Sócrates
Sócrates foi um filósofo ateniense nascido por volta de 470 a.C. Era filho do escultor
Sofronisco e de uma parteira. Com o pai aprendeu o ofício de escultor e consagrou na Acrópole
um relevo que consagrava as Cárites. Veio a dedicar-se à filosofia por meio da física e da
astronomia. O seu método de ensino, a maiêutica, era original, Etimologicamente, significa a arte
de dar à luz os espíritos estimulando-os através de sucessivas perguntas. Participou na expedição
de Potideia em 431 a.C como hoplita e lutou em Délio em 424 a.C. Foi prítane na altura do
processo das Arginusas e tentou, em vão, impedir a condenação ilegal dos estrategos. A ação dos
seus discípulos Crícias e Alcibíades comprometeram-no e passou a ser visto como um elemento
corruptor da juventude ateniense pela sua atitude filosófica. Em 399 a.C foi acusado de
corromper a juventude da cidade e de ser ímpio perante os deuses da cidade. Após a sua
condenação, recusou fugir por respeito às leis da cidade e bebeu a cicuta na prisão (Chamoux,
François – La Civilisation Grecque, trad. Pedro Elói Duarte, Edições 70, 2003, Lisboa, pp.327-
328)
Xenofonte, Banquete e Memoráveis – Sócrates de Xenofonte é um homem virtuoso, de espírito
prático e útil aos amigos. Uns argumentam que é mais confiável o seu testemunho porque, não
sendo filósofo, o risco de acrescentar á sua obra é também reduzido. Contudo, a tese oposta é
também válida: não sendo filósofo podia não captar plenamente o seu pensamento.
Platão, toda a sua obra – Sócrates de Platão é um amigo admirado e estimado, absorto nas suas
reflexões e visto como grande filósofo. O testemunho platónico é tido como o Sócrates histórico.
Platão escreveu sobre os momentos finais da vida de Sócrates: o julgamento (Apologia), a
permanência na prisão (Críton) e os últimos momentos (Fédon).
“Sócrates é o fenómeno educativo mais poderoso da
História do Ocidente”
Método socrático
Sócrates descreve-se como um inquiridor ignorante e as questões que coloca são
elaboradas de modo a que a questão que coloca não seja respondidas de forma adequada pelo
interlocutor que é levado, através de questões secundárias, a retirar as suas respostas
anteriormente dadas à questão principal. Em termos gerais, a estratégia de Sócrates consiste em
demonstrar ao interlocutor que as suas respostas não são coerentes e que é incapaz de perceber os
conceitos e questões em debate. Veja-se o seguinte diálogo com Euthyphro:
Sócrates: São a piedade e a impiedade coisas opostas?
Euthyphro: Sim.
Sócrates: Estão os deuses em desacordo uns com os outros sobre o que é bom, o que é justo e por
aí em diante?
Euthyphro: Sim.
Sócrates: Então, as mesmas ações são amadas por alguns deuses e odiadas por outros?
Euthyphro: Sim.
Sócrates: Então, essas ações são simultaneamente piedosas e impiedosas?
Euthyphro: Sim.
(Socratic method, Richard Kraut, Encyclopaedia Britannica -
[Link] acedido a 04/03/2025)
Problema socrático
O problema socrático é a dificuldade em distinguir Sócrates histórico dos “Sócrates” que
cada autor escrevia e das interpretações que do filósofo eram feitas. Cada época produz um novo
Sócrates novo. Tudo o que temos é um conjunto de interpretações que representam um
“teoricamente possível” Sócrates
Não tendo escrito obra alguma no decurso da sua vida, é-lhe atribuída a autoria de mais
de trinta obras mas, quem foi realmente Sócrates? Todos os que o conheceram ou escreveram
sobre o filósofo fizeram-no antes da existência de sensibilidades que constituem hoje a exatidão
histórica.
Quanto ao testemunho de Aristófanes, Sócrates diz que este autor era mais perigoso do
que os jurados que o julgavam pois estes tinham crescido a acreditar nas mentiras transmitidas
em “As Nuvens”. Noutras obras, como “Rãs” e “Aves”, Aristófanes condena o efeito delirante do
filósofo na juventude. Assim, resulta óbvio que os relatos de Aristófanes não são a melhor via
para chegar ao Sócrates histórico. O mesmo acontece com Xenofonte que, por não ser filósofo,
pode não ter captado a plenitude do pensamento socrático.
Saber quem o sábio realmente foi, ainda que a questão prossiga alvo de debate, é
fundamental para virtualmente qualquer interpretação dos diálogos filosóficos de Platão pois
Sócrates é a figura dominante da maioria dos seus diálogos. Platão tinha vinte e cinco anos
quando Sócrates foi julgado e executado. Não é seguro que representasse a visão e os métodos de
Sócrates como se lembrava, muito menos como foram proferidos e pode ainda ter moldado a
própria personagem Sócrates para servir os seus propósitos filosóficos e/ou poéticos.
(Socrates – Stanford Encyclopaedia of Philosophy - [Link]
acedido a 03/03/2025)
Pensamento
Górgias, 475 a-d: é melhor sofrer uma injustiça do que cometer uma injustiça. Dada a opção,
devemos escolher sofrer uma injustiça pois cometer uma ultrapassa o sofrimento de ser vitima de
uma injustiça.
Protágoras, 329b-333b: todas as virtudes (como a justiça, a sabedoria, a coragem, a piedade,
etc) são uma só. A título de exemplo, para Sócrates, a sabedoria e a temperança/moderação têm o
mesmo oposto: a loucura. Se fossem distintas, teriam opostos diferentes. Assim, a identidade dos
seus opostos indica que alguém não pode ser moderado sem sabedoria nem sábio sem
moderação. Resulta daqui que a virtude é una e toda a virtude é conhecimento. Além disso, as
qualidades da alma não são por si só benéficas ou prejudiciais: são benéficas se acompanhadas
pela sabedoria e prejudiciais se acompanhadas pela virtude.
Escola Cirenaica ou Hedonística, fundada por Aristipo de Cirene – as ações devem ser
orientadas para a obtenção do maior prazer possível.
Escola Megárica, fundada por Euclides de Mégara – combina o eleastismo com a ética socrática
procurando o bem cuja unidade proclama.
Escola Elidense-Eretriense, fundada por Fédon de Elide e Menedemo de Erétria – Fédon
considera a Filosofia um remédio contra todos os males espirituais e para a verdadeira liberdade;
Menedemo transferiu a escola para Erétria e conferiu-lhe um sentido de intelectualismo.
Escola Cínica, fundada por Antístenes no ginásio de Kynosargous – o ideal cínico era o regresso
à natureza, simplicidade, exclusão dos comodidades da vida civilizada cultivando a autarcia, a
askesis e a anaideia. Percursores de todos os movimentos contra a ordem social estabelecida.
O útil identifica-se com o bem. A ignorância leva a proceder ao mal. A sua moral
fundamenta-se na razão e por isso é considerado o pai da Ética. A unidade de pensamento é
característica de Sócrates e antagónica dos Sofistas. A conservação de uma alma reta é a
preocupação cimeira. A educação deve ser orientada por modo a levar á prática do bem (Pereira,
Maria Helena da Rocha – Estudos de História da Cultura Clássica: Cultura Grega – Vol. I,
Fundação Calouste Gulbenkian, 2017, 12ª edição, pp. 466-468).
O processo
A pólis tinha a consciência de que a profanação cometida pelo culpado, se não fosse
punida de forma exemplar, provocaria a cólera dos deuses e toda a cidade seria castigada por
isso. Foi este o caso de Sócrates.
Em 399 a.C, o filósofo foi acusado de corromper a juventude, de não crer nos deuses da
cidade e de introduzir novas divindades. A acusação foi lançada por Meleto, apoiado por Ânito.
Sócrates foi condenado por 280 votos contra 220, sendo o tribunal composto por 500 juízes; 30
votos chegariam para o absolver. Porquê esta condenação de um sábio que a Pítia tinha
designado como o mais sábio dos homens? Como explicar uma decisão de justiça que, desde os
manifestos de Platão e de Xenofonte a favor de Sócrates, é a vergonha inexplicável da
democracia ateniense? É preciso considerar as circunstâncias do processo…
Os cidadãos que compunham o tribunal da Helieia (cuja caricatura é dada pela
personagem Filócleon em As Vespas de Aristófanes) sentiam-se ofendidos por Sócrates ter
contribuído, pelas suas conversas e amizades, na formação de alguns dos insensíveis ambiciosos
que nos quinze anos anteriores tinham feito sofrer a cidade de Atenas: Alcibíades, promotor da
desastrosa expedição da Sicília e depois hábil conselheiro dos Lacedemónios contra a sua própria
cidade; Crícias, o chefe dos Trinta, que tantos atenienses mandara matar após ter derrubado a
democracia. As relações que uniam ambos a Sócrates eram conhecidas de todos e os juízes
julgavam que o mestre tinha algum grau de responsabilidade pelos erros cometidos pelos seus
discípulos. Além disso, os seus amigos nunca esconderam certas preferências que o povo
ateniense pouco apreciava como as opiniões a favor de Esparta, a curiosidade filosófica e o
virtuosismo dialético bastante desenvolvido pelo exemplo do seu mestre, a liberdade de
pensamento e a manifesta tendência para a pederastia, o “amor dório”. O ateniense comum, tal
como surge na obra de Aristófanes, nutria especial horror e desprezo por este vicío pois via nele
o sinal de uma “fraternidade” aristocrata, de uma camaradagem com fins políticos, dos quais a
democracia tinha o direito de se defender. Sócrates era responsabilizado pela hostilidade que
inspiravam os jovens demasiados seguros na sua maioria provenientes das famílias mais ricas de
Atenas.
O processo era simultaneamente civil e religioso mas representaria Sócrates realmente
um perigo para o equilíbrio moral e político da democracia ateniense? François Chamoux afirma
que sim e argumenta nesse sentido: partindo dos primeiros diálogos de Platão, Sócrates aparece
como um sofista habilidoso capaz de meter em causa os mais astutos pelo uso de uma dialética
superior que não está isenta de processos discutíveis como uma ambiguidade sobre as diversas
aceções de um termo. Sócrates serve-se destas armas para levar o interlocutor a entrar em
contradição consigo mesmo e demonstrar-lhe que já não tem a certeza de nada; trata-se de uma
posição pouco confortável que é, talvez, o necessário ponto de partida de toda a verdadeira
filosofia, mas que, imposta a um espírito frágil, pode incitá-lo ao ceticismo ou ao desalento, ou
até à rejeição de qualquer escrúpulo. Sócrates nunca conclui, leva a duvidar mas não propõe
qualquer certeza.
A participação de Sócrates sem reservas no serviço militar e nos cargos cívicos, o seu
desinteresse, a sua pobreza, o seu respeito religioso pela lei, o seu apego ao pensamento reto e à
verdade, ainda que a custo da própria vida, oferecem admiráveis exemplos nos quais as gerações
não deixaram de meditar. Contudo, quem, à exceção dos seus mais próximos, via isso? Sócrates
era facilmente confundido com os filósofos da Natureza, falava frequentemente d e uma voz
interior, de um espírito familiar que o aconselhava nas circunstâncias difíceis e cuja intervenção
ele considerava ser a manifestação de um deus. Mas a própria ideia desta comunicação íntima e
secreta com a divindade desconcertava o homem comum e suspeitava-se assim de alguma
ameaça para a religião tradicional, como se os seus antigos protetores da cidade tivessem um dia
de ceder o seu lugar a esse deus desconhecido. Como é que as estruturas do Estado, todas elas
assentes na exata e benéfica participação nos cultos, poderiam subsistir se os futuros cidadãos,
abalados nas suas convicções pelo ensino de Sócrates, começassem a duvidar de tudo, sem
dispor de outro recurso que não esta voz secreta que apenas um velho dizia ouvir no seu
coração?
Estes argumentos podem, ou não, ter sido apresentados por Meleto, Ânito e Lícon aos
juízes da Helieia. Contudo, é provável que os tenham considerado, ao longos das intervenções de
defesa e de acusação, antes de colocarem na urna de bronze os seus votos. 280 juízes pensavam
erradamente servir a cidade. Esse serviço vinha demasiado tarde pois o espírito do pensamento
livre, pelo qual Sócrates tanto fizeram, já tinha ganho demasiados adeptos para que a velha
religião sobrevivesse com a ordem social que a garantia e refletiam. Quanto aos outros 220
juízes, que preferiram votar pela absolvição ao invés de castigar um justo, em muito honraram a
democracia ateniense (Chamoux, François – La Civilisation Grecque, trad. Pedro Elói Duarte,
Edições 70, 2003, Lisboa, pp.201-2023)