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Walter Benjamin, Gesammelte Schriften, IV-1, p. 300-302:1
A LUA
A luz que deságua da Lua não faz parte do palco da nossa existência diurna. O
ambiente que ela dubiamente ilumina parece pertencer a uma Terra paralela ou a uma
anti-Terra. Não é mais a Terra que a Lua segue como satélite; ao contrário, a Terra se
transforma em acólito da Lua. O seu amplo seio, cujo respiro era o tempo, não se mexe
mais; por fim a Criação retorna para casa e deve vestir mais uma vez o véu de viúva que
o dia lhe arrancara. O brilho pálido que se infiltrava em minha direção pela veneziana
fez-me entender isso. Meu sono caiu inquieto; a Lua o entrecortava com o seu ir e vir.
Quando ela se assentou no quarto e eu despertei, estava então desalojado, pois ele
parecia não querer abrigar em si ninguém mais além da Lua.
A primeira coisa que então reteve meu olhar foram as duas pias cor de creme do
lavabo. Jamais me ocorreu dar-lhes atenção durante o dia. À luz da Lua, porém, a faixa
azul que contornava a parte superior das pias era um acinte. Simulava um tecido
cingindo uma orla. E de fato — a borda das pias era dobrada como uma gola. Jarras
bojudas achavam-se no meio de ambas, feitas de igual porcelana e com o mesmo padrão
floral. Quando me levantava da cama, elas tiniam, e esse tinir se propagava pelo
revestimento de mármore do lavatório em pratos e tigelas, copos e garrafas. Mas,
embora eu ficasse feliz de captar algum sinal de vida do mundo noturno — mesmo que
fosse apenas um eco da minha própria vida —, ele não era nada confiável e, como falso
amigo, pretendia me iludir de surpresa. Assim era quando erguia a mão com a garrafa
para encher um copo. O borbulho dessa água, o ruído com o qual depunha primeiro a
garrafa e depois o copo — tudo soava ao meu ouvido como repetição. Pois todos os
lugares daquela Terra paralela, para a qual eu fora deslocado, pareciam já de pronto
ocupados pelo passado. Assim, cada som e instante vinha ao meu encontro como duplo
de si mesmo. E se suportasse isso por algum tempo, aproximava-me então da cama
cheio de medo de nela me encontrar já estirado.
A angústia só cedia de todo quando sentisse novamente o colchão nas minhas
costas. Então adormecia. O luar ausentava-se devagar do meu quarto. Com frequência
este já se achava no escuro quando eu despertasse uma segunda ou uma terceira vez. A
mão era a primeira a ter ânimo para emergir por sobre a trincheira do sono, na qual
encontrara abrigo diante do sonho. E como por vezes, após o fim do combate, alguém é
ainda surpreendido por uma mina não detonada, a mão permanecia de prontidão para
não sucumbir a um sonho atrasado. Quando então a lamparina, cintilando, nos acalmou,
a ela e a mim, veio à tona que do mundo nada mais restava que uma única pergunta
insistente. Pode ser que essa pergunta estivesse engastada nas dobras da cortina
pendurada à minha porta para abafar os ruídos. Pode ser que ela não passasse de um
1 Tradução de Marco Antonio Valentim.
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resíduo de muitas noites anteriores. Enfim, pode ser que ela fosse o outro lado do
estranhamento que a Lua havia disseminado em mim. A pergunta dizia: por que, afinal,
existe algo no mundo, por que existe o mundo? Com espanto impunha-se o fato de que
nada no mundo poderia me obrigar a pensá-lo. Não era nem um pouco óbvio que a
inexistência do mundo fosse mais duvidosa que a sua existência, a qual parecia piscar
para aquela. A Lua jogava facilmente com essa existência.2
A infância já tinha ficado quase para trás quando finalmente a Lua pareceu
disposta a fazer valer a sua prerrogativa sobre a Terra, até então reivindicada somente à
noite, em face diurna. Alta no horizonte, grande mas pálida, ela se postou no céu de um
sonho sobre as ruas de Berlim. Ainda estava claro. Meus familiares cercavam-me um
tanto estáticos, como em um daguerreótipo. Só minha irmã faltava. “Onde está Dora?”,
ouvi minha mãe gritar. A Lua, cheia no céu, de súbito começou a crescer com
velocidade. Chegando mais e mais perto, ela destroçou o planeta. A balaustrada da
varanda de ferro que ocupávamos acima da rua se desfez em pedaços, e os corpos que a
povoavam rapidamente se desintegraram por todos os lados. A cratera que a Lua abriu
ao chegar sugava tudo para dentro de si. Nada podia esperar atravessá-la intacto. “Se
agora existir sofrimento, não existe nenhum deus”, ouvi-me concluir e juntei o que
queria levar adiante comigo. Coloquei tudo num verso. Era a minha despedida. “Ó astro
e flor, alma e veste, amor e paixão, e tempo e eternidade!” Contudo, enquanto procurava
reter essas palavras, já tinha despertado. E só então o horror com que a Lua há pouco
me inundara se aninhou em mim para sempre, inconsolável. Pois esse despertar não
fixou, como outros, ao sonho a sua meta; antes, revelou-me que esta lhe escapara, e que
o reinado da Lua, que eu tinha vivido quando criança, fora apenas adiado para um outro
éon.
[Infância berlinense em 1900, c. 1933]
2 A “Versão de última mão” (1938) termina neste parágrafo, por sua vez, reformulado por abreviação e
com outro desfecho: “A angústia só cedia de todo quando sentisse novamente o colchão nas minhas
costas. Então adormecia. O luar ausentava-se devagar do meu quarto. Com frequência este já se achava
no escuro quando eu despertasse uma segunda ou uma terceira vez. A mão era a primeira a ter ânimo para
emergir por sobre a trincheira do sono, na qual encontrara abrigo diante do sonho. Quando então a
lamparina, cintilando, nos acalmou, a ela e a mim, veio à tona que do mundo nada mais restava que uma
única pergunta insistente. Ela dizia: por que, afinal, existe algo no mundo, por que existe o mundo? Com
espanto impunha-se o fato de que nada no mundo poderia me obrigar a pensá-lo. Não era nem um pouco
óbvio que a inexistência do mundo fosse mais duvidosa que a sua existência, a qual parecia piscar para
aquela. O mar e seus continentes levavam pouca vantagem diante da minha pia de lavabo, enquanto a Lua
ainda brilhava. Da minha própria presença nada mais restava que o sedimento do seu abandono”
(Gesammelte Schriften, VII-1, p. 427-428).