EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DESEMBARGADOR(A) PRESIDENTE DO
EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE ALAGOAS.
JOSÉ LEANDRO GALVÃO DOS SANTOS, brasileiro, casado, inscrito na
OAB/AL 18356A, com endereço profissional situado no rodapé, onde recebe avisos e
intimações em geral, vem, respeitosamente à presença de Vossa Excelência, com fundamento
no art. 5º, inciso LXVIII, da CF/88, art. 647 do CPP e art. 23 da Lei 8.038/90, impetrar a presente
ordem de
ORDEM DE HABEAS CORPUS COM PEDIDO LIMINAR
GUSTAVO RAIMUNDO DE SOUZA, brasileiro, solteiro, inscrito no RG nº 32127014,
portador do CPF 405.246.598-93, residente e domiciliado na Rua Branquinha, nº 472, Planalto,
CEP 57300-000, Arapiraca/AL, vazado nos seguintes motivos de fato e razões de direito.
Inicialmente, aponta como autoridade coatora a 17ª Vara Criminal da Capital nos
autos de nº 0716893-20.2025.8.02.0001.
I. DA SÍNTESE DOS FATOS.
O paciente, GUSTAVO RAIMUNDO DE SOUZA, é alvo de inquérito policial
instaurado no âmbito da Polícia Federal, com o objetivo de apurar a suposta prática dos crimes
de lavagem de dinheiro (Lei 9.613/98), tráfico de drogas (Lei 11.343/06), uso de documento
falso (art. 304 do CP) e organização criminosa (Lei 12.850/13), SUPOSTAMENTE FUNDADO
EM 24 COMUNICAÇÕES DE OPERAÇÕES FINANCEIRAS ATÍPICAS ATRIBUÍDAS AO
COAF (RIF 105684).
Vejamos:
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Ainda:
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Segundo a autoridade policial, referidas comunicações indicariam
movimentações relacionadas ao tráfico de drogas e serviram de fundamento exclusivo para a
deflagração da investigação, bem como para o deferimento de prisão temporária e mandados
de busca e apreensão.
ENTRETANTO, O RELATÓRIO EM QUE SUSTENTA TODA A
INVESTIGAÇÃO É INEXISTENTE!!!
Excelência, nenhum relatório do COAF foi juntado aos autos. A inexistência
absoluta desse documento desnatura por completo a base fática da investigação, tornando-
a nula em sua origem.
Foi deferido medidas cautelares pela autoridade coatora e, durante o
cumprimento dos mandados de busca e apreensão, sequer foi encontrado qualquer
entorpecente, arma, valor expressivo em espécie ou outro elemento típico do tráfico ou de
atividade criminosa organizada.
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Ainda assim, celulares e dispositivos eletrônicos foram apreendidos, os quais
vêm sendo analisados com base em autorização judicial contaminada por nulidade absoluta.
Ademais, consta que o paciente já foi processado e definitivamente condenado
por uso de documento falso em 2024, estando agora sendo novamente investigado pelos
mesmos fatos, configurando bis in idem.
De forma ainda mais grave, embora se afirme a existência de 24 notificações
financeiras, o pedido de prisão menciona um suposto envolvimento de 60 pessoas, sem
qualquer documento que comprove tal ampliação, o que evidencia distorção intencional da
narrativa fática para justificar medidas excepcionais e indevidas.
Vejamos:
II. DOS FUNDAMENTOS PARA A CONCESSÃO DA ORDEM.
II.I. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA E NULIDADE ESTRUTURAL DA INVESTIGAÇÃO.
A base da investigação é inexistente: o relatório do COAF jamais foi juntado!
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A presente investigação criminal padece de nulidade originária insanável,
decorrente da inexistência de justa causa — requisito elementar para a validade de qualquer
persecução penal, mesmo na fase inquisitorial.
No caso em análise, a única alegada base fática da apuração é a suposta existência
de relatórios do COAF, os quais, frisa-se, jamais foram acostados aos autos, tampouco se
demonstrou sua origem ou autenticidade.
Ora, o relatório de inteligência financeira (RIF 105684) do COAF, por disposição
da própria Lei nº 9.613/98, constitui documento formal e específico, apto a subsidiar medidas
investigativas quando regularmente expedido.
No entanto, não se pode presumir sua existência a partir de meras alegações
genéricas da autoridade policial — o que, por si só, configura violação ao princípio da
legalidade e ao devido processo legal substantivo e formal.
STF – HC 126.187/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes: “É possível o
trancamento de inquérito policial por habeas corpus quando ausente a
justa causa ou demonstrada a inexistência fática do fundamento da
persecução penal.”
A noção de justa causa não pode ser esvaziada em um Estado de Direito!!!
Trata-se de condição de procedibilidade constitucional da persecução penal,
exigindo-se fundamento concreto, objetivo e legalmente aferível para que qualquer cidadão
seja submetido à investigação criminal.
Sem o relatório do COAF — ou qualquer outro elemento preliminar que o
substitua —, toda a cadeia investigativa está comprometida.
A ALEGAÇÃO GENÉRICA DE MOVIMENTAÇÕES FINANCEIRAS
ATÍPICAS, SEM LASTRO DOCUMENTAL, TÉCNICO OU JURÍDICO, NÃO PODE
SUSTENTAR SEQUER A INSTAURAÇÃO FORMAL DE UM INQUÉRITO, MUITO
MENOS JUSTIFICAR MEDIDAS DE ALTA CARGA LESIVA, COMO PRISÕES
TEMPORÁRIAS E BUSCAS E APREENSÕES.
Não se pode admitir que o Estado, sem produzir qualquer documento mínimo
de idoneidade, lance mão da investigação penal como instrumento de prospecção, invertendo
a lógica do sistema acusatório e ofendendo a dignidade da pessoa humana — alicerce do
ordenamento jurídico nacional (art. 1º, III, da CF).
Nesse sentido, vale ressaltar o recente julgado do TJ/AL, em caso semelhante:
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TJ/AL – HC 0802131-04.2023.8.02.0000, Rel. Des. Orlando Rocha Filho,
DJe 04/09/2023: “A simples alegação de movimentação financeira
atípica não supre a ausência de elementos informativos mínimos para
justificar o início da investigação criminal. A atuação da autoridade
policial, mesmo na fase inquisitorial, deve observar os princípios da
legalidade e da razoabilidade.” (G. N.)
A persistência da investigação, nestes moldes, traduz manifesto constrangimento
ilegal (art. 648, I, do CPP), impondo-se o trancamento do inquérito como única medida
juridicamente adequada à proteção das garantias constitucionais violadas.
Sem o relatório, toda a estrutura probatória desmorona, tornando a investigação
arbitrária e ofensiva ao princípio do devido processo legal.
[Link]. PROVA ILÍCITA POR DERIVAÇÃO – TEORIA DA ÁRVORE DOS FRUTOS
ENVENENADOS
A autorização judicial para busca e apreensão – assim como os pedidos de prisão
– está lastreada em elemento inexistente (relatório do COAF).
A presente investigação encontra-se profundamente viciada, não apenas pela
ausência de justa causa formal, mas também pela contaminação de todos os elementos
probatórios subsequentes, à luz da consagrada teoria da árvore dos frutos envenenados (“fruits
of the poisonous tree”), incorporada expressamente ao ordenamento jurídico brasileiro pelo art.
157, §1º, do Código de Processo Penal:
Art. 157, §1º, CPP: “São inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas,
salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e
outras, ou quando puderem ser obtidas por uma fonte independente das
primeiras.”
Conforme já demonstrado, não há nos autos qualquer relatório do COAF, embora
tal documento tenha servido de fundamento único e exclusivo para a autorização judicial das
buscas, apreensões e da prisão temporária do paciente.
Essa situação revela-se gravíssima: a autoridade policial induziu o juízo à
decretação de medidas invasivas com base em um fato inexistente — o que compromete a
validade da decisão judicial e contamina de maneira irreversível todos os atos dela
decorrentes.
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A doutrina e a jurisprudência são pacíficas no sentido de que a validade da prova
judicialmente autorizada depende da licitude e veracidade do substrato probatório que a
fundamenta.
Se a decisão judicial que autoriza a produção da prova está fundada em um dado
inexistente ou falso, a própria prova é inválida, bem como todas as que dela derivarem.
Vejamos entendimento do STJ, in verbis:
STJ – HC 667.381/SP, Rel. Min. Rogério Schietti: “A decretação de
medida cautelar com base em elemento inexistente ou inverídico
compromete a legalidade de toda a cadeia probatória.” (G. N.)
No mesmo sentido, o Supremo Tribunal Federal já afirmou:
STF – HC 93.050/SP, Rel. Min. Cezar Peluso: “Toda prova que tenha
por origem uma ilicitude inicial deve ser considerada contaminada,
salvo demonstração inequívoca de que seria obtida por outra via
legítima.” (G. N.)
Assim, os dados extraídos de celulares, mídias ou quaisquer bens apreendidos
na residência do paciente, ou de terceiros, não podem ser considerados como prova lícita. Sua
origem é nula, porque deriva de autorização judicial fundada em fato juridicamente
inexistente, ferindo os princípios da legalidade, da proporcionalidade e da moralidade
processual.
Não se trata aqui de mera irregularidade sanável, mas sim de nulidade absoluta,
atingindo a espinha dorsal da investigação. Toda a cadeia probatória foi envenenada desde o
seu nascedouro, o que impede o uso de qualquer elemento colhido a partir da decisão judicial
viciada.
Admitir o aproveitamento dessas provas significaria convalidar um ciclo de
abusos processuais e desconstituir a função de controle jurisdicional sobre a atividade
investigativa do Estado, abrindo perigoso precedente para futuras atuações arbitrárias.
[Link]. DA LEGALIDADE E DOS LIMITES PARA OBTENÇÃO DE DADOS DO COAF
PELA AUTORIDADE POLICIAL.
A obtenção de dados financeiros protegidos por sigilo — inclusive aqueles
oriundos de comunicações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) — não
se reveste de legalidade irrestrita.
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Pelo contrário, encontra-se submetida a balizas constitucionais rigorosas,
especialmente os princípios da legalidade, da motivação, da proporcionalidade e da reserva
de jurisdição.
O compartilhamento de informações entre o COAF e os órgãos de persecução
penal pode ocorrer de duas formas:
COMUNICAÇÃO ESPONTÂNEA PELO COAF (RIF AUTÔNOMA):
O art. 11, §2º, da Lei nº 9.613/1998 (Lei de Lavagem de Dinheiro) prevê que as
entidades sujeitas ao controle do COAF devem comunicar operações atípicas, e o COAF, por
sua vez, pode encaminhar Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) aos órgãos de persecução
penal de forma espontânea, quando identificar indícios de ilícitos penais.
Esse encaminhamento não depende de autorização judicial prévia, pois constitui
um mecanismo de prevenção e repressão administrativa, fundado no dever legal das
instituições financeiras de colaborar com o Estado.
Contudo, a mera recepção de um RIF não autoriza, por si só, a deflagração de
medidas invasivas como prisões, interceptações telefônicas ou buscas e apreensões.
Para tanto, é indispensável que a autoridade demonstre elementos indiciários
mínimos de materialidade e autoria, que tornem a investigação juridicamente viável.
REQUISIÇÃO DA AUTORIDADE POLICIAL OU DO MINISTÉRIO PÚBLICO:
A outra hipótese de obtenção de dados do COAF é quando a autoridade policial
ou o Ministério Público requisitam expressamente informações adicionais ao órgão de
inteligência financeira.
Nessa situação, o próprio Supremo Tribunal Federal assentou que não há
violação ao sigilo bancário quando há simples compartilhamento de dados já processados pelo
COAF, sem acesso direto a extratos ou movimentações específicas (RE 1055941, com
repercussão geral, Tema 990).
Contudo, a requisição deve estar fundada em motivação concreta, e não pode
servir como manobra inquisitiva genérica, tampouco substituir o juízo de legalidade que
compete ao Poder Judiciário.
O compartilhamento deve ser requisitado apenas quando houver indícios
objetivos de irregularidade.
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O pedido da autoridade deve ser circunstanciado, tecnicamente justificado e
vinculado a elementos já constantes do inquérito ou procedimento investigativo, sob pena de
nulidade das provas que dele se originarem.
Vejamos jurisprudências relevantes:
STF – RE 1055941, Rel. Min. Dias Toffoli (Tema 990 da Repercussão
Geral): “É constitucional o compartilhamento de dados bancários e
fiscais pela Receita Federal e pelo COAF com o Ministério Público para
fins penais, desde que respeitados os limites legais e a finalidade estrita
da persecução penal.”
STJ – RHC 158.580/SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª Turma, DJe
10/05/2022: “A comunicação de operação suspeita pelo COAF constitui
mero indício, devendo a autoridade policial, antes de deflagrar
medidas invasivas, produzir justificativa mínima e idônea capaz de
demonstrar a existência de elementos que autorizem a investigação.”
(G. N.)
TJ/AL – HC 0802131-04.2023.8.02.0000, Rel. Des. Orlando Rocha Filho,
DJe 04/09/2023: “A simples alegação de movimentação financeira
atípica não supre a ausência de elementos informativos mínimos para
justificar o início da investigação criminal.” (G. N.)
Portanto, não basta alegar que o COAF “informou” movimentações suspeitas
para instaurar uma investigação criminal ou requerer medidas cautelares invasivas.
É necessário que haja prova concreta da existência do relatório, que ele
efetivamente tenha sido encaminhado nos termos legais, e que a autoridade investigativa
demonstre a existência de outros elementos mínimos e idôneos a justificar o início da
persecução penal.
A ausência dessas premissas torna a investigação ilegal desde sua origem e vicia
por derivação todos os atos dela decorrentes, impondo o reconhecimento da nulidade
estrutural do inquérito.
[Link]. REVOGAÇÃO DA PRISÃO TEMPORÁRIA – AUSÊNCIA DE REQUISITOS
LEGAIS.
A prisão temporária do paciente foi decretada sob o argumento genérico de que
sua custódia seria imprescindível às investigações.
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Contudo, tal justificativa não encontra respaldo fático, jurídico ou probatório nos
autos, revelando uma medida desproporcional, desnecessária e claramente dissociada da
realidade processual.
A decretação da prisão temporária encontra fundamento no art. 1º, I, da Lei nº
7.960/89, que exige, de forma cumulativa:
A existência de indícios razoáveis de autoria e materialidade;
A tipificação do crime entre aqueles taxativamente previstos no art. 1º, III da referida
lei;
E, sobretudo, que a prisão seja imprescindível para as investigações.
No caso dos autos, o suposto crime investigado remonta ao ano de 2021 — ou
seja, há mais de três anos da decretação da medida cautelar.
Não há, portanto, qualquer indício de contemporaneidade entre a prática dos
fatos e a imposição da restrição de liberdade, o que esvazia por completo o fundamento de
urgência e necessidade da segregação cautelar.
A jurisprudência das Cortes Superiores tem reiteradamente assentado que a
prisão temporária não pode ser utilizada como instrumento automático de investigação,
tampouco como forma de punição antecipada.
É medida de natureza excepcional, que exige demonstração concreta de que, sem
a segregação, as diligências investigativas restariam inviabilizadas.
STF – HC 194.028/SP, Rel. Min. Cármen Lúcia: “A prisão temporária
deve observar os critérios da contemporaneidade e da
indispensabilidade à investigação, sob pena de se converter em
antecipação de pena.” (G. N.)
STJ – HC 452.136/SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior: “A medida
extrema não se justifica quando não evidenciada a atualidade do risco
investigativo.”
Ora, no caso em tela, não foram apreendidos entorpecentes, armas, valores
suspeitos ou qualquer objeto típico de atividade criminosa durante as buscas realizadas.
Tampouco se aponta, de forma fundamentada, que o paciente estaria
interferindo na colheita de provas, intimidando testemunhas ou ocultando documentos.
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Mais ainda: não há diligência pendente cuja execução dependa da custódia do
paciente. A investigação encontra-se avançada, com diligências já cumpridas, sendo descabida
a manutenção da prisão sob pretexto de assegurar medidas investigativas que, em verdade, já
se exauriram ou são absolutamente independentes da sua presença física.
Assim, a segregação cautelar mostra-se despida de atualidade, necessidade e
razoabilidade, sendo convertida em instrumento ilegítimo de coerção estatal. Sua manutenção
representa grave violação aos princípios constitucionais da presunção de inocência, da
dignidade da pessoa humana e da proporcionalidade das medidas restritivas de liberdade.
Nesse contexto, a prisão temporária se configura em verdadeiro constrangimento
ilegal, nos termos do art. 648, I, do Código de Processo Penal, impondo-se sua revogação
imediata, com reintegração da liberdade plena do paciente.
II.V. VIOLAÇÃO AO PRINCÍPIO DO NE BIS IN IDEM.
O paciente GUSTAVO RAIMUNDO DE SOUZA já foi anteriormente processado,
julgado e condenado pelo crime de uso de documento falso (art. 304 do Código Penal), com
trânsito em julgado.
Todavia, a atual investigação retoma exatamente os mesmos fatos e condutas,
com identidade de sujeito ativo, conduta típica e objeto material, caracterizando hipótese
cristalina de bis in idem material, vedado expressamente pelo ordenamento jurídico pátrio e
internacional.
O princípio do ne bis in idem, em sua essência, impõe a proibição de que uma
mesma pessoa seja processada ou punida mais de uma vez pelos mesmos fatos. Trata-se de
garantia fundamental do devido processo legal, do respeito à coisa julgada e à segurança
jurídica, cujos pilares estão fincados:
No art. 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal, que consagra a intangibilidade da
coisa julgada;
No art. 8º, item 4, do Pacto de San José da Costa Rica (Convenção Americana de Direitos
Humanos), tratado com status de norma supralegal, que estabelece: “O acusado
absolvido por sentença passada em julgado não poderá ser submetido a novo
processo pelos mesmos fatos.”
Na hipótese concreta, a nova persecução penal proposta contra o paciente não
apresenta qualquer fato novo, conduta diversa ou elemento de individualização que justifique
a instauração de novo inquérito.
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A reabertura da investigação, portanto, não atende ao requisito de autonomia
fática, tampouco à exigência de distinção jurídica material entre os objetos das ações penais.
A jurisprudência dos tribunais superiores é pacífica no sentido de que a repetição
de persecução penal fundada nos mesmos elementos probatórios e fáticos anteriormente
julgados configura constrangimento ilegal, passível de correção pela via do habeas corpus:
STF – HC 81.611/SP, Rel. Min. Sepúlveda Pertence: “O princípio do ne
bis in idem veda a repetição de persecução criminal pelos mesmos fatos
já apreciados em sentença com trânsito em julgado.”
STJ – HC 306.664/SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro: “A reiteração de ação
penal pelos mesmos fatos configura bis in idem e deve ser repelida
com o trancamento do feito.” (G. N.)
Admitir que o Estado possa reativar investigações sobre fatos já julgados é
permitir que a atividade persecutória se perpetue indefinidamente, em prejuízo à segurança
jurídica do cidadão, corroendo o núcleo do Estado Democrático de Direito.
A coisa julgada penal, neste contexto, não é um obstáculo técnico, mas uma
cláusula de contenção do poder punitivo.
A presente reiteração investigativa, portanto, não apenas é juridicamente
ilegítima, mas representa verdadeiro abuso da função investigatória do Estado, cuja atuação
deve ser contida pelo remédio constitucional do habeas corpus, em razão do flagrante
constrangimento ilegal ao direito de não ser submetido a nova perseguição penal pelos
mesmos fatos.
[Link]. DA MEDIDA LIMINAR – FUNDAMENTAÇÃO, URGÊNCIA E PLEITO DE TUTELA
PROVISÓRIA.
A concessão de medida liminar em sede de habeas corpus é medida
excepcionalmente autorizada nos casos em que o constrangimento ilegal for manifesto e os
danos irreversíveis à liberdade individual se mostrarem iminentes, conforme reiterada
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça.
No presente caso, é patente o estado de flagrante ilegalidade da persecução penal
instaurada contra o paciente, que se materializa pela ausência de justa causa, pela inexistência
do relatório COAF alegadamente utilizado para deflagrar medidas cautelares e pela
manutenção indevida da prisão temporária.
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Importante destacar que toda a investigação foi estruturada com base na suposta
existência do Relatório COAF nº 105684, o qual, até o presente momento, não foi juntado aos
autos.
Trata-se de documento essencial, não apenas como suporte da narrativa
acusatória, mas como condição de validade das medidas autorizadas pelo juízo.
Enquanto o conteúdo desse relatório permanecer oculto ou sequer for
confirmado como existente, subsiste vício insanável na origem da investigação, sendo
temerário permitir o prosseguimento de atos investigativos ou a produção de provas derivadas
de elemento inexistente.
Da mesma forma, a prisão temporária do paciente se mantém em vigor sem a
devida comprovação da contemporaneidade dos fatos e da indispensabilidade da medida,
conforme exige o art. 1º, I, da Lei nº 7.960/89. Tal medida não se sustenta diante de uma
investigação fundada em bases frágeis e formalmente viciadas, especialmente considerando
que:
OS FATOS INVESTIGADOS DATAM DE 2021, SEM QUALQUER RISCO ATUAL
À INSTRUÇÃO;
NENHUMA PROVA MATERIAL FOI ARRECADADA DURANTE AS
DILIGÊNCIAS;
O PACIENTE NÃO REPRESENTA RISCO À ORDEM PÚBLICA OU À COLHEITA
DE PROVAS.
Diante disso, impõe-se o deferimento de medida liminar, nos termos do art. 648,
I, do Código de Processo Penal, e conforme autorizado pelos Tribunais Superiores, para:
SUSPENDER IMEDIATAMENTE O CURSO DO INQUÉRITO POLICIAL, ATÉ
QUE A AUTORIDADE POLICIAL COMPROVE E JUNTE AOS AUTOS O
RELATÓRIO COAF Nº 105684, SOB PENA DE NULIDADE ABSOLUTA DOS ATOS
SUBSEQUENTES;
REVOGAR A PRISÃO TEMPORÁRIA DO PACIENTE, POR MANIFESTA
AUSÊNCIA DOS REQUISITOS LEGAIS, ESPECIALMENTE A FALTA DE
ATUALIDADE, NECESSIDADE E LEGALIDADE DA MEDIDA.
Vejamos entendimento consolidado:
STF – HC 143.641/SP, Rel. Min. Marco Aurélio: “A medida liminar em
habeas corpus justifica-se diante da presença de ilegalidade flagrante e
risco de perecimento de direito fundamental à liberdade.”
STJ – HC 682.746/SP, Rel. Min. Laurita Vaz: “A revogação de prisão
temporária é devida quando ausentes os requisitos legais, especialmente
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a demonstração concreta da sua imprescindibilidade para a
investigação.”
O fumus boni iuris resta configurado pela clara violação ao devido processo
legal e à legalidade da investigação; e o periculum in mora é evidente diante da privação
arbitrária da liberdade de um cidadão sem fundamento legal idôneo.
III. DOS PEDIDOS.
Diante de todo o exposto, requer-se:
a) Concessão de medida liminar, para:
1. Suspender de forma imediata o inquérito policial instaurado contra o paciente;
2. Proibir a extração, análise e utilização dos dados dos dispositivos apreendidos, em
razão da nulidade estrutural da investigação e da ilicitude derivada das provas;
3. Revogar, com urgência, a prisão temporária do paciente, diante da ausência dos
requisitos legais, da falta de contemporaneidade dos fatos (ocorridos em 2021) e da
desnecessidade da medida cautelar para a investigação.
b) Ao final, a concessão definitiva da ordem, com:
1. Trancamento do inquérito policial, por ausência de justa causa, ilicitude das provas e
constrangimento ilegal;
2. Desentranhamento de todas as provas derivadas das buscas e apreensões,
especialmente aquelas obtidas de aparelhos eletrônicos;
3. Reconhecimento do bis in idem, com arquivamento da parte da investigação que apura
novamente os fatos já julgados.
c) Requisição de informações, mediante a apresentação do oficio nº 105684 antecedente a
decretação das medidas cautelares em desfavor do paciente;
d) Que sejam requisitadas, no prazo legal, informações à autoridade policial e ao
Ministério Público Federal, na forma do art. 660 do CPP.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Arapiraca/AL, 20 de maio de 2025.
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José Leandro Galvão dos Santos
OAB/PE 48539
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