O suma qamaña e a Pacha mama como
fundamentos axiológicos do novo constitucionalismo
latino-americano
Luís Guilherme Nascimento de Araújo
Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ)
[Link]
Clovis Gorczevski
Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC)
[Link]
Canoas, v. 13, n. 1, 2025
Resumo: O novo constitucionalismo latino-americano (NCL), por
diferentes razões, consagrou-se como um movimento original e
inovador em termos de alcance democrático e incorporação de
Recebido: 12.09.2022 elementos regionais nos ordenamentos jurídicos que inaugurou. O
Aprovado: 29.08.2024 presente artigo aborda o princípio do suma qamaña ou sumak kawsay e
a forma de proteção aos direitos da natureza, Pacha Mama, nos textos
Publicado: 04.2025 da Constituição do Equador (2008), e da Bolívia (2009). A metodologia
utilizada foi dedutiva, pelo procedimento analítico e técnica de pesquisa
bibliográfica. Concluiu-se que, pela presença significativa do bem viver
e da forte proteção aos direitos da natureza ao longo desses textos
constitucionais, resta demonstrada uma mudança de perspectiva na
principiologia dos respectivos ordenamentos jurídicos.
Palavras-chave: América Latina; Bem viver; Constitucionalismo;
Princípios.
2 Luís Guilherme Nascimento de Araújo e Clovis Gorczevski
.
The suma qamaña and the Pacha Mama as axiological foundations of the new latin
american constitucionalism
Abstract: The new Latin American constitutionalism (NLAC), for different reasons, established itself as
an original and innovative movement in terms of democratic reach and incorporation of regional elements
in the legal systems that it inaugurated. This article discusses the principle of suma qamaña or sumak
kawsay and also the form of protection of the rights of nature, Pacha Mama, in the Constitution of Ecuador
(2008) and Bolivia (2009). The methodology used was deductive, through the analytical procedure and
bibliographic research technique. It was concluded that, due to the significant presence of these principles
in these constitutional texts, there is a change of perspective in the principles of the respective legal
systems.
Keywords: Latin America; Good living; Constitucionalism; Principles.
Introdução
Promulgadas em período historicamente recente, as Constituições do Equador (2008) e da Bolívia
(2009) simbolizam, no universo das experiências constitucionais da América Latina, a possibilidade de
identificação de um renovado momento social e jurídico. Compreende-se que, inobstante as diferenças
econômicas, sociais e culturais desses países, é possível estabelecer que as suas cartas constitucionais
detêm uma certa proximidade de sentidos, sobretudo no que toca à inclusão de cosmovisões de povos
originários nos seus textos e um redirecionamento no tratamento jurídico dado ao meio ambiente e aos
recursos naturais de modo geral.
Diante desse contexto, questiona-se, no presente artigo, como podem ser adequadamente
compreendidos dois dos principais traços distintivos do denominado Novo Constitucionalismo Latino-
Americano (NCL), quais sejam, o princípio do suma qamaña, ou sumak kawsay, e a previsão de direitos
da Pacha mama. Esses distintivos permitem particularizar este episódio histórico como um movimento
constitucional com bases que sobrelevam as realidades regionais. A partir disso, tem-se como objetivo
realizar uma análise dos dispositivos atinentes e identificar o seu papel no bojo das Constituições
equatoriana e boliviana.
Para desenvolver tal intento, o primeiro tópico deste trabalho trata dos fundamentos do NCL, com
fins de defini-lo como movimento constitucional regional e de destacar suas principais características.
Num segundo momento, realiza-se a tentativa de identificação do papel do suma qamaña e da Pacha
Mama nos textos da Constituição do Equador, de 2008, e da Bolívia, de 2009, no particular.
A metodologia empregada no desenvolvimento desta pesquisa teve abordagem dedutiva, pois
conduzida da abstrata identificação de características globais do movimento do objeto para uma
observação detida nos textos constitucionais equatoriano e boliviano. Optou-se pela técnica de pesquisa
bibliográfica, operacionalizada por meio do procedimento analítico, pois eminentemente calcado no
exercício interpretativo do referencial teórico selecionado.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
O suma qamaña e a Pacha mama como fundamentos axiológicos do novo constitucionalismo latino-americano 3
O fundamento democrático do novo constitucionalismo latino-americano
O Novo Constitucionalismo Latino-americano (NCL) é um movimento histórico que proporcionou
transformações em estruturas jurídico-normativas de alguns países da América Latina, principalmente a
partir das Constituições do Equador, de 2008, e da Bolívia, de 2009. Em razão de ser recente e, sobretudo,
por ser o resultado de reivindicações sociais marcadamente heterogêneas, trata-se de um movimento em
conformação, como pensam Dalmau e Pastor1.
Assim, é ainda incipiente em sistematicidade e coesão nas suas repercussões teóricas. O que se
objetiva neste artigo é a exposição das principais inovações dos dois processos constituintes referidos, a
saber, a incorporação de cosmovisões indígenas nos textos constitucionais, como princípios que irradiam
efeitos sobre diversos aspectos dos ordenamentos jurídicos de cada um dos países, e a reconfiguração do
tratamento constitucional dado à natureza.
É necessária a observação de que são diversas as abordagens desse contemporâneo movimento
constitucional e que os autores Dalmau e Pastor simbolizam uma específica fonte de análise que não exclui
outras classificações e interpretações. De acordo com Brandão2, o entendimento proposto por Dalmau e
Pastor acerca do NCL enfatiza as formas de maximização da participação popular nas deliberações
políticas e normativas daqueles países. Os autores espanhóis oferecem uma descrição que ressalta os
mecanismos de controle social dos atos estatais. É uma posição propícia para a compreensão dos pontos
iniciais deste movimento, isto é, das razões históricas e sociais que o ensejaram causa e que demarcam
suas mais globais características.
Na esteira desse pensamento, duas perspectivas são relevantes para a composição da análise do
NCL como um movimento: a exterioridade e a interioridade da Constituição. A primeira opera com a
instrumentalização do texto constitucional como expressão política legítima, resultante da conjunção de
componentes extrajurídicos regionalizados, singulares. A segunda se liga à força normativa propriamente
dita3 dessas cartas jurídico-políticas, ou seja, às suas capacidades de produzir efeitos sobre as relações,
instituições e indivíduos sobre os quais recai.
A partir da conjunção desses fatores, político/externo e jurídico/interno, tem-se que o fundamento
último da constitucionalização de um ordenamento é o fato de esse sistema ser um produto do mandato
legítimo da comunidade constituinte e ser, portanto, um reflexo material dessa vontade coletivamente
estabelecida, sistematizada num instrumento que irradia força normativa aos demais. No particular,
Dalmau e Pastor compreendem que o NCL inaugura uma teoria democrática da Constituição, que
1
DALMAU, Rubén Martínez; PASTOR, Roberto Viciano. ¿Se puede hablar de un nuevo constitucionalismo
latinoamericano como corriente doctrinal sistematizada? In: Nuevas tendencias del derecho constitucional en América
Latina, VIII Congreso Mundial de la Asociación Internacional de Derecho Constitucional: constituciones y principios. Ciudad
de México: UNAM, 2010.
2
BRANDÃO, Pedro Augusto Domingues Miranda. O novo constitucionalismo pluralista latino-americano. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2015, p. 33.
3
DALMAU, Rubén Martínez; PASTOR, Roberto Viciano. ¿Se puede hablar de un nuevo constitucionalismo
latinoamericano como corriente doctrinal sistematizada? In: Nuevas tendencias del derecho constitucional en América
Latina, VIII Congreso Mundial de la Asociación Internacional de Derecho Constitucional: constituciones y principios. Ciudad
de México: UNAM, 2010, p. 4.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
4 Luís Guilherme Nascimento de Araújo e Clovis Gorczevski
estabelece como escopo central o combate à assimetria de poderes e à desigualdade social historicamente
presentes no subcontinente.
Consoante os autores espanhóis, o NCL surge de uma necessidade de superação das estruturas de
desigualdade por meio de movimentos sociais que buscaram traduzir suas reivindicações numa linguagem
jurídica, em textos constitucionais capazes de oferecer, no curto e no longo prazo, os instrumentos e os
meios para a expressão das suas necessidades e operacionalização das suas demandas4.
Na interpretação de Dalmau e Pastor, portanto, o mais primário elemento que define o NCL, antes
mesmo dos caracteres formais e materiais dos seus textos constitucionais, é a natureza democrática dos
seus processos constituintes, que contrasta com a maioria das experiências anteriores da América Latina
materializadas nas constituições fundacionais dos países da região e mesmo o constitucionalismo do
século 20, assinalados pelo conservadorismo e pelo individualismo liberal56.
Essas experiências anteriores caracterizaram-se como projetos predominantemente restritos à
organização do Estado e ao estabelecimento de alguns dispositivos básicos de um sistema político apenas
formalmente democrático. Nesse sentido, é relevante o apontado e descrito por Gargarella7 quanto às
constituições liberais-conservadoras que fundaram os países latino-americanos e que somente no início do
século XXI vão dar lugar a documentos elaborados de forma eminentemente democrática. O NCL ganha
destaque, diante disso, por sua composição essencialmente democrática. Descreve Brandão:
Esse movimento surgiu de uma necessidade histórica de, por um lado, apropriar-se constitucionalmente de
alguns instrumentos de lutas e reivindicações populares, para garantir o controle popular do poder e da
econômica e, por outro, salvaguardar conhecimentos e práticas históricas das comunidades ancestrais. 8
Nesse contexto, Dalmau e Pastor9 destacam a constituinte venezuelana de 1999 como um ponto
inicial para uma nova configuração dos processos constituintes na região. A partir desta, afirmam os
autores que é possível a observância de elementos formais inéditos, que carregam o caráter democrático e
revolucionário como traço marcante e que se farão presentes nos demais processos constituintes ulteriores,
quais sejam
[...] el ecuatoriano de 2007-2008, cuyo texto se caracteriza principalmente por la innovación en el catálogo
de derechos y por la expresa referencia, ya aludida, al Estado constitucional; y el boliviano de 2006-2009, el
más difícil de todos los habidos, y cuyo resultado, la Constitución boliviana de 2009, es seguramente uno de
los ejemplos más rotundos de transformación institucional que se ha experimentado em los últimos tiempos,
4
Ibidem, p. 6.
5
Ibidem, p. 8.
6
Yrigoyen Fajardo (2011), de forma semelhante, destaca as particularidades do NCL calcadas no contraste com o histórico das
experiências constitucionais da América Latina. YRIGOYEN FAJARDO, Raquel. El horizonte del constitucionalismo
pluralista: del multiculturalismo a la descolonización. En: GARAVITO, César Rodríguez. El derecho en América Latina:
un mapa para el pensamiento jurídico del siglo XXI. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2011, p. 139-159.
7
GARGARELLA, Roberto. Latin American Constitucionalism: social rights and the “Engine Room” of the Constitution. Notre
Dame Journal of International and Comparative Law, South Bend, v. 4, n.1, p. 9-18, 2014.
8
BRANDÃO, Pedro Augusto Domingues Miranda. O novo constitucionalismo pluralista latino-americano. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2015, p. 32.
9
DALMAU, Rubén Martínez; PASTOR, Roberto Viciano. ¿Se puede hablar de un nuevo constitucionalismo
latinoamericano como corriente doctrinal sistematizada? In: Nuevas tendencias del derecho constitucional en América
Latina, VIII Congreso Mundial de la Asociación Internacional de Derecho Constitucional: constituciones y principios. Ciudad
de México: UNAM, 2010, p. 8.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
O suma qamaña e a Pacha mama como fundamentos axiológicos do novo constitucionalismo latino-americano 5
por cuanto avanza hacia el Estado plurinacional, la simbiosis entre los valores liberales y los indígenas, y
crea el primer Tribunal Constitucional elegido directamente por los ciudadanos del país.10
No caso dos movimentos sociais motrizes do NCL, denota-se o forte componente indígena nas suas
projeção e justificação teóricas. Na Bolívia, tem-se que a Constituição Política do Estado (2009) foi
resultado direto de lutas populares ocorridas desde o século 20, formadas por blocos populares complexos
que congregavam interesses tanto da classe trabalhadora assalariada quanto de povos originários e
campesinos.
Esses blocos populares enfrentaram diversos obstáculos e retrocessos, mas também obtiveram
conquistas expressivas. Linera11 assinala um rico movimento indigenista, de significativa intelectualidade
prática integrada nas direções de sindicatos, comunidades e federações comunitárias e agrárias que tem
como base de seus discursos a identidade étnica, sustento de projetos políticos de ampliação e
complexificação das estruturas democráticas estatais.
A acumulação de experiências e aprendizados ao longo desses processos moldou a consciência
política do heterogêneo povo boliviano e estabeleceu bases para a elaboração de uma Constituição que
refletisse os interesses e aspirações desses setores. São demonstrativos desses movimentos o Manifesto de
Tiwanaku (1973), as Marchas reivindicatórias dos anos 90, como a Marcha por Território e Dignidade
(1990) e a Marcha pelo Território, pelo Desenvolvimento e pela Participação Política dos Povos Indígenas
(1996) e, notavelmente, os episódios da Guerras da Água (2000) e do Gás (2003)12.
Nesse mesmo sentido, é notável como as lutas reivindicatórias no Equador fortaleceram-se no
século 20. A atuação das organizações populares, que encontraram sua força na representação indígena,
camponesa e ambientalista, desempenhou um papel crucial na defesa de interesses e identidades culturais
localizadas. Essas lutas não se limitaram apenas a aspectos políticos, mas também tiveram uma dimensão
filosófica marcada pelo caráter étnico e anticapitalista que permeava muitos desses movimentos.
Conforme Maldonado Bravo13, esses movimentos abordavam questões que transcendiam a esfera
meramente econômica, promovendo debates civilizacionais, sobre concepções de mundo. Os princípios
enraizados nas cosmovisões dos povos originários entravam em choque com os paradigmas tradicionais
de desenvolvimento orientados pelo mercado. A resistência desses grupos à lógica mercantil estava
pautada em sua busca por alternativas que preservassem o equilíbrio entre o ser humano e a natureza,
promovendo uma relação mais harmoniosa e sustentável com o meio ambiente.
Portanto, a história do Equador, igualmente, é assinalada por uma diversidade de lutas
reivindicatórias e movimentos sociais que desempenharam papel fundamental na conquista da
Constituição da República (2008). Dentre essas demandas, tem destaque o Levantamento indígena do Inti-
Raymi. Foi um movimento que emergiu nas décadas de 1990 e teve um papel preponderante na
mobilização de indígenas e camponeses em busca de seus direitos e reconhecimento.
10
Ibidem, p. 11.
11
LINERA, Álvaro García. Indianismo e marxismo: o desencontro de duas razões revolucionárias. São Paulo: CLACSO, 2008.
12
FERRAZZO, Débora; WOLKMER, Antonio Carlos. Pluralismo jurídico e democracia comunitária: discussões teóricas sobre
descolonização constitucional na Bolívia. Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 11, n. 2, p. 872-895, 2021.
13
MALDONADO BRAVO, Efendy Emiliano. Reflexões críticas sobre o Processo Constituinte Equatoriano de Montecristi
(2007-2008). Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 9, n. 2, p. 129-151, 2019.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
6 Luís Guilherme Nascimento de Araújo e Clovis Gorczevski
Com efeito, esses grupos indígenas e camponeses não só clamavam por justiça e igualdade, mas
também por uma nova ordem constitucional que incorporasse suas demandas e necessidades. A sua luta
ressoou no país, ganhando apoio de setores da sociedade equatoriana que compartilhavam dos ideais de
justiça social e participação democrática. Assim, o processo constituinte foi posto em movimento, abrindo
espaço para que os grupos indígenas e camponeses participassem ativamente da redação e definição dos
novos princípios14.
Observa-se, desse modo, o NCL como expressão de uma tentativa de limitação do poder
constituinte derivado em favor da ratificação da vontade popular de mudança, resgatando aspectos típicos
da teoria inaugural e revolucionária do poder constituinte originário 15. Posteriormente viriam a se
consolidar e se repetir aspectos formais dos movimentos democráticos, como os referendos ativadores da
constituinte e os referendos de aprovação dos textos constitucionais, e, ainda, traços materiais que
exteriorizavam necessidades de combate às estruturas neoliberais de desproteção e desamparo social, com
a incorporação de princípios e valores oriundos dos povos originários da região16.
Dentre as principais evoluções do NCL, pode-se destacar uma mudança de eixo principiológico
dessas Constituições, notadamente por meio da valorização da ideia de produção e reprodução comunitária
da vida, bem como por meio da integração dos indivíduos com a natureza.
Os princípios e normas jurídicas que expressam essas perspectivas diferenciadas estão muito
conectados com as cosmovisões dos povos originários latino-americanos, que foram introduzidas aos
respectivos ordenamentos jurídicos através da positivação do suma qamaña ou sumak kawsay, o bem
viver, e da proteção da Pacha Mama como sujeito de direitos. O tópico que segue abordará esses dois
componentes das Constituições do Equador e da Bolívia, buscando analisar seus papéis no interior das
respectivas normas.
O suma qamaña e a Pacha Mama como instrumentos da refundação jurídica da Bolívia e do Equador
Uma vez determinado o caráter inovador e original dos principais textos constitucionais do NCL,
buscar-se-á, neste tópico, analisar de forma mais detida dois dos fundamentos destas Constituições,
propriamente aqueles que, por ocuparem posição central em diversos pontos dos novos ordenamentos,
corroboram com a definição de um novel constitucionalismo. Tratam-se dos princípios do suma qamanã,
presente da Constituição da Bolívia, ou do sumak kawsay, constante da Constituição equatoriana, e da
particular proteção dos direitos da natureza, denominada Pacha Mama, a partir do texto constitucional do
Equador. São formas de abordagem de princípios e normas jurídicas perfiladas por cosmovisões indígenas
representativas na formação social dos respectivos países, contudo, historicamente invizibilizados pelo
Direito tradicionalmente considerado.
14
Ibidem.
15
SOARES, João Gabriel; BASTOS, Elísio. Novo constitucionalismo latino-americano e histórico de centralização política da
América Latina: a necessidade de superação da sala de máquinas para alcançar efetivas plurinacionalidades, Culturas
Jurídicas, Rio de Janeiro, v. 8, n. 21, p. 77-114, set./dez. 2021, p. 10.
16
GORCZEVSKI, Clovis; ARAUJO, Luís Guilherme Nascimento de. Aspectos formais e materiais do novo constitucionalismo
latino-americano a partir da Constituição boliviana. Arquivo jurídico, Teresina, v. 10, n. 2, jul./dez. 2023.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
O suma qamaña e a Pacha mama como fundamentos axiológicos do novo constitucionalismo latino-americano 7
O suma qamaña, oriundo do idioma aimará, e o sumak kawsay, originado no idioma quéchua,
podem ser traduzidos como “viver bem” ou “bem viver”/”bom viver”, além de outras possíveis traduções.
São, em última instância, conceitos em construção, tanto política quanto juridicamente, e abarcam debates
semânticos e linguísticos de longa duração histórica e uma série de complexidades étnico-sociais que
perpassam tanto pelas suas definições como conceitos propriamente ditos, quanto pelas suas consolidações
no plano do direito. Neste artigo serão tidos como sinônimos por guardarem unidade de sentidos ainda
que expressem pluralidade em suas origens17.
A introdução do conceito de bem viver num texto constitucional pode implicar, à primeira vista,
duas mudanças de perspectiva e projeto na relação dos seres humanos entre si e na relação destes para com
a natureza. Na primeira das dimensões, entende-se que o bem viver significa uma maior valorização do
ideal de reciprocidade entre os indivíduos, enquanto que, na segunda, pode carregar um sentido holístico
para a relação do homem com a natureza, de harmonia, pertencimento e integração, em detrimento da
concepção de domínio, extrativismo, manipulação pragmática e exploração.
Neste último, a modificação da postura se daria tanto no aspecto individual e presente, imediato,
quanto no aspecto de longo prazo, de maior consideração quanto às condições socioambientais sobre as
quais se estabelecerão as gerações futuras. Na descrição de Silva:
A reciprocidade entre indivíduos no presente e em relação às gerações futuras (e mesmo passadas, dado o
respeito devido aos antepassados, materializados na própria natureza) também poderia ser observada na
relação homem-natureza: o home recebe seu sustento da natureza que integra e, em troca, permite sua
regeneração; e ela, mais adiante, agradecida, voltará a lhe oferecer seus frutos.18
Notabiliza-se, dessa maneira, uma visão de mundo consideravelmente distinta da ocidental,
inclusive no que toca à noção e à experiência da temporalidade, perfilada numa ideia cíclica e circular de
tempo e de história, diversa do entendimento tipicamente moderno de linearidade. Além do mais, quanto
à interpretação econômica do conceito de bem viver, tem-se que ele pode ser a base para uma
reestruturação, refundação ou, ainda, redefinição radical do sentido capitalista moderno de
desenvolvimento, por meio da premente superação da lógica extrativista, na busca de um ou diversos
modelos de estratégias, relações, atividades produtivas e proposições constituídas desde as lógicas
comunitárias e localizadas. Cabe, no ponto, questionamentos acerca da impossibilidade de conciliação
entre o princípio do bem viver e o modo produtivo capitalista. Sumariza Silva:
[...] o sumak kawsay/suma qamaña constitui um conceito rico exatamente por sua capacidade de se prestar
tanto para nomear propostas e programas articulados pelos próprios intelectuais indianistas e movimentos
sociais de base camponesa/indígena, quanto para a defesa por uma intelectualidade crítica e por grupos
internacionais de um novo projeto societário (em suas versões “fortes”) ou ao menos de propostas
socioambientais alternativas (em suas versões mais “fracas”).19
O pensador equatoriano Acosta, na mesma toada, afirma que “o bem viver [...] supera o tradicional
conceito de desenvolvimento e seus múltiplos sinônimos, introduzindo uma visão muito mais diversificada
17
SILVA, Fabricio Pereira da. Comunalismo nas refundações andinas do século XXI: o sumak kawsay/suma qamaña. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 34, n. 101, p. 1-19, 2019, p. 3.
18
Ibidem, p. 5.
19
Ibidem, p. 7.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
8 Luís Guilherme Nascimento de Araújo e Clovis Gorczevski
e, certamente, complexa” 20. A riqueza do conceito de bem viver, nesse contexto, se notabiliza pela
constância e diversidade de pontos em que a sua incidência pode ser verificada nos textos das constituições
boliviana e equatoriana e pela influência desse princípio na acepção de desenvolvimento. Destaca-se a sua
presença quando do trato de questões econômicas centrais, como é o caso do regime jurídico da
propriedade, dos recursos naturais e dos deveres de proteção desses recursos pelo Estado21.
O artigo 306, inciso I, da Constituição da Bolívia22 determina que o modelo econômico boliviano
é orientado para a qualidade de vida e para o viver bem, além de, no inciso III do mesmo artigo, fazer
menção ao viver bem coletivo, numa evidente ideia de complementariedade entre os interesses individuais
e comunitários. Na definição dos propósitos da organização econômica do Estado, ainda, é referenciado o
viver bem nas suas múltiplas dimensões, perfilando, assim, os demais princípios e objetivos, consoante o
artigo 313 do texto constitucional23.
Ademais, a Constituição equatoriana estabelece, já em seu preâmbulo, o objetivo de construção da
convivência cidadã em plena harmonia com a natureza, com fins de alcançar o sumak kawsay, ou, o bem
viver. A partir do capítulo segundo do texto constitucional, inaugurado pelo artigo 12, são estabelecidos
os direitos do bem viver, que passam pela água e alimentação, meio ambiente saudável, habitação e saúde,
dentre outros. O capítulo sétimo da Constituição, que trata dos direitos da natureza, também aponta, no
artigo 74, o direito ao acesso, pelos indivíduos e comunidades, às riquezas naturais que possibilitam o bem
viver, ressaltando, desse modo, a particularidade da relação do homem com a natureza que se expressa
pelo sumak kawsay24.
No aspecto da organização do Estado e da economia, em particular, é estabelecido pela
Constituição equatoriana, a partir do artigo 275, o seu regime de desenvolvimento, compreendido como
um resultado da articulação do conjunto formado pelos sistemas político, econômico, social, cultural e
ambiental que devem estruturar e garantir a realização do bem viver25. Nesse mesmo dispositivo, ainda, é
consolidado que o bem viver requer que as pessoas e comunidades gozem efetivamente dos seus direitos
e exerçam suas responsabilidades no marco da interculturalidade, do respeito à diversidade e da
convivência em harmonia com a natureza. Nota-se que o bem viver cumpre papel relevante na
Constituição do Equador, sendo mencionado, inclusive, na disposição de que o endividamento público
não pode afetar o bem viver e a preservação da natureza, o que se lê no inciso 2, do artigo 19026.
Observa-se, com essas demarcações, que as duas bases conceituais supramencionadas do suma
qamaña ou sumak kawsay, principalmente aquela que se calca na relação homem-natureza, articulam-se
com a concepção de espaço territorial, denominado ayllu, e com a noção de Pacha mama. O primeiro pode
ser compreendido como os diversos núcleos em que se desenvolve a convivência comunitária indígena
20
ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Elefante, 2016, p. 24.
21
BRANDÃO, Pedro Augusto Domingues Miranda. O novo constitucionalismo pluralista latino-americano. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2015, p. 102.
22
BOLÍVIA. Constituición Política del Estado (CPE), 7 febrero 2009. Disponível em:
[Link] Acesso em: 29 set. 2022, p. 85.
23
Ibidem, p. 87.
24
ECUADOR. Constitución de la República del Ecuador, 20 de octubre de 2008. Disponível em:
[Link] Acesso em: 01 ago.
2022, p. 55.
25
Ibidem, p. 135.
26
Ibidem, p. 104.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
O suma qamaña e a Pacha mama como fundamentos axiológicos do novo constitucionalismo latino-americano 9
originária, onde são considerados e fortalecidos os laços familiares e os territoriais. Trata-se, nesse caso,
do espaço onde se vive bem que, por sua vez, é indissociável do espaço físico da terra, da natureza, dos
recursos naturais, da Pacha mama, com a qual se travam as interações sociais de convivência e
reciprocidades e sobre a qual se apoia, física e espiritualmente, a vida em comunidade e também a morte27.
Dessa maneira, vê-se como o princípio do bem viver sinaliza um conjunto de outros princípios e
orientações para a vida comunitária que, necessariamente, consideram um maior respeito à territorialidade
e à pluralidade de outras vidas, além da humana, que desenvolvem os seus ciclos neste mesmo espaço
físico e metafísico. Portanto, o sumak kawsay redireciona o pensamento a uma distinta deferência à
natureza, o que se verá expresso nos próprios textos constitucionais do NCL.
Os artigos 342 e 343 da carta constitucional boliviana preveem o dever do Estado na preservação
e proteção dos recursos naturais e da biodiversidade. Ato contínuo, estabelece-se um verdadeiro direito-
dever da população de participação na gestão ambiental. Essa gestão compartilhada se efetiva pela
necessidade de consulta popular quando da tomada de decisões que possam afetar a qualidade do meio
ambiente do país. Afora isso, o texto dispõe, no âmago da estrutura do Poder Judiciário, uma jurisdição
agroambiental, reputada como o órgão máximo para o tratamento de matéria agroambiental, conduzido
pelos princípios da função social, da sustentabilidade e da interculturalidade, conforme os artigos 186 e
187 da Constituição28.
Todavia, quanto à proteção da natureza, ou Pacha Mama, a Constituição equatoriana merece
destaque, pois a declara, de forma expressa, como um sujeito de direitos e regula o seu regime de proteção
a partir do seu artigo 71. Nesse contexto, a natureza é definida como o locus de reprodução e realização
da vida, tendo, por isso, direito de respeito quanto a sua existência, bem como à manutenção e regeneração
dos seus ciclos vitais, estruturas, funções e processos evolutivos29. Garante-se, outrossim, nos dispositivos
seguintes, medidas de precaução a serem adotadas pelo Estado, de restrição de atividades exploratórias
que venham a prejudicar ecossistemas ou ameacem alterar ciclos naturais e, não obstante, proíbe-se a
introdução de materiais orgânicos que possam alterar definitivamente o patrimônio genético nacional 30.
Compreende-se, ante essas particularidades dos dois textos constitucionais abordados, que, no caso
equatoriano, a firmeza nas mudanças de perspectiva no tratamento dos direitos da natureza se demonstra
de maneira mais explícita, vez que se determina, textualmente, a subjetividade jurídica da Pacha Mama.
No caso boliviano, por outro lado, denota-se que não se assumiu “o mesmo distanciamento da concepção
eurocêntrica que a Constituição equatoriana protagonizou”31.
Tal timidez é explicável pela significação dos direitos da natureza no interior da lógica da forma
mercantil, representando um foco de tensão material e ideológica a atribuição de subjetividade jurídica ao
27
SILVA, Fabricio Pereira da. Comunalismo nas refundações andinas do século XXI: o sumak kawsay/suma qamaña. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 34, n. 101, p. 1-19, 2019, p. 5.
28
BOLÍVIA. Constituición Política del Estado (CPE), 7 febrero 2009. Disponível em:
[Link] Acesso em: 29 set. 2022, p. 49.
29
ECUADOR. Constitución de la República del Ecuador, 20 de octubre de 2008. Disponível em:
[Link] Acesso em: 01 ago.
2022, p. 55.
30
Ibidem, p. 55.
31
BRANDÃO, Pedro Augusto Domingues Miranda. O novo constitucionalismo pluralista latino-americano. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2015, p. 118.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
10 Luís Guilherme Nascimento de Araújo e Clovis Gorczevski
que, historicamente, foi apreendido como bem jurídico. É o destaque que faz Zaffaroni 32, quando afirma
que “reconhecer a existência de sujeitos de direito não humanos no direito ambiental não é simples, pois
com isso se põe em séria crise o conceito tradicional de direito”.
Nesse ponto, é salutar o comentário de Fagundes, Patrício e Caciatori33, ao abordarem a sinuosidade
do processo constituinte boliviano no que diz respeito à projeção e debate das modificações mais
significativas no Estado visadas pelas camadas populares:
Como ocorre em qualquer movimento que se propõe a transformar a ordem posta, a classe detentora do
poder desencadeou um verdadeiro embate para impedir os avanços pretendidos e consequentemente, a perda
dos privilégios gozados. Surgiu um inexorável clima de avanços e retrocessos, que conduziu o sistema até à
época vigente a uma crise, possibilitando, assim, sua superação.
No mesmo sentido, Maldonado Bravo34, ao visitar as particularidades do processo constituinte
equatoriano, identificou uma pluralidade de discursos e entendimentos, seja entre grupos opostos, seja no
interior de um mesmo bloco político. O autor salienta que essas diferenças de posições entre organizações
foram sentidas na Assembleia, destacadamente quanto a temas centrais de organização do Estado e do
poder político, como a plurinacionalidade, o pluralismo jurídico e o reconhecimento dos direitos da Pacha
Mama.
Essa diferença de entonação no trato constitucional da natureza acaba por gerar, entre alguns
autores, discordância quanto ao reconhecimento ou não de direitos subjetivos à Pacha Mama no âmbito
da Constituição da Bolívia, entendendo alguns que não há qualquer determinação objetiva nesse sentido e
compreendo outros que há um reconhecimento tácito da natureza como sujeito de direitos. Quanto a isso,
Acosta aduz:
No Equador, reconheceu-se a Natureza como sujeito de direitos. Esta é uma postura biocêntrica que se baseia
em uma perspectiva ética alternativa, ao aceitar que o meio ambiente – todos os ecossistemas e seres vivos
– possui um valor intrínseco, ontológico, inclusive quando não tem qualquer utilidade para os humanos. A
Constituição boliviana, aprovada em 2009, não oferece o mesmo biocentrismo: outorgou um posto
importante à Pacha Mama ou Mãe Terra, mas, ao defender a industrialização dos recursos naturais, ficou
presa às ideias clássicas do progresso, baseadas na apropriação da Natureza.35
Em que pese essas diferenças nas disposições, entende-se que ambos os casos representam avanços
significativos na proteção jurídica da natureza no contexto jurídico latino-americano, seja por meio do
reconhecimento direto e expresso de subjetividade jurídica, seja através de garantias jurisdicionais de
tratamento especializado de demandas relativas à matéria. Tem-se, dessa maneira, uma mudança notável
de perspectivas normativas e principiológicas no que tange à conservação do meio ambiente e à
preservação de recursos naturais. Afirma Brandão:
[...] não se impõe à natureza um valor instrumental – pois a Pacha Mama não tem como objetivo servir ao
homem. Há, nesse cenário, portanto, uma assimetria entre a proposta da natureza como sujeito de direitos –
32
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. La pachamama y el humano. Buenos Aires: Ediciones Madres de Plaza de Mayo, 2011, p. 67,
tradução nossa.
33
FAGUNDES, Lucas Machado; PATRÍCIO, Ághata July Goularte; CACIATORI, Emanuela Gava. Pluralismo jurídico no
processo constituinte boliviano. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019, p. 113.
34
MALDONADO BRAVO, Efendy Emiliano. Reflexões críticas sobre o Processo Constituinte Equatoriano de Montecristi
(2007-2008). Revista Brasileira de Políticas Públicas, Brasília, v. 9, n. 2, p. 129-151, 2019.
35
ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Elefante, 2016, p. 28.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
O suma qamaña e a Pacha mama como fundamentos axiológicos do novo constitucionalismo latino-americano 11
tendo em vista que o homem é integrante da Pacha Mama – e a teoria antropocêntrica moderno (re)produzida
historicamente pelo constitucionalismo clássico.36
Nessa toada, se depreende uma mudança substancial de eixo na principiologia constitucional
inaugurada pelo NCL, no sentido de fortalecimento de uma visão mais integrada da vida humana com a
natureza e na determinação da reprodução dessa mesma lógica pelo Estado em todas as suas atuações.
O suma qamaña ou sumak kawsay e a Pacha Mama, assim, assinalam, interligada e conjuntamente,
essa mudança de eixo na direção da incorporação das cosmovisões dos povos originários na estruturação
desses Estados latino-americanos, que, a partir dos novos pactos constitucionais, abrem caminho para a
construção de uma sociedade regida por princípios e valores que expressam e identificam as subjetividades
locais no indivíduo latino-americano, no indígena e na Madre Tierra.
Não se trata, portanto, como compreende Zaffaroni37, da positivação de compreensões afeitas à
tradicional dignidade da pessoa humana ou, ainda, ao tradicional conceito de bem-comum. Estas são ideias
limitadas aos indivíduos, aos seres humanos, propriamente ditos, como existências individualizadas que
precedem à constituição do social e tomam a natureza como instrumento, enquanto que o bem viver aponta
para um todo orgânico, vivo, de apreensões heurísticas. Nesse sentido, supõe os seres humanos, mas, no
mesmo movimento, supõe o meio natural, carregando um significado de complementariedade e equilíbrio
que não são alcançáveis pelas perspectivas liberais individualistas.
Buscou-se demonstrar que, além das novas estruturas estatal e jurídica, delineadas pelo Estado
Plurinacional e pelo pluralismo jurídico, encontram-se em formação, também, uma gama de novos
princípios jurídicos. Trata-se de um movimento histórico de renovação e, ao mesmo tempo, de resgate.
Resgate de concepções e horizontes de mundo anteriores à própria concepção de direito e de Estado, que,
em decorrência dos processos de estabelecimento do sistema-mundo, acabaram secundarizados em favor
de concepções externas. O NCL representa, nesse sentido, um movimento de renovação pela
regionalização das estruturas classicamente concebidas pelo Direito, europeu e norte-americano, servindo,
desde o seu princípio, à afirmação da condição latino-americana.
Considerações finais
O que se objetivou neste escrito foi analisar o destaque que o princípio do bem viver, suma qamaña
ou sumak kawsay, e que a consideração da Pacha Mama como sujeito de direitos, assumiram no
ordenamento jurídico equatoriano e boliviano, gerando novas e relevantes formas de expressão das
subjetividades locais, numa posição de afirmação de diferentes dignidades em detrimento da
invizibilização histórica a que foram submetidas diversas dessas existências.
Ante às inovações jurídicas dos textos constitucionais do Equador (2008) e da Bolívia (2009) e às
particularidades histórico-sociais dos movimentos que deram vazão a essas Constituições, é possível
concluir que o NLC se constitui como um movimento dotado de caracteres singulares, que, no seu
conjunto, permitem afirmar e valorizar as particularidades dessas experiências jurídico-normativas.
36
BRANDÃO, Pedro Augusto Domingues Miranda. O novo constitucionalismo pluralista latino-americano. Rio de Janeiro:
Lumen Juris, 2015, p. 121.
37
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. La pachamama y el humano. Buenos Aires: Ediciones Madres de Plaza de Mayo, 2011.
Revista Eletrônica Direito e Sociedade, Canoas, v. 13, n. 1, e10357, abr. 2025.
12 Luís Guilherme Nascimento de Araújo e Clovis Gorczevski
Diante desse contexto, buscou-se analisar de forma mais detida as Constituições equatoriana e
boliviana, ao identificar como estão expressas as referidas inovações no decorrer desses textos
constitucionais. Pôde-se observar significativas inovações jurídicas e institucionais levadas a cabo pelo
princípio do bem viver e pela proteção aos direitos da natureza, o que permite consolidar e instrumentalizar
demandas sociais dos povos originários e efetivar uma reestruturação gradual do Estado e do Direito,
internalizando a multiplicidade étnica dos seus povos nas estruturas institucionais e jurídicas.
Concluiu-se que, pela presença do princípio do bem viver e pela sólida proteção à Pacha Mama
nesses textos constitucionais, resta demonstrado um caminho de mudança nos fundamentos axiológicos
do direito constitucional latino-americano. São documentos jurídicos de caráter efetivamente inovador,
que simbolizam um movimento histórico e jurídico em construção, que incorpora as idiossincrasias
regionais na tentativa de introduzi-las aos debates e mecanismos que, em última instância, determinam os
rumos das institucionalidades nos âmbitos político e jurídico.
É por conta dessa fundamental característica que o NCL se constitui como um movimento inovador
e, assim, consagra-se como um caminho possível para a consolidação de uma realidade democrática que
não somente respeita e aceita as singularidades latino-americanas, mas as coloca de forma definitiva nos
locais de deliberação e participação cidadãs e reforça a ideia de integração entre a existência humana e a
natureza.
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