ideologia era um sistema elaborado de
representações e de ideias que correspondem a formas de consciência que os homens têm em
determinada época. A classe dominante não dominaria somente a vida material, mas também a
vida intelectual. Para ele, ideologia é a inversão da realidade, um falseamento da realidade.
Outro autor de destaque que irá discutir sobre ideologia é Karl Mannheim (1893-1947). Para
ele, ideologia poderia ser conceituada de duas formas: particular e total. A primeira corresponde
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à ocultação da realidade, incluindo mentiras conscientes e ocultamentos subconscientes,
que provoca enganos. Já a ideologia total é a visão de mundo de uma determinada classe,
que reproduziria suas ideias.
No nosso dia a dia exprimimos várias ideias, ações e comportamentos ideológicos. A partir
da concepção de ideologia de Karl Marx e de Karl Mannheim, a sociedade capitalista é
entendida sob a lógica do Mercado, que produz maneiras específicas de pensar, sentir e agir
no mundo. Essa lógica pretende ser universal e identifica a realidade social com o que as
classes dominantes pensam, ocultando assim contradições existentes e silenciando outras
formas de representações.
Você pode estar pensando: “onde começa a cultura e onde termina a ideologia ou vice-
versa?” Para muitos autores esses dois conceitos precisam ser analisados
conjuntamente, principalmente para entender o processo de dominação nas sociedades
capitalistas.
O autor marxista italiano, Antônio Gramsci (1891-1937), analisa a cultura e a ideologia por
meio do conceito de hegemonia e dos aparelhos de hegemonia. Hegemonia significa
preponderância, supremacia, ou seja, como determinada classe dominante consegue fazer com o
que seu projeto seja aceito pelos dominados, desarticulando a visão de mundo autônoma de cada
grupo potencialmente adversário. Isso, para ele, é feito através dos aparelhos de hegemonia, que
são práticas intelectuais e organização no interior do Estado e na Sociedade Civil como o sistema
educativo, o processo de comunicação, as artes, etc. Portanto, exercem convencimento e não
somente coerção.
Para Gramsci, somente a coerção não consegue fazer com que uma classe seja dominante.
A classe dominante precisa persuadir e convencer por meio de intelectuais a serviço do poder, das
instituições sociais e da comunicação (jornais, revistas, televisão, cinema, internet) a maioria das
pessoas, inclusive as classes dominadas. Por este processo, cria-se uma visão que seria comum
a todos, uma única possível visão.
Outro pensador que analisou o processo de dominação é Pierre Bourdieu. Ele desenvolveu
o conceito de violência simbólica. Com este conceito ele pretendeu identificar formas culturais
que impõem e fazem com que as pessoas aceitem como normal, natural, algo que é uma
construção histórica e social. Violência simbólica é um processo interiorizado de forma
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inconsciente pelos indivíduos através de suas socializações, portanto afeta dominantes e
dominados.
Ainda, para Bourdieu, é pela cultura que os dominantes garantem o controle ideológico,
desenvolvendo uma prática, cujo objetivo é manter a distinção social entre as classes.
Determinados gostos marcariam quem é de uma determinada classe ou de outra. Os gostos da
elite econômica e cultural como apreciar bons vinhos, saborear uma comida refinada (gourmet),
usar determinadas marcas de roupa, praticar esportes como golfe ou tênis, ler livros clássicos e
escutar músicas eruditas, etc. seriam valores superiores, de pessoas cultas, que os distinguem
dos demais. Ou seja, esses valores considerados melhores nada mais é do que uma imposição
cultural (violência simbólica), que definiria quem tem ou não cultura, o que é legítimo ou não.
Essas classificações são aceitas e naturalizadas pela maioria das pessoas.
Por fim, destacamos o conceito de Indústria Cultural, dos pensadores Theodor Adorno
(1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973), da Escola de Frankfurt. Por meio desse conceito, eles
explicaram a exploração comercial e a vulgarização da cultura, como efeito da dominação
ideológica no sistema capitalista.
A Indústria Cultural vende ao público produtos para agradá-lo, e não para informar ou
fazer pensar. Dessa forma, as produções culturais proporcionam uma fuga da realidade, para fazer
com que os indivíduos continuem aceitando “naturalmente” a exploração do sistema capitalista.
Essa ideia de que a Indústria Cultural estaria destruindo a capacidade crítica foi pensada por
Walter Benjamin, companheiro de Adorno e Horkheimer na Escola de Frankfurt. Para ele, a
indústria cultural poderia levar a arte e a cultura a um número maior de pessoas, devido à
reprodução em larga escala, portanto, elas não ficariam mais restritas a determinadas
classes.
Podemos também fazer um exercício de reflexão filosófica de que tanto a cultura como a
ideologia podem moldar a nossa forma de agir, pensar e sentir o mundo, no entanto, isso não se
dá de forma avassaladora e mecânica (automática), porque há a subjetividade do indivíduo e
também sua reflexão crítica. Claro, muitas pessoas são influenciadas pelas formas manipuladoras
dos meios de comunicação e tendem a reproduzir o senso comum, contudo, existem pessoas que
filtram e reelaboram a informação e se posicionam de maneira crítica.
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Uma das formas de “contra-hegemonia” à produção da indústria cultural, utilizando um
conceito que acabamos de ver do pensador Gramsci, são as formas alternativas de
informação (blog, canais no YouTube, sites), além de intelectuais que buscam refletir
criticamente as produções cinematográficas e televisivas.
Aluno: Avner Pinheiro. Concurso: TJTO. Ano: 2022. Banca FGV. Nota máxima.
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5. ÉTICA
Certamente, nas mais diversas situações da vida você já se pegou pensando: “como devo
agir nesta questão?” ou “procedi de maneira correta com aquela pessoa?” Ao escolher ou tomar
uma decisão acerca de alguma coisa podemos nos deparar com as noções de bem, mal, justo,
correto, errado, ético. Quando isso ocorre estamos diante de um julgamento moral a partir do qual
vamos orientar nossa ação ou a avaliação de ações de outras pessoas.
Quando se faz um julgamento moral, o ser humano está expressando valores sob
determinados códigos morais. Isso quer dizer que as nossas ações são hierarquizadas conforme
os valores de bem, mal, justo, injusto, certo, errado em determinado momento histórico. Nesse
sentido, o ser humano é também um ser moral, que avalia sua própria conduta e a de outras
pessoas a partir de valores morais.
Ética é a disciplina filosófica que investiga a moral, os diversos sistemas morais elaborados
pelos seres humanos buscando compreender a fundamentação das normas que orientam o
comportamento humano. Em resumo, ética é uma disciplina que trata da prática humana, de seu
comportamento moral.
Diferente da norma jurídica, a norma moral é composta a partir de valores da pessoa ou de
seu grupo social. A norma jurídica vem acompanhada de uma punição legal estabelecida pelo
Estado em caso de desobediência. A coercibilidade da norma moral depende da aceitação de cada
indivíduo ou grupo social para ser cumprida, isto é, não está vinculada ao Estado.
Alguns pensadores por entenderem que a norma moral depende da escolha de cada um,
costuma associá-la à ideia de liberdade. Se o homem tem consciência moral, isto é, observa e julga
a sua própria conduta e a de outros, formulando juízos sobre atos passados, presentes e futuros,
tem condições de escolher suas ações, por isso, se fala em liberdade.
Nessa perspectiva, consciência moral e liberdade andam juntas. Só se pode julgar
moralmente uma conduta se a ação foi praticada em liberdade, portanto, se em determinada
situação o indivíduo não tem escolhas, sendo coagido a tomar determinada decisão, é impossível
decidir entre o bem e o mal. Por exemplo, um pai que tem o filho sequestrado não pode ser julgado
se ele segue as ordens do sequestrador. Contudo, se tomamos uma decisão livremente para
escolher esta ou aquela ação, somos responsáveis pelo que praticamos e podemos ser
julgados moralmente.
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Responsabilidade pelo ato é entendida como estar em condições de responder pela escolha
feita, ou seja, de justificar e assumir o que foi feito.
Uma problemática que se coloca nesta relação entre consciência moral e liberdade de
escolha, é se de fato os indivíduos são livres para decidir. Vamos ver algumas abordagens:
Determinismo Nessa perspectiva, não existe
liberdade. O ser humano é sempre
determinado pela sua natureza
biológica (instinto e necessidades),
bem como por sua natureza social
(leis, normas, costumes). As ações
individuais estão condicionadas por
fatores naturais e constrangimentos
sociais.
Liberdade Essa interpretação defende que os
indivíduos são sempre livres. Mesmo
existindo determinações de ordem
externa, a liberdade moral está acima
dessas determinações. Portanto, há
sempre uma possibilidade de escolha.
Entre o determinismo e a liberdade Nessa perspectiva, o ser humano é
determinado e livre ao mesmo tempo.
Assim, não haveria uma liberdade
absoluta, tampouco um determinismo
absoluto.
Podemos recordar que é no período socrático, no qual a pólis e o espaço da ágora estão
desenvolvidos é que surgem as reflexões filosóficas preocupadas com as questões do ser, isto é,
questões morais, políticas e sociais.
Vale lembrar o diálogo crítico de Sócrates com os sofistas. Estes afirmavam que não existiam
normas e verdades universalmente válidas. Dessa forma, a concepção de ética dos sofistas era
relativa. Já Sócrates, criticava os sofistas por não buscarem o conhecimento verdadeiro e defendia
que existia um saber universalmente válido, que decorre da essência humana. Através da razão se
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poderia fundamentar normas e costumes morais válidos para todos. Assim, a ética racionalista de
Sócrates apregoa que o indivíduo ao agir de forma racional está agindo corretamente.
Seu discípulo Platão aprofunda o racionalismo ético. Sabemos que ele não confiava nos
sentidos e o que o mundo sensível é o mundo das aparências. Para depurar o mundo material e
atingir o mundo inteligível, que é o mundo das ideias, é preciso utilizar o intelecto. Ao fazer isso se
alcança a ideia do bem, que é sinônimo de felicidade. Essa busca não se dá sozinho, mas na pólis,
na sociedade. Por isso, nessa concepção, a felicidade individual está associada à felicidade
coletiva. Em resumo, o indivíduo ético para Platão é o bom cidadão.
Eu, particularmente, acho que a concepção de ética de Aristóteles é muito boa para
fundamentar argumentos e usar, inclusive, como contraponto a outros tipos de
concepções. Vejamos.
Diferente do dualismo corpo e alma, mundo sensível e mundo das ideias, Aristóteles procurou
desenvolver uma ética mais prática, também fundamentada na razão. Podemos lembrar que para
ele o fim último das ações humanas é a maior virtude de todas: a felicidade. Esta se encontra na
razão, no exercício intelectual, na vida contemplativa, mas também na prática. Assim, o indivíduo
aprende a agir corretamente (praticar virtudes) à medida que pratica constantemente as ações
gerando o hábito.
É válido recordar que para Aristóteles virtude é um meio termo, um equilíbrio entre aquilo que
falta e aquilo que há de excesso. Por exemplo, a coragem é o meio-termo entre a covardia
(ausência) e a valentia (excesso).
Por fim, a ética de Aristotélica se aproxima da ética de Platão, uma vez que está vinculada a
pólis, a vida política dos cidadãos.
Diferente da ética grega, a ética medieval (cristã) abandonou a visão mundana de que a
felicidade ou o fim último das ações humanas estariam neste mundo, portanto, a perfeição moral
está no amor de Deus. Ademais, a moral cristã é uma relação do indivíduo com Deus perpassando
pela mediação institucional da Igreja Católica.
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(agindo bem e aceitando suas verdades). Dessa forma, Agostinho esvazia o conceito de liberdade
grega, que defendia a realização plena dos indivíduos em sua sociedade.
Você que é um aluno astuto vai lembrar que o Renascimento (XVI) coloca o homem
novamente no centro das questões filosóficas, orientando uma concepção moral centrada na
autonomia humana.
Isso vai ficar mais forte com o Iluminismo (XVIII), já que os filósofos dessa corrente
defendiam que a moral deveria ser desvinculada dos valores religiosos, e sim vinculada àqueles
valores oriundos da compreensão do que é a natureza humana.
As normas morais devem ser obedecidas como deveres e isto se confunde com a ideia de
liberdade, já que ao obedecer uma norma moral o indivíduo atende a liberdade da razão, a qual
estabeleceu aquilo que é correto.
A ética entendida como dever é uma concepção boa para usar em redação. Kant pensa
que a ética como dever faz com que o indivíduo procure respeitar e ter boa convivência
com outros indivíduos.
Kant denominou de imperativo categórico a ação que deve ser universalizada (realizada por
todos sem prejuízo para a humanidade). Portanto, aquelas ações que não podem ser
universalizadas não serão moralmente corretas, podendo em algumas situações ocorrer como
exceção, e não como regra. Para ele, também, se faz necessário educar a vontade para alcançar
a boa vontade guiada pela razão, já que as inclinações (desejos, paixões, medos) podem afetar a
nossa vontade em escolher determinada ação.
Em resumo, Kant defende o dever como norma universal (aplicável a todos), cujo o imperativo
categórico estabelece a ação moralmente correta. A ética como dever leva ao respeito e a boa
convivência entre as pessoas.
O filósofo Hegel era um crítico de Kant. Não concordava com o formalismo da ética kantiana,
pois para ele essa concepção não levava em consideração a história e a relação do ser humano
com a sociedade, isto é, a ética kantiana não percebia os conflitos reais existentes nas decisões
morais.
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Para Kant, a moral é uma questão pessoal, íntima, na qual o indivíduo deve se decidir entre
suas inclinações e sua razão. Diferente dessa visão, Hegel vai apontar que a moral se apresenta
de forma distinta nas sociedades e a vontade individual seria apenas um elemento da vida ética.
Portanto, para Hegel ética é a relação entre o ser humano e o conjunto social. Assim, a moral se
manifesta nos códigos normativos, na cultura, nas instituições sociais, ou seja, a ética está
relacionada ao processo histórico e à sociedade.
Outro filósofo contemporâneo que irá pensar sobre ética é Marx. Em sua perspectiva, a moral
é uma forma de consciência própria a cada momento do desenvolvimento da existência social,
portanto, assim como Hegel, Marx percebe a ética como construção histórica e social. Para ele, os
valores morais derivam da existência social e não são universais para todos os indivíduos e para
todos os tempos. Como são valores que são gerados na existência social, isto é, nas relações em
que os indivíduos estabelecem entre si numa determinada sociedade, chega à conclusão de que
as normas morais são frutos da classe dominante.
A moral em Marx assume aspecto ideológico, pois difunde a forma de pensar, sentir e agir
na sociedade conforme os valores dominantes e necessários à manutenção da sociedade.
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